<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	
	>
<channel>
	<title>
	Comentários sobre: Arte e espelho. 10	</title>
	<atom:link href="https://passapalavra.info/2021/05/136572/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://passapalavra.info/2021/05/136572/</link>
	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
	<lastBuildDate>Tue, 22 Jun 2021 13:33:35 +0000</lastBuildDate>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9</generator>
	<item>
		<title>
		Por: Dorminhocos do mundo, uni-vos! Nada tendes a perder se não um dia de trabalho!		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/05/136572/#comment-757644</link>

		<dc:creator><![CDATA[Dorminhocos do mundo, uni-vos! Nada tendes a perder se não um dia de trabalho!]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 22 Jun 2021 13:33:35 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=136572#comment-757644</guid>

					<description><![CDATA[Tudo de fato é questão de tempo. Por isso é bem cedo que se deseja a forca, porque não há, antes mesmo de chegada a manhã, tempo para quem se cansa. A jornada de quem se cansa é para consumar o cansaço anteriormente, noite e dia, acumulado. Por isso, após o consumo do cansaço acumulado se foge da forca que, todavia, persiste, noite e dia, perseguindo o cansado. Só conhece o cansaço, por isso, quem dorme e levanta com a corda no pescoço: &quot;Desperta, ó tu que dormes&quot; (Efésios 5.14) já que &quot;o trabalho liberta&quot;...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tudo de fato é questão de tempo. Por isso é bem cedo que se deseja a forca, porque não há, antes mesmo de chegada a manhã, tempo para quem se cansa. A jornada de quem se cansa é para consumar o cansaço anteriormente, noite e dia, acumulado. Por isso, após o consumo do cansaço acumulado se foge da forca que, todavia, persiste, noite e dia, perseguindo o cansado. Só conhece o cansaço, por isso, quem dorme e levanta com a corda no pescoço: &#8220;Desperta, ó tu que dormes&#8221; (Efésios 5.14) já que &#8220;o trabalho liberta&#8221;&#8230;</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Time is "Money or (/and) Monet"?		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/05/136572/#comment-757635</link>

		<dc:creator><![CDATA[Time is "Money or (/and) Monet"?]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 22 Jun 2021 13:10:47 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=136572#comment-757635</guid>

					<description><![CDATA[Pensei que ontem eu estivera cansado, posto que, bem cedo, era eu quem desejava a forca, porém, ao findar a noite, era ela quem me desejava, e era dela, que na escuridão, eu fugia...
Veio o hoje e o dia, e, novamente, me encontrei tão cansado. Procurei a forca, e fingi que não a vi. Por quê? 
Se é o tempo que cunha o metal, por que sou em quem cansa? Por que posso enforcar-me e não matar o tempo (ele próprio a forca)?
Vivo cansado. Sem tempo para vida (ou para o espelho). Sem tempo para arte (será a vida uma arte a quem se cansa?). Preciso dar um tempo. Tudo é questão de tempo. Mas dar um tempo, a quem se cansa, é questão de &quot;forca&quot; maior...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pensei que ontem eu estivera cansado, posto que, bem cedo, era eu quem desejava a forca, porém, ao findar a noite, era ela quem me desejava, e era dela, que na escuridão, eu fugia&#8230;<br />
Veio o hoje e o dia, e, novamente, me encontrei tão cansado. Procurei a forca, e fingi que não a vi. Por quê?<br />
Se é o tempo que cunha o metal, por que sou em quem cansa? Por que posso enforcar-me e não matar o tempo (ele próprio a forca)?<br />
Vivo cansado. Sem tempo para vida (ou para o espelho). Sem tempo para arte (será a vida uma arte a quem se cansa?). Preciso dar um tempo. Tudo é questão de tempo. Mas dar um tempo, a quem se cansa, é questão de &#8220;forca&#8221; maior&#8230;</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/05/136572/#comment-757470</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Jun 2021 21:14:10 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=136572#comment-757470</guid>

					<description><![CDATA[Alguns leitores sugeriram-me que escrevesse com regularidade sobre temas de arte, e ainda não respondi porque não sei o que hei-de responder. Mas este comentário é suscitado pelo último comentário de Exílio, sobre a obra de arte como espelho do espectador ou, no caso de Proust, do leitor. Fiquei a pensar e surgiu-me na memória um poema de Luís de Macedo, &lt;em&gt;Cansaço&lt;/em&gt;, que serviu depois para um dos mais belos fados, com música de Joaquim Campos.

Por trás do espelho quem está / De olhos fixados nos meus? / Alguém que passou por cá / E seguiu ao Deus dará / Deixando os olhos nos meus.
Quem dorme na minha cama / E tenta sonhar meus sonhos? / Alguém morreu nesta cama / E lá de longe me chama / Misturada nos meus sonhos.
Tudo o que faço ou não faço / Outros fizeram assim; / Daí este meu cansaço / De sentir que quanto faço / Não é feito só por mim.

Luís de Macedo chamava-se na verdade Luís Chaves de Oliveira (1901-1971) e foi adido cultural na Embaixada de Portugal em Paris. Mas para além de &lt;em&gt;Cansaço&lt;/em&gt; e de outros três poemas usados em fados, talvez a sua principal contribuição para a história do fado seja o facto de em 1962 ter apresentado Alain Oulman, português apesar do nome, à insuperável Amália. As composições musicais de Alain Oulman e a sua colaboração com Amália deram ao fado um novo impulso e elevaram-no a patamares ainda mais altos. Há &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=j2LBV_tY3Wo&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener nofollow ugc&quot;&gt;um vídeo emocionante&lt;/a&gt; que mostra Amália a ensaiar com Alain Oulman um fado sobre um poema de Cecília Meireles. O mesmo ensaio está ainda &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=kRpa_dS95qs&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener nofollow ugc&quot;&gt;noutro vídeo, um pouco mais longo&lt;/a&gt;. Não consigo ver e ouvir este ensaio com olhos secos.

Mas, já que é de &lt;em&gt;Cansaço&lt;/em&gt; que aqui se trata, ouçam-no, como não podia deixar de ser, &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=ApowShtjilM&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener nofollow ugc&quot;&gt;pela voz de Amália&lt;/a&gt;.

Ana Moura tem também &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=eUQp-kyqg1w&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener nofollow ugc&quot;&gt;uma bela interpretação do &lt;em&gt;Cansaço&lt;/em&gt; em Seattle&lt;/a&gt;, em 2006, quando a indústria cultural ainda não se tinha apoderado dela e, apesar de alguns defeitos de dicção, era uma boa cantadeira.

Por trás do espelho quem está?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Alguns leitores sugeriram-me que escrevesse com regularidade sobre temas de arte, e ainda não respondi porque não sei o que hei-de responder. Mas este comentário é suscitado pelo último comentário de Exílio, sobre a obra de arte como espelho do espectador ou, no caso de Proust, do leitor. Fiquei a pensar e surgiu-me na memória um poema de Luís de Macedo, <em>Cansaço</em>, que serviu depois para um dos mais belos fados, com música de Joaquim Campos.</p>
<p>Por trás do espelho quem está / De olhos fixados nos meus? / Alguém que passou por cá / E seguiu ao Deus dará / Deixando os olhos nos meus.<br />
Quem dorme na minha cama / E tenta sonhar meus sonhos? / Alguém morreu nesta cama / E lá de longe me chama / Misturada nos meus sonhos.<br />
Tudo o que faço ou não faço / Outros fizeram assim; / Daí este meu cansaço / De sentir que quanto faço / Não é feito só por mim.</p>
<p>Luís de Macedo chamava-se na verdade Luís Chaves de Oliveira (1901-1971) e foi adido cultural na Embaixada de Portugal em Paris. Mas para além de <em>Cansaço</em> e de outros três poemas usados em fados, talvez a sua principal contribuição para a história do fado seja o facto de em 1962 ter apresentado Alain Oulman, português apesar do nome, à insuperável Amália. As composições musicais de Alain Oulman e a sua colaboração com Amália deram ao fado um novo impulso e elevaram-no a patamares ainda mais altos. Há <a href="https://www.youtube.com/watch?v=j2LBV_tY3Wo" target="_blank" rel="noopener nofollow ugc">um vídeo emocionante</a> que mostra Amália a ensaiar com Alain Oulman um fado sobre um poema de Cecília Meireles. O mesmo ensaio está ainda <a href="https://www.youtube.com/watch?v=kRpa_dS95qs" target="_blank" rel="noopener nofollow ugc">noutro vídeo, um pouco mais longo</a>. Não consigo ver e ouvir este ensaio com olhos secos.</p>
<p>Mas, já que é de <em>Cansaço</em> que aqui se trata, ouçam-no, como não podia deixar de ser, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=ApowShtjilM" target="_blank" rel="noopener nofollow ugc">pela voz de Amália</a>.</p>
<p>Ana Moura tem também <a href="https://www.youtube.com/watch?v=eUQp-kyqg1w" target="_blank" rel="noopener nofollow ugc">uma bela interpretação do <em>Cansaço</em> em Seattle</a>, em 2006, quando a indústria cultural ainda não se tinha apoderado dela e, apesar de alguns defeitos de dicção, era uma boa cantadeira.</p>
<p>Por trás do espelho quem está?</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Exíllio		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/05/136572/#comment-757455</link>

		<dc:creator><![CDATA[Exíllio]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Jun 2021 13:05:47 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=136572#comment-757455</guid>

					<description><![CDATA[Saudações aos leitores e ao autor dessa série - que continua a reverberar em nossos sentidos e pensamentos.

Esse trecho de Marcel Proust converge brilhantemente em relação ao que foi apresentado em todos os artigos:

&quot;[...] eu pensava mais modestamente no meu livro, e seria inexato dizer que pensava nos que o leriam, em meus leitores. Porque, a meu ver, eles não seriam meus leitores, mas leitores de si mesmos, não sendo meu livro senão uma espécie de lente de aumento, daquelas que o oculista de Combray propunha a um comprador; o meu livro, graças ao qual eu lhes forneceria uma maneira de lerem-se a si mesmos&quot;(Marcel Proust).]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Saudações aos leitores e ao autor dessa série &#8211; que continua a reverberar em nossos sentidos e pensamentos.</p>
<p>Esse trecho de Marcel Proust converge brilhantemente em relação ao que foi apresentado em todos os artigos:</p>
<p>&#8220;[&#8230;] eu pensava mais modestamente no meu livro, e seria inexato dizer que pensava nos que o leriam, em meus leitores. Porque, a meu ver, eles não seriam meus leitores, mas leitores de si mesmos, não sendo meu livro senão uma espécie de lente de aumento, daquelas que o oculista de Combray propunha a um comprador; o meu livro, graças ao qual eu lhes forneceria uma maneira de lerem-se a si mesmos&#8221;(Marcel Proust).</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Eduardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/05/136572/#comment-751629</link>

		<dc:creator><![CDATA[Eduardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Jun 2021 00:39:06 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=136572#comment-751629</guid>

					<description><![CDATA[Aprendizado inestimável nesta série de textos.
De carona na ousadia do Exillio, seria extremamente prazeroso poder ler uma pequena coluna de arte/estética do João Bernardo por  mais vezes neste sítio eletrônico.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aprendizado inestimável nesta série de textos.<br />
De carona na ousadia do Exillio, seria extremamente prazeroso poder ler uma pequena coluna de arte/estética do João Bernardo por  mais vezes neste sítio eletrônico.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Exillio		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/05/136572/#comment-744875</link>

		<dc:creator><![CDATA[Exillio]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 15 May 2021 20:04:49 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=136572#comment-744875</guid>

					<description><![CDATA[O que fazer diante desse parágrafo?

&quot;E, na música, foi o jazz que primeiro se adiantou e muito do que hoje se faz nas experiências de vanguarda no limiar da tradição erudita, do jazz e de algum rock constrói igualmente os alicerces de uma nova high art. Alicerces? Talvez só as escavações, porque praticamente tudo está por edificar&quot;.

Vontade de conhecer a partir de alguns exemplos quais são essas experiências. Do que conheço - e posso estar errado - o Radiohead, mesmo com toda a indústria cultural do entorno, apresenta construções harmônicas e ruídos que desafiam a escuta em direção a novos horizontes. Devem existir outros tantos exemplares no rock e jazz.

A série, é claro, tinha que acabar uma hora. Fica a nostalgia de aguardar toda semana um novo artigo para tentar aprender a ver e ouvir mais a partir da estética.

A vontade de ler, ver e ouvir mais sobre arte é tão forte que, peço desculpas pela ousadia, fica aqui a sugestão: e se autor escrevesse, com uma certa periodicidade (semanal, quinzenal), uma pequena coluna de arte/estética só com exemplos (imagens, músicas) e algumas considerações que estivesse com vontade de compartilhar? 

É tanto aprendizado que, de verdade, um exemplo e um dois parágrafos já mudariam totalmente nosso modo de enxergar o mundo e tentar aprender com as rupturas estéticas.

No fim, o que fica é a obrigação de reler tudo, ver e escutar todos os exemplos aqui apresentados. Muito obrigado!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O que fazer diante desse parágrafo?</p>
<p>&#8220;E, na música, foi o jazz que primeiro se adiantou e muito do que hoje se faz nas experiências de vanguarda no limiar da tradição erudita, do jazz e de algum rock constrói igualmente os alicerces de uma nova high art. Alicerces? Talvez só as escavações, porque praticamente tudo está por edificar&#8221;.</p>
<p>Vontade de conhecer a partir de alguns exemplos quais são essas experiências. Do que conheço &#8211; e posso estar errado &#8211; o Radiohead, mesmo com toda a indústria cultural do entorno, apresenta construções harmônicas e ruídos que desafiam a escuta em direção a novos horizontes. Devem existir outros tantos exemplares no rock e jazz.</p>
<p>A série, é claro, tinha que acabar uma hora. Fica a nostalgia de aguardar toda semana um novo artigo para tentar aprender a ver e ouvir mais a partir da estética.</p>
<p>A vontade de ler, ver e ouvir mais sobre arte é tão forte que, peço desculpas pela ousadia, fica aqui a sugestão: e se autor escrevesse, com uma certa periodicidade (semanal, quinzenal), uma pequena coluna de arte/estética só com exemplos (imagens, músicas) e algumas considerações que estivesse com vontade de compartilhar? </p>
<p>É tanto aprendizado que, de verdade, um exemplo e um dois parágrafos já mudariam totalmente nosso modo de enxergar o mundo e tentar aprender com as rupturas estéticas.</p>
<p>No fim, o que fica é a obrigação de reler tudo, ver e escutar todos os exemplos aqui apresentados. Muito obrigado!</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/05/136572/#comment-743965</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 May 2021 11:16:36 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=136572#comment-743965</guid>

					<description><![CDATA[João,

Enquanto lia o teu comentário lembrei-me de um problema que me tem ocupado ao longo dos últimos anos, sem que consiga encontrar-lhe solução. Como se explica que os identitarismos tenham perante a arte e a ideologia o mesmo comportamento que caracterizou o stalinismo? E, no entanto, os pressupostos ideológicos de um e outros são inteiramente distintos. É como se a esquerda — aquilo a que se convenciona chamar &lt;em&gt;esquerda&lt;/em&gt; — tivesse a mesma reacção independentemente das ideias que defende. Dá-se com o martelinho no joelho e zás! Levanta a perna. Mas, neste caso, as ideias evocadas de pouco valeriam, seriam apenas o álibi de uma prática antecipadamente definida. Tu escreveste: «O curioso é que se os identitaristas/puritanos utilizam uma visão que se quer ausente de equívocos na leitura das obras de arte, o mesmo já não ocorre no que toca à ciência». Mas foi também o se passou com o stalinismo, que enquanto impunha o zhdanovismo na arte tentava impor na biologia as doutrinas de Lysenko. Ora, entre o lamarckismo de um e a homeopatia dos outros, o diabo que escolha. Tenho andado ao redor desse problema, mas para o resolver será necessário repensar desde início o significado da esquerda.

Seja como for, a razão por que os stalinistas e os identitários recusam a arte e a reduzem a cartilhas é que eles não procuram abrir a realidade nem desvendá-la, não lhes interessa formular problemas porque já detêm a resposta para todas as perguntas muito antes de as perguntas lhes serem formuladas. Não é só reduzirem a arte a um ensaio, é reduzirem o ensaio a uma profissão de fé.

Ora, a arte é o oposto dessa atitude. Eu escrevi há quase dez anos &lt;a href=&quot;https://passapalavra.info/2012/02/100277/&quot; rel=&quot;noopener&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;um curto ensaio sobre romance policial&lt;/a&gt;, em que comecei por opor o tipo de literatura policial onde a história é pré-definida, a que chamei romance de dedução, àquele que se concentra na construção de personagens, que denominei romance de acção, o &lt;em&gt;thriller&lt;/em&gt;. O que escrevi em &lt;em&gt;Arte e Espelho&lt;/em&gt; serve para explicar por que motivo prefiro o &lt;em&gt;thriller&lt;/em&gt;. Basta evocar o mais clássico dos romances do mais clássico dos autores de &lt;em&gt;thrillers&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;The Long Good-Bye&lt;/em&gt;, de Raymond Chandler, aquele romance com uma história descosida povoada de personagens com uma densidade pungente. Afinal, talvez o resumo de todo o &lt;em&gt;thriller&lt;/em&gt; seja o capítulo 13 de outro clássico de Chandler, &lt;em&gt;The Little Sister&lt;/em&gt;, ritmado pelo refrão «&lt;em&gt;You’re not human tonight, Marlowe&lt;/em&gt;».

O romance, enquanto arte, é uma construção de personagens, que depois agem por eles mesmos, para esclarecimento do autor e nosso. O problema é que quem já está esclarecido, os fanáticos de qualquer fé, não precisa de seguir personagens que o esclareçam.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João,</p>
<p>Enquanto lia o teu comentário lembrei-me de um problema que me tem ocupado ao longo dos últimos anos, sem que consiga encontrar-lhe solução. Como se explica que os identitarismos tenham perante a arte e a ideologia o mesmo comportamento que caracterizou o stalinismo? E, no entanto, os pressupostos ideológicos de um e outros são inteiramente distintos. É como se a esquerda — aquilo a que se convenciona chamar <em>esquerda</em> — tivesse a mesma reacção independentemente das ideias que defende. Dá-se com o martelinho no joelho e zás! Levanta a perna. Mas, neste caso, as ideias evocadas de pouco valeriam, seriam apenas o álibi de uma prática antecipadamente definida. Tu escreveste: «O curioso é que se os identitaristas/puritanos utilizam uma visão que se quer ausente de equívocos na leitura das obras de arte, o mesmo já não ocorre no que toca à ciência». Mas foi também o se passou com o stalinismo, que enquanto impunha o zhdanovismo na arte tentava impor na biologia as doutrinas de Lysenko. Ora, entre o lamarckismo de um e a homeopatia dos outros, o diabo que escolha. Tenho andado ao redor desse problema, mas para o resolver será necessário repensar desde início o significado da esquerda.</p>
<p>Seja como for, a razão por que os stalinistas e os identitários recusam a arte e a reduzem a cartilhas é que eles não procuram abrir a realidade nem desvendá-la, não lhes interessa formular problemas porque já detêm a resposta para todas as perguntas muito antes de as perguntas lhes serem formuladas. Não é só reduzirem a arte a um ensaio, é reduzirem o ensaio a uma profissão de fé.</p>
<p>Ora, a arte é o oposto dessa atitude. Eu escrevi há quase dez anos <a href="https://passapalavra.info/2012/02/100277/" rel="noopener" target="_blank">um curto ensaio sobre romance policial</a>, em que comecei por opor o tipo de literatura policial onde a história é pré-definida, a que chamei romance de dedução, àquele que se concentra na construção de personagens, que denominei romance de acção, o <em>thriller</em>. O que escrevi em <em>Arte e Espelho</em> serve para explicar por que motivo prefiro o <em>thriller</em>. Basta evocar o mais clássico dos romances do mais clássico dos autores de <em>thrillers</em>, <em>The Long Good-Bye</em>, de Raymond Chandler, aquele romance com uma história descosida povoada de personagens com uma densidade pungente. Afinal, talvez o resumo de todo o <em>thriller</em> seja o capítulo 13 de outro clássico de Chandler, <em>The Little Sister</em>, ritmado pelo refrão «<em>You’re not human tonight, Marlowe</em>».</p>
<p>O romance, enquanto arte, é uma construção de personagens, que depois agem por eles mesmos, para esclarecimento do autor e nosso. O problema é que quem já está esclarecido, os fanáticos de qualquer fé, não precisa de seguir personagens que o esclareçam.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Aguiar		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/05/136572/#comment-743674</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Aguiar]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 May 2021 16:52:16 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=136572#comment-743674</guid>

					<description><![CDATA[Esta série do João Bernardo é inestimável. 
Concordo plenamente com o João, quando a certa altura nesta série, diz algo parecido com o facto de que o importante nos romances não é a &quot;narrativa&quot; mas as personagens. E que um escritor (e um artista) é melhor quanto mais existe um afastamento entre a sua biografia pessoal e a existência autónoma da obra. De facto, para usar um breve exemplo que em Portugal teve bastante eco há umas semanas atrás, muitas das controvérsias que rodearam o suposto racismo na obra &quot;Os Maias&quot; de Eça de Queirós tem a ver com essa incompreensão entre o afastamento entre obra e autor. Aliás, para quem não conhece a situação, uma doutoranda da obra de Eça de Queirós defendeu que futuras edições da obra referida deveriam contemplar observações sobre a presença de racismo na obra. Ora, o que esta doutoranda e pesquisadora referiu prende-se com duas falas de uma personagem que homenageia o colonialismo. Ou seja, nem se trata aqui da autonomia entre obra e autor, mas um nível ainda mais elementar entre o autor e uma personagem (João da Ega), dentre uma galeria extensa delas. A leitura literal das obras é muito sintomática na literatura, dada a sua natureza ficcional/narrativa. Um outro caso que roça o ridículo encontra-se nos EUA, onde a obra &quot;As aventuras de Huckleberry Finn&quot; de Mark Twain chegou a ver-se alvo de desejos de proibições pelo uso da palavra &quot;nigger&quot; por parte de personagens... Por conseguinte, os identitarismos lêem as obras literárias como se de ensaios tratassem, como referiu o João Bernardo nesta série. 
Creio que, em parte, isto poderá ser explicado pelo facto de que os cultores dos identitarismos tendem a desenvolver o que há alguns anos se chamava de naturalismo. Como se os romances - ou as obras literárias e artísticas em geral - fossem uma cópia fiel da realidade social. Ou se se preferir, como se fosse a realidade social transcrita ipsis verbis por palavras, sons ou cores para um determinado objeto artístico. Ora, esta arquitetura mental é aplicada a praticamente toda a obra de arte, porque essa é a mentalidade ativista, ou dos que fazem do ativismo um estilo de vida. Por outras palavras, se só há uma verdade política e se só houver um caminho único para a emancipação, torna-se lógico para essa gente que todos os objetos existentes dependem de uma visão unívoca sobre as linguagens artísticas.

O curioso é que se os identitaristas/puritanos utilizam uma visão que se quer ausente de equívocos na leitura das obras de arte, o mesmo já não ocorre no que toca à ciência. Aí as vacinas, os &quot;químicos&quot;, o nuclear ou as mezinhas homeopáticas, etc. já implicam uma latitude de &quot;interpretações&quot;. Nesta área, as conspirações sobre a Big Pharma oculta, etc. adequam-se a uma postura anticientífica, em que as opiniões confundem-se com factos.
Em suma, no que há de mais aberto à interpretação humana (a arte), os identitaristas procuram fechar a obra a uma interpretação unívoca e puritana. No que diz respeito à área que mais lida com a objetividade (a ciência), o subjetivismo é total. Esta discrepância relaciona-se com uma vitória do irracionalismo. Mas não tenho qualquer esboço explicativo para isto. Limito-me aqui a um registo descritivo.

Para terminar. O facto de as (mais fecundas) obras de arte se construírem desligadas de a prioris políticos ou de intenções sociais do autor, não significa que elas não possam trazer méritos reflexivos para um leitor (e com isto não estou a querer dizer que as obras de arte tenham de ser reflexivas ou ter um significado apriorístico). Por exemplo, Balzac não escreveu a colossal Comédia Humana sob a égide de um objetivo político central e norteador que colocaria um ferrete sobre as palavras e as ações de cada personagem. Evidentemente, isso não impede que situações ou personagens iluminem (ou obscureçam) reflexões políticas ou sociais em cada leitor. Eu enquanto leitor posso desenvolver uma nova linha de pensamento sobre um assunto da atualidade a partir da leitura de um romance, do visionamento de um filme ou de um quadro. O que não devo fazer é achar que a minha interpretação - e o uso pessoal de um aspeto de uma obra - foi a do autor ou que a obra se resume a um detalhe. A abertura interpretativa de uma obra não nos deve levar a querer encontrar uma lógica social/sociológica inserida na obra (do qual o autor seria um mero joguete de um template todo poderoso), mas que a riqueza interpretativa e a complexidade de camadas de uma obra pode, nalguns momentos, iluminar a mente de um leitor e o levar a refletir sobre aspetos que, mesmo que partindo dessa leitura/interpretação, estão para além da obra. A obra pode, e não obrigatoriamente, levar-nos a refletir sobre aspetos da nossa vida (individual, da sociedade, da História, etc.). Isso não quer dizer que ela reflita ipsis verbis uma qualquer arquitetura social/sociológica prévia. A diferença pode parecer subtil, mas é um aspeto diferenciador relativamente às leituras estritas das obras de arte.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Esta série do João Bernardo é inestimável.<br />
Concordo plenamente com o João, quando a certa altura nesta série, diz algo parecido com o facto de que o importante nos romances não é a &#8220;narrativa&#8221; mas as personagens. E que um escritor (e um artista) é melhor quanto mais existe um afastamento entre a sua biografia pessoal e a existência autónoma da obra. De facto, para usar um breve exemplo que em Portugal teve bastante eco há umas semanas atrás, muitas das controvérsias que rodearam o suposto racismo na obra &#8220;Os Maias&#8221; de Eça de Queirós tem a ver com essa incompreensão entre o afastamento entre obra e autor. Aliás, para quem não conhece a situação, uma doutoranda da obra de Eça de Queirós defendeu que futuras edições da obra referida deveriam contemplar observações sobre a presença de racismo na obra. Ora, o que esta doutoranda e pesquisadora referiu prende-se com duas falas de uma personagem que homenageia o colonialismo. Ou seja, nem se trata aqui da autonomia entre obra e autor, mas um nível ainda mais elementar entre o autor e uma personagem (João da Ega), dentre uma galeria extensa delas. A leitura literal das obras é muito sintomática na literatura, dada a sua natureza ficcional/narrativa. Um outro caso que roça o ridículo encontra-se nos EUA, onde a obra &#8220;As aventuras de Huckleberry Finn&#8221; de Mark Twain chegou a ver-se alvo de desejos de proibições pelo uso da palavra &#8220;nigger&#8221; por parte de personagens&#8230; Por conseguinte, os identitarismos lêem as obras literárias como se de ensaios tratassem, como referiu o João Bernardo nesta série.<br />
Creio que, em parte, isto poderá ser explicado pelo facto de que os cultores dos identitarismos tendem a desenvolver o que há alguns anos se chamava de naturalismo. Como se os romances &#8211; ou as obras literárias e artísticas em geral &#8211; fossem uma cópia fiel da realidade social. Ou se se preferir, como se fosse a realidade social transcrita ipsis verbis por palavras, sons ou cores para um determinado objeto artístico. Ora, esta arquitetura mental é aplicada a praticamente toda a obra de arte, porque essa é a mentalidade ativista, ou dos que fazem do ativismo um estilo de vida. Por outras palavras, se só há uma verdade política e se só houver um caminho único para a emancipação, torna-se lógico para essa gente que todos os objetos existentes dependem de uma visão unívoca sobre as linguagens artísticas.</p>
<p>O curioso é que se os identitaristas/puritanos utilizam uma visão que se quer ausente de equívocos na leitura das obras de arte, o mesmo já não ocorre no que toca à ciência. Aí as vacinas, os &#8220;químicos&#8221;, o nuclear ou as mezinhas homeopáticas, etc. já implicam uma latitude de &#8220;interpretações&#8221;. Nesta área, as conspirações sobre a Big Pharma oculta, etc. adequam-se a uma postura anticientífica, em que as opiniões confundem-se com factos.<br />
Em suma, no que há de mais aberto à interpretação humana (a arte), os identitaristas procuram fechar a obra a uma interpretação unívoca e puritana. No que diz respeito à área que mais lida com a objetividade (a ciência), o subjetivismo é total. Esta discrepância relaciona-se com uma vitória do irracionalismo. Mas não tenho qualquer esboço explicativo para isto. Limito-me aqui a um registo descritivo.</p>
<p>Para terminar. O facto de as (mais fecundas) obras de arte se construírem desligadas de a prioris políticos ou de intenções sociais do autor, não significa que elas não possam trazer méritos reflexivos para um leitor (e com isto não estou a querer dizer que as obras de arte tenham de ser reflexivas ou ter um significado apriorístico). Por exemplo, Balzac não escreveu a colossal Comédia Humana sob a égide de um objetivo político central e norteador que colocaria um ferrete sobre as palavras e as ações de cada personagem. Evidentemente, isso não impede que situações ou personagens iluminem (ou obscureçam) reflexões políticas ou sociais em cada leitor. Eu enquanto leitor posso desenvolver uma nova linha de pensamento sobre um assunto da atualidade a partir da leitura de um romance, do visionamento de um filme ou de um quadro. O que não devo fazer é achar que a minha interpretação &#8211; e o uso pessoal de um aspeto de uma obra &#8211; foi a do autor ou que a obra se resume a um detalhe. A abertura interpretativa de uma obra não nos deve levar a querer encontrar uma lógica social/sociológica inserida na obra (do qual o autor seria um mero joguete de um template todo poderoso), mas que a riqueza interpretativa e a complexidade de camadas de uma obra pode, nalguns momentos, iluminar a mente de um leitor e o levar a refletir sobre aspetos que, mesmo que partindo dessa leitura/interpretação, estão para além da obra. A obra pode, e não obrigatoriamente, levar-nos a refletir sobre aspetos da nossa vida (individual, da sociedade, da História, etc.). Isso não quer dizer que ela reflita ipsis verbis uma qualquer arquitetura social/sociológica prévia. A diferença pode parecer subtil, mas é um aspeto diferenciador relativamente às leituras estritas das obras de arte.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Bruno AP		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/05/136572/#comment-743337</link>

		<dc:creator><![CDATA[Bruno AP]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 May 2021 02:25:24 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=136572#comment-743337</guid>

					<description><![CDATA[Como eu havia dito num comentário em outro texto, acompanhar esse ensaio-série foi a atividade mais prazerosa das últimas semanas. Ler, ver e ouvir as obras citadas, buscar referências dos artistas e correntes, tentar estabelecer conexões. Em suma, aprender a Ver e Ouvir, como quem busca novas perguntas e respostas.
Uma vez, ao ler algum texto antigo do Passa Palavra, deparei-me com um comentário em que o João Bernardo citava Rui Mário Gonçalves, crítico e historiador de arte português que acabara de falecer, que dissera: 
&quot;A arte é geralmente a primeira reveladora das transformações que a humanidade deseja. Não é a política. A boa política é aquela que serve os verdadeiros anseios da Humanidade, e esses verdadeiros anseios são expressos na melhor arte&quot;. 
Essa colocação causou-me uma impressão muito forte, e desde então reflito sobre ela. Associo-a a uma outra frase, esta já bastante célebre, de Paul Klee: &quot;A arte não reproduz o visível, ela torna visível.&quot; Neste momento de profunda derrota da classe trabalhadora e da extrema-esquerda, espero que a arte ajude a tornar visível, ou possa primeiro revelar, caminhos possíveis.
Por outro lado, refletindo sobre o fascismo ser a estetização da política, sinto um arrepio ao lembrar-me das coisas de que participei nos movimentos estudantil e social. Os identitarismos aprofundaram, mas não inventaram nada, as &quot;místicas&quot; já estavam lá. Já no movimento sindical, tudo é vocacionado ao passado e a estética não foge à regra.
Enfim, agradeço ao João Bernardo pelas lições inestimáveis. Minha relação com a arte é outra desde que passei a acompanhar o Passa Palavra. 
P.S.: o álbum compartilhado por Élie é fantástico mesmo! E eu nada conhecia sobre música eletrônica experimental antes de perguntar sobre Luigi Russolo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como eu havia dito num comentário em outro texto, acompanhar esse ensaio-série foi a atividade mais prazerosa das últimas semanas. Ler, ver e ouvir as obras citadas, buscar referências dos artistas e correntes, tentar estabelecer conexões. Em suma, aprender a Ver e Ouvir, como quem busca novas perguntas e respostas.<br />
Uma vez, ao ler algum texto antigo do Passa Palavra, deparei-me com um comentário em que o João Bernardo citava Rui Mário Gonçalves, crítico e historiador de arte português que acabara de falecer, que dissera:<br />
&#8220;A arte é geralmente a primeira reveladora das transformações que a humanidade deseja. Não é a política. A boa política é aquela que serve os verdadeiros anseios da Humanidade, e esses verdadeiros anseios são expressos na melhor arte&#8221;.<br />
Essa colocação causou-me uma impressão muito forte, e desde então reflito sobre ela. Associo-a a uma outra frase, esta já bastante célebre, de Paul Klee: &#8220;A arte não reproduz o visível, ela torna visível.&#8221; Neste momento de profunda derrota da classe trabalhadora e da extrema-esquerda, espero que a arte ajude a tornar visível, ou possa primeiro revelar, caminhos possíveis.<br />
Por outro lado, refletindo sobre o fascismo ser a estetização da política, sinto um arrepio ao lembrar-me das coisas de que participei nos movimentos estudantil e social. Os identitarismos aprofundaram, mas não inventaram nada, as &#8220;místicas&#8221; já estavam lá. Já no movimento sindical, tudo é vocacionado ao passado e a estética não foge à regra.<br />
Enfim, agradeço ao João Bernardo pelas lições inestimáveis. Minha relação com a arte é outra desde que passei a acompanhar o Passa Palavra.<br />
P.S.: o álbum compartilhado por Élie é fantástico mesmo! E eu nada conhecia sobre música eletrônica experimental antes de perguntar sobre Luigi Russolo.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/05/136572/#comment-742499</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 May 2021 10:46:55 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=136572#comment-742499</guid>

					<description><![CDATA[José Luiz,
A sua observação não podia ser mais exacta. Quando pensei um título para este ensaio, decidi colocar em destaque a palavra &lt;em&gt;arte&lt;/em&gt;, porque sabia que assim só raros o iriam ler. Foi uma artimanha para evitar comentários estúpidos e inúteis. Como se diz em Portugal, remédio santo. Nunca publiquei no Passa Palavra um ensaio tão longo e em que, apesar disso, me deixassem em paz. Escrevi que fogem da arte como o diabo da cruz. Basta o nome para os assustar. Seria uma bela sociedade, a que essa gente quer construir...

António,
Disse, na penúltima parte deste ensaio, que a indústria cultural de massas é um dos mais poderosos instrumentos de formação daquela classe trabalhadora que existe hoje e sem a qual o capitalismo não poderia funcionar nem subsistir. E a indústria cultural tem de se alimentar, entre outras fontes, dos trabalhadores que espontaneamente produzem obras desde início inseridas nos cânones dessa indústria, tal como a economia capitalista se reforça com os novos-ricos surgidos do meio trabalhador e que, por isso, são usados para reforçar o mito de um capitalismo popular. E quando a esquerda recorre ao mesmo mito, aplicando-o à indústria cultural, então o círculo é vicioso, no sentido não metafórico, mas literal da palavra.

Élie,
Muito obrigado por partilhar essa obra. Com efeito, era a composições assim que eu me referia. E já que você mencionou Julie Mehretu, ela foi, para mim, uma descoberta quando Serralves lhe dedicou uma exposição em 2017. Mondrian estabeleceu o &lt;em&gt;nec plus ultra&lt;/em&gt; da pintura, e tanto mais difícil se tornou, depois dele, um pintor conseguir uma obra criativa. Julie Mehretu parece-me um dos raros casos. Note, porém, que se todas as obras perdem ao serem reproduzidas, no caso de Julie Mehretu a perda é enorme. Antes de mais, porque os seus quadros são muito grandes, e a redução desvirtua-os, e também porque ela pinta com técnicas mistas, o que pode escapar na reprodução.

Aos três,
Lendo os vossos comentários lembrei-me de uma história que, se a tivesse recordado antes, tê-la-ia incluído no ensaio. Malaparte contou, não me ocorre agora se em &lt;em&gt;Kaputt&lt;/em&gt; ou em &lt;em&gt;La Pelle&lt;/em&gt;, que durante a guerra, quando o marechal Rommel, com o seu exército, esteve em Itália, foi visitá-lo na casa que Malaparte fizera construir segundo os seus planos e que era uma notável obra de arquitectura, como se pode ver &lt;a href=&quot;https://duckduckgo.com/?t=ffab&#038;q=malaparte+house&#038;iax=images&#038;ia=images&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener nofollow ugc&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;. Extasiado, Rommel teria dito: «Que casa magnífica e que paisagem maravilhosa. É verdade que foi o senhor quem desenhou a casa?». E Malaparte teria respondido: «Não. A casa, comprei-a feita. Foi a paisagem que eu desenhei». Ignoro se o marechal entendeu a lição, mas foi essa a lição que pretendi transmitir neste ensaio. É que ver — ou ouvir — é uma arte que se aprende, e quando olhamos devemos, mentalmente, desenhar o que vemos. Um belo mar, como uma bela montanha ou uma bela rua, são algo que desenhamos sobre o que vemos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>José Luiz,<br />
A sua observação não podia ser mais exacta. Quando pensei um título para este ensaio, decidi colocar em destaque a palavra <em>arte</em>, porque sabia que assim só raros o iriam ler. Foi uma artimanha para evitar comentários estúpidos e inúteis. Como se diz em Portugal, remédio santo. Nunca publiquei no Passa Palavra um ensaio tão longo e em que, apesar disso, me deixassem em paz. Escrevi que fogem da arte como o diabo da cruz. Basta o nome para os assustar. Seria uma bela sociedade, a que essa gente quer construir&#8230;</p>
<p>António,<br />
Disse, na penúltima parte deste ensaio, que a indústria cultural de massas é um dos mais poderosos instrumentos de formação daquela classe trabalhadora que existe hoje e sem a qual o capitalismo não poderia funcionar nem subsistir. E a indústria cultural tem de se alimentar, entre outras fontes, dos trabalhadores que espontaneamente produzem obras desde início inseridas nos cânones dessa indústria, tal como a economia capitalista se reforça com os novos-ricos surgidos do meio trabalhador e que, por isso, são usados para reforçar o mito de um capitalismo popular. E quando a esquerda recorre ao mesmo mito, aplicando-o à indústria cultural, então o círculo é vicioso, no sentido não metafórico, mas literal da palavra.</p>
<p>Élie,<br />
Muito obrigado por partilhar essa obra. Com efeito, era a composições assim que eu me referia. E já que você mencionou Julie Mehretu, ela foi, para mim, uma descoberta quando Serralves lhe dedicou uma exposição em 2017. Mondrian estabeleceu o <em>nec plus ultra</em> da pintura, e tanto mais difícil se tornou, depois dele, um pintor conseguir uma obra criativa. Julie Mehretu parece-me um dos raros casos. Note, porém, que se todas as obras perdem ao serem reproduzidas, no caso de Julie Mehretu a perda é enorme. Antes de mais, porque os seus quadros são muito grandes, e a redução desvirtua-os, e também porque ela pinta com técnicas mistas, o que pode escapar na reprodução.</p>
<p>Aos três,<br />
Lendo os vossos comentários lembrei-me de uma história que, se a tivesse recordado antes, tê-la-ia incluído no ensaio. Malaparte contou, não me ocorre agora se em <em>Kaputt</em> ou em <em>La Pelle</em>, que durante a guerra, quando o marechal Rommel, com o seu exército, esteve em Itália, foi visitá-lo na casa que Malaparte fizera construir segundo os seus planos e que era uma notável obra de arquitectura, como se pode ver <a href="https://duckduckgo.com/?t=ffab&amp;q=malaparte+house&amp;iax=images&amp;ia=images" target="_blank" rel="noopener nofollow ugc">aqui</a>. Extasiado, Rommel teria dito: «Que casa magnífica e que paisagem maravilhosa. É verdade que foi o senhor quem desenhou a casa?». E Malaparte teria respondido: «Não. A casa, comprei-a feita. Foi a paisagem que eu desenhei». Ignoro se o marechal entendeu a lição, mas foi essa a lição que pretendi transmitir neste ensaio. É que ver — ou ouvir — é uma arte que se aprende, e quando olhamos devemos, mentalmente, desenhar o que vemos. Um belo mar, como uma bela montanha ou uma bela rua, são algo que desenhamos sobre o que vemos.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
	</channel>
</rss>
