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	Comentários sobre: A grande adúltera	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Imoral		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/02/147615/#comment-881840</link>

		<dc:creator><![CDATA[Imoral]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Feb 2023 16:55:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Sobre Madame Bovary e Quixote, Sartre diz o seguinte, em um livro que rascunhou:

Madame Bovary é a metáfora de santo Antão.
Tema de Madame Bovary: totalização e morte.
Madame Bovary e Dom Quixote: mesmo tema. Romantismo e livros de cavalaria: uso negativo; eles impedem a compreensão do mundo. O problema todo é: o que resta de valor em uns e outros. Se não tivessem nada [de válido], a morte não seria necessária.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sobre Madame Bovary e Quixote, Sartre diz o seguinte, em um livro que rascunhou:</p>
<p>Madame Bovary é a metáfora de santo Antão.<br />
Tema de Madame Bovary: totalização e morte.<br />
Madame Bovary e Dom Quixote: mesmo tema. Romantismo e livros de cavalaria: uso negativo; eles impedem a compreensão do mundo. O problema todo é: o que resta de valor em uns e outros. Se não tivessem nada [de válido], a morte não seria necessária.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Jan Cenek		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/02/147615/#comment-881834</link>

		<dc:creator><![CDATA[Jan Cenek]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Feb 2023 16:06:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Anti-Bovary do Twitter, não sei se foi proposital, talvez tenha sido. O fato é que seu comentário parece exemplificar alguns argumentos do texto. 1) Emma Bovary provoca paixões contra e a favor, sobretudo contra. 2) Emma Bovary não costuma contar com a simpatia nem dos setores progressistas.

---

Manolo, concordo que se pode pensar na Madame Bovary como alegoria da burguesia francesa. Ela é isso. Mas ela é também mais do que isso. Podemos pensar os personagens em geral a partir da história econômica e social, mas podemos pensá-los, também, a partir da história do romance. Por esse caminho, Emma Bovary seria uma irmã não tão distante do Quixote. O bovarismo – entendido como alteração do senso de realidade – estava presente em ambos.  Dom Quixote e Emma Bovary foram leitores incansáveis. Fico imaginando o cavaleiro da triste figura encontrando a madame em algum canto do tempo e do espaço. Seria fantástico. Para construir Emma Bovary, Flaubert certamente considerou a história econômica e social, mas considerou, também, a história do romance. Imagino que a personagem foi ganhando vida e força à medida que o criador colocou uma leitora adúltera no primeiro plano. Isso somado à escrita revolucionária do romancista acabou forjando umas das personagens mais apaixonantes de todos os tempos. Um indício de que Flaubert se orientava pelo que chamei de história do romance aparece numa carta a um primo, quando ele comenta a questão moral que envolveu o livro: “Eu te confessarei, de resto, que tudo isso me é perfeitamente indiferente. A moral da Arte consiste em sua própria beleza, e eu estimo acima de tudo o estilo, e em seguida o Verdadeiro.” (Fonte:  Flaubert e Madame Bovary – Mario Vargas Llosa).

Já o bovarismo como conceito me parece mais interessante no uso que foi feito por Sérgio Buarque, por exemplo, do que para analisar a personagem de Flaubert. Importante pontuar que o conceito de bovarismo foi elaborado por um filósofo conservador, Jules de Gaultier. Diz ele: “Pela cegueira obstinada com a qual ela realiza sua incessante evolução, por seu fim trágico, ela personificou essa doença original da alma humana à qual seu nome pode servir de etiqueta, caso entenda-se por ‘Bovarismo’ a capacidade própria ao homem de se conceber diverso do que é sem se dar conta das diferentes motivações e das circunstâncias exteriores que determinam em cada indivíduo essa íntima transformação.” (Fonte: Itinerários do bovarismo – Eliana Maria de Melo Souza). Ou seja, Gaultier pensa o bovarismo como uma doença... Não me parece que o bovarismo como adoecimento possa ser levado muito a sério do ponto de vista médico. Uma doença supostamente diagnosticada a partir de uma personagem prova muito mais a força do romance do que qualquer outra coisa. Mas há uma operação política por trás do conceito do filósofo conservador. O Ministério Público Francês levou Gustave Flaubert para o banco dos réus por ofensa à moral e aos bons costumes, teria escrito um romance imoral porque Emma Bovary não se arrepende. Já o filósofo conservador ataca por outra brecha, ao definir o bovarismo como doença, tenta contornar e desqualificar as apologias e os rechaços da personagem (sim para os livros, sim para os sonhos, sim para a imaginação, sim para o amor; não à filha, não ao marido, não ao casamento, não à monogamia e, seguindo por esse caminho, não ao patriarcado). Podemos pensar, com Vargas Llosa, que “Emma quer gozar”. Ou podemos pensar, com Gaultier, que Emma é uma doente com o senso de realidade alterado. Fico com o primeiro. Curioso notar que Vargas Llosa se tornou um homem conservador, como Jules de Gaultier, mas o conservadorismo não o domina quando fala da Madame Bovary, poder ser porque o escritor peruano está ligado ao que chamei de história do romance.

Uma questão que me intriga é por que se denuncia o senso alterado de realidade (bovarismo) da Madame Bovary e não do marido dela? Provavelmente porque ele é um idiota útil. Não incomoda, antes pelo contrário, é um modelo para conservadores como Jules de Gaultier. No mundo ideal do filósofo, Emma Bovary seria insossa como o marido dela. Em conto publicado no mês passado (Santo) neste site, brinquei um pouco com o bovarismo a la Charles Bovary.

Por fim, essa troca de ideias me deixou com vontade de reler o romance Madame Bovary. Isso é bom. Valeu.

---

Imoral, pegou bem a ideia de adultério (traição) como mudança e alteração, como sair da ordem e partir para o desconhecido, como arrebatamento transbordante. Valeu. Se for para estabelecer uma comparação “imoral” (rsrs) entre a monogamia e o pensamento econômico de Marx, quem sabe possamos criar um paralelo com a queda tendencial das taxas de lucro. Os lucros diminuem porque o trabalho morto cresce em relação ao trabalho vivo. O prazer diminui porque o amor morto cresce em relação ao amor vivo. É a crise estrutural da monogamia.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Anti-Bovary do Twitter, não sei se foi proposital, talvez tenha sido. O fato é que seu comentário parece exemplificar alguns argumentos do texto. 1) Emma Bovary provoca paixões contra e a favor, sobretudo contra. 2) Emma Bovary não costuma contar com a simpatia nem dos setores progressistas.</p>
<p>&#8212;</p>
<p>Manolo, concordo que se pode pensar na Madame Bovary como alegoria da burguesia francesa. Ela é isso. Mas ela é também mais do que isso. Podemos pensar os personagens em geral a partir da história econômica e social, mas podemos pensá-los, também, a partir da história do romance. Por esse caminho, Emma Bovary seria uma irmã não tão distante do Quixote. O bovarismo – entendido como alteração do senso de realidade – estava presente em ambos.  Dom Quixote e Emma Bovary foram leitores incansáveis. Fico imaginando o cavaleiro da triste figura encontrando a madame em algum canto do tempo e do espaço. Seria fantástico. Para construir Emma Bovary, Flaubert certamente considerou a história econômica e social, mas considerou, também, a história do romance. Imagino que a personagem foi ganhando vida e força à medida que o criador colocou uma leitora adúltera no primeiro plano. Isso somado à escrita revolucionária do romancista acabou forjando umas das personagens mais apaixonantes de todos os tempos. Um indício de que Flaubert se orientava pelo que chamei de história do romance aparece numa carta a um primo, quando ele comenta a questão moral que envolveu o livro: “Eu te confessarei, de resto, que tudo isso me é perfeitamente indiferente. A moral da Arte consiste em sua própria beleza, e eu estimo acima de tudo o estilo, e em seguida o Verdadeiro.” (Fonte:  Flaubert e Madame Bovary – Mario Vargas Llosa).</p>
<p>Já o bovarismo como conceito me parece mais interessante no uso que foi feito por Sérgio Buarque, por exemplo, do que para analisar a personagem de Flaubert. Importante pontuar que o conceito de bovarismo foi elaborado por um filósofo conservador, Jules de Gaultier. Diz ele: “Pela cegueira obstinada com a qual ela realiza sua incessante evolução, por seu fim trágico, ela personificou essa doença original da alma humana à qual seu nome pode servir de etiqueta, caso entenda-se por ‘Bovarismo’ a capacidade própria ao homem de se conceber diverso do que é sem se dar conta das diferentes motivações e das circunstâncias exteriores que determinam em cada indivíduo essa íntima transformação.” (Fonte: Itinerários do bovarismo – Eliana Maria de Melo Souza). Ou seja, Gaultier pensa o bovarismo como uma doença&#8230; Não me parece que o bovarismo como adoecimento possa ser levado muito a sério do ponto de vista médico. Uma doença supostamente diagnosticada a partir de uma personagem prova muito mais a força do romance do que qualquer outra coisa. Mas há uma operação política por trás do conceito do filósofo conservador. O Ministério Público Francês levou Gustave Flaubert para o banco dos réus por ofensa à moral e aos bons costumes, teria escrito um romance imoral porque Emma Bovary não se arrepende. Já o filósofo conservador ataca por outra brecha, ao definir o bovarismo como doença, tenta contornar e desqualificar as apologias e os rechaços da personagem (sim para os livros, sim para os sonhos, sim para a imaginação, sim para o amor; não à filha, não ao marido, não ao casamento, não à monogamia e, seguindo por esse caminho, não ao patriarcado). Podemos pensar, com Vargas Llosa, que “Emma quer gozar”. Ou podemos pensar, com Gaultier, que Emma é uma doente com o senso de realidade alterado. Fico com o primeiro. Curioso notar que Vargas Llosa se tornou um homem conservador, como Jules de Gaultier, mas o conservadorismo não o domina quando fala da Madame Bovary, poder ser porque o escritor peruano está ligado ao que chamei de história do romance.</p>
<p>Uma questão que me intriga é por que se denuncia o senso alterado de realidade (bovarismo) da Madame Bovary e não do marido dela? Provavelmente porque ele é um idiota útil. Não incomoda, antes pelo contrário, é um modelo para conservadores como Jules de Gaultier. No mundo ideal do filósofo, Emma Bovary seria insossa como o marido dela. Em conto publicado no mês passado (Santo) neste site, brinquei um pouco com o bovarismo a la Charles Bovary.</p>
<p>Por fim, essa troca de ideias me deixou com vontade de reler o romance Madame Bovary. Isso é bom. Valeu.</p>
<p>&#8212;</p>
<p>Imoral, pegou bem a ideia de adultério (traição) como mudança e alteração, como sair da ordem e partir para o desconhecido, como arrebatamento transbordante. Valeu. Se for para estabelecer uma comparação “imoral” (rsrs) entre a monogamia e o pensamento econômico de Marx, quem sabe possamos criar um paralelo com a queda tendencial das taxas de lucro. Os lucros diminuem porque o trabalho morto cresce em relação ao trabalho vivo. O prazer diminui porque o amor morto cresce em relação ao amor vivo. É a crise estrutural da monogamia.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Imoral		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/02/147615/#comment-881782</link>

		<dc:creator><![CDATA[Imoral]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Feb 2023 03:11:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Em &quot;Uma noite de Don Juan&quot;, conto que Flaubert esboçou durante a viagem ao Oriente que fez e durante a qual concebeu muitos dos temas de Madame Bovary, Flaubert diferencia dois tipos de amor: aquele que atrai para si, que esgota, e aquele que nos tira de nós mesmos. Essas duas formas de amar são retomadas em Madame Bovary: Rodolphe e Léon, ou melhor, pensando em Emma: Léon e Rodolphe. Mas o que me fez lembrar dessa questão foi o elogio ao adultério. O amor como arrebatamento, como transbordamento, como perda do domínio do eu e do mundo, como processo em marcha onde se sacia e se desloca o medo (da perdição) a cada correspondência dos desejos de dar e receber amor, esse amor transcendental, poético, não pode (pode?) ser mantido em uma relação social afetiva parametrada pela propriedade privada (corolário, casamento e monogamia), por isso a busca pela liberdade, o rompimento com os bons costumes (jaula) assume esse caráter lírico onde a traição é uma forma de amar, primeiro, a si mesma. O amor burguês é o amor da teoria do valor, o amor da posse, o amor que atrai o outro para si, &quot;e que esgota&quot;, como mercadoria trocada e consumida, em uma relação de direitos de propriedade. O amor da traição é o amor que nos joga para fora de nós mesmos, para fora desse eu que já foi e não quer continuar sendo, esse eu que objetiva ser outro. Em um mundo burguês a traição é a recusa a ser mercadoria e, por isso, um sopro de vida no âmbito privado. É a greve do operário contra a fábrica e a exploração. É um não, que no gozar se reveste de um sim, sim, sim...!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em &#8220;Uma noite de Don Juan&#8221;, conto que Flaubert esboçou durante a viagem ao Oriente que fez e durante a qual concebeu muitos dos temas de Madame Bovary, Flaubert diferencia dois tipos de amor: aquele que atrai para si, que esgota, e aquele que nos tira de nós mesmos. Essas duas formas de amar são retomadas em Madame Bovary: Rodolphe e Léon, ou melhor, pensando em Emma: Léon e Rodolphe. Mas o que me fez lembrar dessa questão foi o elogio ao adultério. O amor como arrebatamento, como transbordamento, como perda do domínio do eu e do mundo, como processo em marcha onde se sacia e se desloca o medo (da perdição) a cada correspondência dos desejos de dar e receber amor, esse amor transcendental, poético, não pode (pode?) ser mantido em uma relação social afetiva parametrada pela propriedade privada (corolário, casamento e monogamia), por isso a busca pela liberdade, o rompimento com os bons costumes (jaula) assume esse caráter lírico onde a traição é uma forma de amar, primeiro, a si mesma. O amor burguês é o amor da teoria do valor, o amor da posse, o amor que atrai o outro para si, &#8220;e que esgota&#8221;, como mercadoria trocada e consumida, em uma relação de direitos de propriedade. O amor da traição é o amor que nos joga para fora de nós mesmos, para fora desse eu que já foi e não quer continuar sendo, esse eu que objetiva ser outro. Em um mundo burguês a traição é a recusa a ser mercadoria e, por isso, um sopro de vida no âmbito privado. É a greve do operário contra a fábrica e a exploração. É um não, que no gozar se reveste de um sim, sim, sim&#8230;!</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Manolo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/02/147615/#comment-881744</link>

		<dc:creator><![CDATA[Manolo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Feb 2023 18:36:36 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Pode ser interessante apropriar-se da chave de leitura exposta nesta resenha para suscitar ao autor algumas provocações a partir de um conceito, criado simultaneamente por Sérgio Buarque de Holanda e por Lima Barreto: o bovarismo.

Na linhagem das &quot;ideias fora do lugar&quot;, o bovarismo foi a síntese encontrada pelos dois para remeter a um certo traço que identificavam em certas classes sociais brasileiras: porque habituadas pelo &quot;vício do estrangeirismo&quot; a &quot;tudo copiar como se fosse matéria-prima nossa&quot;, estas classes sociais desconsideravam as condições reais da sociedade brasileira, e vivam em busca do &quot;milagre do dia&quot;, do &quot;imprevisto salvador&quot;, de uma espécie de &quot;deus ex machina&quot; que resolvesse os impasses políticos, econômicos e sociais e colocasse tudo de volta nos trilhos, trilhos alinhados pelo prumo de outras sociedades, com outros problemas, outras histórias e outras peculiaridades em seus antagonismos constitutivos.

Quem nunca ouviu da boca de certos brasileiros, quando colocados frente a um problema de difícil solução, um &quot;em [coloque_aqui_um_país] é mais fácil&quot;? Um &quot;em [coloque_aqui_um_país] é diferente&quot;? Substitua-se, onde necessário, [coloque_aqui_um_país] pelo nome de qualquer país de alto PIB onde bovaristas projetam haver &quot;menos burocracia&quot;, &quot;menos impostos&quot;, &quot;mais saúde&quot;, &quot;melhor educação&quot;, etc.

O bovarismo, assim conceituado, saiu de moda com o refluxo de certo pendor nacionalista nas reflexões sobre o lugar brasileiro no mundo. Outras teorizações substituíram-no; não à-toa me refiro às &quot;ideias fora do lugar&quot;, mas poderiam ser outras chaves de leitura do problema. Voltou à ordem do dia, entretanto, porque resgatado do limbo por Lília Schwarcz e Heloísa Starling logo no início de &lt;strong&gt;Brasil: uma biografia&lt;/strong&gt;, onde reafirmam sua vigência e, implicitamente, fazem de sua crítica uma chave de leitura da obra inteira.

Agora, digamos que, em vez de seguirmos a leitura tradicional de uma Emma Bovary caprichosa, fantasiosa, impulsiva, um tanto ridícula e constantemente enfadada pela realidade, as aventuras de Emma Bovary sejam lidas pela chave libertária sugerida nesta resenha. É somente tomando-se a personagem na mais estreita literalidade, como mulher insatisfeita com sua própria vida e desejosa de mudanças e transformações, que se pode abstrair sua construção, por Flaubert, como alegoria da burguesia francesa ascendente sob a Monarquia de Julho. Só quando feita essa abstração Emma Bovary, tornada mulher fogosa, passionária, irrequieta e aventurosa, pode ser lida pela chave desta resenha, que perfila-se com a de Mario Vargas Llosa. 

O &quot;bovarismo&quot;, por conseguinte, passa a poder ser lido como um conceito-síntese a expressar esperanças utópicas frustradas. Mas esperança utópica de quem? E esperança utópica rumo ao quê? Não é objetivo da resenha responder a perguntas que o resenhista não se colocou desde o início. Postas as questões em discussão, entretanto, me parece que essa leitura libertária e passionária de Emma Bovary arrisca colocar um sinal positivo nas esperanças utópicas frustradas daqueles mesmos que vemos amiúde recorrer ao chavão de que &quot;em [coloque_aqui_um_país] é diferente&quot;. Sabemos quem são.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pode ser interessante apropriar-se da chave de leitura exposta nesta resenha para suscitar ao autor algumas provocações a partir de um conceito, criado simultaneamente por Sérgio Buarque de Holanda e por Lima Barreto: o bovarismo.</p>
<p>Na linhagem das &#8220;ideias fora do lugar&#8221;, o bovarismo foi a síntese encontrada pelos dois para remeter a um certo traço que identificavam em certas classes sociais brasileiras: porque habituadas pelo &#8220;vício do estrangeirismo&#8221; a &#8220;tudo copiar como se fosse matéria-prima nossa&#8221;, estas classes sociais desconsideravam as condições reais da sociedade brasileira, e vivam em busca do &#8220;milagre do dia&#8221;, do &#8220;imprevisto salvador&#8221;, de uma espécie de &#8220;deus ex machina&#8221; que resolvesse os impasses políticos, econômicos e sociais e colocasse tudo de volta nos trilhos, trilhos alinhados pelo prumo de outras sociedades, com outros problemas, outras histórias e outras peculiaridades em seus antagonismos constitutivos.</p>
<p>Quem nunca ouviu da boca de certos brasileiros, quando colocados frente a um problema de difícil solução, um &#8220;em [coloque_aqui_um_país] é mais fácil&#8221;? Um &#8220;em [coloque_aqui_um_país] é diferente&#8221;? Substitua-se, onde necessário, [coloque_aqui_um_país] pelo nome de qualquer país de alto PIB onde bovaristas projetam haver &#8220;menos burocracia&#8221;, &#8220;menos impostos&#8221;, &#8220;mais saúde&#8221;, &#8220;melhor educação&#8221;, etc.</p>
<p>O bovarismo, assim conceituado, saiu de moda com o refluxo de certo pendor nacionalista nas reflexões sobre o lugar brasileiro no mundo. Outras teorizações substituíram-no; não à-toa me refiro às &#8220;ideias fora do lugar&#8221;, mas poderiam ser outras chaves de leitura do problema. Voltou à ordem do dia, entretanto, porque resgatado do limbo por Lília Schwarcz e Heloísa Starling logo no início de <strong>Brasil: uma biografia</strong>, onde reafirmam sua vigência e, implicitamente, fazem de sua crítica uma chave de leitura da obra inteira.</p>
<p>Agora, digamos que, em vez de seguirmos a leitura tradicional de uma Emma Bovary caprichosa, fantasiosa, impulsiva, um tanto ridícula e constantemente enfadada pela realidade, as aventuras de Emma Bovary sejam lidas pela chave libertária sugerida nesta resenha. É somente tomando-se a personagem na mais estreita literalidade, como mulher insatisfeita com sua própria vida e desejosa de mudanças e transformações, que se pode abstrair sua construção, por Flaubert, como alegoria da burguesia francesa ascendente sob a Monarquia de Julho. Só quando feita essa abstração Emma Bovary, tornada mulher fogosa, passionária, irrequieta e aventurosa, pode ser lida pela chave desta resenha, que perfila-se com a de Mario Vargas Llosa. </p>
<p>O &#8220;bovarismo&#8221;, por conseguinte, passa a poder ser lido como um conceito-síntese a expressar esperanças utópicas frustradas. Mas esperança utópica de quem? E esperança utópica rumo ao quê? Não é objetivo da resenha responder a perguntas que o resenhista não se colocou desde o início. Postas as questões em discussão, entretanto, me parece que essa leitura libertária e passionária de Emma Bovary arrisca colocar um sinal positivo nas esperanças utópicas frustradas daqueles mesmos que vemos amiúde recorrer ao chavão de que &#8220;em [coloque_aqui_um_país] é diferente&#8221;. Sabemos quem são.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Anti-Bovary do Twitter		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/02/147615/#comment-881738</link>

		<dc:creator><![CDATA[Anti-Bovary do Twitter]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Feb 2023 16:59:46 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=147615#comment-881738</guid>

					<description><![CDATA[Emma Bovary é somente uma inconsequente pequeno-burguesa. Teve o fim merecido.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Emma Bovary é somente uma inconsequente pequeno-burguesa. Teve o fim merecido.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
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