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	Comentários sobre: Fascismo à brasileira? (6)	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Irado		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2018/09/122782/#comment-341258</link>

		<dc:creator><![CDATA[Irado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Oct 2018 12:45:39 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Uma análise que nega o fascismo no Brasil, justamente por não ser igual ao italiano, além de considerar que se trata de um fenómeno exclusivamente europeu e historicamente derrotado. Além de exaltar apenas o eixo radical, definindo o fascismo como um &quot;movimento revolucionário&quot;... Tem uma esquerda que adora um &quot;líder carismático&quot;...

http://www.iela.ufsc.br/noticia/nao-existe-fascismo-no-brasil?fbclid=IwAR1-TbSGbRKD-BYngGjYY8_j-TL4unz93lFuyXZeVqGl-cQ01SlzTc9m5jo]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma análise que nega o fascismo no Brasil, justamente por não ser igual ao italiano, além de considerar que se trata de um fenómeno exclusivamente europeu e historicamente derrotado. Além de exaltar apenas o eixo radical, definindo o fascismo como um &#8220;movimento revolucionário&#8221;&#8230; Tem uma esquerda que adora um &#8220;líder carismático&#8221;&#8230;</p>
<p><a href="http://www.iela.ufsc.br/noticia/nao-existe-fascismo-no-brasil?fbclid=IwAR1-TbSGbRKD-BYngGjYY8_j-TL4unz93lFuyXZeVqGl-cQ01SlzTc9m5jo" rel="nofollow ugc">http://www.iela.ufsc.br/noticia/nao-existe-fascismo-no-brasil?fbclid=IwAR1-TbSGbRKD-BYngGjYY8_j-TL4unz93lFuyXZeVqGl-cQ01SlzTc9m5jo</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Fagner Enrique		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2018/09/122782/#comment-340316</link>

		<dc:creator><![CDATA[Fagner Enrique]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Oct 2018 17:41:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O comentário de Caribé sobre a migração de votos do populismo de esquerda para o populismo de direita está relacionado, creio eu, com outro processo que podemos verificar atualmente.

Vejam, por exemplo, esta notícia: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/eleitores-de-partidos-de-esquerda-engrossam-vantagem-de-bolsonaro.shtml

Sobre isso, gostaria de adicionar o seguinte: tenho percebido que o identitarismo está cada vez mais forte nas redes sociais, justamente por causa do fortalecimento da candidatura do PSL e do fascismo que se forma ao seu redor.

Muita gente de esquerda ataca o Bolsonaro porque ele representaria um conjunto de identidades antagônicas às identidades negra, feminina, LGBT, etc. Pautar a exploração e o modo de explorar específico dos capitalistas simpáticos ao Bolsonaro, por exemplo, passa longe das preocupações. Quando muito, &quot;capitalista&quot; é também uma identidade, o que acaba contribuindo para que sejam excluídos da conta os gestores petistas, etc. (afinal, Lula não tem nada a ver com Bolsonaro, Mourão com Haddad, etc.)

Por outro lado, Bolsonaro e seus asseclas, com toda aquela defesa da &quot;família&quot; e dos valores tradicionais, etc., são a outra face da mesma moeda. Definem-se e projetam-se contra a esquerda - só que à sua maneira - também em termos identitários. E da mesma forma que à esquerda as pessoas deixam de refletir sobre a economia capitalista e as relações de exploração, à extrema-direita chega-se ao ponto de qualificar políticas públicas claramente capitalistas como &quot;comunismo&quot;, os direitos humanos são uma reivindicação &quot;comunista&quot;, discussões sobre gênero são &quot;comunismo&quot;, e assim por diante.

Tudo isso facilita o trânsito de pessoas que se situam no campo da esquerda identitária - uma das modalidades do fascismo na atualidade, como colocado por João Bernardo no comentário acima - para o campo bolsonarista - outra modalidade de fascismo pós-fascista. Basta trocar de cor, trocar esta palavra por aquela, este gesto por aquele, etc.

Não é de outro modo que interpreto a notícia que compartilhei no link acima.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O comentário de Caribé sobre a migração de votos do populismo de esquerda para o populismo de direita está relacionado, creio eu, com outro processo que podemos verificar atualmente.</p>
<p>Vejam, por exemplo, esta notícia: <a href="https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/eleitores-de-partidos-de-esquerda-engrossam-vantagem-de-bolsonaro.shtml" rel="nofollow ugc">https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/eleitores-de-partidos-de-esquerda-engrossam-vantagem-de-bolsonaro.shtml</a></p>
<p>Sobre isso, gostaria de adicionar o seguinte: tenho percebido que o identitarismo está cada vez mais forte nas redes sociais, justamente por causa do fortalecimento da candidatura do PSL e do fascismo que se forma ao seu redor.</p>
<p>Muita gente de esquerda ataca o Bolsonaro porque ele representaria um conjunto de identidades antagônicas às identidades negra, feminina, LGBT, etc. Pautar a exploração e o modo de explorar específico dos capitalistas simpáticos ao Bolsonaro, por exemplo, passa longe das preocupações. Quando muito, &#8220;capitalista&#8221; é também uma identidade, o que acaba contribuindo para que sejam excluídos da conta os gestores petistas, etc. (afinal, Lula não tem nada a ver com Bolsonaro, Mourão com Haddad, etc.)</p>
<p>Por outro lado, Bolsonaro e seus asseclas, com toda aquela defesa da &#8220;família&#8221; e dos valores tradicionais, etc., são a outra face da mesma moeda. Definem-se e projetam-se contra a esquerda &#8211; só que à sua maneira &#8211; também em termos identitários. E da mesma forma que à esquerda as pessoas deixam de refletir sobre a economia capitalista e as relações de exploração, à extrema-direita chega-se ao ponto de qualificar políticas públicas claramente capitalistas como &#8220;comunismo&#8221;, os direitos humanos são uma reivindicação &#8220;comunista&#8221;, discussões sobre gênero são &#8220;comunismo&#8221;, e assim por diante.</p>
<p>Tudo isso facilita o trânsito de pessoas que se situam no campo da esquerda identitária &#8211; uma das modalidades do fascismo na atualidade, como colocado por João Bernardo no comentário acima &#8211; para o campo bolsonarista &#8211; outra modalidade de fascismo pós-fascista. Basta trocar de cor, trocar esta palavra por aquela, este gesto por aquele, etc.</p>
<p>Não é de outro modo que interpreto a notícia que compartilhei no link acima.</p>
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		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2018/09/122782/#comment-340144</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Oct 2018 11:22:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O comentário do Manolo anuncia todo um vasto programa, mas uma passagem chamou-me especialmente a atenção: «[...] não há nenhum partido ou movimento fascista organizado no Brasil que tenha relevo ou impacto suficientes para causar assombro. Mas é isto necessário em tempos de comunicação horizontalizada? É isto necessário quando, como externalidade negativa das facilidades à comunicação causadas pela internet, basta um youtuber afirmar algo para que passe como verdade sem qualquer comprovação? É isto necessário quando estes mesmos influenciadores digitais (ou digital influencer, para os mais “descolados”) mantêm algum nível de consistência e coerência em meio a seus delírios, aparentando alguma verdade? É isto necessário quando há um público não digo nem fascista, mas conservador, formado em meio às forças armadas, às forças privadas de segurança, ao crime organizado e ao neopentecostalismo, onde os delírios encontram ampla ressonância? A meu ver, não é preciso um movimento fascista ostensivo neste contexto. Basta que os temas do fascismo e as teorias conspiratórias tenham uma boa roupagem audiovisual para movimentar centenas de milhares de pessoas. É Goebbels elevado à enésima». Lembro-me de já há muitos anos, na verdade já há várias décadas, eu dizer em conversas que a Inglaterra (a Inglaterra especificamente, não a Escócia) não precisava de ter um partido fascista porque a imprensa de massas, os tabloids, cumpriam essa função. Eu dizia isto sobretudo como blague, embora com uma parcela de seriedade. Mas hoje a questão, tal como o Manolo a colocou, é inteiramente séria. No entanto, será que essa rede de comunicação horizontalizada pode continuar a substituir-se a um partido fascista, ou será que em breve há-de gerar um partido fascista? O que sucedeu em Itália com o Movimento 5 Estrelas poderá talvez ser elucidativo, porque este Movimento baseou-se inicialmente numa rede estabelecida na internet e funcionando à maneira das redes sociais, e agora assumiu o perfil de um partido clássico, aliando-se à Liga para formar o primeiro governo claramente fascista da União Europeia.

Aliás, não levem a mal a minha observação, mas se os brasileiros olhassem para o que se passa fora do Brasil poderiam entender melhor o seu país. O mais urgente é conhecer a actuação do presidente Duterte nas Filipinas, porque ele é uma versão aumentada de Bolsonaro — aumentada em truculência e em desmandos verbais. Serve de lupa. Se quiserem prever o que poderá ser uma presidência de Bolsonaro, olhem para o que é a presidência de Duterte.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O comentário do Manolo anuncia todo um vasto programa, mas uma passagem chamou-me especialmente a atenção: «[&#8230;] não há nenhum partido ou movimento fascista organizado no Brasil que tenha relevo ou impacto suficientes para causar assombro. Mas é isto necessário em tempos de comunicação horizontalizada? É isto necessário quando, como externalidade negativa das facilidades à comunicação causadas pela internet, basta um youtuber afirmar algo para que passe como verdade sem qualquer comprovação? É isto necessário quando estes mesmos influenciadores digitais (ou digital influencer, para os mais “descolados”) mantêm algum nível de consistência e coerência em meio a seus delírios, aparentando alguma verdade? É isto necessário quando há um público não digo nem fascista, mas conservador, formado em meio às forças armadas, às forças privadas de segurança, ao crime organizado e ao neopentecostalismo, onde os delírios encontram ampla ressonância? A meu ver, não é preciso um movimento fascista ostensivo neste contexto. Basta que os temas do fascismo e as teorias conspiratórias tenham uma boa roupagem audiovisual para movimentar centenas de milhares de pessoas. É Goebbels elevado à enésima». Lembro-me de já há muitos anos, na verdade já há várias décadas, eu dizer em conversas que a Inglaterra (a Inglaterra especificamente, não a Escócia) não precisava de ter um partido fascista porque a imprensa de massas, os tabloids, cumpriam essa função. Eu dizia isto sobretudo como blague, embora com uma parcela de seriedade. Mas hoje a questão, tal como o Manolo a colocou, é inteiramente séria. No entanto, será que essa rede de comunicação horizontalizada pode continuar a substituir-se a um partido fascista, ou será que em breve há-de gerar um partido fascista? O que sucedeu em Itália com o Movimento 5 Estrelas poderá talvez ser elucidativo, porque este Movimento baseou-se inicialmente numa rede estabelecida na internet e funcionando à maneira das redes sociais, e agora assumiu o perfil de um partido clássico, aliando-se à Liga para formar o primeiro governo claramente fascista da União Europeia.</p>
<p>Aliás, não levem a mal a minha observação, mas se os brasileiros olhassem para o que se passa fora do Brasil poderiam entender melhor o seu país. O mais urgente é conhecer a actuação do presidente Duterte nas Filipinas, porque ele é uma versão aumentada de Bolsonaro — aumentada em truculência e em desmandos verbais. Serve de lupa. Se quiserem prever o que poderá ser uma presidência de Bolsonaro, olhem para o que é a presidência de Duterte.</p>
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		<item>
		<title>
		Por: Manolo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2018/09/122782/#comment-340012</link>

		<dc:creator><![CDATA[Manolo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Oct 2018 00:23:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[João, deixo aqui algumas notas mentais acerca de seu comentário enquanto não saem publicadas as demais partes da série.

Em primeiro lugar, o foco da vasta maioria da esquerda nas disputas eleitorais e na criação de algo como &quot;guetos discursivos&quot; isolou-a completamente dos grupos onde a campanha de Bolsonaro teve e tem maior ressonância. É comum hoje a piada criada nas eleições de 2006 de que depois das eleições não existem mais jantares de Natal, pois se antes do acirramento eleitoral ninguém mais se falava, agora querem matar uns aos outros. Isto reflete o fato de que os avanços comportamentais emersos num ambiente de relativa prosperidade econômica distinguiram muito claramente campos na sociedade com discursos e práticas radicalmente distintos, quando não antagônicos. É o &lt;em&gt;rapper&lt;/em&gt; que não fala mais com o amigo de infância hoje evangélico, é a jovem feminista que cria &quot;ambientes seguros&quot; de autodefesa e não consegue mais dialogar inclusive com as próprias colegas de escola, é o porteiro que nutre um ódio mudo contra os &quot;maconheiros&quot; do prédio, é o motorista de Uber furioso porque &quot;foi censurado&quot; por passageiros de esquerda que se recusam a andar num carro plotado com adesivos pró-Bolsonaro... Tudo isto são exemplos reais, que vão acontecendo com pessoas que me são próximas -- bolsonaristas, petistas ou não. Os anos do PT no governo e as políticas públicas de inclusão social e econômica efetivamente tiraram centenas de milhares da miséria, mais que dobraram o número de pessoas com diplomas universitários e multiplicaram em várias vezes o número de universidades e escolas técnicas, fizeram a dita &quot;inclusão pelo consumo&quot;, mas ao mesmo tempo, e talvez por isto mesmo, mudaram a matriz política da esquerda brasileira. Não mais a esquerda com bases comunitárias e coletivistas, mas uma esquerda de &quot;empreendedores&quot;, de &quot;batalhadores&quot;, de grupos politicamente oprimidos em busca de conquistar não somente o espaço público, mas afirmando -- com a agressividade resultante de décadas ou séculos de opressão e silenciamento -- seu direito à existência e à vida. Aquela matriz universalista e coletivista, aquilo que bem o sintetizava a máxima &quot;paz entre nós, guerra aos senhores&quot; que foi própria da esquerda durante um século ou mais, isto cedeu lugar aos particularismos identitários. Em meio às lutas dos negros, mulheres, LGBTT, indígenas, quilombolas etc., também elas atravessadas por contradições e conflitos internos, venceu a &lt;em&gt;weltanschauung&lt;/em&gt; fragmentária, &lt;em&gt;lacradora&lt;/em&gt;, solipsista, pouco capaz de construir algo que transcenda as identidades particulares para construir algo distinto, que consiga conceber as diferenças em diálogo, não em apartação. Não demorará muito para que este trecho específico do comentário seja execrado pelos &lt;em&gt;haters&lt;/em&gt; de plantão, mas basta olhar ao redor para checar se é ou não real o que digo.

A segunda questão que apresento tem a ver, ainda que muito de longe e com muitos senões e poréns, com uma &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=t7OVyuaboSc&amp;t=20m33s&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;afirmação sua acerca das previsões de Marx e Bakunin quanto á Comuna de Paris&lt;/a&gt;: estavam &quot;certos&quot; ao prever o &lt;em&gt;fracasso&lt;/em&gt; da Comuna antes de seu desfecho final, ou mesmo a &lt;em&gt;impossibilidade&lt;/em&gt; de qualquer agitação revolucionária em Paris nos meses e semanas imediatamente anteriores à Comuna, porque com o repertório teórico de que dispunham era esta a resposta, digamos, &quot;natural&quot; a que eram levados; e estavam errados, pois as condições sociais haviam mudado muito e, portanto, mudaram também as condições em que aquela revolução se se processou, e também seus resultados. Apesar de Bolsonaro ter dito já em 2014 que se candidataria à presidência em 2018, ninguém acreditou. Melhor dizendo, poucos acreditaram. A julgar pelos marcos tradicionais das campanhas eleitorais, tudo indicava que a campanha de Bolsonaro estaria fadada ao fracasso: partido pequeno (e portanto máquina partidária frágil), pouca capacidade de costurar alianças, pouca capacidade de articular um programa de governo... Ocorre, como todos agora veem com variados graus de desespero, que as condições mudaram: os setores de mais baixa renda na sociedade brasileira têm acesso a &lt;em&gt;smartphones&lt;/em&gt; com acesso a &lt;em&gt;WhatsApp&lt;/em&gt;, e aquilo que serve para mandar &lt;em&gt;nudes&lt;/em&gt; sem fiscalização serve também para fazer o que bem se entender, pois a conexão no &lt;em&gt;WhatsApp&lt;/em&gt; tem criptografia ponta-a-ponta e o conteúdo só é visível para aqueles que participam do ato comunicativo. Resultado: uma campanha simultaneamente pública e subterrânea, simultaneamente ostensiva e clandestina, descentralizada muito além do que qualquer partido político jamais possa ter sonhado, e portanto de dificílima fiscalização. O paralelo óbvio são as campanhas de Trump e do Brexit, mas este lugar-comum de agora nada mais é que uma análise &lt;em&gt;ex post facto&lt;/em&gt;.

A terceira questão que apresento diz respeito a estas mudanças, e também a algumas continuidades; nos dois casos, elas tem sido tratadas de modo um tanto quanto estanque, sem relacionarem-se. Trata-se de questões que apresentarei com maior rigor e precisão nas partes vindouras da série sobre o fascismo. Tomo a liberdade, entretanto, de adiantar algumas conclusões, pedindo-lhe a paciência de aguardar que nas próximas partes do artigo tudo isto fique mais bem contextualizado e desenvolvido com fatos, números e exemplos.

No eixo exógeno a esta teia formada pelos populistas e fascistas, temos os militares; se já eram formadores de força de trabalho disciplinada desde sempre, agora no Brasil, como demonstram as estatísticas, há mais candidatos às FF. AA. do que vagas, tornando o serviço militar obrigatório algo como um serviço voluntário de acesso altamente competitivo, ainda mais quando muitos jovens buscam nas FF. AA. um primeiro emprego e uma formação técnica. A isto se soma a crise orçamentária do Ministério da Defesa: se foram os governos do PT a reverter esta tendência durante a fase de prosperidade, nem por isto todos os conscritos o percebem, e isto deu azo à formação de alas radicalmente antiesquerdistas, ou abertamente fascistas, em meio aos soldados, praças e ao oficialato subalterno. São estes mesmos os que circulam entre as FF. AA. e dois outros componentes do &quot;elemento bélico&quot; do eixo exógeno: as forças privadas de segurança e o crime organizado.

Ainda no eixo exógeno à teia populista e fascista, há o &quot;elemento conservador&quot;, que no caso brasileiro diz respeito ao fundamentalismo neopentecostal e ao arraigado e difuso misticismo vigente em meio à população brasileira. Durante décadas o neopentecostalismo virou as costas à política, mas desde meados dos anos 1990 esta vertente do cristianismo protestante adotou a política &quot;irmão vota em irmão&quot; que resultou na formação da temida bancada evangélica. Este neopentecostalismo fundamentalista, que chamo sem rodeios de clinicamente paranoico, vive em meio a outros neopentecostais que são conservadores no campo dos costumes, mas com quem não partilham o grau de extrema paranoia. Unem-nos não apenas os ritos, gestos, falas, hábitos e vestimentas, mas a profunda crença numa concepção persecutória de mundo: daí o &quot;kit gay&quot; e outras mentiras muito piores que circulam nestes meios como se fossem uma verdade ocultada pela mídia, daí a vinculação direta às teorias conspiratórias (maçonaria, Illuminati etc.)... Os paralelos com as paranoias do núcleo duro nazista e com a mentalidade que tornou possível a aceitação destas paranoias por vastas massas na Alemanha, estes paralelos tornam-se, por este caminho, muito ilustrativos. Há mais a dizer sobre o assunto, mas não quero ser enfadonho quando tratarei extensamente do assunto.

No eixo endógeno, não há nenhum partido ou movimento fascista organizado no Brasil que tenha relevo ou impacto suficientes para causar assombro. Mas é isto necessário em tempos de comunicação horizontalizada? É isto necessário quando, como externalidade negativa das facilidades à comunicação causadas pela internet, basta um &lt;em&gt;youtuber&lt;/em&gt; afirmar algo para que passe como verdade sem qualquer comprovação? É isto necessário quando estes mesmos influenciadores digitais (ou &lt;em&gt;digital influencer&lt;/em&gt;, para os mais &quot;descolados&quot;) mantém algum nível de consistência e coerência em meio a seus delírios, aparentando alguma verdade? É isto necessário quando há um público não digo nem fascista, mas conservador, formado em meio às forças armadas, às forças privadas de segurança, ao crime organizado e ao neopentecostalismo, onde os delírios encontram ampla ressonância? A meu ver, não é preciso um movimento fascista ostensivo neste contexto. Basta que os temas do fascismo e as teorias conspiratórias tenham uma boa roupagem audiovisual para movimentar centenas de milhares de pessoas. É Goebbels elevado à enésima.

Como último elemento do eixo endógeno, há, como campo comum de teorias, discursos e práticas entre a esquerda e os fascistas, tudo aquilo que o Passa Palavra denuncia há quase uma década: mobilizações burocratizadas, apassivamento generalizado, nacionalismo em vários graus em meio à esquerda, criação de &quot;guetos discursivos&quot;, fragmentação dos trabalhadores e, em especial, a criação de uma verdadeira fratura entre os setores mais qualificados e os menos qualificados da classe trabalhadora. Quando, em março de 2013, o Passa Palavra publicou aquele texto sobre protestos virtuais e impotência política -- falo mais precisamente da &lt;a href=&quot;http://passapalavra.info/2013/03/74500&quot;&gt;parte 2&lt;/a&gt; --, que em meio às manifestações contra o pastor Marco Feliciano chegou ao fundo da questão e encarou de frente a fratura a que me refiro, nunca imaginei o alcance e a profundidade deste problema. Agora ele está aí exposto para quem queira ver: as estatísticas eleitorais do primeiro turno demonstram insofismavelmente que Bolsonaro consegue eleitores em meio aos municípios onde predomina o agronegócio, e também nas capitais e grandes centros urbanos, onde o neopentecostalismo torna-se a expressão religiosa se não majoritária, aquela com maior ressonância. Inversamente, as mesmas estatísticas demonstram como Haddad consegue maior votação nos municípios mais desfavorecidos em todos os sentidos, naqueles com IDH mais baixo, ou naqueles onde governos estaduais do PT e partidos aliados tenham feito investimentos pesados em políticas públicas que por qualquer razão haviam sido negligenciados por décadas.

Estes quatro eixos devem ser compreendidos num contexto global. Pelo que tenho visto, é nos países mais impactados pela crise aberta em 2008 que as tendências fascistas desenvolveram-se ao ponto de influenciar decisivamente na política. Trump = trabalhadores menos qualificados e extremamente prejudicados pela &quot;globalização&quot;; Brexit = trabalhadores das áreas mais retardatárias da economia britânica, ela própria muito impactada pela crise, rejeitando tudo o que tenha a ver com a &quot;globalização&quot;; Bolsonaro = trabalhadores menos qualificados somados ao pequeno empresariado (que no Brasil é muito numeroso) personificando no PT os efeitos da recessão 2014-2016, ela própria efeito retardado das crises de 2008 e 2011, e embarcando numa aventura reacionária, facilmente classificável como populista, quando não como fascista ou fascizante. Isto sem falar que a ascensão do judiciário em várias crises políticas mundo afora, a que você já se referiu algumas vezes em outros comentários, me parece, a meu ver, uma tentativa de estabilização, de &quot;domesticação&quot; destas tendências ao &lt;em&gt;rule of law&lt;/em&gt;, ou seja, àquelas exigências de previsibilidade, legalidade e &quot;confiança&quot; necessárias ao desenvolvimento econômico capitalista regular.

Mas neste cenário de complexidades, é claro, há quem queira soluções simples, narrativas simples, ações simples. Não é o meu caso.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João, deixo aqui algumas notas mentais acerca de seu comentário enquanto não saem publicadas as demais partes da série.</p>
<p>Em primeiro lugar, o foco da vasta maioria da esquerda nas disputas eleitorais e na criação de algo como &#8220;guetos discursivos&#8221; isolou-a completamente dos grupos onde a campanha de Bolsonaro teve e tem maior ressonância. É comum hoje a piada criada nas eleições de 2006 de que depois das eleições não existem mais jantares de Natal, pois se antes do acirramento eleitoral ninguém mais se falava, agora querem matar uns aos outros. Isto reflete o fato de que os avanços comportamentais emersos num ambiente de relativa prosperidade econômica distinguiram muito claramente campos na sociedade com discursos e práticas radicalmente distintos, quando não antagônicos. É o <em>rapper</em> que não fala mais com o amigo de infância hoje evangélico, é a jovem feminista que cria &#8220;ambientes seguros&#8221; de autodefesa e não consegue mais dialogar inclusive com as próprias colegas de escola, é o porteiro que nutre um ódio mudo contra os &#8220;maconheiros&#8221; do prédio, é o motorista de Uber furioso porque &#8220;foi censurado&#8221; por passageiros de esquerda que se recusam a andar num carro plotado com adesivos pró-Bolsonaro&#8230; Tudo isto são exemplos reais, que vão acontecendo com pessoas que me são próximas &#8212; bolsonaristas, petistas ou não. Os anos do PT no governo e as políticas públicas de inclusão social e econômica efetivamente tiraram centenas de milhares da miséria, mais que dobraram o número de pessoas com diplomas universitários e multiplicaram em várias vezes o número de universidades e escolas técnicas, fizeram a dita &#8220;inclusão pelo consumo&#8221;, mas ao mesmo tempo, e talvez por isto mesmo, mudaram a matriz política da esquerda brasileira. Não mais a esquerda com bases comunitárias e coletivistas, mas uma esquerda de &#8220;empreendedores&#8221;, de &#8220;batalhadores&#8221;, de grupos politicamente oprimidos em busca de conquistar não somente o espaço público, mas afirmando &#8212; com a agressividade resultante de décadas ou séculos de opressão e silenciamento &#8212; seu direito à existência e à vida. Aquela matriz universalista e coletivista, aquilo que bem o sintetizava a máxima &#8220;paz entre nós, guerra aos senhores&#8221; que foi própria da esquerda durante um século ou mais, isto cedeu lugar aos particularismos identitários. Em meio às lutas dos negros, mulheres, LGBTT, indígenas, quilombolas etc., também elas atravessadas por contradições e conflitos internos, venceu a <em>weltanschauung</em> fragmentária, <em>lacradora</em>, solipsista, pouco capaz de construir algo que transcenda as identidades particulares para construir algo distinto, que consiga conceber as diferenças em diálogo, não em apartação. Não demorará muito para que este trecho específico do comentário seja execrado pelos <em>haters</em> de plantão, mas basta olhar ao redor para checar se é ou não real o que digo.</p>
<p>A segunda questão que apresento tem a ver, ainda que muito de longe e com muitos senões e poréns, com uma <a href="https://www.youtube.com/watch?v=t7OVyuaboSc&#038;t=20m33s" rel="nofollow">afirmação sua acerca das previsões de Marx e Bakunin quanto á Comuna de Paris</a>: estavam &#8220;certos&#8221; ao prever o <em>fracasso</em> da Comuna antes de seu desfecho final, ou mesmo a <em>impossibilidade</em> de qualquer agitação revolucionária em Paris nos meses e semanas imediatamente anteriores à Comuna, porque com o repertório teórico de que dispunham era esta a resposta, digamos, &#8220;natural&#8221; a que eram levados; e estavam errados, pois as condições sociais haviam mudado muito e, portanto, mudaram também as condições em que aquela revolução se se processou, e também seus resultados. Apesar de Bolsonaro ter dito já em 2014 que se candidataria à presidência em 2018, ninguém acreditou. Melhor dizendo, poucos acreditaram. A julgar pelos marcos tradicionais das campanhas eleitorais, tudo indicava que a campanha de Bolsonaro estaria fadada ao fracasso: partido pequeno (e portanto máquina partidária frágil), pouca capacidade de costurar alianças, pouca capacidade de articular um programa de governo&#8230; Ocorre, como todos agora veem com variados graus de desespero, que as condições mudaram: os setores de mais baixa renda na sociedade brasileira têm acesso a <em>smartphones</em> com acesso a <em>WhatsApp</em>, e aquilo que serve para mandar <em>nudes</em> sem fiscalização serve também para fazer o que bem se entender, pois a conexão no <em>WhatsApp</em> tem criptografia ponta-a-ponta e o conteúdo só é visível para aqueles que participam do ato comunicativo. Resultado: uma campanha simultaneamente pública e subterrânea, simultaneamente ostensiva e clandestina, descentralizada muito além do que qualquer partido político jamais possa ter sonhado, e portanto de dificílima fiscalização. O paralelo óbvio são as campanhas de Trump e do Brexit, mas este lugar-comum de agora nada mais é que uma análise <em>ex post facto</em>.</p>
<p>A terceira questão que apresento diz respeito a estas mudanças, e também a algumas continuidades; nos dois casos, elas tem sido tratadas de modo um tanto quanto estanque, sem relacionarem-se. Trata-se de questões que apresentarei com maior rigor e precisão nas partes vindouras da série sobre o fascismo. Tomo a liberdade, entretanto, de adiantar algumas conclusões, pedindo-lhe a paciência de aguardar que nas próximas partes do artigo tudo isto fique mais bem contextualizado e desenvolvido com fatos, números e exemplos.</p>
<p>No eixo exógeno a esta teia formada pelos populistas e fascistas, temos os militares; se já eram formadores de força de trabalho disciplinada desde sempre, agora no Brasil, como demonstram as estatísticas, há mais candidatos às FF. AA. do que vagas, tornando o serviço militar obrigatório algo como um serviço voluntário de acesso altamente competitivo, ainda mais quando muitos jovens buscam nas FF. AA. um primeiro emprego e uma formação técnica. A isto se soma a crise orçamentária do Ministério da Defesa: se foram os governos do PT a reverter esta tendência durante a fase de prosperidade, nem por isto todos os conscritos o percebem, e isto deu azo à formação de alas radicalmente antiesquerdistas, ou abertamente fascistas, em meio aos soldados, praças e ao oficialato subalterno. São estes mesmos os que circulam entre as FF. AA. e dois outros componentes do &#8220;elemento bélico&#8221; do eixo exógeno: as forças privadas de segurança e o crime organizado.</p>
<p>Ainda no eixo exógeno à teia populista e fascista, há o &#8220;elemento conservador&#8221;, que no caso brasileiro diz respeito ao fundamentalismo neopentecostal e ao arraigado e difuso misticismo vigente em meio à população brasileira. Durante décadas o neopentecostalismo virou as costas à política, mas desde meados dos anos 1990 esta vertente do cristianismo protestante adotou a política &#8220;irmão vota em irmão&#8221; que resultou na formação da temida bancada evangélica. Este neopentecostalismo fundamentalista, que chamo sem rodeios de clinicamente paranoico, vive em meio a outros neopentecostais que são conservadores no campo dos costumes, mas com quem não partilham o grau de extrema paranoia. Unem-nos não apenas os ritos, gestos, falas, hábitos e vestimentas, mas a profunda crença numa concepção persecutória de mundo: daí o &#8220;kit gay&#8221; e outras mentiras muito piores que circulam nestes meios como se fossem uma verdade ocultada pela mídia, daí a vinculação direta às teorias conspiratórias (maçonaria, Illuminati etc.)&#8230; Os paralelos com as paranoias do núcleo duro nazista e com a mentalidade que tornou possível a aceitação destas paranoias por vastas massas na Alemanha, estes paralelos tornam-se, por este caminho, muito ilustrativos. Há mais a dizer sobre o assunto, mas não quero ser enfadonho quando tratarei extensamente do assunto.</p>
<p>No eixo endógeno, não há nenhum partido ou movimento fascista organizado no Brasil que tenha relevo ou impacto suficientes para causar assombro. Mas é isto necessário em tempos de comunicação horizontalizada? É isto necessário quando, como externalidade negativa das facilidades à comunicação causadas pela internet, basta um <em>youtuber</em> afirmar algo para que passe como verdade sem qualquer comprovação? É isto necessário quando estes mesmos influenciadores digitais (ou <em>digital influencer</em>, para os mais &#8220;descolados&#8221;) mantém algum nível de consistência e coerência em meio a seus delírios, aparentando alguma verdade? É isto necessário quando há um público não digo nem fascista, mas conservador, formado em meio às forças armadas, às forças privadas de segurança, ao crime organizado e ao neopentecostalismo, onde os delírios encontram ampla ressonância? A meu ver, não é preciso um movimento fascista ostensivo neste contexto. Basta que os temas do fascismo e as teorias conspiratórias tenham uma boa roupagem audiovisual para movimentar centenas de milhares de pessoas. É Goebbels elevado à enésima.</p>
<p>Como último elemento do eixo endógeno, há, como campo comum de teorias, discursos e práticas entre a esquerda e os fascistas, tudo aquilo que o Passa Palavra denuncia há quase uma década: mobilizações burocratizadas, apassivamento generalizado, nacionalismo em vários graus em meio à esquerda, criação de &#8220;guetos discursivos&#8221;, fragmentação dos trabalhadores e, em especial, a criação de uma verdadeira fratura entre os setores mais qualificados e os menos qualificados da classe trabalhadora. Quando, em março de 2013, o Passa Palavra publicou aquele texto sobre protestos virtuais e impotência política &#8212; falo mais precisamente da <a href="http://passapalavra.info/2013/03/74500">parte 2</a> &#8211;, que em meio às manifestações contra o pastor Marco Feliciano chegou ao fundo da questão e encarou de frente a fratura a que me refiro, nunca imaginei o alcance e a profundidade deste problema. Agora ele está aí exposto para quem queira ver: as estatísticas eleitorais do primeiro turno demonstram insofismavelmente que Bolsonaro consegue eleitores em meio aos municípios onde predomina o agronegócio, e também nas capitais e grandes centros urbanos, onde o neopentecostalismo torna-se a expressão religiosa se não majoritária, aquela com maior ressonância. Inversamente, as mesmas estatísticas demonstram como Haddad consegue maior votação nos municípios mais desfavorecidos em todos os sentidos, naqueles com IDH mais baixo, ou naqueles onde governos estaduais do PT e partidos aliados tenham feito investimentos pesados em políticas públicas que por qualquer razão haviam sido negligenciados por décadas.</p>
<p>Estes quatro eixos devem ser compreendidos num contexto global. Pelo que tenho visto, é nos países mais impactados pela crise aberta em 2008 que as tendências fascistas desenvolveram-se ao ponto de influenciar decisivamente na política. Trump = trabalhadores menos qualificados e extremamente prejudicados pela &#8220;globalização&#8221;; Brexit = trabalhadores das áreas mais retardatárias da economia britânica, ela própria muito impactada pela crise, rejeitando tudo o que tenha a ver com a &#8220;globalização&#8221;; Bolsonaro = trabalhadores menos qualificados somados ao pequeno empresariado (que no Brasil é muito numeroso) personificando no PT os efeitos da recessão 2014-2016, ela própria efeito retardado das crises de 2008 e 2011, e embarcando numa aventura reacionária, facilmente classificável como populista, quando não como fascista ou fascizante. Isto sem falar que a ascensão do judiciário em várias crises políticas mundo afora, a que você já se referiu algumas vezes em outros comentários, me parece, a meu ver, uma tentativa de estabilização, de &#8220;domesticação&#8221; destas tendências ao <em>rule of law</em>, ou seja, àquelas exigências de previsibilidade, legalidade e &#8220;confiança&#8221; necessárias ao desenvolvimento econômico capitalista regular.</p>
<p>Mas neste cenário de complexidades, é claro, há quem queira soluções simples, narrativas simples, ações simples. Não é o meu caso.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Caribé		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2018/09/122782/#comment-339999</link>

		<dc:creator><![CDATA[Caribé]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Oct 2018 20:31:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[João, você deve ter acompanhado as últimas eleições francesas. Por lá, dois candidatos disputavam o título de &quot;populista&quot;, Le Pen e Mélenchon, o segundo inclusive se recusou a declarar apoio a Macron quando este último foi ao segundo turno contra Le Pen. Pois bem, há uma autora muito bem recebida por Mélenchon, a Chantal Mouffe, que está defendendo a existência de um &quot;populismo de esquerda&quot;. Mas isso não é uma crítica, e sim um grande elogio. O povo que defende o &quot;populismo de esquerda&quot;, entretanto, fecha os olhos para a intensa migração dos votos dos seus candidatos para os candidatos que eles juram combater, os &quot;populistas de direita&quot;, como se isso não lhes dissesse respeito.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João, você deve ter acompanhado as últimas eleições francesas. Por lá, dois candidatos disputavam o título de &#8220;populista&#8221;, Le Pen e Mélenchon, o segundo inclusive se recusou a declarar apoio a Macron quando este último foi ao segundo turno contra Le Pen. Pois bem, há uma autora muito bem recebida por Mélenchon, a Chantal Mouffe, que está defendendo a existência de um &#8220;populismo de esquerda&#8221;. Mas isso não é uma crítica, e sim um grande elogio. O povo que defende o &#8220;populismo de esquerda&#8221;, entretanto, fecha os olhos para a intensa migração dos votos dos seus candidatos para os candidatos que eles juram combater, os &#8220;populistas de direita&#8221;, como se isso não lhes dissesse respeito.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2018/09/122782/#comment-339992</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Oct 2018 17:57:51 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=122782#comment-339992</guid>

					<description><![CDATA[O fascismo de entre as guerras mundiais só se converteu de movimento em regime em países que depararam com obstáculos ao crescimento económico, fossem esses obstáculos de ordem económica ou política. A situação hoje parece equiparável, já que as alterações geoeconómicas provocadas pelo decoupling (peço desculpa por não usar o termo «desengatamento», que é realmente difícil de engolir para um português) geraram tendências fascistas em alguns países. No Estados Unidos, por exemplo, o governo Trump, sem ser fascista, acolhe uma ala fascizante, de que Steve Bannon foi o elemento mais destacado. Mas o caso até agora mais significativo é o italiano, com o governo de aliança entre a Liga e o Cinco Estrelas. A Liga é um partido fascista com abertura aos fascistas radicais, e basta ver as recentes expressões de simpatia de Salvini pela CasaPound.

A este respeito, cabe aqui uma reflexão. Os conceitos «populismo» e «populista» não gozam de simpatia entre a extrema-esquerda, e logo no primeiro artigo desta série Manolo revelou-se um tanto ou quanto avesso ao seu emprego. No entanto, se esses conceitos hoje reapareceram e se difundem, isto deve-se a uma necessidade prática, porque sem eles torna-se impossível reunir num mesmo quadro de análise fenómenos que na prática se encontram reunidos. Sem admitirmos a existência de uma teia populista, mais ampla e difusa do que o fascismo, dificilmente se explica a convergência da Liga com o Cinco Estrelas. No centro dessa teia impera a figura de Putin, e são ele e o círculo em seu redor quem tem fomentado politicamente e apoiado monetariamente este novo populismo, que junta um programa social a uma estratégia nacionalista. Na Europa, a estratégia nacionalista visa o ataque à União Europeia, esforçando-se por fragmentá-la e por desagregar a Zona Euro. Nesta estratégia convergem partidos fascistas, como a Liga em Itália, partidos da extrema-direita radical, como o Rassemblement National de Marine Le Pen em França, e partidos comunistas, como Partido Comunista Português, que recentemente votou no Parlamento Europeu em defesa do regime de Orbán. Sem o conceito de populismo, mais amplo e mais ambíguo do que o conceito de fascismo, não se pode dar conta da formação desta teia. E esta teia é imprescindível também para entendermos o que agora ocorre no Brasil.

É que o decoupling não se limitou a erguer obstáculos ao crescimento económico em países que antes haviam ocupado uma situação dominante, mas fê-lo igualmente em países  emergentes como o Brasil. No terceiro artigo desta série Manolo, depois de chamar a atenção para as alterações que o decoupling está a provocar na forma de internacionalização da economia brasileira, escreveu que «a crise econômica afeta mais os capitalistas pouco capazes de exportar capitais ou de atrair investimentos externos diretos». Ficou assim desenhado um dos campos de apoio de um fascismo brasileiro, quando empresas arcaicas e ineficazes procuram o amparo do poder político para construírem uma reserva de mercado. Seria bom que a extrema-esquerda reflectisse a partir desses dados, em vez de papaguear as eternas diatribes contra o neoliberalismo e o imperialismo (entendido exclusivamente como Estados Unidos). Os conceitos ultrapassados que têm curso na extrema-esquerda só se explicam pelo facto de ela estar vocacionada para uma realidade também ultrapassada. O problema é que com uma chave de parafusos só se pode manipular parafusos, e se há muito já deixara de ser possível analisar em quadros nacionais uma economia que se internacionalizara, hoje é impossível analisar como soma de nações uma economia que se transnacionalizou. Ora, o trágico é que uma boa — ou má — parte da extrema-esquerda pretende dar voz aos mesmos anseios, apresentando como programa o mesmo proteccionismo e o mesmo nacionalismo que são o programa do fascismo clássico. É aqui, na teia assim gerada, que o conceito de populismo me parece imprescindível.

Este carácter estatista da extrema-esquerda é mais lamentável ainda quando pretende enfrentar a reforma das leis do trabalho. Nos quarto e quinto artigos desta série Manolo traçou um quadro diversificado da exploração da força de trabalho brasileira nas actuais circunstâncias, mas neste comentário vou limitar-me a sublinhar um aspecto, especialmente interessante por atingir sectores modernos. É que a reforma trabalhista não decorre, ou não decorre exclusivamente, no plano governativo. Se os governos não promovem essa reforma, as empresas realizam-na na prática. A uberização é a modalidade mais notória dessa reforma trabalhista realizada na prática, dando à terceirização uma nova amplitude. Muitas vezes o desemprego não significa que não se trabalhe. Significa que se trabalha sem estabilidade nem garantias, e se nesta situação muitos desempregados se dedicam a actividades tradicionais ainda vivas no Brasil, noutros casos a actividade é mais moderna e por isso mais rentável para o capitalismo. É aqui que a Uber e congéneres têm um vasto campo de acção. Em suma, as grandes remodelações da economia capitalista não dependem de eleições nem de jogos partidários. Os políticos eleitos é que se adequam às remodelações já efectivadas na prática. Entretanto a esquerda só consegue lutar contra a uberização propondo reservas do mercado de trabalho, ou seja, lançando uns trabalhadores contra outros, numa réplica do que sucede com o nacionalismo e o proteccionismo.

No Passa Palavra têm sido publicados ultimamente numerosos artigos e comentários que debatem as eleições presidenciais e as alternativas que elas colocam. Ora, é um sintoma do estado a que chegou a esquerda anticapitalista, ou melhor, do estado a que chegou o anticapitalismo na esquerda, que esse debate esteja a processar-se no plano estritamente político, em vez de tomar como pano de fundo a situação descrita e analisada por Manolo no quinto artigo desta série. A luta da classe trabalhadora no plano económico que lhe pertence encontra-se sem voz nem expressão, e o que se ouve é apenas o confronto entre políticos profissionais no plano das instituições capitalistas.

Se os movimentos identitários forem, como tenho afirmado que são (ver o último capítulo do meu livro Labirintos do Fascismo, na sua 3ª versão https://archive.org/stream/jb-ldf-nedoedr/BERNARDO%2C%20Jo%C3%A3o.%20Labirintos%20do%20fascismo.%203%C2%AA%20edi%C3%A7%C3%A3o#page/n1361 ), uma componente do fascismo pós-fascista, então o que está neste momento a ocorrer no Brasil é um confronto entre dois tipos de fascismo, um representado por Bolsonaro e o outro pelos movimentos identitários que se lhe opõem. A clivagem não é, porém, tão nítida, pois entre os apoiantes arruaceiros de Bolsonaro, aquilo a que eu poderia chamar as suas milícias informais, predominam as réplicas de movimentos sociais originariamente anticapitalistas, num processo que já foi analisado no Passa Palavra. Ora, este confronto entre tipos diferentes de fascismo não é uma anomalia nem uma novidade. Ele ocorreu na Roménia, onde duas modalidade de fascismo se exterminaram reciprocamente numa espiral sanguinária; ocorreu na Áustria, onde um dos tipos de fascismo liquidou o outro; ocorreu também, embora sem chegar a consequências tão extremas, no Japão, na França ocupada pelas tropas germânicas, em Portugal em 1933-1934; e, para não ir mais longe, no Brasil durante o Estado Novo, quando a Acção Integralista defrontou Getúlio Vargas.

Será que estaremos agora reduzidos a um remake, assistindo ao confronto entre o fascismo e o fascismo pós-fascista?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O fascismo de entre as guerras mundiais só se converteu de movimento em regime em países que depararam com obstáculos ao crescimento económico, fossem esses obstáculos de ordem económica ou política. A situação hoje parece equiparável, já que as alterações geoeconómicas provocadas pelo decoupling (peço desculpa por não usar o termo «desengatamento», que é realmente difícil de engolir para um português) geraram tendências fascistas em alguns países. No Estados Unidos, por exemplo, o governo Trump, sem ser fascista, acolhe uma ala fascizante, de que Steve Bannon foi o elemento mais destacado. Mas o caso até agora mais significativo é o italiano, com o governo de aliança entre a Liga e o Cinco Estrelas. A Liga é um partido fascista com abertura aos fascistas radicais, e basta ver as recentes expressões de simpatia de Salvini pela CasaPound.</p>
<p>A este respeito, cabe aqui uma reflexão. Os conceitos «populismo» e «populista» não gozam de simpatia entre a extrema-esquerda, e logo no primeiro artigo desta série Manolo revelou-se um tanto ou quanto avesso ao seu emprego. No entanto, se esses conceitos hoje reapareceram e se difundem, isto deve-se a uma necessidade prática, porque sem eles torna-se impossível reunir num mesmo quadro de análise fenómenos que na prática se encontram reunidos. Sem admitirmos a existência de uma teia populista, mais ampla e difusa do que o fascismo, dificilmente se explica a convergência da Liga com o Cinco Estrelas. No centro dessa teia impera a figura de Putin, e são ele e o círculo em seu redor quem tem fomentado politicamente e apoiado monetariamente este novo populismo, que junta um programa social a uma estratégia nacionalista. Na Europa, a estratégia nacionalista visa o ataque à União Europeia, esforçando-se por fragmentá-la e por desagregar a Zona Euro. Nesta estratégia convergem partidos fascistas, como a Liga em Itália, partidos da extrema-direita radical, como o Rassemblement National de Marine Le Pen em França, e partidos comunistas, como Partido Comunista Português, que recentemente votou no Parlamento Europeu em defesa do regime de Orbán. Sem o conceito de populismo, mais amplo e mais ambíguo do que o conceito de fascismo, não se pode dar conta da formação desta teia. E esta teia é imprescindível também para entendermos o que agora ocorre no Brasil.</p>
<p>É que o decoupling não se limitou a erguer obstáculos ao crescimento económico em países que antes haviam ocupado uma situação dominante, mas fê-lo igualmente em países  emergentes como o Brasil. No terceiro artigo desta série Manolo, depois de chamar a atenção para as alterações que o decoupling está a provocar na forma de internacionalização da economia brasileira, escreveu que «a crise econômica afeta mais os capitalistas pouco capazes de exportar capitais ou de atrair investimentos externos diretos». Ficou assim desenhado um dos campos de apoio de um fascismo brasileiro, quando empresas arcaicas e ineficazes procuram o amparo do poder político para construírem uma reserva de mercado. Seria bom que a extrema-esquerda reflectisse a partir desses dados, em vez de papaguear as eternas diatribes contra o neoliberalismo e o imperialismo (entendido exclusivamente como Estados Unidos). Os conceitos ultrapassados que têm curso na extrema-esquerda só se explicam pelo facto de ela estar vocacionada para uma realidade também ultrapassada. O problema é que com uma chave de parafusos só se pode manipular parafusos, e se há muito já deixara de ser possível analisar em quadros nacionais uma economia que se internacionalizara, hoje é impossível analisar como soma de nações uma economia que se transnacionalizou. Ora, o trágico é que uma boa — ou má — parte da extrema-esquerda pretende dar voz aos mesmos anseios, apresentando como programa o mesmo proteccionismo e o mesmo nacionalismo que são o programa do fascismo clássico. É aqui, na teia assim gerada, que o conceito de populismo me parece imprescindível.</p>
<p>Este carácter estatista da extrema-esquerda é mais lamentável ainda quando pretende enfrentar a reforma das leis do trabalho. Nos quarto e quinto artigos desta série Manolo traçou um quadro diversificado da exploração da força de trabalho brasileira nas actuais circunstâncias, mas neste comentário vou limitar-me a sublinhar um aspecto, especialmente interessante por atingir sectores modernos. É que a reforma trabalhista não decorre, ou não decorre exclusivamente, no plano governativo. Se os governos não promovem essa reforma, as empresas realizam-na na prática. A uberização é a modalidade mais notória dessa reforma trabalhista realizada na prática, dando à terceirização uma nova amplitude. Muitas vezes o desemprego não significa que não se trabalhe. Significa que se trabalha sem estabilidade nem garantias, e se nesta situação muitos desempregados se dedicam a actividades tradicionais ainda vivas no Brasil, noutros casos a actividade é mais moderna e por isso mais rentável para o capitalismo. É aqui que a Uber e congéneres têm um vasto campo de acção. Em suma, as grandes remodelações da economia capitalista não dependem de eleições nem de jogos partidários. Os políticos eleitos é que se adequam às remodelações já efectivadas na prática. Entretanto a esquerda só consegue lutar contra a uberização propondo reservas do mercado de trabalho, ou seja, lançando uns trabalhadores contra outros, numa réplica do que sucede com o nacionalismo e o proteccionismo.</p>
<p>No Passa Palavra têm sido publicados ultimamente numerosos artigos e comentários que debatem as eleições presidenciais e as alternativas que elas colocam. Ora, é um sintoma do estado a que chegou a esquerda anticapitalista, ou melhor, do estado a que chegou o anticapitalismo na esquerda, que esse debate esteja a processar-se no plano estritamente político, em vez de tomar como pano de fundo a situação descrita e analisada por Manolo no quinto artigo desta série. A luta da classe trabalhadora no plano económico que lhe pertence encontra-se sem voz nem expressão, e o que se ouve é apenas o confronto entre políticos profissionais no plano das instituições capitalistas.</p>
<p>Se os movimentos identitários forem, como tenho afirmado que são (ver o último capítulo do meu livro Labirintos do Fascismo, na sua 3ª versão <a href="https://archive.org/stream/jb-ldf-nedoedr/BERNARDO%2C%20Jo%C3%A3o.%20Labirintos%20do%20fascismo.%203%C2%AA%20edi%C3%A7%C3%A3o#page/n1361" rel="nofollow ugc">https://archive.org/stream/jb-ldf-nedoedr/BERNARDO%2C%20Jo%C3%A3o.%20Labirintos%20do%20fascismo.%203%C2%AA%20edi%C3%A7%C3%A3o#page/n1361</a> ), uma componente do fascismo pós-fascista, então o que está neste momento a ocorrer no Brasil é um confronto entre dois tipos de fascismo, um representado por Bolsonaro e o outro pelos movimentos identitários que se lhe opõem. A clivagem não é, porém, tão nítida, pois entre os apoiantes arruaceiros de Bolsonaro, aquilo a que eu poderia chamar as suas milícias informais, predominam as réplicas de movimentos sociais originariamente anticapitalistas, num processo que já foi analisado no Passa Palavra. Ora, este confronto entre tipos diferentes de fascismo não é uma anomalia nem uma novidade. Ele ocorreu na Roménia, onde duas modalidade de fascismo se exterminaram reciprocamente numa espiral sanguinária; ocorreu na Áustria, onde um dos tipos de fascismo liquidou o outro; ocorreu também, embora sem chegar a consequências tão extremas, no Japão, na França ocupada pelas tropas germânicas, em Portugal em 1933-1934; e, para não ir mais longe, no Brasil durante o Estado Novo, quando a Acção Integralista defrontou Getúlio Vargas.</p>
<p>Será que estaremos agora reduzidos a um remake, assistindo ao confronto entre o fascismo e o fascismo pós-fascista?</p>
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