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	Comentários sobre: A Guerra na Ucrânia. 2. OTAN: natureza e historial, antes e depois de 1991	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Manolo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2022/05/143770/#comment-846673</link>

		<dc:creator><![CDATA[Manolo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Jun 2022 12:00:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Tratando do uso de fontes,Yves Coleman parte de uma posição, a meu ver, equivocada, posição aliás já expressa em outras ocasiões: a de que é necessário expor aos leitores uma espécie de &lt;em&gt;curriculum vitae&lt;/em&gt; de cada fonte ao citá-la, ou de negar-se a usar informações veiculadas por adversários políticos, mesmo quando corroboradas por outras fontes. A afirmação de Roland Dumas de que a OTAN “não avançaria nem um centímetro para o leste da Europa”, por exemplo, não diz respeito aos pontos que Yves Coleman aponta (antissemitismo, apoio a Saddam Hussein e Al-Assad pai e filho), mas a conversações diplomáticas entre governos europeus. Afirmação corroborada, além disso, por outros diplomatas, por registros de encontros diplomáticos internacionais, etc. Para os fins deste ensaio, de Roland Dumas basta saber-lhe o cargo --- o que, aliás, já diz muito. Do contrário, a seguir-se o que Yves Coleman indica, qualquer ensaio curto precisaria de enorme apêndice biobibliográfico, ou, alternativamente, basear-se-ia somente em fatos indicados por fontes &quot;autorizadas&quot;, deixando em aberto a questão de quem as &quot;autoriza&quot;.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tratando do uso de fontes,Yves Coleman parte de uma posição, a meu ver, equivocada, posição aliás já expressa em outras ocasiões: a de que é necessário expor aos leitores uma espécie de <em>curriculum vitae</em> de cada fonte ao citá-la, ou de negar-se a usar informações veiculadas por adversários políticos, mesmo quando corroboradas por outras fontes. A afirmação de Roland Dumas de que a OTAN “não avançaria nem um centímetro para o leste da Europa”, por exemplo, não diz respeito aos pontos que Yves Coleman aponta (antissemitismo, apoio a Saddam Hussein e Al-Assad pai e filho), mas a conversações diplomáticas entre governos europeus. Afirmação corroborada, além disso, por outros diplomatas, por registros de encontros diplomáticos internacionais, etc. Para os fins deste ensaio, de Roland Dumas basta saber-lhe o cargo &#8212; o que, aliás, já diz muito. Do contrário, a seguir-se o que Yves Coleman indica, qualquer ensaio curto precisaria de enorme apêndice biobibliográfico, ou, alternativamente, basear-se-ia somente em fatos indicados por fontes &#8220;autorizadas&#8221;, deixando em aberto a questão de quem as &#8220;autoriza&#8221;.</p>
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		<title>
		Por: Yves Coleman		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2022/05/143770/#comment-845198</link>

		<dc:creator><![CDATA[Yves Coleman]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 May 2022 20:10:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[É interessante que o autor cita os exemplos de Roland Dumas (um leal defensor do imperialismo francês e, além disso, um anti-semita) e... Adolf Hitler. Penso que ambos são suficientemente conhecidos dos leitores de Passa Palavra que, quando as suas palavras são citadas, o leitor não precisa de quaisquer explicações. Mas será que se pode imaginar um autor sério &quot;esquecendo-se&quot; de mencionar que Roland Dumas não foi unicamente  Ministro dos Negócios Estrangeiros, mas também um fervoroso defensor dos carrascos dos povos sírio e iraquiano, Saddam Hussein e Al-Assad pai e filho? Quanto a Hitler, se ele fosse um desconhecido, gostaria que alguém me explicasse as suas opiniões políticas e que não citasse os seus escritos como fontes dignas de interesse. Duvido que Olivier Berruyer seja internacionalmente conhecido no mundo de língua portuguesa. Assim, o meu problema não é citar reaccionários ou mesmo fascistas, mas dar aos leitores os meios para saberem qual é a tendência política do autor que estamos a citar e não o fazer parecer um amigo nosso quando ele é um inimigo de classe.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É interessante que o autor cita os exemplos de Roland Dumas (um leal defensor do imperialismo francês e, além disso, um anti-semita) e&#8230; Adolf Hitler. Penso que ambos são suficientemente conhecidos dos leitores de Passa Palavra que, quando as suas palavras são citadas, o leitor não precisa de quaisquer explicações. Mas será que se pode imaginar um autor sério &#8220;esquecendo-se&#8221; de mencionar que Roland Dumas não foi unicamente  Ministro dos Negócios Estrangeiros, mas também um fervoroso defensor dos carrascos dos povos sírio e iraquiano, Saddam Hussein e Al-Assad pai e filho? Quanto a Hitler, se ele fosse um desconhecido, gostaria que alguém me explicasse as suas opiniões políticas e que não citasse os seus escritos como fontes dignas de interesse. Duvido que Olivier Berruyer seja internacionalmente conhecido no mundo de língua portuguesa. Assim, o meu problema não é citar reaccionários ou mesmo fascistas, mas dar aos leitores os meios para saberem qual é a tendência política do autor que estamos a citar e não o fazer parecer um amigo nosso quando ele é um inimigo de classe.</p>
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		<title>
		Por: José Catarino Soares		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2022/05/143770/#comment-844371</link>

		<dc:creator><![CDATA[José Catarino Soares]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 May 2022 13:42:40 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=143770#comment-844371</guid>

					<description><![CDATA[Que posso eu fazer para dissipar as “impressões” e apaziguar as “irritações” que a leitura das duas primeiras partes do meu ensaio suscitarem em Y. Coleman? Nada, evidentemente. Não têm nada que ver, em bom rigor, com o assunto e a substância do meu texto que lhes servem de exutor. Seria como tentar provar que os anjos não têm sexo a alguém que nos diz de sobrolho franzido: “mas fica-se com impressão que você acredita nisso, porque todos os anjos têm nomes masculinos e você nunca põe isso em causa”. 

Espero, no entanto, que os leitores não se deixem intimidar pelas irritações censórias de Y. Coleman contra Olivier Berruyer. Se souberem francês e tiverem tempo, leiam os artigos deste autor que referenciei no meu ensaio. São uma mina de informações que não encontramos noutras fontes. Foram-me utilíssimos na escrita do meu ensaio “A Guerra na Ucrânia”.  

Foi Berruyer, por exemplo, quem traduziu para francês largos excertos do importante discurso que Boris Yeltsin proferiu em 5 de Dezembro de 1994, em Budapeste, durante a cimeira da CSCE [= Conference on Security and Cooperation in Europe, hoje Organization for Security and Co-operation in Europe (OSCE) = Organização para a Segurança e Cooperação na Europa]. Até então, esse discurso só existia em áudio e em russo — ou seja, era praticamente desconhecido do chamado “Ocidente”. Devemos também a Berruyer, entre muitos outros valiosos trabalhos jornalísticos e historiográficos, uma entrevista com Roland Dumas, o ministro dos Negócios Estrangeiros de François Mitterrand, em que Dumas confirma as garantias que foram dadas a Gorbachev por George Bush-pai, James Baker, François Mitterrand, Margaret Tatcher (e depois John Major) e Helmut Khol de que a OTAN “não avançaria nem um centímetro para o leste da Europa” (segundo a tersa formulação de Baker) depois da reunificação da Alemanha. Para «um nacionalista burguês francês, classicamente antiamericano e extremamente duvidoso do ponto de vista político» (Y. Coleman, ipse dixit), não é nada mau, digo eu. São factos como esses, que soam hoje como verdades grossas como punhos, que muitos gostariam de fazer desaparecer num “buraco da memória orwelliano” para poderem apresentar-se, hoje, como ardentes e virtuosos (mas amnésicos) defensores do “Ocidente” e da OTAN. Putin e a sua guerra preemptiva merecem todos os impropérios, mas não servem para ressuscitar a tese de um imperialismo benigno, ou mais benigno, que lhe faria frente. 

Por último, reflictamos nisto: o que seria a reconstituição dos factos históricos se só consultássemos e citássemos fontes e autores que compartilhassem a nossa mundovisão e que não nos irritassem?  Não poderíamos, por exemplo, ler “Mein  Kampf” de Adolf Hitler, para não nos irritarmos excessivamente. Alcançaríamos uma visão beatífica da história humana à custa de uma crassa ignorância.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Que posso eu fazer para dissipar as “impressões” e apaziguar as “irritações” que a leitura das duas primeiras partes do meu ensaio suscitarem em Y. Coleman? Nada, evidentemente. Não têm nada que ver, em bom rigor, com o assunto e a substância do meu texto que lhes servem de exutor. Seria como tentar provar que os anjos não têm sexo a alguém que nos diz de sobrolho franzido: “mas fica-se com impressão que você acredita nisso, porque todos os anjos têm nomes masculinos e você nunca põe isso em causa”. </p>
<p>Espero, no entanto, que os leitores não se deixem intimidar pelas irritações censórias de Y. Coleman contra Olivier Berruyer. Se souberem francês e tiverem tempo, leiam os artigos deste autor que referenciei no meu ensaio. São uma mina de informações que não encontramos noutras fontes. Foram-me utilíssimos na escrita do meu ensaio “A Guerra na Ucrânia”.  </p>
<p>Foi Berruyer, por exemplo, quem traduziu para francês largos excertos do importante discurso que Boris Yeltsin proferiu em 5 de Dezembro de 1994, em Budapeste, durante a cimeira da CSCE [= Conference on Security and Cooperation in Europe, hoje Organization for Security and Co-operation in Europe (OSCE) = Organização para a Segurança e Cooperação na Europa]. Até então, esse discurso só existia em áudio e em russo — ou seja, era praticamente desconhecido do chamado “Ocidente”. Devemos também a Berruyer, entre muitos outros valiosos trabalhos jornalísticos e historiográficos, uma entrevista com Roland Dumas, o ministro dos Negócios Estrangeiros de François Mitterrand, em que Dumas confirma as garantias que foram dadas a Gorbachev por George Bush-pai, James Baker, François Mitterrand, Margaret Tatcher (e depois John Major) e Helmut Khol de que a OTAN “não avançaria nem um centímetro para o leste da Europa” (segundo a tersa formulação de Baker) depois da reunificação da Alemanha. Para «um nacionalista burguês francês, classicamente antiamericano e extremamente duvidoso do ponto de vista político» (Y. Coleman, ipse dixit), não é nada mau, digo eu. São factos como esses, que soam hoje como verdades grossas como punhos, que muitos gostariam de fazer desaparecer num “buraco da memória orwelliano” para poderem apresentar-se, hoje, como ardentes e virtuosos (mas amnésicos) defensores do “Ocidente” e da OTAN. Putin e a sua guerra preemptiva merecem todos os impropérios, mas não servem para ressuscitar a tese de um imperialismo benigno, ou mais benigno, que lhe faria frente. </p>
<p>Por último, reflictamos nisto: o que seria a reconstituição dos factos históricos se só consultássemos e citássemos fontes e autores que compartilhassem a nossa mundovisão e que não nos irritassem?  Não poderíamos, por exemplo, ler “Mein  Kampf” de Adolf Hitler, para não nos irritarmos excessivamente. Alcançaríamos uma visão beatífica da história humana à custa de uma crassa ignorância.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Yves Coleman		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2022/05/143770/#comment-843940</link>

		<dc:creator><![CDATA[Yves Coleman]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 May 2022 09:58:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Olá, li os dois primeiros artigos. Renho a impressão de que o autor considera que se a Rússia tivesse sido admitida na OTAN, estaríamos a viver no melhor de todos os mundos. Se esta é a sua opinião (mas posso estar enganado), então não compreendo bem porque usa termos como capitalista, modo de produção capitalista, etc. Para quem usa sabiamente um vocabulário mais ou menos marxista, não é possível uma coexistência pacífica entre &quot;imperialismos&quot; ou mesmo &quot;superpoderes&quot; como a URSS (ou a Rússia) e os EUA. Lendo este artigo fica-se com a impressão de que a URSS e depois a Rússia têm sido estados pacíficos, sem objectivos expansionistas ou imperialistas, desde há um século. Se não for este o caso, se estes Estados utilizaram a força contra os seus vizinhos, exploraram os seus recursos naturais ou fizeram todo o possível para controlar estes recursos, então como podemos ignorar os interesses materiais do Estado soviético e depois do Estado russo nas suas relações com todos os seus Estados vizinhos? 
Outro ponto irritante: as referências sistemáticas a Olivier Berruyer, um indivíduo extremamente duvidoso de um ponto de vista político. É no mínimo um nacionalista burguês francês, classicamente antiamericano, que não tem nada a oferecer aos explorados.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Olá, li os dois primeiros artigos. Renho a impressão de que o autor considera que se a Rússia tivesse sido admitida na OTAN, estaríamos a viver no melhor de todos os mundos. Se esta é a sua opinião (mas posso estar enganado), então não compreendo bem porque usa termos como capitalista, modo de produção capitalista, etc. Para quem usa sabiamente um vocabulário mais ou menos marxista, não é possível uma coexistência pacífica entre &#8220;imperialismos&#8221; ou mesmo &#8220;superpoderes&#8221; como a URSS (ou a Rússia) e os EUA. Lendo este artigo fica-se com a impressão de que a URSS e depois a Rússia têm sido estados pacíficos, sem objectivos expansionistas ou imperialistas, desde há um século. Se não for este o caso, se estes Estados utilizaram a força contra os seus vizinhos, exploraram os seus recursos naturais ou fizeram todo o possível para controlar estes recursos, então como podemos ignorar os interesses materiais do Estado soviético e depois do Estado russo nas suas relações com todos os seus Estados vizinhos?<br />
Outro ponto irritante: as referências sistemáticas a Olivier Berruyer, um indivíduo extremamente duvidoso de um ponto de vista político. É no mínimo um nacionalista burguês francês, classicamente antiamericano, que não tem nada a oferecer aos explorados.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: José Catarino Soares		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2022/05/143770/#comment-843392</link>

		<dc:creator><![CDATA[José Catarino Soares]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 May 2022 10:03:07 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caro Fagner Henrique 
Temos algumas divergências teóricas sobre as quais, presumo, dificilmente chegaremos a acordo (embora eu não diga que seja impossível). E temos algumas divergências interpretativas dos factos pertinentes para a análise da guerra na Ucrânia que, presumo, poderemos, eventualmente, superar com mais facilidade.

1. Começo pelas divergências teóricas, porque elas têm repercussões nas divergências interpretativas no caso em apreço. Eu, efectivamente, diferencio o regime da Rússia dos regimes que vigoram nos EUA, no Canadá, na grande maioria dos países da Europa e, mais esparsamente, noutras partes do mundo (continentes, subcontinentes e ilhas). Mas não o faço nos termos em que você o faz [adopto esta forma de tratamento porque foi a que você escolheu e porque começo a dar-me conta que é comum na correspondência epistolar no Brasil, mesmo entre pessoas que nunca se viram], a saber: democracia iliberal versus democracia liberal. A distinção que faço é entre oligarquia electiva iliberal e oligarquia electiva liberal, que é uma coisa bem diferente. Como expliquei o significado que atribuo a estes termos na nota 6 desta segunda parte do meu ensaio, não sinto necessidade de repetir aqui o que disse nessa nota. Além disso, revisito essa distinção, acrescentando-lhe mais duas, conexas, numa nota da quarta e última parte do meu ensaio (a publicar). 

Acrescentarei apenas que, na minha análise (que desenvolvi noutros textos, publicados noutros sítios), a democracia não existe em parte nenhuma e em país nenhum do planeta. Se alguém pospuser “liberal” ou “parlamentar” ou “representativa” ou qualquer outro adjectivo à palavra “democracia” e me fizer a pergunta: «E a democracia [adjectivo posposto] existe?», responderei outra vez: «não». A democracia não precisa de nenhum desses adjectivos e não pode ser ofuscada por nenhum deles. Na fase actual da história da humanidade, em que o modo capitalista de produção industrial (MCP para abreviar) domina o mundo inteiro, a democracia só será conquistada se e quando for uma conquista da luta dos trabalhadores assalariados pela sua auto-emancipação económica e política, caso contrário nunca poderá vingar (por razões que aduzi nos textos já referidos).

Estas são as duas divergências teóricas que temos. Recapitulando: (1) sobre a caracterização dos regimes que vigoram, por exemplo, nos EUA e na maioria dos países da Europa, por um lado, e na Rússia, por outro lado. Para si são democracias [liberais vs. iliberais]; para mim são oligarquias electivas [liberais vs. iliberais]. Só estamos de acordo nos epítetos entre colchetes; (2) sobre a caracterização da democracia. Para si a democracia é uma conquista já realizada na generalidade dos países do Ocidente; para mim é uma conquista ainda não realizada, nem no Ocidente nem em parte nenhuma, e que só poderá ser alcançada pela luta de auto-emancipação económica e política dos trabalhadores assalariados.

2. Passo agora às divergências interpretativas dos factos em apreço. Por exemplo, eu  afirmei ⎼ como você diz e bem ⎼ que «o veto à admissão da Rússia na OTAN e na União Europeia não poderia ter sido motivado pelo modo de produção prevalecente na Rússia» /…/ porque «esse modo de produção é o modo de produção capitalista, o mesmo prevalecente nos Estados Unidos e na Europa ocidental». Mas eu não disse só isso e não disse ⎼ ao contrário do que você afirma ⎼ que isso só sucedeu «desde a desagregação da União Soviética». O que eu disse foi, coisa bem diferente, que «depois da reunificação da Alemanha, depois da dissolução do Pacto de Varsóvia e depois da dissolução da União Soviética todos os países da Europa passaram a ser regidos pelo MCP na sua versão canónica». Já tive ocasião de explicar (cf. nota 11 desta segunda parte do meu ensaio) o que entendo por “versão canónica do MCP” e por “versões não canónicas” do MCP. A versão canónica do MCP era a que vigorava e vigora, por exemplo, no Reino Unido, nos EUA, na França, e nos demais países da Europa ocidental. As versões não canónicas do MPC são as que vigoravam, por exemplo na ex-União Soviética e nos países do ex-Pacto de Varsóvia, ou a que vigorava, por exemplo, na ex-Jugoslávia, ou a que vigora em Cuba, por exemplo.

Assim sendo, um dos argumentos que a OTAN usou para responder com um &quot;não&quot; rotundo ao pedido de adesão da União Soviética que Khrushchev lhe fez, em 1954, caiu por terra com a dissolução da União Soviética. Desde os anos 1990 que deixou de ser possível às elites dirigentes dos países da OTAN e da União Europeia (UE) dizerem que a economia russa não é capitalista, mesmo que considerem que existe uma só forma de existência do MCP (aquela que apelidei de forma canónica) e que a economia da União Soviética não era uma forma ⎼ não canónica (como a apelidei aqui) ⎼ de MCP, mas uma economia ‘socialista’ ou ‘comunista’. No entanto, a Rússia, tal como União Soviética, nunca foi admitida na OTAN apesar dos pedidos insistentes de Ieltsin e de Putin de 1991 a 2007. 

Perguntemo-nos: porquê? Eu avancei uma resposta: porque uma facção da elite dirigente dos EUA entendeu e conseguiu levar por diante (contra a opinião de outra facção) a ideia de que, para os EUA manterem a OTAN e a sua presença e influência hegemónica na Europa, precisavam de  entronizar a Rússia como seu inimigo oficial na Europa, tal como fizeram outrora com a União Soviética. E porquê a Rússia e não outro país europeu qualquer — a Hungria, por exemplo? Pelas razões que você também reconheceu no seu comentário: a Rússia é o Estado com maior extensão territorial do planeta, possui riquezas naturais colossais, tem um poderio militar que rivaliza com o dos Estados Unidos e a sua elite dirigente nutre (tal como a dos EUA) as suas próprias pretensões de grande potência imperial e os seus próprios sonhos de grandeza. A elite dirigente dos EUA, depois de um período de luta interna (1994-1997), conclui que, do ponto de vista geopolítico (o quadro de análise favorito das elites dirigentes) a Rússia estava fadada para desempenhar o papel de seu inimigo estratégico na Europa e, na altura também, de seu inimigo estratégico principal no mundo (papel hoje concedido à China).

Já não o acompanho quando você diz que «a Rússia se colocou deliberadamente nessa posição [de inimigo], por mais que os discursos de Putin carreguem na vitimização do país no plano internacional». Essa asserção não tem qualquer fundamento factual até, pelo menos, 2007, como mostrei nas partes 1 e 2 do meu ensaio e que aprofundarei na parte 3. Também não o acompanho quando você diz que «não me parece despropositado que a Rússia seja vista como um inimigo» pela OTAN (cujo cabecilha são os EUA) e pela UE, porque «mantém relações íntimas com regimes autocráticos, **corrói a democracia interna e externamente**, é herdeira da tradição soviética de resolução de problemas econômicos por meios político-militares/…/que fazem-na entrar em choque com a União Europeia e a OTAN». 

Como se tudo o que você diz da Rússia não se aplicasse também, mutatis mutandis (substituindo ‘soviética’ por ‘yankee’, por exemplo) e ponto por ponto, às elites dirigentes dos EUA ou do Reino Unido ou da França, por exemplo ! Pense, por exemplo, na relação íntima da elite dirigente estado-unidense com o regime autocrático da Arábia Saudita; nos bombardeamentos dos EUA no Camboja, de 1965 a 1973, possivelmente os mais pesados da História (2.756.941 toneladas de bombas, totalizando 230.516 surtidas sobre 113.716 locais); no Laos, o país mais fortemente bombardeado do mundo per capita de 1964 a 1973 (270 milhões de bombas de fragmentação, 135 bombas por pessoa); no Vietnam, intensamente bombardeado com armas químicas, como o “napalm” e o agente laranja, de 1961 a 1971; na invasão do Iraque em 2003, etc. Para nos opormos eficazmente a Putin, ao seu governo e à sua guerra criminosa na Ucrânia precisamos de abandonar qualquer ilusão sobre os “valores” que a OTAN, Biden ou Charles Michel defendem. Estão bem uns para os outros!

3. Termino este comentário, regressando ao seu início. Assinalei com asteriscos um sintagma na última citação que fiz do seu comentário pela seguinte razão.  Como entendo que não existe democracia em país nenhum do planeta, tenho, para poder estar de acordo consigo nesse particular, de interpretar esse sintagma assim: «corrói as liberdades, os direitos, as garantias jurisdicionais e as instituições sociais que os trabalhadores assalariados conquistaram e construíram no seio da sociedade capitalista no decurso bissecular da sua luta pela auto-emancipação económica e política — luta que não terminou».]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Fagner Henrique<br />
Temos algumas divergências teóricas sobre as quais, presumo, dificilmente chegaremos a acordo (embora eu não diga que seja impossível). E temos algumas divergências interpretativas dos factos pertinentes para a análise da guerra na Ucrânia que, presumo, poderemos, eventualmente, superar com mais facilidade.</p>
<p>1. Começo pelas divergências teóricas, porque elas têm repercussões nas divergências interpretativas no caso em apreço. Eu, efectivamente, diferencio o regime da Rússia dos regimes que vigoram nos EUA, no Canadá, na grande maioria dos países da Europa e, mais esparsamente, noutras partes do mundo (continentes, subcontinentes e ilhas). Mas não o faço nos termos em que você o faz [adopto esta forma de tratamento porque foi a que você escolheu e porque começo a dar-me conta que é comum na correspondência epistolar no Brasil, mesmo entre pessoas que nunca se viram], a saber: democracia iliberal versus democracia liberal. A distinção que faço é entre oligarquia electiva iliberal e oligarquia electiva liberal, que é uma coisa bem diferente. Como expliquei o significado que atribuo a estes termos na nota 6 desta segunda parte do meu ensaio, não sinto necessidade de repetir aqui o que disse nessa nota. Além disso, revisito essa distinção, acrescentando-lhe mais duas, conexas, numa nota da quarta e última parte do meu ensaio (a publicar). </p>
<p>Acrescentarei apenas que, na minha análise (que desenvolvi noutros textos, publicados noutros sítios), a democracia não existe em parte nenhuma e em país nenhum do planeta. Se alguém pospuser “liberal” ou “parlamentar” ou “representativa” ou qualquer outro adjectivo à palavra “democracia” e me fizer a pergunta: «E a democracia [adjectivo posposto] existe?», responderei outra vez: «não». A democracia não precisa de nenhum desses adjectivos e não pode ser ofuscada por nenhum deles. Na fase actual da história da humanidade, em que o modo capitalista de produção industrial (MCP para abreviar) domina o mundo inteiro, a democracia só será conquistada se e quando for uma conquista da luta dos trabalhadores assalariados pela sua auto-emancipação económica e política, caso contrário nunca poderá vingar (por razões que aduzi nos textos já referidos).</p>
<p>Estas são as duas divergências teóricas que temos. Recapitulando: (1) sobre a caracterização dos regimes que vigoram, por exemplo, nos EUA e na maioria dos países da Europa, por um lado, e na Rússia, por outro lado. Para si são democracias [liberais vs. iliberais]; para mim são oligarquias electivas [liberais vs. iliberais]. Só estamos de acordo nos epítetos entre colchetes; (2) sobre a caracterização da democracia. Para si a democracia é uma conquista já realizada na generalidade dos países do Ocidente; para mim é uma conquista ainda não realizada, nem no Ocidente nem em parte nenhuma, e que só poderá ser alcançada pela luta de auto-emancipação económica e política dos trabalhadores assalariados.</p>
<p>2. Passo agora às divergências interpretativas dos factos em apreço. Por exemplo, eu  afirmei ⎼ como você diz e bem ⎼ que «o veto à admissão da Rússia na OTAN e na União Europeia não poderia ter sido motivado pelo modo de produção prevalecente na Rússia» /…/ porque «esse modo de produção é o modo de produção capitalista, o mesmo prevalecente nos Estados Unidos e na Europa ocidental». Mas eu não disse só isso e não disse ⎼ ao contrário do que você afirma ⎼ que isso só sucedeu «desde a desagregação da União Soviética». O que eu disse foi, coisa bem diferente, que «depois da reunificação da Alemanha, depois da dissolução do Pacto de Varsóvia e depois da dissolução da União Soviética todos os países da Europa passaram a ser regidos pelo MCP na sua versão canónica». Já tive ocasião de explicar (cf. nota 11 desta segunda parte do meu ensaio) o que entendo por “versão canónica do MCP” e por “versões não canónicas” do MCP. A versão canónica do MCP era a que vigorava e vigora, por exemplo, no Reino Unido, nos EUA, na França, e nos demais países da Europa ocidental. As versões não canónicas do MPC são as que vigoravam, por exemplo na ex-União Soviética e nos países do ex-Pacto de Varsóvia, ou a que vigorava, por exemplo, na ex-Jugoslávia, ou a que vigora em Cuba, por exemplo.</p>
<p>Assim sendo, um dos argumentos que a OTAN usou para responder com um &#8220;não&#8221; rotundo ao pedido de adesão da União Soviética que Khrushchev lhe fez, em 1954, caiu por terra com a dissolução da União Soviética. Desde os anos 1990 que deixou de ser possível às elites dirigentes dos países da OTAN e da União Europeia (UE) dizerem que a economia russa não é capitalista, mesmo que considerem que existe uma só forma de existência do MCP (aquela que apelidei de forma canónica) e que a economia da União Soviética não era uma forma ⎼ não canónica (como a apelidei aqui) ⎼ de MCP, mas uma economia ‘socialista’ ou ‘comunista’. No entanto, a Rússia, tal como União Soviética, nunca foi admitida na OTAN apesar dos pedidos insistentes de Ieltsin e de Putin de 1991 a 2007. </p>
<p>Perguntemo-nos: porquê? Eu avancei uma resposta: porque uma facção da elite dirigente dos EUA entendeu e conseguiu levar por diante (contra a opinião de outra facção) a ideia de que, para os EUA manterem a OTAN e a sua presença e influência hegemónica na Europa, precisavam de  entronizar a Rússia como seu inimigo oficial na Europa, tal como fizeram outrora com a União Soviética. E porquê a Rússia e não outro país europeu qualquer — a Hungria, por exemplo? Pelas razões que você também reconheceu no seu comentário: a Rússia é o Estado com maior extensão territorial do planeta, possui riquezas naturais colossais, tem um poderio militar que rivaliza com o dos Estados Unidos e a sua elite dirigente nutre (tal como a dos EUA) as suas próprias pretensões de grande potência imperial e os seus próprios sonhos de grandeza. A elite dirigente dos EUA, depois de um período de luta interna (1994-1997), conclui que, do ponto de vista geopolítico (o quadro de análise favorito das elites dirigentes) a Rússia estava fadada para desempenhar o papel de seu inimigo estratégico na Europa e, na altura também, de seu inimigo estratégico principal no mundo (papel hoje concedido à China).</p>
<p>Já não o acompanho quando você diz que «a Rússia se colocou deliberadamente nessa posição [de inimigo], por mais que os discursos de Putin carreguem na vitimização do país no plano internacional». Essa asserção não tem qualquer fundamento factual até, pelo menos, 2007, como mostrei nas partes 1 e 2 do meu ensaio e que aprofundarei na parte 3. Também não o acompanho quando você diz que «não me parece despropositado que a Rússia seja vista como um inimigo» pela OTAN (cujo cabecilha são os EUA) e pela UE, porque «mantém relações íntimas com regimes autocráticos, **corrói a democracia interna e externamente**, é herdeira da tradição soviética de resolução de problemas econômicos por meios político-militares/…/que fazem-na entrar em choque com a União Europeia e a OTAN». </p>
<p>Como se tudo o que você diz da Rússia não se aplicasse também, mutatis mutandis (substituindo ‘soviética’ por ‘yankee’, por exemplo) e ponto por ponto, às elites dirigentes dos EUA ou do Reino Unido ou da França, por exemplo ! Pense, por exemplo, na relação íntima da elite dirigente estado-unidense com o regime autocrático da Arábia Saudita; nos bombardeamentos dos EUA no Camboja, de 1965 a 1973, possivelmente os mais pesados da História (2.756.941 toneladas de bombas, totalizando 230.516 surtidas sobre 113.716 locais); no Laos, o país mais fortemente bombardeado do mundo per capita de 1964 a 1973 (270 milhões de bombas de fragmentação, 135 bombas por pessoa); no Vietnam, intensamente bombardeado com armas químicas, como o “napalm” e o agente laranja, de 1961 a 1971; na invasão do Iraque em 2003, etc. Para nos opormos eficazmente a Putin, ao seu governo e à sua guerra criminosa na Ucrânia precisamos de abandonar qualquer ilusão sobre os “valores” que a OTAN, Biden ou Charles Michel defendem. Estão bem uns para os outros!</p>
<p>3. Termino este comentário, regressando ao seu início. Assinalei com asteriscos um sintagma na última citação que fiz do seu comentário pela seguinte razão.  Como entendo que não existe democracia em país nenhum do planeta, tenho, para poder estar de acordo consigo nesse particular, de interpretar esse sintagma assim: «corrói as liberdades, os direitos, as garantias jurisdicionais e as instituições sociais que os trabalhadores assalariados conquistaram e construíram no seio da sociedade capitalista no decurso bissecular da sua luta pela auto-emancipação económica e política — luta que não terminou».</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
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		<title>
		Por: Fagner Enrique		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2022/05/143770/#comment-843253</link>

		<dc:creator><![CDATA[Fagner Enrique]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 May 2022 03:45:27 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=143770#comment-843253</guid>

					<description><![CDATA[Caro José Catarino,

Como você bem demonstra nas duas primeiras partes do artigo, houve um veto à entrada da Rússia, após a desagregação da União Soviética, tanto na OTAN quanto na União Europeia.

E você teve o cuidado de diferenciar o regime russo dos regimes prevalecentes no chamado Ocidente, quer dizer, a democracia liberal da democracia iliberal.

Entretanto, você argumenta que a existência de uma democracia iliberal na Rússia não é suficiente para explicar o veto ao seu ingresso na OTAN e na União Europeia, já que outros regimes semelhantes - e até uma ditadura fascista - lograram ser admitidos nessas organizações.

Porém, a Rússia não é apenas mais uma democracia iliberal. É um país continental e que dispõe de forças armadas e de um arsenal que rivaliza com o norte-americano, rivalidade esta que se verifica também do ponto de vista da corrida espacial, sobretudo nos últimos anos, com a associação entre know-how russo e capital chinês (ver https://www.nytimes.com/2021/06/15/world/asia/china-russia-space.html).

E é preciso levar em consideração ainda o projeto imperialista que guia a atuação da elite dirigente da Rússia.

Além do mais, a Rússia mantém fortes laços diplomáticos, militares e econômicos com países que, de um ponto de vista político e geopolítico, são inimigos declarados dos Estados Unidos e da Europa ocidental: ela herdou da União Soviética uma rede de relações com regimes que constituem uma verdadeira antítese à democracia liberal prevalecente nos Estados Unidos e na Europa ocidental.

Países como a Hungria de Orbán reúnem todas essas características? Para além de uma democracia iliberal, um poderio militar que rivaliza com o das potências ocidentais, um ambicioso projeto de expansão eurasiático, a capacidade de concorrer com o Ocidente no desenvolvimento de armamentos e na corrida espacial, uma ampla rede de relações com regimes ditatoriais, autocráticos etc.?

Por outro lado, você argumenta que o veto à admissão da Rússia na OTAN e na União Europeia não poderia ter sido motivado pelo modo de produção prevalecente na Rússia, pois desde a desagregação da União Soviética esse modo de produção é o modo de produção capitalista, o mesmo prevalecente nos Estados Unidos e na Europa ocidental.

Contudo, muito embora a economia russa tenha passado por um processo de relativa internacionalização e liberalização desde o fim da União Soviética, tudo indica que ainda subsiste um componente de forte dirigismo estatal, intimamente relacionado ao projeto imperial acima mencionado (ver a série de João Aguiar, em particular a 1ª parte https://passapalavra.info/2022/04/143037/). Por outro lado, a economia russa nunca deixou de ser capitalista: na época do “socialismo” soviético havia, de um lado, o capitalismo de Estado e, de outro, um escravismo de Estado ou metacapitalismo (ver o capítulo 5 da parte 2 do Labirintos do Fascismo, 3ª edição, do João Bernardo https://archive.org/details/jb-ldf-nedoedr/BERNARDO%2C%20Jo%C3%A3o.%20Labirintos%20do%20fascismo.%203%C2%AA%20edi%C3%A7%C3%A3o/). Usando um termo marxista clássico, na formação social soviética havia uma inter-relação entre dois modos de produção, um capitalista e outro metacapitalista, tendo a atual Rússia herdado da União Soviética um forte dirigismo estatal, intimamente relacionado a ambos os modos de produção.

Isso tudo contrasta fortemente com o capitalismo liberal assente no dinamismo da grande corporação transnacional ou multinacional, onde o totalitarismo empresarial convive lado a lado com a consolidação, ampliação e intensificação das liberdades democráticas, desde que as mobilizações populares não coloquem em causa a autoridade do Estado (é preciso canalizar o conflito social para dentro das instituições e disciplinar as manifestações de rua) ou a autoridade da burguesia e dos gestores (os capitalistas esforçam-se para converter as mobilizações autônomas do proletariado em instrumentos de produtividade). Ver, por exemplo, os livros Democracia Totalitária e Economia dos Conflitos Sociais, de João Bernardo.

Pois bem, o regime russo não tolera o dissenso e aprisiona, quando não elimina fisicamente, seus opositores políticos de maior projeção, obstando a disputa democrática e malogrando a alternância de poder. As manifestações de rua e intervenções culturais críticas ao regime são reprimidas. A imprensa livre constitui outro dos alvos do regime. Por outro lado, a Rússia não é particularmente conhecida por inovações nos quesitos tecnologia e produtividade, pelo menos não do ponto de vista da produção de bens de consumo e serviços. 

Enfim, parece-me que havia (e há) muitas razões, tanto gepolíticas como políticas e econômicas, para um veto à entrada da Rússia na OTAN e na União Europeia, devido a uma série de contrastes entre a Rússia e as democracias ocidentais, o que não se explica meramente por uma postura traiçoeira dos Estados Unidos e da Europa ocidental desrespeitando o compromisso de não expandirem a OTAN a leste, nem pela necessidade de eleger um inimigo.

Quer dizer, é possível afirmar que com a dissolução da União Soviética a Rússia, os Estados Unidos e a Europa ocidental tornaram-se verdadeiros aliados, com afinidades políticas, geopolíticas e econômicas concretas? Parece-me que não.

Para além do fato de a Rússia ser o maior Estado-nação do planeta e com um poderio militar que rivaliza com o dos Estados Unidos, ela mantém relações íntimas com regimes autocráticos, corrói a democracia interna e externamente, é herdeira da tradição soviética de resolução de problemas econômicos por meios político-militares e nutre, ademais, pretensões imperiais que fazem-na entrar em choque com a União Europeia e a OTAN.

Não me parece despropositado que seja vista como um inimigo. Parece-me, pelo contrário, que a Rússia se colocou deliberadamente nessa posição, por mais que os discursos de Putin carreguem na vitimização do país no plano internacional.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro José Catarino,</p>
<p>Como você bem demonstra nas duas primeiras partes do artigo, houve um veto à entrada da Rússia, após a desagregação da União Soviética, tanto na OTAN quanto na União Europeia.</p>
<p>E você teve o cuidado de diferenciar o regime russo dos regimes prevalecentes no chamado Ocidente, quer dizer, a democracia liberal da democracia iliberal.</p>
<p>Entretanto, você argumenta que a existência de uma democracia iliberal na Rússia não é suficiente para explicar o veto ao seu ingresso na OTAN e na União Europeia, já que outros regimes semelhantes &#8211; e até uma ditadura fascista &#8211; lograram ser admitidos nessas organizações.</p>
<p>Porém, a Rússia não é apenas mais uma democracia iliberal. É um país continental e que dispõe de forças armadas e de um arsenal que rivaliza com o norte-americano, rivalidade esta que se verifica também do ponto de vista da corrida espacial, sobretudo nos últimos anos, com a associação entre know-how russo e capital chinês (ver <a href="https://www.nytimes.com/2021/06/15/world/asia/china-russia-space.html" rel="nofollow ugc">https://www.nytimes.com/2021/06/15/world/asia/china-russia-space.html</a>).</p>
<p>E é preciso levar em consideração ainda o projeto imperialista que guia a atuação da elite dirigente da Rússia.</p>
<p>Além do mais, a Rússia mantém fortes laços diplomáticos, militares e econômicos com países que, de um ponto de vista político e geopolítico, são inimigos declarados dos Estados Unidos e da Europa ocidental: ela herdou da União Soviética uma rede de relações com regimes que constituem uma verdadeira antítese à democracia liberal prevalecente nos Estados Unidos e na Europa ocidental.</p>
<p>Países como a Hungria de Orbán reúnem todas essas características? Para além de uma democracia iliberal, um poderio militar que rivaliza com o das potências ocidentais, um ambicioso projeto de expansão eurasiático, a capacidade de concorrer com o Ocidente no desenvolvimento de armamentos e na corrida espacial, uma ampla rede de relações com regimes ditatoriais, autocráticos etc.?</p>
<p>Por outro lado, você argumenta que o veto à admissão da Rússia na OTAN e na União Europeia não poderia ter sido motivado pelo modo de produção prevalecente na Rússia, pois desde a desagregação da União Soviética esse modo de produção é o modo de produção capitalista, o mesmo prevalecente nos Estados Unidos e na Europa ocidental.</p>
<p>Contudo, muito embora a economia russa tenha passado por um processo de relativa internacionalização e liberalização desde o fim da União Soviética, tudo indica que ainda subsiste um componente de forte dirigismo estatal, intimamente relacionado ao projeto imperial acima mencionado (ver a série de João Aguiar, em particular a 1ª parte <a href="https://passapalavra.info/2022/04/143037/" rel="ugc">https://passapalavra.info/2022/04/143037/</a>). Por outro lado, a economia russa nunca deixou de ser capitalista: na época do “socialismo” soviético havia, de um lado, o capitalismo de Estado e, de outro, um escravismo de Estado ou metacapitalismo (ver o capítulo 5 da parte 2 do Labirintos do Fascismo, 3ª edição, do João Bernardo <a href="https://archive.org/details/jb-ldf-nedoedr/BERNARDO%2C%20Jo%C3%A3o.%20Labirintos%20do%20fascismo.%203%C2%AA%20edi%C3%A7%C3%A3o/" rel="nofollow ugc">https://archive.org/details/jb-ldf-nedoedr/BERNARDO%2C%20Jo%C3%A3o.%20Labirintos%20do%20fascismo.%203%C2%AA%20edi%C3%A7%C3%A3o/</a>). Usando um termo marxista clássico, na formação social soviética havia uma inter-relação entre dois modos de produção, um capitalista e outro metacapitalista, tendo a atual Rússia herdado da União Soviética um forte dirigismo estatal, intimamente relacionado a ambos os modos de produção.</p>
<p>Isso tudo contrasta fortemente com o capitalismo liberal assente no dinamismo da grande corporação transnacional ou multinacional, onde o totalitarismo empresarial convive lado a lado com a consolidação, ampliação e intensificação das liberdades democráticas, desde que as mobilizações populares não coloquem em causa a autoridade do Estado (é preciso canalizar o conflito social para dentro das instituições e disciplinar as manifestações de rua) ou a autoridade da burguesia e dos gestores (os capitalistas esforçam-se para converter as mobilizações autônomas do proletariado em instrumentos de produtividade). Ver, por exemplo, os livros Democracia Totalitária e Economia dos Conflitos Sociais, de João Bernardo.</p>
<p>Pois bem, o regime russo não tolera o dissenso e aprisiona, quando não elimina fisicamente, seus opositores políticos de maior projeção, obstando a disputa democrática e malogrando a alternância de poder. As manifestações de rua e intervenções culturais críticas ao regime são reprimidas. A imprensa livre constitui outro dos alvos do regime. Por outro lado, a Rússia não é particularmente conhecida por inovações nos quesitos tecnologia e produtividade, pelo menos não do ponto de vista da produção de bens de consumo e serviços. </p>
<p>Enfim, parece-me que havia (e há) muitas razões, tanto gepolíticas como políticas e econômicas, para um veto à entrada da Rússia na OTAN e na União Europeia, devido a uma série de contrastes entre a Rússia e as democracias ocidentais, o que não se explica meramente por uma postura traiçoeira dos Estados Unidos e da Europa ocidental desrespeitando o compromisso de não expandirem a OTAN a leste, nem pela necessidade de eleger um inimigo.</p>
<p>Quer dizer, é possível afirmar que com a dissolução da União Soviética a Rússia, os Estados Unidos e a Europa ocidental tornaram-se verdadeiros aliados, com afinidades políticas, geopolíticas e econômicas concretas? Parece-me que não.</p>
<p>Para além do fato de a Rússia ser o maior Estado-nação do planeta e com um poderio militar que rivaliza com o dos Estados Unidos, ela mantém relações íntimas com regimes autocráticos, corrói a democracia interna e externamente, é herdeira da tradição soviética de resolução de problemas econômicos por meios político-militares e nutre, ademais, pretensões imperiais que fazem-na entrar em choque com a União Europeia e a OTAN.</p>
<p>Não me parece despropositado que seja vista como um inimigo. Parece-me, pelo contrário, que a Rússia se colocou deliberadamente nessa posição, por mais que os discursos de Putin carreguem na vitimização do país no plano internacional.</p>
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