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	Comentários sobre: Democracia, revolução e violência	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Miguel Serras Pereira		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2020/02/129988/#comment-546258</link>

		<dc:creator><![CDATA[Miguel Serras Pereira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 27 Feb 2020 10:40:11 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caro Fagner,
o seu comentário levanta várias questões interessantes e importantes que não posso discutir aqui como devido. Seja como for, parece-me que a objecção maior que se pode pôr à sua argumentação é da impossibilidade de &quot;desenvolver relações de produção de novo tipo e generalizá-las ao máximo, massificá-las, regionalizá-las, nacionalizá-las, globalizá-las, para que o combate a essas relações por parte dos militares se confunda com o combate à própria sociedade, para que as tropas não tenham outra alternativa senão perceber o caráter antissocial da sua própria existência&quot; sem uma simultânea transformação radical do poder político, que se traduza no seu exercício organizado e regular pelos cidadãos comuns, sendo que uma tal transformação implica quebrar o monopólio estatal dos meios de violência &quot;legítima&quot; e a sua substituição por novas formas de controle  da — e, quando necessário, recurso à — força das armas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Fagner,<br />
o seu comentário levanta várias questões interessantes e importantes que não posso discutir aqui como devido. Seja como for, parece-me que a objecção maior que se pode pôr à sua argumentação é da impossibilidade de &#8220;desenvolver relações de produção de novo tipo e generalizá-las ao máximo, massificá-las, regionalizá-las, nacionalizá-las, globalizá-las, para que o combate a essas relações por parte dos militares se confunda com o combate à própria sociedade, para que as tropas não tenham outra alternativa senão perceber o caráter antissocial da sua própria existência&#8221; sem uma simultânea transformação radical do poder político, que se traduza no seu exercício organizado e regular pelos cidadãos comuns, sendo que uma tal transformação implica quebrar o monopólio estatal dos meios de violência &#8220;legítima&#8221; e a sua substituição por novas formas de controle  da — e, quando necessário, recurso à — força das armas.</p>
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		<title>
		Por: Fagner Enrique		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2020/02/129988/#comment-545028</link>

		<dc:creator><![CDATA[Fagner Enrique]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Feb 2020 16:18:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caro Miguel,

Um dos problemas mais fundamentais para as Forças Armadas hoje é o de exercer um controle ideológico sobre as tropas. O objetivo é o de alienar completamente os militares dos anseios populares quando eles rumam para direções inconvenientes para as Forças Armadas, o Estado e as relações capitalistas de produção. E não se trata apenas de controle ideológico, mas também de controle físico, pois as Forças Armadas buscam conservar a todo custo a hierarquia e a disciplina militares. A educação doutrinária, assim, converge com a imposição violenta da obediência. Os trabalhadores nunca serão capazes de interferir na educação doutrinária prosseguida no interior dos quartéis e seria uma ilusão imaginar que a mera penetração ideológica nos quartéis faria com que as tropas se voltassem contra as classes dominantes. A única solução, portanto, é desenvolver relações de produção de novo tipo e generalizá-las ao máximo, massificá-las, regionalizá-las, nacionalizá-las, globalizá-las, para que o combate a essas relações por parte dos militares se confunda com o combate à própria sociedade, para que as tropas não tenham outra alternativa senão perceber o caráter antissocial da sua própria existência. A única solução é fazer das Forças Armadas uma instituição residual e antissocial em contradição com uma nova ordem que representa uma revitalização da sociedade e do próprio homem; aí sim, muito provavelmente veremos muitos militares voltando-se contra as classes dominantes. É minar a vontade de defender violentamente algo que não faz mais sentido, porque o sentido da sociedade mudou. Mas nada do que escrevi acima sugere que a luta será pacífica. Os trabalhadores terão sempre de recorrer necessariamente à violência, resistindo às violências às quais estão cotidianamente submetidos. A propósito, no Volume 2 de “Poder e Dinheiro”, João Bernardo, logo no início do livro, analisa a ação dos “Bacaudae”, grupos de camponeses e escravos que se sublevavam e expropriavam os latifundiários romanos, eram então vencidos militarmente, porém não socialmente, se dispersavam em guerrilhas e em formas de banditismo, para depois convergirem novamente em movimentos maciços, e assim por diante. E com isso as relações sociais do antigo Império Romano foram sendo progressivamente desagregadas. Não quero com isso sugerir que a classe trabalhadora deva iniciar sublevações nas cidades para dispersá-las depois em guerrilhas pelo campo, mas que levantes violentos eventualmente derrotados devem se fazer acompanhar por outras formas de resistência mais ou menos violentas e dispersas, de preferência no âmbito da produção econômica, para que tais resistências possam servir de veículo para as novas relações de produção até que novos movimentos de massa possam emergir. Quanto mais generalizadas forem as resistências, sempre acompanhadas do desenvolvimento e da prática de relações sociais anticapitalistas, vistas como uma alternativa viável e racional à sociedade capitalista, mais a própria sociedade confundir-se-á com tais novas relações.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Miguel,</p>
<p>Um dos problemas mais fundamentais para as Forças Armadas hoje é o de exercer um controle ideológico sobre as tropas. O objetivo é o de alienar completamente os militares dos anseios populares quando eles rumam para direções inconvenientes para as Forças Armadas, o Estado e as relações capitalistas de produção. E não se trata apenas de controle ideológico, mas também de controle físico, pois as Forças Armadas buscam conservar a todo custo a hierarquia e a disciplina militares. A educação doutrinária, assim, converge com a imposição violenta da obediência. Os trabalhadores nunca serão capazes de interferir na educação doutrinária prosseguida no interior dos quartéis e seria uma ilusão imaginar que a mera penetração ideológica nos quartéis faria com que as tropas se voltassem contra as classes dominantes. A única solução, portanto, é desenvolver relações de produção de novo tipo e generalizá-las ao máximo, massificá-las, regionalizá-las, nacionalizá-las, globalizá-las, para que o combate a essas relações por parte dos militares se confunda com o combate à própria sociedade, para que as tropas não tenham outra alternativa senão perceber o caráter antissocial da sua própria existência. A única solução é fazer das Forças Armadas uma instituição residual e antissocial em contradição com uma nova ordem que representa uma revitalização da sociedade e do próprio homem; aí sim, muito provavelmente veremos muitos militares voltando-se contra as classes dominantes. É minar a vontade de defender violentamente algo que não faz mais sentido, porque o sentido da sociedade mudou. Mas nada do que escrevi acima sugere que a luta será pacífica. Os trabalhadores terão sempre de recorrer necessariamente à violência, resistindo às violências às quais estão cotidianamente submetidos. A propósito, no Volume 2 de “Poder e Dinheiro”, João Bernardo, logo no início do livro, analisa a ação dos “Bacaudae”, grupos de camponeses e escravos que se sublevavam e expropriavam os latifundiários romanos, eram então vencidos militarmente, porém não socialmente, se dispersavam em guerrilhas e em formas de banditismo, para depois convergirem novamente em movimentos maciços, e assim por diante. E com isso as relações sociais do antigo Império Romano foram sendo progressivamente desagregadas. Não quero com isso sugerir que a classe trabalhadora deva iniciar sublevações nas cidades para dispersá-las depois em guerrilhas pelo campo, mas que levantes violentos eventualmente derrotados devem se fazer acompanhar por outras formas de resistência mais ou menos violentas e dispersas, de preferência no âmbito da produção econômica, para que tais resistências possam servir de veículo para as novas relações de produção até que novos movimentos de massa possam emergir. Quanto mais generalizadas forem as resistências, sempre acompanhadas do desenvolvimento e da prática de relações sociais anticapitalistas, vistas como uma alternativa viável e racional à sociedade capitalista, mais a própria sociedade confundir-se-á com tais novas relações.</p>
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		<title>
		Por: Miguel Serras Pereira		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2020/02/129988/#comment-544905</link>

		<dc:creator><![CDATA[Miguel Serras Pereira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Feb 2020 11:05:27 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=129988#comment-544905</guid>

					<description><![CDATA[João Bernardo, de acordo. E já em Platão o &quot;argumento&quot; do Sofista é que, diga o outro o que disser, ele pode matá-lo e sair assim vencedor do confronto. 
Quanto a Orwell, evoquei-o porque o sentido do que ele diz é que o poder dos trabalhadores — ou, diria eu, do exercício governante, entre iguais, dos cidadãos comuns — passa pelo controle dos meios de violência expropriados ao Estado. Que isso não passe necessariamente pela posse individual de armas e que, em todo o caso, a &quot;espingarda em casa do trabalhador e do camponês&quot;, que Orwell refere, não seja garantia suficiente, parece-me igualmente certo, mas talvez eu não tenha sido demasiado claro ao abordar a questão nos termos em que o fiz, e agradeço-te as observações que aqui formulas e que, também eu, subscrevo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Bernardo, de acordo. E já em Platão o &#8220;argumento&#8221; do Sofista é que, diga o outro o que disser, ele pode matá-lo e sair assim vencedor do confronto.<br />
Quanto a Orwell, evoquei-o porque o sentido do que ele diz é que o poder dos trabalhadores — ou, diria eu, do exercício governante, entre iguais, dos cidadãos comuns — passa pelo controle dos meios de violência expropriados ao Estado. Que isso não passe necessariamente pela posse individual de armas e que, em todo o caso, a &#8220;espingarda em casa do trabalhador e do camponês&#8221;, que Orwell refere, não seja garantia suficiente, parece-me igualmente certo, mas talvez eu não tenha sido demasiado claro ao abordar a questão nos termos em que o fiz, e agradeço-te as observações que aqui formulas e que, também eu, subscrevo.</p>
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		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2020/02/129988/#comment-544237</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Feb 2020 19:04:35 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=129988#comment-544237</guid>

					<description><![CDATA[Miguel,

Castoriadis não precisaria de inventar nenhum sofista, porque já Hitler, em &lt;em&gt;Mein Kampf&lt;/em&gt;, escreveu que «o espírito mais elevado pode ser eliminado quando o seu portador é derrubado por uma matraca», e um intelectual da extrema-direita muitíssimo mais sofisticado, Oswald Spengler, considerou, em &lt;em&gt;A Decadência do Ocidente&lt;/em&gt;, que que «neste mundo uma boa paulada vale mais do que um bom raciocínio».

Porém, para «sustentar que, depois do fim da guerra, as armas deviam continuar nas mãos e em casa dos trabalhadores», George Orwell foi certamente influenciado pela guerra civil espanhola e, mais especialmente, pelos acontecimentos de Maio de 1937 em Barcelona. Mas depois da segunda guerra mundial, que dependera de devastadores bombardeamentos aéreos e do avanço de enormes colunas de blindados, como se operacionalizaria que cada um dispusesse dos seus próprios aviões e tanques de guerra? Ou hoje, com os sofisticadíssimos drones, deverá cada pessoa ter o seu?

A minha dúvida, porém, é mais genérica, pois esse tipo de argumentação parece-me idêntico ao usado nos Estado Unidos pelo maior dos &lt;em&gt;lobbies&lt;/em&gt;, a National Rifle Association, um dos grandes apoios da extrema-direita. Também a NRA defende que a posse de armas é a garantia da liberdade do cidadão perante as intromissões do Estado.

Penso que a resposta às pauladas de Hitler, de Spengler e dos seus émulos contemporâneos deverá ser outra.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Miguel,</p>
<p>Castoriadis não precisaria de inventar nenhum sofista, porque já Hitler, em <em>Mein Kampf</em>, escreveu que «o espírito mais elevado pode ser eliminado quando o seu portador é derrubado por uma matraca», e um intelectual da extrema-direita muitíssimo mais sofisticado, Oswald Spengler, considerou, em <em>A Decadência do Ocidente</em>, que que «neste mundo uma boa paulada vale mais do que um bom raciocínio».</p>
<p>Porém, para «sustentar que, depois do fim da guerra, as armas deviam continuar nas mãos e em casa dos trabalhadores», George Orwell foi certamente influenciado pela guerra civil espanhola e, mais especialmente, pelos acontecimentos de Maio de 1937 em Barcelona. Mas depois da segunda guerra mundial, que dependera de devastadores bombardeamentos aéreos e do avanço de enormes colunas de blindados, como se operacionalizaria que cada um dispusesse dos seus próprios aviões e tanques de guerra? Ou hoje, com os sofisticadíssimos drones, deverá cada pessoa ter o seu?</p>
<p>A minha dúvida, porém, é mais genérica, pois esse tipo de argumentação parece-me idêntico ao usado nos Estado Unidos pelo maior dos <em>lobbies</em>, a National Rifle Association, um dos grandes apoios da extrema-direita. Também a NRA defende que a posse de armas é a garantia da liberdade do cidadão perante as intromissões do Estado.</p>
<p>Penso que a resposta às pauladas de Hitler, de Spengler e dos seus émulos contemporâneos deverá ser outra.</p>
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