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	Comentários sobre: O campo libertário, hoje: radiografia e desafios  (2ª parte)	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Jack Napier		</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jack Napier]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 07 Jul 2013 18:49:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[No tocante as perspectivas &quot;esquerdistas&quot; ; &quot;conselhistas&quot; ; &quot;heterodoxas&quot; &quot;anti-dirigistas&quot; no marxismo, vejo que as insinuações de hibridismo como aqueles contemporâneos, soa com um certo anacronismo, visto que os mesmos foram militantes eminentemente práticos, que se chocaram com a burocracia na prática, não se tratando de especulação teórica...
Ademais, gostaria entender o motivo pelo qual não está incluído Debord no debate, esse sim, muito criativo e com uma leitura emancipatória radical...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No tocante as perspectivas &#8220;esquerdistas&#8221; ; &#8220;conselhistas&#8221; ; &#8220;heterodoxas&#8221; &#8220;anti-dirigistas&#8221; no marxismo, vejo que as insinuações de hibridismo como aqueles contemporâneos, soa com um certo anacronismo, visto que os mesmos foram militantes eminentemente práticos, que se chocaram com a burocracia na prática, não se tratando de especulação teórica&#8230;<br />
Ademais, gostaria entender o motivo pelo qual não está incluído Debord no debate, esse sim, muito criativo e com uma leitura emancipatória radical&#8230;</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Felipe C.		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/05/78158/#comment-121514</link>

		<dc:creator><![CDATA[Felipe C.]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Jun 2013 02:45:16 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Carlos Senna,

Afirmar que o pensamento anarquista sobrou, aqui e ali, parece uma afirmação sem base histórica. 

Que, no campo da esquerda, até o fim do capitalismo de Estado da ex-URSS, o anarquismo tenha permanecido como uma força minoritária, em muitos contextos, nisso não há dúvidas. Aliás, casos como o da Revolução Russa até 1921, em especial na Ucrânia, a Revolução Espanhola (1936-1939), a experiencia Búlgara entre os anos 1920 e 1940, a Revolução Cubana de 1959, para não citar muitas outras, demonstram que o marxismo-leninismo e o stalinismo contribuíram, juntamente com as forças reacionárias, para dizimar o anarquismo (em todos esses casos, inclusive, pela força das armas). 

Não se pode negar que, em muitos casos, o anarquismo constituiu uma força minoritária na esquerda e que muitos de seus pensadores possuem problemas, assim como muitas de suas estratégias. Entretanto, observando o socialismo desde seu surgimento ao presente, é inegável que o anarquismo, e sua estratégia histórica fundamental, o sindicalismo de intenção revolucionária (sindicalismo revolucionário e anarco-sindicalismo), não só foram relevantes como em muitos contextos foram majoritários e constituíram a corrente política mais forte entre os trabalhadores. Se quiser posso até falar os países em que isso ocorreu e quando.

Isso é o que demonstram estudos sérios que vêm sendo realizados por pesquisadores contemporâneos. Em 2015 será publicado pela AK Press um volume de mais de 1000 laudas por Michael Schmidt e van der Walt chamado &quot;Global Fire&quot; que complementa o trabalho deles brilhante de teoria &quot;Black Flame&quot;, publicado em 2009 e em processo de tradução ao português. Em Global Fire, que tive acesso aos originais e posso afirmar que é brilhante, essa história global do anarquismo começa a ser trazida à cena de maneira mais rigorosa. Um resumo dela pode ser lida em &quot;Cartography of Revolutionary Anarchism&quot;, de Michael Schmidt, também a ser traduzida para o português. Entretanto, muitos livros sobre episódios históricos específicos estão disponíveis e não são tão difíceis de encontrar. Mesmo em português temos já algumas coisas.

O anarquismo nunca pôde contar com Estados bancando traduções e publicações de seus clássicos, produções teóricas e acadêmicos vivendo somente de pesquisa -- como foi o caso do antigo mundo &quot;socialista&quot;. Seus clássicos até hoje não foram publicados (autores como Errico Malatesta, até hoje, não têm suas obras completas publicadas, nem em italiano), sua história nunca foi contada devidamente (a história da Revolução de Shimin, na Manchúria, entre 1929 e 1931, em que os anarquistas tiveram participação decisiva, sequer é conhecida tendo sido o anarquismo foi &quot;apagado&quot; da história nos relatos da direita e da esquerda). A própria obra completa de Bakunin só foi publicada, em CD, em 2000. Muitos outros exemplos poderiam ser dados. Em suma, a história do anarquismo é muito pouco conhecida, assim como os escritos dos próprios anarquistas. 

Portanto, antes de fazer afirmações categóricas, é necessário esforçar-se para ler esse material (o que reconheço, não é tão simples, mas desde os anos 1990, a coisa vem melhorando bem e creio haver elementos interessantes, tanto para a análise do passado, quanto em termos de estratégias futuras).  Certamente muitos não a conhecem adequadamente.

Recentemente (dos anos 1970 em diante), grandes mobilizações têm contado com participação relevante de anarquistas e, mesmo em casos em que não são os anarquistas a serem hegemônicos no movimento, estratégias clássicas ligadas ao anarquismo e ao sindicalismo de intenção revolucionária são as que pautam os rumos do movimento. Cito alguns casos. Nos anos 1970, no Uruguai, a CNT, central sindical que mobilizou mais de 10% da população do país, era hegemonizada pelos anarquistas (via FAU-OPR e ROE). O Movimento de Resistência Global, entre o fim dos 1990 e início dos 2000, nas lutas contra o neoliberalismo em todo o mundo, também poderia ser citado, assim como os piqueteros na Argentina no início dos 2000 ou a Comuna de Oaxaca de 2006.  Muitos outros exemplos poderiam ser dados.

Eu poderia pegar ponto a ponto suas afirmações sobre &quot;o anarquismo&quot; e demonstrar que elas não possuem qualquer fundamento. Fatos que foram pouco explorados até hoje em dia, como por exemplo a teoria de Estado de Bakunin, muito superior à de Marx e Engels, e respaldada pela própria história (podemos discutir sobre isso também), e mesmo sua concepção de classes sociais (a meu ver, também muito mais precisa que a de Marx e Engels), em especial sua discussão da burocracia, avançam, e muito, em relação ao que produziu Marx que, certamente, escreveu mais sobre economia política que Bakunin mas, ao mesmo tempo, muito menos que ele em termos de estratégia política. 

Os fatos não vêm demonstrando que o anarquismo tem diminuído, mas aumentado. Para isso, basta ver a quantidade de movimentos populares em que estão presentes os anarquistas, se fazendo respeitar, e a quantidade de outras iniciativas que têm sido levadas à cabo. No Brasil, em uma comparação, há um crescimento constante e bastante significativo, dos anos 1980 para os 1990, dos 1990 para os 2000 e dos 2000 em diante. E se quiser discutir isso, posso argumentar mais sobre isso também, no Brasil e no mundo. Sobre a quantidade de correntes, creio que o marxismo possui tantas correntes quanto o anarquismo, senão mais.

Em suma, Senna, creio que suas afirmações são bastante típicas. Sem qualquer embasamento, sem leitura mais aprofundada dos próprios anarquistas e de sua história, buscam convencer pela violência verbal. Para uma discussão produtiva é necessário menos proselitismo e mais argumento.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Carlos Senna,</p>
<p>Afirmar que o pensamento anarquista sobrou, aqui e ali, parece uma afirmação sem base histórica. </p>
<p>Que, no campo da esquerda, até o fim do capitalismo de Estado da ex-URSS, o anarquismo tenha permanecido como uma força minoritária, em muitos contextos, nisso não há dúvidas. Aliás, casos como o da Revolução Russa até 1921, em especial na Ucrânia, a Revolução Espanhola (1936-1939), a experiencia Búlgara entre os anos 1920 e 1940, a Revolução Cubana de 1959, para não citar muitas outras, demonstram que o marxismo-leninismo e o stalinismo contribuíram, juntamente com as forças reacionárias, para dizimar o anarquismo (em todos esses casos, inclusive, pela força das armas). </p>
<p>Não se pode negar que, em muitos casos, o anarquismo constituiu uma força minoritária na esquerda e que muitos de seus pensadores possuem problemas, assim como muitas de suas estratégias. Entretanto, observando o socialismo desde seu surgimento ao presente, é inegável que o anarquismo, e sua estratégia histórica fundamental, o sindicalismo de intenção revolucionária (sindicalismo revolucionário e anarco-sindicalismo), não só foram relevantes como em muitos contextos foram majoritários e constituíram a corrente política mais forte entre os trabalhadores. Se quiser posso até falar os países em que isso ocorreu e quando.</p>
<p>Isso é o que demonstram estudos sérios que vêm sendo realizados por pesquisadores contemporâneos. Em 2015 será publicado pela AK Press um volume de mais de 1000 laudas por Michael Schmidt e van der Walt chamado &#8220;Global Fire&#8221; que complementa o trabalho deles brilhante de teoria &#8220;Black Flame&#8221;, publicado em 2009 e em processo de tradução ao português. Em Global Fire, que tive acesso aos originais e posso afirmar que é brilhante, essa história global do anarquismo começa a ser trazida à cena de maneira mais rigorosa. Um resumo dela pode ser lida em &#8220;Cartography of Revolutionary Anarchism&#8221;, de Michael Schmidt, também a ser traduzida para o português. Entretanto, muitos livros sobre episódios históricos específicos estão disponíveis e não são tão difíceis de encontrar. Mesmo em português temos já algumas coisas.</p>
<p>O anarquismo nunca pôde contar com Estados bancando traduções e publicações de seus clássicos, produções teóricas e acadêmicos vivendo somente de pesquisa &#8212; como foi o caso do antigo mundo &#8220;socialista&#8221;. Seus clássicos até hoje não foram publicados (autores como Errico Malatesta, até hoje, não têm suas obras completas publicadas, nem em italiano), sua história nunca foi contada devidamente (a história da Revolução de Shimin, na Manchúria, entre 1929 e 1931, em que os anarquistas tiveram participação decisiva, sequer é conhecida tendo sido o anarquismo foi &#8220;apagado&#8221; da história nos relatos da direita e da esquerda). A própria obra completa de Bakunin só foi publicada, em CD, em 2000. Muitos outros exemplos poderiam ser dados. Em suma, a história do anarquismo é muito pouco conhecida, assim como os escritos dos próprios anarquistas. </p>
<p>Portanto, antes de fazer afirmações categóricas, é necessário esforçar-se para ler esse material (o que reconheço, não é tão simples, mas desde os anos 1990, a coisa vem melhorando bem e creio haver elementos interessantes, tanto para a análise do passado, quanto em termos de estratégias futuras).  Certamente muitos não a conhecem adequadamente.</p>
<p>Recentemente (dos anos 1970 em diante), grandes mobilizações têm contado com participação relevante de anarquistas e, mesmo em casos em que não são os anarquistas a serem hegemônicos no movimento, estratégias clássicas ligadas ao anarquismo e ao sindicalismo de intenção revolucionária são as que pautam os rumos do movimento. Cito alguns casos. Nos anos 1970, no Uruguai, a CNT, central sindical que mobilizou mais de 10% da população do país, era hegemonizada pelos anarquistas (via FAU-OPR e ROE). O Movimento de Resistência Global, entre o fim dos 1990 e início dos 2000, nas lutas contra o neoliberalismo em todo o mundo, também poderia ser citado, assim como os piqueteros na Argentina no início dos 2000 ou a Comuna de Oaxaca de 2006.  Muitos outros exemplos poderiam ser dados.</p>
<p>Eu poderia pegar ponto a ponto suas afirmações sobre &#8220;o anarquismo&#8221; e demonstrar que elas não possuem qualquer fundamento. Fatos que foram pouco explorados até hoje em dia, como por exemplo a teoria de Estado de Bakunin, muito superior à de Marx e Engels, e respaldada pela própria história (podemos discutir sobre isso também), e mesmo sua concepção de classes sociais (a meu ver, também muito mais precisa que a de Marx e Engels), em especial sua discussão da burocracia, avançam, e muito, em relação ao que produziu Marx que, certamente, escreveu mais sobre economia política que Bakunin mas, ao mesmo tempo, muito menos que ele em termos de estratégia política. </p>
<p>Os fatos não vêm demonstrando que o anarquismo tem diminuído, mas aumentado. Para isso, basta ver a quantidade de movimentos populares em que estão presentes os anarquistas, se fazendo respeitar, e a quantidade de outras iniciativas que têm sido levadas à cabo. No Brasil, em uma comparação, há um crescimento constante e bastante significativo, dos anos 1980 para os 1990, dos 1990 para os 2000 e dos 2000 em diante. E se quiser discutir isso, posso argumentar mais sobre isso também, no Brasil e no mundo. Sobre a quantidade de correntes, creio que o marxismo possui tantas correntes quanto o anarquismo, senão mais.</p>
<p>Em suma, Senna, creio que suas afirmações são bastante típicas. Sem qualquer embasamento, sem leitura mais aprofundada dos próprios anarquistas e de sua história, buscam convencer pela violência verbal. Para uma discussão produtiva é necessário menos proselitismo e mais argumento.</p>
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		<title>
		Por: Khaled		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/05/78158/#comment-121467</link>

		<dc:creator><![CDATA[Khaled]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Jun 2013 16:37:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Esta segunda parte do texto, bem como os comentários e o debate aqui registrados mostram que resguardadas as diferenças (muitas vezes menos relevantes do que reações exageradas de um lado e outro) há um amplo espaço para aproximações – talvez mais práticas do que teóricas – e colaborações entre os diversos setores que compõem o campo libertário. Em que pese as (duras) críticas recebidas, a iniciativa do autor foi corajosa e serviu não apenas para estimular a reflexão mas também de “chamado” a esta desejada unidade.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Esta segunda parte do texto, bem como os comentários e o debate aqui registrados mostram que resguardadas as diferenças (muitas vezes menos relevantes do que reações exageradas de um lado e outro) há um amplo espaço para aproximações – talvez mais práticas do que teóricas – e colaborações entre os diversos setores que compõem o campo libertário. Em que pese as (duras) críticas recebidas, a iniciativa do autor foi corajosa e serviu não apenas para estimular a reflexão mas também de “chamado” a esta desejada unidade.</p>
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		<item>
		<title>
		Por: Felix		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/05/78158/#comment-121283</link>

		<dc:creator><![CDATA[Felix]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Jun 2013 02:48:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[ainda não entendi o que há de tão perigoso na &quot;vampirização&quot;, ou em termos um pouco mais bonitinhos, &quot;mimetismo&quot;, para o campo libertário. É um problema que outras correntes políticas comecem a usar as práticas criadas e reinvindicadas no seio do movimento libertário? Autogestão apenas se houver um circulo circunscrevendo o A? 
Serei eu louco de achar que em realidade se trataria de uma vitória do movimento libertário que outras correntes e organizações adotem seus métodos e meios?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>ainda não entendi o que há de tão perigoso na &#8220;vampirização&#8221;, ou em termos um pouco mais bonitinhos, &#8220;mimetismo&#8221;, para o campo libertário. É um problema que outras correntes políticas comecem a usar as práticas criadas e reinvindicadas no seio do movimento libertário? Autogestão apenas se houver um circulo circunscrevendo o A?<br />
Serei eu louco de achar que em realidade se trataria de uma vitória do movimento libertário que outras correntes e organizações adotem seus métodos e meios?</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Leo Vinicius		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/05/78158/#comment-121276</link>

		<dc:creator><![CDATA[Leo Vinicius]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Jun 2013 01:23:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Carlos Senna,

Se é verdade que de uma forma geral, tomando o anarquismo ao longo do tempo, e comparado ao marxismo, o anarquismo pouco refletiu sobre os processos econômicos, por outro lado é totalmente descabido afirmar que ele não desenvolveu nenhuma contribuição à crítica da economia política. Essa crítica começa já na primeira obra de Proudhon, continua na terceira (Sistema das Contradições Econômicas), e segue ainda em outras obras do mesmo autor e de outros autores, embora de menos peso.

Mais estranho ainda é afirmar que Bakunin nem sequer sabia o que era o capital e ao mesmo tempo afirmar que pretendia que tudo sobre ele já havia sido dito por Marx. As duas afirmações são contraditórias, é melhor escolher uma para apoiar. A menos que esteja implícito que Marx também não sabia o que era o capital.
Bakunin foi o primeiro tradutor do Capital ao russo, embora não tenha terminado a tradução.

De resto, as correntes, fragmentações, cisões, subcorrentes, e o liberalismo que entra pelas portas dos fundos, são fenômenos comuns também à esquerda marxista, não sendo nada que caracterize o anarquismo relativamente a outras correntes supostamente anticapitalistas.
Por mais inovador ou revolucinário que seja um conjunto de idéias, ou mesmo de práticas, ele será sempre tributário ainda da sociedade em que ele surgiu e carregará resquícios do &quot;velho mundo&quot;.

Claro que o anarquismo historicamente teve e tem suas limitações, seus elos fracos. Mas que a crítica seja justa, dentro daquilo que é e que foi.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Carlos Senna,</p>
<p>Se é verdade que de uma forma geral, tomando o anarquismo ao longo do tempo, e comparado ao marxismo, o anarquismo pouco refletiu sobre os processos econômicos, por outro lado é totalmente descabido afirmar que ele não desenvolveu nenhuma contribuição à crítica da economia política. Essa crítica começa já na primeira obra de Proudhon, continua na terceira (Sistema das Contradições Econômicas), e segue ainda em outras obras do mesmo autor e de outros autores, embora de menos peso.</p>
<p>Mais estranho ainda é afirmar que Bakunin nem sequer sabia o que era o capital e ao mesmo tempo afirmar que pretendia que tudo sobre ele já havia sido dito por Marx. As duas afirmações são contraditórias, é melhor escolher uma para apoiar. A menos que esteja implícito que Marx também não sabia o que era o capital.<br />
Bakunin foi o primeiro tradutor do Capital ao russo, embora não tenha terminado a tradução.</p>
<p>De resto, as correntes, fragmentações, cisões, subcorrentes, e o liberalismo que entra pelas portas dos fundos, são fenômenos comuns também à esquerda marxista, não sendo nada que caracterize o anarquismo relativamente a outras correntes supostamente anticapitalistas.<br />
Por mais inovador ou revolucinário que seja um conjunto de idéias, ou mesmo de práticas, ele será sempre tributário ainda da sociedade em que ele surgiu e carregará resquícios do &#8220;velho mundo&#8221;.</p>
<p>Claro que o anarquismo historicamente teve e tem suas limitações, seus elos fracos. Mas que a crítica seja justa, dentro daquilo que é e que foi.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Carlos Senna		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/05/78158/#comment-121274</link>

		<dc:creator><![CDATA[Carlos Senna]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Jun 2013 00:35:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Por que o pensamento anarquista, o clássico principalmente, sobrou apenas aqui e ali, sem importância e sem nada a dizer? É preciso enfrentar a realidade e fazer a autocrítica.

Primeiro, o anarquismo não desenvolveu nenhuma (zero, rigorosamente) contribuição à crítica da economia política. Bakunin, p. ex., nem sequer sabia o que era o capital. Pretendia que tudo de fundamental havia sido feito nesse campo por Marx. Ora, para Bakunin, capital eram os banqueiros, os judeus, tudo que oprimia. Não entendeu nada.

Segundo, por essa deficiência, o anarquismo deságua numa crítica meramente política. Reinicia-se então a cantilena contra as hierarquias, como se estas não fossem funcionais e cuja racionalidade não fosse tributária de processos econômicos e materiais gerais sobre os quais, novamente, o anarquismo pouco tem a dizer de original.

Terceiro, por se fluidificar como simples política, vale tudo. O anarquismo se fragmenta em vinte e duas mil correntes e subcorrentes, algumas das quais apelam mesmo para raves. A dispersão teórica do anarquismo, sobretudo com respeito aos fundamentos, adapta-se à rebeldia da ocasião, cujas tintas colorem todos aqueles que defendem a liberdade. E quem não defende a liberdade? Sem base nem parâmetro, que se discuta ad nauseam. No Brasil, emergiu a farsa ultraliberal chamada libertário, que reivindica parte do pensamento anarquista. Ora, isso não é uma frauda tão somente, mas uma consequência inscrita numa deficiência real. Goste-se ou não.

Disso resulta o corolário típico, visível a olhos nus: o anarquismo se encolhe e assume a figura de uma crítica do poder em geral. Ele absorve a concepção de classes de Marx e do marxismo, mas a extrapola de modo pueril ao se perder no infinito da estratificação social, cogitando esquadrinhar nela mil e uma relações de poder e dominação. O que poderia auxiliar na crítica da realidade, descobrindo novas determinações sociais, se torna na mão do pensamento anarquista um fim em si mesmo.

A rigor, a expressão &quot;pensamento libertário&quot; só pode ter conteúdo se inclui o que os anarquistas não consideram &quot;libertário&quot; - certas correntes marxistas. Pois, alguém poderia perguntar: o que caracteriza o pensamento libertário? A essa pergunta, o anarquista se inquieta, convoca à leitura de seus ídolos e se poupa de uma resposta precisa.

Por fim, a ênfase num pensamento que, do ponto de vista mais geral, se tornou irrelevante acalora distinções políticas cujos atritos essenciais se concentraram no passado e que deveriam ter virado lição para a crítica anticapitalista. Por voltar com esse jargão que, no fundo, acentua cisões fantasmagóricas e revive mortos?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por que o pensamento anarquista, o clássico principalmente, sobrou apenas aqui e ali, sem importância e sem nada a dizer? É preciso enfrentar a realidade e fazer a autocrítica.</p>
<p>Primeiro, o anarquismo não desenvolveu nenhuma (zero, rigorosamente) contribuição à crítica da economia política. Bakunin, p. ex., nem sequer sabia o que era o capital. Pretendia que tudo de fundamental havia sido feito nesse campo por Marx. Ora, para Bakunin, capital eram os banqueiros, os judeus, tudo que oprimia. Não entendeu nada.</p>
<p>Segundo, por essa deficiência, o anarquismo deságua numa crítica meramente política. Reinicia-se então a cantilena contra as hierarquias, como se estas não fossem funcionais e cuja racionalidade não fosse tributária de processos econômicos e materiais gerais sobre os quais, novamente, o anarquismo pouco tem a dizer de original.</p>
<p>Terceiro, por se fluidificar como simples política, vale tudo. O anarquismo se fragmenta em vinte e duas mil correntes e subcorrentes, algumas das quais apelam mesmo para raves. A dispersão teórica do anarquismo, sobretudo com respeito aos fundamentos, adapta-se à rebeldia da ocasião, cujas tintas colorem todos aqueles que defendem a liberdade. E quem não defende a liberdade? Sem base nem parâmetro, que se discuta ad nauseam. No Brasil, emergiu a farsa ultraliberal chamada libertário, que reivindica parte do pensamento anarquista. Ora, isso não é uma frauda tão somente, mas uma consequência inscrita numa deficiência real. Goste-se ou não.</p>
<p>Disso resulta o corolário típico, visível a olhos nus: o anarquismo se encolhe e assume a figura de uma crítica do poder em geral. Ele absorve a concepção de classes de Marx e do marxismo, mas a extrapola de modo pueril ao se perder no infinito da estratificação social, cogitando esquadrinhar nela mil e uma relações de poder e dominação. O que poderia auxiliar na crítica da realidade, descobrindo novas determinações sociais, se torna na mão do pensamento anarquista um fim em si mesmo.</p>
<p>A rigor, a expressão &#8220;pensamento libertário&#8221; só pode ter conteúdo se inclui o que os anarquistas não consideram &#8220;libertário&#8221; &#8211; certas correntes marxistas. Pois, alguém poderia perguntar: o que caracteriza o pensamento libertário? A essa pergunta, o anarquista se inquieta, convoca à leitura de seus ídolos e se poupa de uma resposta precisa.</p>
<p>Por fim, a ênfase num pensamento que, do ponto de vista mais geral, se tornou irrelevante acalora distinções políticas cujos atritos essenciais se concentraram no passado e que deveriam ter virado lição para a crítica anticapitalista. Por voltar com esse jargão que, no fundo, acentua cisões fantasmagóricas e revive mortos?</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Marcelo Lopes de Souza		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/05/78158/#comment-121157</link>

		<dc:creator><![CDATA[Marcelo Lopes de Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Jun 2013 03:40:44 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=78158#comment-121157</guid>

					<description><![CDATA[Em primeiro lugar, desejo sublinhar que, apesar dos atritos e mal-entendidos  -  talvez inevitáveis em um debate franco como este tem sido, que mobiliza não só mentes mas também corações  −, deve ser destacado o fato de que o tom predominante, pelo menos nesta “segunda etapa” dos debates, tem sido interessante e produtivo. E isso não é pouco, considerando-se que, com muita frequência neste Passa Palavra, discussões rapidamente degeneram para bate-bocas em que se gera muito calor e pouca luz. Com as contribuições (argumentos, contra-argumentos, objeções) de vários dos comentaristas, evidentemente ganhamos todos, pois fortalece-se o PROCESSO. Reforça-se, também, a principal vocação do próprio site, que tem sido um espaço de convívio denso, ainda que tenso, de marxistas heterodoxos e libertários.

Prezado Zé:

Imediatamente após fazer blague a propósito das “conversões”, a título de ilustrar um ponto simples e crucial  -  o de que as trajetórias individuais e de grupos são dinâmicas, uma vez que as nossas posições se transformam, às vezes, ao ponto de, de modo honesto e consistente, conhecerem um giro significativo, como ocorreu com Castoriadis, Bookchin e outros tantos  -, percebi que a ironia poderia se prestar a mal-entendidos. Mea culpa, mea maxima culpa. Note que, da minha parte, não creio que nenhum proselitismo político-filosófico ostensivo seja salutar, pois a base disso sempre costuma ser a arrogância. Divergir e tentar persuadir, claro, é legítimo; porém, partir da premissa (tão usual nas religiões) de que o outro (o “gentio”, o que ainda não conheceu a “Verdade Revelada”) é um bárbaro inferior, dificulta, ou mesmo impede o diálogo. Minha intenção era, no funda, apenas a de chamar a atenção para o fato óbvio (mas comumente “esquecido”) de que o adversário (note-se que não digo “inimigo”) de hoje, realmente, cerrar fileiras com a gente amanhã, ou ao menos aproximar-se muito. Daí a sabedoria de, por inteligência política ou generosidade humanista, evitarmos tratar adversários em um debate como se as posições divergentes fossem fruto de alguma inferioridade estrutural, e não de fatores muitas vezes fortuitos (biografias variáveis, exposição diversa a certas fontes e certos debates, e assim sucessivamente). Presumir que o “outro lado”, especialmente em se tratando de indivíduos específicos (a lógica das organizações/instituições merece um tratamento à parte) é inamovível e que suas posições se devem a fatores morais  -  tendência inarredável ao autoritarismo, à velhacaria etc.  -  é, além de contraproducente, uma tolice. Excelente que você tenha chamado a atenção para esse problema.

Porém, com isso, chego a um ponto nevrálgico. Não basta que um dos “lados” deseje (re)lançar as bases para algum tipo de diálogo, eventualmente até com consequências prático-políticas  -  pois, em última instância, é isso que importa.  Meu texto e sua primeira mensagem, Zé, dão testemunho de que há, sim, de ambos os “lados”, pessoas interessadas em investir em aproximações, ainda que parciais e cautelosas. No entanto, é preciso admitir que se, historicamente, os dois “lados” têm endereçado críticas muitas vezes pedestres e injustas (por ignorância, muitas vezes, e por estratégia, outras tantas vezes) um contra o outro, isso não elimina o fato de que no que tange a perseguições políticas e violências físicas, os anarquistas (e, aqui, propositadamente me limito aos anarquistas, sem expandir a referência para os libertários em geral, por óbvias razões históricas) têm sido muito mais alvos de ataques do que perpetradores de ataques, de modo que seus ressentimentos, sua amarga memória e suas desconfianças são bastante justificáveis. Não posso esquecer, por exemplo, de um conhecido manual de formação de militantes do MST, em que “anarquista” era definido (cito de memória, mas garanto o sentido) como “bagunceiro; não gosta de organização e, quando vê algo organizado, faz de tudo para desorganizar”. Caramba, nem Lenin teria produzido semelhante caricatura! E poderíamos citar outros exemplos, também contemporâneos, como o já citado E. Hobsbawm, entre tantos. Resistir à difamação, quando se deseja agir com honestidade intelectual e política, fica muito mais fácil quando se tenta conhecer, de fato, as razões do outro “lado”. A mim me parece que as suas mensagens revelam uma clara abertura de espírito, nesse sentido  -  oxalá mais e mais compas possam compartilhar esse espírito. Inclusive e sobretudo no interior do próprio campo libertário (razão pela qual escrevi o artigo).

Prezado Rafael:

Seus comentários, extensos e variados, exigiriam, para se fazer justiça a vários deles, comentários também extensos da minha parte, o que gostaria mas não posso fazer agora. Adianto, contudo, que, em sua segunda mensagem, vejo muitas convergências, latentes e manifestas, com o que eu escrevi e venho dizendo. 

No entanto, apenas para desfazer o que me parecem ser mal-entendidos (as divergências mais de fundo, essas terão de esperar um momento mais propício para serem devidamente analisadas):

1) Quando eu enfatizo a fragmentação e o divisionismo do/no campo libertário, NÃO estou me referindo, note, ao anarquismo em sentido estrito. Refiro-me, bem dentro do espírito do meu texto, ao pensamento e à práxis libertários em sentido amplo. Concordo com você, ao menos em parte (não totalmente, e darei exemplos a seguir), quanto ao fato de que, tanto quanto tenho podido acompanhar, esforços de articulação interessantes têm sido tentados no âmbito do anarquismo; me parece que, na América Latina, isso tem estado bastante ligado à disseminação do chamado anarquismo especifista. Embora não sendo eu mesmo alguém que se apresenta como anarquista, mas me vendo como pertencendo à “família libertária”, só posso, em princípio, saudar tudo isso. Entretanto, veja alguns exemplos do tipo que me causa consternação e sensação de desperdício de oportunidades:
-  Os já fartamente mencionados (por mim e por você) desencontros e lamentáveis atritos entre Bookchin e grande parte dos anarquistas, a começar pelos EUA (mas não só lá: as críticas a ele, às vezes injustas e pouco informadas, também não são incomuns no Brasil).
- Os preconceitos mútuos entre Bookchin e Castoriadis (Bookchin nunca se preocupou ou conseguiu entender, de fato, o significado da “autonomia” em Castoriadis, e este praticamente ignorou Bookchin  -  como, de resto, praticamente ignorou os anarquistas).
- A curiosa disseminação, em um âmbito sobretudo acadêmico (mas não só!), em países de língua inglesa, de uma aberração terminológica chamada “post-anarchism”  -  que, apesar do curioso nome, congrega gente empenhada em resgatar, em bases renovadas (mas, pelo que tenho visto, muitas vezes incrivelmente superficiais), elementos da tradição anarquista clássica, muitas vezes mesclados com gramscianismo, Toni Negri (“autonomous Marxism”, como preferem alguns) e outros tantos ingredientes mais ou menos da moda. O resultado me parece, quando comparo com certos debates latino-americanos (em geral mais consistentes), no final, um risco de novos desentendimentos, mais que de entendimentos. Sem falar nas confusões que vão sendo derramadas pelo caminho.

Eu poderia citar outros exemplos de divisões reais ou potenciais, de descompassos, de rivalidades superáveis mas não superadas, mas paro por aqui.

2) Sobre Castoriadis: como se trata de autor cuja obra esquadrinho desde 1984, posso lhe assegurar que ele:
- Tinha, realmente, pouco apreço pelos anarquistas.
- Citou autores e movimentos anarquistas raras vezes; e, quando o fez, quase sempre o fez de modo crítico, às vezes jocoso  -  desde os tempos do início da revista “Socialisme ou Barbarie” (fins dos anos 40) até sua obra dos anos 70, 80 e 90. Há, claro, uma ou outra referência elogiosa pontual, e uma ou outra citação pontual (por exemplo, de uma obra de D. Guerin). Mas são exceções que confirmama a regra.
- Quanto a Castoriadis ter lido “tudo do anarquismo”, duvido muitíssimo. Ele, que era de uma erudição enciclopédica, parecia, como eu já disse  -  talvez por um preconceito e uma certa falta de interesse, derivados de sua formação marxista inicial  -, ter pouca curiosidade real em relação ao que escreveram os anarquistas. É bem verdade que, como ele nem sempre tinha a preocupação (tipicamente acadêmica) de explicitar, exaustivamente, todas as suas fontes ou referências, isso pode mascarar algumas coisas e induzir-nos a pensar que ele conhecia menos do que conhecia; porém, note que ele passou a maior parte de sua obra polemizando (brilhantemente) contra o marxismo, ao passo que o anarquismo mal passou, em sua vasta obra, de uma nota de rodapé. Injusto? A meu ver, certamente. Tenho explorado esse tema desde os anos 80, e os paralelos entre certos temas que Castoriadis examinou e certas contribuições dos anarquistas clássicos são notáveis, como destaco, entre outros lugares, em um livro que publiquei em 2006, “A prisão e a ágora”. Seja lá como for, e ainda que, como tenho insistido há três décadas, a obra de Castoriadis seja eminentemente libertária (e, mais que isso, talvez a mais profunda base de renovação teórica e filosófica do pensamento libertário), o triste fato é que o genial grego, realmente, quase não deu bola para os anarquistas. (Essa é uma das pontes que cabe a nós construir, à revelia dele  -  e venho tentando isso há muitos anos.)

Por fim, acho suas sugestões práticas muito bem vindas. (E, quanto ao convite, especificamente, a propósito do CEL Ideal Peres, trata-se de algo que me traz uma boa e distante lembrança, pois tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Ideal em 1987, durante reuniões do GAJO  -  Grupo Anarquista José Oiticica.)

Prezado Felipe:

Obrigado por ter deixado o seu e-mail. Escreverei em breve, e talvez tenhamos, no futuro próximo, a oportunidade de constatar que as divergências são menores (ou talvez menos relevantes) do que, em um primeiro momento, pareceram ser. Ou que, em todo o caso, não impedem  -  antes, quem sabe, enriqueçam  -  um intercâmbio. É nisso que tenho me empenhado. 

A todos aqueles que, imbuídos de um espírito companheiro de construção e respeito, postaram críticas e sugestões, o meu muito obrigado e o meu abraço fraterno.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em primeiro lugar, desejo sublinhar que, apesar dos atritos e mal-entendidos  &#8211;  talvez inevitáveis em um debate franco como este tem sido, que mobiliza não só mentes mas também corações  −, deve ser destacado o fato de que o tom predominante, pelo menos nesta “segunda etapa” dos debates, tem sido interessante e produtivo. E isso não é pouco, considerando-se que, com muita frequência neste Passa Palavra, discussões rapidamente degeneram para bate-bocas em que se gera muito calor e pouca luz. Com as contribuições (argumentos, contra-argumentos, objeções) de vários dos comentaristas, evidentemente ganhamos todos, pois fortalece-se o PROCESSO. Reforça-se, também, a principal vocação do próprio site, que tem sido um espaço de convívio denso, ainda que tenso, de marxistas heterodoxos e libertários.</p>
<p>Prezado Zé:</p>
<p>Imediatamente após fazer blague a propósito das “conversões”, a título de ilustrar um ponto simples e crucial  &#8211;  o de que as trajetórias individuais e de grupos são dinâmicas, uma vez que as nossas posições se transformam, às vezes, ao ponto de, de modo honesto e consistente, conhecerem um giro significativo, como ocorreu com Castoriadis, Bookchin e outros tantos  -, percebi que a ironia poderia se prestar a mal-entendidos. Mea culpa, mea maxima culpa. Note que, da minha parte, não creio que nenhum proselitismo político-filosófico ostensivo seja salutar, pois a base disso sempre costuma ser a arrogância. Divergir e tentar persuadir, claro, é legítimo; porém, partir da premissa (tão usual nas religiões) de que o outro (o “gentio”, o que ainda não conheceu a “Verdade Revelada”) é um bárbaro inferior, dificulta, ou mesmo impede o diálogo. Minha intenção era, no funda, apenas a de chamar a atenção para o fato óbvio (mas comumente “esquecido”) de que o adversário (note-se que não digo “inimigo”) de hoje, realmente, cerrar fileiras com a gente amanhã, ou ao menos aproximar-se muito. Daí a sabedoria de, por inteligência política ou generosidade humanista, evitarmos tratar adversários em um debate como se as posições divergentes fossem fruto de alguma inferioridade estrutural, e não de fatores muitas vezes fortuitos (biografias variáveis, exposição diversa a certas fontes e certos debates, e assim sucessivamente). Presumir que o “outro lado”, especialmente em se tratando de indivíduos específicos (a lógica das organizações/instituições merece um tratamento à parte) é inamovível e que suas posições se devem a fatores morais  &#8211;  tendência inarredável ao autoritarismo, à velhacaria etc.  &#8211;  é, além de contraproducente, uma tolice. Excelente que você tenha chamado a atenção para esse problema.</p>
<p>Porém, com isso, chego a um ponto nevrálgico. Não basta que um dos “lados” deseje (re)lançar as bases para algum tipo de diálogo, eventualmente até com consequências prático-políticas  &#8211;  pois, em última instância, é isso que importa.  Meu texto e sua primeira mensagem, Zé, dão testemunho de que há, sim, de ambos os “lados”, pessoas interessadas em investir em aproximações, ainda que parciais e cautelosas. No entanto, é preciso admitir que se, historicamente, os dois “lados” têm endereçado críticas muitas vezes pedestres e injustas (por ignorância, muitas vezes, e por estratégia, outras tantas vezes) um contra o outro, isso não elimina o fato de que no que tange a perseguições políticas e violências físicas, os anarquistas (e, aqui, propositadamente me limito aos anarquistas, sem expandir a referência para os libertários em geral, por óbvias razões históricas) têm sido muito mais alvos de ataques do que perpetradores de ataques, de modo que seus ressentimentos, sua amarga memória e suas desconfianças são bastante justificáveis. Não posso esquecer, por exemplo, de um conhecido manual de formação de militantes do MST, em que “anarquista” era definido (cito de memória, mas garanto o sentido) como “bagunceiro; não gosta de organização e, quando vê algo organizado, faz de tudo para desorganizar”. Caramba, nem Lenin teria produzido semelhante caricatura! E poderíamos citar outros exemplos, também contemporâneos, como o já citado E. Hobsbawm, entre tantos. Resistir à difamação, quando se deseja agir com honestidade intelectual e política, fica muito mais fácil quando se tenta conhecer, de fato, as razões do outro “lado”. A mim me parece que as suas mensagens revelam uma clara abertura de espírito, nesse sentido  &#8211;  oxalá mais e mais compas possam compartilhar esse espírito. Inclusive e sobretudo no interior do próprio campo libertário (razão pela qual escrevi o artigo).</p>
<p>Prezado Rafael:</p>
<p>Seus comentários, extensos e variados, exigiriam, para se fazer justiça a vários deles, comentários também extensos da minha parte, o que gostaria mas não posso fazer agora. Adianto, contudo, que, em sua segunda mensagem, vejo muitas convergências, latentes e manifestas, com o que eu escrevi e venho dizendo. </p>
<p>No entanto, apenas para desfazer o que me parecem ser mal-entendidos (as divergências mais de fundo, essas terão de esperar um momento mais propício para serem devidamente analisadas):</p>
<p>1) Quando eu enfatizo a fragmentação e o divisionismo do/no campo libertário, NÃO estou me referindo, note, ao anarquismo em sentido estrito. Refiro-me, bem dentro do espírito do meu texto, ao pensamento e à práxis libertários em sentido amplo. Concordo com você, ao menos em parte (não totalmente, e darei exemplos a seguir), quanto ao fato de que, tanto quanto tenho podido acompanhar, esforços de articulação interessantes têm sido tentados no âmbito do anarquismo; me parece que, na América Latina, isso tem estado bastante ligado à disseminação do chamado anarquismo especifista. Embora não sendo eu mesmo alguém que se apresenta como anarquista, mas me vendo como pertencendo à “família libertária”, só posso, em princípio, saudar tudo isso. Entretanto, veja alguns exemplos do tipo que me causa consternação e sensação de desperdício de oportunidades:<br />
&#8211;  Os já fartamente mencionados (por mim e por você) desencontros e lamentáveis atritos entre Bookchin e grande parte dos anarquistas, a começar pelos EUA (mas não só lá: as críticas a ele, às vezes injustas e pouco informadas, também não são incomuns no Brasil).<br />
&#8211; Os preconceitos mútuos entre Bookchin e Castoriadis (Bookchin nunca se preocupou ou conseguiu entender, de fato, o significado da “autonomia” em Castoriadis, e este praticamente ignorou Bookchin  &#8211;  como, de resto, praticamente ignorou os anarquistas).<br />
&#8211; A curiosa disseminação, em um âmbito sobretudo acadêmico (mas não só!), em países de língua inglesa, de uma aberração terminológica chamada “post-anarchism”  &#8211;  que, apesar do curioso nome, congrega gente empenhada em resgatar, em bases renovadas (mas, pelo que tenho visto, muitas vezes incrivelmente superficiais), elementos da tradição anarquista clássica, muitas vezes mesclados com gramscianismo, Toni Negri (“autonomous Marxism”, como preferem alguns) e outros tantos ingredientes mais ou menos da moda. O resultado me parece, quando comparo com certos debates latino-americanos (em geral mais consistentes), no final, um risco de novos desentendimentos, mais que de entendimentos. Sem falar nas confusões que vão sendo derramadas pelo caminho.</p>
<p>Eu poderia citar outros exemplos de divisões reais ou potenciais, de descompassos, de rivalidades superáveis mas não superadas, mas paro por aqui.</p>
<p>2) Sobre Castoriadis: como se trata de autor cuja obra esquadrinho desde 1984, posso lhe assegurar que ele:<br />
&#8211; Tinha, realmente, pouco apreço pelos anarquistas.<br />
&#8211; Citou autores e movimentos anarquistas raras vezes; e, quando o fez, quase sempre o fez de modo crítico, às vezes jocoso  &#8211;  desde os tempos do início da revista “Socialisme ou Barbarie” (fins dos anos 40) até sua obra dos anos 70, 80 e 90. Há, claro, uma ou outra referência elogiosa pontual, e uma ou outra citação pontual (por exemplo, de uma obra de D. Guerin). Mas são exceções que confirmama a regra.<br />
&#8211; Quanto a Castoriadis ter lido “tudo do anarquismo”, duvido muitíssimo. Ele, que era de uma erudição enciclopédica, parecia, como eu já disse  &#8211;  talvez por um preconceito e uma certa falta de interesse, derivados de sua formação marxista inicial  -, ter pouca curiosidade real em relação ao que escreveram os anarquistas. É bem verdade que, como ele nem sempre tinha a preocupação (tipicamente acadêmica) de explicitar, exaustivamente, todas as suas fontes ou referências, isso pode mascarar algumas coisas e induzir-nos a pensar que ele conhecia menos do que conhecia; porém, note que ele passou a maior parte de sua obra polemizando (brilhantemente) contra o marxismo, ao passo que o anarquismo mal passou, em sua vasta obra, de uma nota de rodapé. Injusto? A meu ver, certamente. Tenho explorado esse tema desde os anos 80, e os paralelos entre certos temas que Castoriadis examinou e certas contribuições dos anarquistas clássicos são notáveis, como destaco, entre outros lugares, em um livro que publiquei em 2006, “A prisão e a ágora”. Seja lá como for, e ainda que, como tenho insistido há três décadas, a obra de Castoriadis seja eminentemente libertária (e, mais que isso, talvez a mais profunda base de renovação teórica e filosófica do pensamento libertário), o triste fato é que o genial grego, realmente, quase não deu bola para os anarquistas. (Essa é uma das pontes que cabe a nós construir, à revelia dele  &#8211;  e venho tentando isso há muitos anos.)</p>
<p>Por fim, acho suas sugestões práticas muito bem vindas. (E, quanto ao convite, especificamente, a propósito do CEL Ideal Peres, trata-se de algo que me traz uma boa e distante lembrança, pois tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Ideal em 1987, durante reuniões do GAJO  &#8211;  Grupo Anarquista José Oiticica.)</p>
<p>Prezado Felipe:</p>
<p>Obrigado por ter deixado o seu e-mail. Escreverei em breve, e talvez tenhamos, no futuro próximo, a oportunidade de constatar que as divergências são menores (ou talvez menos relevantes) do que, em um primeiro momento, pareceram ser. Ou que, em todo o caso, não impedem  &#8211;  antes, quem sabe, enriqueçam  &#8211;  um intercâmbio. É nisso que tenho me empenhado. </p>
<p>A todos aqueles que, imbuídos de um espírito companheiro de construção e respeito, postaram críticas e sugestões, o meu muito obrigado e o meu abraço fraterno.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Felipe C.		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/05/78158/#comment-121125</link>

		<dc:creator><![CDATA[Felipe C.]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Jun 2013 20:05:01 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=78158#comment-121125</guid>

					<description><![CDATA[Caro Marcelo, gostaria de conhecer outros textos seus em que você sustenta alguns dos argumentos apresentados. Não creio haver nada de arrogante nessa indicação. Mande aqui os links ou se preferir me mande por email (felipe &quot;a&quot; riseup.net). Ab.,]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Marcelo, gostaria de conhecer outros textos seus em que você sustenta alguns dos argumentos apresentados. Não creio haver nada de arrogante nessa indicação. Mande aqui os links ou se preferir me mande por email (felipe &#8220;a&#8221; riseup.net). Ab.,</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Rafael V.		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/05/78158/#comment-121086</link>

		<dc:creator><![CDATA[Rafael V.]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Jun 2013 13:19:43 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=78158#comment-121086</guid>

					<description><![CDATA[Outra coisa que esqueci de dizer e que tem haver perifericamente com alguns comentários feitos ao artigo e que diz respeito ao momento do anarquismo clássico que estão muito longe da imagem de um suposto sectarismo e fragmentação dos anarquistas.

Cabe citar dois momentos importantes.

- ELAOPA. Ainda que o ELAOPA seja um espaço do movimento social e uma tarefa de diversos movimentos e grupos autônomos (uma tarefa da classe), devemos reconhecer o papel do anarquismo especifista em sua consolidação. A corrente especifista (do anarquismo clássico) com toda modéstia é um campo promissor, e longe do sectarismo cresce humildemente em toda a A. Latina. As proposições especifistas inclusive estão circulando na Europa, uma efeito inverso do habitual fluxo eurocêntrico da história das doutrinas políticas. Que eu me lembre, a maior referência de encontro autônomo da A. Latina é o ELAOPA e este é aberto a todas as tendências libertárias dentro dos mov. sociais (o que já caracterizaria uma atitude profundamente anti-sectária, mas cabe reafirmar). 

- Fundação da Coordenação Anarquista Brasileira. Num congresso que reuniu cerca de 90 delegados de nove organizações de diferentes estados com presença e prática política modesta, mas ativa e articulada nacionalmente, no sudeste, sul, centro-oeste e nordeste do país. Articuladas também em nível latino-americano (principalmente Uruguai e Argentina).]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Outra coisa que esqueci de dizer e que tem haver perifericamente com alguns comentários feitos ao artigo e que diz respeito ao momento do anarquismo clássico que estão muito longe da imagem de um suposto sectarismo e fragmentação dos anarquistas.</p>
<p>Cabe citar dois momentos importantes.</p>
<p>&#8211; ELAOPA. Ainda que o ELAOPA seja um espaço do movimento social e uma tarefa de diversos movimentos e grupos autônomos (uma tarefa da classe), devemos reconhecer o papel do anarquismo especifista em sua consolidação. A corrente especifista (do anarquismo clássico) com toda modéstia é um campo promissor, e longe do sectarismo cresce humildemente em toda a A. Latina. As proposições especifistas inclusive estão circulando na Europa, uma efeito inverso do habitual fluxo eurocêntrico da história das doutrinas políticas. Que eu me lembre, a maior referência de encontro autônomo da A. Latina é o ELAOPA e este é aberto a todas as tendências libertárias dentro dos mov. sociais (o que já caracterizaria uma atitude profundamente anti-sectária, mas cabe reafirmar). </p>
<p>&#8211; Fundação da Coordenação Anarquista Brasileira. Num congresso que reuniu cerca de 90 delegados de nove organizações de diferentes estados com presença e prática política modesta, mas ativa e articulada nacionalmente, no sudeste, sul, centro-oeste e nordeste do país. Articuladas também em nível latino-americano (principalmente Uruguai e Argentina).</p>
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		<item>
		<title>
		Por: Rafael V.		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/05/78158/#comment-121085</link>

		<dc:creator><![CDATA[Rafael V.]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Jun 2013 13:01:49 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=78158#comment-121085</guid>

					<description><![CDATA[Marcelo, só para esclarecer (Felipe C. falou muito do que eu ia queria dizer) quando eu recomendei um texto (uma &quot;ousadia&quot; habitual dos leitores do site aos autores dos artigos) em nenhum momento quis lhe ofender (se o fiz, deixo aqui registrado minhas sinceras desculpas). 

Faço um debate muito mais baseado no campo da &quot;pesquisa&quot; do que propriamente um debate &quot;ideológico&quot;. Creio que o espírito do site é esse mesmo de debate. Não vou responder nenhum comentário mais exaltado seu ou de qualquer outro, pois creio que há muito ruído e desinformação no meio de comentários dos mais diferentes &quot;tons&quot; publicados aqui. Coloquei o texto justamente para embasar o que estou dizendo, ao contrário de muitos comentários que eu vi aqui de leitores do artigo sobre o anarquismo, completamente ancorados em preconceitos (ou piadas, desqualificação, achismo, etc. etc.). 

Sou simpático a tudo o que venha do campo libertário no sentido mais amplo que você coloca (teoria/prática), mas como colocado por outros comentadores há um debate mais aprofundado em relação ao estudo do anarquismo que pode elucidar questões teóricas relevantes. Nesse sentido o debate é também &quot;bibliográfico&quot;.

Vou comentar muito rapidamente algumas questões que você colocou (do ponto de vista da teoria). 

- Sobre o desprezo de Castoriadis do Anarquismo: acho que poderíamos relativizar essa afirmação. Não tenho certeza sobre isto. Não domino toda a obra de Castoriadis, mas sou um leitor frequente. Há uma entrevista publicada em VOLKER, Paulo; CORDEIRO, Renato Caporalli; PURRI, Victor José Bicalho et al. Revolução e Autonomia: um perfil político de C. Castoriadis. Belo Horizonte: COPEC, 1981, na qual Castoriadis afirma que o anarquismo é o único que coloca a questão da autonomia seriamente (estou afirmando de &quot;memória&quot; por que não tenho o livro em mãos, creio que a frase é sensivelmente diferente do que me recordo, mas a afirmação na época que fiz a leitura me pareceu bastante elogiosa). Devem haver outros comentários menos elogiosos. Se há comentários elogiosos ou não, isso não muda o fato de Castoriadis ter contribuído com o campo libertário de maneira mais ampla, como você apontou. Suas teses políticas, ainda que com diferenças significativas em relação ao anarquismo &quot;jogam água&quot; no moinho dos anarquistas. Outra coisa é que eu tenho forte impressão que Castoriadis tenha lido os anarquistas (como um amigo diz, ele leu tudo). Algumas posições suas do ponto de vista teórico se aproximam de questões postas pelos anarquistas (poderia discorrer mais amplamente sobre isso, mas Bakunin me parece a presença mais marcante em algumas questões).

- Em relação a metodologia. Reafirmo que há uma tendência grande (e pronta a ser elaborada e consolidada nos estudos atuais) de desconstruir as noções essencialistas da História Política. Noções essas que &quot;pautaram&quot; o estudo do anarquismo em classificações tipológicas (sendo Woodcock o maior expoente). Proudhon por exemplo não &quot;criou&quot; o anarquismo, mas sistematizou e elaborou uma experiência de classe (porém, nos estudos da história política tradicional, como de Woodcock, a ideia que formamos é de que o anarquismo surge como uma elaboração intelectual e não como parte da experiência da classe numa ideologia mais ou menos sistematizada). 

- Distinção ideologia/teoria: acho que outra questão, colocada brevemente por comentários mas também por você e que queria me posicionar é a diferença entre teoria e ideologia e que no texto está um pouco confuso. Sem dúvida alguma Kropotkin e E. Reclús possuíam leituras distintas da realidade. Assim como Bakunin, Proudhon, Malatesta. O que os une não é a teoria que utilizavam para compreender a realidade mas sim a questão ideológica. Este ponto resolveria alguns &quot;nós&quot; das questões colocadas pelo artigo. Os anarquistas do ponto de vista histórico utilizaram noções diferentes para compreender a realidade (diferentes &quot;teorias), mas do ponto de vista ideológico, mantiveram as questões estratégicas e de princípios mais ou menos coerente (unidade ideológica). Podemos afirmar que o que caracteriza o anarquismo é o campo ideológico e não necessariamente o campo da teoria. Podemos ter organizações anarquistas com diferentes leituras da realidade e distintas matizes de aberturas teóricas. Assim como, podemos ter libertários que utilizam a mesma teoria que os anarquistas para compreender a realidade, mas que ideologicamente &quot;divergem&quot; sobre as estratégias utilizadas para mudança da realidade. Ainda que taticamente, como colocada por Felipe C. a colaboração é bem vinda e necessária (não vou chover no molhado, mas ainda que eu seja anarquista e milite numa organização anarquista, participo também de uma organização que tem também autonomistas, libertários, etc. neste sentido mais amplo que você discorreu). 

- A abertura teórica e a unidade ideológica dentro do anarquismo foi sustentada pelo anarquista japonês Ôsugi Sakae (2011), que sugeriu: “atuar como um crente, pensar como um cético”. Essa frase resume bem por exemplo, a relação do especifismo por exemplo, com a teoria/ideologia. Por isto, acho complexo, classificar o especifismo apenas como um &quot;anarquismo clássico&quot;. Do ponto de vista ideológico - sem dúvida alguma - o especifismo retoma os &quot;clássicos&quot; (mas ainda sim, do ponto de vista ideológico ele é uma realaboração com um contexto histórico distinto, pensando a ideologia sempre à partir de seu tempo). Mas do ponto de vista teórico, o especifismo é aberto a diferentes contribuições teóricas (não vou expor aqui as diferenças, mas se olharmos para a A. Latina, veremos distintas incorporações na análise das org. anarquistas especifistas, que desmontam a tese do especifismo como &quot;dogmático&quot; em relação a teoria (não que você tenha afirmado isto, mas é um senso comum reafirmado informalmente).

- Outro problema (voltando a questão da história política tradicional) em organizar o campo libertário pelos autores é juntar contextos históricos completamente distintos. Contextos da classe trabalhadora também diferentes. É impossível compreender Proudhon fora da realidade francesa do século XIX, assim como o especifismo, o próprio Castoriadis e o setor &quot;autonomista&quot; fora dos dilemas da classe trabalhadora. Não acho que isto seja chover no molhado, acho que só enriqueceria sua análise. Mas como você mesmo disse, você não é historiador e optou por um tipo de análise. Mas é difícil compreender o anarquismo sem uma leitura da história na minha visão. Para compreendermos Bookchin e sua recusa ao anarquismo no final da vida, devemos entender também o anarquismo estado-unidense, que profundamente influenciado pelos individualistas (Stirner, Hakim Bey, etc.) fez (na minha percepção) Bookchin rejeitar o anarquismo no fim da vida. 


- O anti-estatismo como base para aglutinar diferentes autores anarquistas: não creio que isso seja suficiente para unir pensadores tão díspares. Hakim Bey por exemplo defende abandonarmos os &quot;projetos de transformação social&quot; e nos concentrarmos nas &quot;Zonas Autônomas Temporárias&quot;. Sua recusa ao estado é puramente retórica e ouso dizer, liberal, pois a recusa ao estado de Bey redunda na saída individual e privatizada. Não estou dizendo que aqueles que usam Bey o são liberais, mas faço uma crítica ao autor. Não há em Bey nenhuma proposta, nenhuma estratégia de libertação coletiva e tampouco princípios ancorados no tronco histórico do anarquismo (classismo, ação direta, necessidade de se mobilizar coletivamente, necessidade do anarquismo estar ligado a classe trabalhadora, etc.). Vou recomendar, se não for por favor novamente interpretado como arrogância, um texto que escrevi, crítico dessa noção anti-estatista como a base do anarquismo. http://www.anarkismo.net/article/20240  Outro texto que valeria a pena ler (pois há confluência com muitas das suas proposições críticas sobre o setor libertário) é o de Gutiérrez, o livro &quot;Problemas e possibilidades do Anarquismo&quot;, que fala dessa necessidade de auto-crítica.

- Em relação as suas ponderações sobre o pós-modernismo, concordo com quase tudo o que você disse. Assim como da necessidade de diálogo entre o campo libertário e o anarquismo. Mas creio que o campo libertário precisa se &quot;constituir&quot; numa fisionomia mais bem definida. Nesse sentido o seu artigo abre uma possibilidade de traçar os contornos dessa fisionomia, o que já é um trabalho de Sísifo. 

- Concordo também que o marxismo mais heterodoxo pode servir do ponto de vista teórico para os anarquista repensarem suas análises. Não há porque ignorar a leitura por &quot;rusgas&quot; e &quot;polaridades&quot; política, que como você mesmo afirmou no artigo, são frutos de contextos específicos e precisam ser reavaliadas. Me incomoda por exemplo, a posição frequente de anti-marxismo em alguns anarquistas. Acho que isso tem haver com certos contextos (nos anos 80 por exemplo isso é uma marca forte).  

- À título de exemplo desta colaboração João Bernardo escreveu um excelente prefácio de uma cartilha de formação do MTD Pela Base, movimento social que eu participo, ainda que do ponto de vista ideológico, discorde atualmente da forma recente com que João Bernardo trata os anarquistas nos comentários e artigos no site (pouco complexos em relação aos seus artigos e que sofreram o protesto em alguns comentários postos aqui). Sou um leitor habitualmente simpático de seus artigos e creio que ele tem muito a colaborar do ponto de vista da teoria (a tese dos gestores como algo que mais me chama atenção). Digo isso abertamente, sem qualquer hipocrisia. Creio que muita gente gostaria de dizer o mesmo mas não teve coragem de se expor ou &quot;varre a sujeira para debaixo do tapete&quot;. 

- E para finalizar, ainda que este não seja o espaço adequado, deixo aqui o convite para um Círculo de Estudos Libertários Ideal Peres sobre este ou qualquer tema. O CELIP apesar de um espaço ligado a uma organização anarquista é aberto a contribuições libertárias das mais diversas. 


Espero que esse comentário encontre você do modo mais fraterno possível,

Abraços,
Rafael]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Marcelo, só para esclarecer (Felipe C. falou muito do que eu ia queria dizer) quando eu recomendei um texto (uma &#8220;ousadia&#8221; habitual dos leitores do site aos autores dos artigos) em nenhum momento quis lhe ofender (se o fiz, deixo aqui registrado minhas sinceras desculpas). </p>
<p>Faço um debate muito mais baseado no campo da &#8220;pesquisa&#8221; do que propriamente um debate &#8220;ideológico&#8221;. Creio que o espírito do site é esse mesmo de debate. Não vou responder nenhum comentário mais exaltado seu ou de qualquer outro, pois creio que há muito ruído e desinformação no meio de comentários dos mais diferentes &#8220;tons&#8221; publicados aqui. Coloquei o texto justamente para embasar o que estou dizendo, ao contrário de muitos comentários que eu vi aqui de leitores do artigo sobre o anarquismo, completamente ancorados em preconceitos (ou piadas, desqualificação, achismo, etc. etc.). </p>
<p>Sou simpático a tudo o que venha do campo libertário no sentido mais amplo que você coloca (teoria/prática), mas como colocado por outros comentadores há um debate mais aprofundado em relação ao estudo do anarquismo que pode elucidar questões teóricas relevantes. Nesse sentido o debate é também &#8220;bibliográfico&#8221;.</p>
<p>Vou comentar muito rapidamente algumas questões que você colocou (do ponto de vista da teoria). </p>
<p>&#8211; Sobre o desprezo de Castoriadis do Anarquismo: acho que poderíamos relativizar essa afirmação. Não tenho certeza sobre isto. Não domino toda a obra de Castoriadis, mas sou um leitor frequente. Há uma entrevista publicada em VOLKER, Paulo; CORDEIRO, Renato Caporalli; PURRI, Victor José Bicalho et al. Revolução e Autonomia: um perfil político de C. Castoriadis. Belo Horizonte: COPEC, 1981, na qual Castoriadis afirma que o anarquismo é o único que coloca a questão da autonomia seriamente (estou afirmando de &#8220;memória&#8221; por que não tenho o livro em mãos, creio que a frase é sensivelmente diferente do que me recordo, mas a afirmação na época que fiz a leitura me pareceu bastante elogiosa). Devem haver outros comentários menos elogiosos. Se há comentários elogiosos ou não, isso não muda o fato de Castoriadis ter contribuído com o campo libertário de maneira mais ampla, como você apontou. Suas teses políticas, ainda que com diferenças significativas em relação ao anarquismo &#8220;jogam água&#8221; no moinho dos anarquistas. Outra coisa é que eu tenho forte impressão que Castoriadis tenha lido os anarquistas (como um amigo diz, ele leu tudo). Algumas posições suas do ponto de vista teórico se aproximam de questões postas pelos anarquistas (poderia discorrer mais amplamente sobre isso, mas Bakunin me parece a presença mais marcante em algumas questões).</p>
<p>&#8211; Em relação a metodologia. Reafirmo que há uma tendência grande (e pronta a ser elaborada e consolidada nos estudos atuais) de desconstruir as noções essencialistas da História Política. Noções essas que &#8220;pautaram&#8221; o estudo do anarquismo em classificações tipológicas (sendo Woodcock o maior expoente). Proudhon por exemplo não &#8220;criou&#8221; o anarquismo, mas sistematizou e elaborou uma experiência de classe (porém, nos estudos da história política tradicional, como de Woodcock, a ideia que formamos é de que o anarquismo surge como uma elaboração intelectual e não como parte da experiência da classe numa ideologia mais ou menos sistematizada). </p>
<p>&#8211; Distinção ideologia/teoria: acho que outra questão, colocada brevemente por comentários mas também por você e que queria me posicionar é a diferença entre teoria e ideologia e que no texto está um pouco confuso. Sem dúvida alguma Kropotkin e E. Reclús possuíam leituras distintas da realidade. Assim como Bakunin, Proudhon, Malatesta. O que os une não é a teoria que utilizavam para compreender a realidade mas sim a questão ideológica. Este ponto resolveria alguns &#8220;nós&#8221; das questões colocadas pelo artigo. Os anarquistas do ponto de vista histórico utilizaram noções diferentes para compreender a realidade (diferentes &#8220;teorias), mas do ponto de vista ideológico, mantiveram as questões estratégicas e de princípios mais ou menos coerente (unidade ideológica). Podemos afirmar que o que caracteriza o anarquismo é o campo ideológico e não necessariamente o campo da teoria. Podemos ter organizações anarquistas com diferentes leituras da realidade e distintas matizes de aberturas teóricas. Assim como, podemos ter libertários que utilizam a mesma teoria que os anarquistas para compreender a realidade, mas que ideologicamente &#8220;divergem&#8221; sobre as estratégias utilizadas para mudança da realidade. Ainda que taticamente, como colocada por Felipe C. a colaboração é bem vinda e necessária (não vou chover no molhado, mas ainda que eu seja anarquista e milite numa organização anarquista, participo também de uma organização que tem também autonomistas, libertários, etc. neste sentido mais amplo que você discorreu). </p>
<p>&#8211; A abertura teórica e a unidade ideológica dentro do anarquismo foi sustentada pelo anarquista japonês Ôsugi Sakae (2011), que sugeriu: “atuar como um crente, pensar como um cético”. Essa frase resume bem por exemplo, a relação do especifismo por exemplo, com a teoria/ideologia. Por isto, acho complexo, classificar o especifismo apenas como um &#8220;anarquismo clássico&#8221;. Do ponto de vista ideológico &#8211; sem dúvida alguma &#8211; o especifismo retoma os &#8220;clássicos&#8221; (mas ainda sim, do ponto de vista ideológico ele é uma realaboração com um contexto histórico distinto, pensando a ideologia sempre à partir de seu tempo). Mas do ponto de vista teórico, o especifismo é aberto a diferentes contribuições teóricas (não vou expor aqui as diferenças, mas se olharmos para a A. Latina, veremos distintas incorporações na análise das org. anarquistas especifistas, que desmontam a tese do especifismo como &#8220;dogmático&#8221; em relação a teoria (não que você tenha afirmado isto, mas é um senso comum reafirmado informalmente).</p>
<p>&#8211; Outro problema (voltando a questão da história política tradicional) em organizar o campo libertário pelos autores é juntar contextos históricos completamente distintos. Contextos da classe trabalhadora também diferentes. É impossível compreender Proudhon fora da realidade francesa do século XIX, assim como o especifismo, o próprio Castoriadis e o setor &#8220;autonomista&#8221; fora dos dilemas da classe trabalhadora. Não acho que isto seja chover no molhado, acho que só enriqueceria sua análise. Mas como você mesmo disse, você não é historiador e optou por um tipo de análise. Mas é difícil compreender o anarquismo sem uma leitura da história na minha visão. Para compreendermos Bookchin e sua recusa ao anarquismo no final da vida, devemos entender também o anarquismo estado-unidense, que profundamente influenciado pelos individualistas (Stirner, Hakim Bey, etc.) fez (na minha percepção) Bookchin rejeitar o anarquismo no fim da vida. </p>
<p>&#8211; O anti-estatismo como base para aglutinar diferentes autores anarquistas: não creio que isso seja suficiente para unir pensadores tão díspares. Hakim Bey por exemplo defende abandonarmos os &#8220;projetos de transformação social&#8221; e nos concentrarmos nas &#8220;Zonas Autônomas Temporárias&#8221;. Sua recusa ao estado é puramente retórica e ouso dizer, liberal, pois a recusa ao estado de Bey redunda na saída individual e privatizada. Não estou dizendo que aqueles que usam Bey o são liberais, mas faço uma crítica ao autor. Não há em Bey nenhuma proposta, nenhuma estratégia de libertação coletiva e tampouco princípios ancorados no tronco histórico do anarquismo (classismo, ação direta, necessidade de se mobilizar coletivamente, necessidade do anarquismo estar ligado a classe trabalhadora, etc.). Vou recomendar, se não for por favor novamente interpretado como arrogância, um texto que escrevi, crítico dessa noção anti-estatista como a base do anarquismo. <a href="http://www.anarkismo.net/article/20240" rel="nofollow ugc">http://www.anarkismo.net/article/20240</a>  Outro texto que valeria a pena ler (pois há confluência com muitas das suas proposições críticas sobre o setor libertário) é o de Gutiérrez, o livro &#8220;Problemas e possibilidades do Anarquismo&#8221;, que fala dessa necessidade de auto-crítica.</p>
<p>&#8211; Em relação as suas ponderações sobre o pós-modernismo, concordo com quase tudo o que você disse. Assim como da necessidade de diálogo entre o campo libertário e o anarquismo. Mas creio que o campo libertário precisa se &#8220;constituir&#8221; numa fisionomia mais bem definida. Nesse sentido o seu artigo abre uma possibilidade de traçar os contornos dessa fisionomia, o que já é um trabalho de Sísifo. </p>
<p>&#8211; Concordo também que o marxismo mais heterodoxo pode servir do ponto de vista teórico para os anarquista repensarem suas análises. Não há porque ignorar a leitura por &#8220;rusgas&#8221; e &#8220;polaridades&#8221; política, que como você mesmo afirmou no artigo, são frutos de contextos específicos e precisam ser reavaliadas. Me incomoda por exemplo, a posição frequente de anti-marxismo em alguns anarquistas. Acho que isso tem haver com certos contextos (nos anos 80 por exemplo isso é uma marca forte).  </p>
<p>&#8211; À título de exemplo desta colaboração João Bernardo escreveu um excelente prefácio de uma cartilha de formação do MTD Pela Base, movimento social que eu participo, ainda que do ponto de vista ideológico, discorde atualmente da forma recente com que João Bernardo trata os anarquistas nos comentários e artigos no site (pouco complexos em relação aos seus artigos e que sofreram o protesto em alguns comentários postos aqui). Sou um leitor habitualmente simpático de seus artigos e creio que ele tem muito a colaborar do ponto de vista da teoria (a tese dos gestores como algo que mais me chama atenção). Digo isso abertamente, sem qualquer hipocrisia. Creio que muita gente gostaria de dizer o mesmo mas não teve coragem de se expor ou &#8220;varre a sujeira para debaixo do tapete&#8221;. </p>
<p>&#8211; E para finalizar, ainda que este não seja o espaço adequado, deixo aqui o convite para um Círculo de Estudos Libertários Ideal Peres sobre este ou qualquer tema. O CELIP apesar de um espaço ligado a uma organização anarquista é aberto a contribuições libertárias das mais diversas. </p>
<p>Espero que esse comentário encontre você do modo mais fraterno possível,</p>
<p>Abraços,<br />
Rafael</p>
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