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	Comentários sobre: A estratégia dos gestores. V &#8211; A federalização, a esquerda e os capitalistas	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Comunista internacionalista		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/12/89568/#comment-288768</link>

		<dc:creator><![CDATA[Comunista internacionalista]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 30 May 2015 21:57:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[JB,
achei interessante sua análise acerca da aristocracia operária. Queria enriquecer mais um pouco minha leitura sobre o tema. Queria uma sugestão de alguns textos que abordem-no nessa perspectiva.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>JB,<br />
achei interessante sua análise acerca da aristocracia operária. Queria enriquecer mais um pouco minha leitura sobre o tema. Queria uma sugestão de alguns textos que abordem-no nessa perspectiva.</p>
]]></content:encoded>
		
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		<title>
		Por: Vânia		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/12/89568/#comment-171726</link>

		<dc:creator><![CDATA[Vânia]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 11 Jan 2014 21:11:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Interssante!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Interssante!</p>
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		<title>
		Por: Gustavo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/12/89568/#comment-164099</link>

		<dc:creator><![CDATA[Gustavo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Dec 2013 14:53:39 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[JB,
Mais uma vez, obrigado pelas referências e testemunho de quem viveu e acompanhou esse &quot;peculiar&quot; estado de coisas bem lusitano.
Para quem tinha por hobby predileto de infância andar pelas ruas de Luanda a colecionar cartuchos detonados e não detonados de AK-47 e de G-3, e ir aos comitês dos três movimentos de libertação, sem distinção (o que é a ideologia para as crianças?), tornados legais depois do 25 de Abril, para lá obter o maior número de panfletos, pôsters e &lt;i&gt;buttons&lt;/i&gt;, é sempre gratificante voltar a essa época, resignificando-a.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>JB,<br />
Mais uma vez, obrigado pelas referências e testemunho de quem viveu e acompanhou esse &#8220;peculiar&#8221; estado de coisas bem lusitano.<br />
Para quem tinha por hobby predileto de infância andar pelas ruas de Luanda a colecionar cartuchos detonados e não detonados de AK-47 e de G-3, e ir aos comitês dos três movimentos de libertação, sem distinção (o que é a ideologia para as crianças?), tornados legais depois do 25 de Abril, para lá obter o maior número de panfletos, pôsters e <i>buttons</i>, é sempre gratificante voltar a essa época, resignificando-a.</p>
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		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/12/89568/#comment-164077</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Dec 2013 13:48:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Gustavo,
Afinal esqueci-me de que todo aquele arrazoado foi inspirado por uma citação do Mário Pinto de Andrade, que tão importante foi para os portugueses da minha geração. Entre muitas outras coisas, foi ele quem mais cedo se apercebeu do rumo funesto que tomava o movimento nacionalista angolano, e logo em 1974 fundou em oposição ao MPLA o grupo Revolta Activa. Nessa altura eu colaborava em Portugal no jornal &lt;em&gt;Combate&lt;/em&gt; (http://www.marxists.org/portugues/tematica/jornais/combate/index.htm ), em cuja criação participei, e no editorial do nº 6 (http://www.marxists.org/portugues/tematica/jornais/combate/pdf/06.pdf ) e sobretudo no editoral do nº 13, (http://www.marxists.org/portugues/tematica/jornais/combate/pdf/13.pdf ), que termina com a declaração: «Apoiamos os bandidos», é clara a inspiração directa da Revolta Activa e da orientação defendida então por Mário Pinto de Andrade. Estava ali claramente expressa a contradição entre a revolução social e as revoluções nacionais, que suscitou esta troca de comentários.
A passagem da obra de Mário Pinto de Andrade que você citou revela bem a incapacidade do colonialismo português para proceder ao desenvolvimento capitalista das colónias, a tal ponto que os &lt;em&gt;contratados&lt;/em&gt; eram uma espécie de força de trabalho escrava, na realidade uma forma de escravidão por dívidas. E há a emigração maciça dos moçambicanos para as minas sul-africanas, que você mencionou neste seu último comentário. Aliás, é interessante considerar que a burla de Alves dos Reis (http://en.wikipedia.org/wiki/Alves_dos_Reis ) (http://pt.wikipedia.org/wiki/Artur_Virg%C3%ADlio_Alves_dos_Reis ), talvez a burla mais colossal arquitectada no século XX em todo o mundo, tinha como objectivo reunir capitais para proceder ao desenvolvimento capitalista de Angola. Poucos anos depois, ao determinar que os orçamentos de cada colónia deviam ser equilibrados, e que portanto elas não podiam contar com o capital acumulado na metrópole, Salazar pôs definitivamente de lado o desenvolvimento colonial, e foi este o motivo do seu confronto com Cunha Leal, importante nos começos do Estado Novo. Só muito tardiamente, já iniciadas as guerras coloniais, é que Salazar autorizou um certo desenvolvimento capitalista nas colónias, que de qualquer modo seria estimulado pela mera presença do exército, esse agente keynesiano...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gustavo,<br />
Afinal esqueci-me de que todo aquele arrazoado foi inspirado por uma citação do Mário Pinto de Andrade, que tão importante foi para os portugueses da minha geração. Entre muitas outras coisas, foi ele quem mais cedo se apercebeu do rumo funesto que tomava o movimento nacionalista angolano, e logo em 1974 fundou em oposição ao MPLA o grupo Revolta Activa. Nessa altura eu colaborava em Portugal no jornal <em>Combate</em> (<a href="http://www.marxists.org/portugues/tematica/jornais/combate/index.htm" rel="nofollow ugc">http://www.marxists.org/portugues/tematica/jornais/combate/index.htm</a> ), em cuja criação participei, e no editorial do nº 6 (<a href="http://www.marxists.org/portugues/tematica/jornais/combate/pdf/06.pdf" rel="nofollow ugc">http://www.marxists.org/portugues/tematica/jornais/combate/pdf/06.pdf</a> ) e sobretudo no editoral do nº 13, (<a href="http://www.marxists.org/portugues/tematica/jornais/combate/pdf/13.pdf" rel="nofollow ugc">http://www.marxists.org/portugues/tematica/jornais/combate/pdf/13.pdf</a> ), que termina com a declaração: «Apoiamos os bandidos», é clara a inspiração directa da Revolta Activa e da orientação defendida então por Mário Pinto de Andrade. Estava ali claramente expressa a contradição entre a revolução social e as revoluções nacionais, que suscitou esta troca de comentários.<br />
A passagem da obra de Mário Pinto de Andrade que você citou revela bem a incapacidade do colonialismo português para proceder ao desenvolvimento capitalista das colónias, a tal ponto que os <em>contratados</em> eram uma espécie de força de trabalho escrava, na realidade uma forma de escravidão por dívidas. E há a emigração maciça dos moçambicanos para as minas sul-africanas, que você mencionou neste seu último comentário. Aliás, é interessante considerar que a burla de Alves dos Reis (<a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Alves_dos_Reis" rel="nofollow ugc">http://en.wikipedia.org/wiki/Alves_dos_Reis</a> ) (<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Artur_Virg%C3%ADlio_Alves_dos_Reis" rel="nofollow ugc">http://pt.wikipedia.org/wiki/Artur_Virg%C3%ADlio_Alves_dos_Reis</a> ), talvez a burla mais colossal arquitectada no século XX em todo o mundo, tinha como objectivo reunir capitais para proceder ao desenvolvimento capitalista de Angola. Poucos anos depois, ao determinar que os orçamentos de cada colónia deviam ser equilibrados, e que portanto elas não podiam contar com o capital acumulado na metrópole, Salazar pôs definitivamente de lado o desenvolvimento colonial, e foi este o motivo do seu confronto com Cunha Leal, importante nos começos do Estado Novo. Só muito tardiamente, já iniciadas as guerras coloniais, é que Salazar autorizou um certo desenvolvimento capitalista nas colónias, que de qualquer modo seria estimulado pela mera presença do exército, esse agente keynesiano&#8230;</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Gustavo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/12/89568/#comment-164059</link>

		<dc:creator><![CDATA[Gustavo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Dec 2013 13:02:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[JB,
Obrigado pelo aprofundamento desse ponto, é sempre estimulante tentar (eu) olhar as coisas por outros ângulos.
Ou seja, o caso português é, de fato, único, e talvez tenha cumprido (junto com o belga, como você citou), de forma isolada, o vaticínio do eslavo: quem sabe Salazar não terá lido Lenin, às escondidas e gostado da idéia :)
Para reforçar essa particularidade, lembro-me agora da forte onda migratória (espontânea) de homens moçambicanos para as minas na África do Sul nas décadas de 50 e 60, se não estou enganado: os portugueses não sabiam proletarizar, então os camponeses faziam-no no país vizinho, em troca de meia dúzia de &lt;i&gt;rands&lt;/i&gt;. Deixavam as mulheres a cuidar das machambas e das crianças e partiam para temporadas de trabalho no país vizinho. E o governo português ainda recebia, de quebra, um pagamento por parte do governo sul-africano, por lhe facilitar a aquisição de mão-de-obra barata.
No sentido de ilustrar todas essas &quot;peculiaridades&quot; lusitanas, penso que &lt;a href=&quot;http://youtu.be/8GihEWEh7-g&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;este trecho do documentário de Joaquim Furtado&lt;/a&gt; é bastante esclarecedor.
Obrigado pelas indicações bibliográficas, sobre as quais me deterei em breve.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>JB,<br />
Obrigado pelo aprofundamento desse ponto, é sempre estimulante tentar (eu) olhar as coisas por outros ângulos.<br />
Ou seja, o caso português é, de fato, único, e talvez tenha cumprido (junto com o belga, como você citou), de forma isolada, o vaticínio do eslavo: quem sabe Salazar não terá lido Lenin, às escondidas e gostado da idéia :)<br />
Para reforçar essa particularidade, lembro-me agora da forte onda migratória (espontânea) de homens moçambicanos para as minas na África do Sul nas décadas de 50 e 60, se não estou enganado: os portugueses não sabiam proletarizar, então os camponeses faziam-no no país vizinho, em troca de meia dúzia de <i>rands</i>. Deixavam as mulheres a cuidar das machambas e das crianças e partiam para temporadas de trabalho no país vizinho. E o governo português ainda recebia, de quebra, um pagamento por parte do governo sul-africano, por lhe facilitar a aquisição de mão-de-obra barata.<br />
No sentido de ilustrar todas essas &#8220;peculiaridades&#8221; lusitanas, penso que <a href="http://youtu.be/8GihEWEh7-g" rel="nofollow">este trecho do documentário de Joaquim Furtado</a> é bastante esclarecedor.<br />
Obrigado pelas indicações bibliográficas, sobre as quais me deterei em breve.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/12/89568/#comment-164010</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Dec 2013 10:50:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Gustavo,

Em África o colonialismo especificamente capitalista iniciou-se na segunda metade do século XIX por acção de empresas privadas, que forneceram os quadros militares, políticos e administrativos para esse empreendimento. Para uma obra de conjunto sobre esse período aconselho-lhe os volumes VI e VII da &lt;em&gt;General History of Africa&lt;/em&gt; publicada pela UNESCO (vol. VI org. por J. F. Ade Ajayi; vol. VII org. por A. Adu Boahen). Creio que tanto a edição em inglês como a tradução portuguesa se encontram agora na internet. Eu abordei esse assunto muito resumidamente num pequeno livro (&lt;em&gt;Democracia Totalitária. Teoria e Prática da Empresa Soberana&lt;/em&gt;, São Paulo: Cortez, págs. 41-62). Penso que é possível encontrá-lo também na internet. O Tratado de Berlim assinalou não o início deste processo, mas o fim da sua primeira fase. O colonialismo da época mercantilista preocupara-se em estabelecer entrepostos comerciais e não em ocupar territórios, e só quando o colonialismo capitalista começou a ocupar espaços cada vez mais vastos é que se tornou necessário demarcar as novas áreas de influência, para evitar uma guerra generalizada. Aliás, a Conferência de Berlim ainda deixou alguns problemas menores por resolver.

Na Índia a questão é mais complexa, porque a Companhia das Índias, que iniciou o colonialismo capitalista, fora criada na época do colonialismo mercantilista e, por isso, é necessário estudar as transformações internas seguidas pela instituição no começo do século XIX. Basta aqui recordar que o primeiro curso de economia na Grã-Bretanha foi inaugurado na escola de quadros da Companhia das índias, a cargo de Malthus, e que o funcionalismo público moderno na área de influência britânica e nos Estados Unidos veio na sequência das inovações introduzidas na organização da burocracia da Companhia das Índias. (Na Europa continental e na América Latina o processo foi diferente e deveu-se às reformas jacobinas e napoleónicas.)

As companhias coloniais privadas defrontaram-se então com uma situação complexa e onerosa, porque tinham de manter o aparelho militar, policial, administrativo e judiciário exigido pela ocupação e governo de vastos territórios, assegurando ainda em vários casos a emissão de moeda. Ora, a obtenção de lucros mediante a aquisição de mercadorias a preços muito inferiores àqueles a que seriam vendidas caracterizara o mercantilismo, não o novo capitalismo. A forma especificamente capitalista da obtenção de lucros consiste na exploração da força de trabalho, o que obrigava as companhias coloniais a proletarizar populações que até então haviam sido exploradas por outros processos. As campanhas antiesclavagistas conduzidas nessa época, sobretudo pelos britânicos, deveram-se a esta necessidade de pôr termo às formas de exploração anteriores e generalizar a proletarização.

Nem a Companhia das Índias nem as companhias de colonização privadas actuantes em África conseguiram levar a cabo aquela conjugação de funções militares, administrativas, judiciais e económicas e ao mesmo tempo prosseguir o processo de proletarização de maneira a obter lucros suficientes com a exploração da força de trabalho indígena. Tiveram de apelar para os governos das respectivas metrópoles, e foi a partir de então que o colonialismo privado se tornou, por assim dizer, &lt;em&gt;público&lt;/em&gt;. Isto significa que a mais-valia absoluta extorquida aos trabalhadores africanos e indianos não foi suficiente sequer para assegurar a continuidade do processo de colonização e que os colonizadores tiveram de fazer apelo ao capital que havia sido acumulado graças à mais-valia relativa extorquida aos trabalhadores das metrópoles. A dinâmica foi a inversa da indicada por Lenin na sua teoria do imperialismo.

O caso português constitui uma particularidade curiosa. Contrariamente à Grã-Bretanha à França e à Alemanha, Portugal era um Estado à beira da falência, o que fazia com que a metrópole dificilmente pudesse apoiar as companhias colonizadoras privadas. Por isso essas companhias, em Angola, em Moçambique e na Guné, continuaram a exercer a soberania — companhias &lt;em&gt;majestáticas&lt;/em&gt;, como se lhes chamava — até uma data bastante tardia, quando as suas congéneres estrangeiras já há muito haviam passado armas e bagagens para os governos metropolitanos. Penso que a mais duradoura foi a Companhia de Moçambique, pois só no começo da década de 1940 o Território de Manica e Sofala passou para a administração directa do governo da colónia.

Estudar a evolução do processo de proletarização em África e as dificuldades com que ele tem deparado, desde o imposto de palhota até hoje, é estudar a base social daquilo a que se chama &lt;em&gt;subdesenvolvimento&lt;/em&gt;. O carácter cleptocrático das elites africanas — não em todos os países, mas na grande maioria — que colocam os lucros no estrangeiro em vez de os investir localmente, deve-se a essa insuficiência do processo de proletarização, incapaz de proceder a ciclos acelerados de mais-valia relativa.

Em suma, a acumulação do capital, e portanto a dinâmica de expansão, processa-se a partir dos centros de mais-valia relativa e não à custa da extorsão de mais-valia absoluta, que nunca é rentável. O caso extremo foi o do Congo do rei Leopoldo, onde a extorsão de mais-valia absoluta atingiu as dimensões mais horrorosas e onde a falência do colonialismo privado foi a mais colossal.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gustavo,</p>
<p>Em África o colonialismo especificamente capitalista iniciou-se na segunda metade do século XIX por acção de empresas privadas, que forneceram os quadros militares, políticos e administrativos para esse empreendimento. Para uma obra de conjunto sobre esse período aconselho-lhe os volumes VI e VII da <em>General History of Africa</em> publicada pela UNESCO (vol. VI org. por J. F. Ade Ajayi; vol. VII org. por A. Adu Boahen). Creio que tanto a edição em inglês como a tradução portuguesa se encontram agora na internet. Eu abordei esse assunto muito resumidamente num pequeno livro (<em>Democracia Totalitária. Teoria e Prática da Empresa Soberana</em>, São Paulo: Cortez, págs. 41-62). Penso que é possível encontrá-lo também na internet. O Tratado de Berlim assinalou não o início deste processo, mas o fim da sua primeira fase. O colonialismo da época mercantilista preocupara-se em estabelecer entrepostos comerciais e não em ocupar territórios, e só quando o colonialismo capitalista começou a ocupar espaços cada vez mais vastos é que se tornou necessário demarcar as novas áreas de influência, para evitar uma guerra generalizada. Aliás, a Conferência de Berlim ainda deixou alguns problemas menores por resolver.</p>
<p>Na Índia a questão é mais complexa, porque a Companhia das Índias, que iniciou o colonialismo capitalista, fora criada na época do colonialismo mercantilista e, por isso, é necessário estudar as transformações internas seguidas pela instituição no começo do século XIX. Basta aqui recordar que o primeiro curso de economia na Grã-Bretanha foi inaugurado na escola de quadros da Companhia das índias, a cargo de Malthus, e que o funcionalismo público moderno na área de influência britânica e nos Estados Unidos veio na sequência das inovações introduzidas na organização da burocracia da Companhia das Índias. (Na Europa continental e na América Latina o processo foi diferente e deveu-se às reformas jacobinas e napoleónicas.)</p>
<p>As companhias coloniais privadas defrontaram-se então com uma situação complexa e onerosa, porque tinham de manter o aparelho militar, policial, administrativo e judiciário exigido pela ocupação e governo de vastos territórios, assegurando ainda em vários casos a emissão de moeda. Ora, a obtenção de lucros mediante a aquisição de mercadorias a preços muito inferiores àqueles a que seriam vendidas caracterizara o mercantilismo, não o novo capitalismo. A forma especificamente capitalista da obtenção de lucros consiste na exploração da força de trabalho, o que obrigava as companhias coloniais a proletarizar populações que até então haviam sido exploradas por outros processos. As campanhas antiesclavagistas conduzidas nessa época, sobretudo pelos britânicos, deveram-se a esta necessidade de pôr termo às formas de exploração anteriores e generalizar a proletarização.</p>
<p>Nem a Companhia das Índias nem as companhias de colonização privadas actuantes em África conseguiram levar a cabo aquela conjugação de funções militares, administrativas, judiciais e económicas e ao mesmo tempo prosseguir o processo de proletarização de maneira a obter lucros suficientes com a exploração da força de trabalho indígena. Tiveram de apelar para os governos das respectivas metrópoles, e foi a partir de então que o colonialismo privado se tornou, por assim dizer, <em>público</em>. Isto significa que a mais-valia absoluta extorquida aos trabalhadores africanos e indianos não foi suficiente sequer para assegurar a continuidade do processo de colonização e que os colonizadores tiveram de fazer apelo ao capital que havia sido acumulado graças à mais-valia relativa extorquida aos trabalhadores das metrópoles. A dinâmica foi a inversa da indicada por Lenin na sua teoria do imperialismo.</p>
<p>O caso português constitui uma particularidade curiosa. Contrariamente à Grã-Bretanha à França e à Alemanha, Portugal era um Estado à beira da falência, o que fazia com que a metrópole dificilmente pudesse apoiar as companhias colonizadoras privadas. Por isso essas companhias, em Angola, em Moçambique e na Guné, continuaram a exercer a soberania — companhias <em>majestáticas</em>, como se lhes chamava — até uma data bastante tardia, quando as suas congéneres estrangeiras já há muito haviam passado armas e bagagens para os governos metropolitanos. Penso que a mais duradoura foi a Companhia de Moçambique, pois só no começo da década de 1940 o Território de Manica e Sofala passou para a administração directa do governo da colónia.</p>
<p>Estudar a evolução do processo de proletarização em África e as dificuldades com que ele tem deparado, desde o imposto de palhota até hoje, é estudar a base social daquilo a que se chama <em>subdesenvolvimento</em>. O carácter cleptocrático das elites africanas — não em todos os países, mas na grande maioria — que colocam os lucros no estrangeiro em vez de os investir localmente, deve-se a essa insuficiência do processo de proletarização, incapaz de proceder a ciclos acelerados de mais-valia relativa.</p>
<p>Em suma, a acumulação do capital, e portanto a dinâmica de expansão, processa-se a partir dos centros de mais-valia relativa e não à custa da extorsão de mais-valia absoluta, que nunca é rentável. O caso extremo foi o do Congo do rei Leopoldo, onde a extorsão de mais-valia absoluta atingiu as dimensões mais horrorosas e onde a falência do colonialismo privado foi a mais colossal.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Gustavo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/12/89568/#comment-163840</link>

		<dc:creator><![CDATA[Gustavo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Dec 2013 01:50:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O livro a que me referi no comentário anterior pode ser lido em edição digital no &lt;a href=&quot;http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=019050#!1&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;sítio da Fundação Mário Soares&lt;/a&gt; .]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O livro a que me referi no comentário anterior pode ser lido em edição digital no <a href="http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=019050#!1" rel="nofollow">sítio da Fundação Mário Soares</a> .</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Gustavo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/12/89568/#comment-163838</link>

		<dc:creator><![CDATA[Gustavo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Dec 2013 01:43:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[João, a sua sugestão de que o imperialismo europeu, sob a forma do colonialismo pós-Conferência de Berlim, teria sido menos lucrativo e feito menos uso da mais-valia absoluta do que se poderia supor, é de certa forma rechaçado pelo angolano Mário Pinto de Andrade no seu livro &lt;i&gt;La Guerre en Angola&lt;/i&gt;, de 1971. Nele, MPA cita, entre outros, o exemplo da Companhia de Diamantes de Angola, a Diamang: empresa de capital estadunidense, britânico, belga, francês e português, obteve direitos de prospecção da maior parte do território angolano por 50 anos, a partir de 1921, e o direito de operação perpétuo nas jazigas descobertas durante esse período. Em 1960, a companhia operava 37 minas e empregava 26.000 angolanos, dirigidos por um reduzido quadro de 400 europeus. O salário médio anual dos trabalhadores era de 174 dólares (sim, anual!). MPA cita também a agricultura, onde o rendimento anual dos agricultores &quot;contratados&quot; era ainda mais radical: 62 dólares anuais.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João, a sua sugestão de que o imperialismo europeu, sob a forma do colonialismo pós-Conferência de Berlim, teria sido menos lucrativo e feito menos uso da mais-valia absoluta do que se poderia supor, é de certa forma rechaçado pelo angolano Mário Pinto de Andrade no seu livro <i>La Guerre en Angola</i>, de 1971. Nele, MPA cita, entre outros, o exemplo da Companhia de Diamantes de Angola, a Diamang: empresa de capital estadunidense, britânico, belga, francês e português, obteve direitos de prospecção da maior parte do território angolano por 50 anos, a partir de 1921, e o direito de operação perpétuo nas jazigas descobertas durante esse período. Em 1960, a companhia operava 37 minas e empregava 26.000 angolanos, dirigidos por um reduzido quadro de 400 europeus. O salário médio anual dos trabalhadores era de 174 dólares (sim, anual!). MPA cita também a agricultura, onde o rendimento anual dos agricultores &#8220;contratados&#8221; era ainda mais radical: 62 dólares anuais.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Valente Aguiar		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/12/89568/#comment-163545</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Valente Aguiar]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Dec 2013 08:39:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Para que o Eduardo Tomazine tenha noção do grau de penetração do nacionalismo à esquerda basta lembrar que no passado mês de Março organizou-se o que a esquerda chamou de greve geral europeia e que a &quot;grande mascote&quot; da iniciativa foi a exibição continuada das bandeiras de Portugal, Espanha, Grécia e Itália. Ao mesmo tempo, as declarações e reivindicações em torno do lema &quot;povos unidos contra a troika&quot; demonstrou mais dois aspectos: 1) o resgate das teses das nações proletárias contra as nações plutocráticas; 2) a luta seria entre e através dos povos nacionais e não da classe trabalhadora. E isto foi transversal aos partidos, movimentos sociais de indignados e sindicatos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para que o Eduardo Tomazine tenha noção do grau de penetração do nacionalismo à esquerda basta lembrar que no passado mês de Março organizou-se o que a esquerda chamou de greve geral europeia e que a &#8220;grande mascote&#8221; da iniciativa foi a exibição continuada das bandeiras de Portugal, Espanha, Grécia e Itália. Ao mesmo tempo, as declarações e reivindicações em torno do lema &#8220;povos unidos contra a troika&#8221; demonstrou mais dois aspectos: 1) o resgate das teses das nações proletárias contra as nações plutocráticas; 2) a luta seria entre e através dos povos nacionais e não da classe trabalhadora. E isto foi transversal aos partidos, movimentos sociais de indignados e sindicatos.</p>
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		<title>
		Por: Eduardo Tomazine		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2013/12/89568/#comment-163392</link>

		<dc:creator><![CDATA[Eduardo Tomazine]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Dec 2013 22:41:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Sim, João Bernardo: admito meu vício analítico em querer ver em cada esquina uma revolução. Mas talvez ele sirva de contrapeso a uma tendência em decifrar o fascismo em cada declaração de dirigentes desimportantes. Veja, fiz uma pergunta que permaneceu sem resposta, e que não foi uma pergunta retórica: eu gostaria de saber dos companheiros que conhecem melhor o atual cenário político europeu qual é a influência da esquerda nacionalista sobre os trabalhadores e os movimentos sociais daí. No fundo, o que quero entender com isso é se as dificuldades para a constituição de um movimento de trabalhadores na escala européia se devem mais a uma falsa consciência nacionalista, à incapacidade dos precários em detectar os reais centros de poder ou ao conformismo e o medo da precarização entre aqueles que ainda tem algum emprego não tão precário.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sim, João Bernardo: admito meu vício analítico em querer ver em cada esquina uma revolução. Mas talvez ele sirva de contrapeso a uma tendência em decifrar o fascismo em cada declaração de dirigentes desimportantes. Veja, fiz uma pergunta que permaneceu sem resposta, e que não foi uma pergunta retórica: eu gostaria de saber dos companheiros que conhecem melhor o atual cenário político europeu qual é a influência da esquerda nacionalista sobre os trabalhadores e os movimentos sociais daí. No fundo, o que quero entender com isso é se as dificuldades para a constituição de um movimento de trabalhadores na escala européia se devem mais a uma falsa consciência nacionalista, à incapacidade dos precários em detectar os reais centros de poder ou ao conformismo e o medo da precarização entre aqueles que ainda tem algum emprego não tão precário.</p>
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