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	Comentários sobre: Breves notas sobre como salvar o marxismo da realidade (1)	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Tonho da Fábrica		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/02/158658/#comment-1087364</link>

		<dc:creator><![CDATA[Tonho da Fábrica]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Feb 2026 10:30:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Eu tenho muita experiência política, já passei por muita coisa, vivi e conheci muitos coletivos. O que me espanta nesse texto não é apenas o seu caráter reacionário, mas o apoio que alguns dão a ele. O texto é claramente uma crítica à posição revolucionária. Defende tudo que existe, inclusive a academia. Não discute caminhos, discute a posição revolucionária e a condena, sem mais nem menos. Nem Marx escaparia dessa crítica ideológica e reacionária. Na visão do autor, ser revolucionário é ser sectário. A isso Lênin e outros chamaram &quot;oportunismo&quot;. Embora exista o &quot;esquerdismo&quot;, esse é muito mais salutar do que o oportunismo. O texto é oportunista, conservador, reacionário. E, como já vivi muito, resta saber qual é o partido que está por trás dele.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu tenho muita experiência política, já passei por muita coisa, vivi e conheci muitos coletivos. O que me espanta nesse texto não é apenas o seu caráter reacionário, mas o apoio que alguns dão a ele. O texto é claramente uma crítica à posição revolucionária. Defende tudo que existe, inclusive a academia. Não discute caminhos, discute a posição revolucionária e a condena, sem mais nem menos. Nem Marx escaparia dessa crítica ideológica e reacionária. Na visão do autor, ser revolucionário é ser sectário. A isso Lênin e outros chamaram &#8220;oportunismo&#8221;. Embora exista o &#8220;esquerdismo&#8221;, esse é muito mais salutar do que o oportunismo. O texto é oportunista, conservador, reacionário. E, como já vivi muito, resta saber qual é o partido que está por trás dele.</p>
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		<title>
		Por: G. Beraht		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/02/158658/#comment-1087256</link>

		<dc:creator><![CDATA[G. Beraht]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Feb 2026 17:43:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Nada é eterno. Nem mesmos os modos de produção. Na história, um modo de produção sucede a outro, ainda que combinando desigualdades com desenvolvimento. Para Marx, a partir de seu tempo, a superação do capitalismo se daria por uma revolução da classe, na hipótese dele, da classe trabalhadora. Mas será que, com as contínuas e exponenciais internacionalização do capital (e dos capitalistas, de mercado ou de estado) e a fragmentação dos trabalhadores (ou &quot;trabalhadorXs&quot;), com a crescente e cada vez mais &quot;absoluta&quot; APROPRIAÇÃO do tempo pelos capitalistas, já não estamos nos instantes finais de uma luta em que já se evidencia o vencedor? Não seria o &quot;X&quot;, dos &quot;trabalhadorXs&quot;, os animais como &quot;legalmente&quot; parte da família, etc, sinais de que não há apenas de se falar em &quot;salvação do marxismo&quot;, mas salvação da própria classe trabalhadora?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nada é eterno. Nem mesmos os modos de produção. Na história, um modo de produção sucede a outro, ainda que combinando desigualdades com desenvolvimento. Para Marx, a partir de seu tempo, a superação do capitalismo se daria por uma revolução da classe, na hipótese dele, da classe trabalhadora. Mas será que, com as contínuas e exponenciais internacionalização do capital (e dos capitalistas, de mercado ou de estado) e a fragmentação dos trabalhadores (ou &#8220;trabalhadorXs&#8221;), com a crescente e cada vez mais &#8220;absoluta&#8221; APROPRIAÇÃO do tempo pelos capitalistas, já não estamos nos instantes finais de uma luta em que já se evidencia o vencedor? Não seria o &#8220;X&#8221;, dos &#8220;trabalhadorXs&#8221;, os animais como &#8220;legalmente&#8221; parte da família, etc, sinais de que não há apenas de se falar em &#8220;salvação do marxismo&#8221;, mas salvação da própria classe trabalhadora?</p>
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		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/02/158658/#comment-1086848</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Feb 2026 11:51:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Lembrei-me tardiamente que os leitores deste artigo estarão talvez interessados no artigo que Vanessa Monteiro publicou no Passa Palavra em Agosto de 2024, &lt;em&gt;Como a esquerda brasileira morre&lt;/em&gt; (&lt;a href=&quot;https://passapalavra.info/2024/08/154600/&quot; rel=&quot;ugc&quot;&gt;aqui&lt;/a&gt;) e na discussão que prosseguiu nos comentários.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Lembrei-me tardiamente que os leitores deste artigo estarão talvez interessados no artigo que Vanessa Monteiro publicou no Passa Palavra em Agosto de 2024, <em>Como a esquerda brasileira morre</em> (<a href="https://passapalavra.info/2024/08/154600/" rel="ugc">aqui</a>) e na discussão que prosseguiu nos comentários.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Cool Lapsus		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/02/158658/#comment-1086677</link>

		<dc:creator><![CDATA[Cool Lapsus]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Feb 2026 14:18:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Diz o professor e ensaísta Gabriel Teles: 

&quot;É inegável que grande parte do que aprendi e do que acredito politicamente está vinculada à perspectiva [da] centralidade da autogestão, o marxismo anti-leninista, a importância da teoria e da luta cultural nos processos políticos, a recusa do vanguardismo e da tutela sobre as lutas, etc. etc. etc.&quot;
(....)
&quot;Nesse sentido, o texto [...] descreve riscos estruturais que atravessam coletivos fortemente identificados por um léxico teórico, sobretudo em períodos históricos nos quais a intervenção direta é difícil e a política tende a se deslocar para o plano da observação, da crítica e da autovalidação.&quot;

O protessor e ensaísta está incomodado e surpreso com o óbvio. Talvez as suas convicções estejam em colapso. Ou talvez ele possa, como doutor em Karl Korsch, fazer a crítica marxista da &quot;extrema esquerda&quot; (expressão do ancião João Bernardo), e realmente tratar do assunto que prometeu avançar, porém nada o fez, pois apenas nos trouxe o óbvio e expressou parte de suas angústias.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Diz o professor e ensaísta Gabriel Teles: </p>
<p>&#8220;É inegável que grande parte do que aprendi e do que acredito politicamente está vinculada à perspectiva [da] centralidade da autogestão, o marxismo anti-leninista, a importância da teoria e da luta cultural nos processos políticos, a recusa do vanguardismo e da tutela sobre as lutas, etc. etc. etc.&#8221;<br />
(&#8230;.)<br />
&#8220;Nesse sentido, o texto [&#8230;] descreve riscos estruturais que atravessam coletivos fortemente identificados por um léxico teórico, sobretudo em períodos históricos nos quais a intervenção direta é difícil e a política tende a se deslocar para o plano da observação, da crítica e da autovalidação.&#8221;</p>
<p>O protessor e ensaísta está incomodado e surpreso com o óbvio. Talvez as suas convicções estejam em colapso. Ou talvez ele possa, como doutor em Karl Korsch, fazer a crítica marxista da &#8220;extrema esquerda&#8221; (expressão do ancião João Bernardo), e realmente tratar do assunto que prometeu avançar, porém nada o fez, pois apenas nos trouxe o óbvio e expressou parte de suas angústias.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Autogestão ou burocracia?		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/02/158658/#comment-1086602</link>

		<dc:creator><![CDATA[Autogestão ou burocracia?]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Feb 2026 06:20:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O texto acerta ao criticar a transformação do marxismo em circuito fechado, mais preocupado em preservar coerência interna do que em se confrontar com a realidade histórica. A denúncia do essencialismo conceitual, da vigilância simbólica e da substituição da prática pelo julgamento à distância é pertinente. Um marxismo que se blinda contra a experiência acaba operando de forma idealista, ainda que se apresente como rigoroso.
O limite da crítica aparece quando o sectarismo é tratado principalmente como desvio teórico ou escolha política, sem que se explorem de maneira mais consequente as condições materiais que o produzem. O fechamento doutrinário não surge do nada: ele responde a um período prolongado de derrotas, isolamento e precarização da militância. Sem essa mediação, o risco é deslocar um problema histórico para o plano moral.
Há também uma tensão entre o que o texto critica e o lugar de onde fala. Ao denunciar a distância em relação à prática, o ensaio permanece ele próprio no terreno da crítica discursiva. Isso não invalida o diagnóstico, mas deixa em aberto uma questão decisiva: que tipo de intervenção é hoje possível, sob quais condições e com quais mediações concretas?
Ainda assim, o texto cumpre um papel importante ao romper consensos e recolocar a necessidade de que o marxismo se confronte com a realidade, com todas as suas contradições. Talvez o passo seguinte seja deslocar a crítica do sectarismo como forma fechada para a análise das condições históricas que o tornam uma estratégia recorrente de sobrevivência política. É possível, em períodos contrarrevolucionários, ou não revolucionários, outra forma de organização política?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O texto acerta ao criticar a transformação do marxismo em circuito fechado, mais preocupado em preservar coerência interna do que em se confrontar com a realidade histórica. A denúncia do essencialismo conceitual, da vigilância simbólica e da substituição da prática pelo julgamento à distância é pertinente. Um marxismo que se blinda contra a experiência acaba operando de forma idealista, ainda que se apresente como rigoroso.<br />
O limite da crítica aparece quando o sectarismo é tratado principalmente como desvio teórico ou escolha política, sem que se explorem de maneira mais consequente as condições materiais que o produzem. O fechamento doutrinário não surge do nada: ele responde a um período prolongado de derrotas, isolamento e precarização da militância. Sem essa mediação, o risco é deslocar um problema histórico para o plano moral.<br />
Há também uma tensão entre o que o texto critica e o lugar de onde fala. Ao denunciar a distância em relação à prática, o ensaio permanece ele próprio no terreno da crítica discursiva. Isso não invalida o diagnóstico, mas deixa em aberto uma questão decisiva: que tipo de intervenção é hoje possível, sob quais condições e com quais mediações concretas?<br />
Ainda assim, o texto cumpre um papel importante ao romper consensos e recolocar a necessidade de que o marxismo se confronte com a realidade, com todas as suas contradições. Talvez o passo seguinte seja deslocar a crítica do sectarismo como forma fechada para a análise das condições históricas que o tornam uma estratégia recorrente de sobrevivência política. É possível, em períodos contrarrevolucionários, ou não revolucionários, outra forma de organização política?</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Gabriel Teles		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/02/158658/#comment-1086464</link>

		<dc:creator><![CDATA[Gabriel Teles]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Feb 2026 14:54:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Lucas,

agradeço a leitura e o tom do comentário. Faço questão de responder por consideração a vc e também para não deixar pontos relevantes sem esclarecimento, ainda que eu realmente não tenha interesse em transformar isso em um exercício público de “lavar roupa” de uma experiência específica. O texto não foi escrito com esse objetivo. ainda assim, algumas questões que você levanta merecem resposta direta.

Antes de tudo, acho importante esclarecer um ponto de método e de intenção. O texto não foi concebido como uma análise teórica sistemática, nem como “uma síntese de múltiplas determinações” apoiada em um arcabouço teórico-metodológico explícito do materialismo histórico.

Não era esse o objetivo.

Pensei o texto como um ensaio de intervenção, um diálogo crítico, próximo do registro que caracteriza a maioria dos textos publicados aqui no Passa Palavra: textos que não pretendem esgotar problemas, nem oferecer modelos analíticos fechados, mas tensionar práticas, formas de organização e modos de relação entre teoria e realidade a partir de uma escrita deliberadamente ensaística.

Chamar isso de “retórica” exige uma precisão maior. Todo texto crítico, sobretudo no registro ensaístico, mobiliza recursos expressivos, imagens e ironias. Isso não o transforma automaticamente em “discurso retórico” no sentido de uma peça destinada a vencer um adversário específico por meio de rótulos, simplificações ou ataques pessoais. No texto, não há coletivo nomeado, não há polêmica dirigida a um interlocutor determinado, nem tentativa de encerrar o debate por autoridade externa. O que há é a descrição de um tipo recorrente de funcionamento político, articulando formas de coesão interna, estilos teóricos, relação com a universidade e seus efeitos práticos e subjetivos.

A estrutura do texto, aliás, não é a de uma denúncia pontual, mas a de uma cadeia analítica: parte da fronteira simbólica e dos mecanismos de coesão, passa pela lógica de pureza conceitual, chega à relação material com a universidade, analisa os efeitos subjetivos e termina na forma de isolamento político. Trata-se de uma tipificação, não de um ataque circunstancial.

Nesse sentido, chamar o texto de “retórico” só faz sentido se toda reflexão que não se apresenta como tratado teórico for reduzida a efeito estilístico. Esse tipo de redução empobrece o debate político, porque transforma a questão do gênero textual em argumento contra o conteúdo. A acusação de retórica, nesse caso, acaba funcionando ela própria como recurso retórico de desqualificação.

Acho que a única parte do texto que pode ter uma função mais explicitamente retórica é a nota inicial, no sentido de organizar o terreno da discussão. Ela tenta impedir que o texto seja lido apenas como ajuste de contas pessoal e desloca o foco para formas de funcionamento coletivo. Isso pode dar a impressão de armadilha, porque dificulta respostas biográficas. Ainda assim, o texto continua aberto a críticas substantivas. O seu comentário mostra isso: você discorda, apresenta exemplos, defende a organização de supostas injustiças. Ou seja, o debate não foi bloqueado. A nota não imuniza o texto contra toda crítica, apenas contra a redução da crítica ao plano pessoal. Se o texto puder ser discutido no plano das formas organizativas, então a nota cumpriu seu papel.

Primeiro,  um dado que me parece importante e que ficou abstraído na sua leitura. Permaneci cerca de sete anos no coletivo e estou há quase cinco ou seis anos fora dele. Ou seja, já vivi praticamente o mesmo tempo fora que vivi dentro. Nesse intervalo, participei de outras experiências políticas, de outros coletivos, de outras formas de organização e de outros impasses. Quando falo de experiência no texto, ela não se refere apenas à militância passada no Movaut, refere-se também ao que vi, vivi e observei depois, em contextos distintos. O distanciamento temporal não é um detalhe biográfico irrelevante. Ele altera o ponto de observação e amplia o “campo” a partir do qual a análise é construída.

Por isso, quando você afirma que o texto é apenas minha elaboração, talvez mal resolvida de uma experiência específica, eu discordo. A experiência existe, claro, porém ela é reelaborada a partir de outros encontros, outros fracassos, outras tentativas e outras formas de fechamento organizativo que reconheci fora daquele contexto original. O padrão descrito não nasce do interior de um único coletivo. Isso é atestado da maneira como esse padrão se repete em alguns dos comentários escritos aqui em cima. Alguns leitores, inclusive, relataram experiências semelhantes em organizações e contextos completamente distintos, o que reforça a hipótese de que se trata de um problema recorrente de forma organizativa, e não de um caso localizado.

A leitura do texto como expressão de ressentimento (suponho que você se refere ao comentário da “Maria Rita Creu”) me parece especialmente problemática porque pressupõe que a crítica só poderia emergir de uma ferida ainda aberta, e não de um processo de elaboração política posterior. Ressentimento implica fixação, repetição e incapacidade de deslocamento. Curiosamente, outros comentários seguiram na direção oposta, apontando que reconheceram no texto situações vividas em coletivos diferentes, o que indica que a leitura em chave exclusivamente biográfica talvez não dê conta do alcance do problema descrito.

O que tento fazer ali é justamente o contrário: tratar uma experiência passada como material analítico, já decantado no tempo, atravessado por outras práticas e outras referências. Se o texto tivesse sido escrito no calor da saída, essa leitura talvez fosse plausível. Escrito quase seis anos depois, após outros engajamentos e outros impasses, ela perde força explicativa e funciona mais como recurso de desqualificação do argumento do que como interpretação do seu conteúdo. 

Além disso, a forma como você formula essa crítica dá a entender que minha experiência política estaria inteiramente circunscrita ao Movaut, quase como se eu tivesse acabado de sair do coletivo e estivesse reagindo a quente. Isso simplesmente não corresponde aos fatos. Nunca publiquei textos ou notas públicas criticando o coletivo após minha saída. As críticas que fiz naquele momento foram explicitadas de forma privada, na carta de desligamento, e ali ficaram. O texto atual surge depois de um intervalo longo, atravessado por outras experiências organizativas, outras tentativas de intervenção, outros fracassos e outros modos de fechamento que reconheci fora daquele contexto específico. Reduzir essa elaboração a um “acerto de contas” recente não apenas empobrece a leitura do texto, como apaga esse percurso posterior, que é parte constitutiva do ponto de vista a partir do qual escrevo hojee.

Sobre as experiências de luta, você tem razão em um ponto fundamental. Muitos militantes do Movaut participaram de diversas lutas concretas, em diferentes momentos históricos. Isso é inegável. No entanto, uma parte dessas participações ocorreu de forma individual ou em articulações muito frágeis, frequentemente com pouco apoio explícito, orgânico e sustentado do coletivo enquanto tal. Isso não invalida a dedicação militante de quem participou. Coloca em questão, porém, o modo como o coletivo se estrutura enquanto “sujeito político” e o lugar que a intervenção coletiva ocupa nessa estrutura. 
Não estou afirmando que o coletivo “espera as lutas fracassarem” de forma cínica ou consciente. Estou descrevendo uma tendência possível em contextos de refluxo, nos quais a crítica “correta”, a análise rigorosa e a “coerência programática’ passam a ocupar o centro da identidade, enquanto a intervenção se torna episódica, custosa e secundária. A crítica que faço é à forma, não à intenção.

Também concordo com você que há condições objetivas muito duras. Conflito de baixa intensidade, lutas setoriais, dificuldade de enraizamento, custos subjetivos e materiais elevados. Tudo isso é real. O texto não nega essa complexidade. O que ele tenta mostrar é que essas condições podem favorecer um fechamento organizativo e simbólico, no qual a dificuldade vira critério de distinção e a rarefação da prática acaba sendo naturalizada como sinal de rigor.
Quero deixar algo muito claro, inclusive para evitar leituras enviesadas. É inegável que grande parte do que aprendi e do que acredito politicamente está vinculada à perspectiva do Movaut. A centralidade da autogestão, o marxismo anti-leninista, a importância da teoria e da luta cultural nos processos políticos, a recusa do vanguardismo e da tutela sobre as lutas, etc. etc. etc. Nada disso é negado no texto, nem abandonado por mim. Não há ali um acerto de contas ideológico, nem uma conversão teórica. Há uma crítica a determinadas formas de funcionamento que podem emergir inclusive dentro de tradições políticas que considero fundamentais dentro do bloco revolucionário.

Sobre a questão da “crimideia”, talvez haja um desencontro de níveis de análise. Eu não me refiro a censura direta, proibição de leituras ou polícia de pensamento explícita. Nesse sentido, você tem razão: o coletivo sempre estimulou estudo, escrita e elaboração intelectual, e eu mesmo me formei em grande parte nesse ambiente.

O ponto que tento levantar é outro. Todo coletivo político estabelece critérios, regras e um programa. Isso é necessário para qualquer forma de coesão. Esses critérios, porém, não apenas orientam: eles também selecionam e excluem. A questão não é a existência dessa seleção, mas o modo como ela opera historicamente.

Em certos contextos, essa fronteira programática pode se cristalizar e passar a funcionar menos como orientação estratégica e mais como mecanismo de preservação do próprio grupo. Nesse momento, não é preciso censura direta. Basta que determinadas posições sejam automaticamente associadas a “ideologia burguesa” ou a desvios teóricos para que se tornem, na prática, inviáveis – mesmo que trate de autores e perspectivas muito próximas ou dentro mesmo do bloco revolucionário.

O que tento problematizar é essa linha tênue entre coesão política necessária e fechamento organizativo. Não como traço essencial do coletivo, nem como produto de má fé, mas como risco estrutural que pode emergir em períodos de refluxo e dificuldades práticas. Alguns comentários chamaram atenção justamente para a dificuldade de manter práticas abertas, autocríticas e não sectárias em coletivos militantes, o que sugere que essa tensão não é exclusiva de uma tradição ou de um grupo específico.

Nesse sentido, o texto não afirma que o Movaut seja “sectário” em essência, nem que seus membros ajam de má fé, nem que não exista heterogeneidade interna. Ele descreve riscos estruturais que atravessam coletivos fortemente identificados por um léxico teórico, sobretudo em períodos históricos nos quais a intervenção direta é difícil e a política tende a se deslocar para o plano da observação, da crítica e da autovalidação.

Talvez nossa divergência central esteja aqui. Você lê essa firmeza programática como resolução necessária diante de um cenário adverso. Eu enxergo o risco de que, nessas mesmas condições, a firmeza se transforme em imunização. São leituras diferentes do mesmo problema histórico.

O ponto que tento problematizar é quando essa firmeza deixa de operar como orientação estratégica aberta à experiência histórica e passa a funcionar como mecanismo de imunização contra o real. A fronteira programática, nesse caso, já não organiza a intervenção, mas a protege da própria prática. O problema não é ter critérios, mas torná-los impermeáveis à aprendizagem política, à autocrítica e à transformação produzida pela ação concreta. É nessa passagem, sutil e historicamente situada, que a firmeza pode deslizar para o fechamento, não por desvio moral ou má fé, mas como resposta defensiva a um cenário prolongado de dificuldades.

Por fim, reforço algo que considero importante. A crítica que faço não se coloca fora do campo que descreve. Ela me inclui. Inclui meus limites, minhas escolhas e minhas próprias contradições, inclusive no interior da universidade. O texto não busca um ponto exterior de julgamento, busca explicitar um impasse que considero real e recorrente.

Sobre a questão da universidade, não tenho dificuldade em reconhecer contradições pessoais. Em determinadas circunstâncias, às vezes por pressões institucionais, todos nós acabamos fazendo coisas que não correspondem plenamente às nossas posições teóricas ou políticas. Isso faz parte das condições concretas em que vivemos e militamos. Não me vejo como alguém exterior a essas contradições.

O ponto, porém, é outro. O fato de eu ter passado por situações contraditórias não invalida a crítica ao academicismo enquanto forma de reprodução política e simbólica. A crítica que faço não é moral e nem individualizante. Ela não parte da ideia de que alguém deve ser “puro” para poder criticar a universidade.

Trata-se de um problema estrutural: a dependência material e simbólica em relação à instituição, combinada a um discurso antiacadêmico que não se traduz em prática de enfrentamento. Esse problema pode atravessar qualquer um de nós, inclusive eu. Reconhecer essa contradição não anula a crítica. Pelo contrário, é parte do próprio problema que o texto tenta explicitar.

Além disso, mesmo no plano mais imediato, a leitura que você faz me parece parcial. Se em algum momento escrevi um texto descrevendo positivamente um documentário ambientado em um departamento universitário, também publiquei diversos outros, inclusive recentes, com críticas explícitas à universidade, às suas formas de funcionamento e às suas ilusões políticas. Reduzir minha posição a um episódio isolado não corresponde ao conjunto da minha produção e acaba reforçando justamente o tipo de leitura biográfica que o texto tenta evitar.

O problema, portanto, não é a coerência perfeita de trajetórias individuais, e sim as formas estruturais de relação entre coletivos políticos e a universidade. É nesse plano que a crítica foi formulada.

Se o texto fosse apenas sobre o Movaut, ele já estaria encerrado há anos para mim. O fato de eu ainda escrevê-lo hoje é sinal de que o problema persiste para além daquela experiência.

Seguimos discordando em alguns pontos, o que é legítimo. Você disse que considerou alguns pontos do meu texto injusto; fiquei curioso em saber quais pontos você não achou injusto.

Ainda assim, considero esse tipo de troca valiosa justamente porque permite tensionar as análises sem reduzi-las a biografia.
Encaminho essas observações não para encerrar o debate, mas para qualificá-lo. Diferenças de leitura e de ênfase são inevitáveis quando se compartilhou um mesmo percurso e depois se seguiram caminhos distintos.
 
Abraço camarada!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Lucas,</p>
<p>agradeço a leitura e o tom do comentário. Faço questão de responder por consideração a vc e também para não deixar pontos relevantes sem esclarecimento, ainda que eu realmente não tenha interesse em transformar isso em um exercício público de “lavar roupa” de uma experiência específica. O texto não foi escrito com esse objetivo. ainda assim, algumas questões que você levanta merecem resposta direta.</p>
<p>Antes de tudo, acho importante esclarecer um ponto de método e de intenção. O texto não foi concebido como uma análise teórica sistemática, nem como “uma síntese de múltiplas determinações” apoiada em um arcabouço teórico-metodológico explícito do materialismo histórico.</p>
<p>Não era esse o objetivo.</p>
<p>Pensei o texto como um ensaio de intervenção, um diálogo crítico, próximo do registro que caracteriza a maioria dos textos publicados aqui no Passa Palavra: textos que não pretendem esgotar problemas, nem oferecer modelos analíticos fechados, mas tensionar práticas, formas de organização e modos de relação entre teoria e realidade a partir de uma escrita deliberadamente ensaística.</p>
<p>Chamar isso de “retórica” exige uma precisão maior. Todo texto crítico, sobretudo no registro ensaístico, mobiliza recursos expressivos, imagens e ironias. Isso não o transforma automaticamente em “discurso retórico” no sentido de uma peça destinada a vencer um adversário específico por meio de rótulos, simplificações ou ataques pessoais. No texto, não há coletivo nomeado, não há polêmica dirigida a um interlocutor determinado, nem tentativa de encerrar o debate por autoridade externa. O que há é a descrição de um tipo recorrente de funcionamento político, articulando formas de coesão interna, estilos teóricos, relação com a universidade e seus efeitos práticos e subjetivos.</p>
<p>A estrutura do texto, aliás, não é a de uma denúncia pontual, mas a de uma cadeia analítica: parte da fronteira simbólica e dos mecanismos de coesão, passa pela lógica de pureza conceitual, chega à relação material com a universidade, analisa os efeitos subjetivos e termina na forma de isolamento político. Trata-se de uma tipificação, não de um ataque circunstancial.</p>
<p>Nesse sentido, chamar o texto de “retórico” só faz sentido se toda reflexão que não se apresenta como tratado teórico for reduzida a efeito estilístico. Esse tipo de redução empobrece o debate político, porque transforma a questão do gênero textual em argumento contra o conteúdo. A acusação de retórica, nesse caso, acaba funcionando ela própria como recurso retórico de desqualificação.</p>
<p>Acho que a única parte do texto que pode ter uma função mais explicitamente retórica é a nota inicial, no sentido de organizar o terreno da discussão. Ela tenta impedir que o texto seja lido apenas como ajuste de contas pessoal e desloca o foco para formas de funcionamento coletivo. Isso pode dar a impressão de armadilha, porque dificulta respostas biográficas. Ainda assim, o texto continua aberto a críticas substantivas. O seu comentário mostra isso: você discorda, apresenta exemplos, defende a organização de supostas injustiças. Ou seja, o debate não foi bloqueado. A nota não imuniza o texto contra toda crítica, apenas contra a redução da crítica ao plano pessoal. Se o texto puder ser discutido no plano das formas organizativas, então a nota cumpriu seu papel.</p>
<p>Primeiro,  um dado que me parece importante e que ficou abstraído na sua leitura. Permaneci cerca de sete anos no coletivo e estou há quase cinco ou seis anos fora dele. Ou seja, já vivi praticamente o mesmo tempo fora que vivi dentro. Nesse intervalo, participei de outras experiências políticas, de outros coletivos, de outras formas de organização e de outros impasses. Quando falo de experiência no texto, ela não se refere apenas à militância passada no Movaut, refere-se também ao que vi, vivi e observei depois, em contextos distintos. O distanciamento temporal não é um detalhe biográfico irrelevante. Ele altera o ponto de observação e amplia o “campo” a partir do qual a análise é construída.</p>
<p>Por isso, quando você afirma que o texto é apenas minha elaboração, talvez mal resolvida de uma experiência específica, eu discordo. A experiência existe, claro, porém ela é reelaborada a partir de outros encontros, outros fracassos, outras tentativas e outras formas de fechamento organizativo que reconheci fora daquele contexto original. O padrão descrito não nasce do interior de um único coletivo. Isso é atestado da maneira como esse padrão se repete em alguns dos comentários escritos aqui em cima. Alguns leitores, inclusive, relataram experiências semelhantes em organizações e contextos completamente distintos, o que reforça a hipótese de que se trata de um problema recorrente de forma organizativa, e não de um caso localizado.</p>
<p>A leitura do texto como expressão de ressentimento (suponho que você se refere ao comentário da “Maria Rita Creu”) me parece especialmente problemática porque pressupõe que a crítica só poderia emergir de uma ferida ainda aberta, e não de um processo de elaboração política posterior. Ressentimento implica fixação, repetição e incapacidade de deslocamento. Curiosamente, outros comentários seguiram na direção oposta, apontando que reconheceram no texto situações vividas em coletivos diferentes, o que indica que a leitura em chave exclusivamente biográfica talvez não dê conta do alcance do problema descrito.</p>
<p>O que tento fazer ali é justamente o contrário: tratar uma experiência passada como material analítico, já decantado no tempo, atravessado por outras práticas e outras referências. Se o texto tivesse sido escrito no calor da saída, essa leitura talvez fosse plausível. Escrito quase seis anos depois, após outros engajamentos e outros impasses, ela perde força explicativa e funciona mais como recurso de desqualificação do argumento do que como interpretação do seu conteúdo. </p>
<p>Além disso, a forma como você formula essa crítica dá a entender que minha experiência política estaria inteiramente circunscrita ao Movaut, quase como se eu tivesse acabado de sair do coletivo e estivesse reagindo a quente. Isso simplesmente não corresponde aos fatos. Nunca publiquei textos ou notas públicas criticando o coletivo após minha saída. As críticas que fiz naquele momento foram explicitadas de forma privada, na carta de desligamento, e ali ficaram. O texto atual surge depois de um intervalo longo, atravessado por outras experiências organizativas, outras tentativas de intervenção, outros fracassos e outros modos de fechamento que reconheci fora daquele contexto específico. Reduzir essa elaboração a um “acerto de contas” recente não apenas empobrece a leitura do texto, como apaga esse percurso posterior, que é parte constitutiva do ponto de vista a partir do qual escrevo hojee.</p>
<p>Sobre as experiências de luta, você tem razão em um ponto fundamental. Muitos militantes do Movaut participaram de diversas lutas concretas, em diferentes momentos históricos. Isso é inegável. No entanto, uma parte dessas participações ocorreu de forma individual ou em articulações muito frágeis, frequentemente com pouco apoio explícito, orgânico e sustentado do coletivo enquanto tal. Isso não invalida a dedicação militante de quem participou. Coloca em questão, porém, o modo como o coletivo se estrutura enquanto “sujeito político” e o lugar que a intervenção coletiva ocupa nessa estrutura.<br />
Não estou afirmando que o coletivo “espera as lutas fracassarem” de forma cínica ou consciente. Estou descrevendo uma tendência possível em contextos de refluxo, nos quais a crítica “correta”, a análise rigorosa e a “coerência programática’ passam a ocupar o centro da identidade, enquanto a intervenção se torna episódica, custosa e secundária. A crítica que faço é à forma, não à intenção.</p>
<p>Também concordo com você que há condições objetivas muito duras. Conflito de baixa intensidade, lutas setoriais, dificuldade de enraizamento, custos subjetivos e materiais elevados. Tudo isso é real. O texto não nega essa complexidade. O que ele tenta mostrar é que essas condições podem favorecer um fechamento organizativo e simbólico, no qual a dificuldade vira critério de distinção e a rarefação da prática acaba sendo naturalizada como sinal de rigor.<br />
Quero deixar algo muito claro, inclusive para evitar leituras enviesadas. É inegável que grande parte do que aprendi e do que acredito politicamente está vinculada à perspectiva do Movaut. A centralidade da autogestão, o marxismo anti-leninista, a importância da teoria e da luta cultural nos processos políticos, a recusa do vanguardismo e da tutela sobre as lutas, etc. etc. etc. Nada disso é negado no texto, nem abandonado por mim. Não há ali um acerto de contas ideológico, nem uma conversão teórica. Há uma crítica a determinadas formas de funcionamento que podem emergir inclusive dentro de tradições políticas que considero fundamentais dentro do bloco revolucionário.</p>
<p>Sobre a questão da “crimideia”, talvez haja um desencontro de níveis de análise. Eu não me refiro a censura direta, proibição de leituras ou polícia de pensamento explícita. Nesse sentido, você tem razão: o coletivo sempre estimulou estudo, escrita e elaboração intelectual, e eu mesmo me formei em grande parte nesse ambiente.</p>
<p>O ponto que tento levantar é outro. Todo coletivo político estabelece critérios, regras e um programa. Isso é necessário para qualquer forma de coesão. Esses critérios, porém, não apenas orientam: eles também selecionam e excluem. A questão não é a existência dessa seleção, mas o modo como ela opera historicamente.</p>
<p>Em certos contextos, essa fronteira programática pode se cristalizar e passar a funcionar menos como orientação estratégica e mais como mecanismo de preservação do próprio grupo. Nesse momento, não é preciso censura direta. Basta que determinadas posições sejam automaticamente associadas a “ideologia burguesa” ou a desvios teóricos para que se tornem, na prática, inviáveis – mesmo que trate de autores e perspectivas muito próximas ou dentro mesmo do bloco revolucionário.</p>
<p>O que tento problematizar é essa linha tênue entre coesão política necessária e fechamento organizativo. Não como traço essencial do coletivo, nem como produto de má fé, mas como risco estrutural que pode emergir em períodos de refluxo e dificuldades práticas. Alguns comentários chamaram atenção justamente para a dificuldade de manter práticas abertas, autocríticas e não sectárias em coletivos militantes, o que sugere que essa tensão não é exclusiva de uma tradição ou de um grupo específico.</p>
<p>Nesse sentido, o texto não afirma que o Movaut seja “sectário” em essência, nem que seus membros ajam de má fé, nem que não exista heterogeneidade interna. Ele descreve riscos estruturais que atravessam coletivos fortemente identificados por um léxico teórico, sobretudo em períodos históricos nos quais a intervenção direta é difícil e a política tende a se deslocar para o plano da observação, da crítica e da autovalidação.</p>
<p>Talvez nossa divergência central esteja aqui. Você lê essa firmeza programática como resolução necessária diante de um cenário adverso. Eu enxergo o risco de que, nessas mesmas condições, a firmeza se transforme em imunização. São leituras diferentes do mesmo problema histórico.</p>
<p>O ponto que tento problematizar é quando essa firmeza deixa de operar como orientação estratégica aberta à experiência histórica e passa a funcionar como mecanismo de imunização contra o real. A fronteira programática, nesse caso, já não organiza a intervenção, mas a protege da própria prática. O problema não é ter critérios, mas torná-los impermeáveis à aprendizagem política, à autocrítica e à transformação produzida pela ação concreta. É nessa passagem, sutil e historicamente situada, que a firmeza pode deslizar para o fechamento, não por desvio moral ou má fé, mas como resposta defensiva a um cenário prolongado de dificuldades.</p>
<p>Por fim, reforço algo que considero importante. A crítica que faço não se coloca fora do campo que descreve. Ela me inclui. Inclui meus limites, minhas escolhas e minhas próprias contradições, inclusive no interior da universidade. O texto não busca um ponto exterior de julgamento, busca explicitar um impasse que considero real e recorrente.</p>
<p>Sobre a questão da universidade, não tenho dificuldade em reconhecer contradições pessoais. Em determinadas circunstâncias, às vezes por pressões institucionais, todos nós acabamos fazendo coisas que não correspondem plenamente às nossas posições teóricas ou políticas. Isso faz parte das condições concretas em que vivemos e militamos. Não me vejo como alguém exterior a essas contradições.</p>
<p>O ponto, porém, é outro. O fato de eu ter passado por situações contraditórias não invalida a crítica ao academicismo enquanto forma de reprodução política e simbólica. A crítica que faço não é moral e nem individualizante. Ela não parte da ideia de que alguém deve ser “puro” para poder criticar a universidade.</p>
<p>Trata-se de um problema estrutural: a dependência material e simbólica em relação à instituição, combinada a um discurso antiacadêmico que não se traduz em prática de enfrentamento. Esse problema pode atravessar qualquer um de nós, inclusive eu. Reconhecer essa contradição não anula a crítica. Pelo contrário, é parte do próprio problema que o texto tenta explicitar.</p>
<p>Além disso, mesmo no plano mais imediato, a leitura que você faz me parece parcial. Se em algum momento escrevi um texto descrevendo positivamente um documentário ambientado em um departamento universitário, também publiquei diversos outros, inclusive recentes, com críticas explícitas à universidade, às suas formas de funcionamento e às suas ilusões políticas. Reduzir minha posição a um episódio isolado não corresponde ao conjunto da minha produção e acaba reforçando justamente o tipo de leitura biográfica que o texto tenta evitar.</p>
<p>O problema, portanto, não é a coerência perfeita de trajetórias individuais, e sim as formas estruturais de relação entre coletivos políticos e a universidade. É nesse plano que a crítica foi formulada.</p>
<p>Se o texto fosse apenas sobre o Movaut, ele já estaria encerrado há anos para mim. O fato de eu ainda escrevê-lo hoje é sinal de que o problema persiste para além daquela experiência.</p>
<p>Seguimos discordando em alguns pontos, o que é legítimo. Você disse que considerou alguns pontos do meu texto injusto; fiquei curioso em saber quais pontos você não achou injusto.</p>
<p>Ainda assim, considero esse tipo de troca valiosa justamente porque permite tensionar as análises sem reduzi-las a biografia.<br />
Encaminho essas observações não para encerrar o debate, mas para qualificá-lo. Diferenças de leitura e de ênfase são inevitáveis quando se compartilhou um mesmo percurso e depois se seguiram caminhos distintos.</p>
<p>Abraço camarada!</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Nico		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/02/158658/#comment-1086446</link>

		<dc:creator><![CDATA[Nico]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Feb 2026 13:04:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Creio que a crítica com base no ressentimento carece de uma explicitação do que se quer dizer com isso. Me parece evidente que um texto que mobilize experiências pessoais de desacordo em relação a um coletivo tem, em algum grau, atravessamentos emocionais relativos ao indivíduo que escreve. Se isso é ressentimento, então cabe justificar o problema. Ou então, fica-se com a impressão de que a própria natureza do texto, por conter atravessamentos pessoais, corrompe a priori sua efetividade. Me parece que o autor está consciente da particularidade do seu vivido e, de uma forma não-acadêmica, mobiliza essa particularidade pra propor hipóteses de caráter geral, sem, contudo, prescindir de mediação teórica. É claro que esse método tem seus problemas, e que se pode inquirir sobre a validade de suas generalizações, até mesmo remetendo à pessoalidade do material. Contudo, me parece muito mais frutífero rebater o texto no campo que ele se propõe a atuar: teoria da organização. Que se proponha contra-exemplos, contra-generalizações ou que se demonstre incoerência teórica. Não deveríamos esperar a conjuração de todo atravessamento emocional para propor reflexões críticas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Creio que a crítica com base no ressentimento carece de uma explicitação do que se quer dizer com isso. Me parece evidente que um texto que mobilize experiências pessoais de desacordo em relação a um coletivo tem, em algum grau, atravessamentos emocionais relativos ao indivíduo que escreve. Se isso é ressentimento, então cabe justificar o problema. Ou então, fica-se com a impressão de que a própria natureza do texto, por conter atravessamentos pessoais, corrompe a priori sua efetividade. Me parece que o autor está consciente da particularidade do seu vivido e, de uma forma não-acadêmica, mobiliza essa particularidade pra propor hipóteses de caráter geral, sem, contudo, prescindir de mediação teórica. É claro que esse método tem seus problemas, e que se pode inquirir sobre a validade de suas generalizações, até mesmo remetendo à pessoalidade do material. Contudo, me parece muito mais frutífero rebater o texto no campo que ele se propõe a atuar: teoria da organização. Que se proponha contra-exemplos, contra-generalizações ou que se demonstre incoerência teórica. Não deveríamos esperar a conjuração de todo atravessamento emocional para propor reflexões críticas.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: le chat sauvage		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/02/158658/#comment-1086349</link>

		<dc:creator><![CDATA[le chat sauvage]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Feb 2026 18:54:18 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[É bastante complicado discutir com pessoas que não se dão conta de que estão em um sistema fechado em si mesmas e que, por uma rigidez para atender a uma suposta coerência, reproduzem uma determinada perspectiva bem fechada. O Movaut criou um vocabulário que apenas ele entende e que, sim, impede os outros de se sentirem livres pra pensarem por si mesmos. Além disso, é conservador em vários aspectos, especialmente no que concerne à sexualidade e ao gênero. Não à toa, é um coletivo quase estritamente masculino, e a presença feminina, quando existe, é por meio de relações amorosas. Sem mencionar &quot;piadas&quot; extremamente sexistas, e LGBTfóbicas, e ninguém está nem aí. Afinal, falar sobre isso é, basicamente, ganhar o rótulo de pós-estruturalista subjetivista. Voilà um exemplo de como o sectarismo se manifesta. Nesse sentido, eu diria não apenas que é sectário, mas também conservador em vários aspectos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É bastante complicado discutir com pessoas que não se dão conta de que estão em um sistema fechado em si mesmas e que, por uma rigidez para atender a uma suposta coerência, reproduzem uma determinada perspectiva bem fechada. O Movaut criou um vocabulário que apenas ele entende e que, sim, impede os outros de se sentirem livres pra pensarem por si mesmos. Além disso, é conservador em vários aspectos, especialmente no que concerne à sexualidade e ao gênero. Não à toa, é um coletivo quase estritamente masculino, e a presença feminina, quando existe, é por meio de relações amorosas. Sem mencionar &#8220;piadas&#8221; extremamente sexistas, e LGBTfóbicas, e ninguém está nem aí. Afinal, falar sobre isso é, basicamente, ganhar o rótulo de pós-estruturalista subjetivista. Voilà um exemplo de como o sectarismo se manifesta. Nesse sentido, eu diria não apenas que é sectário, mas também conservador em vários aspectos.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: FILOCTETO		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/02/158658/#comment-1086297</link>

		<dc:creator><![CDATA[FILOCTETO]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Feb 2026 13:23:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[JB dixit: &quot;excelente texto&quot;, à guisa de opinião. A dele, por supuesto.
JB não &quot;é velho&quot;. Apenas, está velho. Longa vida para o JB!
JB poderia, se quisesse, dizer: &quot;Eu mesmo me sucedo.&quot;
JB é o mais autopoético discípulo de Píndaro: TORNA-TE O QUE TU ÉS!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>JB dixit: &#8220;excelente texto&#8221;, à guisa de opinião. A dele, por supuesto.<br />
JB não &#8220;é velho&#8221;. Apenas, está velho. Longa vida para o JB!<br />
JB poderia, se quisesse, dizer: &#8220;Eu mesmo me sucedo.&#8221;<br />
JB é o mais autopoético discípulo de Píndaro: TORNA-TE O QUE TU ÉS!</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: D.		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/02/158658/#comment-1086225</link>

		<dc:creator><![CDATA[D.]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Feb 2026 03:18:20 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158658#comment-1086225</guid>

					<description><![CDATA[Oi, Gabriel.

Li seu texto. Nunca tinha ouvido falar do Movaut; achei no Google. O site referencia textos seus como parte da formação política. Imagino que haja algum ressentimento, mas não sei também se o ressentimento, quando usado como insumo para alguma reflexão sincera, é ruim. Participei de outros grupos desde a universidade, que na época se definiam explicitamente a partir de filiações teóricas -- outras, que não as suas -- e parecia que você descreveu minha experiência. O que você disse é difícil dizer. Outras coisas, que seriam mais simples de dizer -- porque contestam ideias mais esdrúxulas --, já são nos são difíceis de dizer hoje em dia, já que sobrevivência material de muitos depende da confirmação dogmática de muitas teses, da idolatria de muita gente babaca. Parte do meu salário depende disso. Parece que causa problemas dizer muita coisa hoje. Que merda nos metemos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Oi, Gabriel.</p>
<p>Li seu texto. Nunca tinha ouvido falar do Movaut; achei no Google. O site referencia textos seus como parte da formação política. Imagino que haja algum ressentimento, mas não sei também se o ressentimento, quando usado como insumo para alguma reflexão sincera, é ruim. Participei de outros grupos desde a universidade, que na época se definiam explicitamente a partir de filiações teóricas &#8212; outras, que não as suas &#8212; e parecia que você descreveu minha experiência. O que você disse é difícil dizer. Outras coisas, que seriam mais simples de dizer &#8212; porque contestam ideias mais esdrúxulas &#8211;, já são nos são difíceis de dizer hoje em dia, já que sobrevivência material de muitos depende da confirmação dogmática de muitas teses, da idolatria de muita gente babaca. Parte do meu salário depende disso. Parece que causa problemas dizer muita coisa hoje. Que merda nos metemos.</p>
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