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	Comentários sobre: Um manifesto incómodo. 7	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Comentário Estimulante		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/10/157157/#comment-1089326</link>

		<dc:creator><![CDATA[Comentário Estimulante]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Feb 2026 18:15:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O “comentário incômodo” não é apenas pertinente; ele nos coloca diante de nossa própria responsabilidade teórica. Ele denuncia aquela tentação de construir um sistema fechado, coerente, satisfeito consigo mesmo, onde a luta de classes aparece como um mecanismo quase automático, abstraído das condições materiais que a tornam possível. Mas nenhuma teoria está fora do mundo. Ela é uma prática situada — e, como toda prática, compromete quem a sustenta.
Foi nesse horizonte que li o artigo “João Bernardo e o combate à questão ambiental” (https://redelp.net/index.php/rms/article/view/1305/1211), que toma como ponto de partida a análise de João Bernardo sobre o movimento ecológico. Segundo essa tese, o ecologismo poderia funcionar como instrumento da classe gestora: uma estratégia de reorganização das crises do capital por meio da contenção do consumo e da imposição de uma nova moral ascética. A crítica é severa — e, em parte, necessária. Ela nos obriga a desconfiar das formas pelas quais o sistema integra suas próprias contestações.
Mas o problema surge quando essa suspeita se converte em estrutura. Ao naturalizar a técnica e a ciência, como se fossem sistemas autorregulados e neutros, corre-se o risco de transformar a natureza num mecanismo abstrato de “reequilíbrio” permanente. A escassez concreta, a destruição efetiva das condições de vida, passam a ser momentos funcionais de uma totalidade que tudo absorve. Ora, a totalidade não é um dado; ela é uma construção histórica, atravessada por escolhas e conflitos.
A ecologia, nesse sentido, não é uma essência. É uma situação. Nela se enfrentam gestores, tecnocratas, reformistas — mas também trabalhadores, comunidades, sujeitos que experimentam no próprio corpo a degradação do meio que sustenta sua existência. A crise ambiental não é uma metáfora ideológica; ela atinge o que Marx chamou de “corpo inorgânico” do trabalhador. É o ar respirado, a água contaminada, o território expropriado. É a própria facticidade da vida social que se deteriora.
Se reduzimos tudo a manobra da gestão, fingimos que nada pode emergir ali além da reprodução do capital. Mas essa conclusão já é uma escolha. Ao declarar um campo perdido, entregamo-lo de antemão à hegemonia burguesa. Recusar-se a ver as contradições reais inscritas na crise ecológica é abdicar da possibilidade de transformá-las.
A questão não é aceitar ingenuamente o discurso ecológico, mas assumir a responsabilidade de intervir nele. A história não está fechada. A relação contraditória entre humanidade e natureza, tal como hoje se manifesta, não é destino nem equilíbrio estrutural: é resultado de práticas sociais determinadas. E, como toda prática, pode ser superado — desde que reconheçamos que também somos responsáveis por aquilo que escolhemos não ver.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O “comentário incômodo” não é apenas pertinente; ele nos coloca diante de nossa própria responsabilidade teórica. Ele denuncia aquela tentação de construir um sistema fechado, coerente, satisfeito consigo mesmo, onde a luta de classes aparece como um mecanismo quase automático, abstraído das condições materiais que a tornam possível. Mas nenhuma teoria está fora do mundo. Ela é uma prática situada — e, como toda prática, compromete quem a sustenta.<br />
Foi nesse horizonte que li o artigo “João Bernardo e o combate à questão ambiental” (<a href="https://redelp.net/index.php/rms/article/view/1305/1211" rel="nofollow ugc">https://redelp.net/index.php/rms/article/view/1305/1211</a>), que toma como ponto de partida a análise de João Bernardo sobre o movimento ecológico. Segundo essa tese, o ecologismo poderia funcionar como instrumento da classe gestora: uma estratégia de reorganização das crises do capital por meio da contenção do consumo e da imposição de uma nova moral ascética. A crítica é severa — e, em parte, necessária. Ela nos obriga a desconfiar das formas pelas quais o sistema integra suas próprias contestações.<br />
Mas o problema surge quando essa suspeita se converte em estrutura. Ao naturalizar a técnica e a ciência, como se fossem sistemas autorregulados e neutros, corre-se o risco de transformar a natureza num mecanismo abstrato de “reequilíbrio” permanente. A escassez concreta, a destruição efetiva das condições de vida, passam a ser momentos funcionais de uma totalidade que tudo absorve. Ora, a totalidade não é um dado; ela é uma construção histórica, atravessada por escolhas e conflitos.<br />
A ecologia, nesse sentido, não é uma essência. É uma situação. Nela se enfrentam gestores, tecnocratas, reformistas — mas também trabalhadores, comunidades, sujeitos que experimentam no próprio corpo a degradação do meio que sustenta sua existência. A crise ambiental não é uma metáfora ideológica; ela atinge o que Marx chamou de “corpo inorgânico” do trabalhador. É o ar respirado, a água contaminada, o território expropriado. É a própria facticidade da vida social que se deteriora.<br />
Se reduzimos tudo a manobra da gestão, fingimos que nada pode emergir ali além da reprodução do capital. Mas essa conclusão já é uma escolha. Ao declarar um campo perdido, entregamo-lo de antemão à hegemonia burguesa. Recusar-se a ver as contradições reais inscritas na crise ecológica é abdicar da possibilidade de transformá-las.<br />
A questão não é aceitar ingenuamente o discurso ecológico, mas assumir a responsabilidade de intervir nele. A história não está fechada. A relação contraditória entre humanidade e natureza, tal como hoje se manifesta, não é destino nem equilíbrio estrutural: é resultado de práticas sociais determinadas. E, como toda prática, pode ser superado — desde que reconheçamos que também somos responsáveis por aquilo que escolhemos não ver.</p>
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		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/10/157157/#comment-1088998</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 21 Feb 2026 20:45:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Estou a preparar uma resposta, mas, tal como preveni, não ficará pronta tão depressa como eu desejaria, porque tenho outros compromissos de permeio. Calculo que não demore demasiado.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estou a preparar uma resposta, mas, tal como preveni, não ficará pronta tão depressa como eu desejaria, porque tenho outros compromissos de permeio. Calculo que não demore demasiado.</p>
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		<title>
		Por: Comentário incômodo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/10/157157/#comment-1088987</link>

		<dc:creator><![CDATA[Comentário incômodo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 21 Feb 2026 18:59:24 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=157157#comment-1088987</guid>

					<description><![CDATA[Gio,

Tem razão: seu apontamento é relevante e complementar. Porém, não sendo logicamente necessário ao argumento que eu buscava sustentar, não me preocupei com isso. Meu objetivo não foi apontar um equívoco fático no texto de João Bernardo, mas sim um equívoco teórico. Por isso não foi o caso demonstrar empiricamente a existência de um campo ecológico emancipatório já constituído, mas criticar uma recusa teórica prévia presente em parte da esquerda que nega a ecologia enquanto contradição imanente do capital e, com isso, não apenas fecha esse terreno como campo possível de lutas como também atua de modo funcional ao negacionismo climático. 

É essa atitude teórica — que exclui a ecologia do horizonte crítico — que funciona como um interdito a priori a qualquer indagação consequente sobre lutas ecológicas, inclusive à própria sugestão de que se apresentem exemplos de lutas ecológicas anticapitalistas.

Ainda assim, se tomarmos um exemplo concreto, a luta dos povos indígenas e das populações urbanas contra a privatização do Rio Tapajós é ilustrativa. Ainda que não se trate de lutas ecológicas em seus fins declarados, elas mostram como a ecologia emerge imanentemente das lutas contra a expropriação. A degradação ambiental aparece aí não como efeito colateral, mas como produto objetivo das contradições sociais reais, diretamente vinculado à exploração e à luta de classes.

O caso é exemplar porque torna visível aquilo que costuma aparecer de modo abstrato nos debates ecológicos, frequentemente hegemonizados pela direita: os “problemas ambientais” não são externos ao capitalismo, mas momentos internos da dinâmica de acumulação, atravessados por relações de classe, expropriação e dominação.

Não posso afirmar que existam hoje lutas ecológicas emancipatórias em sentido “puro”, com um fulcro consciente e centralmente anticapitalista. Mas acho que a questão relevante é saber se há motivos objetivos para supor que elas não existam de modo algum. Tudo indica que surgem de modo fragmentário, periférico, contraditório e subsumidas a outras formas de resistência, mas ainda assim reais. Não aparecem como um campo autônomo já resolvido, mas como expressões imanentes das contradições do capital em sua relação com a natureza, passíveis de politização e radicalização — desde que isso permaneça no horizonte teórico e prático da esquerda.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gio,</p>
<p>Tem razão: seu apontamento é relevante e complementar. Porém, não sendo logicamente necessário ao argumento que eu buscava sustentar, não me preocupei com isso. Meu objetivo não foi apontar um equívoco fático no texto de João Bernardo, mas sim um equívoco teórico. Por isso não foi o caso demonstrar empiricamente a existência de um campo ecológico emancipatório já constituído, mas criticar uma recusa teórica prévia presente em parte da esquerda que nega a ecologia enquanto contradição imanente do capital e, com isso, não apenas fecha esse terreno como campo possível de lutas como também atua de modo funcional ao negacionismo climático. </p>
<p>É essa atitude teórica — que exclui a ecologia do horizonte crítico — que funciona como um interdito a priori a qualquer indagação consequente sobre lutas ecológicas, inclusive à própria sugestão de que se apresentem exemplos de lutas ecológicas anticapitalistas.</p>
<p>Ainda assim, se tomarmos um exemplo concreto, a luta dos povos indígenas e das populações urbanas contra a privatização do Rio Tapajós é ilustrativa. Ainda que não se trate de lutas ecológicas em seus fins declarados, elas mostram como a ecologia emerge imanentemente das lutas contra a expropriação. A degradação ambiental aparece aí não como efeito colateral, mas como produto objetivo das contradições sociais reais, diretamente vinculado à exploração e à luta de classes.</p>
<p>O caso é exemplar porque torna visível aquilo que costuma aparecer de modo abstrato nos debates ecológicos, frequentemente hegemonizados pela direita: os “problemas ambientais” não são externos ao capitalismo, mas momentos internos da dinâmica de acumulação, atravessados por relações de classe, expropriação e dominação.</p>
<p>Não posso afirmar que existam hoje lutas ecológicas emancipatórias em sentido “puro”, com um fulcro consciente e centralmente anticapitalista. Mas acho que a questão relevante é saber se há motivos objetivos para supor que elas não existam de modo algum. Tudo indica que surgem de modo fragmentário, periférico, contraditório e subsumidas a outras formas de resistência, mas ainda assim reais. Não aparecem como um campo autônomo já resolvido, mas como expressões imanentes das contradições do capital em sua relação com a natureza, passíveis de politização e radicalização — desde que isso permaneça no horizonte teórico e prático da esquerda.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: gio		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/10/157157/#comment-1088072</link>

		<dc:creator><![CDATA[gio]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Feb 2026 13:23:34 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Comentário incômodo, seria interessante trazer exemplos concretos de lutas ecologicas que visem a emancipação e sejam anticapitalistas, talvez isso ajude na argumentação !  

Estamos vendo a luta dos tapajos contra a privatização de seu principal rio de uso, ali temos questões ecologicas, identitarias, ação direta, ...!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Comentário incômodo, seria interessante trazer exemplos concretos de lutas ecologicas que visem a emancipação e sejam anticapitalistas, talvez isso ajude na argumentação !  </p>
<p>Estamos vendo a luta dos tapajos contra a privatização de seu principal rio de uso, ali temos questões ecologicas, identitarias, ação direta, &#8230;!</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/10/157157/#comment-1087826</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Feb 2026 10:35:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[As questões levantadas, tanto pela vastidão como pelos argumentos invocados, merecem um destaque maior do que um simples comentário. Além disso, o carácter das suas perguntas leva a que as minhas respostas sejam necessariamente extensas. Então, parece-me preferível transportar o diálogo para um artigo. Talvez eu não consiga dar conta desse trabalho tão rapidamente como gostaria, mas esforçar-me-ei por não atrasar demais.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As questões levantadas, tanto pela vastidão como pelos argumentos invocados, merecem um destaque maior do que um simples comentário. Além disso, o carácter das suas perguntas leva a que as minhas respostas sejam necessariamente extensas. Então, parece-me preferível transportar o diálogo para um artigo. Talvez eu não consiga dar conta desse trabalho tão rapidamente como gostaria, mas esforçar-me-ei por não atrasar demais.</p>
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		<title>
		Por: Comentário incômodo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/10/157157/#comment-1087709</link>

		<dc:creator><![CDATA[Comentário incômodo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Feb 2026 18:42:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caro João Bernardo,

Sei que seu ensaio não se resume ao tópico sobre o qual dedico estas linhas; ele é mais amplo e mais fecundo. Ainda assim, seu &quot;Manifesto incômodo&quot; incomoda de modo particular porque nos toca exatamente nos temas e nos debates em que estamos envolvidos — identitários e ecológicos, reformistas e revolucionários, moralistas e materialistas.

Temos um grupo de estudos e estamos dedicando alguns encontros à leitura de sua série de sete artigos reunidos no manifesto incômodo. Os temas vão se desenvolvendo aos poucos. Este meu comentário vem diretamente desses encontros.

O tema dos problemas ecológicos me repercute há alguns bons anos, desde o momento em que me pareceu possível perceber algo de um buraco sem saída no qual estávamos metidos. Nesse ponto, é possível generalizar para a humanidade: os estragos e as ameaças ambientais são grandes e dizem respeito a todos/as. Nos anos em que me interessei mais diretamente por essa questão, tive contato com autores cujos limites na organização, na compreensão e na disposição do problema só fui entender depois. Penso que o relatório do Clube de Roma, de 1972, é um paradigma adequado para a crítica que o senhor dirige aos “ecológicos”, sobretudo porque já anuncia no próprio título — Os limites do crescimento — uma forma de gestão capitalista da crise.

Com a referência irônica a Karl Pearson, tive e ainda tenho a impressão de que se afirma uma espécie de autossuficiência do marxismo, ou mais precisamente: não apenas a centralidade, mas uma autonomia total da luta de classes, com a qual não deveriam existir intersecções, pois estas seriam potencialmente reacionárias. Essa leitura me parece caber melhor à crítica ao identitarismo do que à questão ecológica.

Entendo, porém, que tal posição conduz o marxismo a uma forma de abstração unilateral problemática, na medida em que a práxis implica necessariamente o atravessamento da luta de classes por todas as contradições sociais efetivas — inclusive as ecológicas. Contradições estas que não são externas à luta de classes, mas constituem a própria luta de classes enquanto totalidade histórica concreta.

A centralidade de um elemento do sistema pressupõe relações com não-centralidades; não o apagamento destas. Uma recusa desse tipo produz um efeito político claro: lança todas as não-centralidades diretamente no campo da direita. A totalidade social não é um bloco homogêneo, mas uma unidade articulada por mediações. Supor a luta de classes sem relação com não-centralidades é transformá-la em princípio explicativo imediato de tudo quando ela é a determinação em última instância.  Quem enfrenta hoje as questões climáticas nadando contra as forças produtivas não é a ecologia em abstrato, mas a ecologia sob direção de ideologias reacionárias. Isso não decorre de nenhuma determinação estrutural de um matrimônio indissolúvel entre capital e ecologia — como ocorre, por razões distintas, na relação entre capital e identitarismo, embora aquela possa ser operacionalizada ideologicamente. Pelo contrário: o capital é o agente destruidor da ecologia, isto é, das próprias condições materiais de sua existência.

Nesse sentido, não se trata de introduzir um elemento externo ao marxismo, mas de recusar um fechamento prematuro da crítica por meio de determinações já presentes em Marx: “todo progresso da agricultura capitalista é um progresso na arte de saquear não só o trabalhador, mas também o solo, pois cada progresso alcançado no aumento da fertilidade do solo por certo período é ao mesmo tempo um progresso no esgotamento das fontes duradouras dessa fertilidade”. Neste trecho do Vol I do Capital, capítulo 13, os problemas ecológicos aparecem diretamente vinculados à dinâmica da exploração e à luta de classes. A questão que se impõe, portanto, é por que os problemas ecológicos tendem a aparecer apenas sob a forma de apagamento ou desvio.

Meu desacordo pontual não se dirige exatamente ao conteúdo central de sua crítica, se bem a compreendi. Os movimentos ecológicos são hegemonizados pelo conservadorismo — ponto. A reconstrução histórica que o senhor faz da gênese do movimento ecológico é precisa e esclarecedora. O problema aparece no modo como essa crítica se encerra. Ao permanecer restrita à denúncia ideológica, ela não tematiza a crise ecológica como contradição histórica imanente ao capital, isto é, como expressão de um limite material da própria reprodução ampliada. O resultado não é apenas negativo no plano teórico, mas produz uma interdição política: um problema real tende a ser tratado como desvio necessário da luta de classes.
Isso se evidencia, por exemplo, na afirmação de que a experiência e a tragédia acambojanas representariam uma “generalização de princípios ecológicos”. Se o campo ecológico não é compreendido senão como ideologia reacionária, então o ruralismo forçado do Khmer aparece como o horizonte máximo de legitimidade possível da questão ecológica. Mas, nesse caso, desaparece a contradição real entre capital e base material das condições de existência.

A pergunta que se abre é direta: que condições históricas precisariam se apresentar para que fosse aceita uma tematização não regressiva da ecologia — não como essência metafísica, mas como produto das contradições históricas do capital?

Não encontrei no ensaio nenhuma indicação de adesão ao negacionismo climático. Ainda assim, o modo de formulação frequentemente produz esse efeito de leitura. A crítica, que é forte contra o ecologismo autoritário, se enfraquece ao não enfrentar a materialidade real da crise ecológica, tratando-a sobretudo como construção ideológica. Ora, como não esperar, então, a hegemonia conservadora nesse campo, se os problemas ecológicos são recusados como terreno legítimo das contradições do capital? A hegemonia conservadora de um campo não determina sua essência histórica, assim como a captura de outras lutas não esgota a materialidade das contradições das quais emergem.

Alguns problemas ecológicos — senão o conjunto deles hoje — são urgentes e lidam com condições materiais cada vez menos negociáveis. O aquecimento global e o consequente degelo do permafrost nos solos da Sibéria e do Alasca, que aprisionam enormes quantidades de carbono sob a forma de matéria orgânica e metano, colocam-nos diante de um risco material objetivo. A liberação desse gás intensifica o efeito estufa e acelera processos potencialmente irreversíveis. Trata-se de limites materiais impostos à própria reprodução social sob o capital. Aceitar esse risco nos conduz, simultaneamente, à pergunta sobre ser ou não necessária alguma forma de emancipação.

Por isso, parece-me fundamental distinguir a crítica aos identitarismos da crítica aos “ecológicos”. Existe, sem dúvida, uma ecologia reacionária, malthusiana e ecofascista — e é ela que aparece de modo quase exclusivo no manifesto. Mas isso esgota a experiência histórica possível da questão ecológica? Ela deve ser essencializada e deslocada para fora dos processos históricos que a produzem? Não creio que se possa sustentar que o campo político ecológico tende estruturalmente ao reacionarismo do mesmo modo que os identitarismos. Enquanto estes operam sobretudo no plano político-ideológico, a ecologia remete a limites materiais objetivos. No ensaio, a relação estrutural entre capitalismo tardio e exploração via mais-valia relativa dos conflitos sociais — como os identitarismos — é muito bem estabelecida. O que chama atenção é que a ecologia não apareça nesse quadro, ou apareça apenas como desvio. Daí a questão insistente: por que deixar a impressão de uma equivalência estrutural entre os dois campos?

Uma crítica dessa força, se não pretende ser uma crítica à ecologia em si mesma, deveria ao menos reconhecer que a crise ecológica pode ser compreendida como contradição da reprodução capitalista e, portanto, como terreno real de conflito histórico. Ao optar por uma crítica monolítica — à ecologia como ideologia, aos ecologistas como mistificadores e ao tema ambiental como desvio — corre-se o risco de produzir a impressão de que não há aí nenhuma questão. Ou pior: de que a própria questão deva ser abandonada.

Sei que poderá ficar a quem ler este comentário a impressão de haver uma intenção, nas entrelinhas, de salvar o ecologismo, ou os &quot;ecológicos&quot; nos termos de sua crítica, e este é um risco do diálogo. Mas eu penso que estou tentando mantê-lo no campo das contradições que não subalternizam e nem deslocam a centralidade da luta de classes do núcleo histórico da reprodução capitalista antes de concluir que não há pauta ecológica possível fora da moralização e da naturalização.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro João Bernardo,</p>
<p>Sei que seu ensaio não se resume ao tópico sobre o qual dedico estas linhas; ele é mais amplo e mais fecundo. Ainda assim, seu &#8220;Manifesto incômodo&#8221; incomoda de modo particular porque nos toca exatamente nos temas e nos debates em que estamos envolvidos — identitários e ecológicos, reformistas e revolucionários, moralistas e materialistas.</p>
<p>Temos um grupo de estudos e estamos dedicando alguns encontros à leitura de sua série de sete artigos reunidos no manifesto incômodo. Os temas vão se desenvolvendo aos poucos. Este meu comentário vem diretamente desses encontros.</p>
<p>O tema dos problemas ecológicos me repercute há alguns bons anos, desde o momento em que me pareceu possível perceber algo de um buraco sem saída no qual estávamos metidos. Nesse ponto, é possível generalizar para a humanidade: os estragos e as ameaças ambientais são grandes e dizem respeito a todos/as. Nos anos em que me interessei mais diretamente por essa questão, tive contato com autores cujos limites na organização, na compreensão e na disposição do problema só fui entender depois. Penso que o relatório do Clube de Roma, de 1972, é um paradigma adequado para a crítica que o senhor dirige aos “ecológicos”, sobretudo porque já anuncia no próprio título — Os limites do crescimento — uma forma de gestão capitalista da crise.</p>
<p>Com a referência irônica a Karl Pearson, tive e ainda tenho a impressão de que se afirma uma espécie de autossuficiência do marxismo, ou mais precisamente: não apenas a centralidade, mas uma autonomia total da luta de classes, com a qual não deveriam existir intersecções, pois estas seriam potencialmente reacionárias. Essa leitura me parece caber melhor à crítica ao identitarismo do que à questão ecológica.</p>
<p>Entendo, porém, que tal posição conduz o marxismo a uma forma de abstração unilateral problemática, na medida em que a práxis implica necessariamente o atravessamento da luta de classes por todas as contradições sociais efetivas — inclusive as ecológicas. Contradições estas que não são externas à luta de classes, mas constituem a própria luta de classes enquanto totalidade histórica concreta.</p>
<p>A centralidade de um elemento do sistema pressupõe relações com não-centralidades; não o apagamento destas. Uma recusa desse tipo produz um efeito político claro: lança todas as não-centralidades diretamente no campo da direita. A totalidade social não é um bloco homogêneo, mas uma unidade articulada por mediações. Supor a luta de classes sem relação com não-centralidades é transformá-la em princípio explicativo imediato de tudo quando ela é a determinação em última instância.  Quem enfrenta hoje as questões climáticas nadando contra as forças produtivas não é a ecologia em abstrato, mas a ecologia sob direção de ideologias reacionárias. Isso não decorre de nenhuma determinação estrutural de um matrimônio indissolúvel entre capital e ecologia — como ocorre, por razões distintas, na relação entre capital e identitarismo, embora aquela possa ser operacionalizada ideologicamente. Pelo contrário: o capital é o agente destruidor da ecologia, isto é, das próprias condições materiais de sua existência.</p>
<p>Nesse sentido, não se trata de introduzir um elemento externo ao marxismo, mas de recusar um fechamento prematuro da crítica por meio de determinações já presentes em Marx: “todo progresso da agricultura capitalista é um progresso na arte de saquear não só o trabalhador, mas também o solo, pois cada progresso alcançado no aumento da fertilidade do solo por certo período é ao mesmo tempo um progresso no esgotamento das fontes duradouras dessa fertilidade”. Neste trecho do Vol I do Capital, capítulo 13, os problemas ecológicos aparecem diretamente vinculados à dinâmica da exploração e à luta de classes. A questão que se impõe, portanto, é por que os problemas ecológicos tendem a aparecer apenas sob a forma de apagamento ou desvio.</p>
<p>Meu desacordo pontual não se dirige exatamente ao conteúdo central de sua crítica, se bem a compreendi. Os movimentos ecológicos são hegemonizados pelo conservadorismo — ponto. A reconstrução histórica que o senhor faz da gênese do movimento ecológico é precisa e esclarecedora. O problema aparece no modo como essa crítica se encerra. Ao permanecer restrita à denúncia ideológica, ela não tematiza a crise ecológica como contradição histórica imanente ao capital, isto é, como expressão de um limite material da própria reprodução ampliada. O resultado não é apenas negativo no plano teórico, mas produz uma interdição política: um problema real tende a ser tratado como desvio necessário da luta de classes.<br />
Isso se evidencia, por exemplo, na afirmação de que a experiência e a tragédia acambojanas representariam uma “generalização de princípios ecológicos”. Se o campo ecológico não é compreendido senão como ideologia reacionária, então o ruralismo forçado do Khmer aparece como o horizonte máximo de legitimidade possível da questão ecológica. Mas, nesse caso, desaparece a contradição real entre capital e base material das condições de existência.</p>
<p>A pergunta que se abre é direta: que condições históricas precisariam se apresentar para que fosse aceita uma tematização não regressiva da ecologia — não como essência metafísica, mas como produto das contradições históricas do capital?</p>
<p>Não encontrei no ensaio nenhuma indicação de adesão ao negacionismo climático. Ainda assim, o modo de formulação frequentemente produz esse efeito de leitura. A crítica, que é forte contra o ecologismo autoritário, se enfraquece ao não enfrentar a materialidade real da crise ecológica, tratando-a sobretudo como construção ideológica. Ora, como não esperar, então, a hegemonia conservadora nesse campo, se os problemas ecológicos são recusados como terreno legítimo das contradições do capital? A hegemonia conservadora de um campo não determina sua essência histórica, assim como a captura de outras lutas não esgota a materialidade das contradições das quais emergem.</p>
<p>Alguns problemas ecológicos — senão o conjunto deles hoje — são urgentes e lidam com condições materiais cada vez menos negociáveis. O aquecimento global e o consequente degelo do permafrost nos solos da Sibéria e do Alasca, que aprisionam enormes quantidades de carbono sob a forma de matéria orgânica e metano, colocam-nos diante de um risco material objetivo. A liberação desse gás intensifica o efeito estufa e acelera processos potencialmente irreversíveis. Trata-se de limites materiais impostos à própria reprodução social sob o capital. Aceitar esse risco nos conduz, simultaneamente, à pergunta sobre ser ou não necessária alguma forma de emancipação.</p>
<p>Por isso, parece-me fundamental distinguir a crítica aos identitarismos da crítica aos “ecológicos”. Existe, sem dúvida, uma ecologia reacionária, malthusiana e ecofascista — e é ela que aparece de modo quase exclusivo no manifesto. Mas isso esgota a experiência histórica possível da questão ecológica? Ela deve ser essencializada e deslocada para fora dos processos históricos que a produzem? Não creio que se possa sustentar que o campo político ecológico tende estruturalmente ao reacionarismo do mesmo modo que os identitarismos. Enquanto estes operam sobretudo no plano político-ideológico, a ecologia remete a limites materiais objetivos. No ensaio, a relação estrutural entre capitalismo tardio e exploração via mais-valia relativa dos conflitos sociais — como os identitarismos — é muito bem estabelecida. O que chama atenção é que a ecologia não apareça nesse quadro, ou apareça apenas como desvio. Daí a questão insistente: por que deixar a impressão de uma equivalência estrutural entre os dois campos?</p>
<p>Uma crítica dessa força, se não pretende ser uma crítica à ecologia em si mesma, deveria ao menos reconhecer que a crise ecológica pode ser compreendida como contradição da reprodução capitalista e, portanto, como terreno real de conflito histórico. Ao optar por uma crítica monolítica — à ecologia como ideologia, aos ecologistas como mistificadores e ao tema ambiental como desvio — corre-se o risco de produzir a impressão de que não há aí nenhuma questão. Ou pior: de que a própria questão deva ser abandonada.</p>
<p>Sei que poderá ficar a quem ler este comentário a impressão de haver uma intenção, nas entrelinhas, de salvar o ecologismo, ou os &#8220;ecológicos&#8221; nos termos de sua crítica, e este é um risco do diálogo. Mas eu penso que estou tentando mantê-lo no campo das contradições que não subalternizam e nem deslocam a centralidade da luta de classes do núcleo histórico da reprodução capitalista antes de concluir que não há pauta ecológica possível fora da moralização e da naturalização.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/10/157157/#comment-1080466</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 Jan 2026 10:30:58 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=157157#comment-1080466</guid>

					<description><![CDATA[Caro Gogol,

Este seu comentário deveria ser transformado num artigo, e sugiro-lhe que o faça. Porque, seriamente, as sucessivas questões que você formula não podem ser respondidas por mim nem por qualquer pessoa individual, mas apresentam-se antes como um programa de estudo para sucessivas gerações. E um estudo sempre em aberto. Aliás, a primeira coisa que devemos fazer quando encontramos resposta para uma pergunta é transformá-la numa nova pergunta. Ser revolucionário é isto mesmo, e se a crítica prática deve ser permanente, a crítica teórica deve sê-lo também. Logo no começo você acertou no alvo, quando escreveu que a crise histórica atravessada hoje pelos marxistas ficou instalada desde o momento em que o método legado por Marx e Engels deixou de ser um método de investigação da realidade para se tornar uma doutrina. É este o destino fatídico de tantos fundadores, que sobreviva como doutrina o que deveria ser um método de investigação. A doutrina são respostas, o método são perguntas, e transformar as respostas em perguntas é a única forma de manter vivo o método. 
Este seu comentário é um belo enunciado em aberto, e insisto na minha sugestão de que você o converta num artigo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Gogol,</p>
<p>Este seu comentário deveria ser transformado num artigo, e sugiro-lhe que o faça. Porque, seriamente, as sucessivas questões que você formula não podem ser respondidas por mim nem por qualquer pessoa individual, mas apresentam-se antes como um programa de estudo para sucessivas gerações. E um estudo sempre em aberto. Aliás, a primeira coisa que devemos fazer quando encontramos resposta para uma pergunta é transformá-la numa nova pergunta. Ser revolucionário é isto mesmo, e se a crítica prática deve ser permanente, a crítica teórica deve sê-lo também. Logo no começo você acertou no alvo, quando escreveu que a crise histórica atravessada hoje pelos marxistas ficou instalada desde o momento em que o método legado por Marx e Engels deixou de ser um método de investigação da realidade para se tornar uma doutrina. É este o destino fatídico de tantos fundadores, que sobreviva como doutrina o que deveria ser um método de investigação. A doutrina são respostas, o método são perguntas, e transformar as respostas em perguntas é a única forma de manter vivo o método.<br />
Este seu comentário é um belo enunciado em aberto, e insisto na minha sugestão de que você o converta num artigo.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Gogol		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/10/157157/#comment-1080390</link>

		<dc:creator><![CDATA[Gogol]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Jan 2026 23:26:45 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=157157#comment-1080390</guid>

					<description><![CDATA[Caro João,

A crise histórica que passa atualmente os marxistas, é uma crise de já está instalada desde os primórdios, desde o momento em que o método deixado por seus fundadores, o materialismo histórico, deixou de ser um método de investigação da realidade para se tornar uma doutrina, onde as enunciações dos mestres tornaram-se dogmas inquestionáveis, independente se tais enunciações sejam falsas ou não. A autoridade intelectual sobressai perante o método investigativo. O marxismo, dito oficial, capturado pelas autoridades de uns, sempre foi uma pedra no sapato para qualquer interpretação heterodoxa. Mesmo que os números, as estatísticas e o que a realidade mostrava e mostra em fatos, contrariando determinadas afirmações equivocadas e catastróficas dos mestres, não convence os ortodoxos dogmáticos, dos erros dos  santos do socialismo. Mas esses mesmos ortodoxos, que se diziam fiéis as escrituras, manipulam, a sua maneira, essas mesmas “escrituras”, conformando-as, sem qualquer compromisso com a complexidade das questões econômicas, aos seus delírios catastróficos, deixando de lado as passagens mais ponderadas, que muitas vezes, negam suas afirmações. Prioriza-se aquilo que é destrutivo no capitalismo ao mesmo tempo que omitem as características criativas do modo de produção capitalista, que embora passe por  intempéries momentâneas, crises cíclicas de ramos industriais específicos, com suas leis e história próprias, continua em seu caminho de superação no processo de acumulação e exploração. Mas é aquilo que você disse, em uma passagem dessa série de textos, que um ambiente em que o mito predomina diante da verificação histórica,  as argumentações “são invenções destinadas a legitimar, não a explicar.” E aquilo que servia para explicar algo, agora, em uma grande confusão, passa a afirmar o seu contrário. E essa atrapalhada, ou melhor dizendo, essa desonestidade intelectual, dita oficial, passa a ser a palavra de ordem e quem ir de encontro aos mitos inventados, foi e continuará sendo  ameaçado de heresia, e a solução, para a tranquilidade dos fundamentalistas, foi e será, o banimento e a purificação.

A miséria generalizada, tão esperada,  não se realizou. Mas não foi isso anunciado? Cadê os dados de tais premissas? A concentração absoluta da riqueza em poucas mãos, a sociedade de ações tornou-as mais complexa. A crise geral, anunciada, não aconteceu até hoje, mas ela não estava próxima a 140 anos atrás? Estamos em 2026 e os marxistas continuam empurrando essa data para um futuro próximo que nunca chega, e duvido muito que um dia chegará. O que sabemos é que não terá uma data para que essa irresponsabilidade chegue ao fim. 

O que temos ainda são crise cíclicas de ramos da indústria, e quantos ramos industriais, ao longo do tempo, surgiram desde então? Ainda tem as crises comerciais, as crises financeiras, etc, cada uma com as suas características próprias, que se conectam relativamente ao complexo total devido às ligações dessas esferas com a totalidade. A tal crise autêntica, histórica e estrutural do modo de produção capitalista, que colapsará toda a sociedade burguesa, é anunciada há pelo menos 140 anos, e ainda nada. Não está na hora de fazer um balanço do capitalismo recorrendo às estatísticas e compará-las às afirmações decadentistas dos mestres da revolução? 

Enquanto isso, nossos grandes revolucionários, tiram uma boa soneca, já que a decadência das forças produtivas determinarão quando a revolução chegará. As minorias revolucionárias devem aguardar, febrilmente, em estado de repouso, os sinais da anunciação da Nova Era de Aquário que se aproxima. As análises de conjunturas são os espaços onde esses sinais dos finais dos tempos são identificados, são os espaços onde as revelações da crise final do capitalismo são decifradas. 

Mas vamos ao que interessa! Tenho algumas questões: Sobre a mais-valia social, existem estudos a respeito de como essa mais-valia é distribuída entre os capitalistas? O que podemos atualizar sobre a teoria do valor? O que de destrutivo e criativo podemos pensar sobre o crédito? Em algum lugar você chamou atenção. O que devemos atualizar sobre as premissas filosóficas do materialismo histórico? E o que podemos dizer sobre o materialismo dialético? E o que de ideologia podemos dizer que foram criados pelos marxistas? Aquelas mais míticas que podemos melhorá-las?


Sobre a Ecologia: 

O que um dia, pretendeu-se tornar-se, vanguarda, encontra-se na retaguarda. Os marxistas, de alguns anos pra cá, estão sendo arrastados pela visão de natureza dos nacionais-socialistas, alinharam-se ao catastrofismo ecológico. Hobsbawm aponta, que na virada do século XIX e início do século XX, duas correntes eram apocalípticas, os marxistas e os fascistas, avisa um tema comum entre esses, a espera da ruína da sociedade estabelecida. Alguns ecossocialistas dizem, que mais do que a luta de classes e a emancipação dos trabalhadores,  a defesa da natureza diante da destrutividade do capitalismo é a mais importante luta que se deve ser engajada pelos socialistas. E dizem eles isso encontra-se em Marx. John Bellamy Foster diz que a ecologia surgiu da junção das ideias de Darwim e Justos von Lieb. Justo Justus? Von Lieb, é o que, na linguagem ecológica tupiniquim, poderemos dizer, que é pai do agrotóxico, foi aquele que ajudou a sintetizar a NPK, e foi a sua escola que iniciou o desenvolvimento do fertilizante químico para a agricultura. Os ecologistas o apontam como um pecador, e propuseram o pó de rocha, pois o fertilizante solúvel químico adoeceria o volk. Ou seja, von Lieb seria o Satanás, do ponto de vista ecológico, da ciência. O que você acha dessa forma, fora do comum, de se contar a história da origem da ecologia? 

No que diz respeito à agroecologia, posso afirmar, que Ana Maria Primavesi e seu esposo, Arthur Primavesi, foram os introdutores dessa doutrina agrológica no Brasil. Veja só, Ana Maria, que na época de sua formação chamava-se Annamarie Conrad, uma aristocrata de nascimento, foi influenciada, pela perspectiva doutrinária agrícola oficial da época, e após graduar-se, tornaria assistente, na universidade de BOKU, além de, ser orientada, em seu doutorado, pelo professor Franz Sekera. Sekera era o chefe nazista da universidadede que os Primavesi se formaram. Ele, Sekera, filiado ao partido NSDAP, clandestinamente, desde de 1937, autoproclamou-se Diretor Geral de BOKU após a anexação da Áustria pela Alemanha nazista em 1938. Esse cruel chefe nazista, segundo o historiador, Paulus Ebner, implementou a nazificação dessa universidade de ciências da terra, expurgando alunos judeus, professores e funcionários, mandando à campos de concentração os desafetos do nazismo, e esses desafetos eram austrofascistas, regime corporativista implantada por Dolfuss. A influência de Ana Maria por esse professor de ecologia do solo é expressada pela própria e em sua biografia não faltam elogios ao senhor Sekera, o nazista. Ana Maria, consciente dos poderes de Sekera em BOKU, não se fez de rogada, viu uma oportunidade de ascensão acadêmica, que só foi interrompida, pelos distúrbios da ocupação soviética. A pax nazistas acabada, sua carreira não seguiu, Sekera, fora preso e condenado, Annamarie, tbm presa e estigmatizada como assistente do chefe nazista, não evoluiu com a derrubada do Terceiro Reich. Não tendo como prosseguir, optou pela imigração ao Brasil. Daí em diante todos sabemos o que aconteceu. 
 
Sobre o identirarismo:

Hoje o movimento negro está a praticar eugenia, denomina essa eugenia como relações afrocentradas, e tem todo uma receituário para se chegar a um bom fim. Escuto isso sempre da mulecada. Garvey é a referência. 

Duas perguntas: Para Rosa Luxemburgo a crise final do capitalismo aconteceria com o fim dos mercados não  capitalistas. Em 2026 existe algum mercado que não esteja sobre as premissas capitalistas? E dentro do sistema de circulação de mercadorias, onde se dão as maiores transações? Entre as economias mais capitalizadas e desenvolvidas ou entre as supostas economias não capitalizadas ou de capitalismo não desenvolvidos? Rosa foi uma dessas ortodoxas que condenou a heterodoxia como um desvio herético. Deixando de lado as afirmações reformistas de Eduard Bernstein, que a história demonstrou a sua degeneração, sindicatos e cooperativas, mas no que tange às refutações de um futuro catastrófico, pareceu ser a análise mais real. 

São muitas questões mas não poderia ser diferente.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro João,</p>
<p>A crise histórica que passa atualmente os marxistas, é uma crise de já está instalada desde os primórdios, desde o momento em que o método deixado por seus fundadores, o materialismo histórico, deixou de ser um método de investigação da realidade para se tornar uma doutrina, onde as enunciações dos mestres tornaram-se dogmas inquestionáveis, independente se tais enunciações sejam falsas ou não. A autoridade intelectual sobressai perante o método investigativo. O marxismo, dito oficial, capturado pelas autoridades de uns, sempre foi uma pedra no sapato para qualquer interpretação heterodoxa. Mesmo que os números, as estatísticas e o que a realidade mostrava e mostra em fatos, contrariando determinadas afirmações equivocadas e catastróficas dos mestres, não convence os ortodoxos dogmáticos, dos erros dos  santos do socialismo. Mas esses mesmos ortodoxos, que se diziam fiéis as escrituras, manipulam, a sua maneira, essas mesmas “escrituras”, conformando-as, sem qualquer compromisso com a complexidade das questões econômicas, aos seus delírios catastróficos, deixando de lado as passagens mais ponderadas, que muitas vezes, negam suas afirmações. Prioriza-se aquilo que é destrutivo no capitalismo ao mesmo tempo que omitem as características criativas do modo de produção capitalista, que embora passe por  intempéries momentâneas, crises cíclicas de ramos industriais específicos, com suas leis e história próprias, continua em seu caminho de superação no processo de acumulação e exploração. Mas é aquilo que você disse, em uma passagem dessa série de textos, que um ambiente em que o mito predomina diante da verificação histórica,  as argumentações “são invenções destinadas a legitimar, não a explicar.” E aquilo que servia para explicar algo, agora, em uma grande confusão, passa a afirmar o seu contrário. E essa atrapalhada, ou melhor dizendo, essa desonestidade intelectual, dita oficial, passa a ser a palavra de ordem e quem ir de encontro aos mitos inventados, foi e continuará sendo  ameaçado de heresia, e a solução, para a tranquilidade dos fundamentalistas, foi e será, o banimento e a purificação.</p>
<p>A miséria generalizada, tão esperada,  não se realizou. Mas não foi isso anunciado? Cadê os dados de tais premissas? A concentração absoluta da riqueza em poucas mãos, a sociedade de ações tornou-as mais complexa. A crise geral, anunciada, não aconteceu até hoje, mas ela não estava próxima a 140 anos atrás? Estamos em 2026 e os marxistas continuam empurrando essa data para um futuro próximo que nunca chega, e duvido muito que um dia chegará. O que sabemos é que não terá uma data para que essa irresponsabilidade chegue ao fim. </p>
<p>O que temos ainda são crise cíclicas de ramos da indústria, e quantos ramos industriais, ao longo do tempo, surgiram desde então? Ainda tem as crises comerciais, as crises financeiras, etc, cada uma com as suas características próprias, que se conectam relativamente ao complexo total devido às ligações dessas esferas com a totalidade. A tal crise autêntica, histórica e estrutural do modo de produção capitalista, que colapsará toda a sociedade burguesa, é anunciada há pelo menos 140 anos, e ainda nada. Não está na hora de fazer um balanço do capitalismo recorrendo às estatísticas e compará-las às afirmações decadentistas dos mestres da revolução? </p>
<p>Enquanto isso, nossos grandes revolucionários, tiram uma boa soneca, já que a decadência das forças produtivas determinarão quando a revolução chegará. As minorias revolucionárias devem aguardar, febrilmente, em estado de repouso, os sinais da anunciação da Nova Era de Aquário que se aproxima. As análises de conjunturas são os espaços onde esses sinais dos finais dos tempos são identificados, são os espaços onde as revelações da crise final do capitalismo são decifradas. </p>
<p>Mas vamos ao que interessa! Tenho algumas questões: Sobre a mais-valia social, existem estudos a respeito de como essa mais-valia é distribuída entre os capitalistas? O que podemos atualizar sobre a teoria do valor? O que de destrutivo e criativo podemos pensar sobre o crédito? Em algum lugar você chamou atenção. O que devemos atualizar sobre as premissas filosóficas do materialismo histórico? E o que podemos dizer sobre o materialismo dialético? E o que de ideologia podemos dizer que foram criados pelos marxistas? Aquelas mais míticas que podemos melhorá-las?</p>
<p>Sobre a Ecologia: </p>
<p>O que um dia, pretendeu-se tornar-se, vanguarda, encontra-se na retaguarda. Os marxistas, de alguns anos pra cá, estão sendo arrastados pela visão de natureza dos nacionais-socialistas, alinharam-se ao catastrofismo ecológico. Hobsbawm aponta, que na virada do século XIX e início do século XX, duas correntes eram apocalípticas, os marxistas e os fascistas, avisa um tema comum entre esses, a espera da ruína da sociedade estabelecida. Alguns ecossocialistas dizem, que mais do que a luta de classes e a emancipação dos trabalhadores,  a defesa da natureza diante da destrutividade do capitalismo é a mais importante luta que se deve ser engajada pelos socialistas. E dizem eles isso encontra-se em Marx. John Bellamy Foster diz que a ecologia surgiu da junção das ideias de Darwim e Justos von Lieb. Justo Justus? Von Lieb, é o que, na linguagem ecológica tupiniquim, poderemos dizer, que é pai do agrotóxico, foi aquele que ajudou a sintetizar a NPK, e foi a sua escola que iniciou o desenvolvimento do fertilizante químico para a agricultura. Os ecologistas o apontam como um pecador, e propuseram o pó de rocha, pois o fertilizante solúvel químico adoeceria o volk. Ou seja, von Lieb seria o Satanás, do ponto de vista ecológico, da ciência. O que você acha dessa forma, fora do comum, de se contar a história da origem da ecologia? </p>
<p>No que diz respeito à agroecologia, posso afirmar, que Ana Maria Primavesi e seu esposo, Arthur Primavesi, foram os introdutores dessa doutrina agrológica no Brasil. Veja só, Ana Maria, que na época de sua formação chamava-se Annamarie Conrad, uma aristocrata de nascimento, foi influenciada, pela perspectiva doutrinária agrícola oficial da época, e após graduar-se, tornaria assistente, na universidade de BOKU, além de, ser orientada, em seu doutorado, pelo professor Franz Sekera. Sekera era o chefe nazista da universidadede que os Primavesi se formaram. Ele, Sekera, filiado ao partido NSDAP, clandestinamente, desde de 1937, autoproclamou-se Diretor Geral de BOKU após a anexação da Áustria pela Alemanha nazista em 1938. Esse cruel chefe nazista, segundo o historiador, Paulus Ebner, implementou a nazificação dessa universidade de ciências da terra, expurgando alunos judeus, professores e funcionários, mandando à campos de concentração os desafetos do nazismo, e esses desafetos eram austrofascistas, regime corporativista implantada por Dolfuss. A influência de Ana Maria por esse professor de ecologia do solo é expressada pela própria e em sua biografia não faltam elogios ao senhor Sekera, o nazista. Ana Maria, consciente dos poderes de Sekera em BOKU, não se fez de rogada, viu uma oportunidade de ascensão acadêmica, que só foi interrompida, pelos distúrbios da ocupação soviética. A pax nazistas acabada, sua carreira não seguiu, Sekera, fora preso e condenado, Annamarie, tbm presa e estigmatizada como assistente do chefe nazista, não evoluiu com a derrubada do Terceiro Reich. Não tendo como prosseguir, optou pela imigração ao Brasil. Daí em diante todos sabemos o que aconteceu. </p>
<p>Sobre o identirarismo:</p>
<p>Hoje o movimento negro está a praticar eugenia, denomina essa eugenia como relações afrocentradas, e tem todo uma receituário para se chegar a um bom fim. Escuto isso sempre da mulecada. Garvey é a referência. </p>
<p>Duas perguntas: Para Rosa Luxemburgo a crise final do capitalismo aconteceria com o fim dos mercados não  capitalistas. Em 2026 existe algum mercado que não esteja sobre as premissas capitalistas? E dentro do sistema de circulação de mercadorias, onde se dão as maiores transações? Entre as economias mais capitalizadas e desenvolvidas ou entre as supostas economias não capitalizadas ou de capitalismo não desenvolvidos? Rosa foi uma dessas ortodoxas que condenou a heterodoxia como um desvio herético. Deixando de lado as afirmações reformistas de Eduard Bernstein, que a história demonstrou a sua degeneração, sindicatos e cooperativas, mas no que tange às refutações de um futuro catastrófico, pareceu ser a análise mais real. </p>
<p>São muitas questões mas não poderia ser diferente.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Ex-bernardista ortodoxo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/10/157157/#comment-1062897</link>

		<dc:creator><![CDATA[Ex-bernardista ortodoxo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Oct 2025 03:33:08 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=157157#comment-1062897</guid>

					<description><![CDATA[Eh pá! E eu que tanto esperei por um manual revolucionário, tudo o que o gajo nos oferece entretanto são alguns escritos sobre Balzac ou a velha implicância com os tomates bio!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eh pá! E eu que tanto esperei por um manual revolucionário, tudo o que o gajo nos oferece entretanto são alguns escritos sobre Balzac ou a velha implicância com os tomates bio!</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2025/10/157157/#comment-1061734</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Oct 2025 20:35:09 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=157157#comment-1061734</guid>

					<description><![CDATA[Ex-Bookchinista,

Não me lembro desse debate na USP, mas houve tantos… Também não creio que algum dia tenha citado Murray Bookchin. Quem sem dúvida referi, e várias vezes, foram Janet Biehl e Peter Staudenmaier, que ambos eram, ou tinham sido, muito próximos de Bookchin. De qualquer modo, reproduzo aqui o que escrevi no &lt;em&gt;Labirintos do Fascismo&lt;/em&gt; (São Paulo: Hedra, 2022) vol. VI, págs. 191-192: «Ouço dizer que haveria uma ecologia séria, científica, louvável e admito que talvez, mas por que motivo é tão raro que esses cientistas apareçam em público para se distinguirem daquelas correntes de opinião que através do controle da informação e das pressões políticas se confundiram com a totalidade da ecologia?» 
Todas as vertentes da ecologia que hoje se destacam e são faladas partilham a mesma visão mística da natureza, considerada intrinsecamente harmónica e cujo equilíbrio seria destruído pela sociedade industrial. Quem estudar seriamente a história económica, incluindo a história das tecnologias, verá que a sociedade industrial, em vez de deteriorar a natureza, pelo contrário, contribuiu para corrigir a deterioração provocada pelos sistemas económicos anteriores. O que interessa aos fascismos, porém, não é a história real, mas a invenção de um passado ideal. 
Essa noção de equilíbrio da natureza constituiu um dos fundamentos ideológicos do nacional-socialismo hitleriano e, através do misticismo dos SS, estava intimamente ligada ao neopaganismo. Ora, é esclarecedor que este neopaganismo tivesse ressurgido nas correntes da &lt;em&gt;New Age&lt;/em&gt;, frequentemente sem qualquer modificação, que se difundiram nos mesmos meios em que prolifera a ecologia. Por isso eu escrevi, na quinta parte deste &lt;em&gt;Manifesto&lt;/em&gt;, que mesmo quando partidos situados na extrema-direita não manifestem adesão à ecologia, é no interior do próprio movimento ecológico que o fascismo ressurge, inevitavelmente gerado pela visão mística de uma natureza supra-humana, e concluí que a ecologia contém em si mesma, pela sua origem e pelas concepções que a definem, o gérmen de um fascismo.

Já agora, aproveito para partilhar uma reflexão que me ocorreu ao ler um qualquer dos comentários anteriores. É curioso que aqueles que me aplaudiam quando me consideravam um marxista heterodoxo me condenem agora ao constatarem que sou, afinal, um bernardista heterodoxo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ex-Bookchinista,</p>
<p>Não me lembro desse debate na USP, mas houve tantos… Também não creio que algum dia tenha citado Murray Bookchin. Quem sem dúvida referi, e várias vezes, foram Janet Biehl e Peter Staudenmaier, que ambos eram, ou tinham sido, muito próximos de Bookchin. De qualquer modo, reproduzo aqui o que escrevi no <em>Labirintos do Fascismo</em> (São Paulo: Hedra, 2022) vol. VI, págs. 191-192: «Ouço dizer que haveria uma ecologia séria, científica, louvável e admito que talvez, mas por que motivo é tão raro que esses cientistas apareçam em público para se distinguirem daquelas correntes de opinião que através do controle da informação e das pressões políticas se confundiram com a totalidade da ecologia?»<br />
Todas as vertentes da ecologia que hoje se destacam e são faladas partilham a mesma visão mística da natureza, considerada intrinsecamente harmónica e cujo equilíbrio seria destruído pela sociedade industrial. Quem estudar seriamente a história económica, incluindo a história das tecnologias, verá que a sociedade industrial, em vez de deteriorar a natureza, pelo contrário, contribuiu para corrigir a deterioração provocada pelos sistemas económicos anteriores. O que interessa aos fascismos, porém, não é a história real, mas a invenção de um passado ideal.<br />
Essa noção de equilíbrio da natureza constituiu um dos fundamentos ideológicos do nacional-socialismo hitleriano e, através do misticismo dos SS, estava intimamente ligada ao neopaganismo. Ora, é esclarecedor que este neopaganismo tivesse ressurgido nas correntes da <em>New Age</em>, frequentemente sem qualquer modificação, que se difundiram nos mesmos meios em que prolifera a ecologia. Por isso eu escrevi, na quinta parte deste <em>Manifesto</em>, que mesmo quando partidos situados na extrema-direita não manifestem adesão à ecologia, é no interior do próprio movimento ecológico que o fascismo ressurge, inevitavelmente gerado pela visão mística de uma natureza supra-humana, e concluí que a ecologia contém em si mesma, pela sua origem e pelas concepções que a definem, o gérmen de um fascismo.</p>
<p>Já agora, aproveito para partilhar uma reflexão que me ocorreu ao ler um qualquer dos comentários anteriores. É curioso que aqueles que me aplaudiam quando me consideravam um marxista heterodoxo me condenem agora ao constatarem que sou, afinal, um bernardista heterodoxo.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
	</channel>
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