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	Comentários sobre: São Marx, rogai por nós. 3) Ámen	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2020/06/132421/#comment-637858</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 05 Jul 2020 14:42:12 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[L de SP,

O escravismo não foi simplesmente um sistema de exploração. Foi um sistema de relações pessoais que existiu em praticamente todas as sociedades, nos cinco continentes. O que caracteriza todas as modalidades de escravismo é a alienação definitiva da própria pessoa. Nos grandes impérios escravistas os tipos de escravos e as suas funções eram muito variados, desde os escravos das minas até um tipo de escravatura doméstica em que o soberano e as famílias mais poderosas escolhiam entre os escravos os seus homens de confiança, ministros, chefes militares. O que havia de comum entre o miserável escravo das minas e o glorioso general era apenas o facto de terem alienado definitivamente as suas pessoas. Mas as posições sociais que ocupavam eram muito diferentes, tal como o eram as suas relações com o sistema económico. Havia ainda o tipo de escravismo com funções extra-económicas ou até, de certo modo, anti-económicas, por exemplo, quando no império azteca os vencidos nas guerras eram escravizados apenas para serem mortos em sacrifícios religiosos, aniquilando-se a sua capacidade de força de trabalho.

O escravismo a que os brasileiros geralmente se referem --- devido à estranha noção de que o Brasil está no Brasil e não no mundo --- foi inaugurado pelos venezianos no seu império mediterrânico, nomeadamente Creta e Chipre, para uma produção destinada ao mercada mundial. Tratou-se de uma forma inovadora porque, por um lado, era um escravismo estritamente doméstico, ou seja, todos os escravos dependiam directamente da domesticidade dos poderosos ou do soberano; por outro lado, enquanto o escravismo doméstico só abrangera, até então, números reduzidos de pessoas, este foi um escravismo doméstico de massas; finalmente, porque a sua produção não se destinava a satisfazer as necessidades estritas de uma dada área de soberania, mas destinava-se ao mercado mundial. Os portugueses levaram para as ilhas do Atlântico este tipo de escravismo inaugurado pelos venezianos, e depois levaram-no para o Brasil.

O que eu quero aqui sublinhar é a versatilidade de formas económicas cobertas pelo escravismo. Por exemplo, quando os portugueses compravam escravos negros aos potentados negros africanos, e compraram-nos em quantidade sempre crescente, esses escravos saíam dos sistemas de exploração em que haviam sido inseridos em África para se inserirem num novo sistema de exploração. Em suma, o escravismo foi uma forma muito plástica, que abrangeu desde membros das elites até à mão-de-obra mais miserável e que operou em sistemas económicos muito diferentes. Mas aquilo que o caracterizou, em todas estas modalidades, foi a alienção da pessoa, sem que se considerasse o tempo de trabalho.

Os regimes senhoriais nasceram da fragmentação dos grandes sistemas escravistas, ou seja, resultaram do fraccionamento das grandes famílias amplas. Pelo menos, é esta a tese que defendo na obra que dediquei ao assunto. Note que a noção &lt;em&gt;regime senhorial&lt;/em&gt; é preferível à noção &lt;em&gt;feudalismo&lt;/em&gt;, porque feudalismo diz respeito à relação entre um senhor e os seus vassalos, portanto, a uma relação no interior da classe dominante. Enquanto regime senhorial diz respeito ao âmago do processo económico, às relações entre senhores e servos.

No regime senhorial as duas modalidades de exploração eram o tributo em géneros e as corveias, ou os seus equivalentes pecuniários. Os servos tinham latitude  para organizar como queriam os seus processos de produção e eram eles mesmos a decidir do emprego do seu tempo de trabalho. Os agentes do senhor limitavam-se a cobrar o excedente, fixado a partir de um certo limite. Em suma, os servos não alienavam as suas pessoas, ao contrário do que sucedia no escravismo, e controlavam o seu próprio tempo de trabalho, ao contrário do que viria a suceder no capitalismo.

A introdução aqui das categorias &lt;em&gt;mercado&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;dinheiro&lt;/em&gt; confunde tudo, em vez de esclarecer o que quer que seja, porque foram muito raros os sistemas económicos em que não se encontraram formas de mercado e formas pecuniárias. Praticamente cada sistema económico tinha as suas formas específicas de mercado e as suas formas específicas de dinheiro.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>L de SP,</p>
<p>O escravismo não foi simplesmente um sistema de exploração. Foi um sistema de relações pessoais que existiu em praticamente todas as sociedades, nos cinco continentes. O que caracteriza todas as modalidades de escravismo é a alienação definitiva da própria pessoa. Nos grandes impérios escravistas os tipos de escravos e as suas funções eram muito variados, desde os escravos das minas até um tipo de escravatura doméstica em que o soberano e as famílias mais poderosas escolhiam entre os escravos os seus homens de confiança, ministros, chefes militares. O que havia de comum entre o miserável escravo das minas e o glorioso general era apenas o facto de terem alienado definitivamente as suas pessoas. Mas as posições sociais que ocupavam eram muito diferentes, tal como o eram as suas relações com o sistema económico. Havia ainda o tipo de escravismo com funções extra-económicas ou até, de certo modo, anti-económicas, por exemplo, quando no império azteca os vencidos nas guerras eram escravizados apenas para serem mortos em sacrifícios religiosos, aniquilando-se a sua capacidade de força de trabalho.</p>
<p>O escravismo a que os brasileiros geralmente se referem &#8212; devido à estranha noção de que o Brasil está no Brasil e não no mundo &#8212; foi inaugurado pelos venezianos no seu império mediterrânico, nomeadamente Creta e Chipre, para uma produção destinada ao mercada mundial. Tratou-se de uma forma inovadora porque, por um lado, era um escravismo estritamente doméstico, ou seja, todos os escravos dependiam directamente da domesticidade dos poderosos ou do soberano; por outro lado, enquanto o escravismo doméstico só abrangera, até então, números reduzidos de pessoas, este foi um escravismo doméstico de massas; finalmente, porque a sua produção não se destinava a satisfazer as necessidades estritas de uma dada área de soberania, mas destinava-se ao mercado mundial. Os portugueses levaram para as ilhas do Atlântico este tipo de escravismo inaugurado pelos venezianos, e depois levaram-no para o Brasil.</p>
<p>O que eu quero aqui sublinhar é a versatilidade de formas económicas cobertas pelo escravismo. Por exemplo, quando os portugueses compravam escravos negros aos potentados negros africanos, e compraram-nos em quantidade sempre crescente, esses escravos saíam dos sistemas de exploração em que haviam sido inseridos em África para se inserirem num novo sistema de exploração. Em suma, o escravismo foi uma forma muito plástica, que abrangeu desde membros das elites até à mão-de-obra mais miserável e que operou em sistemas económicos muito diferentes. Mas aquilo que o caracterizou, em todas estas modalidades, foi a alienção da pessoa, sem que se considerasse o tempo de trabalho.</p>
<p>Os regimes senhoriais nasceram da fragmentação dos grandes sistemas escravistas, ou seja, resultaram do fraccionamento das grandes famílias amplas. Pelo menos, é esta a tese que defendo na obra que dediquei ao assunto. Note que a noção <em>regime senhorial</em> é preferível à noção <em>feudalismo</em>, porque feudalismo diz respeito à relação entre um senhor e os seus vassalos, portanto, a uma relação no interior da classe dominante. Enquanto regime senhorial diz respeito ao âmago do processo económico, às relações entre senhores e servos.</p>
<p>No regime senhorial as duas modalidades de exploração eram o tributo em géneros e as corveias, ou os seus equivalentes pecuniários. Os servos tinham latitude  para organizar como queriam os seus processos de produção e eram eles mesmos a decidir do emprego do seu tempo de trabalho. Os agentes do senhor limitavam-se a cobrar o excedente, fixado a partir de um certo limite. Em suma, os servos não alienavam as suas pessoas, ao contrário do que sucedia no escravismo, e controlavam o seu próprio tempo de trabalho, ao contrário do que viria a suceder no capitalismo.</p>
<p>A introdução aqui das categorias <em>mercado</em> e <em>dinheiro</em> confunde tudo, em vez de esclarecer o que quer que seja, porque foram muito raros os sistemas económicos em que não se encontraram formas de mercado e formas pecuniárias. Praticamente cada sistema económico tinha as suas formas específicas de mercado e as suas formas específicas de dinheiro.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: L de SP		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2020/06/132421/#comment-637801</link>

		<dc:creator><![CDATA[L de SP]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 05 Jul 2020 05:46:58 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=132421#comment-637801</guid>

					<description><![CDATA[Em primeiro lugar, obrigado sempre ao João Bernardo pelos ótimos textos. Agora:

Uma pergunta ao João Bernardo e a quem mais quiser me esclarecer. É um esclarecimento quanto à seguinte passagem:

&quot;O capital é simplesmente a perpetuação de um sistema de relações de exploração em que uns, os trabalhadores, cedem o seu tempo de trabalho, sobre o qual não têm controle; e outros, os capitalistas (tanto burgueses como gestores), controlam o seu próprio tempo e o tempo de trabalho alheio. O fundamento do capitalismo consiste numa relação entre tempos de trabalho. E o capital é o domínio sobre essa relação, portanto, é a perpetuação dessa relação.&quot;

Nesses termos, o trabalhador não cede o tempo dele também em outros sistemas produtivos? O que diferencia o capitalismo de outros sistemas aqui - a troca do tempo aqui é mediada pelo &quot;mercado&quot; e, portanto, pelo preço da mão de obra, em boa medida, não? No caso do escravismo, ele cede em troca da manutenção da vida dele (no sentido mais básico da expressão, já que o desemprego no limite aponta à mesma ameaça); no feudalismo, em troca do &quot;direito a morar no feudo&quot;, etc. E no capitalismo, em troca do salário. Como diferenciar o capitalismo ignorando o fator preço ao qual se atrela o trabalho?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em primeiro lugar, obrigado sempre ao João Bernardo pelos ótimos textos. Agora:</p>
<p>Uma pergunta ao João Bernardo e a quem mais quiser me esclarecer. É um esclarecimento quanto à seguinte passagem:</p>
<p>&#8220;O capital é simplesmente a perpetuação de um sistema de relações de exploração em que uns, os trabalhadores, cedem o seu tempo de trabalho, sobre o qual não têm controle; e outros, os capitalistas (tanto burgueses como gestores), controlam o seu próprio tempo e o tempo de trabalho alheio. O fundamento do capitalismo consiste numa relação entre tempos de trabalho. E o capital é o domínio sobre essa relação, portanto, é a perpetuação dessa relação.&#8221;</p>
<p>Nesses termos, o trabalhador não cede o tempo dele também em outros sistemas produtivos? O que diferencia o capitalismo de outros sistemas aqui &#8211; a troca do tempo aqui é mediada pelo &#8220;mercado&#8221; e, portanto, pelo preço da mão de obra, em boa medida, não? No caso do escravismo, ele cede em troca da manutenção da vida dele (no sentido mais básico da expressão, já que o desemprego no limite aponta à mesma ameaça); no feudalismo, em troca do &#8220;direito a morar no feudo&#8221;, etc. E no capitalismo, em troca do salário. Como diferenciar o capitalismo ignorando o fator preço ao qual se atrela o trabalho?</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Leo V		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2020/06/132421/#comment-631592</link>

		<dc:creator><![CDATA[Leo V]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jun 2020 01:35:31 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=132421#comment-631592</guid>

					<description><![CDATA[Pelo menos quando eu era miúdo, também se dizia ovo estrelado no Brasil. Ou é como os cariocas ainda o chamam.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pelo menos quando eu era miúdo, também se dizia ovo estrelado no Brasil. Ou é como os cariocas ainda o chamam.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2020/06/132421/#comment-631366</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Jun 2020 17:00:03 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=132421#comment-631366</guid>

					<description><![CDATA[Lilian,

O ovo é um volume de grande simplicidade geométrica. Ao mesmo tempo, ele figura um microcosmo (uma coisa bem delimitada no meio de um mundo incomensuravelmente maior e diverso) e o macrocosmo (já que no seu interior contém tudo o que é necessário para uma vida). Assim, o ovo representa a união mística do microcosmo no macrocosmo e, na simplicidade da sua curva, representa um percurso incessante. Por isso o ovo me parece uma excelente figuração da dialéctica mística e das suas ilimitadas mediações, tanto mais que, em confronto com a galinha, há o contínuo vaivém de saber qual surgiu primeiro.

Ora, tal como Marx e Engels assentaram na terra os pés da dialéctica hegeliana, eu fiz a mesma coisa ao ovo, quebrando-o na frigideira. O ovo estrelado, como se diz em Portugal, ou frito, como se diz no Brasil, pôs fim ao carácter ilimitado do ovo místico.

Bom apetite!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Lilian,</p>
<p>O ovo é um volume de grande simplicidade geométrica. Ao mesmo tempo, ele figura um microcosmo (uma coisa bem delimitada no meio de um mundo incomensuravelmente maior e diverso) e o macrocosmo (já que no seu interior contém tudo o que é necessário para uma vida). Assim, o ovo representa a união mística do microcosmo no macrocosmo e, na simplicidade da sua curva, representa um percurso incessante. Por isso o ovo me parece uma excelente figuração da dialéctica mística e das suas ilimitadas mediações, tanto mais que, em confronto com a galinha, há o contínuo vaivém de saber qual surgiu primeiro.</p>
<p>Ora, tal como Marx e Engels assentaram na terra os pés da dialéctica hegeliana, eu fiz a mesma coisa ao ovo, quebrando-o na frigideira. O ovo estrelado, como se diz em Portugal, ou frito, como se diz no Brasil, pôs fim ao carácter ilimitado do ovo místico.</p>
<p>Bom apetite!</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Lilian		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2020/06/132421/#comment-631333</link>

		<dc:creator><![CDATA[Lilian]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Jun 2020 15:23:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Bom texto, mas não entendi a ilustração.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Bom texto, mas não entendi a ilustração.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: JMC		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2020/06/132421/#comment-630841</link>

		<dc:creator><![CDATA[JMC]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Jun 2020 17:40:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Tenho algum pudor em criticar algumas ideias expressas pelo João Bernardo. Ele revela uma grande erudição nalguns temas e uma cultura muito variada, que se vêem nas abundantes notas, referências e divagações que acompanham os seus textos, e uma retórica vasta que lhe permite ser um escritor prolixo. Ao pudor da crítica junta-se a admiração pela sua superior inteligência, muito acima da do comum dos mortais. Não é sem esforço que os ultrapasso (ao pudor e à admiração) para aventurar-me a criticar algumas das suas ideias sobre a economia-política e a evolução social fundadas no mais prosaico marxismo.
Corri esta aventura num texto crítico há uns anos (“O comunismo autogestionário de João Bernardo. Duas ou três coisas a propósito”, que os interessados poderão ler aqui: http://aparenciasdoreal.blogspot.com/2014/05/o-comunismo-autogestionario-de-oao.html). E torno a corrê-la agora, desempenhando o papel ingrato de desmancha-prazeres no meio de admiradores seus e dos comentários ditirâmbicos com que costumam  acompanhar os textos que publica neste site. Não tomo para tema central deste comentário o marxismo revelado por João Bernardo ao manter-se fiel a uns quantos conceitos fundamentais da obra do Marx, nomeadamente, o de “força de trabalho” (no sentido de ser a mercadoria vendida pelo trabalhador assalariado) e o de “mais-valia” (absoluta e relativa), ou à ideia de “o tempo de trabalho complexo corresponder a mais tempo de trabalho simples”, embora lhes faça referência. Também não abordo a sua “originalidade” de designar o dinheiro como transmissor de informação ou como sendo a própria informação (confundindo o dinheiro, moeda de troca ou mercadoria equivalente geral, com a informação das ordens de pagamento ou da sua escrituração nos balancetes, que a redução da sua utilidade à de meio de pagamento permite). Esses assuntos tratei-os no meu texto citado e, de forma mais extensa, em muitos outros que constam no meu blog dedicado à crítica do marxismo e do comunismo. 
Limitar-me-ei, aqui, a assinalar duas contradições que vislumbro neste conjunto de textos. Uma, eventualmente devida a lapso involuntário, entre a ideia marxista de que a “mais-valia resulta do facto de o tempo de trabalho incorporado na força de trabalho ser menor do que o tempo de trabalho que a força de trabalho é capaz de despender no processo de produção”, que expressa num dos parágrafos do texto 2, com uma outra sua “originalidade”, desta feita, a de a “mais-valia diz(er) respeito à realidade socioeconómica do desfasamento entre tempos de trabalho no processo de produção”, que escreve no texto 3. Eventualmente, ele quereria dizer “diferença”, porque “desfasagem” (diferença de fase) tem outro significado (diferença, no tempo, em que ocorrem determinados valores de grandezas de variação periódica do mesmo tipo ou relacionadas) e empregue aqui pode prestar-se a outras interpretações. 
Mas tanto a ideia marxista como a “originalidade” do João Bernardo acerca da origem da parte do valor do custo de produção das mercadorias apropriada pelos capitalistas que está na génese do lucro são erradas. O trabalhador assalariado não vende a “força de trabalho” (a energia humana) que ele próprio consome e que faz dele um produtor de mercadorias, no caso, o produtor da mercadoria trabalho assalariado; e a parte do valor do custo de produção de que os capitalistas se apropriam não constitui qualquer “mais-valia” (mais valor) criado no processo de produção, porque o valor do custo de produção das mercadorias que dele saem é o mesmo que o valor das que nele entraram. A parte do valor apropriada pelos capitalistas constitui uma diferença de valores, sim, mas uma diferença entre o valor do custo de produção do trabalho que o trabalhador assalariado lhes vende (e, mais grave, que eles o obrigam a produzir para além da jornada e do esforço e ritmo com que foi contratada a sua produção, que lhe aumentam o valor do custo de produção) e o valor do custo de produção que eles lhe pagam (expresso pelo valor do custo de produção das mercadorias compradas pelo salário). 
Trata-se, na realidade, para o trabalhador, de uma “menos-valia” ou de um menos valor que ele recebe em pagamento do valor da mercadoria que vende, pelo que o conceito marxista de “mais-valia”, que o Marx nunca justificou e apenas afirmou numa frase de poucas palavras, não tem ponta por onde se lhe pegue. Admira que o João Bernardo continue a usar um tal conceito e que afirme que a “mais-valia resulta do facto de o tempo de trabalho incorporado na força de trabalho ser menor do que o tempo de trabalho que a força de trabalho é capaz de despender no processo de produção”, como se nos fosse possível determinar qual “o tempo de trabalho incorporado na força de trabalho”, já que o que o trabalhador recebe em troca da mercadoria que vende lhe permite produzir a sua vida e não apenas a “força de trabalho” que usa para produzir o trabalho assalariado que vende.
A outra contradição respeita ao facto de neste conjunto de três textos ele se dedicar a criticar os “devotos de S. Marx” no que respeita a abordagens que apontam as crises económicas como determinantes para o fim do capitalismo, e que a crise actual, agravada pela calamidade natural da pandemia “covid19”, aceleraria esse fim, cuja importância mesmo no seio do marxismo ortodoxo me parece ser por ele exagerada para assim poder constituir assunto que mereça discussão, continuando ele mesmo, no que é fundamental na crítica da economia-política e na profecia do fim do capitalismo e da implantação do comunismo pela revolução proletária, a ser um “devoto de S. Marx”. No seu caso, ele substitui as crises económicas pela luta dos trabalhadores, um determinismo económico por um voluntarismo proletário. Constato, mas não me surpreendo, porque há muitos anos já lhe ouvi dizer que “o comunismo é uma questão de fé”. Como a realidade se apresenta, direi mesmo que terá de ser uma questão de muita fé, uma fezada!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho algum pudor em criticar algumas ideias expressas pelo João Bernardo. Ele revela uma grande erudição nalguns temas e uma cultura muito variada, que se vêem nas abundantes notas, referências e divagações que acompanham os seus textos, e uma retórica vasta que lhe permite ser um escritor prolixo. Ao pudor da crítica junta-se a admiração pela sua superior inteligência, muito acima da do comum dos mortais. Não é sem esforço que os ultrapasso (ao pudor e à admiração) para aventurar-me a criticar algumas das suas ideias sobre a economia-política e a evolução social fundadas no mais prosaico marxismo.<br />
Corri esta aventura num texto crítico há uns anos (“O comunismo autogestionário de João Bernardo. Duas ou três coisas a propósito”, que os interessados poderão ler aqui: <a href="http://aparenciasdoreal.blogspot.com/2014/05/o-comunismo-autogestionario-de-oao.html" rel="nofollow ugc">http://aparenciasdoreal.blogspot.com/2014/05/o-comunismo-autogestionario-de-oao.html</a>). E torno a corrê-la agora, desempenhando o papel ingrato de desmancha-prazeres no meio de admiradores seus e dos comentários ditirâmbicos com que costumam  acompanhar os textos que publica neste site. Não tomo para tema central deste comentário o marxismo revelado por João Bernardo ao manter-se fiel a uns quantos conceitos fundamentais da obra do Marx, nomeadamente, o de “força de trabalho” (no sentido de ser a mercadoria vendida pelo trabalhador assalariado) e o de “mais-valia” (absoluta e relativa), ou à ideia de “o tempo de trabalho complexo corresponder a mais tempo de trabalho simples”, embora lhes faça referência. Também não abordo a sua “originalidade” de designar o dinheiro como transmissor de informação ou como sendo a própria informação (confundindo o dinheiro, moeda de troca ou mercadoria equivalente geral, com a informação das ordens de pagamento ou da sua escrituração nos balancetes, que a redução da sua utilidade à de meio de pagamento permite). Esses assuntos tratei-os no meu texto citado e, de forma mais extensa, em muitos outros que constam no meu blog dedicado à crítica do marxismo e do comunismo.<br />
Limitar-me-ei, aqui, a assinalar duas contradições que vislumbro neste conjunto de textos. Uma, eventualmente devida a lapso involuntário, entre a ideia marxista de que a “mais-valia resulta do facto de o tempo de trabalho incorporado na força de trabalho ser menor do que o tempo de trabalho que a força de trabalho é capaz de despender no processo de produção”, que expressa num dos parágrafos do texto 2, com uma outra sua “originalidade”, desta feita, a de a “mais-valia diz(er) respeito à realidade socioeconómica do desfasamento entre tempos de trabalho no processo de produção”, que escreve no texto 3. Eventualmente, ele quereria dizer “diferença”, porque “desfasagem” (diferença de fase) tem outro significado (diferença, no tempo, em que ocorrem determinados valores de grandezas de variação periódica do mesmo tipo ou relacionadas) e empregue aqui pode prestar-se a outras interpretações.<br />
Mas tanto a ideia marxista como a “originalidade” do João Bernardo acerca da origem da parte do valor do custo de produção das mercadorias apropriada pelos capitalistas que está na génese do lucro são erradas. O trabalhador assalariado não vende a “força de trabalho” (a energia humana) que ele próprio consome e que faz dele um produtor de mercadorias, no caso, o produtor da mercadoria trabalho assalariado; e a parte do valor do custo de produção de que os capitalistas se apropriam não constitui qualquer “mais-valia” (mais valor) criado no processo de produção, porque o valor do custo de produção das mercadorias que dele saem é o mesmo que o valor das que nele entraram. A parte do valor apropriada pelos capitalistas constitui uma diferença de valores, sim, mas uma diferença entre o valor do custo de produção do trabalho que o trabalhador assalariado lhes vende (e, mais grave, que eles o obrigam a produzir para além da jornada e do esforço e ritmo com que foi contratada a sua produção, que lhe aumentam o valor do custo de produção) e o valor do custo de produção que eles lhe pagam (expresso pelo valor do custo de produção das mercadorias compradas pelo salário).<br />
Trata-se, na realidade, para o trabalhador, de uma “menos-valia” ou de um menos valor que ele recebe em pagamento do valor da mercadoria que vende, pelo que o conceito marxista de “mais-valia”, que o Marx nunca justificou e apenas afirmou numa frase de poucas palavras, não tem ponta por onde se lhe pegue. Admira que o João Bernardo continue a usar um tal conceito e que afirme que a “mais-valia resulta do facto de o tempo de trabalho incorporado na força de trabalho ser menor do que o tempo de trabalho que a força de trabalho é capaz de despender no processo de produção”, como se nos fosse possível determinar qual “o tempo de trabalho incorporado na força de trabalho”, já que o que o trabalhador recebe em troca da mercadoria que vende lhe permite produzir a sua vida e não apenas a “força de trabalho” que usa para produzir o trabalho assalariado que vende.<br />
A outra contradição respeita ao facto de neste conjunto de três textos ele se dedicar a criticar os “devotos de S. Marx” no que respeita a abordagens que apontam as crises económicas como determinantes para o fim do capitalismo, e que a crise actual, agravada pela calamidade natural da pandemia “covid19”, aceleraria esse fim, cuja importância mesmo no seio do marxismo ortodoxo me parece ser por ele exagerada para assim poder constituir assunto que mereça discussão, continuando ele mesmo, no que é fundamental na crítica da economia-política e na profecia do fim do capitalismo e da implantação do comunismo pela revolução proletária, a ser um “devoto de S. Marx”. No seu caso, ele substitui as crises económicas pela luta dos trabalhadores, um determinismo económico por um voluntarismo proletário. Constato, mas não me surpreendo, porque há muitos anos já lhe ouvi dizer que “o comunismo é uma questão de fé”. Como a realidade se apresenta, direi mesmo que terá de ser uma questão de muita fé, uma fezada!</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: ulisses		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2020/06/132421/#comment-629776</link>

		<dc:creator><![CDATA[ulisses]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jun 2020 15:22:02 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=132421#comment-629776</guid>

					<description><![CDATA[Coinerentes e intromisturadas, as singularidades caósmicas (virtual e atual, em pressuposição recíproca) expressam o universal concreto no jogo das concomitâncias e subsequências, modelizado pela geometria pós-euclidiana e randomizado segundo o princípio da incerteza. Q.E.D.!!!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Coinerentes e intromisturadas, as singularidades caósmicas (virtual e atual, em pressuposição recíproca) expressam o universal concreto no jogo das concomitâncias e subsequências, modelizado pela geometria pós-euclidiana e randomizado segundo o princípio da incerteza. Q.E.D.!!!</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Wellingthon Gonçalves Chaves		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2020/06/132421/#comment-629755</link>

		<dc:creator><![CDATA[Wellingthon Gonçalves Chaves]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jun 2020 14:19:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A dialética metafísica, realmente, pode chegar a instâncias alucinatorias. Mas, quando ela se depara, se interpenetra no concreto passa a se referenciar com aquele ser, objeto, ou fenômeno numa dimensão caledescopial, criando mil facetas, e penetrando na verticalidade, e horizontalidade daquela relação. 
Geralmente, o que acontece é que a ansiedade da necessidade da resposta, impede uma maior reflexão. Isto é fruto do Neopositivismo vigente, que confunde a utilização da matemática na instalação da análise. 
Acalmem-se, e não corram para essa visão simplória da realidade, pois ele (o positivismo lógico é, para ser apenas, um instrumento, não totalidade.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A dialética metafísica, realmente, pode chegar a instâncias alucinatorias. Mas, quando ela se depara, se interpenetra no concreto passa a se referenciar com aquele ser, objeto, ou fenômeno numa dimensão caledescopial, criando mil facetas, e penetrando na verticalidade, e horizontalidade daquela relação.<br />
Geralmente, o que acontece é que a ansiedade da necessidade da resposta, impede uma maior reflexão. Isto é fruto do Neopositivismo vigente, que confunde a utilização da matemática na instalação da análise.<br />
Acalmem-se, e não corram para essa visão simplória da realidade, pois ele (o positivismo lógico é, para ser apenas, um instrumento, não totalidade.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
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		<title>
		Por: Raoni		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2020/06/132421/#comment-629461</link>

		<dc:creator><![CDATA[Raoni]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jun 2020 01:18:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caro JB, excelentes artigos!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro JB, excelentes artigos!</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: ulisses		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2020/06/132421/#comment-629182</link>

		<dc:creator><![CDATA[ulisses]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Jun 2020 14:23:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[JB CONTINUA SENDO
Crítico e elucidativo, além de didático, na melhor acepção do termo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>JB CONTINUA SENDO<br />
Crítico e elucidativo, além de didático, na melhor acepção do termo.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
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