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	Comentários sobre: Distopias purgatórias	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Lucia Brumo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/02/102865/#comment-326051</link>

		<dc:creator><![CDATA[Lucia Brumo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 10 Feb 2018 01:10:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O texto é muito bom! Gosto muito das análises de Manolo. Concordo com sua crítica a Zizek.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O texto é muito bom! Gosto muito das análises de Manolo. Concordo com sua crítica a Zizek.</p>
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		<title>
		Por: ulisses		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/02/102865/#comment-290787</link>

		<dc:creator><![CDATA[ulisses]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Jun 2015 15:25:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[KAIRONOMIA zer0WORK(ER)
Se: A eminência é parda, a imanência é negra e a iminência é rubra. 
Então: Sigamos anônimos, imprevisíveis, ocasionais e rubro-negros.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>KAIRONOMIA zer0WORK(ER)<br />
Se: A eminência é parda, a imanência é negra e a iminência é rubra.<br />
Então: Sigamos anônimos, imprevisíveis, ocasionais e rubro-negros.</p>
]]></content:encoded>
		
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		<title>
		Por: ulisses		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/02/102865/#comment-290656</link>

		<dc:creator><![CDATA[ulisses]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jun 2015 15:14:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[IMANENTISMO TRANSCENDENTAL
O comentário de humanaesfera situa a questão das distopias catárticas ou purgantopias na esfera humana - demasiado humana? - da economia política. Ou melhor, na perspectiva de sua crítica (teórica e prática), incluída a denúncia do fenômeno RACKETS e sua cotidiana banalização...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>IMANENTISMO TRANSCENDENTAL<br />
O comentário de humanaesfera situa a questão das distopias catárticas ou purgantopias na esfera humana &#8211; demasiado humana? &#8211; da economia política. Ou melhor, na perspectiva de sua crítica (teórica e prática), incluída a denúncia do fenômeno RACKETS e sua cotidiana banalização&#8230;</p>
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		<title>
		Por: humanaesfera		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/02/102865/#comment-290593</link>

		<dc:creator><![CDATA[humanaesfera]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Jun 2015 22:31:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Esse texto sobre a utopia do expurgo é bem interessante. E realmente parece ser a utopia aceita cada vez mais aceita como natural e normal, infelizmente. Acho que essa utopia aceita pela maioria da população (que se identifica como o nome vazio &quot;classe média&quot;) é  baseada na naturalização da escassez (eternização da propriedade privada): &quot;não há o suficiente para todos&quot;, portanto &quot;é preciso sujeitar as pessoas à comparação, já que é preciso avaliar quem merece e quem não merece&quot;. Segundo essa utopia, deve haver uma escala de mais merecedores e menos merecedores distribuídos numa hierarquia de cargos e recompensas (classe média, infinitamente subdivisível, de baixa baixa baixa, até alta alta alta... na qual tudo mundo é classe média em relação a alguém, mesmo o mais miserável dos miseráveis) numa ordem garantida por uma força policial elevada a um status divino, livre para matar à vontade os que &quot;se desviam&quot;. Geralmente isso é chamado de meritocracia.  Essa utopia reacionária difere apenas levemente do fascismo. O fascista apenas vai mais adiante e diz simplesmente: &quot;quem não merece deve morrer&quot; (obviamente consideram que só &quot;eles mesmos&quot; merecem, e o &quot;merecimento&quot; pode ser dado por qualquer característica aleatória que eles já possuam, cultura, etnia, raça, território, religião, gênero, mestiçagem...). 

Aproveito para compartilhar uma reflexão que acho que tem muito a ver com esse artigo:

AUTONOMIA, ESPIRAL DE VIOLÊNCIAS E APELO À FORÇA (I.E, À CLASSE DOMINANTE)
http://humanaesfera.blogspot.com.br/2015/06/autonomia-conflitos-e-apelo-classe.html]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Esse texto sobre a utopia do expurgo é bem interessante. E realmente parece ser a utopia aceita cada vez mais aceita como natural e normal, infelizmente. Acho que essa utopia aceita pela maioria da população (que se identifica como o nome vazio &#8220;classe média&#8221;) é  baseada na naturalização da escassez (eternização da propriedade privada): &#8220;não há o suficiente para todos&#8221;, portanto &#8220;é preciso sujeitar as pessoas à comparação, já que é preciso avaliar quem merece e quem não merece&#8221;. Segundo essa utopia, deve haver uma escala de mais merecedores e menos merecedores distribuídos numa hierarquia de cargos e recompensas (classe média, infinitamente subdivisível, de baixa baixa baixa, até alta alta alta&#8230; na qual tudo mundo é classe média em relação a alguém, mesmo o mais miserável dos miseráveis) numa ordem garantida por uma força policial elevada a um status divino, livre para matar à vontade os que &#8220;se desviam&#8221;. Geralmente isso é chamado de meritocracia.  Essa utopia reacionária difere apenas levemente do fascismo. O fascista apenas vai mais adiante e diz simplesmente: &#8220;quem não merece deve morrer&#8221; (obviamente consideram que só &#8220;eles mesmos&#8221; merecem, e o &#8220;merecimento&#8221; pode ser dado por qualquer característica aleatória que eles já possuam, cultura, etnia, raça, território, religião, gênero, mestiçagem&#8230;). </p>
<p>Aproveito para compartilhar uma reflexão que acho que tem muito a ver com esse artigo:</p>
<p>AUTONOMIA, ESPIRAL DE VIOLÊNCIAS E APELO À FORÇA (I.E, À CLASSE DOMINANTE)<br />
<a href="http://humanaesfera.blogspot.com.br/2015/06/autonomia-conflitos-e-apelo-classe.html" rel="nofollow ugc">http://humanaesfera.blogspot.com.br/2015/06/autonomia-conflitos-e-apelo-classe.html</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Rodrigo O. Fonseca		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/02/102865/#comment-290319</link>

		<dc:creator><![CDATA[Rodrigo O. Fonseca]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Jun 2015 17:52:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Muito bom, Manolo! - e bastante oportuno!

&quot;Em todos os casos onde o expurgo se manifesta enquanto tendência, é o Estado quem sai reforçado&quot;.

Me pergunto, porém, sem que isto configure uma crítica ao texto: não se trata também de expurgo a solução apresentada em &quot;Os despossuídos&quot;? 

Como você escreveu, os nuchnibi são os socialmente banidos da sociedade anárquica de Anarres por se recusarem a cooperar com o trabalho coletivo. São sistematicamente detonados, humilhados, preteridos, até que se retirem para outra cidade, onde haverá de acontecer a mesma coisa. Ali ninguém é enviado para a Sibéria ou para as cubanas Unidades Militares de Apoio à Produção - que, como no Brasil militarista, serviam entre outras coisas para alimentar expectativas de &quot;produzir homens de verdade&quot;.

Se há concordância que a detonação e o banimento libertário em Anarres também são formas de expurgo, não é o caso de admitir que existe ali algo como um Estado, na forma de um pacto que obriga todos a trabalharem (e que, por tabela, leva à exclusão dos que não trabalham)???]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Muito bom, Manolo! &#8211; e bastante oportuno!</p>
<p>&#8220;Em todos os casos onde o expurgo se manifesta enquanto tendência, é o Estado quem sai reforçado&#8221;.</p>
<p>Me pergunto, porém, sem que isto configure uma crítica ao texto: não se trata também de expurgo a solução apresentada em &#8220;Os despossuídos&#8221;? </p>
<p>Como você escreveu, os nuchnibi são os socialmente banidos da sociedade anárquica de Anarres por se recusarem a cooperar com o trabalho coletivo. São sistematicamente detonados, humilhados, preteridos, até que se retirem para outra cidade, onde haverá de acontecer a mesma coisa. Ali ninguém é enviado para a Sibéria ou para as cubanas Unidades Militares de Apoio à Produção &#8211; que, como no Brasil militarista, serviam entre outras coisas para alimentar expectativas de &#8220;produzir homens de verdade&#8221;.</p>
<p>Se há concordância que a detonação e o banimento libertário em Anarres também são formas de expurgo, não é o caso de admitir que existe ali algo como um Estado, na forma de um pacto que obriga todos a trabalharem (e que, por tabela, leva à exclusão dos que não trabalham)???</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: ulisses		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/02/102865/#comment-280975</link>

		<dc:creator><![CDATA[ulisses]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 28 Feb 2015 12:28:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[RACKETS &#038; BANALIZAÇÕES
Falsa questão: há vida após a morte?
Questão veraz: há vida antes da morte?
Agenciamento crítico-prático: resistir à subsunção da vida pela sobrevivência [família patriarcal, trabalho assalariado, rotina (d)e barbárie].]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>RACKETS &amp; BANALIZAÇÕES<br />
Falsa questão: há vida após a morte?<br />
Questão veraz: há vida antes da morte?<br />
Agenciamento crítico-prático: resistir à subsunção da vida pela sobrevivência [família patriarcal, trabalho assalariado, rotina (d)e barbárie].</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Manolo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/02/102865/#comment-280672</link>

		<dc:creator><![CDATA[Manolo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Feb 2015 03:47:18 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Estarei afastado da internet nos próximos dias, então não se espantem se eu &quot;largar&quot; algumas coisas aqui e não responder de imediato.

Acho que Zizek acostumou mal seus leitores. Toda interpretação de filmes depois dele precisaria ser, necessariamente, psicanalítica ou psicologizante. É bloqueada qualquer outra leitura?

Digo isso porque tratei diretamente do papel político do medo ao puxar Hobbes para a roda e dizer, com base nele, que a guerra de todos contra todos vigente pela duração da exceção purgatória desencadeia em cada um o medo do outro, e por isso reforça o Estado enquanto árbitro da relação entre eles. Falar disso é falar do psicológico, é enraizá-lo na teoria política como um de seus aspectos fundantes. 

Acho, de fato, que não podemos descartar o apelo emocional do expurgo, porque é exatamente aí, ou, melhor dizendo, no lado instintivo e irracional da psique humana (que não se restringe ao emocional), onde reside sua força. O aspecto catártico do expurgo era tão evidente, tão banal, tão lugar-comum, que foi muito conscientemente desprezado por mim. O desacorrentar de sadismos latentes é um dos objetivos do expurgo, tanto n&#039;&lt;em&gt;O Expurgo&lt;/em&gt; quanto em &lt;em&gt;Battle Royale&lt;/em&gt; e naquele episódio de &lt;em&gt;Star Trek&lt;/em&gt;, mas não se trata somente disto; não tratei desta catarse sádica no artigo porque me pareceu um aspecto tão secundário frente a outros fatores mais importantes e mais explícitos em todas as obras que não mereceu espaço algum. A questão importante não está aí, mas sim nos usos políticos da catarse sádica em cada obra, e como a narrativa de cada uma delas encontra apoio em nossa vida social.

Em suma: o problema não está em não reconhecer a manipulação política do lado irracional da psique humana. Está em saber para que lado vai a manipulação em cada momento, e como lidar com ela.

Por outro lado, parece haver contradição entre a imediatidade da punição e o reforçamento do Estado. Não é o caso.

Em primeiro lugar, é falso que esta imediatidade remeta à Idade Média europeia, assim como é falsa a imagem simplista, às vezes idílica, com que figuramos a vida em sociedade neste período histórico. A ausência de um Estado moderno e centralizado neste período não fez da punição algo imediato, algo da relação entre vítima e algoz. Pelo contrário, mesmo lá no medievo europeu a punição era prerrogativa de quem detivesse o &lt;em&gt;bannum&lt;/em&gt; e o &lt;em&gt;mundium&lt;/em&gt;, e via de regra era exercida mediante rituais de produção da verdade que variavam de lugar a lugar.

Em segundo lugar, é igualmente falso que esta imediatidade remeta a alguma prática pré-capitalista, onde quer que se queira situar este tempo-espaço anterior ao pecado original. Embora a noção específica de &quot;crime&quot; seja herdada do direito romano e reintroduzida, modificadamente, pelo direito canônico e pelos jurisconsultos também durante a Idade Média europeia, não há uma só sociedade humana que não conceba uma cosmovisão com determinada &quot;ordem&quot;, com determinado &quot;sentido&quot;, e que não haja instituído rituais de restauração à &quot;ordem&quot; sempre que ela seja violada. Estes rituais, via de regra, passam por alguma forma de mediação.

A contradição apontada só se torna real se se desconsidera que os defensores da punição imediata dificilmente passariam do desejo à ação fora de um contexto multitudinário. Esta contradição é trabalhada em vários filmes de guerra; o exemplo que me vem à cabeça agora é do melhor de todos os &quot;filmes B&quot; do gênero, &lt;em&gt;The Big Red One&lt;/em&gt;, a obra-prima memorialista de Samuel L. Fuller. Lá para as 2h18min do filme (na versão restaurada), o esquadrão dirigido pelo sargento Possum (Lee Marvin), penetrando em território alemão numa das ofensivas finais da 2ª Guerra Mundial, tem seu avanço travado por um franco-atirador nazista escondido nas ruínas de um castelo sobranceiras a uma colina; o inimigo anunciou-se ao matar um soldado estadunidense que cruzava um riacho. Ao penetrar nas ruínas com seus quatro soldados mais veteranos, o sargento capturou o inimigo sem muita dificuldade: era uma esfarrapada criança da &lt;em&gt;Hitlerjugend&lt;/em&gt;, no máximo dez, doze anos. Revoltados, os quatro incitam ao assassinato de uma criança que já havia sido desarmada. O sargento -- que, enquanto comandante de tropa em guerra, tem praticamente direito de vida e de morte sobre seus subordinados, podendo até matá-los diretamente em algumas situações -- pergunta: &quot;Todos de acordo? Matamos o menino?&quot; Todos concordam. &quot;É todo seu, Zab&quot;, e empurra o menino sobre um dos quatro soldados para que execute a sentença de morte. O soldado recua, perguntando: &quot;Por que eu?&quot;. O sargento, ainda segurando o menino pelo braço, empurra-o a outro soldado. Novo recuo. Empurrou-o a um terceiro, com o mesmo resultado. A um quarto, com o mesmo efeito. &quot;Sem voluntários, não é?&quot; Close no rosto de dois soldados. Corte. Cena seguinte: o menino está no colo do sargento, &lt;em&gt;Eisernes Kreuz&lt;/em&gt; a balançar no pescoço, levando palmadas na bunda desnuda. &quot;Heil Hitler! Heil Hitler!&quot;, gritava o menino para mostrar força e bravura durante o espancamento. Não demorou muito a mudar de um grito de guerra para um grito de desespero, já aos prantos: &quot;Papi! Papi! Papi!&quot;.

A metáfora é evidente, e é com estas pequenas jóias que Samuel L. Fuller abrilhantou sua obra cinematográfica. Todos querem matar o criminoso, todos querem retorsão, todos querem punição, todos querem... que outra pessoa o faça.  Não por acaso, na cena acima, coube ao sargento não apenas dar uma surra no menino, mas questionar o desejo assassino de cada soldado. 

Saindo do campo metafórico, poucos ousam ultrapassar a linha que separa desejo e ação. E o desejo, assim reprimido, reforça o poder de quem cada indivíduo desejante legitima a punir. Que haja punição, que ela seja rápida -- mas que quem puna seja alguém a quem se legitima o poder de punir, não eu. Sabemos a quem isso reforça.

A contradição é, assim, aparente. Se não tratei disso mais extensamente, foi porque a resposta a este desejo de punição imediata por parte de quem pede &quot;calma&quot;, &quot;moderação&quot;, &quot;racionalidade&quot; etc., costuma ser pautada pelos direitos humanos, pelo combate à violência policial, pela desmilitarização da polícia, pela efetivação do arcabouço institucional criado pela Lei Maria da Penha, pela humanização das instituições psiquiátricas... Tudo isso é importante, é inegavalmente importante, mas sabemos quem sai reforçado com estas reivindicações. Como estes pedidos de moderação costumam vir de quem está mais próximo de nós, e tem como projeto político a luta anticapitalista e a construção de uma sociedade igualitária e solidária, optei por focar nisso. Mas, a meu ver, um e outro reforçam o Estado. É só quando se passa do desejo de punição imediata à prática que a coisa muda de figura.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estarei afastado da internet nos próximos dias, então não se espantem se eu &#8220;largar&#8221; algumas coisas aqui e não responder de imediato.</p>
<p>Acho que Zizek acostumou mal seus leitores. Toda interpretação de filmes depois dele precisaria ser, necessariamente, psicanalítica ou psicologizante. É bloqueada qualquer outra leitura?</p>
<p>Digo isso porque tratei diretamente do papel político do medo ao puxar Hobbes para a roda e dizer, com base nele, que a guerra de todos contra todos vigente pela duração da exceção purgatória desencadeia em cada um o medo do outro, e por isso reforça o Estado enquanto árbitro da relação entre eles. Falar disso é falar do psicológico, é enraizá-lo na teoria política como um de seus aspectos fundantes. </p>
<p>Acho, de fato, que não podemos descartar o apelo emocional do expurgo, porque é exatamente aí, ou, melhor dizendo, no lado instintivo e irracional da psique humana (que não se restringe ao emocional), onde reside sua força. O aspecto catártico do expurgo era tão evidente, tão banal, tão lugar-comum, que foi muito conscientemente desprezado por mim. O desacorrentar de sadismos latentes é um dos objetivos do expurgo, tanto n&#8217;<em>O Expurgo</em> quanto em <em>Battle Royale</em> e naquele episódio de <em>Star Trek</em>, mas não se trata somente disto; não tratei desta catarse sádica no artigo porque me pareceu um aspecto tão secundário frente a outros fatores mais importantes e mais explícitos em todas as obras que não mereceu espaço algum. A questão importante não está aí, mas sim nos usos políticos da catarse sádica em cada obra, e como a narrativa de cada uma delas encontra apoio em nossa vida social.</p>
<p>Em suma: o problema não está em não reconhecer a manipulação política do lado irracional da psique humana. Está em saber para que lado vai a manipulação em cada momento, e como lidar com ela.</p>
<p>Por outro lado, parece haver contradição entre a imediatidade da punição e o reforçamento do Estado. Não é o caso.</p>
<p>Em primeiro lugar, é falso que esta imediatidade remeta à Idade Média europeia, assim como é falsa a imagem simplista, às vezes idílica, com que figuramos a vida em sociedade neste período histórico. A ausência de um Estado moderno e centralizado neste período não fez da punição algo imediato, algo da relação entre vítima e algoz. Pelo contrário, mesmo lá no medievo europeu a punição era prerrogativa de quem detivesse o <em>bannum</em> e o <em>mundium</em>, e via de regra era exercida mediante rituais de produção da verdade que variavam de lugar a lugar.</p>
<p>Em segundo lugar, é igualmente falso que esta imediatidade remeta a alguma prática pré-capitalista, onde quer que se queira situar este tempo-espaço anterior ao pecado original. Embora a noção específica de &#8220;crime&#8221; seja herdada do direito romano e reintroduzida, modificadamente, pelo direito canônico e pelos jurisconsultos também durante a Idade Média europeia, não há uma só sociedade humana que não conceba uma cosmovisão com determinada &#8220;ordem&#8221;, com determinado &#8220;sentido&#8221;, e que não haja instituído rituais de restauração à &#8220;ordem&#8221; sempre que ela seja violada. Estes rituais, via de regra, passam por alguma forma de mediação.</p>
<p>A contradição apontada só se torna real se se desconsidera que os defensores da punição imediata dificilmente passariam do desejo à ação fora de um contexto multitudinário. Esta contradição é trabalhada em vários filmes de guerra; o exemplo que me vem à cabeça agora é do melhor de todos os &#8220;filmes B&#8221; do gênero, <em>The Big Red One</em>, a obra-prima memorialista de Samuel L. Fuller. Lá para as 2h18min do filme (na versão restaurada), o esquadrão dirigido pelo sargento Possum (Lee Marvin), penetrando em território alemão numa das ofensivas finais da 2ª Guerra Mundial, tem seu avanço travado por um franco-atirador nazista escondido nas ruínas de um castelo sobranceiras a uma colina; o inimigo anunciou-se ao matar um soldado estadunidense que cruzava um riacho. Ao penetrar nas ruínas com seus quatro soldados mais veteranos, o sargento capturou o inimigo sem muita dificuldade: era uma esfarrapada criança da <em>Hitlerjugend</em>, no máximo dez, doze anos. Revoltados, os quatro incitam ao assassinato de uma criança que já havia sido desarmada. O sargento &#8212; que, enquanto comandante de tropa em guerra, tem praticamente direito de vida e de morte sobre seus subordinados, podendo até matá-los diretamente em algumas situações &#8212; pergunta: &#8220;Todos de acordo? Matamos o menino?&#8221; Todos concordam. &#8220;É todo seu, Zab&#8221;, e empurra o menino sobre um dos quatro soldados para que execute a sentença de morte. O soldado recua, perguntando: &#8220;Por que eu?&#8221;. O sargento, ainda segurando o menino pelo braço, empurra-o a outro soldado. Novo recuo. Empurrou-o a um terceiro, com o mesmo resultado. A um quarto, com o mesmo efeito. &#8220;Sem voluntários, não é?&#8221; Close no rosto de dois soldados. Corte. Cena seguinte: o menino está no colo do sargento, <em>Eisernes Kreuz</em> a balançar no pescoço, levando palmadas na bunda desnuda. &#8220;Heil Hitler! Heil Hitler!&#8221;, gritava o menino para mostrar força e bravura durante o espancamento. Não demorou muito a mudar de um grito de guerra para um grito de desespero, já aos prantos: &#8220;Papi! Papi! Papi!&#8221;.</p>
<p>A metáfora é evidente, e é com estas pequenas jóias que Samuel L. Fuller abrilhantou sua obra cinematográfica. Todos querem matar o criminoso, todos querem retorsão, todos querem punição, todos querem&#8230; que outra pessoa o faça.  Não por acaso, na cena acima, coube ao sargento não apenas dar uma surra no menino, mas questionar o desejo assassino de cada soldado. </p>
<p>Saindo do campo metafórico, poucos ousam ultrapassar a linha que separa desejo e ação. E o desejo, assim reprimido, reforça o poder de quem cada indivíduo desejante legitima a punir. Que haja punição, que ela seja rápida &#8212; mas que quem puna seja alguém a quem se legitima o poder de punir, não eu. Sabemos a quem isso reforça.</p>
<p>A contradição é, assim, aparente. Se não tratei disso mais extensamente, foi porque a resposta a este desejo de punição imediata por parte de quem pede &#8220;calma&#8221;, &#8220;moderação&#8221;, &#8220;racionalidade&#8221; etc., costuma ser pautada pelos direitos humanos, pelo combate à violência policial, pela desmilitarização da polícia, pela efetivação do arcabouço institucional criado pela Lei Maria da Penha, pela humanização das instituições psiquiátricas&#8230; Tudo isso é importante, é inegavalmente importante, mas sabemos quem sai reforçado com estas reivindicações. Como estes pedidos de moderação costumam vir de quem está mais próximo de nós, e tem como projeto político a luta anticapitalista e a construção de uma sociedade igualitária e solidária, optei por focar nisso. Mas, a meu ver, um e outro reforçam o Estado. É só quando se passa do desejo de punição imediata à prática que a coisa muda de figura.</p>
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		<title>
		Por: Lucas		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/02/102865/#comment-280605</link>

		<dc:creator><![CDATA[Lucas]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Feb 2015 14:26:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[impossível não pensar em Zizek ao se fazer análise de filmes em chave ideológica.
Concordo com o Leo: o expurgo parece ser um convite à satisfação de desejos. No capitalismo de consumidores, quem manda é o imperativo &quot;goze!&quot;, a ultra-permissividade visa nos inibir completamente de culpa, a impulsividade é sinônimo de individualidade. Seria o medo à essa permissividade sem limites uma face conservadora, que acusa a falta de limites do capitalismo atual?

Mas fico pensando: a imediates da punição e o reforçamento do Estado, não seriam polos opostos? Ao menos do Estado em sua forma moderna.

Já que estamos falando em cultura popular, me vem à mente a série &quot;Game of Thrones&quot;, que consegue curiosamente colocar em pauta temas absolutamente contemporâneos num mundo fantástico (migração populacional, instabilidades geo-políticas, etc). O que vemos no roteiro da série é o desabamento de uma ordem mundial razoavelmente estabelecida e centralizada, o que leva à completa fragmentação política. O Estado monárquico dá espaço ao feudalismo mais básico. O Estado deixa de ser uma ordem vigente, um imaginário social estável, e regride para um contexto de vários pequenos Estados, já não pautados por uma ordem social mas sim pela dominação militar.
Costumo pensar nesse tipo de contexto quando leio ou ouço os argumentos dos que defendem práticas &quot;pré-capitalistas&quot;. Me parece que a imediates das punições tem a ver não com o reforçamento do Estado moderno, mas sim com o do Estado pre-capitalista, da simples imposição da força por mãos de quem se achar no dever, assim motivado pela fragmentação dos poderes vigentes. Pois desse Estado não se espera justiça, apenas controle pela força. Acredito que Hobbes fazia justamente a defesa de uma força estatal que estivesse acima disso, que englobasse também outros campos do imaginário social, como a religião, para impedir que o Estado fosse apenas um controle de força e para que ele se tornasse uma garantia de paz social por cima das diferenças entre súditos.
E é nesse sentido que parece estar o interessante dos exemplos trazidos no final do texto: a consciência da necessidade de uma mediação (traduzível como um imaginário social de justiça) feita pelos próprios sujeitos, sem o apelo ao Leviatã como garantia de paz.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>impossível não pensar em Zizek ao se fazer análise de filmes em chave ideológica.<br />
Concordo com o Leo: o expurgo parece ser um convite à satisfação de desejos. No capitalismo de consumidores, quem manda é o imperativo &#8220;goze!&#8221;, a ultra-permissividade visa nos inibir completamente de culpa, a impulsividade é sinônimo de individualidade. Seria o medo à essa permissividade sem limites uma face conservadora, que acusa a falta de limites do capitalismo atual?</p>
<p>Mas fico pensando: a imediates da punição e o reforçamento do Estado, não seriam polos opostos? Ao menos do Estado em sua forma moderna.</p>
<p>Já que estamos falando em cultura popular, me vem à mente a série &#8220;Game of Thrones&#8221;, que consegue curiosamente colocar em pauta temas absolutamente contemporâneos num mundo fantástico (migração populacional, instabilidades geo-políticas, etc). O que vemos no roteiro da série é o desabamento de uma ordem mundial razoavelmente estabelecida e centralizada, o que leva à completa fragmentação política. O Estado monárquico dá espaço ao feudalismo mais básico. O Estado deixa de ser uma ordem vigente, um imaginário social estável, e regride para um contexto de vários pequenos Estados, já não pautados por uma ordem social mas sim pela dominação militar.<br />
Costumo pensar nesse tipo de contexto quando leio ou ouço os argumentos dos que defendem práticas &#8220;pré-capitalistas&#8221;. Me parece que a imediates das punições tem a ver não com o reforçamento do Estado moderno, mas sim com o do Estado pre-capitalista, da simples imposição da força por mãos de quem se achar no dever, assim motivado pela fragmentação dos poderes vigentes. Pois desse Estado não se espera justiça, apenas controle pela força. Acredito que Hobbes fazia justamente a defesa de uma força estatal que estivesse acima disso, que englobasse também outros campos do imaginário social, como a religião, para impedir que o Estado fosse apenas um controle de força e para que ele se tornasse uma garantia de paz social por cima das diferenças entre súditos.<br />
E é nesse sentido que parece estar o interessante dos exemplos trazidos no final do texto: a consciência da necessidade de uma mediação (traduzível como um imaginário social de justiça) feita pelos próprios sujeitos, sem o apelo ao Leviatã como garantia de paz.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: ULISSES		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/02/102865/#comment-280599</link>

		<dc:creator><![CDATA[ULISSES]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Feb 2015 13:12:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[DO TÍTULO ou PLAY IT AGAIN, MANOLO...
Distopias catárticas talvez fosse melhor, por coerência idiomática. Outra sugestão: purgantopia, incoerente e patafísica. EREWHON!AXÉ!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>DO TÍTULO ou PLAY IT AGAIN, MANOLO&#8230;<br />
Distopias catárticas talvez fosse melhor, por coerência idiomática. Outra sugestão: purgantopia, incoerente e patafísica. EREWHON!AXÉ!</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Leo Vinicius		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/02/102865/#comment-280536</link>

		<dc:creator><![CDATA[Leo Vinicius]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Feb 2015 23:23:51 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=102865#comment-280536</guid>

					<description><![CDATA[Bem interessante o texto e as reflexões.

Mas vou tocar num ponto que não foi o foco do texto, ou das reflexões mais ao final dele.

Para pegar o exemplo do primeiro filme que o texto aborda, &quot;O Expurgo&quot;, o que ficou de fora das reflexões são as motivações e razões para as ações de &quot;expurgo&quot;.
O que quero dizer com isso é: e se o medo for o objetivo? E se a busca de prazer sádico e de dar vazão a um determinado desejo (perverso) estiver entre as motivações?
Se for o caso, não basta mostrar que criar medo no outro é uma forma de reforçar o Estado, àqueles de suposto espírito libertário.

Num bom e longo artigo sobre o ISIS, ao final o jornalista cita Orwell:

&quot;Psicologicamente o fascismo é mais sólido que qualquer concepção de vida hedonista. Enquanto o socialismo, e o capitalismo de forma mais relutante, tem dito às pessoas &quot;Eu ofereço a vocês uma boa vida&quot;, Hitler disse a elas, &quot;Eu ofereço a vocês luta, perigo e morte&quot;, e como resultado uma nação inteira arremessa-se a seus pés... Não devemos subestimar o seu apelo emocional&quot;.

Não devemos subestimar o apelo emocional do expurgo, parafraseando. 
Esse é o grande problema a enfrentar nessa onda conservadora e protofascista que atravessa todo o espectro político e social, pelo menos por essas terras.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Bem interessante o texto e as reflexões.</p>
<p>Mas vou tocar num ponto que não foi o foco do texto, ou das reflexões mais ao final dele.</p>
<p>Para pegar o exemplo do primeiro filme que o texto aborda, &#8220;O Expurgo&#8221;, o que ficou de fora das reflexões são as motivações e razões para as ações de &#8220;expurgo&#8221;.<br />
O que quero dizer com isso é: e se o medo for o objetivo? E se a busca de prazer sádico e de dar vazão a um determinado desejo (perverso) estiver entre as motivações?<br />
Se for o caso, não basta mostrar que criar medo no outro é uma forma de reforçar o Estado, àqueles de suposto espírito libertário.</p>
<p>Num bom e longo artigo sobre o ISIS, ao final o jornalista cita Orwell:</p>
<p>&#8220;Psicologicamente o fascismo é mais sólido que qualquer concepção de vida hedonista. Enquanto o socialismo, e o capitalismo de forma mais relutante, tem dito às pessoas &#8220;Eu ofereço a vocês uma boa vida&#8221;, Hitler disse a elas, &#8220;Eu ofereço a vocês luta, perigo e morte&#8221;, e como resultado uma nação inteira arremessa-se a seus pés&#8230; Não devemos subestimar o seu apelo emocional&#8221;.</p>
<p>Não devemos subestimar o apelo emocional do expurgo, parafraseando.<br />
Esse é o grande problema a enfrentar nessa onda conservadora e protofascista que atravessa todo o espectro político e social, pelo menos por essas terras.</p>
]]></content:encoded>
		
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