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	Comentários sobre: Quatro Notas Breves sobre o Multiculturalismo	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Antonio de Odilon Brito		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2019/10/128504/#comment-481243</link>

		<dc:creator><![CDATA[Antonio de Odilon Brito]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Oct 2019 23:22:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[João Bernardo
Me perdoe a demora de responder. Nunca escutei os trabalhos de nenhum dos artistas que você elencou, muito embora já tenha ouvido falar em John Cage. Irei escutar tudo que você sugeriu, inclusive irei fazer o download de algumas coisas no youtube. Muito obrigado! Gostei bastante do debate e digo que saio mais fortalecido. No mais, fica mais uma vez a sugestão para você: caso tenha interesse em escrever um pouco mais sobre o processo de integração mundial das culturas, com certeza seria bem interessante.

Abraços,
Antonio]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Bernardo<br />
Me perdoe a demora de responder. Nunca escutei os trabalhos de nenhum dos artistas que você elencou, muito embora já tenha ouvido falar em John Cage. Irei escutar tudo que você sugeriu, inclusive irei fazer o download de algumas coisas no youtube. Muito obrigado! Gostei bastante do debate e digo que saio mais fortalecido. No mais, fica mais uma vez a sugestão para você: caso tenha interesse em escrever um pouco mais sobre o processo de integração mundial das culturas, com certeza seria bem interessante.</p>
<p>Abraços,<br />
Antonio</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2019/10/128504/#comment-481162</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Oct 2019 10:22:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[João Marques,

Quando existe racismo, inevitavelmente existe luta contra o racismo. O problema consiste na forma como essa luta prossegue. Eu só menciono o movimento negro como «um todo unitário, sempre numa perspectiva única» quando refiro a situação actual. A história do século XX mostrou-nos muitos exemplos de movimentos negros que inseriram a questão do racismo no interior da luta de classes, mas os identitários dos nossos dias atacam precisamente essa tradição. Veja o caso de Marcus Garvey, que fornece a matriz do movimento negro contemporâneo e que se apresentou a ele mesmo como fascista, aliás, como o inventor do fascismo. «Nós fomos os primeiros fascistas», declarou ele. Com efeito, Garvey lançou o seu movimento contra a esquerda e o movimento sindical, tanto branco como negro. Ora, a grande dificuldade nas lutas sociais é que não existem soluções definitivas. Veja os casos do MPLA em Angola, da FRELIMO em Moçambique e do ANC na África do Sul. Foram movimentos que lutaram contra o colonialismo e o racismo em termos não raciais e que integraram brancos nas suas fileiras. Hoje, porém, os regimes do MPLA, da FRELIMO e do ANC geraram classes capitalistas negras não menos ávidas nem menos arrogantes do que as classes capitalistas brancas do tempo do colonialismo e do &lt;em&gt;apartheid&lt;/em&gt;. Antes a luta parecia de negros contra brancos, quando na realidade era uma luta de classes dissimulada pela cor da pele. Agora a luta de classes já não é dissimulada, mas as elites capitalistas negras de Angola, de Moçambique e da África do Sul comportam-se para com a plebe negra com a mesma arrogância e a mesma discriminação que antes se julgava exclusiva dos capitalistas brancos.
Se as lutas sociais não fossem complexas, já há muito que as questões estariam resolvidas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Marques,</p>
<p>Quando existe racismo, inevitavelmente existe luta contra o racismo. O problema consiste na forma como essa luta prossegue. Eu só menciono o movimento negro como «um todo unitário, sempre numa perspectiva única» quando refiro a situação actual. A história do século XX mostrou-nos muitos exemplos de movimentos negros que inseriram a questão do racismo no interior da luta de classes, mas os identitários dos nossos dias atacam precisamente essa tradição. Veja o caso de Marcus Garvey, que fornece a matriz do movimento negro contemporâneo e que se apresentou a ele mesmo como fascista, aliás, como o inventor do fascismo. «Nós fomos os primeiros fascistas», declarou ele. Com efeito, Garvey lançou o seu movimento contra a esquerda e o movimento sindical, tanto branco como negro. Ora, a grande dificuldade nas lutas sociais é que não existem soluções definitivas. Veja os casos do MPLA em Angola, da FRELIMO em Moçambique e do ANC na África do Sul. Foram movimentos que lutaram contra o colonialismo e o racismo em termos não raciais e que integraram brancos nas suas fileiras. Hoje, porém, os regimes do MPLA, da FRELIMO e do ANC geraram classes capitalistas negras não menos ávidas nem menos arrogantes do que as classes capitalistas brancas do tempo do colonialismo e do <em>apartheid</em>. Antes a luta parecia de negros contra brancos, quando na realidade era uma luta de classes dissimulada pela cor da pele. Agora a luta de classes já não é dissimulada, mas as elites capitalistas negras de Angola, de Moçambique e da África do Sul comportam-se para com a plebe negra com a mesma arrogância e a mesma discriminação que antes se julgava exclusiva dos capitalistas brancos.<br />
Se as lutas sociais não fossem complexas, já há muito que as questões estariam resolvidas.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Marques		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2019/10/128504/#comment-481059</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Marques]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 13 Oct 2019 13:32:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[João Bernardo,
peço vênias se estou sendo insistente ou persistente, pois a intenção é compreender de forma mais ampla o racismo e os seus efeitos históricos e, principalmente, sair da zona de conforto no que se refere às minhas próprias convicções sobre a temática.
Não sendo retórico - a intenção não é essa -, você aponta o movimento negro como, aparentemente, um todo unitário, sempre numa perspectiva única. Insisto: em sua concepção, nunca existiu historicamente um movimento negro nos termos delineados por seus critérios? Nunca se contribuiu para a classe trabalhadora?
Por outro lado, se o que existe é racistas, não existiria uma dimensão ideológica que fundamentaria a dimensão coletiva ou &quot;estrutural&quot; do racismo? Em outras palavras, me parece que essa sua assertiva não deixa de pensar essas questões.
Por fim, o debate sobre a África é bastante esclarecedor dos limites do racialismo, contudo os seus efeitos perduram. O que fazer então?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Bernardo,<br />
peço vênias se estou sendo insistente ou persistente, pois a intenção é compreender de forma mais ampla o racismo e os seus efeitos históricos e, principalmente, sair da zona de conforto no que se refere às minhas próprias convicções sobre a temática.<br />
Não sendo retórico &#8211; a intenção não é essa -, você aponta o movimento negro como, aparentemente, um todo unitário, sempre numa perspectiva única. Insisto: em sua concepção, nunca existiu historicamente um movimento negro nos termos delineados por seus critérios? Nunca se contribuiu para a classe trabalhadora?<br />
Por outro lado, se o que existe é racistas, não existiria uma dimensão ideológica que fundamentaria a dimensão coletiva ou &#8220;estrutural&#8221; do racismo? Em outras palavras, me parece que essa sua assertiva não deixa de pensar essas questões.<br />
Por fim, o debate sobre a África é bastante esclarecedor dos limites do racialismo, contudo os seus efeitos perduram. O que fazer então?</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2019/10/128504/#comment-480899</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 12 Oct 2019 09:01:15 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=128504#comment-480899</guid>

					<description><![CDATA[Antonio de Odilon Brito,
Agradeço as suas indicações, que me serão úteis porque os meus interesses musicais têm-se restringido à música erudita e ao jazz. Mas, já que você falou em ruído, conhece a obra de Edgard Varèse? Ele foi um precursor incontornável, e não só para a música erudita. E conhece a obra de John Cage, que abriu também novos caminhos? Tudo isto, que me parece indispensável ouvir, faz parte da tal cultura mundial integradora e faz parte também das rupturas que essa cultura exige. Quanto à música electrónica, se não estou em erro, a primeira obra de música electrónica gravada em disco foi de Ernst Krenek, &lt;em&gt;Spiritus Intelligentsiae Sanctus&lt;/em&gt;, &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=XpwnuuD6mFk&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;parte 1&lt;/a&gt; e &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=TEFFzGjEB3c&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;parte 2&lt;/a&gt;, gravada pela Deutsche Grammophon.

João Marques,
Não existem raças. O que existe é racistas. Foram os racistas quem inventou as raças. O que existe na realidade é um continuum de nuances de cor de pele, sem que em nenhum ponto haja uma demarcação, e uma variedade de traços fisionómicos, que por vezes se combinam com um tom de pele, outras vezes com outro. Em muitas épocas e em muitas civilizações os seres humanos entendiam as diferenças entre eles como diferenças individuais. Na Europa, embora não nas colónias europeias, o racismo é uma criação tardia, datando do século XIX. As diferenças marcantes eram as diferenças entre culturas, e cada Estado englobava culturas distintas, muitas vezes opostas, que foram integradas em culturas nacionais comuns através de um duplo processo, assente na instrução geral obrigatória, submetida a programas únicos, e no serviço militar geral obrigatório. A noção de que exista uma sobreposição entre culturas e traços físicos distintivos é uma invenção dos racistas, incluindo o racismo fascista do movimento negro, exemplificado por Marcus Garvey e os seus seguidores, hoje numerosos. 
Essas diferenças que você indica, «diferenças materiais de salários, educação formal, acesso a bens materiais, índices de violência urbana e criminalização», tanto existem entre pessoas em que predomina um tom de pele como entre pessoas com diferentes tons de pele. E se as características físicas podem constituir um factor de marginalização, podem também não o constituir e a marginalização resultar de outros factores. Peço-lhe de novo, estude a questão em África. E já agora, por simetria, estude-a no norte da Noruega, na Lapónia. Pretender explicar as diferenças sociais através de diferenças físicas é um beco sem saída.
Nas altas administrações económicas internacionais e transnacionais não existem segregações nem identitarismos. Aí a classe dos gestores está bem unida. Os identitarismos existem somente no meio dos trabalhadores. Capitalistas unidos e trabalhadores fraccionados.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Antonio de Odilon Brito,<br />
Agradeço as suas indicações, que me serão úteis porque os meus interesses musicais têm-se restringido à música erudita e ao jazz. Mas, já que você falou em ruído, conhece a obra de Edgard Varèse? Ele foi um precursor incontornável, e não só para a música erudita. E conhece a obra de John Cage, que abriu também novos caminhos? Tudo isto, que me parece indispensável ouvir, faz parte da tal cultura mundial integradora e faz parte também das rupturas que essa cultura exige. Quanto à música electrónica, se não estou em erro, a primeira obra de música electrónica gravada em disco foi de Ernst Krenek, <em>Spiritus Intelligentsiae Sanctus</em>, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=XpwnuuD6mFk" rel="nofollow">parte 1</a> e <a href="https://www.youtube.com/watch?v=TEFFzGjEB3c" rel="nofollow">parte 2</a>, gravada pela Deutsche Grammophon.</p>
<p>João Marques,<br />
Não existem raças. O que existe é racistas. Foram os racistas quem inventou as raças. O que existe na realidade é um continuum de nuances de cor de pele, sem que em nenhum ponto haja uma demarcação, e uma variedade de traços fisionómicos, que por vezes se combinam com um tom de pele, outras vezes com outro. Em muitas épocas e em muitas civilizações os seres humanos entendiam as diferenças entre eles como diferenças individuais. Na Europa, embora não nas colónias europeias, o racismo é uma criação tardia, datando do século XIX. As diferenças marcantes eram as diferenças entre culturas, e cada Estado englobava culturas distintas, muitas vezes opostas, que foram integradas em culturas nacionais comuns através de um duplo processo, assente na instrução geral obrigatória, submetida a programas únicos, e no serviço militar geral obrigatório. A noção de que exista uma sobreposição entre culturas e traços físicos distintivos é uma invenção dos racistas, incluindo o racismo fascista do movimento negro, exemplificado por Marcus Garvey e os seus seguidores, hoje numerosos.<br />
Essas diferenças que você indica, «diferenças materiais de salários, educação formal, acesso a bens materiais, índices de violência urbana e criminalização», tanto existem entre pessoas em que predomina um tom de pele como entre pessoas com diferentes tons de pele. E se as características físicas podem constituir um factor de marginalização, podem também não o constituir e a marginalização resultar de outros factores. Peço-lhe de novo, estude a questão em África. E já agora, por simetria, estude-a no norte da Noruega, na Lapónia. Pretender explicar as diferenças sociais através de diferenças físicas é um beco sem saída.<br />
Nas altas administrações económicas internacionais e transnacionais não existem segregações nem identitarismos. Aí a classe dos gestores está bem unida. Os identitarismos existem somente no meio dos trabalhadores. Capitalistas unidos e trabalhadores fraccionados.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Marques		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2019/10/128504/#comment-480866</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Marques]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 12 Oct 2019 03:10:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[João Bernardo,
li a referida passagem da sua obra e achei interessante e polêmica, assim como provocativa a sua indagação posta.
Por outro lado, se raça somente pode ser compreendida como &quot;diferenças na taxa de melanina na epiderme e, eventualmente, diferenças no formato do nariz&quot;, como explicar diferenças materiais de salários, educação formal, acesso a bens materiais, índices de violência urbana  e criminalização, sem recorrer a esses marcadores sociais - melanínicos - delineados pelo racialismo, instrumentais numa sociedade capitalista?
De outra parte, será que nunca existiu um movimento negro nestes termos que vc mesmo delineou? Nenhuma experiência histórica e concreta neste sentido? 
Por fim, o debate do PP acerca da crítica ao identitarismo tem sido bastante proveitoso. Ótimas contribuições...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Bernardo,<br />
li a referida passagem da sua obra e achei interessante e polêmica, assim como provocativa a sua indagação posta.<br />
Por outro lado, se raça somente pode ser compreendida como &#8220;diferenças na taxa de melanina na epiderme e, eventualmente, diferenças no formato do nariz&#8221;, como explicar diferenças materiais de salários, educação formal, acesso a bens materiais, índices de violência urbana  e criminalização, sem recorrer a esses marcadores sociais &#8211; melanínicos &#8211; delineados pelo racialismo, instrumentais numa sociedade capitalista?<br />
De outra parte, será que nunca existiu um movimento negro nestes termos que vc mesmo delineou? Nenhuma experiência histórica e concreta neste sentido?<br />
Por fim, o debate do PP acerca da crítica ao identitarismo tem sido bastante proveitoso. Ótimas contribuições&#8230;</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Antonio de Odilon Brito		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2019/10/128504/#comment-480835</link>

		<dc:creator><![CDATA[Antonio de Odilon Brito]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Oct 2019 22:31:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[João Bernardo,
Suas observações acerca do Jazz me deixaram, por um lado, bastante contente, pois agora conheço composições desse estilo que amo que antes não conhecia, e por outro deixaram ainda mais claro aquilo que estamos discutindo. E já que estamos falando da integração mundial das culturas, sou alguém que aprecia diversos estilos musicais, e dentre eles o que mais me fascina é o Industrial. A música Industrial surgiu no final da década de 1970 com bandas como Throbbing Gristle (https://www.youtube.com/watch?v=IZAIrbonUcA) e Einstürzende Neubauten (https://www.youtube.com/watch?v=CweBj4pvcfg) por influência do Noise, da Musique Concréte (desse estilo recomendo o soviético Arseny Avraamov e esta composição: https://www.youtube.com/watch?v=Kq_7w9RHvpQ&#038;t=642s), mas também do caráter contestador do nascente Punk. Tudo, mas tudo mesmo entrava (e entra) nesse estilo, e a provocação é regra: Throbbing Gristle, por exemplo, colocava certas frequências de som em seus shows que faziam a platéia vomitar, e Genocide Organ, por exemplo, lida com temas como terrorismo, genocídio, assassinatos, sectarismo político etc. Definir o Industrial é bastante difícil, mas basicamente eu diria que é &quot;barulho organizado&quot;.

Bem. O estilo sofreu diversas metamorfoses e adquiriu diversas influências, até que em 1980 surge uma banda na Eslovência (então parte da Yugoslávia) chamada Laibach (https://www.youtube.com/watch?v=07PpcCt90TY), cujo nome em si já gerou bastante polêmica, pois Laibach é a renomeação em alemão de Ljubljana, o que imediatamente provocou na população e no governo uma reação explosiva, visto que remete à ocupação nazista daquele território, bem como ao domínio Austríaco vários anos antes. Pois Laibach não apenas misturou o Industrial e sua estética incômoda ao ouvido médio com a música marcial (https://www.youtube.com/watch?v=5QbdLGeC3pM), como também começou a misturar referências fascistas com aquelas do &quot;&quot;socialismo&quot;&quot; encabeçado por Josip Broz Tito, e vestir essas referências em termos de uniformes e temáticas abordadas. Tudo isso era uma maneira de mostrar as semelhanças entre aquela forma de &quot;&quot;socialismo&quot;&quot; com o fascismo e denunciar esses sistemas políticos, porém paradoxalmente vestido as roupas do inimigo. Agora veja que interessante: durante a guerra de dissolução da Yugoslávia Laibach lança um disco chamado &quot;NATO&quot; (em Português: OTAN - https://www.youtube.com/watch?v=jOFzTjjZcZw) para denunciar a hipocrisia desse órgão e seu papel de supostamente &quot;manter a paz&quot;, além de fazer um evento de acolhimento à população traumatzada de Sarajevo em 1995 (https://www.youtube.com/watch?v=EL8KcXQ4-wA). Aqui temos música marcial, música clássica, ruídos criados em sintetizador ou gravados e utilizados como samples, instrumentos tocados de maneira não-ortodoxa misturados à história e aos traumas pelos quais os Bálcãs passaram durante todo o século XX. Se quiser uma análise mais aprofundada sobre essa banda e sobre o movimento artístico do qual eles fazem parte (o NSK), recomendo este documentário: https://toogoodfornetflix.noblogs.org/post/2019/01/29/predictions-of-fire-1996/

Agora, a banda desse estilo que realmente me fascina é AutopsiA - uma banda, aliás, muito mais envolta em mistério, mas que pelo menos sei que os integrantes são de esquerda, pois tenho o contato deles via facebook (falo isso porque há bandas fascistas de Industrial, infelizmente): https://www.youtube.com/watch?v=F6721panfnI&#038;t=5s Destaque para a última faixa desse disco, onde há um trabalho de samplerização de Perotin (https://www.youtube.com/watch?v=3oaRM1uDsw8) misturado com sons feitos em sintetizador, provavelmente. Uma coisa linda.

Ainda sobre a fascinante influência que as culturas exercem umas sobre as outras, aqui há outra recomendação em termos de Industrial e Coro: durante a greve dos mineiros britânicos de 1984-85 o Coral do &quot;Mineiros Grevistas do Sul de Gales&quot; juntou forças com a banda socialista de Industrial &quot;Test Dept.&quot; e gravou este disco: https://www.youtube.com/watch?v=6ktC7f-I5Io&#038;t=855s Barulhos feitos com instrumentos &quot;não-musicais&quot; e música marcial feita com latas de lixo encontram-se no mesmo disco que as faixas onde os mineiros cantam num estilo mais clássico, e por vezes também marcial. Sem esquecer, é claro, do belo trabalho de remixagem que Test Dept. fez do canto dos mineiros na faixa 8 &quot;Comrades&quot;. É algo realmente fascinante.


Por fim, um breve comentário que é um pouco um ponto fora da curva da discussão. Já que você falou em vegetarianismo/veganismo, algumas dessas pessoas (não todas, veja bem, não estou generalizando) em certos círculos parecem estar tomando o lugar outrora ocupado pelos identitários em termos de chatice e policiamento ideológico. E no caso deles é algo tão crítico quanto, pois vai na linha de policiar o que as pessoas compram no supermercado e colocam sobre a mesa para comer, o que mostra que os que fazem isso acham que vão atingir seus objetivos fetichizando o consumo - e neste caso minha crítica maior vai para aqueles que além de vegetarianos também se dizem socialistas, pois como é que se pretende atingir o socialismo focando no consumo do indivíduo? Mas há algo ainda mais crítico, que é uma questão muito mais profunda: plantas também são vida que quer viver, e tanto o querem, que possuem vários mecanismos de defesa (ver https://www.youtube.com/watch?v=GgnnklDVhso&#038;t=24s, https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/710939/1/133fitopatogenos.pdf;Mecanismos e http://profissaobiotec.com.br/defesa-inteligente-estrategia-das-plantas/). Ou seja, onde puxamos o freio de mão? Comendo pedras? Daí a necessidade de haver um enfoque estritamente no ser humano enquanto sujeito que deve ser emancipado, porém com um respeito para com todos os outros tipos de vida.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Bernardo,<br />
Suas observações acerca do Jazz me deixaram, por um lado, bastante contente, pois agora conheço composições desse estilo que amo que antes não conhecia, e por outro deixaram ainda mais claro aquilo que estamos discutindo. E já que estamos falando da integração mundial das culturas, sou alguém que aprecia diversos estilos musicais, e dentre eles o que mais me fascina é o Industrial. A música Industrial surgiu no final da década de 1970 com bandas como Throbbing Gristle (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=IZAIrbonUcA" rel="nofollow ugc">https://www.youtube.com/watch?v=IZAIrbonUcA</a>) e Einstürzende Neubauten (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=CweBj4pvcfg" rel="nofollow ugc">https://www.youtube.com/watch?v=CweBj4pvcfg</a>) por influência do Noise, da Musique Concréte (desse estilo recomendo o soviético Arseny Avraamov e esta composição: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=Kq_7w9RHvpQ&#038;t=642s" rel="nofollow ugc">https://www.youtube.com/watch?v=Kq_7w9RHvpQ&#038;t=642s</a>), mas também do caráter contestador do nascente Punk. Tudo, mas tudo mesmo entrava (e entra) nesse estilo, e a provocação é regra: Throbbing Gristle, por exemplo, colocava certas frequências de som em seus shows que faziam a platéia vomitar, e Genocide Organ, por exemplo, lida com temas como terrorismo, genocídio, assassinatos, sectarismo político etc. Definir o Industrial é bastante difícil, mas basicamente eu diria que é &#8220;barulho organizado&#8221;.</p>
<p>Bem. O estilo sofreu diversas metamorfoses e adquiriu diversas influências, até que em 1980 surge uma banda na Eslovência (então parte da Yugoslávia) chamada Laibach (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=07PpcCt90TY" rel="nofollow ugc">https://www.youtube.com/watch?v=07PpcCt90TY</a>), cujo nome em si já gerou bastante polêmica, pois Laibach é a renomeação em alemão de Ljubljana, o que imediatamente provocou na população e no governo uma reação explosiva, visto que remete à ocupação nazista daquele território, bem como ao domínio Austríaco vários anos antes. Pois Laibach não apenas misturou o Industrial e sua estética incômoda ao ouvido médio com a música marcial (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=5QbdLGeC3pM" rel="nofollow ugc">https://www.youtube.com/watch?v=5QbdLGeC3pM</a>), como também começou a misturar referências fascistas com aquelas do &#8220;&#8221;socialismo&#8221;&#8221; encabeçado por Josip Broz Tito, e vestir essas referências em termos de uniformes e temáticas abordadas. Tudo isso era uma maneira de mostrar as semelhanças entre aquela forma de &#8220;&#8221;socialismo&#8221;&#8221; com o fascismo e denunciar esses sistemas políticos, porém paradoxalmente vestido as roupas do inimigo. Agora veja que interessante: durante a guerra de dissolução da Yugoslávia Laibach lança um disco chamado &#8220;NATO&#8221; (em Português: OTAN &#8211; <a href="https://www.youtube.com/watch?v=jOFzTjjZcZw" rel="nofollow ugc">https://www.youtube.com/watch?v=jOFzTjjZcZw</a>) para denunciar a hipocrisia desse órgão e seu papel de supostamente &#8220;manter a paz&#8221;, além de fazer um evento de acolhimento à população traumatzada de Sarajevo em 1995 (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=EL8KcXQ4-wA" rel="nofollow ugc">https://www.youtube.com/watch?v=EL8KcXQ4-wA</a>). Aqui temos música marcial, música clássica, ruídos criados em sintetizador ou gravados e utilizados como samples, instrumentos tocados de maneira não-ortodoxa misturados à história e aos traumas pelos quais os Bálcãs passaram durante todo o século XX. Se quiser uma análise mais aprofundada sobre essa banda e sobre o movimento artístico do qual eles fazem parte (o NSK), recomendo este documentário: <a href="https://toogoodfornetflix.noblogs.org/post/2019/01/29/predictions-of-fire-1996/" rel="nofollow ugc">https://toogoodfornetflix.noblogs.org/post/2019/01/29/predictions-of-fire-1996/</a></p>
<p>Agora, a banda desse estilo que realmente me fascina é AutopsiA &#8211; uma banda, aliás, muito mais envolta em mistério, mas que pelo menos sei que os integrantes são de esquerda, pois tenho o contato deles via facebook (falo isso porque há bandas fascistas de Industrial, infelizmente): <a href="https://www.youtube.com/watch?v=F6721panfnI&#038;t=5s" rel="nofollow ugc">https://www.youtube.com/watch?v=F6721panfnI&#038;t=5s</a> Destaque para a última faixa desse disco, onde há um trabalho de samplerização de Perotin (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=3oaRM1uDsw8" rel="nofollow ugc">https://www.youtube.com/watch?v=3oaRM1uDsw8</a>) misturado com sons feitos em sintetizador, provavelmente. Uma coisa linda.</p>
<p>Ainda sobre a fascinante influência que as culturas exercem umas sobre as outras, aqui há outra recomendação em termos de Industrial e Coro: durante a greve dos mineiros britânicos de 1984-85 o Coral do &#8220;Mineiros Grevistas do Sul de Gales&#8221; juntou forças com a banda socialista de Industrial &#8220;Test Dept.&#8221; e gravou este disco: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=6ktC7f-I5Io&#038;t=855s" rel="nofollow ugc">https://www.youtube.com/watch?v=6ktC7f-I5Io&#038;t=855s</a> Barulhos feitos com instrumentos &#8220;não-musicais&#8221; e música marcial feita com latas de lixo encontram-se no mesmo disco que as faixas onde os mineiros cantam num estilo mais clássico, e por vezes também marcial. Sem esquecer, é claro, do belo trabalho de remixagem que Test Dept. fez do canto dos mineiros na faixa 8 &#8220;Comrades&#8221;. É algo realmente fascinante.</p>
<p>Por fim, um breve comentário que é um pouco um ponto fora da curva da discussão. Já que você falou em vegetarianismo/veganismo, algumas dessas pessoas (não todas, veja bem, não estou generalizando) em certos círculos parecem estar tomando o lugar outrora ocupado pelos identitários em termos de chatice e policiamento ideológico. E no caso deles é algo tão crítico quanto, pois vai na linha de policiar o que as pessoas compram no supermercado e colocam sobre a mesa para comer, o que mostra que os que fazem isso acham que vão atingir seus objetivos fetichizando o consumo &#8211; e neste caso minha crítica maior vai para aqueles que além de vegetarianos também se dizem socialistas, pois como é que se pretende atingir o socialismo focando no consumo do indivíduo? Mas há algo ainda mais crítico, que é uma questão muito mais profunda: plantas também são vida que quer viver, e tanto o querem, que possuem vários mecanismos de defesa (ver <a href="https://www.youtube.com/watch?v=GgnnklDVhso&#038;t=24s" rel="nofollow ugc">https://www.youtube.com/watch?v=GgnnklDVhso&#038;t=24s</a>, <a href="https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/710939/1/133fitopatogenos.pdf;Mecanismos" rel="nofollow ugc">https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/710939/1/133fitopatogenos.pdf;Mecanismos</a> e <a href="http://profissaobiotec.com.br/defesa-inteligente-estrategia-das-plantas/" rel="nofollow ugc">http://profissaobiotec.com.br/defesa-inteligente-estrategia-das-plantas/</a>). Ou seja, onde puxamos o freio de mão? Comendo pedras? Daí a necessidade de haver um enfoque estritamente no ser humano enquanto sujeito que deve ser emancipado, porém com um respeito para com todos os outros tipos de vida.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2019/10/128504/#comment-480824</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Oct 2019 20:37:17 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=128504#comment-480824</guid>

					<description><![CDATA[João Marques,

Se lhe interessar, pode ler &lt;a href=&quot;https://archive.org/stream/jb-ldf-nedoedr/BERNARDO%2C%20Jo%C3%A3o.%20Labirintos%20do%20fascismo.%203%C2%AA%20edi%C3%A7%C3%A3o#page/n1365/mode/2up&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;, nas págs. 1367-1368, um esboço muito sintético da minha crítica à noção de eurocentrismo. Mas vou concentrar-me agora no outro aspecto do seu comentário. Você escreve que «os efeitos do racialismo na estruturação de marcadores sociais acabam por definir posições de poder e desigualdades materiais, tendo consequências sobre a própria classe trabalhadora». Penso que a este respeito a questão racial causa mais confusão do que esclarecimento, por isso peço-lhe que olhe para a África. Será que podem interpretar-se em termos raciais — que eu entendo simplesmente como diferenças na taxa de melanina na epiderme e, eventualmente, diferenças no formato do nariz — as enormes clivagens de classe entre os capitalistas negros e os trabalhadores negros, bem como as relações de exploração entre ambos? Repito o que escrevi &lt;a href=&quot;https://passapalavra.info/2014/05/93828/&quot;&gt;noutro lugar&lt;/a&gt;: «No dia em que surja um movimento negro que critique a formação de elites negras e as relações de desigualdade e exploração entre negros com a mesma veemência com que critica o racismo antinegro, então esse movimento passará a fazer parte constitutiva do processo geral de renovação da classe trabalhadora».]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Marques,</p>
<p>Se lhe interessar, pode ler <a href="https://archive.org/stream/jb-ldf-nedoedr/BERNARDO%2C%20Jo%C3%A3o.%20Labirintos%20do%20fascismo.%203%C2%AA%20edi%C3%A7%C3%A3o#page/n1365/mode/2up" rel="nofollow">aqui</a>, nas págs. 1367-1368, um esboço muito sintético da minha crítica à noção de eurocentrismo. Mas vou concentrar-me agora no outro aspecto do seu comentário. Você escreve que «os efeitos do racialismo na estruturação de marcadores sociais acabam por definir posições de poder e desigualdades materiais, tendo consequências sobre a própria classe trabalhadora». Penso que a este respeito a questão racial causa mais confusão do que esclarecimento, por isso peço-lhe que olhe para a África. Será que podem interpretar-se em termos raciais — que eu entendo simplesmente como diferenças na taxa de melanina na epiderme e, eventualmente, diferenças no formato do nariz — as enormes clivagens de classe entre os capitalistas negros e os trabalhadores negros, bem como as relações de exploração entre ambos? Repito o que escrevi <a href="https://passapalavra.info/2014/05/93828/">noutro lugar</a>: «No dia em que surja um movimento negro que critique a formação de elites negras e as relações de desigualdade e exploração entre negros com a mesma veemência com que critica o racismo antinegro, então esse movimento passará a fazer parte constitutiva do processo geral de renovação da classe trabalhadora».</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Marques		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2019/10/128504/#comment-480790</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Marques]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Oct 2019 16:35:33 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=128504#comment-480790</guid>

					<description><![CDATA[João Bernardo,
li o texto do autor e acompanhei a discussão aqui e fiquei me perguntando: se, por um lado, o multiculturalismo e o identitarismo são armadilhas eficazes para nos prender a um essencialismo racial, por outro, a crítica ao eurocentrismo e aos seus limites não nos levaria a compreender como a dinâmica de enxergar o &quot;outro&quot; não europeu ainda tem efeitos concretos nas relações sociais atuais sob o capitalismo? 
Sinalizo isso porque, em que pese a raça seja tb uma armadilha discursiva, os efeitos do racialismo na estruturação de marcadores sociais acabam por definir  posições de poder e desigualdades materiais, tendo consequências sobre a própria classe trabalhadora.
Percebo que a sua posição aponta para uma crítica pertinente, contudo fico apreensivo para compreender como a sua construção teórica articula a dimensão racial no que esta tem mais concreto em termos de desigualdades sociais para o conjunto dos trabalhadores. Como não conheço a sua obra por completo, aqui posso estar incorrendo em um equívoco manifesto...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Bernardo,<br />
li o texto do autor e acompanhei a discussão aqui e fiquei me perguntando: se, por um lado, o multiculturalismo e o identitarismo são armadilhas eficazes para nos prender a um essencialismo racial, por outro, a crítica ao eurocentrismo e aos seus limites não nos levaria a compreender como a dinâmica de enxergar o &#8220;outro&#8221; não europeu ainda tem efeitos concretos nas relações sociais atuais sob o capitalismo?<br />
Sinalizo isso porque, em que pese a raça seja tb uma armadilha discursiva, os efeitos do racialismo na estruturação de marcadores sociais acabam por definir  posições de poder e desigualdades materiais, tendo consequências sobre a própria classe trabalhadora.<br />
Percebo que a sua posição aponta para uma crítica pertinente, contudo fico apreensivo para compreender como a sua construção teórica articula a dimensão racial no que esta tem mais concreto em termos de desigualdades sociais para o conjunto dos trabalhadores. Como não conheço a sua obra por completo, aqui posso estar incorrendo em um equívoco manifesto&#8230;</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Miguel Serras Pereira		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2019/10/128504/#comment-480784</link>

		<dc:creator><![CDATA[Miguel Serras Pereira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Oct 2019 15:34:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[João Bernardo e Leo Vinicius, caros:

nada tenho a acrescentar ao que vocês os dois dizem. Assino por baixo e, sobretudo, agradeço terem tornado mais claro o que eu escrevi. O jazz, João, deste ponto de vista, torna sensível e dá carne à ideia daquilo que a versão original, em francês, da Internacional dizia: &quot;a Internacional será o género humano&quot;.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Bernardo e Leo Vinicius, caros:</p>
<p>nada tenho a acrescentar ao que vocês os dois dizem. Assino por baixo e, sobretudo, agradeço terem tornado mais claro o que eu escrevi. O jazz, João, deste ponto de vista, torna sensível e dá carne à ideia daquilo que a versão original, em francês, da Internacional dizia: &#8220;a Internacional será o género humano&#8221;.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2019/10/128504/#comment-480779</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Oct 2019 14:37:34 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=128504#comment-480779</guid>

					<description><![CDATA[Leo,

Eu sei, claro, que a isso os identitaristas chamam «apropriação cultural». Mas o problema é exactamente aquele que o Miguel Serras Pereira colocou nesta coluna, quando escreveu que «o multiculturalismo, entendido como modelo de sociedade, só seria possível e consistente se pudéssemos considerar cada cultura como uma espécie de folclore, um divertido acervo documental de receitas de cozinha ou de trajes regionais». Os multiculturalistas e os identitários nem sequer se dão conta de que, ao reclamarem contra a «apropriação cultural», estão a condenar-se a eles próprios à irrelevância.

Mas existe aqui uma enorme hipocrisia, porque embora o movimento negro e as demais identidades do arco-íris sustentem que a ciência é uma narrativa eurocêntrica, minada pelo patriarcalismo e pelo racismo, reivindicam cotas para se inserirem em universidades cujo modelo é estritamente eurocêntrico, reclamam o direito de ocupar lugares nas administrações de empresas cujo modelo organizativo é de origem eurocêntrica, procuram afirmar-se num sistema económico cuja gestação foi eurocêntrica, e para isso escrevem textos em computadores e usam redes sociais cuja base tecnológica assenta na ciência reputadamente eurocêntrica. Mas — e aí entra a tal «espécie de folclore» de que o Miguel Serras Pereira falou — fazem-no vestindo uma roupa e usando uns penteados que, muitas vezes sem fundamento, atribuem às identidades de que se reivindicam.

Eu sei que hoje não é politicamente correcto evocar a estupidez, mas não sei como evitá-lo nestes casos. Outro dia procurei saber como é que os sites de candomblé apresentavam os sacrifícios de animais, perante o prestígio actualmente conseguido pelos vegetarianos e vegans. E deparei com sites que argumentavam que, embora os animais fossem sacrificados, não era para serem comidos. Ri muito, e pensei que, na próxima vez que eu assassinar alguém, defender-me-ei em tribunal alegando que não era para comer.

Pois nessa busca na internet encontrei &lt;a href=&quot;https://pensamentosmulheristas.wordpress.com/2016/01/03/sobre-o-racismo-do-movimento-vegano/&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;um texto de uma senhora que se identifica como «mulher preta»&lt;/a&gt; e que tem a amabilidade de concluir proclamando, em maiúsculas, que «o ocidente tem mesmo é que morrer». O engraçado é que a autora destes propósitos genocidas inicia o seu texto explicando: «Não me digo mais “vegana”, porque “veganismo” é um termo ocidental». E ela escreve isto, aliás, escreve todo o texto na língua portuguesa, que é uma estrutura sintáctica ocidental constituída por termos ocidentais. Aquela senhora usa termos ocidentais para dizer que não quer usar termos ocidentais.

Nestas contradições só resta aos multiculturalistas, como o Miguel apontou, recorrerem ao folclore.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Leo,</p>
<p>Eu sei, claro, que a isso os identitaristas chamam «apropriação cultural». Mas o problema é exactamente aquele que o Miguel Serras Pereira colocou nesta coluna, quando escreveu que «o multiculturalismo, entendido como modelo de sociedade, só seria possível e consistente se pudéssemos considerar cada cultura como uma espécie de folclore, um divertido acervo documental de receitas de cozinha ou de trajes regionais». Os multiculturalistas e os identitários nem sequer se dão conta de que, ao reclamarem contra a «apropriação cultural», estão a condenar-se a eles próprios à irrelevância.</p>
<p>Mas existe aqui uma enorme hipocrisia, porque embora o movimento negro e as demais identidades do arco-íris sustentem que a ciência é uma narrativa eurocêntrica, minada pelo patriarcalismo e pelo racismo, reivindicam cotas para se inserirem em universidades cujo modelo é estritamente eurocêntrico, reclamam o direito de ocupar lugares nas administrações de empresas cujo modelo organizativo é de origem eurocêntrica, procuram afirmar-se num sistema económico cuja gestação foi eurocêntrica, e para isso escrevem textos em computadores e usam redes sociais cuja base tecnológica assenta na ciência reputadamente eurocêntrica. Mas — e aí entra a tal «espécie de folclore» de que o Miguel Serras Pereira falou — fazem-no vestindo uma roupa e usando uns penteados que, muitas vezes sem fundamento, atribuem às identidades de que se reivindicam.</p>
<p>Eu sei que hoje não é politicamente correcto evocar a estupidez, mas não sei como evitá-lo nestes casos. Outro dia procurei saber como é que os sites de candomblé apresentavam os sacrifícios de animais, perante o prestígio actualmente conseguido pelos vegetarianos e vegans. E deparei com sites que argumentavam que, embora os animais fossem sacrificados, não era para serem comidos. Ri muito, e pensei que, na próxima vez que eu assassinar alguém, defender-me-ei em tribunal alegando que não era para comer.</p>
<p>Pois nessa busca na internet encontrei <a href="https://pensamentosmulheristas.wordpress.com/2016/01/03/sobre-o-racismo-do-movimento-vegano/" rel="nofollow">um texto de uma senhora que se identifica como «mulher preta»</a> e que tem a amabilidade de concluir proclamando, em maiúsculas, que «o ocidente tem mesmo é que morrer». O engraçado é que a autora destes propósitos genocidas inicia o seu texto explicando: «Não me digo mais “vegana”, porque “veganismo” é um termo ocidental». E ela escreve isto, aliás, escreve todo o texto na língua portuguesa, que é uma estrutura sintáctica ocidental constituída por termos ocidentais. Aquela senhora usa termos ocidentais para dizer que não quer usar termos ocidentais.</p>
<p>Nestas contradições só resta aos multiculturalistas, como o Miguel apontou, recorrerem ao folclore.</p>
]]></content:encoded>
		
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