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	Comentários sobre: Diferentes faces da “propaganda pela ação”: Notas sobre o protesto social e seus efeitos nas cidades brasileiras (2ª parte)	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Marcelo Lopes de Souza		</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marcelo Lopes de Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 03 Apr 2014 12:17:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Prezado &quot;Mascarado&quot;:

O seu longo comentário merece, da minha parte, o respeito que se deve à franqueza (coisa que anda escasseando em nossos dias), bem como à disposição de oferecer contra-argumentos (idem). Nem sempre isso se adequa bem a um espaço como esse, onde pessoas que não se conhecem costumeiramente desferem palavras agressivas umas contra as outras, sem dar o benefício da dúvida, sem conhecer o contexto. 

No entanto, você mesmo incorreu um pouco nisso, embora apenas ao final, ao qualificar a minha intervenção de &quot;irresponsável&quot; e &quot;arrogante&quot;. &quot;Irresponsável&quot;, no sentido de agir levianamente, garanto-lhe que não foi o caso. O que escrevi é fruto de muito tempo observando e refletindo, e confesso que, mesmo assim, hesitei em mandar o artigo, pois sabia que haveria reações fortes. Contudo, achei que era minha RESPONSABILIDADE ajudar a fomentar um diálogo, um debate  -  e agradeço a você por colaborar nesse sentido. O meu objetivo não foi outro. Quanto à &quot;arrogância&quot;, veja só: eu poderia ter ficado no meu cantinho privado, fazendo críticas &quot;domésticas&quot;; ou poderia ter mandado um artigo em que apenas vejo defeitos e faço objeções. Se você ler sem a guarda muito alta o que escrevi, verá que, apesar da palavra que tanto te incomodou  -  &quot;míope&quot;  -, a minha análise está muito longe de, simplesmente, criticar ou condenar a tática &quot;black bloc&quot;. O que eu faço é levantar algumas objeções e ponderar algumas coisas à luz dos possíveis efeitos. Isso é &quot;arrogância&quot;? Não me parece.

Quanto ao &quot;míope&quot;, sei que é uma palavra forte e provocativa, mas note o seu significado: &quot;que ou aquele que não compreende com clareza alguma coisa&quot;. É disso que eu falo, e em torno disso pode-se e deve-se debater. (E &quot;arrogância&quot; seria presumir que uma posição divergente, mas que busca ponderar e refletir, que busca o diálogo, seria... arrogante.) Ressalto, também, as várias passagens em que justifico a autodefesa e, inclusive, saliento o papel legítimo dos militantes que utilizam a tática, como na seguinte nota:

&quot;No Rio de Janeiro, os adeptos da tática black bloc buscaram, em 2013, uma aproximação com os professores que, em greve, protestavam nas ruas. Esse exemplo é importante, inclusive porque uma das funções históricas dos black blocs deveria ser, justamente, ajudar na proteção de outros manifestantes. Porém, muito ainda precisa ser feito para se quebrar a resistência até mesmo de outros manifestantes relativamente aos black blocs (e seria um equívoco tachar esses outros manifestantes, genericamente, de “coxinhas” ou algo que o valha, como se constituíssem um universo homogêneo).&quot;

Agora, sem dúvida, reafirmo as minhas ressalvas e os meus temores. Se em Recife a tática, em si mesma, teve um papel essencialmente construtivo e agregador, ótimo (não vejo como a tática, em si e por si, consiga isso, mas, vá lá...) De qualquer maneira, você mesmo, no decorrer de seu comentário, disse que:

&quot;A esse respeito devemos multiplicar nossos meios de comunicação e não renunciar à revolta legítima porque vai ser mal falado.&quot;

Exato! É preciso multiplicar os meios de comunicação (e não me refiro apenas aos jovens black blocs, mas aos ativistas/militantes antissistêmicos em geral). E, para além disso, há muitas coisas nas quais é preciso investir mais. E a preocupação com &quot;o que o povo vai falar&quot; É, OU DEVERIA SER, uma das preocupações centrais. Não para nos impedir de pensar, falar e agir; mas para orientar e esclarecer sobre o que é preciso fazer para evitar que jovens estudantes de classe média organizem uma &quot;acampada&quot; na Cinelândia e acreditem, realmente, que o slogan &quot;Nós somos os 99%&quot; também se aplica a eles, enquanto que a esmagadora dos trabalhadores e das trabalhadoras pobres ou não tomou conhecimento daquilo, ou viu aquilo com uma mistura de indiferença, vaga simpatia (e, às vezes, difusa antipatia) e curiosidade. Sim, meu caro Mascarado: a mim interessa, e muito, o que pensam os que são bombardeados pelo Domingão do Faustão e pelo Silvio Santos, pelo BBB, pelas telenovelas, pelas igrejas neopentecostais. Esse é um dos principais nós a serem desatados  -  e explosões periódicas de fúria não reverterão esse quadro, com o se deu conta o Kropotkin maduro, citado em meu artigo.

Termino com uma reflexão geral, a respeito de um problema que há muito tempo me incomoda e preocupa  -  não por questões &quot;estéticas&quot; ou sentimentais, mas sim por razões políticas. Há, muitas vezes (nem sempre, felizmente!) um fosso, hoje em dia, ou desde algumas décadas, entre &quot;jovens libertários&quot; e &quot;velhos libertários&quot; (eu, com o meu meio século de vida, evidentemente me incluo na segunda categoria). Poucas vezes isso ficou tão claro quanto na análise de Bookchin &quot;anarquismo social&quot; X &quot;anarquismo como estilo de vida&quot;, em que o velho anarquista estadunidense  -  que morreu amargurado, sentindo-se atacado injustamente e de modo ignorante por jovens libertários e anarquistas ortodoxos  -  deixou lições importantes: tanto em matéria de críticas válidas como em matéria de &quot;rabugice&quot; e incompreensão. As críticas de Bookchin, elas lá estão para quem as quiser ler; não vou repeti-las aqui. Mas a &quot;rabugice&quot; dele, no fim da vida, é algo sobre o que eu tenho pensado. Será que, se ele tivesse tido mais compreensão para com as formas (estéticas, organizativas, táticas etc.) de expressão dos jovens de hoje, ele teria sido menos atacado e menos visto como... arrogante? Eu gostaria de pensar que sim, mas às vezes tenho dúvidas. Não raro, me parece que o antigo lema de fins dos anos 60, &quot;não confie em ninguém com mais de trinta anos&quot;, está mais vivo do que nunca  -  dificultando diálogos e uma troca de experiências que, de fato, seriam necessários, muito necessários. De um lado, os que, pelos quilômetros rodados, acham que já sabem tudo (e eu não me incluo entre eles, querido Mascarado, apesar de lhe ter passado essa impressão); de outro lado, aqueles que, a despeito dos poucos quilômetros rodados  -  ou por isso mesmo?!  -, se consideram mais certos e mais aguerridos (espero que você não esteja entre eles, mas tenho conhecido muitos assim, até bem próximo de mim). Esse fosso é uma calamidade. É preciso evitar que ele se aprofunde  -  justamente em um meio, o libertário, em que os dogmatismos e sectarismos têm sido tão frequentes. Ora, haveria algo mais antilibertário do que isso?...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Prezado &#8220;Mascarado&#8221;:</p>
<p>O seu longo comentário merece, da minha parte, o respeito que se deve à franqueza (coisa que anda escasseando em nossos dias), bem como à disposição de oferecer contra-argumentos (idem). Nem sempre isso se adequa bem a um espaço como esse, onde pessoas que não se conhecem costumeiramente desferem palavras agressivas umas contra as outras, sem dar o benefício da dúvida, sem conhecer o contexto. </p>
<p>No entanto, você mesmo incorreu um pouco nisso, embora apenas ao final, ao qualificar a minha intervenção de &#8220;irresponsável&#8221; e &#8220;arrogante&#8221;. &#8220;Irresponsável&#8221;, no sentido de agir levianamente, garanto-lhe que não foi o caso. O que escrevi é fruto de muito tempo observando e refletindo, e confesso que, mesmo assim, hesitei em mandar o artigo, pois sabia que haveria reações fortes. Contudo, achei que era minha RESPONSABILIDADE ajudar a fomentar um diálogo, um debate  &#8211;  e agradeço a você por colaborar nesse sentido. O meu objetivo não foi outro. Quanto à &#8220;arrogância&#8221;, veja só: eu poderia ter ficado no meu cantinho privado, fazendo críticas &#8220;domésticas&#8221;; ou poderia ter mandado um artigo em que apenas vejo defeitos e faço objeções. Se você ler sem a guarda muito alta o que escrevi, verá que, apesar da palavra que tanto te incomodou  &#8211;  &#8220;míope&#8221;  -, a minha análise está muito longe de, simplesmente, criticar ou condenar a tática &#8220;black bloc&#8221;. O que eu faço é levantar algumas objeções e ponderar algumas coisas à luz dos possíveis efeitos. Isso é &#8220;arrogância&#8221;? Não me parece.</p>
<p>Quanto ao &#8220;míope&#8221;, sei que é uma palavra forte e provocativa, mas note o seu significado: &#8220;que ou aquele que não compreende com clareza alguma coisa&#8221;. É disso que eu falo, e em torno disso pode-se e deve-se debater. (E &#8220;arrogância&#8221; seria presumir que uma posição divergente, mas que busca ponderar e refletir, que busca o diálogo, seria&#8230; arrogante.) Ressalto, também, as várias passagens em que justifico a autodefesa e, inclusive, saliento o papel legítimo dos militantes que utilizam a tática, como na seguinte nota:</p>
<p>&#8220;No Rio de Janeiro, os adeptos da tática black bloc buscaram, em 2013, uma aproximação com os professores que, em greve, protestavam nas ruas. Esse exemplo é importante, inclusive porque uma das funções históricas dos black blocs deveria ser, justamente, ajudar na proteção de outros manifestantes. Porém, muito ainda precisa ser feito para se quebrar a resistência até mesmo de outros manifestantes relativamente aos black blocs (e seria um equívoco tachar esses outros manifestantes, genericamente, de “coxinhas” ou algo que o valha, como se constituíssem um universo homogêneo).&#8221;</p>
<p>Agora, sem dúvida, reafirmo as minhas ressalvas e os meus temores. Se em Recife a tática, em si mesma, teve um papel essencialmente construtivo e agregador, ótimo (não vejo como a tática, em si e por si, consiga isso, mas, vá lá&#8230;) De qualquer maneira, você mesmo, no decorrer de seu comentário, disse que:</p>
<p>&#8220;A esse respeito devemos multiplicar nossos meios de comunicação e não renunciar à revolta legítima porque vai ser mal falado.&#8221;</p>
<p>Exato! É preciso multiplicar os meios de comunicação (e não me refiro apenas aos jovens black blocs, mas aos ativistas/militantes antissistêmicos em geral). E, para além disso, há muitas coisas nas quais é preciso investir mais. E a preocupação com &#8220;o que o povo vai falar&#8221; É, OU DEVERIA SER, uma das preocupações centrais. Não para nos impedir de pensar, falar e agir; mas para orientar e esclarecer sobre o que é preciso fazer para evitar que jovens estudantes de classe média organizem uma &#8220;acampada&#8221; na Cinelândia e acreditem, realmente, que o slogan &#8220;Nós somos os 99%&#8221; também se aplica a eles, enquanto que a esmagadora dos trabalhadores e das trabalhadoras pobres ou não tomou conhecimento daquilo, ou viu aquilo com uma mistura de indiferença, vaga simpatia (e, às vezes, difusa antipatia) e curiosidade. Sim, meu caro Mascarado: a mim interessa, e muito, o que pensam os que são bombardeados pelo Domingão do Faustão e pelo Silvio Santos, pelo BBB, pelas telenovelas, pelas igrejas neopentecostais. Esse é um dos principais nós a serem desatados  &#8211;  e explosões periódicas de fúria não reverterão esse quadro, com o se deu conta o Kropotkin maduro, citado em meu artigo.</p>
<p>Termino com uma reflexão geral, a respeito de um problema que há muito tempo me incomoda e preocupa  &#8211;  não por questões &#8220;estéticas&#8221; ou sentimentais, mas sim por razões políticas. Há, muitas vezes (nem sempre, felizmente!) um fosso, hoje em dia, ou desde algumas décadas, entre &#8220;jovens libertários&#8221; e &#8220;velhos libertários&#8221; (eu, com o meu meio século de vida, evidentemente me incluo na segunda categoria). Poucas vezes isso ficou tão claro quanto na análise de Bookchin &#8220;anarquismo social&#8221; X &#8220;anarquismo como estilo de vida&#8221;, em que o velho anarquista estadunidense  &#8211;  que morreu amargurado, sentindo-se atacado injustamente e de modo ignorante por jovens libertários e anarquistas ortodoxos  &#8211;  deixou lições importantes: tanto em matéria de críticas válidas como em matéria de &#8220;rabugice&#8221; e incompreensão. As críticas de Bookchin, elas lá estão para quem as quiser ler; não vou repeti-las aqui. Mas a &#8220;rabugice&#8221; dele, no fim da vida, é algo sobre o que eu tenho pensado. Será que, se ele tivesse tido mais compreensão para com as formas (estéticas, organizativas, táticas etc.) de expressão dos jovens de hoje, ele teria sido menos atacado e menos visto como&#8230; arrogante? Eu gostaria de pensar que sim, mas às vezes tenho dúvidas. Não raro, me parece que o antigo lema de fins dos anos 60, &#8220;não confie em ninguém com mais de trinta anos&#8221;, está mais vivo do que nunca  &#8211;  dificultando diálogos e uma troca de experiências que, de fato, seriam necessários, muito necessários. De um lado, os que, pelos quilômetros rodados, acham que já sabem tudo (e eu não me incluo entre eles, querido Mascarado, apesar de lhe ter passado essa impressão); de outro lado, aqueles que, a despeito dos poucos quilômetros rodados  &#8211;  ou por isso mesmo?!  -, se consideram mais certos e mais aguerridos (espero que você não esteja entre eles, mas tenho conhecido muitos assim, até bem próximo de mim). Esse fosso é uma calamidade. É preciso evitar que ele se aprofunde  &#8211;  justamente em um meio, o libertário, em que os dogmatismos e sectarismos têm sido tão frequentes. Ora, haveria algo mais antilibertário do que isso?&#8230;</p>
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		<title>
		Por: Mascarado		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/03/93164/#comment-208680</link>

		<dc:creator><![CDATA[Mascarado]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Apr 2014 14:48:20 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Pra mim as relações sociais são mais complexas do que nossa pretensão de alcançá-la racionalmente desejaria. Não existe causa e efeito tão determinados como parece que você deseja. O que significa que não existe uma reação uniforme da sociedade, ou de setores populares (que é o que mais interessa) para um determinado tipo de ação política.

Na minha cidade, por ex., que não acompanhou as revoltas de junho como no resto do Brasil, se não em seu formato coxinha, podemos ver o contrário do que você diz. Só em agosto de 2013 tivemos uma ação direta. Um ônibus queimado e a Câmara dos vereadores completamente apedrejada, entre outras coisas.

Depois desse dia parece que uma chama havia sido acesa na cidade e pudemos ver, na mesma semana, vários protestos se desenrolarem nas periferias. Incluindo um em Olinda, na Av. Presidente Kennedy, que ficou marcado como uma das revoltas mais combativa já vista na região metrop. de Recife.

Aqui tem um site, o reciferesiste.pelivre.org, que compila todas os acontecimentos de resistência noticiados pela mídia, seja independente ou corporativa. Depois (se precisar) eu dou uma procurada pra ilustrar bem o que digo.

***

Como se pode medir o “nível de consciência política” da maioria da população? Na verdade, qual o sentido que essa expressão faz pra realidade, o que significa consciência política?

Na minha cidade (falo mais uma vez daqui porque é a realidade que conheço) foi só com a tática black block que vimos o anarquismo e suas “significações imaginárias” como autogestão, anti-estatismo, anti-partidarismo e etc., se espalharem entre jovens de periferia. Pode ter sido diferente no Rio, mas aqui foi assim. Ficamos surpresos quando vimos que quem tava segurando escudos com anábolas e fazendo “as coisas acontecerem” eram pirralhos da periferia.

Claro, boa parte da população estava contrária à tática. Mas também é difícil guiar-se por “boa parte da população”, especialmente quando eles usavam termos da Grande Mídia pra julgar os protestos - “Isso aí é tudo vândalo”. A esse respeito devemos multiplicar nossos meios de comunicação e não renunciar à revolta legítima porque vai ser mal falado. E quer queremos quer não, as páginas do Black Block no Facebook são um dos principais contrapontos midiáticos de hoje. Com toda a pobreza teórica e com o ridículo de ser uma página de Facebook o alcance deles é infinitamente maior que o de qualquer site de contra-informação. E isso se dá porque eles estão nas ruas, fazendo o que estão fazendo.

Além disso, a forma como a maioria dos jovens de periferia dispõe do corpo já tem requintes de violência bem presente. Dá pra ver nas brincadeiras com amigos, nas incursões das torcidas organizadas para os estádios ou, no mais extremo, no próprio banditismo. Eu não vejo essas pessoas olharem com maus olhos a ação direta. Isso é só um exemplo, que fique claro que eu não to localizando nesse setor um sujeito revolucionário pelo qual devemos nos preocupar e esquecer todo o resto.

Agora claro, incomoda bastante o nível de pobreza teórica que a revolta no Brasil demonstra. Aqui não é a França, nem mesmo a Argentina e o Chile, não temos nenhuma tradição intelectual libertária. E quando falo isso não penso na academia, pelo contrário. Tudo está pra ser construído. Dentro dos próprios que utilizam a tática Black Block é lamentável ver a presença decisiva de maoístas e todo tipo de adeptos da “foice e do martelo”. Além disso também incomoda o nível de espetacularização da luta dentro dos “blockers”, isso é, quando o charme da máscara e da ação direta sobrepõe a própria importância política da ação. Claro, a insurreição deve ser charmosa, mas não no nível espetacular facebookiano. Qual é o sentido que faz se mascarar nas ruas e colocar uma foto sua mascarada no perfil de facebook, que tem seu nome e tudo? Essa inversão pra mim é o que mais incomoda em alguns adeptos da tática.

Concordo também que a descentralização da luta, o “trabalho territorial”, ainda está engatinhando por aqui. Nossa situação é difícil. Ainda dependemos muito das explosões aleatórias de revolta, nosso principal meio de comunicação é o Facebook...

Enfim, apesar de tudo isso, pra mim soa irresponsável e arrogante julgar as ações diretas como violência míope quando se trata desse contexto. Acho imprescindível que possamos abrir um diálogo com quem quer que seja sem achar que se está usando os óculos da verdade.

Um abraço!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pra mim as relações sociais são mais complexas do que nossa pretensão de alcançá-la racionalmente desejaria. Não existe causa e efeito tão determinados como parece que você deseja. O que significa que não existe uma reação uniforme da sociedade, ou de setores populares (que é o que mais interessa) para um determinado tipo de ação política.</p>
<p>Na minha cidade, por ex., que não acompanhou as revoltas de junho como no resto do Brasil, se não em seu formato coxinha, podemos ver o contrário do que você diz. Só em agosto de 2013 tivemos uma ação direta. Um ônibus queimado e a Câmara dos vereadores completamente apedrejada, entre outras coisas.</p>
<p>Depois desse dia parece que uma chama havia sido acesa na cidade e pudemos ver, na mesma semana, vários protestos se desenrolarem nas periferias. Incluindo um em Olinda, na Av. Presidente Kennedy, que ficou marcado como uma das revoltas mais combativa já vista na região metrop. de Recife.</p>
<p>Aqui tem um site, o reciferesiste.pelivre.org, que compila todas os acontecimentos de resistência noticiados pela mídia, seja independente ou corporativa. Depois (se precisar) eu dou uma procurada pra ilustrar bem o que digo.</p>
<p>***</p>
<p>Como se pode medir o “nível de consciência política” da maioria da população? Na verdade, qual o sentido que essa expressão faz pra realidade, o que significa consciência política?</p>
<p>Na minha cidade (falo mais uma vez daqui porque é a realidade que conheço) foi só com a tática black block que vimos o anarquismo e suas “significações imaginárias” como autogestão, anti-estatismo, anti-partidarismo e etc., se espalharem entre jovens de periferia. Pode ter sido diferente no Rio, mas aqui foi assim. Ficamos surpresos quando vimos que quem tava segurando escudos com anábolas e fazendo “as coisas acontecerem” eram pirralhos da periferia.</p>
<p>Claro, boa parte da população estava contrária à tática. Mas também é difícil guiar-se por “boa parte da população”, especialmente quando eles usavam termos da Grande Mídia pra julgar os protestos &#8211; “Isso aí é tudo vândalo”. A esse respeito devemos multiplicar nossos meios de comunicação e não renunciar à revolta legítima porque vai ser mal falado. E quer queremos quer não, as páginas do Black Block no Facebook são um dos principais contrapontos midiáticos de hoje. Com toda a pobreza teórica e com o ridículo de ser uma página de Facebook o alcance deles é infinitamente maior que o de qualquer site de contra-informação. E isso se dá porque eles estão nas ruas, fazendo o que estão fazendo.</p>
<p>Além disso, a forma como a maioria dos jovens de periferia dispõe do corpo já tem requintes de violência bem presente. Dá pra ver nas brincadeiras com amigos, nas incursões das torcidas organizadas para os estádios ou, no mais extremo, no próprio banditismo. Eu não vejo essas pessoas olharem com maus olhos a ação direta. Isso é só um exemplo, que fique claro que eu não to localizando nesse setor um sujeito revolucionário pelo qual devemos nos preocupar e esquecer todo o resto.</p>
<p>Agora claro, incomoda bastante o nível de pobreza teórica que a revolta no Brasil demonstra. Aqui não é a França, nem mesmo a Argentina e o Chile, não temos nenhuma tradição intelectual libertária. E quando falo isso não penso na academia, pelo contrário. Tudo está pra ser construído. Dentro dos próprios que utilizam a tática Black Block é lamentável ver a presença decisiva de maoístas e todo tipo de adeptos da “foice e do martelo”. Além disso também incomoda o nível de espetacularização da luta dentro dos “blockers”, isso é, quando o charme da máscara e da ação direta sobrepõe a própria importância política da ação. Claro, a insurreição deve ser charmosa, mas não no nível espetacular facebookiano. Qual é o sentido que faz se mascarar nas ruas e colocar uma foto sua mascarada no perfil de facebook, que tem seu nome e tudo? Essa inversão pra mim é o que mais incomoda em alguns adeptos da tática.</p>
<p>Concordo também que a descentralização da luta, o “trabalho territorial”, ainda está engatinhando por aqui. Nossa situação é difícil. Ainda dependemos muito das explosões aleatórias de revolta, nosso principal meio de comunicação é o Facebook&#8230;</p>
<p>Enfim, apesar de tudo isso, pra mim soa irresponsável e arrogante julgar as ações diretas como violência míope quando se trata desse contexto. Acho imprescindível que possamos abrir um diálogo com quem quer que seja sem achar que se está usando os óculos da verdade.</p>
<p>Um abraço!</p>
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			</item>
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		<title>
		Por: Marcelo Lopes de Souza		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/03/93164/#comment-203818</link>

		<dc:creator><![CDATA[Marcelo Lopes de Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Mar 2014 12:36:48 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=93164#comment-203818</guid>

					<description><![CDATA[Caro João:

Concordo totalmente com você a propósito de seu primeiro lembrete. Na realidade, tenho sugerido, inclusive, que estabeleçamos uma distinção  -  que é conceitual, mas cuja relevãncia é política  -  entre &quot;movimento social&quot; e &quot;organização de movimento social&quot;. Isso não apenas porque, em um movimento social complexo, sempre há várias organizações, e não apenas uma (ao mesmo tempo em que o movimento, em si, não se reduz a nenhuma delas, e nem mesmo a uma somatória do conjunto de organizações); mas porque, há um certo tempo (e diferentemente do que ocorria décadas atrás), tornou-se comum no Brasil cada organização trazer, em seu nome, a palavra &quot;movimento&quot;. É muitíssimo usual militantes se referirem à sua organização como &quot;o meu movimento&quot;  -  e aí vai, independentemente do grau de consciência ou não, a mensagem de que, para ele, a sua organização, em si mesma, de fato, é um movimento (ou, quem sabe, &quot;o&quot; movimento ou a única expressão legítima dele, para os mais exclusivistas...). Não poucas vezes, reproduz-se, em uma organização de movimento social, ao menos naquelas mais verticais, o mesmo conjunto de vícios dos partidos: hierarquias, vanguardismo, elitismo... e, mais cedo do que tarde, a tendência de se estabelecerem relações de dependência e fisiologismo com o aparelho de Estado.

Quanto ao seu segundo lembrete, tendo a concordar, mas eu não seria, talvez, tão enfático. Digo isso porque, pelo que tenho podido ver, o que me parece é que há um espectro estonteante de motivações e perfis  -  desde a &quot;busca por adrenalina&quot; até a conviccção de se estar participando de uma ação antissistêmica. Naqueles casos em que não se está lidando com fanáticos e congêneres, certamente há que se tentar de tudo para dialogar e apresentar argumentos. Porém, nos outros casos... Como disse certa vez Samuel Johnson (tradução livre), &quot;Senhor, eu posso lhe fornecer um argumento, mas não sou obrigado a lhe fornecer a compreensão.&quot;

Abraços, 

Marcelo

PS - Em tempo: no último parágrafo, onde se lê &quot;No entanto, por ser ardilosa e contaminadora (...)&quot;, leia-se &quot;No entanto, por serem ardilosas e contaminadoras (...)&quot;.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro João:</p>
<p>Concordo totalmente com você a propósito de seu primeiro lembrete. Na realidade, tenho sugerido, inclusive, que estabeleçamos uma distinção  &#8211;  que é conceitual, mas cuja relevãncia é política  &#8211;  entre &#8220;movimento social&#8221; e &#8220;organização de movimento social&#8221;. Isso não apenas porque, em um movimento social complexo, sempre há várias organizações, e não apenas uma (ao mesmo tempo em que o movimento, em si, não se reduz a nenhuma delas, e nem mesmo a uma somatória do conjunto de organizações); mas porque, há um certo tempo (e diferentemente do que ocorria décadas atrás), tornou-se comum no Brasil cada organização trazer, em seu nome, a palavra &#8220;movimento&#8221;. É muitíssimo usual militantes se referirem à sua organização como &#8220;o meu movimento&#8221;  &#8211;  e aí vai, independentemente do grau de consciência ou não, a mensagem de que, para ele, a sua organização, em si mesma, de fato, é um movimento (ou, quem sabe, &#8220;o&#8221; movimento ou a única expressão legítima dele, para os mais exclusivistas&#8230;). Não poucas vezes, reproduz-se, em uma organização de movimento social, ao menos naquelas mais verticais, o mesmo conjunto de vícios dos partidos: hierarquias, vanguardismo, elitismo&#8230; e, mais cedo do que tarde, a tendência de se estabelecerem relações de dependência e fisiologismo com o aparelho de Estado.</p>
<p>Quanto ao seu segundo lembrete, tendo a concordar, mas eu não seria, talvez, tão enfático. Digo isso porque, pelo que tenho podido ver, o que me parece é que há um espectro estonteante de motivações e perfis  &#8211;  desde a &#8220;busca por adrenalina&#8221; até a conviccção de se estar participando de uma ação antissistêmica. Naqueles casos em que não se está lidando com fanáticos e congêneres, certamente há que se tentar de tudo para dialogar e apresentar argumentos. Porém, nos outros casos&#8230; Como disse certa vez Samuel Johnson (tradução livre), &#8220;Senhor, eu posso lhe fornecer um argumento, mas não sou obrigado a lhe fornecer a compreensão.&#8221;</p>
<p>Abraços, </p>
<p>Marcelo</p>
<p>PS &#8211; Em tempo: no último parágrafo, onde se lê &#8220;No entanto, por ser ardilosa e contaminadora (&#8230;)&#8221;, leia-se &#8220;No entanto, por serem ardilosas e contaminadoras (&#8230;)&#8221;.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/03/93164/#comment-203292</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Mar 2014 18:14:11 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O &lt;em&gt;Passa Palavra&lt;/em&gt; publicou no final de Fevereiro o artigo «Autodefesa em manifestações, para quê?» http://passapalavra.info/2014/02/92329 e agora este artigo de Marcelo Lopes de Souza. Parecem-me ambos muito importantes, para mais tendo em conta o artigo «Teoria do caos» http://passapalavra.info/2014/03/92961 porque encetam uma reflexão sobre estratégia e táctica em manifestações, abandonando o plano das banalidades ou dos apelos emocionais. Todavia, com facilidade se esquecem duas coisas.
1) Frequentemente, o uso de acções consideradas violentas serve apenas para ocultar ou a incapacidade de mobilização de massa ou a vontade de manter a massa na passividade. E isto não ocorre apenas com grupos minúsculos. Assim, por exemplo, um certo movimento social pode contar com centenas de milhares de aderentes mas preferir usar duas ou três dezenas de militantes profissionais para bloquear uma auto-estrada com pneus a arder. Não consegue assim conquistar simpatias para a causa e corre até o risco de provocar a hostilidade de outros trabalhadores, especialmente camioneiros. É que o objectivo desse tipo de acções não consiste em organizar mas somente conquistar espaço nos noticiários, ou seja, trata-se de uma autopromoção.
2) Em muitos casos — receio mesmo que na maioria dos casos — é inútil explicar aos fanáticos das acções violentas em qualquer circunstância e a todo o preço que elas podem ser prejudiciais e não benéficas, que podem ser antipedagógicas, dificultarem a organização de massas e afastarem muitos trabalhadores. É inútil explicar porque é precisamente isso que eles querem. Em vez de pretenderem mobilizar as pessoas comuns, pretendem o contrário: destacar-se delas, cavar um fosso intransponível entre uma pequeníssima minoria activa e a esmagadora maioria dos trabalhadores relegados para a passividade. A fronteira é estreita e pouco definida entre o vanguardismo e o elitismo, e nestes casos trata-se de puro elitismo, com todas as consequências que daí advêm.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O <em>Passa Palavra</em> publicou no final de Fevereiro o artigo «Autodefesa em manifestações, para quê?» <a href="http://passapalavra.info/2014/02/92329" rel="ugc">http://passapalavra.info/2014/02/92329</a> e agora este artigo de Marcelo Lopes de Souza. Parecem-me ambos muito importantes, para mais tendo em conta o artigo «Teoria do caos» <a href="http://passapalavra.info/2014/03/92961" rel="ugc">http://passapalavra.info/2014/03/92961</a> porque encetam uma reflexão sobre estratégia e táctica em manifestações, abandonando o plano das banalidades ou dos apelos emocionais. Todavia, com facilidade se esquecem duas coisas.<br />
1) Frequentemente, o uso de acções consideradas violentas serve apenas para ocultar ou a incapacidade de mobilização de massa ou a vontade de manter a massa na passividade. E isto não ocorre apenas com grupos minúsculos. Assim, por exemplo, um certo movimento social pode contar com centenas de milhares de aderentes mas preferir usar duas ou três dezenas de militantes profissionais para bloquear uma auto-estrada com pneus a arder. Não consegue assim conquistar simpatias para a causa e corre até o risco de provocar a hostilidade de outros trabalhadores, especialmente camioneiros. É que o objectivo desse tipo de acções não consiste em organizar mas somente conquistar espaço nos noticiários, ou seja, trata-se de uma autopromoção.<br />
2) Em muitos casos — receio mesmo que na maioria dos casos — é inútil explicar aos fanáticos das acções violentas em qualquer circunstância e a todo o preço que elas podem ser prejudiciais e não benéficas, que podem ser antipedagógicas, dificultarem a organização de massas e afastarem muitos trabalhadores. É inútil explicar porque é precisamente isso que eles querem. Em vez de pretenderem mobilizar as pessoas comuns, pretendem o contrário: destacar-se delas, cavar um fosso intransponível entre uma pequeníssima minoria activa e a esmagadora maioria dos trabalhadores relegados para a passividade. A fronteira é estreita e pouco definida entre o vanguardismo e o elitismo, e nestes casos trata-se de puro elitismo, com todas as consequências que daí advêm.</p>
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