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	Comentários sobre: Notas sobre um «Guião Político». O capitalismo num só país?	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		Por: João Valente Aguiar		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/01/90438/#comment-182304</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Valente Aguiar]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Feb 2014 09:42:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Entretanto, encontrei no Resistir.info, um site ligado ao PCP, uma &quot;pérola&quot; de um dos gurus (http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2012/03/temos-que-sair-do-euro.html; http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2013/12/nao-sao-tolos-estes-romanos.html) dos defensores da saída do euro. Pelos vistos o guru Sapir considera que, ao contrário das tentativas de quadratura do círculo (http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2014/01/depois-queixem-se.html), afinal a Le Pen é uma aliada e é para levar a sério.

Aqui fica a transcrição do Sapir, em jeito de resposta às críticas que equivalem a defesa da saída do euro com as teses de Marine Le Pen. Resposta que é antes uma concordância com uma aliança política com a extrema-direita:

«13- Tem razão, naturalmente, mas dissolver o Euro equivale a dar razão à Frente Nacional e a Marine le Pen. 

Quando, em última instância, você afastou todas as objecções, quando os vossos interlocutores não têm mais nada de sério a vos opor, este é o último argumento que utilizam. Frédéric Lordon, em Julho de 2013, respondeu a este argumento [4] . É preciso então insistir nos seguintes pontos: 

1- A Frente Nacional não tem o monopólio da posição anti-Euro. Os opositores existem também no centro-direita (Nicolas Dupont-Aignan, Jacques Myard) e à esquerda (o M&#039;Pep, nomeadamente, mas também fracções inteiras da Frente de Esquerda, a julgar pelo correio que recebo, federações do PG e do PCF). Mas vê-se bem o interesse, para aqueles que querem a todo preço manter o Euro, em fazer crer que Marine le Pen tem o monopólio destas posições. É o equivalente neste debate ao famoso &quot;ponto Godwin&quot;, a reductio ab Hitlerum que caracteriza aqueles que estão esgotados de ideias, argumentos e credibilidade. 

2- É preciso a seguir acrescentar que o facto de Marine le Pen ter adoptado esta posição em nada lhe retira sua pertinência. Uma posição deve ser julgada pelos seus argumentos, sem inferências com outras posições exprimidas por certas pessoas. Isto é uma das condições de existência do debate democrático. Não respeitar estas regras equivale a sair da democracia e a entrar no mundo sinistro dos processos por feitiçaria e da inquisição. Dir-se-á que, tendo em conta o peso da democracia cristã no nascimento do Euro, isto não é nada espantoso... Pode-se não estar de acordo com as posições de alguém e reconhecer que ele ou ela tem razão sobre um ponto particular. Meu colega italiano Alberto Bagnai, na nota &quot;A água molha e o desemprego mata&quot; no seu blog, escreveu coisas muito justas sobre este ponto [5] e estou inteiramente de acordo com ele. 

3- No fundo, pouco importa saber quem retoma nossas posições. Hoje, o Euro é a principal causa de miséria e de morte na Europa. Sua existência impede todas as políticas de relançamento. Sua existência, devido à pressão que ele exerce sobre os espíritos, fez explodir o campo das pessoas que se dizem de esquerda. Eles tergiversam sem cessar sobre esta questão, não é Senhor Mélechon? Sua responsabilidade está aqui totalmente comprometida. Se para vencer for preciso que me alie ao Diabo, cito Churchill quando em 23 de Junho de 1941 deu o seu apoio a Staline. Quando um deputado conservador lhe pergunta como ele, anti-comunista convicto, tinha podido chegar a isso ele responde: &quot;Se Hitler houvesse invadido o inferno, eu me teria arranjado para ter uma palavra gentil para com o Diabo&quot;. Staline não era o Diabo e Marine le Pen certamente não o é. E se ela diz alguma coisa sensata, então eu a saúdo. Contra o &quot;partido único do Euro&quot; todas as forças, escrevo bem TODAS, serão necessárias para que se lhe ponha fim. Diante do perigo que nos ameaça, é a divisão e o sectarismo que constituem nossos maiores inimigos».
http://resistir.info/europa/sapir_29jan14_parte_2.html

Interessante também reparar que sempre que o Resistir.info não concordava com algum ponto relevante de um artigo colocava uma nota no início a dar conta disso. Neste caso, nem uma linha. Há silêncios que dizem tudo.

Quero ver como os nacionalistas de esquerda vão agora descalçar a bota da aliança com os nacionalistas de direita que o Jacques Sapir defende.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Entretanto, encontrei no Resistir.info, um site ligado ao PCP, uma &#8220;pérola&#8221; de um dos gurus (<a href="http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2012/03/temos-que-sair-do-euro.html" rel="nofollow ugc">http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2012/03/temos-que-sair-do-euro.html</a>; <a href="http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2013/12/nao-sao-tolos-estes-romanos.html" rel="nofollow ugc">http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2013/12/nao-sao-tolos-estes-romanos.html</a>) dos defensores da saída do euro. Pelos vistos o guru Sapir considera que, ao contrário das tentativas de quadratura do círculo (<a href="http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2014/01/depois-queixem-se.html" rel="nofollow ugc">http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2014/01/depois-queixem-se.html</a>), afinal a Le Pen é uma aliada e é para levar a sério.</p>
<p>Aqui fica a transcrição do Sapir, em jeito de resposta às críticas que equivalem a defesa da saída do euro com as teses de Marine Le Pen. Resposta que é antes uma concordância com uma aliança política com a extrema-direita:</p>
<p>«13- Tem razão, naturalmente, mas dissolver o Euro equivale a dar razão à Frente Nacional e a Marine le Pen. </p>
<p>Quando, em última instância, você afastou todas as objecções, quando os vossos interlocutores não têm mais nada de sério a vos opor, este é o último argumento que utilizam. Frédéric Lordon, em Julho de 2013, respondeu a este argumento [4] . É preciso então insistir nos seguintes pontos: </p>
<p>1- A Frente Nacional não tem o monopólio da posição anti-Euro. Os opositores existem também no centro-direita (Nicolas Dupont-Aignan, Jacques Myard) e à esquerda (o M&#8217;Pep, nomeadamente, mas também fracções inteiras da Frente de Esquerda, a julgar pelo correio que recebo, federações do PG e do PCF). Mas vê-se bem o interesse, para aqueles que querem a todo preço manter o Euro, em fazer crer que Marine le Pen tem o monopólio destas posições. É o equivalente neste debate ao famoso &#8220;ponto Godwin&#8221;, a reductio ab Hitlerum que caracteriza aqueles que estão esgotados de ideias, argumentos e credibilidade. </p>
<p>2- É preciso a seguir acrescentar que o facto de Marine le Pen ter adoptado esta posição em nada lhe retira sua pertinência. Uma posição deve ser julgada pelos seus argumentos, sem inferências com outras posições exprimidas por certas pessoas. Isto é uma das condições de existência do debate democrático. Não respeitar estas regras equivale a sair da democracia e a entrar no mundo sinistro dos processos por feitiçaria e da inquisição. Dir-se-á que, tendo em conta o peso da democracia cristã no nascimento do Euro, isto não é nada espantoso&#8230; Pode-se não estar de acordo com as posições de alguém e reconhecer que ele ou ela tem razão sobre um ponto particular. Meu colega italiano Alberto Bagnai, na nota &#8220;A água molha e o desemprego mata&#8221; no seu blog, escreveu coisas muito justas sobre este ponto [5] e estou inteiramente de acordo com ele. </p>
<p>3- No fundo, pouco importa saber quem retoma nossas posições. Hoje, o Euro é a principal causa de miséria e de morte na Europa. Sua existência impede todas as políticas de relançamento. Sua existência, devido à pressão que ele exerce sobre os espíritos, fez explodir o campo das pessoas que se dizem de esquerda. Eles tergiversam sem cessar sobre esta questão, não é Senhor Mélechon? Sua responsabilidade está aqui totalmente comprometida. Se para vencer for preciso que me alie ao Diabo, cito Churchill quando em 23 de Junho de 1941 deu o seu apoio a Staline. Quando um deputado conservador lhe pergunta como ele, anti-comunista convicto, tinha podido chegar a isso ele responde: &#8220;Se Hitler houvesse invadido o inferno, eu me teria arranjado para ter uma palavra gentil para com o Diabo&#8221;. Staline não era o Diabo e Marine le Pen certamente não o é. E se ela diz alguma coisa sensata, então eu a saúdo. Contra o &#8220;partido único do Euro&#8221; todas as forças, escrevo bem TODAS, serão necessárias para que se lhe ponha fim. Diante do perigo que nos ameaça, é a divisão e o sectarismo que constituem nossos maiores inimigos».<br />
<a href="http://resistir.info/europa/sapir_29jan14_parte_2.html" rel="nofollow ugc">http://resistir.info/europa/sapir_29jan14_parte_2.html</a></p>
<p>Interessante também reparar que sempre que o Resistir.info não concordava com algum ponto relevante de um artigo colocava uma nota no início a dar conta disso. Neste caso, nem uma linha. Há silêncios que dizem tudo.</p>
<p>Quero ver como os nacionalistas de esquerda vão agora descalçar a bota da aliança com os nacionalistas de direita que o Jacques Sapir defende.</p>
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		Por: João Valente Aguiar		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/01/90438/#comment-175232</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Valente Aguiar]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Jan 2014 12:55:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[João Bernardo,

Se não fosse o nacionalismo espontâneo e difuso na população de vários países europeus e se não fosse o nacionalismo consciente e divulgado como projecto político pela extrema-direita e pela esquerda, as respostas dos gestores em Bruxelas e em Frankfurt seria menos austeritária, pois teriam mecanismos de resposta muito mais eficazes. Basta pensar que desde que o Draghi disse que o BCE iria fazer tudo para manter o euro e que anunciou o programa de compra de dívida no mercado  secundário que não houve mais nenhum programa de resgate e que a situação espanhola e italiana estabilizou. Ora, foi o colete de forças nacionalista que fez com que as instituições europeias tivessem demorado mais de dois anos a responder à crise. Foi o nacionalismo incrustado nalguns sectores de vários Estados  nacionais europeus que impediu que as respostas dos gestores à crise financeira tenha tido um desenho parecido com o norte-americano. Aliás, foi esse nacionalismo que impediu uma arquitectura institucional europeia integrada, como o caso do BCE demonstra. Não só no que concerne à sua intervenção mais tímida relativamente ao FED (os estatutos do BCE são mais restritivos e são o produto do compromisso entre o federalismo  dos capitalistas transnacionais e dos sectores capitalistas mais retrógrados nos espaços nacionais), como no que diz respeito ao papel de credor de última instância. Sobre este último aspecto é ridículo ver a esquerda clamar pelo empréstimo directo do BCE aos estados nacionais por duas ordens de razões. Primeiro, o BCE não faz isso porque, como disse, a sua actuação nesse sentido foi sempre impedido pelo compromisso &quot;nem carne nem peixe&quot; que foi alcançado anteriormente entre os sectores federalistas e os sectores mais nacionalistas que ficaram com medo de ceder mais poderes monetários a uma entidade europeia. Segundo, o BCE provavelmente irá querer acabar com o nexo entre o soberano e a banca, como a união bancária preconiza. Isso quer dizer que o negócio da dívida pública será possivelmente mais restrito e mais controlado, portanto, tentando minimizar a compra de dívida pública pela banca, nomeadamente os bancos com piores desempenhos no cumprimento dos critérios Basel. O objectivo do BCE e dos gestores é portanto, neste ponto, coincidente com os da esquerda: minimizar o financiamento à banca privada na compra de dívida pública de modo a tentar evitar futuros contágios entre o conjunto do sistema financeiro. A grande diferença é que os gestores querem criar uma rede articulada a nível global, mas que seja institucionalmente capaz de extirpar um banco que entre em falência sem comprometer a sustentabilidade dos restantes bancos e dos Estados que emitem dívida. A esquerda, pelo contrário, quer devolver poder aos bancos centrais nacionais, estatizar a banca e emitir moeda infinitamente para cobrir défices orçamentais num quadro estritamente nacional. Como se o pobre do Keynes alguma vez adoptasse as medidas dos que se reclamam como seus sucessores... Aliás, a esquerda continua a querer retirar do pensamento do Keynes o que ela pensa que seriam medidas económicas intemporais e imutáveis, agora aplicadas ao plano nacional. Ora, o Keynes como gestor lúcido que era, não desenvolveu a sua obra de acordo com princípios apriorísticos mas de acordo com as condições institucionais e económicas concretas do seu tempo. Os gestores de hoje fazem exactamente o mesmo, numa nova conjuntura. Com a vantagem de hoje terem mais instituições transnacionais de regulação, de terem um sistema financeiro simultaneamente mais volátil e mais articulado, de terem menos cisões internas, de dependerem menos de personalidades marcantes e carismáticas e de ligarem menos a ideólogos. Para os capitalistas, retirando considerações morais e filosóficas gerais sobre o mercado (Hayek, etc.) a sua actuação não se baseia na aplicação de princípios apresentados  por um qualquer ideólogo ou pensador. Pelo contrário, são profundamente pragmáticos e actuam pelo que lhes permite relançar um novo ciclo económico e pelo que evite fricções internas.

O pior disto é que a classe trabalhadora fica entalada entre dois fogos: entre uma hegemonia reforçada, complexa e bem oleada dos capitalistas e uma esquerda que só serve para difundir ilusões e evitar que os trabalhadores possam pensar e lutar numa base transnacional.

Como diz o artigo acima, nós à esquerda temos de
«deixar de falar de povos e passar a falar de uma classe, transfronteiriça e unida por um projecto político comum. Mais do que procurar um traço matricial na história da Europa que nos sirva de guia, preferimos evocar um conjunto de experiências — desde os motins e confraternizações de ambos os lados das linhas de frente na primeira guerra mundial, passando pelos militantes de diferentes nacionalidades que rumaram a Espanha em 1936, até às manifestações antiglobalização nos inícios do século XXI — que comprovam a possibilidade desse projecto político, para lá da dimensão nacional. Não deixamos, contudo, de prestar atenção aos momentos na história da Europa do século XX em que o proletariado, dividido em nações, acabou por se massacrar a si próprio».

Se a esquerda compreendesse minimamente este trecho seria um avanço político imenso. Mas será que estes temas que se têm discutido neste espaço serão uma questão de mero debate e compreensão racional? Na medida em que o nacionalismo se baseia numa vertente fundamentalmente ideológica, temo bem que seja muito mais do que isso. E muito mais grave. Quanto mais a integração europeia avançar, mais e mais a esquerda será nacionalista. Quanto mais os capitalistas se internacionalizarem, mais se reforçarão, e mais os trabalhadores ficarão divididos entre si, mais os trabalhadores abrirão barricadas nacionais entre si. A nacionalização da classe trabalhadora é um processo interligado e necessário à transnacionalização das empresas. Quanto mais fragmentada a classe trabalhadora, mais coesa a classe dominante. À coesão transnacional dos capitalistas a grande parte da esquerda não quer responder com uma coesão transnacional dos trabalhadores, mas com a fragmentação nacional.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Bernardo,</p>
<p>Se não fosse o nacionalismo espontâneo e difuso na população de vários países europeus e se não fosse o nacionalismo consciente e divulgado como projecto político pela extrema-direita e pela esquerda, as respostas dos gestores em Bruxelas e em Frankfurt seria menos austeritária, pois teriam mecanismos de resposta muito mais eficazes. Basta pensar que desde que o Draghi disse que o BCE iria fazer tudo para manter o euro e que anunciou o programa de compra de dívida no mercado  secundário que não houve mais nenhum programa de resgate e que a situação espanhola e italiana estabilizou. Ora, foi o colete de forças nacionalista que fez com que as instituições europeias tivessem demorado mais de dois anos a responder à crise. Foi o nacionalismo incrustado nalguns sectores de vários Estados  nacionais europeus que impediu que as respostas dos gestores à crise financeira tenha tido um desenho parecido com o norte-americano. Aliás, foi esse nacionalismo que impediu uma arquitectura institucional europeia integrada, como o caso do BCE demonstra. Não só no que concerne à sua intervenção mais tímida relativamente ao FED (os estatutos do BCE são mais restritivos e são o produto do compromisso entre o federalismo  dos capitalistas transnacionais e dos sectores capitalistas mais retrógrados nos espaços nacionais), como no que diz respeito ao papel de credor de última instância. Sobre este último aspecto é ridículo ver a esquerda clamar pelo empréstimo directo do BCE aos estados nacionais por duas ordens de razões. Primeiro, o BCE não faz isso porque, como disse, a sua actuação nesse sentido foi sempre impedido pelo compromisso &#8220;nem carne nem peixe&#8221; que foi alcançado anteriormente entre os sectores federalistas e os sectores mais nacionalistas que ficaram com medo de ceder mais poderes monetários a uma entidade europeia. Segundo, o BCE provavelmente irá querer acabar com o nexo entre o soberano e a banca, como a união bancária preconiza. Isso quer dizer que o negócio da dívida pública será possivelmente mais restrito e mais controlado, portanto, tentando minimizar a compra de dívida pública pela banca, nomeadamente os bancos com piores desempenhos no cumprimento dos critérios Basel. O objectivo do BCE e dos gestores é portanto, neste ponto, coincidente com os da esquerda: minimizar o financiamento à banca privada na compra de dívida pública de modo a tentar evitar futuros contágios entre o conjunto do sistema financeiro. A grande diferença é que os gestores querem criar uma rede articulada a nível global, mas que seja institucionalmente capaz de extirpar um banco que entre em falência sem comprometer a sustentabilidade dos restantes bancos e dos Estados que emitem dívida. A esquerda, pelo contrário, quer devolver poder aos bancos centrais nacionais, estatizar a banca e emitir moeda infinitamente para cobrir défices orçamentais num quadro estritamente nacional. Como se o pobre do Keynes alguma vez adoptasse as medidas dos que se reclamam como seus sucessores&#8230; Aliás, a esquerda continua a querer retirar do pensamento do Keynes o que ela pensa que seriam medidas económicas intemporais e imutáveis, agora aplicadas ao plano nacional. Ora, o Keynes como gestor lúcido que era, não desenvolveu a sua obra de acordo com princípios apriorísticos mas de acordo com as condições institucionais e económicas concretas do seu tempo. Os gestores de hoje fazem exactamente o mesmo, numa nova conjuntura. Com a vantagem de hoje terem mais instituições transnacionais de regulação, de terem um sistema financeiro simultaneamente mais volátil e mais articulado, de terem menos cisões internas, de dependerem menos de personalidades marcantes e carismáticas e de ligarem menos a ideólogos. Para os capitalistas, retirando considerações morais e filosóficas gerais sobre o mercado (Hayek, etc.) a sua actuação não se baseia na aplicação de princípios apresentados  por um qualquer ideólogo ou pensador. Pelo contrário, são profundamente pragmáticos e actuam pelo que lhes permite relançar um novo ciclo económico e pelo que evite fricções internas.</p>
<p>O pior disto é que a classe trabalhadora fica entalada entre dois fogos: entre uma hegemonia reforçada, complexa e bem oleada dos capitalistas e uma esquerda que só serve para difundir ilusões e evitar que os trabalhadores possam pensar e lutar numa base transnacional.</p>
<p>Como diz o artigo acima, nós à esquerda temos de<br />
«deixar de falar de povos e passar a falar de uma classe, transfronteiriça e unida por um projecto político comum. Mais do que procurar um traço matricial na história da Europa que nos sirva de guia, preferimos evocar um conjunto de experiências — desde os motins e confraternizações de ambos os lados das linhas de frente na primeira guerra mundial, passando pelos militantes de diferentes nacionalidades que rumaram a Espanha em 1936, até às manifestações antiglobalização nos inícios do século XXI — que comprovam a possibilidade desse projecto político, para lá da dimensão nacional. Não deixamos, contudo, de prestar atenção aos momentos na história da Europa do século XX em que o proletariado, dividido em nações, acabou por se massacrar a si próprio».</p>
<p>Se a esquerda compreendesse minimamente este trecho seria um avanço político imenso. Mas será que estes temas que se têm discutido neste espaço serão uma questão de mero debate e compreensão racional? Na medida em que o nacionalismo se baseia numa vertente fundamentalmente ideológica, temo bem que seja muito mais do que isso. E muito mais grave. Quanto mais a integração europeia avançar, mais e mais a esquerda será nacionalista. Quanto mais os capitalistas se internacionalizarem, mais se reforçarão, e mais os trabalhadores ficarão divididos entre si, mais os trabalhadores abrirão barricadas nacionais entre si. A nacionalização da classe trabalhadora é um processo interligado e necessário à transnacionalização das empresas. Quanto mais fragmentada a classe trabalhadora, mais coesa a classe dominante. À coesão transnacional dos capitalistas a grande parte da esquerda não quer responder com uma coesão transnacional dos trabalhadores, mas com a fragmentação nacional.</p>
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		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/01/90438/#comment-175206</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Jan 2014 11:57:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Já agora, acrescento alguma coisa na linha deste último comentário do João Valente Aguiar. Fala-se muito da crise de 1929 e estabelecem-se comparações com a crise actual. Ora, a crise de 1929 mundializou-se rapidamente porque havia um triângulo Estados Unidos → Alemanha → França + Inglaterra. A Alemanha estava obrigada pelo tratado de Versailles a pagar colossais indemnizações à França e à Inglaterra, sobretudo à França. Para isso precisava dos créditos fornecidos pelos bancos norte-americanos. E a França e a Inglaterra compravam bens aos Estados Unidos. A partir do momento em que os bancos norte-americanos entraram em crise o crédito fornecido à Alemanha se interrompeu, o triângulo deixou de funcionar. A causa da crise de 1929 nos Estados Unidos não foi o nacionalismo, mas o motivo que levou a crise a generalizar-se e a adquirir aquela amplitude foi o nacionalismo. Desde a própria assinatura do tratado de Versailles várias pessoas lúcidas, Keynes entre elas, tinham alertado para as consequências nefastas que decorreriam do nacionalismo inerente às reparações de guerra. E depois de mundializada a crise, na década de 1930, a questão do nacionalismo económico foi ainda a principal diferença entre as medidas propostas por Keynes e as decididas por Roosevelt no quadro do New Deal. Do mesmo modo, durante a guerra, na conferência de Bretton Woods as medidas mais francamente internacionalistas defendidas por Keynes não foram adoptadas e prevaleceu o plano norte-americano, concebido por White, que aliás, como depois se soube, estava secretamente ligado aos soviéticos, e que defendia um grau de internacionalização muito menor. Só depois da guerra, com o Plano Marshall, é que a internacionalização da economia foi plenamente adoptada como a estratégia capitalista mais lúcida. E é interessante que Ben Bernanke tivesse sido escolhido para presidir ao Fed por ser um especialista académico da crise de 1929. Enquanto isto se passa, vemos a esquerda propor medidas de incentivo económico de inspiração keynesiana, mas num quadro nacionalista que já há quase um século atrás o próprio Keynes considerava nefasto. O problema com o nacionalismo de esquerda não é só ele ser prejudicial à luta dos trabalhadores, mas é também o de ser arcaico.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já agora, acrescento alguma coisa na linha deste último comentário do João Valente Aguiar. Fala-se muito da crise de 1929 e estabelecem-se comparações com a crise actual. Ora, a crise de 1929 mundializou-se rapidamente porque havia um triângulo Estados Unidos → Alemanha → França + Inglaterra. A Alemanha estava obrigada pelo tratado de Versailles a pagar colossais indemnizações à França e à Inglaterra, sobretudo à França. Para isso precisava dos créditos fornecidos pelos bancos norte-americanos. E a França e a Inglaterra compravam bens aos Estados Unidos. A partir do momento em que os bancos norte-americanos entraram em crise o crédito fornecido à Alemanha se interrompeu, o triângulo deixou de funcionar. A causa da crise de 1929 nos Estados Unidos não foi o nacionalismo, mas o motivo que levou a crise a generalizar-se e a adquirir aquela amplitude foi o nacionalismo. Desde a própria assinatura do tratado de Versailles várias pessoas lúcidas, Keynes entre elas, tinham alertado para as consequências nefastas que decorreriam do nacionalismo inerente às reparações de guerra. E depois de mundializada a crise, na década de 1930, a questão do nacionalismo económico foi ainda a principal diferença entre as medidas propostas por Keynes e as decididas por Roosevelt no quadro do New Deal. Do mesmo modo, durante a guerra, na conferência de Bretton Woods as medidas mais francamente internacionalistas defendidas por Keynes não foram adoptadas e prevaleceu o plano norte-americano, concebido por White, que aliás, como depois se soube, estava secretamente ligado aos soviéticos, e que defendia um grau de internacionalização muito menor. Só depois da guerra, com o Plano Marshall, é que a internacionalização da economia foi plenamente adoptada como a estratégia capitalista mais lúcida. E é interessante que Ben Bernanke tivesse sido escolhido para presidir ao Fed por ser um especialista académico da crise de 1929. Enquanto isto se passa, vemos a esquerda propor medidas de incentivo económico de inspiração keynesiana, mas num quadro nacionalista que já há quase um século atrás o próprio Keynes considerava nefasto. O problema com o nacionalismo de esquerda não é só ele ser prejudicial à luta dos trabalhadores, mas é também o de ser arcaico.</p>
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		<title>
		Por: João Valente Aguiar		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/01/90438/#comment-175176</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Valente Aguiar]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Jan 2014 10:19:27 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=90438#comment-175176</guid>

					<description><![CDATA[Para quem pensa que o nacionalismo da esquerda não é exclusivista talvez valha a pena dar um pulo a blogues de esquerda e ver o que pensam sobre o actual contexto. E isto é só uma amostra.

Por exemplo, aqui -  http://www.manifesto74.blogspot.pt/2014/01/muitas-barricadas-um-planeta.html - escreve-se o seguinte: «Palpitam as veias abertas do nosso planeta. Enquanto a tirania se lança sobre todos, cada povo levanta a sua barricada». Engraçado como a um ataque global por parte dos capitalistas a esquerda nacionalista acha que cada povo (curiosa noção que agrega classes exploradoras e classes exploradas) deve lutar por si mesmo.

E aqui - http://5dias.wordpress.com/2014/01/15/de-joelhos-e-boca-aberta-para-engolir-armas-quimicas-que-mais-ninguem-aceitou/  - consegue-se ir ainda mais longe e ver na destruição de armas químicas um problema porque acontece em território português, porque se for em Nova Iorque ou noutro local já não haveria problema... Em vez de se criticar a dimensão intrinsecamente imperialista do capitalismo, a esquerda adopta a táctica da defesa do seu quadr(ad)o nacional. O problema é sempre a paranóia do ataque a solo nacional, nunca a dinâmica capitalista que ultrapassa fronteiras.

Por outro lado, qualquer pessoa que veja espaços da internet conotados com a extrema-direita facilmente vê que eles defendem  uma Europa das nações. Claro que a extrema-direita actual coloca a tónica na tese do património cristão comum anti-muçulmano, enquanto a esquerda nacionalista coloca a tónica numa Europa das nações livres e independentes, com cada povo a decidir o seu próprio destino. Mas raspando a tinta ideológica ritual à superfície, que tem uma importância a não negligenciar, também é  indiscutível que existe uma partilha de caminhos que é perigosa. Esquece a esquerda nacionalista que levar  milhares de militantes e de trabalhadores ao moinho do nacionalismo só fortalecerá o nacionalismo de direita. A nação será sempre um espaço por excelência das modalidades mais retrógradas do capitalismo, ainda e muito piores do que o capitalismo liberal. Tendo em conta que a alternativa nacionalista é impraticável do ponto de vista económico, isso significa que essas propostas da esquerda só servem para manter a ilusão de uma camada minoritária de trabalhadores relativamente à transnacionalização económica.

Felizmente para a humanidade nem os tecnocratas nem os trabalhadores na sua generalidade reconhecem  utilidade a essa esquerda retrógrada. Os primeiros porque estão comprometidos, no plano global, aos mecanismos da mais-valia relativa, enquanto a maioria da esquerda estrutura o seu projecto económico numa base da mais-valia absoluta. Os segundos, por razões opostas, porque têm um senso comum e uma razoabilidade de quem tem de lidar com as dificuldades da vida quotidiana, o que lhes permite perceber as ilusões que a esquerda pensa que poderia impingir.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para quem pensa que o nacionalismo da esquerda não é exclusivista talvez valha a pena dar um pulo a blogues de esquerda e ver o que pensam sobre o actual contexto. E isto é só uma amostra.</p>
<p>Por exemplo, aqui &#8211;  <a href="http://www.manifesto74.blogspot.pt/2014/01/muitas-barricadas-um-planeta.html" rel="nofollow ugc">http://www.manifesto74.blogspot.pt/2014/01/muitas-barricadas-um-planeta.html</a> &#8211; escreve-se o seguinte: «Palpitam as veias abertas do nosso planeta. Enquanto a tirania se lança sobre todos, cada povo levanta a sua barricada». Engraçado como a um ataque global por parte dos capitalistas a esquerda nacionalista acha que cada povo (curiosa noção que agrega classes exploradoras e classes exploradas) deve lutar por si mesmo.</p>
<p>E aqui &#8211; <a href="http://5dias.wordpress.com/2014/01/15/de-joelhos-e-boca-aberta-para-engolir-armas-quimicas-que-mais-ninguem-aceitou/" rel="nofollow ugc">http://5dias.wordpress.com/2014/01/15/de-joelhos-e-boca-aberta-para-engolir-armas-quimicas-que-mais-ninguem-aceitou/</a>  &#8211; consegue-se ir ainda mais longe e ver na destruição de armas químicas um problema porque acontece em território português, porque se for em Nova Iorque ou noutro local já não haveria problema&#8230; Em vez de se criticar a dimensão intrinsecamente imperialista do capitalismo, a esquerda adopta a táctica da defesa do seu quadr(ad)o nacional. O problema é sempre a paranóia do ataque a solo nacional, nunca a dinâmica capitalista que ultrapassa fronteiras.</p>
<p>Por outro lado, qualquer pessoa que veja espaços da internet conotados com a extrema-direita facilmente vê que eles defendem  uma Europa das nações. Claro que a extrema-direita actual coloca a tónica na tese do património cristão comum anti-muçulmano, enquanto a esquerda nacionalista coloca a tónica numa Europa das nações livres e independentes, com cada povo a decidir o seu próprio destino. Mas raspando a tinta ideológica ritual à superfície, que tem uma importância a não negligenciar, também é  indiscutível que existe uma partilha de caminhos que é perigosa. Esquece a esquerda nacionalista que levar  milhares de militantes e de trabalhadores ao moinho do nacionalismo só fortalecerá o nacionalismo de direita. A nação será sempre um espaço por excelência das modalidades mais retrógradas do capitalismo, ainda e muito piores do que o capitalismo liberal. Tendo em conta que a alternativa nacionalista é impraticável do ponto de vista económico, isso significa que essas propostas da esquerda só servem para manter a ilusão de uma camada minoritária de trabalhadores relativamente à transnacionalização económica.</p>
<p>Felizmente para a humanidade nem os tecnocratas nem os trabalhadores na sua generalidade reconhecem  utilidade a essa esquerda retrógrada. Os primeiros porque estão comprometidos, no plano global, aos mecanismos da mais-valia relativa, enquanto a maioria da esquerda estrutura o seu projecto económico numa base da mais-valia absoluta. Os segundos, por razões opostas, porque têm um senso comum e uma razoabilidade de quem tem de lidar com as dificuldades da vida quotidiana, o que lhes permite perceber as ilusões que a esquerda pensa que poderia impingir.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: miguel serras pereira		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/01/90438/#comment-174675</link>

		<dc:creator><![CDATA[miguel serras pereira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jan 2014 17:49:22 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=90438#comment-174675</guid>

					<description><![CDATA[Caro João Bernardo,

poderia subscrever praticamente tudo o que dizes. Gostaria, no entanto, de sublinhar a frase: &quot;o nacionalismo é que serve para ligar a direita e a esquerda numa teia perversa&quot; cujo inimigo principal é a democracia.
Em segundo lugar, sublinharia também a tua afirmação; &quot;O nacionalismo não se destina a preservar tradições e culturas&quot;, acrescentando que a salvaguarda de tradições (enquanto motivos inspiradores) e criações culturais maiores (como as línguas, etc.) só teria a beneficiar com a descentralização, decorrente do enfraquecimento do colete de forças do Estado-nação, que um amplo movimento de democratização de natureza federalista acarretaria. 

Um abraço

msp]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro João Bernardo,</p>
<p>poderia subscrever praticamente tudo o que dizes. Gostaria, no entanto, de sublinhar a frase: &#8220;o nacionalismo é que serve para ligar a direita e a esquerda numa teia perversa&#8221; cujo inimigo principal é a democracia.<br />
Em segundo lugar, sublinharia também a tua afirmação; &#8220;O nacionalismo não se destina a preservar tradições e culturas&#8221;, acrescentando que a salvaguarda de tradições (enquanto motivos inspiradores) e criações culturais maiores (como as línguas, etc.) só teria a beneficiar com a descentralização, decorrente do enfraquecimento do colete de forças do Estado-nação, que um amplo movimento de democratização de natureza federalista acarretaria. </p>
<p>Um abraço</p>
<p>msp</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/01/90438/#comment-174646</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jan 2014 17:12:55 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=90438#comment-174646</guid>

					<description><![CDATA[Segui na internet algumas discussões acerca deste artigo, e num caso houve quem admitisse a existência de um «patriotismo internacionalista» e afirmasse que o «nacionalismo de esquerda» «tende a não ser exclusivista», enquanto o «nacionalismo de direita» «tende a ser exclusivista». Aqui lembrei-me de várias coisas, por exemplo do confronto militar entre a República Popular da China e a República Socialista do Vietname em Fevereiro e Março de 1979, dois nacionalismos de esquerda que, segundo aquela regra optimista, deveriam tender a não ser exclusivistas. Lembrei-me também de que, por iniciativa da Itália e na ausência do partido nacional-socialista alemão, se realizou em Dezembro de 1934 a conferência de Montreux, na Suíça, reunindo representantes dos movimentos fascistas de quinze países europeus, o que constitui um caso em que o nacionalismo de direita não se mostrou exclusivista. Aliás, a respeito da ausência dos nacionais-socialistas germânicos de Montreux convém saber que Hitler, sobretudo na sua roda de íntimos, se pronunciou várias vezes contra o nacionalismo, precisamente por considerá-lo demasiado exclusivista. Contra a divisão numa multiplicidade de nações Hitler e Himmler defendiam a união em grandes grupos raciais. Assim, dos 900 mil homens que até ao final da guerra haviam passado pelos Waffen SS, menos de metade eram alemães originários do Reich. Como fica, perante estes factos, a pretensa divisão entre o carácter exclusivista atribuído ao nacionalismo de direita e o carácter não exclusivista atribuído ao nacionalismo de esquerda? &lt;em&gt;Esquerda&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;direita&lt;/em&gt; não servem para diferençar os nacionalismos; o &lt;em&gt;nacionalismo&lt;/em&gt; é que serve para ligar a direita e a esquerda numa teia perversa.
É que a operação fundamental do nacionalismo não se dirige ao lado de fora das fronteiras, mas ao lado de dentro. O primeiro objectivo do nacionalismo é atrelar a classe trabalhadora de um país aos capitalistas desse país — mesmo que as suas empresas estejam inseridas nas redes internacionais do capital. O nacionalismo não se destina a preservar tradições e culturas, porque isso se faz dentro das unidades nacionais, tanto federadas como centralizadas. O objectivo do nacionalismo é, pura e simplemente, o reforço do poder de Estado. O nacionalismo é a via para o capitalismo de Estado. É para isto, e só para isto, que serve a junção do &lt;em&gt;nacional&lt;/em&gt; ao &lt;em&gt;social&lt;/em&gt;.
Ora, o eixo da crítica feita ao &lt;em&gt;Guião Político&lt;/em&gt; por este artigo — e li com atenção ambos os documentos — parece-me ser o da inanidade das soluções económicas defendidas numa perspectiva nacionalista. O absurdo económico da saída de Portugal do euro, da adopção de uma moeda desvalorizada e do recurso à inflação explicam-se ao sabermos que o seu objectivo político é o reforço do capitalismo de Estado, assente numa extensão da mais-valia absoluta.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Segui na internet algumas discussões acerca deste artigo, e num caso houve quem admitisse a existência de um «patriotismo internacionalista» e afirmasse que o «nacionalismo de esquerda» «tende a não ser exclusivista», enquanto o «nacionalismo de direita» «tende a ser exclusivista». Aqui lembrei-me de várias coisas, por exemplo do confronto militar entre a República Popular da China e a República Socialista do Vietname em Fevereiro e Março de 1979, dois nacionalismos de esquerda que, segundo aquela regra optimista, deveriam tender a não ser exclusivistas. Lembrei-me também de que, por iniciativa da Itália e na ausência do partido nacional-socialista alemão, se realizou em Dezembro de 1934 a conferência de Montreux, na Suíça, reunindo representantes dos movimentos fascistas de quinze países europeus, o que constitui um caso em que o nacionalismo de direita não se mostrou exclusivista. Aliás, a respeito da ausência dos nacionais-socialistas germânicos de Montreux convém saber que Hitler, sobretudo na sua roda de íntimos, se pronunciou várias vezes contra o nacionalismo, precisamente por considerá-lo demasiado exclusivista. Contra a divisão numa multiplicidade de nações Hitler e Himmler defendiam a união em grandes grupos raciais. Assim, dos 900 mil homens que até ao final da guerra haviam passado pelos Waffen SS, menos de metade eram alemães originários do Reich. Como fica, perante estes factos, a pretensa divisão entre o carácter exclusivista atribuído ao nacionalismo de direita e o carácter não exclusivista atribuído ao nacionalismo de esquerda? <em>Esquerda</em> e <em>direita</em> não servem para diferençar os nacionalismos; o <em>nacionalismo</em> é que serve para ligar a direita e a esquerda numa teia perversa.<br />
É que a operação fundamental do nacionalismo não se dirige ao lado de fora das fronteiras, mas ao lado de dentro. O primeiro objectivo do nacionalismo é atrelar a classe trabalhadora de um país aos capitalistas desse país — mesmo que as suas empresas estejam inseridas nas redes internacionais do capital. O nacionalismo não se destina a preservar tradições e culturas, porque isso se faz dentro das unidades nacionais, tanto federadas como centralizadas. O objectivo do nacionalismo é, pura e simplemente, o reforço do poder de Estado. O nacionalismo é a via para o capitalismo de Estado. É para isto, e só para isto, que serve a junção do <em>nacional</em> ao <em>social</em>.<br />
Ora, o eixo da crítica feita ao <em>Guião Político</em> por este artigo — e li com atenção ambos os documentos — parece-me ser o da inanidade das soluções económicas defendidas numa perspectiva nacionalista. O absurdo económico da saída de Portugal do euro, da adopção de uma moeda desvalorizada e do recurso à inflação explicam-se ao sabermos que o seu objectivo político é o reforço do capitalismo de Estado, assente numa extensão da mais-valia absoluta.</p>
]]></content:encoded>
		
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