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	Comentários sobre: Marighella e o cinema sem tempo	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: José Abrahão Castillero		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2021/11/140995/#comment-813649</link>

		<dc:creator><![CDATA[José Abrahão Castillero]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Nov 2021 15:16:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Pablo. A esquerda poderia manter a razão? Poderia. Pelos mesmos motivos que você colocou no seu comentário. Mas nesse parágrafo aqui embaixo, acho que fui feliz explicando que ela perdeu o debate com o fascismo ao pensar que combater isso significa repetir os mesmos apelos estéticos e narrativos. talvez por que essa mesma esquerda se contenta em ser gestora do capital ao invés de  transformar as relações sociais de produção. Acho que nem se trata de transmitir valores de solidariedade e contestação, mas de colocar o problemas prático de forma sensível e concreta. Talvez uma situação de amor, família ou até um passeio com o cachorro poderia trazer narrativas mais profundas do que uma perspectiva reduzida a transmitir mensagens. O que chamaríamos de &quot;filme panfleto&quot;.

&quot;O problema do herói, não importando a vertente política que ele traga, é que ele não oferece um debate concreto sobre os problemas cotidianos dos trabalhadores. Traz uma fuga deles, bastante prazerosa inclusive. Logo, se alguns setores da esquerda pensam que podem usar essa alegoria como meio de transmissão de propostas políticas, isso mostra a ilusão com a mobilização social que pretende levar debates supostamente maiores para os menores, que afligem a massa do público espectador. Podem trazer uma tendência de verticalização que existe nesse setor, porém o apelo popular é forte, pelo sucesso que essas narrativas trazem. Há formas de trabalhar narrativas que superem essa lógica? Já houve o “herói multidão” de Sergei Eisenstein, quando se trata de narrativa rápida numa mensagem política. Porém, há muitos filmes que trazem adaptações dessa jornada, mesmo com foco em protagonistas individuais, mas que trabalham uma questão rica e criativa da nossa realidade social. Em termos de entrar no debate com o fascismo, podemos lembrar de Eles não usam Black Tie de Gianfrancesco Guarnieri no roteiro, onde mostra um grupo de famílias de operários, cujo drama é a tensão econômica de criar filhos, sustentar a vida, com a exploração de uma fábrica, debates entre sindicalistas e mobilizações grevistas. A prática da delação de alguns deles, trazida aqui como um elemento ambíguo e real, com a repressão de uma greve, mobilizada com dificuldade, pela conciliação do sindicato e pouca adesão da categoria, é um ambiente muito rico para debater as bases do fascismo durante a ditadura civil-militar. Isso é a dificuldade de mobilização diante de narrativas concretas, onde os protagonistas contam com suas próprias vidas para resolver. Outros que trazem boas discussões são A Queda e Os Fuzis, de Ruy Guerra, onde a violência e relações de classe são presentes. “O Homem que virou suco” também trazem uma boa discussão sobre o trabalhador precarizado sendo moído pela sociedade ao ser confundido com um homem rico e bem sucedido. Obras recentes, como Que horas ela volta?, Campo Grande e o Central do Brasil. Ou até o enigmático Manelão, Caçador de orelhas, de Ozualdo Candeias, um dos fundadores do movimento Cinema Marginal. Esses exemplos podem servir como narrativas simples, que debatem o fascismo no sentido de um movimento de capitulação da classe trabalhadora diante da exploração capitalista, que pode tomar proporções de paixão e apoio à repressão&quot;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pablo. A esquerda poderia manter a razão? Poderia. Pelos mesmos motivos que você colocou no seu comentário. Mas nesse parágrafo aqui embaixo, acho que fui feliz explicando que ela perdeu o debate com o fascismo ao pensar que combater isso significa repetir os mesmos apelos estéticos e narrativos. talvez por que essa mesma esquerda se contenta em ser gestora do capital ao invés de  transformar as relações sociais de produção. Acho que nem se trata de transmitir valores de solidariedade e contestação, mas de colocar o problemas prático de forma sensível e concreta. Talvez uma situação de amor, família ou até um passeio com o cachorro poderia trazer narrativas mais profundas do que uma perspectiva reduzida a transmitir mensagens. O que chamaríamos de &#8220;filme panfleto&#8221;.</p>
<p>&#8220;O problema do herói, não importando a vertente política que ele traga, é que ele não oferece um debate concreto sobre os problemas cotidianos dos trabalhadores. Traz uma fuga deles, bastante prazerosa inclusive. Logo, se alguns setores da esquerda pensam que podem usar essa alegoria como meio de transmissão de propostas políticas, isso mostra a ilusão com a mobilização social que pretende levar debates supostamente maiores para os menores, que afligem a massa do público espectador. Podem trazer uma tendência de verticalização que existe nesse setor, porém o apelo popular é forte, pelo sucesso que essas narrativas trazem. Há formas de trabalhar narrativas que superem essa lógica? Já houve o “herói multidão” de Sergei Eisenstein, quando se trata de narrativa rápida numa mensagem política. Porém, há muitos filmes que trazem adaptações dessa jornada, mesmo com foco em protagonistas individuais, mas que trabalham uma questão rica e criativa da nossa realidade social. Em termos de entrar no debate com o fascismo, podemos lembrar de Eles não usam Black Tie de Gianfrancesco Guarnieri no roteiro, onde mostra um grupo de famílias de operários, cujo drama é a tensão econômica de criar filhos, sustentar a vida, com a exploração de uma fábrica, debates entre sindicalistas e mobilizações grevistas. A prática da delação de alguns deles, trazida aqui como um elemento ambíguo e real, com a repressão de uma greve, mobilizada com dificuldade, pela conciliação do sindicato e pouca adesão da categoria, é um ambiente muito rico para debater as bases do fascismo durante a ditadura civil-militar. Isso é a dificuldade de mobilização diante de narrativas concretas, onde os protagonistas contam com suas próprias vidas para resolver. Outros que trazem boas discussões são A Queda e Os Fuzis, de Ruy Guerra, onde a violência e relações de classe são presentes. “O Homem que virou suco” também trazem uma boa discussão sobre o trabalhador precarizado sendo moído pela sociedade ao ser confundido com um homem rico e bem sucedido. Obras recentes, como Que horas ela volta?, Campo Grande e o Central do Brasil. Ou até o enigmático Manelão, Caçador de orelhas, de Ozualdo Candeias, um dos fundadores do movimento Cinema Marginal. Esses exemplos podem servir como narrativas simples, que debatem o fascismo no sentido de um movimento de capitulação da classe trabalhadora diante da exploração capitalista, que pode tomar proporções de paixão e apoio à repressão&#8221;</p>
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		Por: Pablo		</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Pablo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Nov 2021 14:35:38 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Muitos pontos interessantes pra se pensar. Gostaria de articular os dois trechos abaixo: 

&quot;podemos lembrar que é no debate e na mobilização que o fascismo cresce. E nesse debate, a esquerda perdeu a razão. Isso não se resolve em obras de arte, mas é possível pensar em como através dos filmes seria possível ganhar um debate contra o fascismo.&quot;

&quot;talvez a disputa política para debater e mobilizar nessa arte seja a busca por uma estética que luta contra a compressão desse tempo&quot;

Só é possível com muitas reservas dizer que a esquerda perdeu a razão e que o fascismo cresce no debate e mobilização. O fascismo mobiliza, e dá foco à ação justamente obstruindo e fetichizando os debates, colocando-os de modo torto e superficial, imediatista e, negando a profundidade real das coisas, falso. Quando o fascismo cresce a esquerda não deixa de ter razão, apenas deixa de ter força material para ancorar sua razão em processos práticos, históricos e reais. Fica, então, com uma razão oca, abstrata, inerte e pouco atraente. A classe trabalhadora é pragmática, quer saber como vai comer, beber, dormir e sonhar (cultura e satisfação de desejos etc). Só deixa as necessidades em um plano de longo prazo após muita experimentação e trabalho político, e mesmo assim desde que o básico lhe esteja assegurado. Quando a política de esquerda não consegue assegurar essas necessidades, e a política fascista, sempre pragmática e imediatista, consegue, demonstra aptidão prática e força, por isso há a debandada para o fascismo. Quando a política de esquerda deixa de se ancorar em discursos pedindo sacrifícios e consegue se ancorar em práticas e processos de solidariedade real, apontando alternativas concretas que respondem a demandas imediatas (e não necessariamente as de longo prazo), há fortalecimento e maior apoio - e o fascismo perde seu lugar. Aqui podemos articular, então, o trecho sobre a disputa racional com o fascismo e o trecho sobre a arte lutar contra a compressão do tempo. Para entendermos isso é preciso trazer para a conversa a questão da crise capitalista ou, se não se quiser falar em crise, a questão das formas atuais de organização econômica e política do trabalho: trata-se de formas sociais que reforçam o individualismo em um cenário de expectativas políticas decrescentes, ou seja, se sonha menos e se quer menos (nada de narrativas épicas), pois o foco passa a estar na própria sobrevivência diante da barbárie. A compressão aqui é não apenas do tempo, mas também do espaço, um processo inerente ao desenvolvimento capitalista e que se reforça com a reestruturação produtiva toyotista e, depois, com a uberização e a gig economy. Qual resposta o fascismo nos dá a esse estado terrível de coisas? Fortalecimento de ferramentas práticas e imediatas para cada um lutar pelo que é ou deveria ser seu (imagem catalizadora: ter uma arma). Qual resposta a esquerda nos dá? Retorno a formas carcomidas de mediação de conflitos e negociações com base num aparato estatal repressivo e em colapso financeiro (imagem catalizadora: corrupção estatal e mimimis para quem quer facilidades em vez de ir à luta). A falência do sistema capitalista, no sentido de sua incapacidade de se colocar como processo civilizado e civilizatório, é percebida diariamente pela classe trabalhadora. Qual resposta o fascismo dá a isso? Abaixo o sistema, vamos quebrar tudo. E a esquerda? Vamos restaurar, vamos reformar o sistema e deixar tudo bonitinho. Há um sequestro da radicalidade antissistêmica pelo fascismo. A esquerda não perde a razão, ela deixa de ser esquerda e se torna uma esquerda moderada em tempos em que não cabe mais a moderação, uma esquerda que não é anticapitalista porque não constrói alternativas teóricas e práticas para os problemas vividos pela classe trabalhadora (quando constrói, o fascismo perde espaço, como vimos em recentes mobilização de entregadores etc). Mas tudo isso são questões políticas em sentido estrito, que não tocam na questão da estética e da capacidade da arte enfrentar o fascismo (ou &quot;vencer um debate&quot; com o fascismo). O autor focou no tema da estética &quot;que luta contra a compressão do tempo&quot;, o que imagino que esteja focado na questão da narrativa histórica e da arte engajada, conectada com o cotidiano da classe e capaz de expressá-lo esteticamente, pela mimesis. Mas me parece que a arte tem o poder de intervir de forma menos direta e menos &quot;científica&quot;, lutando contra o fascismo sempre que apresenta a beleza (e a vida) em sua multiplicidade e multiversalidade. O fascismo é inimigo da diversidade, da sensibilidade, da coletividade não-hierarquizada e do contraditório (apresentado sempre como um dualismo pobre e de solução simples), e eu arriscaria dizer que o fascismo é inimigo até mesma da &quot;complexidade&quot;, devido ao peso que a simplificação e &quot;redução&quot; (teórica e prática) ali assume, seja na política ou na estética. Me parece que a arte, sempre que potencializa valores antagônicos aos valores fascistas, combate o fascismo: à medida em que atua humanizando os homens, de modo a torná-los aptos a exercer os dois principais valores antifascistas: a alteridade e a solidariedade.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Muitos pontos interessantes pra se pensar. Gostaria de articular os dois trechos abaixo: </p>
<p>&#8220;podemos lembrar que é no debate e na mobilização que o fascismo cresce. E nesse debate, a esquerda perdeu a razão. Isso não se resolve em obras de arte, mas é possível pensar em como através dos filmes seria possível ganhar um debate contra o fascismo.&#8221;</p>
<p>&#8220;talvez a disputa política para debater e mobilizar nessa arte seja a busca por uma estética que luta contra a compressão desse tempo&#8221;</p>
<p>Só é possível com muitas reservas dizer que a esquerda perdeu a razão e que o fascismo cresce no debate e mobilização. O fascismo mobiliza, e dá foco à ação justamente obstruindo e fetichizando os debates, colocando-os de modo torto e superficial, imediatista e, negando a profundidade real das coisas, falso. Quando o fascismo cresce a esquerda não deixa de ter razão, apenas deixa de ter força material para ancorar sua razão em processos práticos, históricos e reais. Fica, então, com uma razão oca, abstrata, inerte e pouco atraente. A classe trabalhadora é pragmática, quer saber como vai comer, beber, dormir e sonhar (cultura e satisfação de desejos etc). Só deixa as necessidades em um plano de longo prazo após muita experimentação e trabalho político, e mesmo assim desde que o básico lhe esteja assegurado. Quando a política de esquerda não consegue assegurar essas necessidades, e a política fascista, sempre pragmática e imediatista, consegue, demonstra aptidão prática e força, por isso há a debandada para o fascismo. Quando a política de esquerda deixa de se ancorar em discursos pedindo sacrifícios e consegue se ancorar em práticas e processos de solidariedade real, apontando alternativas concretas que respondem a demandas imediatas (e não necessariamente as de longo prazo), há fortalecimento e maior apoio &#8211; e o fascismo perde seu lugar. Aqui podemos articular, então, o trecho sobre a disputa racional com o fascismo e o trecho sobre a arte lutar contra a compressão do tempo. Para entendermos isso é preciso trazer para a conversa a questão da crise capitalista ou, se não se quiser falar em crise, a questão das formas atuais de organização econômica e política do trabalho: trata-se de formas sociais que reforçam o individualismo em um cenário de expectativas políticas decrescentes, ou seja, se sonha menos e se quer menos (nada de narrativas épicas), pois o foco passa a estar na própria sobrevivência diante da barbárie. A compressão aqui é não apenas do tempo, mas também do espaço, um processo inerente ao desenvolvimento capitalista e que se reforça com a reestruturação produtiva toyotista e, depois, com a uberização e a gig economy. Qual resposta o fascismo nos dá a esse estado terrível de coisas? Fortalecimento de ferramentas práticas e imediatas para cada um lutar pelo que é ou deveria ser seu (imagem catalizadora: ter uma arma). Qual resposta a esquerda nos dá? Retorno a formas carcomidas de mediação de conflitos e negociações com base num aparato estatal repressivo e em colapso financeiro (imagem catalizadora: corrupção estatal e mimimis para quem quer facilidades em vez de ir à luta). A falência do sistema capitalista, no sentido de sua incapacidade de se colocar como processo civilizado e civilizatório, é percebida diariamente pela classe trabalhadora. Qual resposta o fascismo dá a isso? Abaixo o sistema, vamos quebrar tudo. E a esquerda? Vamos restaurar, vamos reformar o sistema e deixar tudo bonitinho. Há um sequestro da radicalidade antissistêmica pelo fascismo. A esquerda não perde a razão, ela deixa de ser esquerda e se torna uma esquerda moderada em tempos em que não cabe mais a moderação, uma esquerda que não é anticapitalista porque não constrói alternativas teóricas e práticas para os problemas vividos pela classe trabalhadora (quando constrói, o fascismo perde espaço, como vimos em recentes mobilização de entregadores etc). Mas tudo isso são questões políticas em sentido estrito, que não tocam na questão da estética e da capacidade da arte enfrentar o fascismo (ou &#8220;vencer um debate&#8221; com o fascismo). O autor focou no tema da estética &#8220;que luta contra a compressão do tempo&#8221;, o que imagino que esteja focado na questão da narrativa histórica e da arte engajada, conectada com o cotidiano da classe e capaz de expressá-lo esteticamente, pela mimesis. Mas me parece que a arte tem o poder de intervir de forma menos direta e menos &#8220;científica&#8221;, lutando contra o fascismo sempre que apresenta a beleza (e a vida) em sua multiplicidade e multiversalidade. O fascismo é inimigo da diversidade, da sensibilidade, da coletividade não-hierarquizada e do contraditório (apresentado sempre como um dualismo pobre e de solução simples), e eu arriscaria dizer que o fascismo é inimigo até mesma da &#8220;complexidade&#8221;, devido ao peso que a simplificação e &#8220;redução&#8221; (teórica e prática) ali assume, seja na política ou na estética. Me parece que a arte, sempre que potencializa valores antagônicos aos valores fascistas, combate o fascismo: à medida em que atua humanizando os homens, de modo a torná-los aptos a exercer os dois principais valores antifascistas: a alteridade e a solidariedade.</p>
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