<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	
	>
<channel>
	<title>
	Comentários sobre: O futuro fugiu. 2	</title>
	<atom:link href="https://passapalavra.info/2021/09/139867/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/</link>
	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
	<lastBuildDate>Thu, 07 Oct 2021 10:45:54 +0000</lastBuildDate>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9</generator>
	<item>
		<title>
		Por: arkx Brasil		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-792774</link>

		<dc:creator><![CDATA[arkx Brasil]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Oct 2021 10:45:54 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=139867#comment-792774</guid>

					<description><![CDATA[O inescapável acerto de contas dos bilionários chineses com a bolha imobiliária 

Evergrande:
• Dívida total: US$ 309 bilhões
• Dívida internacional: US$ 20 bilhões
• Maiores credores vcmto. em 2022: fundo Ashmore (EUA) 3%, UBS 1,37%,  HSBC 1,33%. 
• Maiores credores vcmto. em 2023: BlackRock 4,4%, HSBC 3,26%, Ashmore 2,62%, UBS 1,66%.

China - Reservas Internacionais: US$ 3,22 trilhões

As enormes reservas internacionais da China garantem uma posição de força bastante favorável na negociação com os credores externos.

Por sua vez, estes estão pulverizados com participação no total do passivo de no máximo 5%, o que indica pouca possibilidade de um efeito de contágio nas proporções do Lehman, em 2008.

“Sem uma boa política de reforma e abertura do país, Evergrande não teria o que tem hoje. Portanto, tudo o que Evergrande e eu temos, tudo é dado pelo Partido, pelo país e pela sociedade.”
Hui Ka Yan - fundador, presidente e maior acionista (76,8%) da Evergrande, no China Charity Awards 2018, como vencedor pelo 8º ano consecutivo

Em 1998 a China promoveu uma contra-reforma de cunho capitalista no setor habitacional, liberando-o para o capital privado.

A Evergrande abriu seu capital em 2008, em Hong-Kong. Tornou-se a maior empresa imobiliária da China em 2017.

Investimentos na construção civil somam 15% do PIB Chinês, porém o conjunto da cadeia de produção envolvida atinje cerca de 29%. O setor imobiliário chinês consome 1/5 da produção mundial de cobre e aço.

Os investimentos a fundo perdido em infraestrutura viária e imobiliária, sem a contraparte de geração de postos de trabalho permanentes, alteram a composição orgânica do Capital (c/v), limitando proporcionalmente a criação de novo valor.

Atualmente a quantidade de residências desocupadas na China são suficientes par abrigar mais de 90 milhões de pessoas.

A grande questão é que, de alguma forma, o Estado terá que assumir a Evergrande, e talvez outras empresas do setor imobiliário. Com isto se aprofunda o Capitalismo de Estado, que na China se encontra sob o controle de uma classe de gestores tecno-burocratas.

Como o investimento imobiliário tem sido um grande propulsor do PIB chinês, como garantir a continuidade da expansão econômica por outras bases?

A crise da Evergrande é um dos reflexos na China da crise do Capitalismo global. Só resta a tecno-burocracia do PC da China avançar com o Capitalismo de Estado, mas isto não os livrará de seu próprio acerto de contas com o modelo e o regime.

Pois seja ou não sob estrito controle estatal, a crise do Capitalismo continuará se agravando.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O inescapável acerto de contas dos bilionários chineses com a bolha imobiliária </p>
<p>Evergrande:<br />
• Dívida total: US$ 309 bilhões<br />
• Dívida internacional: US$ 20 bilhões<br />
• Maiores credores vcmto. em 2022: fundo Ashmore (EUA) 3%, UBS 1,37%,  HSBC 1,33%. <br />
• Maiores credores vcmto. em 2023: BlackRock 4,4%, HSBC 3,26%, Ashmore 2,62%, UBS 1,66%.</p>
<p>China &#8211; Reservas Internacionais: US$ 3,22 trilhões</p>
<p>As enormes reservas internacionais da China garantem uma posição de força bastante favorável na negociação com os credores externos.</p>
<p>Por sua vez, estes estão pulverizados com participação no total do passivo de no máximo 5%, o que indica pouca possibilidade de um efeito de contágio nas proporções do Lehman, em 2008.</p>
<p>“Sem uma boa política de reforma e abertura do país, Evergrande não teria o que tem hoje. Portanto, tudo o que Evergrande e eu temos, tudo é dado pelo Partido, pelo país e pela sociedade.”<br />
Hui Ka Yan &#8211; fundador, presidente e maior acionista (76,8%) da Evergrande, no China Charity Awards 2018, como vencedor pelo 8º ano consecutivo</p>
<p>Em 1998 a China promoveu uma contra-reforma de cunho capitalista no setor habitacional, liberando-o para o capital privado.</p>
<p>A Evergrande abriu seu capital em 2008, em Hong-Kong. Tornou-se a maior empresa imobiliária da China em 2017.</p>
<p>Investimentos na construção civil somam 15% do PIB Chinês, porém o conjunto da cadeia de produção envolvida atinje cerca de 29%. O setor imobiliário chinês consome 1/5 da produção mundial de cobre e aço.</p>
<p>Os investimentos a fundo perdido em infraestrutura viária e imobiliária, sem a contraparte de geração de postos de trabalho permanentes, alteram a composição orgânica do Capital (c/v), limitando proporcionalmente a criação de novo valor.</p>
<p>Atualmente a quantidade de residências desocupadas na China são suficientes par abrigar mais de 90 milhões de pessoas.</p>
<p>A grande questão é que, de alguma forma, o Estado terá que assumir a Evergrande, e talvez outras empresas do setor imobiliário. Com isto se aprofunda o Capitalismo de Estado, que na China se encontra sob o controle de uma classe de gestores tecno-burocratas.</p>
<p>Como o investimento imobiliário tem sido um grande propulsor do PIB chinês, como garantir a continuidade da expansão econômica por outras bases?</p>
<p>A crise da Evergrande é um dos reflexos na China da crise do Capitalismo global. Só resta a tecno-burocracia do PC da China avançar com o Capitalismo de Estado, mas isto não os livrará de seu próprio acerto de contas com o modelo e o regime.</p>
<p>Pois seja ou não sob estrito controle estatal, a crise do Capitalismo continuará se agravando.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-792736</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Oct 2021 08:56:10 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=139867#comment-792736</guid>

					<description><![CDATA[João Aguiar,

A nova orientação que Xi Jinping começou a impor deve-se a pressões económicas ou a necessidades políticas, ou a ambas as coisas, e em que medida? A esta distância e com a falta de informações, é impossível dar neste momento uma resposta cabal. Eu inclino-me a pensar que Xi Jinping está a recorrer à velha ilusão que pretende dar uma resposta política aos problemas económicos. Foram os fascistas, e especialmente os nacionais-socialistas, quem primeiro experimentou na prática esse método, e é instrutivo verificar que hoje a generalidade da extrema-esquerda proclama o mesmo. Num &lt;a href=&quot;https://www.economist.com/finance-and-economics/how-a-housing-downturn-could-wreck-chinas-growth-model/21805115&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener nofollow ugc&quot;&gt;artigo recente&lt;/a&gt;, &lt;em&gt;The Economist&lt;/em&gt; analisou a situação da Evergrande, e em geral do mercado imobiliário na China, no contexto do sistema de relações estabelecido entre o governo central e as autoridades locais, e parece-me promissor este tipo de análises, combinando o político, neste caso o administrativo, com o económico.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Aguiar,</p>
<p>A nova orientação que Xi Jinping começou a impor deve-se a pressões económicas ou a necessidades políticas, ou a ambas as coisas, e em que medida? A esta distância e com a falta de informações, é impossível dar neste momento uma resposta cabal. Eu inclino-me a pensar que Xi Jinping está a recorrer à velha ilusão que pretende dar uma resposta política aos problemas económicos. Foram os fascistas, e especialmente os nacionais-socialistas, quem primeiro experimentou na prática esse método, e é instrutivo verificar que hoje a generalidade da extrema-esquerda proclama o mesmo. Num <a href="https://www.economist.com/finance-and-economics/how-a-housing-downturn-could-wreck-chinas-growth-model/21805115" target="_blank" rel="noopener nofollow ugc">artigo recente</a>, <em>The Economist</em> analisou a situação da Evergrande, e em geral do mercado imobiliário na China, no contexto do sistema de relações estabelecido entre o governo central e as autoridades locais, e parece-me promissor este tipo de análises, combinando o político, neste caso o administrativo, com o económico.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Aguiar		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-792513</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Aguiar]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 Oct 2021 18:52:31 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=139867#comment-792513</guid>

					<description><![CDATA[João, 

Será que o encarreiramento por modalidades da mais-valia absoluta pelo Estado chinês se relaciona com algum tipo de esgotamento/abrandamento do modelo de mais-valia relativa que orientaram nas últimas décadas? Isto terá alguma relação com a bancarrota da Evergrande (problemas no mercado) ou com o reavivar dos instintos militaristas sobre Taiwan (usando meios extra-económicos, no sentido estrito, para tentar obter ganhos económicos que não os estaria a arrecadar pelas vias &quot;normais&quot; da mais-valia relativa)?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João, </p>
<p>Será que o encarreiramento por modalidades da mais-valia absoluta pelo Estado chinês se relaciona com algum tipo de esgotamento/abrandamento do modelo de mais-valia relativa que orientaram nas últimas décadas? Isto terá alguma relação com a bancarrota da Evergrande (problemas no mercado) ou com o reavivar dos instintos militaristas sobre Taiwan (usando meios extra-económicos, no sentido estrito, para tentar obter ganhos económicos que não os estaria a arrecadar pelas vias &#8220;normais&#8221; da mais-valia relativa)?</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-792439</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 Oct 2021 15:18:37 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=139867#comment-792439</guid>

					<description><![CDATA[Caro LL,

Mas o problema aqui consiste em saber a partir de que momento a utilização das redes sociais e dos jogos de computador pelos trabalhadores se converte, para os capitalistas, de benéfica em nociva. Quantas horas e quantos segundos? Nos regimes que asseguram um espaço de privacidade mais amplo há discussões neste sentido, em que todos podem participar. Lembro-me de &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=mr2XROg3JnI&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener nofollow ugc&quot;&gt;um exemplo recente no Brasil&lt;/a&gt;. As próprias empresas de telemóveis (celulares) enviam periodicamente aos utentes (usuários) relatórios contabilizando a evolução do tempo de utilização. E os psicólogos e terapeutas, evidentemente, não iriam desprezar o filão e inauguraram-se consultas médicas nos hospitais para curar as pessoas daquele novo vício. Mas as medidas que Xi Jinping começou agora a tomar pretendem substituir essa liberdade de discussão e essa flexibilidade de decisões por uma norma governamental única, fixando limites de horas e minutos. Volto ao refrão: será possível que o Estado obtenha os resultados da liberdade dos trabalhadores, sem a liberdade dos trabalhadores?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro LL,</p>
<p>Mas o problema aqui consiste em saber a partir de que momento a utilização das redes sociais e dos jogos de computador pelos trabalhadores se converte, para os capitalistas, de benéfica em nociva. Quantas horas e quantos segundos? Nos regimes que asseguram um espaço de privacidade mais amplo há discussões neste sentido, em que todos podem participar. Lembro-me de <a href="https://www.youtube.com/watch?v=mr2XROg3JnI" target="_blank" rel="noopener nofollow ugc">um exemplo recente no Brasil</a>. As próprias empresas de telemóveis (celulares) enviam periodicamente aos utentes (usuários) relatórios contabilizando a evolução do tempo de utilização. E os psicólogos e terapeutas, evidentemente, não iriam desprezar o filão e inauguraram-se consultas médicas nos hospitais para curar as pessoas daquele novo vício. Mas as medidas que Xi Jinping começou agora a tomar pretendem substituir essa liberdade de discussão e essa flexibilidade de decisões por uma norma governamental única, fixando limites de horas e minutos. Volto ao refrão: será possível que o Estado obtenha os resultados da liberdade dos trabalhadores, sem a liberdade dos trabalhadores?</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: LL		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-792354</link>

		<dc:creator><![CDATA[LL]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 Oct 2021 11:39:32 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=139867#comment-792354</guid>

					<description><![CDATA[Caro João Bernardo,
Embora me pareça correta a perspectiva de que Xi Jinping busca criar um regime de controle da liberdade de iniciativa dos trabalhadores e que isso implicará em limitações para a economia chinesa, não me parece que a restrição do tempo de uso das redes caminhe no sentido de restrição da mais-valia relativa. 
Tenho a impressão que essa restrição vem do diagnóstico, corroborado por alguns gestores do Vale do Silício, de que o uso das redes na modalidade de economia de atenção que retém o usuário o maior tempo possível na tela, termina tornando esse trabalhador mais apático do que seria desejável. Por isso que surgem filmes críticos como o Dilema das Redes, que tem como proposta uma revisão desse modelo de negócios, pois eles seriam prejudiciais a própria economia capitalista.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro João Bernardo,<br />
Embora me pareça correta a perspectiva de que Xi Jinping busca criar um regime de controle da liberdade de iniciativa dos trabalhadores e que isso implicará em limitações para a economia chinesa, não me parece que a restrição do tempo de uso das redes caminhe no sentido de restrição da mais-valia relativa.<br />
Tenho a impressão que essa restrição vem do diagnóstico, corroborado por alguns gestores do Vale do Silício, de que o uso das redes na modalidade de economia de atenção que retém o usuário o maior tempo possível na tela, termina tornando esse trabalhador mais apático do que seria desejável. Por isso que surgem filmes críticos como o Dilema das Redes, que tem como proposta uma revisão desse modelo de negócios, pois eles seriam prejudiciais a própria economia capitalista.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Fernando Paz		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-792152</link>

		<dc:creator><![CDATA[Fernando Paz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Oct 2021 23:05:25 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=139867#comment-792152</guid>

					<description><![CDATA[Obrigado, João!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Obrigado, João!</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-792116</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Oct 2021 20:50:22 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=139867#comment-792116</guid>

					<description><![CDATA[Caro Fernando,

Os computadores são, em toda a história da humanidade, as únicas máquinas capazes de cumprir três tipos de funções: 1) instrumentos de trabalho, 2) instrumentos de vigilância e fiscalização e 3) instrumentos de lazer. Isto faz com que — também pela primeira vez na história da humanidade — o ócio constitua uma oportunidade de adestramento da força de trabalho e, portanto, de desenvolvimento da mais-valia relativa. Digitar a alta velocidade em teclados minúsculos, ser capaz de prestar atenção a vários estímulos simultâneos, reagir muito rapidamente a situações imprevistas, tudo isto, que constitui o quotidiano (sim, em Portugal é assim que se escreve) das redes sociais e dos jogos de computador, é ócio ou é melhoria da qualificação profissional? Ambas as coisas. Por isso é do interesse do patrão que o trabalhador despenda no computador as horas em que não está a trabalhar, e qualquer restrição governamental a este tipo de ócios constitui um obstáculo à mais-valia relativa.

Ora, uma parte muito considerável da extrema-esquerda actual confunde a actividade política com a troca de mensagens de meia dúzia de palavras nas redes sociais. Neste contexto, o conteúdo das mensagens é indiferente para o capitalismo, e tanto melhor para ele se as pessoas julgarem que a política se resume a isso. Foi o que eu quis dizer quando comparei com os recreios das escolas, e um governo que pretenda converter os ócios numa oportunidade de doutrinamento político está a criar obstáculos à mais-valia relativa.

O problema, porém, é mais vasto. Se você vir a estatística das abstenções nos países em que o voto não é obrigatório constatará que uma parte considerável do eleitorado, por vezes mais de metade, não se interessa em votar. Para essas pessoas é indiferente o partido que esteja no governo ou mesmo a democracia representativa, mas ficarão muito descontentes com tudo o que lhes limite a privacidade. A palavra &lt;em&gt;liberdade&lt;/em&gt; significa hoje a possibilidade fazer o que quiser durante os ócios na vida privada. Se as pessoas passarem assim os lazeres e se se sentirem &lt;em&gt;livres&lt;/em&gt;, irão trabalhar, não digo com mais entusiasmo, mas com menos aborrecimento, o que lhes aumentará a intensidade no trabalho e até, eventualmente, a criatividade no trabalho, ambas componentes da mais-valia relativa. Portanto, um governo que procure restringir a privacidade está a dificultar o desenvolvimento da mais-valia relativa.

Por isso escrevi nesta segunda parte do ensaio: «Assim como, aparentemente, Xi Jinping pretende que o Estado execute os mesmos mecanismos executados pela concorrência entre empresas privadas, parece que também pretende obter os resultados da mais-valia relativa mantendo os trabalhadores num sistema disciplinar que até agora só tem conduzido à mais-valia absoluta. Porém, não creio possível que o Estado consiga alcançar os resultados da liberdade de organização dos trabalhadores, sem a liberdade de organização dos trabalhadores».]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Fernando,</p>
<p>Os computadores são, em toda a história da humanidade, as únicas máquinas capazes de cumprir três tipos de funções: 1) instrumentos de trabalho, 2) instrumentos de vigilância e fiscalização e 3) instrumentos de lazer. Isto faz com que — também pela primeira vez na história da humanidade — o ócio constitua uma oportunidade de adestramento da força de trabalho e, portanto, de desenvolvimento da mais-valia relativa. Digitar a alta velocidade em teclados minúsculos, ser capaz de prestar atenção a vários estímulos simultâneos, reagir muito rapidamente a situações imprevistas, tudo isto, que constitui o quotidiano (sim, em Portugal é assim que se escreve) das redes sociais e dos jogos de computador, é ócio ou é melhoria da qualificação profissional? Ambas as coisas. Por isso é do interesse do patrão que o trabalhador despenda no computador as horas em que não está a trabalhar, e qualquer restrição governamental a este tipo de ócios constitui um obstáculo à mais-valia relativa.</p>
<p>Ora, uma parte muito considerável da extrema-esquerda actual confunde a actividade política com a troca de mensagens de meia dúzia de palavras nas redes sociais. Neste contexto, o conteúdo das mensagens é indiferente para o capitalismo, e tanto melhor para ele se as pessoas julgarem que a política se resume a isso. Foi o que eu quis dizer quando comparei com os recreios das escolas, e um governo que pretenda converter os ócios numa oportunidade de doutrinamento político está a criar obstáculos à mais-valia relativa.</p>
<p>O problema, porém, é mais vasto. Se você vir a estatística das abstenções nos países em que o voto não é obrigatório constatará que uma parte considerável do eleitorado, por vezes mais de metade, não se interessa em votar. Para essas pessoas é indiferente o partido que esteja no governo ou mesmo a democracia representativa, mas ficarão muito descontentes com tudo o que lhes limite a privacidade. A palavra <em>liberdade</em> significa hoje a possibilidade fazer o que quiser durante os ócios na vida privada. Se as pessoas passarem assim os lazeres e se se sentirem <em>livres</em>, irão trabalhar, não digo com mais entusiasmo, mas com menos aborrecimento, o que lhes aumentará a intensidade no trabalho e até, eventualmente, a criatividade no trabalho, ambas componentes da mais-valia relativa. Portanto, um governo que procure restringir a privacidade está a dificultar o desenvolvimento da mais-valia relativa.</p>
<p>Por isso escrevi nesta segunda parte do ensaio: «Assim como, aparentemente, Xi Jinping pretende que o Estado execute os mesmos mecanismos executados pela concorrência entre empresas privadas, parece que também pretende obter os resultados da mais-valia relativa mantendo os trabalhadores num sistema disciplinar que até agora só tem conduzido à mais-valia absoluta. Porém, não creio possível que o Estado consiga alcançar os resultados da liberdade de organização dos trabalhadores, sem a liberdade de organização dos trabalhadores».</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Fernando Paz		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-792053</link>

		<dc:creator><![CDATA[Fernando Paz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Oct 2021 17:40:57 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=139867#comment-792053</guid>

					<description><![CDATA[Caro João Bernardo, você poderia falar mais sobre a última parte do último parágrafo do seu comentário? Muito obrigado. Forte abraço!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro João Bernardo, você poderia falar mais sobre a última parte do último parágrafo do seu comentário? Muito obrigado. Forte abraço!</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-791883</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Oct 2021 10:25:47 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=139867#comment-791883</guid>

					<description><![CDATA[Dom Quixote,

Na sua forma pura, os conceitos de mais-valia absoluta e mais-valia relativa referem-se a situações extremas. Ora, como ninguém consegue trabalhar vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, sem nunca comer, fica definido um limite físico que a mais-valia absoluta não pode atingir. Para aquém deste limite, no entanto, as formas extremas de mais-valia absoluta dependem de dois factores: 1) a capacidade de luta dos trabalhadores e 2) as condições físicas e psíquicas mínimas exigidas por cada processo de trabalho. É a partir daí que a mais-valia absoluta pode tender a assumir características de mais-valia relativa.

Portanto, para a compreensão dos processos económicos no seu conjunto e sobretudo no seu dinamismo, as duas formas da mais-valia devem ser consideradas como pólos de um campo, ordenando inumeráveis modalidades de articulação entre eles. Nomeadamente, numa perspectiva dinâmica, é essencial considerar que, assim como o limite físico da mais-valia absoluta a pressiona a assumir progressivamente algumas características de mais-valia relativa, também sucede que sistemas de trabalho surgidos como formas de mais-valia relativa se transformem, em comparação com o progresso entretanto verificado noutros sistemas de trabalho, em novos patamares de mais-valia absoluta. Pretendi analisar mais extensamente este campo complexo de inter-relações no livro &lt;em&gt;&lt;a href=&quot;https://archive.org/details/jb-ecs&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener nofollow ugc&quot;&gt;Economia dos Conflitos Socias&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;, por isso limito-me agora a esboçar as principais linhas de raciocínio.

No capitalismo a maquinaria surgiu sempre aos trabalhadores como uma libertação, fazendo, assim, parte intrínseca da mais-valia relativa. Foi o que sucedeu quando as máquinas a vapor dispensaram ou reduziram o esforço muscular. A etapa seguinte foi preenchida pelas máquinas eléctricas, que diminuíram mais ainda o esforço muscular e outros incómodos físicos. Vivemos hoje numa terceira etapa, em que a electrónica aboliu qualquer esforço muscular, concentrando a actividade física nos dedos e nos olhos, a tal ponto que tiveram de se generalizar os ginásios (ou academias, como dizem os brasileiros) para que a população não fique demasiado obesa.

Os &lt;em&gt;ludittes&lt;/em&gt; activos na Inglaterra do início do século XIX não se opunham a todas as máquinas, mas só às novas máquinas que simplificavam o trabalho e, por isso, dispensavam as suas aptidões de artesãos formados no sistema corporativo. Não foi um conflito dos trabalhadores contra as máquinas, mas um conflito entre os trabalhadores decorrentes das corporações pré-capitalistas e os trabalhadores formados no capitalismo. Estes conflitos e fricções entre os trabalhadores ligados às formas pré-capitalistas de produção e os trabalhadores formados pelo capitalismo podem observar-se de modo directo, sem a intervenção das máquinas, na história do movimento sindical americano.

A crítica à maquinaria — não a certo tipo de máquinas, mas às máquinas em geral — restringe-se hoje aos universitários de extrema-esquerda, que, evidentemente, não precisam de manejar enxadas e picaretas nem de trabalhar como serventes de pedreiro. Essa apologia do mundo rural de outrora é feita confortavelmente no teclado do computador. E vejam uma coisa curiosa. Eles bramam contra a maquinaria, mas não prescindem do computador e muito menos do telemóvel (celular, no Brasil), que são igualmente máquinas. Falam contra a maquinaria, mas ignoram a tabuada e, quando precisam de fazer contas, não as fazem de cabeça, mas no querido telemóvel. E quando usam o &lt;em&gt;copy &#038; paste&lt;/em&gt; nos trabalhos académicos, não se trata também de um recurso à maquinaria?

A extrema-esquerda, tal como está constituída hoje, faz-me lembrar os recreios das escolas, para as criancinhas poderem brincar à vontade nos intervalos das aulas. É o recreio indispensável à modalidade de mais-valia relativa assente na electrónica, que exige um grande esforço mental. Por isso duvido que as novas medidas de contenção individual, social e ideológica impostas por Xi Jinping, se se generalizarem, sejam compatíveis com o surto de mais-valia relativa que caracterizou a China nas últimas décadas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dom Quixote,</p>
<p>Na sua forma pura, os conceitos de mais-valia absoluta e mais-valia relativa referem-se a situações extremas. Ora, como ninguém consegue trabalhar vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, sem nunca comer, fica definido um limite físico que a mais-valia absoluta não pode atingir. Para aquém deste limite, no entanto, as formas extremas de mais-valia absoluta dependem de dois factores: 1) a capacidade de luta dos trabalhadores e 2) as condições físicas e psíquicas mínimas exigidas por cada processo de trabalho. É a partir daí que a mais-valia absoluta pode tender a assumir características de mais-valia relativa.</p>
<p>Portanto, para a compreensão dos processos económicos no seu conjunto e sobretudo no seu dinamismo, as duas formas da mais-valia devem ser consideradas como pólos de um campo, ordenando inumeráveis modalidades de articulação entre eles. Nomeadamente, numa perspectiva dinâmica, é essencial considerar que, assim como o limite físico da mais-valia absoluta a pressiona a assumir progressivamente algumas características de mais-valia relativa, também sucede que sistemas de trabalho surgidos como formas de mais-valia relativa se transformem, em comparação com o progresso entretanto verificado noutros sistemas de trabalho, em novos patamares de mais-valia absoluta. Pretendi analisar mais extensamente este campo complexo de inter-relações no livro <em><a href="https://archive.org/details/jb-ecs" target="_blank" rel="noopener nofollow ugc">Economia dos Conflitos Socias</a></em>, por isso limito-me agora a esboçar as principais linhas de raciocínio.</p>
<p>No capitalismo a maquinaria surgiu sempre aos trabalhadores como uma libertação, fazendo, assim, parte intrínseca da mais-valia relativa. Foi o que sucedeu quando as máquinas a vapor dispensaram ou reduziram o esforço muscular. A etapa seguinte foi preenchida pelas máquinas eléctricas, que diminuíram mais ainda o esforço muscular e outros incómodos físicos. Vivemos hoje numa terceira etapa, em que a electrónica aboliu qualquer esforço muscular, concentrando a actividade física nos dedos e nos olhos, a tal ponto que tiveram de se generalizar os ginásios (ou academias, como dizem os brasileiros) para que a população não fique demasiado obesa.</p>
<p>Os <em>ludittes</em> activos na Inglaterra do início do século XIX não se opunham a todas as máquinas, mas só às novas máquinas que simplificavam o trabalho e, por isso, dispensavam as suas aptidões de artesãos formados no sistema corporativo. Não foi um conflito dos trabalhadores contra as máquinas, mas um conflito entre os trabalhadores decorrentes das corporações pré-capitalistas e os trabalhadores formados no capitalismo. Estes conflitos e fricções entre os trabalhadores ligados às formas pré-capitalistas de produção e os trabalhadores formados pelo capitalismo podem observar-se de modo directo, sem a intervenção das máquinas, na história do movimento sindical americano.</p>
<p>A crítica à maquinaria — não a certo tipo de máquinas, mas às máquinas em geral — restringe-se hoje aos universitários de extrema-esquerda, que, evidentemente, não precisam de manejar enxadas e picaretas nem de trabalhar como serventes de pedreiro. Essa apologia do mundo rural de outrora é feita confortavelmente no teclado do computador. E vejam uma coisa curiosa. Eles bramam contra a maquinaria, mas não prescindem do computador e muito menos do telemóvel (celular, no Brasil), que são igualmente máquinas. Falam contra a maquinaria, mas ignoram a tabuada e, quando precisam de fazer contas, não as fazem de cabeça, mas no querido telemóvel. E quando usam o <em>copy &amp; paste</em> nos trabalhos académicos, não se trata também de um recurso à maquinaria?</p>
<p>A extrema-esquerda, tal como está constituída hoje, faz-me lembrar os recreios das escolas, para as criancinhas poderem brincar à vontade nos intervalos das aulas. É o recreio indispensável à modalidade de mais-valia relativa assente na electrónica, que exige um grande esforço mental. Por isso duvido que as novas medidas de contenção individual, social e ideológica impostas por Xi Jinping, se se generalizarem, sejam compatíveis com o surto de mais-valia relativa que caracterizou a China nas últimas décadas.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Dom Quixote		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/09/139867/#comment-791609</link>

		<dc:creator><![CDATA[Dom Quixote]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 Oct 2021 21:23:30 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=139867#comment-791609</guid>

					<description><![CDATA[João Bernardo,
A pergunta pode parecer desconexa com o artigo, mas gostaria de entender melhor a diferenciação do regime de mais-valia absoluta para o regime de mais-valia relativa. A diferenciação entre elas, da forma como é apresentada é como se a mais-valia absoluta estivesse fundamentada mais na brutalidade exploração da mais-valia. Nesse sentido, o desenvolvimento tecnológico (as maquinas, etc) tendem a diminuir essa intensidade de brutalidade no processo de exploração da mais-valia.
Mas, dentro dessa ótica, é possível também enquadrar essa diferenciação entre uma coisa e outra através de uma &quot;ideologia progressista&quot; dos gestores? Aqueles trabalhos onde oferecem maiores liberdades aos trabalhadores e, portanto, eles se sentem &quot;mais satisfeitos&quot; sem o advento de qualquer maquinário que auxilie no processo produtivo, poderiam ser enquandrados dentro da idéia do regime de mais-valia relativa, em oposição à brutalidade e à &quot;falta de liberdade&quot; de outras empresas - que seriam enquadradas na idéia do regime de mais-valia absoluta?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Bernardo,<br />
A pergunta pode parecer desconexa com o artigo, mas gostaria de entender melhor a diferenciação do regime de mais-valia absoluta para o regime de mais-valia relativa. A diferenciação entre elas, da forma como é apresentada é como se a mais-valia absoluta estivesse fundamentada mais na brutalidade exploração da mais-valia. Nesse sentido, o desenvolvimento tecnológico (as maquinas, etc) tendem a diminuir essa intensidade de brutalidade no processo de exploração da mais-valia.<br />
Mas, dentro dessa ótica, é possível também enquadrar essa diferenciação entre uma coisa e outra através de uma &#8220;ideologia progressista&#8221; dos gestores? Aqueles trabalhos onde oferecem maiores liberdades aos trabalhadores e, portanto, eles se sentem &#8220;mais satisfeitos&#8221; sem o advento de qualquer maquinário que auxilie no processo produtivo, poderiam ser enquandrados dentro da idéia do regime de mais-valia relativa, em oposição à brutalidade e à &#8220;falta de liberdade&#8221; de outras empresas &#8211; que seriam enquadradas na idéia do regime de mais-valia absoluta?</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
	</channel>
</rss>
