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	Comentários sobre: Animação urbana macabra	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/01/135761/#comment-711312</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 Jan 2021 17:12:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A teia dos raciocínios na coluna de Isadora e o comentário de Davi levam-me a regressar a uma questão que me ocupa há anos.

Até uma data recente, pelo menos recente para mim, a esquerda reivindicava uma alteração nas relações de produção. Uma parte da esquerda referia-se à propriedade dos meios de produção, justificando assim o capitalismo de Estado. Outra parte referia-se às relações sociais no processo de trabalho, exigindo a alteração das hierarquias de gestão. Mas ambas convergiam no lugar da reivindicação, que era o lugar onde decorria o processo de trabalho.

Ora, se nas décadas de 1960 e 1970 o grande lema da extrema-esquerda era a conquista e a ocupação dos lugares de trabalho, nas últimas décadas passou a ser a conquista da rua. Gritam &lt;em&gt;a rua é nossa!&lt;/em&gt;, como se isto não deixasse satisfeitos os patrões, já que as empresas continuam a ser deles.

Pode argumentar-se que o toyotismo e depois o seu desenvolvimento com a uberização retiraram uma parte da realidade à noção de local físico do trabalho. Mas a isto respondo que, em primeiro lugar, essa remodelação ainda atinge só uma percentagem reduzida da força de trabalho. E, em segundo lugar, a substituição de um espaço físico por um espaço virtual não deveria aparecer problemática a trabalhadores que investem os seus desejos, os seus sonhos e os seus ócios nos espaços não menos virtuais das redes sociais. Se as gerações anteriores aprenderam a ocupar empresas, estas devem aprender a ocupar espaços virtuais. O problema não é esse.

A questão é que o pós-modernismo substituiu a noção de realidade pela de narrativas. E os filhos — ou antes, os abortos — do pós-modernismo, quero dizer, os identitários de variados e intermináveis matizes, assumem essas presumidas identidades como outras tantas narrativas. Não se trata de espectáculos. São só cenários.

É neste contexto que se entende a tal conquista da rua e a ocupação dos espaços do ócio. As festas converteram-se na nova narrativa. E se nas empresas e nos locais virtuais de trabalho existe uma permanente demarcação de classes, entre quem tem e quem não tem, entre quem gere e quem obedece, nas ruas, pelo contrário, o espaço fica livre para as classes se confundirem. Já o velho barão Haussmann havia compreendido isto, quando traçou o plano da modernização de Paris.

Mas, e paro aqui um pouco, espaços comuns, mistura social, barreiras de classe a apagarem-se, a substituição da realidade por um cenário, não será que isto me lembra alguma coisa? Lembra-me o fascismo, claro.

Porque é o fascismo a recobrar alento com as medidas sanitárias indispensáveis para debelar a pandemia. Em artigos publicados neste &lt;em&gt;site&lt;/em&gt; chamei a atenção para a convergência entre uma certa esquerda e a extrema-direita e os fascistas nos protestos de rua contra as quarentenas e os confinamentos em vários países europeus. Agora mesmo, em Portugal, onde a situação se tornou subitamente catastrófica, o reforço das medidas de quarentena depara com a oposição no parlamento da extrema-direita e dos fascistas, muito minoritários, mas em franco crescimento, e do Partido Comunista, enquanto o Bloco de Esquerda estupidamente se abstém. É o outro ingrediente que falta para o fascismo, esta convergência, ou este cruzamento, entre direita e esquerda.

Parece-me ser este o problema, no Brasil e no mundo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A teia dos raciocínios na coluna de Isadora e o comentário de Davi levam-me a regressar a uma questão que me ocupa há anos.</p>
<p>Até uma data recente, pelo menos recente para mim, a esquerda reivindicava uma alteração nas relações de produção. Uma parte da esquerda referia-se à propriedade dos meios de produção, justificando assim o capitalismo de Estado. Outra parte referia-se às relações sociais no processo de trabalho, exigindo a alteração das hierarquias de gestão. Mas ambas convergiam no lugar da reivindicação, que era o lugar onde decorria o processo de trabalho.</p>
<p>Ora, se nas décadas de 1960 e 1970 o grande lema da extrema-esquerda era a conquista e a ocupação dos lugares de trabalho, nas últimas décadas passou a ser a conquista da rua. Gritam <em>a rua é nossa!</em>, como se isto não deixasse satisfeitos os patrões, já que as empresas continuam a ser deles.</p>
<p>Pode argumentar-se que o toyotismo e depois o seu desenvolvimento com a uberização retiraram uma parte da realidade à noção de local físico do trabalho. Mas a isto respondo que, em primeiro lugar, essa remodelação ainda atinge só uma percentagem reduzida da força de trabalho. E, em segundo lugar, a substituição de um espaço físico por um espaço virtual não deveria aparecer problemática a trabalhadores que investem os seus desejos, os seus sonhos e os seus ócios nos espaços não menos virtuais das redes sociais. Se as gerações anteriores aprenderam a ocupar empresas, estas devem aprender a ocupar espaços virtuais. O problema não é esse.</p>
<p>A questão é que o pós-modernismo substituiu a noção de realidade pela de narrativas. E os filhos — ou antes, os abortos — do pós-modernismo, quero dizer, os identitários de variados e intermináveis matizes, assumem essas presumidas identidades como outras tantas narrativas. Não se trata de espectáculos. São só cenários.</p>
<p>É neste contexto que se entende a tal conquista da rua e a ocupação dos espaços do ócio. As festas converteram-se na nova narrativa. E se nas empresas e nos locais virtuais de trabalho existe uma permanente demarcação de classes, entre quem tem e quem não tem, entre quem gere e quem obedece, nas ruas, pelo contrário, o espaço fica livre para as classes se confundirem. Já o velho barão Haussmann havia compreendido isto, quando traçou o plano da modernização de Paris.</p>
<p>Mas, e paro aqui um pouco, espaços comuns, mistura social, barreiras de classe a apagarem-se, a substituição da realidade por um cenário, não será que isto me lembra alguma coisa? Lembra-me o fascismo, claro.</p>
<p>Porque é o fascismo a recobrar alento com as medidas sanitárias indispensáveis para debelar a pandemia. Em artigos publicados neste <em>site</em> chamei a atenção para a convergência entre uma certa esquerda e a extrema-direita e os fascistas nos protestos de rua contra as quarentenas e os confinamentos em vários países europeus. Agora mesmo, em Portugal, onde a situação se tornou subitamente catastrófica, o reforço das medidas de quarentena depara com a oposição no parlamento da extrema-direita e dos fascistas, muito minoritários, mas em franco crescimento, e do Partido Comunista, enquanto o Bloco de Esquerda estupidamente se abstém. É o outro ingrediente que falta para o fascismo, esta convergência, ou este cruzamento, entre direita e esquerda.</p>
<p>Parece-me ser este o problema, no Brasil e no mundo.</p>
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		Por: Davi		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/01/135761/#comment-711302</link>

		<dc:creator><![CDATA[Davi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 Jan 2021 16:01:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Direita e esquerda unidas pelo carnaval?

A autora faz uma leitura apressada da conjuntura ao dizer que atualmente as pessoas se mobilizam em massa pelas festas e contra os “lockdowns”. Vimos o resultado das mobilizações patronais no Amazonas, que não se repetiram recentemente após a lição amarga do colapso do sistema de saúde, fato que levou o estado a alcançar os maiores índices de isolamento social no país. Ao invés de buscar uma chave de explicação para o fenômeno dos protestos que, principalmente no caso dos trabalhadores informais, pode ser compreendido como um grito desesperado por renda, vemos um conformismo com a narrativa do bolsonarismo no texto, como se o componente ideológico fosse o fator predominante. Fazer esta análise não é o mesmo que negar que o bolsonarismo tenha tentado surfar nessa onda, mas a atual situação sanitária tem mais o encurralado do que fortalecido. Outro ponto é pensar se a forma esperada de contestação em prol do isolamento, de suporte financeiro e imunização seria mesmo a manifestação de rua. A autora parece ignorar que um dos setores que mais sofreram perdas em decorrência das restrições governamentais foram os de eventos e turismo, pelo cancelamento generalizado de viagens, festas e shows. Os governos obtiveram relativo sucesso em barrar as comemorações mais tradicionais de réveillon, e isso não teria sido possível se não houvesse respaldo e colaboração popular. O relaxamento da população em relação ao combate à pandemia nos últimos meses se explica em grande parte pelo fôlego adquirido nos sistemas de saúde, motivo pelo qual os governos ganharam confiança para relaxar as medidas restritivas, sinalizando que o problema do vírus se atenuou. Mas estamos num cenário de retomada da pressão sobre esses sistemas, reforço de restrições e indicativos de aumento nos índices de isolamento social.
  
A ignorância das grandes ausências exagera um lado da realidade, que é aquilo que “aparece na rua”. Essa importância do “aparecer na rua” encontra seu ponto mais problemático num dos questionamentos da autora sobre se a esquerda deve ou não comparecer ao “carnaval de fevereiro”, num momento de piora global da pandemia; colapso do sistema de saúde do Amazonas (com risco real de colapso em outros estados); cancelamento oficial dos carnavais com anuência das escolas de samba, grandes blocos e do próprio Ministério do Turismo (até agora nenhuma cidade bancou manter as comemorações de carnaval). Ainda que o trabalho e os transportes públicos sejam focos de novas contaminações, não se deve menosprezar a importância dos protocolos sanitários e da escolha pelo isolamento social em relação aos lazeres, antes que casos como Manaus nos relembrem na marra que a situação atual exige um esforço coletivo – e individual – sem precedentes. Isto com certeza gera indignação aos esquerdistas liberais que acreditam não possuir responsabilidades “por tudo ser culpa do capitalismo”, e que ofendem-se ao ouvir falar em “autodisciplina”. Talvez podemos encontrar um extremo deste tipo de posição nas manifestações contra o lockdown em Berlim, em meados do ano passado, quando extrema-direita e extrema-esquerda estiveram juntas disputando visibilidade nas ruas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Direita e esquerda unidas pelo carnaval?</p>
<p>A autora faz uma leitura apressada da conjuntura ao dizer que atualmente as pessoas se mobilizam em massa pelas festas e contra os “lockdowns”. Vimos o resultado das mobilizações patronais no Amazonas, que não se repetiram recentemente após a lição amarga do colapso do sistema de saúde, fato que levou o estado a alcançar os maiores índices de isolamento social no país. Ao invés de buscar uma chave de explicação para o fenômeno dos protestos que, principalmente no caso dos trabalhadores informais, pode ser compreendido como um grito desesperado por renda, vemos um conformismo com a narrativa do bolsonarismo no texto, como se o componente ideológico fosse o fator predominante. Fazer esta análise não é o mesmo que negar que o bolsonarismo tenha tentado surfar nessa onda, mas a atual situação sanitária tem mais o encurralado do que fortalecido. Outro ponto é pensar se a forma esperada de contestação em prol do isolamento, de suporte financeiro e imunização seria mesmo a manifestação de rua. A autora parece ignorar que um dos setores que mais sofreram perdas em decorrência das restrições governamentais foram os de eventos e turismo, pelo cancelamento generalizado de viagens, festas e shows. Os governos obtiveram relativo sucesso em barrar as comemorações mais tradicionais de réveillon, e isso não teria sido possível se não houvesse respaldo e colaboração popular. O relaxamento da população em relação ao combate à pandemia nos últimos meses se explica em grande parte pelo fôlego adquirido nos sistemas de saúde, motivo pelo qual os governos ganharam confiança para relaxar as medidas restritivas, sinalizando que o problema do vírus se atenuou. Mas estamos num cenário de retomada da pressão sobre esses sistemas, reforço de restrições e indicativos de aumento nos índices de isolamento social.</p>
<p>A ignorância das grandes ausências exagera um lado da realidade, que é aquilo que “aparece na rua”. Essa importância do “aparecer na rua” encontra seu ponto mais problemático num dos questionamentos da autora sobre se a esquerda deve ou não comparecer ao “carnaval de fevereiro”, num momento de piora global da pandemia; colapso do sistema de saúde do Amazonas (com risco real de colapso em outros estados); cancelamento oficial dos carnavais com anuência das escolas de samba, grandes blocos e do próprio Ministério do Turismo (até agora nenhuma cidade bancou manter as comemorações de carnaval). Ainda que o trabalho e os transportes públicos sejam focos de novas contaminações, não se deve menosprezar a importância dos protocolos sanitários e da escolha pelo isolamento social em relação aos lazeres, antes que casos como Manaus nos relembrem na marra que a situação atual exige um esforço coletivo – e individual – sem precedentes. Isto com certeza gera indignação aos esquerdistas liberais que acreditam não possuir responsabilidades “por tudo ser culpa do capitalismo”, e que ofendem-se ao ouvir falar em “autodisciplina”. Talvez podemos encontrar um extremo deste tipo de posição nas manifestações contra o lockdown em Berlim, em meados do ano passado, quando extrema-direita e extrema-esquerda estiveram juntas disputando visibilidade nas ruas.</p>
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