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	Comentários sobre: Ainda não sabiam que eram fascistas. 4) Da apologia da elite a uma teoria dos heróis	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/04/92878/#comment-211440</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Apr 2014 20:44:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Marcelo,
O que vou escrever corre o risco de desviar o assunto, precisamente num debate em que deveria ser eu o principal interessado na manutenção do rumo. Mas, apesar disso, não resisto a comentar esta sua afirmação de que uma das características do meio académico é a «ausência de real compromisso com a práxis». Ora, geralmente esquece-se que essa ausência de compromisso prático caracteriza a esquerda, não a direita. No Brasil e em Portugal, como em todo o mundo, os serviços de informação da polícia e os serviços de espionagem contam com a assessoria de um enorme número de académicos, seleccionados entre os melhores especialistas da área. O facto de o procedimento ser discreto e essas ligações não serem conhecidas não obsta a que esses professores tenham um «real compromisso com a práxis» capitalista. No caso dos serviços de informação da polícia, acresce que os professores universitários, pela sua própria profissão, podem proceder a inquéritos ou mandar os mestrandos e doutorandos proceder a inquéritos de campo sobre assuntos muito sensíveis, e aos quais os inquiridos respondem frequentemente com uma candura de pasmar. Em Janeiro deste ano o &lt;em&gt;Passa Palavra&lt;/em&gt; publicou um &lt;a href=&quot;http://passapalavra.info/2014/01/90509&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;Flagrante Delito que passou curiosamente despercebido&lt;/a&gt;. Mas parece que é demais pedir que os professores de esquerda revelem um grau de empenhamento prático equivalente ao dos seus colegas de direita.
Não quero interromper mais, peço desculpa, regressemos ao Sorel e aos outros.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Marcelo,<br />
O que vou escrever corre o risco de desviar o assunto, precisamente num debate em que deveria ser eu o principal interessado na manutenção do rumo. Mas, apesar disso, não resisto a comentar esta sua afirmação de que uma das características do meio académico é a «ausência de real compromisso com a práxis». Ora, geralmente esquece-se que essa ausência de compromisso prático caracteriza a esquerda, não a direita. No Brasil e em Portugal, como em todo o mundo, os serviços de informação da polícia e os serviços de espionagem contam com a assessoria de um enorme número de académicos, seleccionados entre os melhores especialistas da área. O facto de o procedimento ser discreto e essas ligações não serem conhecidas não obsta a que esses professores tenham um «real compromisso com a práxis» capitalista. No caso dos serviços de informação da polícia, acresce que os professores universitários, pela sua própria profissão, podem proceder a inquéritos ou mandar os mestrandos e doutorandos proceder a inquéritos de campo sobre assuntos muito sensíveis, e aos quais os inquiridos respondem frequentemente com uma candura de pasmar. Em Janeiro deste ano o <em>Passa Palavra</em> publicou um <a href="http://passapalavra.info/2014/01/90509" rel="nofollow">Flagrante Delito que passou curiosamente despercebido</a>. Mas parece que é demais pedir que os professores de esquerda revelem um grau de empenhamento prático equivalente ao dos seus colegas de direita.<br />
Não quero interromper mais, peço desculpa, regressemos ao Sorel e aos outros.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Marcelo Lopes de Souza		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/04/92878/#comment-211425</link>

		<dc:creator><![CDATA[Marcelo Lopes de Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Apr 2014 19:36:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caro Leo:

Seus comentários sempre são construtivos, e, uma vez que a perspectiva de (re)construção não se opõe à da genuína crítica  -  antes pelo contrário  -, vale sempre a pena dialogar com você.

No entanto, apesar do necessário fôlego a uma tal empreitada, o risco de ter algo assim feito no interior do meio acadêmico seria o de, por uma ou outra razão, as idéias fiquem circunscritas a esse meio  -  o que é quase o mesmo que esterilizá-las politicamente. 

Não quero, com isso, dizer que trabalhos acadêmicos não possam ter autêntico valor como inovação e crítica em matéria de análise social; meu ganha-pão como pesquisador e professor vem desse meio, e não meramente por isso (que seria uma justificativa casuística), mas por acreditar e por de vez em quando ver (mas só de vez em quando...) que do meio acadêmico brasileiro ainda brotam coisas interessantes e úteis, elaboradas por gente comprometida, é que não desqualifico e descarto antecipadamente. O meu ponto, portanto, é outro. Ocorre que há, pelo menos, três camadas sucessivas que levam o meio acadêmico à sua esterilidade política, talvez hoje mais forte que nunca: 1) a ausência de senso crítico, profundidade e originalidade; 2) a ausência de real compromisso com a práxis, mesmo em muitos casos em que há talento e senso crítico (ou seja, os trabalhos são livrescos, o autor não se envolve minimamente com movimentos e iniciativas concretos, e por aí vai); 3) as dificuldades para se retroalimentar as lutas com base em estudos elaborados para uma finalidade acadêmica (problemas de linguagem, de oportunidade etc.). Há exceções? Sim, e conheço, pessoalmente, algumas. Porém, uma andorinha só não faz verão, e nem algumas poucas.

Daí a importância de que algo assim possa ser feito, claro, por gente estudiosa e preparada, mas verdadeiramente disposta a fazê-lo no contexto do diálogo e da interação com os ambientes em que ideias são discutidas independentemente do seu suposto valor no mercado intelectual. Se o trabalho assumir um formato acadêmico mas, depois, for devidamente adaptado (linguagem, tamanho, estrutura) para alimentar um debate político-intelectual, como ocorre no Passa Palavra, sem dúvida seria muito interessante. Já seria uma forma nobre de justificar uma bolsa de doutorado. 

Outra questão é que, acima de tudo, se faz necessária  -  e não somente por conta de Proudhon, obviamente  -  uma atitude de desprendimento, de não sectarismo, de não reverência cega. Infelizmente, como você sabe, isso é o mais comum hoje em dia. Se a atitude de veneração fosse apenas uma questão de estreiteza mental, já seria um problema e tanto. (Estreiteza mental, esclareça-se, derivada da ignorância de detalhes da vida e da obra de um pensador e da incapacidade de perceber que o espírito libertário exige o debate e a autossuperação, e que isso só é possível com autocrítica e sentido de renovação; basta olharmos, quanto a isso, os exemplo de um Kropotkin e de um Reclus, modelos citados e tão pouco seguidos...) Porém, não podemos ficar só nisso, pois não é só de estreiteza mental que se trata. Trata-se, algumas vezes, por trás da atitude zelosa de “guardiões da fé”, de uma luta por territórios e nichos; trata-se, enfim, de uma disputa de poder. (Deixo claro que, a meu ver, autocrítica e repúdio ao dogmatismo e ao sectarianismo nada tem a ver com o exibicionismo leviano que faz com que se busque “desconstruir mitos” acima de tudo pelo prazer de atacar reputações, como moleques travessos e narcisistas. Entre os jornalistas pátrios e alguns arremedos de filósofos e intelectuais encontramos vários desses moleques travessos atualmente, sequiosos por difamar tudo o que seja pensamento não conservador. O contrário da veneração típica dos “guardiões da fé” não deve ser, obviamente, confundido com isso. Apenas considero fundamental que, devidamente contextualizadas historicamente, as vidas e obras de Proudhon e de todos os demais que nos inspiram até hoje possam ser avaliadas sem preocupações de beatificação ou canonização, já que homens e mulheres falhos e falíveis foram todos eles  -  e sua grandeza reside não em sua &quot;infalibilidade&quot;, em sua &quot;coerência sem fissuras&quot;, mas naquilo que de imensamente positivo se pôde e ainda se pode extrair de seu legado, a despeito de problemas e contradições.)

Quanto a Bakunin  -  bom, Bakunin é um capítulo à parte. Apesar de seu respeito por Proudhon, dele discordou, explícita ou implicitamente, várias vezes (e, no meu entendimento, fez bem). Porém, Bakunin teve as suas próprias contradições, seus próprios problemas, e não foram poucos. Mas isso fica para outra ocasião...          

Abraços!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Leo:</p>
<p>Seus comentários sempre são construtivos, e, uma vez que a perspectiva de (re)construção não se opõe à da genuína crítica  &#8211;  antes pelo contrário  -, vale sempre a pena dialogar com você.</p>
<p>No entanto, apesar do necessário fôlego a uma tal empreitada, o risco de ter algo assim feito no interior do meio acadêmico seria o de, por uma ou outra razão, as idéias fiquem circunscritas a esse meio  &#8211;  o que é quase o mesmo que esterilizá-las politicamente. </p>
<p>Não quero, com isso, dizer que trabalhos acadêmicos não possam ter autêntico valor como inovação e crítica em matéria de análise social; meu ganha-pão como pesquisador e professor vem desse meio, e não meramente por isso (que seria uma justificativa casuística), mas por acreditar e por de vez em quando ver (mas só de vez em quando&#8230;) que do meio acadêmico brasileiro ainda brotam coisas interessantes e úteis, elaboradas por gente comprometida, é que não desqualifico e descarto antecipadamente. O meu ponto, portanto, é outro. Ocorre que há, pelo menos, três camadas sucessivas que levam o meio acadêmico à sua esterilidade política, talvez hoje mais forte que nunca: 1) a ausência de senso crítico, profundidade e originalidade; 2) a ausência de real compromisso com a práxis, mesmo em muitos casos em que há talento e senso crítico (ou seja, os trabalhos são livrescos, o autor não se envolve minimamente com movimentos e iniciativas concretos, e por aí vai); 3) as dificuldades para se retroalimentar as lutas com base em estudos elaborados para uma finalidade acadêmica (problemas de linguagem, de oportunidade etc.). Há exceções? Sim, e conheço, pessoalmente, algumas. Porém, uma andorinha só não faz verão, e nem algumas poucas.</p>
<p>Daí a importância de que algo assim possa ser feito, claro, por gente estudiosa e preparada, mas verdadeiramente disposta a fazê-lo no contexto do diálogo e da interação com os ambientes em que ideias são discutidas independentemente do seu suposto valor no mercado intelectual. Se o trabalho assumir um formato acadêmico mas, depois, for devidamente adaptado (linguagem, tamanho, estrutura) para alimentar um debate político-intelectual, como ocorre no Passa Palavra, sem dúvida seria muito interessante. Já seria uma forma nobre de justificar uma bolsa de doutorado. </p>
<p>Outra questão é que, acima de tudo, se faz necessária  &#8211;  e não somente por conta de Proudhon, obviamente  &#8211;  uma atitude de desprendimento, de não sectarismo, de não reverência cega. Infelizmente, como você sabe, isso é o mais comum hoje em dia. Se a atitude de veneração fosse apenas uma questão de estreiteza mental, já seria um problema e tanto. (Estreiteza mental, esclareça-se, derivada da ignorância de detalhes da vida e da obra de um pensador e da incapacidade de perceber que o espírito libertário exige o debate e a autossuperação, e que isso só é possível com autocrítica e sentido de renovação; basta olharmos, quanto a isso, os exemplo de um Kropotkin e de um Reclus, modelos citados e tão pouco seguidos&#8230;) Porém, não podemos ficar só nisso, pois não é só de estreiteza mental que se trata. Trata-se, algumas vezes, por trás da atitude zelosa de “guardiões da fé”, de uma luta por territórios e nichos; trata-se, enfim, de uma disputa de poder. (Deixo claro que, a meu ver, autocrítica e repúdio ao dogmatismo e ao sectarianismo nada tem a ver com o exibicionismo leviano que faz com que se busque “desconstruir mitos” acima de tudo pelo prazer de atacar reputações, como moleques travessos e narcisistas. Entre os jornalistas pátrios e alguns arremedos de filósofos e intelectuais encontramos vários desses moleques travessos atualmente, sequiosos por difamar tudo o que seja pensamento não conservador. O contrário da veneração típica dos “guardiões da fé” não deve ser, obviamente, confundido com isso. Apenas considero fundamental que, devidamente contextualizadas historicamente, as vidas e obras de Proudhon e de todos os demais que nos inspiram até hoje possam ser avaliadas sem preocupações de beatificação ou canonização, já que homens e mulheres falhos e falíveis foram todos eles  &#8211;  e sua grandeza reside não em sua &#8220;infalibilidade&#8221;, em sua &#8220;coerência sem fissuras&#8221;, mas naquilo que de imensamente positivo se pôde e ainda se pode extrair de seu legado, a despeito de problemas e contradições.)</p>
<p>Quanto a Bakunin  &#8211;  bom, Bakunin é um capítulo à parte. Apesar de seu respeito por Proudhon, dele discordou, explícita ou implicitamente, várias vezes (e, no meu entendimento, fez bem). Porém, Bakunin teve as suas próprias contradições, seus próprios problemas, e não foram poucos. Mas isso fica para outra ocasião&#8230;          </p>
<p>Abraços!</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Leo Vinicius		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/04/92878/#comment-211373</link>

		<dc:creator><![CDATA[Leo Vinicius]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Apr 2014 16:05:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Marcelo,

acho que é uma boa dica para alguém, por exemplo, que quer fazer uma tese acadêmica teórica e se interessa por Proudhon. Mas não seria um trabalho fácil. 
Bem, de toda forma, acho que na prática, pelo menos em boa parte, Bakunin já é uma espécie de Proudhon crítico de Proudhon.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Marcelo,</p>
<p>acho que é uma boa dica para alguém, por exemplo, que quer fazer uma tese acadêmica teórica e se interessa por Proudhon. Mas não seria um trabalho fácil.<br />
Bem, de toda forma, acho que na prática, pelo menos em boa parte, Bakunin já é uma espécie de Proudhon crítico de Proudhon.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Marcelo Lopes de Souza		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/04/92878/#comment-211043</link>

		<dc:creator><![CDATA[Marcelo Lopes de Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Apr 2014 14:40:30 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=92878#comment-211043</guid>

					<description><![CDATA[Especificamente sobre Proudhon, deixo aqui um comentário e uma provocação.

A caracterização desse autor como “uma das figuras mais ambíguas do movimento operário, inspirador tanto de um ânimo libertário como de valores reacionários”, me parece muito acertada, e dá panos para mangas. Por um lado, legou-nos ele um conjunto precioso de insights políticos (profundamente inspiradores de um “ânimo libertário”, como diz João Bernardo) e esboços ou antecipações de natureza teórica; suas reflexões sobre o “princípio federativo”, sua contribuição para as teorias da mais-valia e suas advertências a propósito do estatismo são alguns dos vários exemplos. Por outro lado, contudo, seus escritos não raro estão eivados de problemas, entre os quais o linguajar pouco claro é apenas o menor deles. Assim, ao mesmo tempo que é necessário continuamente resgatar Proudhon da caricatura traçada por Marx em seu “A miséria da Filosofia” (e é importante registrar que não apenas autores anarquistas, mas também não anarquistas como Georges Gurvitch e o próprio João Bernardo souberam reconhecer os méritos de Proudhon e certas flagrantes injustiças cometidas por Marx), faz-se necessário passar a examinar, com objetividade e senso histórico, aquelas facetas de Proudhon sobre as quais os libertários costumam calar-se (por desconhecerem ou, pior, por não aceitarem que se “macule” a memória de Proudhon), como o antissemitismo, a misoginia, as tiradas nacionalistas, as hesitações e oscilações políticas, o componenente ideológico “pequeno-burguês”... 

Parece-me, assim, que esse extraordinário personagem, brilhante e autodidata, a um só tempo sensível, arguto e problemático, está a esperar por um tratamento análogo àquele a que João Bernardo submeteu Marx em sua obra em três volumes “Marx crítico de Marx”. Porém, não creio que seja fácil encontrar candidatos. Seria ingenuidade esperar que uma empreitada séria e honesta a respeito da obra e das ideias de Proudhon partisse do campo marxista; só nos resta, assim, esperar que, entre os anarquistas, surja alguém que se entregue a essa tarefa, tão relevante quanto necessária. Qual seria, porém, a probabilidade de que algo assim ocorra? Não creio que seja muito grande. Temos aí o exemplo de Peter Marshall (“Demanding the Impossible”), que tentou legar-nos um quadro que estivesse à altura da complexidade e das contradições do autor em questão; mas a obra de Marshall, por seu escopo, termina sendo superficial (a respeito de Proudhon e a respeito de quase todo o resto). Infelizmente, enquanto o tratamento dispensado a Proudhon por parte dos libertários for, acima de tudo, de reverência  -  curiosa reverência, já que, pelo que observo há vinte e cinco anos, trata-se de um dos grandes nomes do anarquismo que os anarquistas contemporâneos menos leem  -, faltará uma análise de fôlego que descortine não somente a mistura, mas eventualmente as interconexões entre grandeza e fraquezas na obra do grande pensador francês.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Especificamente sobre Proudhon, deixo aqui um comentário e uma provocação.</p>
<p>A caracterização desse autor como “uma das figuras mais ambíguas do movimento operário, inspirador tanto de um ânimo libertário como de valores reacionários”, me parece muito acertada, e dá panos para mangas. Por um lado, legou-nos ele um conjunto precioso de insights políticos (profundamente inspiradores de um “ânimo libertário”, como diz João Bernardo) e esboços ou antecipações de natureza teórica; suas reflexões sobre o “princípio federativo”, sua contribuição para as teorias da mais-valia e suas advertências a propósito do estatismo são alguns dos vários exemplos. Por outro lado, contudo, seus escritos não raro estão eivados de problemas, entre os quais o linguajar pouco claro é apenas o menor deles. Assim, ao mesmo tempo que é necessário continuamente resgatar Proudhon da caricatura traçada por Marx em seu “A miséria da Filosofia” (e é importante registrar que não apenas autores anarquistas, mas também não anarquistas como Georges Gurvitch e o próprio João Bernardo souberam reconhecer os méritos de Proudhon e certas flagrantes injustiças cometidas por Marx), faz-se necessário passar a examinar, com objetividade e senso histórico, aquelas facetas de Proudhon sobre as quais os libertários costumam calar-se (por desconhecerem ou, pior, por não aceitarem que se “macule” a memória de Proudhon), como o antissemitismo, a misoginia, as tiradas nacionalistas, as hesitações e oscilações políticas, o componenente ideológico “pequeno-burguês”&#8230; </p>
<p>Parece-me, assim, que esse extraordinário personagem, brilhante e autodidata, a um só tempo sensível, arguto e problemático, está a esperar por um tratamento análogo àquele a que João Bernardo submeteu Marx em sua obra em três volumes “Marx crítico de Marx”. Porém, não creio que seja fácil encontrar candidatos. Seria ingenuidade esperar que uma empreitada séria e honesta a respeito da obra e das ideias de Proudhon partisse do campo marxista; só nos resta, assim, esperar que, entre os anarquistas, surja alguém que se entregue a essa tarefa, tão relevante quanto necessária. Qual seria, porém, a probabilidade de que algo assim ocorra? Não creio que seja muito grande. Temos aí o exemplo de Peter Marshall (“Demanding the Impossible”), que tentou legar-nos um quadro que estivesse à altura da complexidade e das contradições do autor em questão; mas a obra de Marshall, por seu escopo, termina sendo superficial (a respeito de Proudhon e a respeito de quase todo o resto). Infelizmente, enquanto o tratamento dispensado a Proudhon por parte dos libertários for, acima de tudo, de reverência  &#8211;  curiosa reverência, já que, pelo que observo há vinte e cinco anos, trata-se de um dos grandes nomes do anarquismo que os anarquistas contemporâneos menos leem  -, faltará uma análise de fôlego que descortine não somente a mistura, mas eventualmente as interconexões entre grandeza e fraquezas na obra do grande pensador francês.</p>
]]></content:encoded>
		
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