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	Comentários sobre: O nascimento da ideologia fascista (2ª parte)	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/02/91656/#comment-188845</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Feb 2014 10:58:16 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Gustavo,
Eu escrevi: «Decerto, nem todo o irracionalismo levou ao fascismo». E logo em seguida acrescentei: «Mas creio que todo o movimento político irracionalista levou ao fascismo». Ora, com Henri de Man tratava-se de um movimento político. E como ele era um pensador muito coerente e lógico, o seu percurso político não foi ocasional. O que não significa que as suas obras não possam ser lidas com muito proveito.
Quanto aos temas que mais directamente me têm ocupado, parece-me especialmente interessante o terceiro capítulo de &lt;em&gt;Au Delà du Marxisme&lt;/em&gt;, em particular a tese de que o desenvolvimento da maquinaria, em vez de retirar qualificações ao operário, pelo contrário, requer novas qualificações, exigindo um profissional capaz de fazer funcionar ou mesmo dirigir máquinas complexas. Gerou-se assim, como de Man indicou brevemente em &lt;em&gt;Le Socialisme Constructif&lt;/em&gt;, uma grande diferença entre os operários qualificados e os meros serventes. Atento às consequências da industrialização moderna, de Man detectou noutra passagem de &lt;em&gt;Au Delà du Marxisme&lt;/em&gt; «uma inquietante semelhança entre “o operário ideal” do marxismo e “o operário ideal” do taylorismo supercapitalista, pelo menos no que diz respeito à situação na oficina», e a partir daqui afirmou que não se devia a um acaso a difusão do taylorismo na União Soviética (Bruxelas: L’Églantine, 1927, pág. 62). A mesma argúcia que usou para analisar a actividade industrial, de Man empregou-a também para estudar as administrações, e entra aqui a sua definição da existência de uma classe de gestores, que está na origem desta nossa troca de comentários. Em suma, de Man escreveu livros repletos de análises muito perceptivas.
Enquanto crítico do marxismo, porém, parece-me que Henri de Man deixa a desejar, porque desenvolveu alguns temas como se fossem opostos ou alheios ao marxismo quando, na verdade, haviam sido centrais na obra de Marx. Assim, por exemplo, tanto em &lt;em&gt;Au Delà du Marxisme&lt;/em&gt; como em &lt;em&gt;Le Socialisme Constructif&lt;/em&gt; o modelo da mais-valia ficou reduzido à sua modalidade absoluta, com inteiro desconhecimento da mais-valia relativa, e certas passagens da primeira destas obras em nada são contraditórias com a teoria da mais-valia, como o autor pretendeu, mas, quando muito, desenvolveram-na e completaram-na em vários aspectos. Do mesmo modo, no terceiro capítulo de &lt;em&gt;Au Delà du Marxisme&lt;/em&gt; parece que o autor ignorava a crítica de Marx à reificação e mais adiante (págs. 286 e segs.) considerou que no pensamento de Marx não havia nada de dinâmico, que ele era apenas estático. Este espantoso esquecimento da dialéctica explica-se ao sabermos que para de Man o único marxismo que importava e existia realmente era o marxismo vulgar, aquele que as massas haviam transformado em símbolo, mesmo que em nada correspondesse ao original, enquanto o original era letra morta e não tinha valor real (&lt;em&gt;Au Delà du Marxisme&lt;/em&gt;, págs. 351-354). Em suma, Henri de Man considerou a obra de Marx apenas segundo a noção soreliana de mito. Ele reduziu a obra de Marx ao seu valor simbólico porque era neste plano que entendia a vida política. É isto o irracionalismo na política. &lt;em&gt;La boucle est bouclée&lt;/em&gt;.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gustavo,<br />
Eu escrevi: «Decerto, nem todo o irracionalismo levou ao fascismo». E logo em seguida acrescentei: «Mas creio que todo o movimento político irracionalista levou ao fascismo». Ora, com Henri de Man tratava-se de um movimento político. E como ele era um pensador muito coerente e lógico, o seu percurso político não foi ocasional. O que não significa que as suas obras não possam ser lidas com muito proveito.<br />
Quanto aos temas que mais directamente me têm ocupado, parece-me especialmente interessante o terceiro capítulo de <em>Au Delà du Marxisme</em>, em particular a tese de que o desenvolvimento da maquinaria, em vez de retirar qualificações ao operário, pelo contrário, requer novas qualificações, exigindo um profissional capaz de fazer funcionar ou mesmo dirigir máquinas complexas. Gerou-se assim, como de Man indicou brevemente em <em>Le Socialisme Constructif</em>, uma grande diferença entre os operários qualificados e os meros serventes. Atento às consequências da industrialização moderna, de Man detectou noutra passagem de <em>Au Delà du Marxisme</em> «uma inquietante semelhança entre “o operário ideal” do marxismo e “o operário ideal” do taylorismo supercapitalista, pelo menos no que diz respeito à situação na oficina», e a partir daqui afirmou que não se devia a um acaso a difusão do taylorismo na União Soviética (Bruxelas: L’Églantine, 1927, pág. 62). A mesma argúcia que usou para analisar a actividade industrial, de Man empregou-a também para estudar as administrações, e entra aqui a sua definição da existência de uma classe de gestores, que está na origem desta nossa troca de comentários. Em suma, de Man escreveu livros repletos de análises muito perceptivas.<br />
Enquanto crítico do marxismo, porém, parece-me que Henri de Man deixa a desejar, porque desenvolveu alguns temas como se fossem opostos ou alheios ao marxismo quando, na verdade, haviam sido centrais na obra de Marx. Assim, por exemplo, tanto em <em>Au Delà du Marxisme</em> como em <em>Le Socialisme Constructif</em> o modelo da mais-valia ficou reduzido à sua modalidade absoluta, com inteiro desconhecimento da mais-valia relativa, e certas passagens da primeira destas obras em nada são contraditórias com a teoria da mais-valia, como o autor pretendeu, mas, quando muito, desenvolveram-na e completaram-na em vários aspectos. Do mesmo modo, no terceiro capítulo de <em>Au Delà du Marxisme</em> parece que o autor ignorava a crítica de Marx à reificação e mais adiante (págs. 286 e segs.) considerou que no pensamento de Marx não havia nada de dinâmico, que ele era apenas estático. Este espantoso esquecimento da dialéctica explica-se ao sabermos que para de Man o único marxismo que importava e existia realmente era o marxismo vulgar, aquele que as massas haviam transformado em símbolo, mesmo que em nada correspondesse ao original, enquanto o original era letra morta e não tinha valor real (<em>Au Delà du Marxisme</em>, págs. 351-354). Em suma, Henri de Man considerou a obra de Marx apenas segundo a noção soreliana de mito. Ele reduziu a obra de Marx ao seu valor simbólico porque era neste plano que entendia a vida política. É isto o irracionalismo na política. <em>La boucle est bouclée</em>.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Gustavo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/02/91656/#comment-188709</link>

		<dc:creator><![CDATA[Gustavo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Feb 2014 01:08:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[“&lt;i&gt;A que condições deve satisfazer uma doutrina do socialismo para nos pôr em condições de, a uma só vez, compreender da melhor forma possível os fenômenos e agir sobre eles com o máximo de eficácia?&lt;/i&gt;”, pergunta de Man?
“&lt;i&gt;Ora, o caminho que conduz a esse problema deve passar por uma crítica do marxismo&lt;/i&gt;”, responde.
Assim começa de Man o capítulo XI, O racionalismo marxista, em &lt;i&gt;Au Delá du Marxisme&lt;/i&gt;.
É um capítulo denso e fascinante, quando o autor recorre aos conhecimentos científicos e filosóficos mais recentes da sua época (1926) - muitos deles influentes até hoje - para desmontar o que considera formas ultrapassadas de análise e teorização de Marx.
Não tivesse de Man engrossado as hostes fascistas e antisemitas, e seria referência obrigatória até hoje, é a impressão que me passa.
Entretanto, como você disse no penúltimo comentário, nem todo irracionalismo leva ao fascismo, e toda uma linhagem de pensamento continuou daí onde de Man se perdeu, por exemplo, o pessoal da Análise Institucional (um resumo razoável sobre o percurso da AI pode ser visto aqui: &lt;a / rel=&quot;nofollow&quot;&gt;http://matutacoes.org/2011/06/29/%E2%80%9Cisso-funciona-respira-come-caga-fode%E2%80%9D/&lt;/a&gt; )]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“<i>A que condições deve satisfazer uma doutrina do socialismo para nos pôr em condições de, a uma só vez, compreender da melhor forma possível os fenômenos e agir sobre eles com o máximo de eficácia?</i>”, pergunta de Man?<br />
“<i>Ora, o caminho que conduz a esse problema deve passar por uma crítica do marxismo</i>”, responde.<br />
Assim começa de Man o capítulo XI, O racionalismo marxista, em <i>Au Delá du Marxisme</i>.<br />
É um capítulo denso e fascinante, quando o autor recorre aos conhecimentos científicos e filosóficos mais recentes da sua época (1926) &#8211; muitos deles influentes até hoje &#8211; para desmontar o que considera formas ultrapassadas de análise e teorização de Marx.<br />
Não tivesse de Man engrossado as hostes fascistas e antisemitas, e seria referência obrigatória até hoje, é a impressão que me passa.<br />
Entretanto, como você disse no penúltimo comentário, nem todo irracionalismo leva ao fascismo, e toda uma linhagem de pensamento continuou daí onde de Man se perdeu, por exemplo, o pessoal da Análise Institucional (um resumo razoável sobre o percurso da AI pode ser visto aqui: <a / rel="nofollow">http://matutacoes.org/2011/06/29/%E2%80%9Cisso-funciona-respira-come-caga-fode%E2%80%9D/</a> )</p>
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		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/02/91656/#comment-188635</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Feb 2014 18:28:47 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=91656#comment-188635</guid>

					<description><![CDATA[Gustavo,
É curioso que você se interesse por Henri de Man, que muita gente prefere esquecer em vez de estudar, para não descobrir coisas incómodas.
Tal como sucedeu com os sindicalistas-revolucionários e com muitos outros, também Henri de Man operou a sua revisão do marxismo a partir da participação na guerra mundial de 1914-1918. Ele encontrou nas trincheiras a amálgama de classes sociais que o marxismo recusava e encontrou no comportamento daqueles homens condenados a matar e morrer o irracionalismo que a social-democracia pretendia superar. No primeiro capítulo de &lt;em&gt;Le Socialisme Constructif&lt;/em&gt; de Man insistiu na tese de que uma doutrina histórica das causas, como considerava ser o marxismo, não se podia converter numa doutrina dos fins, e que o socialismo, enquanto objectivo, só podia decorrer de uma doutrina dos fins. O conteúdo resultava da definição das causas, enquanto o móbil animava os fins. Desenvolvida ao longo de muitas páginas, esta tese constitui o núcleo de todo o livro, estruturando também o segundo capítulo, e no terceiro capítulo a apresentação do socialismo como uma utopia dinâmica supõe igualmente a clivagem entre o estudo das causas e o movimento que visa alcançar os efeitos.
De Man relacionou a cesura entre definição das causas e móbil da acção com a dicotomia entre civilização e cultura. É muitíssimo significativo que a oposição entre cultura e civilização, típica do pensamento de direita e extrema-direita germânico, e que servira a Spengler para estruturar a sua obra maior, fosse usada por de Man na crítica ao marxismo, e esta perspectiva surgira já numa conferência proferida em Paris em Março de 1930. Ora, em meu entender a cesura entre a doutrina histórica das causas e a doutrina dos fins foi o lugar central do irracionalismo na obra de de Man. Com efeito, supor que os objectivos não constituem um desenvolvimento da situação determinada pelas causas implica por si só uma abordagem irracionalista, e de Man defendeu a estranha epistemologia de um desejo que serviria de fundamento a si próprio.
No âmbito do marxismo, e precisamente na época de de Man, a teoria da &lt;em&gt;praxis&lt;/em&gt; surgiu com o objectivo de racionalizar uma abordagem originariamente irracionalista, remetendo os &lt;em&gt;a priori&lt;/em&gt; mentais para situações sociais determinadas por condições económicas. Assim, na teoria da &lt;em&gt;praxis&lt;/em&gt; os desejos e as aspirações, que serviam de axioma às construções ideológicas, eram eles mesmos explicados pelas condições materiais de existência. Mas de Man não se interessou por esta perspectiva, embora parecesse por vezes não andar longe. No plano estritamente ideológico, a fronteira era muito ténue entre o esforço por racionalizar os impulsos surgidos fora da razão, como procuraram fazer os teóricos da &lt;em&gt;praxis&lt;/em&gt;, e a deliberação de manter esses impulsos no plano irracional, como sucedeu com de Man. Mas a insistência em apresentar os fins num plano distinto das causas levou a que a aparente proximidade ideológica com a teoria da &lt;em&gt;praxis&lt;/em&gt; desse lugar a uma cabal oposição nas atitudes políticas. De Man manteve a teoria dos fins do socialismo no plano da moral, vocacionada para um ser humano genérico e devendo a classe operária subordinar os seus interesses específicos aos interesses humanos gerais.
Penso que é este o lugar do irracionalismo na obra de de Man e foi a este respeito que ele recorreu às noções de Sorel. Negado enquanto dedução a partir de causas históricas específicas e projectado para um plano ético irracional e trans-histórico, o socialismo teria de ser movido pela emoção. Seria esta a função do mito, tal como Sorel o entendia. De Man não ignorava que as utopias são irrealizáveis, mas a sua função, afirmou ele, é servir de móbil da acção, e sem elas o movimento de massas estiola. O irracionalismo passou a ser a própria base da sua política. Se o móbil do socialismo era um entusiasmo de massas mobilizadas por símbolos num plano irracional, a ponte ficava lançada para a adesão ao fascismo. O universo conceptual que encontro em &lt;em&gt;Au Delà du Marxisme&lt;/em&gt; e em &lt;em&gt;Le Socialisme Constructif&lt;/em&gt; não era estranho ao fascismo, tanto assim que Léon Degrelle, a principal figura do fascismo belga, pôde mais tarde escrever que de Man já se havia transformado num «nacional-socialista inconsciente».]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gustavo,<br />
É curioso que você se interesse por Henri de Man, que muita gente prefere esquecer em vez de estudar, para não descobrir coisas incómodas.<br />
Tal como sucedeu com os sindicalistas-revolucionários e com muitos outros, também Henri de Man operou a sua revisão do marxismo a partir da participação na guerra mundial de 1914-1918. Ele encontrou nas trincheiras a amálgama de classes sociais que o marxismo recusava e encontrou no comportamento daqueles homens condenados a matar e morrer o irracionalismo que a social-democracia pretendia superar. No primeiro capítulo de <em>Le Socialisme Constructif</em> de Man insistiu na tese de que uma doutrina histórica das causas, como considerava ser o marxismo, não se podia converter numa doutrina dos fins, e que o socialismo, enquanto objectivo, só podia decorrer de uma doutrina dos fins. O conteúdo resultava da definição das causas, enquanto o móbil animava os fins. Desenvolvida ao longo de muitas páginas, esta tese constitui o núcleo de todo o livro, estruturando também o segundo capítulo, e no terceiro capítulo a apresentação do socialismo como uma utopia dinâmica supõe igualmente a clivagem entre o estudo das causas e o movimento que visa alcançar os efeitos.<br />
De Man relacionou a cesura entre definição das causas e móbil da acção com a dicotomia entre civilização e cultura. É muitíssimo significativo que a oposição entre cultura e civilização, típica do pensamento de direita e extrema-direita germânico, e que servira a Spengler para estruturar a sua obra maior, fosse usada por de Man na crítica ao marxismo, e esta perspectiva surgira já numa conferência proferida em Paris em Março de 1930. Ora, em meu entender a cesura entre a doutrina histórica das causas e a doutrina dos fins foi o lugar central do irracionalismo na obra de de Man. Com efeito, supor que os objectivos não constituem um desenvolvimento da situação determinada pelas causas implica por si só uma abordagem irracionalista, e de Man defendeu a estranha epistemologia de um desejo que serviria de fundamento a si próprio.<br />
No âmbito do marxismo, e precisamente na época de de Man, a teoria da <em>praxis</em> surgiu com o objectivo de racionalizar uma abordagem originariamente irracionalista, remetendo os <em>a priori</em> mentais para situações sociais determinadas por condições económicas. Assim, na teoria da <em>praxis</em> os desejos e as aspirações, que serviam de axioma às construções ideológicas, eram eles mesmos explicados pelas condições materiais de existência. Mas de Man não se interessou por esta perspectiva, embora parecesse por vezes não andar longe. No plano estritamente ideológico, a fronteira era muito ténue entre o esforço por racionalizar os impulsos surgidos fora da razão, como procuraram fazer os teóricos da <em>praxis</em>, e a deliberação de manter esses impulsos no plano irracional, como sucedeu com de Man. Mas a insistência em apresentar os fins num plano distinto das causas levou a que a aparente proximidade ideológica com a teoria da <em>praxis</em> desse lugar a uma cabal oposição nas atitudes políticas. De Man manteve a teoria dos fins do socialismo no plano da moral, vocacionada para um ser humano genérico e devendo a classe operária subordinar os seus interesses específicos aos interesses humanos gerais.<br />
Penso que é este o lugar do irracionalismo na obra de de Man e foi a este respeito que ele recorreu às noções de Sorel. Negado enquanto dedução a partir de causas históricas específicas e projectado para um plano ético irracional e trans-histórico, o socialismo teria de ser movido pela emoção. Seria esta a função do mito, tal como Sorel o entendia. De Man não ignorava que as utopias são irrealizáveis, mas a sua função, afirmou ele, é servir de móbil da acção, e sem elas o movimento de massas estiola. O irracionalismo passou a ser a própria base da sua política. Se o móbil do socialismo era um entusiasmo de massas mobilizadas por símbolos num plano irracional, a ponte ficava lançada para a adesão ao fascismo. O universo conceptual que encontro em <em>Au Delà du Marxisme</em> e em <em>Le Socialisme Constructif</em> não era estranho ao fascismo, tanto assim que Léon Degrelle, a principal figura do fascismo belga, pôde mais tarde escrever que de Man já se havia transformado num «nacional-socialista inconsciente».</p>
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		<title>
		Por: Gustavo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/02/91656/#comment-188596</link>

		<dc:creator><![CDATA[Gustavo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Feb 2014 15:41:06 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=91656#comment-188596</guid>

					<description><![CDATA[Se a minha leitura rápida de &lt;i&gt;Au Delá Du Marxisme&lt;/i&gt; não me conduziu ao erro, é possível afirmar que o que fundamenta a superação do marxismo na visão de De Man reside nessa frase que você escreveu: &quot;&lt;i&gt;de Man considerou que entre os gestores o móbil do lucro havia sido substituído pelo móbil da função.&lt;/i&gt;&quot;
Se bem entendi, isso sintetiza, em outras palavras, a crítica que De Man parece fazer ao conceito de luta de classes em Marx (e que, se entendo corretamente, é a espinha dorsal do marxismo enquanto movimento político e sistema econômico alternativo ao capitalismo).
Como diz De Man nesse livro, &quot;&lt;i&gt;O ressentimento contra a burguesia que deriva disso [das condições sociais decorrentes da proletarização dos camponeses e artesãos] se dirige menos contra a sua riqueza [da burguesia] do que seu poder. O sentimento de justiça se revolta contra as consequências de um excesso de poder social, agora destituído da antiga responsabilidade das classes dirigentes [nobreza e clero] frente à coletividade. Essa rebelião instintiva deriva menos do instinto de aquisição do que do sentimento de justiça.&lt;/i&gt;&quot;
E De Man vale-se da análise histórica das primeiras revoltas operárias para mostrar que não era tanto por bens materiais que os operários se revoltavam quanto pelo total abandono moral em que se encontravam, utilizando-se, para isso, do exemplo dos artesãos, aqueles que mais teriam perdido em termos financeiros com a proletarização mas que, no entanto, não eram os mais ativos nas rebeliões iniciais.
&quot;&lt;i&gt;Sem dúvida,&lt;/i&gt;&quot; prossegue De Man, &quot;&lt;i&gt;os ricos nunca foram amados. O ideal igualitário do cristianismo e a desconfiança feudal pelo dinheiro contribuíram para a formação de um preconceito que encontra sua expressão em todos os escritos populares da Idade Média. Contudo, o capitalismo industrial não se restringiu à criação de novos ricos; tratava-se doravante de um tipo de riqueza com uma significação social inédita. O capitalista industrial não é apenas um rico que gasta muito dinheiro; como detentor dos meios essenciais de produção, ele dispõe de um formidável poder social que o transforma em mestre dos destinos de seus trabalhadores. Antigamente, a autoridade do senhor feudal e do mestre artesão era compensada por uma responsabilidade correspondente; os privilegiados eram conscientes da sua  responsabilidade com os deserdados e todo o sistema social se baseava no exercício do dever da caridade. Esse sistema foi substituído por um outro, onde a manutenção de uma massa de proletários despossuídos e de um exército de sem-trabalho era ditada pelos interesses dos dirigentes. Essa situação estava em contradição com o fundamento moral da produção camponesa e artesanal, que pressupunha que cada homem dispunha dos meios de trabalho necessários e a possibilidade de bem-estar assegurada. Depois de séculos, todas as leis, os regulamentos  corporativos, os mandamentos da Igreja e os costumes populares se inspiravam na noção de uma existência garantida a qualquer um que trabalhasse. 
O que contribuiu ainda para aumentar o sentimento de equidade social contra o recente privilégio dos industriais foi o seu abuso de poder sobre a assistência das instituições de caridade. As instituições e as tradições da caridade pública serviram para justificar as leis draconianas sobre a vagabundagem, e forneciam mão de obra de baixa remuneração. 
Nas novas aglomerações industriais, os patrões eram geralmente proprietários das habitações e das lojas, e se aproveitavam disso para aumentar os ganhos. No interior das suas empresas, eles exerciam um poder quase absoluto e e não conservaram a tradição feudal que o princípio autoritário atribuía aos poderosos. 
Além disso, logo ficaram claras as consequências jurídicas do excesso de poder político que a nova classe capitalista tinha assegurado graças ao sufrágio limitado. Esse poder serviu para romper os entraves que o antigo direito colocara à livre disposição da propriedade.
A luta dos trabalhadores pelos seus interesses só se transforma em luta de classes e na reivindicação de uma ordem socialista sob condições históricas específicas, que não são inerentes ao sistema econômico, mas que resultam da forma como ele foi implantado. Em si mesmo, um modo de produção não é nem moral nem imoral. A crítica socialista do capitalismo, apesar das aparências, refere-se menos à forma econômica da produção do que a um conteúdo histórico, social e cultural específico. Isso pode ser provado por um exemplo concreto: sendo os Estados Unidos um país capitalista por excelência, nem por isso existe um socialismo americano que represente o descontentamento das massas operárias. Isso decorre do fato de que um modo de produção semelhante ao europeu se desenvolveu em circunstâncias históricas e sociais completamente diferentes. O capitalismo americano não deriva da pauperização, mas da colonização individual; ele não teve que se adaptar às formas tradicionais de estratificação social do feudalismo e da monarquia; ele pôde, ao contrário, desenvolver-se, desde o início, numa atmosfera de igualdade política e moral. Como consequência, os operários americanos podem conduzir a sua luta pelos seus interesses no plano jurídico, que os coloca em condições de igualdade em relação aos demais cidadãos. Uma luta como essas não se torna, portanto, luta de classes. [...] O modo de capitalista de produção pôde, num contexto histórico diferente, conduzir a uma espécie de equilíbrio social. O que impede de isso acontecer na Europa é a formidável vantagem adquirida pela burguesia desde o início, do ponto de vista do equilíbrio social.
[...] O sentimento de igualdade se levanta contra os capitalistas não tanto pelo poder de consumo que lhes possibilita a sua riqueza quanto pelo poder de que dispõem como detentores dos meios de produção. Esse poder aparece como imoral porque vem de uma autoridade sem responsabilidade, ferindo, ao mesmo tempo, o senso moral democrático, cristão e feudal. O que se condena no capitalismo não é tanto a mais-valia expropriada quanto o uso que feito dela para instaurar uma predominância social que transforma os não-capitalistas em objeto da sua vontade. O que leva o operário à luta de classes, portanto, não é o fato dele tomar consciência dos seus interesses aquisitivos, é o fenômeno bem menos complicado e mais profundamente enraizado na vida afetiva que a psicologia moderna chama de complexo de inferioridade social.&lt;/i&gt;”
Este tipo de fundamentação teórica seria um exemplo desse irracionalismo?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se a minha leitura rápida de <i>Au Delá Du Marxisme</i> não me conduziu ao erro, é possível afirmar que o que fundamenta a superação do marxismo na visão de De Man reside nessa frase que você escreveu: &#8220;<i>de Man considerou que entre os gestores o móbil do lucro havia sido substituído pelo móbil da função.</i>&#8221;<br />
Se bem entendi, isso sintetiza, em outras palavras, a crítica que De Man parece fazer ao conceito de luta de classes em Marx (e que, se entendo corretamente, é a espinha dorsal do marxismo enquanto movimento político e sistema econômico alternativo ao capitalismo).<br />
Como diz De Man nesse livro, &#8220;<i>O ressentimento contra a burguesia que deriva disso [das condições sociais decorrentes da proletarização dos camponeses e artesãos] se dirige menos contra a sua riqueza [da burguesia] do que seu poder. O sentimento de justiça se revolta contra as consequências de um excesso de poder social, agora destituído da antiga responsabilidade das classes dirigentes [nobreza e clero] frente à coletividade. Essa rebelião instintiva deriva menos do instinto de aquisição do que do sentimento de justiça.</i>&#8221;<br />
E De Man vale-se da análise histórica das primeiras revoltas operárias para mostrar que não era tanto por bens materiais que os operários se revoltavam quanto pelo total abandono moral em que se encontravam, utilizando-se, para isso, do exemplo dos artesãos, aqueles que mais teriam perdido em termos financeiros com a proletarização mas que, no entanto, não eram os mais ativos nas rebeliões iniciais.<br />
&#8220;<i>Sem dúvida,</i>&#8221; prossegue De Man, &#8220;<i>os ricos nunca foram amados. O ideal igualitário do cristianismo e a desconfiança feudal pelo dinheiro contribuíram para a formação de um preconceito que encontra sua expressão em todos os escritos populares da Idade Média. Contudo, o capitalismo industrial não se restringiu à criação de novos ricos; tratava-se doravante de um tipo de riqueza com uma significação social inédita. O capitalista industrial não é apenas um rico que gasta muito dinheiro; como detentor dos meios essenciais de produção, ele dispõe de um formidável poder social que o transforma em mestre dos destinos de seus trabalhadores. Antigamente, a autoridade do senhor feudal e do mestre artesão era compensada por uma responsabilidade correspondente; os privilegiados eram conscientes da sua  responsabilidade com os deserdados e todo o sistema social se baseava no exercício do dever da caridade. Esse sistema foi substituído por um outro, onde a manutenção de uma massa de proletários despossuídos e de um exército de sem-trabalho era ditada pelos interesses dos dirigentes. Essa situação estava em contradição com o fundamento moral da produção camponesa e artesanal, que pressupunha que cada homem dispunha dos meios de trabalho necessários e a possibilidade de bem-estar assegurada. Depois de séculos, todas as leis, os regulamentos  corporativos, os mandamentos da Igreja e os costumes populares se inspiravam na noção de uma existência garantida a qualquer um que trabalhasse.<br />
O que contribuiu ainda para aumentar o sentimento de equidade social contra o recente privilégio dos industriais foi o seu abuso de poder sobre a assistência das instituições de caridade. As instituições e as tradições da caridade pública serviram para justificar as leis draconianas sobre a vagabundagem, e forneciam mão de obra de baixa remuneração.<br />
Nas novas aglomerações industriais, os patrões eram geralmente proprietários das habitações e das lojas, e se aproveitavam disso para aumentar os ganhos. No interior das suas empresas, eles exerciam um poder quase absoluto e e não conservaram a tradição feudal que o princípio autoritário atribuía aos poderosos.<br />
Além disso, logo ficaram claras as consequências jurídicas do excesso de poder político que a nova classe capitalista tinha assegurado graças ao sufrágio limitado. Esse poder serviu para romper os entraves que o antigo direito colocara à livre disposição da propriedade.<br />
A luta dos trabalhadores pelos seus interesses só se transforma em luta de classes e na reivindicação de uma ordem socialista sob condições históricas específicas, que não são inerentes ao sistema econômico, mas que resultam da forma como ele foi implantado. Em si mesmo, um modo de produção não é nem moral nem imoral. A crítica socialista do capitalismo, apesar das aparências, refere-se menos à forma econômica da produção do que a um conteúdo histórico, social e cultural específico. Isso pode ser provado por um exemplo concreto: sendo os Estados Unidos um país capitalista por excelência, nem por isso existe um socialismo americano que represente o descontentamento das massas operárias. Isso decorre do fato de que um modo de produção semelhante ao europeu se desenvolveu em circunstâncias históricas e sociais completamente diferentes. O capitalismo americano não deriva da pauperização, mas da colonização individual; ele não teve que se adaptar às formas tradicionais de estratificação social do feudalismo e da monarquia; ele pôde, ao contrário, desenvolver-se, desde o início, numa atmosfera de igualdade política e moral. Como consequência, os operários americanos podem conduzir a sua luta pelos seus interesses no plano jurídico, que os coloca em condições de igualdade em relação aos demais cidadãos. Uma luta como essas não se torna, portanto, luta de classes. [&#8230;] O modo de capitalista de produção pôde, num contexto histórico diferente, conduzir a uma espécie de equilíbrio social. O que impede de isso acontecer na Europa é a formidável vantagem adquirida pela burguesia desde o início, do ponto de vista do equilíbrio social.<br />
[&#8230;] O sentimento de igualdade se levanta contra os capitalistas não tanto pelo poder de consumo que lhes possibilita a sua riqueza quanto pelo poder de que dispõem como detentores dos meios de produção. Esse poder aparece como imoral porque vem de uma autoridade sem responsabilidade, ferindo, ao mesmo tempo, o senso moral democrático, cristão e feudal. O que se condena no capitalismo não é tanto a mais-valia expropriada quanto o uso que feito dela para instaurar uma predominância social que transforma os não-capitalistas em objeto da sua vontade. O que leva o operário à luta de classes, portanto, não é o fato dele tomar consciência dos seus interesses aquisitivos, é o fenômeno bem menos complicado e mais profundamente enraizado na vida afetiva que a psicologia moderna chama de complexo de inferioridade social.</i>”<br />
Este tipo de fundamentação teórica seria um exemplo desse irracionalismo?</p>
]]></content:encoded>
		
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		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/02/91656/#comment-188513</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Feb 2014 10:45:37 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=91656#comment-188513</guid>

					<description><![CDATA[Gustavo,
Ambos se referiam à mesma classe social. Henri de Man chamava «intelectuais» ao conjunto de tecnocratas e burocratas que eu denomino gestores e considerava-os como uma nova classe social, dotada de interesses próprios, tanto assim que quanto mais a industrialização progredia, mais se desenvolviam os gestores. Na sua obra &lt;em&gt;Au Delà du Marxisme&lt;/em&gt; (Bruxelas: L’Églantine, 1927, págs. 194-196) de Man deixou muito claro que não estava a referir-se a uma boémia de &lt;em&gt;déclassés&lt;/em&gt;, mas a profissionais modernos, inseridos nos aspectos mais activos da economia. Noutra obra, &lt;em&gt;Le Socialisme Constructif&lt;/em&gt; (Paris: Félix Alcan, 1933, pág. 192), chamou-lhes «uma geração de chefes de produção». O marxismo, advertiu ele em &lt;em&gt;Au Delà du Marxisme&lt;/em&gt; (pág. 181), não é capaz de reconhecer «a existência de uma camada social diferente tanto do patronato como do proletariado, que exerce todas as funções dirigentes da vida política e económica».
Ora, para de Man a empresa surgia como o modelo da totalidade económica, a matriz do que então se denominava &lt;em&gt;Economia Dirigida&lt;/em&gt;. «A partir do momento em que o engenheiro começa a aplicar à economia e à sociedade em geral os princípios de organização económica e técnica que regem o seu próprio sector de produção, ele chega a propostas socialistas, ainda que muitas vezes possa não aceitar esta denominação», escreveu ele em &lt;em&gt;Au Delà du Marxisme&lt;/em&gt; (pág. 156). Assimilando a Economia Dirigida ao socialismo, de Man considerou que entre os gestores o móbil do lucro havia sido substituído pelo móbil da função. «Bastaria uma leve mudança de rumo na vontade social dos intelectuais, por exemplo, o desejo de empregar as funções de dominação com o objectivo de conquistar a totalidade do poder dominante, para converter a classe dos capitalistas num apêndice mais ou menos supérfluo, e em qualquer caso impotente, da produção e da circulação», escreveu ele na mesma obra (pág. 191). «Esta vontade de poder dos intelectuais equivaleria à eliminação do capitalismo enquanto princípio ordenador da sociedade, à rejeição do móbil aquisitivo da economia em prol do móbil do serviço, à transformação da produção num serviço social orientado para as necessidades e não já para o lucro». E em &lt;em&gt;Le Socialisme Constructif&lt;/em&gt; (pág. 192) de Man considerou que havia enfim surgido «uma geração de chefes de produção que aprendem a trabalhar para a produção, para a obra, talvez mesmo, realmente, para o serviço prestado».
Ao mesmo tempo, de Man interessou-se muito pela obra de Georges Sorel e especialmente pela sua noção do mito enquanto expressão e veículo de um anseio colectivo, a ponto de um académico daquela época os ter escolhido a ambos enquanto defensores da tese de que «os mitos, os ideais e as atitudes heróicas desempenham frequentemente um papel mais importante do que os processos económicos» (Melvin Rader, «Soviet Communism», em Joseph S. Roucek (org.) &lt;em&gt;Twentieth Century Political Thought&lt;/em&gt;, Nova Iorque: Philosophical Library, 1946, pág. 33). Não tenho possibilidade num comentário de proceder a uma análise mais demorada, limito-me a indicar que a adesão de de Man à teoria soreliana do mito se encontra especialmente em &lt;em&gt;Au Delà du Marxisme&lt;/em&gt; (págs. 139, 145, 146) e em &lt;em&gt;Le Socialisme Constructif&lt;/em&gt; (págs. 168, 242-243).
Decerto, nem todo o irracionalismo levou ao fascismo. Mas creio que todo o movimento político irracionalista levou ao fascismo — e continua a levar, o que é um perigo grave e urgente na Europa de hoje, Portugal incluído. No plano da negação da racionalidade e da mobilização psicológica, de Man temia que os socialistas estivessem a ser ultrapassados pelos fascistas, o que o fez encetar um percurso que terminou na adesão ao nacional-socialismo de Hitler, durante a ocupação da Bélgica pelas tropas do Reich. Em 28 de Junho de 1940, de Man publicou um &lt;em&gt;Manifesto&lt;/em&gt; onde admitiu que o papel revolucionário desempenhado pelo fascismo ao provocar o «colapso de um mundo decrépito» e «a derrocada do regime parlamentar e da plutocracia capitalista» representava uma «libertação» para as classes trabalhadoras. «Este colapso de um mundo decrépito, em vez de ser um desastre, é uma libertação!». «A paz», acrecentou de Man, «não pôde dever-se aos acordos livremente estabelecidos pelas nações soberanas e pelos imperialismos rivais; mas poderá dever-se a uma Europa unificada pelas armas, onde as fronteiras económicas tiverem sido arrasadas» (citado em Michel Brélaz e Ivo Rens, «Henri de Man, 1885-1953», &lt;em&gt;Les Classiques des Sciences Sociales&lt;/em&gt;, 2006 http://classiques.uqac.ca/classiques/de_man_henri/de_man_henri_photo/de_man_henri_photo.html e Léon Degrelle, &lt;em&gt;La Cohue de 1940&lt;/em&gt;, Lausanne: Robert Crauzaz, 1949, pág. [81] http://archive.org/details/LaCohueDe1940 ). Logicamente, considerando extinta a função do partido a que presidia (ele fora eleito vice-presidente do Parti Ouvrier Belge em 1933 e eleito presidente no início de 1939), de Man decretou a sua dissolução e apelou a que os socialistas confluíssem futuramente num partido único, capaz de colaborar com os ocupantes nacional-socialistas. Do mesmo modo criou um sindicato único de tipo fascista, a União dos Trabalhadores Manuais e Intelectuais, que herdou o antigo aparelho sindical socialista. Mas a complexidade da vida política belga durante a ocupação e os interesses contraditórios em jogo fizeram com que o papel de de Man terminasse aqui.
A respeito de  Makhayski existe um estudo interessante: Marshall S. Shatz, &lt;em&gt;Jan Wacław Machajski. A Radical Critic of the Russian Intelligentsia and Socialism&lt;/em&gt;, Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 1989. Vemos aí, no cap. das págs. 110 e segs., uma aproximação, ou paralelismo, entre o movimento animado por Makhayski e o movimento organizado por um agente da Okhrana, Zubatov, que em muitos aspectos se pode considerar como um dos precursores do fascismo. Sempre que a crítica aos gestores assume a forma de um anti-intelectualismo, o fascismo não anda longe. Mas observo isto a respeito de Zubatov, não de Makhayski.
É curioso verificar que depois da tomada do poder pelos boklchevistas a actividade de Makhayski declinou e foi pouco significativa. Parece-me ter sido então sobretudo Bogdanov quem deu novo alento às teses de Makayski, como pode ver aqui: http://www.left-dis.nl/pt/verdadop.htm Mas a ala esquerda do bolchevismo e Bukharin continuaram também receptivos a essas teses, embora por razões tácticas não as mencionassem explicitamente.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gustavo,<br />
Ambos se referiam à mesma classe social. Henri de Man chamava «intelectuais» ao conjunto de tecnocratas e burocratas que eu denomino gestores e considerava-os como uma nova classe social, dotada de interesses próprios, tanto assim que quanto mais a industrialização progredia, mais se desenvolviam os gestores. Na sua obra <em>Au Delà du Marxisme</em> (Bruxelas: L’Églantine, 1927, págs. 194-196) de Man deixou muito claro que não estava a referir-se a uma boémia de <em>déclassés</em>, mas a profissionais modernos, inseridos nos aspectos mais activos da economia. Noutra obra, <em>Le Socialisme Constructif</em> (Paris: Félix Alcan, 1933, pág. 192), chamou-lhes «uma geração de chefes de produção». O marxismo, advertiu ele em <em>Au Delà du Marxisme</em> (pág. 181), não é capaz de reconhecer «a existência de uma camada social diferente tanto do patronato como do proletariado, que exerce todas as funções dirigentes da vida política e económica».<br />
Ora, para de Man a empresa surgia como o modelo da totalidade económica, a matriz do que então se denominava <em>Economia Dirigida</em>. «A partir do momento em que o engenheiro começa a aplicar à economia e à sociedade em geral os princípios de organização económica e técnica que regem o seu próprio sector de produção, ele chega a propostas socialistas, ainda que muitas vezes possa não aceitar esta denominação», escreveu ele em <em>Au Delà du Marxisme</em> (pág. 156). Assimilando a Economia Dirigida ao socialismo, de Man considerou que entre os gestores o móbil do lucro havia sido substituído pelo móbil da função. «Bastaria uma leve mudança de rumo na vontade social dos intelectuais, por exemplo, o desejo de empregar as funções de dominação com o objectivo de conquistar a totalidade do poder dominante, para converter a classe dos capitalistas num apêndice mais ou menos supérfluo, e em qualquer caso impotente, da produção e da circulação», escreveu ele na mesma obra (pág. 191). «Esta vontade de poder dos intelectuais equivaleria à eliminação do capitalismo enquanto princípio ordenador da sociedade, à rejeição do móbil aquisitivo da economia em prol do móbil do serviço, à transformação da produção num serviço social orientado para as necessidades e não já para o lucro». E em <em>Le Socialisme Constructif</em> (pág. 192) de Man considerou que havia enfim surgido «uma geração de chefes de produção que aprendem a trabalhar para a produção, para a obra, talvez mesmo, realmente, para o serviço prestado».<br />
Ao mesmo tempo, de Man interessou-se muito pela obra de Georges Sorel e especialmente pela sua noção do mito enquanto expressão e veículo de um anseio colectivo, a ponto de um académico daquela época os ter escolhido a ambos enquanto defensores da tese de que «os mitos, os ideais e as atitudes heróicas desempenham frequentemente um papel mais importante do que os processos económicos» (Melvin Rader, «Soviet Communism», em Joseph S. Roucek (org.) <em>Twentieth Century Political Thought</em>, Nova Iorque: Philosophical Library, 1946, pág. 33). Não tenho possibilidade num comentário de proceder a uma análise mais demorada, limito-me a indicar que a adesão de de Man à teoria soreliana do mito se encontra especialmente em <em>Au Delà du Marxisme</em> (págs. 139, 145, 146) e em <em>Le Socialisme Constructif</em> (págs. 168, 242-243).<br />
Decerto, nem todo o irracionalismo levou ao fascismo. Mas creio que todo o movimento político irracionalista levou ao fascismo — e continua a levar, o que é um perigo grave e urgente na Europa de hoje, Portugal incluído. No plano da negação da racionalidade e da mobilização psicológica, de Man temia que os socialistas estivessem a ser ultrapassados pelos fascistas, o que o fez encetar um percurso que terminou na adesão ao nacional-socialismo de Hitler, durante a ocupação da Bélgica pelas tropas do Reich. Em 28 de Junho de 1940, de Man publicou um <em>Manifesto</em> onde admitiu que o papel revolucionário desempenhado pelo fascismo ao provocar o «colapso de um mundo decrépito» e «a derrocada do regime parlamentar e da plutocracia capitalista» representava uma «libertação» para as classes trabalhadoras. «Este colapso de um mundo decrépito, em vez de ser um desastre, é uma libertação!». «A paz», acrecentou de Man, «não pôde dever-se aos acordos livremente estabelecidos pelas nações soberanas e pelos imperialismos rivais; mas poderá dever-se a uma Europa unificada pelas armas, onde as fronteiras económicas tiverem sido arrasadas» (citado em Michel Brélaz e Ivo Rens, «Henri de Man, 1885-1953», <em>Les Classiques des Sciences Sociales</em>, 2006 <a href="http://classiques.uqac.ca/classiques/de_man_henri/de_man_henri_photo/de_man_henri_photo.html" rel="nofollow ugc">http://classiques.uqac.ca/classiques/de_man_henri/de_man_henri_photo/de_man_henri_photo.html</a> e Léon Degrelle, <em>La Cohue de 1940</em>, Lausanne: Robert Crauzaz, 1949, pág. [81] <a href="http://archive.org/details/LaCohueDe1940" rel="nofollow ugc">http://archive.org/details/LaCohueDe1940</a> ). Logicamente, considerando extinta a função do partido a que presidia (ele fora eleito vice-presidente do Parti Ouvrier Belge em 1933 e eleito presidente no início de 1939), de Man decretou a sua dissolução e apelou a que os socialistas confluíssem futuramente num partido único, capaz de colaborar com os ocupantes nacional-socialistas. Do mesmo modo criou um sindicato único de tipo fascista, a União dos Trabalhadores Manuais e Intelectuais, que herdou o antigo aparelho sindical socialista. Mas a complexidade da vida política belga durante a ocupação e os interesses contraditórios em jogo fizeram com que o papel de de Man terminasse aqui.<br />
A respeito de  Makhayski existe um estudo interessante: Marshall S. Shatz, <em>Jan Wacław Machajski. A Radical Critic of the Russian Intelligentsia and Socialism</em>, Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 1989. Vemos aí, no cap. das págs. 110 e segs., uma aproximação, ou paralelismo, entre o movimento animado por Makhayski e o movimento organizado por um agente da Okhrana, Zubatov, que em muitos aspectos se pode considerar como um dos precursores do fascismo. Sempre que a crítica aos gestores assume a forma de um anti-intelectualismo, o fascismo não anda longe. Mas observo isto a respeito de Zubatov, não de Makhayski.<br />
É curioso verificar que depois da tomada do poder pelos boklchevistas a actividade de Makhayski declinou e foi pouco significativa. Parece-me ter sido então sobretudo Bogdanov quem deu novo alento às teses de Makayski, como pode ver aqui: <a href="http://www.left-dis.nl/pt/verdadop.htm" rel="nofollow ugc">http://www.left-dis.nl/pt/verdadop.htm</a> Mas a ala esquerda do bolchevismo e Bukharin continuaram também receptivos a essas teses, embora por razões tácticas não as mencionassem explicitamente.</p>
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		<title>
		Por: Gustavo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/02/91656/#comment-188293</link>

		<dc:creator><![CDATA[Gustavo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Feb 2014 23:59:12 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Qual é a relação entre a classe dos intelectuais definida por Makhayski e a classe dos intelectuais definida por Henri De Man em Au Delá du Marxisme (disponível para download &lt;a href=&quot;http://classiques.uqac.ca/classiques/de_man_henri/au_dela_du_marxisme/au_dela_du_marxisme.doc&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt; )?
Makhayski também pode ser enquadrado na categoria dos revisionistas que acabaram por flertar ou mesmo participar ativamente do fascismo, como parece ter sido o caso de De Man?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Qual é a relação entre a classe dos intelectuais definida por Makhayski e a classe dos intelectuais definida por Henri De Man em Au Delá du Marxisme (disponível para download <a href="http://classiques.uqac.ca/classiques/de_man_henri/au_dela_du_marxisme/au_dela_du_marxisme.doc" rel="nofollow">aqui</a> )?<br />
Makhayski também pode ser enquadrado na categoria dos revisionistas que acabaram por flertar ou mesmo participar ativamente do fascismo, como parece ter sido o caso de De Man?</p>
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		<title>
		Por: João Valente Aguiar		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/02/91656/#comment-187938</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Valente Aguiar]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Feb 2014 22:05:02 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=91656#comment-187938</guid>

					<description><![CDATA[Bem lembrado. É impossível desligar-se a evolução das chamadas correntes políticas do ascenso dos gestores em variadíssimos níveis da sociedade. É que já não eram apenas os gestores de cada empresa individual (que o Marx considerou como parte da classe trabalhadora...) mas eram os gestores organizados a partir de sindicatos, partidos de todo o tipo, no Estado central, nos bancos, etc. De então em diante todas as soluções políticas práticas passaram por uma qualquer via controlada pelos gestores. As diferenças operaram-se a partir da combinação dos gestores com outras classes. Mas a continuidade de diferentes formações sociais no capitalismo foi assegurada pelos gestores.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Bem lembrado. É impossível desligar-se a evolução das chamadas correntes políticas do ascenso dos gestores em variadíssimos níveis da sociedade. É que já não eram apenas os gestores de cada empresa individual (que o Marx considerou como parte da classe trabalhadora&#8230;) mas eram os gestores organizados a partir de sindicatos, partidos de todo o tipo, no Estado central, nos bancos, etc. De então em diante todas as soluções políticas práticas passaram por uma qualquer via controlada pelos gestores. As diferenças operaram-se a partir da combinação dos gestores com outras classes. Mas a continuidade de diferentes formações sociais no capitalismo foi assegurada pelos gestores.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/02/91656/#comment-187933</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Feb 2014 21:50:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[João, foi um época-charneira ainda por outro motivo. Nos anos da transição do século XIX para o século XX Makhayski formulou pela primeira vez, e usando para isso um conceptual marxista, uma teoria daquela classe social que eu denomino &lt;em&gt;gestores&lt;/em&gt;, a que outros chamam &lt;em&gt;tecno-burocracia&lt;/em&gt; e a que em inglês se chama &lt;em&gt;managers&lt;/em&gt;. Para Makhayski o marxismo servia os interesses sociais destes gestores, a que ele chamava &lt;em&gt;intelligentsia&lt;/em&gt;, um termo que muitas vezes é erradamente traduzido por &lt;em&gt;intelectuais&lt;/em&gt; mas que, na verdade, classificava as profissões de elite de carácter moderno não previstas na hierarquização estabelecida por Pedro o Grande. Assim, além de ter sido o primeiro a formular uma teoria dos gestores e a explicar o carácter capitalista (apropriador de mais-valia) dos gestores, usando para isso um conceptual marxista, Makhayski foi também o primeiro a aplicar as noções de Marx para fazer a crítica de Marx. Por este último motivo as teorias de Makhayski foram silenciadas na Segunda Internacional, mas foram desenvolvidas em seguida, por vezes por pessoas que nem lhes conheciam a origem.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João, foi um época-charneira ainda por outro motivo. Nos anos da transição do século XIX para o século XX Makhayski formulou pela primeira vez, e usando para isso um conceptual marxista, uma teoria daquela classe social que eu denomino <em>gestores</em>, a que outros chamam <em>tecno-burocracia</em> e a que em inglês se chama <em>managers</em>. Para Makhayski o marxismo servia os interesses sociais destes gestores, a que ele chamava <em>intelligentsia</em>, um termo que muitas vezes é erradamente traduzido por <em>intelectuais</em> mas que, na verdade, classificava as profissões de elite de carácter moderno não previstas na hierarquização estabelecida por Pedro o Grande. Assim, além de ter sido o primeiro a formular uma teoria dos gestores e a explicar o carácter capitalista (apropriador de mais-valia) dos gestores, usando para isso um conceptual marxista, Makhayski foi também o primeiro a aplicar as noções de Marx para fazer a crítica de Marx. Por este último motivo as teorias de Makhayski foram silenciadas na Segunda Internacional, mas foram desenvolvidas em seguida, por vezes por pessoas que nem lhes conheciam a origem.</p>
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		<item>
		<title>
		Por: João Valente Aguiar		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/02/91656/#comment-187928</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Valente Aguiar]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Feb 2014 21:31:46 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=91656#comment-187928</guid>

					<description><![CDATA[Muito interessante este texto do Sternhell. Fico com a impressão que o período 1875-1914 foi um tempo-charneira no que toca à orientação subsequente das doutrinas políticas conforme hoje as conhecemos. Não apenas o fascismo se formou a partir de aspectos do sindicalismo revolucionário do Sorel (e das teorias do Corradini). Também a social-democracia se forjou e se cindiu do marxismo. Interessante verificar-se que doravante o marxismo foi progressivamente nacionalizado, estatizado e vinculado à mais-valia absoluta nas formulações leninistas e a social-democracia forjou-se a partir da leitura kautskiana e bernsteiniana do Marx para formar a ala esquerda das políticas da mais-valia relativa. Por aqui se pode ver como as ambiguidades da obra do Marx a que aludi aqui (http://passapalavra.info/2013/11/87845) se expressaram na formação de duas esquerdas dos gestores. Ao mesmo tempo que o marxismo deu contributos - teóricos - essenciais para a compreensão e para a crítica do capitalismo, também deu contributos - estes mais práticos - para a formação das alas esquerdas da classe dominante.

Religando esta questão à obra do Sternhell, de 1920 em diante, parte importante da esquerda que se considerava anti-capitalista tornou-se num espaço formador de capitalismos de Estado. Pelo seu estatismo e pela defesa da mais-valia absoluta, essa esquerda encontraria espaço comum com os fascismos. Por exemplo, de 1920 em diante, o nacional-bolchevismo e o terceiro-mundismo tornaram-se coordenadas essenciais de uma esquerda miserabilista e portadora de potencialidades fascizantes.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Muito interessante este texto do Sternhell. Fico com a impressão que o período 1875-1914 foi um tempo-charneira no que toca à orientação subsequente das doutrinas políticas conforme hoje as conhecemos. Não apenas o fascismo se formou a partir de aspectos do sindicalismo revolucionário do Sorel (e das teorias do Corradini). Também a social-democracia se forjou e se cindiu do marxismo. Interessante verificar-se que doravante o marxismo foi progressivamente nacionalizado, estatizado e vinculado à mais-valia absoluta nas formulações leninistas e a social-democracia forjou-se a partir da leitura kautskiana e bernsteiniana do Marx para formar a ala esquerda das políticas da mais-valia relativa. Por aqui se pode ver como as ambiguidades da obra do Marx a que aludi aqui (<a href="http://passapalavra.info/2013/11/87845" rel="ugc">http://passapalavra.info/2013/11/87845</a>) se expressaram na formação de duas esquerdas dos gestores. Ao mesmo tempo que o marxismo deu contributos &#8211; teóricos &#8211; essenciais para a compreensão e para a crítica do capitalismo, também deu contributos &#8211; estes mais práticos &#8211; para a formação das alas esquerdas da classe dominante.</p>
<p>Religando esta questão à obra do Sternhell, de 1920 em diante, parte importante da esquerda que se considerava anti-capitalista tornou-se num espaço formador de capitalismos de Estado. Pelo seu estatismo e pela defesa da mais-valia absoluta, essa esquerda encontraria espaço comum com os fascismos. Por exemplo, de 1920 em diante, o nacional-bolchevismo e o terceiro-mundismo tornaram-se coordenadas essenciais de uma esquerda miserabilista e portadora de potencialidades fascizantes.</p>
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