<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	
	>
<channel>
	<title>
	Comentários sobre: Autonomia x reformismo	</title>
	<atom:link href="https://passapalavra.info/2014/04/94699/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://passapalavra.info/2014/04/94699/</link>
	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
	<lastBuildDate>Wed, 01 May 2024 21:12:40 +0000</lastBuildDate>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9</generator>
	<item>
		<title>
		Por: Fagner Enrique		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/04/94699/#comment-221663</link>

		<dc:creator><![CDATA[Fagner Enrique]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 03 May 2014 14:36:18 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=94699#comment-221663</guid>

					<description><![CDATA[Caro Marcelo Lopes de Souza,

o artigo acima é um texto de polêmica, pensado para responder a certas críticas de certas pessoas. E mais: pensado para criticar certas práticas. Algumas pessoas pensam que a revolução começa quando o “povo” “toma as ruas” e parte para a “ação direta” (entendida atualmente como ações violentas) ou para “ações combativas” etc. – todos querem agora, depois de junho do ano passado, se apropriar de certas imagens, de resistência e radicalismo. E que ela termina quando o “povo”, que “tomou as ruas” e partiu para a “ação direta” ou para “ações combativas” etc., dirigido agora pela vanguarda revolucionária da vez, conscientizado pelos jornaizinhos do partido x ou do movimento y distribuídos na última manifestação “combativa”, toma de assalto o poder de Estado (no caso de certos marxistas-leninistas) ou milagrosamente faz ruir todo o edifício do Estado (no caso de certos anarquistas). Eu tendo a discordar. Pode até ser que a revolução comece com uma jornada de manifestações populares, mas certamente ela não vai terminar como querem que ela termine o tipo de gente acima mencionado (e, se vai, não será certamente uma revolução vitoriosa dos trabalhadores). Acontece que o tipo de gente acima mencionado pretende que a condição para a vitória de uma revolução – ou mesmo de uma jornada de lutas não necessariamente revolucionárias – é a direção dos trabalhadores em luta por uma vanguarda de pessoas esclarecidas e que já demonstraram a que vieram na luta. Isso quando não pretendem que os trabalhadores, diante de “ações combativas” ou “diretas”, tendam de imediato a deixar de fazer o que estão fazendo e a correr para as barricadas (ou para as trincheiras, no caso dos mais afobados)! E isso tudo falando apenas da extrema-esquerda, deixando de lado a esquerda instalada no poder. Enfim, por ser um texto de polêmica, acabei optando por não entrar nessa seara da definição conceitual a partir das origens e das influências, das diferentes interpretações do termo etc. Não sei se isso constitui uma fragilidade no meu artigo. Acho que é um debate muito importante, mas, tendo em vista a finalidade do artigo, acabei me esquivando dele. Preferi tentar definir a autonomia enquanto prática mesmo, uma prática que eu considero a única capaz de viabilizar a revolução dos trabalhadores: o estímulo a que os trabalhadores em geral assumam a condução prática e intelectual das lutas em geral. Por fim, talvez tivesse sido adequado evocar exemplos concretos de autogestão das lutas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Marcelo Lopes de Souza,</p>
<p>o artigo acima é um texto de polêmica, pensado para responder a certas críticas de certas pessoas. E mais: pensado para criticar certas práticas. Algumas pessoas pensam que a revolução começa quando o “povo” “toma as ruas” e parte para a “ação direta” (entendida atualmente como ações violentas) ou para “ações combativas” etc. – todos querem agora, depois de junho do ano passado, se apropriar de certas imagens, de resistência e radicalismo. E que ela termina quando o “povo”, que “tomou as ruas” e partiu para a “ação direta” ou para “ações combativas” etc., dirigido agora pela vanguarda revolucionária da vez, conscientizado pelos jornaizinhos do partido x ou do movimento y distribuídos na última manifestação “combativa”, toma de assalto o poder de Estado (no caso de certos marxistas-leninistas) ou milagrosamente faz ruir todo o edifício do Estado (no caso de certos anarquistas). Eu tendo a discordar. Pode até ser que a revolução comece com uma jornada de manifestações populares, mas certamente ela não vai terminar como querem que ela termine o tipo de gente acima mencionado (e, se vai, não será certamente uma revolução vitoriosa dos trabalhadores). Acontece que o tipo de gente acima mencionado pretende que a condição para a vitória de uma revolução – ou mesmo de uma jornada de lutas não necessariamente revolucionárias – é a direção dos trabalhadores em luta por uma vanguarda de pessoas esclarecidas e que já demonstraram a que vieram na luta. Isso quando não pretendem que os trabalhadores, diante de “ações combativas” ou “diretas”, tendam de imediato a deixar de fazer o que estão fazendo e a correr para as barricadas (ou para as trincheiras, no caso dos mais afobados)! E isso tudo falando apenas da extrema-esquerda, deixando de lado a esquerda instalada no poder. Enfim, por ser um texto de polêmica, acabei optando por não entrar nessa seara da definição conceitual a partir das origens e das influências, das diferentes interpretações do termo etc. Não sei se isso constitui uma fragilidade no meu artigo. Acho que é um debate muito importante, mas, tendo em vista a finalidade do artigo, acabei me esquivando dele. Preferi tentar definir a autonomia enquanto prática mesmo, uma prática que eu considero a única capaz de viabilizar a revolução dos trabalhadores: o estímulo a que os trabalhadores em geral assumam a condução prática e intelectual das lutas em geral. Por fim, talvez tivesse sido adequado evocar exemplos concretos de autogestão das lutas.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Fagner Enrique		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/04/94699/#comment-220272</link>

		<dc:creator><![CDATA[Fagner Enrique]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Apr 2014 03:06:19 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=94699#comment-220272</guid>

					<description><![CDATA[Resolvi reproduzir integralmente aqui alguns comentários suscitados pelo artigo acima no Facebook:

Rafael Saddi - Fagner Enrique, parabéns pelo texto. Mas, tenho algumas preocupações. Me centrarei em três delas. Primeiro, a própria noção de “correlação de forças favorável”. Não estaria aí um risco de etapismo incapaz de dar conta da diversidade da própria classe trabalhadora? Isto é, em um momento de pouco acúmulo de forças, ainda haverá setores dispostos à radicalização. Quem não se posiciona em sua defesa e em seu estímulo, não tende a querer freia-la, criticá-la, pois não é o momento, pois aí será só uma vanguarda de trabalhadores, etc. etc? Isso não é uma armadilha do reformismo? Em segundo lugar, este trecho: &quot;O projeto político da autonomia é, por isso, o único projeto verdadeiramente radical e verdadeiramente revolucionário, o único capaz de responder positivamente aos problemas cotidianos dos trabalhadores e de não criar obstáculos para que eles possam dar origem a relações sociais de novo tipo: verdadeiramente comunistas&quot;. Não se encontra aí uma estrutura de pensamento bastante pretensiosa e autoritária? Ao menos, podemos dizer que, se mudarmos os termos substantivos e mantermos o restante, não haverá muita diferença com o discurso religioso. Por último, não compreendo a crítica ao bakuninismo, se esta defesa da autonomia, da autogestão e o combate à divisão entre dirigentes e dirigidos foi formulada pelo próprio Bakunin. Trata-se de uma crítica aos que se denominam bakuninistas e não necessariamente ao bakuninismo? Enfim, só alguns questionamentos sinceros para a reflexão. Um grande abraço.
há 5 horas · Editado · Curtir (desfazer) · 1

Fagner Enrique - Rafael, eu parto do pressuposto de que a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores. A classe trabalhadora é sim muito heterogênea. Afinal, ela é hoje composta por milhões e milhões de trabalhadores. E mais: ela é global, internacional. A luta que levará à emancipação da classe trabalhadora só poderá ser vitoriosa, portanto, se uma quantidade cada vez maior de trabalhadores se engajar nessa luta: uma luta de massa. A meu ver, a única maneira de se massificar atualmente a luta anticapitalista, de modo que o capitalismo possa ser derrubado e de modo que ele não seja substituído por outro sistema social também fundamentado na opressão e na exploração, é massificando a autogestão das lutas dos trabalhadores. E é isso que significa para mim obter uma &quot;correlação de forças favorável&quot; à classe trabalhadora. Não há etapismo no meu pensamento. A meu ver, os trabalhadores que gerem eles mesmos a sua luta são já uma vanguarda que está já colocando em prática relações sociais de novo tipo: coletivistas e igualitárias. O importante é generalizar, difundir a prática que anuncia relações sociais de novo tipo. Quando eu falei em &quot;correlação de forças favorável&quot;, quis dizer que, para que os próprios trabalhadores possam passar de reivindicações menos radicais para reivindicações mais radicais (que atingem os problemas em sua raiz), um número cada vez maior de trabalhadores precisa estar engajado na luta. Por exemplo: as lutas contra o aumento da tarifa do ano passado colocaram em movimento uma quantidade de trabalhadores que ultrapassa o limite dos movimentos que organizaram e convocaram as manifestações em todo o Brasil. Muitos trabalhadores assumiram uma postura mais combativa, o que é essencial (observe-se as revoltas nos terminais em Goiânia). Mas mesmo assim é muito pouco. Não é algo que tem comprometido definitivamente o poder de Estado, a soberania do Estado e a soberania das empresas. Por quê? Porque tanto o Estado quanto as empresas, que foram colocados em xeque no ano passado, têm se reorganizado e colaborado de modo mais eficaz para virar o jogo. O importante é estimular os trabalhadores que têm assumido uma postura mais combativa a organizarem-se, debaterem os problemas a serem enfrentados, tentarem perceber as movimentações e as armadilhas postas pelo inimigo, pois caso contrário o jogo será virado definitivamente. A meu ver, estimular a organização dos trabalhadores para o enfrentamento ao Estado e às empresas, nos locais de moradia, nos locais de estudo, nos locais de trabalho, nos locais de trânsito, é a resposta a ser dada agora, sem perder de vista a necessidade de atos radicalizados pontuais, que servem para mostrar ao inimigo que o seu adversário ainda está de pé.

Quando eu digo que o projeto político da autonomia é o único capaz de responder positivamente aos problemas cotidianos dos trabalhadores e de não criar obstáculos para que eles possam dar origem a relações sociais de novo tipo, não há pretensão alguma e nem autoritarismo ou fanatismo religioso. E isso se deve ao fato de que, quando eu falo em &quot;projeto político da autonomia&quot; eu estou simplesmente me referindo à defesa da prática da autogestão das lutas e não a algum teórico ou a alguma corrente teórica ou coisa do tipo. Eu estou me referindo à prática de constituição de núcleos de estudo, debate e luta por melhorias importantes para os trabalhadores, o que significa estimular a auto-organização dos trabalhadores e combater a sua organização pelas classes capitalistas (o nome que se dá a esses núcleos -- se são &quot;movimentos&quot;, &quot;sindicatos&quot;, &quot;cooperativas&quot;, &quot;associações&quot;, &quot;comunas&quot;, &quot;conselhos&quot;, &quot;comitês&quot; etc. -- pouco importa). E aí, para mim, o importante é que o referencial teórico que embasa o estudo da realidade concreta seja plural, isto é, o importante é que se busque referências no marxismo, no anarquismo etc. E mais: que esse referencial teórico não se converta em dogma. É por isso que, na verdade, eu não critiquei o bakuninismo e nem o marxismo. Eu simplesmente afirmei que as respostas para os problemas que vão surgindo no dia-a-dia não está pronta e acabada nas obras de Bakunin e nem nas de Marx -- que foram escritas no século XIX. A resposta tem que ser buscada pelos próprios lutadores e é importante que os lutadores que estudam a realidade para transformá-la sejam os próprios trabalhadores em luta (isso não significa que, para mim, os intelectuais profissionais são irrelevantes; pelo contrário, o papel que eles podem desempenhar está bem definido no texto). Tanto os bakuninismo quanto o marxismo tem importantes contribuições a fazer, a meu ver. Portanto, quando eu defendo a autonomia -- enquanto um &quot;projeto&quot; -- eu defendo a autonomia enquanto práticas que têm sido defendidas tanto por anarquistas quanto por marxistas e quanto por pessoas que não são nem uma coisa nem outra. Eu defendo as lutas autogeridas, nas quais se rompe com a noção de dirigentes + teóricos / militantes. Todo militante tem que ser um dirigente, assim não há dirigentes -- enquanto uma camada privilegiada que dá ordens. E todo militante tem que ser um teórico, assim não há teóricos -- enquanto uma elite portadora da verdade, da ciência revolucionária, que aponta as alternativas ou a alternativa aos dirigentes. Cada trabalhador tem que poder co-gerir, em conjunto com os demais trabalhadores, pelo menos um aspecto da sua própria vida: a luta, a qual não vai a lugar algum se ela não é também pensada. Então cada trabalhador precisa poder participar da condução da luta e do ato de se pensar a luta.

Outro grande abraço.
há 4 horas · Curtir · 3

Rafael Saddi - Opa, então assim, sim!
há 4 horas · Curtir (desfazer) · 1

Rafael Saddi - Perfeito Fagner Enrique, concordo com tudo o que colocou acima. Gostei muito do texto anterior (balanço) que fez com o Jules Grouxo Maigret e com a Karina Oliveira. Pra tirar todas as dúvidas, tem só uma coisa que me incomodou naquele texto e que reaparece neste seu. Entendo a crítica ao fetischismo da ação direta (leia-se aqui ação direta em seu sentido alterado, pois ação direta era entendida como ação direta popular da classe trabalhadora e não como um grupo, ao mesmo tempo, como uma ação sem intermediários - tais como greve, ocupação, etc. Não necessariamente quebrar ou incendiar algo). Por fetischismo estou chamando aqui o fato de tornar a ação violenta como um fim em si mesmo. Mas, por outro lado, vocês não acham que talvez, no texto anterior e talvez neste também, exista um menosprezo do papel deste tipo de ação na própria consciência da classe trabalhadora? Veja, enquanto muitos negam a ação, outros também se inspiram. Eu cansei de presenciar trabalhadores ao assistirem a televisão vibrarem com as ações violentas provocadas pelas primeiras manifestações do ano passado (antes de junho). No seu comentário acima, você parece concordar com isso. Concorda? Enfim, isso em nenhum momento nega a importância do trabalho de base. Ao contrário, anda junto. Ao mesmo tempo, não penso que se possa ignorar a importância do efeito estético na luta. A forma e o conteúdo não se separam. Uma forma tradicional e autoritária engendra o mesmo conteúdo e vice-versa. O que acha?
há 4 horas · Editado · Curtir (desfazer) · 1

Rodrigo Araújo - Pena essa troca de comentários ficar restrito aos círculos sociais dos que aqui se envolveram no assunto (curtindo ou comentando). Acredito que seria muito útil e proveitoso se fossem publicados no site, pois lá um número maior de pessoas poderia ler, refletir e eventualmente se envolver no debate. abraços
há 4 horas · Curtir (desfazer) · 2

Alexandre De Paula Meirelles - Muito bom o texto e concordo plenamente a participação total em todos os campos da luta e da organização, rompe com a ideia Capitalista iniciada no século XX de uma Sociedade das organizações fragmentada de conhecimento fragmentado e participações fragmentadas que favorecem a existência dos Gestores, Managers etc. O trabalhador ao longo da história sempre mostrou a capacidade inclusive de organizar os processos produtivos muito melhor que os capitalistas na medida em que em poucas experiências Históricas aboliram as hierarquias e a mais-valia. Parabéns pelo texto Fagner Enrique.
há 4 horas · Curtir (desfazer) · 2

Fagner Enrique - Rafael, eu não sou contra a ação direta nesse sentido, digamos assim, &quot;atual&quot;, colocado por você. E nem a menosprezo. Eu só não concordo que ela, como você colocou, torne-se um fim em si mesmo. Ela deve ir, como você também colocou, andando em conjunto com o trabalho de base. O efeito estético também é importante, mas ele não deve ser o critério de avaliação de vitórias e derrotas. Na verdade, a ação direta como um fim em si mesmo e reduzida ao estético, acaba se tornando a prática tanto de grupos libertários quanto de grupos autoritários. Mas eu acho que ela é importante. Em certos momentos, eu confesso que penso que ela deve ser praticada apenas de maneira defensiva. Isso não significa que, numa manifestação, se a polícia não atacar a população não pode partir para a ação direta. Isso significa que é preciso ter legitimidade entre os trabalhadores para a prática da ação direta. Quero com isso dizer que penso que ela deve ser sempre legitimada perante os trabalhadores como uma prática de resistência e como um ato pelo qual, digamos assim, se &quot;dá o troco&quot; nas empresas e no Estado, em represália aos abusos constantes. Se houver a oportunidade de sair quebrando tudo, ótimo, mas isso precisa ser apresentado como algo legítimo. Caso contrário, as pessoas pensam que &quot;as coisas já não funcionam direito e esses vândalos ainda vêm quebrar tudo&quot;. Se ela não for legitimada perante os trabalhadores, as campanhas de difamação da imprensa, das empresas e do governo acaba tornando-a ilegítima. Eu errei, num dos comentários ao artigo sobre o dia 15, ao dizer que os três autores consideram a prática da ação direta legítima apenas em termos defensivos. Os dois outros autores discordam. Conversamos depois sobre isso. Mas eu tendo, pelo menos agora, na atual conjuntura, a defender que seja dessa forma.
há 3 horas · Curtir

Karina Oliveira - Rafael Saddi , a crítica que pretendemos expressar no texto de balanço acerca da ação direta no Itatiaia foi justamente a do fetichismo que muitos grupos/indivíduos possuem com a estética do ato,reduzindo radicalidade e combatividade ao ato de quebrar e queimar coisas, como se isso em si fosse revolucionário e desprezam ações como a do bandeiras, em que estudantes se auto-organizaram, para estes, este tipo de ação não é radical, tampouco, relevante. A questão que tentamos problematizar é quando isto vira um fim em si mesmo, em que não se pretende um trabalho a médio prazo de diálogo com as pessoas da região. Acho que a questão de como essas ações inspiram ou não a classe trabalhadora está muito ligada ao percurso da luta e ao modo como a ação é feita, será mesmo que um ônibus queimado em uma universidade federal, em que se propagandeia alguns grupos nos ônibus inspira os trabalhadores? Será que há alguma identificação por parte dos trabalhadores? A princípio penso que não. Não que eu acho que isso deslegitima o ato, como dito no texto, entendemos que ele foi positivo, mas pensando em um fortalecimento da organização dos trabalhadores, acho que não curtiu muito efeito. Se pensarmos nas queimas e quebradeira de ônibus do ano passado me parece que esse efeito nos trabalhadores é mais incisivo, pois houve todo um percurso da luta contra o aumento, com bastante diálogo e que usou diversas táticas, inclusive institucionais e que nos esgotamentos destas, desembocou no 28 de maio.
há 3 horas · Curtir (desfazer) · 1]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Resolvi reproduzir integralmente aqui alguns comentários suscitados pelo artigo acima no Facebook:</p>
<p>Rafael Saddi &#8211; Fagner Enrique, parabéns pelo texto. Mas, tenho algumas preocupações. Me centrarei em três delas. Primeiro, a própria noção de “correlação de forças favorável”. Não estaria aí um risco de etapismo incapaz de dar conta da diversidade da própria classe trabalhadora? Isto é, em um momento de pouco acúmulo de forças, ainda haverá setores dispostos à radicalização. Quem não se posiciona em sua defesa e em seu estímulo, não tende a querer freia-la, criticá-la, pois não é o momento, pois aí será só uma vanguarda de trabalhadores, etc. etc? Isso não é uma armadilha do reformismo? Em segundo lugar, este trecho: &#8220;O projeto político da autonomia é, por isso, o único projeto verdadeiramente radical e verdadeiramente revolucionário, o único capaz de responder positivamente aos problemas cotidianos dos trabalhadores e de não criar obstáculos para que eles possam dar origem a relações sociais de novo tipo: verdadeiramente comunistas&#8221;. Não se encontra aí uma estrutura de pensamento bastante pretensiosa e autoritária? Ao menos, podemos dizer que, se mudarmos os termos substantivos e mantermos o restante, não haverá muita diferença com o discurso religioso. Por último, não compreendo a crítica ao bakuninismo, se esta defesa da autonomia, da autogestão e o combate à divisão entre dirigentes e dirigidos foi formulada pelo próprio Bakunin. Trata-se de uma crítica aos que se denominam bakuninistas e não necessariamente ao bakuninismo? Enfim, só alguns questionamentos sinceros para a reflexão. Um grande abraço.<br />
há 5 horas · Editado · Curtir (desfazer) · 1</p>
<p>Fagner Enrique &#8211; Rafael, eu parto do pressuposto de que a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores. A classe trabalhadora é sim muito heterogênea. Afinal, ela é hoje composta por milhões e milhões de trabalhadores. E mais: ela é global, internacional. A luta que levará à emancipação da classe trabalhadora só poderá ser vitoriosa, portanto, se uma quantidade cada vez maior de trabalhadores se engajar nessa luta: uma luta de massa. A meu ver, a única maneira de se massificar atualmente a luta anticapitalista, de modo que o capitalismo possa ser derrubado e de modo que ele não seja substituído por outro sistema social também fundamentado na opressão e na exploração, é massificando a autogestão das lutas dos trabalhadores. E é isso que significa para mim obter uma &#8220;correlação de forças favorável&#8221; à classe trabalhadora. Não há etapismo no meu pensamento. A meu ver, os trabalhadores que gerem eles mesmos a sua luta são já uma vanguarda que está já colocando em prática relações sociais de novo tipo: coletivistas e igualitárias. O importante é generalizar, difundir a prática que anuncia relações sociais de novo tipo. Quando eu falei em &#8220;correlação de forças favorável&#8221;, quis dizer que, para que os próprios trabalhadores possam passar de reivindicações menos radicais para reivindicações mais radicais (que atingem os problemas em sua raiz), um número cada vez maior de trabalhadores precisa estar engajado na luta. Por exemplo: as lutas contra o aumento da tarifa do ano passado colocaram em movimento uma quantidade de trabalhadores que ultrapassa o limite dos movimentos que organizaram e convocaram as manifestações em todo o Brasil. Muitos trabalhadores assumiram uma postura mais combativa, o que é essencial (observe-se as revoltas nos terminais em Goiânia). Mas mesmo assim é muito pouco. Não é algo que tem comprometido definitivamente o poder de Estado, a soberania do Estado e a soberania das empresas. Por quê? Porque tanto o Estado quanto as empresas, que foram colocados em xeque no ano passado, têm se reorganizado e colaborado de modo mais eficaz para virar o jogo. O importante é estimular os trabalhadores que têm assumido uma postura mais combativa a organizarem-se, debaterem os problemas a serem enfrentados, tentarem perceber as movimentações e as armadilhas postas pelo inimigo, pois caso contrário o jogo será virado definitivamente. A meu ver, estimular a organização dos trabalhadores para o enfrentamento ao Estado e às empresas, nos locais de moradia, nos locais de estudo, nos locais de trabalho, nos locais de trânsito, é a resposta a ser dada agora, sem perder de vista a necessidade de atos radicalizados pontuais, que servem para mostrar ao inimigo que o seu adversário ainda está de pé.</p>
<p>Quando eu digo que o projeto político da autonomia é o único capaz de responder positivamente aos problemas cotidianos dos trabalhadores e de não criar obstáculos para que eles possam dar origem a relações sociais de novo tipo, não há pretensão alguma e nem autoritarismo ou fanatismo religioso. E isso se deve ao fato de que, quando eu falo em &#8220;projeto político da autonomia&#8221; eu estou simplesmente me referindo à defesa da prática da autogestão das lutas e não a algum teórico ou a alguma corrente teórica ou coisa do tipo. Eu estou me referindo à prática de constituição de núcleos de estudo, debate e luta por melhorias importantes para os trabalhadores, o que significa estimular a auto-organização dos trabalhadores e combater a sua organização pelas classes capitalistas (o nome que se dá a esses núcleos &#8212; se são &#8220;movimentos&#8221;, &#8220;sindicatos&#8221;, &#8220;cooperativas&#8221;, &#8220;associações&#8221;, &#8220;comunas&#8221;, &#8220;conselhos&#8221;, &#8220;comitês&#8221; etc. &#8212; pouco importa). E aí, para mim, o importante é que o referencial teórico que embasa o estudo da realidade concreta seja plural, isto é, o importante é que se busque referências no marxismo, no anarquismo etc. E mais: que esse referencial teórico não se converta em dogma. É por isso que, na verdade, eu não critiquei o bakuninismo e nem o marxismo. Eu simplesmente afirmei que as respostas para os problemas que vão surgindo no dia-a-dia não está pronta e acabada nas obras de Bakunin e nem nas de Marx &#8212; que foram escritas no século XIX. A resposta tem que ser buscada pelos próprios lutadores e é importante que os lutadores que estudam a realidade para transformá-la sejam os próprios trabalhadores em luta (isso não significa que, para mim, os intelectuais profissionais são irrelevantes; pelo contrário, o papel que eles podem desempenhar está bem definido no texto). Tanto os bakuninismo quanto o marxismo tem importantes contribuições a fazer, a meu ver. Portanto, quando eu defendo a autonomia &#8212; enquanto um &#8220;projeto&#8221; &#8212; eu defendo a autonomia enquanto práticas que têm sido defendidas tanto por anarquistas quanto por marxistas e quanto por pessoas que não são nem uma coisa nem outra. Eu defendo as lutas autogeridas, nas quais se rompe com a noção de dirigentes + teóricos / militantes. Todo militante tem que ser um dirigente, assim não há dirigentes &#8212; enquanto uma camada privilegiada que dá ordens. E todo militante tem que ser um teórico, assim não há teóricos &#8212; enquanto uma elite portadora da verdade, da ciência revolucionária, que aponta as alternativas ou a alternativa aos dirigentes. Cada trabalhador tem que poder co-gerir, em conjunto com os demais trabalhadores, pelo menos um aspecto da sua própria vida: a luta, a qual não vai a lugar algum se ela não é também pensada. Então cada trabalhador precisa poder participar da condução da luta e do ato de se pensar a luta.</p>
<p>Outro grande abraço.<br />
há 4 horas · Curtir · 3</p>
<p>Rafael Saddi &#8211; Opa, então assim, sim!<br />
há 4 horas · Curtir (desfazer) · 1</p>
<p>Rafael Saddi &#8211; Perfeito Fagner Enrique, concordo com tudo o que colocou acima. Gostei muito do texto anterior (balanço) que fez com o Jules Grouxo Maigret e com a Karina Oliveira. Pra tirar todas as dúvidas, tem só uma coisa que me incomodou naquele texto e que reaparece neste seu. Entendo a crítica ao fetischismo da ação direta (leia-se aqui ação direta em seu sentido alterado, pois ação direta era entendida como ação direta popular da classe trabalhadora e não como um grupo, ao mesmo tempo, como uma ação sem intermediários &#8211; tais como greve, ocupação, etc. Não necessariamente quebrar ou incendiar algo). Por fetischismo estou chamando aqui o fato de tornar a ação violenta como um fim em si mesmo. Mas, por outro lado, vocês não acham que talvez, no texto anterior e talvez neste também, exista um menosprezo do papel deste tipo de ação na própria consciência da classe trabalhadora? Veja, enquanto muitos negam a ação, outros também se inspiram. Eu cansei de presenciar trabalhadores ao assistirem a televisão vibrarem com as ações violentas provocadas pelas primeiras manifestações do ano passado (antes de junho). No seu comentário acima, você parece concordar com isso. Concorda? Enfim, isso em nenhum momento nega a importância do trabalho de base. Ao contrário, anda junto. Ao mesmo tempo, não penso que se possa ignorar a importância do efeito estético na luta. A forma e o conteúdo não se separam. Uma forma tradicional e autoritária engendra o mesmo conteúdo e vice-versa. O que acha?<br />
há 4 horas · Editado · Curtir (desfazer) · 1</p>
<p>Rodrigo Araújo &#8211; Pena essa troca de comentários ficar restrito aos círculos sociais dos que aqui se envolveram no assunto (curtindo ou comentando). Acredito que seria muito útil e proveitoso se fossem publicados no site, pois lá um número maior de pessoas poderia ler, refletir e eventualmente se envolver no debate. abraços<br />
há 4 horas · Curtir (desfazer) · 2</p>
<p>Alexandre De Paula Meirelles &#8211; Muito bom o texto e concordo plenamente a participação total em todos os campos da luta e da organização, rompe com a ideia Capitalista iniciada no século XX de uma Sociedade das organizações fragmentada de conhecimento fragmentado e participações fragmentadas que favorecem a existência dos Gestores, Managers etc. O trabalhador ao longo da história sempre mostrou a capacidade inclusive de organizar os processos produtivos muito melhor que os capitalistas na medida em que em poucas experiências Históricas aboliram as hierarquias e a mais-valia. Parabéns pelo texto Fagner Enrique.<br />
há 4 horas · Curtir (desfazer) · 2</p>
<p>Fagner Enrique &#8211; Rafael, eu não sou contra a ação direta nesse sentido, digamos assim, &#8220;atual&#8221;, colocado por você. E nem a menosprezo. Eu só não concordo que ela, como você colocou, torne-se um fim em si mesmo. Ela deve ir, como você também colocou, andando em conjunto com o trabalho de base. O efeito estético também é importante, mas ele não deve ser o critério de avaliação de vitórias e derrotas. Na verdade, a ação direta como um fim em si mesmo e reduzida ao estético, acaba se tornando a prática tanto de grupos libertários quanto de grupos autoritários. Mas eu acho que ela é importante. Em certos momentos, eu confesso que penso que ela deve ser praticada apenas de maneira defensiva. Isso não significa que, numa manifestação, se a polícia não atacar a população não pode partir para a ação direta. Isso significa que é preciso ter legitimidade entre os trabalhadores para a prática da ação direta. Quero com isso dizer que penso que ela deve ser sempre legitimada perante os trabalhadores como uma prática de resistência e como um ato pelo qual, digamos assim, se &#8220;dá o troco&#8221; nas empresas e no Estado, em represália aos abusos constantes. Se houver a oportunidade de sair quebrando tudo, ótimo, mas isso precisa ser apresentado como algo legítimo. Caso contrário, as pessoas pensam que &#8220;as coisas já não funcionam direito e esses vândalos ainda vêm quebrar tudo&#8221;. Se ela não for legitimada perante os trabalhadores, as campanhas de difamação da imprensa, das empresas e do governo acaba tornando-a ilegítima. Eu errei, num dos comentários ao artigo sobre o dia 15, ao dizer que os três autores consideram a prática da ação direta legítima apenas em termos defensivos. Os dois outros autores discordam. Conversamos depois sobre isso. Mas eu tendo, pelo menos agora, na atual conjuntura, a defender que seja dessa forma.<br />
há 3 horas · Curtir</p>
<p>Karina Oliveira &#8211; Rafael Saddi , a crítica que pretendemos expressar no texto de balanço acerca da ação direta no Itatiaia foi justamente a do fetichismo que muitos grupos/indivíduos possuem com a estética do ato,reduzindo radicalidade e combatividade ao ato de quebrar e queimar coisas, como se isso em si fosse revolucionário e desprezam ações como a do bandeiras, em que estudantes se auto-organizaram, para estes, este tipo de ação não é radical, tampouco, relevante. A questão que tentamos problematizar é quando isto vira um fim em si mesmo, em que não se pretende um trabalho a médio prazo de diálogo com as pessoas da região. Acho que a questão de como essas ações inspiram ou não a classe trabalhadora está muito ligada ao percurso da luta e ao modo como a ação é feita, será mesmo que um ônibus queimado em uma universidade federal, em que se propagandeia alguns grupos nos ônibus inspira os trabalhadores? Será que há alguma identificação por parte dos trabalhadores? A princípio penso que não. Não que eu acho que isso deslegitima o ato, como dito no texto, entendemos que ele foi positivo, mas pensando em um fortalecimento da organização dos trabalhadores, acho que não curtiu muito efeito. Se pensarmos nas queimas e quebradeira de ônibus do ano passado me parece que esse efeito nos trabalhadores é mais incisivo, pois houve todo um percurso da luta contra o aumento, com bastante diálogo e que usou diversas táticas, inclusive institucionais e que nos esgotamentos destas, desembocou no 28 de maio.<br />
há 3 horas · Curtir (desfazer) · 1</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Marcelo Lopes de Souza		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/04/94699/#comment-220115</link>

		<dc:creator><![CDATA[Marcelo Lopes de Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Apr 2014 18:01:34 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=94699#comment-220115</guid>

					<description><![CDATA[Seja diretamente, seja indiretamente, o texto de Fagner, apesar de abordar alguns pontos já bastante focalizados em artigos anteriormente publicados no Passa Palavra (sobre a natureza e o papel dos “intelectuais orgânicos”, sobre o papel e os desafios dos apoiadores acadêmicos dos movimentos sociais, sobre os impasses e a dinâmica atuais da assim chamada “esquerda”),  suscita alguns debates que merecem ser continuamente retomados.

Uma primeira questão tem a ver com a famosa “autonomia”, termo tão utilizado e tão raramente discutido  -  como se fosse uma trivialidade, algo sobejamente conhecido por todos e que, por isso, dispensa maiores apresentações. Ora, de que “autonomia” tratamos, a que nos referimos, exatamente? Como a interpretamos, como avaliamos os seus pressupostos e as suas implicações? Ao “projeto de autonomia” castoriadiano, ao mesmo tempo anticapitalista e antimarxista (não apenas “antiburocrático”), e por isso em grande medida próximo da tradição anarquista (apesar de Castoriadis, por várias razões, criticar os anarquistas e não se considerar pertencendo às suas fileiras)? Ou ao “marxismo autônomo” ou “autonomista” inspirado nas lutas e conflitos italianos dos anos 1970 (e, mais recentemente, na produção intelectual de Antonio Negri e mesmo John Holloway)? Ou a certas lutas concretas que, de modo muitas vezes sincrético, utilizam o termo “autonomia” como “autonomia em relação ao Estados e aos partidos”, mas não necessariamente procedendo-se a críticas mais profundas do capitalismo em si? E a lista de usos contemporâneos do quase inevitável termo “autonomia” não para aí, de tal modo que se corre o risco, creio, ao nos referirmos aos “movimentos autônomos” da atualidade, de nos contentarmos com uma espécie de “definição básica”, mais subentendida que explicitada e discutida, que recobre mais do que revela. Será que “autonomia”, “autogestão” e “horizontalidade”, em si mesmas, compõem um corpo coerente de princípios, pressupondo uma leitura unificada? Podemos discutir e rediscutir indefinidamente a respeito de “apropriações indevidas” (ou mesmo “oportunistas”) ou o que quer que seja, mas o fato é que, por trás de menções a princípios como horizontalidade, autogestão e, claro, autonomia, atualmente há um conjunto heterogêneo de interpretações e tentativas de apropriação: algumas com clara origem no anarquismo, outras com origem em uma tentativa de atualização/renovação do marxismo, e outras tantas (especialmente lutas concretas, com destaque para a América Latina ) com origens e influências variadas, mescladas ao longo das últimas décadas em meio à crise do marxismo-leninismo e do revigoramento (multifacetado e ainda pouco coerente) da linhagem libertária.  Em suma a “autonomia” é um referencial disputadíssimo, e cumpre levar isso em conta ao falarmos sobre &quot;radicalidade&quot;, estratégia, tática etc.

Se o ambiente chamado de “autonomista”, portanto, é tudo menos homogêneo, o mesmo, por outro lado, se pode dizer do próprio campo libertário (que não se restringe, aliás, ao anarquismo clássico, que hoje só existe residualmente, ou filtrado pelas interpretações menos ou mais tradicionais e convencionais que dele são feitas: desde o “especifismo” latino-americano até o uso pouco convencional de referências aos clássicos por parte de neoanarquistas no estilo Hakim Bey). E é aqui que retomo a seguinte afirmação de Fagner:

“Falar em ‘esquerdas dogmáticas’, de certa forma, acaba sendo o mesmo que falar em ‘esquerdas autoritárias’ (...)”.

Houve época em que falar de “esquerda autoritária” era, no campo libertário, o mesmo que falar em “marxismo-leninismo”. No entanto, em uma época como a nossa, em que os rótulos são muitos e são zelosamente defendidos, como territórios simbólicos que são, por guardiões da fé, um certo tipo de autoritarismo, que desautoriza qualquer debate que não se limite a repetir os clássicos (ou, em certos casos, os autores da moda), se acha muito disseminado. O dogmatismo e o sectarismo estão em toda parte, inclusive no campo libertário. (o conteúdo deste próprio termo, aliás, merece ser encarado com ponderação).

E mais uma coisa, a propósito dos movimentos sociais e suas organizações: aquilo que Marilena Chaui denominou, em priscas eras, “discurso competente”, que também é uma expressão de autoritarismo, vanguardismo e elitismo, de modo algum se acha confinado às direções burocráticas e à manipulação do discurso da suposta autoridade científica: como um texto recentemente publicado no Passa Palavra provocou, muitas vezes estamos, nas lutas populares, diante de “buro-ácratas”, o quais, aninhados em organizações de movimentos sociais (as quais, em vários casos, possuem uma dinâmica muito semelhante à dos partidos políticos) na qualidade de “lideranças informais” ou “apoio”, buscam construir, de maneira semiconsciente (semi?), um papel como pontes privilegiadas entre o mundo acadêmico e a realidade das lutas populares. 

E, com isso, termino por onde comecei: lembrando alguns textos de síntese já publicados no Passa Palavra sobre, precisamente, a natureza e o papel dos “intelectuais orgânicos” (http://passapalavra.info/2012/02/53056), sobre o papel e os desafios dos apoiadores acadêmicos dos movimentos sociais (http://passapalavra.info/2010/09/29280) e sobre os impasses e a dinâmica atuais da assim chamada “esquerda” (texto atualmente em destaque, de João Bernardo).Acredito que vale a pena (re)visitá-los.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Seja diretamente, seja indiretamente, o texto de Fagner, apesar de abordar alguns pontos já bastante focalizados em artigos anteriormente publicados no Passa Palavra (sobre a natureza e o papel dos “intelectuais orgânicos”, sobre o papel e os desafios dos apoiadores acadêmicos dos movimentos sociais, sobre os impasses e a dinâmica atuais da assim chamada “esquerda”),  suscita alguns debates que merecem ser continuamente retomados.</p>
<p>Uma primeira questão tem a ver com a famosa “autonomia”, termo tão utilizado e tão raramente discutido  &#8211;  como se fosse uma trivialidade, algo sobejamente conhecido por todos e que, por isso, dispensa maiores apresentações. Ora, de que “autonomia” tratamos, a que nos referimos, exatamente? Como a interpretamos, como avaliamos os seus pressupostos e as suas implicações? Ao “projeto de autonomia” castoriadiano, ao mesmo tempo anticapitalista e antimarxista (não apenas “antiburocrático”), e por isso em grande medida próximo da tradição anarquista (apesar de Castoriadis, por várias razões, criticar os anarquistas e não se considerar pertencendo às suas fileiras)? Ou ao “marxismo autônomo” ou “autonomista” inspirado nas lutas e conflitos italianos dos anos 1970 (e, mais recentemente, na produção intelectual de Antonio Negri e mesmo John Holloway)? Ou a certas lutas concretas que, de modo muitas vezes sincrético, utilizam o termo “autonomia” como “autonomia em relação ao Estados e aos partidos”, mas não necessariamente procedendo-se a críticas mais profundas do capitalismo em si? E a lista de usos contemporâneos do quase inevitável termo “autonomia” não para aí, de tal modo que se corre o risco, creio, ao nos referirmos aos “movimentos autônomos” da atualidade, de nos contentarmos com uma espécie de “definição básica”, mais subentendida que explicitada e discutida, que recobre mais do que revela. Será que “autonomia”, “autogestão” e “horizontalidade”, em si mesmas, compõem um corpo coerente de princípios, pressupondo uma leitura unificada? Podemos discutir e rediscutir indefinidamente a respeito de “apropriações indevidas” (ou mesmo “oportunistas”) ou o que quer que seja, mas o fato é que, por trás de menções a princípios como horizontalidade, autogestão e, claro, autonomia, atualmente há um conjunto heterogêneo de interpretações e tentativas de apropriação: algumas com clara origem no anarquismo, outras com origem em uma tentativa de atualização/renovação do marxismo, e outras tantas (especialmente lutas concretas, com destaque para a América Latina ) com origens e influências variadas, mescladas ao longo das últimas décadas em meio à crise do marxismo-leninismo e do revigoramento (multifacetado e ainda pouco coerente) da linhagem libertária.  Em suma a “autonomia” é um referencial disputadíssimo, e cumpre levar isso em conta ao falarmos sobre &#8220;radicalidade&#8221;, estratégia, tática etc.</p>
<p>Se o ambiente chamado de “autonomista”, portanto, é tudo menos homogêneo, o mesmo, por outro lado, se pode dizer do próprio campo libertário (que não se restringe, aliás, ao anarquismo clássico, que hoje só existe residualmente, ou filtrado pelas interpretações menos ou mais tradicionais e convencionais que dele são feitas: desde o “especifismo” latino-americano até o uso pouco convencional de referências aos clássicos por parte de neoanarquistas no estilo Hakim Bey). E é aqui que retomo a seguinte afirmação de Fagner:</p>
<p>“Falar em ‘esquerdas dogmáticas’, de certa forma, acaba sendo o mesmo que falar em ‘esquerdas autoritárias’ (&#8230;)”.</p>
<p>Houve época em que falar de “esquerda autoritária” era, no campo libertário, o mesmo que falar em “marxismo-leninismo”. No entanto, em uma época como a nossa, em que os rótulos são muitos e são zelosamente defendidos, como territórios simbólicos que são, por guardiões da fé, um certo tipo de autoritarismo, que desautoriza qualquer debate que não se limite a repetir os clássicos (ou, em certos casos, os autores da moda), se acha muito disseminado. O dogmatismo e o sectarismo estão em toda parte, inclusive no campo libertário. (o conteúdo deste próprio termo, aliás, merece ser encarado com ponderação).</p>
<p>E mais uma coisa, a propósito dos movimentos sociais e suas organizações: aquilo que Marilena Chaui denominou, em priscas eras, “discurso competente”, que também é uma expressão de autoritarismo, vanguardismo e elitismo, de modo algum se acha confinado às direções burocráticas e à manipulação do discurso da suposta autoridade científica: como um texto recentemente publicado no Passa Palavra provocou, muitas vezes estamos, nas lutas populares, diante de “buro-ácratas”, o quais, aninhados em organizações de movimentos sociais (as quais, em vários casos, possuem uma dinâmica muito semelhante à dos partidos políticos) na qualidade de “lideranças informais” ou “apoio”, buscam construir, de maneira semiconsciente (semi?), um papel como pontes privilegiadas entre o mundo acadêmico e a realidade das lutas populares. </p>
<p>E, com isso, termino por onde comecei: lembrando alguns textos de síntese já publicados no Passa Palavra sobre, precisamente, a natureza e o papel dos “intelectuais orgânicos” (<a href="http://passapalavra.info/2012/02/53056" rel="ugc">http://passapalavra.info/2012/02/53056</a>), sobre o papel e os desafios dos apoiadores acadêmicos dos movimentos sociais (<a href="http://passapalavra.info/2010/09/29280" rel="ugc">http://passapalavra.info/2010/09/29280</a>) e sobre os impasses e a dinâmica atuais da assim chamada “esquerda” (texto atualmente em destaque, de João Bernardo).Acredito que vale a pena (re)visitá-los.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
	</channel>
</rss>
