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	Comentários sobre: Gestores ideológicos?	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/07/138643/#comment-760624</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 03 Jul 2021 11:05:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Primo Jonas,

Limito a minha resposta a duas questões

&lt;strong&gt;1)&lt;/strong&gt; Na sociedade europeia a mobilidade social ascendente é muito escassa, comparada com o que sucede na América Latina, nomeadamente no Brasil, um país que conheço bem porque foi o meu por adopção. Os sindicatos são uma das vias dessa mobilidade social ascendente, basta ver como foi formado o PT. Depois, os movimentos sociais somaram-se, ou em parte substituíram-se, aos sindicatos como canais de mobilidade social. Um dos artigos mais importantes que o Passa Palavra publicou, «&lt;a href=&quot;https://passapalavra.info/2010/08/27717/&quot; rel=&quot;noopener&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Entre o fogo e a panela&lt;/a&gt;», escrito há onze anos, foi um dos primeiros alertas para esse processo de burocratização dos movimentos sociais, com a consequente recuperação e assimilação pelo capitalismo. Uma nova etapa nessa conversão dos movimentos sociais em canais de ascensão social alcançou-se com a simbiose entre o MST, ou acessoriamente o MTST, e alguns departamentos de universidades públicas. A editora Lutas Anticapital é uma das mais recentes, e bem fornecidas, expressões desta simbiose. Este processo de mobilidade social ascendente, ou seja, de renovação das elites, é uma das condições da vitalidade do capitalismo, e todos os gestores — baixos, médios e altos também — promovidos por este processo integram-se claramente nos gestores clássicos, que utilizam a racionalidade económica.

Quanto à Argentina, o meu conhecimento resume-se ao que estudei sobre a modalidade peronista do fascismo, mas aí foi fundamental o papel dos sindicatos. Não conheço outra modalidade de fascismo em que os sindicatos tivessem desempenhado um papel tão importante, nem sequer nos primórdios do fascismo italiano.

Os sindicatos tiveram também uma importância muito considerável no México, e continuam a tê-la, mas aí, tal como noutros países da América de língua espanhola, uma das maiores, se não a maior via de mobilidade social ascendente é o tráfico, e nenhum governo se sustenta sem uma articulação com o tráfico. Ora, o tráfico só se distingue do resto do capitalismo por operar com uma mercadoria ilegal, como outrora os &lt;em&gt;bootleggers&lt;/em&gt; nos Estados Unidos.

Em todos estes casos, os sindicatos, os movimentos sociais e o tráfico geram gestores exclusivamente providos de uma racionalidade económica.

&lt;strong&gt;2)&lt;/strong&gt; Quanto à fusão entre o futebol e a política, ela não é exclusiva da Argentina, e na Europa o nome de que primeiro me lembro é o de Berlusconi, que aliás intitulou o seu partido com um grito das torcidas futebolísticas italianas. Em Portugal também o Futebol Clube do Porto está muito ligado aos meios políticos da região norte do país, e noutros lugares da Europa sucede o mesmo. Mas só por uma triste perversão da palavra é que se chama &lt;em&gt;desporto&lt;/em&gt; ao futebol. O futebol junta duas dimensões.

Primeiro, é uma colossal máquina económica, muito ligada à economia paralela através dos negócios de lavagem de dinheiro. Tudo ali obedece à racionalidade capitalista.

E, em segundo lugar, as torcidas são um dos mais férteis viveiros de milícias fascistas informais, em todos os países europeus que conheço, mas de maneira particularmente flagrante em Inglaterra.

Porém, ao futebol enquanto campo de articulação entre a política e o espectáculo de massas acrescentou-se nas últimas décadas outro campo, o das redes sociais. Sem elas não haveria Trump nem Bolsonaro, e aliás não existe hoje no mundo ocidental nenhum chefe político, ou mesmo subchefe, que não faça do Twitter o instrumento privilegiado na comunicação de massas. Ora, é precisamente este campo das redes sociais que serve de infra-estrutura aos gestores ideológicos. Em que medida se criará assim uma margem de contacto entre os dois tipos de gestores, só o futuro dirá.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Primo Jonas,</p>
<p>Limito a minha resposta a duas questões</p>
<p><strong>1)</strong> Na sociedade europeia a mobilidade social ascendente é muito escassa, comparada com o que sucede na América Latina, nomeadamente no Brasil, um país que conheço bem porque foi o meu por adopção. Os sindicatos são uma das vias dessa mobilidade social ascendente, basta ver como foi formado o PT. Depois, os movimentos sociais somaram-se, ou em parte substituíram-se, aos sindicatos como canais de mobilidade social. Um dos artigos mais importantes que o Passa Palavra publicou, «<a href="https://passapalavra.info/2010/08/27717/" rel="noopener" target="_blank">Entre o fogo e a panela</a>», escrito há onze anos, foi um dos primeiros alertas para esse processo de burocratização dos movimentos sociais, com a consequente recuperação e assimilação pelo capitalismo. Uma nova etapa nessa conversão dos movimentos sociais em canais de ascensão social alcançou-se com a simbiose entre o MST, ou acessoriamente o MTST, e alguns departamentos de universidades públicas. A editora Lutas Anticapital é uma das mais recentes, e bem fornecidas, expressões desta simbiose. Este processo de mobilidade social ascendente, ou seja, de renovação das elites, é uma das condições da vitalidade do capitalismo, e todos os gestores — baixos, médios e altos também — promovidos por este processo integram-se claramente nos gestores clássicos, que utilizam a racionalidade económica.</p>
<p>Quanto à Argentina, o meu conhecimento resume-se ao que estudei sobre a modalidade peronista do fascismo, mas aí foi fundamental o papel dos sindicatos. Não conheço outra modalidade de fascismo em que os sindicatos tivessem desempenhado um papel tão importante, nem sequer nos primórdios do fascismo italiano.</p>
<p>Os sindicatos tiveram também uma importância muito considerável no México, e continuam a tê-la, mas aí, tal como noutros países da América de língua espanhola, uma das maiores, se não a maior via de mobilidade social ascendente é o tráfico, e nenhum governo se sustenta sem uma articulação com o tráfico. Ora, o tráfico só se distingue do resto do capitalismo por operar com uma mercadoria ilegal, como outrora os <em>bootleggers</em> nos Estados Unidos.</p>
<p>Em todos estes casos, os sindicatos, os movimentos sociais e o tráfico geram gestores exclusivamente providos de uma racionalidade económica.</p>
<p><strong>2)</strong> Quanto à fusão entre o futebol e a política, ela não é exclusiva da Argentina, e na Europa o nome de que primeiro me lembro é o de Berlusconi, que aliás intitulou o seu partido com um grito das torcidas futebolísticas italianas. Em Portugal também o Futebol Clube do Porto está muito ligado aos meios políticos da região norte do país, e noutros lugares da Europa sucede o mesmo. Mas só por uma triste perversão da palavra é que se chama <em>desporto</em> ao futebol. O futebol junta duas dimensões.</p>
<p>Primeiro, é uma colossal máquina económica, muito ligada à economia paralela através dos negócios de lavagem de dinheiro. Tudo ali obedece à racionalidade capitalista.</p>
<p>E, em segundo lugar, as torcidas são um dos mais férteis viveiros de milícias fascistas informais, em todos os países europeus que conheço, mas de maneira particularmente flagrante em Inglaterra.</p>
<p>Porém, ao futebol enquanto campo de articulação entre a política e o espectáculo de massas acrescentou-se nas últimas décadas outro campo, o das redes sociais. Sem elas não haveria Trump nem Bolsonaro, e aliás não existe hoje no mundo ocidental nenhum chefe político, ou mesmo subchefe, que não faça do Twitter o instrumento privilegiado na comunicação de massas. Ora, é precisamente este campo das redes sociais que serve de infra-estrutura aos gestores ideológicos. Em que medida se criará assim uma margem de contacto entre os dois tipos de gestores, só o futuro dirá.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: arkx Brasil		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/07/138643/#comment-760623</link>

		<dc:creator><![CDATA[arkx Brasil]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 03 Jul 2021 10:44:02 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Crítica à crítica irracional do irracionalismo

O texto sofre de um mesmo equívoco sempre presente nos artigos do Passa Palavra, com sua origem no livro Labirintos do Fascismo.

Há um claro ponto fraco. 

Embora não comprometendo o brilhante, perspicaz e necessário conjunto da análise, sem superá-lo não se fecha a compreensão das formas do fascismo contemporâno.

Se no campo estritamente político (da Ideologia e sua expressão no âmbito da arte e cultura) a abordagem e as conclusões são perfeitas, na esfera econômica nem tanto.

Como ele mesmo deixou claro, Marx não era marxista. E nem poderia ser, ao se considerar os marxistas de sua época. Isto para não citar os atuais. 

Marx notara que muitas leituras de sua teoria se cristalizavam num dogma. 

Por exemplo: &quot;Ora, o comunismo, tal como Marx o entendeu e nós o entendemos, tem como condição o acúmulo de conquistas feitas no capitalismo.&quot;

Em carta à redação de uma publicação russa da época, Marx esclarece que sua análise se baseava em circunstâncias sociais e históricas bem específicas, não sendo uma regra geral o socialismo surgir de sociedades industriais avançadas:

《... o meu crítico quer absolutamente transformar o meu esboço histórico da génese do capitalismo na Europa ocidental numa teoria histórico-filosófica da marcha geral – fatalmente imposta a todos os povos, quaisquer que sejam as circunstâncias históricas em que se encontrem – para chegar em último lugar a essa formação económica que garante, com a maior impulsão dos poderes produtivos do trabalho social, o desenvolvimento mais integral do homem.》

O dogma é um tipo de irracionalismo. Só o dogmatismo explica uma apologia da mais-valia relativa como parâmetro da luta política emancipatória. 

A mais-valia relativa é tributária da mais-valia absoluta na periferia do sistema. 

Assim como não haveria revolução industrial na Inglaterra, sem a acumulação primitiva promovida através do saque colonial.

Além disto, a mais-valia relativa, portanto a produtividade, é o cerne das contradições irracionais do modo de produção Capitalista. 

Por deprimir a taxa de lucro por unidade produzida, com a consequente crise de superprodução, que apenas é superada por maciça destruição de forças produtivas. 

Dito de outra forma: através da  mais-valia relativa as forças produtivas são desenvolvidas apenas para serem destruídas,  sob gigantesco custo social através de guerras e genocído.

Historicamente esta é a cadela econômica parindo os vários tipos de fascismo. 

Para compreender a gênese e metamorfose do fascismo atual, a contribuição do Passa Palavra, e em especial de João Bernardo, tem sido fundamentais.

Nesses últimos dias circula na web um vídeo da cerimônia oficial de comemoração dos 100 anos do PC da China, encerrada com “A Internacional”, na Praça Tiananmen em Beijing.

Do que se trata, senão de uma cerimônia fascista?

A industrialização da China foi resultado das contradições do Capitalismo em processo de globalização. 

Pelo irracionalismo da mais-valia absoluta extorquida ao trabalhador chinês, gestores racionais do Capitalismo tentaram superar a crise de produtividade no centro do eistema.

Mas não há planejamento racional viável na gestão do Capitalismo, apenas contenção de danos - por assim dizer. 

O neoliberalismo parece ser a última etapa do Capitalismo. O nazi-fascismo foi um anúncio desse esgotamento do Capitalismo.

Sendo o atual modelo chinês parte do desenvolvimento de um novo modo de produção, cujo ensaio inicial se deu na URSS stalinista.

Este novo regime unirá em si o aspecto mais desumano do Capitalismo neoliberal com o mais atroz do Capitalismo de Estado, combinando a extrema alienação das relações entre os homens com um controle social sem precedentes.

Será o fascismo do século XXI.

Sem nos libertarmos de todo tipo de dogmatismo, não chegaremos a compreendê-lo, quanto mais estabelecer alternativas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Crítica à crítica irracional do irracionalismo</p>
<p>O texto sofre de um mesmo equívoco sempre presente nos artigos do Passa Palavra, com sua origem no livro Labirintos do Fascismo.</p>
<p>Há um claro ponto fraco. </p>
<p>Embora não comprometendo o brilhante, perspicaz e necessário conjunto da análise, sem superá-lo não se fecha a compreensão das formas do fascismo contemporâno.</p>
<p>Se no campo estritamente político (da Ideologia e sua expressão no âmbito da arte e cultura) a abordagem e as conclusões são perfeitas, na esfera econômica nem tanto.</p>
<p>Como ele mesmo deixou claro, Marx não era marxista. E nem poderia ser, ao se considerar os marxistas de sua época. Isto para não citar os atuais. </p>
<p>Marx notara que muitas leituras de sua teoria se cristalizavam num dogma. </p>
<p>Por exemplo: &#8220;Ora, o comunismo, tal como Marx o entendeu e nós o entendemos, tem como condição o acúmulo de conquistas feitas no capitalismo.&#8221;</p>
<p>Em carta à redação de uma publicação russa da época, Marx esclarece que sua análise se baseava em circunstâncias sociais e históricas bem específicas, não sendo uma regra geral o socialismo surgir de sociedades industriais avançadas:</p>
<p>《&#8230; o meu crítico quer absolutamente transformar o meu esboço histórico da génese do capitalismo na Europa ocidental numa teoria histórico-filosófica da marcha geral – fatalmente imposta a todos os povos, quaisquer que sejam as circunstâncias históricas em que se encontrem – para chegar em último lugar a essa formação económica que garante, com a maior impulsão dos poderes produtivos do trabalho social, o desenvolvimento mais integral do homem.》</p>
<p>O dogma é um tipo de irracionalismo. Só o dogmatismo explica uma apologia da mais-valia relativa como parâmetro da luta política emancipatória. </p>
<p>A mais-valia relativa é tributária da mais-valia absoluta na periferia do sistema. </p>
<p>Assim como não haveria revolução industrial na Inglaterra, sem a acumulação primitiva promovida através do saque colonial.</p>
<p>Além disto, a mais-valia relativa, portanto a produtividade, é o cerne das contradições irracionais do modo de produção Capitalista. </p>
<p>Por deprimir a taxa de lucro por unidade produzida, com a consequente crise de superprodução, que apenas é superada por maciça destruição de forças produtivas. </p>
<p>Dito de outra forma: através da  mais-valia relativa as forças produtivas são desenvolvidas apenas para serem destruídas,  sob gigantesco custo social através de guerras e genocído.</p>
<p>Historicamente esta é a cadela econômica parindo os vários tipos de fascismo. </p>
<p>Para compreender a gênese e metamorfose do fascismo atual, a contribuição do Passa Palavra, e em especial de João Bernardo, tem sido fundamentais.</p>
<p>Nesses últimos dias circula na web um vídeo da cerimônia oficial de comemoração dos 100 anos do PC da China, encerrada com “A Internacional”, na Praça Tiananmen em Beijing.</p>
<p>Do que se trata, senão de uma cerimônia fascista?</p>
<p>A industrialização da China foi resultado das contradições do Capitalismo em processo de globalização. </p>
<p>Pelo irracionalismo da mais-valia absoluta extorquida ao trabalhador chinês, gestores racionais do Capitalismo tentaram superar a crise de produtividade no centro do eistema.</p>
<p>Mas não há planejamento racional viável na gestão do Capitalismo, apenas contenção de danos &#8211; por assim dizer. </p>
<p>O neoliberalismo parece ser a última etapa do Capitalismo. O nazi-fascismo foi um anúncio desse esgotamento do Capitalismo.</p>
<p>Sendo o atual modelo chinês parte do desenvolvimento de um novo modo de produção, cujo ensaio inicial se deu na URSS stalinista.</p>
<p>Este novo regime unirá em si o aspecto mais desumano do Capitalismo neoliberal com o mais atroz do Capitalismo de Estado, combinando a extrema alienação das relações entre os homens com um controle social sem precedentes.</p>
<p>Será o fascismo do século XXI.</p>
<p>Sem nos libertarmos de todo tipo de dogmatismo, não chegaremos a compreendê-lo, quanto mais estabelecer alternativas.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Primo Jonas		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/07/138643/#comment-760608</link>

		<dc:creator><![CDATA[Primo Jonas]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 03 Jul 2021 03:29:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Durante os anos em que estudei a Grécia antiga me interessei muito pelos primeiros usos da escritura por estas sociedades. O que levava aos integrantes da elite a exibir seus nomes próprios em tumbas e estátuas dedicadas aos deuses? Minha conclusão é que a escritura pública foi utilizada como ferramenta de disputa política, em um contexto de divisão &quot;vertical&quot; da sociedade, entre facções compostas por familias poderosas e sua base clientelar. De fato, desde o fim do período micênico os grupos humanos da península parecem ter sofrido uma forte regressão demográfica e técnica (perdeu-se a escritura Lineal B, entre outras coisas). Neste ambiente, o modelo socio-econômico que me pareceu mais adequado para entender estas comunidades, do chamado período arcaico, foi o dos big men, desenvolvida por Sahlins. 
Existem dois aspectos interesantes deste modelo. Primeiro que a disputa pela função de líder, de big man, se dá especialmente no campo da performance: habilidades atléticas, militares, sabedoria, oratória, etc. Como se tratam de comunidades pequenas, a posição de liderança tem uma mediação muito direta com a base social, e a confiança desta deve ser conquistada de forma recorrente. Em segundo lugar, este modelo é adequado para economias pouco produtivas, onde não há grandes excedentes a serem coordenados ou centralizados. O big man tem também como função certa direção de uma economia de baixa produtividade, o que essencialmente quer dizer uma negociação constate com os produtores para, por exemplo, convencê-los à retardar o consumo de bens para enfrentar tempos de escassez, coordenar as trocas com outras comunidades, integrar as pequenas unidades produtivas familiares, sob o risco de ser alvo da ira de sua base social.
O contraste é claro no caso da península grega, onde ocorreu a passagem surpreendente de uma economia de &quot;palácios&quot;, que utilizava o Lineal B para controlar a centralização econômica exercida pela cidades, exuberantes, para uma economia de pequenas comunidades de produtores rurais pouco integrados.

Faço este comentário sobre o mundo antigo, na linha do que o João Bernardo mencionava em seu texto, também porque ao ler a série do João Aguiar não pude deixar de pensar em certas bases materiais e comunitárias de um setor que aqui na América Latina foi sendo integrado às camadas baixas gestoriais. São as lideranças de movimentos sociais, lideranças comunitárias, etc. E estes setores sociais, relegados à baixa produtividade capitalista, apresentam também uma mistura muito forte entre economia e política, de forma que a racionalidade gestorial &quot;clássica&quot; não pode funcionar sem turbulências. Para dar um exemplo argentino, basta pensar na relação entre o futebol e a política: Mauricio Macri é ex-presidente do país e do clube Boca Juniors. Hugo Moyano, a figura maior do sindicalismo argentino, é presidente do clube Independiente, e seu sindicato, Camioneros, tem também seu próprio clube de futebol profissional. É como se a política jogasse um papel mais forte na economia do que em outros países com governos formados pelos gestores capitalistas racionais. 

Estas observações me levam a coincidir com a hipótese, ou tese, a respeito do papel desempenhado por &quot;gestores ideológicos&quot; num contexto de baixa produtividade econômica. E se a democracia formal, as campanhas e os períodos de eleições, era o espaço da performance que permitia às massas dirimir as diferenças entre as facções capitalistas no século passado e no começo deste, talvez a internet seja de fato o cenário onde esta disputa esteja hoje realmente ocorrendo e quem sabe em pouco tempo não termina de substituir completamente os mecanismos da democracia que hoje conhecemos. 

Minha pergunta para ambos Joãos, é a respeito desta integração de lideranças populares, comunitárias, etc, nas camadas gestoriais no contexto europeu. Aqui na América Latina é um processo que na história recente esteve muito vinculado com a esquerda, e às organizações políticas que foram tentar formar quadros (ou cooptá-los) nestes setores da baixa produtividade (ou mais-valia absoluta), e portanto estas camadas gestoriais costumam estar mais próximas do chamado &quot;progressismo&quot; e das políticas intervencionistas do Estado na economia. Não é difícil ver que na Europa as coisas são diferentes, mas não consigo vislumbrar se há um processo análogo, talvez com outro signo ideológico, de ascensão social.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Durante os anos em que estudei a Grécia antiga me interessei muito pelos primeiros usos da escritura por estas sociedades. O que levava aos integrantes da elite a exibir seus nomes próprios em tumbas e estátuas dedicadas aos deuses? Minha conclusão é que a escritura pública foi utilizada como ferramenta de disputa política, em um contexto de divisão &#8220;vertical&#8221; da sociedade, entre facções compostas por familias poderosas e sua base clientelar. De fato, desde o fim do período micênico os grupos humanos da península parecem ter sofrido uma forte regressão demográfica e técnica (perdeu-se a escritura Lineal B, entre outras coisas). Neste ambiente, o modelo socio-econômico que me pareceu mais adequado para entender estas comunidades, do chamado período arcaico, foi o dos big men, desenvolvida por Sahlins.<br />
Existem dois aspectos interesantes deste modelo. Primeiro que a disputa pela função de líder, de big man, se dá especialmente no campo da performance: habilidades atléticas, militares, sabedoria, oratória, etc. Como se tratam de comunidades pequenas, a posição de liderança tem uma mediação muito direta com a base social, e a confiança desta deve ser conquistada de forma recorrente. Em segundo lugar, este modelo é adequado para economias pouco produtivas, onde não há grandes excedentes a serem coordenados ou centralizados. O big man tem também como função certa direção de uma economia de baixa produtividade, o que essencialmente quer dizer uma negociação constate com os produtores para, por exemplo, convencê-los à retardar o consumo de bens para enfrentar tempos de escassez, coordenar as trocas com outras comunidades, integrar as pequenas unidades produtivas familiares, sob o risco de ser alvo da ira de sua base social.<br />
O contraste é claro no caso da península grega, onde ocorreu a passagem surpreendente de uma economia de &#8220;palácios&#8221;, que utilizava o Lineal B para controlar a centralização econômica exercida pela cidades, exuberantes, para uma economia de pequenas comunidades de produtores rurais pouco integrados.</p>
<p>Faço este comentário sobre o mundo antigo, na linha do que o João Bernardo mencionava em seu texto, também porque ao ler a série do João Aguiar não pude deixar de pensar em certas bases materiais e comunitárias de um setor que aqui na América Latina foi sendo integrado às camadas baixas gestoriais. São as lideranças de movimentos sociais, lideranças comunitárias, etc. E estes setores sociais, relegados à baixa produtividade capitalista, apresentam também uma mistura muito forte entre economia e política, de forma que a racionalidade gestorial &#8220;clássica&#8221; não pode funcionar sem turbulências. Para dar um exemplo argentino, basta pensar na relação entre o futebol e a política: Mauricio Macri é ex-presidente do país e do clube Boca Juniors. Hugo Moyano, a figura maior do sindicalismo argentino, é presidente do clube Independiente, e seu sindicato, Camioneros, tem também seu próprio clube de futebol profissional. É como se a política jogasse um papel mais forte na economia do que em outros países com governos formados pelos gestores capitalistas racionais. </p>
<p>Estas observações me levam a coincidir com a hipótese, ou tese, a respeito do papel desempenhado por &#8220;gestores ideológicos&#8221; num contexto de baixa produtividade econômica. E se a democracia formal, as campanhas e os períodos de eleições, era o espaço da performance que permitia às massas dirimir as diferenças entre as facções capitalistas no século passado e no começo deste, talvez a internet seja de fato o cenário onde esta disputa esteja hoje realmente ocorrendo e quem sabe em pouco tempo não termina de substituir completamente os mecanismos da democracia que hoje conhecemos. </p>
<p>Minha pergunta para ambos Joãos, é a respeito desta integração de lideranças populares, comunitárias, etc, nas camadas gestoriais no contexto europeu. Aqui na América Latina é um processo que na história recente esteve muito vinculado com a esquerda, e às organizações políticas que foram tentar formar quadros (ou cooptá-los) nestes setores da baixa produtividade (ou mais-valia absoluta), e portanto estas camadas gestoriais costumam estar mais próximas do chamado &#8220;progressismo&#8221; e das políticas intervencionistas do Estado na economia. Não é difícil ver que na Europa as coisas são diferentes, mas não consigo vislumbrar se há um processo análogo, talvez com outro signo ideológico, de ascensão social.</p>
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