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	Comentários sobre: Turismo, gentrificação, luta de classes: uma conversa	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Boitatá Turismo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2019/10/128751/#comment-486834</link>

		<dc:creator><![CDATA[Boitatá Turismo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 16 Nov 2019 14:42:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Em Lisboa ou alhures, a principal perspectiva, penso eu, não seria a gentrificação, nem mesmo a dicotomia nacionalistas x turistas, mas a produção do trabalhador:

E, assim, os turistas das excursões e das outras modalidades de vilegiatura concentracionária são convertidos em mero objecto de produção. Nos ócios, tal como na escola, os trabalhadores são produzidos como mercadorias. Mais do que um mero controle ideológico, trata-se já de uma verdadeira produção do trabalhador no interior de um dado quadro ideológico (BERNARDO, João. Transnacionalização do capital e fragmentação dos trabalhadores: ainda há lugar para os sindicatos? São Paulo: Boitempo Editorial, 2000, p. 66).

E se fôssemos escolher uma outra perspectiva para a crítica, ainda outra seria a perspectiva mais urgente:

&quot;Com afroturismo, ela busca se reconhecer em todos os lugares aonde vai&quot; 

&quot;(...) Durante as viagens, Luciana começou a aprender muito mais sobre outros povos e pessoas, mas não esperava ter grandes encontros consigo mesma e sua ancestralidade. Aconteceu. &quot;Percebi que o corpo negro já tem uma característica do movimento, da mudança. Afinal, a gente já é esse corpo que viaja, que migra. Esse corpo que explora novos territórios, acho que está no nosso DNA&quot;, diz.... (disponível em https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/11/09/com-afroturismo-ela-busca-se-reconhecer-em-todos-os-lugares-aonde-vai.htm)

Enfim, o que muitas vezes se evidencia, nem sempre revela a essência dos processos materiais e históricos a produzir o trabalhador como trabalhador...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em Lisboa ou alhures, a principal perspectiva, penso eu, não seria a gentrificação, nem mesmo a dicotomia nacionalistas x turistas, mas a produção do trabalhador:</p>
<p>E, assim, os turistas das excursões e das outras modalidades de vilegiatura concentracionária são convertidos em mero objecto de produção. Nos ócios, tal como na escola, os trabalhadores são produzidos como mercadorias. Mais do que um mero controle ideológico, trata-se já de uma verdadeira produção do trabalhador no interior de um dado quadro ideológico (BERNARDO, João. Transnacionalização do capital e fragmentação dos trabalhadores: ainda há lugar para os sindicatos? São Paulo: Boitempo Editorial, 2000, p. 66).</p>
<p>E se fôssemos escolher uma outra perspectiva para a crítica, ainda outra seria a perspectiva mais urgente:</p>
<p>&#8220;Com afroturismo, ela busca se reconhecer em todos os lugares aonde vai&#8221; </p>
<p>&#8220;(&#8230;) Durante as viagens, Luciana começou a aprender muito mais sobre outros povos e pessoas, mas não esperava ter grandes encontros consigo mesma e sua ancestralidade. Aconteceu. &#8220;Percebi que o corpo negro já tem uma característica do movimento, da mudança. Afinal, a gente já é esse corpo que viaja, que migra. Esse corpo que explora novos territórios, acho que está no nosso DNA&#8221;, diz&#8230;. (disponível em <a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/11/09/com-afroturismo-ela-busca-se-reconhecer-em-todos-os-lugares-aonde-vai.htm" rel="nofollow ugc">https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/11/09/com-afroturismo-ela-busca-se-reconhecer-em-todos-os-lugares-aonde-vai.htm</a>)</p>
<p>Enfim, o que muitas vezes se evidencia, nem sempre revela a essência dos processos materiais e históricos a produzir o trabalhador como trabalhador&#8230;</p>
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		<title>
		Por: Carlos Kessel		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2019/10/128751/#comment-483596</link>

		<dc:creator><![CDATA[Carlos Kessel]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 Nov 2019 23:01:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Morei em Lisboa nos últimos quatro anos e achei que era o único que me horrorizava quando lia o slogan &quot;Lisboa para os lisboetas&quot;, mas vejo que o João Bernardo colocou bem as contradições deste e de outros movimentos essencialmente xenófobos e elitistas. Alguém no Brasil concordaria com o slogan &quot;Ipanema para os Ipanemenses&quot;? Ou &quot;Os jardins para os paulistanos quatrocentões&quot;? Em que mundo vivem os que acham que o privilégio do nascimento (na Vieira Souto, na Alameda Santos ou no Bairro Alto) deve criar direitos eternos?

Vale dizer que muitos lisboetas frequentam as praias de uma outra cidade, Almada, e que todos - TODOS - os articulistas que entoam o ramerrão turismófobo são, eles também, turistas. Viajam a passeio (e mesmo quando é a trabalho, jornalistas e acadêmicos dão uma passeadinha), muitos já moraram no exterior e no fundo expressam somente o incômodo ao ver a classe média européia viajando barato, entre a Ryan Air e o AirBnb, e de ver turistas chineses e brasileiros falando alto nas vielas do centro. Vá lá que todos nós gostaríamos de ser os únicos a desfrutar da ambiência única de Paris (e das vielas de Veneza, e das muralhas de Dubrovnik), mas transformar isto em bandeira partidária - da esquerda! - é o cúmulo do egoísmo. 

Sejamos francos: a turismofobia é elitista, fruto do inconformismo de uma certa esquerda esnobe que se vê como a aristocracia do pensamento,  idealiza os pobres urbanos e gostaria de vê-los assoviando fados, pendurando roupas nos varais das ladeiras da Alfama e da Madragoa, morando nos sobrados sem elevador, gelados no inverno e abafados no verão, como parte da paisagem da cidade. Mas não como iguais. Enfim, o mesmo afeto que as pessoas têm pelos animais do zoológico. 

Esta gente nega a agência de uma parcela expressiva da população de Lisboa, lamentando que a valorização do solo urbano tenha estimulado muitos a vender ou alugar as residências onde moravam. Mas na cidade capitalista, onde espaço é mercadoria, qual o motivo para se negar aos velhinhos, aos pobres, o direito de disporem da sua propriedade? Algum intelectual se sente &quot;expulso&quot; quando alguém oferece pelo apartamento onde mora o dobro do que ele valia há 5 anos atrás? Gente que recebe aposentadorias pequenas, gente que conta centavos, de repente vê a possibilidade de trocar de carro, ou visitar o filho emigrado, de ter uma vida mais folgada, e tudo isso se mudando do centro histórico para um lugar a 20 minutos de metrô. Qual é o crime?

E nem me venham falar em &quot;gentrificação&quot;, termo tão gasto que significa tudo - e nada - e não serve, nem de longe, para caracterizar os processos urbanos que afetam Lisboa há décadas. A cidade vem perdendo habitantes há muito tempo, por diversos motivos, e a vaga recente de turismo serviu para reverter o esvaziamento e deterioração física do tecido urbano do centro, que parecia inexorável. Isto beneficia os moradores antigos e o comércio local.

Esgrimindo preconceitos baseados na ignorância das estatísticas (não vou me alongar, mas a quantidade de &quot;moradores expulsos&quot; e &quot;estrangeiros com vistos gold&quot; é irrelevante para o mercado imobiliário de Lisboa) e interpretando o Direito à Cidade como o direito de quem nasceu num bairro (e os seus descendentes) de continuar morando lá para sempre, como se fosse um castelo do século XVIII, os turismófobos criaram um ambiente de hostilidade que alimenta a xenofobia. Que a esquerda portuguesa e européia tenha embarcado nesta onda me parece de uma ingenuidade criminosa, pois a estigmatização dos estrangeiros (turistas ou imigrantes, tanto faz) é historicamente a raison d&#039;être da direita.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Morei em Lisboa nos últimos quatro anos e achei que era o único que me horrorizava quando lia o slogan &#8220;Lisboa para os lisboetas&#8221;, mas vejo que o João Bernardo colocou bem as contradições deste e de outros movimentos essencialmente xenófobos e elitistas. Alguém no Brasil concordaria com o slogan &#8220;Ipanema para os Ipanemenses&#8221;? Ou &#8220;Os jardins para os paulistanos quatrocentões&#8221;? Em que mundo vivem os que acham que o privilégio do nascimento (na Vieira Souto, na Alameda Santos ou no Bairro Alto) deve criar direitos eternos?</p>
<p>Vale dizer que muitos lisboetas frequentam as praias de uma outra cidade, Almada, e que todos &#8211; TODOS &#8211; os articulistas que entoam o ramerrão turismófobo são, eles também, turistas. Viajam a passeio (e mesmo quando é a trabalho, jornalistas e acadêmicos dão uma passeadinha), muitos já moraram no exterior e no fundo expressam somente o incômodo ao ver a classe média européia viajando barato, entre a Ryan Air e o AirBnb, e de ver turistas chineses e brasileiros falando alto nas vielas do centro. Vá lá que todos nós gostaríamos de ser os únicos a desfrutar da ambiência única de Paris (e das vielas de Veneza, e das muralhas de Dubrovnik), mas transformar isto em bandeira partidária &#8211; da esquerda! &#8211; é o cúmulo do egoísmo. </p>
<p>Sejamos francos: a turismofobia é elitista, fruto do inconformismo de uma certa esquerda esnobe que se vê como a aristocracia do pensamento,  idealiza os pobres urbanos e gostaria de vê-los assoviando fados, pendurando roupas nos varais das ladeiras da Alfama e da Madragoa, morando nos sobrados sem elevador, gelados no inverno e abafados no verão, como parte da paisagem da cidade. Mas não como iguais. Enfim, o mesmo afeto que as pessoas têm pelos animais do zoológico. </p>
<p>Esta gente nega a agência de uma parcela expressiva da população de Lisboa, lamentando que a valorização do solo urbano tenha estimulado muitos a vender ou alugar as residências onde moravam. Mas na cidade capitalista, onde espaço é mercadoria, qual o motivo para se negar aos velhinhos, aos pobres, o direito de disporem da sua propriedade? Algum intelectual se sente &#8220;expulso&#8221; quando alguém oferece pelo apartamento onde mora o dobro do que ele valia há 5 anos atrás? Gente que recebe aposentadorias pequenas, gente que conta centavos, de repente vê a possibilidade de trocar de carro, ou visitar o filho emigrado, de ter uma vida mais folgada, e tudo isso se mudando do centro histórico para um lugar a 20 minutos de metrô. Qual é o crime?</p>
<p>E nem me venham falar em &#8220;gentrificação&#8221;, termo tão gasto que significa tudo &#8211; e nada &#8211; e não serve, nem de longe, para caracterizar os processos urbanos que afetam Lisboa há décadas. A cidade vem perdendo habitantes há muito tempo, por diversos motivos, e a vaga recente de turismo serviu para reverter o esvaziamento e deterioração física do tecido urbano do centro, que parecia inexorável. Isto beneficia os moradores antigos e o comércio local.</p>
<p>Esgrimindo preconceitos baseados na ignorância das estatísticas (não vou me alongar, mas a quantidade de &#8220;moradores expulsos&#8221; e &#8220;estrangeiros com vistos gold&#8221; é irrelevante para o mercado imobiliário de Lisboa) e interpretando o Direito à Cidade como o direito de quem nasceu num bairro (e os seus descendentes) de continuar morando lá para sempre, como se fosse um castelo do século XVIII, os turismófobos criaram um ambiente de hostilidade que alimenta a xenofobia. Que a esquerda portuguesa e européia tenha embarcado nesta onda me parece de uma ingenuidade criminosa, pois a estigmatização dos estrangeiros (turistas ou imigrantes, tanto faz) é historicamente a raison d&#8217;être da direita.</p>
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		<title>
		Por: Marcelo Lopes de Souza		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2019/10/128751/#comment-482742</link>

		<dc:creator><![CDATA[Marcelo Lopes de Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Oct 2019 00:56:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A gentrificação  --  ah, a gentrificação... Creio que fui o primeiro, se não o primeiro, a abordar esse assunto da moda, adornado com uma horrível palavra enfiada na marra na língua portuguesa, aqui no Passa Palavra, em um artigo (de 2011) intitulado &quot;O direito ao centro da cidade&quot;. 

O fato de estar na moda, em si, não lhe retira a importância social e política. É imprescindível que se analisem os processos pelos quais a acumulação de capital se vem valendo, em escala inaudita até meados do século XX, da destruição e (re)produção do espaço urbano. Assim como, acima de tudo, é imprescindível examinar e denunciar (e prestar solidariedade a quem dela necessitar, da maneira mais prática possível) as injustiças e barbaridades cometidas contra populações, mormente populações pobres  --  pois é de um câmbio de classe que se trata. Por óbvio que não se trata (ou não deveria se tratar...) de desejar que os pobres permaneçam vivendo em espaços nem sempre salubres e em condições amiúde precárias, mas em constatar que, na esteira dos processos eufemisticamente chamados de &quot;revitalização&quot;, &quot;requalificação urbana&quot; etc., populações são estigmatizadas, chantageadas e pressionadas a sair, quando não pura e simplesmente expulsas de seus lugares de moradia, para proveito dos suspeitos de sempre e sem que lhes seja oferecida uma verdadeira alternativa. (As proporções de engodo, cooptação, chantagem e ameaça variam de acordo com o país e a época; e mormente se estamos falando de cidades do centro ou da periferia do capitalismo.)

Por outro lado, o fato de estar na moda gera, sim, um aparente (sublinhe-se o &quot;aparente&quot;) paradoxo. Com o modismo acadêmico, em questão de não mais de trinta anos se vêm multiplicando exponencialmente os artigos, os livros, os congressos e tudo o mais que se possa imaginar. A gentrificação é, entre muitas outras coisas, também um vasto nicho no mercado das ideias. Com toda essa quantidade, deveríamos esperar diversidade, profundidade e contundência nos debates, certo? Quem responder &quot;sim&quot;, definitivamente, não sabe o que é o mundo acadêmico (pós-)moderno. Somente os crédulos e os ingênuos podem acreditar que o seu motor, sobretudo nas ciências da sociedade, seja a geração de inovação, muito menos o debate franco e honesto. O motor é a encenação, incontáveis vezes, da mesma coreografia, em que, seguindo uma lógica de &quot;comportamento de manada&quot;, pesquisadores e seus estudantes endossam os &quot;temas certos&quot;, citam as &quot;pessoas certas&quot;, usam as &quot;palavras certas&quot; e publicam nos &quot;lugares certos&quot;  --  para gáudio das estruturas de poder internas ao mundinho universitário e, acima de tudo, das empresas (editoras etc.) que regiamente lucram, inclusive com os temas &quot;de esquerda&quot;. Como decorrência de tudo isso, é inevitável que uma das primeiras a tombar seja a genuína criatividade; outra que sempre tomba é a profundidade, irmã da honestidade intelectual e inimiga jurada da hipocrisia. 

Nem todos, sem dúvida alguma, embarcam em uma interpretação tola (e hipócrita) da pobreza urbana e seus desdobramentos. Há, no meio de tanto joio, trabalhos admiráveis, às vezes originais. Mas há, sim  --  e não somente em meio aos estudos sobre gentrificação  --  uma &quot;estetização da pobreza&quot; que me causa aflição e desânimo. Sobre isso, me permito repetir o que escrevi, em outro artigo publicado também neste Passa Palavra (&quot;Duas versões do espírito libertário: Um abismo intransponível?&quot;), alguns anos atrás:

&quot;Atualmente, libertários de figurino &#039;pós-moderno&#039;, alegadamente em nome do respeito à dignidade dos pobres, como que implícita ou explicitamente elogiam uma certa &#039;estética da pobreza&#039; e muitas vezes se mostram orgulhosamente iconoclastas. Não contentes em relativizar o pretenso sentido absoluto de supostos cânones literários, musicais etc. (relativização que me parece necessária e justificada), costumam ir além e desdenhar ou desconfiar em sentido absolutizante da cultura historicamente consumida e referendada pelas elites. (...) Em vez de combater a pobreza e universalizar os benefícios do &#039;progresso&#039;, propõem, em seus discursos, &#039;respeitá-la&#039; (evitando ou recusando-se a considerar a habitação e o habitat em espaços segregados como um problema). Passa-se, com isso, a impressão de que denunciar as privações que caracterizam a pobreza pudesse atentar contra a dignidade dos pobres, como se combater a pobreza e combater os pobres (física ou simbolicamente) fossem uma e a mesma coisa. (E, no entanto, interessantemente, se misturam com as &#039;massas&#039; de trabalhadores e trabalhadoras pobres muito menos do que os velhos anarquistas faziam. Aliás, não seria, em grande parte, por isso mesmo?…)&quot;

Acrescente-se, na citação acima, &quot;neomarxistas&quot; a &quot;libertários&quot; e &quot;anarquistas&quot;, e teremos uma melhor dimensão do tamanho do problema.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A gentrificação  &#8212;  ah, a gentrificação&#8230; Creio que fui o primeiro, se não o primeiro, a abordar esse assunto da moda, adornado com uma horrível palavra enfiada na marra na língua portuguesa, aqui no Passa Palavra, em um artigo (de 2011) intitulado &#8220;O direito ao centro da cidade&#8221;. </p>
<p>O fato de estar na moda, em si, não lhe retira a importância social e política. É imprescindível que se analisem os processos pelos quais a acumulação de capital se vem valendo, em escala inaudita até meados do século XX, da destruição e (re)produção do espaço urbano. Assim como, acima de tudo, é imprescindível examinar e denunciar (e prestar solidariedade a quem dela necessitar, da maneira mais prática possível) as injustiças e barbaridades cometidas contra populações, mormente populações pobres  &#8212;  pois é de um câmbio de classe que se trata. Por óbvio que não se trata (ou não deveria se tratar&#8230;) de desejar que os pobres permaneçam vivendo em espaços nem sempre salubres e em condições amiúde precárias, mas em constatar que, na esteira dos processos eufemisticamente chamados de &#8220;revitalização&#8221;, &#8220;requalificação urbana&#8221; etc., populações são estigmatizadas, chantageadas e pressionadas a sair, quando não pura e simplesmente expulsas de seus lugares de moradia, para proveito dos suspeitos de sempre e sem que lhes seja oferecida uma verdadeira alternativa. (As proporções de engodo, cooptação, chantagem e ameaça variam de acordo com o país e a época; e mormente se estamos falando de cidades do centro ou da periferia do capitalismo.)</p>
<p>Por outro lado, o fato de estar na moda gera, sim, um aparente (sublinhe-se o &#8220;aparente&#8221;) paradoxo. Com o modismo acadêmico, em questão de não mais de trinta anos se vêm multiplicando exponencialmente os artigos, os livros, os congressos e tudo o mais que se possa imaginar. A gentrificação é, entre muitas outras coisas, também um vasto nicho no mercado das ideias. Com toda essa quantidade, deveríamos esperar diversidade, profundidade e contundência nos debates, certo? Quem responder &#8220;sim&#8221;, definitivamente, não sabe o que é o mundo acadêmico (pós-)moderno. Somente os crédulos e os ingênuos podem acreditar que o seu motor, sobretudo nas ciências da sociedade, seja a geração de inovação, muito menos o debate franco e honesto. O motor é a encenação, incontáveis vezes, da mesma coreografia, em que, seguindo uma lógica de &#8220;comportamento de manada&#8221;, pesquisadores e seus estudantes endossam os &#8220;temas certos&#8221;, citam as &#8220;pessoas certas&#8221;, usam as &#8220;palavras certas&#8221; e publicam nos &#8220;lugares certos&#8221;  &#8212;  para gáudio das estruturas de poder internas ao mundinho universitário e, acima de tudo, das empresas (editoras etc.) que regiamente lucram, inclusive com os temas &#8220;de esquerda&#8221;. Como decorrência de tudo isso, é inevitável que uma das primeiras a tombar seja a genuína criatividade; outra que sempre tomba é a profundidade, irmã da honestidade intelectual e inimiga jurada da hipocrisia. </p>
<p>Nem todos, sem dúvida alguma, embarcam em uma interpretação tola (e hipócrita) da pobreza urbana e seus desdobramentos. Há, no meio de tanto joio, trabalhos admiráveis, às vezes originais. Mas há, sim  &#8212;  e não somente em meio aos estudos sobre gentrificação  &#8212;  uma &#8220;estetização da pobreza&#8221; que me causa aflição e desânimo. Sobre isso, me permito repetir o que escrevi, em outro artigo publicado também neste Passa Palavra (&#8220;Duas versões do espírito libertário: Um abismo intransponível?&#8221;), alguns anos atrás:</p>
<p>&#8220;Atualmente, libertários de figurino &#8216;pós-moderno&#8217;, alegadamente em nome do respeito à dignidade dos pobres, como que implícita ou explicitamente elogiam uma certa &#8216;estética da pobreza&#8217; e muitas vezes se mostram orgulhosamente iconoclastas. Não contentes em relativizar o pretenso sentido absoluto de supostos cânones literários, musicais etc. (relativização que me parece necessária e justificada), costumam ir além e desdenhar ou desconfiar em sentido absolutizante da cultura historicamente consumida e referendada pelas elites. (&#8230;) Em vez de combater a pobreza e universalizar os benefícios do &#8216;progresso&#8217;, propõem, em seus discursos, &#8216;respeitá-la&#8217; (evitando ou recusando-se a considerar a habitação e o habitat em espaços segregados como um problema). Passa-se, com isso, a impressão de que denunciar as privações que caracterizam a pobreza pudesse atentar contra a dignidade dos pobres, como se combater a pobreza e combater os pobres (física ou simbolicamente) fossem uma e a mesma coisa. (E, no entanto, interessantemente, se misturam com as &#8216;massas&#8217; de trabalhadores e trabalhadoras pobres muito menos do que os velhos anarquistas faziam. Aliás, não seria, em grande parte, por isso mesmo?…)&#8221;</p>
<p>Acrescente-se, na citação acima, &#8220;neomarxistas&#8221; a &#8220;libertários&#8221; e &#8220;anarquistas&#8221;, e teremos uma melhor dimensão do tamanho do problema.</p>
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