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	Comentários sobre: O futuro fugiu. 2	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: arkx-Brasil		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-1110485</link>

		<dc:creator><![CDATA[arkx-Brasil]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jun 2026 17:34:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[João Bernardo pergunta:
《 Será possível que o Estado obtenha os resultados da liberdade dos trabalhadores, sem a liberdade dos trabalhadores?》

A resposta passa pela aplicação de um inovador conceito cunhado pelo próprio João Bernardo: a classe dos Gestores. 

No prosseguimento do artigo fica exposta a dinâmica dos Gestores como classe dominante no Capitalismo &quot;com características chinesas&quot;, a partir do exemplo do Grupo Hodo.

Os altos executivos do grupo econômico também ocupam os cargos de direção no Partido, fazendo ambas hierarquias espelhar uma a outra.
João Bernardo pergunta:
《[...] a burocracia dominante poderá prescindir do totalitarismo político porque se confundirá com a oligarquia económica ou, pelo contrário, que pretenderá confirmar-se como oligarquia económica mediante a manipulação do totalitarismo político?》

A resposta passa pela compreensão de como na China a ilusória dicotomia entre os planos econômico e político jaz desmascarada.Os planos econômico e político nada mais se constituem além de formas tributárias da Democracia Liberal Representativa Burguesa. 

Na China os Gestores dominam simultaneamente as empresas e a instituição política. Os proprietários dos meios de produção já não são os burgueses. Mesmo quando o são formalmente, sempre pesa sobre eles o veredito final do politiburo tecno-burocrático.

E disto é emblemático o exemplo de como os Gestores lidaram com a bolha imobiliária chinesa. Encaminhei os dados em meu comentário anterior. 
https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-792774

João Bernardo encerra o artigo com uma indagação:
Poderiam os Gestores fugir de um futuro no qual geram um outro modo de produção? 

Uma indicação de resposta pode ser encontrada na sequência de expurgos recentes levada a cabo na China.

A classe dos Gestores na China se prepara para um conflito global, através do qual pretende se assumir como Hegemon. Estaria a Burguesia com sede nos EUA em vias de extinção? Ou sobreviverá como peça viva de museu, como as aristocracias européias?

Seja como for, o neoliberalismo parece ser a última etapa do Capitalismo.
Sendo o atual modelo chinês parte do desenvolvimento de um novo modo de produção,  cujo ensaio inicial foi a URSS stalinista. O nazi-fascismo foi um anúncio desse esgotamento do Capitalismo.

O novo regime unirá em si o aspecto mais desumano do Capitalismo neoliberal com o mais atroz do Capitalismo de Estado, combinando a extrema alienação das relações entre os homens com um controle social sem precedentes.

Será o fascismo do século XXI. Estamos condenados a esse futuro? 

Patrícia Quintino também pergunta: Qual a chave para emancipar o futuro? 

João Bernardo enseja uma resposta na parte 3 da série:
《 A nossa matéria-prima é o presente.》

Eu acrescento: a chave para o futuro é o presente. Ou, em outras palavras: como estar presente no presente. Ou ainda: como no presente ser um operador da chave para o futuro.

Afinal, do que se trata a presença? Talvez seja a habilidade e a sabedoria de compartilhar a fragilidade frente a contradição entre a absurda beleza da vida e o horror de horrores do mundo.

Só estamos genuinamente presentes no presente ao sermos capazes de nos engajarmos na co-criação de um outro futuro. 

Ou, nas palavras de João Bernardo:
Libertar o presente do jogo de espelhos entre  « uma longa memória do passado» e  uma 《longa antecipação do futuro». 

Ou, nas palavras de Patrícia Quintino: 
《 [A chave] Será forjada na prática – no corpo a corpo com quem ainda insiste em querer um amanhã que não seja o apocalipse ou o supermercado.》
E a IA? 

João Bernardo assinala:
 《 [...] a Inteligência Artificial é cada vez mais usada para impor um controle político.》

Seria a IA tão somente a versão atual da máquina a vapor dos primórdios do Capitalismo e da revolução industrial? Ou há alguma inovação histórica? 

Sobre a IA, o podcast &quot;A IA como plataforma de relação&quot;
https://www.youtube.com/watch?v=fbUHmL9H5Ow]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Bernardo pergunta:<br />
《 Será possível que o Estado obtenha os resultados da liberdade dos trabalhadores, sem a liberdade dos trabalhadores?》</p>
<p>A resposta passa pela aplicação de um inovador conceito cunhado pelo próprio João Bernardo: a classe dos Gestores. </p>
<p>No prosseguimento do artigo fica exposta a dinâmica dos Gestores como classe dominante no Capitalismo &#8220;com características chinesas&#8221;, a partir do exemplo do Grupo Hodo.</p>
<p>Os altos executivos do grupo econômico também ocupam os cargos de direção no Partido, fazendo ambas hierarquias espelhar uma a outra.<br />
João Bernardo pergunta:<br />
《[&#8230;] a burocracia dominante poderá prescindir do totalitarismo político porque se confundirá com a oligarquia económica ou, pelo contrário, que pretenderá confirmar-se como oligarquia económica mediante a manipulação do totalitarismo político?》</p>
<p>A resposta passa pela compreensão de como na China a ilusória dicotomia entre os planos econômico e político jaz desmascarada.Os planos econômico e político nada mais se constituem além de formas tributárias da Democracia Liberal Representativa Burguesa. </p>
<p>Na China os Gestores dominam simultaneamente as empresas e a instituição política. Os proprietários dos meios de produção já não são os burgueses. Mesmo quando o são formalmente, sempre pesa sobre eles o veredito final do politiburo tecno-burocrático.</p>
<p>E disto é emblemático o exemplo de como os Gestores lidaram com a bolha imobiliária chinesa. Encaminhei os dados em meu comentário anterior.<br />
<a href="https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-792774" rel="ugc">https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-792774</a></p>
<p>João Bernardo encerra o artigo com uma indagação:<br />
Poderiam os Gestores fugir de um futuro no qual geram um outro modo de produção? </p>
<p>Uma indicação de resposta pode ser encontrada na sequência de expurgos recentes levada a cabo na China.</p>
<p>A classe dos Gestores na China se prepara para um conflito global, através do qual pretende se assumir como Hegemon. Estaria a Burguesia com sede nos EUA em vias de extinção? Ou sobreviverá como peça viva de museu, como as aristocracias européias?</p>
<p>Seja como for, o neoliberalismo parece ser a última etapa do Capitalismo.<br />
Sendo o atual modelo chinês parte do desenvolvimento de um novo modo de produção,  cujo ensaio inicial foi a URSS stalinista. O nazi-fascismo foi um anúncio desse esgotamento do Capitalismo.</p>
<p>O novo regime unirá em si o aspecto mais desumano do Capitalismo neoliberal com o mais atroz do Capitalismo de Estado, combinando a extrema alienação das relações entre os homens com um controle social sem precedentes.</p>
<p>Será o fascismo do século XXI. Estamos condenados a esse futuro? </p>
<p>Patrícia Quintino também pergunta: Qual a chave para emancipar o futuro? </p>
<p>João Bernardo enseja uma resposta na parte 3 da série:<br />
《 A nossa matéria-prima é o presente.》</p>
<p>Eu acrescento: a chave para o futuro é o presente. Ou, em outras palavras: como estar presente no presente. Ou ainda: como no presente ser um operador da chave para o futuro.</p>
<p>Afinal, do que se trata a presença? Talvez seja a habilidade e a sabedoria de compartilhar a fragilidade frente a contradição entre a absurda beleza da vida e o horror de horrores do mundo.</p>
<p>Só estamos genuinamente presentes no presente ao sermos capazes de nos engajarmos na co-criação de um outro futuro. </p>
<p>Ou, nas palavras de João Bernardo:<br />
Libertar o presente do jogo de espelhos entre  « uma longa memória do passado» e  uma 《longa antecipação do futuro». </p>
<p>Ou, nas palavras de Patrícia Quintino:<br />
《 [A chave] Será forjada na prática – no corpo a corpo com quem ainda insiste em querer um amanhã que não seja o apocalipse ou o supermercado.》<br />
E a IA? </p>
<p>João Bernardo assinala:<br />
 《 [&#8230;] a Inteligência Artificial é cada vez mais usada para impor um controle político.》</p>
<p>Seria a IA tão somente a versão atual da máquina a vapor dos primórdios do Capitalismo e da revolução industrial? Ou há alguma inovação histórica? </p>
<p>Sobre a IA, o podcast &#8220;A IA como plataforma de relação&#8221;<br />
<a href="https://www.youtube.com/watch?v=fbUHmL9H5Ow" rel="nofollow ugc">https://www.youtube.com/watch?v=fbUHmL9H5Ow</a></p>
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		<title>
		Por: Patrícia Quintino		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-1110421</link>

		<dc:creator><![CDATA[Patrícia Quintino]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jun 2026 12:36:39 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=139867#comment-1110421</guid>

					<description><![CDATA[João Bernardo, 

Li a série &quot;O futuro fugiu&quot; com a atenção que ela merece. O diagnóstico é cirúrgico: o futuro não apenas adiou – ele evaporou. O que antes era um horizonte possível tornou-se uma parede. E você não se limita a constatar; tenta entender os mecanismos dessa fuga.

Mas a leitura deixa uma pergunta no ar – e é a ela que gostaria de chegar: Para onde foi preso o futuro?
Não &quot;para onde fugiu&quot;. Para onde foi confinado.

Porque um futuro que foge ainda pode ser perseguido. Um futuro preso – enjaulado, anestesiado, transformado em promessa de consumo ou em ameaça apocalíptica – esse não foge. Ele é mantido em cativeiro. E o cativeiro do futuro é mais cruel do que a sua ausência: porque ele ainda é usado como isca.

A série &quot;O futuro fugiu&quot; descreve muito bem o esgotamento das mediações tradicionais (partidos, sindicatos, revolução). Mas não pergunta, a fundo, quem se beneficia com esse esgotamento. Não é uma pergunta moral – é uma pergunta material.

Quem ganha com um futuro que não chega? 

O capital financeiro, que vive da expectativa – mas não precisa que a expectativa se realize. As plataformas digitais, que capturam a atenção e a transformam em dados – não em projeto. A indústria do medo (política, mídia, religião), que substitui a esperança pelo apocalipse e a luta pela sobrevivência.

O futuro, então, não fugiu. Foi enclausurado num presente que se alonga indefinidamente. Um presente onde a única saída anunciada é o pior – ou o ainda pior. E é nesse espaço claustrofóbico que o fascismo (de mercado, de Estado, de religião) prospera. Não porque as massas sejam fascistas, mas porque o fascismo é a única promessa de futuro que ainda circula – mesmo que esse futuro seja a aniquilação.

A sua série termina (ou não) com um impasse. Você nomeia a fuga, mas não aponta para o cativeiro. E sem apontar o cativeiro, a fuga continua sendo uma abstração.

Permita-me uma pergunta – não para encerrar o debate, mas para abrir uma pista:

Se o futuro foi preso, que tipo de chave estamos procurando? Uma chave institucional (partido, revolução)? Uma chave tecnológica (IA, automação)? Uma chave subjetiva (desejo, afeto)? Ou talvez uma chave que não seja uma chave – mas um gesto de recusa a aceitar o presente como única morada?

Não tenho a resposta. Mas acho que ela não será encontrada em manuais. Será forjada na prática – no corpo a corpo com quem ainda insiste em querer um amanhã que não seja o apocalipse ou o supermercado.

Patrícia Quintino]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Bernardo, </p>
<p>Li a série &#8220;O futuro fugiu&#8221; com a atenção que ela merece. O diagnóstico é cirúrgico: o futuro não apenas adiou – ele evaporou. O que antes era um horizonte possível tornou-se uma parede. E você não se limita a constatar; tenta entender os mecanismos dessa fuga.</p>
<p>Mas a leitura deixa uma pergunta no ar – e é a ela que gostaria de chegar: Para onde foi preso o futuro?<br />
Não &#8220;para onde fugiu&#8221;. Para onde foi confinado.</p>
<p>Porque um futuro que foge ainda pode ser perseguido. Um futuro preso – enjaulado, anestesiado, transformado em promessa de consumo ou em ameaça apocalíptica – esse não foge. Ele é mantido em cativeiro. E o cativeiro do futuro é mais cruel do que a sua ausência: porque ele ainda é usado como isca.</p>
<p>A série &#8220;O futuro fugiu&#8221; descreve muito bem o esgotamento das mediações tradicionais (partidos, sindicatos, revolução). Mas não pergunta, a fundo, quem se beneficia com esse esgotamento. Não é uma pergunta moral – é uma pergunta material.</p>
<p>Quem ganha com um futuro que não chega? </p>
<p>O capital financeiro, que vive da expectativa – mas não precisa que a expectativa se realize. As plataformas digitais, que capturam a atenção e a transformam em dados – não em projeto. A indústria do medo (política, mídia, religião), que substitui a esperança pelo apocalipse e a luta pela sobrevivência.</p>
<p>O futuro, então, não fugiu. Foi enclausurado num presente que se alonga indefinidamente. Um presente onde a única saída anunciada é o pior – ou o ainda pior. E é nesse espaço claustrofóbico que o fascismo (de mercado, de Estado, de religião) prospera. Não porque as massas sejam fascistas, mas porque o fascismo é a única promessa de futuro que ainda circula – mesmo que esse futuro seja a aniquilação.</p>
<p>A sua série termina (ou não) com um impasse. Você nomeia a fuga, mas não aponta para o cativeiro. E sem apontar o cativeiro, a fuga continua sendo uma abstração.</p>
<p>Permita-me uma pergunta – não para encerrar o debate, mas para abrir uma pista:</p>
<p>Se o futuro foi preso, que tipo de chave estamos procurando? Uma chave institucional (partido, revolução)? Uma chave tecnológica (IA, automação)? Uma chave subjetiva (desejo, afeto)? Ou talvez uma chave que não seja uma chave – mas um gesto de recusa a aceitar o presente como única morada?</p>
<p>Não tenho a resposta. Mas acho que ela não será encontrada em manuais. Será forjada na prática – no corpo a corpo com quem ainda insiste em querer um amanhã que não seja o apocalipse ou o supermercado.</p>
<p>Patrícia Quintino</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Pablo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-1110348</link>

		<dc:creator><![CDATA[Pablo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jun 2026 01:31:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Acho que boa parte do paradoxo se dissolve quando questionamos duas premissas escondidas na própria pergunta de Breno, e aceitamos que a parte mais importante da resposta de João é justamente a que ele deixa pro fim: a convergência entre IA e controle político.
As premissas:
A) que a China é &quot;comunista&quot; no sentido soviético. É a premissa que torna o caso paradoxal. Branko Milanović, em &quot;Capitalism, Alone&quot; (2019), propõe o conceito de political capitalism pra descrever o caso chinês: um capitalismo com burocracia tecnocrática eficiente, autonomia do Estado e ausência de Estado de Direito (a lei aplicada de modo discricionário). Sob essa lente, não há paradoxo algum: uma economia capitalista inova porque a concorrência e a acumulação a empurram, qualquer que seja a casca política. O ponto é tão mais forte quanto se lembra que o próprio João Bernardo, com sua teoria dos gestores e a leitura da URSS como capitalismo de Estado, já dispõe de um aparato que pode ser usado para resolver o enigma de modo mais direto do que o caminho que ele escolheu na resposta acima, de uma analogia com o fascismo, afinal, se a URSS nunca foi &quot;comunismo&quot; e se a China é uma forma de dominação gestorial-capitalista, então a inovação não precisa de explicação especial, pois é o que o capitalismo faz.

b) que a inovação exige livre iniciativa, e que o Estado é avesso a isso. Essa é uma tese clássica que, por exemplo, Daron Acemoglu e James Robinson em &quot;Why Nations Fail&quot; (2012), usam pra opor instituições &quot;inclusivas&quot; (que liberam a inovação) a &quot;extrativas&quot; (que a sufocam). Com base nessa premissa esses autores previram repetidamente a estagnação chinesa (não atoa quase ngm conhece o livro hj em dia). Por outro lado, Mariana Mazzucato, em &quot;The Entrepreneurial State&quot;, mostrou que mesmo no Ocidente as inovações &quot;fundacionais&quot; (internet, GPS, tela sensível ao toque, os algoritmos por trás da buscas e pesquisas) vieram de investimento estatal e não do mercado livre. Inclusive, ha toda uma tradição sobre o Estado desenvolvimentista que já devia nos apertar sobre essa oposição ser uma balela.

Mas aí vamos para algumas coisas mais complexas, que tenho pesquisado e por isso losso tentar dar uns pitacos. 
Oque explica concretamente a BYD e o DeepSeek?

A explicação não é &quot;inovação apesar do autoritarismo&quot;, mas uma configuração específica: política industrial de horizonte longo + concorrência doméstica brutal + escala + controle da cadeia de suprimentos.

Alguns fatos: a BYD vendeu cerca de 2,26 milhões de veículos elétricos a bateria em 2025, contra 1,64 milhão da Tesla, tornando-se pela primeira vez a maior vendedora mundial de EVs em base anual (no total, somando híbridos, foram 4,6 milhões de unidades). A pressão sobre as montadoras tradicionais foi tão real que o CEO da Honda, Toshihiro Mibe, descreveu a tentativa de fusão com a Nissan como uma forma de &quot;revidar&quot; contra &quot;a ascensão do poder chinês&quot; (sobre a fusão de US$ 60 bi que colapsou formalmente em 13 de fevereiro de 2025).

O detalhe decisivo é que a BYD não venceu apenas a Honda; venceu também dezenas de rivais chinesas numa guerra de preços feroz, com queda de margens e consolidação em curso no setor. Isso é o oposto do que a literatura sobre socialismo costuma apontar: que haveria sempre um resgate da empresa estatal independentemente do desempenho, o que removia a disciplina geradora de eficiência. Na China há restrição orçamentária dura e as empresas simplesmente quebram e vida quebsegue. Um autor chamado Yuen Yuen Ang fala em &quot;directed improvisation&quot;: o centro fixa metas e provê recursos, mas tolera ampla experimentação local e empresarial. Some-se @ isso o fato de que a BYD nasceu fabricante de baterias: controle de cadeia, nada de acaso.

O DeepSeek confirma o padrão na área da IA. Foi a primeira vez que um laboratório chinês demonstrou avanços na fronteira da pesquisa fundacional/inovadora em IA, e suas inovações técnicas são reais, não propaganda. Não atoa, são replicadas por pesquisadores e empresas ocidentais. E sua origem é instrutiva: nasceu de um fundo de investimento (High-Flyer) que pivotou após a repressão de Pequim à especulação em 2021, foi designada &quot;empresa nacional de alta tecnologia&quot; e operou dentro do plano estatal de IA de 2017. Nem mercado puro, nem economia de comando: a configuração político-capitalista.

O central é o que o João comentou: a seletividade do controle. A distinção entre o monismo ideológico total (a URSS) e o controle limitado a certas áreas (o fascismo) capta algo real: a liberdade necessária para otimizar uma bateria não é a liberdade de criticar Xi Jinping. São separáveis e é precisamente por isso que o regime pode ter ambas. O contraste histórico que ele invoca é poderoso heuristicamente. Na URSS a genética mendeliana foi condenada como &quot;pseudociência burguesa&quot; e a área inteira destruída por décadas, porém há uma huance quanto ao caso fascista (nazista): na Alemanha, a &quot;deutsche Physik&quot; de Lenard e Stark atacou a física quântica e a relatividade. Stark chegou a chamar Heisenberg de &quot;judeu branco&quot; em 1937, porém não conseguiu suprimir a física moderna, que sobreviveu simplesmente porque o regime precisava dela para a guerra. A nuance: não se tratava de &quot;tolerância pluralista&quot;, e sim de instrumentalismo pragmático subordinando a ideologia à utilidade. Não podemos esquecer a ressalva de que a expulsão dos cientistas judeus foi, ela própria, uma destruição catastrófica, e não &quot;liberdade de discussão&quot;.

De fato, a lógica política pode atropelar e danificar a econômica quando o Partido se sente ameaçado. A repressão ao setor de tecnologia em 2020–21 (o IPO suspenso do Ant Group, o desaparecimento público de Jack Ma) é o caso-limite (o que a análise da Carnegie sobre a política chinesa de IA descreve como uma &quot;Era da Repressão&quot; (2020–2022). Há debate em aberto sobre se a centralização sob Xi acabará por estrangular o dinamismo que ele herdou, por isso a resposta não não é simplesmente que &quot;o autoritarismo serve à inovação&quot;, mas esta configuração específica entregou resultados, até aqui, sob um risco político alto e permanente.

Enfim, a observação do JB de que o mesmo artefato (a IA) é fruto de uma liberdade num domínio e instrumento de supressão da liberdade no outro é, em substância, a tese de Shoshana Zuboff no &quot;A era do capitalismo de vigilância&quot;: a extração de dados e a modelagem preditiva servindo à acumulação numa face e ao controle comportamental na outra. Por isso pergunta de Breno sobre a China retorna, sim, sobre todos nós, e a diferença entre o Ocidente e a China nesse terreno parece cada vez menor em natureza, ainda que não (ainda) em grau. Me explicou: as democracias ocidentais, por mais esvaziadas que estejam, ainda conservam eleições, tribunais e imprensa livre; mecanismos de reversibilidade que a China não tem. O risco que ele aponta é, portanto, &quot;direcional&quot;, mais do que consumado. Mas como diagnóstico de tendência, a pergunta final é lúcida: o problema não é uma anomalia chinesa, é o vetor compartilhado.
Resumindo meu pitaco: o &quot;paradoxo&quot; depende de chamar a China de comunista e de supor o Estado avesso à inovação; caídas as duas premissas, o que resta é um capitalismo político de concorrência feroz e direção estatal, em que a liberdade técnica e a não-liberdade política não só coexistem como se alimentam, e cuja arquitetura de controle, hoje, deixou de ser uma fronteira que separa &quot;eles&quot; de &quot;nós&quot;.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acho que boa parte do paradoxo se dissolve quando questionamos duas premissas escondidas na própria pergunta de Breno, e aceitamos que a parte mais importante da resposta de João é justamente a que ele deixa pro fim: a convergência entre IA e controle político.<br />
As premissas:<br />
A) que a China é &#8220;comunista&#8221; no sentido soviético. É a premissa que torna o caso paradoxal. Branko Milanović, em &#8220;Capitalism, Alone&#8221; (2019), propõe o conceito de political capitalism pra descrever o caso chinês: um capitalismo com burocracia tecnocrática eficiente, autonomia do Estado e ausência de Estado de Direito (a lei aplicada de modo discricionário). Sob essa lente, não há paradoxo algum: uma economia capitalista inova porque a concorrência e a acumulação a empurram, qualquer que seja a casca política. O ponto é tão mais forte quanto se lembra que o próprio João Bernardo, com sua teoria dos gestores e a leitura da URSS como capitalismo de Estado, já dispõe de um aparato que pode ser usado para resolver o enigma de modo mais direto do que o caminho que ele escolheu na resposta acima, de uma analogia com o fascismo, afinal, se a URSS nunca foi &#8220;comunismo&#8221; e se a China é uma forma de dominação gestorial-capitalista, então a inovação não precisa de explicação especial, pois é o que o capitalismo faz.</p>
<p>b) que a inovação exige livre iniciativa, e que o Estado é avesso a isso. Essa é uma tese clássica que, por exemplo, Daron Acemoglu e James Robinson em &#8220;Why Nations Fail&#8221; (2012), usam pra opor instituições &#8220;inclusivas&#8221; (que liberam a inovação) a &#8220;extrativas&#8221; (que a sufocam). Com base nessa premissa esses autores previram repetidamente a estagnação chinesa (não atoa quase ngm conhece o livro hj em dia). Por outro lado, Mariana Mazzucato, em &#8220;The Entrepreneurial State&#8221;, mostrou que mesmo no Ocidente as inovações &#8220;fundacionais&#8221; (internet, GPS, tela sensível ao toque, os algoritmos por trás da buscas e pesquisas) vieram de investimento estatal e não do mercado livre. Inclusive, ha toda uma tradição sobre o Estado desenvolvimentista que já devia nos apertar sobre essa oposição ser uma balela.</p>
<p>Mas aí vamos para algumas coisas mais complexas, que tenho pesquisado e por isso losso tentar dar uns pitacos.<br />
Oque explica concretamente a BYD e o DeepSeek?</p>
<p>A explicação não é &#8220;inovação apesar do autoritarismo&#8221;, mas uma configuração específica: política industrial de horizonte longo + concorrência doméstica brutal + escala + controle da cadeia de suprimentos.</p>
<p>Alguns fatos: a BYD vendeu cerca de 2,26 milhões de veículos elétricos a bateria em 2025, contra 1,64 milhão da Tesla, tornando-se pela primeira vez a maior vendedora mundial de EVs em base anual (no total, somando híbridos, foram 4,6 milhões de unidades). A pressão sobre as montadoras tradicionais foi tão real que o CEO da Honda, Toshihiro Mibe, descreveu a tentativa de fusão com a Nissan como uma forma de &#8220;revidar&#8221; contra &#8220;a ascensão do poder chinês&#8221; (sobre a fusão de US$ 60 bi que colapsou formalmente em 13 de fevereiro de 2025).</p>
<p>O detalhe decisivo é que a BYD não venceu apenas a Honda; venceu também dezenas de rivais chinesas numa guerra de preços feroz, com queda de margens e consolidação em curso no setor. Isso é o oposto do que a literatura sobre socialismo costuma apontar: que haveria sempre um resgate da empresa estatal independentemente do desempenho, o que removia a disciplina geradora de eficiência. Na China há restrição orçamentária dura e as empresas simplesmente quebram e vida quebsegue. Um autor chamado Yuen Yuen Ang fala em &#8220;directed improvisation&#8221;: o centro fixa metas e provê recursos, mas tolera ampla experimentação local e empresarial. Some-se @ isso o fato de que a BYD nasceu fabricante de baterias: controle de cadeia, nada de acaso.</p>
<p>O DeepSeek confirma o padrão na área da IA. Foi a primeira vez que um laboratório chinês demonstrou avanços na fronteira da pesquisa fundacional/inovadora em IA, e suas inovações técnicas são reais, não propaganda. Não atoa, são replicadas por pesquisadores e empresas ocidentais. E sua origem é instrutiva: nasceu de um fundo de investimento (High-Flyer) que pivotou após a repressão de Pequim à especulação em 2021, foi designada &#8220;empresa nacional de alta tecnologia&#8221; e operou dentro do plano estatal de IA de 2017. Nem mercado puro, nem economia de comando: a configuração político-capitalista.</p>
<p>O central é o que o João comentou: a seletividade do controle. A distinção entre o monismo ideológico total (a URSS) e o controle limitado a certas áreas (o fascismo) capta algo real: a liberdade necessária para otimizar uma bateria não é a liberdade de criticar Xi Jinping. São separáveis e é precisamente por isso que o regime pode ter ambas. O contraste histórico que ele invoca é poderoso heuristicamente. Na URSS a genética mendeliana foi condenada como &#8220;pseudociência burguesa&#8221; e a área inteira destruída por décadas, porém há uma huance quanto ao caso fascista (nazista): na Alemanha, a &#8220;deutsche Physik&#8221; de Lenard e Stark atacou a física quântica e a relatividade. Stark chegou a chamar Heisenberg de &#8220;judeu branco&#8221; em 1937, porém não conseguiu suprimir a física moderna, que sobreviveu simplesmente porque o regime precisava dela para a guerra. A nuance: não se tratava de &#8220;tolerância pluralista&#8221;, e sim de instrumentalismo pragmático subordinando a ideologia à utilidade. Não podemos esquecer a ressalva de que a expulsão dos cientistas judeus foi, ela própria, uma destruição catastrófica, e não &#8220;liberdade de discussão&#8221;.</p>
<p>De fato, a lógica política pode atropelar e danificar a econômica quando o Partido se sente ameaçado. A repressão ao setor de tecnologia em 2020–21 (o IPO suspenso do Ant Group, o desaparecimento público de Jack Ma) é o caso-limite (o que a análise da Carnegie sobre a política chinesa de IA descreve como uma &#8220;Era da Repressão&#8221; (2020–2022). Há debate em aberto sobre se a centralização sob Xi acabará por estrangular o dinamismo que ele herdou, por isso a resposta não não é simplesmente que &#8220;o autoritarismo serve à inovação&#8221;, mas esta configuração específica entregou resultados, até aqui, sob um risco político alto e permanente.</p>
<p>Enfim, a observação do JB de que o mesmo artefato (a IA) é fruto de uma liberdade num domínio e instrumento de supressão da liberdade no outro é, em substância, a tese de Shoshana Zuboff no &#8220;A era do capitalismo de vigilância&#8221;: a extração de dados e a modelagem preditiva servindo à acumulação numa face e ao controle comportamental na outra. Por isso pergunta de Breno sobre a China retorna, sim, sobre todos nós, e a diferença entre o Ocidente e a China nesse terreno parece cada vez menor em natureza, ainda que não (ainda) em grau. Me explicou: as democracias ocidentais, por mais esvaziadas que estejam, ainda conservam eleições, tribunais e imprensa livre; mecanismos de reversibilidade que a China não tem. O risco que ele aponta é, portanto, &#8220;direcional&#8221;, mais do que consumado. Mas como diagnóstico de tendência, a pergunta final é lúcida: o problema não é uma anomalia chinesa, é o vetor compartilhado.<br />
Resumindo meu pitaco: o &#8220;paradoxo&#8221; depende de chamar a China de comunista e de supor o Estado avesso à inovação; caídas as duas premissas, o que resta é um capitalismo político de concorrência feroz e direção estatal, em que a liberdade técnica e a não-liberdade política não só coexistem como se alimentam, e cuja arquitetura de controle, hoje, deixou de ser uma fronteira que separa &#8220;eles&#8221; de &#8220;nós&#8221;.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-1110236</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Jun 2026 11:22:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Breno,

A pergunta que você me faz, tenho-a eu feito a mim próprio nos últimos anos.
E não são só as viaturas eléctricas concebidas e produzidas na China, nomeadamente com o aperfeiçoamento das baterias. São também as energias renováveis, em especial os painéis solares. E, mais importante do que tudo agora, a Inteligência Artificial.
Como é possível que se desenvolva a criatividade científica e técnica numa sociedade como a chinesa, estritamente controlada e sem liberdade de expressão? Talvez se avance um pouco na solução do problema colocando a dúvida de outra maneira.

Contrariamente aos autores que usam o conceito de &lt;em&gt;regimes totalitários&lt;/em&gt;, eu considero que a prática política era muito diferente nos fascismos e no comunismo soviético. Nos fascismos havia uma pluralidade institucional, por vezes mesmo com conflitos internos bastante agudos, enquanto no comunismo soviético havia uma instituição política única — o partido — que inseria todas as outras sob a sua alçada. Ao mesmo tempo, no plano ideológico, tanto político, como científico ou até estético, havia no comunismo soviético uma linha de pensamento única, o que não sucedia nos fascismos. Ou seja, no comunismo soviético as autoridades determinavam a forma única como se devia pensar, e todas as outras eram proibidas, enquanto nos fascismos as autoridades definiam um certo número de áreas e de assuntos que não podiam ser postos em causa, mas além desses limites era admitida a liberdade de discussão e de opções. Basta pensar que quando Stalin impôs na biologia as teses de Lysenko todas as outras teorias biológicas foram suprimidas e perseguidos os seus defensores, enquanto no Terceiro Reich o facto de a Física Ariana ser promovida como a ideologia científica da raça nórdica não impediu Heisenberg e Pascual Jordan e muitos outros de continuarem a defender e aplicar com êxito a física quântica. 

Será possível que na China o governo mantenha o sistema soviético em tudo o que diga respeito à política e ao pensamento político, e na esfera científica aceite o mesmo pluralismo que os fascistas aceitavam? 
A ambiguidade desta situação é ainda mais flagrante quando nos lembramos de que o Partido Comunista da China aplica extensivamente a Inteligência Artificial para impor a ditadura política, o que significa que um resultado da liberdade num dos termos do problema se converte num factor de supressão da liberdade no outro lado da questão. Pior ainda, porque o dilema não se limita à China, quando vemos que nas democracias ocidentais, ao mesmo tempo que a liberdade política se torna cada vez mais desprovida de significado prático, a Inteligência Artificial é cada vez mais usada para impor um controle político. Será que a questão que Breno coloca a propósito da China se deverá colocar para o futuro de todos nós?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Breno,</p>
<p>A pergunta que você me faz, tenho-a eu feito a mim próprio nos últimos anos.<br />
E não são só as viaturas eléctricas concebidas e produzidas na China, nomeadamente com o aperfeiçoamento das baterias. São também as energias renováveis, em especial os painéis solares. E, mais importante do que tudo agora, a Inteligência Artificial.<br />
Como é possível que se desenvolva a criatividade científica e técnica numa sociedade como a chinesa, estritamente controlada e sem liberdade de expressão? Talvez se avance um pouco na solução do problema colocando a dúvida de outra maneira.</p>
<p>Contrariamente aos autores que usam o conceito de <em>regimes totalitários</em>, eu considero que a prática política era muito diferente nos fascismos e no comunismo soviético. Nos fascismos havia uma pluralidade institucional, por vezes mesmo com conflitos internos bastante agudos, enquanto no comunismo soviético havia uma instituição política única — o partido — que inseria todas as outras sob a sua alçada. Ao mesmo tempo, no plano ideológico, tanto político, como científico ou até estético, havia no comunismo soviético uma linha de pensamento única, o que não sucedia nos fascismos. Ou seja, no comunismo soviético as autoridades determinavam a forma única como se devia pensar, e todas as outras eram proibidas, enquanto nos fascismos as autoridades definiam um certo número de áreas e de assuntos que não podiam ser postos em causa, mas além desses limites era admitida a liberdade de discussão e de opções. Basta pensar que quando Stalin impôs na biologia as teses de Lysenko todas as outras teorias biológicas foram suprimidas e perseguidos os seus defensores, enquanto no Terceiro Reich o facto de a Física Ariana ser promovida como a ideologia científica da raça nórdica não impediu Heisenberg e Pascual Jordan e muitos outros de continuarem a defender e aplicar com êxito a física quântica. </p>
<p>Será possível que na China o governo mantenha o sistema soviético em tudo o que diga respeito à política e ao pensamento político, e na esfera científica aceite o mesmo pluralismo que os fascistas aceitavam?<br />
A ambiguidade desta situação é ainda mais flagrante quando nos lembramos de que o Partido Comunista da China aplica extensivamente a Inteligência Artificial para impor a ditadura política, o que significa que um resultado da liberdade num dos termos do problema se converte num factor de supressão da liberdade no outro lado da questão. Pior ainda, porque o dilema não se limita à China, quando vemos que nas democracias ocidentais, ao mesmo tempo que a liberdade política se torna cada vez mais desprovida de significado prático, a Inteligência Artificial é cada vez mais usada para impor um controle político. Será que a questão que Breno coloca a propósito da China se deverá colocar para o futuro de todos nós?</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Breno		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-1110083</link>

		<dc:creator><![CDATA[Breno]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jun 2026 21:12:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[João, se a China sob Xi Jinping parece reforçar o poder e a hierarquia estatal em detrimento da livre iniciativa de indivíduos e empresas, como se explica o notável domínio tecnológico alcançado por algumas empresas chinesas? Citemos, por exemplo, a BYD, responsável pela maior fração de carros elétricos no planeta e pela reconfiguração do mercado automotivo, impondo severos prejuízos a gigantes do setor como a Honda.

Como é possível tamanha inovação técnica em um Estado marcadamente autoritário e em tese avesso à liberdade e inovação?

Abraço.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João, se a China sob Xi Jinping parece reforçar o poder e a hierarquia estatal em detrimento da livre iniciativa de indivíduos e empresas, como se explica o notável domínio tecnológico alcançado por algumas empresas chinesas? Citemos, por exemplo, a BYD, responsável pela maior fração de carros elétricos no planeta e pela reconfiguração do mercado automotivo, impondo severos prejuízos a gigantes do setor como a Honda.</p>
<p>Como é possível tamanha inovação técnica em um Estado marcadamente autoritário e em tese avesso à liberdade e inovação?</p>
<p>Abraço.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: arkx Brasil		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-792774</link>

		<dc:creator><![CDATA[arkx Brasil]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Oct 2021 10:45:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O inescapável acerto de contas dos bilionários chineses com a bolha imobiliária 

Evergrande:
• Dívida total: US$ 309 bilhões
• Dívida internacional: US$ 20 bilhões
• Maiores credores vcmto. em 2022: fundo Ashmore (EUA) 3%, UBS 1,37%,  HSBC 1,33%. 
• Maiores credores vcmto. em 2023: BlackRock 4,4%, HSBC 3,26%, Ashmore 2,62%, UBS 1,66%.

China - Reservas Internacionais: US$ 3,22 trilhões

As enormes reservas internacionais da China garantem uma posição de força bastante favorável na negociação com os credores externos.

Por sua vez, estes estão pulverizados com participação no total do passivo de no máximo 5%, o que indica pouca possibilidade de um efeito de contágio nas proporções do Lehman, em 2008.

“Sem uma boa política de reforma e abertura do país, Evergrande não teria o que tem hoje. Portanto, tudo o que Evergrande e eu temos, tudo é dado pelo Partido, pelo país e pela sociedade.”
Hui Ka Yan - fundador, presidente e maior acionista (76,8%) da Evergrande, no China Charity Awards 2018, como vencedor pelo 8º ano consecutivo

Em 1998 a China promoveu uma contra-reforma de cunho capitalista no setor habitacional, liberando-o para o capital privado.

A Evergrande abriu seu capital em 2008, em Hong-Kong. Tornou-se a maior empresa imobiliária da China em 2017.

Investimentos na construção civil somam 15% do PIB Chinês, porém o conjunto da cadeia de produção envolvida atinje cerca de 29%. O setor imobiliário chinês consome 1/5 da produção mundial de cobre e aço.

Os investimentos a fundo perdido em infraestrutura viária e imobiliária, sem a contraparte de geração de postos de trabalho permanentes, alteram a composição orgânica do Capital (c/v), limitando proporcionalmente a criação de novo valor.

Atualmente a quantidade de residências desocupadas na China são suficientes par abrigar mais de 90 milhões de pessoas.

A grande questão é que, de alguma forma, o Estado terá que assumir a Evergrande, e talvez outras empresas do setor imobiliário. Com isto se aprofunda o Capitalismo de Estado, que na China se encontra sob o controle de uma classe de gestores tecno-burocratas.

Como o investimento imobiliário tem sido um grande propulsor do PIB chinês, como garantir a continuidade da expansão econômica por outras bases?

A crise da Evergrande é um dos reflexos na China da crise do Capitalismo global. Só resta a tecno-burocracia do PC da China avançar com o Capitalismo de Estado, mas isto não os livrará de seu próprio acerto de contas com o modelo e o regime.

Pois seja ou não sob estrito controle estatal, a crise do Capitalismo continuará se agravando.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O inescapável acerto de contas dos bilionários chineses com a bolha imobiliária </p>
<p>Evergrande:<br />
• Dívida total: US$ 309 bilhões<br />
• Dívida internacional: US$ 20 bilhões<br />
• Maiores credores vcmto. em 2022: fundo Ashmore (EUA) 3%, UBS 1,37%,  HSBC 1,33%. <br />
• Maiores credores vcmto. em 2023: BlackRock 4,4%, HSBC 3,26%, Ashmore 2,62%, UBS 1,66%.</p>
<p>China &#8211; Reservas Internacionais: US$ 3,22 trilhões</p>
<p>As enormes reservas internacionais da China garantem uma posição de força bastante favorável na negociação com os credores externos.</p>
<p>Por sua vez, estes estão pulverizados com participação no total do passivo de no máximo 5%, o que indica pouca possibilidade de um efeito de contágio nas proporções do Lehman, em 2008.</p>
<p>“Sem uma boa política de reforma e abertura do país, Evergrande não teria o que tem hoje. Portanto, tudo o que Evergrande e eu temos, tudo é dado pelo Partido, pelo país e pela sociedade.”<br />
Hui Ka Yan &#8211; fundador, presidente e maior acionista (76,8%) da Evergrande, no China Charity Awards 2018, como vencedor pelo 8º ano consecutivo</p>
<p>Em 1998 a China promoveu uma contra-reforma de cunho capitalista no setor habitacional, liberando-o para o capital privado.</p>
<p>A Evergrande abriu seu capital em 2008, em Hong-Kong. Tornou-se a maior empresa imobiliária da China em 2017.</p>
<p>Investimentos na construção civil somam 15% do PIB Chinês, porém o conjunto da cadeia de produção envolvida atinje cerca de 29%. O setor imobiliário chinês consome 1/5 da produção mundial de cobre e aço.</p>
<p>Os investimentos a fundo perdido em infraestrutura viária e imobiliária, sem a contraparte de geração de postos de trabalho permanentes, alteram a composição orgânica do Capital (c/v), limitando proporcionalmente a criação de novo valor.</p>
<p>Atualmente a quantidade de residências desocupadas na China são suficientes par abrigar mais de 90 milhões de pessoas.</p>
<p>A grande questão é que, de alguma forma, o Estado terá que assumir a Evergrande, e talvez outras empresas do setor imobiliário. Com isto se aprofunda o Capitalismo de Estado, que na China se encontra sob o controle de uma classe de gestores tecno-burocratas.</p>
<p>Como o investimento imobiliário tem sido um grande propulsor do PIB chinês, como garantir a continuidade da expansão econômica por outras bases?</p>
<p>A crise da Evergrande é um dos reflexos na China da crise do Capitalismo global. Só resta a tecno-burocracia do PC da China avançar com o Capitalismo de Estado, mas isto não os livrará de seu próprio acerto de contas com o modelo e o regime.</p>
<p>Pois seja ou não sob estrito controle estatal, a crise do Capitalismo continuará se agravando.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-792736</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Oct 2021 08:56:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[João Aguiar,

A nova orientação que Xi Jinping começou a impor deve-se a pressões económicas ou a necessidades políticas, ou a ambas as coisas, e em que medida? A esta distância e com a falta de informações, é impossível dar neste momento uma resposta cabal. Eu inclino-me a pensar que Xi Jinping está a recorrer à velha ilusão que pretende dar uma resposta política aos problemas económicos. Foram os fascistas, e especialmente os nacionais-socialistas, quem primeiro experimentou na prática esse método, e é instrutivo verificar que hoje a generalidade da extrema-esquerda proclama o mesmo. Num &lt;a href=&quot;https://www.economist.com/finance-and-economics/how-a-housing-downturn-could-wreck-chinas-growth-model/21805115&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener nofollow ugc&quot;&gt;artigo recente&lt;/a&gt;, &lt;em&gt;The Economist&lt;/em&gt; analisou a situação da Evergrande, e em geral do mercado imobiliário na China, no contexto do sistema de relações estabelecido entre o governo central e as autoridades locais, e parece-me promissor este tipo de análises, combinando o político, neste caso o administrativo, com o económico.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Aguiar,</p>
<p>A nova orientação que Xi Jinping começou a impor deve-se a pressões económicas ou a necessidades políticas, ou a ambas as coisas, e em que medida? A esta distância e com a falta de informações, é impossível dar neste momento uma resposta cabal. Eu inclino-me a pensar que Xi Jinping está a recorrer à velha ilusão que pretende dar uma resposta política aos problemas económicos. Foram os fascistas, e especialmente os nacionais-socialistas, quem primeiro experimentou na prática esse método, e é instrutivo verificar que hoje a generalidade da extrema-esquerda proclama o mesmo. Num <a href="https://www.economist.com/finance-and-economics/how-a-housing-downturn-could-wreck-chinas-growth-model/21805115" target="_blank" rel="noopener nofollow ugc">artigo recente</a>, <em>The Economist</em> analisou a situação da Evergrande, e em geral do mercado imobiliário na China, no contexto do sistema de relações estabelecido entre o governo central e as autoridades locais, e parece-me promissor este tipo de análises, combinando o político, neste caso o administrativo, com o económico.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Aguiar		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-792513</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Aguiar]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 Oct 2021 18:52:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[João, 

Será que o encarreiramento por modalidades da mais-valia absoluta pelo Estado chinês se relaciona com algum tipo de esgotamento/abrandamento do modelo de mais-valia relativa que orientaram nas últimas décadas? Isto terá alguma relação com a bancarrota da Evergrande (problemas no mercado) ou com o reavivar dos instintos militaristas sobre Taiwan (usando meios extra-económicos, no sentido estrito, para tentar obter ganhos económicos que não os estaria a arrecadar pelas vias &quot;normais&quot; da mais-valia relativa)?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João, </p>
<p>Será que o encarreiramento por modalidades da mais-valia absoluta pelo Estado chinês se relaciona com algum tipo de esgotamento/abrandamento do modelo de mais-valia relativa que orientaram nas últimas décadas? Isto terá alguma relação com a bancarrota da Evergrande (problemas no mercado) ou com o reavivar dos instintos militaristas sobre Taiwan (usando meios extra-económicos, no sentido estrito, para tentar obter ganhos económicos que não os estaria a arrecadar pelas vias &#8220;normais&#8221; da mais-valia relativa)?</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-792439</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 Oct 2021 15:18:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caro LL,

Mas o problema aqui consiste em saber a partir de que momento a utilização das redes sociais e dos jogos de computador pelos trabalhadores se converte, para os capitalistas, de benéfica em nociva. Quantas horas e quantos segundos? Nos regimes que asseguram um espaço de privacidade mais amplo há discussões neste sentido, em que todos podem participar. Lembro-me de &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=mr2XROg3JnI&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener nofollow ugc&quot;&gt;um exemplo recente no Brasil&lt;/a&gt;. As próprias empresas de telemóveis (celulares) enviam periodicamente aos utentes (usuários) relatórios contabilizando a evolução do tempo de utilização. E os psicólogos e terapeutas, evidentemente, não iriam desprezar o filão e inauguraram-se consultas médicas nos hospitais para curar as pessoas daquele novo vício. Mas as medidas que Xi Jinping começou agora a tomar pretendem substituir essa liberdade de discussão e essa flexibilidade de decisões por uma norma governamental única, fixando limites de horas e minutos. Volto ao refrão: será possível que o Estado obtenha os resultados da liberdade dos trabalhadores, sem a liberdade dos trabalhadores?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro LL,</p>
<p>Mas o problema aqui consiste em saber a partir de que momento a utilização das redes sociais e dos jogos de computador pelos trabalhadores se converte, para os capitalistas, de benéfica em nociva. Quantas horas e quantos segundos? Nos regimes que asseguram um espaço de privacidade mais amplo há discussões neste sentido, em que todos podem participar. Lembro-me de <a href="https://www.youtube.com/watch?v=mr2XROg3JnI" target="_blank" rel="noopener nofollow ugc">um exemplo recente no Brasil</a>. As próprias empresas de telemóveis (celulares) enviam periodicamente aos utentes (usuários) relatórios contabilizando a evolução do tempo de utilização. E os psicólogos e terapeutas, evidentemente, não iriam desprezar o filão e inauguraram-se consultas médicas nos hospitais para curar as pessoas daquele novo vício. Mas as medidas que Xi Jinping começou agora a tomar pretendem substituir essa liberdade de discussão e essa flexibilidade de decisões por uma norma governamental única, fixando limites de horas e minutos. Volto ao refrão: será possível que o Estado obtenha os resultados da liberdade dos trabalhadores, sem a liberdade dos trabalhadores?</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: LL		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-792354</link>

		<dc:creator><![CDATA[LL]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 Oct 2021 11:39:32 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=139867#comment-792354</guid>

					<description><![CDATA[Caro João Bernardo,
Embora me pareça correta a perspectiva de que Xi Jinping busca criar um regime de controle da liberdade de iniciativa dos trabalhadores e que isso implicará em limitações para a economia chinesa, não me parece que a restrição do tempo de uso das redes caminhe no sentido de restrição da mais-valia relativa. 
Tenho a impressão que essa restrição vem do diagnóstico, corroborado por alguns gestores do Vale do Silício, de que o uso das redes na modalidade de economia de atenção que retém o usuário o maior tempo possível na tela, termina tornando esse trabalhador mais apático do que seria desejável. Por isso que surgem filmes críticos como o Dilema das Redes, que tem como proposta uma revisão desse modelo de negócios, pois eles seriam prejudiciais a própria economia capitalista.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro João Bernardo,<br />
Embora me pareça correta a perspectiva de que Xi Jinping busca criar um regime de controle da liberdade de iniciativa dos trabalhadores e que isso implicará em limitações para a economia chinesa, não me parece que a restrição do tempo de uso das redes caminhe no sentido de restrição da mais-valia relativa.<br />
Tenho a impressão que essa restrição vem do diagnóstico, corroborado por alguns gestores do Vale do Silício, de que o uso das redes na modalidade de economia de atenção que retém o usuário o maior tempo possível na tela, termina tornando esse trabalhador mais apático do que seria desejável. Por isso que surgem filmes críticos como o Dilema das Redes, que tem como proposta uma revisão desse modelo de negócios, pois eles seriam prejudiciais a própria economia capitalista.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
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