<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	
	>
<channel>
	<title>
	Comentários sobre: Sobre a esquerda e as esquerdas (1ª parte)	</title>
	<atom:link href="https://passapalavra.info/2014/04/93811/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://passapalavra.info/2014/04/93811/</link>
	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
	<lastBuildDate>Wed, 14 Jun 2017 13:30:18 +0000</lastBuildDate>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9</generator>
	<item>
		<title>
		Por: Fernando Penim Redondo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/04/93811/#comment-222671</link>

		<dc:creator><![CDATA[Fernando Penim Redondo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 May 2014 08:20:12 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=93811#comment-222671</guid>

					<description><![CDATA[Para quem estiver interessado no livro &quot;Do Capitalismo para o Digitalismo&quot;, referido num comentário anterior, sugiro uma visita ao blog http://digital-ismo.blogspot.pt/ pois aí poderá encontrar também alguns textos percursores das suas teses e algumas versões sintéticas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para quem estiver interessado no livro &#8220;Do Capitalismo para o Digitalismo&#8221;, referido num comentário anterior, sugiro uma visita ao blog <a href="http://digital-ismo.blogspot.pt/" rel="nofollow ugc">http://digital-ismo.blogspot.pt/</a> pois aí poderá encontrar também alguns textos percursores das suas teses e algumas versões sintéticas.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/04/93811/#comment-222256</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 May 2014 10:00:13 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=93811#comment-222256</guid>

					<description><![CDATA[Fernando Penim Redondo,
Você entrou para o Partido no mesmo ano em que eu saí, cruzámo-nos. Muito obrigado pelo link e sem dúvida lerei o livro, até porque o assunto me interessa e também tenho escrito sobre ele. Em troca, deixo-lhe &lt;a href=&quot;http://xvm-27-11.ghst.net/IMG/pdf/ECONOMIA_DOS_CONFLITOS_SOCIAIS_-_LIVRO_COMPLETO_EM_PDF_-_JOAO_BERNARDO.pdf&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;&lt;em&gt;aqui&lt;/em&gt;&lt;/a&gt; o link para um livro que aborda em parte esse tema e que depois de duas edições em papel eu divulguei pela internet.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fernando Penim Redondo,<br />
Você entrou para o Partido no mesmo ano em que eu saí, cruzámo-nos. Muito obrigado pelo link e sem dúvida lerei o livro, até porque o assunto me interessa e também tenho escrito sobre ele. Em troca, deixo-lhe <a href="http://xvm-27-11.ghst.net/IMG/pdf/ECONOMIA_DOS_CONFLITOS_SOCIAIS_-_LIVRO_COMPLETO_EM_PDF_-_JOAO_BERNARDO.pdf" rel="nofollow"><em>aqui</em></a> o link para um livro que aborda em parte esse tema e que depois de duas edições em papel eu divulguei pela internet.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Fernando Penim Redondo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/04/93811/#comment-221963</link>

		<dc:creator><![CDATA[Fernando Penim Redondo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 May 2014 12:54:27 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=93811#comment-221963</guid>

					<description><![CDATA[João Bernardo
Partilho em grande medida as ideias contidas no seu texto.
Eu militei no PCP de 1966 a 1991 e estou cansado desta esquerda retórica e inconsequente, incapaz de pensar um futuro.
Estou convencido de que as transformações ocorridas na sociedade por via das tecnologias e pelo deslocamento do trabalho para modalidades &quot;não-repetitivas&quot;, obrigam a revisitar e actualizar a teoria do valor.
Sem isso não é possível lançar uma nova dinâmica revolucionária.
Em 2003 publiquei um livro que aqui deixo em versão PDF ( http://www.dotecome.com/politica/digitalismo/LIVRO-PDF/Do_Capitalismo_para_o_Digitalismo-V-9-18Setembro2003.doc.pdf ) e que também pode ser visto num blog.
Eu não sou um académico, e tenho plena consciência das minhas limitações. No entanto creio termos (eu e a Maria Rosa) avançado com algumas teses interessantes, e originais, que merecem ser lidas.
Gostaria muito que o João Bernardo lesse o meu livro e dissesse o que pensa da minha (e da Maria Rosa) abordagem.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Bernardo<br />
Partilho em grande medida as ideias contidas no seu texto.<br />
Eu militei no PCP de 1966 a 1991 e estou cansado desta esquerda retórica e inconsequente, incapaz de pensar um futuro.<br />
Estou convencido de que as transformações ocorridas na sociedade por via das tecnologias e pelo deslocamento do trabalho para modalidades &#8220;não-repetitivas&#8221;, obrigam a revisitar e actualizar a teoria do valor.<br />
Sem isso não é possível lançar uma nova dinâmica revolucionária.<br />
Em 2003 publiquei um livro que aqui deixo em versão PDF ( <a href="http://www.dotecome.com/politica/digitalismo/LIVRO-PDF/Do_Capitalismo_para_o_Digitalismo-V-9-18Setembro2003.doc.pdf" rel="nofollow ugc">http://www.dotecome.com/politica/digitalismo/LIVRO-PDF/Do_Capitalismo_para_o_Digitalismo-V-9-18Setembro2003.doc.pdf</a> ) e que também pode ser visto num blog.<br />
Eu não sou um académico, e tenho plena consciência das minhas limitações. No entanto creio termos (eu e a Maria Rosa) avançado com algumas teses interessantes, e originais, que merecem ser lidas.<br />
Gostaria muito que o João Bernardo lesse o meu livro e dissesse o que pensa da minha (e da Maria Rosa) abordagem.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Jacó		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/04/93811/#comment-221862</link>

		<dc:creator><![CDATA[Jacó]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 May 2014 02:58:45 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=93811#comment-221862</guid>

					<description><![CDATA[Meu caro João, sei que você fica bravo e também muitas pessoas ficam bravas contigo quando aponta nossas falhas de formação, de experiências, tanto teórica quanto prática. 

Só queria que você entendesse que a maioria daquilo que é o campo anticapitalista no Brasil é composto por pessoas jovens que, se sabem algo, deve-se a muito esforço pessoal de participação, criação e auto estudo. Nós não tivemos um partido, um movimento ou uma escola que nos ensinasse. Nos jogamos muitos novos, desde os 16 ou 17 anos, em lutas várias e no caminho fomos lendo o que a gente conseguia. Excetuando o Tragtenberg que deixou um eco para fora dos cofres acadêmicos, o resto tivemos que fazer por nós. Talvez você sinta pena de a gente ter que fazer perguntas sobre coisas que supostamente deveríamos saber, mas lembre que o que sabemos nós sabemos por nossa conta e enfrentando dificuldades. 

Outra, você pega muito como referência a revolução russa, mas no Brasil toda a esquerda tem como sombra Cuba e experiências na américa latina, a guerrilha e tudo o mais. Juntando com o PT e outros partidos, o peso da esquerda estatista sempre foi muito forte no nosso horizonte. A maioria de nós só descobriu a &quot;Revolução dos Cravos&quot; e a crítica ao stalinismo depois de ter passado pelo Tragtenberg. Por outro lado, o anarquismo que sobrou é demasiado teórico e acadêmico. Ainda, há forte poder da igreja católica e das evangélicas, o que dá algum valor ao debate no campo dos costumes. Saltar tudo isso com força e inovação não é fácil. Mas se existe um MPL hoje é porque muita gente, no passado, começou a desbravar campos desconhecidos. Tenha paciência, amigo. Abraços!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Meu caro João, sei que você fica bravo e também muitas pessoas ficam bravas contigo quando aponta nossas falhas de formação, de experiências, tanto teórica quanto prática. </p>
<p>Só queria que você entendesse que a maioria daquilo que é o campo anticapitalista no Brasil é composto por pessoas jovens que, se sabem algo, deve-se a muito esforço pessoal de participação, criação e auto estudo. Nós não tivemos um partido, um movimento ou uma escola que nos ensinasse. Nos jogamos muitos novos, desde os 16 ou 17 anos, em lutas várias e no caminho fomos lendo o que a gente conseguia. Excetuando o Tragtenberg que deixou um eco para fora dos cofres acadêmicos, o resto tivemos que fazer por nós. Talvez você sinta pena de a gente ter que fazer perguntas sobre coisas que supostamente deveríamos saber, mas lembre que o que sabemos nós sabemos por nossa conta e enfrentando dificuldades. </p>
<p>Outra, você pega muito como referência a revolução russa, mas no Brasil toda a esquerda tem como sombra Cuba e experiências na américa latina, a guerrilha e tudo o mais. Juntando com o PT e outros partidos, o peso da esquerda estatista sempre foi muito forte no nosso horizonte. A maioria de nós só descobriu a &#8220;Revolução dos Cravos&#8221; e a crítica ao stalinismo depois de ter passado pelo Tragtenberg. Por outro lado, o anarquismo que sobrou é demasiado teórico e acadêmico. Ainda, há forte poder da igreja católica e das evangélicas, o que dá algum valor ao debate no campo dos costumes. Saltar tudo isso com força e inovação não é fácil. Mas se existe um MPL hoje é porque muita gente, no passado, começou a desbravar campos desconhecidos. Tenha paciência, amigo. Abraços!</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/04/93811/#comment-221818</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 03 May 2014 23:23:14 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=93811#comment-221818</guid>

					<description><![CDATA[A extrema-direita anticapitalista formou-se no mundo germânico na transição do século XVIII para o século XIX, no que na história das ideias se chama o romantismo alemão. Eram anti-jacobinos e, portanto, anticapitalistas, mas distinguiam-se dos tradicionalistas e eram ideologicamente inovadores. Contra o pensamento abstracto e o domínio racionalista da natureza defendiam uma noção orgânica da totalidade e uma noção de relação com a natureza que antecipam certas ideias do multiculturalismo e da ecologia. Talvez esta relação fique mais clara na 2ª parte deste Manifesto, que será publicada amanhã, dia 4 de Maio.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A extrema-direita anticapitalista formou-se no mundo germânico na transição do século XVIII para o século XIX, no que na história das ideias se chama o romantismo alemão. Eram anti-jacobinos e, portanto, anticapitalistas, mas distinguiam-se dos tradicionalistas e eram ideologicamente inovadores. Contra o pensamento abstracto e o domínio racionalista da natureza defendiam uma noção orgânica da totalidade e uma noção de relação com a natureza que antecipam certas ideias do multiculturalismo e da ecologia. Talvez esta relação fique mais clara na 2ª parte deste Manifesto, que será publicada amanhã, dia 4 de Maio.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Jacó		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/04/93811/#comment-221777</link>

		<dc:creator><![CDATA[Jacó]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 03 May 2014 21:18:00 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=93811#comment-221777</guid>

					<description><![CDATA[Na parte 5, o autor parece seguir a mesma linha de raciocínio apresentada por Mises em &quot;A Mentalidade Anticapitalista&quot;. Neste livro, Mises argumenta que é a impossibilidade de ocupar os altos postos desejados, devido as suas baixas qualificações, que levam muitos a se situarem na esquerda. Eles buscariam, assim, pela luta política os postos que não conseguem com qualificações prévias. Segundo Mises, o ressentimento é um grande motor da esquerda. 

Na parte 2, o que seria uma extrema-direita anticapitalista? E quais os temas da extrema direita que passaram a ser veiculados pela esquerda antiestatista?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na parte 5, o autor parece seguir a mesma linha de raciocínio apresentada por Mises em &#8220;A Mentalidade Anticapitalista&#8221;. Neste livro, Mises argumenta que é a impossibilidade de ocupar os altos postos desejados, devido as suas baixas qualificações, que levam muitos a se situarem na esquerda. Eles buscariam, assim, pela luta política os postos que não conseguem com qualificações prévias. Segundo Mises, o ressentimento é um grande motor da esquerda. </p>
<p>Na parte 2, o que seria uma extrema-direita anticapitalista? E quais os temas da extrema direita que passaram a ser veiculados pela esquerda antiestatista?</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/04/93811/#comment-221570</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 03 May 2014 09:38:42 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=93811#comment-221570</guid>

					<description><![CDATA[Nordestino,
Antes de mais, note que eu me refiro ao longo deste Manifesto à situação mundial. Escrevi que «exceptuando em alguns — poucos — países da Europa ocidental e da América Latina, esta esquerda», ou seja, «a esquerda exterior às instituições estatais», «tem sido ignorada nas principais lutas sociais dos últimos anos». Entre as excepções, o Brasil é talvez a mais considerável, o que não significa que os anarquismos ortodoxos, do mesmo modo que os marxismos ortodoxos, estejam menos defuntos no Brasil do que nos outros lugares. Os Black Blocs constituem hoje o caso mais flagrante de confusão das teses anarquistas com «uma liberdade indeterminada», enquanto os estudantes que se consideram como anarco-ecologistas se caracterizam na verdade pela defesa do naturismo e do primitivismo tecnológico. Por seu lado, as organizações especificamente anarquistas, que procuram manter claramente definidas as suas fronteiras ideológicas, revelam-se incapazes de considerar o seu passado e as suas figuras de referência como algo que possa ainda ser animado por um novo sopro de vida. Para isso seria necessário analisar esse passado e essas figuras nas suas contradições, porque não existe vida sem contraditoriedade. Congelar um sistema de pensamento, qualquer que ele seja, é o meio mais seguro de transformar um ser vivo numa múmia. São as tais «relíquias». Sem disporem de uma vida própria, estes grupos especificamente anarquistas procuram encostar-se aos movimentos sociais para ver se navegam na crista da onda. Ao &lt;em&gt;entrismo&lt;/em&gt; trotskista somou-se o &lt;em&gt;entrismo&lt;/em&gt; anarquista. Foi assim que ficaram de boca calada quando mais se acentuou a burocratização do MST ou, pior ainda, vieram a pública declarar que essa burocratização não ocorria — ao mesmo tempo que se queixavam dela em privado. Por vezes caem-me sob os olhos textos destes grupos em que se defende a soberania alimentar e fico sem saber se hei-de rir ou chorar ao ver esta nova modalidade de anarco-nacionalismo. E depois indignam-se quando eu analiso processos comparáveis na génese do fascismo, por exemplo &lt;a href=&quot;http://passapalavra.info/2014/03/92831&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;. O caso do Movimento Passe Livre é muito diferente, porque não se trata de um movimento especificamente anarquista, e é só a estes que eu me refiro no § 4.b deste Manifesto. O MPL situa-se no cruzamento de diversas ínfluências e inspirações e, se o anarquismo é uma delas, o marxismo é outra e o multiculturalismo outra ainda, como pode sê-lo também o feminismo. É precisamente por não ser especificamente anarquista que o MPL é geralmente caracterizado como &lt;em&gt;libertário&lt;/em&gt;.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nordestino,<br />
Antes de mais, note que eu me refiro ao longo deste Manifesto à situação mundial. Escrevi que «exceptuando em alguns — poucos — países da Europa ocidental e da América Latina, esta esquerda», ou seja, «a esquerda exterior às instituições estatais», «tem sido ignorada nas principais lutas sociais dos últimos anos». Entre as excepções, o Brasil é talvez a mais considerável, o que não significa que os anarquismos ortodoxos, do mesmo modo que os marxismos ortodoxos, estejam menos defuntos no Brasil do que nos outros lugares. Os Black Blocs constituem hoje o caso mais flagrante de confusão das teses anarquistas com «uma liberdade indeterminada», enquanto os estudantes que se consideram como anarco-ecologistas se caracterizam na verdade pela defesa do naturismo e do primitivismo tecnológico. Por seu lado, as organizações especificamente anarquistas, que procuram manter claramente definidas as suas fronteiras ideológicas, revelam-se incapazes de considerar o seu passado e as suas figuras de referência como algo que possa ainda ser animado por um novo sopro de vida. Para isso seria necessário analisar esse passado e essas figuras nas suas contradições, porque não existe vida sem contraditoriedade. Congelar um sistema de pensamento, qualquer que ele seja, é o meio mais seguro de transformar um ser vivo numa múmia. São as tais «relíquias». Sem disporem de uma vida própria, estes grupos especificamente anarquistas procuram encostar-se aos movimentos sociais para ver se navegam na crista da onda. Ao <em>entrismo</em> trotskista somou-se o <em>entrismo</em> anarquista. Foi assim que ficaram de boca calada quando mais se acentuou a burocratização do MST ou, pior ainda, vieram a pública declarar que essa burocratização não ocorria — ao mesmo tempo que se queixavam dela em privado. Por vezes caem-me sob os olhos textos destes grupos em que se defende a soberania alimentar e fico sem saber se hei-de rir ou chorar ao ver esta nova modalidade de anarco-nacionalismo. E depois indignam-se quando eu analiso processos comparáveis na génese do fascismo, por exemplo <a href="http://passapalavra.info/2014/03/92831" rel="nofollow">aqui</a>. O caso do Movimento Passe Livre é muito diferente, porque não se trata de um movimento especificamente anarquista, e é só a estes que eu me refiro no § 4.b deste Manifesto. O MPL situa-se no cruzamento de diversas ínfluências e inspirações e, se o anarquismo é uma delas, o marxismo é outra e o multiculturalismo outra ainda, como pode sê-lo também o feminismo. É precisamente por não ser especificamente anarquista que o MPL é geralmente caracterizado como <em>libertário</em>.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Nordestino		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/04/93811/#comment-221407</link>

		<dc:creator><![CDATA[Nordestino]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 May 2014 23:24:04 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=93811#comment-221407</guid>

					<description><![CDATA[Professor,

Muito instigante seu texto. Gostaria que comentasse um pouco mais sobre o &#039;ponto b: O anarquismo pereceu em virtude de um duplo processo, repetido ao longo do tempo: a dissolução que o atinge quando se confunde com uma liberdade indeterminada ou com um naturismo primitivista e o congelamento que o imobiliza num museu de relíquias veneradas e indiscutidas.&#039;

Confesso que não compreendi a referência a relíquias veneradas e indiscutidas.
Considero esse ponto relevante diante do cenário nacional em que os setores mais combativos e mais afinados com a juventude pobre nas últimas manifestações remetia a anarquistas e ao MPL (movimento com tendências libertárias).

Abraço.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Professor,</p>
<p>Muito instigante seu texto. Gostaria que comentasse um pouco mais sobre o &#8216;ponto b: O anarquismo pereceu em virtude de um duplo processo, repetido ao longo do tempo: a dissolução que o atinge quando se confunde com uma liberdade indeterminada ou com um naturismo primitivista e o congelamento que o imobiliza num museu de relíquias veneradas e indiscutidas.&#8217;</p>
<p>Confesso que não compreendi a referência a relíquias veneradas e indiscutidas.<br />
Considero esse ponto relevante diante do cenário nacional em que os setores mais combativos e mais afinados com a juventude pobre nas últimas manifestações remetia a anarquistas e ao MPL (movimento com tendências libertárias).</p>
<p>Abraço.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Marcelo Lopes de Souza		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/04/93811/#comment-220444</link>

		<dc:creator><![CDATA[Marcelo Lopes de Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Apr 2014 12:58:19 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=93811#comment-220444</guid>

					<description><![CDATA[Caro João,

Me permita ser chato e voltar àqueles dois pontos que levantei, pois o que eu disse foi parcialmente tomado por você, em sua resposta, em um sentido ligeiramente diferente do que o que está no que eu realmente escrevi.

A propósito da segunda questão (você começou por ela, então também iniciarei por aqui), note que, quando eu escrevi que “(...) o caráter contraditório e os problemas da própria obra de Marx (nos termos expostos e discutidos por você mesmo em várias de suas obras) desempenh[aram], ainda que indiretamente, um papel nos problemas que o marxismo viria a enfrentar, no século XX”, não se deve deixar de lado o fato de que, ao acrescentar “ainda que indiretamente”, eu não estou, por conseguinte, dando a entender que a Revolução Russa teria saído “das páginas de O Capital como Palas Atena da cabeça de Zeus”. Longe de mim sugerir qualquer coisa como uma relação linear no estilo “Marx-bolchevismo-Stalin”. Quanto ao fato de “todos sermos contraditórios”, é claro que eu me referia ao tipo de “tensão essencial” que fez friccionar a herança do “Marx das forças produtivas” com a herança do “Marx das relações sociais de produção”, ou ainda o “Marx libertário” de “A Guerra Civil na França” e o “Marx autoritário” e “centralista” (no sentido tradicionalmente atribuído aos anarquistas a estes termos). Seria razoável sugerir que a veia autoritário-centralista de Marx, entre outros problemas, não alimentou, de modo complexo e seletivo, os usos históricos efetivos que foram feitos e que desembocaram no bolchevismo, finalmente triunfante ao esmagar as oposições e impor as regras do jogo pós-revolucionárias? Não se trata, sem dúvida, de ignorar os fatores que levaram à ascensão do bolchevismo, mas sim de acreditar que, pelo fato de que houve também leituras antiautoritárias de Marx (Pannekoek, Korsch e outros tantos), não é o caso, por isso, de considerar o outro aspecto: a interpretação/apropriação “ortodoxa” e “autoritária” bebeu na mesma fonte.  

A respeito da segunda questão, também o que eu realmente escrevi e tentei dizer foi algo distinto do que você deu a entender em sua resposta. O que eu perguntei foi: “(...) não representam eles [certos movimentos contemporâneos], muitas vezes, esforços significativos para, nas condições de hoje, reler e reinterpretar, justamente, o legado das duas supramencionadas correntes?…” Com isso, não estou, salvo engano da minha parte, dando a entender que o movimento dos neozapatistas (e outros tantos movimentos) possa “considerar-se uma corrente do marxismo, como não é uma corrente do anarquismo”, como você diz  -  e no que eu concordo inteiramente. Veja, inclusive, que eu, logo em seguida, faço referência aos “hibridismos teórico-conceituais e políticos que vêm sendo produzidos em meio ou no contato com esses movimentos”. Não se trata, assim, de imaginar que os neozapatistas poderiam ser redutíveis ao marxismo ou ao anarquismo, e nem mesmo a uma simples “salada” de ambas as correntes, mas de (e aí volto às minhas palavras) “esforços significativos para, nas condições de hoje, reler e reinterpretar” o legado daquelas correntes. Quando observamos tanto a produção textual (declarações, comunicados, textos de análise etc.) quanto as referências e homenagens simbólicas (como, por exemplo, a Flores Magón), percebe-se que elementos do legado marxista (sobretudo no uso de certos conceitos, nas referências e no estilo de certas análises críticas) se fazem presentes, recontextualizados; quanto ao anarquismo, talvez se faça presente, sobretudo, como uma espécie de “sombra”, pelo fato de que vários princípios zapatistas são, efetivamente, libertários em seu ânimo (no entanto, e a despeito de a obra e a vida de Ricardo Flores Magón serem tidas em elevada conta pelos neozapatistas, eu jamais sugeriria algo como uma forte e direta influência do anarquismo). A questão, no entanto, é que, em vários dos movimentos da atualidade ou do passado muito recente (“Autonomen”, “autónomos”, parte dos “piqueteros” argentinos, “Occupy”, neozapatistas...), percebem-se mesclas (aliás, variáveis de acordo com o movimento, o país e o momento) entre elementos teóricos e práticos marxistas e anarquistas (ou libertários, mais amplamente). Poder-se-ia, talvez, considerar que tudo isso é muito pouco promissor ou relevante (eu não penso assim), assim como seria possível acreditar que os “hibridismos” atuais, que tanto exasperam ou, pelo menos, confundem marxistas e anarquistas ortodoxos, são antes parte do problema que da solução (eu tampouco penso assim, mas aqui se fazem necessárias outras considerações, que deixarei de lado). Porém, os “hibridismos” são uma coisa; a ausência de referências e diálogos com as tradições marxista e libertária, outra... Provavelmente estamos caminhando a passos largos, já há décadas, para uma situação em que cada vez menos poderíamos falar de uma presença significativa, nas lutas sociais, do marxismo e do anarquismo históricos enquanto tais. Mas que a presença de elementos de seus respectivos legados  -  de um modo transformado, recontextualizado, às vezes “descaracterizado” e, não raro, “diluído”  -  continua a se fazer sentir (e muito provavelmente continuará a se fazer sentir ainda por um bom tempo), isso me parece um fato (e, quanto ao futuro próximo, algo mais que plausível). Contudo, será que estamos, em meio às confusões e armadilhas de hoje, mais próximos de uma sinergia que permita novas sínteses teóricas e expressivas rearticulações práticas das lutas anticapitalistas? Gostaria de acreditar, mas não consigo ser muito otimista.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro João,</p>
<p>Me permita ser chato e voltar àqueles dois pontos que levantei, pois o que eu disse foi parcialmente tomado por você, em sua resposta, em um sentido ligeiramente diferente do que o que está no que eu realmente escrevi.</p>
<p>A propósito da segunda questão (você começou por ela, então também iniciarei por aqui), note que, quando eu escrevi que “(&#8230;) o caráter contraditório e os problemas da própria obra de Marx (nos termos expostos e discutidos por você mesmo em várias de suas obras) desempenh[aram], ainda que indiretamente, um papel nos problemas que o marxismo viria a enfrentar, no século XX”, não se deve deixar de lado o fato de que, ao acrescentar “ainda que indiretamente”, eu não estou, por conseguinte, dando a entender que a Revolução Russa teria saído “das páginas de O Capital como Palas Atena da cabeça de Zeus”. Longe de mim sugerir qualquer coisa como uma relação linear no estilo “Marx-bolchevismo-Stalin”. Quanto ao fato de “todos sermos contraditórios”, é claro que eu me referia ao tipo de “tensão essencial” que fez friccionar a herança do “Marx das forças produtivas” com a herança do “Marx das relações sociais de produção”, ou ainda o “Marx libertário” de “A Guerra Civil na França” e o “Marx autoritário” e “centralista” (no sentido tradicionalmente atribuído aos anarquistas a estes termos). Seria razoável sugerir que a veia autoritário-centralista de Marx, entre outros problemas, não alimentou, de modo complexo e seletivo, os usos históricos efetivos que foram feitos e que desembocaram no bolchevismo, finalmente triunfante ao esmagar as oposições e impor as regras do jogo pós-revolucionárias? Não se trata, sem dúvida, de ignorar os fatores que levaram à ascensão do bolchevismo, mas sim de acreditar que, pelo fato de que houve também leituras antiautoritárias de Marx (Pannekoek, Korsch e outros tantos), não é o caso, por isso, de considerar o outro aspecto: a interpretação/apropriação “ortodoxa” e “autoritária” bebeu na mesma fonte.  </p>
<p>A respeito da segunda questão, também o que eu realmente escrevi e tentei dizer foi algo distinto do que você deu a entender em sua resposta. O que eu perguntei foi: “(&#8230;) não representam eles [certos movimentos contemporâneos], muitas vezes, esforços significativos para, nas condições de hoje, reler e reinterpretar, justamente, o legado das duas supramencionadas correntes?…” Com isso, não estou, salvo engano da minha parte, dando a entender que o movimento dos neozapatistas (e outros tantos movimentos) possa “considerar-se uma corrente do marxismo, como não é uma corrente do anarquismo”, como você diz  &#8211;  e no que eu concordo inteiramente. Veja, inclusive, que eu, logo em seguida, faço referência aos “hibridismos teórico-conceituais e políticos que vêm sendo produzidos em meio ou no contato com esses movimentos”. Não se trata, assim, de imaginar que os neozapatistas poderiam ser redutíveis ao marxismo ou ao anarquismo, e nem mesmo a uma simples “salada” de ambas as correntes, mas de (e aí volto às minhas palavras) “esforços significativos para, nas condições de hoje, reler e reinterpretar” o legado daquelas correntes. Quando observamos tanto a produção textual (declarações, comunicados, textos de análise etc.) quanto as referências e homenagens simbólicas (como, por exemplo, a Flores Magón), percebe-se que elementos do legado marxista (sobretudo no uso de certos conceitos, nas referências e no estilo de certas análises críticas) se fazem presentes, recontextualizados; quanto ao anarquismo, talvez se faça presente, sobretudo, como uma espécie de “sombra”, pelo fato de que vários princípios zapatistas são, efetivamente, libertários em seu ânimo (no entanto, e a despeito de a obra e a vida de Ricardo Flores Magón serem tidas em elevada conta pelos neozapatistas, eu jamais sugeriria algo como uma forte e direta influência do anarquismo). A questão, no entanto, é que, em vários dos movimentos da atualidade ou do passado muito recente (“Autonomen”, “autónomos”, parte dos “piqueteros” argentinos, “Occupy”, neozapatistas&#8230;), percebem-se mesclas (aliás, variáveis de acordo com o movimento, o país e o momento) entre elementos teóricos e práticos marxistas e anarquistas (ou libertários, mais amplamente). Poder-se-ia, talvez, considerar que tudo isso é muito pouco promissor ou relevante (eu não penso assim), assim como seria possível acreditar que os “hibridismos” atuais, que tanto exasperam ou, pelo menos, confundem marxistas e anarquistas ortodoxos, são antes parte do problema que da solução (eu tampouco penso assim, mas aqui se fazem necessárias outras considerações, que deixarei de lado). Porém, os “hibridismos” são uma coisa; a ausência de referências e diálogos com as tradições marxista e libertária, outra&#8230; Provavelmente estamos caminhando a passos largos, já há décadas, para uma situação em que cada vez menos poderíamos falar de uma presença significativa, nas lutas sociais, do marxismo e do anarquismo históricos enquanto tais. Mas que a presença de elementos de seus respectivos legados  &#8211;  de um modo transformado, recontextualizado, às vezes “descaracterizado” e, não raro, “diluído”  &#8211;  continua a se fazer sentir (e muito provavelmente continuará a se fazer sentir ainda por um bom tempo), isso me parece um fato (e, quanto ao futuro próximo, algo mais que plausível). Contudo, será que estamos, em meio às confusões e armadilhas de hoje, mais próximos de uma sinergia que permita novas sínteses teóricas e expressivas rearticulações práticas das lutas anticapitalistas? Gostaria de acreditar, mas não consigo ser muito otimista.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/04/93811/#comment-220173</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Apr 2014 21:20:08 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=93811#comment-220173</guid>

					<description><![CDATA[Marcelo,
Não há ninguém que não seja contraditório, os escritores incluídos e nós mesmos também. A contraditoriedade, &lt;em&gt;c’est le lot des humains&lt;/em&gt;. Quando estudo um autor procuro desvendar a teia das suas contradições até atingir o que chamo o ponto vazio, aquela contradição central que, na minha opinião, todo o resto do pensamento se destina a encobrir aos olhos do próprio e, já agora, aos olhos dos outros também. É este o sentido do meu estruturalismo, desvendar como um certo ponto vazio determina a estrutura construída em seu redor. Foi o que tentei fazer no &lt;em&gt;Marx Crítico de Marx&lt;/em&gt;, mas só relativamente a &lt;em&gt;O Capital&lt;/em&gt;. Depois, procurei analisar a contradição entre o internacionalismo de Marx e de Engels e o seu nacionalismo germanista e antieslavo, mas sem conseguir aqui penetrar no âmago da contradição.
Por isso não creio que o carácter contraditório do sistema ideológico de Marx seja mais significativo do que o carácter contraditório do sistema ideológico de qualquer outra pessoa. A revolução russa de 1917-1918 não saiu das páginas de &lt;em&gt;O Capital&lt;/em&gt; como Palas Atena da cabeça de Zeus. Resultou de várias componentes políticas e sociais e inscreveu-se numa luta social pan-europeia, cuja derrota explica a evolução nacionalista da revolução russa e a concomitante hegemonia alcançada pelo Partido Bolchevista. Convém não esquecer que o mesmo Marx que serviu de referência à burocratização da revolução russa serviu também de referência à extrema-esquerda que lutou contra essa burocratização.
Mas esta foi a sua segunda questão. Quanto à primeira, note que eu escrevi que «exceptuando em alguns — poucos — países da Europa ocidental e da América Latina» a esquerda exterior às instituições estatais «tem sido ignorada nas principais lutas sociais dos últimos anos». Ora, Chiapas está na América Latina e poderia contar-se entre as tais excepções. No entanto, e mesmo tendo em conta que houve uma forte componente maoísta na origem do neozapatismo, não me parece que este movimento possa considerar-se uma corrente do marxismo, como não é uma corrente do anarquismo, os dois sistemas ideológicos a que me refiro na passagem que você destaca. Mas o principal problema aqui é outro. Apesar da simpatia que tenho pelos zapatistas de Chiapas, eles só tiveram um papel relevante há vários anos atrás, quando pareciam fornecer um modelo ou pelo menos uma inspiração. Não mais. No México deixaram de ter um papel relevante nas lutas sociais ou mesmo na vida política e foram postos de lado no resto da América Latina. Basta atentar na evolução daqueles que seriam os seus naturais apoiantes, a Via Campesina e o MST, convertido numa burocracia empresarial. Bem sei que há pessoas que vão todos os anos a Chiapas respirar o ar da revolução, mas também as há que vão a Lourdes e a Fátima, e olhe que estas são muitas mais, e não é por isso que o catolicismo conta hoje como um factor vital.
Assim, as frases que você me coloca como interrogação constituem o que eu tenho a dar-lhe como resposta: «o legado conjunto do marxismo e do anarquismo se acha basicamente restrito a uma espécie de exercício de necrofilia intelectual praticada no âmbito da megamáquina acadêmica burocratizada da atualidade».]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Marcelo,<br />
Não há ninguém que não seja contraditório, os escritores incluídos e nós mesmos também. A contraditoriedade, <em>c’est le lot des humains</em>. Quando estudo um autor procuro desvendar a teia das suas contradições até atingir o que chamo o ponto vazio, aquela contradição central que, na minha opinião, todo o resto do pensamento se destina a encobrir aos olhos do próprio e, já agora, aos olhos dos outros também. É este o sentido do meu estruturalismo, desvendar como um certo ponto vazio determina a estrutura construída em seu redor. Foi o que tentei fazer no <em>Marx Crítico de Marx</em>, mas só relativamente a <em>O Capital</em>. Depois, procurei analisar a contradição entre o internacionalismo de Marx e de Engels e o seu nacionalismo germanista e antieslavo, mas sem conseguir aqui penetrar no âmago da contradição.<br />
Por isso não creio que o carácter contraditório do sistema ideológico de Marx seja mais significativo do que o carácter contraditório do sistema ideológico de qualquer outra pessoa. A revolução russa de 1917-1918 não saiu das páginas de <em>O Capital</em> como Palas Atena da cabeça de Zeus. Resultou de várias componentes políticas e sociais e inscreveu-se numa luta social pan-europeia, cuja derrota explica a evolução nacionalista da revolução russa e a concomitante hegemonia alcançada pelo Partido Bolchevista. Convém não esquecer que o mesmo Marx que serviu de referência à burocratização da revolução russa serviu também de referência à extrema-esquerda que lutou contra essa burocratização.<br />
Mas esta foi a sua segunda questão. Quanto à primeira, note que eu escrevi que «exceptuando em alguns — poucos — países da Europa ocidental e da América Latina» a esquerda exterior às instituições estatais «tem sido ignorada nas principais lutas sociais dos últimos anos». Ora, Chiapas está na América Latina e poderia contar-se entre as tais excepções. No entanto, e mesmo tendo em conta que houve uma forte componente maoísta na origem do neozapatismo, não me parece que este movimento possa considerar-se uma corrente do marxismo, como não é uma corrente do anarquismo, os dois sistemas ideológicos a que me refiro na passagem que você destaca. Mas o principal problema aqui é outro. Apesar da simpatia que tenho pelos zapatistas de Chiapas, eles só tiveram um papel relevante há vários anos atrás, quando pareciam fornecer um modelo ou pelo menos uma inspiração. Não mais. No México deixaram de ter um papel relevante nas lutas sociais ou mesmo na vida política e foram postos de lado no resto da América Latina. Basta atentar na evolução daqueles que seriam os seus naturais apoiantes, a Via Campesina e o MST, convertido numa burocracia empresarial. Bem sei que há pessoas que vão todos os anos a Chiapas respirar o ar da revolução, mas também as há que vão a Lourdes e a Fátima, e olhe que estas são muitas mais, e não é por isso que o catolicismo conta hoje como um factor vital.<br />
Assim, as frases que você me coloca como interrogação constituem o que eu tenho a dar-lhe como resposta: «o legado conjunto do marxismo e do anarquismo se acha basicamente restrito a uma espécie de exercício de necrofilia intelectual praticada no âmbito da megamáquina acadêmica burocratizada da atualidade».</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
	</channel>
</rss>
