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	Comentários sobre: Apropriação do poder político e superação do Estado na transição socialista. 3) a ditadura do proletariado como “Estado” transicional	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Pablo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/11/88434/#comment-167756</link>

		<dc:creator><![CDATA[Pablo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Jan 2014 18:19:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Prezada Louise Rafaeli,

Sua pergunta toca no centro do debate que estou propondo.

Concordo que haja uma inflexão no interior do pensamento de Marx, entretanto minha interpretação é a de que não há uma ruptura e sim um aprofundamento pós-1871 da visão anti-estatal ou, como vc chamou, conselhista. Defendo que Marx manteve, de 1843 (&quot;Questão Judaica&quot;, &quot;Introdução à crítica da Filosofia do Direito de Hegel&quot;, &quot;Glosas marginais ao artigo o rei da Prússia e a reforma social&quot;) até sua morte, uma visão &quot;negativa da política&quot;, onde o Estado e demais órgãos políticos aparecem como incapazes de operar os revolucionamentos orgânicos (no chão econômico) no sociometabolismo controlado pelo capital. Decretos políticos e demais subterfúgios da esfera política aparecem então como capazes apenas de destruir e negar os fundamentos formais do domínio de classe da burguesia (propriedade privada, por exemplo), mas não são capazes de operar os aspectos construtivos, positivos, a superação dos fundamentos reais do controle capitalista (as mediações de segunda ordem), ou seja, justamente por serem políticos, operam ainda dentro da esfera da política, da negação, da classe contra classe, e são por isso incapazes de levar a cabo todas as tarefas da transição. A política só tem tarefas a cumprir enquanto a classe burguesa ainda precisar ser esmagada e expelida do sociometabolismo, ou seja, tem tarefas apenas enquanto houver luta de classes, mas como o objetivo da transição é ir para além do capital e das mediações alienadas de segunda ordem, e não para além apenas do Capitalismo e dos capitalistas (isso até a URSS conseguiu, sem com isso superar o capital), então a forma política de luta contra o capital aparece como limitada, como incapaz de levar a transição até onde ela precisa ir para completar a superação do capital. A política é incapaz de criar os órgãos sociometabólicos capazes de se pôr como órgãos de poder popular alternativos ao controle capitalista da produção e reprodução da vida social. A política aparece, portanto, como necessária apenas nas primeiras fases da transição, e o próprio objetivo estratégico de longo prazo impõe que a transição não se centre em órgãos políticos sequer nesse começo, pois o próprio caráter político desses órgãos os torna viciados na forma política de luta política, ou seja, na forma classe contra classe (enquanto a luta comunista significa fim das classes e não substituição do controle de uma classe, a burguesia, por outra, os trabalhadores). Se a política, e em especial, a forma-Estado, tem esse vício embutido na própria forma, então não há de se defender um Estado transicional dos trabalhadores, e sim órgãos não estatais, de poder popular, órgãos de controle sociometabólico capazes de substituir os aparatos de controle capitalista, ou seja, capazes de operar a reapropriação dos poderes socioprodutivos do trabalho, historicamente usurpados pelo capital, nas subsunções formal e real do trabalho ao capital. Por isso, defendo que Marx nunca vislumbrou o Estado (qualquer Estado, mesmo o &quot;proletário&quot;) como órgão da transição, mas me parece que antes da &quot;forma política finalmente descoberta&quot; da Comuna, ele tinha muito cuidado em apontar o caráter dos órgãos de transição. Ele tinha receios, não sabia muito bem como tratar o tema. Acho que isso se deve a que as experiências de 1848 não haviam sido capazes de apontar um caminho possível, uma mediação política possível. A Comuna de Paris foi capaz de mostrar esse caminho possível, dando novo fôlego à teoria da transição. Por essas e outras, pra mim Marx sempre foi um conselhista, e jamais defendeu formas centralizadas e Estatais de transição socialista. Como o pensamento dele estava sujeito às contradições do real, há momentos em que ele acaba saindo desse roteiro norteador, defendendo visões que se aproximam em algum grau de centralismo e até de nacionalismo (como João Valente e João Bernardo têm se esforçado em mostrar, há ambiguidades e contradições internas ao pensamento de Marx), entretanto, pra mim, essas raras exceções são muitas vezes decorrentes de manobras políticas do contexto, e só confirmam a regra anti-estatal, internacionalista e conselhista da teoria da transição em Marx. 

Outra questão latente nessa minha forma de interpretar, é a dos órgãos de luta. Me parece que tal como a forma-Estado tem embutido em si mesma os vícios do capital (hierarquia, etc), do mesmo modo os órgãos clássicos de luta política tem esses vícios embutidos: Partido e Sindicato. A meu ver esses órgãos tem muitas funções na transição, especialmente o Partido, mas a própria estrutura do Partido leva à busca pelo poder e pela manutenção de hierarquias, portanto a autocrítica permanente/democracia substantiva e a revolução permanente, dois valores básicos da transição socialista, não podem ser garantidos pela forma de luta via Partido. Temos aqui um abacaxi gigantesco, pois tal como a política, os órgãos de luta política são simultaneamente necessários (às primeiras fases da transição socialista) e necessariamente devem ser suprimidos por órgãos de poder popular não estatais, não-partidários.

Tudo isso é apenas minha interpretação, que torno pública a fim de que discutamos seus pontos principais, que me parecem essenciais pra nós, que lutamos pela superação do capital.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Prezada Louise Rafaeli,</p>
<p>Sua pergunta toca no centro do debate que estou propondo.</p>
<p>Concordo que haja uma inflexão no interior do pensamento de Marx, entretanto minha interpretação é a de que não há uma ruptura e sim um aprofundamento pós-1871 da visão anti-estatal ou, como vc chamou, conselhista. Defendo que Marx manteve, de 1843 (&#8220;Questão Judaica&#8221;, &#8220;Introdução à crítica da Filosofia do Direito de Hegel&#8221;, &#8220;Glosas marginais ao artigo o rei da Prússia e a reforma social&#8221;) até sua morte, uma visão &#8220;negativa da política&#8221;, onde o Estado e demais órgãos políticos aparecem como incapazes de operar os revolucionamentos orgânicos (no chão econômico) no sociometabolismo controlado pelo capital. Decretos políticos e demais subterfúgios da esfera política aparecem então como capazes apenas de destruir e negar os fundamentos formais do domínio de classe da burguesia (propriedade privada, por exemplo), mas não são capazes de operar os aspectos construtivos, positivos, a superação dos fundamentos reais do controle capitalista (as mediações de segunda ordem), ou seja, justamente por serem políticos, operam ainda dentro da esfera da política, da negação, da classe contra classe, e são por isso incapazes de levar a cabo todas as tarefas da transição. A política só tem tarefas a cumprir enquanto a classe burguesa ainda precisar ser esmagada e expelida do sociometabolismo, ou seja, tem tarefas apenas enquanto houver luta de classes, mas como o objetivo da transição é ir para além do capital e das mediações alienadas de segunda ordem, e não para além apenas do Capitalismo e dos capitalistas (isso até a URSS conseguiu, sem com isso superar o capital), então a forma política de luta contra o capital aparece como limitada, como incapaz de levar a transição até onde ela precisa ir para completar a superação do capital. A política é incapaz de criar os órgãos sociometabólicos capazes de se pôr como órgãos de poder popular alternativos ao controle capitalista da produção e reprodução da vida social. A política aparece, portanto, como necessária apenas nas primeiras fases da transição, e o próprio objetivo estratégico de longo prazo impõe que a transição não se centre em órgãos políticos sequer nesse começo, pois o próprio caráter político desses órgãos os torna viciados na forma política de luta política, ou seja, na forma classe contra classe (enquanto a luta comunista significa fim das classes e não substituição do controle de uma classe, a burguesia, por outra, os trabalhadores). Se a política, e em especial, a forma-Estado, tem esse vício embutido na própria forma, então não há de se defender um Estado transicional dos trabalhadores, e sim órgãos não estatais, de poder popular, órgãos de controle sociometabólico capazes de substituir os aparatos de controle capitalista, ou seja, capazes de operar a reapropriação dos poderes socioprodutivos do trabalho, historicamente usurpados pelo capital, nas subsunções formal e real do trabalho ao capital. Por isso, defendo que Marx nunca vislumbrou o Estado (qualquer Estado, mesmo o &#8220;proletário&#8221;) como órgão da transição, mas me parece que antes da &#8220;forma política finalmente descoberta&#8221; da Comuna, ele tinha muito cuidado em apontar o caráter dos órgãos de transição. Ele tinha receios, não sabia muito bem como tratar o tema. Acho que isso se deve a que as experiências de 1848 não haviam sido capazes de apontar um caminho possível, uma mediação política possível. A Comuna de Paris foi capaz de mostrar esse caminho possível, dando novo fôlego à teoria da transição. Por essas e outras, pra mim Marx sempre foi um conselhista, e jamais defendeu formas centralizadas e Estatais de transição socialista. Como o pensamento dele estava sujeito às contradições do real, há momentos em que ele acaba saindo desse roteiro norteador, defendendo visões que se aproximam em algum grau de centralismo e até de nacionalismo (como João Valente e João Bernardo têm se esforçado em mostrar, há ambiguidades e contradições internas ao pensamento de Marx), entretanto, pra mim, essas raras exceções são muitas vezes decorrentes de manobras políticas do contexto, e só confirmam a regra anti-estatal, internacionalista e conselhista da teoria da transição em Marx. </p>
<p>Outra questão latente nessa minha forma de interpretar, é a dos órgãos de luta. Me parece que tal como a forma-Estado tem embutido em si mesma os vícios do capital (hierarquia, etc), do mesmo modo os órgãos clássicos de luta política tem esses vícios embutidos: Partido e Sindicato. A meu ver esses órgãos tem muitas funções na transição, especialmente o Partido, mas a própria estrutura do Partido leva à busca pelo poder e pela manutenção de hierarquias, portanto a autocrítica permanente/democracia substantiva e a revolução permanente, dois valores básicos da transição socialista, não podem ser garantidos pela forma de luta via Partido. Temos aqui um abacaxi gigantesco, pois tal como a política, os órgãos de luta política são simultaneamente necessários (às primeiras fases da transição socialista) e necessariamente devem ser suprimidos por órgãos de poder popular não estatais, não-partidários.</p>
<p>Tudo isso é apenas minha interpretação, que torno pública a fim de que discutamos seus pontos principais, que me parecem essenciais pra nós, que lutamos pela superação do capital.</p>
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		<title>
		Por: Louise Rafaeli		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/11/88434/#comment-167709</link>

		<dc:creator><![CDATA[Louise Rafaeli]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Jan 2014 15:34:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caros,

Muito bom o texto, Pablo Polese! Mas tenho uma dúvida.

Parece me que no interior do pensamento de Marx a uma inflexão após o evento da Comuna - pelo que comentou. Em linhas gerais pode-se dizer que:

&quot;Manifesto do Partido Comunista&quot;:
*O movimento é de centralizacäo, de agigantamento do poder estatal, o que coincide com algumas citações de Engels (nos seus textos anteriores). 
*O Estado como agente da ditadura do proletariado, ou seja, ao tomar a máquina estatal o proletariado utiliza-se dela para expropriar (estatizar) a propriedade capitalista, e , consequentemente ampliando  as funções do estado, sua máquina burocrática e seu aparelho repressor. 

Já na “Guerra Civil na Franca”: 
*o movimento é inverso, de descentralizacäo e reducäo da máquina estatal às funções essenciais (a administracäo do &quot;direito burguês&quot;, etc). 
* Aqui a perspectiva é a de tomar o Estado e desmontá-lo o máximo possível, transferindo as funções estatais aos conselhos

Essa difença é substancial ou apenas nominal? Pelo seu texto para substancial... Mas, no final das contas, na efetividade do processo histórico acaba sendo &quot;o proletariado organizado&quot;.

Raymond Aron, contrapondo as visões de Marx, Engels e Lenin, argumenta que Marx oscila entre a visão comunal e a jacobina, e que este é o ponto nevrálgico de controvérsias entre os marxistas conselhistas e os bolchevistas.

E embora tenha respondido a questão do João Bernardo, ainda reitero o comentário - as vezes, colocam Marx como um “liberal radical anarquizante”, contextualizar o momento histórico da comuna, e os debates e táticas dos grupos que constituiriam a Internacional parece contribuir para precisar melhor o pensamento desses indivíduos - resolução metodológica arquitetada pelo próprio Marx.

Por hora, se já esclareceu a questão em outros textos desconsidera-a, por gentileza.

Grata.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caros,</p>
<p>Muito bom o texto, Pablo Polese! Mas tenho uma dúvida.</p>
<p>Parece me que no interior do pensamento de Marx a uma inflexão após o evento da Comuna &#8211; pelo que comentou. Em linhas gerais pode-se dizer que:</p>
<p>&#8220;Manifesto do Partido Comunista&#8221;:<br />
*O movimento é de centralizacäo, de agigantamento do poder estatal, o que coincide com algumas citações de Engels (nos seus textos anteriores).<br />
*O Estado como agente da ditadura do proletariado, ou seja, ao tomar a máquina estatal o proletariado utiliza-se dela para expropriar (estatizar) a propriedade capitalista, e , consequentemente ampliando  as funções do estado, sua máquina burocrática e seu aparelho repressor. </p>
<p>Já na “Guerra Civil na Franca”:<br />
*o movimento é inverso, de descentralizacäo e reducäo da máquina estatal às funções essenciais (a administracäo do &#8220;direito burguês&#8221;, etc).<br />
* Aqui a perspectiva é a de tomar o Estado e desmontá-lo o máximo possível, transferindo as funções estatais aos conselhos</p>
<p>Essa difença é substancial ou apenas nominal? Pelo seu texto para substancial&#8230; Mas, no final das contas, na efetividade do processo histórico acaba sendo &#8220;o proletariado organizado&#8221;.</p>
<p>Raymond Aron, contrapondo as visões de Marx, Engels e Lenin, argumenta que Marx oscila entre a visão comunal e a jacobina, e que este é o ponto nevrálgico de controvérsias entre os marxistas conselhistas e os bolchevistas.</p>
<p>E embora tenha respondido a questão do João Bernardo, ainda reitero o comentário &#8211; as vezes, colocam Marx como um “liberal radical anarquizante”, contextualizar o momento histórico da comuna, e os debates e táticas dos grupos que constituiriam a Internacional parece contribuir para precisar melhor o pensamento desses indivíduos &#8211; resolução metodológica arquitetada pelo próprio Marx.</p>
<p>Por hora, se já esclareceu a questão em outros textos desconsidera-a, por gentileza.</p>
<p>Grata.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Pablo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/11/88434/#comment-154352</link>

		<dc:creator><![CDATA[Pablo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Dec 2013 03:18:51 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=88434#comment-154352</guid>

					<description><![CDATA[Caro João Valente,
Me parece que o senhor conhece alguns aspectos da obra de Marx que desconheço. As vezes que li Marx falando algo próximo a essa &quot;reconversão (democrática) do aparelho de Estado&quot; a que o senhor se refere, sempre foram no contexto de melhorar as condições de luta da classe trabalhadora em âmbito nacional, e nunca como um fim em si. Em tudo que li de Marx o Estado, tal como o capital, aparecem sempre como irreformáveis, sendo o aparato estatal inerentemente adequado, por sua própria forma, ao sistema do capital, e inadequado para as tarefas da transição socialista. Nas glosas de Marx ao texto &quot;Estatismo e anarquia&quot; de Bakunin Marx chega a dizer que o órgão de repressão e exploração nunca poderá ser o órgão da superação, mas diz que antes da superação do capital se completar a classe trabalhadora &quot;emprega meios de libertação que deixarão de existir depois da libertação&quot;, numa clara referência a alguns dos órgãos do aparato estatal, que é visto então como um meio político dotado de alguns órgãos políticos particulares que em mãos dos trabalhadores passariam a ter algumas tarefas a cumprir na transição, como por exemplo a defesa armada face à contra-revolução, etc. Entretanto tanto essas Glosas de 1874 ao texto de Bakunin quanto o texto Crítica ao Programa de Gotha de 1875 foram redigidos como uma defesa de Marx, por um lado, às acusações de estatista que Bakunin lhe havia feito, por outro lado, ao caráter estatista do Programa de Gotha, que Marx trata de criticar.

Sobre sua dedução de que o trato de Marx sobre a questão polaca e irlandesa seria o mesmo que &quot;dizer, orientar o operariado para a construção de um novo Estado nacional, o que necessariamente implica uma dominação de classe e a constituição de uma camada dirigente minoritária que tomará conta dos destinos do novo Estado&quot;. Não posso dizer muito. Concordo que a construção de um novo Estado nacional implicaria isso que o senhor diz, entretanto desconheço os textos de Marx sobre a questão polaca e irlandesa, portanto não posso dizer se concordo com sua dedução. Em todo caso, a defesa de Marx de um novo Estado nacional como meio para a transição socialista me soaria surpreendente vindo de Marx em qualquer data, e eu arriscaria dizer que depois da &quot;forma politica finalmente encontrada&quot; de 1871 não há em seus escritos nenhum resquício de tal política nacionalista.
Sobre a questão dos gestores, acho sua pesquisa e a do JB muito interessantes e só tenho a aprender. Sua pista de que a abordagem de Marx abrira um precedente à prática de Lenin me parece interessantíssima.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro João Valente,<br />
Me parece que o senhor conhece alguns aspectos da obra de Marx que desconheço. As vezes que li Marx falando algo próximo a essa &#8220;reconversão (democrática) do aparelho de Estado&#8221; a que o senhor se refere, sempre foram no contexto de melhorar as condições de luta da classe trabalhadora em âmbito nacional, e nunca como um fim em si. Em tudo que li de Marx o Estado, tal como o capital, aparecem sempre como irreformáveis, sendo o aparato estatal inerentemente adequado, por sua própria forma, ao sistema do capital, e inadequado para as tarefas da transição socialista. Nas glosas de Marx ao texto &#8220;Estatismo e anarquia&#8221; de Bakunin Marx chega a dizer que o órgão de repressão e exploração nunca poderá ser o órgão da superação, mas diz que antes da superação do capital se completar a classe trabalhadora &#8220;emprega meios de libertação que deixarão de existir depois da libertação&#8221;, numa clara referência a alguns dos órgãos do aparato estatal, que é visto então como um meio político dotado de alguns órgãos políticos particulares que em mãos dos trabalhadores passariam a ter algumas tarefas a cumprir na transição, como por exemplo a defesa armada face à contra-revolução, etc. Entretanto tanto essas Glosas de 1874 ao texto de Bakunin quanto o texto Crítica ao Programa de Gotha de 1875 foram redigidos como uma defesa de Marx, por um lado, às acusações de estatista que Bakunin lhe havia feito, por outro lado, ao caráter estatista do Programa de Gotha, que Marx trata de criticar.</p>
<p>Sobre sua dedução de que o trato de Marx sobre a questão polaca e irlandesa seria o mesmo que &#8220;dizer, orientar o operariado para a construção de um novo Estado nacional, o que necessariamente implica uma dominação de classe e a constituição de uma camada dirigente minoritária que tomará conta dos destinos do novo Estado&#8221;. Não posso dizer muito. Concordo que a construção de um novo Estado nacional implicaria isso que o senhor diz, entretanto desconheço os textos de Marx sobre a questão polaca e irlandesa, portanto não posso dizer se concordo com sua dedução. Em todo caso, a defesa de Marx de um novo Estado nacional como meio para a transição socialista me soaria surpreendente vindo de Marx em qualquer data, e eu arriscaria dizer que depois da &#8220;forma politica finalmente encontrada&#8221; de 1871 não há em seus escritos nenhum resquício de tal política nacionalista.<br />
Sobre a questão dos gestores, acho sua pesquisa e a do JB muito interessantes e só tenho a aprender. Sua pista de que a abordagem de Marx abrira um precedente à prática de Lenin me parece interessantíssima.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Pablo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/11/88434/#comment-154345</link>

		<dc:creator><![CDATA[Pablo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Dec 2013 02:38:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caro João Bernardo,
Creio que tivemos um problema de comunicação aqui, e certamente a culpa foi minha, já que escrevi o texto. Veja, esse terceiro artigo não trata da Comuna, e sim da interpretação de Marx da Comuna. Já li alguns historiadores falando da Comuna, inclusive o Lissagaray e o Jaques Rougerie, mas nesse artigo não faria sentido eu usar ou citar qualquer dos trabalhos que li porque mais importante do que o que a Comuna foi de fato, é o que Marx “pensava” que ela fora. Isso porque o propósito desse terceiro artigo da série é, por um lado, diferenciar a abordagem de Marx da abordagem de Engels (segundo artigo da série) a fim de comprovar que Marx não vislumbrava o Estado sequer como órgão capaz (ou encarregado) de centralizar as forças produtivas para tornar viável a transição. Pretendi mostrar que a Comuna, na interpretação de Marx, era o oposto a qualquer Estado, e era, simultaneamente, o órgão político da transição, ou seja, a concepção de Marx da transição não trabalha com qualquer tipo de atribuição a um Estado, seja ou não um Estado em mãos da classe trabalhadora. A intenção é mostrar que não há qualquer resquício de Estatismo na abordagem de Marx, ao menos em seus escritos sobre a Comuna. Já quanto a algum resquício de Nacionalismo nessa abordagem, de fato reconheci que existem, mas procurei colocá-los como decorrentes da tática e não da estratégia de Marx. Ora, apelar ao nacionalismo como tática, a fim de evitar o tiro no pé do isolamento político e municipal (Paris), era condenar-se, do ponto de vista da estratégia, a um tiro na cabeça? Hoje podemos dizer que sim. Na época poderíamos dizer o mesmo? Ou seja, podemos condenar Marx por tal posicionamento político? Pode até ser que sim, e eu mesmo diria que sim. Mas a meu ver o que não podemos fazer é extrapolar esses apelos marxianos à nação (e Marx contrapunha nação a Estado) feitos no contexto da ofensiva contra-revolucionária de Versalhes, Alemanha, Inglaterra, etc., e apontar tais apelos como se indicassem que Marx era adepto do nacionalismo como base para uma transição socialista. Por isso falei em esquizofrenia, pois frente ao todo da obra de Marx, defender a via nacionalista não seria apenas uma oscilação dentro de uma suposta tensão entre nacionalismo e internacionalismo em sua obra, e sim uma total incongruência e uma total negação de toda sua abordagem crítica da economia política. Mas tudo isso perde importância na medida em que estamos apenas a discutir o que é ou não de Marx. Pois no essencial e mais importante concordamos totalmente João: seja no século XIX ou XXI, a pretensão de juntar a revolução social ao nacionalismo é um tiro na cabeça da transição. O problema é que constatar isso não resolve o problema, pois nada menos que 4 Internacionais foram criadas visando contrarrestar a tendência política ao nacionalismo nas fileiras da classe trabalhadora organizada. E parece-me que o problema é estrutural, já que o capital inevitavelmente opera numa base geográfica dada, com limites territoriais legalmente estabelecidos de forma “estatal”, “regional” e “nacional” (com diferenças culturais, etc e de salário mínimo nacional, por exemplo). E como esse capital geograficamente atuante sabe explorar essas diferenças e aprofunda-as ao desenvolver as geografias de modo desigual, colocando os trabalhadores como inimigos que competem entre si na venda de sua força de trabalho, a solidariedade internacional segue sendo um grande problema a enfrentarmos se quisermos levar a cabo a transição socialista. O poder das ideologias nacionalistas, xenófobas, etc., cresce na contramão da nosso sucesso ou fracasso em fomentar a solidariedade trabalhadora internacional. Falhando nesse fomento, inevitavelmente veremos tentativas de transição apelando para tais sentimentos nacionalistas com vistas a sobreviver à contra-revolução de fora. O pior é que apelar a tais sentimentos já é a contra-revolução atuando por dentro.

p.s: outro exemplo que pensei, além dos que você citou, e que talvez nos coloque a pensar em outros termos, é o exemplo do apelo ao nacionalismo soviético feito por Stálin com vistas ao exército vermelho resistir à ofensiva nazista. Esqueçamos que se tratava de Stálin e tudo que o stalinismo implica. Supondo que fosse um regime realmente voltado à transição socialista, em apuros por uma contra-revolução nazista. O sentimento nacionalista não deveria ter sido chamado?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro João Bernardo,<br />
Creio que tivemos um problema de comunicação aqui, e certamente a culpa foi minha, já que escrevi o texto. Veja, esse terceiro artigo não trata da Comuna, e sim da interpretação de Marx da Comuna. Já li alguns historiadores falando da Comuna, inclusive o Lissagaray e o Jaques Rougerie, mas nesse artigo não faria sentido eu usar ou citar qualquer dos trabalhos que li porque mais importante do que o que a Comuna foi de fato, é o que Marx “pensava” que ela fora. Isso porque o propósito desse terceiro artigo da série é, por um lado, diferenciar a abordagem de Marx da abordagem de Engels (segundo artigo da série) a fim de comprovar que Marx não vislumbrava o Estado sequer como órgão capaz (ou encarregado) de centralizar as forças produtivas para tornar viável a transição. Pretendi mostrar que a Comuna, na interpretação de Marx, era o oposto a qualquer Estado, e era, simultaneamente, o órgão político da transição, ou seja, a concepção de Marx da transição não trabalha com qualquer tipo de atribuição a um Estado, seja ou não um Estado em mãos da classe trabalhadora. A intenção é mostrar que não há qualquer resquício de Estatismo na abordagem de Marx, ao menos em seus escritos sobre a Comuna. Já quanto a algum resquício de Nacionalismo nessa abordagem, de fato reconheci que existem, mas procurei colocá-los como decorrentes da tática e não da estratégia de Marx. Ora, apelar ao nacionalismo como tática, a fim de evitar o tiro no pé do isolamento político e municipal (Paris), era condenar-se, do ponto de vista da estratégia, a um tiro na cabeça? Hoje podemos dizer que sim. Na época poderíamos dizer o mesmo? Ou seja, podemos condenar Marx por tal posicionamento político? Pode até ser que sim, e eu mesmo diria que sim. Mas a meu ver o que não podemos fazer é extrapolar esses apelos marxianos à nação (e Marx contrapunha nação a Estado) feitos no contexto da ofensiva contra-revolucionária de Versalhes, Alemanha, Inglaterra, etc., e apontar tais apelos como se indicassem que Marx era adepto do nacionalismo como base para uma transição socialista. Por isso falei em esquizofrenia, pois frente ao todo da obra de Marx, defender a via nacionalista não seria apenas uma oscilação dentro de uma suposta tensão entre nacionalismo e internacionalismo em sua obra, e sim uma total incongruência e uma total negação de toda sua abordagem crítica da economia política. Mas tudo isso perde importância na medida em que estamos apenas a discutir o que é ou não de Marx. Pois no essencial e mais importante concordamos totalmente João: seja no século XIX ou XXI, a pretensão de juntar a revolução social ao nacionalismo é um tiro na cabeça da transição. O problema é que constatar isso não resolve o problema, pois nada menos que 4 Internacionais foram criadas visando contrarrestar a tendência política ao nacionalismo nas fileiras da classe trabalhadora organizada. E parece-me que o problema é estrutural, já que o capital inevitavelmente opera numa base geográfica dada, com limites territoriais legalmente estabelecidos de forma “estatal”, “regional” e “nacional” (com diferenças culturais, etc e de salário mínimo nacional, por exemplo). E como esse capital geograficamente atuante sabe explorar essas diferenças e aprofunda-as ao desenvolver as geografias de modo desigual, colocando os trabalhadores como inimigos que competem entre si na venda de sua força de trabalho, a solidariedade internacional segue sendo um grande problema a enfrentarmos se quisermos levar a cabo a transição socialista. O poder das ideologias nacionalistas, xenófobas, etc., cresce na contramão da nosso sucesso ou fracasso em fomentar a solidariedade trabalhadora internacional. Falhando nesse fomento, inevitavelmente veremos tentativas de transição apelando para tais sentimentos nacionalistas com vistas a sobreviver à contra-revolução de fora. O pior é que apelar a tais sentimentos já é a contra-revolução atuando por dentro.</p>
<p>p.s: outro exemplo que pensei, além dos que você citou, e que talvez nos coloque a pensar em outros termos, é o exemplo do apelo ao nacionalismo soviético feito por Stálin com vistas ao exército vermelho resistir à ofensiva nazista. Esqueçamos que se tratava de Stálin e tudo que o stalinismo implica. Supondo que fosse um regime realmente voltado à transição socialista, em apuros por uma contra-revolução nazista. O sentimento nacionalista não deveria ter sido chamado?</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Valente Aguiar		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/11/88434/#comment-153960</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Valente Aguiar]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 30 Nov 2013 01:23:55 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=88434#comment-153960</guid>

					<description><![CDATA[Caro Pablo,

sobre o que você chama de esquizofrenia por o Marx integrar na sua obra uma crítica da economia política e um vector nacionalista.

Se se considerar, como praticamente todos os marxistas o fazem, que a produção teórica reflecte sempre, num determinado grau, o estado das lutas sociais, então é perfeitamente possível contemplar a fusão ambígua de temas operários e dos gestores na produção teórica do movimento operário. Isso foi o que se passou na maioria das lutas operárias do século XIX e que deram formação política fundamental ao Marx. O caso polaco que o João Bernardo lembra, ou o caso irlandês, são elucidativos quanto à importância que o Marx lhes deu. De lembrar que a derrota dos processos revolucionários de 1848 teve um papel decisivo no desdobramento do vector nacionalista já presente no &quot;Manifesto Comunista&quot; e que eu tive a oportunidade de analisar.

Ora, o que se passou em 1848?

Em primeiro lugar, o caso mais radical (o do operariado parisiense) redundou num banho de sangue mas também na incapacidade na criação de organizações políticas operárias que pudessem disputar as lutas políticas a Bonaparte. Mesmo o partido republicano da Montanha, que foi apoiado por vários sectores operários sobreviventes, não conseguiu desenvolver uma dimensão autónoma da política do proletariado de então.
Em segundo lugar, o caso alemão onde na Nova Gazeta Renana e noutras publicações Marx e Engels criticam a burguesia germânica por não ter conseguido fazer uma revolução do tipo de 1789. A análise do caso alemão é tão ou mais importante do que a do caso francês no pensamento do Marx. Isto porque é deste tipo de experiências que o Marx tira a conclusão de que a vitória política definitiva do capitalismo não passa mais pela burguesia proprietária mas do operariado que terá de concluir as tarefas burguesas. Ora, estas tarefas burguesas não são apenas o de conquistar a democracia política mas isso pressupõe uma revolução fundamentalmente orientada para a reconversão (democrática) do aparelho de Estado. É então a partir daqui que o Marx passa a dedicar imensos esforços aos casos polaco e irlandês como exemplos da inserção da luta do operariado pela independência nacional. O que é o mesmo que dizer, orientar o operariado para a construção de um novo Estado nacional, o que necessariamente implica uma dominação de classe e a constituição de uma camada dirigente minoritária que tomará conta dos destinos do novo Estado.

Por outro lado, ainda sobre a tal esquizofrenia como você lhe chama há a destacar outro ponto. A crítica da economia política de Marx não é um terreno puro e que se contrapõe totalmente à sua teoria política do Estado. Como você pode visualizar no quinto artigo da série &quot;Marx e a nação&quot;, existe a presença de uma posição favorável do Marx à coexistência de gestores e trabalhadores num mesmo plano político. Os dois capítulos do Terceiro Livro de &quot;O Capital&quot; que menciono nesse artigo demonstram isso mesmo: a criação de um campo político entre operários e gestores, tomando estes últimos como parte da classe trabalhadora, (con)fundindo totalmente técnicos assalariados e administradores das empresas. É óbvio que existem imensos casos de sobreposição entre o perfil técnico e de gestão de uma empresa. Mas essa sobreposição não se confunde com a distinção de funções entre o desempenho da produção de mercadorias (onde os trabalhadores mais qualificados são precisamente técnicos, sem poder de controlo sobre a força de trabalho) e o desempenho de tarefas de direcção do processo produtivo. E neste plano existem passagens do Marx que são abertamente favoráveis a uma inserção dos gestores no seio da classe trabalhadora, abrindo um precedente notável do que viria a ser a defesa do Lénine a propósito da cedência do controlo da produção aos especialistas, dentro do qual a política do gestor único de empresa nomeado pelo Partido Bolchevique (pelo Estado) seria o desdobramento prático de algo que o Marx tinha entrevisto, no terceiro livro de &quot;O Capital&quot;, como uma forma de construção do socialismo algumas décadas antes.

E eu abordo aqui unicamente as questões mais directamente relacionadas com os gestores. Se a isto se integrasse na análise as concepções do Marx sobre o crédito e os mercados financeiros ainda mais vincadas ficariam as contradições inerentes à própria crítica da economia política marxiana.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Pablo,</p>
<p>sobre o que você chama de esquizofrenia por o Marx integrar na sua obra uma crítica da economia política e um vector nacionalista.</p>
<p>Se se considerar, como praticamente todos os marxistas o fazem, que a produção teórica reflecte sempre, num determinado grau, o estado das lutas sociais, então é perfeitamente possível contemplar a fusão ambígua de temas operários e dos gestores na produção teórica do movimento operário. Isso foi o que se passou na maioria das lutas operárias do século XIX e que deram formação política fundamental ao Marx. O caso polaco que o João Bernardo lembra, ou o caso irlandês, são elucidativos quanto à importância que o Marx lhes deu. De lembrar que a derrota dos processos revolucionários de 1848 teve um papel decisivo no desdobramento do vector nacionalista já presente no &#8220;Manifesto Comunista&#8221; e que eu tive a oportunidade de analisar.</p>
<p>Ora, o que se passou em 1848?</p>
<p>Em primeiro lugar, o caso mais radical (o do operariado parisiense) redundou num banho de sangue mas também na incapacidade na criação de organizações políticas operárias que pudessem disputar as lutas políticas a Bonaparte. Mesmo o partido republicano da Montanha, que foi apoiado por vários sectores operários sobreviventes, não conseguiu desenvolver uma dimensão autónoma da política do proletariado de então.<br />
Em segundo lugar, o caso alemão onde na Nova Gazeta Renana e noutras publicações Marx e Engels criticam a burguesia germânica por não ter conseguido fazer uma revolução do tipo de 1789. A análise do caso alemão é tão ou mais importante do que a do caso francês no pensamento do Marx. Isto porque é deste tipo de experiências que o Marx tira a conclusão de que a vitória política definitiva do capitalismo não passa mais pela burguesia proprietária mas do operariado que terá de concluir as tarefas burguesas. Ora, estas tarefas burguesas não são apenas o de conquistar a democracia política mas isso pressupõe uma revolução fundamentalmente orientada para a reconversão (democrática) do aparelho de Estado. É então a partir daqui que o Marx passa a dedicar imensos esforços aos casos polaco e irlandês como exemplos da inserção da luta do operariado pela independência nacional. O que é o mesmo que dizer, orientar o operariado para a construção de um novo Estado nacional, o que necessariamente implica uma dominação de classe e a constituição de uma camada dirigente minoritária que tomará conta dos destinos do novo Estado.</p>
<p>Por outro lado, ainda sobre a tal esquizofrenia como você lhe chama há a destacar outro ponto. A crítica da economia política de Marx não é um terreno puro e que se contrapõe totalmente à sua teoria política do Estado. Como você pode visualizar no quinto artigo da série &#8220;Marx e a nação&#8221;, existe a presença de uma posição favorável do Marx à coexistência de gestores e trabalhadores num mesmo plano político. Os dois capítulos do Terceiro Livro de &#8220;O Capital&#8221; que menciono nesse artigo demonstram isso mesmo: a criação de um campo político entre operários e gestores, tomando estes últimos como parte da classe trabalhadora, (con)fundindo totalmente técnicos assalariados e administradores das empresas. É óbvio que existem imensos casos de sobreposição entre o perfil técnico e de gestão de uma empresa. Mas essa sobreposição não se confunde com a distinção de funções entre o desempenho da produção de mercadorias (onde os trabalhadores mais qualificados são precisamente técnicos, sem poder de controlo sobre a força de trabalho) e o desempenho de tarefas de direcção do processo produtivo. E neste plano existem passagens do Marx que são abertamente favoráveis a uma inserção dos gestores no seio da classe trabalhadora, abrindo um precedente notável do que viria a ser a defesa do Lénine a propósito da cedência do controlo da produção aos especialistas, dentro do qual a política do gestor único de empresa nomeado pelo Partido Bolchevique (pelo Estado) seria o desdobramento prático de algo que o Marx tinha entrevisto, no terceiro livro de &#8220;O Capital&#8221;, como uma forma de construção do socialismo algumas décadas antes.</p>
<p>E eu abordo aqui unicamente as questões mais directamente relacionadas com os gestores. Se a isto se integrasse na análise as concepções do Marx sobre o crédito e os mercados financeiros ainda mais vincadas ficariam as contradições inerentes à própria crítica da economia política marxiana.</p>
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		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/11/88434/#comment-153719</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 29 Nov 2013 11:20:33 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caro Pablo Polese,
A Comuna de Paris não é uma ficção, que exista somente pela pena de Marx. Já era tempo de os marxistas — e não me refiro só a você — estudarem a história da Comuna e, em vez de analisarem a Comuna à luz do que Marx escreveu, fazerem o contrário e avaliarem aquelas páginas de Marx à luz dos factos ocorridos em França desde Março até Maio de 1871. Em vários lugares, incluindo num artigo publicado no &lt;em&gt;Passa Palavra&lt;/em&gt; http://passapalavra.info/2011/05/39835 , procurei chamar a atenção para esse confronto. Limito-me agora a sublinhar que Marx situou a sua análise da Comuna numa perspectiva nacionalista antes de mais porque se tratava de uma das peças da sua monomania geopolítica — o antieslavismo. Marx, que nos primeiros momentos se interessara pouco pela Associação Internacional dos Trabalhadores, procurou depois concentrá-la na questão polaca (ou polonesa, como se diz no Brasil), transformando-a num instrumento oposto ao pan-eslavismo. Contra esta tentativa de atrelar a Internacional a uma estratégia nacionalista e geopolítica protestou a secção belga, e também a secção francesa a partir do momento em que a encabeçaram Varlin e os seus amigos. Tudo isto está amplamente estudado pelos historiadores.
Por fim, você escreve que abster-se de usar o «sentimento nacionalista» para defender a Comuna «seria um tiro no pé». Infelizmente, porém, dar um tiro no pé, ou mesmo na cabeça, foi a pretensão de juntar a revolução social ao nacionalismo. É a esta luz que deve ser avaliada a obra e a política daquele que, se não estivesse preso em lugar secreto, seria o chefe natural da Comuna, Blanqui. A Comuna de Paris é um mito aceite unanimemente por toda a esquerda porque durou pouco e não teve tempo para revelar na prática os efeitos das suas tendências contraditórias. Mas duas décadas depois da Comuna o boulangismo foi a primeira expressão sistemática da conjugação do nacionalismo com as pretensões socializantes. E hoje, após tudo o que se passou entre as duas guerras mundiais, temos razão para saber que quando o nacionalismo se funde com o movimento dos trabalhadores, o fascismo não anda longe. Ora, para isto contribuiu poderosamente o funesto namoro dos comunistas aos nacionalistas. Nas três décadas posteriores à segunda guerra mundial a destruição do movimento dos trabalhadores pelo nacionalismo pode ser estudada também nos movimentos de descolonização. Uma revolução social que pretenda mobilizar o sentimento nacionalista condena-se ou ao fracasso ou a converter-se numa contra-revolução.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Pablo Polese,<br />
A Comuna de Paris não é uma ficção, que exista somente pela pena de Marx. Já era tempo de os marxistas — e não me refiro só a você — estudarem a história da Comuna e, em vez de analisarem a Comuna à luz do que Marx escreveu, fazerem o contrário e avaliarem aquelas páginas de Marx à luz dos factos ocorridos em França desde Março até Maio de 1871. Em vários lugares, incluindo num artigo publicado no <em>Passa Palavra</em> <a href="http://passapalavra.info/2011/05/39835" rel="ugc">http://passapalavra.info/2011/05/39835</a> , procurei chamar a atenção para esse confronto. Limito-me agora a sublinhar que Marx situou a sua análise da Comuna numa perspectiva nacionalista antes de mais porque se tratava de uma das peças da sua monomania geopolítica — o antieslavismo. Marx, que nos primeiros momentos se interessara pouco pela Associação Internacional dos Trabalhadores, procurou depois concentrá-la na questão polaca (ou polonesa, como se diz no Brasil), transformando-a num instrumento oposto ao pan-eslavismo. Contra esta tentativa de atrelar a Internacional a uma estratégia nacionalista e geopolítica protestou a secção belga, e também a secção francesa a partir do momento em que a encabeçaram Varlin e os seus amigos. Tudo isto está amplamente estudado pelos historiadores.<br />
Por fim, você escreve que abster-se de usar o «sentimento nacionalista» para defender a Comuna «seria um tiro no pé». Infelizmente, porém, dar um tiro no pé, ou mesmo na cabeça, foi a pretensão de juntar a revolução social ao nacionalismo. É a esta luz que deve ser avaliada a obra e a política daquele que, se não estivesse preso em lugar secreto, seria o chefe natural da Comuna, Blanqui. A Comuna de Paris é um mito aceite unanimemente por toda a esquerda porque durou pouco e não teve tempo para revelar na prática os efeitos das suas tendências contraditórias. Mas duas décadas depois da Comuna o boulangismo foi a primeira expressão sistemática da conjugação do nacionalismo com as pretensões socializantes. E hoje, após tudo o que se passou entre as duas guerras mundiais, temos razão para saber que quando o nacionalismo se funde com o movimento dos trabalhadores, o fascismo não anda longe. Ora, para isto contribuiu poderosamente o funesto namoro dos comunistas aos nacionalistas. Nas três décadas posteriores à segunda guerra mundial a destruição do movimento dos trabalhadores pelo nacionalismo pode ser estudada também nos movimentos de descolonização. Uma revolução social que pretenda mobilizar o sentimento nacionalista condena-se ou ao fracasso ou a converter-se numa contra-revolução.</p>
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