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	Comentários sobre: À base de quê? Pequenas polêmicas sobre o autonomismo	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Lucas		</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Lucas]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Sep 2015 17:05:38 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Fagner, 

Creio que existem 2 níveis de discussão aqui. Sobre as massas e os trabalhadores, os programas de fato não costumam ser o que os aglutina ou os mobiliza, ao menos não num momento como o atual. Mas temos exemplos de momentos históricos em nosso continente onde o socialismo foi sim um polo aglutinador e de mobilização de massas. Está, é claro, relacionado a um contexto histórico onde o socialismo era uma realidade palpável, ou seja, alternativa à sociedade capitalista, mesmo com todos os defeitos dos regimes: a possibilidade de implantar um socialismo em uma versão local realmente colocava massas de alguns países em movimento, penso especificamente no Chile e na Argentina dos anos 60&#039; e 70&#039;. Não acho que o ideal seria &quot;reatualizar&quot; esse momento, algo muito pouco dialético, mas como dado histórico sabemos que as massas podem sim estar mais próximas ou mais afastadas das alternativas programáticas ao capitalismo, elas não são naturalmente alheias a um programa de sociedade. 

No nível da militância, eu acredito que há sim uma divisão de fundo que se não é exatamente &quot;teórica&quot;, é ao menos ligada às tradições políticas, que historicamente estão vinculadas tanto à prática quanto à teoria. As teorias são capazes de formular práticas não a partir do vácuo, mas no sentido em que elas organizam e sistematizam práticas com uma intencionalidade. Da mesma forma, uma prática pode ser revolucionária apenas na medida em que ela tem intenção. Uma prática revolucionária sem intenção (revolucionária) ou teoria (revolucionária) é uma contradição que facilmente cai numa espécie de revolução coca-cola, auto-elogiando-se sem uma finalidade que não seja ela mesma. Os black-blocs são um exemplo de prática radical que fica na esfera do espetáculo e que tem por finalidade a si mesma. Não tenho dúvidas de que quebrar coisas será parte das práticas efetuadas durante uma verdadeira revolução, mas isso não faz do quebra-quebra dos black blocs uma prática revolucionária.

Talvez entraríamos num debate já próximo à filosofia se vamos aprofundar sobre em que sentidos a teoria e a prática devem confundir-se mas também diferenciar-se. A formação política é importante para que os trabalhadores de hoje possam nutrir-se da história da classe e dos métodos de luta dela, para entender como certas práticas e métodos transcendem  os objetivos diretos de cada caso. 
Ler, estudar e debater é algo que grupos de estudo bíblico também fazem e não é uma prática revolucionária se não contar com um conteúdo abertamente crítico. A leitura de textos revolucionários não causa a revolução de forma abstrata, ela provoca efeitos nos indivíduos e nas suas atuações coletivas, não se distancia da esfera mais ampla da educação. A formação e a auto-formação política em si mesmas já são prática revolucionária que só existe a partir do momento em que existe algo para ser lido (ou algum pensamento a ser debatido. Tanto texto como pensamento podem ser sobre algo material, uma prática, um evento, ou algum tópico mais abstrato). Como você bem diz, isso não é garantia de nada, mas tampouco se trata de algo que possa ser ignorado. Espalhar textos esperando que sejam lidos é fantasioso e messiânico, dogmático se pensamos que os textos serão entendidos exatamente como nós os entendemos. Mas não é possível avançar para um momento ofensivo se a própria classe trabalhadora, por meio de indivíduos muito materiais, de carne e osso, não tomam para si a tarefa de formar-se e propor os caminhos locais que levam a um destino coletivo e universal, em direção a algo que ainda não existe e por isso só pode ser vislumbrado como abstração. Isso não se faz com textos iluminados, isso se faz com formação coletiva, com debates de pequenos grupos onde o texto serve apenas de apoio, mas sem ele não há piso comum. E quanto mais frágil o piso comum, mais provável a ruptura.

Você mesmo já escreveu em outro texto a respeito da necessidade de que o autonomismo se reproduza não apenas com convocatórias de  manifestações, mas como forma de auto-organização dos trabalhadores. E se o MPL merece muito mérito por tirar o Brasil da letargia lulista, cabe já o balanço organizativo e desde maio de 2014, com o texto sobre o limite da tática da revolta popular, desde então quase todas as avaliações sobre o pós-2013 do MPL tem sido bastante complicadas, mostrando vários obstáculos para esse processo de reprodução organizativa. Creio que ambos estamos aqui também tentando pensar isso, fazer teoria, para buscar formas de se avançar e superar (não para &quot;abandonar e ir por outro lado&quot;) nesse processo, digamos assim, reprodutivo das práticas e organizações do autonomismo. Eu acredito que o rompimento de setores do MPL, como toda crise, tem um lado positivo e um negativo. O lado positivo é o lugar comum de que novas coisas podem surgir... O lado negativo, ao meu ver, é que justamente devido à forma híbrida da organização, essa ruptura representa uma desorganização deste setor classista que integrava a organização. Não apenas uma ruptura política, como por exemplo deixar de construir uma frente de lutas, mas uma ruptura organizativa de algo que tinha anos de acúmulo. E outro indício negativo é que não se tratou de algo que se exauriu, algo que foi &quot;encerrado&quot; de forma política, mas sim de uma ruptura militante, por mais que alguns membros façam essa leitura teórica no momento de desvincular-se, é claramente uma leitura individual e não coletiva, um (necessário, creio) ato militante e não uma construção coletiva de leitura [ao menos foi assim que a coisa foi expressa no âmbito público, em SP e na BA, a partir da somatória de diferentes cartas de desvinculação assinadas por uma, duas ou três pessoas, em diferentes momentos. Eram individuais por mais que apontassem para a mesma direção].
Outra questão que eu levanto a respeito da reprodutividade do MPL é se ele realmente foi capaz de oferecer-se como exemplo a ser seguido, ou se a partir de 2013 foram outras as formas de organização que acabaram &quot;capitalizando&quot; a mobilização generalizada. Eu acredito que existem ganhos mais além do que poderia ser contabilizado, especialmente no que diz respeito ao imaginário social; e no entanto, sem militância é capaz que não houvesse junho de 2013, se não houvesse um grupo militante fazendo trabalho de base e organizando manifestações há anos (sem dúvida &quot;algo&quot; ocorreria mesmo sem o MPL, mas considerando que 2014 foi ano de Copa e sua correspondente repressão desmedida, talvez a explosão do consenso lulista tardasse um ou dois anos mais, ou talvez aparecesse de outras formas mais próximas à direita, haja visto o potencial acumulado que a extrema-direita hoje demonstra). As vezes me parece que o autonomismo sofre muito de seu próprio veneno, quando critica os aparelhos partidários e suas lógicas de seita religiosa, muitos autonomistas terminam substituindo o proselitismo partidário por uma soberba sectária, internalizando a lógica de seita, como se nós não tivéssemos nenhuma mensagem, nada de importante para dizer à população, já que 1) ou ela já o sabe secretamente; 2) ou o próprio ato de defender nossa visão das coisas representa um ato autoritário que supõe a posse de uma verdade absoluta. Ou seja, ou possuímos uma verdade tão verdadeira que não faz falta nenhuma anunciá-la, ou todos somo tão idiotas que seria um crime pensar que somos menos idiotas que os demais. Em ambos casos o que se consegue é evitar o debate e o conflito de ideias.  Obviamente que estou esboçando aqui um estereotipo do senso comum, mas se o faço é porque me parece que ele deve ser abertamente combatido, e combater isso é uma prática que requer discurso e &quot;teoria&quot;, um discurso com um conteúdo que vá mais além do senso comum. Anunciar coisas também é uma prática, especialmente quando sabemos que essa anunciação causa efeitos e reações.

Tudo isso tem a ver com a crítica que na minha opinião o autonomismo deve fazer aos elementos mais reacionários que simpatizam com as organizações a-partidárias, os quais formaram um setor não menor dos simpatizantes que o MPL ganhou em 2013. Essa crítica teria o valor de impulsar os demais elementos (e possivelmente os criticados também) a tomarem posição na questão da auto-organização, superando a tática de abster-se dos espaços de disputa onde os partidos dogmáticos estão presentes para darem o passo de atuar ali sabendo que os problemas dos partidos dogmáticos não se combate entregando a eles a liberdade para aparelharem tudo, mas sim auto-organizando-se e pressionando pela base. Mas para pressionar pela base é necessário estar disposto a debater e entrar em conflito, e eventualmente formar-se para poder responder ao discurso cristalizado e repetitivo dos dogmáticos. Isso não se faz por meio de consensos, nem evitando todo o contato com os grupos organizados de forma tradicional, muito pelo contrário.

A outra opção é que o autonomismo seja apenas mais uma designação laxa como &quot;esquerda&quot;. Escamotear as diferenças de fundo sem marcar as posições é uma estratégia que facilmente dá margens para o oportunismo e para as políticas mais reacionárias, como bem estamos vendo nas diferentes &quot;frentes de esquerda&quot; que estão tentando ser construídas nesse exato momento no Brasil. Devem haver concordâncias mínimas, mas com a clareza de quem são as partes concordantes, algo que parece estar ocorrendo agora apenas como resultado de uma crise destas mesmas concordâncias.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fagner, </p>
<p>Creio que existem 2 níveis de discussão aqui. Sobre as massas e os trabalhadores, os programas de fato não costumam ser o que os aglutina ou os mobiliza, ao menos não num momento como o atual. Mas temos exemplos de momentos históricos em nosso continente onde o socialismo foi sim um polo aglutinador e de mobilização de massas. Está, é claro, relacionado a um contexto histórico onde o socialismo era uma realidade palpável, ou seja, alternativa à sociedade capitalista, mesmo com todos os defeitos dos regimes: a possibilidade de implantar um socialismo em uma versão local realmente colocava massas de alguns países em movimento, penso especificamente no Chile e na Argentina dos anos 60&#8242; e 70&#8242;. Não acho que o ideal seria &#8220;reatualizar&#8221; esse momento, algo muito pouco dialético, mas como dado histórico sabemos que as massas podem sim estar mais próximas ou mais afastadas das alternativas programáticas ao capitalismo, elas não são naturalmente alheias a um programa de sociedade. </p>
<p>No nível da militância, eu acredito que há sim uma divisão de fundo que se não é exatamente &#8220;teórica&#8221;, é ao menos ligada às tradições políticas, que historicamente estão vinculadas tanto à prática quanto à teoria. As teorias são capazes de formular práticas não a partir do vácuo, mas no sentido em que elas organizam e sistematizam práticas com uma intencionalidade. Da mesma forma, uma prática pode ser revolucionária apenas na medida em que ela tem intenção. Uma prática revolucionária sem intenção (revolucionária) ou teoria (revolucionária) é uma contradição que facilmente cai numa espécie de revolução coca-cola, auto-elogiando-se sem uma finalidade que não seja ela mesma. Os black-blocs são um exemplo de prática radical que fica na esfera do espetáculo e que tem por finalidade a si mesma. Não tenho dúvidas de que quebrar coisas será parte das práticas efetuadas durante uma verdadeira revolução, mas isso não faz do quebra-quebra dos black blocs uma prática revolucionária.</p>
<p>Talvez entraríamos num debate já próximo à filosofia se vamos aprofundar sobre em que sentidos a teoria e a prática devem confundir-se mas também diferenciar-se. A formação política é importante para que os trabalhadores de hoje possam nutrir-se da história da classe e dos métodos de luta dela, para entender como certas práticas e métodos transcendem  os objetivos diretos de cada caso.<br />
Ler, estudar e debater é algo que grupos de estudo bíblico também fazem e não é uma prática revolucionária se não contar com um conteúdo abertamente crítico. A leitura de textos revolucionários não causa a revolução de forma abstrata, ela provoca efeitos nos indivíduos e nas suas atuações coletivas, não se distancia da esfera mais ampla da educação. A formação e a auto-formação política em si mesmas já são prática revolucionária que só existe a partir do momento em que existe algo para ser lido (ou algum pensamento a ser debatido. Tanto texto como pensamento podem ser sobre algo material, uma prática, um evento, ou algum tópico mais abstrato). Como você bem diz, isso não é garantia de nada, mas tampouco se trata de algo que possa ser ignorado. Espalhar textos esperando que sejam lidos é fantasioso e messiânico, dogmático se pensamos que os textos serão entendidos exatamente como nós os entendemos. Mas não é possível avançar para um momento ofensivo se a própria classe trabalhadora, por meio de indivíduos muito materiais, de carne e osso, não tomam para si a tarefa de formar-se e propor os caminhos locais que levam a um destino coletivo e universal, em direção a algo que ainda não existe e por isso só pode ser vislumbrado como abstração. Isso não se faz com textos iluminados, isso se faz com formação coletiva, com debates de pequenos grupos onde o texto serve apenas de apoio, mas sem ele não há piso comum. E quanto mais frágil o piso comum, mais provável a ruptura.</p>
<p>Você mesmo já escreveu em outro texto a respeito da necessidade de que o autonomismo se reproduza não apenas com convocatórias de  manifestações, mas como forma de auto-organização dos trabalhadores. E se o MPL merece muito mérito por tirar o Brasil da letargia lulista, cabe já o balanço organizativo e desde maio de 2014, com o texto sobre o limite da tática da revolta popular, desde então quase todas as avaliações sobre o pós-2013 do MPL tem sido bastante complicadas, mostrando vários obstáculos para esse processo de reprodução organizativa. Creio que ambos estamos aqui também tentando pensar isso, fazer teoria, para buscar formas de se avançar e superar (não para &#8220;abandonar e ir por outro lado&#8221;) nesse processo, digamos assim, reprodutivo das práticas e organizações do autonomismo. Eu acredito que o rompimento de setores do MPL, como toda crise, tem um lado positivo e um negativo. O lado positivo é o lugar comum de que novas coisas podem surgir&#8230; O lado negativo, ao meu ver, é que justamente devido à forma híbrida da organização, essa ruptura representa uma desorganização deste setor classista que integrava a organização. Não apenas uma ruptura política, como por exemplo deixar de construir uma frente de lutas, mas uma ruptura organizativa de algo que tinha anos de acúmulo. E outro indício negativo é que não se tratou de algo que se exauriu, algo que foi &#8220;encerrado&#8221; de forma política, mas sim de uma ruptura militante, por mais que alguns membros façam essa leitura teórica no momento de desvincular-se, é claramente uma leitura individual e não coletiva, um (necessário, creio) ato militante e não uma construção coletiva de leitura [ao menos foi assim que a coisa foi expressa no âmbito público, em SP e na BA, a partir da somatória de diferentes cartas de desvinculação assinadas por uma, duas ou três pessoas, em diferentes momentos. Eram individuais por mais que apontassem para a mesma direção].<br />
Outra questão que eu levanto a respeito da reprodutividade do MPL é se ele realmente foi capaz de oferecer-se como exemplo a ser seguido, ou se a partir de 2013 foram outras as formas de organização que acabaram &#8220;capitalizando&#8221; a mobilização generalizada. Eu acredito que existem ganhos mais além do que poderia ser contabilizado, especialmente no que diz respeito ao imaginário social; e no entanto, sem militância é capaz que não houvesse junho de 2013, se não houvesse um grupo militante fazendo trabalho de base e organizando manifestações há anos (sem dúvida &#8220;algo&#8221; ocorreria mesmo sem o MPL, mas considerando que 2014 foi ano de Copa e sua correspondente repressão desmedida, talvez a explosão do consenso lulista tardasse um ou dois anos mais, ou talvez aparecesse de outras formas mais próximas à direita, haja visto o potencial acumulado que a extrema-direita hoje demonstra). As vezes me parece que o autonomismo sofre muito de seu próprio veneno, quando critica os aparelhos partidários e suas lógicas de seita religiosa, muitos autonomistas terminam substituindo o proselitismo partidário por uma soberba sectária, internalizando a lógica de seita, como se nós não tivéssemos nenhuma mensagem, nada de importante para dizer à população, já que 1) ou ela já o sabe secretamente; 2) ou o próprio ato de defender nossa visão das coisas representa um ato autoritário que supõe a posse de uma verdade absoluta. Ou seja, ou possuímos uma verdade tão verdadeira que não faz falta nenhuma anunciá-la, ou todos somo tão idiotas que seria um crime pensar que somos menos idiotas que os demais. Em ambos casos o que se consegue é evitar o debate e o conflito de ideias.  Obviamente que estou esboçando aqui um estereotipo do senso comum, mas se o faço é porque me parece que ele deve ser abertamente combatido, e combater isso é uma prática que requer discurso e &#8220;teoria&#8221;, um discurso com um conteúdo que vá mais além do senso comum. Anunciar coisas também é uma prática, especialmente quando sabemos que essa anunciação causa efeitos e reações.</p>
<p>Tudo isso tem a ver com a crítica que na minha opinião o autonomismo deve fazer aos elementos mais reacionários que simpatizam com as organizações a-partidárias, os quais formaram um setor não menor dos simpatizantes que o MPL ganhou em 2013. Essa crítica teria o valor de impulsar os demais elementos (e possivelmente os criticados também) a tomarem posição na questão da auto-organização, superando a tática de abster-se dos espaços de disputa onde os partidos dogmáticos estão presentes para darem o passo de atuar ali sabendo que os problemas dos partidos dogmáticos não se combate entregando a eles a liberdade para aparelharem tudo, mas sim auto-organizando-se e pressionando pela base. Mas para pressionar pela base é necessário estar disposto a debater e entrar em conflito, e eventualmente formar-se para poder responder ao discurso cristalizado e repetitivo dos dogmáticos. Isso não se faz por meio de consensos, nem evitando todo o contato com os grupos organizados de forma tradicional, muito pelo contrário.</p>
<p>A outra opção é que o autonomismo seja apenas mais uma designação laxa como &#8220;esquerda&#8221;. Escamotear as diferenças de fundo sem marcar as posições é uma estratégia que facilmente dá margens para o oportunismo e para as políticas mais reacionárias, como bem estamos vendo nas diferentes &#8220;frentes de esquerda&#8221; que estão tentando ser construídas nesse exato momento no Brasil. Devem haver concordâncias mínimas, mas com a clareza de quem são as partes concordantes, algo que parece estar ocorrendo agora apenas como resultado de uma crise destas mesmas concordâncias.</p>
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		<title>
		Por: Fagner Enrique		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/08/105836/#comment-299691</link>

		<dc:creator><![CDATA[Fagner Enrique]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Sep 2015 19:28:12 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Lucas,

Eu concordo que, dentro do que se chama de autonomismo, não existe uma base teórica consolidada. Esse é o ideal, pois, havendo uma base teórica consolidada, a guiar a ação, as formulações táticas e estratégicas das organizações são potencializadas, potencializando-se, por conseguinte, as lutas sociais. Contudo, por um lado, não é isso que, no fundo, aglutina militantes, e, por outro, a existência de uma base teórica consolidada não constitui qualquer garantia contra erros de formulação tática e estratégica, e um conjunto de organizações bem equipadas teoricamente pode fracassar tanto quanto um conjunto de organizações mal equipadas teoricamente.

Pensar que uma base teórica consolidada é o elemento aglutinador de militantes é pensar que a ideologia é capaz de suscitar alguma prática, é pensar que, combinando ideologia revolucionária e proletariado, temos, como resultado, como síntese, a revolução proletária. A prática revolucionária dar-se-ia, supostamente, então, conforme a ideologia revolucionária, o que significa, colocado de outro modo, que, sem uma base teórica consolidada, não pode existir prática revolucionária. No entanto, não é preciso que haja teoria revolucionária, para que haja prática revolucionária.
 
Em primeiro lugar, eu acho que qualquer base teórica, qualquer ideologia, enfim, é incapaz de suscitar qualquer prática. Quando teorias, quando ideologias, emanam diretamente da prática, elas se confundem com a prática. Quando teorias, ideologias, não emanam diretamente da prática, conseguimos perceber, mesmo que tardiamente, uma defasagem entre representação e realidade. Mas, na verdade, é a própria prática, e não teorias ou ideologias, que dá este ou aquele conteúdo à luta. Fosse de outro modo, bastaria que fizéssemos chegar aos trabalhadores os nossos textos, ou os textos produzidos pelos revolucionários do passado, para que eles saíssem às ruas, tomassem as fábricas, criassem comunas agrícolas, tomassem o controle da produção e, por fim, derrubassem o Estado. Interessa, no entanto, definir qual prática, especificamente, dá este ou aquele conteúdo à luta.

Não existe, no campo autônomo, é verdade, um esforço sistemático de teorização e de formulação tática e estratégica. Trata-se de uma deficiência. Isso não significa, porém, que o autonomismo não seja uma “perspectiva” de ação. Toda prática se expressa ideologicamente e toda ideologia sempre é um corpo sistematizado de ideias, mesmo que não pareça e mesmo que tais ideias sejam sistematizadas de modo incoerente, como ocorre com relação ao autonomismo.

Sendo assim, em segundo lugar, o que aglutina os trabalhadores não é a teoria mas a articulação entre, de um lado, demandas proletárias e, de outro, um quadro no qual as classes capitalistas não são capazes de incorporar tais demandas, de modo que não reste alternativa aos trabalhadores, senão a luta. Esse quadro pode ser local. Na verdade, geralmente é local, e é por isso que estouram lutas, localmente, aqui e ali. Se estamos falando em luta de classes, devemos ter em mente que é o choque entre as classes que suscita qualquer luta. No entanto, de um ponto de vista gramsciano, o que inibe a resposta revolucionária é a hegemonia ideológica das classes dominantes, ao passo que, do ponto de vista de certo estruturalismo, o que inibe a resposta revolucionária é, por diversas razões, a &quot;superestrutura&quot;. Mas, na verdade, o que inibe tal resposta é o fato de que, pela incorporação das demandas dos trabalhadores, sempre combinada à repressão, as classes dominantes conseguem prendê-los na teia de relações sociais que reforçam o capitalismo. Em certos momentos, porém, as classes dominantes perdem o controle da situação, e, em outros momentos ainda, isso ocorre numa dimensão que transcende o plano local. Nesses casos, a necessidade de participar ativamente desse tipo de luta se verifica em vários lugares, e o poder das classes dominantes é desafiado nacionalmente.

O grande erro das esquerdas é pensar que os refluxos se devem à orientação teórica, ou ideológica, deste ou daquele grupo, e os próprios autonomistas incorrem nesse erro. Os refluxos, no entanto, se devem à capacidade das classes capitalistas de incorporarem as demandas dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que dirigem a repressão àqueles grupos de militantes cujas demandas não podem ser incorporadas. Por outro lado, a incapacidade das organizações de esquerda de se massificarem deve-se a outros fatores.

Eu acho que defender a autonomia, hoje, é defender que as organizações devem: 1) incluir demandas proletárias que respondam adequadamente aos golpes vindos das classes capitalistas, de modo que os trabalhadores reconheçam os seus interesses nas palavras de ordem e nas reivindicações apresentadas; 2) incluir formas de participação não enquadradas em formas de organização burocráticas e doutrinárias; 3) valorizar a espontaneidade e a criatividade dos trabalhadores, mas sem coibir a crítica aberta, mesmo que sejam os próprios trabalhadores, em sua espontaneidade e criatividade, o alvo da crítica; 4) zelar pela solidariedade de classe, em oposição a outros tipos de solidariedade; 5) incluir uma luta contra opressões específicas, de gênero, de raça etc., mas sem que essa luta se converta num fator de desagregação da solidariedade de classe; 6) lutar pelo aumento da incorporação de valor (tempo de trabalho) na força de trabalho, mas sem permitir que as classes capitalistas compensem a maior incorporação de valor na força de trabalho com uma incorporação maior ainda de valor no capital, pelo recurso à mais-valia relativa, o que reforça o poder capitalista no interior das empresas; 7) lutar contra a canalização das demandas proletárias para dentro do Estado, quer pela via do Parlamento, quer pela via do Executivo, procedimento mediante o qual os trabalhadores perdem, de uma forma ou de outra, o controle da própria luta, o que reforça o poder capitalista no âmbito do Estado; 8) transcender o nível local e nacional, desenvolvendo a solidariedade de classe por sobre as fronteiras estatais.

Mas isso é como eu acho que as coisas devem ser. É certo que outros autonomistas pensam a autonomia de modo diferente, ou pensam que a etapa preliminar desse tipo de autonomia é a luta contra &quot;todas as opressões&quot;, de um modo que, a meu ver, vai de encontro àquilo que eu concebo por autonomia. Me refiro, logicamente, à tendência pós-moderna/multiculturalista que se difunde, hoje, no meio autônomo, concebendo a formação de novas elites como um progresso, no sentido da autonomia do proletariado, ou afirmando-o demagogicamente.

Enfim, não é uma base teórica consolidada que aglutina os trabalhadores, massificando as lutas. Se o critério fosse esse, os partidos de extrema-esquerda e outras organizações, mais &quot;claros&quot; em seus esquemas, seriam organizações de massa. PSOL, PSTU, PCB, PCO etc. são, no entanto, organizações minúsculas. Por outro lado, organizações que pretendem criar um verdadeiro partido revolucionário, quer marxista, quer anarquista, também são minúsculas. Uns provariam o quanto são organizações de massa se tivessem êxitos eleitorais mais notáveis. Outros provariam o quanto são organizações de massa se tivessem tivessem êxito no assalto ou na derrubada do Estado. Todos, incluindo o MPL, atraem militantes, por causa das ações que organizam. Mas o tipo de atração que o MPL exerceu, em 2013... As organizações citadas acima não exercem. Creio que o MPL exerceu esse tipo de atração por ter sido quem pautou uma demanda de interesse da classe trabalhadora; porque as classes capitalistas, na atual organização do transporte coletivo, no atual modelo de financiamento do transporte coletivo, não eram capazes de incorporar essa demanda; e porque outras organizações de esquerda não davam a devida atenção ao problema.

Por fim, discordo que, dentro do autonomismo, o multiculturalismo coexistiu com o classismo porque o autonomismo é &quot;laxo&quot;: ambos coexistiram porque havia uma base de concordância mínima. Todos eram autonomistas, de certa maneira, mas nem todos eram autonomistas da mesma maneira. Quando ficou claro que existe uma grande diferença entre o que defendiam, essencialmente, uns e outros, o campo autônomo rompeu-se.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Lucas,</p>
<p>Eu concordo que, dentro do que se chama de autonomismo, não existe uma base teórica consolidada. Esse é o ideal, pois, havendo uma base teórica consolidada, a guiar a ação, as formulações táticas e estratégicas das organizações são potencializadas, potencializando-se, por conseguinte, as lutas sociais. Contudo, por um lado, não é isso que, no fundo, aglutina militantes, e, por outro, a existência de uma base teórica consolidada não constitui qualquer garantia contra erros de formulação tática e estratégica, e um conjunto de organizações bem equipadas teoricamente pode fracassar tanto quanto um conjunto de organizações mal equipadas teoricamente.</p>
<p>Pensar que uma base teórica consolidada é o elemento aglutinador de militantes é pensar que a ideologia é capaz de suscitar alguma prática, é pensar que, combinando ideologia revolucionária e proletariado, temos, como resultado, como síntese, a revolução proletária. A prática revolucionária dar-se-ia, supostamente, então, conforme a ideologia revolucionária, o que significa, colocado de outro modo, que, sem uma base teórica consolidada, não pode existir prática revolucionária. No entanto, não é preciso que haja teoria revolucionária, para que haja prática revolucionária.</p>
<p>Em primeiro lugar, eu acho que qualquer base teórica, qualquer ideologia, enfim, é incapaz de suscitar qualquer prática. Quando teorias, quando ideologias, emanam diretamente da prática, elas se confundem com a prática. Quando teorias, ideologias, não emanam diretamente da prática, conseguimos perceber, mesmo que tardiamente, uma defasagem entre representação e realidade. Mas, na verdade, é a própria prática, e não teorias ou ideologias, que dá este ou aquele conteúdo à luta. Fosse de outro modo, bastaria que fizéssemos chegar aos trabalhadores os nossos textos, ou os textos produzidos pelos revolucionários do passado, para que eles saíssem às ruas, tomassem as fábricas, criassem comunas agrícolas, tomassem o controle da produção e, por fim, derrubassem o Estado. Interessa, no entanto, definir qual prática, especificamente, dá este ou aquele conteúdo à luta.</p>
<p>Não existe, no campo autônomo, é verdade, um esforço sistemático de teorização e de formulação tática e estratégica. Trata-se de uma deficiência. Isso não significa, porém, que o autonomismo não seja uma “perspectiva” de ação. Toda prática se expressa ideologicamente e toda ideologia sempre é um corpo sistematizado de ideias, mesmo que não pareça e mesmo que tais ideias sejam sistematizadas de modo incoerente, como ocorre com relação ao autonomismo.</p>
<p>Sendo assim, em segundo lugar, o que aglutina os trabalhadores não é a teoria mas a articulação entre, de um lado, demandas proletárias e, de outro, um quadro no qual as classes capitalistas não são capazes de incorporar tais demandas, de modo que não reste alternativa aos trabalhadores, senão a luta. Esse quadro pode ser local. Na verdade, geralmente é local, e é por isso que estouram lutas, localmente, aqui e ali. Se estamos falando em luta de classes, devemos ter em mente que é o choque entre as classes que suscita qualquer luta. No entanto, de um ponto de vista gramsciano, o que inibe a resposta revolucionária é a hegemonia ideológica das classes dominantes, ao passo que, do ponto de vista de certo estruturalismo, o que inibe a resposta revolucionária é, por diversas razões, a &#8220;superestrutura&#8221;. Mas, na verdade, o que inibe tal resposta é o fato de que, pela incorporação das demandas dos trabalhadores, sempre combinada à repressão, as classes dominantes conseguem prendê-los na teia de relações sociais que reforçam o capitalismo. Em certos momentos, porém, as classes dominantes perdem o controle da situação, e, em outros momentos ainda, isso ocorre numa dimensão que transcende o plano local. Nesses casos, a necessidade de participar ativamente desse tipo de luta se verifica em vários lugares, e o poder das classes dominantes é desafiado nacionalmente.</p>
<p>O grande erro das esquerdas é pensar que os refluxos se devem à orientação teórica, ou ideológica, deste ou daquele grupo, e os próprios autonomistas incorrem nesse erro. Os refluxos, no entanto, se devem à capacidade das classes capitalistas de incorporarem as demandas dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que dirigem a repressão àqueles grupos de militantes cujas demandas não podem ser incorporadas. Por outro lado, a incapacidade das organizações de esquerda de se massificarem deve-se a outros fatores.</p>
<p>Eu acho que defender a autonomia, hoje, é defender que as organizações devem: 1) incluir demandas proletárias que respondam adequadamente aos golpes vindos das classes capitalistas, de modo que os trabalhadores reconheçam os seus interesses nas palavras de ordem e nas reivindicações apresentadas; 2) incluir formas de participação não enquadradas em formas de organização burocráticas e doutrinárias; 3) valorizar a espontaneidade e a criatividade dos trabalhadores, mas sem coibir a crítica aberta, mesmo que sejam os próprios trabalhadores, em sua espontaneidade e criatividade, o alvo da crítica; 4) zelar pela solidariedade de classe, em oposição a outros tipos de solidariedade; 5) incluir uma luta contra opressões específicas, de gênero, de raça etc., mas sem que essa luta se converta num fator de desagregação da solidariedade de classe; 6) lutar pelo aumento da incorporação de valor (tempo de trabalho) na força de trabalho, mas sem permitir que as classes capitalistas compensem a maior incorporação de valor na força de trabalho com uma incorporação maior ainda de valor no capital, pelo recurso à mais-valia relativa, o que reforça o poder capitalista no interior das empresas; 7) lutar contra a canalização das demandas proletárias para dentro do Estado, quer pela via do Parlamento, quer pela via do Executivo, procedimento mediante o qual os trabalhadores perdem, de uma forma ou de outra, o controle da própria luta, o que reforça o poder capitalista no âmbito do Estado; 8) transcender o nível local e nacional, desenvolvendo a solidariedade de classe por sobre as fronteiras estatais.</p>
<p>Mas isso é como eu acho que as coisas devem ser. É certo que outros autonomistas pensam a autonomia de modo diferente, ou pensam que a etapa preliminar desse tipo de autonomia é a luta contra &#8220;todas as opressões&#8221;, de um modo que, a meu ver, vai de encontro àquilo que eu concebo por autonomia. Me refiro, logicamente, à tendência pós-moderna/multiculturalista que se difunde, hoje, no meio autônomo, concebendo a formação de novas elites como um progresso, no sentido da autonomia do proletariado, ou afirmando-o demagogicamente.</p>
<p>Enfim, não é uma base teórica consolidada que aglutina os trabalhadores, massificando as lutas. Se o critério fosse esse, os partidos de extrema-esquerda e outras organizações, mais &#8220;claros&#8221; em seus esquemas, seriam organizações de massa. PSOL, PSTU, PCB, PCO etc. são, no entanto, organizações minúsculas. Por outro lado, organizações que pretendem criar um verdadeiro partido revolucionário, quer marxista, quer anarquista, também são minúsculas. Uns provariam o quanto são organizações de massa se tivessem êxitos eleitorais mais notáveis. Outros provariam o quanto são organizações de massa se tivessem tivessem êxito no assalto ou na derrubada do Estado. Todos, incluindo o MPL, atraem militantes, por causa das ações que organizam. Mas o tipo de atração que o MPL exerceu, em 2013&#8230; As organizações citadas acima não exercem. Creio que o MPL exerceu esse tipo de atração por ter sido quem pautou uma demanda de interesse da classe trabalhadora; porque as classes capitalistas, na atual organização do transporte coletivo, no atual modelo de financiamento do transporte coletivo, não eram capazes de incorporar essa demanda; e porque outras organizações de esquerda não davam a devida atenção ao problema.</p>
<p>Por fim, discordo que, dentro do autonomismo, o multiculturalismo coexistiu com o classismo porque o autonomismo é &#8220;laxo&#8221;: ambos coexistiram porque havia uma base de concordância mínima. Todos eram autonomistas, de certa maneira, mas nem todos eram autonomistas da mesma maneira. Quando ficou claro que existe uma grande diferença entre o que defendiam, essencialmente, uns e outros, o campo autônomo rompeu-se.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Lucas		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/08/105836/#comment-299012</link>

		<dc:creator><![CDATA[Lucas]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Sep 2015 18:10:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Fagner, tomarei um ponto específico da tua resposta para dar dinâmica ao debate.

&quot;7) A prática revolucionária só existe se houver teoria revolucionária? Bem, essa é a opinião dos leninistas e afins. O autonomismo (ou, melhor, o MPL) não está dando certo e, por causa disso, vamos negar o autonomismo, em favor de outra perspectiva?&quot;

Bem, primeiramente, eu parto do princípio de que o autonomismo sequer chega a ser &quot;uma perspectiva&quot; no sentido que você coloca. O autonomismo não tem um corpo claro de teoria nem de práticas. Creio que o que está realmente em jogo não é &quot;abandonar o autonomismo&quot; para adotar outra coisa, senão algo como &quot;do que será feito o autonomismo&quot;. A divisão entre um autonomismo classista e outro liberal multiculturalista expressa muito bem a forma laxa como dentro do autonomismo podem coexistir coisas tão distintas, e o problema que isso trás à organização dos militantes autonomistas. 

Uma teoria revolucionária serve justamente para unir o hoje com o amanhã, e para aglutinar os companheiros que compartilham essa estratégia. Não há prática revolucionária sem teoria revolucionária e vice versa. Prática revolucionária feita sem teoria é voluntarismo e ansiedade. Se trata aqui de ter a clareza a respeito de se queremos identificar-nos com a esquerda revolucionária ou não; não é o caso de tirar o mérito dos lutadores sociais que nunca se colocaram como objetivo a revolução, apenas de saber o que guia o autonomismo, quais são as coordenadas que os militantes seguem. Sem uma clareza a respeito das práticas se torna fácil que um militante se frustre com o tempo, que acabe preferindo outras correntes que tem mais clareza a respeito do que fazem [por outro lado, o autonomismo também acaba oferecendo espaço para pessoas que não tem um grande compromisso e por isso se sentem confortáveis com a liberdade individual de organizações sem estrutura].

Faço questão aqui de me referir aos militantes de base, não &quot;à classe trabalhadora&quot; como boa parte dos textos deste site. Sinto que existe um enorme e extremamente acertado acúmulo de análises e debates aqui a respeito da classe e suas relações com a exploração, com partidos e movimentos e etc. O que eu sinto falta as vezes é de mais debate à respeito da militância de base. Creio que isso tem a ver com uma tradição que tenta sempre não isolar-se do resto da classe na forma de agrupação, por isso também a ênfase nos movimentos sociais. O problema é que isso acaba simplesmente ignorando algo que ocorre na realidade, que são as dinâmicas militantes no nível dos grupos mais ativos. Algo que o leninismo sempre pautou [de forma paranoica e autoritária, talvez típica da sociedade russa de seus dias]. Considero um erro tentar diferenciar-se do leninismo apenas evitando esse tipo de temática ou ignorando suas complexidades e tarefas. Talvez se eu conhecesse um pouco mais por dentro eu teria outra opinião, mas da forma como eu vejo, essa forma híbrida esquisita que o MPL tem, entre uma agrupação política e uma frente de luta, talvez seja também um resultado de questões não superadas à respeito das formas de organização da militância autonomista. 
Parte deste contexto certamente também é o fato de que pouco a pouco os movimentos sociais vão se tornando mais parecidos com agrupações políticas tradicionais, quando não sindicais.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fagner, tomarei um ponto específico da tua resposta para dar dinâmica ao debate.</p>
<p>&#8220;7) A prática revolucionária só existe se houver teoria revolucionária? Bem, essa é a opinião dos leninistas e afins. O autonomismo (ou, melhor, o MPL) não está dando certo e, por causa disso, vamos negar o autonomismo, em favor de outra perspectiva?&#8221;</p>
<p>Bem, primeiramente, eu parto do princípio de que o autonomismo sequer chega a ser &#8220;uma perspectiva&#8221; no sentido que você coloca. O autonomismo não tem um corpo claro de teoria nem de práticas. Creio que o que está realmente em jogo não é &#8220;abandonar o autonomismo&#8221; para adotar outra coisa, senão algo como &#8220;do que será feito o autonomismo&#8221;. A divisão entre um autonomismo classista e outro liberal multiculturalista expressa muito bem a forma laxa como dentro do autonomismo podem coexistir coisas tão distintas, e o problema que isso trás à organização dos militantes autonomistas. </p>
<p>Uma teoria revolucionária serve justamente para unir o hoje com o amanhã, e para aglutinar os companheiros que compartilham essa estratégia. Não há prática revolucionária sem teoria revolucionária e vice versa. Prática revolucionária feita sem teoria é voluntarismo e ansiedade. Se trata aqui de ter a clareza a respeito de se queremos identificar-nos com a esquerda revolucionária ou não; não é o caso de tirar o mérito dos lutadores sociais que nunca se colocaram como objetivo a revolução, apenas de saber o que guia o autonomismo, quais são as coordenadas que os militantes seguem. Sem uma clareza a respeito das práticas se torna fácil que um militante se frustre com o tempo, que acabe preferindo outras correntes que tem mais clareza a respeito do que fazem [por outro lado, o autonomismo também acaba oferecendo espaço para pessoas que não tem um grande compromisso e por isso se sentem confortáveis com a liberdade individual de organizações sem estrutura].</p>
<p>Faço questão aqui de me referir aos militantes de base, não &#8220;à classe trabalhadora&#8221; como boa parte dos textos deste site. Sinto que existe um enorme e extremamente acertado acúmulo de análises e debates aqui a respeito da classe e suas relações com a exploração, com partidos e movimentos e etc. O que eu sinto falta as vezes é de mais debate à respeito da militância de base. Creio que isso tem a ver com uma tradição que tenta sempre não isolar-se do resto da classe na forma de agrupação, por isso também a ênfase nos movimentos sociais. O problema é que isso acaba simplesmente ignorando algo que ocorre na realidade, que são as dinâmicas militantes no nível dos grupos mais ativos. Algo que o leninismo sempre pautou [de forma paranoica e autoritária, talvez típica da sociedade russa de seus dias]. Considero um erro tentar diferenciar-se do leninismo apenas evitando esse tipo de temática ou ignorando suas complexidades e tarefas. Talvez se eu conhecesse um pouco mais por dentro eu teria outra opinião, mas da forma como eu vejo, essa forma híbrida esquisita que o MPL tem, entre uma agrupação política e uma frente de luta, talvez seja também um resultado de questões não superadas à respeito das formas de organização da militância autonomista.<br />
Parte deste contexto certamente também é o fato de que pouco a pouco os movimentos sociais vão se tornando mais parecidos com agrupações políticas tradicionais, quando não sindicais.</p>
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		<title>
		Por: Fagner Enrique		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/08/105836/#comment-298656</link>

		<dc:creator><![CDATA[Fagner Enrique]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 Aug 2015 05:51:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Em resposta a &lt;a href=&quot;https://passapalavra.info/2015/08/105836/#comment-298579&quot;&gt;Demócrito de Abdera&lt;/a&gt;.

Gostaria de pontuar algumas coisas:

1) Na verdade, pelo menos no coletivo do MPL de que faço parte, houve tentativas recorrentes de tornar as reuniões abertas a qualquer pessoa. Convocamos reuniões abertas, em diversas ocasiões, o que foi feito de todas as formas possíveis (ou, ao menos, de todas as formas que nos pareceram possíveis). Na maior parte das vezes, porém, poucas pessoas compareceram. E, em certos casos, ninguém compareceu. Mas reconheço que isso foi feito insuficientemente. Aliás, penso que isso deve ser retomado. Como não foi feito suficientemente, creio que acabamos nos resumindo a um grupo de militantes que se reúnem em torno de um programa. Mas a perspectiva é superar essa realidade.

2) Resumir todos os coletivos autonomistas (e os coletivos do MPL, em particular) a coletivos cujo propósito &quot;não é o de organizar um número maior de ativistas, senão o de acumular formação a respeito de temas caros à esquerda e reproduzi-los para outros indivíduos e, a partir do momento em que se ganha moral no &#039;circuito&#039;, passar a influenciar nos demais coletivos&quot; me parece equivocado. Não estou dizendo que isso não acontece, mas desconsiderar que existiram, e ainda existem, propostas de outro tipo é se contentar com uma parcela da verdade.

3) Sobre a questão das afinidades: acho que o texto está correto, em grande medida. Mas, novamente, sempre existe o outro lado da moeda. O meu ingresso no MPL, por exemplo, não foi mediado por qualquer laço afetivo prévio com qualquer militante. Textos publicados por uma organização, por exemplo, podem funcionar como elemento de atração (aliás, não é por outra razão que os principais meios de comunicação de massa são devidamente controlados pelos capitalistas, restringindo o campo de ação das organizações anticapitalistas). Nesse sentido, o texto considera, como elemento de atração, apenas as afinidades, ou as superestima. Acho que a questão é mais complicada, tanto no que se refere à atração de novos militantes quanto no que se refere à manutenção de uma quantidade diminuta de militantes: ora, os autonomistas são os párias de toda a extrema-esquerda, convivendo com uma oposição geral, que vai de cada tendência do stalinismo, passando por cada tendência do trotskismo, até cada tendência do anarquismo. Você pode nutrir simpatias pela impressionante trajetória do camarada Mao, ou pela trajetória trágica do camarada Gramsci... Você pode se entusiasmar pela direção invisível, ou pelo sindicalismo revolucionário... Em todos os casos, você sempre buscará (e encontrará, certamente) alguma razão para criticar e rejeitar as ideias e práticas autonomistas (tudo bem, mesmo porque os autonomistas também vão, necessariamente, criticar e rejeitar as ideias e práticas dos grupos acima mencionados). Mas como se massificar, diante de uma tal situação? Os homens fazem a história, mas não a fazem como querem, e os autonomistas inserem-se num campo de batalha onde a herança da história é o total isolamento. É certo que os movimentos autônomos não se massificarão contando com a colaboração da restante extrema-esquerda, mas, então, que fazer? Organizar, ou tentar organizar, alguma luta. Só a luta pode, em última instância, funcionar como elemento agregador e, ao mesmo tempo, como elemento de massificação. Ora, em 2013, o MPL foi a parcela da extrema-esquerda mais atrativa de todas. O que mudou, desde então? É sobre isso que se deve refletir. Nesse sentido, por que os grupos de amigos mais ou menos sectários, aos quais se reduzem, supostamente, o MPL e o autonomismo, eram atrativos em 2013, deixando de sê-lo nos anos seguintes? Novamente, o que está escrito é verdade, mas é uma parcela da verdade.

4) A meu ver, autonomia e socialismo não são conceitos &quot;categoricamente diferentes&quot;: a problemática da autonomia, em diversas épocas, esteve intimamente associada à problemática da reorganização das relações de produção, à problemática da superação da lei do valor, em favor de outra lei que governasse o sistema econômico e, portanto, o sistema político. A articulação do conceito de autonomia com o conceito de socialismo é não só possível como necessária. Hoje, o campo autônomo tem se afastado dessa perspectiva, creio que, de um lado, (a) por conta da difusão de um comportamento intelectual irracionalista, quer dizer, não-sistemático e avesso à sistematização, além de anticientífico, avesso a uma perspectiva que encontra o eixo para as reflexões sobre a autonomia nas questões da mais-valia e da luta de classes, bem como avesso a um conhecimento científico dos processos naturais e da relação do homem com a natureza – por ser não-sistemático e avesso à sistematização, esse comportamento intelectual repousa sob a sombra agradável do ecletismo, pretendendo articular, num único discurso, toda a tradição teórica revolucionária, com ênfase para o marxismo e o anarquismo, sem hierarquizar os seus conceitos, de modo a conferir a uns conceitos a predominância sobre os demais, e dialogando com sistemas teóricos produzidos à direita e à extrema-direita; e ao ecletismo somam-se um subjetivismo que parte de impressões subjetivas para a realização de generalizações, além de um pragmatismo totalmente desonesto, para o qual interessa dar visibilidade à versão da realidade que serve aos interesses políticos do grupo, e a esta versão apenas (trata-se do modo como a esquerda autônoma tem, de modo predominante, produzido ideologias); e, de outro, (b) por conta de outro comportamento, não intelectual mas referente às práticas desenvolvidas na luta política, que se expressa ideologicamente na necessidade de afirmar que a luta é “classista” e, ao mesmo tempo, “libertária”, além de voltada para a emancipação dos grupos sociais mais oprimidos, que o conceito de “classe” é, supostamente, incapaz de abarcar, mas que se destina, na verdade, à afirmação de uma nova burocracia (trata-se do modo como parte da esquerda autônoma tem afirmado novos burocratas).

5) Discordo que a autogestão não elimina a lei do valor. Para mim, a autogestão é, em si mesma, a negação da lei do valor. O problema é pensar e praticar a autogestão isoladamente, nos quadros de uma empresa ou num setor da economia, ou, ainda, num quadro territorial limitado, que pode variar de um bairro a uma cidade, a uma região e a uma nação inteira. O problema é, justamente, o da internacionalização da autogestão, até agora nunca alcançada. Não sei se o MPL, em geral, acredita que a autogestão do transporte, sem se expandir para a totalidade do sistema econômico, já basta. Eu faço parte do MPL e não penso assim. Lutar pela autogestão do transporte deve ser um passo da luta pela autogestão da sociedade, não apenas num país como também no mundo. E experiências isoladas e fugazes não deixam de ser significativas: poderíamos negar a importância da autogestão do transporte num bairro, por algumas semanas, por exemplo? Creio que não. O problema é que o MPL não conseguiu evoluir da revolta popular para o estímulo à difusão da autogestão, nem do transporte e nem de outras lutas, quer dizer, ele nem obteve a autogestão do transporte e nem serviu de exemplo para outros movimentos autônomos lutando por outras pautas. Serviu de exemplo para a extrema-direita, que se apropriou da tática da revolta popular. O que foi feito no meio do caminho, que levou a isso? Essa é uma pergunta-chave.

6) Também não acho que o autonomismo implica a negação do sindicalismo. Pelo contrário, acho que, no caso do transporte em particular, a luta sindical dos motoristas e demais funcionários e as lutas do usuários do tranpsorte devem ser integradas. Em certa medida, tentamos algo nesse sentido, já há algum tempo, no coletivo de que faço parte, mas os resultados não têm sido muito satisfatórios, creio que, em parte, devido à posição do sindicato, que, apesar de ser combativo em muitos momentos, tem sido, a meu ver, muito reticente quanto à nossa presença, com medo de ter a sua imagem ligada a um movimento criminalizado, talvez.

7) A prática revolucionária só existe se houver teoria revolucionária? Bem, essa é a opinião dos leninistas e afins. O autonomismo (ou, melhor, o MPL) não está dando certo e, por causa disso, vamos negar o autonomismo, em favor de outra perspectiva? Acho isso equivocado, mesmo porque, dentro do que se chama de autonomismo, existem muitas tendências, e uma delas defende uma perspectiva centrada na questão da autonomia como antítese da lei do valor. O problema é que, dentro do autonomismo, uma tendência específica tem sido vitoriosa, a que resulta da influência pós-moderna. Nesse sentido, o autonomismo não está dando certo na perspectiva “autonomia versus lei do valor”, mas, por outro lado, para a esquerda pós-moderna, o autonomismo vai muito bem, obrigado, pois o seu objetivo é o de fragmentar a luta. O sexismo a que se convencionou chamar, neste site, de feminismo excludente está indo muito bem, obrigado: ora, o seu objetivo é, justamente, o de promover um tipo de segregação social baseada no sexo. E o racismo hoje vigente na extrema-esquerda tem, por sua vez, o objetivo de promover outro tipo de segregação social, baseada na cor de pele. Temos, hoje, um sexismo invertido e um racismo invertido, atuando dentro do campo autônomo. Creio que podemos falar, sem risco de incorrer em exagero, na afirmação e na expansão de uma burocracia “autonomista” que pretende fazer as vezes de uma ditadura das minorias, que se comporta, na verdade, como uma ditadura sobre tais minorias, bem como sobre a tendência classista/anticapitalista do autonomismo. A luta interna ao campo autônomo está sendo vencida, por um sexismo e um racismo irracionalistas.

8) Acho que a questão do trabalho de base, pelo menos de um ponto de vista autonomista, deve ser posta da seguinte maneira: não se trata, ou não se deve tratar, de um trabalho de base como intervenção &quot;externa&quot;, mesmo porque a perspectiva do autonomismo, pelo menos do autonomismo classista/anticapitalista, nunca foi a do leninismo, para quem a teoria revolucionária, sem a qual não existe prática revolucionária, só pode vir &quot;de fora&quot;, do partido, que é necessariamente composto por uma vanguarda intelectual, que só pode ter uma origem social burguesa ou pequeno-burguesa etc. (O marxismo é, na verdade, por exemplo, uma mera síntese, por parte de Marx, Engels e seus seguidores, de diversas formulações teóricas e propostas políticas que já vinham sendo feitas pelos próprios trabalhadores. Aliás, o marxismo só se afirmou como hegemônico devido à derrota da Comuna de Paris e à ascensão do movimento operário na Alemanha, que deslocou o centro internacional do movimento operário para a Alemanha, dando visibilidade aos escritos vindos da Alemanha [cf. Marcos Del Roio, “O império universal e seus antípodas: a ocidentalização do mundo”, São Paulo, Ícone, 1998, p. 177-178]) Voltando ao ponto 7, acima, são os choques entre as classes, nas condições específicas de cada momento, que colocam ou não colocam uma classe em posição de ruptura com as demais. Não é a teoria revolucionária que inspira a ruptura, ou que a suscita. São condições concretas que impõem, em determinados momentos (nomeadamente, quando parece não haver alternativa, ou quando as pessoas estão fartas), a ruptura. Como eu penso que o trabalho de base deve ser? Ele deve servir para aproximar, de alguma forma, grupos políticos que tentam desenvolver alguma luta, no sentido da ruptura, com trabalhadores sem experiência ou com pouca experiência de participação política. Agora, com certeza, virá alguém afirmar que todos os trabalhadores resistem contra o capital, e essa resistência é sempre “política” (um espontaneísmo raso)... Bem, não necessariamente, pois a resistência pode ser individual, pode ser passiva, e pode, o que é mais importante, não ter a perspectiva de ir superando, progressivamente, as conquistas limitadas que podem ser enquadradas no sistema vigente. O problema de alguns autonomistas me parece ser o de negar que o trabalho de base seja fulcral, como se um grupo de pessoas minimamente experientes, no sentido da luta política, da militância, fosse, necessariamente, se afirmar como uma nova burocracia, pelo simples fato de se aproximarem de trabalhadores inseridos num local de trabalho, ou num local de moradia, propondo algum tipo de mobilização de base ou de formação política (é, na verdade, uma posição um tanto elitista, que apresenta os trabalhadores, nos seus locais de trabalho e moradia, como incapazes de alcançar o protagonismo na luta, através do trabalho de base, pois existem os tais militantes por perto, roubando-lhes todo o protagonismo e castrando-lhes toda a iniciativa). Ora, o problema não é esse. A formação política oferecida pelas organizações de esquerda, e a transmissão de experiências acumuladas pelos lutadores, não castra a independência dos trabalhadores, nem lhes rouba o protagonismo. Serve, pelo contrário, de estímulo à solidariedade e à consciência de classe, e ao avanço dos trabalhadores, no sentido da organização e da militância políticas, mesmo que essa formação e transmissão de experiências seja realizada pela extrema-esquerda leninista e afim (mesmo porque, caso contrário, nenhum autonomista teria vindo, originalmente, do campo leninista e afim). O problema é quando as esquerdas burocráticas, depois de mobilizarem e (sim, vou usar este termo, me apedrejem) politizarem os trabalhadores, convertem-se em fator de desmobilização e de despolitização desses mesmos trabalhadores. E é isso que a esquerda autonomista, de caráter classista/anticapitalista, tem criticado, há muito tempo. Um partido pode ser um fator de mobilização e politização? Sim. Um sindicato? Também. Um movimento social? Idem. Mas também podem fazer o contrário. O que deve diferenciar os autonomistas dos leninistas e afins é a noção de que não é a sua militância, e a sua intervenção, digamos assim, pedagógica, que suscita qualquer luta. São os golpes desferidos pelas classes capitalistas, aos quais os trabalhadores, necessariamente, têm de resistir, de uma forma ou de outra. E, por outro lado, de que a sua intervenção não vai deixar os pobres trabalhadores sob uma tutela insuperável. Diante disso, os autonomistas devem atuar como a corrente da extrema-esquerda que promove a autogestão das lutas, que apoia as tendências, no interior de cada luta, que mais avançam, no sentido da superação das burocracias de esquerda e no sentido da democratização e da massificação do enfrentamento ao capital. Trata-se de, no campo das lutas dos trabalhadores, reforçar a tendência mais radical, de ruptura com o capitalismo e com as relações hierárquicas que reproduzem as relações capitalistas. Certo de que o comentário é longo, mas de que, por outro lado, as soluções para os problemas atuais não podem esbarrar em limites de caracteres, paro por aqui.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em resposta a <a href="https://passapalavra.info/2015/08/105836/#comment-298579">Demócrito de Abdera</a>.</p>
<p>Gostaria de pontuar algumas coisas:</p>
<p>1) Na verdade, pelo menos no coletivo do MPL de que faço parte, houve tentativas recorrentes de tornar as reuniões abertas a qualquer pessoa. Convocamos reuniões abertas, em diversas ocasiões, o que foi feito de todas as formas possíveis (ou, ao menos, de todas as formas que nos pareceram possíveis). Na maior parte das vezes, porém, poucas pessoas compareceram. E, em certos casos, ninguém compareceu. Mas reconheço que isso foi feito insuficientemente. Aliás, penso que isso deve ser retomado. Como não foi feito suficientemente, creio que acabamos nos resumindo a um grupo de militantes que se reúnem em torno de um programa. Mas a perspectiva é superar essa realidade.</p>
<p>2) Resumir todos os coletivos autonomistas (e os coletivos do MPL, em particular) a coletivos cujo propósito &#8220;não é o de organizar um número maior de ativistas, senão o de acumular formação a respeito de temas caros à esquerda e reproduzi-los para outros indivíduos e, a partir do momento em que se ganha moral no &#8216;circuito&#8217;, passar a influenciar nos demais coletivos&#8221; me parece equivocado. Não estou dizendo que isso não acontece, mas desconsiderar que existiram, e ainda existem, propostas de outro tipo é se contentar com uma parcela da verdade.</p>
<p>3) Sobre a questão das afinidades: acho que o texto está correto, em grande medida. Mas, novamente, sempre existe o outro lado da moeda. O meu ingresso no MPL, por exemplo, não foi mediado por qualquer laço afetivo prévio com qualquer militante. Textos publicados por uma organização, por exemplo, podem funcionar como elemento de atração (aliás, não é por outra razão que os principais meios de comunicação de massa são devidamente controlados pelos capitalistas, restringindo o campo de ação das organizações anticapitalistas). Nesse sentido, o texto considera, como elemento de atração, apenas as afinidades, ou as superestima. Acho que a questão é mais complicada, tanto no que se refere à atração de novos militantes quanto no que se refere à manutenção de uma quantidade diminuta de militantes: ora, os autonomistas são os párias de toda a extrema-esquerda, convivendo com uma oposição geral, que vai de cada tendência do stalinismo, passando por cada tendência do trotskismo, até cada tendência do anarquismo. Você pode nutrir simpatias pela impressionante trajetória do camarada Mao, ou pela trajetória trágica do camarada Gramsci&#8230; Você pode se entusiasmar pela direção invisível, ou pelo sindicalismo revolucionário&#8230; Em todos os casos, você sempre buscará (e encontrará, certamente) alguma razão para criticar e rejeitar as ideias e práticas autonomistas (tudo bem, mesmo porque os autonomistas também vão, necessariamente, criticar e rejeitar as ideias e práticas dos grupos acima mencionados). Mas como se massificar, diante de uma tal situação? Os homens fazem a história, mas não a fazem como querem, e os autonomistas inserem-se num campo de batalha onde a herança da história é o total isolamento. É certo que os movimentos autônomos não se massificarão contando com a colaboração da restante extrema-esquerda, mas, então, que fazer? Organizar, ou tentar organizar, alguma luta. Só a luta pode, em última instância, funcionar como elemento agregador e, ao mesmo tempo, como elemento de massificação. Ora, em 2013, o MPL foi a parcela da extrema-esquerda mais atrativa de todas. O que mudou, desde então? É sobre isso que se deve refletir. Nesse sentido, por que os grupos de amigos mais ou menos sectários, aos quais se reduzem, supostamente, o MPL e o autonomismo, eram atrativos em 2013, deixando de sê-lo nos anos seguintes? Novamente, o que está escrito é verdade, mas é uma parcela da verdade.</p>
<p>4) A meu ver, autonomia e socialismo não são conceitos &#8220;categoricamente diferentes&#8221;: a problemática da autonomia, em diversas épocas, esteve intimamente associada à problemática da reorganização das relações de produção, à problemática da superação da lei do valor, em favor de outra lei que governasse o sistema econômico e, portanto, o sistema político. A articulação do conceito de autonomia com o conceito de socialismo é não só possível como necessária. Hoje, o campo autônomo tem se afastado dessa perspectiva, creio que, de um lado, (a) por conta da difusão de um comportamento intelectual irracionalista, quer dizer, não-sistemático e avesso à sistematização, além de anticientífico, avesso a uma perspectiva que encontra o eixo para as reflexões sobre a autonomia nas questões da mais-valia e da luta de classes, bem como avesso a um conhecimento científico dos processos naturais e da relação do homem com a natureza – por ser não-sistemático e avesso à sistematização, esse comportamento intelectual repousa sob a sombra agradável do ecletismo, pretendendo articular, num único discurso, toda a tradição teórica revolucionária, com ênfase para o marxismo e o anarquismo, sem hierarquizar os seus conceitos, de modo a conferir a uns conceitos a predominância sobre os demais, e dialogando com sistemas teóricos produzidos à direita e à extrema-direita; e ao ecletismo somam-se um subjetivismo que parte de impressões subjetivas para a realização de generalizações, além de um pragmatismo totalmente desonesto, para o qual interessa dar visibilidade à versão da realidade que serve aos interesses políticos do grupo, e a esta versão apenas (trata-se do modo como a esquerda autônoma tem, de modo predominante, produzido ideologias); e, de outro, (b) por conta de outro comportamento, não intelectual mas referente às práticas desenvolvidas na luta política, que se expressa ideologicamente na necessidade de afirmar que a luta é “classista” e, ao mesmo tempo, “libertária”, além de voltada para a emancipação dos grupos sociais mais oprimidos, que o conceito de “classe” é, supostamente, incapaz de abarcar, mas que se destina, na verdade, à afirmação de uma nova burocracia (trata-se do modo como parte da esquerda autônoma tem afirmado novos burocratas).</p>
<p>5) Discordo que a autogestão não elimina a lei do valor. Para mim, a autogestão é, em si mesma, a negação da lei do valor. O problema é pensar e praticar a autogestão isoladamente, nos quadros de uma empresa ou num setor da economia, ou, ainda, num quadro territorial limitado, que pode variar de um bairro a uma cidade, a uma região e a uma nação inteira. O problema é, justamente, o da internacionalização da autogestão, até agora nunca alcançada. Não sei se o MPL, em geral, acredita que a autogestão do transporte, sem se expandir para a totalidade do sistema econômico, já basta. Eu faço parte do MPL e não penso assim. Lutar pela autogestão do transporte deve ser um passo da luta pela autogestão da sociedade, não apenas num país como também no mundo. E experiências isoladas e fugazes não deixam de ser significativas: poderíamos negar a importância da autogestão do transporte num bairro, por algumas semanas, por exemplo? Creio que não. O problema é que o MPL não conseguiu evoluir da revolta popular para o estímulo à difusão da autogestão, nem do transporte e nem de outras lutas, quer dizer, ele nem obteve a autogestão do transporte e nem serviu de exemplo para outros movimentos autônomos lutando por outras pautas. Serviu de exemplo para a extrema-direita, que se apropriou da tática da revolta popular. O que foi feito no meio do caminho, que levou a isso? Essa é uma pergunta-chave.</p>
<p>6) Também não acho que o autonomismo implica a negação do sindicalismo. Pelo contrário, acho que, no caso do transporte em particular, a luta sindical dos motoristas e demais funcionários e as lutas do usuários do tranpsorte devem ser integradas. Em certa medida, tentamos algo nesse sentido, já há algum tempo, no coletivo de que faço parte, mas os resultados não têm sido muito satisfatórios, creio que, em parte, devido à posição do sindicato, que, apesar de ser combativo em muitos momentos, tem sido, a meu ver, muito reticente quanto à nossa presença, com medo de ter a sua imagem ligada a um movimento criminalizado, talvez.</p>
<p>7) A prática revolucionária só existe se houver teoria revolucionária? Bem, essa é a opinião dos leninistas e afins. O autonomismo (ou, melhor, o MPL) não está dando certo e, por causa disso, vamos negar o autonomismo, em favor de outra perspectiva? Acho isso equivocado, mesmo porque, dentro do que se chama de autonomismo, existem muitas tendências, e uma delas defende uma perspectiva centrada na questão da autonomia como antítese da lei do valor. O problema é que, dentro do autonomismo, uma tendência específica tem sido vitoriosa, a que resulta da influência pós-moderna. Nesse sentido, o autonomismo não está dando certo na perspectiva “autonomia versus lei do valor”, mas, por outro lado, para a esquerda pós-moderna, o autonomismo vai muito bem, obrigado, pois o seu objetivo é o de fragmentar a luta. O sexismo a que se convencionou chamar, neste site, de feminismo excludente está indo muito bem, obrigado: ora, o seu objetivo é, justamente, o de promover um tipo de segregação social baseada no sexo. E o racismo hoje vigente na extrema-esquerda tem, por sua vez, o objetivo de promover outro tipo de segregação social, baseada na cor de pele. Temos, hoje, um sexismo invertido e um racismo invertido, atuando dentro do campo autônomo. Creio que podemos falar, sem risco de incorrer em exagero, na afirmação e na expansão de uma burocracia “autonomista” que pretende fazer as vezes de uma ditadura das minorias, que se comporta, na verdade, como uma ditadura sobre tais minorias, bem como sobre a tendência classista/anticapitalista do autonomismo. A luta interna ao campo autônomo está sendo vencida, por um sexismo e um racismo irracionalistas.</p>
<p>8) Acho que a questão do trabalho de base, pelo menos de um ponto de vista autonomista, deve ser posta da seguinte maneira: não se trata, ou não se deve tratar, de um trabalho de base como intervenção &#8220;externa&#8221;, mesmo porque a perspectiva do autonomismo, pelo menos do autonomismo classista/anticapitalista, nunca foi a do leninismo, para quem a teoria revolucionária, sem a qual não existe prática revolucionária, só pode vir &#8220;de fora&#8221;, do partido, que é necessariamente composto por uma vanguarda intelectual, que só pode ter uma origem social burguesa ou pequeno-burguesa etc. (O marxismo é, na verdade, por exemplo, uma mera síntese, por parte de Marx, Engels e seus seguidores, de diversas formulações teóricas e propostas políticas que já vinham sendo feitas pelos próprios trabalhadores. Aliás, o marxismo só se afirmou como hegemônico devido à derrota da Comuna de Paris e à ascensão do movimento operário na Alemanha, que deslocou o centro internacional do movimento operário para a Alemanha, dando visibilidade aos escritos vindos da Alemanha [cf. Marcos Del Roio, “O império universal e seus antípodas: a ocidentalização do mundo”, São Paulo, Ícone, 1998, p. 177-178]) Voltando ao ponto 7, acima, são os choques entre as classes, nas condições específicas de cada momento, que colocam ou não colocam uma classe em posição de ruptura com as demais. Não é a teoria revolucionária que inspira a ruptura, ou que a suscita. São condições concretas que impõem, em determinados momentos (nomeadamente, quando parece não haver alternativa, ou quando as pessoas estão fartas), a ruptura. Como eu penso que o trabalho de base deve ser? Ele deve servir para aproximar, de alguma forma, grupos políticos que tentam desenvolver alguma luta, no sentido da ruptura, com trabalhadores sem experiência ou com pouca experiência de participação política. Agora, com certeza, virá alguém afirmar que todos os trabalhadores resistem contra o capital, e essa resistência é sempre “política” (um espontaneísmo raso)&#8230; Bem, não necessariamente, pois a resistência pode ser individual, pode ser passiva, e pode, o que é mais importante, não ter a perspectiva de ir superando, progressivamente, as conquistas limitadas que podem ser enquadradas no sistema vigente. O problema de alguns autonomistas me parece ser o de negar que o trabalho de base seja fulcral, como se um grupo de pessoas minimamente experientes, no sentido da luta política, da militância, fosse, necessariamente, se afirmar como uma nova burocracia, pelo simples fato de se aproximarem de trabalhadores inseridos num local de trabalho, ou num local de moradia, propondo algum tipo de mobilização de base ou de formação política (é, na verdade, uma posição um tanto elitista, que apresenta os trabalhadores, nos seus locais de trabalho e moradia, como incapazes de alcançar o protagonismo na luta, através do trabalho de base, pois existem os tais militantes por perto, roubando-lhes todo o protagonismo e castrando-lhes toda a iniciativa). Ora, o problema não é esse. A formação política oferecida pelas organizações de esquerda, e a transmissão de experiências acumuladas pelos lutadores, não castra a independência dos trabalhadores, nem lhes rouba o protagonismo. Serve, pelo contrário, de estímulo à solidariedade e à consciência de classe, e ao avanço dos trabalhadores, no sentido da organização e da militância políticas, mesmo que essa formação e transmissão de experiências seja realizada pela extrema-esquerda leninista e afim (mesmo porque, caso contrário, nenhum autonomista teria vindo, originalmente, do campo leninista e afim). O problema é quando as esquerdas burocráticas, depois de mobilizarem e (sim, vou usar este termo, me apedrejem) politizarem os trabalhadores, convertem-se em fator de desmobilização e de despolitização desses mesmos trabalhadores. E é isso que a esquerda autonomista, de caráter classista/anticapitalista, tem criticado, há muito tempo. Um partido pode ser um fator de mobilização e politização? Sim. Um sindicato? Também. Um movimento social? Idem. Mas também podem fazer o contrário. O que deve diferenciar os autonomistas dos leninistas e afins é a noção de que não é a sua militância, e a sua intervenção, digamos assim, pedagógica, que suscita qualquer luta. São os golpes desferidos pelas classes capitalistas, aos quais os trabalhadores, necessariamente, têm de resistir, de uma forma ou de outra. E, por outro lado, de que a sua intervenção não vai deixar os pobres trabalhadores sob uma tutela insuperável. Diante disso, os autonomistas devem atuar como a corrente da extrema-esquerda que promove a autogestão das lutas, que apoia as tendências, no interior de cada luta, que mais avançam, no sentido da superação das burocracias de esquerda e no sentido da democratização e da massificação do enfrentamento ao capital. Trata-se de, no campo das lutas dos trabalhadores, reforçar a tendência mais radical, de ruptura com o capitalismo e com as relações hierárquicas que reproduzem as relações capitalistas. Certo de que o comentário é longo, mas de que, por outro lado, as soluções para os problemas atuais não podem esbarrar em limites de caracteres, paro por aqui.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Demócrito de Abdera		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/08/105836/#comment-298579</link>

		<dc:creator><![CDATA[Demócrito de Abdera]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 29 Aug 2015 12:32:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Aos que se engajam pela autonomia na vizinhança, trabalho, ônibus, trem e rua com uma perspectiva de transformação global do mundo (felicidade universal), guardem bem esse meu conselho de 2385 anos:

&quot;Falar abertamente é a característica própria do espírito livre, e o perigo está em não saber o momento exato para fazê-lo.&quot; (DK 68 B 226)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aos que se engajam pela autonomia na vizinhança, trabalho, ônibus, trem e rua com uma perspectiva de transformação global do mundo (felicidade universal), guardem bem esse meu conselho de 2385 anos:</p>
<p>&#8220;Falar abertamente é a característica própria do espírito livre, e o perigo está em não saber o momento exato para fazê-lo.&#8221; (DK 68 B 226)</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Já dizia Marx também		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/08/105836/#comment-298362</link>

		<dc:creator><![CDATA[Já dizia Marx também]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Aug 2015 23:16:49 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[&quot;O que constitui a alienação do trabalho? Primeiramente, ser o trabalho externo ao trabalhador, NÃO FAZER PARTE DE SUA NATUREZA, e por conseguinte, ele não se realizar em seu trabalho mas negar a si mesmo, ter um sentimento de sofrimento em vez de bem-estar, não desenvolver livremente suas energias mentais e físicas mas ficar fisicamente exausto e mentalmente deprimido (...)

Chegamos a conclusão de que o homem (o trabalhador) só se sente livremente ativo em suas funções animais - comer, beber e procriar, ou no máximo também em sua residência e no seu próprio embelezamento - enquanto que em suas funções humanas se reduz a um animal. O animal se torna humano e o humano se torna animal.

Comer, beber e procriar são, evidentemente, também funções genuinamente humanas. Mas, consideradas abstratamente, à parte do ambiente de outras atividades humanas, e convertidas em fins definitivos e exclusivos, são funções animais&quot; (Karl Marx - Manuscrito Econômicos Filosóficos) disponível em https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/cap01.htm

Mais uma vez: &quot;O que constitui a alienação do trabalho? Primeiramente, ser o trabalho externo ao trabalhador, NÃO FAZER PARTE DE SUA NATUREZA!...

Embora tanto Marx, quanto Bakunin, falem em natureza humana, eles não falam nem levianamente, nem de maneira secundária. Para ambos é algo que, sim, está na essência da compreensão das relações sociais, o que não significa que estas não podem determinar àquelas, que é o que na verdade acontece: uma natureza transformada, objetiva e subjetivamente, pelo homem. A compreensão que se imputa à &quot;natureza humana&quot; é que acaba sendo deturpada, querendo igualá-la literalmente à &quot;natureza natural&quot; e/ou naturezas &quot;multifacetadas e independentes entre si&quot; , a exemplo das justificativas para a existência dos espaços &quot;exclusivos&quot; segundo a &quot;natureza&quot; dos seus participantes...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;O que constitui a alienação do trabalho? Primeiramente, ser o trabalho externo ao trabalhador, NÃO FAZER PARTE DE SUA NATUREZA, e por conseguinte, ele não se realizar em seu trabalho mas negar a si mesmo, ter um sentimento de sofrimento em vez de bem-estar, não desenvolver livremente suas energias mentais e físicas mas ficar fisicamente exausto e mentalmente deprimido (&#8230;)</p>
<p>Chegamos a conclusão de que o homem (o trabalhador) só se sente livremente ativo em suas funções animais &#8211; comer, beber e procriar, ou no máximo também em sua residência e no seu próprio embelezamento &#8211; enquanto que em suas funções humanas se reduz a um animal. O animal se torna humano e o humano se torna animal.</p>
<p>Comer, beber e procriar são, evidentemente, também funções genuinamente humanas. Mas, consideradas abstratamente, à parte do ambiente de outras atividades humanas, e convertidas em fins definitivos e exclusivos, são funções animais&#8221; (Karl Marx &#8211; Manuscrito Econômicos Filosóficos) disponível em <a href="https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/cap01.htm" rel="nofollow ugc">https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/cap01.htm</a></p>
<p>Mais uma vez: &#8220;O que constitui a alienação do trabalho? Primeiramente, ser o trabalho externo ao trabalhador, NÃO FAZER PARTE DE SUA NATUREZA!&#8230;</p>
<p>Embora tanto Marx, quanto Bakunin, falem em natureza humana, eles não falam nem levianamente, nem de maneira secundária. Para ambos é algo que, sim, está na essência da compreensão das relações sociais, o que não significa que estas não podem determinar àquelas, que é o que na verdade acontece: uma natureza transformada, objetiva e subjetivamente, pelo homem. A compreensão que se imputa à &#8220;natureza humana&#8221; é que acaba sendo deturpada, querendo igualá-la literalmente à &#8220;natureza natural&#8221; e/ou naturezas &#8220;multifacetadas e independentes entre si&#8221; , a exemplo das justificativas para a existência dos espaços &#8220;exclusivos&#8221; segundo a &#8220;natureza&#8221; dos seus participantes&#8230;</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Já dizia Marx		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/08/105836/#comment-298353</link>

		<dc:creator><![CDATA[Já dizia Marx]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Aug 2015 20:12:48 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O interessante é que essa tendência à naturalização encontra-se muito em voga, apesar de não mais, necessariamente, sob a forma aplicada por Bakunin, atribuindo uma natureza específica à humanidade em geral, que a todos parece muito retrógrada, muito iluminista. Fala-se, no campo da esquerda em geral e, talvez com mais força, no campo libertário, mais em “naturezas”, não propiamente “humanas”, pois o humano encontra-se fragmentado, do que em “relações sociais”, ou se deduz as “relações sociais” desta ou daquela “natureza”. Portanto, vemos como, do campo libertário, sobretudo, parece se projetar uma tendência teórica centrada na busca de explicações naturalizantes para qualquer problema social. Talvez seja esse o cerne de todos os problemas atuais envolvendo a extrema-esquerda e a luta anticapitalista. Enquanto não estivermos convencidos, todos nós, os anticapitalistas, de que a natureza humana é nada mais nada menos do que uma relação social, e de que as relações sociais são mutáveis, sendo, portanto, históricas, nada restará, além das explicações naturalizantes. Enfim, já dizia Marx: “o comunismo distingue-se de todos os movimentos anteriores porque revoluciona os fundamentos de todas as relações de produção e de intercâmbio precedentes e porque pela primeira vez aborda conscientemente todos os pressupostos naturais como criação dos homens que existiram anteriormente, despojando-os de seu caráter natural e submetendo-os ao poder dos indivíduos associados (K. Marx; F. Engels. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 67)”.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O interessante é que essa tendência à naturalização encontra-se muito em voga, apesar de não mais, necessariamente, sob a forma aplicada por Bakunin, atribuindo uma natureza específica à humanidade em geral, que a todos parece muito retrógrada, muito iluminista. Fala-se, no campo da esquerda em geral e, talvez com mais força, no campo libertário, mais em “naturezas”, não propiamente “humanas”, pois o humano encontra-se fragmentado, do que em “relações sociais”, ou se deduz as “relações sociais” desta ou daquela “natureza”. Portanto, vemos como, do campo libertário, sobretudo, parece se projetar uma tendência teórica centrada na busca de explicações naturalizantes para qualquer problema social. Talvez seja esse o cerne de todos os problemas atuais envolvendo a extrema-esquerda e a luta anticapitalista. Enquanto não estivermos convencidos, todos nós, os anticapitalistas, de que a natureza humana é nada mais nada menos do que uma relação social, e de que as relações sociais são mutáveis, sendo, portanto, históricas, nada restará, além das explicações naturalizantes. Enfim, já dizia Marx: “o comunismo distingue-se de todos os movimentos anteriores porque revoluciona os fundamentos de todas as relações de produção e de intercâmbio precedentes e porque pela primeira vez aborda conscientemente todos os pressupostos naturais como criação dos homens que existiram anteriormente, despojando-os de seu caráter natural e submetendo-os ao poder dos indivíduos associados (K. Marx; F. Engels. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 67)”.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Daiana Mistério		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/08/105836/#comment-298314</link>

		<dc:creator><![CDATA[Daiana Mistério]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Aug 2015 11:16:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Nada mais simples e ideológico que pensar uma suposta natureza humana. A natureza humana é uma segunda natureza, construida socialmente, portanto, não essencial. O homem é o único animal que não é definido por instintos, por isso, falar de natureza humana é leviano. É não reconhecer que o homem é um ser social.  A fala de Bakunin é infeliz e faz coro com os dogmáticos essencialistas neoliberais que defendem a meritocracia porque a luta da natureza humana é hobbesiana, ou seja, uma luta de todos contra todos. Pura baboseira.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nada mais simples e ideológico que pensar uma suposta natureza humana. A natureza humana é uma segunda natureza, construida socialmente, portanto, não essencial. O homem é o único animal que não é definido por instintos, por isso, falar de natureza humana é leviano. É não reconhecer que o homem é um ser social.  A fala de Bakunin é infeliz e faz coro com os dogmáticos essencialistas neoliberais que defendem a meritocracia porque a luta da natureza humana é hobbesiana, ou seja, uma luta de todos contra todos. Pura baboseira.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Lucas		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/08/105836/#comment-298246</link>

		<dc:creator><![CDATA[Lucas]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Aug 2015 13:19:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[seguidor de Bakunin, não sei se entendi bem a relação entre a citação do Bakunin e a frase selecionada do texto.

sei que o meu texto não prima pela ordem e clareza, mas creio que com relação a isso não ficam dúvidas: entre abster-se da iniciativa para preservar a pureza e tomar partido pela auto-organização contaminada pela natureza humana, a segunda opção foi sempre a responsável pela resistência dos expropriados em todas as épocas da história humana. A primeira é apenas a expressão individualista e romântica de uma mente leitora.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>seguidor de Bakunin, não sei se entendi bem a relação entre a citação do Bakunin e a frase selecionada do texto.</p>
<p>sei que o meu texto não prima pela ordem e clareza, mas creio que com relação a isso não ficam dúvidas: entre abster-se da iniciativa para preservar a pureza e tomar partido pela auto-organização contaminada pela natureza humana, a segunda opção foi sempre a responsável pela resistência dos expropriados em todas as épocas da história humana. A primeira é apenas a expressão individualista e romântica de uma mente leitora.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Já dizia Bakunin		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2015/08/105836/#comment-298174</link>

		<dc:creator><![CDATA[Já dizia Bakunin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Aug 2015 16:44:43 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=105836#comment-298174</guid>

					<description><![CDATA[&quot;A iniciativa da auto-organização nunca é ingênua, nunca é pura, sempre está encarnada em um sujeito e seus pressupostos&quot;

Já dizia Bakunin:

“Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana.”

O ponto mais importante e, ao mesmo tempo, mais ignorado e/ou negado neste pensamento de Bakunin é a &quot;NATUREZA HUMANA&quot;. Quer às &quot;direitas&quot;, quer às &quot;esquerdas&quot; desconhecemos e fazemos desconhecer esta natureza humana, portanto, algo natural a todos os homens, mulheres, etc, brancos, negros, etc, ricos, pobres, etc... Bakunin fala não apenas aos marxistas, mas a todos nós e sobre todos nós...

É só isso.

Valeu!

PS: Já dizia o Lulu Santos:

Não existiria som
Se não houvesse o silêncio
Não haveria luz
Se não fosse a escuridão
A vida é mesmo assim,
Dia e noite, não e sim]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;A iniciativa da auto-organização nunca é ingênua, nunca é pura, sempre está encarnada em um sujeito e seus pressupostos&#8221;</p>
<p>Já dizia Bakunin:</p>
<p>“Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana.”</p>
<p>O ponto mais importante e, ao mesmo tempo, mais ignorado e/ou negado neste pensamento de Bakunin é a &#8220;NATUREZA HUMANA&#8221;. Quer às &#8220;direitas&#8221;, quer às &#8220;esquerdas&#8221; desconhecemos e fazemos desconhecer esta natureza humana, portanto, algo natural a todos os homens, mulheres, etc, brancos, negros, etc, ricos, pobres, etc&#8230; Bakunin fala não apenas aos marxistas, mas a todos nós e sobre todos nós&#8230;</p>
<p>É só isso.</p>
<p>Valeu!</p>
<p>PS: Já dizia o Lulu Santos:</p>
<p>Não existiria som<br />
Se não houvesse o silêncio<br />
Não haveria luz<br />
Se não fosse a escuridão<br />
A vida é mesmo assim,<br />
Dia e noite, não e sim</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
	</channel>
</rss>
