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	Comentários sobre: Pincelada sobre pincelada. Acerca da construção da pintura no mundo toyotista	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Jovem		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/07/97692/#comment-245905</link>

		<dc:creator><![CDATA[Jovem]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Aug 2014 13:49:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Talvez seja uma leitura um pouco impregnada, quando me refiro à separação entre o objeto arte e o sujeito artista. Na tradição ocidental as artes e oficios representam a passagem do inóspito para a integração da natureza ao espaço humano: arte é alterar o mundo pelas mãos, ouvidos, olhos e boca humanas. Homero, Zeuxis, Michelangelo, Wagner. Nada de romantismo, apenas o reconhecimento de que a arte é feita por homens e para os homens. No filme que eu acho uma delícia, &quot;F for Fake&quot;, de Orson Wells, há uma digressão a respeito de uma catedral gótica: um trabalho humano de uma tal solidez e permanência física no mundo. Na catedral em questão no entanto não havia qualquer tipo de assinatura. Não seria também esse um momento em que o sujeito artista deixou de ter relevância, estando a arte dedicada inteiramente à glória de Deus? A entrevista com este Felipe mexicano me parece ser elucidativa nesse aspecto: entre outros momentos reveladores, ele comenta, não sem orgulho e com um tom de desdém, que não faz parte do &quot;mercado da arte&quot;, não produz objetos para serem vendidos. Oras, que visão mais primária e fetichizante de mercado! É do nível de um Fora do Eixo, pois se trata expressamente de enganar as pessoas fazendo-as pensar que estas práticas artísticas estão num âmbito extra-econômico (romantismo 2.0), quando na verdade o que fazem, justamente o tópico abordado por João Valente, é conseguir capturar estes conceitos e inovações estéticas para que o mercado possa habitá-los também, espalhando o fluxo de capital para tempos e espaços antes impensáveis. O truque é que fazem isso não vendendo obras, mas sim desenvolvendo &quot;processos&quot; e &quot;criações&quot; nos quais &quot;os verdadeiros gestores criam arte&quot;: a partir de uma ideia ele mobiliza sua equipe de auxiliares e subordinados que executarão o plano conforme as instruções. Mas não são eles os artistas, os que montaram as obras, os que realizaram o projeto. Artista é aquele que está articulado com a fonte financeira e burocrática, aquele que dá sentido poético à produção e que a organiza com seu verbo. Catedrais góticas de fumaça.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Talvez seja uma leitura um pouco impregnada, quando me refiro à separação entre o objeto arte e o sujeito artista. Na tradição ocidental as artes e oficios representam a passagem do inóspito para a integração da natureza ao espaço humano: arte é alterar o mundo pelas mãos, ouvidos, olhos e boca humanas. Homero, Zeuxis, Michelangelo, Wagner. Nada de romantismo, apenas o reconhecimento de que a arte é feita por homens e para os homens. No filme que eu acho uma delícia, &#8220;F for Fake&#8221;, de Orson Wells, há uma digressão a respeito de uma catedral gótica: um trabalho humano de uma tal solidez e permanência física no mundo. Na catedral em questão no entanto não havia qualquer tipo de assinatura. Não seria também esse um momento em que o sujeito artista deixou de ter relevância, estando a arte dedicada inteiramente à glória de Deus? A entrevista com este Felipe mexicano me parece ser elucidativa nesse aspecto: entre outros momentos reveladores, ele comenta, não sem orgulho e com um tom de desdém, que não faz parte do &#8220;mercado da arte&#8221;, não produz objetos para serem vendidos. Oras, que visão mais primária e fetichizante de mercado! É do nível de um Fora do Eixo, pois se trata expressamente de enganar as pessoas fazendo-as pensar que estas práticas artísticas estão num âmbito extra-econômico (romantismo 2.0), quando na verdade o que fazem, justamente o tópico abordado por João Valente, é conseguir capturar estes conceitos e inovações estéticas para que o mercado possa habitá-los também, espalhando o fluxo de capital para tempos e espaços antes impensáveis. O truque é que fazem isso não vendendo obras, mas sim desenvolvendo &#8220;processos&#8221; e &#8220;criações&#8221; nos quais &#8220;os verdadeiros gestores criam arte&#8221;: a partir de uma ideia ele mobiliza sua equipe de auxiliares e subordinados que executarão o plano conforme as instruções. Mas não são eles os artistas, os que montaram as obras, os que realizaram o projeto. Artista é aquele que está articulado com a fonte financeira e burocrática, aquele que dá sentido poético à produção e que a organiza com seu verbo. Catedrais góticas de fumaça.</p>
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		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/07/97692/#comment-245525</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Aug 2014 15:42:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Algumas considerações a propósito dos dois últimos comentários, embora não forçosamente em resposta directa.

Se a obra de arte não se autonomizasse não existia arte. Em primeiro lugar, estão inteiramente equivocados aqueles — e são a esmagadora maioria — que pretendem explicar uma obra de arte pelos problemas ou traumas do autor. Quaisquer que sejam os mecanismos psíquicos que a suscitaram, uma obra vale como obra porque ultrapassa todo o confinamento à sua problemática originária. Se for verdade que Flaubert disse que &lt;em&gt;Madame Bovary&lt;/em&gt; era ele, se fosse só ele não haveria romance nem hoje o leríamos. Para empregar um exemplo extremo, as telas de Bacon são obras de arte porque todos nós podemos reflectir-nos nelas, senão não ultrapassariam o desespero do autor e não interessariam mais ninguém. Em segundo lugar, está igualmente equivocado — e refiro-me aqui às análises estéticas dos marxistas, na sequência de Plekhanov e de Lukács — quem limita uma obra à expressão da época em que foi criada, aliás, da época que a criou. Se fosse só isto, nós, de uma época diferente, não poderíamos reflectir nela as nossas preocupações e os nossos anseios.

O mistério da obra de arte consiste no facto de ela ser um triplo espelho, reflectindo o autor, a época e aquele que a vê, lê ou ouve. Por isso uma obra de arte, a partir do momento em que é criada, foge ao autor. No espaço criado por essa obrigatória distanciação introduzem-se os processos de apropriação e de distribuição vigentes em cada sociedade. Hoje, são os processos capitalistas. Mas este é um efeito e não uma causa. A causa é o facto estético fundamental, o triplo espelho.

Outra questão é que costuma remeter-se a Marcel Duchamp e aos &lt;em&gt;objets trouvés&lt;/em&gt; a noção de que é arte tudo aquilo que o artista considerar arte. Warhol estendeu essa noção à produção de massas e aos novos meios de comunicação, aliás, por isso mesmo se integrou no movimento da Pop Art e fez com que o tema transitasse para a nossa época.

Quanto ao aproveitamento do minimalismo pela produção industrial, acho que se passou ali o mesmo que ocorre em todas as lutas sociais. O funcionalismo nasceu com uma dupla perspectiva. Por um lado, nasceu como uma das correntes do produtivismo industrial, sem outro horizonte do que o capitalismo. A data inaugural mais marcante desta trajectória é a exposição industrial de Londres em 1851, com o Palácio de Cristal de Joseph Paxton. A Werkbund inaugurou uma nova etapa nesta corrente. Paralelamente, no entanto, a criação da Bauhaus abriu perspectivas diferentes, como as abriram, mais radicalmente ainda, os Vkhutemas e em geral a Proletkult nos primeiros anos da Rússia Soviética. Entre o austríaco Loos, numa ponta, e o russo Bogdanov, na outra, ia todo um mundo. Afinal, o funcionalismo contribui para criar uma nova civilização, o que talvez seja ainda mais poderoso e mais básico — ou mais amplo — do que um modo de produção. Só como nota, mas que não é um detalhe, eu entendo a crítica à ecologia como uma luta em defesa desta nova civilização de que o funcionalismo constitui o eixo. Por isso a crítica à ecologia é para mim não só uma preocupação como a preocupação central.

Quanto à mercantilização da obra, haveria muito a dizer, quanto mais não seja porque os artistas vivem de alguma coisa e portanto têm de arranjar dinheiro com as obras. O problema começa quando as obras são feitas desde início para ganhar dinheiro. Outro dia li declarações do pintor chinês Yue Minjun, um figurativo contemporâneo, que representa todos os seus personagens a rir, e ele explicava que se deixasse de pintar assim os seus quadro perderiam o valor, porque deixariam de ser reconhecidos imediatamente. E quem iria gastar todo aquele dinheiro a comprar uma obra que as visitas lá de casa não reconhecessem de imediato como sendo de um pintor chinês famoso e caro? Deste modo a obra converte-se em logotipo, a imaginação deixa de funcionar plenamente, o mistério do triplo espelho deixa de se exercer e, afinal, a obra deixa de ser arte. É o que se passa com boa parte da arte contemporânea, mas passou-se também, embora em formas um pouco diferentes, noutras épocas em que o capitalismo não existia.

Para quem estiver interessado nos mecanismos económicos da arte contemporânea recomendo Donald Thompson, &lt;em&gt; Lo Squalo da 12 Milioni di Dollari. La Bizzarra e Sorprendente Economia dell’Arte Contemporanea&lt;/em&gt;, Milão: Mondadori, 2009. Comprei na tradução italiana, mas o original é em inglês e tem a vantagem de o autor ser um economista profissional muito interessado pela arte contemporânea. É um livro fascinante.

Mas acerca disto, antes de mais e acima de tudo, aconselho-vos a verem o único filme genial realizado nos últimos quarenta anos. Os últimos filmes geniais haviam sido &lt;em&gt;Pierrot le Fou&lt;/em&gt;, de Godard (1965), &lt;em&gt;Zabriskie Point&lt;/em&gt;, de Antonioni (1970) e &lt;em&gt;Taxi Driver&lt;/em&gt;, de Scorsese (1976). Nas quatro décadas seguintes houve filmes bons e alguns muito bons, mas nenhum genial. Até que no ano passado apareceu um filme genial. E é genial porque emprega todas as potencialidades do cinema para fazer cinema e não outra coisa, e porque toma a superficialidade quotidiana como espelho para reflectir as inquietações mais profundas dos seres humanos. Limitando-me agora ao que diz respeito ao artigo do João Valente Aguiar e a estes comentários, esse filme apresenta uma crítica impiedosa à mercantilização da arte conceptual e da arte gestual, aliás, à mercantilização de tudo. Trata-se do filme realizado em 2013 por Paolo Sorrentino, &lt;em&gt;La Grande Bellezza&lt;/em&gt;.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Algumas considerações a propósito dos dois últimos comentários, embora não forçosamente em resposta directa.</p>
<p>Se a obra de arte não se autonomizasse não existia arte. Em primeiro lugar, estão inteiramente equivocados aqueles — e são a esmagadora maioria — que pretendem explicar uma obra de arte pelos problemas ou traumas do autor. Quaisquer que sejam os mecanismos psíquicos que a suscitaram, uma obra vale como obra porque ultrapassa todo o confinamento à sua problemática originária. Se for verdade que Flaubert disse que <em>Madame Bovary</em> era ele, se fosse só ele não haveria romance nem hoje o leríamos. Para empregar um exemplo extremo, as telas de Bacon são obras de arte porque todos nós podemos reflectir-nos nelas, senão não ultrapassariam o desespero do autor e não interessariam mais ninguém. Em segundo lugar, está igualmente equivocado — e refiro-me aqui às análises estéticas dos marxistas, na sequência de Plekhanov e de Lukács — quem limita uma obra à expressão da época em que foi criada, aliás, da época que a criou. Se fosse só isto, nós, de uma época diferente, não poderíamos reflectir nela as nossas preocupações e os nossos anseios.</p>
<p>O mistério da obra de arte consiste no facto de ela ser um triplo espelho, reflectindo o autor, a época e aquele que a vê, lê ou ouve. Por isso uma obra de arte, a partir do momento em que é criada, foge ao autor. No espaço criado por essa obrigatória distanciação introduzem-se os processos de apropriação e de distribuição vigentes em cada sociedade. Hoje, são os processos capitalistas. Mas este é um efeito e não uma causa. A causa é o facto estético fundamental, o triplo espelho.</p>
<p>Outra questão é que costuma remeter-se a Marcel Duchamp e aos <em>objets trouvés</em> a noção de que é arte tudo aquilo que o artista considerar arte. Warhol estendeu essa noção à produção de massas e aos novos meios de comunicação, aliás, por isso mesmo se integrou no movimento da Pop Art e fez com que o tema transitasse para a nossa época.</p>
<p>Quanto ao aproveitamento do minimalismo pela produção industrial, acho que se passou ali o mesmo que ocorre em todas as lutas sociais. O funcionalismo nasceu com uma dupla perspectiva. Por um lado, nasceu como uma das correntes do produtivismo industrial, sem outro horizonte do que o capitalismo. A data inaugural mais marcante desta trajectória é a exposição industrial de Londres em 1851, com o Palácio de Cristal de Joseph Paxton. A Werkbund inaugurou uma nova etapa nesta corrente. Paralelamente, no entanto, a criação da Bauhaus abriu perspectivas diferentes, como as abriram, mais radicalmente ainda, os Vkhutemas e em geral a Proletkult nos primeiros anos da Rússia Soviética. Entre o austríaco Loos, numa ponta, e o russo Bogdanov, na outra, ia todo um mundo. Afinal, o funcionalismo contribui para criar uma nova civilização, o que talvez seja ainda mais poderoso e mais básico — ou mais amplo — do que um modo de produção. Só como nota, mas que não é um detalhe, eu entendo a crítica à ecologia como uma luta em defesa desta nova civilização de que o funcionalismo constitui o eixo. Por isso a crítica à ecologia é para mim não só uma preocupação como a preocupação central.</p>
<p>Quanto à mercantilização da obra, haveria muito a dizer, quanto mais não seja porque os artistas vivem de alguma coisa e portanto têm de arranjar dinheiro com as obras. O problema começa quando as obras são feitas desde início para ganhar dinheiro. Outro dia li declarações do pintor chinês Yue Minjun, um figurativo contemporâneo, que representa todos os seus personagens a rir, e ele explicava que se deixasse de pintar assim os seus quadro perderiam o valor, porque deixariam de ser reconhecidos imediatamente. E quem iria gastar todo aquele dinheiro a comprar uma obra que as visitas lá de casa não reconhecessem de imediato como sendo de um pintor chinês famoso e caro? Deste modo a obra converte-se em logotipo, a imaginação deixa de funcionar plenamente, o mistério do triplo espelho deixa de se exercer e, afinal, a obra deixa de ser arte. É o que se passa com boa parte da arte contemporânea, mas passou-se também, embora em formas um pouco diferentes, noutras épocas em que o capitalismo não existia.</p>
<p>Para quem estiver interessado nos mecanismos económicos da arte contemporânea recomendo Donald Thompson, <em> Lo Squalo da 12 Milioni di Dollari. La Bizzarra e Sorprendente Economia dell’Arte Contemporanea</em>, Milão: Mondadori, 2009. Comprei na tradução italiana, mas o original é em inglês e tem a vantagem de o autor ser um economista profissional muito interessado pela arte contemporânea. É um livro fascinante.</p>
<p>Mas acerca disto, antes de mais e acima de tudo, aconselho-vos a verem o único filme genial realizado nos últimos quarenta anos. Os últimos filmes geniais haviam sido <em>Pierrot le Fou</em>, de Godard (1965), <em>Zabriskie Point</em>, de Antonioni (1970) e <em>Taxi Driver</em>, de Scorsese (1976). Nas quatro décadas seguintes houve filmes bons e alguns muito bons, mas nenhum genial. Até que no ano passado apareceu um filme genial. E é genial porque emprega todas as potencialidades do cinema para fazer cinema e não outra coisa, e porque toma a superficialidade quotidiana como espelho para reflectir as inquietações mais profundas dos seres humanos. Limitando-me agora ao que diz respeito ao artigo do João Valente Aguiar e a estes comentários, esse filme apresenta uma crítica impiedosa à mercantilização da arte conceptual e da arte gestual, aliás, à mercantilização de tudo. Trata-se do filme realizado em 2013 por Paolo Sorrentino, <em>La Grande Bellezza</em>.</p>
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		<item>
		<title>
		Por: João Valente Aguiar		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/07/97692/#comment-245421</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Valente Aguiar]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Aug 2014 21:51:16 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Jovem,

no que concerne à arte contemporânea existe uma identificação muito forte entre a obra, o autor e a arte. Claro que o objecto artístico se libertou (como aconteceu sempre) mas repare numa coisa. O que passou a definir a arte de Warhol em diante foi a aleatoriedade e o relativismo na definição da arte. Ou seja, tudo é arte desde que o autor assim o considere. (Aqui não me refiro tanto aos circuitos de legitimidade e de canonização mas mais ao que os indivíduos percepcionam como seu, como a sua arte). Se isto for verdade, então a passagem do que é a concepção individual da arte para o plano mais amplo da legitimação/canonização passa pela vinculação entre a marca individual do artista e a possibilidade que essa tem de ser apreciada no actual campo artístico mais vasto dos seus pares, das galerias, curadores, especialistas, etc. Você pode responder que, de certa forma, isto sempre aconteceu. E nalguma medida isto parece estar correcto. A novidade está no que você mencionou &quot;por outro lado&quot;. Isto é, a criação do artista-empresário do estilo Jeff Koons.
Isto é possível por duas grandes ordens de razões. Primeiro, a legitimação e difusão das obras de arte num tempo em que as possibilidades de expansão da pintura se colapsaram depende também do mercado empresarial. Por exemplo, alguns dos mais relevantes prémios de artes plásticas nos EUA e no Reino Unido dependem de patrocínios de grandes empresas (BMW, Philip Morris, etc.). Isso significa que os tecnocratas das grandes transnacionais têm um impacto relevante (apesar de não ser único nem unidimensional) na definição da definição da arte hoje divulgada: tanto no plano dos prémios e na gestão de galerias, como no plano da construção de colecções de arte pelas empresas e pelos tecnocratas tomados  individualmente.
Segundo, se a construção de novas formas e novos arranjos formais dentro da tela se foram esgotando e se a dimensão conceptual/visual ganhou preponderância sobre o formal em grande parte das artes plásticas dos últimos 40 anos, se portanto a arte é assim muito mais do domínio do conceptual do que do formal (o conceito é sempre uma forma e vice-versa mas não vou entrar em detalhes neste momento), então a ideação do artista expressa-se também numa certa correspondência entre formas conceptuais artísticas e formas conceptuais para-económicas. Isto significa que, em determinados casos, a arte, sem destruir o seu centro de produção simbólico-formal, pode contribuir fortemente para fornecer linguagens passíveis de ampliar novos ramos de negócios e de produtos. O exemplo da apropriação do minimalismo (ou de certas variantes do minimalismo) pelo design e pelas empresas de mobiliário, automóvel, software, etc. é um dos mais presentes.

Só uma nota breve. Nada do que eu disse acima tem um carácter de atribuir essa conexão a toda a arte actualmente produzida. E nem que toda ou até maioritariamente ela seja produzida directamente para universos empresariais. Mas que muitos vectores da arte contemporânea têm sido aproveitados economicamente disso não tenho dúvidas.

Abraço]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Jovem,</p>
<p>no que concerne à arte contemporânea existe uma identificação muito forte entre a obra, o autor e a arte. Claro que o objecto artístico se libertou (como aconteceu sempre) mas repare numa coisa. O que passou a definir a arte de Warhol em diante foi a aleatoriedade e o relativismo na definição da arte. Ou seja, tudo é arte desde que o autor assim o considere. (Aqui não me refiro tanto aos circuitos de legitimidade e de canonização mas mais ao que os indivíduos percepcionam como seu, como a sua arte). Se isto for verdade, então a passagem do que é a concepção individual da arte para o plano mais amplo da legitimação/canonização passa pela vinculação entre a marca individual do artista e a possibilidade que essa tem de ser apreciada no actual campo artístico mais vasto dos seus pares, das galerias, curadores, especialistas, etc. Você pode responder que, de certa forma, isto sempre aconteceu. E nalguma medida isto parece estar correcto. A novidade está no que você mencionou &#8220;por outro lado&#8221;. Isto é, a criação do artista-empresário do estilo Jeff Koons.<br />
Isto é possível por duas grandes ordens de razões. Primeiro, a legitimação e difusão das obras de arte num tempo em que as possibilidades de expansão da pintura se colapsaram depende também do mercado empresarial. Por exemplo, alguns dos mais relevantes prémios de artes plásticas nos EUA e no Reino Unido dependem de patrocínios de grandes empresas (BMW, Philip Morris, etc.). Isso significa que os tecnocratas das grandes transnacionais têm um impacto relevante (apesar de não ser único nem unidimensional) na definição da definição da arte hoje divulgada: tanto no plano dos prémios e na gestão de galerias, como no plano da construção de colecções de arte pelas empresas e pelos tecnocratas tomados  individualmente.<br />
Segundo, se a construção de novas formas e novos arranjos formais dentro da tela se foram esgotando e se a dimensão conceptual/visual ganhou preponderância sobre o formal em grande parte das artes plásticas dos últimos 40 anos, se portanto a arte é assim muito mais do domínio do conceptual do que do formal (o conceito é sempre uma forma e vice-versa mas não vou entrar em detalhes neste momento), então a ideação do artista expressa-se também numa certa correspondência entre formas conceptuais artísticas e formas conceptuais para-económicas. Isto significa que, em determinados casos, a arte, sem destruir o seu centro de produção simbólico-formal, pode contribuir fortemente para fornecer linguagens passíveis de ampliar novos ramos de negócios e de produtos. O exemplo da apropriação do minimalismo (ou de certas variantes do minimalismo) pelo design e pelas empresas de mobiliário, automóvel, software, etc. é um dos mais presentes.</p>
<p>Só uma nota breve. Nada do que eu disse acima tem um carácter de atribuir essa conexão a toda a arte actualmente produzida. E nem que toda ou até maioritariamente ela seja produzida directamente para universos empresariais. Mas que muitos vectores da arte contemporânea têm sido aproveitados economicamente disso não tenho dúvidas.</p>
<p>Abraço</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Jovem		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2014/07/97692/#comment-245358</link>

		<dc:creator><![CDATA[Jovem]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Aug 2014 12:25:12 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=97692#comment-245358</guid>

					<description><![CDATA[João Valente,
se o objeto artístico plástico se libertou do sujeito artista e hoje goza de sua autonomia no mundo do valor, sem ninguém ter que lhe ficar importunando a vida com perguntas desconfortáveis (afinal, o que é a arte?!);
pelo outro lado da inequação, o novo sujeito artista parece já ter encontrado seu lugar ao sol. Saiu de cena o vanguardista programático &quot;de salão&quot;, acomoda-se na poltrona agora o burocrata gestor, especialista na arte dos editais e na das boas relações.
A nossa sorte aqui em terra brasileira é que ainda restam alguns velhos Abujamras contra a caretice moderninha.

(programa Provocações entrevista o artista plástico mexicano Felipe Ehrenberg)
bloco 1  http://www.youtube.com/watch?v=xdEDMWS8188
bloco 2  http://www.youtube.com/watch?v=v5Rmfm9EX4w
bloco 3  http://www.youtube.com/watch?v=mZ_VYMWBoSk

um abraço!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Valente,<br />
se o objeto artístico plástico se libertou do sujeito artista e hoje goza de sua autonomia no mundo do valor, sem ninguém ter que lhe ficar importunando a vida com perguntas desconfortáveis (afinal, o que é a arte?!);<br />
pelo outro lado da inequação, o novo sujeito artista parece já ter encontrado seu lugar ao sol. Saiu de cena o vanguardista programático &#8220;de salão&#8221;, acomoda-se na poltrona agora o burocrata gestor, especialista na arte dos editais e na das boas relações.<br />
A nossa sorte aqui em terra brasileira é que ainda restam alguns velhos Abujamras contra a caretice moderninha.</p>
<p>(programa Provocações entrevista o artista plástico mexicano Felipe Ehrenberg)<br />
bloco 1  <a href="http://www.youtube.com/watch?v=xdEDMWS8188" rel="nofollow ugc">http://www.youtube.com/watch?v=xdEDMWS8188</a><br />
bloco 2  <a href="http://www.youtube.com/watch?v=v5Rmfm9EX4w" rel="nofollow ugc">http://www.youtube.com/watch?v=v5Rmfm9EX4w</a><br />
bloco 3  <a href="http://www.youtube.com/watch?v=mZ_VYMWBoSk" rel="nofollow ugc">http://www.youtube.com/watch?v=mZ_VYMWBoSk</a></p>
<p>um abraço!</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
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