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	Comentários sobre: A emergência, a centralidade e o fim do trabalho (1)	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: COmentário não revisado por IA		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159546/#comment-1126770</link>

		<dc:creator><![CDATA[COmentário não revisado por IA]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 31 Jul 2026 18:01:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Leo V,
Não há política em sociedades que não possuem classes sociais, pois a política apenas é a expressão das lutas de classes. Portanto, não há chefes, governo etc. O que há é organização, planejamento entre outros. Então, isso já bastaria para derrubar qualquer terminologia que tente naturalizar relações de dominação. Mas, você tem razão que existe essa tentativa de naturalização, veja bem o livro &quot;A sociedade contra o Estado&quot; se não é exatamente isso que Pierre Clastres faz, só que seguindo o caminho inverso.


Os conceitos devem expressar aquilo que é real, e estes são tão transitórios quanto a própria realidade.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Leo V,<br />
Não há política em sociedades que não possuem classes sociais, pois a política apenas é a expressão das lutas de classes. Portanto, não há chefes, governo etc. O que há é organização, planejamento entre outros. Então, isso já bastaria para derrubar qualquer terminologia que tente naturalizar relações de dominação. Mas, você tem razão que existe essa tentativa de naturalização, veja bem o livro &#8220;A sociedade contra o Estado&#8221; se não é exatamente isso que Pierre Clastres faz, só que seguindo o caminho inverso.</p>
<p>Os conceitos devem expressar aquilo que é real, e estes são tão transitórios quanto a própria realidade.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Leo V		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159546/#comment-1126760</link>

		<dc:creator><![CDATA[Leo V]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 31 Jul 2026 16:58:16 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159546#comment-1126760</guid>

					<description><![CDATA[FA,

Você também pode usar o categoria de chefe, ou de Estado, ou de governo para tratar das sociedades pré-colombianas que viviam (e vivem em muito menor quantidade) no que é hoje chamado Brasil, definindo chefe, Estado e governo de forma bastante ampla e justificar isso afirmando que toda sociedade se organiza politicamente de alguma forma, isto é, existem mecanismos de tomada de decisão. E assim se vai projetando e naturalizando na história as instituições que se pretende derrubar.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>FA,</p>
<p>Você também pode usar o categoria de chefe, ou de Estado, ou de governo para tratar das sociedades pré-colombianas que viviam (e vivem em muito menor quantidade) no que é hoje chamado Brasil, definindo chefe, Estado e governo de forma bastante ampla e justificar isso afirmando que toda sociedade se organiza politicamente de alguma forma, isto é, existem mecanismos de tomada de decisão. E assim se vai projetando e naturalizando na história as instituições que se pretende derrubar.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: FA		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159546/#comment-1126741</link>

		<dc:creator><![CDATA[FA]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 31 Jul 2026 15:33:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Leo Vinícius,
&quot;Freyssenet não aponta apenas que não existe palavra correspondente a trabalho em muitas sociedades conhecidas historicamente. Mas que não se vivencia a experiência de “trabalho” nessas sociedades.&quot;

Não vivenciar a experiência de &quot;trabalho&quot; não significa que essas sociedades não produzam as condições materiais para a sua existência e continuidade ao longo da história. Os indivíduos podem não &quot;representar&quot; atividades como produção de alimentos ou vestuário como &quot;trabalho&quot; e, além disso, situar essas atividades em outra esfera (um rito religioso). No entanto, precisamos separar o que os indivíduos representam sobre si mesmos das condições efetivas de vida. Este é outro princípio, em diálogo com o comentário do Gabriel, imprescindível para a análise da realidade. O indivíduo capitalista pode representar a sua atividade de exploração como uma forma de beneficiar os seus trabalhadores, o que não significa que é verdade. 

Voltando à questão inicial. Penso que a produção assume significado universal e expressa a forma que cada sociedade produz as produções materiais de existência, mantendo aspectos comuns (a reprodução da vida) e específicos (no capitalismo, essa forma é orientada pelo lucro). Desse modo, a produção e reprodução é uma necessidade histórica, não sendo uma &quot;projeção de conceitos do capitalismo&quot;. Muitos conceitos desta sociedade são válidos para explicar a realidade das relações sociais de sociedades anteriores, como o conceito de cultura. Por que o conceito de relações de produção não teria essa validade? Não teria validade, somente se pensar que certos conceitos se restringem à experiência vivida e não a aspectos gerais da existência humana.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Leo Vinícius,<br />
&#8220;Freyssenet não aponta apenas que não existe palavra correspondente a trabalho em muitas sociedades conhecidas historicamente. Mas que não se vivencia a experiência de “trabalho” nessas sociedades.&#8221;</p>
<p>Não vivenciar a experiência de &#8220;trabalho&#8221; não significa que essas sociedades não produzam as condições materiais para a sua existência e continuidade ao longo da história. Os indivíduos podem não &#8220;representar&#8221; atividades como produção de alimentos ou vestuário como &#8220;trabalho&#8221; e, além disso, situar essas atividades em outra esfera (um rito religioso). No entanto, precisamos separar o que os indivíduos representam sobre si mesmos das condições efetivas de vida. Este é outro princípio, em diálogo com o comentário do Gabriel, imprescindível para a análise da realidade. O indivíduo capitalista pode representar a sua atividade de exploração como uma forma de beneficiar os seus trabalhadores, o que não significa que é verdade. </p>
<p>Voltando à questão inicial. Penso que a produção assume significado universal e expressa a forma que cada sociedade produz as produções materiais de existência, mantendo aspectos comuns (a reprodução da vida) e específicos (no capitalismo, essa forma é orientada pelo lucro). Desse modo, a produção e reprodução é uma necessidade histórica, não sendo uma &#8220;projeção de conceitos do capitalismo&#8221;. Muitos conceitos desta sociedade são válidos para explicar a realidade das relações sociais de sociedades anteriores, como o conceito de cultura. Por que o conceito de relações de produção não teria essa validade? Não teria validade, somente se pensar que certos conceitos se restringem à experiência vivida e não a aspectos gerais da existência humana.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Leo V		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159546/#comment-1126729</link>

		<dc:creator><![CDATA[Leo V]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 31 Jul 2026 14:32:56 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159546#comment-1126729</guid>

					<description><![CDATA[Gabriel,

Freyssenet não aponta apenas que não existe palavra correspondente a trabalho em muitas sociedades conhecidas historicamente. Mas que não se vivencia a experiência de &quot;trabalho&quot; nessas sociedades. 

No seu comentário você trata &quot;metabolismo entre natureza e sociedade&quot; e &quot;relações de produção&quot; como se fossem analiticamente equivalentes. Não são. Quando se fala em relações de produção há uma projeção muito mais direta de conceitos surgidos no capitalismo ao conjunto das sociedades. O marxismo acaba sendo o espelho da produção, projetando como a ideologia capitalista os conceitos capitalistas em toda história, à revelia dos conhecimentos antropológicos. Que relações de produção se não há produção? Que relações de trabalho se não há trabalho? Mesmo que você faça em tese essa separação entre diferentes concepções de trabalho (ou de produção) é inevitável que ao usar essas categorias ou conceitos para descrever sociedades que não tiveram experiência vivida de trabalho e produção, se estará projetando categorias e conceitos que irão mal descrever, isto é, distorcer a realidade.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gabriel,</p>
<p>Freyssenet não aponta apenas que não existe palavra correspondente a trabalho em muitas sociedades conhecidas historicamente. Mas que não se vivencia a experiência de &#8220;trabalho&#8221; nessas sociedades. </p>
<p>No seu comentário você trata &#8220;metabolismo entre natureza e sociedade&#8221; e &#8220;relações de produção&#8221; como se fossem analiticamente equivalentes. Não são. Quando se fala em relações de produção há uma projeção muito mais direta de conceitos surgidos no capitalismo ao conjunto das sociedades. O marxismo acaba sendo o espelho da produção, projetando como a ideologia capitalista os conceitos capitalistas em toda história, à revelia dos conhecimentos antropológicos. Que relações de produção se não há produção? Que relações de trabalho se não há trabalho? Mesmo que você faça em tese essa separação entre diferentes concepções de trabalho (ou de produção) é inevitável que ao usar essas categorias ou conceitos para descrever sociedades que não tiveram experiência vivida de trabalho e produção, se estará projetando categorias e conceitos que irão mal descrever, isto é, distorcer a realidade.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Gabriel Teles		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159546/#comment-1126505</link>

		<dc:creator><![CDATA[Gabriel Teles]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 31 Jul 2026 01:29:39 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159546#comment-1126505</guid>

					<description><![CDATA[O argumento de Michel Freyssenet parte de uma constatação relevante: inúmeras sociedades não dispõem de uma categoria unitária equivalente à noção moderna de trabalho. Atividades que, retrospectivamente, classificaríamos como produtivas podem estar integradas ao parentesco, à religião, à política, ao ritual ou às obrigações comunitárias. A ausência de um termo geral e a diversidade das classificações locais demonstram que o trabalho, enquanto domínio social diferenciado, não constitui uma evidência antropológica universal.

Essa constatação, contudo, não sustenta a conclusão de que o trabalho, em qualquer sentido conceitual, tenha sido inventado pela sociedade burguesa. O problema central do texto está na insuficiente distinção entre o trabalho como mediação material entre seres humanos e natureza, o trabalho como atividade organizada por relações sociais determinadas e o trabalho abstrato como forma especificamente capitalista da atividade produtiva.

Em Marx, o trabalho possui uma determinação histórico-&quot;universal&quot;. No Capital, ele é definido como um processo entre o ser humano e a natureza, por meio do qual os seres humanos regulam e controlam seu metabolismo com a natureza. Essa definição não pressupõe salário, mercado, propriedade privada, cálculo econômico ou separação institucional entre economia, política e religião. Toda sociedade precisa apropriar-se de elementos naturais, transformá-los e produzir as condições materiais de sua reprodução. Esse processo pode ser organizado por relações de parentesco, escravidão, tributação, reciprocidade comunitária, servidão ou trabalho assalariado. Pode também ser concebido pelos agentes como dever religioso, obrigação política, atividade familiar ou prática ritual. A forma de consciência e a classificação cultural da atividade não eliminam sua dimensão material.

Freyssenet passa de uma observação semântica e antropológica correta para uma conclusão ontológica excessiva. A inexistência de uma categoria nativa equivalente a “trabalho” demonstra que os agentes não isolavam determinadas atividades sob essa denominação. Ela não demonstra que inexistia uma mediação socialmente organizada entre sociedade e natureza. É preciso distinguir as categorias mobilizadas pelos próprios agentes das categorias analíticas utilizadas para reconstruir processos sociais. Uma sociedade pode desconhecer os conceitos de metabolismo, excedente ou reprodução social sem deixar de realizar processos que podem ser compreendidos por meio desses conceitos. Caso a análise social fosse limitada às categorias conscientemente mobilizadas pelos agentes, seria impossível identificar estruturas e mecanismos que operam sem formulação conceitual explícita.

Uma posição teoricamente mais consistente consiste em sustentar simultaneamente a universalidade material do trabalho e a historicidade de suas formas sociais. A universalidade material decorre do fato de que todas as sociedades precisam produzir e reproduzir suas condições de existência. A historicidade reside na maneira pela qual as atividades são distribuídas, comandadas, apropriadas, significadas e articuladas. Variam a separação entre produtores e meios de produção, as formas de extração do excedente, os critérios de pertencimento ao grupo produtor e os mecanismos de coerção.

O capitalismo introduz uma transformação &quot;qualitativa&quot; nesse processo. A força de trabalho converte-se em mercadoria, os produtores são separados dos meios de produção, a atividade é subordinada à valorização do capital e trabalhos concretamente distintos são socialmente equiparados como trabalho abstrato. Nesse contexto, o trabalho adquire autonomia institucional, mensuração temporal sistemática e centralidade na constituição das &quot;identidades&quot; sociais. A tese de que “o trabalho foi inventado” é defensável somente quando o termo designa essa forma social moderna: uma atividade separada, mercantilizada, abstratamente mensurável e subordinada ao capital. Quando o trabalho designa a transformação material da natureza orientada à reprodução social, a tese torna-se insustentável.

O próprio texto reconhece parcialmente essa distinção ao apresentar duas grandes orientações. A primeira admite uma definição substantiva do trabalho; a segunda identifica o trabalho com a difusão da relação salarial e do trabalhador juridicamente livre. Freyssenet aproxima-se da segunda posição e interpreta a extensão do termo “trabalho” para atividades domésticas e autônomas como efeito de uma naturalização retrospectiva.

Essa interpretação permanece unilateral. A denominação “trabalho doméstico” pode produzir uma projeção indevida de categorias salariais sobre relações familiares. Também pode revelar que atividades historicamente invisibilizadas participam da reprodução cotidiana e geracional da força de trabalho. A crítica feminista marxista mostrou que a ausência de salário não implica exterioridade em relação à reprodução capitalista. A questão não pode ser resolvida pela simples decisão terminológica de chamar ou não essas atividades de trabalho. É necessário determinar sua posição na reprodução social, sua forma de subordinação e sua articulação com a acumulação de capital.

Freyssenet atribui à concepção marxiana uma fundamentação naturalista. A primazia das relações de produção derivaria da necessidade biológica de comer, beber, vestir-se e habitar. Segundo essa leitura, Marx teria transformado uma condição necessária da existência em princípio determinante de toda a vida social. A crítica identifica uma dificuldade real em algumas formulações de A ideologia alemã. A apresentação da produção dos meios de vida como “primeiro fato histórico” pode sugerir uma sequência linear na qual a satisfação das necessidades biológicas antecederia a linguagem, a cooperação, a consciência e as relações sociais. Considerada literalmente, essa sequência é antropologicamente frágil. Nunca existiu produção humana pré-social. A apropriação da natureza sempre foi mediada por linguagem, conhecimento transmitido, cooperação e formas sociais.

Freyssenet, porém, reduz a concepção materialista da história a essa fundamentação naturalista. Em Marx, a produção não corresponde a uma atividade corporal isolada que posteriormente produziria relações sociais. Ela já é produção social. Os indivíduos produzem no interior de relações determinadas, utilizando meios herdados, saberes coletivos, divisões sociais e formas de propriedade historicamente constituídas.

Também é necessário distinguir condição necessária e causa suficiente. A reprodução material constitui uma condição necessária de qualquer sociedade. Disso não decorre que cada organização, representação ou conflito possa ser diretamente deduzido das necessidades biológicas. A determinação materialista opera pela análise das relações sociais que organizam o acesso às condições de existência, a apropriação do excedente e a reprodução das classes.

A &quot;prioridade&quot; da reprodução material não significa que as pessoas primeiro comam e posteriormente estabeleçam relações sociais. Significa que as relações sociais precisam organizar, de alguma forma, a produção e a distribuição das condições de vida. O parentesco pode cumprir essa função. A autoridade religiosa pode organizar o excedente. O poder político pode determinar o acesso à terra. Nesses casos, parentesco, religião e política não estão externos às relações de produção. Eles constituem a forma concreta dessas relações em variados modos de produção distintos. 

Esse é precisamente o aspecto mais forte da posição de Godelier apresentada no texto. Relações classificadas como “superestruturais” podem funcionar como relações de produção quando organizam o controle dos meios de produção, a divisão das atividades e a apropriação do excedente. A economia não precisa existir como esfera institucional autônoma para que existam relações sociais de produção.

Freyssenet parece aproximar excessivamente duas proposições distintas: a existência universal de relações de produção e a existência universal de uma esfera econômica autônoma. A primeira é compatível com a historicidade radical das instituições. A segunda é historicamente falsa. As relações de produção designam as relações sociais mediante as quais uma sociedade organiza a apropriação da natureza, a distribuição dos meios de produção, a atividade coletiva e o excedente. Elas não precisam aparecer como relações econômicas para os participantes. Sua forma pode ser política, jurídica, religiosa ou parental.

Afirmar a universalidade das relações de produção não significa projetar o mercado capitalista sobre sociedades não capitalistas. A projeção ocorre quando categorias específicas do capitalismo, como trabalho abstrato, salário, produtividade mercantil ou racionalidade empresarial, são tratadas como determinações universais. Lembremo Korsch e a ideia de especificidade histórica! A distinção decisiva encontra-se entre abstrações razoáveis e anacronismos. “Metabolismo entre sociedade e natureza” é uma abstração que retém uma determinação comum a diferentes formações sociais. “Trabalho assalariado”, “mercado de trabalho” e “trabalho abstrato” são categorias historicamente específicas. Confundir esses níveis conduz tanto ao economicismo quanto ao culturalismo.

Ao final do trecho, Freyssenet propõe abandonar a busca de um princípio único da totalidade social e partir de uma pluralidade de relações sociais, cada qual dotada de lógica própria, coexistindo e articulando-se em campos variáveis. Essa alternativa evita o reducionismo segundo o qual toda prática seria expressão imediata da economia. Ela cria outra dificuldade: a possibilidade de converter a sociedade em uma justaposição de relações relativamente autônomas.

No capitalismo, as relações sociais não coexistem em condições equivalentes. A reprodução ampliada do capital impõe constrangimentos sobre o Estado, a família, a ciência, a educação e a organização do território. Essas esferas conservam mecanismos próprios, embora sua reprodução seja condicionada pela acumulação, pela propriedade privada dos meios de produção e pela dependência generalizada em relação ao mercado. Uma teoria da totalidade não precisa postular que cada fenômeno seja diretamente causado pela &quot;economia&quot;. Ela precisa explicar por que determinadas relações adquirem capacidade de condicionar a reprodução das demais. A determinação é mediada, contraditória e historicamente variável. Abandonar essa investigação em favor de uma simples pluralidade de lógicas sociais enfraquece a explicação das assimetrias estruturais.

A contribuição de Freyssenet está em combater a naturalização da forma capitalista do trabalho. O trabalho assalariado, o mercado de trabalho, a separação entre tempo de trabalho e tempo livre, a mensuração abstrata do tempo e a constituição do trabalhador como identidade social são resultados históricos. Seu limite consiste em transformar a historicidade da forma social em inexistência do conteúdo material trans-histórico. Com isso, confunde a invenção de uma categoria social autônoma com a existência do processo de metabolismo entre humanidade e natureza.

Em suma, se a inexistência da palavra “trabalho” provasse a inexistência do trabalho, bastaria trocar o nome do expediente para “vivência colaborativa” e o capitalismo estaria superado até sexta-feira. Nenhuma sociedade, contudo, conseguiu alimentar-se de cosmologia, construir casas com sistemas de parentesco ou cozinhar o jantar por meio de uma categoria nativa. Alguém sempre precisou transformar a natureza, organizar a cooperação e produzir os meios de vida. O capitalismo não inventou essa atividade... sua contribuição histórica foi convertê-la em mercadoria, cronometrá-la, submetê-la à valorização e, no fim, criar um departamento de recursos humanos para explicar ao trabalhador que tudo isso é uma oportunidade de crescimento, rs.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O argumento de Michel Freyssenet parte de uma constatação relevante: inúmeras sociedades não dispõem de uma categoria unitária equivalente à noção moderna de trabalho. Atividades que, retrospectivamente, classificaríamos como produtivas podem estar integradas ao parentesco, à religião, à política, ao ritual ou às obrigações comunitárias. A ausência de um termo geral e a diversidade das classificações locais demonstram que o trabalho, enquanto domínio social diferenciado, não constitui uma evidência antropológica universal.</p>
<p>Essa constatação, contudo, não sustenta a conclusão de que o trabalho, em qualquer sentido conceitual, tenha sido inventado pela sociedade burguesa. O problema central do texto está na insuficiente distinção entre o trabalho como mediação material entre seres humanos e natureza, o trabalho como atividade organizada por relações sociais determinadas e o trabalho abstrato como forma especificamente capitalista da atividade produtiva.</p>
<p>Em Marx, o trabalho possui uma determinação histórico-&#8220;universal&#8221;. No Capital, ele é definido como um processo entre o ser humano e a natureza, por meio do qual os seres humanos regulam e controlam seu metabolismo com a natureza. Essa definição não pressupõe salário, mercado, propriedade privada, cálculo econômico ou separação institucional entre economia, política e religião. Toda sociedade precisa apropriar-se de elementos naturais, transformá-los e produzir as condições materiais de sua reprodução. Esse processo pode ser organizado por relações de parentesco, escravidão, tributação, reciprocidade comunitária, servidão ou trabalho assalariado. Pode também ser concebido pelos agentes como dever religioso, obrigação política, atividade familiar ou prática ritual. A forma de consciência e a classificação cultural da atividade não eliminam sua dimensão material.</p>
<p>Freyssenet passa de uma observação semântica e antropológica correta para uma conclusão ontológica excessiva. A inexistência de uma categoria nativa equivalente a “trabalho” demonstra que os agentes não isolavam determinadas atividades sob essa denominação. Ela não demonstra que inexistia uma mediação socialmente organizada entre sociedade e natureza. É preciso distinguir as categorias mobilizadas pelos próprios agentes das categorias analíticas utilizadas para reconstruir processos sociais. Uma sociedade pode desconhecer os conceitos de metabolismo, excedente ou reprodução social sem deixar de realizar processos que podem ser compreendidos por meio desses conceitos. Caso a análise social fosse limitada às categorias conscientemente mobilizadas pelos agentes, seria impossível identificar estruturas e mecanismos que operam sem formulação conceitual explícita.</p>
<p>Uma posição teoricamente mais consistente consiste em sustentar simultaneamente a universalidade material do trabalho e a historicidade de suas formas sociais. A universalidade material decorre do fato de que todas as sociedades precisam produzir e reproduzir suas condições de existência. A historicidade reside na maneira pela qual as atividades são distribuídas, comandadas, apropriadas, significadas e articuladas. Variam a separação entre produtores e meios de produção, as formas de extração do excedente, os critérios de pertencimento ao grupo produtor e os mecanismos de coerção.</p>
<p>O capitalismo introduz uma transformação &#8220;qualitativa&#8221; nesse processo. A força de trabalho converte-se em mercadoria, os produtores são separados dos meios de produção, a atividade é subordinada à valorização do capital e trabalhos concretamente distintos são socialmente equiparados como trabalho abstrato. Nesse contexto, o trabalho adquire autonomia institucional, mensuração temporal sistemática e centralidade na constituição das &#8220;identidades&#8221; sociais. A tese de que “o trabalho foi inventado” é defensável somente quando o termo designa essa forma social moderna: uma atividade separada, mercantilizada, abstratamente mensurável e subordinada ao capital. Quando o trabalho designa a transformação material da natureza orientada à reprodução social, a tese torna-se insustentável.</p>
<p>O próprio texto reconhece parcialmente essa distinção ao apresentar duas grandes orientações. A primeira admite uma definição substantiva do trabalho; a segunda identifica o trabalho com a difusão da relação salarial e do trabalhador juridicamente livre. Freyssenet aproxima-se da segunda posição e interpreta a extensão do termo “trabalho” para atividades domésticas e autônomas como efeito de uma naturalização retrospectiva.</p>
<p>Essa interpretação permanece unilateral. A denominação “trabalho doméstico” pode produzir uma projeção indevida de categorias salariais sobre relações familiares. Também pode revelar que atividades historicamente invisibilizadas participam da reprodução cotidiana e geracional da força de trabalho. A crítica feminista marxista mostrou que a ausência de salário não implica exterioridade em relação à reprodução capitalista. A questão não pode ser resolvida pela simples decisão terminológica de chamar ou não essas atividades de trabalho. É necessário determinar sua posição na reprodução social, sua forma de subordinação e sua articulação com a acumulação de capital.</p>
<p>Freyssenet atribui à concepção marxiana uma fundamentação naturalista. A primazia das relações de produção derivaria da necessidade biológica de comer, beber, vestir-se e habitar. Segundo essa leitura, Marx teria transformado uma condição necessária da existência em princípio determinante de toda a vida social. A crítica identifica uma dificuldade real em algumas formulações de A ideologia alemã. A apresentação da produção dos meios de vida como “primeiro fato histórico” pode sugerir uma sequência linear na qual a satisfação das necessidades biológicas antecederia a linguagem, a cooperação, a consciência e as relações sociais. Considerada literalmente, essa sequência é antropologicamente frágil. Nunca existiu produção humana pré-social. A apropriação da natureza sempre foi mediada por linguagem, conhecimento transmitido, cooperação e formas sociais.</p>
<p>Freyssenet, porém, reduz a concepção materialista da história a essa fundamentação naturalista. Em Marx, a produção não corresponde a uma atividade corporal isolada que posteriormente produziria relações sociais. Ela já é produção social. Os indivíduos produzem no interior de relações determinadas, utilizando meios herdados, saberes coletivos, divisões sociais e formas de propriedade historicamente constituídas.</p>
<p>Também é necessário distinguir condição necessária e causa suficiente. A reprodução material constitui uma condição necessária de qualquer sociedade. Disso não decorre que cada organização, representação ou conflito possa ser diretamente deduzido das necessidades biológicas. A determinação materialista opera pela análise das relações sociais que organizam o acesso às condições de existência, a apropriação do excedente e a reprodução das classes.</p>
<p>A &#8220;prioridade&#8221; da reprodução material não significa que as pessoas primeiro comam e posteriormente estabeleçam relações sociais. Significa que as relações sociais precisam organizar, de alguma forma, a produção e a distribuição das condições de vida. O parentesco pode cumprir essa função. A autoridade religiosa pode organizar o excedente. O poder político pode determinar o acesso à terra. Nesses casos, parentesco, religião e política não estão externos às relações de produção. Eles constituem a forma concreta dessas relações em variados modos de produção distintos. </p>
<p>Esse é precisamente o aspecto mais forte da posição de Godelier apresentada no texto. Relações classificadas como “superestruturais” podem funcionar como relações de produção quando organizam o controle dos meios de produção, a divisão das atividades e a apropriação do excedente. A economia não precisa existir como esfera institucional autônoma para que existam relações sociais de produção.</p>
<p>Freyssenet parece aproximar excessivamente duas proposições distintas: a existência universal de relações de produção e a existência universal de uma esfera econômica autônoma. A primeira é compatível com a historicidade radical das instituições. A segunda é historicamente falsa. As relações de produção designam as relações sociais mediante as quais uma sociedade organiza a apropriação da natureza, a distribuição dos meios de produção, a atividade coletiva e o excedente. Elas não precisam aparecer como relações econômicas para os participantes. Sua forma pode ser política, jurídica, religiosa ou parental.</p>
<p>Afirmar a universalidade das relações de produção não significa projetar o mercado capitalista sobre sociedades não capitalistas. A projeção ocorre quando categorias específicas do capitalismo, como trabalho abstrato, salário, produtividade mercantil ou racionalidade empresarial, são tratadas como determinações universais. Lembremo Korsch e a ideia de especificidade histórica! A distinção decisiva encontra-se entre abstrações razoáveis e anacronismos. “Metabolismo entre sociedade e natureza” é uma abstração que retém uma determinação comum a diferentes formações sociais. “Trabalho assalariado”, “mercado de trabalho” e “trabalho abstrato” são categorias historicamente específicas. Confundir esses níveis conduz tanto ao economicismo quanto ao culturalismo.</p>
<p>Ao final do trecho, Freyssenet propõe abandonar a busca de um princípio único da totalidade social e partir de uma pluralidade de relações sociais, cada qual dotada de lógica própria, coexistindo e articulando-se em campos variáveis. Essa alternativa evita o reducionismo segundo o qual toda prática seria expressão imediata da economia. Ela cria outra dificuldade: a possibilidade de converter a sociedade em uma justaposição de relações relativamente autônomas.</p>
<p>No capitalismo, as relações sociais não coexistem em condições equivalentes. A reprodução ampliada do capital impõe constrangimentos sobre o Estado, a família, a ciência, a educação e a organização do território. Essas esferas conservam mecanismos próprios, embora sua reprodução seja condicionada pela acumulação, pela propriedade privada dos meios de produção e pela dependência generalizada em relação ao mercado. Uma teoria da totalidade não precisa postular que cada fenômeno seja diretamente causado pela &#8220;economia&#8221;. Ela precisa explicar por que determinadas relações adquirem capacidade de condicionar a reprodução das demais. A determinação é mediada, contraditória e historicamente variável. Abandonar essa investigação em favor de uma simples pluralidade de lógicas sociais enfraquece a explicação das assimetrias estruturais.</p>
<p>A contribuição de Freyssenet está em combater a naturalização da forma capitalista do trabalho. O trabalho assalariado, o mercado de trabalho, a separação entre tempo de trabalho e tempo livre, a mensuração abstrata do tempo e a constituição do trabalhador como identidade social são resultados históricos. Seu limite consiste em transformar a historicidade da forma social em inexistência do conteúdo material trans-histórico. Com isso, confunde a invenção de uma categoria social autônoma com a existência do processo de metabolismo entre humanidade e natureza.</p>
<p>Em suma, se a inexistência da palavra “trabalho” provasse a inexistência do trabalho, bastaria trocar o nome do expediente para “vivência colaborativa” e o capitalismo estaria superado até sexta-feira. Nenhuma sociedade, contudo, conseguiu alimentar-se de cosmologia, construir casas com sistemas de parentesco ou cozinhar o jantar por meio de uma categoria nativa. Alguém sempre precisou transformar a natureza, organizar a cooperação e produzir os meios de vida. O capitalismo não inventou essa atividade&#8230; sua contribuição histórica foi convertê-la em mercadoria, cronometrá-la, submetê-la à valorização e, no fim, criar um departamento de recursos humanos para explicar ao trabalhador que tudo isso é uma oportunidade de crescimento, rs.</p>
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		<title>
		Por: Caio		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159546/#comment-1126395</link>

		<dc:creator><![CDATA[Caio]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jul 2026 19:09:12 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Pessoal, um comentário de tradução, lateral ao texto. Nos textos em inglês, existe um padrão de colocar letras maiúsculas em todas palavras dos títulos. Já no português, só a primeira palavra e os nomes próprios se iniciam com maiúsculas. Nesta e em outras traduções publicadas recentemente no site, os títulos e subtítulos estão com o padrão do inglês.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pessoal, um comentário de tradução, lateral ao texto. Nos textos em inglês, existe um padrão de colocar letras maiúsculas em todas palavras dos títulos. Já no português, só a primeira palavra e os nomes próprios se iniciam com maiúsculas. Nesta e em outras traduções publicadas recentemente no site, os títulos e subtítulos estão com o padrão do inglês.</p>
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		<title>
		Por: Marx, o humanista concreto		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159546/#comment-1126281</link>

		<dc:creator><![CDATA[Marx, o humanista concreto]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jul 2026 12:23:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Texto muito instigante. No entanto, achei frágil o argumento, se levado em consideração que o conceito de trabalho para Marx não é tão restritivo quanto pensa o autor. Mesmo a atividade de coletar, caçar, etc seria uma atividade produtiva que poderia constituir um modo de produção, por exemplo.

P.S.: o fato de não existir palavras para nomear algum aspecto da realidade em algumas sociedades não significa que este aspecto é inexistente nesta sociedade, mas pode significar que essa sociedade não percebeu tal fenômeno e, por isso, não a nomeou. O problema dos antropólogos é julgar as outras sociedades pela nossa.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Texto muito instigante. No entanto, achei frágil o argumento, se levado em consideração que o conceito de trabalho para Marx não é tão restritivo quanto pensa o autor. Mesmo a atividade de coletar, caçar, etc seria uma atividade produtiva que poderia constituir um modo de produção, por exemplo.</p>
<p>P.S.: o fato de não existir palavras para nomear algum aspecto da realidade em algumas sociedades não significa que este aspecto é inexistente nesta sociedade, mas pode significar que essa sociedade não percebeu tal fenômeno e, por isso, não a nomeou. O problema dos antropólogos é julgar as outras sociedades pela nossa.</p>
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