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	Comentários sobre: A Gestão do Conflito: ONGs e democracia empresarial no Brasil contemporâneo (1990-2024) Parte II	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Manolo		</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Manolo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Oct 2026 00:02:12 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Parabenizo pelo artigo e deixo enfim meus pitacos:

1. A tese central é acertadíssima. Muito além do que desejam seus trabalhadores na base, organizações da sociedade civil formam um sistema de governança política e social bastante complexo, que ora converge, ora se contrapõe aos interesses do próprio Estado. É nos interstícios dessa tensão que se forma a governança. O resgate da reforma gerencial do Estado brasileiro nos anos 1990 foi excelente, precisamente por resgatar o ponto de origem da versão atual do &quot;público não-estatal&quot;. A primeira parte só não está perfeita porque, falando em origem, expressões como &quot;ONG&quot;, &quot;organização não-governamental&quot;, &quot;terceiro setor&quot;, já caíram em desuso faz tempo tanto entre quem estuda quanto entre quem trabalha nesse campo. Na segunda parte, o artigo, infelizmente, começa a decepcionar. Fica preso a dados e literatura acadêmica. Dá a impressão de que se está somente começando a entrar no estudo desse campo, com pouca ou nenhuma relação com as práticas de gestão do conflito (seja por vivê-la por dentro, seja por fazer a &quot;etnografia&quot; que elogiou em outras obras). Reproduz platitudes e maquia-as com dados.

2. Os dados, aliás, não permitem ver o que a prática mostra. Fiquemos no exemplo da distribuição geográfica. O diagnóstico está correto: a estrutura das OSC segue a distribuição geográfica da população e do capital no Brasil. Entretanto, os &lt;i&gt;modos de ser&lt;/i&gt; dessa distribuição não se explicam por mera transposição de estrutura. Existe, sim, uma concentração de &lt;i&gt;sedes&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;matrizes&lt;/i&gt; de OSC no Sudeste, mas a &lt;i&gt;atuação&lt;/i&gt; dessas OSC é descentralizada. As sedes ficam no Sudeste (e em Brasília) por uma razão simples: é por lá que circulam os captadores de recursos fazendo &lt;i&gt;lobby&lt;/i&gt;. É comum, por exemplo, que uma organização com sede em São Paulo atue no país inteiro fazendo &quot;assessorias em gestão&quot; a outras organizações de menor porte espalhadas pelo país. Essas &quot;assessorias em gestão&quot;, aliás, são uma forma de governança interna do setor, talhadas para garantir maior &quot;eficácia&quot; na &quot;aplicação&quot; dos recursos.

3. No que diz respeito à categorização, não li o &quot;Mapa das OSC&quot; do IPEA, portanto não sei como funcionou a categorização deles. Entretanto, vejo alguns problemas. &quot;Religião&quot; aparece como a maior categoria, numericamente falando. Mas por quê? Deduzo que o IPEA não tenha separado templos religiosos de dentro do corpo das OSC. Até modificação legislativa relativamente recente, templos religiosos (igrejas, terreiros, centros espíritas, templos budistas, etc.) eram obrigados a assumir a forma jurídica associações e a usar um CNAE de &quot;atividades religiosas&quot;. A mudança legislativa a que me refiro permitiu a templos religiosos sair da forma jurídica &quot;associação&quot;; com isso, muitos conseguiram, por exemplo, perpetuar certos sacerdotes em cargos de gestão (na associação, é preciso fazer &quot;dança das cadeiras&quot; com alguma frequência), ou não exigir sequer a existência de fiéis/associados, etc. Entretanto, o CNAE de &quot;atividades religiosas&quot; permite conseguir algumas imunidades e isenções tributárias, e a forma jurídica de associação permite &quot;captar recursos&quot; com mais facilidade; daí muitas organizações terem se mantido como associações com CNAE de &quot;atividades religiosas&quot;. Situação bem diferente é a das chamadas &quot;obras sociais&quot;, que vão desde a pequena associação que distribui sopa a pessoas em situação de rua num bairro até estruturas muito grandes e complexas como a CPT e a Caritas. Essas continuam sendo associações, e podem ser classificadas como OSC com facilidade. Mas pode haver confusão: muitas mantém esse CNAE de &quot;atividades religiosas&quot; por questões tributárias e deveriam estar na categoria de &quot;Desenvolvimento e defesa de direitos&quot;, mas, na prática, não fazem nada nenhuma &quot;atividade religiosa&quot;. Tudo isso levaria a discussão para um lado que não é exatamente o assunto desse artigo, mas exemplifica como o artigo fraquejou ao se escorar numa só fonte para a classificação, pois a do IPEA, apesar de recente, não é a única.

4. Ao contrário do que a segunda parte do artigo dá a entender, fundações e institutos empresariais são, sim, considerados parte da &quot;sociedade civil&quot;. Seu papel nesse campo, seja enquanto financiadores, seja enquanto sujeitos coletivos de &lt;i&gt;advocacy&lt;/i&gt;, não somente é discutido dentro desse setor como é extremamente polêmico. A discussão que o artigo apresenta sobre o papel de fundações como a Fundação Bradesco, Fundação Vale, Fundação CSN, Fundação Ford, Fundação Cargill, Greenpeace, WWF, etc., é travada &lt;i&gt;dentro&lt;/i&gt; do próprio &quot;terceiro setor&quot; nos mesmos termos apresentado neste artigo, ou até outros mais radicais. Se houver interesse em alargar o escopo para setores inteiros, sugiro, para ficar apenas nos que li ou reli recentemente: &quot;Entre a alma missionária e o espírito mercador&quot;, de Paulo Éverton Mota Simões; &quot;O não governamental na Cooperação Internacional para o Desenvolvimento após 1990&quot;, de Maria Elisa Huber Pessina; &quot;A reinvenção do desenvolvimento&quot;, de Anete Brito Leal Ivo; &quot;Desenvolvimento e cooperação internacional&quot;, de Elsa Kraychete e Carlos Milani; &quot;Sociedade civil e participação cidadã no poder local&quot;, de Elenaldo Celso Teixeira; &quot;Neocorporativismo e política pública&quot;, de Nelson de Oliveira; e &quot;Cooperação internacional para o desenvolvimento&quot;, de Elsa Kraychete e Denise Vitale. Não bastasse o debate acadêmico -- onde a influência das OSC como ferramentas de política externa é discutido abertamente -- essa discussão corre solta dentro do próprio terceiro setor. Há muitas cartas públicas, declarações, manifestos, questionando as políticas de financiamento da organização X, da fundação Y, do grupo Z... nos mesmos termos apresentados pelo artigo. Se você olhar as referências de um texto que o Passa Palavra publicou em 2010 (https://passapalavra.info/2016/03/111050/), vai encontrar alguma coisa nesse sentido, e num momento histórico, aliás, em que estava &quot;na moda&quot; confundir trabalho e militância nas organizações da sociedade civil. Claro, esses documentos só são lidos por quem está no próprio setor ou o estuda, pois o escrutínio público sobre tudo isso é pouco ou nenhum; mas não se pode assumir, sem mais, que se trate de grande novidade. Entendo que se trata de um artigo político, e de ocasião, mas algum rigor é necessário para não deixar má impressão.

5. É interessante o resgate do livro de Liliana Segnini, que é &lt;i&gt;um&lt;/i&gt; entre &lt;i&gt;muitos&lt;/i&gt; livros de &quot;etnografia operária&quot; publicados naqueles anos 1980. Novamente: &lt;i&gt;um&lt;/i&gt; entre &lt;i&gt;muitos&lt;/i&gt;. O resgate é pertinente, porque o assunto no ponto em que foi referenciado é a atuação da Fundação Bradesco. Entretanto, a referência, sozinha como está, é insuficiente, porque já se passaram trinta e oito anos desde sua publicação e a forma de atuação de organizações como a Fundação Bradesco em tempos mais recentes permanece na opacidade quando essa referência é a única mobilizada.

6. O que mais me chateou na segunda parte do artigo, chateação que se espalhou para o artigo inteiro, foi ter começado afirmando bem uma tese correta, empiricamente verificável, mas não ter sido capaz de outra coisa além de reafirmar platitudes. Um exemplo dessas platitudes é a correlação simplista entre a atuação geográfica de empresas e a atuação de suas respectivas fundações privadas. Um exemplo crítico: a Ford tem fábricas no Brasil desde 1921 e a Fundação Ford foi fundada em 1936, mas só veio atuar no Brasil nos anos 1960; o que explica esses 35 anos de hiato, se o artigo afirma, sem nenhuma mediação, que as fundações atuam onde a empresa está? A simples menção a canalizar recursos para a contenção geopolítica na América Latina é suficiente? O que diferencia esse modo de atuação de outra mais direta: a fundação da Fordlândia, em 1928? Esse é um dos tipos de ponto cego que a mera correlação, bem como a reprodução acrítica das teses das fontes, não ajudam a observar. É como se faltasse &quot;carne&quot;, historicidade, porque quem fala em &quot;gestão&quot; fala de medidas concretas, práticas, &quot;faça isso&quot; ou &quot;faça aquilo&quot;. Ficou tudo muito &quot;por cima&quot;, como numa olhada rápida que não aprofunda. O artigo resgatou um breve e importante histórico, mostrou distribuição geográfica das OSC, equiparou essa distribuição à das empresas, correlacionou-a muito superficialmente à atuação das empresas, mas ficou nisso. É como se a &quot;carne&quot;, a historicidade, as medidas concretas, a prática, estivessem pressupostas, como se se exigisse de quem lê conhecê-las de antemão. O que nem sempre é o caso.

É isso. O artigo é bom, puxa um debate importante, mas poderia ter sido bem melhor. Como está, mal tocou na superfície do problema além dos lugares-comuns.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Parabenizo pelo artigo e deixo enfim meus pitacos:</p>
<p>1. A tese central é acertadíssima. Muito além do que desejam seus trabalhadores na base, organizações da sociedade civil formam um sistema de governança política e social bastante complexo, que ora converge, ora se contrapõe aos interesses do próprio Estado. É nos interstícios dessa tensão que se forma a governança. O resgate da reforma gerencial do Estado brasileiro nos anos 1990 foi excelente, precisamente por resgatar o ponto de origem da versão atual do &#8220;público não-estatal&#8221;. A primeira parte só não está perfeita porque, falando em origem, expressões como &#8220;ONG&#8221;, &#8220;organização não-governamental&#8221;, &#8220;terceiro setor&#8221;, já caíram em desuso faz tempo tanto entre quem estuda quanto entre quem trabalha nesse campo. Na segunda parte, o artigo, infelizmente, começa a decepcionar. Fica preso a dados e literatura acadêmica. Dá a impressão de que se está somente começando a entrar no estudo desse campo, com pouca ou nenhuma relação com as práticas de gestão do conflito (seja por vivê-la por dentro, seja por fazer a &#8220;etnografia&#8221; que elogiou em outras obras). Reproduz platitudes e maquia-as com dados.</p>
<p>2. Os dados, aliás, não permitem ver o que a prática mostra. Fiquemos no exemplo da distribuição geográfica. O diagnóstico está correto: a estrutura das OSC segue a distribuição geográfica da população e do capital no Brasil. Entretanto, os <i>modos de ser</i> dessa distribuição não se explicam por mera transposição de estrutura. Existe, sim, uma concentração de <i>sedes</i> e <i>matrizes</i> de OSC no Sudeste, mas a <i>atuação</i> dessas OSC é descentralizada. As sedes ficam no Sudeste (e em Brasília) por uma razão simples: é por lá que circulam os captadores de recursos fazendo <i>lobby</i>. É comum, por exemplo, que uma organização com sede em São Paulo atue no país inteiro fazendo &#8220;assessorias em gestão&#8221; a outras organizações de menor porte espalhadas pelo país. Essas &#8220;assessorias em gestão&#8221;, aliás, são uma forma de governança interna do setor, talhadas para garantir maior &#8220;eficácia&#8221; na &#8220;aplicação&#8221; dos recursos.</p>
<p>3. No que diz respeito à categorização, não li o &#8220;Mapa das OSC&#8221; do IPEA, portanto não sei como funcionou a categorização deles. Entretanto, vejo alguns problemas. &#8220;Religião&#8221; aparece como a maior categoria, numericamente falando. Mas por quê? Deduzo que o IPEA não tenha separado templos religiosos de dentro do corpo das OSC. Até modificação legislativa relativamente recente, templos religiosos (igrejas, terreiros, centros espíritas, templos budistas, etc.) eram obrigados a assumir a forma jurídica associações e a usar um CNAE de &#8220;atividades religiosas&#8221;. A mudança legislativa a que me refiro permitiu a templos religiosos sair da forma jurídica &#8220;associação&#8221;; com isso, muitos conseguiram, por exemplo, perpetuar certos sacerdotes em cargos de gestão (na associação, é preciso fazer &#8220;dança das cadeiras&#8221; com alguma frequência), ou não exigir sequer a existência de fiéis/associados, etc. Entretanto, o CNAE de &#8220;atividades religiosas&#8221; permite conseguir algumas imunidades e isenções tributárias, e a forma jurídica de associação permite &#8220;captar recursos&#8221; com mais facilidade; daí muitas organizações terem se mantido como associações com CNAE de &#8220;atividades religiosas&#8221;. Situação bem diferente é a das chamadas &#8220;obras sociais&#8221;, que vão desde a pequena associação que distribui sopa a pessoas em situação de rua num bairro até estruturas muito grandes e complexas como a CPT e a Caritas. Essas continuam sendo associações, e podem ser classificadas como OSC com facilidade. Mas pode haver confusão: muitas mantém esse CNAE de &#8220;atividades religiosas&#8221; por questões tributárias e deveriam estar na categoria de &#8220;Desenvolvimento e defesa de direitos&#8221;, mas, na prática, não fazem nada nenhuma &#8220;atividade religiosa&#8221;. Tudo isso levaria a discussão para um lado que não é exatamente o assunto desse artigo, mas exemplifica como o artigo fraquejou ao se escorar numa só fonte para a classificação, pois a do IPEA, apesar de recente, não é a única.</p>
<p>4. Ao contrário do que a segunda parte do artigo dá a entender, fundações e institutos empresariais são, sim, considerados parte da &#8220;sociedade civil&#8221;. Seu papel nesse campo, seja enquanto financiadores, seja enquanto sujeitos coletivos de <i>advocacy</i>, não somente é discutido dentro desse setor como é extremamente polêmico. A discussão que o artigo apresenta sobre o papel de fundações como a Fundação Bradesco, Fundação Vale, Fundação CSN, Fundação Ford, Fundação Cargill, Greenpeace, WWF, etc., é travada <i>dentro</i> do próprio &#8220;terceiro setor&#8221; nos mesmos termos apresentado neste artigo, ou até outros mais radicais. Se houver interesse em alargar o escopo para setores inteiros, sugiro, para ficar apenas nos que li ou reli recentemente: &#8220;Entre a alma missionária e o espírito mercador&#8221;, de Paulo Éverton Mota Simões; &#8220;O não governamental na Cooperação Internacional para o Desenvolvimento após 1990&#8221;, de Maria Elisa Huber Pessina; &#8220;A reinvenção do desenvolvimento&#8221;, de Anete Brito Leal Ivo; &#8220;Desenvolvimento e cooperação internacional&#8221;, de Elsa Kraychete e Carlos Milani; &#8220;Sociedade civil e participação cidadã no poder local&#8221;, de Elenaldo Celso Teixeira; &#8220;Neocorporativismo e política pública&#8221;, de Nelson de Oliveira; e &#8220;Cooperação internacional para o desenvolvimento&#8221;, de Elsa Kraychete e Denise Vitale. Não bastasse o debate acadêmico &#8212; onde a influência das OSC como ferramentas de política externa é discutido abertamente &#8212; essa discussão corre solta dentro do próprio terceiro setor. Há muitas cartas públicas, declarações, manifestos, questionando as políticas de financiamento da organização X, da fundação Y, do grupo Z&#8230; nos mesmos termos apresentados pelo artigo. Se você olhar as referências de um texto que o Passa Palavra publicou em 2010 (<a href="https://passapalavra.info/2016/03/111050/" rel="ugc">https://passapalavra.info/2016/03/111050/</a>), vai encontrar alguma coisa nesse sentido, e num momento histórico, aliás, em que estava &#8220;na moda&#8221; confundir trabalho e militância nas organizações da sociedade civil. Claro, esses documentos só são lidos por quem está no próprio setor ou o estuda, pois o escrutínio público sobre tudo isso é pouco ou nenhum; mas não se pode assumir, sem mais, que se trate de grande novidade. Entendo que se trata de um artigo político, e de ocasião, mas algum rigor é necessário para não deixar má impressão.</p>
<p>5. É interessante o resgate do livro de Liliana Segnini, que é <i>um</i> entre <i>muitos</i> livros de &#8220;etnografia operária&#8221; publicados naqueles anos 1980. Novamente: <i>um</i> entre <i>muitos</i>. O resgate é pertinente, porque o assunto no ponto em que foi referenciado é a atuação da Fundação Bradesco. Entretanto, a referência, sozinha como está, é insuficiente, porque já se passaram trinta e oito anos desde sua publicação e a forma de atuação de organizações como a Fundação Bradesco em tempos mais recentes permanece na opacidade quando essa referência é a única mobilizada.</p>
<p>6. O que mais me chateou na segunda parte do artigo, chateação que se espalhou para o artigo inteiro, foi ter começado afirmando bem uma tese correta, empiricamente verificável, mas não ter sido capaz de outra coisa além de reafirmar platitudes. Um exemplo dessas platitudes é a correlação simplista entre a atuação geográfica de empresas e a atuação de suas respectivas fundações privadas. Um exemplo crítico: a Ford tem fábricas no Brasil desde 1921 e a Fundação Ford foi fundada em 1936, mas só veio atuar no Brasil nos anos 1960; o que explica esses 35 anos de hiato, se o artigo afirma, sem nenhuma mediação, que as fundações atuam onde a empresa está? A simples menção a canalizar recursos para a contenção geopolítica na América Latina é suficiente? O que diferencia esse modo de atuação de outra mais direta: a fundação da Fordlândia, em 1928? Esse é um dos tipos de ponto cego que a mera correlação, bem como a reprodução acrítica das teses das fontes, não ajudam a observar. É como se faltasse &#8220;carne&#8221;, historicidade, porque quem fala em &#8220;gestão&#8221; fala de medidas concretas, práticas, &#8220;faça isso&#8221; ou &#8220;faça aquilo&#8221;. Ficou tudo muito &#8220;por cima&#8221;, como numa olhada rápida que não aprofunda. O artigo resgatou um breve e importante histórico, mostrou distribuição geográfica das OSC, equiparou essa distribuição à das empresas, correlacionou-a muito superficialmente à atuação das empresas, mas ficou nisso. É como se a &#8220;carne&#8221;, a historicidade, as medidas concretas, a prática, estivessem pressupostas, como se se exigisse de quem lê conhecê-las de antemão. O que nem sempre é o caso.</p>
<p>É isso. O artigo é bom, puxa um debate importante, mas poderia ter sido bem melhor. Como está, mal tocou na superfície do problema além dos lugares-comuns.</p>
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		<title>
		Por: Marcelo Phintener		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/09/159955/#comment-1143198</link>

		<dc:creator><![CDATA[Marcelo Phintener]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Sep 2026 09:58:33 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159955#comment-1143198</guid>

					<description><![CDATA[Nota de correção: no texto, cometo um equívoco ao me referir a A Liturgia do Poder como dissertação de mestrado. Trata-se de tese de doutorado em Ciências Sociais defendida na PUC-SP em 1987, sob orientação de Maurício Tragtenberg, e publicada como livro pela EDUC em 1988. O mestrado de Segnini, também orientado por Tragtenberg e defendido na PUC-SP em 1981, versava sobre outro universo de poder disciplinar no trabalho: Ferrovia e Ferroviários — uma contribuição para a análise do poder disciplinar. Vale acrescentar um dado que reforça o argumento do ensaio: segundo Tragtenberg, o Bradesco teria comprado toda a edição que chegou às livrarias — tentativa de sufocar uma pesquisa que documentava, de dentro, seus mecanismos de controle e disciplina sobre os trabalhadores.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nota de correção: no texto, cometo um equívoco ao me referir a A Liturgia do Poder como dissertação de mestrado. Trata-se de tese de doutorado em Ciências Sociais defendida na PUC-SP em 1987, sob orientação de Maurício Tragtenberg, e publicada como livro pela EDUC em 1988. O mestrado de Segnini, também orientado por Tragtenberg e defendido na PUC-SP em 1981, versava sobre outro universo de poder disciplinar no trabalho: Ferrovia e Ferroviários — uma contribuição para a análise do poder disciplinar. Vale acrescentar um dado que reforça o argumento do ensaio: segundo Tragtenberg, o Bradesco teria comprado toda a edição que chegou às livrarias — tentativa de sufocar uma pesquisa que documentava, de dentro, seus mecanismos de controle e disciplina sobre os trabalhadores.</p>
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