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	Comentários sobre: México: o valor da palavra própria	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Caio		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/04/75329/#comment-116418</link>

		<dc:creator><![CDATA[Caio]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Apr 2013 15:28:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Não pedi um conselho, mas um esclarecimento sobre a visão do João Bernardo - e, dependendo da resposta, teria agora certeza que não compartilho dela em absoluto, mas não foi o caso.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não pedi um conselho, mas um esclarecimento sobre a visão do João Bernardo &#8211; e, dependendo da resposta, teria agora certeza que não compartilho dela em absoluto, mas não foi o caso.</p>
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		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/04/75329/#comment-116415</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Apr 2013 14:56:33 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A propósito do comentário anterior, que constitui uma forma corriqueira e não muito subtil de difamação, penso o seguinte:
Alguém que conta várias prisões, uma condenação criminal, períodos de clandestinidade e que viveu durante sete anos com documentação falsa, tudo isto por motivos políticos, pode e deve ser considerado um militante.
Não entendo o comentário de Caio como um pedido de conselhos mas como um pedido de esclarecimentos. Afinal, é para isso mesmo, para observações e esclarecimentos, que o espaço de comentários deveria ser reservado, embora infelizmente seja mais usado como espaço de insinuações e de calúnias.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A propósito do comentário anterior, que constitui uma forma corriqueira e não muito subtil de difamação, penso o seguinte:<br />
Alguém que conta várias prisões, uma condenação criminal, períodos de clandestinidade e que viveu durante sete anos com documentação falsa, tudo isto por motivos políticos, pode e deve ser considerado um militante.<br />
Não entendo o comentário de Caio como um pedido de conselhos mas como um pedido de esclarecimentos. Afinal, é para isso mesmo, para observações e esclarecimentos, que o espaço de comentários deveria ser reservado, embora infelizmente seja mais usado como espaço de insinuações e de calúnias.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: De militantes e intelectuais orgânicos		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/04/75329/#comment-116413</link>

		<dc:creator><![CDATA[De militantes e intelectuais orgânicos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Apr 2013 14:19:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Observei os comentários. O que venho pensando é que o 
João Bernardo é visto aqui nesse site como &quot;militante&quot; (nao sei se por ele mesmo também ou só por outros), mas na verdade é um ótimo intelectual orgânico. E quando comento isso não estou dimininuindo em nada o trabalho dele, simplesmente colocando as palavras nos seus lugares, serve para saber em que momento da luta pedimos conselhos ou não para ele. Por que será que esse &quot;erro&quot; se comete? Deixo pra vocês pensarem as razões, eu tenho pensando em algumas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Observei os comentários. O que venho pensando é que o<br />
João Bernardo é visto aqui nesse site como &#8220;militante&#8221; (nao sei se por ele mesmo também ou só por outros), mas na verdade é um ótimo intelectual orgânico. E quando comento isso não estou dimininuindo em nada o trabalho dele, simplesmente colocando as palavras nos seus lugares, serve para saber em que momento da luta pedimos conselhos ou não para ele. Por que será que esse &#8220;erro&#8221; se comete? Deixo pra vocês pensarem as razões, eu tenho pensando em algumas.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/04/75329/#comment-116394</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Apr 2013 10:23:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caio,
As lutas sociais são sempre contraditórias, por isso eu costumo dizer que há uma única luta vitoriosa, que é a última. Até lá — e ainda falta muito — as lutas ou serão esmagadas ou serão recuperadas pelo capitalismo, e esta é a forma mais perversa da derrota.
As lutas têm como ponto de partida questões concretas, e portanto particularizadas. Ora, a situação do particular no global é sempre contraditória. Os trabalhadores de uma empresa exigem melhores condições de trabalho, o que constitui uma pressão no sentido do desenvolvimento da mais-valia relativa, ou seja, do desenvolvimento do capitalismo; mas se no processo de luta ocorrer a ruptura com a disciplina de empresa e o estabelecimento de relações solidárias e de igualdade entre os trabalhadores, então fica demonstrada na prática a possibilidade de existência de relações sociais não capitalistas. Esta dualidade verifica-se em muitos outros casos. Por isso creio que devemos distinguir entre os objectivos de uma luta e a forma de organização dessa luta. Os objectivos podem ser muito limitados e, não obstante, a forma de organização ser muito radical. É um processo complexo, que tratei noutros lugares, e não tenho aqui possibilidade de desenvolver o assunto.
Mas devemos distinguir as situações em que as relações de luta acentuam as divisões de classe e aquelas em que, pelo contrário, contribuem para fundir classes opostas. Um luta dos moradores de uma favela contra um projecto de urbanização que pretende construir ali habitações de luxo é uma luta dos trabalhadores contra as classes dominantes. Pelo contrário, a luta de um dado povo, considerado etnicamente, em vez de acentuar as clivagens sociais contribui para fundir as classes existentes no interior desse povo. Veja este vídeo que o &lt;em&gt;Passa Palavra&lt;/em&gt; publicou e que é um exemplo do que quero dizer:
http://passapalavra.info/2013/02/72413 
Neste vídeo, que considero lamentável, o cacique é apresentado como representante legítimo daquele povo. Por que não apresentar então a cacique de Brasília como representante legítima da nação brasileira? Ou o cacique de uma empresa como representante do colectivo dos trabalhadores dessa empresa? Nos casos em que se trata de nacionalismos, mesmo podendo ser micronacionalismos, não se trata já de lutas pela ruptura social mas de lutas para confundir num mesmo conjunto classes distintas. O Manolo e eu analisámos um exemplo num dos artigos da série &lt;em&gt;De volta à África&lt;/em&gt;:
http://passapalavra.info/2010/07/26128 
O caso de Marcus Garvey, que teve uma enorme importância histórica e cujas repercussões são ainda hoje muito profundas, deveria ser considerado cuidadosamente por todos aqueles que evocam a «memória» e a «identidade», termos que se tornaram &lt;em&gt;politicamente correctos&lt;/em&gt; nesta época de multiculturalismo. Toda a história se faz pela destruição de memórias e de identidades e pela construção de outras identidades, com outras memórias. Já pensou que aquela comunidade cuja identidade e memória alguns desejam defender se estabeleceu, numa época anterior, destruindo ou cindindo e assimilando outras comunidades? Por isso o que me interessa numa luta é a sua capacidade de ruptura e de criação de relações sociais de tipo novo, e não a sua capacidade de conservar o passado.
Termino com o que já escrevi noutros comentários. Aconselho-o a ler Julius Evola e a imaginar como ele seria considerado hoje se tivesse outra cor de pele.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caio,<br />
As lutas sociais são sempre contraditórias, por isso eu costumo dizer que há uma única luta vitoriosa, que é a última. Até lá — e ainda falta muito — as lutas ou serão esmagadas ou serão recuperadas pelo capitalismo, e esta é a forma mais perversa da derrota.<br />
As lutas têm como ponto de partida questões concretas, e portanto particularizadas. Ora, a situação do particular no global é sempre contraditória. Os trabalhadores de uma empresa exigem melhores condições de trabalho, o que constitui uma pressão no sentido do desenvolvimento da mais-valia relativa, ou seja, do desenvolvimento do capitalismo; mas se no processo de luta ocorrer a ruptura com a disciplina de empresa e o estabelecimento de relações solidárias e de igualdade entre os trabalhadores, então fica demonstrada na prática a possibilidade de existência de relações sociais não capitalistas. Esta dualidade verifica-se em muitos outros casos. Por isso creio que devemos distinguir entre os objectivos de uma luta e a forma de organização dessa luta. Os objectivos podem ser muito limitados e, não obstante, a forma de organização ser muito radical. É um processo complexo, que tratei noutros lugares, e não tenho aqui possibilidade de desenvolver o assunto.<br />
Mas devemos distinguir as situações em que as relações de luta acentuam as divisões de classe e aquelas em que, pelo contrário, contribuem para fundir classes opostas. Um luta dos moradores de uma favela contra um projecto de urbanização que pretende construir ali habitações de luxo é uma luta dos trabalhadores contra as classes dominantes. Pelo contrário, a luta de um dado povo, considerado etnicamente, em vez de acentuar as clivagens sociais contribui para fundir as classes existentes no interior desse povo. Veja este vídeo que o <em>Passa Palavra</em> publicou e que é um exemplo do que quero dizer:<br />
<a href="http://passapalavra.info/2013/02/72413" rel="ugc">http://passapalavra.info/2013/02/72413</a><br />
Neste vídeo, que considero lamentável, o cacique é apresentado como representante legítimo daquele povo. Por que não apresentar então a cacique de Brasília como representante legítima da nação brasileira? Ou o cacique de uma empresa como representante do colectivo dos trabalhadores dessa empresa? Nos casos em que se trata de nacionalismos, mesmo podendo ser micronacionalismos, não se trata já de lutas pela ruptura social mas de lutas para confundir num mesmo conjunto classes distintas. O Manolo e eu analisámos um exemplo num dos artigos da série <em>De volta à África</em>:<br />
<a href="http://passapalavra.info/2010/07/26128" rel="ugc">http://passapalavra.info/2010/07/26128</a><br />
O caso de Marcus Garvey, que teve uma enorme importância histórica e cujas repercussões são ainda hoje muito profundas, deveria ser considerado cuidadosamente por todos aqueles que evocam a «memória» e a «identidade», termos que se tornaram <em>politicamente correctos</em> nesta época de multiculturalismo. Toda a história se faz pela destruição de memórias e de identidades e pela construção de outras identidades, com outras memórias. Já pensou que aquela comunidade cuja identidade e memória alguns desejam defender se estabeleceu, numa época anterior, destruindo ou cindindo e assimilando outras comunidades? Por isso o que me interessa numa luta é a sua capacidade de ruptura e de criação de relações sociais de tipo novo, e não a sua capacidade de conservar o passado.<br />
Termino com o que já escrevi noutros comentários. Aconselho-o a ler Julius Evola e a imaginar como ele seria considerado hoje se tivesse outra cor de pele.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Caio		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/04/75329/#comment-116362</link>

		<dc:creator><![CDATA[Caio]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Apr 2013 03:21:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[João,
Estive pensando sobre algumas das suas críticas não só à este texto, mas também em relação ao MST e à agroecologia, e me apareceu uma dúvida: devemos considerar, então, as lutas sociais de base territorial ou comunitária necessariamente reacionárias? Para sair do caso dos indígenas ou camponeses, me pergunto: a luta de um bairro pobre ou de uma ocupação contra sua remoção é reacionária?
Afinal, são em geral embates travados para barrar a forma tirânica com a qual o capitalismo se desenvolve, removendo populações de seus territórios, destruindo sua memória e identidade, etc. Ao mesmo tempo, argumenta você, que esse desenvolvimento do capitalismo leva à superação dos particularismos e à universalização da classe trabalhadora - portanto, do ponto de vista da formação do socialismo, é também um desenvolvimento positivo.
Se assumirmos isso, invalidamos a luta da maior parte dos movimentos sociais do Brasil hoje. Mas a luta territorial ou comunitária, não foi justamente uma das únicas formas encontrada pela classe trabalhadora nas últimas décadas para continuar organizada, contornando o problema da fragmentação da produção?
(E, se isso foi resultado de uma transformação do próprio capitalismo, não seria o próprio desenvolvimento deste que levaria os trabalhadores de volta à luta territorial?)
Como você vê isso? A luta de indígenas para manter seu território é reacionária, enquanto a luta de trabalhadores urbanos não é?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João,<br />
Estive pensando sobre algumas das suas críticas não só à este texto, mas também em relação ao MST e à agroecologia, e me apareceu uma dúvida: devemos considerar, então, as lutas sociais de base territorial ou comunitária necessariamente reacionárias? Para sair do caso dos indígenas ou camponeses, me pergunto: a luta de um bairro pobre ou de uma ocupação contra sua remoção é reacionária?<br />
Afinal, são em geral embates travados para barrar a forma tirânica com a qual o capitalismo se desenvolve, removendo populações de seus territórios, destruindo sua memória e identidade, etc. Ao mesmo tempo, argumenta você, que esse desenvolvimento do capitalismo leva à superação dos particularismos e à universalização da classe trabalhadora &#8211; portanto, do ponto de vista da formação do socialismo, é também um desenvolvimento positivo.<br />
Se assumirmos isso, invalidamos a luta da maior parte dos movimentos sociais do Brasil hoje. Mas a luta territorial ou comunitária, não foi justamente uma das únicas formas encontrada pela classe trabalhadora nas últimas décadas para continuar organizada, contornando o problema da fragmentação da produção?<br />
(E, se isso foi resultado de uma transformação do próprio capitalismo, não seria o próprio desenvolvimento deste que levaria os trabalhadores de volta à luta territorial?)<br />
Como você vê isso? A luta de indígenas para manter seu território é reacionária, enquanto a luta de trabalhadores urbanos não é?</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/04/75329/#comment-114639</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Apr 2013 09:51:42 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=75329#comment-114639</guid>

					<description><![CDATA[Emerson,
Não creio que o erro existente na minha citação iliba o entrevistado da acusação de racismo. Vejamos a passagem completa: «[...] uma comunidade chamada San Pedro Cuitlapa, que está perto do rio, numa parte acima do território amuzgo, e que foi um centro de controle no caminho para a montanha, negociou dar a água à cidade de Ometepec. Esta é a vila mais importante da região, lá estão os centros regionais de poder econômico e político, e é onde está mais forte a representação do Estado. Antes da chegada dos espanhóis, essa localidade era parte do território amuzgo, mas com a chegada dos colonizadores houve dispersão, guerras e enfermidades, e hoje há lá poucos amuzgos, embora haja. O atual governador nasceu em Ometepec e, em sua campanha eleitoral, prometeu dar água à cidade, margeada por um rio contaminado, que já não lhes serve – por isso agora estão de olho no rio daqui. O governador, então, elaborou um projeto e o negociou com a comunidade de San Pedro, que pediu escola, hospital, dois carros e não sei o quê mais. Todavia, negociaram com o governo a água, a água que não é deles [...]». A «localidade» que «antes da chegada dos espanhóis» «era parte do território amuzgo» é Ometepec; «hoje há lá poucos amuzgos, embora haja». Ora, San Pedro Cuitlapa, situado «numa parte acima do território amuzgo», «negociou dar a água à cidade de Ometepec». Portanto, os de San Pedro Cuitlapa não tinham nada que negociar porque não pertencem ao «território amuzgo». E em Ometepec, por seu turno, já só restam «poucos amuzgos». Leio e releio esta passagem e sempre entendo que a questão da água está imbricada com a questão dos amuzgos considerados racialmente.
De resto, concordo com as suas outras observações. Em primeiro lugar, parece-me exacto que aquela maneira de encarar a questão da água decorre também da sacralização da natureza. Você conhece a Lei da Mãe Terra, que o governo boliviano promulgou recentemente? E tudo isto é feito com o aplauso do que hoje se chama esquerda.
Em segundo lugar, em muitas sociedades o ensino básico e a enfermagem são considerados extensões do papel tradicional da mulher, que nem trabalhando fora de casa se liberta do enquadramento cultural de que é vítima.
Em terceiro lugar, a assimilação da economia doméstica pelo mercado implica sempre uma extensão da mais-valia absoluta. O mesmo se passa com a agricultura familiar.
Tudo isto são questões que a entrevista, em vez de expor criticamente, só contribuiu para obscurecer.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Emerson,<br />
Não creio que o erro existente na minha citação iliba o entrevistado da acusação de racismo. Vejamos a passagem completa: «[&#8230;] uma comunidade chamada San Pedro Cuitlapa, que está perto do rio, numa parte acima do território amuzgo, e que foi um centro de controle no caminho para a montanha, negociou dar a água à cidade de Ometepec. Esta é a vila mais importante da região, lá estão os centros regionais de poder econômico e político, e é onde está mais forte a representação do Estado. Antes da chegada dos espanhóis, essa localidade era parte do território amuzgo, mas com a chegada dos colonizadores houve dispersão, guerras e enfermidades, e hoje há lá poucos amuzgos, embora haja. O atual governador nasceu em Ometepec e, em sua campanha eleitoral, prometeu dar água à cidade, margeada por um rio contaminado, que já não lhes serve – por isso agora estão de olho no rio daqui. O governador, então, elaborou um projeto e o negociou com a comunidade de San Pedro, que pediu escola, hospital, dois carros e não sei o quê mais. Todavia, negociaram com o governo a água, a água que não é deles [&#8230;]». A «localidade» que «antes da chegada dos espanhóis» «era parte do território amuzgo» é Ometepec; «hoje há lá poucos amuzgos, embora haja». Ora, San Pedro Cuitlapa, situado «numa parte acima do território amuzgo», «negociou dar a água à cidade de Ometepec». Portanto, os de San Pedro Cuitlapa não tinham nada que negociar porque não pertencem ao «território amuzgo». E em Ometepec, por seu turno, já só restam «poucos amuzgos». Leio e releio esta passagem e sempre entendo que a questão da água está imbricada com a questão dos amuzgos considerados racialmente.<br />
De resto, concordo com as suas outras observações. Em primeiro lugar, parece-me exacto que aquela maneira de encarar a questão da água decorre também da sacralização da natureza. Você conhece a Lei da Mãe Terra, que o governo boliviano promulgou recentemente? E tudo isto é feito com o aplauso do que hoje se chama esquerda.<br />
Em segundo lugar, em muitas sociedades o ensino básico e a enfermagem são considerados extensões do papel tradicional da mulher, que nem trabalhando fora de casa se liberta do enquadramento cultural de que é vítima.<br />
Em terceiro lugar, a assimilação da economia doméstica pelo mercado implica sempre uma extensão da mais-valia absoluta. O mesmo se passa com a agricultura familiar.<br />
Tudo isto são questões que a entrevista, em vez de expor criticamente, só contribuiu para obscurecer.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Emerson Martins		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/04/75329/#comment-114569</link>

		<dc:creator><![CDATA[Emerson Martins]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Apr 2013 00:09:22 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=75329#comment-114569</guid>

					<description><![CDATA[João, houve um equivoco na sua acusação de racismo, pois a citação não está como você a coloca. Você juntou a parte que diz que San Pedro Cuitlapa negociou o rio &quot;que não é deles&quot;, com a afirmação que a cidade de Ometepec (e não San Pedro como você afirma) &quot;era parte do território amuzgo&quot;. Por tê-las confundido você disse que era racismo, mas o texto não diz isso.
Mas agora resta a questão, se esse &quot;não é deles&quot; não quer dizer que &quot;é nosso&quot;, ele deve querer dizer que não é deles porque o rio é parte da natureza. Ora, se for isso, não sei o que é pior - o racismo ou a defesa inconsequente da &quot;não interferência&quot; do homem na natureza, pois se for isso mesmo a humanidade estaria condenada à penúria total.
Quanto à questão das mulheres, queria comentar um ponto que não foi tocado ainda.
Diz-se que as mulheres tem o &quot;papel&quot; de cuidar da casa e dos filhos e tear roupas. Ora, quando se diz que uma escola retomou o ensino de tear, o que isso quer dizer, se não que a condição opressiva da mulher passa a se perpetuar pela educação oficial, com os aplausos das &quot;autoridades tradicionais&quot;? E se, como admite o entrevistado, as mulheres já produzem para o mercado, as condições técnicas que eles possuem não extenderiam ao máximo a jornada de trabalho?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João, houve um equivoco na sua acusação de racismo, pois a citação não está como você a coloca. Você juntou a parte que diz que San Pedro Cuitlapa negociou o rio &#8220;que não é deles&#8221;, com a afirmação que a cidade de Ometepec (e não San Pedro como você afirma) &#8220;era parte do território amuzgo&#8221;. Por tê-las confundido você disse que era racismo, mas o texto não diz isso.<br />
Mas agora resta a questão, se esse &#8220;não é deles&#8221; não quer dizer que &#8220;é nosso&#8221;, ele deve querer dizer que não é deles porque o rio é parte da natureza. Ora, se for isso, não sei o que é pior &#8211; o racismo ou a defesa inconsequente da &#8220;não interferência&#8221; do homem na natureza, pois se for isso mesmo a humanidade estaria condenada à penúria total.<br />
Quanto à questão das mulheres, queria comentar um ponto que não foi tocado ainda.<br />
Diz-se que as mulheres tem o &#8220;papel&#8221; de cuidar da casa e dos filhos e tear roupas. Ora, quando se diz que uma escola retomou o ensino de tear, o que isso quer dizer, se não que a condição opressiva da mulher passa a se perpetuar pela educação oficial, com os aplausos das &#8220;autoridades tradicionais&#8221;? E se, como admite o entrevistado, as mulheres já produzem para o mercado, as condições técnicas que eles possuem não extenderiam ao máximo a jornada de trabalho?</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Fagner Enrique		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/04/75329/#comment-113610</link>

		<dc:creator><![CDATA[Fagner Enrique]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 06 Apr 2013 16:57:13 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=75329#comment-113610</guid>

					<description><![CDATA[Como parte de um projeto, que venho alimentando, de criticar em diversas frentes o multiculturalismo, tenho realizado uma série de leituras. Reproduzo, abaixo, para os leitores do Passa Palavra, um trecho de um ensaio que estou lendo com bastante interesse e que corrobora amplamente a crítica feita por João Bernardo no comentário acima.

«Hoje em dia, o amor pela diversidade, o cuidado em preservar, por elas mesmas, a variedade das espécies naturais assim como as culturas tradicionais não são mais o apanágio de uma extrema direita romântica. A rejeição da uniformidade própria dos Tempos Modernos, o desprezo pelo consumo de massa, a crítica do universalismo cosmopolita se tornaram até mesmo “de esquerda”. Antigamente, a reivindicação do direito à diferença se situava claramente na órbita da Contrarrevolução: diante da abstração formal da “grande Declaração”, os primeiros “nacionalistas” reclamavam o retorno à tradição do direito dos ingleses, dos franceses, dos italianos... em suma, de cada comunidade concreta e específica. [...] No melhor dos casos, por vezes, mas com freqüência no pior dos casos, entramos na era da suspeita generalizada em relação às “Luzes”. Ao mesmo tempo, a ideologia do direito à diferença deixou de ser ou de parecer “reacionária”, passando a se identificar com a aspiração absolutamente natural dos colonizados a uma singularidade desprezada pelo imperialismo eurocentrista. [...] Donde o gigantesco paradoxo de que estamos longe de nos livrar: o fechamento em si mesmo, o comunitarismo e o nacionalismo mais exacerbados adquiriram a forma da revolução! E o processo, praticado no Terceiro Mundo, se prolonga hoje na luta de certas repúblicas do Leste contra os restos do antigo império soviético. Em toda parte, é o mesmo grito que ressoa: sejam bons muçulmanos, bons tchecos ou bons eslovacos, mas também bons franceses e, como em 1914, bons alemães... E ninguém pode dizer, com certeza, se a exortação é “de direita” ou “de esquerda”. Só a história e a sociologia permitem escolher entre teses que tendem, aqui e ali, entre os antigos oprimidos como entre os novos fascistas, a se confundirem. O mal radical seria a mestiçagem e o universalismo grosseiro que dominam o universo da técnica, da cultura e do consumo de massa. Uma única palavra de ordem, da extrema direita como da extrema esquerda: é preciso aprender a “ressingularizar” os modos de vida, a rediferenciá-los, contra a “unidimensionalidade” do mundo moderno. Apesar de toda essa confusão, e mesmo sendo conveniente ficar atento aos caminhos percorridos pelas ideias do passado de um extremo ao outro, é preciso admitir que no final do percurso os discursos diferencialistas se assemelham. O amor pelo meio ambiente é hoje a clara prova desse fato: pois o elogio da diferença, onipresente nas legislações nazistas, é encontrado quase que palavra por palavra nas versões mais “avançadas” da ecologia profunda». (Luc Ferry. A Nova Ordem Ecológica: a árvore, o animal e o homem. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009. p. 191-193).

Precisamos, com urgência, criticar e combater as visões obscurantistas e nacionalistas que estão, historicamente, a invadir silenciosamente o território da esquerda, fazendo-a convergir com a reação, e com maior intensidade agora, em &quot;tempos pós-modernos&quot;. Ou adotamos, de uma vez por todas, a perspectiva de emancipação do gênero humano em geral, mediante a revolução proletária internacional, repudiando abertamente as intrusões nacionalistas-obscurantistas em nossas fileiras, ou trabalhamos contra essa perspectiva, mesmo que inconscientemente. Nos departamentos universitários, só há elogios para a valorização da diversidade; nos programas dos partidos de esquerda, dá-se o mesmo. E contribuímos, assim, para que a classe trabalhadora afaste-se da perspectiva de emancipação que já lhe foi cara em determinados contextos históricos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como parte de um projeto, que venho alimentando, de criticar em diversas frentes o multiculturalismo, tenho realizado uma série de leituras. Reproduzo, abaixo, para os leitores do Passa Palavra, um trecho de um ensaio que estou lendo com bastante interesse e que corrobora amplamente a crítica feita por João Bernardo no comentário acima.</p>
<p>«Hoje em dia, o amor pela diversidade, o cuidado em preservar, por elas mesmas, a variedade das espécies naturais assim como as culturas tradicionais não são mais o apanágio de uma extrema direita romântica. A rejeição da uniformidade própria dos Tempos Modernos, o desprezo pelo consumo de massa, a crítica do universalismo cosmopolita se tornaram até mesmo “de esquerda”. Antigamente, a reivindicação do direito à diferença se situava claramente na órbita da Contrarrevolução: diante da abstração formal da “grande Declaração”, os primeiros “nacionalistas” reclamavam o retorno à tradição do direito dos ingleses, dos franceses, dos italianos&#8230; em suma, de cada comunidade concreta e específica. [&#8230;] No melhor dos casos, por vezes, mas com freqüência no pior dos casos, entramos na era da suspeita generalizada em relação às “Luzes”. Ao mesmo tempo, a ideologia do direito à diferença deixou de ser ou de parecer “reacionária”, passando a se identificar com a aspiração absolutamente natural dos colonizados a uma singularidade desprezada pelo imperialismo eurocentrista. [&#8230;] Donde o gigantesco paradoxo de que estamos longe de nos livrar: o fechamento em si mesmo, o comunitarismo e o nacionalismo mais exacerbados adquiriram a forma da revolução! E o processo, praticado no Terceiro Mundo, se prolonga hoje na luta de certas repúblicas do Leste contra os restos do antigo império soviético. Em toda parte, é o mesmo grito que ressoa: sejam bons muçulmanos, bons tchecos ou bons eslovacos, mas também bons franceses e, como em 1914, bons alemães&#8230; E ninguém pode dizer, com certeza, se a exortação é “de direita” ou “de esquerda”. Só a história e a sociologia permitem escolher entre teses que tendem, aqui e ali, entre os antigos oprimidos como entre os novos fascistas, a se confundirem. O mal radical seria a mestiçagem e o universalismo grosseiro que dominam o universo da técnica, da cultura e do consumo de massa. Uma única palavra de ordem, da extrema direita como da extrema esquerda: é preciso aprender a “ressingularizar” os modos de vida, a rediferenciá-los, contra a “unidimensionalidade” do mundo moderno. Apesar de toda essa confusão, e mesmo sendo conveniente ficar atento aos caminhos percorridos pelas ideias do passado de um extremo ao outro, é preciso admitir que no final do percurso os discursos diferencialistas se assemelham. O amor pelo meio ambiente é hoje a clara prova desse fato: pois o elogio da diferença, onipresente nas legislações nazistas, é encontrado quase que palavra por palavra nas versões mais “avançadas” da ecologia profunda». (Luc Ferry. A Nova Ordem Ecológica: a árvore, o animal e o homem. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009. p. 191-193).</p>
<p>Precisamos, com urgência, criticar e combater as visões obscurantistas e nacionalistas que estão, historicamente, a invadir silenciosamente o território da esquerda, fazendo-a convergir com a reação, e com maior intensidade agora, em &#8220;tempos pós-modernos&#8221;. Ou adotamos, de uma vez por todas, a perspectiva de emancipação do gênero humano em geral, mediante a revolução proletária internacional, repudiando abertamente as intrusões nacionalistas-obscurantistas em nossas fileiras, ou trabalhamos contra essa perspectiva, mesmo que inconscientemente. Nos departamentos universitários, só há elogios para a valorização da diversidade; nos programas dos partidos de esquerda, dá-se o mesmo. E contribuímos, assim, para que a classe trabalhadora afaste-se da perspectiva de emancipação que já lhe foi cara em determinados contextos históricos.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/04/75329/#comment-113377</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Apr 2013 11:24:45 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=75329#comment-113377</guid>

					<description><![CDATA[No meu artigo de despedida ( http://passapalavra.info/?p=60646 ) escrevi que «a esquerda do século XXI abandonou a luta por um novo ser humano — um ser humano integral em quem deixem de ser pertinentes as divisões entre sexos e as diferenças entre as cores da pele e os formatos do nariz e dos olhos — e reforçou todo o tipo de particularismos. Superar os particularismos é uma coisa; outra coisa, muito diferente, é transformar a sociedade numa colecção de particularismos, ligados pelo mercado. Ressuscitaram-se assim as condições ideológicas para a biologização da cultura, que foi a operação distintiva do racismo e, mais especialmente, do nacional-socialismo germânico». Ora, é exactamente isto que faz o entrevistado, com aplauso dos entrevistadores.
Não é por acaso que o entrevistado defende uma noção de língua herdada em linha directa do romantismo alemão e que constituiu um dos elementos formadores do nacional-socialismo germânico. Que o entrevistado tenha ou não a noção disso em nada altera o facto. E agora esta concepção apresenta-se sob o disfarce de um discurso de esquerda.
Há duas únicas linhas nesta entrevista que me dão alguma esperança, quando o entrevistado reconhece: «Ultimamente, entretanto, se têm perdido muitas palavras. As novas gerações têm outra formação, a cultura dominante penetrou muito através da televisão, das rádios comerciais, da escola». São estas novas gerações, que, em vez de se prenderem a uma língua que as particulariza, a abandonam e adoptam plenamente uma língua que as integra na generalidade do país e do continente e lhes permite o acesso ao mercado global de trabalho, são estas novas gerações que me dão alguma esperança. É com elas que se formará uma classe trabalhadora universalizada. Mas estas novas gerações são apresentadas na entrevista como algo negativo.
E por que motivo quererão esses jovens inserir-se no mercado de trabalho mais amplo? O entrevistado não dedicou sequer uma palavra às relações de trabalho na comunidade tradicional que ele tanto elogia, ou seja, não mencionou as relações de desigualdade, de clientelismo e de exploração que ocorrem nas sociedades arcaicas. Nem os entrevistadores se lembraram de mencionar o problema. Ou pensarão que antes do capitalismo não existiam outros tipos de relações de exploração? E assim, sob o pretexto de anticapitalismo, se tece a apologia das relações de exploração pré-capitalistas.
Ora, tudo isto ocorre no &lt;em&gt;Passa Palavra&lt;/em&gt;, um site que inclui o antinacionalismo entre os seus princípios constitutivos. Será que não se dão conta de que esta entrevista é pura e simplesmente uma apologia do nacionalismo? Um nacionalismo de dimensões geográficas minúsculas não deixa por isso de ser nacionalismo, flagrante quando o entrevistado critica a comunidade de San Pedro Cuitlapa por ter «negocia[do] com o governo a água, a água que não é deles». E «não é deles» porque «antes da chegada dos espanhóis, essa localidade era parte do território amuzgo, mas com a chegada dos colonizadores houve dispersão, guerras e enfermidades, e hoje há lá poucos amuzgos, embora haja». Isto é nacionalismo na sua expressão mais abjecta — o racismo. Ou será que o racismo só o é quando os sujeitos são louros e de olhos azuis e deixa de o ser quando são escuros e com outros narizes?
Para terminar, dá-me vontade de vomitar o que o entrevistado diz acerca da opressão das mulheres, legitimada pelo facto de se inserir na sociedade tradicional. Mas, ignoro se vocês sabem, também em Portugal há camponeses e também eles têm tradições e algumas tradições comunitárias, e é nesse contexto que as mulheres camponesas são oprimidas. Então, haverá neste colectivo algum voluntário para interrogar um desses camponeses acerca de tais hábitos e tradições que, de acordo com os princípios do entrevistado e dos entrevistadores, deverão ser mantidos? Algum voluntário para lhe registar as respostas quando ele disser que não se trata de opressão mas de divisão das tarefas e dos lugares sociais? Eu imagino o que a entrevistadora diria se o companheiro ou o marido lhe explicasse um dia que ela ficaria em casa a tratar dos filhos e a coser as meias porque esse é o seu papel na sociedade. Mas quando o mesmo se passa com &lt;em&gt;índias&lt;/em&gt; — e nem vou aqui deter-me no que a palavra &lt;em&gt;índia&lt;/em&gt; possa significar — então fica tudo muito bonito, deixa de ser machismo e passa a ser multiculturalismo. Quanta hipocrisia!
Um destes dias publicarei excertos de um livro de Julius Evola, mas apresentando-o como se tivesse sido escrito por alguém de uma qualquer comunidade arcaica não-europeia, só para me divertir com os elogios que lhe hão-de fazer.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No meu artigo de despedida ( <a href="http://passapalavra.info/?p=60646" rel="ugc">http://passapalavra.info/?p=60646</a> ) escrevi que «a esquerda do século XXI abandonou a luta por um novo ser humano — um ser humano integral em quem deixem de ser pertinentes as divisões entre sexos e as diferenças entre as cores da pele e os formatos do nariz e dos olhos — e reforçou todo o tipo de particularismos. Superar os particularismos é uma coisa; outra coisa, muito diferente, é transformar a sociedade numa colecção de particularismos, ligados pelo mercado. Ressuscitaram-se assim as condições ideológicas para a biologização da cultura, que foi a operação distintiva do racismo e, mais especialmente, do nacional-socialismo germânico». Ora, é exactamente isto que faz o entrevistado, com aplauso dos entrevistadores.<br />
Não é por acaso que o entrevistado defende uma noção de língua herdada em linha directa do romantismo alemão e que constituiu um dos elementos formadores do nacional-socialismo germânico. Que o entrevistado tenha ou não a noção disso em nada altera o facto. E agora esta concepção apresenta-se sob o disfarce de um discurso de esquerda.<br />
Há duas únicas linhas nesta entrevista que me dão alguma esperança, quando o entrevistado reconhece: «Ultimamente, entretanto, se têm perdido muitas palavras. As novas gerações têm outra formação, a cultura dominante penetrou muito através da televisão, das rádios comerciais, da escola». São estas novas gerações, que, em vez de se prenderem a uma língua que as particulariza, a abandonam e adoptam plenamente uma língua que as integra na generalidade do país e do continente e lhes permite o acesso ao mercado global de trabalho, são estas novas gerações que me dão alguma esperança. É com elas que se formará uma classe trabalhadora universalizada. Mas estas novas gerações são apresentadas na entrevista como algo negativo.<br />
E por que motivo quererão esses jovens inserir-se no mercado de trabalho mais amplo? O entrevistado não dedicou sequer uma palavra às relações de trabalho na comunidade tradicional que ele tanto elogia, ou seja, não mencionou as relações de desigualdade, de clientelismo e de exploração que ocorrem nas sociedades arcaicas. Nem os entrevistadores se lembraram de mencionar o problema. Ou pensarão que antes do capitalismo não existiam outros tipos de relações de exploração? E assim, sob o pretexto de anticapitalismo, se tece a apologia das relações de exploração pré-capitalistas.<br />
Ora, tudo isto ocorre no <em>Passa Palavra</em>, um site que inclui o antinacionalismo entre os seus princípios constitutivos. Será que não se dão conta de que esta entrevista é pura e simplesmente uma apologia do nacionalismo? Um nacionalismo de dimensões geográficas minúsculas não deixa por isso de ser nacionalismo, flagrante quando o entrevistado critica a comunidade de San Pedro Cuitlapa por ter «negocia[do] com o governo a água, a água que não é deles». E «não é deles» porque «antes da chegada dos espanhóis, essa localidade era parte do território amuzgo, mas com a chegada dos colonizadores houve dispersão, guerras e enfermidades, e hoje há lá poucos amuzgos, embora haja». Isto é nacionalismo na sua expressão mais abjecta — o racismo. Ou será que o racismo só o é quando os sujeitos são louros e de olhos azuis e deixa de o ser quando são escuros e com outros narizes?<br />
Para terminar, dá-me vontade de vomitar o que o entrevistado diz acerca da opressão das mulheres, legitimada pelo facto de se inserir na sociedade tradicional. Mas, ignoro se vocês sabem, também em Portugal há camponeses e também eles têm tradições e algumas tradições comunitárias, e é nesse contexto que as mulheres camponesas são oprimidas. Então, haverá neste colectivo algum voluntário para interrogar um desses camponeses acerca de tais hábitos e tradições que, de acordo com os princípios do entrevistado e dos entrevistadores, deverão ser mantidos? Algum voluntário para lhe registar as respostas quando ele disser que não se trata de opressão mas de divisão das tarefas e dos lugares sociais? Eu imagino o que a entrevistadora diria se o companheiro ou o marido lhe explicasse um dia que ela ficaria em casa a tratar dos filhos e a coser as meias porque esse é o seu papel na sociedade. Mas quando o mesmo se passa com <em>índias</em> — e nem vou aqui deter-me no que a palavra <em>índia</em> possa significar — então fica tudo muito bonito, deixa de ser machismo e passa a ser multiculturalismo. Quanta hipocrisia!<br />
Um destes dias publicarei excertos de um livro de Julius Evola, mas apresentando-o como se tivesse sido escrito por alguém de uma qualquer comunidade arcaica não-europeia, só para me divertir com os elogios que lhe hão-de fazer.</p>
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