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	Comentários sobre: McDonald&#8217;s: lições de uma luta (Parte II)	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Débora		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/11/67243/#comment-86358</link>

		<dc:creator><![CDATA[Débora]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Nov 2012 03:07:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Por mera coincidência, ou talvez sinalização dos deuses, mal tinha feito esse comentário e, 3 horas depois, encontrei na rua, muito por acaso, um dos meus colegas lutadores dos tempos de colégio. Anarquista na época, frequentava o CCS e falava com muita força de Malatesta. Participou de muita coisa. Hoje e há tempos, vive como agente penitenciário. Já não tem mais a mesma áurea, o olhar todo é desconfiado, olhava incessantemente para todos os lados, enquanto conversávamos na rua (isso porque somos amigos). Olhar pesado, cheio de olheiras, parte já escurecida sob os olhos, talvez rocheados. Me falou do casamento recente e da dureza da vida. Sei que na casa dele ainda há os exemplares do Malatesta, mas nada disso faz o menor sentido hoje, diante da vida que se viu obrigado a assumir.

Outro, o mais inteligente e mais qualificado de todos, tornou-se um agente penitenciário de mérito, daqueles que são louvados e admirados pelos colegas. Chegou a ter que carregar num carrinho o corpo de um colega de trabalho morto, assassinado pelos presos (poucos possuem tal firmeza). Fico imaginando o quanto brilharia se tivesse tomado outro rumo. Entretanto, passou pela situação de ter o irmão menor que enlouqueceu por conta das drogas e o pai que faleceu de saúde e desgosto, tudo em pouco tempo. Havendo de assumir a vida, seguiu a carreira do pai, também agente penitenciário. Era tão bom que em 1998 ganhou cinco mil reais em um concurso sobre reestruturação urbana. Foi o maior cérebro daquela turma, um mestre para nós. Hoje assume plantões infinitos na penitenciária, jamais ouvirão falar dele.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por mera coincidência, ou talvez sinalização dos deuses, mal tinha feito esse comentário e, 3 horas depois, encontrei na rua, muito por acaso, um dos meus colegas lutadores dos tempos de colégio. Anarquista na época, frequentava o CCS e falava com muita força de Malatesta. Participou de muita coisa. Hoje e há tempos, vive como agente penitenciário. Já não tem mais a mesma áurea, o olhar todo é desconfiado, olhava incessantemente para todos os lados, enquanto conversávamos na rua (isso porque somos amigos). Olhar pesado, cheio de olheiras, parte já escurecida sob os olhos, talvez rocheados. Me falou do casamento recente e da dureza da vida. Sei que na casa dele ainda há os exemplares do Malatesta, mas nada disso faz o menor sentido hoje, diante da vida que se viu obrigado a assumir.</p>
<p>Outro, o mais inteligente e mais qualificado de todos, tornou-se um agente penitenciário de mérito, daqueles que são louvados e admirados pelos colegas. Chegou a ter que carregar num carrinho o corpo de um colega de trabalho morto, assassinado pelos presos (poucos possuem tal firmeza). Fico imaginando o quanto brilharia se tivesse tomado outro rumo. Entretanto, passou pela situação de ter o irmão menor que enlouqueceu por conta das drogas e o pai que faleceu de saúde e desgosto, tudo em pouco tempo. Havendo de assumir a vida, seguiu a carreira do pai, também agente penitenciário. Era tão bom que em 1998 ganhou cinco mil reais em um concurso sobre reestruturação urbana. Foi o maior cérebro daquela turma, um mestre para nós. Hoje assume plantões infinitos na penitenciária, jamais ouvirão falar dele.</p>
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		<title>
		Por: Débora		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/11/67243/#comment-86304</link>

		<dc:creator><![CDATA[Débora]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 Nov 2012 15:50:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Entrevista muito boa. Tem uma parte que acho muito importante e deve ser levantada sobre vários outros contextos de luta. Trata-se da parte em que o entrevistado se refere ao fato de que a maioria das pessoas que fizeram parte deste movimento abandonaram qualquer militância e seguiram suas vidas. É o que ocorre com a maioria, com basicamente todas as lutas. Espero que algum dia surjam textos e reflexões sobre esse fato, que é desprezado. 

A maioria das pessoas que conheci em lutas passadas seguiram suas vidas privadas. São entregadores de jornal, agentes penitenciários, maquinistas de trem, seguranças de manicômio, faxineiras, coletores de lixo, atendentes de loja, professores, policial militar,agente da Febem, enfim, um monte de gente que hoje passa como pertencentes ao conjunto de pessoas não politizadas e até de direita. Parece que com o tempo e as dificuldades, os sonhos de mudança vão secando, a vida vai cobrando delas responsabilidades e mais responsabilidades (pai que morre, namorada grávida, irmão viciado e sem rumo, mãe com câncer...) e acabam deixando aquilo tudo de lado, ficam na lei da sobrevivência. Entre velhos lutadores chega-se a um ponto em que nem se fala mais daqueles anos, daqueles meses, daquelas discussões. Ficam como segredos do passado, sonhos de juventude, que não devem vir à tona para não surgir novamente o questionamento: por que não nos juntamos e fazemos algo?

Definitivamente, as leis de produção de ativistas se assemelham em muito às leis de mercado como um todo. Vão mais longe os que possuem mais capital - erótico, cultural, social, econômico -, possuem menos estigmas (Goffman) e mais rede de proteção. Olho em volta e em menos de dez anos não vejo mais nenhuma daquelas pessoas, nenhum daqueles rostos. Os que estão ai desde então são professores universitários - que agora possuem uma plateia ampliada por conta do Facebook -, moças bancadas pelos sindicatos, gente que trabalha para organizações várias, caras bancados pelos partidos, gente sustentada pela igreja ou movimentos. Há, claro, uma parcela sustentada pela família e que consegue se manter independente e uns tantos que possuem algum trabalho, geralmente autônomo ou de tempo parcial, que permite prosseguir na militância. Os precários, no geral, um dia largam tudo e precisam &quot;tomar conta da vida&quot;. Nem suas memórias são feitas (condição para que haja reserva de mercado para os &quot;intelectuais orgânicos&quot;). Quem hoje vai saber daquelas semanas em que faxineiras acamparam no Rio de Janeiro em luta contra a empresa?

Dando uma passo além, há mesmo uma tendência interna ao aniquilamento e parcela grandiosa dos estabelecidos não divulga e até mesmo sabota a emergência de novos atores. Que toda uma geração de lutadores da educação tenha sido aniquilada enquanto  o sindicato dos professores está há 30 anos com o mesmo grupo é exemplo disso. Subterraneamente, a luta por poder ou prestígio dá conta de ir tombando novas safras, o resto é cooptado. Há, ainda, aqueles que largam tudo após sequências de ameaças ou mesmo sequências de violências sofridas. Entre a tortura ou a morte e a vida pacata optam pela vida. Quem luta nas quebradas sabe bem disso. 

No Brasil, é um processo virulento como esse, um aniquilamento atroz como esse que está por trás da simples referência ao fato de que &quot;abandonaram as lutas, seguiram suas vidas&quot;. Nos ônibus, nos trens e por toda parte há muito mais gente lutadora que foi silenciada do que se imagina comumente.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Entrevista muito boa. Tem uma parte que acho muito importante e deve ser levantada sobre vários outros contextos de luta. Trata-se da parte em que o entrevistado se refere ao fato de que a maioria das pessoas que fizeram parte deste movimento abandonaram qualquer militância e seguiram suas vidas. É o que ocorre com a maioria, com basicamente todas as lutas. Espero que algum dia surjam textos e reflexões sobre esse fato, que é desprezado. </p>
<p>A maioria das pessoas que conheci em lutas passadas seguiram suas vidas privadas. São entregadores de jornal, agentes penitenciários, maquinistas de trem, seguranças de manicômio, faxineiras, coletores de lixo, atendentes de loja, professores, policial militar,agente da Febem, enfim, um monte de gente que hoje passa como pertencentes ao conjunto de pessoas não politizadas e até de direita. Parece que com o tempo e as dificuldades, os sonhos de mudança vão secando, a vida vai cobrando delas responsabilidades e mais responsabilidades (pai que morre, namorada grávida, irmão viciado e sem rumo, mãe com câncer&#8230;) e acabam deixando aquilo tudo de lado, ficam na lei da sobrevivência. Entre velhos lutadores chega-se a um ponto em que nem se fala mais daqueles anos, daqueles meses, daquelas discussões. Ficam como segredos do passado, sonhos de juventude, que não devem vir à tona para não surgir novamente o questionamento: por que não nos juntamos e fazemos algo?</p>
<p>Definitivamente, as leis de produção de ativistas se assemelham em muito às leis de mercado como um todo. Vão mais longe os que possuem mais capital &#8211; erótico, cultural, social, econômico -, possuem menos estigmas (Goffman) e mais rede de proteção. Olho em volta e em menos de dez anos não vejo mais nenhuma daquelas pessoas, nenhum daqueles rostos. Os que estão ai desde então são professores universitários &#8211; que agora possuem uma plateia ampliada por conta do Facebook -, moças bancadas pelos sindicatos, gente que trabalha para organizações várias, caras bancados pelos partidos, gente sustentada pela igreja ou movimentos. Há, claro, uma parcela sustentada pela família e que consegue se manter independente e uns tantos que possuem algum trabalho, geralmente autônomo ou de tempo parcial, que permite prosseguir na militância. Os precários, no geral, um dia largam tudo e precisam &#8220;tomar conta da vida&#8221;. Nem suas memórias são feitas (condição para que haja reserva de mercado para os &#8220;intelectuais orgânicos&#8221;). Quem hoje vai saber daquelas semanas em que faxineiras acamparam no Rio de Janeiro em luta contra a empresa?</p>
<p>Dando uma passo além, há mesmo uma tendência interna ao aniquilamento e parcela grandiosa dos estabelecidos não divulga e até mesmo sabota a emergência de novos atores. Que toda uma geração de lutadores da educação tenha sido aniquilada enquanto  o sindicato dos professores está há 30 anos com o mesmo grupo é exemplo disso. Subterraneamente, a luta por poder ou prestígio dá conta de ir tombando novas safras, o resto é cooptado. Há, ainda, aqueles que largam tudo após sequências de ameaças ou mesmo sequências de violências sofridas. Entre a tortura ou a morte e a vida pacata optam pela vida. Quem luta nas quebradas sabe bem disso. </p>
<p>No Brasil, é um processo virulento como esse, um aniquilamento atroz como esse que está por trás da simples referência ao fato de que &#8220;abandonaram as lutas, seguiram suas vidas&#8221;. Nos ônibus, nos trens e por toda parte há muito mais gente lutadora que foi silenciada do que se imagina comumente.</p>
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