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	Comentários sobre: Mercantilização da autoconstrução e crise do trabalho	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Thiago Canettieri		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2022/03/142702/#comment-844713</link>

		<dc:creator><![CDATA[Thiago Canettieri]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 May 2022 13:54:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Gogol, obrigado pelo comentário. 

Eu não conhecia os textos do Charles Júnior (e, infelizmente, demorei muito para conseguir lê-los). De minha perspectiva, há um problema de fundo que é sintetizado por Postone, em Tempo, trabalho e dominação social. Valor, em Marx, não é exatamente uma “categoria econômica”. Ele utiliza-a criticamente, apropriando da formulação dos economistas clássicos, mas a dobra para uma perspectiva crítica. Por isso ele deve falar em forma-social contraditória. 

Charles está partindo aqui do trabalho do Mészáros, que é interessante, mas também insuficiente. Uma teoria das crises consequente é, a meu ver, mais bem desenvolvida por Robert Kurz, desde o “O colapso da modernização” até o “Dinheiro sem valor”.

E aqui, da minha perspectiva, essa teoria não é “incompatível com a lei do valor, nos termos colocados por Marx”, como você escreve - pelo contrário, acho muito mais coerente com os escritos de Marx - por exemplo, Marx, nos Grundrisse escreve:

“O seu próprio pressuposto – o valor – é posto como produto, e não como pressuposto superior, pairando sobre a produção. O limite do capital é que todo esse desenvolvimento procede de modo contraditório, e o aprimoramento das forças produtivas, da riqueza universal etc., do conhecimento etc., aparece de tal forma que o próprio indivíduo que trabalha se aliena [entäussert]; se relaciona às condições elaboradas a partir dele não como suas próprias condições, mas como condições de uma riqueza alheia e de sua própria pobreza” (2011, p.723)

No livro III d’O Capital, Marx escreve: “Um desenvolvimento das forças produtivas capaz de reduzir o número absoluto de trabalhadores, ou seja, em que toda a nação possa efetuar a produção total em um menor intervalo de tempo, provocaria uma revolução, pois inutilizaria a maior parte da população”

Um parêntese: o drama é que vivemos num mundo que “inutilizou” (e continua inutilizando) parte da população sem que isso produza qualquer revolução.

Isso porque, em Marx, a reprodução ampliada do capital é necessariamente contraditória. Ver, por exemplo, o capítulo XXIII do Livro I, d’O Capital: por uma necessidade intrínseca à própria reprodução do capital, o trabalho é substituído por máquinas. Nesse processo, entretanto, coloca limites intransponíveis à valorização do valor. Por isso há uma tendência de “anacronismo” do valor como forma social - e, a meu ver, essa intuição já está dada em Marx. O aumento da composição orgânica do capital acaba bloqueando a valorização do valor. Se a substância do capital é o valor, e o valor é uma forma historicamente determinada de mediação social baseada no trabalho (entendido enquanto uma categoria moderna), então, o próprio capital entra em colapso.

 Há nesses textos elementos que corroboram com o desenvolvimento de uma crise. Mais recentemente, há o esforço do Fábio Pitta para uma interpretação da “bolha de commodities” ou o texto de Luiz Phillipe De Caux sobre o “definhamento da forma-jurídica” que acompanha o decaimento da forma valor. Há a dissertação de mestrado de Ana Sylvia Ribeiro (defendida na USP, orientando de Anselmo Alfredo) sobre o consumo ficcionalizado nas periferias.

Além disso, acho que a interpretação da crítica do valor oferece subsídios importantes para compreender a realidade para além dos “dados econômicos”. É uma teoria que ajuda a explicar não só a ficcionalização do capital (decorrente de sua dessubstancialização), mas ajuda a explicar a disseminação da violência, ajuda a explicar o levante do “novíssimo radicalismo de extrema direita”, entre outros processos sociais.

Parte dessas questões levantadas já respondem algumas das questões colocadas por Isadora, a quem agradeço enormemente a oportunidade do diálogo (que, com certeza, não se encerra aqui). 

Eu não sei se a dominância do capital portador de juros - em particular o capital fictício - permite falar em “valorização do valor”. Pois o que acontece é um “adiantamento” de mais-valor que não existe - a imagem que Kurz usa é de uma “fuga para frente”. Assim, não há acumulação “real”, mas apenas uma “simulação” de valorização, sustentada (sustentada?) Por montanhas de capital fictício”.

Como falei, o contexto de crise instaurada pelo desenvolvimento da contradição interna do capital produz esse sistema de crédito mundializado, empilhado e inflacionado, que camufla a derrocada da valorização do valor. Valorização financeira, para Kurz, não significa valorização do valor. Acho que é uma distinção pertinente para pensar uma série de desdobramentos.

Então, eu concordo com você que “o capital portador de juros passa a subsumir as relações sociais de maneira diversa daquela do capital industrial – a meu ver, dando outros contornos ao lugar da reprodução social, na medida em que a este capital servem corpos rentáveis, não necessariamente produtivos”. Entretanto, isso não significa valorização do valor, mas um outro tipo de sociabilidade de crise - e é preciso conceitualizar melhor o que isso significa.

Assim, acho que uma pauta para nossas próximas conversas (tomara que presenciais) deve ser o lugar do capital portador de juro. Acho que reside aqui nossa divergência na forma de ler o Marx.

Falar do “do fim de uma forma” e da “forma mais crua e mais bem acabada” não é, a meu ver, uma confusão. Como escreve Hegel no prefácio da Fenomenologia, é só no fim que uma coisa é o que é. Então, acho coerente afirmar que Marx estava sim reconhecendo com a formação do capital portador de juros uma dinâmica de colapso da forma-valor.

De toda forma, o debate segue em aberto. Uma oportunidade muito boa conseguir fazer isso que Brecht chamava de “pensar dentro de outras cabeças” - obrigado!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gogol, obrigado pelo comentário. </p>
<p>Eu não conhecia os textos do Charles Júnior (e, infelizmente, demorei muito para conseguir lê-los). De minha perspectiva, há um problema de fundo que é sintetizado por Postone, em Tempo, trabalho e dominação social. Valor, em Marx, não é exatamente uma “categoria econômica”. Ele utiliza-a criticamente, apropriando da formulação dos economistas clássicos, mas a dobra para uma perspectiva crítica. Por isso ele deve falar em forma-social contraditória. </p>
<p>Charles está partindo aqui do trabalho do Mészáros, que é interessante, mas também insuficiente. Uma teoria das crises consequente é, a meu ver, mais bem desenvolvida por Robert Kurz, desde o “O colapso da modernização” até o “Dinheiro sem valor”.</p>
<p>E aqui, da minha perspectiva, essa teoria não é “incompatível com a lei do valor, nos termos colocados por Marx”, como você escreve &#8211; pelo contrário, acho muito mais coerente com os escritos de Marx &#8211; por exemplo, Marx, nos Grundrisse escreve:</p>
<p>“O seu próprio pressuposto – o valor – é posto como produto, e não como pressuposto superior, pairando sobre a produção. O limite do capital é que todo esse desenvolvimento procede de modo contraditório, e o aprimoramento das forças produtivas, da riqueza universal etc., do conhecimento etc., aparece de tal forma que o próprio indivíduo que trabalha se aliena [entäussert]; se relaciona às condições elaboradas a partir dele não como suas próprias condições, mas como condições de uma riqueza alheia e de sua própria pobreza” (2011, p.723)</p>
<p>No livro III d’O Capital, Marx escreve: “Um desenvolvimento das forças produtivas capaz de reduzir o número absoluto de trabalhadores, ou seja, em que toda a nação possa efetuar a produção total em um menor intervalo de tempo, provocaria uma revolução, pois inutilizaria a maior parte da população”</p>
<p>Um parêntese: o drama é que vivemos num mundo que “inutilizou” (e continua inutilizando) parte da população sem que isso produza qualquer revolução.</p>
<p>Isso porque, em Marx, a reprodução ampliada do capital é necessariamente contraditória. Ver, por exemplo, o capítulo XXIII do Livro I, d’O Capital: por uma necessidade intrínseca à própria reprodução do capital, o trabalho é substituído por máquinas. Nesse processo, entretanto, coloca limites intransponíveis à valorização do valor. Por isso há uma tendência de “anacronismo” do valor como forma social &#8211; e, a meu ver, essa intuição já está dada em Marx. O aumento da composição orgânica do capital acaba bloqueando a valorização do valor. Se a substância do capital é o valor, e o valor é uma forma historicamente determinada de mediação social baseada no trabalho (entendido enquanto uma categoria moderna), então, o próprio capital entra em colapso.</p>
<p> Há nesses textos elementos que corroboram com o desenvolvimento de uma crise. Mais recentemente, há o esforço do Fábio Pitta para uma interpretação da “bolha de commodities” ou o texto de Luiz Phillipe De Caux sobre o “definhamento da forma-jurídica” que acompanha o decaimento da forma valor. Há a dissertação de mestrado de Ana Sylvia Ribeiro (defendida na USP, orientando de Anselmo Alfredo) sobre o consumo ficcionalizado nas periferias.</p>
<p>Além disso, acho que a interpretação da crítica do valor oferece subsídios importantes para compreender a realidade para além dos “dados econômicos”. É uma teoria que ajuda a explicar não só a ficcionalização do capital (decorrente de sua dessubstancialização), mas ajuda a explicar a disseminação da violência, ajuda a explicar o levante do “novíssimo radicalismo de extrema direita”, entre outros processos sociais.</p>
<p>Parte dessas questões levantadas já respondem algumas das questões colocadas por Isadora, a quem agradeço enormemente a oportunidade do diálogo (que, com certeza, não se encerra aqui). </p>
<p>Eu não sei se a dominância do capital portador de juros &#8211; em particular o capital fictício &#8211; permite falar em “valorização do valor”. Pois o que acontece é um “adiantamento” de mais-valor que não existe &#8211; a imagem que Kurz usa é de uma “fuga para frente”. Assim, não há acumulação “real”, mas apenas uma “simulação” de valorização, sustentada (sustentada?) Por montanhas de capital fictício”.</p>
<p>Como falei, o contexto de crise instaurada pelo desenvolvimento da contradição interna do capital produz esse sistema de crédito mundializado, empilhado e inflacionado, que camufla a derrocada da valorização do valor. Valorização financeira, para Kurz, não significa valorização do valor. Acho que é uma distinção pertinente para pensar uma série de desdobramentos.</p>
<p>Então, eu concordo com você que “o capital portador de juros passa a subsumir as relações sociais de maneira diversa daquela do capital industrial – a meu ver, dando outros contornos ao lugar da reprodução social, na medida em que a este capital servem corpos rentáveis, não necessariamente produtivos”. Entretanto, isso não significa valorização do valor, mas um outro tipo de sociabilidade de crise &#8211; e é preciso conceitualizar melhor o que isso significa.</p>
<p>Assim, acho que uma pauta para nossas próximas conversas (tomara que presenciais) deve ser o lugar do capital portador de juro. Acho que reside aqui nossa divergência na forma de ler o Marx.</p>
<p>Falar do “do fim de uma forma” e da “forma mais crua e mais bem acabada” não é, a meu ver, uma confusão. Como escreve Hegel no prefácio da Fenomenologia, é só no fim que uma coisa é o que é. Então, acho coerente afirmar que Marx estava sim reconhecendo com a formação do capital portador de juros uma dinâmica de colapso da forma-valor.</p>
<p>De toda forma, o debate segue em aberto. Uma oportunidade muito boa conseguir fazer isso que Brecht chamava de “pensar dentro de outras cabeças” &#8211; obrigado!</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Daniel Giavarotti		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2022/03/142702/#comment-841213</link>

		<dc:creator><![CDATA[Daniel Giavarotti]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Apr 2022 19:04:47 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=142702#comment-841213</guid>

					<description><![CDATA[Olá Isa, boa tarde;
Peço desculpas pela demora em responder sua réplica ao meu texto, mas como desconfio que, como eu, você concorde que o esforço de reflexão e crítica não tem nas redes sociais o seu melhor veículo, embora seja incontornável ao debate, considerei que tal demora não seria exatamente um problema.
Como já dito por você, compartilhamos de um mesmo ponto de partida, qual seja: de que os territórios periféricos metropolitanos já não são os mesmos e que suas transformações podem ser observadas à luz das transformações no mundo do trabalho, ou nos meus termos, na mobilidade do trabalho. Pelo que entendo, talvez estejamos de acordo também de que diante de tais mudanças se faz necessária uma reconsideração crítica dos termos pelos quais hoje se dá a relação entre periferia, trabalho e acumulação de capital. E este movimento do pensamento está evidente quando busca considerar as imbricações da esfera produtiva e reprodutiva em contexto urbano, superando a estrita separação entre produção e reprodução e sua relação com a acumulação de capital. Neste sentido, eu compreendo perfeitamente sua primeira crítica à ideia exposta por mim de que a “subsunção real da viração” implicaria na constituição de uma “indústria a céu aberto”. Entretanto, o meu uso desta expressão buscava explicitar algo que me parece estar subjacente ao seu próprio argumento. Do modo como vejo, a expressão “subsunção real da viração” trai o seu próprio modo de compreender o processo analisado na medida em que esta ideia envolve transformações qualitativas nos processos concretos de trabalho de modo a garantir maiores taxas de exploração pela redução da entropia. Daí o uso da expressão “indústria a céu aberto”, já que o que está pressuposto é de que estaríamos testemunhando estritamente capitais altamente concentrados, centralizando trabalhadores sob seu poder despótico (na forma de empresas plataforma) e arrochando cada vez mais o parafuso do controle e da gestão do trabalho de modo a sugar mais mais-trabalho. Todavia, como você mesmo disse aqui, não é mais-valia, é renda, portanto um tributo cobrado pelo aluguel de capital aos trabalhadores, por exemplo na forma do endividamento. Portanto, se estamos mesmo vendo um processo de extrativismo, qual o sentido da expressão “subsunção real da viração”? Acho que a expressão traz mais problemas para o entendimento do processo. Eu acho mesmo que a gestão promovida pelas empresas plataforma tem mais cara de “biopolítica” ou “necropolítica” do que exploração do trabalho, embora a finalidade fetichista de fazer de um “dinheiro dois dinheiros” permaneça como fundamento da reprodução econômica e, portanto, o desenvolvimento tecnológico e as formas de gestão e controle do trabalho permaneçam operantes, mesmo que girando em falso, do ponto de vista da acumulação do capital. 
Entretanto, percebo ainda que este problema é rebatido no uso que você faz da tese das contratendências do capital. Do modo como compreendo, este momento do texto do Marx busca discutir os expedientes pelos quais os custos envolvidos nos processos produtivos (na forma de matérias-primas, meios de produção, força de trabalho, capital alugado) podem ser rebaixados de modo a contraarrestar a queda tendencial da taxa de lucro. Mas se, como você afirma, o que está em jogo na forma atual de circulação dos fluxos financeiros é o modo como eles se capilarizam na vida social e extraem rendas (mediados pela propriedade deste capital) como é que a teoria das contratendências ajuda a compreender este processo que, do modo como você compreende e eu também, é de distribuição da mais-valia? Ademais, e neste ponto eu estou de acordo com você de que temos uma discordância: a modernização, no modo como compreendo, é um processo linear, mas não sem rupturas. Ele é “linear” pois envolve um processo imparável de desenvolvimento das forças produtivas (o algoritmo que gere o trabalho dos motofretistas é filho do mesmo conhecimento responsável por construir os robôs que substituem o trabalho vivo nos processos produtivos) e a queda tendencial da taxa de lucro é a forma fenomênica (econômica, num sentido economicista) do aumento da composição orgânica dos capitais. É este o nível da reprodução do capital que indica a crise do trabalho, sendo a queda tendencial apenas um fenômeno econômico daquela, como formulou Moishe Postone.    
Por fim, não sei se compreendo a réplica que você me faz com relação ao “trabalho socialmente necessário”. No modo como compreendo, o trabalho socialmente necessário é necessário do ponto de vista do capital, da necessidade de acumulação, embora esta esteja em crise, o que faz aquele desaparecer. Até porque a crise não se revela na contabilidade das empresas. Estas, ao contrário, como demonstrou o Marx, apagam a crise ao igualar capital constante e capital variável. Se a substituição de motofrestistas por drones e outras parafernálias aparecem ao capital individual (e “na consciência constumeira dos agentes da produção”) como diminuição de custos, ela será levada adiante, muito embora este seja mais um aprofundamento da crise do trabalho, ao engrossar a fileira da superfluidade. E neste sentido, independe se é o trabalho industrial (produtor de coisas materiais) ou na esfera da circulação (imateriais), pois a acumulação se funda no trabalho abstrato, à revelia de sua materialidade. (o que não significa que todo o trabalho seja produtor de mais-valia). No modo como compreendo a dinâmica temporal do capital (Postone) o trabalho necessário sempre se torna supérfluo a cada novo salto produtivo, embora se recomponha fetichistamente como “trabalho necessário”, mesmo incapaz de garantir a acumulação de capital, que se torna fictícia por causa da expulsão do trabalho vivo. Quando digo que eu acho que você afirma uma concepção transhistórica do trabalho e supõe que todo o trabalho concreto se torne “trabalho socialmente necessário” meu intuito é explicitar que você desconsidera a diminuição absoluta e secular de trabalho vivo nos processos produtivos. Em outras palavras, desconsidera a própria dinâmica crítica do capital que serra o galho sobreo qual se assenta (o trabalho abstrato), o qual seria capaz de se recompor indefinidamente e, portanto, restaurar sua capacidade de exploração do trabalho.
Agradeço também o diálogo Isa! Continuemos!
Um forte abraço]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Olá Isa, boa tarde;<br />
Peço desculpas pela demora em responder sua réplica ao meu texto, mas como desconfio que, como eu, você concorde que o esforço de reflexão e crítica não tem nas redes sociais o seu melhor veículo, embora seja incontornável ao debate, considerei que tal demora não seria exatamente um problema.<br />
Como já dito por você, compartilhamos de um mesmo ponto de partida, qual seja: de que os territórios periféricos metropolitanos já não são os mesmos e que suas transformações podem ser observadas à luz das transformações no mundo do trabalho, ou nos meus termos, na mobilidade do trabalho. Pelo que entendo, talvez estejamos de acordo também de que diante de tais mudanças se faz necessária uma reconsideração crítica dos termos pelos quais hoje se dá a relação entre periferia, trabalho e acumulação de capital. E este movimento do pensamento está evidente quando busca considerar as imbricações da esfera produtiva e reprodutiva em contexto urbano, superando a estrita separação entre produção e reprodução e sua relação com a acumulação de capital. Neste sentido, eu compreendo perfeitamente sua primeira crítica à ideia exposta por mim de que a “subsunção real da viração” implicaria na constituição de uma “indústria a céu aberto”. Entretanto, o meu uso desta expressão buscava explicitar algo que me parece estar subjacente ao seu próprio argumento. Do modo como vejo, a expressão “subsunção real da viração” trai o seu próprio modo de compreender o processo analisado na medida em que esta ideia envolve transformações qualitativas nos processos concretos de trabalho de modo a garantir maiores taxas de exploração pela redução da entropia. Daí o uso da expressão “indústria a céu aberto”, já que o que está pressuposto é de que estaríamos testemunhando estritamente capitais altamente concentrados, centralizando trabalhadores sob seu poder despótico (na forma de empresas plataforma) e arrochando cada vez mais o parafuso do controle e da gestão do trabalho de modo a sugar mais mais-trabalho. Todavia, como você mesmo disse aqui, não é mais-valia, é renda, portanto um tributo cobrado pelo aluguel de capital aos trabalhadores, por exemplo na forma do endividamento. Portanto, se estamos mesmo vendo um processo de extrativismo, qual o sentido da expressão “subsunção real da viração”? Acho que a expressão traz mais problemas para o entendimento do processo. Eu acho mesmo que a gestão promovida pelas empresas plataforma tem mais cara de “biopolítica” ou “necropolítica” do que exploração do trabalho, embora a finalidade fetichista de fazer de um “dinheiro dois dinheiros” permaneça como fundamento da reprodução econômica e, portanto, o desenvolvimento tecnológico e as formas de gestão e controle do trabalho permaneçam operantes, mesmo que girando em falso, do ponto de vista da acumulação do capital.<br />
Entretanto, percebo ainda que este problema é rebatido no uso que você faz da tese das contratendências do capital. Do modo como compreendo, este momento do texto do Marx busca discutir os expedientes pelos quais os custos envolvidos nos processos produtivos (na forma de matérias-primas, meios de produção, força de trabalho, capital alugado) podem ser rebaixados de modo a contraarrestar a queda tendencial da taxa de lucro. Mas se, como você afirma, o que está em jogo na forma atual de circulação dos fluxos financeiros é o modo como eles se capilarizam na vida social e extraem rendas (mediados pela propriedade deste capital) como é que a teoria das contratendências ajuda a compreender este processo que, do modo como você compreende e eu também, é de distribuição da mais-valia? Ademais, e neste ponto eu estou de acordo com você de que temos uma discordância: a modernização, no modo como compreendo, é um processo linear, mas não sem rupturas. Ele é “linear” pois envolve um processo imparável de desenvolvimento das forças produtivas (o algoritmo que gere o trabalho dos motofretistas é filho do mesmo conhecimento responsável por construir os robôs que substituem o trabalho vivo nos processos produtivos) e a queda tendencial da taxa de lucro é a forma fenomênica (econômica, num sentido economicista) do aumento da composição orgânica dos capitais. É este o nível da reprodução do capital que indica a crise do trabalho, sendo a queda tendencial apenas um fenômeno econômico daquela, como formulou Moishe Postone.<br />
Por fim, não sei se compreendo a réplica que você me faz com relação ao “trabalho socialmente necessário”. No modo como compreendo, o trabalho socialmente necessário é necessário do ponto de vista do capital, da necessidade de acumulação, embora esta esteja em crise, o que faz aquele desaparecer. Até porque a crise não se revela na contabilidade das empresas. Estas, ao contrário, como demonstrou o Marx, apagam a crise ao igualar capital constante e capital variável. Se a substituição de motofrestistas por drones e outras parafernálias aparecem ao capital individual (e “na consciência constumeira dos agentes da produção”) como diminuição de custos, ela será levada adiante, muito embora este seja mais um aprofundamento da crise do trabalho, ao engrossar a fileira da superfluidade. E neste sentido, independe se é o trabalho industrial (produtor de coisas materiais) ou na esfera da circulação (imateriais), pois a acumulação se funda no trabalho abstrato, à revelia de sua materialidade. (o que não significa que todo o trabalho seja produtor de mais-valia). No modo como compreendo a dinâmica temporal do capital (Postone) o trabalho necessário sempre se torna supérfluo a cada novo salto produtivo, embora se recomponha fetichistamente como “trabalho necessário”, mesmo incapaz de garantir a acumulação de capital, que se torna fictícia por causa da expulsão do trabalho vivo. Quando digo que eu acho que você afirma uma concepção transhistórica do trabalho e supõe que todo o trabalho concreto se torne “trabalho socialmente necessário” meu intuito é explicitar que você desconsidera a diminuição absoluta e secular de trabalho vivo nos processos produtivos. Em outras palavras, desconsidera a própria dinâmica crítica do capital que serra o galho sobreo qual se assenta (o trabalho abstrato), o qual seria capaz de se recompor indefinidamente e, portanto, restaurar sua capacidade de exploração do trabalho.<br />
Agradeço também o diálogo Isa! Continuemos!<br />
Um forte abraço</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Isadora Guerreiro		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2022/03/142702/#comment-839806</link>

		<dc:creator><![CDATA[Isadora Guerreiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 18 Mar 2022 21:00:49 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=142702#comment-839806</guid>

					<description><![CDATA[Caro Daniel,

Primeiramente te agradeço pela disponibilidade de dialogar, principalmente em tempos tão castradores. Temos muito em comum no que tange à observação de que as periferias autoconstruídas não podem ser mais lidas da mesma maneira que na década de 1970; mais do que isso, entendemos ambos que suas transformações são parte orgânica das transformações no mundo do trabalho e da cada vez maior predominância do capital fictício, subsumindo a esfera produtiva. Nas minhas colunas, sempre busco trazer estas relações, contrapondo-me a visões que ou colocam o urbano como expressão simplória das relações sociais, substrato passivo, como um palco; ou ainda, do outro lado, visões internas ao urbanismo que acreditam que seria possível alterar relações sociais pelo redesenho abstrato do espaço. 

Dito isso, são necessários alguns comentários sobre seu texto. Primeiramente, acho importante problematizar a ideia do espaço urbano como uma “indústria a céu aberto”, espécie de chão de fábrica de um possível “novo ciclo de acumulação”. Primeiro porque o espaço urbano está muito longe de ser tão controlável e monofuncional como um chão de fábrica (capital fixo) – ainda que as plataformas se esforcem em tentar, através da manipulação algorítmica do controle dos corpos por meio do georreferenciamento. Segundo porque a lógica da uberização não é a lógica do capital produtivo. Não se trata de lucro (industrial), mas de reprodução financeira. Para esta, o que importa é a “produtividade” do fluxo, sua intensidade, e não a produção de mercadorias (ou serviços como mercadorias). Importa menos a produção de muitas mercadorias, mas o aumento das mediações por quais ela passa para se realizar – pois de todas estas mediações, são capturados partes do fluxo de capital de cada etapa. Importa a centralização e controle destes pequenos fluxos. Quanto mais mercadorias, melhor para aumentar os fluxos, não por conta dos lucros industriais alcançados especificamente em cada mercadoria, que são mínimos – um fenômeno da crise do trabalho, como você já expôs. 

Isso significa que quando falo de extrativismo, não estou falando de acumulação. Falo de uma forma dinâmica de captação, na qual importa saber gerenciar e centralizar fluxos, para redistribuí-los. É uma atividade rentista, não produtiva. Bem como as virações não podem ser entendidas como parte da esfera da produção (como o capital variável que gera mais-valia): trata-se de reprodução social, formas de sobrevivência que, atualmente, significam dar conta de pagar as dívidas no final do mês (da moto ao aluguel, do supermercado às prestações dos bens de consumo, e por aí vai). Isso não é “esteio da acumulação”, mas parte do processo contínuo (de crises) do capital que – talvez neste ponto eu discorde de você – não é uma linha reta rumo ao fim, mas um processo dinâmico constante de tendências e contratendências. Entendo que esse processo de uberização faz parte das contratendências, ou “causas contrariantes”, na acepção marxiana. Diz Marx (Capítulo XIV, Livro III) que elas são: elevação do grau de exploração do trabalho, compressão do salário abaixo de seu valor, barateamento dos elementos do capital constante, superpopulação relativa, comércio exterior e, por fim, aumento do capital por ações. Bom, a uberização é o combo de tudo isso junto!!

Por fim, não acho que qualquer atividade subsumida ao capital seja “trabalho socialmente necessário”. Pois “trabalho socialmente necessário” é “necessário” para o capital industrial (e não para o trabalhador), ou seja, um conceito que se aplica à produção de mercadorias, o que não é o caso aqui. Na uberização, o trabalho (vivo) não é necessário: tanto que traquitanas tecnológicas como drones e carros autônomos são a bola da vez. No caso do rentismo, importa o “fluxo financeiramente necessário”, no qual eu completaria “para contrarrestar a tendência de crise do capital”. Isso não tem nada a ver com “esteio da acumulação do capital”, mas com a distribuição (do que resta) dele, cada vez mais monopolista. 

Do ponto de vista dos trabalhadores, que já vivem na viração desde sempre no Brasil, o que mais importa é que, de fato, a subsunção não se dá mais apenas na esfera da produção, no momento da venda da força de trabalho – quando o trabalho tinha que ser “socialmente necessário”. Ela se dá também na esfera da reprodução social, por conta do endividamento. As pessoas são instadas a ter alguma atividade que lhe dê rendimentos (não digo “salário”, pois ainda não me convenci de que seja o caso). E neste ponto, retomamos a discussão do urbano e da autoconstrução. De outro patamar, evidentemente. Talvez o principal papel da uberização para o capital (enquanto totalidade) não seja a circulação de mercadorias e pessoas, mas sim a criação de endividamento, a impossibilidade de autopromover a reprodução social (como ocorreu na era industrial), pois não há tempo disponível que não seja tempo subsumido. E aqui temos uma fronteira política nova a enfrentar.

Obrigada pela possibilidade de diálogo, Daniel! Continuemos...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Daniel,</p>
<p>Primeiramente te agradeço pela disponibilidade de dialogar, principalmente em tempos tão castradores. Temos muito em comum no que tange à observação de que as periferias autoconstruídas não podem ser mais lidas da mesma maneira que na década de 1970; mais do que isso, entendemos ambos que suas transformações são parte orgânica das transformações no mundo do trabalho e da cada vez maior predominância do capital fictício, subsumindo a esfera produtiva. Nas minhas colunas, sempre busco trazer estas relações, contrapondo-me a visões que ou colocam o urbano como expressão simplória das relações sociais, substrato passivo, como um palco; ou ainda, do outro lado, visões internas ao urbanismo que acreditam que seria possível alterar relações sociais pelo redesenho abstrato do espaço. </p>
<p>Dito isso, são necessários alguns comentários sobre seu texto. Primeiramente, acho importante problematizar a ideia do espaço urbano como uma “indústria a céu aberto”, espécie de chão de fábrica de um possível “novo ciclo de acumulação”. Primeiro porque o espaço urbano está muito longe de ser tão controlável e monofuncional como um chão de fábrica (capital fixo) – ainda que as plataformas se esforcem em tentar, através da manipulação algorítmica do controle dos corpos por meio do georreferenciamento. Segundo porque a lógica da uberização não é a lógica do capital produtivo. Não se trata de lucro (industrial), mas de reprodução financeira. Para esta, o que importa é a “produtividade” do fluxo, sua intensidade, e não a produção de mercadorias (ou serviços como mercadorias). Importa menos a produção de muitas mercadorias, mas o aumento das mediações por quais ela passa para se realizar – pois de todas estas mediações, são capturados partes do fluxo de capital de cada etapa. Importa a centralização e controle destes pequenos fluxos. Quanto mais mercadorias, melhor para aumentar os fluxos, não por conta dos lucros industriais alcançados especificamente em cada mercadoria, que são mínimos – um fenômeno da crise do trabalho, como você já expôs. </p>
<p>Isso significa que quando falo de extrativismo, não estou falando de acumulação. Falo de uma forma dinâmica de captação, na qual importa saber gerenciar e centralizar fluxos, para redistribuí-los. É uma atividade rentista, não produtiva. Bem como as virações não podem ser entendidas como parte da esfera da produção (como o capital variável que gera mais-valia): trata-se de reprodução social, formas de sobrevivência que, atualmente, significam dar conta de pagar as dívidas no final do mês (da moto ao aluguel, do supermercado às prestações dos bens de consumo, e por aí vai). Isso não é “esteio da acumulação”, mas parte do processo contínuo (de crises) do capital que – talvez neste ponto eu discorde de você – não é uma linha reta rumo ao fim, mas um processo dinâmico constante de tendências e contratendências. Entendo que esse processo de uberização faz parte das contratendências, ou “causas contrariantes”, na acepção marxiana. Diz Marx (Capítulo XIV, Livro III) que elas são: elevação do grau de exploração do trabalho, compressão do salário abaixo de seu valor, barateamento dos elementos do capital constante, superpopulação relativa, comércio exterior e, por fim, aumento do capital por ações. Bom, a uberização é o combo de tudo isso junto!!</p>
<p>Por fim, não acho que qualquer atividade subsumida ao capital seja “trabalho socialmente necessário”. Pois “trabalho socialmente necessário” é “necessário” para o capital industrial (e não para o trabalhador), ou seja, um conceito que se aplica à produção de mercadorias, o que não é o caso aqui. Na uberização, o trabalho (vivo) não é necessário: tanto que traquitanas tecnológicas como drones e carros autônomos são a bola da vez. No caso do rentismo, importa o “fluxo financeiramente necessário”, no qual eu completaria “para contrarrestar a tendência de crise do capital”. Isso não tem nada a ver com “esteio da acumulação do capital”, mas com a distribuição (do que resta) dele, cada vez mais monopolista. </p>
<p>Do ponto de vista dos trabalhadores, que já vivem na viração desde sempre no Brasil, o que mais importa é que, de fato, a subsunção não se dá mais apenas na esfera da produção, no momento da venda da força de trabalho – quando o trabalho tinha que ser “socialmente necessário”. Ela se dá também na esfera da reprodução social, por conta do endividamento. As pessoas são instadas a ter alguma atividade que lhe dê rendimentos (não digo “salário”, pois ainda não me convenci de que seja o caso). E neste ponto, retomamos a discussão do urbano e da autoconstrução. De outro patamar, evidentemente. Talvez o principal papel da uberização para o capital (enquanto totalidade) não seja a circulação de mercadorias e pessoas, mas sim a criação de endividamento, a impossibilidade de autopromover a reprodução social (como ocorreu na era industrial), pois não há tempo disponível que não seja tempo subsumido. E aqui temos uma fronteira política nova a enfrentar.</p>
<p>Obrigada pela possibilidade de diálogo, Daniel! Continuemos&#8230;</p>
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