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	Comentários sobre: Sobre o romance	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Jan Cenek		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/11/140787/#comment-805048</link>

		<dc:creator><![CDATA[Jan Cenek]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Nov 2021 00:43:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Adriano, obrigado pelo comentário. Também gosto bastante de reflexões sobre o romance.

Depois do envio da coluna acima li um livro interessante, Sonhos da periferia. O autor, Sergio Miceli, compara a intelectualidade argentina à brasileira nas primeiras décadas do século XX. O argumento é que no Brasil “foi se configurando um regime de cooptação pelo Estado”. Enquanto na Argentina a intelectualidade foi financiada pelo mecenato privado. Borges, por exemplo, começou a ganhar destaque na Revista SUR, que era subsidiada pela burguesia argentina, que, por sua vez, se sentia muito mais próxima das burguesias europeias do que das questões sociais, políticas e existenciais presentes no próprio país. Daí certa tendência à arte pela arte, ou coisa do tipo. Sergio Miceli não vai por esse caminho, mas me ocorreu e talvez seja uma possibilidade para se pensar: até que ponto a implicância de Borges com o romance tem a ver com o distanciamento das questões sociais, políticas e existenciais do povo argentino, presente o mecenato privado que financiava a intelectualidade e no próprio Borges?

Outro ponto. No livro A arte do romance, no ensaio A herança depreciada de Cervantes, Kundera afirma: “não quero profetizar os caminhos futuros do romance, que ignoro totalmente; quero somente dizer que, se o romance tem de desaparecer realmente, não é porque esteja no fim de suas forças, mas porque se encontra em um mundo que não é mais o seu.” Ou seja, ao contrário de Borges, Kundera reafirma a potência do romance. Mas o que seria, para o escritor tcheco, um mundo que não é mais o do romance, essa “sabedoria da incerteza”? Seria um mundo de certezas absolutas, precisaria ser totalitário a ponto de substituir totalmente o “riso do demônio” (de desaprovação) pelo “riso dos anjos” (de aprovação), teria que eliminar a necessidade de explorar grandes temas da existência, precisaria integrar a ponto de esconder a eterna ambiguidade da vida. Difícil imaginar que afundaremos tanto assim.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Adriano, obrigado pelo comentário. Também gosto bastante de reflexões sobre o romance.</p>
<p>Depois do envio da coluna acima li um livro interessante, Sonhos da periferia. O autor, Sergio Miceli, compara a intelectualidade argentina à brasileira nas primeiras décadas do século XX. O argumento é que no Brasil “foi se configurando um regime de cooptação pelo Estado”. Enquanto na Argentina a intelectualidade foi financiada pelo mecenato privado. Borges, por exemplo, começou a ganhar destaque na Revista SUR, que era subsidiada pela burguesia argentina, que, por sua vez, se sentia muito mais próxima das burguesias europeias do que das questões sociais, políticas e existenciais presentes no próprio país. Daí certa tendência à arte pela arte, ou coisa do tipo. Sergio Miceli não vai por esse caminho, mas me ocorreu e talvez seja uma possibilidade para se pensar: até que ponto a implicância de Borges com o romance tem a ver com o distanciamento das questões sociais, políticas e existenciais do povo argentino, presente o mecenato privado que financiava a intelectualidade e no próprio Borges?</p>
<p>Outro ponto. No livro A arte do romance, no ensaio A herança depreciada de Cervantes, Kundera afirma: “não quero profetizar os caminhos futuros do romance, que ignoro totalmente; quero somente dizer que, se o romance tem de desaparecer realmente, não é porque esteja no fim de suas forças, mas porque se encontra em um mundo que não é mais o seu.” Ou seja, ao contrário de Borges, Kundera reafirma a potência do romance. Mas o que seria, para o escritor tcheco, um mundo que não é mais o do romance, essa “sabedoria da incerteza”? Seria um mundo de certezas absolutas, precisaria ser totalitário a ponto de substituir totalmente o “riso do demônio” (de desaprovação) pelo “riso dos anjos” (de aprovação), teria que eliminar a necessidade de explorar grandes temas da existência, precisaria integrar a ponto de esconder a eterna ambiguidade da vida. Difícil imaginar que afundaremos tanto assim.</p>
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		<title>
		Por: Adriano		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/11/140787/#comment-804573</link>

		<dc:creator><![CDATA[Adriano]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Nov 2021 05:29:36 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[São sempre muito gostosas essas reflexões sobre o Romance, Jan Cenek. Forma lliterária consolidada que tem seu momento histórico próprio, penso que o Romance deve permanecer como memória e testemunho do tempo. Mas, desaparecido o capitalismo, acredito que, mais que memória e testemunho do tempo em museus do futuro, o Romance seja praticado ainda com propriedade como lugar de um novo tempo, então sem a velocidade das metas de produtividade que só não ultrapassa a brevidade do conto, a despeito do gigantismo de Borges e outros mestres (é bom levar em conta as idiossincrasias de Borges, que durante muito tempo rejeitou Cervantes e seu Dom Quixote sem um bom argumento). Os cortes e enxugamentos de Rulfo e Graciliano são como o cinzel que talha o mármore no trabalho lento do escultor, e não abreviação ou encurtamento da linguagem romanesca. Milan Kundera, em &quot;A lentidão&quot;, citando o romancista Vivant Denon, descreve a produção da memória como o florescer de um tempo que corre devagar na obra do setecentista. Superada a forma capitalista e suas metas de produtividade, o homem pode recuperar algo que perdeu e que ficou como um &quot;negativo&quot; no balanço das perdas e ganhos, como o que ficou como essa doce memória da infância dos princípios da civilização citada por Marx. Se isso vai de encontro às esperanças de Borges quanto à recuperação da forma épica, é algo muito mais específico e, portanto, muito mais difícil dizer.

De essência empírico-analítica, filho do seculo XX, o romance kunderiano me parece ser a forma romanesca adequada ao espírito do tempo. Ainda que o tempo mude, o Romance é um camaleão.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>São sempre muito gostosas essas reflexões sobre o Romance, Jan Cenek. Forma lliterária consolidada que tem seu momento histórico próprio, penso que o Romance deve permanecer como memória e testemunho do tempo. Mas, desaparecido o capitalismo, acredito que, mais que memória e testemunho do tempo em museus do futuro, o Romance seja praticado ainda com propriedade como lugar de um novo tempo, então sem a velocidade das metas de produtividade que só não ultrapassa a brevidade do conto, a despeito do gigantismo de Borges e outros mestres (é bom levar em conta as idiossincrasias de Borges, que durante muito tempo rejeitou Cervantes e seu Dom Quixote sem um bom argumento). Os cortes e enxugamentos de Rulfo e Graciliano são como o cinzel que talha o mármore no trabalho lento do escultor, e não abreviação ou encurtamento da linguagem romanesca. Milan Kundera, em &#8220;A lentidão&#8221;, citando o romancista Vivant Denon, descreve a produção da memória como o florescer de um tempo que corre devagar na obra do setecentista. Superada a forma capitalista e suas metas de produtividade, o homem pode recuperar algo que perdeu e que ficou como um &#8220;negativo&#8221; no balanço das perdas e ganhos, como o que ficou como essa doce memória da infância dos princípios da civilização citada por Marx. Se isso vai de encontro às esperanças de Borges quanto à recuperação da forma épica, é algo muito mais específico e, portanto, muito mais difícil dizer.</p>
<p>De essência empírico-analítica, filho do seculo XX, o romance kunderiano me parece ser a forma romanesca adequada ao espírito do tempo. Ainda que o tempo mude, o Romance é um camaleão.</p>
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