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	Comentários sobre: Técnica, tecnologia, autogestão e revolução: um estudo (3)	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Manolo		</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Manolo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 Sep 2023 06:10:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[&quot;?&quot;, observe que você cai no mesmo erro em que caí eu mesmo ao intitular o artigo. Em seu comentário, &quot;a técnica&quot; volta e meia assume o mesmo sentido que &quot;a tecnologia&quot; assume em meu ensaio. É que, assumindo o ponto de vista exposto no ensaio, não há &quot;a&quot; técnica (à moda de Heidegger e Axelos, por exemplo), apenas &quot;técnicas&quot;. Este nosso diálogo me permitiu observar o (meu) erro mais de perto, e reconhecê-lo.

A partir do seu comentário, observa-se também que você dà à &quot;programação&quot; certa centralidade muito maior do que ela realmente tem. Ora, se estamos falando da programação tal como se a entende na informática, sabemos que não existe &quot;a programação&quot;, mas uma série de técnicas (raciocínio lógico, raciocínio algorítmico, etc.) que precedem o uso de qualquer linguagem de programação específica. Estas técnicas, hoje, estão inseridas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) brasileira, o que não quer dizer que o mesmo se aplique a outros países, tampouco que seja realmente estudada nas escolas brasileiras, e ainda menos que haja uniformidade na qualidade deste ensino nas escolas onde é ministrado. Da mesma forma, apesar de os capitalistas do setor exigirem o domínio de certas linguagens de programação (p. ex., C, Java, Python, HTML5, Rust, Go, Ansible, etc.) em detrimento de outras (p. ex., Delphi, COBOL, BASIC, etc.), e de certos usos de cada linguagem em detrimento de outros (p. ex., o caso da &lt;a href=&quot;https://tecnoblog.net/noticias/2023/08/23/entenda-a-disputa-entre-uber-e-stopclub-nos-tribunais/&quot; rel=&quot;nofollow ugc&quot;&gt;briga da Uber contra a StopClub, cujo aplicativo permite a motoristas calcular ganhos e recusar automaticamente certas corridas&lt;/a&gt;), na esmagadora maioria dos casos o conhecimento destas linguagens quase não tem interferência sobre os &lt;em&gt;usos práticos&lt;/em&gt; que se faz de certos tecnemas (retomando conceito do ensaio). Com isto, respondi a seu &quot;argumento Simondon&quot;, que não resiste à &lt;em&gt;gambiarra&lt;/em&gt; e à apropriação &lt;em&gt;naïf&lt;/em&gt; de certas técnicas (p. ex., usar PIX para paquerar).

Veja: além disso que mencionei, gente como Simondon, Heidegger, Axelos, Ellul e muitos outros tendem a secundarizar a concepção de técnica como um &quot;comportamento produtivo mediado por um instrumento de trabalho e descrito por regras&quot;. Para eles, a &quot;técnica&quot; tem sentido muito mais preciso, e a meu ver equivocado. Neles, &quot;técnica&quot; ao mesmo tempo conceitua (porque descrevem-na cada qual a seu modo de forma bastante precisa) e simboliza (porque diz muito mais do que o conceito foi feito para dizer) o tipo de técnicas mais associadas ao capitalismo industrial tal como existiu na primeira metade do século XX, que cito em termos marxistas na falta de outros melhores: produção em massa, trabalho alienado, submissão do trabalhador à máquina, etc. Com isso, estes pensadores como que &quot;naturalizam&quot;, porque excluem do campo das técnicas, vários &quot;comportamentos produtivos mediados por um instrumento de trabalho e descrito por regras&quot; que precedem ou margeiam estas técnicas próprias ao capitalismo industrial.

&quot;Naturalizar&quot; estas técnicas tradicionais, em contraposição às técnicas &quot;artificiais&quot;, significa isentá-las de juízo crítico capaz de nos levar a entender por que chegam a tão escandalosos resultados. Olhando somente para o esquema lógico, a oposição &quot;natural&quot;/&quot;artificial&quot; relembra a oposição &quot;cultura&quot;/&quot;civilização&quot;, de péssima memória. Minha resposta ao &quot;argumento Heidegger&quot; vai mais ou menos na mesma linha, mesmo porque ele está mal apresentado no comentário. O problema não está no fato de que nossa corporeidade nos condena a perceber os entes somente como se apresentam a nós perante nossos sentidos. Não somos alienados porque não conseguimos ver as coisas do mundo senão como humanos, por meio dos cinco sentidos humanos, com os viseses próprios à percepção, à cognição e à razão humanas. Este argumento leva a concluir que a própria condição humana é alienante, ou ao menos &lt;em&gt;certa concepção da condição humana&lt;/em&gt; o é. Vem daí as críticas ao &quot;eurocentrismo&quot;, à &quot;colonialidade&quot;, e os elogios ao &quot;perspectivismo&quot;, aos &quot;modos de existência&quot;, etc. Entretanto, e enquanto não for possível fazer &lt;em&gt;upload&lt;/em&gt; de consciências em outros corpos (humanos ou não) para que nos relatem esta percepção, cognição e experiência trans-humana completa, não se pode contornar a corporeidade ou a percepção enviesada dos entes. Só o que se pode fazer, no máximo, é substituir um viés por outro.

É este mesmo equívoco que permite, por exemplo, que Antônio Bispo dos Santos vá à USP falar, por exemplo, que toda a agroecologia não ser outra coisa senão a expropriação, por universitários, da &quot;roça de quilombo&quot;, da &quot;roça de aldeia&quot;, etc. Nesta rinha de vieses, não duvido que seja este o caso, e eles que são ecológicos que se entendam em suas disputas internas. No que nos interessa ao debate, como as técnicas agrícolas dos povos e comunidades tradicionais são reputadas como &quot;naturais&quot;, é a partir deste ponto de vista que são contrapostas às técnicas reputadas como &quot;artificiais&quot;, &quot;colonizadoras&#039;, etc. Entretanto, como do ponto de vista que adoto o que se vê são &quot;comportamentos produtivos mediados por um instrumento de trabalho e descrito por regras&quot; de um lado e do outro, pouco importa o &quot;natural&quot; e o &quot;artificial&quot;, pois toda técnica é, de certa forma, &quot;artificial&quot;. Importa saber: as técnicas agrícolas dos povos e comunidades tradicionais estão sob o controle de quem? Para quais finalidades? Inseridos em quais sistemas tecnológicos? Permitem ou obstaculizam a abundância material necessária à construção do socialismo? Estes são os pontos centrais que se deve perguntar. Na forma como hoje se encontram nos casos mais &quot;puros&quot;, as &quot;roças de quilombo&quot; e as &quot;roças de aldeia&quot;, assim como parte significativa dos assentamentos de reforma agrária, ora tendem à autarcia em regime de subsistência (absoluta maioria), ora tendem à agroecologia de mercado (minoria), com muita técnica &quot;artificial&quot; entrando como adjutório (eletrificação rural, saúde pública, rodovias, PIX, e-commerce, etc.). 

Já quanto ao &quot;argumento Ellul&quot;, observe que é um argumento estritamente teleológico. Conceber &quot;técnica&quot; enquanto &quot;comportamento produtivo mediado por um instrumento de trabalho e descrito por regras&quot; não tem nada de teleológico. Embora os tecnemas certamente possam ter finalidade, e qualquer técnica também possa ter algum resultado útil, fica totalmente em aberto definir &lt;em&gt;quem&lt;/em&gt; estabelece os critérios desta finalidade, desta utilidade, desta eficiência. Repare: perto de onde eu moro, desde o raiar do dia até por volta das 10h da manhã encontra-se lá numa esquina movimentada um senhor já beirando seus setenta e poucos anos, vestido com um jaleco amarelo reflexivo e um apito pendurado ao pescoço por um barbante. Ele encasquetou de agir como guarda de trânsito. Simplesmente encasquetou, e pronto. Fica lá, chova ou faça sol, apitando e orientando o trânsito a seu modo canhestro, com uma técnica absolutamente própria, saída de algum canto obscuro de sua mente. As opiniões sobre o guardinha se dividem no bairro: ele causa acidentes, ou os evita? Os feirantes de domingo debatem: chama a polícia para tirar o guardinha da esquina, ou deixa-se o homem lá quieto, que ele não faz mal a ninguém? A eficácia do &quot;comportamento produtivo mediado por um instrumento de trabalho e descrito por regras&quot; do guardinha é questionável, mas lá estará ele, todos os dias, chova ou faça sol, orientando o tráfego daquele jeito só dele. Poderia listar outros casos muito parecidos de técnicas &quot;ineficazes&quot; que não perdem suas características de serem &quot;comportamento produtivo mediado por um instrumento de trabalho e descrito por regras&quot; pelo fato de terem baixa ou limitada eficácia.

Tendo dito o que tinha a dizer sobre os argumentos, do ponto de vista que adoto, pode-se subverter uma ou outra técnica, um ou outro tecnema, ao colocá-los para funcionar num sistema tecnológico baseado em outras relações sociais. O que não se pode é fazer um sistema tecnológico &lt;em&gt;inteiro&lt;/em&gt; passar a uma sociedade estruturada sobre relações sociais distintas, porque o sistema tecnológico expressa e reproduz estas relações. 

Veja o exemplo do sistema de alto-falantes numa fábrica ocupada: se uma técnica é um &quot;comportamento produtivo mediado por um instrumento de trabalho e descrito por regras&quot;, o &quot;instrumento de trabalho&quot; está dado (microfones, fiação, alto-falantes, etc.), as &quot;regras&quot; podem ser quase as mesmas (ligar o microfone na tomada, apertar o botão &quot;liga&quot;, aumentar o volume até pouco antes de gerar microfonia, etc.), mas o &quot;comportamento produtivo&quot; é muito diferente (convocar todos para uma assembleia, em vez de chamar Fulano para o RH), porque já anuncia outras relações sociais se instituindo. 

A pergunta que conclui o &quot;argumento Marx&quot; só pode ser respondida &lt;em&gt;assim&lt;/em&gt;.

Tudo isso para dizer: 

1) Não há, de fato, &quot;comportamento produtivo mediado por um instrumento de trabalho e descrito por regras&quot; que não seja subversível -- e nisso concordamos. 

2) Não se pode, de fato, avaliar a subversão de um &quot;comportamento produtivo mediado por um instrumento de trabalho e descrito por regras&quot; senão em cada caso concreto -- e mais uma vez concordamos.

3) Em cada caso concreto, o campo de possibilidades de subversão de um &quot;comportamento produtivo mediado por um instrumento de trabalho e descrito por regras&quot; é determinado pelos elementos de uma correlação de forças entre classes sociais antagônicas presentes no contexto do caso, desde que capazes de afetar aquele &quot;comportamento produtivo mediado por um instrumento de trabalho e descrito por regras&quot; em particular -- e ainda outra vez concordamos.

Entretanto, como indiquei nos argumentos anteriores, não acho incontornável o aprendizado generalizado de &quot;programação&quot; para que os tecnemas da &quot;programação&quot; sejam apropriados e subvertidos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;?&#8221;, observe que você cai no mesmo erro em que caí eu mesmo ao intitular o artigo. Em seu comentário, &#8220;a técnica&#8221; volta e meia assume o mesmo sentido que &#8220;a tecnologia&#8221; assume em meu ensaio. É que, assumindo o ponto de vista exposto no ensaio, não há &#8220;a&#8221; técnica (à moda de Heidegger e Axelos, por exemplo), apenas &#8220;técnicas&#8221;. Este nosso diálogo me permitiu observar o (meu) erro mais de perto, e reconhecê-lo.</p>
<p>A partir do seu comentário, observa-se também que você dà à &#8220;programação&#8221; certa centralidade muito maior do que ela realmente tem. Ora, se estamos falando da programação tal como se a entende na informática, sabemos que não existe &#8220;a programação&#8221;, mas uma série de técnicas (raciocínio lógico, raciocínio algorítmico, etc.) que precedem o uso de qualquer linguagem de programação específica. Estas técnicas, hoje, estão inseridas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) brasileira, o que não quer dizer que o mesmo se aplique a outros países, tampouco que seja realmente estudada nas escolas brasileiras, e ainda menos que haja uniformidade na qualidade deste ensino nas escolas onde é ministrado. Da mesma forma, apesar de os capitalistas do setor exigirem o domínio de certas linguagens de programação (p. ex., C, Java, Python, HTML5, Rust, Go, Ansible, etc.) em detrimento de outras (p. ex., Delphi, COBOL, BASIC, etc.), e de certos usos de cada linguagem em detrimento de outros (p. ex., o caso da <a href="https://tecnoblog.net/noticias/2023/08/23/entenda-a-disputa-entre-uber-e-stopclub-nos-tribunais/" rel="nofollow ugc">briga da Uber contra a StopClub, cujo aplicativo permite a motoristas calcular ganhos e recusar automaticamente certas corridas</a>), na esmagadora maioria dos casos o conhecimento destas linguagens quase não tem interferência sobre os <em>usos práticos</em> que se faz de certos tecnemas (retomando conceito do ensaio). Com isto, respondi a seu &#8220;argumento Simondon&#8221;, que não resiste à <em>gambiarra</em> e à apropriação <em>naïf</em> de certas técnicas (p. ex., usar PIX para paquerar).</p>
<p>Veja: além disso que mencionei, gente como Simondon, Heidegger, Axelos, Ellul e muitos outros tendem a secundarizar a concepção de técnica como um &#8220;comportamento produtivo mediado por um instrumento de trabalho e descrito por regras&#8221;. Para eles, a &#8220;técnica&#8221; tem sentido muito mais preciso, e a meu ver equivocado. Neles, &#8220;técnica&#8221; ao mesmo tempo conceitua (porque descrevem-na cada qual a seu modo de forma bastante precisa) e simboliza (porque diz muito mais do que o conceito foi feito para dizer) o tipo de técnicas mais associadas ao capitalismo industrial tal como existiu na primeira metade do século XX, que cito em termos marxistas na falta de outros melhores: produção em massa, trabalho alienado, submissão do trabalhador à máquina, etc. Com isso, estes pensadores como que &#8220;naturalizam&#8221;, porque excluem do campo das técnicas, vários &#8220;comportamentos produtivos mediados por um instrumento de trabalho e descrito por regras&#8221; que precedem ou margeiam estas técnicas próprias ao capitalismo industrial.</p>
<p>&#8220;Naturalizar&#8221; estas técnicas tradicionais, em contraposição às técnicas &#8220;artificiais&#8221;, significa isentá-las de juízo crítico capaz de nos levar a entender por que chegam a tão escandalosos resultados. Olhando somente para o esquema lógico, a oposição &#8220;natural&#8221;/&#8221;artificial&#8221; relembra a oposição &#8220;cultura&#8221;/&#8221;civilização&#8221;, de péssima memória. Minha resposta ao &#8220;argumento Heidegger&#8221; vai mais ou menos na mesma linha, mesmo porque ele está mal apresentado no comentário. O problema não está no fato de que nossa corporeidade nos condena a perceber os entes somente como se apresentam a nós perante nossos sentidos. Não somos alienados porque não conseguimos ver as coisas do mundo senão como humanos, por meio dos cinco sentidos humanos, com os viseses próprios à percepção, à cognição e à razão humanas. Este argumento leva a concluir que a própria condição humana é alienante, ou ao menos <em>certa concepção da condição humana</em> o é. Vem daí as críticas ao &#8220;eurocentrismo&#8221;, à &#8220;colonialidade&#8221;, e os elogios ao &#8220;perspectivismo&#8221;, aos &#8220;modos de existência&#8221;, etc. Entretanto, e enquanto não for possível fazer <em>upload</em> de consciências em outros corpos (humanos ou não) para que nos relatem esta percepção, cognição e experiência trans-humana completa, não se pode contornar a corporeidade ou a percepção enviesada dos entes. Só o que se pode fazer, no máximo, é substituir um viés por outro.</p>
<p>É este mesmo equívoco que permite, por exemplo, que Antônio Bispo dos Santos vá à USP falar, por exemplo, que toda a agroecologia não ser outra coisa senão a expropriação, por universitários, da &#8220;roça de quilombo&#8221;, da &#8220;roça de aldeia&#8221;, etc. Nesta rinha de vieses, não duvido que seja este o caso, e eles que são ecológicos que se entendam em suas disputas internas. No que nos interessa ao debate, como as técnicas agrícolas dos povos e comunidades tradicionais são reputadas como &#8220;naturais&#8221;, é a partir deste ponto de vista que são contrapostas às técnicas reputadas como &#8220;artificiais&#8221;, &#8220;colonizadoras&#8217;, etc. Entretanto, como do ponto de vista que adoto o que se vê são &#8220;comportamentos produtivos mediados por um instrumento de trabalho e descrito por regras&#8221; de um lado e do outro, pouco importa o &#8220;natural&#8221; e o &#8220;artificial&#8221;, pois toda técnica é, de certa forma, &#8220;artificial&#8221;. Importa saber: as técnicas agrícolas dos povos e comunidades tradicionais estão sob o controle de quem? Para quais finalidades? Inseridos em quais sistemas tecnológicos? Permitem ou obstaculizam a abundância material necessária à construção do socialismo? Estes são os pontos centrais que se deve perguntar. Na forma como hoje se encontram nos casos mais &#8220;puros&#8221;, as &#8220;roças de quilombo&#8221; e as &#8220;roças de aldeia&#8221;, assim como parte significativa dos assentamentos de reforma agrária, ora tendem à autarcia em regime de subsistência (absoluta maioria), ora tendem à agroecologia de mercado (minoria), com muita técnica &#8220;artificial&#8221; entrando como adjutório (eletrificação rural, saúde pública, rodovias, PIX, e-commerce, etc.). </p>
<p>Já quanto ao &#8220;argumento Ellul&#8221;, observe que é um argumento estritamente teleológico. Conceber &#8220;técnica&#8221; enquanto &#8220;comportamento produtivo mediado por um instrumento de trabalho e descrito por regras&#8221; não tem nada de teleológico. Embora os tecnemas certamente possam ter finalidade, e qualquer técnica também possa ter algum resultado útil, fica totalmente em aberto definir <em>quem</em> estabelece os critérios desta finalidade, desta utilidade, desta eficiência. Repare: perto de onde eu moro, desde o raiar do dia até por volta das 10h da manhã encontra-se lá numa esquina movimentada um senhor já beirando seus setenta e poucos anos, vestido com um jaleco amarelo reflexivo e um apito pendurado ao pescoço por um barbante. Ele encasquetou de agir como guarda de trânsito. Simplesmente encasquetou, e pronto. Fica lá, chova ou faça sol, apitando e orientando o trânsito a seu modo canhestro, com uma técnica absolutamente própria, saída de algum canto obscuro de sua mente. As opiniões sobre o guardinha se dividem no bairro: ele causa acidentes, ou os evita? Os feirantes de domingo debatem: chama a polícia para tirar o guardinha da esquina, ou deixa-se o homem lá quieto, que ele não faz mal a ninguém? A eficácia do &#8220;comportamento produtivo mediado por um instrumento de trabalho e descrito por regras&#8221; do guardinha é questionável, mas lá estará ele, todos os dias, chova ou faça sol, orientando o tráfego daquele jeito só dele. Poderia listar outros casos muito parecidos de técnicas &#8220;ineficazes&#8221; que não perdem suas características de serem &#8220;comportamento produtivo mediado por um instrumento de trabalho e descrito por regras&#8221; pelo fato de terem baixa ou limitada eficácia.</p>
<p>Tendo dito o que tinha a dizer sobre os argumentos, do ponto de vista que adoto, pode-se subverter uma ou outra técnica, um ou outro tecnema, ao colocá-los para funcionar num sistema tecnológico baseado em outras relações sociais. O que não se pode é fazer um sistema tecnológico <em>inteiro</em> passar a uma sociedade estruturada sobre relações sociais distintas, porque o sistema tecnológico expressa e reproduz estas relações. </p>
<p>Veja o exemplo do sistema de alto-falantes numa fábrica ocupada: se uma técnica é um &#8220;comportamento produtivo mediado por um instrumento de trabalho e descrito por regras&#8221;, o &#8220;instrumento de trabalho&#8221; está dado (microfones, fiação, alto-falantes, etc.), as &#8220;regras&#8221; podem ser quase as mesmas (ligar o microfone na tomada, apertar o botão &#8220;liga&#8221;, aumentar o volume até pouco antes de gerar microfonia, etc.), mas o &#8220;comportamento produtivo&#8221; é muito diferente (convocar todos para uma assembleia, em vez de chamar Fulano para o RH), porque já anuncia outras relações sociais se instituindo. </p>
<p>A pergunta que conclui o &#8220;argumento Marx&#8221; só pode ser respondida <em>assim</em>.</p>
<p>Tudo isso para dizer: </p>
<p>1) Não há, de fato, &#8220;comportamento produtivo mediado por um instrumento de trabalho e descrito por regras&#8221; que não seja subversível &#8212; e nisso concordamos. </p>
<p>2) Não se pode, de fato, avaliar a subversão de um &#8220;comportamento produtivo mediado por um instrumento de trabalho e descrito por regras&#8221; senão em cada caso concreto &#8212; e mais uma vez concordamos.</p>
<p>3) Em cada caso concreto, o campo de possibilidades de subversão de um &#8220;comportamento produtivo mediado por um instrumento de trabalho e descrito por regras&#8221; é determinado pelos elementos de uma correlação de forças entre classes sociais antagônicas presentes no contexto do caso, desde que capazes de afetar aquele &#8220;comportamento produtivo mediado por um instrumento de trabalho e descrito por regras&#8221; em particular &#8212; e ainda outra vez concordamos.</p>
<p>Entretanto, como indiquei nos argumentos anteriores, não acho incontornável o aprendizado generalizado de &#8220;programação&#8221; para que os tecnemas da &#8220;programação&#8221; sejam apropriados e subvertidos.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: ulisses		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/09/149970/#comment-905423</link>

		<dc:creator><![CDATA[ulisses]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Sep 2023 14:23:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[PROXEMIA
    alguém que de ‘?’ se chama
    diz que me ama
    não sei
    se correspondo
    ou se me escondo]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>PROXEMIA<br />
    alguém que de ‘?’ se chama<br />
    diz que me ama<br />
    não sei<br />
    se correspondo<br />
    ou se me escondo</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: ?		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/09/149970/#comment-905348</link>

		<dc:creator><![CDATA[?]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Sep 2023 01:41:35 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=149970#comment-905348</guid>

					<description><![CDATA[Caro Manolo,
li com grande interesse seus artigos, a questão da técnica e da tecnologia é certamente central nos dias de hoje, tanto para a crítica quanto para a possível, necessária, almejada e inevitável transformação do modo de vida. 
Inevitável e necessária pois o desenvolvimento atualíssimo da técnica está gerando transformações profundas em diversas esferas - produtivas, sociais, cognitivas, comportamentais etc. 
Possível e almejada pois, dada sua inexorabilidade, já que estamos a refletir aqui neste site (espaço não extenso de interação), creio poder afirmar que concordamos no seguinte aspecto: deixado ao leo, o desenvolvimento técnico, em seu movimento (autônomo?) está nos levando, senão para a beira do precipício, pelo menos para formas cada vez mais intensas de exploração - o que aponta para a urgência de mudança de rota.
(Interessante observar como no pensamento de uma porção de gente, a técnica assume uma função muito parecida com a do capital, enfim...)

De todo modo, resolvi escrever esse comentário para compartilhar uma pequena fórmula, que me assombra há alguns anos, e lançar umas dúvidas para quem sabe fazer fervilhar os miolos. 

A fórmula é a seguinte: se a técnica não é neutra, ela é entretanto algo de subversível. Esta fórmula, contudo, é uma mera declaração de princípio, por demais abstrata para gerar alguma mudança efetiva. Esta viria, como veio ao longo da história, a partir do uso concreto que dela fazemos o qual, por sua vez, é possibilitado pelo tipo de interação ou modo de mediação ou o-diabo-que-o-valha que ela mesma proporciona. A técnica, desta feita, seria subversível não assim &#039;no vazio&#039;, como se pudéssemos dar a uma técnica a direção que desejarmos, mas sempre a partir do campo de possibilidades por ela inscrito - campo que, novamente, variaria a partir do uso que fazemos dela e que ela mesma nos proporciona. 

Ora, se é assim, e se o estado atual da técnica se organiza e tende a se ordenar cada vez mais em direção aos códigos e algoritmos com vistas à autonomização de processos, cujo objetivo último é a maior eficiência, o aprendizado de programação seria talvez incontornável. 

Pois bem, vão aí as inquietações: 
- à la Simondon: seria o domínio da programação, ou de modo mais geral o ser versado na linguagem técnica, algo necessário a todos, ou quase todos, uma vez que esse é o saber-fazer que estrutura os processos da parada toda, ou quase toda, de hoje em dia? (Por &#039;quase toda&#039; entenda-se: [re]produção da vida a mais crua.)
- à la Ellul: se pudermos definir a técnica como busca pela maior eficiência (o &#039;um único e melhor meio&#039; que submete os demais, pois menos eficientes), como pode ser que da técnica subvertamos a técnica? 
- à la Heidegger: se na base da técnica reside certo tipo de olhar sobre todos os entes na medida em que eles se nos oferecem a nós a partir do sentido pelo qual os vemos (ai, que preguiça do heideggerianês...), espécie de axioma ontologizante sobre os entes que os retira e os aliena de si mesmos, convertendo-os em fonte de energia a serem explorados e inseridos como função subordinante/subordinada num sistema de funções subordinantes/subordinadas (*preguiça ao quadrado*), como poderíamos começar a modificar esse olhar/modo-pelo-qual-os-entes-se-oferecem-a-nós-enquanto-exploráveis (#preguiça em 3D#)?
- à la Marx: se a partir da técnica industrial, ou do mais geral desenvolvimento das forças produtivas, abre-se a possibilidade de liberação do reino da necessidade por meio da transformação do trabalho na sua acepção amplamente material (o que é produzido, como é produzido, segundo quais tipos de relações, como é distribuído e como é consumido), e se o trabalho é aquilo que mais aprisiona e ao mesmo tempo realiza o/a cabra/o, como modificar o trabalho?

Enfim, algumas perplexidades, que talvez atinjam umas gentes.

Obs: peço licença pelo tom um quê jocoso; levo o humor muito a sério e essas são questões da pesada. Parafraseando o outro, é zombando das coisas que as atingimos em suas verdades (ulisses eu te amo)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Manolo,<br />
li com grande interesse seus artigos, a questão da técnica e da tecnologia é certamente central nos dias de hoje, tanto para a crítica quanto para a possível, necessária, almejada e inevitável transformação do modo de vida.<br />
Inevitável e necessária pois o desenvolvimento atualíssimo da técnica está gerando transformações profundas em diversas esferas &#8211; produtivas, sociais, cognitivas, comportamentais etc.<br />
Possível e almejada pois, dada sua inexorabilidade, já que estamos a refletir aqui neste site (espaço não extenso de interação), creio poder afirmar que concordamos no seguinte aspecto: deixado ao leo, o desenvolvimento técnico, em seu movimento (autônomo?) está nos levando, senão para a beira do precipício, pelo menos para formas cada vez mais intensas de exploração &#8211; o que aponta para a urgência de mudança de rota.<br />
(Interessante observar como no pensamento de uma porção de gente, a técnica assume uma função muito parecida com a do capital, enfim&#8230;)</p>
<p>De todo modo, resolvi escrever esse comentário para compartilhar uma pequena fórmula, que me assombra há alguns anos, e lançar umas dúvidas para quem sabe fazer fervilhar os miolos. </p>
<p>A fórmula é a seguinte: se a técnica não é neutra, ela é entretanto algo de subversível. Esta fórmula, contudo, é uma mera declaração de princípio, por demais abstrata para gerar alguma mudança efetiva. Esta viria, como veio ao longo da história, a partir do uso concreto que dela fazemos o qual, por sua vez, é possibilitado pelo tipo de interação ou modo de mediação ou o-diabo-que-o-valha que ela mesma proporciona. A técnica, desta feita, seria subversível não assim &#8216;no vazio&#8217;, como se pudéssemos dar a uma técnica a direção que desejarmos, mas sempre a partir do campo de possibilidades por ela inscrito &#8211; campo que, novamente, variaria a partir do uso que fazemos dela e que ela mesma nos proporciona. </p>
<p>Ora, se é assim, e se o estado atual da técnica se organiza e tende a se ordenar cada vez mais em direção aos códigos e algoritmos com vistas à autonomização de processos, cujo objetivo último é a maior eficiência, o aprendizado de programação seria talvez incontornável. </p>
<p>Pois bem, vão aí as inquietações:<br />
&#8211; à la Simondon: seria o domínio da programação, ou de modo mais geral o ser versado na linguagem técnica, algo necessário a todos, ou quase todos, uma vez que esse é o saber-fazer que estrutura os processos da parada toda, ou quase toda, de hoje em dia? (Por &#8216;quase toda&#8217; entenda-se: [re]produção da vida a mais crua.)<br />
&#8211; à la Ellul: se pudermos definir a técnica como busca pela maior eficiência (o &#8216;um único e melhor meio&#8217; que submete os demais, pois menos eficientes), como pode ser que da técnica subvertamos a técnica?<br />
&#8211; à la Heidegger: se na base da técnica reside certo tipo de olhar sobre todos os entes na medida em que eles se nos oferecem a nós a partir do sentido pelo qual os vemos (ai, que preguiça do heideggerianês&#8230;), espécie de axioma ontologizante sobre os entes que os retira e os aliena de si mesmos, convertendo-os em fonte de energia a serem explorados e inseridos como função subordinante/subordinada num sistema de funções subordinantes/subordinadas (*preguiça ao quadrado*), como poderíamos começar a modificar esse olhar/modo-pelo-qual-os-entes-se-oferecem-a-nós-enquanto-exploráveis (#preguiça em 3D#)?<br />
&#8211; à la Marx: se a partir da técnica industrial, ou do mais geral desenvolvimento das forças produtivas, abre-se a possibilidade de liberação do reino da necessidade por meio da transformação do trabalho na sua acepção amplamente material (o que é produzido, como é produzido, segundo quais tipos de relações, como é distribuído e como é consumido), e se o trabalho é aquilo que mais aprisiona e ao mesmo tempo realiza o/a cabra/o, como modificar o trabalho?</p>
<p>Enfim, algumas perplexidades, que talvez atinjam umas gentes.</p>
<p>Obs: peço licença pelo tom um quê jocoso; levo o humor muito a sério e essas são questões da pesada. Parafraseando o outro, é zombando das coisas que as atingimos em suas verdades (ulisses eu te amo)</p>
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