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	Comentários sobre: Aleksándr Bogdánov e os 100 anos de Proletkult	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Jair Diniz Miguel		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/05/148543/#comment-894069</link>

		<dc:creator><![CDATA[Jair Diniz Miguel]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 11 Jun 2023 22:53:29 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Eu gostaria só de lembrar sobre os trabalhos de Bogdanov no Instituto de Transfusão. Ele era o diretor, mas tinha uma equipe de médicos muito capacitados em relação a área. Embora médico de formação, ele não exerceu a profissão em grande parte da sua vida. Só no início da carreira, durante a primeira guerra e no final. 

Ele se apaixonou pela transfusão de sangue ao ler o livro do irmão de Keynes (que era médico hematologista) e como lembrava do tempo da guerra, decidiu estudar e fazer transfusões em caráter privado inicialmente. Isso começou em 1922, época que ele estava mais concentrado em dar aulas e publicar textos em Filosofia e teoria econômica. Além disso estava tentando ampliar e aplicar a tectologia nos seus trabalhos. É bom lembrar que a Tectologia está concentrada em debater a Ciência e o método científico.

Então pode-se afirmar que ele estava trabalhando em múltiplas frentes entre 1922 e 1926 (ano da fundação do Instituto). O Proletkul’t não era mais um programa específico para ele, já estava embutido na Tectologia. Além disso, após o tempo que passou preso na GPU em 1923 deu a certeza para ele de que deveria ficar no âmbito acadêmico primariamente. Após a morte de Lênin o ambiente não melhorou para ele, embora tivesse amizade com muitos líderes bolcheviques, era visto com muita cautela, pois continuava a ser um intelectual atuante e combativo.

O problema está em como e porque ele pensou no Instituto. Não atuava como médico ou cientista de forma acadêmica, mas tinha muita força e influência para propor tamanha novidade. O comissário da saúde e Stálin aprovaram o projeto. Não era um passo ou projeto milenarista ou utópico, mas as ideias se cruzam. 

O livro que ele escreve para justificar o investimento nessa área “A Luta pela Viabilidade” cruza todos os assuntos que desenvolveu desde o início incluindo o Proletkul’t, a Tectologia e o coletivismo. 

O melhor texto atualmente sobre esse assunto é a tese dei médico e historiador da ciência Nikolai Krementzov: “A Martian Stranded on Earth”. O texto “Struggle for Viability: Collectivism through Blood Exchange” é muito difícil de se encontrar na tradução em inglês (é de 2002), e mesmo em russo é raro.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu gostaria só de lembrar sobre os trabalhos de Bogdanov no Instituto de Transfusão. Ele era o diretor, mas tinha uma equipe de médicos muito capacitados em relação a área. Embora médico de formação, ele não exerceu a profissão em grande parte da sua vida. Só no início da carreira, durante a primeira guerra e no final. </p>
<p>Ele se apaixonou pela transfusão de sangue ao ler o livro do irmão de Keynes (que era médico hematologista) e como lembrava do tempo da guerra, decidiu estudar e fazer transfusões em caráter privado inicialmente. Isso começou em 1922, época que ele estava mais concentrado em dar aulas e publicar textos em Filosofia e teoria econômica. Além disso estava tentando ampliar e aplicar a tectologia nos seus trabalhos. É bom lembrar que a Tectologia está concentrada em debater a Ciência e o método científico.</p>
<p>Então pode-se afirmar que ele estava trabalhando em múltiplas frentes entre 1922 e 1926 (ano da fundação do Instituto). O Proletkul’t não era mais um programa específico para ele, já estava embutido na Tectologia. Além disso, após o tempo que passou preso na GPU em 1923 deu a certeza para ele de que deveria ficar no âmbito acadêmico primariamente. Após a morte de Lênin o ambiente não melhorou para ele, embora tivesse amizade com muitos líderes bolcheviques, era visto com muita cautela, pois continuava a ser um intelectual atuante e combativo.</p>
<p>O problema está em como e porque ele pensou no Instituto. Não atuava como médico ou cientista de forma acadêmica, mas tinha muita força e influência para propor tamanha novidade. O comissário da saúde e Stálin aprovaram o projeto. Não era um passo ou projeto milenarista ou utópico, mas as ideias se cruzam. </p>
<p>O livro que ele escreve para justificar o investimento nessa área “A Luta pela Viabilidade” cruza todos os assuntos que desenvolveu desde o início incluindo o Proletkul’t, a Tectologia e o coletivismo. </p>
<p>O melhor texto atualmente sobre esse assunto é a tese dei médico e historiador da ciência Nikolai Krementzov: “A Martian Stranded on Earth”. O texto “Struggle for Viability: Collectivism through Blood Exchange” é muito difícil de se encontrar na tradução em inglês (é de 2002), e mesmo em russo é raro.</p>
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			</item>
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		<title>
		Por: Iraldo Matias		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/05/148543/#comment-893970</link>

		<dc:creator><![CDATA[Iraldo Matias]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 11 Jun 2023 00:43:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Um belo epitáfio...
https://www.marxists.org/archive/mattick-paul/1940/trotsky.htm]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um belo epitáfio&#8230;<br />
<a href="https://www.marxists.org/archive/mattick-paul/1940/trotsky.htm" rel="nofollow ugc">https://www.marxists.org/archive/mattick-paul/1940/trotsky.htm</a></p>
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		<title>
		Por: Paulo Sampaio		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/05/148543/#comment-893846</link>

		<dc:creator><![CDATA[Paulo Sampaio]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Jun 2023 15:40:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caros, 

A discussão periga se desdobrar infinitamente e ficar cada vez mais sem fundamentos. 

A linha política do Otzovismo, a filosofia do Empiriocriticsmo e o movimento Protelkult são coisas diferentes, e as três são diferentes do misticismo do Lunacharsky. Diferentes, mas relacionadas, de um jeito difícil de discernir.  Elas tendem a se confundir na figura de Bogdanov, uma figura em si mesma múltipla - militante bolchevique, filósofo, economista, médico, autor de ficção científica, precursor da cibernética, pioneiro da transfusão de sangue etc. 

Minha crítica ao artigo é: Bogdanov não foi expulso da facção bolchevique pela &quot;blasfêmia&quot; de &quot;pôr em dúvida o marxismo científico&quot; ao &quot;dizer que o conceito de matéria em Marx já não era compatível com o que se discutia àquela altura sobre as manifestações da natureza na ciência&quot;; ele foi expulso porque sua linha política, o Otzovismo, foi rejeitada. A polêmica de Lênin contra o Empiriocriticismo precisa ser lida nesse contexto, muito mais político do que filosófico. É óbvio que posteriormente o texto de Lênin virou a pedra-de-toque do dogma do Diamat - ou seja, virou um instrumento de dominação burocrática. Quando eu insisto em não ter uma visão afirmativa da história o que quero dizer é: o fato desse texto ter tido esse destino não significa que essa era a política dos bolcheviques desde sempre, que &#039;aquilo necessariamente ia dar nisso&#039;, nem que o Otzovismo era a linha correta etc. 

Como o artigo deixa claro, Bogdanov e o movimento Protelkult são evocados como alternativas à concepção de Kautsky, Lênin et al. (do &#039;marxismo ortodoxo&#039;, digamos) a respeito do papel específico dos intelectuais no socialismo, da necessidade de trazer a consciência revolucionária &quot;desde fora&quot; para a classe trabalhadora. Esse complexo de figuras Bogdanov-Lunacharsky-Protelkult é associado a uma crítica profética do caráter burocrático da URSS, dando ensejo a uma leitura que coloca esse caráter na conta da teoria e da prática dos bolcheviques - e, por extensão, na conta de Kautsky e do marxismo da 2a Internacional, na conta do velho Engels e, para os mais rigorosos, na conta do próprio Marx. Eu discordo dessa leitura do processo. A meu ver o caráter burocrático da URSS não decorre da teoria e da prática dos bolcheviques - no caso, não decorre da crítica a Bogdanov (supostamente movida por dogmatismo teórico) nem da crítica ao Protelkult (supostamente movida pela recusa, no âmbito da prática, da independência da classe em relação aos gestores). Novamente, esse tipo de leitura afirma o curso da história - &#039;aquilo necessariamente ia dar nisso, já estava tudo lá desde o princípio&#039; etc. É preciso levar em conta o fracasso da revolução a nível internacional e os erros políticos envolvidos nisso, mais do que supostos erros nos princípios teóricos e práticos dos bolcheviques. 

Dito isso, viva Bogdanov e os 100 anos do movimento Protelkult! Eles merecem lugar de destaque entre os problemas e enigmas que herdamos do fracasso da revolução. 

Abraços autoritários]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caros, </p>
<p>A discussão periga se desdobrar infinitamente e ficar cada vez mais sem fundamentos. </p>
<p>A linha política do Otzovismo, a filosofia do Empiriocriticsmo e o movimento Protelkult são coisas diferentes, e as três são diferentes do misticismo do Lunacharsky. Diferentes, mas relacionadas, de um jeito difícil de discernir.  Elas tendem a se confundir na figura de Bogdanov, uma figura em si mesma múltipla &#8211; militante bolchevique, filósofo, economista, médico, autor de ficção científica, precursor da cibernética, pioneiro da transfusão de sangue etc. </p>
<p>Minha crítica ao artigo é: Bogdanov não foi expulso da facção bolchevique pela &#8220;blasfêmia&#8221; de &#8220;pôr em dúvida o marxismo científico&#8221; ao &#8220;dizer que o conceito de matéria em Marx já não era compatível com o que se discutia àquela altura sobre as manifestações da natureza na ciência&#8221;; ele foi expulso porque sua linha política, o Otzovismo, foi rejeitada. A polêmica de Lênin contra o Empiriocriticismo precisa ser lida nesse contexto, muito mais político do que filosófico. É óbvio que posteriormente o texto de Lênin virou a pedra-de-toque do dogma do Diamat &#8211; ou seja, virou um instrumento de dominação burocrática. Quando eu insisto em não ter uma visão afirmativa da história o que quero dizer é: o fato desse texto ter tido esse destino não significa que essa era a política dos bolcheviques desde sempre, que &#8216;aquilo necessariamente ia dar nisso&#8217;, nem que o Otzovismo era a linha correta etc. </p>
<p>Como o artigo deixa claro, Bogdanov e o movimento Protelkult são evocados como alternativas à concepção de Kautsky, Lênin et al. (do &#8216;marxismo ortodoxo&#8217;, digamos) a respeito do papel específico dos intelectuais no socialismo, da necessidade de trazer a consciência revolucionária &#8220;desde fora&#8221; para a classe trabalhadora. Esse complexo de figuras Bogdanov-Lunacharsky-Protelkult é associado a uma crítica profética do caráter burocrático da URSS, dando ensejo a uma leitura que coloca esse caráter na conta da teoria e da prática dos bolcheviques &#8211; e, por extensão, na conta de Kautsky e do marxismo da 2a Internacional, na conta do velho Engels e, para os mais rigorosos, na conta do próprio Marx. Eu discordo dessa leitura do processo. A meu ver o caráter burocrático da URSS não decorre da teoria e da prática dos bolcheviques &#8211; no caso, não decorre da crítica a Bogdanov (supostamente movida por dogmatismo teórico) nem da crítica ao Protelkult (supostamente movida pela recusa, no âmbito da prática, da independência da classe em relação aos gestores). Novamente, esse tipo de leitura afirma o curso da história &#8211; &#8216;aquilo necessariamente ia dar nisso, já estava tudo lá desde o princípio&#8217; etc. É preciso levar em conta o fracasso da revolução a nível internacional e os erros políticos envolvidos nisso, mais do que supostos erros nos princípios teóricos e práticos dos bolcheviques. </p>
<p>Dito isso, viva Bogdanov e os 100 anos do movimento Protelkult! Eles merecem lugar de destaque entre os problemas e enigmas que herdamos do fracasso da revolução. </p>
<p>Abraços autoritários</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Joker		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/05/148543/#comment-893791</link>

		<dc:creator><![CDATA[Joker]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Jun 2023 23:26:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[É, Trotsky estava certo. As condições iam bem no direcionamento do socialismo, quem atrapalhavam eram os trabalhadores]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É, Trotsky estava certo. As condições iam bem no direcionamento do socialismo, quem atrapalhavam eram os trabalhadores</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Iraldo Matias		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/05/148543/#comment-893789</link>

		<dc:creator><![CDATA[Iraldo Matias]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Jun 2023 23:22:49 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Pois é Paulo, agora você foi péssimo... Um ex-amigo e ex-militante do PSTU adorava repetir que discordava de Trotsky, que deveriam ter cercado Kronstadt e deixado todo mundo morrer de fome para não gastar balas. Ele propunha requintes de crueldades, você demonstra &quot;apenas&quot; frieza. Difícil saber o que é pior neste caso. Você ainda reduz a Revolução Russa a Lênin e Trotsky. A propósito, quem se referia a trotsky como &quot;águia&quot;, se não né engano, era Edmund Wilson. Melhor seria chamá-lo de raposa, não apenas pelas características comumente atribuídas ao animal, astuto e ladino, como pelo infame exemplo de &quot;dialética da natureza&quot; utilizando este simpático ser, para demonstrar a &quot;passagem de quantidade a qualidade&quot;...
Outra afirmação sem fundamento é a de que o Proletkult era um &quot;ateliê&quot;, demonstrando não entender o papel revolucionário da arte naquele contexto, enquanto o partido era um espaço de militantes aguerridos e infalíveis. Tudo isso antes de defender uma suposta posição antimaniqueísta.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pois é Paulo, agora você foi péssimo&#8230; Um ex-amigo e ex-militante do PSTU adorava repetir que discordava de Trotsky, que deveriam ter cercado Kronstadt e deixado todo mundo morrer de fome para não gastar balas. Ele propunha requintes de crueldades, você demonstra &#8220;apenas&#8221; frieza. Difícil saber o que é pior neste caso. Você ainda reduz a Revolução Russa a Lênin e Trotsky. A propósito, quem se referia a trotsky como &#8220;águia&#8221;, se não né engano, era Edmund Wilson. Melhor seria chamá-lo de raposa, não apenas pelas características comumente atribuídas ao animal, astuto e ladino, como pelo infame exemplo de &#8220;dialética da natureza&#8221; utilizando este simpático ser, para demonstrar a &#8220;passagem de quantidade a qualidade&#8221;&#8230;<br />
Outra afirmação sem fundamento é a de que o Proletkult era um &#8220;ateliê&#8221;, demonstrando não entender o papel revolucionário da arte naquele contexto, enquanto o partido era um espaço de militantes aguerridos e infalíveis. Tudo isso antes de defender uma suposta posição antimaniqueísta.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Paulo Sampaio		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/05/148543/#comment-893780</link>

		<dc:creator><![CDATA[Paulo Sampaio]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Jun 2023 21:20:02 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Iraldo e Alan, 

Obrigado pelas respostas. 

A imagem da águia e da galinha é usada por Lênin para criticar o uso político de textos de Rosa Luxemburgo críticos aos bolcheviques - Luxemburgo podia por vezes voar baixo como uma galinha, mas era uma águia, e o mesmo não se pode dizer dos que instrumentalizam textos que ela mesma renegou e mandou queimar. Acho que essa é uma boa perspectiva para adotar quando falamos do marxismo desse período. As brigas no interior da social-democracia revolucionária do começo do século passado são brigas de águias, muito mais ricas e profundas (e encarniçadas, mas não brutais e assassinas como se tornariam após o fracasso da revolução a nível internacional) do que as disputas posteriores. 

Meu ponto não era que Lênin &quot;não mandou matar&quot; porque apesar de ser um gângster foi misericordioso nessa ocasião. Meu ponto é que a política não estava tão degradada e brutalizada. Ele podia encontrar o Bogdanov para jogar xadrez e depois de trocarem críticas duras, topar com ele em um concerto depois te terem se tornado adversários. Sobre Kronstadt, é outra polêmica, mas a meu ver Trotsky agiu corretamente. Espero que não façamos equivalência entre episódios como esse e os expurgos dos anos 1930, são fenômenos muito diferentes. Acho fora de propósito o paralelo entre a antipatia de Lênin por essa ou aquela vertente estética e a perseguição e assassinato de artistas, a instituição da censura etc. E, é claro, eu não acho justo com Lênin e Trotsky jogar o século XX na conta deles. Lênin não é um revolucionário iluminado, é só um marxista exemplar, um ótimo leitor de Marx e Engels e um dos melhores alunos de Kautsky - ou seja, a questão não o fulano Lênin, é todo (o momento de crise do) o marxismo da 2a Internacional que ele tem atrás de si. E acho que cabe pontuar que a gente não estaria aqui falando de Marx e marxismo se não fosse a revolução russa; Marx e Engels seriam só mais dois entre tantos socialistas ilustres do século XIX. Talvez fosse até melhor assim, mas aí já entramos na especulação contrafactual. 

O movimento Protelkult chegou a envolver mais ou menos o mesmo tanto de gente que o Partido. Mas não sei se dá para medir as coisas só pela contagem de cabeças, talvez tenhamos de um lado pessoas que participam de um ateliê e de outro militantes, com níveis de engajamento muito diferentes, ora orientados por um programa ora só usufruindo de uma infraestrutura para produzir suas obras. 

Acho que se ficarmos com o Protelkult (e Bogdanov) como imagens daquilo que poderia ter sido e com Lênin e Trotsky como os formuladores daquilo que veio a ser não chegamos muito longe, e podemos nos perder em uma leitura do processo histórico excessivamente afirmativa (em oposição à opção por ler a história a contrapelo) e excessivamente calcada nos princípios encarnados por cada grupo (de um lado o pluralismo, a espontaneidade e a independência da classe, de outro o autoritarismo, o dogmatismo e a dominação burocrática).]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Iraldo e Alan, </p>
<p>Obrigado pelas respostas. </p>
<p>A imagem da águia e da galinha é usada por Lênin para criticar o uso político de textos de Rosa Luxemburgo críticos aos bolcheviques &#8211; Luxemburgo podia por vezes voar baixo como uma galinha, mas era uma águia, e o mesmo não se pode dizer dos que instrumentalizam textos que ela mesma renegou e mandou queimar. Acho que essa é uma boa perspectiva para adotar quando falamos do marxismo desse período. As brigas no interior da social-democracia revolucionária do começo do século passado são brigas de águias, muito mais ricas e profundas (e encarniçadas, mas não brutais e assassinas como se tornariam após o fracasso da revolução a nível internacional) do que as disputas posteriores. </p>
<p>Meu ponto não era que Lênin &#8220;não mandou matar&#8221; porque apesar de ser um gângster foi misericordioso nessa ocasião. Meu ponto é que a política não estava tão degradada e brutalizada. Ele podia encontrar o Bogdanov para jogar xadrez e depois de trocarem críticas duras, topar com ele em um concerto depois te terem se tornado adversários. Sobre Kronstadt, é outra polêmica, mas a meu ver Trotsky agiu corretamente. Espero que não façamos equivalência entre episódios como esse e os expurgos dos anos 1930, são fenômenos muito diferentes. Acho fora de propósito o paralelo entre a antipatia de Lênin por essa ou aquela vertente estética e a perseguição e assassinato de artistas, a instituição da censura etc. E, é claro, eu não acho justo com Lênin e Trotsky jogar o século XX na conta deles. Lênin não é um revolucionário iluminado, é só um marxista exemplar, um ótimo leitor de Marx e Engels e um dos melhores alunos de Kautsky &#8211; ou seja, a questão não o fulano Lênin, é todo (o momento de crise do) o marxismo da 2a Internacional que ele tem atrás de si. E acho que cabe pontuar que a gente não estaria aqui falando de Marx e marxismo se não fosse a revolução russa; Marx e Engels seriam só mais dois entre tantos socialistas ilustres do século XIX. Talvez fosse até melhor assim, mas aí já entramos na especulação contrafactual. </p>
<p>O movimento Protelkult chegou a envolver mais ou menos o mesmo tanto de gente que o Partido. Mas não sei se dá para medir as coisas só pela contagem de cabeças, talvez tenhamos de um lado pessoas que participam de um ateliê e de outro militantes, com níveis de engajamento muito diferentes, ora orientados por um programa ora só usufruindo de uma infraestrutura para produzir suas obras. </p>
<p>Acho que se ficarmos com o Protelkult (e Bogdanov) como imagens daquilo que poderia ter sido e com Lênin e Trotsky como os formuladores daquilo que veio a ser não chegamos muito longe, e podemos nos perder em uma leitura do processo histórico excessivamente afirmativa (em oposição à opção por ler a história a contrapelo) e excessivamente calcada nos princípios encarnados por cada grupo (de um lado o pluralismo, a espontaneidade e a independência da classe, de outro o autoritarismo, o dogmatismo e a dominação burocrática).</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Alan Fernandes		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/05/148543/#comment-893776</link>

		<dc:creator><![CDATA[Alan Fernandes]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Jun 2023 18:47:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Alguns pontos mencionados acima que merecem destaque: &quot;fazer transfusão de sangue&quot; era, naquele tempo, algo que implicava em um olhar humanitário. Bogdánov foi diretor do primeiro instituto de transfusão de sangue na Rússia e apesar de a ação mal-sucedida ter ceifado sua vida, abriu muitas portas para os estudos que são realizados hoje. Alguns biógrafos e comentaristas atribuem essa dedicação ao desejo de &quot;alcançar a imortalidade&quot;, mas outras leituras não se arriscam neste ponto e afirmam simplesmente que a prática tinha como objetivo prolongar a vida. Por falta de leitura mais extensa adivinho que essa segunda alternativa é a mais correta. Agora, devemos condenar os avanços da medicina com relação à doação de órgãos por permitirem um &quot;coletivismo fisiológico&quot;? 

Segundo ponto, muitas ideias de Lunacharsky estão sim associadas a uma perspectiva religiosa. Diferente de um partido político &quot;fortaleza&quot; (nos dizeres de Stálin) existiam inúmeras perspectivas distintas no Proletkult, o próprio Bukharin flertou com o grupo, apesar de sua adesão à cartilha do materialismo-dialético. Que Gorki tenha flertado com Bogdanov e com o Zhdanovismo merece reflexão à parte, porque me parece arriscado afirmar que Bogdánov teria percorrido o mesmo caminho. Vittorio Strada (no livro de Hobsbawn) associa a política cultura do &quot;realismo socialista&quot; à ideia de &quot;recomposição do homem&quot; presente em Gorki e, supostamente, também em Bogdánov. Mas enquanto Stálin procurava consolidar a teoria da organização-fortaleza Bogdánov procedeu a algo muito diferente, a teoria da ciência das organizações, que procurava delimitar os campos de interconectividade social que permitiriam o advento de relações sociais novas. 

É claro que o cheque em branco não é uma forma coerente de avaliar o que poderia ter sido feito no passado. Como você bem coloca, Bogdánov e o Proletkult tiveram imensa contribuição para o desenvolvimento do bolchevismo. Mas são precisamente essas feridas abertas que permitem recolocar os dilemas e vislumbrar o legado da oposição anti-burocrática hoje. Agora, que Lênin &quot;não tenha mandado matar&quot; Bogdánov não é nem um pouco generoso se bastasse que a doutrina do materialismo-histórico-dialético tenha se tornado implacável. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Alguns pontos mencionados acima que merecem destaque: &#8220;fazer transfusão de sangue&#8221; era, naquele tempo, algo que implicava em um olhar humanitário. Bogdánov foi diretor do primeiro instituto de transfusão de sangue na Rússia e apesar de a ação mal-sucedida ter ceifado sua vida, abriu muitas portas para os estudos que são realizados hoje. Alguns biógrafos e comentaristas atribuem essa dedicação ao desejo de &#8220;alcançar a imortalidade&#8221;, mas outras leituras não se arriscam neste ponto e afirmam simplesmente que a prática tinha como objetivo prolongar a vida. Por falta de leitura mais extensa adivinho que essa segunda alternativa é a mais correta. Agora, devemos condenar os avanços da medicina com relação à doação de órgãos por permitirem um &#8220;coletivismo fisiológico&#8221;? </p>
<p>Segundo ponto, muitas ideias de Lunacharsky estão sim associadas a uma perspectiva religiosa. Diferente de um partido político &#8220;fortaleza&#8221; (nos dizeres de Stálin) existiam inúmeras perspectivas distintas no Proletkult, o próprio Bukharin flertou com o grupo, apesar de sua adesão à cartilha do materialismo-dialético. Que Gorki tenha flertado com Bogdanov e com o Zhdanovismo merece reflexão à parte, porque me parece arriscado afirmar que Bogdánov teria percorrido o mesmo caminho. Vittorio Strada (no livro de Hobsbawn) associa a política cultura do &#8220;realismo socialista&#8221; à ideia de &#8220;recomposição do homem&#8221; presente em Gorki e, supostamente, também em Bogdánov. Mas enquanto Stálin procurava consolidar a teoria da organização-fortaleza Bogdánov procedeu a algo muito diferente, a teoria da ciência das organizações, que procurava delimitar os campos de interconectividade social que permitiriam o advento de relações sociais novas. </p>
<p>É claro que o cheque em branco não é uma forma coerente de avaliar o que poderia ter sido feito no passado. Como você bem coloca, Bogdánov e o Proletkult tiveram imensa contribuição para o desenvolvimento do bolchevismo. Mas são precisamente essas feridas abertas que permitem recolocar os dilemas e vislumbrar o legado da oposição anti-burocrática hoje. Agora, que Lênin &#8220;não tenha mandado matar&#8221; Bogdánov não é nem um pouco generoso se bastasse que a doutrina do materialismo-histórico-dialético tenha se tornado implacável. </p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Iraldo Matias		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/05/148543/#comment-893774</link>

		<dc:creator><![CDATA[Iraldo Matias]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Jun 2023 18:30:38 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caro Paulo,

Seu comentário melhorou em relação ao anterior, ainda assim padece de alguns problemas... Sim, o misticismo fin de siécle estava presente naquele período entre a intelligentsia russa, como bem demonstrou o Jair, mas isso não faz de ninguém automaticamente um fanático. O pintor holandês Piet Mondrian, por exemplo, tinha influências até da Teosofia, mas não era um &quot;fanático&quot;, que se saiba, assim como Johannes Itten, notório professor da primeira fase da Bauhaus era masdaísta, mas não se formaram fanáticos na Bauhaus, que se saiba. Tive professores ligados às mais diversas religiões e, acho, não sou um fanático. Você precisaria demonstrar onde na teorização e na prática de Bogdanov esse misticismo se faz presente e quais as suas consequências teóricas e políticas, de resto estamos no campo da especulação. Além disso, você está reduzindo o Proletkult, que chegou a ter cerca de 400 mil filiados, à figura de Bogdanov, outro erro. Você esquece de todas as figuras de vanguarda que estavam à frente das atividades culturais e artísticas daquela organização, onde se articulavam tantos outros coletivos, como a LEF (Frente Cutural de Esquerda), para citar uma, animada por ninguém menos do que Maiakovski, que não era um fanático, até onde vai o meu conhecimento. Lênin odiava as vanguardas, entre outras coisas, era defensor de uma estética realista, pois sua consciência para inúmeros assuntos era burguesa, como demonstrou Pannekoek em Lênin, Filósofo. Vittorio De Feo afirma que nos tempos de Lênin já ocorriam perseguições às vanguardas, ainda que não na proporção dos expurgos de Stálin.  Lunatcharski se afastou gradativamente do círculo de Bogdanov, assim como adotou uma posição ambígua sobre as vanguardas, que se resolveu negativamente no final da década de 1920, início da de 1930, a favor do &quot;realismo socialista&quot;. Lukács seguiu as pistas deixadas por Lênin e criticou também de forma ambígua  o &quot;realismo socialista&quot;, defendendo o realismo em si mesmo. Trotsky, como bom oportunista (&quot;águia&#039;?!) defendia a autoabolição da classe apenas para este assunto (posição mantida por Mário Pedrosa em suas análises), pois foi o grande teórico das transições eternas que nunca chegam ao comunismo. No entanto, em seu exílio passou a defender as vanguardas modernas, inclusive o futurismo italiano, que bem sabemos do que se tratava, de fascismo. Enfim, a repressão a Kronstadt em 1921 ocorreu sob comando de Lênin e Trotsky, então ambos mandaram matar muitos &quot;camaradas&quot; (não apenas neste evento). Por fim, você afirma &quot;que é uma &#039;sentença arbitrária&#039; sugerir que a posição crítica em relação ao Otzovismo leva direta e necessariamente ao fanatismo dos gestores&quot;. No entanto, é exatamente este o seu critério para julgar o suposto &quot;fanatismo&quot; do Proletkult, numa ligação direta com o suposto fanatismo de Bogdanov, que na época já defendia posições de autonomia de classe do proletariado em relação às burocracias partidárias. No mais, foi das &quot;posições reacionárias&quot; do Proletkult que surgiram algumas das maiores contribuições artísticas do século XX nas mais variadas áreas. Do leninismo, ficou de herança o capitalismo de Estado e o &quot;materialismo dialético&quot;, que não é simplesmente uma &quot;apropriação indevida&quot; do Stálin malvadão das ideias do revolucionário iluminado Lênin.

Saudações]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Paulo,</p>
<p>Seu comentário melhorou em relação ao anterior, ainda assim padece de alguns problemas&#8230; Sim, o misticismo fin de siécle estava presente naquele período entre a intelligentsia russa, como bem demonstrou o Jair, mas isso não faz de ninguém automaticamente um fanático. O pintor holandês Piet Mondrian, por exemplo, tinha influências até da Teosofia, mas não era um &#8220;fanático&#8221;, que se saiba, assim como Johannes Itten, notório professor da primeira fase da Bauhaus era masdaísta, mas não se formaram fanáticos na Bauhaus, que se saiba. Tive professores ligados às mais diversas religiões e, acho, não sou um fanático. Você precisaria demonstrar onde na teorização e na prática de Bogdanov esse misticismo se faz presente e quais as suas consequências teóricas e políticas, de resto estamos no campo da especulação. Além disso, você está reduzindo o Proletkult, que chegou a ter cerca de 400 mil filiados, à figura de Bogdanov, outro erro. Você esquece de todas as figuras de vanguarda que estavam à frente das atividades culturais e artísticas daquela organização, onde se articulavam tantos outros coletivos, como a LEF (Frente Cutural de Esquerda), para citar uma, animada por ninguém menos do que Maiakovski, que não era um fanático, até onde vai o meu conhecimento. Lênin odiava as vanguardas, entre outras coisas, era defensor de uma estética realista, pois sua consciência para inúmeros assuntos era burguesa, como demonstrou Pannekoek em Lênin, Filósofo. Vittorio De Feo afirma que nos tempos de Lênin já ocorriam perseguições às vanguardas, ainda que não na proporção dos expurgos de Stálin.  Lunatcharski se afastou gradativamente do círculo de Bogdanov, assim como adotou uma posição ambígua sobre as vanguardas, que se resolveu negativamente no final da década de 1920, início da de 1930, a favor do &#8220;realismo socialista&#8221;. Lukács seguiu as pistas deixadas por Lênin e criticou também de forma ambígua  o &#8220;realismo socialista&#8221;, defendendo o realismo em si mesmo. Trotsky, como bom oportunista (&#8220;águia&#8217;?!) defendia a autoabolição da classe apenas para este assunto (posição mantida por Mário Pedrosa em suas análises), pois foi o grande teórico das transições eternas que nunca chegam ao comunismo. No entanto, em seu exílio passou a defender as vanguardas modernas, inclusive o futurismo italiano, que bem sabemos do que se tratava, de fascismo. Enfim, a repressão a Kronstadt em 1921 ocorreu sob comando de Lênin e Trotsky, então ambos mandaram matar muitos &#8220;camaradas&#8221; (não apenas neste evento). Por fim, você afirma &#8220;que é uma &#8216;sentença arbitrária&#8217; sugerir que a posição crítica em relação ao Otzovismo leva direta e necessariamente ao fanatismo dos gestores&#8221;. No entanto, é exatamente este o seu critério para julgar o suposto &#8220;fanatismo&#8221; do Proletkult, numa ligação direta com o suposto fanatismo de Bogdanov, que na época já defendia posições de autonomia de classe do proletariado em relação às burocracias partidárias. No mais, foi das &#8220;posições reacionárias&#8221; do Proletkult que surgiram algumas das maiores contribuições artísticas do século XX nas mais variadas áreas. Do leninismo, ficou de herança o capitalismo de Estado e o &#8220;materialismo dialético&#8221;, que não é simplesmente uma &#8220;apropriação indevida&#8221; do Stálin malvadão das ideias do revolucionário iluminado Lênin.</p>
<p>Saudações</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Paulo Sampaio		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/05/148543/#comment-893761</link>

		<dc:creator><![CDATA[Paulo Sampaio]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Jun 2023 15:14:29 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=148543#comment-893761</guid>

					<description><![CDATA[Caro Iraldo,

&#039;Leninismo&#039; é uma invencionice stalinista, e &#039;trotskismo&#039; hoje em dia pode ser qualquer coisa. Bogdanov e Lunacharski são gigantes, assim como todos os Velhos Bolcheviques. Como diz o outro, uma águia pode voar tão baixo quanto uma galinha, mas galinha alguma é capaz de voar tão alto quanto uma águia. Certamente Bogdanov e Lênin aprederam muito um com o outro ao longo de suas muitas partidas de xadrez! Mas será mesmo que os Otzovistas estavam certos? Melhor seria ter deixado de trabalhar no interior dos sindicatos e cooperativas e abandonar o parlamento, optando pela atividade ilegal em detrimento da combinação entre atividade legal e ilegal, correndo assim risco de perder totalmente o contato com as massas? Eu acho que não. E também acho que é uma &quot;sentença arbitrária&quot; sugerir que a posição crítica em relação ao Otzovismo leva direta e necessariamente ao fanatismo dos gestores etc. 

Bukahrin, em um discurso no funeral de Bogdanov, fez questão de enfatizar que &quot;Nosso partido deve muita gratidão a Bogdanov por todos os anos que ele passou lutando, de mãos dadas com Lênin, na linha de frente da facção Bolchevique&quot;. Cabe lembrar que Lênin, mesmo acreditando que o Protelkult propagava ideias reacionárias, não mandou matar ninguém... Sim, o &quot;&quot;&quot;materialismo&quot;&quot;&quot;de Lênin virou posteriormente um instrumento de dominação autoritária! Mas isso não quer dizer que Lênin lutou pela dominação burocrática da intelligentsia. Acho que seria um erro afirmar o curso da história dessa maneira. As coisas poderiam ter sido muito diferentes. 

Agora, eu acho que o Bogdanov ficou maluquinho mesmo. Fazer transfusão de sangue em nome de um coletivismo fisiológico? Coisa de maluco. E as ideias dele, de Gorky e Lunacharsty eram claramente místicas! 

O Protelkult é atraente na teoria porque é intransigente na ideia de que somente pessoas pertencentes à classe trabalhadora (sociologicamente) poderiam participar do esforço de construção de uma nova cultura proletária (esforço que contradiz a ideia de autoabolição da classe, como bem nota Trotsky); mas é atraente em seus resultados concretos porque contou sempre com a direção de excelentes intelectuais burgueses de vanguarda. É um movimento interessantíssimo, mas seu legado é um problema para ser pensado, e não algo que pode ser afirmado. 

Um abraço]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Iraldo,</p>
<p>&#8216;Leninismo&#8217; é uma invencionice stalinista, e &#8216;trotskismo&#8217; hoje em dia pode ser qualquer coisa. Bogdanov e Lunacharski são gigantes, assim como todos os Velhos Bolcheviques. Como diz o outro, uma águia pode voar tão baixo quanto uma galinha, mas galinha alguma é capaz de voar tão alto quanto uma águia. Certamente Bogdanov e Lênin aprederam muito um com o outro ao longo de suas muitas partidas de xadrez! Mas será mesmo que os Otzovistas estavam certos? Melhor seria ter deixado de trabalhar no interior dos sindicatos e cooperativas e abandonar o parlamento, optando pela atividade ilegal em detrimento da combinação entre atividade legal e ilegal, correndo assim risco de perder totalmente o contato com as massas? Eu acho que não. E também acho que é uma &#8220;sentença arbitrária&#8221; sugerir que a posição crítica em relação ao Otzovismo leva direta e necessariamente ao fanatismo dos gestores etc. </p>
<p>Bukahrin, em um discurso no funeral de Bogdanov, fez questão de enfatizar que &#8220;Nosso partido deve muita gratidão a Bogdanov por todos os anos que ele passou lutando, de mãos dadas com Lênin, na linha de frente da facção Bolchevique&#8221;. Cabe lembrar que Lênin, mesmo acreditando que o Protelkult propagava ideias reacionárias, não mandou matar ninguém&#8230; Sim, o &#8220;&#8221;&#8221;materialismo&#8221;&#8221;&#8221;de Lênin virou posteriormente um instrumento de dominação autoritária! Mas isso não quer dizer que Lênin lutou pela dominação burocrática da intelligentsia. Acho que seria um erro afirmar o curso da história dessa maneira. As coisas poderiam ter sido muito diferentes. </p>
<p>Agora, eu acho que o Bogdanov ficou maluquinho mesmo. Fazer transfusão de sangue em nome de um coletivismo fisiológico? Coisa de maluco. E as ideias dele, de Gorky e Lunacharsty eram claramente místicas! </p>
<p>O Protelkult é atraente na teoria porque é intransigente na ideia de que somente pessoas pertencentes à classe trabalhadora (sociologicamente) poderiam participar do esforço de construção de uma nova cultura proletária (esforço que contradiz a ideia de autoabolição da classe, como bem nota Trotsky); mas é atraente em seus resultados concretos porque contou sempre com a direção de excelentes intelectuais burgueses de vanguarda. É um movimento interessantíssimo, mas seu legado é um problema para ser pensado, e não algo que pode ser afirmado. </p>
<p>Um abraço</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Iraldo Matias		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/05/148543/#comment-893694</link>

		<dc:creator><![CDATA[Iraldo Matias]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 Jun 2023 22:33:21 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=148543#comment-893694</guid>

					<description><![CDATA[&quot;A meu ver o radicalismo estético do grupo Protelkult é uma expressão do caráter fanático e místico da política da ultra-esquerda – uma política que, ao contrário de Lênin, se recusa a refletir sobre a necessidade de readequar a tática revolucionária à luz das novas condições contra-revolucionárias. Acho que Trotsky é preciso em sua crítica ao próprio conceito de cultura proletária, embora também aqui seja preciso tomar o texto como um instrumento na luta ideológica tanto quanto como um trabalho propriamente teórico.&quot;

Essa afirmação não tem fundamento histórico, é uma sentença arbitrária. Toda a atividade política, cultural e artística do Proletkult, assim como aquelas inspiradas por essa organização ao longo da década de 1920, são o oposto do &quot;fanatismo&quot;. Não há dúvidas de que os gestores da revolução não podiam ouvir falar em &quot;cultura proletaria&quot;. Quanto ao leninismo e ao trotskismo, bem, basta olhar para os coletivos e grupos atuais orientados por essas figuras políticas e teóricas para ver aonde se encontra o fanatismo. Seguimos ouvindo a velha cantilena do &quot;esquerdismo doença infantil...&quot;, infelizmente....]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;A meu ver o radicalismo estético do grupo Protelkult é uma expressão do caráter fanático e místico da política da ultra-esquerda – uma política que, ao contrário de Lênin, se recusa a refletir sobre a necessidade de readequar a tática revolucionária à luz das novas condições contra-revolucionárias. Acho que Trotsky é preciso em sua crítica ao próprio conceito de cultura proletária, embora também aqui seja preciso tomar o texto como um instrumento na luta ideológica tanto quanto como um trabalho propriamente teórico.&#8221;</p>
<p>Essa afirmação não tem fundamento histórico, é uma sentença arbitrária. Toda a atividade política, cultural e artística do Proletkult, assim como aquelas inspiradas por essa organização ao longo da década de 1920, são o oposto do &#8220;fanatismo&#8221;. Não há dúvidas de que os gestores da revolução não podiam ouvir falar em &#8220;cultura proletaria&#8221;. Quanto ao leninismo e ao trotskismo, bem, basta olhar para os coletivos e grupos atuais orientados por essas figuras políticas e teóricas para ver aonde se encontra o fanatismo. Seguimos ouvindo a velha cantilena do &#8220;esquerdismo doença infantil&#8230;&#8221;, infelizmente&#8230;.</p>
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