<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Passa Palavra &#8211; Passa Palavra</title>
	<atom:link href="https://passapalavra.info/author/legume/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://passapalavra.info</link>
	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
	<lastBuildDate>Fri, 22 May 2026 00:07:09 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=7.0</generator>
	<item>
		<title>Primeiro de Maio</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/05/159235/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/05/159235/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 May 2026 00:07:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159235</guid>

					<description><![CDATA[Onde eu vim parar? Por Lucas Gomes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Lucas Gomes</h3>
<p style="text-align: justify;">Ela sentiu o coração acelerar, mas foi antes do estrondo. Foi quando o elevador começou a descer lentamente, uma gaiola apertada e barulhenta, ela nunca tinha entrado em um elevador tão antigo. A porta era uma malha de metal articulada e os cabos estavam todos à vista. Fosse outra a situação ela talvez chegasse a sentir medo de ser transportada por um mecanismo tão rústico, ainda que o hotel aparentasse ser um lugar respeitável. Enquanto descia veio o estrondo. A repressão já havia começado?</p>
<p style="text-align: justify;">Com um freio brusco o elevador a deixou no térreo. Por um momento ela desejou que a porta se abrisse sozinha, como fazem os elevadores modernos. Mas não. Ele te trouxe até aqui, você pode inclusive ver a mecânica que explica a comodidade do transporte vertical nas grandes cidades, mas quem abre a porta é você, ninguém fará isso em teu lugar. Uma pequena preguiça se apossou dela, uma que voltaria para assombrá-la uma e outra vez nos anos seguintes. Tanta iniciativa ela já havia tomado: gastou seu dinheiro suado, rompeu laços, chorou, amou pela primeira última vez, teve medo, teve esperança, pegou o ônibus sozinha ao aeroporto carregando suas malas. Até a porta do elevador ela teria que abrir com a força dos braços?</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159239" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062.jpg" alt="" width="1200" height="800" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />A ausência de Rodri oprimia levemente seu peito e estimulava sua mente. Ela fantasiava que seus óculos eram como a câmera de um celular que mostraria a ele tudo o que ela estava por ver naquela nova cidade. Mas dentro do elevador ela podia apenas escutar, com enorme intriga, o som disforme de uma multidão, instrumentos de sopro, um ritmo grave e constante dos tambores, apitos distantes, e finalmente um estrondo que pareceu ter ocorrido a poucos quarteirões de distância. Abriu a porta do elevador um pouco desajeitada e esquadrinhou o pequeno saguão para interpretar os rostos dos presentes. Não havia pânico, ninguém corria para fechar as portas e janelas. O hotel estava movimentado devido ao feriado mas em aparente desconexão com o que ocorria lá fora. Ela deixou sua chave com o recepcionista, que lhe respondeu com o tom enfático mas afável dos porteños recomendando evitar a região da praça Congresso e a Avenida de Mayo. Certamente, então, é onde ela gostaria de estar. Se lançou à rua como quem mergulha no mar, pressentindo a força das correntes. Na madrugada, quando chegou ao hotel, aquela estreita rua estava deserta e iluminada com luzes alaranjadas. Agora a luz do dia mostrava melhor a sua sujeira e também uma boa quantidade de pessoas andando em ambos sentidos. Quase todos estavam caracterizados com alguma cor, alguns de branco, outros de verde, outros de azul, por meio de camisetas, coletes ou abrigos, como se fossem torcedores de alguma equipe esportiva. Elas andavam tranquilas, em pequenos grupos, sem nenhum sinal de preocupação. Um novo estrondo, forte como o anterior, fez vibrar seus tímpanos e suas tripas e ela pode conectá-lo com outros mais fracos, mais agudos que o seguiram. Eram fogos que os próprios manifestantes estavam soltando, não eram bombas da polícia.</p>
<p style="text-align: justify;">Tomou rumo em direção a esquina mais próxima, onde a rua Libertad cruzava a Bartolomé Mitre, na intersecção vislumbrou um fragmento de massas, dois quarteirões adiante, de onde o rugido vinha. As apertadas ruas do centro criavam uma sensação de labirinto por mais que os mapas garantissem o frio cálculo de um bairro quadriculado. Não era o labirintismo de caminhos sinuosos e o medo de se perder. Era a sensação de que havia uma visão superior, uma presença grande e alta que unificava toda aquela massa de gente, mas para os seres humanos a visão total estava bloqueada e só restava as perspectivas parciais das ruas finas, com os quarteirões históricos de Buenos Aires projetados sobre nossas cabeças. A passo decidido ela foi de encontro com a manifestação. Cruzou a rua Rivadavia, que naquele trecho é apenas uma rua mais, e foi forçando o passo até o limite da famosa avenida de Maio, quando viu que aquele rio de gente era caudaloso demais para ela entrar.</p>
<p style="text-align: justify;">Posicionou-se apertada entre outras pessoas para observar a manifestação, mas logo as cenas vividas na sua mente se tornaram mais fortes que as que ela absorvia pelos seus olhos. Os tempos todos de sua vida se misturaram. Presentes paralelos, memórias do passado, memórias futuras do presente, construção de memória presente projetada sobre o futuro… Aflita, protegida atrás de uma banca de jornal com sua prima e companheiras dela da escola onde trabalhava. Elas observavam a uma distância prudente os enfrentamentos entre a polícia e os manifestantes. O chão ao redor todo molhado como se o inverno de Santiago tivesse se adiantado um mês e meio. Todas cobriam suas bocas e narizes com panos para diminuir os efeitos do mar de gás lacrimogêneo lançado pelos blindados que no Chile são chamados de<em> zorrillos</em>, gambás &#8211; os que atiram jatos d&#8217;água são chamados de <em>guanacos</em>, animal semelhante à lhama e igualmente conhecido por seus poderosos cuspes. Pobres animaizinhos, merecem homenagens melhores de nossa parte. Nenhum cachorro nasce policial!, brincávamos sempre com minha prima. Cada vez que via um manifestante se aproximar dos blindados para arremessar pedras, molotovs, ou o que fosse, seu coração se apertava em uma mistura de sentimentos. Esse pode ser o Rodri, tem mais ou menos a altura dele. A matilha de vira-latas se misturava à confusão, corria atrás da figura vestida toda de preto que arremessava uma pedra e logo retornava para a distância segura onde mais manifestantes desafiavam as forças repressivas. Algumas barricadas precárias tentavam diminuir a capacidade de manobra da polícia na ampla avenida Alameda. Talvez seu principal valor era expressar uma ação mancomunada de quem mostrava valentia contra os covardes fardados. As colunas haviam saído da avenida Brasil mas nunca puderam chegar ao lugar onde ocorreria o ato combativo do Primeiro de Maio, na intersecção com a avenida Matucana.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159236" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908.jpg" alt="" width="1200" height="675" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908-681x383.jpg 681w" sizes="(max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Na manhã daquele primeiro de Maio ela havia acordado na casa de Rodri com a primeira luz do dia e uma pequena ressaca. Sentia um sabor estranho, mas não na boca, em algum lugar mais fundo, mais difícil de descrever com anatomia. Uma lágrima escapou de seu olho enquanto este encarava absorto a janela. Eu não sou uma vítima. Eu sou o que eu escolho ser. Ela se permitiu dissociar entre o calor que vinha do corpo de Rodri e o céu pálido que amanhecia. Voar, renascer. Odiar-se. Repetir, repetir, repetir. Fazendo o menor barulho possível ela se sentou na cama e olhou o rosto inexpressivo e inchado de Rodri enquanto dormia, a sua barba rala, o seu cabelo intensamente negro. Quantas vezes mais ela aguentaria acordar sentindo-se assim? Estúpida. Eu sou uma estúpida. Outras lágrimas cairam de seus olhos ao perceber que não podia deixar de sentir carinho por aquele com quem compartilhou a cama, com quem havia tido uma noite de bebedeira, briga e tentativa de sexo. Por que eu ainda sinto isso por este imbecil? Um imbecil que de vez em quando sabe ser doce, de vez em quando diz meu nome como se fosse um feitiço, eriçando os pelos de minha nuca, um imbecil com um abraço que visto como se fosse uma segunda pele. Esquivando a garrafa de pisco e as latas de cerveja no chão ela buscou seus pertences, suas roupas e foi embora sem despertá-lo. Queria tomar um banho e comer antes de ir à casa da prima para que fossem juntas à manifestação.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro que chamou sua atenção foi a ausência da cor vermelha. Ela sempre achou graça da fixação de alguns companheiros com aqueles rostos desenhados como fotos antigas, símbolos de outros séculos que ninguém mais conhecia. Antes de 2019 ela nunca tinha dado muita bola para tudo isso, que diferença poderia haver entre uma cor e outra? Foi só depois que ela entendeu o sentido histórico das cores vermelha e preta, que se a bandeira do Chile era um símbolo importante, que se a bandeira mapuche, a Wenufoye, tinha uma importância histórica, também o vermelho e o preto tinham seu motivo de ser. Naquela grande festa da classe trabalhadora argentina não havia bandeiras da cor vermelha. Era estranho pois não chovia e no entanto ela via no meio da multidão da avenida muitas pessoas com guarda-chuvas, das mesmas cores que predominavam nas faixas que naquele momento passavam adiante dela, o azul e o branco. Nas faixas ela reconheceu um símbolo e uma sigla que se repetia, “C.G.T.”. Conseguiu ler também “<em>La Fraternidad”</em>, um nome bonito, mas depois uma série de siglas sem detalhe que pareciam não se importar com o leitor das faixas: UPCN, UOM, UOCRA, SATSAID, SADOP. Não havia palavras de ordem, não havia mensagens políticas, não havia referência à data que estava sendo celebrada. Eram apenas siglas, estampadas em faixas sustentadas por hastes grossas nos braços de homens igualmente grossos. Uma faixa em particular chamou sua atenção: ao lado das palavras<em> Confederación General del Trabajo,</em> o desenho de um abraço. Era isso mesmo? Sim, um abraço peculiar desenhado em uma faixa sindical. Um homem alto acolhe em seu peito a cabeça de cabelos claros e trançados de uma mulher, ambos rostos escondidos pela perspectiva com que foram desenhados. Essa imagem disparou uma pequena carga elétrica nela, que então percebeu a pouca quantidade de mulheres naquela multidão. Quem eram aquelas duas pessoas de rostos escondidos? E por quê estampavam uma faixa sindical num primeiro de Maio?</p>
<p style="text-align: justify;">Para chegar até o limiar da torrente de pessoas na avenida de Mayo ela precisou forçar a passagem entre alguns grupos e outras pessoas que também observavam a manifestação no remanso das ruas transversais. A ideia de entrar no meio da avenida para participar da manifestação foi naturalmente eliminada de seus planos. Retrocedeu quinze metros até um lugar no quarteirão com mais espaço e consultou o seu celular para ver o mapa. O sinal estava saturado, era possível ver o mapa da cidade mas não sua localização. Ela teve que traçar mentalmente o plano: deveria ir até a avenida 9 de Julio, muito larga e que provavelmente permitiria a ela cruzar para o outro lado da manifestação, e de do outro lado da avenida de Mayo subir alguma das ruas até a altura da praça Congresso. Guardou o celular na pochete e caminhou de volta o pequeno trecho de rua até a Rivadavia, observando as curvas e o estilo garboso das esquinas do centro. Ao virar à direita com o corpo sua cabeça ainda admirava o chamativo edifício de três andares e grandes janelas que ornava aquela esquina, com parapeitos na terraça que lembravam uma torre medieval. Achou engraçado como o estilo dessas esquinas lembrava um pouco os edifícios históricos pomposos do centro de Santiago, mas em uma escala pequenina, despretensiosa, como se estivessem conscientes de estar escondidos naquelas ruelas apertadas. Teve vontade de parar para observar com mais tempo os detalhes e cada elemento daquelas fachadas. Haveria oportunidade para isso nos próximos dias, semanas, meses. Anos?</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159238" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571.jpg" alt="" width="800" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571.jpg 800w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-681x511.jpg 681w" sizes="(max-width: 800px) 100vw, 800px" />Das sombras da pequena Rivadavia ela viu se desabrochar lentamente a avenida 9 de Julio, com todo o céu que ela ainda não tinha conseguido ver, suas árvores frondosas e a linha de edifícios baixos do outro lado. Pela primeira vez avistou carros da polícia, mas nenhum blindado, nenhum cordão policial com escudos, nenhuma tensão no ar. Naquele momento ela se sentiu uma turista e não soube concluir se isso era algo bom ou algo ruim. Para não dar muita pinta ela decidiu seguir andando como se soubesse o que estava fazendo. Em direção à avenida de Mayo ela foi se unindo a um volume cada vez maior de pessoas e então pode ver muito melhor as grandes colunas coloridas de manifestantes, um carnaval barulhento, que ela conseguiria atravessar devido às proporções enormes da avenida central. No cruzamento entre a avenida 9 de Julio e a avenida de Mayo não existem árvores e é possível ver os edifícios ao longo de muitos quarteirões. Enquanto observava algumas das grandes faixas de uma coluna toda verde, na qual os integrantes usavam coletes que diziam <em>Camioneros</em>, ela divisou num prédio que parecia estar sobre as pistas da avenida, alguns quarteirões mais adiante, o rosto daquela mulher do abraço! A loira sindicalista! Nessa imagem, espécie de gigantografia estampada num alto edifício, a loira parecia falar com um microfone antigo, o seu penteado arrumado em um coque ou trançado sobre a nuca, seu rosto portando uma expressão severa. Ela não entendia se a mulher cantava ou se dava um discurso, que talvez fosse então transmitido pela antena da torre bem alta que havia na terraça do mesmo edifício. Para observar melhor essa cena ela subiu na borda de uma fonte que estava seca, ali naquela intersecção das avenidas, no boulevard entre a pista principal e a pista local da 9 de Julio. Após alguns poucos segundos observando intrigada a loira sindicalista estampada no prédio, uma nuvem grossa de fumaça invadiu os seus olhos e o cheiro de gordura queimada penetrou profundamente em seu nariz, quase derrubando-a da fonte. Não era o gás lacrimogêneo que ela respirou em Santiago, era um dos vários postos de churrasco de rua vendendo comida para os manifestantes. Sua curiosidade era mais forte que sua recusa moral à carne, então procedeu a estudar mais de perto a famosa culinária argentina. Se aproximou lateralmente, misturando-se com os clientes, e viu as grelhas sobre as bacias cheias de carvão em seu interior, montadas como mesas onde a carne era cozinhada e aguardava os compradores. Havia o setor de <em>patis</em>, hambúrgueres finos que eram acompanhados com cebola e às vezes com um ovo frito; os <em>choris</em>, linguiças alinhadas em pequenas filas, derrubando as gotas de gordura que faziam as brasas assobiar uma música de luxúria e êxtase; e por fim os bifes de <em>bondiola</em>, o corte mais gorduroso e macio da carne de porco. Os <em>patis </em>e <em>choris</em> já cozinhados eram amontoados na parte menos quente da grelha – que aparentava ser um pedaço qualquer de grade metálica improvisada – e eram servidos, assim como a <em>bondiola</em>, na forma de um sanduíche, abraçados por um pão. Os comensais, depois de receber em mãos sua porção, se deslocavam alguns passos mais à direita para a mesa de molhos, podendo arriscar-se com as grandes bisnagas de ketchup, mostarda e maionese, ou então com o <em>chimichurri</em> ou com uma variedade local de vinagrete. Depois de analisar a cadeia produtiva ela passou a observar a perícia do churrasqueiro daquele posto. Era um homem avultado de pele escura, mais escura que a média naquela manifestação, tinha um bigode branco bem ralo assim como alguns poucos cabelos brancos ao redor da careca. Vestia uma camiseta branca, já bastante suja àquela altura, com letras verdes que diziam <em>Sindicato de Camioneros</em>, acompanhadas de um desenho das fronteiras da Argentina na mesma cor. As letras e o desenho se deformavam pela circunferência de sua barriga. De cima de seus olhos parecia derramar, junto com o suor, uma tensão que aparentava ser permanente em seu rosto enquanto manipulava a comida: quebrava um ovo na pequena chapa, dava voltas aos <em>patis</em>, pedia ao seu ajudante que buscasse mais <em>choris</em>, mexia na cebola que se caramelizava lentamente com a temperatura, escolhia um pedaço de <em>bondiola</em> e o envolvia com pão. Em uma de suas mãos sujas havia uma pequena faca com a qual cortava o pão, os <em>choris </em>preparados em sua versão “borboleta” (a linguiça cortada na metade horizontalmente), também os pedaços de <em>bondiola</em> e o que mais precisasse ser cortado: plásticos, papéis, algum engraçadinho que se recusasse a pagar.</p>
<p style="text-align: justify;">Com ímpeto ela atravessou a manifestação aproveitando o espaço aberto entre duas colunas: FATCA, toda de verde, avançava já em direção à praça do Congresso, enquanto UOYEP, em azul, ainda aguardava sobre o cruzamento carregando uma enorme faixa que dizia “<em>Amor y Lealtad. Alberto Murua conducción</em>”, e ao lado o rosto de um senhor careca usando óculos. Ímpeto e pressa, antes que o mar se fechasse novamente sobre ela, arrastando-a para o turbilhão inexplicável de afeto pelo sr. Murua. Ela poderia virar em qualquer paralela da avenida de Mayo, mas decidiu estender a caminhada até o prédio da loira sindicalista para aproveitar o dia de céu azul. Olhou no celular e viu que poderia tomar a avenida Belgrano até a avenida Entre Rios, que passava em frente ao Congresso. Afastada da concentração, do golpe ininterrupto dos bombos carregados por homens de torso nu, dos estrondos pirotécnicos, se sentiu mais relaxada e segura. Caminhava pela pista local da avenida 9 de Julio junto a alguns pequenos grupos, como na frente do seu hotel. Não era apenas a ausência da cor vermelha. Até na manifestação pelega da CUT o vermelho era a cor predominante. Bem, os argentinos não tem a cor vermelha em sua bandeira, isso pode ser um fator. Mas não havia nenhum sinal de símbolos comunistas, ela não pode ver nenhuma referência a partidos políticos, movimentos sociais, as colunas se pareciam mais a torcidas organizadas, com uma forte presença de homens parrudos e mal encarados, alguns deles saltando com vigor ao som dos instrumentos de seu sindicato. Uma repressão policial seria fortemente resistida por gente assim. Será por isso que a polícia aqui parece estar tão distante e tranquila? Mas se são tantos e estão tão organizados, por quê não tomam o poder? Ela passou por um pequeno grupo de homens vestindo os coletes verdes dos <em>Camioneros</em> que compartilhavam garrafas de cerveja parados ao lado de um banco do boulevard. Um deles segurava algo no centro da roda, ela logo entendeu que eram carreiras de pó sobre uma pequena tábua e viu como um a um foram compartilhando também das carreiras. Algumas coisas não são tão diferentes entre nossos países, apesar da vulgaridade excessiva desta cena, pensou ela. Rodri voltou à sua mente. Ele não era um operário rude e corpulento como esses sujeitos que hoje tomavam as ruas do centro de Buenos Aires. Ele é um rapaz franzino que muda de trabalho com frequência, nunca pisou em uma fábrica. Ele… nós, nós não saíamos às ruas para festejar e demonstrar esse excesso de disposição. Menos ainda os pelegos do sindicalismo oficial. Não vamos às ruas para expor essa despreocupação grosseira. Não, essa nós guardamos para os momentos íntimos, quando pensamos que ninguém nos olha. Na marcha somos combatentes, os alcoólatras que cheiram pó são quem chega em casa de noite, dois personagens diferentes em um mesmo corpo. Eu já chorei demais. Não importa se aqui as pessoas cheiram pó na rua, não importa agora quem são os pelegos, não importa a cor das bandeiras no primeiro de Maio. Importa conseguir se matricular na faculdade, conseguir equivalências dos anos que já estudei em Santiago, importa começar a buscar trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">O edifício do antigo Ministério de Obras Públicas, onde habita a loira, é de um estilo extremamente sóbrio: um volume pesado aferrado ao chão por seu enorme rodapé feito de placas de pedras adestradas para vestir as arestas e também as curvas das esquinas. Sua entrada está escondida, de costas à avenida 9 de Julio, onde foram instaladas escadas externas que provavelmente remediaram a falta desse elemento de segurança no projeto original. O rosto dela está formado por uma grande estrutura metálica apoiada na parte mais alta da face norte do prédio, cobrindo algumas das janelas dos últimos andares. Como a maior parte da estrutura é vazada, pois a figura foi realizada com linhas sutis, o efeito não é pesado e de longe é possível pensar que se trata de linhas pintadas sobre a fachada. Ela seguiu até a avenida Belgrano e antes de virar a esquina quis olhar uma última vez o edifício. Para sua surpresa, do lado oposto, na face sul, havia uma outra imagem da loira sindicalista. Desta vez mais tranquila, com um discreto sorriso no rosto, o coque que parecia ser uma marca pessoal e uma flor adornando sua roupa. Era notável a intenção de manter viva aquela imagem antiga na mente dos argentinos. Novamente ela se lembrou da fileira de rostos estampados nas bandeiras de alguns partidos comunistas. Quando será que começou essa moda de fazer propaganda política com rostos de pessoas? O que há de tão imortal num rosto, em uma forma, que as ideias não são suficientes para transmitir?</p>
<p style="text-align: justify;">Pela avenida Belgrano fluíam outras torrentes da sopa de letras. Esse trecho também estava fechado para o trânsito de carros, estava repleta de ônibus estacionados. Pelo asfalto algumas colunas subiam com ela em direção ao Congresso. FATUN, FATQYP, UPFPARA, FOECYT. SOMRA, SUTERH, AGOEC, SUTECBA, UTEDYC, UTICRA. A caminhada pela avenida estava muito agradável, sem o aperto que ela viu na avenida de Mayo mas com o som de algumas bandas sindicais à distância, uma maior quantidade de pessoas que não pareciam estar fantasiadas para um jogo de futebol. Ali haviam árvores nas calçadas, a parede de edifícios contíguos repleta de varandas, dando a ela uma sensação de proximidade e diálogo entre a vida das pessoas e as ruas. Sua vontade era conseguir bisbilhotar por alguma daquelas janelas para entender como vive uma pessoa naquela cidade, como é a sala, como é o quarto de uma argentina em Buenos Aires, com quantas pessoas vivem, que tipo de quadros penduram em suas paredes, que comidas cozinham em seus fogões. Alguns quarteirões adiante ela sentiu que já não havia tanta gente, então decidiu voltar para as imediações da avenida de Mayo virando na rua San José. Novamente ela se encontrava no ambiente sombreado e estreito das ruas do centro, onde já não era possível observar tranquilamente as fachadas dos edifícios que agora se erguiam vertiginosamente de ambos lados. Apenas nas esquinas, com a abertura dos ângulos e o descanso transversal da parede de edifícios daqueles quarteirões todos contíguos e apertados, nas esquinas era possível admirar as curvas, os adornos de serralheria nos parapeitos e portões. Na medida em que se aproximava da avenida de Mayo o ruído da multidão crescia, as explosões se tornavam mais frequentes, o ritmo grave dos bombos sendo surrados retumbava. Uma vez mais seu coração se acelerou desmedido. Já conseguia ver aquele fragmento de dez ou quinze metros de manifestação no enquadramento das esquinas da rua San José com a avenida: as bandeiras e faixas sobre a multidão, um grupo de pessoas observando na borda da intersecção. Mas sua visão se nublou por uma fração de segundo. Um novo estrondo grave e profundo inconscientemente a fez buscar alguma parede, para isso foi preciso desviar de algumas pessoas até encontrar um pequeno recuo da entrada de um dos prédios. Seu coração palpitava, a respiração era rápida, descontrolada. O cheiro de gordura queimada entrava novamente em seu nariz e era como se lhe tapasse o ar, como se a intoxicasse. Lembrou-se de que não havia comido nada desde que se levantou, ansiosa para ver o primeiro de Maio argentino. Aos poucos foi deixando de escutar, grandes manchas brancas apareceram em sua visão e ela precisou apoiar-se na parede. Sem que ela tivesse notado antes, uma grande coluna se dirigia à avenida vindo atrás dela pela mesma rua, toda de verde com as grande letras ATE em suas bandeiras, empurrando e espremendo quem estivesse em seu caminho, e foi então que ela foi ao chão.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159237" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540.jpg" alt="" width="987" height="555" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540.jpg 987w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 987px) 100vw, 987px" />Sic vos, non vobis mellificatis apes</em>. <em>Apes</em>, abelhas. <em>Mellificatis</em>, segunda do plural. Vocês produzem mel, mas não para vocês mesmas,<em> vobis</em>, dativo. Elas são como a classe trabalhadora, não é mesmo? Isso é Virgílio, acho. Já começaram as aulas? Aos poucos sua visão periférica foi retornando, uma rajada de explosões agudas despertou sua audição. Menina, ei, menina, você me escuta? Está acordada? Ela percebe que está deitada no chão. Duas mulheres a estão olhando de cima, agachadas uma de cada lado seu. Sente um pouco de água caindo sobre sua testa e descendo em meio ao seu cabelo. Você vai ficar bem, companheira, não se preocupe. Você veio sozinha? Uma delas é morena, de pele escura e rosto já marcado pela idade, está usando um colete azul. A outra tem o cabelo pintado de loiro, tem um aspecto mais jovial, está usando um colete e um boné verdes. Do lado de fora ela escuta mais forte do que nunca o ruído dos manifestantes, a poucos metros de distância, mas ela está em um lugar amplo. Sente o chão frio e vê sobre as duas mulheres abóbadas altas, com arcos e ornamentos de alvenaria em relevo, e também uma frase em latim escrita no teto abobadado? Sim, ali estava em letras grandes. Suas pernas estão erguidas por uma terceira mulher, que veste uma camiseta com o rosto… da loira sindicalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Onde eu vim parar?</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/05/159235/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A última declaração de Zoe Rogers do Palestine Action perante o júri</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/05/159214/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/05/159214/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 14 May 2026 10:58:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Palestina]]></category>
		<category><![CDATA[Reino Unido]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159214</guid>

					<description><![CDATA[Vocês podem achar estranho que o que está acontecendo na Palestina tenha passado completamente despercebido, podem ter notado certas palavras que foram censuradas, e que, até nossas declarações finais, a palavra genocídio não foi dita uma única vez. Por Leo Vinicius]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Leo Vinicius</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">Em 6 de agosto de 2024, ativistas do <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/07/156892/" href="https://passapalavra.info/2025/07/156892/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Palestine Action</a> entraram na fábrica da Elbit em Filton, na Inglaterra, e destruíram equipamentos da concreta máquina de genocídio, como um carregamento de quadricópteros usados para matar a população em Gaza. A Elbit Systems é a maior empresa bélica israelense, e possui uma subsidiária no Brasil, <a class="urlextern" title="https://www.ael.com.br/" href="https://www.ael.com.br/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">chamada AEL</a>, com sede em Porto Alegre.</p>
<p style="text-align: justify;">Seis ativistas foram presos no local. Outros ligados a essa ação foram presos em novembro de 2024 e junho de 2025, totalizando 24, que ficaram conhecidos como os Filton24. É o primeiro caso na história da Grã Bretanha em que o Estado tenta considera a destruição de propriedade como terrorismo. Alguns ficaram presos 18 meses antes do julgamento, em condições e violações de direitos que fizeram muitos deles entrarem em greve de fome.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159216" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk.jpg" alt="" width="1536" height="1024" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1536px) 100vw, 1536px" />Em fevereiro de 2026 os seis primeiros ativistas foram julgados, e não foram condenados pelos jurados em nenhuma das acusações, sendo libertados. Dos 24, apenas um não foi solto. Porém, não satisfeito com o resultado, o Estado obrigou que eles fossem novamente julgados. Um novo julgamento com uma série de <a class="urlextern" title="https://thegrayzone.com/2026/04/12/uk-jail-palestine-action-terrorism-uk/" href="https://thegrayzone.com/2026/04/12/uk-jail-palestine-action-terrorism-uk/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">violações de direitos que a imprensa britânica foi proibida de divulgar</a>, como, por exemplo, os jurados não serem informados de que os réus estão sendo acusados de terrorismo e a imprensa britânica proibida de noticiar isso por ordem judicial.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se de uma de uma série de ações estatais para criminalizar e impedir ações e movimentos contra o genocídio e o apartheid na Palestina. A proscrição do Palestine Action como grupo terrorista, que levou milhares de britânicos a serem presos por terrorismo por se manifestarem contra essa proscrição expressando apoio verbal ao Palestine Action, foi uma dessas ações estatais. A tentativa atual pelo Estado e por grande parte da imprensa burguesa de proibir passeatas contra o genocídio cometido por Israel é outra. Acabar com julgamentos de júri para a maioria dos processos penais também está em pauta. Ora, as pessoas comuns que formam os júris normalmente compreendem as motivações dos ativistas e empatizam com seus objetivos. Por isso também no novo julgamento dos 6 de Filton foi proibido que os acusados se defendessem propriamente, explicando aos jurados suas motivações por trás da ação.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 5 de maio de 2026, saiu o resultado do novo julgamento. Charlotte Head, Samuel Corner, Leona Kamio e Fatema Rajwani foram considerados culpados por destruição de propriedade. Zoe Rogers e Jordan Devlin foram inocentados. Samuel Corner também foi condenado por lesão corporal grave contra um policial. No momento em que escrevo as penas ainda não foram proferidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Até mesmo nos seus discursos finais aos jurados, os ativistas foram <a class="urlextern" title="https://thegrayzone.com/2026/04/29/uk-palestine-action-defendants-terror/" href="https://thegrayzone.com/2026/04/29/uk-palestine-action-defendants-terror/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">proibidos pelo juiz de falar aos jurados sobre o princípio da equidade do júri</a>, isto é, o princípio de que os jurados podem absolver um réu a partir de suas consciências, mesmo que seja provado que ele fez algo ilegal.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159217" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1440" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-scaled.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-2048x1152.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Abaixo, segue a <a class="urlextern" title="https://filtonactionists.com/zoes-closing-speech/" href="https://filtonactionists.com/zoes-closing-speech/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">última declaração de Zoe Rogers diante do júri</a> em 29 de abril de 2026:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Como vocês provavelmente já perceberam, decidi me representar neste julgamento. Não porque minha advogada estivesse fazendo um trabalho ruim ou algo do tipo &#8211; na verdade, nos tornamos amigas próximas &#8211; e estou sempre dizendo aos outros que tenho a melhor advogada. Sou muito grata por tudo o que ela fez por mim, neste julgamento e no anterior. Mas desta vez eu queria poder falar com vocês pessoalmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante este julgamento, vocês ouviram algumas evidências muito importantes. Ouviram que existem fábricas em solo britânico produzindo armas para enviar a Israel. Ouviram que os drones que eles fabricam incluem quadricópteros Thor VTOL usados ​​para lançar granadas, drones que são anunciados como “testados em combate” contra palestinos. Ouviram que drones usam inteligência artificial para alvejar crianças, que drones de vigilância Magni X funcionam em conjunto com “drones assassinos” e que a Pesquisa &amp; Desenvolvimento realizada no Reino Unido é vital para as forças armadas israelenses. Vocês também já devem ter ouvido falar que a unidade de Filton foi inaugurada pelo embaixador israelense, que possui licenças de exportação para Israel e que a própria Elbit é a “espinha dorsal” das forças armadas israelenses.</p>
<p style="text-align: justify;">Vocês ouviram como tentamos todos os meios democráticos disponíveis, incluindo manifestações, arrecadação de fundos, acampamentos, petições, cartas para parlamentares, adesivos com informações da Anistia Internacional sobre o apartheid, vigílias, piquetes em fábricas de armas, e a lista continua. E como nada disso funcionou. Vocês ouviram como a ação direta é eficaz, como ela pôs fim ao apartheid durante o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, como ela está sendo usada hoje no Reino Unido para fechar fábricas de armas, quatro das quais foram fechadas permanentemente.</p>
<p style="text-align: justify;">Vocês ouviram que, depois de destruirmos esses drones, fomos presos por terrorismo &#8211; mantidos incomunicáveis ​​- e passamos 18 meses na prisão sem julgamento. Vocês ouviram que este é um novo julgamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de ouvir o depoimento de nós seis, vocês podem achar estranho que o que está acontecendo na Palestina tenha passado completamente despercebido, podem ter notado certas palavras que foram censuradas, e que, até nossas declarações finais, a palavra genocídio não foi dita uma única vez. Houve interrupções por parte da acusação, mudanças repentinas de assunto por parte dos nossos advogados &#8211; é quase como se tópicos inteiros de conversa tivessem sido proibidos. A acusação sabe muito bem que estamos certos ao afirmar que essa fábrica está fornecendo armas a Israel para serem usadas em Gaza. É por isso que eles estão optando por suprimir essa informação em vez de contestá-la. A acusação decidiu que a legalidade das ações de Israel é irrelevante neste julgamento. Porque eles sabem que vocês não poderiam, em sã consciência, nos considerar culpados de nada se tivessem a oportunidade de ouvir toda a verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Para nos considerar culpados de dano criminal, é preciso ter certeza. Vocês talvez reconheçam a expressão “além de qualquer dúvida razoável”, é a mesma coisa. E vou usar uma analogia para explicar isso, porque, ao contrário deste grupo, eu não tenho formação em Direito.</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos imaginar que você e alguém que você ama foram passar férias juntos. E um dia vocês decidem saltar de paraquedas. Agora, você quer ter certeza de que esse paraquedas vai te segurar. Você não compraria um barato na Amazon, nem pegaria emprestado um de um amigo que estivesse mofando no galpão há tempos. Porque você quer saber tudo sobre esse paraquedas! Sua história, quem o fabricou, como foi usado, talvez até mesmo suas motivações? Porque você quer ter certeza de que, enquanto estiver caindo em direção ao chão, quando acionar o mecanismo, o paraquedas vai te segurar, porque se você não tiver certeza, bem, isso é um erro irreparável. E essa decisão não é diferente. É algo permanente, com consequências que mudam a vida, e o mais importante, não há como voltar atrás.</p>
<p style="text-align: justify;">A acusação precisa te convencer para que você possa condenar. Mas como ter certeza se você sabe que não ouviu toda a verdade?</p>
<p style="text-align: justify;">Sou uma pessoa comum, com amigos, família, uma vaga na universidade, um gato que amo, basicamente muita coisa a perder indo para a prisão. Mas vocês sabem que todos nós tínhamos a intenção de ser presos no dia 6 de agosto. Tínhamos a intenção de ir a julgamento. E não vou falar pelos outros aqui, mas a razão pela qual eu estava disposta e confiante o suficiente para permitir isso foi porque eu sabia que agora, 20 meses depois, eu estaria diante de 12 pessoas comuns como vocês. Não políticos, não especialistas em Direito, não advogados e juízes com crinas de cavalo de 400 anos na cabeça, mas um painel de iguais a mim. Vocês são o melhor contrapeso ao poder e à tirania dentro do sistema jurídico como ele existe hoje. É um privilégio ser julgado por vocês. E não digo isso para bajulá-los, mas porque, como você já deve ter ouvido, o direito ao julgamento por júri está ameaçado, com um projeto de lei tramitando na Câmara dos Comuns neste exato momento. Os júris como os conhecemos hoje podem não existir por muito mais tempo, justamente porque seus bolsos não podem ser subornados por pessoas ricas e poderosas. (E também porque os júris frequentemente se recusam a condenar nesses tipos de casos). E essa é uma posição de grande poder para vocês.</p>
<p style="text-align: justify;">Ninguém pode obrigá-los a condenar neste caso, nem mesmo o juiz. Aliás, o juiz está expressamente proibido de lhes dizer para condenar! Vocês, e somente vocês, podem decidir sobre seus veredictos. Mas não só podem nos absolver, como têm o DIREITO de nos absolver. Ninguém pode puni-los por sua decisão. Ninguém pode sequer lhes perguntar porquê.</p>
<p style="text-align: justify;">Quero que saibam, porém, que, seja qual for a sua decisão, não os culparei. Como poderia, se foram mantidos tão no escuro? Mas podem ter certeza de uma coisa. Estou orgulhosa, muito orgulhosa de ter participado disso. Estou orgulhosa de ter superado o meu medo e de ter agido, porque é claro que estava com medo, ninguém invade uma fábrica de armas israelense por diversão! E posso afirmar com absoluta certeza que essa foi a melhor coisa que já fiz, porque há uma grande probabilidade de que, graças às nossas ações naquela noite, vidas inocentes tenham sido salvas.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, jamais terei vergonha de ter sido julgada, de ter passado 18 meses na prisão e de poder enfrentar muitos mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Vocês sabem que fomos tratados como terroristas durante todo esse processo. Uma assistente social que trabalha com vítimas de violência doméstica, duas professoras de jardim de infância, uma graduada de Oxford, uma artista e eu. Parece distópico, mas é verdade, assim como a proscrição do Palestine Action.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas desta vez, vocês são os que decidem. Ao contrário do que a promotoria e o governo querem que vocês sejam, vocês não são meros instrumentos de aprovação. Não caiam na armadilha deles.”</p>
<p style="text-align: justify;">
</blockquote>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/05/159214/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>2</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>cavalo de fogo</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/04/159151/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/04/159151/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Apr 2026 11:28:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artes]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Vietnã]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159151</guid>

					<description><![CDATA[não receberam a parte delas. Por Turista]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por turista</h3>
<p>eu vejo uma velha<br />
visitando outra velha<br />
às nove horas ela chegou<br />
sua bicicleta é cinza<br />
a da sua amiga é azul<br />
as duas estacionadas na sala<br />
lado a lado<br />
manhã de sábado<br />
duas amigas e seus 80 anos<br />
as duas na sala<br />
lado a lado<br />
o karaokê foi ligado<br />
a gente se alegra<br />
as latas de cerveja foram abertas<br />
a gente se alegra<br />
mais uma vez<br />
primeiro sábado do novo ano<br />
dois corpos já abalados<br />
os dentes pintam as primaveras vencidas<br />
elas seguem filiadas ao partido<br />
nunca foram a Londres<br />
não comem bifes com ouro<br />
não receberam a parte delas<br />
elas continuam pobres<br />
elas bebem<br />
estamos em Hải Phòng<br />
e elas cantam</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>A imagem que ilustra o artigo é de selos comemorativos do ano do cavalo de fogo na China feitos a partir da obra de Ren Renfa (1254-1327).</em></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/04/159151/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Velha Toupeira (41)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/04/159102/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/04/159102/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Apr 2026 00:26:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cartoons]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Irão/Irã]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159102</guid>

					<description><![CDATA[]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/VT041-ESTREITO.jpg" alt="" width="2244" height="748" class="aligncenter size-full wp-image-159103" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/VT041-ESTREITO.jpg 2244w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/VT041-ESTREITO-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/VT041-ESTREITO-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/VT041-ESTREITO-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/VT041-ESTREITO-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/VT041-ESTREITO-2048x683.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/VT041-ESTREITO-1260x420.jpg 1260w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/VT041-ESTREITO-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/VT041-ESTREITO-681x227.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2244px) 100vw, 2244px" /></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/04/159102/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>[São Paulo] Carta em resposta aos ataques à EMEI Pagu</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/04/159041/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/04/159041/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Apr 2026 22:52:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159041</guid>

					<description><![CDATA[Educadores respondem à perseguição feita pelo Brasil Paralelo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Sandra</h3>
<p style="text-align: justify;">Os espaços da EMEI Patrícia Galvão foram solicitados via processo SEI pela PMSP para uma obra audiovisual referente à Educação Infantil. No processo havia a determinação de que a não aceitação só poderia estar associada ao que previa o artigo 14,<br />
§3º, do Decreto Municipal nº 56.905/2016 que, em linhas gerais, referia-se à impossibilidade comprovada das condições para filmagens e gravações ou, se por incompatibilidade de agenda, deveríamos propor outra data.</p>
<p style="text-align: justify;">A informação que recebemos era a de que a rotina não seria alterada e como não tínhamos impossibilidade comprovada, não cabia margem para deliberação. Ironicamente, caso a EMEI PAGU estivesse nas condições em que se encontrava há um ano, teríamos impossibilidade comprovada, afinal, tínhamos um esgoto a céu aberto no interior da escola.</p>
<p style="text-align: justify;">Até aqui, nenhuma novidade: não problematizamos porque, genuinamente, o nosso entendimento era de que se tratava de uma demanda institucional e pedagógica da SME encaminhada pela DRE.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, em nenhum momento nos foi informado o teor do material a ser produzido, mesmo quando da visita técnica realizada pelos responsáveis, juntamente com a representante do SPCine, ocasião em que ao serem questionados responderam vagamente, tal qual descrito no relatório de visita técnica em que consta o nome da produção “Educação Infantil”.</p>
<p style="text-align: justify;">Na noite anterior à data marcada para a agravação, fomos surpreendidas por um termo de anuência em nome da Brasil Paralelo&#8230; Sim!!! Era a produtora responsável por vídeos de caráter marcadamente ideológico, em que diversas produções têm por objetivo descaracterizar e objetificar o ensino público pejorativamente.<br />
Imediatamente entramos em contato com a DRE e SPCine, pois enfim entendíamos que esta seria uma razão que justificasse a negativa, ainda mais porque, em pesquisa nas redes sociais da empresa, identificamos o que nos foi confirmado pelos profissionais na ocasião das gravações: as imagens vão compor o documentário &#8220;Pedagogia do Abandono&#8221;<br />
&#8211; Entre ideologia, baixa qualidade e centralização estatal&#8221;, ou seja, trata-se de uma produção onde vão associar as imagens da nossa escola a entrevistas feitas com pessoas aleatórias que sequer são educadoras para exemplificação da péssima qualidade da educação infantil paulistana. (Explicação dada pelos profissionais responsáveis pela gravação).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159047" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem1.jpg" alt="" width="156" height="220" /><br />
As respostas que obtivemos foram “que nem a DRE poderia recusar, uma vez que se tratava de condução da PMSP”, “que recusar seria censurar a livre expressão e que não havia problemas em falarem mal da educação pública, já que a Rede Globo faz este serviço o tempo todo”. Tentaram nos tranquilizar dizendo que nossos nomes e o nome da escola não seriam expostos e que eu, diretora da escola, ficaria “mal-vista” diante das objeções.</p>
<p style="text-align: justify;">Vejam que o próprio cartaz de divulgação da produção já apresenta o teor e o afastamento com a realidade da educação pública municipal. Há uma criança em uma carteira de sala de aula, de fronte a uma lousa, como se estivesse copiando um texto, em detrimento de brinquedos posicionados atrás da cadeira, cena paradoxal ao Currículo da Cidade &#8211; Educação Infantil, que afirma que a escola de educação infantil deve propiciar contextos de uso social da escrita e da leitura, para que a hierarquização dessas linguagens não silencie as demais.</p>
<p style="text-align: justify;">Os processos específicos de alfabetização da linguagem escrita serão desenvolvidos a partir do Ensino Fundamental. O posicionamento das carteiras no cartaz também denota a ignorância quanto ao tema, uma vez que os espaços na educação infantil paulistana são voltados ao desenvolvimento das diversas linguagens, do brincar e da experimentação de novas possibilidades, posicionando mesas que articulem as crianças de acordo com a proposta das(os) educadoras(es), mas jamais enfileiradas de forma cartesiana voltadas para a lousa.</p>
<p style="text-align: justify;">Informamos ao profissional da produtora que não sabíamos o teor do documentário e ele nos comunicou que o &#8220;briefing&#8221; havia sido enviado à Prefeitura, o que não chegou à escola. Apesar da tensão, das problematizações e da manifestação da nossa profunda decepção ao constatar que um tema tão importante como a qualidade da escola fosse apresentado pela Brasil Paralelo autorizada pela PMSP, as gravações aconteceram como havia sido combinado: “espaços sem a presença das crianças”.</p>
<p style="text-align: justify;">No mesmo dia acessamos mais informações sobre o documentário que pretendem lançar no dia 20/04 e, não mais para a nossa surpresa, identificamos que se trata de um projeto para destruir a educação pública, bem como a imagem de Paulo Freire com identificações muito equivocadas. Será que há, nesta proposição, uma tentativa de contribuir com as ideias de que a terceirização/privatização da Educação Infantil seria a solução para uma educação de qualidade? Será? (A dúvida contém ironia).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159046" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2.png" alt="" width="1297" height="715" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2.png 1297w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-300x165.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-1024x565.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-768x423.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-762x420.png 762w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-640x353.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-681x375.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1297px) 100vw, 1297px" /><br />
Não satisfeitos, produziram um vídeo para divulgar o documentário se aproveitando do momento em que foram impedidos de gravar em um espaço onde se encontravam as crianças que temos o dever de proteger, tanto a sua integridade quanto os seus direitos. Estava estabelecido que não seriam feitas filmagens em espaços onde as crianças estivessem, o que teria sido descumprido se não tivessem sido impedidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem, este texto serve a duas finalidades: a primeira é a elucidação dos fatos ocorridos à comunidade da EMEI Patrícia Galvão, às escolas parceiras do Território Educativo das Travessias, às escolas todas da Rede e a quem mais possa interessar; a outra finalidade é afirmar com muita convicção que o fechamento da porta não tinha a ver com o fato de querermos esconder que a Pagu se inspira e se apoia na vida e obra de Paulo Freire, pois esta concepção é fruto de muito estudo e motivo de orgulho; aliás, trata-se de uma Rede Municipal inteira que tem Paulo Freire em seus PPPs, seus currículos, planejamentos e sonhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Falta de discernimento ou muita pretensão uma produtora achar que tínhamos preocupação que ela não gravasse Paulo Freire estampado em nossas paredes? Comunico que se estão procurando evidências, acessem os muitos Projetos Políticos Pedagógicos das escolas da cidade, são documentos disponíveis.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159045" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem3.jpg" alt="" width="282" height="348" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem3.jpg 282w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem3-243x300.jpg 243w" sizes="auto, (max-width: 282px) 100vw, 282px" />É lamentável que, com tantos sonhos e tanto por fazer, precisemos interromper nossas ações cotidianas para lidar com esses ataques que nos deixam abatidas por uma fração do tempo e nos faz retomar&#8230; Sempre com mais força! Por fim, o recado é este:</p>
<p style="text-align: justify;">“Não haverá nenhuma resposta geral, radical, toda. Apenas sinais, singularidades, pedaços,<br />
Brilhos passageiros, ainda que francamente luminosos.<br />
Vaga-lumes”.<br />
Georges Didi-Huberman</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/04/159041/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Professores e indígenas na Paulista: relato de uma mobilização fora do roteiro</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/04/159036/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/04/159036/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Apr 2026 21:41:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=159036</guid>

					<description><![CDATA[A mobilização indígena forçou que o sindicato chamasse os professores a se incorporar ao ato até a Secretaria Estadual de Educação. Por Tomé Moraes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 id="magicdomid4" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z">Por Tomé Moraes</span></h3>
<p style="text-align: justify;">Na última sexta-feira, 10 de abril, a Avenida Paulista foi palco de um encontro inusitado. À assembleia dos professores da rede estadual convocada pela Apeoesp (sindicato oficial da categoria) em frente ao Masp, somou-se uma manifestação de indígenas. Alunos, professores e apoiadores de comunidades guarani de São Paulo, Vale do Ribeira e Itanhaém se juntaram à mobilização para denunciar que as escolas indígenas estão enfrentando a mesma precarização vivida por toda educação no estado, com a faixa: &#8220;aldeias pelas escolas, escolas pelas aldeias&#8221;.</p>
<h4 id="magicdomid6" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>A situação da escola do Jaraguá</b></span></h4>
<p style="text-align: justify;">A data do ato foi simbólica. Exatamente um mês antes, em 10 de março, a Escola Estadual Indígena Djekupé Amba Arandy, na Terra Indígena Jaraguá, zona norte de São Paulo, foi interditada pela Defesa Civil. Desde então, 250 alunos e professores guarani vem tentando manter as aulas de forma improvisada em um centro de convivência da aldeia. No entanto, o espaço não possui água filtrada, portas nos banheiros, nem ventilação adequada. <strong>[1]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Longe de ser um  simples acidente, a interdição da escola era um desastre anunciado. Os guarani do Jaraguá denunciavam as condições precárias do prédio há anos. Em 2021, pais e alunos realizaram um protesto, impedindo que engenheiros da Secretaria de Educação deixassem a escola até que o governo garantisse que realizaria a reforma do local. <b>[2]</b></p>
<p style="text-align: justify;">De lá pra cá, o Governo Estadual deu início à construção de uma nova unidade escolar na T.I. Jaraguá. A obra, no entanto, já custou 3,5 milhões e não tem previsão de conclusão. A primeira etapa está prometida para o segundo semestre. Mas como ficam as aulas até lá?</p>
<p style="text-align: justify;">Além dos problemas de espaço físico, a educação na aldeia já vinha sendo afetada pelas mesmas medidas desestruturantes que o Governo aplicou em toda a rede estadual como falta de merenda, fechamento dos cursos de EJA, do ciclo noturno e das salas de leitura.</p>
<div id="magicdomid15" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<h4 id="magicdomid16" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159037" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09.jpeg" alt="" width="1280" height="960" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09.jpeg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-300x225.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-1024x768.jpeg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-768x576.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-560x420.jpeg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-80x60.jpeg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-100x75.jpeg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-180x135.jpeg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-238x178.jpeg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-640x480.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.34.09-681x511.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />O ato de sexta-feira, 10/04</b></span></h4>
<p style="text-align: justify;">Os últimos eventos da rede estadual de São Paulo parecem testar os limites do sucateamento da educação pública: baseado em uma plataforma de avaliação aplicada de forma duvidosa no final do ano passado, mais de 40 mil professores (foram demitidos)não puderam assumir aulas em 2026. São professores &#8220;categoria O&#8221;, isto é, subcontratados a partir de processos seletivos temporários — sem estabilidade na carreira ou vínculo com as unidades escolares, esses trabalhadores já representam mais de metade do corpo docente desde a pandemia. <b>[3]</b> E enfrentam, agora, uma demissão em massa.<strong>[4]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para o absurdo da situação, a reação das entidades sindicais foi, no mínimo, tímida: moveram uma ação judicial (que agora obteve resultado) e agendaram dois dias de paralisação com assembleia para abril. Não é de se surpreender que, em tal cenário de desagregação e desmobilização, com uma minoria de trabalhadores estáveis nas escolas, a adesão ao chamado tenha sido realmente baixa.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, a organização das comunidades escolares guarani foi uma surpresa positiva, já que sacudiu o marasmo e apontou novos caminhos. A possibilidade de uma mobilização real que fugia do script, contudo, parece ter assustado a burocracia da Apeoesp. Temendo perder o controle da situação, os diretores sindicais se prontificaram em tratar a presença indígena como um &#8220;movimento social&#8221; diferente da luta dos professores, associando sua participação a um &#8220;paralelismo sindical&#8221; arquitetado pelos setores de oposição. Mas, afinal, quem dá aula nas escolas das aldeias? A tentativa de confusão se esclareceu quando o microfone foi cedido a uma professora indígena.<strong>[5]</strong> Exemplo vivo da precarização, pois ela precisou assumir suas aulas de forma voluntária (!) para compensar o fechamento da sala de leitura.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o plano inicial do sindicato era encerrar o ato após o fim da assembleia na Av. Paulista, a mobilização indígena forçou que recalculassem a rota: com o término da votação, os guarani e professores seguiram em caminhada até a Secretaria Estadual de Educação. O caminhão de som da Apeoesp tentou acompanhar o trajeto e tentou atropelar os manifestantes para assumir frente, mas não conseguiu e teve que ficar no fundo.</p>
<div id="magicdomid25" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<h4 id="magicdomid26" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>Continuidade da luta</b></span></h4>
<div id="magicdomid27" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<div id="magicdomid28" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159039 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911.jpeg" alt="" width="1100" height="960" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911.jpeg 1100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911-300x262.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911-1024x894.jpeg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911-768x670.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911-481x420.jpeg 481w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911-640x559.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-16-at-18.33.331-e1776375495911-681x594.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 1100px) 100vw, 1100px" /></span></div>
<p style="text-align: justify;">Com baixa adesão, a assembleia votou por um &#8220;calendário de mobilizações&#8221;. O próximo ato está marcado para dia 2<span class="author-a-esxz82zip2oiz87zz70zz69zz81zz67zz79zl">8</span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z">/04 em frente à Assembleia Legislativa. Professores da rede municipal, que também paralisaram na semana passada, devem voltar às ruas na mesma data.</span></p>
<p style="text-align: justify;">Nesse processo de mobilização, um pequeno coletivo vem se formando em busca de caminhos para se organizar de forma autônoma, para além da estrutura do sinidicalismo estatal. Os &#8220;Professores Autônomos Contra o Estado&#8221;<b>[6]</b>formaram-se em diálogo com trabalhadores da educação que tentam desenvolver experiências no mesmo sentido na prefeitura e na rede privada de São Paulo, com os coletivos EMA (Educadores Municipais Auto-organizados) e A Voz Rouca.<b>[7]</b></p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, nas aldeias, as comunidades escolares guarani preparam os próximos passos da luta para conquistar uma solução não só para sua escola, mas também para todas as escola estaduais como indicava a bandeira de ordem: Aldeias pelas Escolas, Escolas pelas Aldeias.</p>
<div id="magicdomid33" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"></div>
<h4 id="magicdomid34" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>Notas</b></span></h4>
<div id="magicdomid35" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[1] </b></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z i"><i>Alunos indígenas de SP têm aulas em espaço sem bebedouro e banheiro sem porta; secretaria diz não haver prejuízo de aprendizagem </i></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z url"><a href="https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/03/26/alunos-indigenas-de-sp-tem-aulas-em-espaco-sem-bebedouro-e-banheiro-sem-porta-secretaria-diz-nao-haver-prejuizo-de-aprendizagem.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/03/26/alunos-indigenas-de-sp-tem-aulas-em-espaco-sem-bebedouro-e-banheiro-sem-porta-secretaria-diz-nao-haver-prejuizo-de-aprendizagem.ghtml</a></span></div>
<div id="magicdomid36" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[2] </b></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z i"><i>Comunidade indígena do Jaraguá libera engenheiros após chegada da Defesa Civil para avaliação de escola com rachaduras </i></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z url"><a href="https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2021/03/10/comunidade-indigena-do-jaragua-impede-saida-de-engenheiros-do-local-ate-que-haja-solucao-sobre-escola-com-rachaduras.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2021/03/10/comunidade-indigena-do-jaragua-impede-saida-de-engenheiros-do-local-ate-que-haja-solucao-sobre-escola-com-rachaduras.ghtml</a></span></div>
<div id="magicdomid37" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[3]</b></span> <span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z i"><i>Rede estadual de ensino de SP tem mais professores temporários do que contratados </i></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z url"><a href="https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2024/04/25/rede-estadual-de-ensino-de-sp-tem-mais-professores-temporarios-do-que-contratados.ghtml#" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2024/04/25/rede-estadual-de-ensino-de-sp-tem-mais-professores-temporarios-do-que-contratados.ghtml#</a></span></div>
<div id="magicdomid38" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[4]</b></span> <span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z i"><i>Rede estadual de SP deixa cerca de 40 mil professores sem aulas; sindicato denuncia precarização</i></span></div>
<div id="magicdomid39" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z url"><a href="https://www.brasildefato.com.br/2026/02/06/cerca-de-40-mil-professores-da-rede-estadual-de-sao-paulo-ficam-sem-aulas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://www.brasildefato.com.br/2026/02/06/cerca-de-40-mil-professores-da-rede-estadual-de-sao-paulo-ficam-sem-aulas/</a></span></div>
<div id="magicdomid40" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[5] </b><a href="https://www.instagram.com/p/DXCZ_lNjrzP/?igsh=MWJwczZqcWxwZTd0MA==" target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/p/DXCZ_lNjrzP/?igsh=MWJwczZqcWxwZTd0MA==</a></span></div>
<div class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z i"><i><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[6]</b></span> Professores Contra o Estado </i></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z url"><a href="https://www.instagram.com/profs_x_estado/" rel="noreferrer noopener">https://www.instagram.com/profs_x_estado/</a></span></div>
<div id="magicdomid41" class="ace-line" style="text-align: justify;" aria-live="assertive"><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z b"><b>[7] </b></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z i"><i>Encontro Autônomo de Trabalhadores da Educação  </i></span><span class="author-a-bz73zz86z51z77zz67z4z79z53z73zz67zkz69zz84z url"><a href="https://passapalavra.info/2025/10/157816/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://passapalavra.info/2025/10/157816/</a></span></div>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/04/159036/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Intelectual dissidente: Quem é o intelectual hoje?</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/04/158969/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/04/158969/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Apr 2026 12:55:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158969</guid>

					<description><![CDATA[Se houve um tempo em que o intelectual se imaginava à frente dos outros, esse tempo já não é o de hoje. Por Rafael Leopoldo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por  Rafael Leopoldo</h3>
<p style="text-align: justify;">Para localizarmos o intelectual hoje, creio que seja necessário dar um passo atrás e pensar qual era a função do intelectual. Para isso, a melhor materialidade para pensar o papel do intelectual talvez sejam os manifestos políticos, porque é por meio deles que se configura a principal imagem que temos do intelectual. Claro que a referência imediata é Karl Marx e Friedrich Engels, com o Manifesto Comunista.</p>
<p style="text-align: justify;">Gostaria, porém, de evocar os manifestos em geral, e não apenas o Manifesto Comunista, que nos interessa, sobretudo, por ter o mérito de criar um novo gênero literário. Separo cinco características dos manifestos: 1) coletividade; 2) teatralidade; 3) performatividade; 4) conteúdo programático; e, por último, 5) futuridade, correlata ao utopismo. Devido a essas características, é possível entender por que movimentos minoritários, movimentos artísticos de ruptura e intelectuais contemporâneos têm predileção pelo gênero manifesto.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158973" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/mastros-e-bandeiras-alfredo-volpi-3590874437.jpg" alt="" width="880" height="626" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/mastros-e-bandeiras-alfredo-volpi-3590874437.jpg 880w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/mastros-e-bandeiras-alfredo-volpi-3590874437-300x213.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/mastros-e-bandeiras-alfredo-volpi-3590874437-768x546.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/mastros-e-bandeiras-alfredo-volpi-3590874437-590x420.jpg 590w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/mastros-e-bandeiras-alfredo-volpi-3590874437-640x455.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/mastros-e-bandeiras-alfredo-volpi-3590874437-681x484.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 880px) 100vw, 880px" />No primeiro elemento, a coletividade, temos que, mesmo quando o manifesto é escrito por uma única pessoa, ele evoca uma massa, uma multidão ou um comum. Um dado importante do Manifesto Comunista é que ele foi publicado inicialmente sem autoria, posto que expressa o ponto de vista de um coletivo: o proletariado. O Manifesto Comunista surge como um texto anônimo e apenas posteriormente ganha a autoria dos pensadores alemães.</p>
<p style="text-align: justify;">No segundo elemento, a teatralidade, encontramos uma dimensão teatral calculada, a falta de poder da posição do manifesto é compensada por meio de exageros teatrais. A autoridade do manifesto seria, assim, simulada, e não fundada numa autoridade real. No Manifesto Comunista há a vontade de substituir o espectro do comunismo pela manifestação real do comunismo. A partir desses elementos, é possível compreender que, de maneira geral, o manifesto é uma ferramenta do fraco e que, em sua teatralidade, há a possibilidade de um reposicionamento nos regimes de poder.</p>
<p style="text-align: justify;">No terceiro elemento, a performatividade, há uma relação complexa entre teatralidade e pragmática da linguagem. Na teoria dos atos de fala desenvolvida, principalmente, na filosofia da linguagem, abandona-se um entendimento naturalista, convencionalista ou ainda mentalista e ideacional da linguagem em favor de uma concepção performativa. Ao refletirmos sobre a pragmática da linguagem, um dos dados fundamentais é que quando ela é usada em um sentido performativo, não descrevemos simplesmente o real, mas o constituímos. A linguagem performativa é usada para realizar (<em>to perform</em>) algo. A fala performativa é complexa nos manifestos, já que o manifesto não teria, de antemão, a autoridade performativa da sua própria fala. Cria-se na coletividade, na teatralidade e no conteúdo programático do manifesto, uma dimensão futura na qual essa fala, inicialmente sem autoridade, adquire a força de se constituir.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158971" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/OIP-2677495847.jpg" alt="" width="474" height="295" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/OIP-2677495847.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/OIP-2677495847-300x187.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" />No quarto elemento &#8211; o conteúdo programático &#8211; e no elemento quinto &#8211; a utopia &#8211; encontro um entrelaçamento no manifesto que mostra o seu lado propositivo. O manifesto é mais construtivo do que destrutivo. Um dos aspectos dessa proposição é o texto programático do manifesto, que corresponde a uma exposição clara, muitas vezes em tópicos, da produção de uma voz política, de uma composição social e da constituição de uma relação de poder. A composição desse novo é exatamente o não-lugar almejado pelos discursos utopistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Postas essas cinco características, gostaria de propor uma distinção entre os manifestos clássicos e os manifestos dissidentes. Essa distinção evoca também a diferença entre os intelectuais em geral e o intelectual dissidente. Ora, creio que esse ponto de diferença resida na relação com a ideia de vanguarda, posto que vários manifestos políticos e artísticos se associaram à noção de vanguardear os outros. O termo remonta ao vocabulário militar francês, avant-garde. Em sua acepção militar, refere-se a um pequeno grupo de escolta que faz o reconhecimento de um local. A vanguarda se torna uma metáfora para designar aqueles que estão à frente, isto é, na vanguarda da maioria dos seus contemporâneos, que, por sua vez, estariam atrás, na retaguarda.</p>
<p style="text-align: justify;">Enfatizar a metáfora militar traz à baila toda a problemática do imaginário militar: a misoginia; a disciplina monástica; o conformismo; a servidão; a violência e, em última instância, a guerra. O manifesto, em sua fase mais tétrica, no fascismo de Marinetti, no Manifesto Futurista, afirma em seu conteúdo programático o seguinte: “Nós queremos glorificar a guerra &#8211; a única higiene do mundo &#8211; o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, a bela ideia pela qual se morre e o desprezo pelas mulheres”. Portanto, os manifestos dissidentes parecem criticar precisamente a característica específica de vanguardista da ação revolucionária, seja ela política ou artística.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158972" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/OIP-2822577435.jpg" alt="" width="474" height="314" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/OIP-2822577435.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/OIP-2822577435-300x199.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" />O surgimento dos manifestos e das utopias dissidentes acompanha o despontar do que é o intelectual hoje. Quando Michel Foucault, numa entrevista feita por Alexandre Fontana, publicada na revista francesa L&#8217;Arc, em 1977, é indagado sobre qual seria o papel do intelectual na atualidade, ele responde elaborando uma hipótese que propõe a distinção entre o intelectual universal e o intelectual específico. Com isso, têm-se duas posições interessantes, mas nenhuma delas corresponde ao que se faz hoje no campo das dissidências.</p>
<p style="text-align: justify;">O que me interessa, primeiramente, nessa diferença é que Foucault assinala o marxismo como um indicador para a ação revolucionária e para a constituição de um modus operandi do intelectual universal. Portanto, é forçoso compreender o Manifesto Comunista como referência constitutiva do intelectual universal. A principal crítica que Foucault dirige ao intelectual universal, em sua relação com o marxismo, diz respeito a um imaginário militar vanguardista, no qual o partido se compreende como a parte mais avançada, a responsável por impulsionar o restante. Esse saber do partido é o que libertaria a classe operária e a massa popular da sua suposta falta de saber.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante dessa relação entre o partido e a massa, tem-se o efeito negativo de impedir a possibilidade de escuta da multiplicidade de vozes dissonantes. Tem-se, igualmente, o efeito negativo de impedir a compreensão da multiplicidade de corpos e experiências. Para Foucault, o partido ou o intelectual não teria que formar a consciência operária, posto que ela já existe. Tratar-se-ia, antes, de ajudar a difundi-la. Esta é uma das diferenças entre o intelectual universal, o intelectual específico e o intelectual dissidente.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">O intelectual universal, desenvolvido entre os séculos XIX e XX, deriva da figura do homem da justiça. O intelectual específico se elabora a partir da Segunda Guerra Mundial, com a figura do especialista notável. O intelectual universal tem como modelo o marxismo e a vanguarda. O intelectual específico é representado pelo cientista, isto é, pelo particular. O intelectual universal tem como exemplo paradigmático o escritor. O intelectual específico nos apresenta o físico atômico. O intelectual universal tem como modelo de luta o partido, a ação revolucionária. O intelectual específico está envolvido em lutas imediatas. Não obstante, parece-me que a dimensão do intelectual específico nunca foi o bastante para descrever totalmente o intelectual daquela época; além disso, essa descrição se torna falha para o entendimento do intelectual de hoje.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158970" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/alfredo-volpi-bandeirinhas-e-mastro-gravura-27115-2876848597.jpg" alt="" width="1500" height="1102" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/alfredo-volpi-bandeirinhas-e-mastro-gravura-27115-2876848597.jpg 1500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/alfredo-volpi-bandeirinhas-e-mastro-gravura-27115-2876848597-300x220.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/alfredo-volpi-bandeirinhas-e-mastro-gravura-27115-2876848597-1024x752.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/alfredo-volpi-bandeirinhas-e-mastro-gravura-27115-2876848597-768x564.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/alfredo-volpi-bandeirinhas-e-mastro-gravura-27115-2876848597-572x420.jpg 572w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/alfredo-volpi-bandeirinhas-e-mastro-gravura-27115-2876848597-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/alfredo-volpi-bandeirinhas-e-mastro-gravura-27115-2876848597-640x470.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/alfredo-volpi-bandeirinhas-e-mastro-gravura-27115-2876848597-681x500.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px" />O intelectual dissidente não carrega o modelo da consciência universal e nem representa o especialista do particular, mas está envolto nas configurações do social. Ele não tem como modelo o escritor genial que proclama o universal, nem o especialista notável, mas aquele que produz os processos capilares de resistência. Tal personagem não está preocupado com o jogo de uma verdade universalmente válida, nem se limita a atuar na luta no nível de uma reconfiguração do regime de verdade científico, mas o jogo da verdade parece ser produzido em outro lugar, às vezes, na própria experiência dos sujeitos, nos seus próprios corpos.</p>
<p style="text-align: justify;">Se considerarmos que o intelectual dissidente não está nos debates apenas por meio das ferramentas tecnológicas dos cientistas, um dos seus elementos é um afastamento do discurso científico moderno em prol de outras epistemologias, mais situadas e híbridas. Ele se elabora ao produzir fortes críticas à formação heteronômica do sujeito. Assim, se o sujeito era subjetivado pelo discurso científico, por meio de saberes específicos da medicina, da criminologia e da pedagogia, o intelectual dissidente primeiro critica toda a tecnologia de produção de sujeitos que se dá via discurso científico. Nesse sentido, uma de suas principais características é uma política da nominação: a passagem de um regime de classificação científica para um regime de classificação dissidente, com suas autonominações, heteronominações e transnominações.</p>
<p style="text-align: justify;">No âmbito da sexualidade, observa-se que o saber da medicina compõe tanto a norma, a heterossexualidade, quanto o desvio, a homossexualidade, a bissexualidade e a transexualidade. Na atualidade, tem-se cada vez mais processos de autonominação. Parece-nos que outras construções são produzidas nas resistências e no laço social, como as nomeações “gay”, “não-binário”, “trans” e “queer”. Não são nomeações médicas, mas autonominações criadas e negociadas no corpo do social. Não obstante, temos também heteronominações como, por exemplo, a palavra “cisgênero” e os estudos sobre a branquitude. Não se trata de nomear a si mesmo, mas, além disso, de nomear o outro. Por fim, pensando as transnominações, nominações híbridas, que transitam entre regimes, temos, por exemplo, a passagem do autismo para a noção de neurodivergente, um conceito híbrido entre o regime científico (neurologia) e o regime dissidente, que busca uma representação não patológica.</p>
<p style="text-align: justify;">Se houve um tempo em que o intelectual se imaginava à frente dos outros, como consciência esclarecida da história e baluarte do universal, esse tempo já não é o de hoje. O intelectual dissidente não se autoriza pela vanguarda nem pelo privilégio de um saber supostamente superior. Ele emerge onde os sujeitos resistem, nomeiam a si mesmos, deslocam classificações e inventam as condições de uma existência. Essa existência amplia, de forma muito decisiva, a vida de tantas outras existências.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Rafael Leopoldo é psicanalista e filósofo. Doutor em Filosofia pela UFOP. E-mail: ralasfer@gmail.com</em></p>
<p><em>As imagens que ilustram esse artigo são reproduções de obras de Alfredo Volpi.</em></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/04/158969/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>MBL: a máquina fascista jovem</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/04/158942/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/04/158942/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Apr 2026 13:21:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158942</guid>

					<description><![CDATA[O MBL transformou a rebeldia em conformismo, o descontentamento em ódio regressivo, a juventude em tropa de choque da ordem.  Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Arthur Moura</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">O Movimento Brasil Livre (MBL) emergiu no cenário político brasileiro como uma das expressões mais acabadas da reorganização da direita em tempos de crise estrutural do capital. Sua aparição pública em meados de 2014, no contexto do desgaste do governo Dilma Rousseff e da crise econômica que atingia o país, não pode ser compreendida como um fenômeno isolado ou meramente espontâneo. O MBL é resultado de um longo processo histórico que combina, de um lado, o avanço do neoliberalismo e de seus aparelhos de difusão ideológica e, de outro, o refluxo das lutas populares e a cooptação progressista que esvaziou as possibilidades de transformação radical. Na aparência, o MBL se apresenta como um movimento juvenil, irreverente, liberal em costumes e crítico da “velha política”. Essa superfície, porém, encobre sua essência: um projeto político reacionário, alinhado internacionalmente a redes de <em>think tanks</em> ultraliberais, financiado por empresários e estrategicamente formatado para ocupar as lacunas deixadas pela falência do progressismo conciliador. A linguagem do meme, a estética pop, o tom debochado e a retórica da eficiência foram armas eficazes para atrair a juventude e setores médios descontentes, convertendo indignação difusa em ódio direcionado contra trabalhadores, movimentos sociais e qualquer crítica à ordem capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se, portanto, de um aparelho de hegemonia de classe. O MBL não é apenas um agrupamento de jovens políticos em busca de visibilidade, mas parte de uma engrenagem ideológica maior, que envolve a burguesia interna, setores do imperialismo, redes de comunicação corporativa e plataformas digitais transnacionais. Sua função é canalizar o ressentimento social contra a esquerda, transformar precariedade em adesão servil ao liberalismo e, em última instância, naturalizar o fascismo como resposta política legítima. O presente texto parte da convicção de que compreender o MBL exige ir além da sua autoimagem publicitária e das análises superficiais que o tratam como mero “grupo de garotos ambiciosos”. Ele deve ser situado na totalidade histórica da luta de classes no Brasil, na dinâmica da dependência latino-americana e no ciclo recente de contrarrevoluções preventivas. Somente assim é possível demonstrar por que o MBL não é um fenômeno democrático, mas sim a expressão juvenil e midiática de uma direita fascistizante que se alimenta da crise e atua como ponta de lança para conter qualquer possibilidade de organização popular.</p>
<p style="text-align: justify;">O texto seguirá a seguinte linha: primeiro, reconstituiremos a gênese do movimento, seus fundadores, influências e contexto imediato. Em seguida, analisaremos seu desenvolvimento, financiamento e aparato comunicacional; depois pensaremos a sua linha teórica e ideológica, revelando como se articula entre liberalismo econômico e conservadorismo moral. Discutiremos também a questão central: por que o MBL é fascista? E, por fim, discutiremos seu papel atual, suas disputas internas, seu reposicionamento no pós-bolsonarismo e os caminhos da luta revolucionária contra esse inimigo de classe. Assim, o objetivo não é apenas produzir uma narrativa histórica sobre o MBL, mas também situá-lo como fenômeno típico da fase atual do capitalismo dependente brasileiro: uma fase em que o neoliberalismo e o fascismo se entrelaçam, e em que a direita busca travestir-se de novidade juvenil enquanto carrega consigo todo o peso reacionário da tradição burguesa. A denúncia teórica e política do MBL é parte indissociável da luta contra o fascismo e contra o capital.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158947" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/images.jpg" alt="" width="244" height="207" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>IPES, IBAD e a tradição anticomunista no Brasil</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Brasil possui uma longa tradição de aparelhos ideológicos e financeiros destinados a conter a mobilização popular e difundir o anticomunismo, especialmente a partir das décadas de 1950 e 1960. O cenário em que se formam os principais aparelhos ideológicos da direita brasileira (como o IPES e o IBAD) deve ser compreendido à luz da ordem internacional do pós-Segunda Guerra Mundial, quando a divisão do planeta em duas grandes esferas de influência, lideradas pelos Estados Unidos e pela União Soviética, impôs uma dinâmica global marcada pela disputa ideológica e geopolítica da Guerra Fria. A derrota do nazifascismo não significou o triunfo da emancipação popular, mas sim a reorganização do capitalismo sob a hegemonia norte-americana, que emergiu da guerra com a maior força militar, econômica e política do mundo. O Plano Marshall, a criação da OTAN e a consolidação do macartismo no interior dos EUA foram expressões dessa nova hegemonia imperialista que buscava conter a expansão do socialismo. Do outro lado, a União Soviética, responsável pelo esmagamento da máquina nazista no front oriental, consolidava sua influência no Leste Europeu e projetava internacionalmente o prestígio da Revolução de Outubro, tornando-se referência para milhões de trabalhadores e movimentos de libertação em todo o mundo. Essa bipolaridade produziu uma onda de antagonismos estruturais: para Washington, era necessário conter qualquer experiência reformista ou revolucionária no Sul global, pois cada avanço do socialismo era lido como ameaça à ordem burguesa mundial. O Brasil, país de capitalismo dependente e estratégico no continente latino-americano, foi incorporado nesse tabuleiro como área de influência norte-americana, recebendo vultosos investimentos financeiros e logísticos destinados a fortalecer o antagonismo anticomunista, neutralizar movimentos populares e organizar elites empresariais e militares para o enfrentamento contra a esquerda. Esse é o contexto em que se deve compreender o nascimento dos aparelhos como IPES e IBAD: expressões locais de uma guerra global, onde o capital internacional se valeu da burguesia interna para implementar sua estratégia de dominação.</p>
<p style="text-align: justify;">A Aliança para o Progresso, lançada por John F. Kennedy em 1961, constituiu-se como um dos mais sofisticados instrumentos da política imperialista norte-americana no continente, articulando “ajuda econômica” e “cooperação técnica” como formas de legitimar a penetração do capital estadunidense e ao mesmo tempo conter a expansão socialista após a Revolução Cubana. Sua função essencial era dupla: de um lado, difundir a propaganda anticomunista apresentando o capitalismo liberal como sinônimo de modernização e desenvolvimento; de outro, articular-se com as elites locais e seus aparelhos privados de hegemonia para estruturar um verdadeiro cinturão de contenção contra a radicalização política das massas. No Brasil, a Aliança encontrou terreno fértil nas articulações empresariais e militares que deram origem ao IPES e ao IBAD, funcionando como fornecedora de recursos, legitimidade e diretrizes estratégicas para uma guerra ideológica que não se limitava à disputa eleitoral, mas visava abertamente criar as condições subjetivas e objetivas para a derrubada do governo João Goulart. Essa engrenagem conjugou investimentos em projetos vitrine, cooptação de lideranças reformistas, financiamento de campanhas conservadoras e uma sistemática propaganda anticomunista difundida pela grande imprensa, compondo um ecossistema contrarrevolucionário que culminou no golpe civil-militar de 1964. Em síntese, a Aliança para o Progresso, em articulação com o IPES e o IBAD, demonstrou que o imperialismo estadunidense não operava apenas pela força bruta, mas pela construção paciente de uma hegemonia ideológica que travestia sua ofensiva de modernização democrática, quando na verdade preparava o terreno para a violência reacionária e a supressão da soberania popular.</p>
<p style="text-align: justify;">O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) constituem dois exemplos fundamentais dessa estrutura de poder. Criados com apoio direto do empresariado nacional e em estreita ligação com interesses norte-americanos, ambos cumpriram papel central na preparação política, cultural e midiática que culminou no golpe de 1964. O IPES, fundado em 1961, organizava cursos, palestras, filmes, cartilhas e eventos para disseminar a ideologia anticomunista. Reunia empresários, banqueiros, militares e intelectuais conservadores que viam nas reformas de base de João Goulart uma ameaça à propriedade privada e à ordem social. Sua função era clara: moldar a opinião pública, formar quadros e infiltrar o discurso liberal-conservador em sindicatos, escolas, universidades e na imprensa. Não se tratava apenas de um “centro de pesquisa”, mas de um verdadeiro think tank avant, antecipando as formas de atuação que, décadas depois, seriam retomadas por instituições como o Instituto Millenium e, mais recentemente, pelo MBL.</p>
<p style="text-align: justify;">Já o IBAD, criado em 1959 por Ivan Hasslocher, cumpria uma função ainda mais explícita: financiar campanhas eleitorais de candidatos conservadores e anticomunistas. Recebia recursos de empresas nacionais e estrangeiras, com forte suspeita de repasses oriundos de organismos ligados aos Estados Unidos, no contexto da Guerra Fria. Em 1962, o IBAD atuou de forma massiva nas eleições, canalizando milhões de cruzeiros para parlamentares comprometidos com o combate às reformas sociais. O escândalo foi tão grande que uma CPI revelou parte do esquema, mas o instituto foi fechado apenas formalmente: suas redes de financiamento e articulação permaneceram ativas e se integraram ao bloco que derrubaria Jango em 1964.</p>
<p style="text-align: justify;">João Goulart, o Jango, deve ser compreendido dentro da tradição do varguismo que moldou a política brasileira no século XX. Herdeiro direto da linha trabalhista, Jango se consolidou como figura de transição entre a herança populista de Vargas e as demandas emergentes de uma classe trabalhadora urbana e, sobretudo, rural, cada vez mais organizada e disposta a reivindicar direitos. Embora fosse, em essência, um liberal reformista que acreditava na conciliação de classes e na possibilidade de modernizar o capitalismo brasileiro sem romper com suas bases estruturais, Jango incorporou pautas que soavam perigosas para a elite agrária e industrial. As Reformas de Base (especialmente a reforma agrária, pensada para redistribuir terras improdutivas e reduzir a secular marginalização do campesinato), representavam um ponto de inflexão em uma sociedade marcada pela concentração fundiária e pela dependência externa. O fato de o Estado se voltar, ainda que de maneira tímida, para os trabalhadores rurais, historicamente abandonados pelo poder público e submetidos a formas quase feudais de exploração, acendeu o alarme nas classes dominantes. Jango, ao tentar mediar os interesses populares com a manutenção da ordem burguesa, terminou por ser acusado de comunista, o que serviu de álibi perfeito para a ofensiva da direita, articulada com o imperialismo estadunidense e financiada por organismos como o IBAD e o IPES. Assim, sua figura revela a contradição do reformismo no Brasil: ao mesmo tempo em que prometia modernização e justiça social, acabou servindo como estopim para a reação golpista que consolidaria o projeto de dominação burguesa e militar a partir de 1964.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158946" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/15501672855c65acf5bbb5f_1550167285_3x2_md.jpg" alt="" width="512" height="768" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/15501672855c65acf5bbb5f_1550167285_3x2_md.jpg 512w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/15501672855c65acf5bbb5f_1550167285_3x2_md-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/15501672855c65acf5bbb5f_1550167285_3x2_md-280x420.jpg 280w" sizes="auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista ideológico, o IPES e o IBAD buscavam construir uma visão de mundo: o comunismo seria uma ameaça existencial, a luta de classes uma invenção estrangeira, e a defesa da ordem e da família os pilares da nação. Esse discurso foi introjetado no imaginário social através da mídia, da escola e das igrejas, sedimentando um anticomunismo difuso que perdura até hoje. Se o MBL atual mobiliza memes e redes sociais, os institutos dos anos 1960 recorriam a filmes, radionovelas e manuais escolares, mas a função era a mesma: neutralizar a consciência crítica e legitimar a repressão. É preciso destacar também a dimensão de classe dessa ofensiva. O IPES e o IBAD eram sustentados pelos grandes empresários nacionais, ligados ao capital estrangeiro, que temiam as reformas trabalhistas, a reforma agrária e o controle do capital externo. Não se tratava de uma “guerra de ideias” abstrata, mas da defesa intransigente de privilégios materiais. A burguesia brasileira, historicamente associada ao imperialismo, sempre tratou qualquer possibilidade de transformação social como uma ameaça a ser eliminada. Os institutos funcionavam como correias de transmissão dessa estratégia, convertendo a luta econômica em guerra ideológica.</p>
<p style="text-align: justify;">A herança dessa experiência é visível nas décadas seguintes. Durante a ditadura, muitos quadros formados no IPES e no IBAD ocuparam cargos de Estado e seguiram articulando a política econômica em sintonia com o receituário neoliberal que viria a florescer nos anos 1980 e 1990. O desmonte da soberania nacional, as privatizações e a precarização do trabalho são desdobramentos de uma longa preparação intelectual, financeira e política. Quando olhamos para o MBL, percebemos a continuidade dessa tradição. A diferença é o meio: se antes eram cartilhas e palestras, hoje são vídeos virais e podcasts; se antes a palavra de ordem era “anticomunismo” em nome da ordem e da família, agora é “empreendedorismo” em nome da liberdade e do mercado. Mas a função é idêntica: servir como frente ideológica e cultural de uma burguesia em crise, mobilizando setores médios e juventude contra qualquer perspectiva emancipatória.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, o estudo do IPES e do IBAD nos revela que o MBL não é novidade nem exceção. É a versão 2.0 de uma máquina antiga, atualizada para a era digital, mas fiel à mesma lógica: conter a luta de classes, difundir o medo do comunismo, legitimar a repressão e garantir os lucros da burguesia. Entender essa genealogia é essencial para que não nos enganemos com a “espontaneidade” aparente de novos movimentos. Toda vez que a ordem capitalista é ameaçada, surgem aparelhos de propaganda e mobilização financiados pelo grande capital, disfarçados de juventude, de modernidade ou de inovação, mas sempre a serviço da dominação.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A gênese do MBL</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Movimento Brasil Livre (MBL) deve ser entendido como parte de um processo mais amplo de reorganização da direita brasileira em sintonia com o avanço internacional das redes ultraliberais e com a ofensiva do capital contra o trabalho na esteira da crise global de 2008. O MBL surge como o rosto jovem e midiático de um projeto de poder muito mais antigo: a tentativa da burguesia de recompor sua hegemonia diante do desgaste do progressismo, da crise do lulismo e da incapacidade das organizações populares de oferecer uma alternativa revolucionária. A gênese do MBL está diretamente vinculada ao esgotamento do pacto lulista. Durante os anos 2000, o crescimento econômico baseado no boom das commodities, somado a políticas sociais compensatórias, permitiu ao governo petista conciliar interesses de frações da burguesia e das classes trabalhadoras. Mas tal arranjo não poderia durar indefinidamente. A crise de 2008 expôs os limites do modelo, provocando desaceleração econômica, inflação e aumento do desemprego. Ao mesmo tempo, a manutenção de privilégios ao grande capital (isenções fiscais, juros elevados, exportações primarizadas) escancarava o caráter burguês do governo do PT.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, abriu-se um vácuo político. A esquerda institucional, comprometida com a conciliação, não possuía mais credibilidade para mobilizar a base popular. As forças revolucionárias, fragilizadas, não conseguiram apresentar alternativas organizadas. O cenário estava maduro para que a direita reorganizasse seu discurso, mobilizando o ressentimento social em direção a uma agenda regressiva. Foi nesse terreno fértil que o MBL germinou.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158945" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408.jpg" alt="" width="1920" height="1197" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-300x187.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-1024x638.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-768x479.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-1536x958.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-674x420.jpg 674w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-640x399.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-681x425.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As figuras do MBL: biografias como propaganda da burguesia</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Desde o início, o movimento apostou na construção de figuras públicas transformadas em mercadorias políticas, cada qual encarnando uma função específica dentro da engrenagem ideológica da burguesia. O rosto humano do MBL é, na verdade, a manipulação calculada de biografias individuais transformadas em mitos: o jovem prodígio, o estrategista de bastidor, o outsider debochado, o representante das minorias convertido em reacionário. A burguesia, ao longo da história, sempre precisou de personagens que servissem como simulacros de autenticidade para ocultar os interesses do capital. No caso do MBL, essa lógica se repete com precisão cirúrgica.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Kim Kataguiri: o “gênio liberal” de fachada</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Kim Kataguiri foi vendido como um milagre da juventude política brasileira: um rapaz de ascendência japonesa, oriundo de classe média, que supostamente teria se “indignado” contra a corrupção e encontrado no liberalismo econômico a saída para os males do país. A mídia corporativa apressou-se em transformá-lo em celebridade, convidando-o para entrevistas, documentários e reportagens laudatórias. Kim tornou-se um personagem perfeito para a narrativa de que o Brasil precisava de “novos líderes” para além da polarização PT-PSDB. Mas, sob a capa da juventude e do frescor, esconde-se o velho programa da burguesia: destruição de direitos sociais, alinhamento automático ao imperialismo, criminalização da luta de classes. Sua ascensão meteórica é prova de que não se tratava de talento individual, mas de engenharia social financiada por think tanks, empresários e redes internacionais de ultraliberalismo. Kim encarna o fantasma do empreendedorismo político, figura moldada para atrair jovens despolitizados e convencê-los de que o problema do Brasil são os sindicatos, os movimentos sociais e os pobres que “dependem do Estado”. O mito do “jovem prodígio” é, na verdade, o verniz cultural de uma política de ódio de classe.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Renan Santos: o capitalista do bastidor</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Se Kim é o rosto sorridente para as câmeras, Renan Santos é o cérebro cínico do negócio. Empresário, articulador de redes e financiamentos, Renan operou desde o início como cafetão político: explorando a energia juvenil e transformando-a em mercadoria eleitoral e em influência negociável com a direita tradicional. A função de Renan foi estruturar o MBL como máquina de poder e negócio, articulando parcerias com empresários, garantindo a propaganda massiva nas redes e coordenando as ações de rua.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua biografia não é a da “indignação”, mas a da gestão empresarial da política, em sintonia com a lógica neoliberal que transforma tudo (até mesmo a rebeldia) em produto. Renan Santos representa a camada da burguesia que prefere atuar nos bastidores, sem se expor diretamente, mas que colhe os frutos do trabalho de massas de jovens manipulados e instrumentalizados. Sua prática comprova que o MBL nunca foi um movimento popular, mas uma empresa política travestida de movimento social.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Arthur do Val (Mamãe Falei): a caricatura do ódio de classe</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Arthur do Val, o famigerado “Mamãe Falei”, representa o pior lado do fascismo sem uniforme: a grosseria convertida em virtude, a truculência erigida em autenticidade. Oriundo do YouTube, Arthur foi fabricado como personagem debochado, aquele que insulta professores, feministas, militantes de esquerda e trabalhadores em manifestações. Seu papel foi o de traduzir em linguagem vulgar e agressiva aquilo que Renan articulava e Kim revestia de suposta racionalidade. Arthur do Val tornou-se um bufão a serviço da burguesia, especializado em criar polêmicas e arrastar a juventude despolitizada para o campo da direita por meio da estética do escárnio. Sua carreira política acabou em escândalo após a divulgação de áudios misóginos durante viagem à Ucrânia, mas esse episódio não é acidente: é a comprovação de sua essência reacionária. Arthur não foi vítima de si mesmo, foi apenas fiel ao que sempre foi: um misógino, fascista e serviçal da ordem capitalista. Sua queda expõe os limites da política do espetáculo, mas também mostra como o MBL sempre soube explorar figuras descartáveis para manter sua máquina funcionando.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158943" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1.jpg" alt="" width="715" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1.jpg 715w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1-300x168.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1-640x358.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1-681x381.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 715px) 100vw, 715px" />Fernando Holiday: a farsa da diversidade reacionária</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Fernando Holiday é, talvez, a peça mais cínica do tabuleiro do MBL. Negro, homossexual, jovem, filho de empregada doméstica, Holiday foi erguido como prova viva de que não existe racismo estrutural no Brasil e de que o liberalismo seria o caminho da “superação individual”. Sua trajetória foi convertida em panfleto vivo contra as lutas antirracistas, contra o movimento negro e contra o feminismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Holiday demonstra a crueldade da ideologia burguesa: transformar a exceção em regra, o indivíduo em justificativa para negar a opressão coletiva. Sua função foi legitimar, com sua presença, um projeto estruturalmente racista, elitista e excludente. Nada mais útil ao fascismo de mercado do que colocar um jovem negro para dizer que cotas raciais são um erro, que o movimento negro é vitimismo e que a polícia genocida está apenas cumprindo seu papel. Fernando Holiday é a expressão encarnada da servidão voluntária, alguém que renega suas próprias origens para servir de escudo ideológico à classe dominante.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Guto Zacarias, Ricardo Almeida e Matheus Faustino: os quadros auxiliares</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Ao lado dessas figuras centrais, o MBL abrigou outros militantes e dirigentes como Guto Zacarias, Ricardo Almeida e Matheus Faustino, que tiveram papéis secundários, mas estratégicos. Eles funcionaram como corpo de sustentação, multiplicando a presença do MBL em diferentes regiões, reforçando a narrativa de pluralidade e garantindo a expansão da máquina midiática. Sua função nunca foi individual, mas coletiva: eram peças intercambiáveis de uma engrenagem maior. Ao contrário de Kim, Renan, Arthur e Holiday, que viraram celebridades, esses quadros operaram como soldados políticos na guerra cultural da direita. A burguesia sabe muito bem: para cada rosto público, é preciso uma massa de quadros invisíveis, dispostos a organizar, difundir e reproduzir a ideologia dominante. O MBL provou que, no capitalismo contemporâneo, biografias são armas políticas. Cada um de seus integrantes foi moldado para representar uma faceta do projeto burguês: o prodígio, o empresário, o bufão, a exceção racial e os quadros auxiliares. Nenhum deles existe como sujeito político autêntico; todos são funções de uma engrenagem maior, cujo objetivo é consolidar o fascismo de mercado no Brasil. A crítica marxista deve deixar claro: não se trata de julgar moralmente os indivíduos, mas de revelar como suas vidas foram instrumentalizadas para legitimar o capital, criminalizar a classe trabalhadora e pavimentar o caminho da extrema-direita. A tarefa histórica não é apenas denunciar essas figuras, mas desmascarar a estrutura de poder que as produziu, porque enquanto houver capitalismo, haverá sempre novos “Kims”, “Renans”, “Arthurs” e “Holidays” prontos para assumir o palco do espetáculo burguês.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Financiamento e conexões internacionais da extrema-direita</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Um dos aspectos centrais para compreender a gênese do Movimento Brasil Livre (MBL) é o seu financiamento e a forma como se insere em uma rede internacional de organizações ultraliberais e de extrema-direita. A versão oficial, que apresenta o grupo como fruto de uma juventude “autônoma” e “espontânea” mobilizada por doações individuais ou vaquinhas virtuais, é parte da própria operação ideológica que visa encobrir seus laços com setores empresariais e redes de poder muito mais amplas. Desde sua fundação, o MBL contou com apoio direto e indireto de empresários do agronegócio, do setor financeiro e de grupos industriais, que viam na sua atuação uma frente útil para desgastar o governo petista e conter qualquer tentativa de reformas sociais mais profundas. Mas o núcleo da engrenagem está nas conexões internacionais. O MBL foi moldado por uma teia continental que remete à Atlas Network, rede de think tanks ultraliberais criada nos Estados Unidos e financiada por magnatas como os irmãos Koch. Essa rede funciona como uma espécie de incubadora de organizações da direita em todo o continente, fornecendo recursos, treinamento, suporte jurídico e, sobretudo, know-how em comunicação digital e marketing político. É desse laboratório que emergiram não apenas o MBL no Brasil, mas também grupos semelhantes na Argentina, Chile, Venezuela, Colômbia e outros países, todos com o mesmo perfil: jovens de classe média alta, discurso liberalizante e antiesquerdista, estética “moderna” e capacidade de ocupar o espaço digital com agressividade.</p>
<p style="text-align: justify;">A extrema-direita latino-americana, ao longo do século XX, sempre contou com o apoio de setores empresariais locais e de redes internacionais. No Chile, por exemplo, durante os anos 1960 e início dos 1970, setores católicos conservadores organizados em torno da Democracia Cristã e depois do próprio Pinochet foram financiados por canais ligados aos EUA, via CIA e fundações “educativas”, como parte da preparação para o golpe de 1973. Na Argentina, organizações civis e paramilitares de ultradireita também receberam recursos e treinamento de instâncias norte-americanas, articulando-se ao empresariado local contra qualquer tentativa de redistribuição. No Brasil, desde a criação do IBAD nos anos 1950 e do IPES nos anos 1960, já se verificava a infiltração direta de recursos empresariais e internacionais na organização da ofensiva conservadora que culminaria no golpe de 1964. A novidade do MBL não está, portanto, na dependência de financiamento externo, mas na forma como essa dependência se traduziu numa estética juvenil e numa comunicação digital afinada com a lógica das redes sociais do século XXI. O movimento funcionava como uma franquia de um projeto maior, cuja matriz está na reorganização global da direita diante da crise estrutural do capitalismo e do esgotamento do progressismo latino-americano. Essa ofensiva, que atravessa a década de 2010, visava aproveitar o desgaste de governos como os de Dilma Rousseff, Cristina Kirchner e Rafael Correa para promover uma guinada neoliberal e antipopular.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158944" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml.jpg" alt="" width="735" height="1110" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml.jpg 735w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-199x300.jpg 199w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-678x1024.jpg 678w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-278x420.jpg 278w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-640x967.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-681x1028.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 735px) 100vw, 735px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Assim, desde sua origem, o MBL esteve longe de ser “espontâneo”. Sua existência só se explica ao se compreender a longa tradição de financiamento e articulação internacional da extrema-direita na América Latina. De IBAD e IPES no Brasil aos católicos conservadores chilenos e aos empresários argentinos, sempre houve uma base de classe dominante e um elo externo sustentando a reação. O MBL é apenas a atualização dessa história: um grupo aparentemente jovem e autônomo, mas, na realidade, peça de uma engrenagem continental que busca conter qualquer possibilidade de avanço popular e reorganizar o bloco no poder sob a bandeira do liberalismo de mercado e da repressão às forças sociais insurgentes.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Aparato midiático e linguagem juvenil</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A força inicial do MBL não se deu no parlamento, mas nas ruas e nas redes. Seus fundadores souberam explorar as ferramentas digitais (Facebook, Twitter, YouTube) para difundir uma linguagem acessível, repleta de memes, humor debochado e simplificações ideológicas. Essa estética “irreverente” era fundamental para se diferenciar da velha direita, vista como careta, envelhecida e excessivamente institucional. Ao mesmo tempo, o movimento construiu forte presença nas ruas a partir de 2015, organizando manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff. Tais atos foram estimulados por ampla cobertura midiática (Globo, Veja, Folha, Estadão), que oferecia palco e legitimidade aos jovens liberais. O MBL funcionava como uma ponte entre empresários financiadores, mídia corporativa e massas descontentes, transformando insatisfação difusa em pressão política articulada. O golpe parlamentar de 2016, que resultou no impeachment de Dilma, só pode ser explicado levando em conta o papel do MBL. O movimento foi a vanguarda de mobilização social que deu aparência “popular” a uma articulação burguesa conduzida no Congresso, no Judiciário e no empresariado. O MBL encarnava, no espaço público, o ressentimento das classes médias e a ofensiva do grande capital contra direitos sociais. Sua função histórica, portanto, não foi apenas participar de protestos, mas legitimar a ofensiva neoliberal e preparar o terreno para um projeto ainda mais reacionário que culminaria na eleição de Jair Bolsonaro em 2018. O MBL ajudou a normalizar o discurso de ódio, a desqualificar a esquerda, a corroer a legitimidade das instituições democráticas e a naturalizar a violência como resposta política.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As Jornadas de Junho de 2013 e a gênese reacionária do MBL</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">As Jornadas de Junho de 2013 constituem um marco incontornável na história recente da luta de classes no Brasil. O estopim, aparentemente localizado no aumento das passagens de ônibus, rapidamente transbordou para uma indignação popular difusa contra a precarização da vida urbana, a corrupção estrutural e a repressão policial. Essa irrupção massiva da juventude e dos trabalhadores nas ruas revelou a insatisfação latente diante de um Estado que, em meio ao crescimento econômico do lulismo, jamais rompeu com os mecanismos de exploração e desigualdade. Sob a lente marxista, Junho expressa a contradição entre a promessa de inclusão capitalista e a realidade da dominação de classe: as demandas por mobilidade, saúde e educação pública escancaravam o caráter burguês de um Estado que só se move em consonância com os imperativos da acumulação.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse primeiro momento, a repressão brutal da polícia militar (balas de borracha, prisões arbitrárias, assassinatos), foi documentada e denunciada por uma miríade de mídias ativistas independentes. Coletivos como a Mídia Ninja e centenas de iniciativas de streaming improvisado ganharam projeção ao transmitir em tempo real a barbárie estatal. Essa comunicação popular representava uma fissura no monopólio da grande imprensa, historicamente alinhada à burguesia. No entanto, ao mesmo tempo em que fortaleciam a denúncia, essas mídias não possuíam uma estratégia de classe capaz de organizar a revolta em direção a uma saída revolucionária. Sem um horizonte político claro, o terreno das ruas permaneceu aberto para a infiltração de tendências reacionárias que se apresentavam como “apartidárias” e “sem bandeiras”. A consigna “sem partido”, que no início expressava a recusa justa à burocracia eleitoral, rapidamente foi apropriada por setores de direita como arma de criminalização da esquerda organizada. Essa manipulação ideológica transformou o descontentamento em hostilidade contra movimentos sociais e organizações de trabalhadores, produzindo verdadeiras guerras campais entre blocos progressistas e reacionários dentro das manifestações. O que estava em disputa era a própria direção política da massa revoltada: de um lado, uma juventude popular que apontava para a radicalização das lutas; de outro, grupos articulados que buscavam canalizar a energia das ruas para uma pauta antipolítica, liberalizante e moralista. Essa batalha refletia a lógica marxista da luta de classes travada também no campo ideológico: quando não há direção proletária organizada, a burguesia ocupa o vazio, reorganizando o ressentimento em prol da conservação da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, germina o Movimento Brasil Livre (MBL). Seu surgimento foi uma reação calculada à insurgência popular de 2013. O MBL apropriou-se da linguagem juvenil e da estética digital para mascarar seu projeto burguês, apresentando-se como alternativa “moderna” diante da falência da esquerda institucional. Mais que isso: o movimento encontrou na tática da infiltração uma de suas principais armas. Arthur do Val, posteriormente alçado a celebridade política, desenvolveu técnicas de se infiltrar em manifestações de esquerda com o objetivo explícito de desestabilizar, ridicularizar e criminalizar militantes. Seus vídeos, editados de forma caricata, eram difundidos no YouTube como entretenimento, convertendo a violência política em espetáculo. Sob a aparência de humor debochado, tratava-se de uma prática criminosa: espionagem, difamação e incitação ao ódio contra trabalhadores organizados. Do ponto de vista marxista, esse método revela a função ideológica do MBL: não dialogar, mas destruir, não disputar, mas sabotar a auto-organização popular. A ofensiva digital de figuras como Arthur do Val corresponde ao que Marx e Engels identificavam como função da ideologia dominante: apresentar a dominação de classe como senso comum, invertendo a realidade. Ao expor militantes como caricaturas, o MBL transformava os explorados em culpados de sua própria miséria, legitimando a repressão estatal e naturalizando o neoliberalismo como única saída. Essa lógica é estruturalmente fascista: ao invés de enfrentar os capitalistas, o ódio é direcionado contra sindicatos, feministas, negros, estudantes e qualquer forma de organização coletiva. O fascismo, dizia Reich, é a psicologia de massas da reação. No Brasil, ele se encarnou na figura midiática de jovens que transformaram a política em mercadoria digital.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158949" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1.jpg" alt="" width="903" height="1024" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1.jpg 903w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-265x300.jpg 265w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-768x871.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-370x420.jpg 370w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-640x726.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-681x772.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 903px) 100vw, 903px" />Assim, o MBL foi não apenas produto desse contexto, mas sua antítese reacionária. Onde a classe trabalhadora ensaiava passos de independência, o MBL interveio para reabsorver a energia insurgente em favor da burguesia. Onde as mídias independentes denunciavam a violência policial, o MBL difundia o escárnio e a legitimação da repressão. Onde os movimentos populares buscavam radicalizar as pautas sociais, o MBL pregava a despolitização total, como se a ausência de partido fosse garantia de liberdade. Na prática, era a abdicação da luta de classes em favor do domínio absoluto do capital. Junho abriu a brecha, mas a ausência de organização revolucionária permitiu que o inimigo a ocupasse. A lição é clara: sem direção proletária consciente, toda revolta corre o risco de ser capturada pelo aparelho ideológico da burguesia.</p>
<p style="text-align: justify;">O ano de 2015 marca a primeira grande aparição pública do MBL como força política. Aproveitando o desgaste do governo Dilma Rousseff após as eleições de 2014 e a Operação Lava Jato, o movimento foi um dos principais articuladores dos protestos de março, abril e agosto, que levaram milhões às ruas sob o lema do combate à corrupção e do impeachment.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui já se observa a função histórica do MBL: transformar ressentimento social em mobilização dirigida contra o governo petista. O descontentamento com a economia, a inflação e o desemprego foram canalizados não contra os capitalistas ou as estruturas do Estado, mas contra um partido específico, apresentado como encarnação de toda a corrupção. A esquerda foi demonizada, e a ideia de que o impeachment era “a saída democrática” foi massificada. O MBL fornecia a estética juvenil, os memes e o discurso moralizante que tornava esse processo palatável para amplos setores médios.</p>
<p style="text-align: justify;">A ascensão do MBL só foi possível porque encontrou amplificação midiática sistemática. Jornais, revistas e canais de televisão abriram espaço generoso para seus líderes, que passaram a ser tratados como porta-vozes legítimos da “nova política”. Kim Kataguiri foi entrevistado inúmeras vezes, Holiday recebeu destaque como “jovem negro contra o vitimismo”, e Renan Santos aparecia como articulador de bastidores. Essa relação era simbiótica: enquanto a mídia oferecia visibilidade, o MBL garantia a ocupação das ruas com pautas que interessavam à burguesia. A narrativa de que o impeachment representava uma “revolta popular” só foi possível porque jornais e TVs transmitiam ao vivo as manifestações convocadas pelo movimento, exaltando sua suposta espontaneidade e minimizando seu caráter empresarial e organizado. Dessa forma, o MBL tornou-se peça-chave na engrenagem de legitimação do golpe de 2016. A mídia corporativa não apenas narrava os protestos; ela os produzia junto com o MBL.</p>
<p style="text-align: justify;">O impeachment de Dilma Rousseff foi o marco da consolidação do MBL. O movimento foi um dos principais articuladores das manifestações que criaram o ambiente político necessário para o golpe parlamentar. Sua atuação demonstrou que a burguesia havia encontrado um novo instrumento: uma direita jovem, agressiva, aparentemente “independente” dos velhos partidos, mas totalmente subordinada ao capital. Com o golpe consumado, o MBL cumpriu sua função histórica imediata: garantir as condições sociais para a ascensão de Michel Temer e a aprovação de medidas impopulares como a PEC do Teto de Gastos e a reforma trabalhista. Ao mobilizar as massas contra a “corrupção do PT”, o movimento abriu caminho para um projeto neoliberal ainda mais agressivo, que não teria sobrevivido sem apoio de rua.</p>
<p style="text-align: justify;">Se nas ruas o MBL já havia demonstrado capacidade de mobilização, foi nas redes sociais que consolidou seu diferencial estratégico. Com páginas que chegavam a milhões de seguidores no Facebook, canais no YouTube e forte presença no Twitter, o movimento tornou-se um dos principais difusores de conteúdo político digital no Brasil. A linguagem era simples, memética, apelando para o humor, a ridicularização do adversário e a simplificação ideológica. Essa estética não era apenas “engraçada”; ela tinha função política clara: desmoralizar a esquerda, criminalizar o pensamento crítico e difundir a ideologia liberal-fascistizante como senso comum.</p>
<p style="text-align: justify;">A internet foi, portanto, o laboratório de subjetivação do MBL. Ali, ele consolidou sua base social e preparou o terreno para disputar corações e mentes de milhões de jovens que não se viam representados pela política tradicional.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158948" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/leonilson-todos-os-rios-c-1989.jpg" alt="" width="330" height="652" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/leonilson-todos-os-rios-c-1989.jpg 330w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/leonilson-todos-os-rios-c-1989-152x300.jpg 152w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/leonilson-todos-os-rios-c-1989-213x420.jpg 213w" sizes="auto, (max-width: 330px) 100vw, 330px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A entrada na política institucional</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em 2016, alguns membros do MBL se candidataram a cargos públicos, em especial vereadores e deputados. O caso mais emblemático foi a eleição de Fernando Holiday como vereador em São Paulo pelo DEM, com quase 50 mil votos. Holiday tornou-se símbolo da estratégia: um jovem negro, gay, oriundo da periferia, defendendo pautas ultraliberais e conservadoras. Sua figura foi instrumentalizada como prova de que o MBL era “inclusivo” e “plural”, embora sua política fosse frontalmente contrária aos interesses das classes populares e das minorias. A entrada de quadros do MBL na institucionalidade mostrou que o movimento não pretendia ser apenas uma força de pressão externa. Ele buscava disputar poder diretamente, formando uma nova geração de políticos de direita para consolidar sua agenda.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre 2015 e 2018, o MBL também enfrentou contradições. Parte de sua base defendia um liberalismo mais “puro”, enquanto outra parte se aproximava cada vez mais do conservadorismo autoritário. Essa tensão refletia não apenas divergências ideológicas, mas disputas por recursos e visibilidade. Ainda assim, o denominador comum permanecia: a submissão ao grande capital e o combate intransigente à esquerda. As contradições internas nunca colocaram em risco a função central do MBL: ser um braço político da ofensiva burguesa. O período 2015-2018 foi decisivo para preparar o terreno para Jair Bolsonaro. Embora o MBL e Bolsonaro tenham divergido em alguns momentos, sobretudo após 2019, é inegável que o movimento foi incubadora do bolsonarismo.</p>
<p style="text-align: justify;">A naturalização do discurso de ódio, o moralismo anticorrupção, a criminalização da esquerda, a deslegitimação da política institucional e a defesa de medidas autoritárias foram todos elementos difundidos pelo MBL antes mesmo da candidatura de Bolsonaro ganhar força. O MBL forneceu parte da estética bolsonarista, da sua base social e da sua legitimidade. Entre 2015 e 2018, o MBL se consolidou como ator central da política brasileira. Seu desenvolvimento foi marcado por:</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;"><strong>Estruturação empresarial e financiamento burguês</strong>;</li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Amplificação midiática sistemática</strong>;</li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Capacidade de mobilização de massas contra a esquerda</strong>;</li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Consolidação como força digital; </strong></li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Inserção institucional no parlamento</strong>;</li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Preparação do terreno para o fascismo bolsonarista</strong>.</li>
</ul>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158951" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson.jpg" alt="" width="400" height="640" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson.jpg 400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-188x300.jpg 188w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-263x420.jpg 263w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" />Linha teórica e ideologia do MBL</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A consolidação do MBL como força política não se explica apenas por sua presença midiática ou pelo apoio empresarial. O movimento possui uma linha teórica e ideológica própria, construída a partir da combinação de três vetores centrais: o liberalismo econômico radical, o conservadorismo moral e o fascismo adaptado ao contexto brasileiro contemporâneo. A análise dessa composição revela a função do MBL na luta de classes e sua relação com a reprodução do capitalismo dependente no Brasil. O discurso oficial do MBL se apresenta como liberal, defendendo a liberdade individual, o livre mercado e a redução do Estado. Inspirado por autores como Friedrich Hayek, Ludwig von Mises e Milton Friedman, o movimento difunde a ideia de que o Estado é um entrave ao desenvolvimento, a corrupção é seu efeito natural e a iniciativa privada é a solução para todos os problemas sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse liberalismo, contudo, é apenas a fachada ideológica de uma prática autoritária. O MBL nunca defendeu verdadeiramente a liberdade em sentido universal, mas apenas a liberdade do capital de explorar sem entraves. Sua concepção de indivíduo é restrita ao consumidor; sua ideia de sociedade é a de um mercado sem limites; e sua noção de democracia é reduzida a procedimentos formais que podem ser suspensos quando o capital exige. Assim, o liberalismo no MBL cumpre a função de revestir políticas violentas com o manto da “liberdade”. Privatizações, cortes de direitos, repressão a greves e perseguição a movimentos sociais são apresentados como expressões da “livre escolha” dos cidadãos, quando na realidade são imposições brutais de classe.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o liberalismo é a face econômica, o conservadorismo moral é a face cultural do MBL. O movimento construiu sua base em torno de pautas como:</p>
<ul>
<li class="li">ataque à educação crítica, sob o lema da “Escola sem Partido”;</li>
<li class="li">combate a políticas de gênero e sexualidade;</li>
<li class="li">defesa da família tradicional como núcleo moral da sociedade;</li>
<li class="li">demonização do feminismo, dos direitos LGBT e das lutas antirracistas.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Esse conservadorismo cumpre função clara: desviar a insatisfação social das contradições de classe para “inimigos culturais”. O professor, o artista, o militante feminista ou antirracista são apresentados como ameaças à ordem social, enquanto os verdadeiros inimigos (banqueiros, empresários, latifundiários) permanecem intocados. A guerra cultural é o terreno onde o MBL mais se destacou. Utilizando memes, vídeos curtos e uma linguagem agressiva, o movimento transformou a disputa ideológica em espetáculo midiático. O riso, a zombaria e o deboche passaram a ser armas políticas. A desqualificação substituiu o argumento. O resultado é uma política reduzida a slogans e afetos primários, que reforçam o ódio e a intolerância.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>MBL: Liberalismo de Fachada, Fascismo de Essência</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Movimento Brasil Livre é, em sua essência, a tradução contemporânea de um fenômeno que marcou o século XX: o fascismo. Evidentemente, não se trata da repetição literal da estética de camisas negras ou marchas paramilitares; o MBL é expressão de um fascismo “sem uniforme”, adaptado às condições da sociedade de massas, às redes digitais e à lógica do neoliberalismo periférico. Para compreendê-lo, é necessário retomar as categorias que definem o fascismo como fenômeno histórico e político.</p>
<p style="text-align: justify;">Leandro Konder já afirmava que o fascismo é um fenômeno tipicamente de direita. Sua força não está em criar ideias próprias, mas em saquear o arsenal marxista e distorcê-lo: luta de classes transformada em tragédia eterna a ser disciplinada por uma elite; ideologia esvaziada de seu caráter crítico para virar propaganda; nação reinterpretada como mito orgânico acima das contradições sociais. Mussolini, ex-dirigente socialista, foi o protótipo dessa apropriação perversa, vendendo à burguesia italiana uma caricatura do marxismo que justificava a repressão. O MBL age na mesma chave: repete termos como “liberdade”, “revolução”, “novo movimento social”, mas esvaziando-os de conteúdo emancipatório para reorientá-los em favor da ordem capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158950" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310.jpg" alt="" width="1920" height="1804" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-300x282.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-1024x962.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-768x722.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-1536x1443.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-447x420.jpg 447w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-640x601.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-681x640.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />Wilhelm Reich, em sua teoria da economia libidinal, mostra que o fascismo não se explica apenas pela política de classes, mas pela gestão repressiva das pulsões. O fascismo mobiliza a energia das massas não pela promessa de emancipação, mas pelo reforço da autoridade e da sexualidade reprimida. Vladimir Safatle, retomando Reich, argumenta que o fascismo é “a articulação entre a suspensão da lei e o culto da lei”, funcionando como regressão paranoica de uma sociedade inteira. É o culto da violência, a exaltação da polícia, a defesa da repressão, o ódio ao inimigo interno. O MBL cumpre esse papel: dissemina discursos de ódio contra professores, sindicatos, movimentos sociais e minorias, ao mesmo tempo em que incensa a polícia e naturaliza a brutalidade estatal.</p>
<p style="text-align: justify;">Deleuze e Guattari, no <em>Anti-Édipo</em>, lembram que “as massas desejaram o fascismo”. A servidão voluntária é elemento central: o autoritarismo não se impõe apenas de cima, mas encontra adesão social. É isso que explica a penetração do MBL entre a juventude: muitos jovens aderem ao discurso de “rebeldia liberal”, acreditando que estão lutando contra o sistema quando, na prática, reforçam o domínio do capital. O desejo pelo autoritarismo, pela ordem, pelo “fim dos privilégios” (que nunca são os da burguesia) é manipulado pelo movimento como combustível político. Adorno e Horkheimer, na <em>Dialética do Esclarecimento</em>, definem o fascismo como patologia social, paranoia organizada pela indústria cultural e pela política de massas. Essa patologia está presente no MBL: a simplificação do discurso, a criação de inimigos fictícios (“comunismo”, “ideologia de gênero”), a mobilização constante de afetos de medo e ódio. Tudo isso garante coesão a um projeto que, na realidade, é funcional ao capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, o fascismo deve ser entendido como contrarrevolução preventiva. Quando o capital entra em crise, e as massas ensaiam processos de contestação, surge a necessidade de reorganizar o consenso pela força. O MBL foi um instrumento dessa contrarrevolução no Brasil pós-2013: capturou o mal-estar popular, canalizou-o contra a esquerda e pavimentou o caminho para o golpe de 2016 e a ascensão de Bolsonaro. Não é exagero dizer que o MBL é um braço auxiliar do bolsonarismo, ainda que tente hoje se diferenciar dele para sobreviver.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, chegamos ao ponto central: o MBL representa um fascismo de mercado. Ele combina o ultraliberalismo econômico (privatizações, ataque a direitos, Estado mínimo) com a defesa intransigente da repressão estatal. É a junção entre Hayek e Mussolini, Chicago e Integralismo, Paulo Guedes e o porrete da polícia. Seu projeto é claro: um país onde a juventude seja mobilizada para odiar o inimigo interno, aplaudir a violência, acreditar que a exploração é liberdade e que a destruição dos direitos sociais é modernidade. Portanto, o MBL é parte da engrenagem fascista contemporânea, adaptado às novas formas de comunicação e subjetividade, mas cumprindo a mesma função histórica: salvar o capital em crise pela repressão, pelo ódio e pela destruição de qualquer possibilidade de emancipação. O MBL é peça fundamental do aparelho de hegemonia de classe, atualizado para a era digital, cujo liberalismo é pura fachada. A essência é fascista: culto à ordem, criminalização da esquerda, mobilização do ressentimento social e ataque sistemático à crítica intelectual.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos traços centrais do fascismo é a exaltação da ordem social e a naturalização da violência estatal como instrumento de preservação dessa ordem. O MBL, desde seu surgimento, legitimou a repressão policial contra greves, ocupações estudantis e manifestações populares. Em seus discursos e práticas midiáticas, os militantes do movimento apresentam a polícia como garantidora da “liberdade”, invertendo a realidade concreta em que essa mesma polícia é a guardiã dos interesses burgueses, responsável pelo genocídio da juventude negra e periférica. Essa legitimação da violência corresponde ao núcleo do projeto fascista, que busca transformar a repressão em consenso, convencendo setores médios de que a eliminação do “inimigo interno” é condição para a paz social. Outra marca estrutural do fascismo é a construção de um inimigo absoluto, desumanizado e responsabilizado por todos os males sociais. O MBL opera nesse registro ao equiparar o petismo ao comunismo e tratar qualquer militante de esquerda como ameaça à nação. A retórica contra o “marxismo cultural” e contra a “doutrinação” nas escolas é instrumento para consolidar a imagem do inimigo interno. Essa lógica é profundamente fascista porque não admite mediação: a esquerda é apresentada não como adversária política legítima, mas como inimiga a ser destruída. Assim, cria-se a base ideológica para a violência física, a perseguição judicial e a repressão aberta contra trabalhadores organizados.</p>
<p style="text-align: justify;">Marx já apontava que a pequena-burguesia, em momentos de crise, oscila entre o proletariado e a burguesia. É nesse setor social que o fascismo encontra sua principal base. O MBL mobiliza exatamente esse ressentimento: jovens de classe média precarizados, trabalhadores informais que acreditam no “empreendedorismo”, segmentos médios que veem nos pobres e nos movimentos sociais a causa de sua instabilidade. O movimento transforma a frustração em ódio, convertendo contradições estruturais do capitalismo em ressentimento dirigido contra inimigos fictícios. Como dizia Adorno, a personalidade autoritária encontra satisfação em submeter-se à ordem e, ao mesmo tempo, agredir os mais fracos. O MBL organiza politicamente esse impulso. A apropriação da estética juvenil é outro elemento clássico da estratégia fascista. Nos anos 1920 e 1930, o fascismo europeu soube mobilizar símbolos de vitalidade e modernidade para atrair a juventude. O MBL cumpre a mesma função no século XXI, usando memes, linguagem digital, humor debochado e estética pop. Essa aparência de novidade serve para canalizar a energia juvenil (que poderia se dirigir à transformação radical) para a defesa da ordem do capital. É a transmutação da rebeldia em conformismo ativo: o jovem que poderia lutar contra a exploração é transformado em defensor da exploração, sob o mito da meritocracia e do empreendedorismo. Essa inversão é típica do fascismo, que se alimenta da força vital das massas para submetê-las à lógica da dominação.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158953" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/m_leo-nao-consegue-mudar-o-mundo.jpg" alt="" width="332" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/m_leo-nao-consegue-mudar-o-mundo.jpg 332w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/m_leo-nao-consegue-mudar-o-mundo-199x300.jpg 199w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/m_leo-nao-consegue-mudar-o-mundo-279x420.jpg 279w" sizes="auto, (max-width: 332px) 100vw, 332px" />Por fim, o anti-intelectualismo é elemento constitutivo do fascismo. O MBL, desde seu início, atacou universidades, professores, cientistas e artistas, acusando-os de “doutrinadores” e “parasitas”. Essa recusa da crítica é funcional: ao deslegitimar o pensamento crítico, o movimento busca cortar pela raiz qualquer possibilidade de contestação consciente à ordem burguesa. O ódio à crítica é parte da necessidade estrutural de um projeto que só sobrevive se transformar a ignorância em virtude. A hostilidade contra a universidade pública e contra a produção cultural crítica demonstra o caráter fascista do MBL, que deseja um povo dócil, desinformado e incapaz de formular alternativas. O MBL, portanto, é mais que um grupo liberal: é a expressão contemporânea de um fascismo de mercado, adaptado às condições do capitalismo dependente brasileiro. Liberal na economia, fascista na política. Essa combinação reflete a necessidade da burguesia de intensificar a exploração em tempos de crise, eliminando direitos, privatizando serviços e precarizando o trabalho, ao mesmo tempo em que reprime com violência qualquer forma de resistência popular. Trata-se de um fascismo sem uniforme, mas com a mesma essência: mobilização de massas contra o proletariado, culto à ordem, ódio à crítica, repressão como consenso. Do ponto de vista histórico, a ascensão do MBL responde à crise do lulismo, ao desgaste do progressismo e ao vazio deixado pela ausência de uma direção revolucionária. Quando as Jornadas de Junho de 2013 expuseram a insatisfação popular, a burguesia tratou de reorganizar suas forças. O MBL foi a resposta: transformar a rebeldia em conformismo, o descontentamento em ódio regressivo, a juventude em tropa de choque da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">A consequência inevitável dessa ofensiva é a intensificação das lutas concretas na sociedade. À medida que o MBL e outros aparelhos fascistizantes avançam, os setores populares são pressionados à autodefesa e à radicalização. O conflito entre interesses antagônicos (burguesia e proletariado) tende a se acirrar. O MBL cumpre a função de ponta de lança ideológica e prática da repressão, criando o ambiente para que a violência de Estado se legitime e para que o ódio contra os trabalhadores se normalize. Mas a luta de classes não se apaga. O avanço fascista provoca, inevitavelmente, a reação popular. Greves, ocupações, protestos e lutas comunitárias emergem como resposta à ofensiva. A sociedade se cinde cada vez mais entre os que defendem os interesses dos dominantes, travestidos de liberalismo, mas sustentados pelo fascismo, e os que lutam por sobrevivência, dignidade e emancipação. Essa cisão reflete a impossibilidade de conciliação entre capital e trabalho em tempos de crise. O fascismo de mercado do MBL, portanto, não é apenas ameaça ideológica. Ele é prenúncio de confrontos concretos, de choques nas ruas, de radicalização da luta política. Cabe aos trabalhadores e às organizações revolucionárias compreender que a disputa não é apenas eleitoral ou institucional, mas vital: trata-se de defender a própria existência contra um projeto que naturaliza a morte, a exploração e a repressão.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O MBL no presente e a tarefa revolucionária</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Após a ascensão meteórica que culminou no golpe de 2016 e na pavimentação do caminho para Bolsonaro, o MBL passou por mudanças profundas. Seu desgaste político foi visível: crises internas, disputas entre figuras, perda de parte da base mais radicalizada. Ainda assim, o movimento não desapareceu. Pelo contrário: manteve-se como força midiática, explorando as redes sociais, adaptando-se ao jogo parlamentar e reposicionando-se no tabuleiro da direita. Hoje, o MBL busca se reciclar como uma direita jovem, “moderna” e supostamente democrática, uma operação de maquiagem que não apaga sua gênese fascista.</p>
<p style="text-align: justify;">Suas candidaturas continuam a ocupar espaço institucional, muitas vezes em aliança com setores do centro liberal e do progressismo domesticado. Nas câmaras municipais, assembleias estaduais e no Congresso, suas figuras seguem articulando projetos de ataque aos direitos trabalhistas, às universidades, aos movimentos sociais. As redes de apoio empresarial e midiático, ainda que menos explícitas, permanecem, garantindo fôlego para a sobrevivência política do grupo. O MBL soube se ajustar: se antes vendia-se como vanguarda do antipetismo, agora tenta aparecer como guardião da democracia contra os “excessos” do bolsonarismo, sem jamais romper com o projeto de fundo que ajudou a consolidar. Esse reposicionamento é perigoso. Quando até setores progressistas tratam o MBL como “interlocutor legítimo”, seja em debates televisivos, seja em mesas de negociação, contribuem para normalizar um agrupamento que nasceu do golpismo e do fascismo de mercado. A normalização é um dos mecanismos mais eficazes do fascismo: ele se traveste de legalidade, de pluralidade, de voz democrática, enquanto avança em sua tarefa histórica de aniquilar a organização popular.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda institucional, com seu antifascismo domesticado, reforça esse processo. Ao recusar a denúncia radical, prefere o jogo parlamentar, o diálogo “civilizado” com os algozes, acreditando que se pode conter a extrema-direita com boa retórica e alianças momentâneas. É a mesma lógica que, no passado, entregou a classe trabalhadora desarmada diante do avanço reacionário. Esse limite precisa ser evidenciado: não há pacto possível com quem nasce do fascismo e continua a operar como tropa de choque da burguesia. O enfrentamento ao MBL exige uma estratégia distinta: crítica sistemática, denúncia cotidiana e construção de organização popular. A batalha não é apenas parlamentar, mas cultural, comunicacional e formativa. A hegemonia do MBL foi construída no terreno da juventude e das redes; é ali que também precisamos intervir, não com o mesmo espetáculo vazio, mas com formação política, cultura crítica, cinema, música, literatura, debate público radical. As trincheiras da cultura e da comunicação são fundamentais para disputar consciências e romper com a manipulação liberal-fascista.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158954" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/3xto9f984r2x3t3olr4dcfyhlwxd.jpg" alt="" width="222" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/3xto9f984r2x3t3olr4dcfyhlwxd.jpg 222w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/3xto9f984r2x3t3olr4dcfyhlwxd-167x300.jpg 167w" sizes="auto, (max-width: 222px) 100vw, 222px" />A tarefa revolucionária que se coloca é clara: combater o MBL é combater o fascismo em sua versão neoliberal. Se o MBL sobrevive mesmo após o desgaste do bolsonarismo, é porque cumpre função estrutural: preparar a juventude para o ódio de classe, treinar quadros políticos submissos à ordem e apresentar o capitalismo como destino inevitável. O combate ao MBL, portanto, é inseparável da luta contra o fascismo e contra o capitalismo. Denunciar, enfrentar e derrotar esse movimento não é apenas tarefa de resistência, mas condição para a emancipação. A história mostrou, da Comuna de Paris ao antifascismo do século XX, que não há conciliação possível: ou se constrói um poder popular capaz de destruir os aparelhos da burguesia, ou estaremos sempre à mercê das novas roupagens da mesma barbárie.</p>
<p><em>As imagens que ilustram este artigo são reproduções de obras de  José Leonilson.</em></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/04/158942/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>8</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O malandro de papel</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/03/158910/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/03/158910/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Mar 2026 10:39:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158910</guid>

					<description><![CDATA[Marcelo D2, a indústria cultural e o espetáculo patético da crítica que não critica. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">A matéria da <em>Rolling Stone Brasil</em> publicada em 15 de novembro de 2025, com o título espetaculoso “A grande crítica que Marcelo D2 faz ao rap atual”, é um documento perfeito do vazio contemporâneo, do grotesco e da caricatura. Não apenas um texto fraco, mas a radiografia exata do pacto entre o jornalismo cultural de entretenimento e artistas que já ultrapassaram há muito o ponto de inflexão entre insurgência e carreira. O título anuncia uma espécie de terremoto — “a grande crítica” — mas o conteúdo é um tremor de cortina, um soluço domesticado que reforça o próprio fenômeno que finge denunciar. Não há crítica, há marketing. Não há reflexão, há circulação. Não há ruptura, há acomodação confortável no circuito previsível da nostalgia administrada.</p>
<p style="text-align: justify;">A peça jornalística vende como ousadia o que não passa de reminiscência inofensiva. Um veterano lamentando a perda da “essência” do rap — mas sem jamais tocar no que seria a raiz efetiva de qualquer transformação estética: as relações de produção, a lógica da indústria cultural, a reorganização algorítmica da música, a subsunção real da arte ao capital, a captura simbólica das formas dissidentes, a metamorfose do conflito em conteúdo rentável. É uma crítica que nasce morta porque não tem objeto; ou melhor, porque seu objeto é cuidadosamente esvaziado para não ferir a sensibilidade de mercado da própria figura que o jornalismo endeusa. D2 é apresentado como o guardião de um espírito perdido, como se sua fala fosse a sentença definitiva sobre o estado do rap — quando, na prática, sua fala é uma confissão melancólica de acomodação e impotência.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158911" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/OperaDoMalandro-4112468248.jpg" alt="" width="347" height="555" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/OperaDoMalandro-4112468248.jpg 347w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/OperaDoMalandro-4112468248-188x300.jpg 188w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/OperaDoMalandro-4112468248-263x420.jpg 263w" sizes="auto, (max-width: 347px) 100vw, 347px" />O texto tenta atribuir profundidade a um discurso raso, confuso, cheio de lugares-comuns e isenções. D2 diz sentir falta do “movimento rap”, como se o movimento tivesse sido uma substância mágica que evaporou sozinha, e não uma prática histórica produzida por condições materiais muito específicas: a marginalidade urbana, a ausência de políticas públicas, a violência policial, a precariedade tecnológica, a circulação artesanal de produções, a autonomia forçada, o antagonismo explícito com a mídia e com o Estado. Esse conjunto de condições não desapareceu; foi reorganizado. Não foi o rap que mudou isoladamente — foi o regime de produção cultural que se transformou radicalmente, deslocando a autonomia para um plano quase inexistente. Mas o texto, ao invés de investigar essa mutação, prefere dramatizar o desabafo de D2 como se fosse uma reflexão ontológica sobre o gênero. A superficialidade vira acontecimento; a banalidade vira análise. É um verdadeiro horror!</p>
<p style="text-align: justify;">E o mais grave: o texto naturaliza sem qualquer pudor a ideia de que a “cooptação” do rap pelo mainstream é um processo externo, quase metafísico, como se o capital fosse uma entidade comedora de culturas que age por capricho. A própria palavra “engoliu” é usada como se designasse uma força inevitável, uma digestão espontânea do sistema sobre o que antes era puro. Entretanto, o capital não engole nada sem preparar o alimento. A captura das estéticas insurgentes é um procedimento estruturado da modernidade tardia. Trata-se de uma estratégia de sobrevivência do próprio sistema: incorporar a crítica para neutralizá-la, transformar antagonismo em espetáculo, fazer da ruptura um nicho de mercado.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158914" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/612971513782406-1095463962.jpg" alt="" width="360" height="360" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/612971513782406-1095463962.jpg 360w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/612971513782406-1095463962-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/612971513782406-1095463962-70x70.jpg 70w" sizes="auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px" />D2, ao lamentar a perda da marginalidade, o faz desde o lugar confortável de alguém que se transformou, há pelo menos duas décadas, em patrimônio pop nacional. Isso não invalida sua trajetória, mas invalida sua pretensão de falar como outsider e, sobretudo, como crítico (o que de fato está anos luz de ser). O discurso de outsider de alguém que vive no circuito institucional — festivais patrocinados por bancos, publicidade, mídia de massa, gravadoras — é, em si, uma caricatura da própria condição que diz defender. D2 nesse sentido aprimora o sentido do cinismo. Ele é um tecnólogo da miséria humana, do disfarce sem pudor. O jornalismo cultural, claro, não toca nisso: prefere alimentar a fantasia do artista que “ainda é rua”, mesmo que sua rua seja hoje o backstage de festival premium. É a caricatura da caricatura. O simulacro da simulação. A tosquice em pessoa.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele diz: “o rap virou <em>mainstream,</em> eu não me sinto mais representado”. Falta apenas a honestidade de completar: “porque eu próprio já fui absorvido”. Não como indivíduo — isso seria moralismo — mas como posição de classe e posição histórica. O D2 que fala não é o garoto das ruas dos anos 90; é uma entidade estética integrada, cujo nome virou marca, cujo rosto virou ícone, cujo discurso virou capital simbólico. Ele diz que o rap deixou de ser outsider, mas não percebe que a própria ideia de outsider virou um ativo de mercado, uma estética vendável, um fetiche que legitima o produto. A matéria, claro, reforça isso com toda força possível, porque é justamente esse fetiche que dá cliques. O texto da <em>Rolling Stone</em> não faz sequer um movimento mínimo de contextualização histórica. Nada sobre a transformação do rap brasileiro em um sistema de carreiras regulado por plataformas. Nada sobre a precarização das cenas independentes. Nada sobre a profissionalização compulsória, que transforma qualquer jovem MC em gestor de si mesmo, editor, influencer, estrategista de engajamento. Nada sobre a estética da retenção, que redefine métrica, flow, tema e até tempo de música. Nada sobre a decadência das políticas públicas de cultura, que empurram artistas para os braços das marcas. Nada sobre a transformação do conflito em entretenimento. Nada sobre a morte política do rap enquanto ferramenta de organização de classe. Nada sobre a conversão do discurso da revolução em branding de autenticidade. D2 performa a putrefação perfumada, o monstro maquiado.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158917" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/64be63bb-f8ba-44b9-a544-d1513645da52_medium-3476969402.jpg" alt="" width="450" height="622" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/64be63bb-f8ba-44b9-a544-d1513645da52_medium-3476969402.jpg 450w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/64be63bb-f8ba-44b9-a544-d1513645da52_medium-3476969402-217x300.jpg 217w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/64be63bb-f8ba-44b9-a544-d1513645da52_medium-3476969402-304x420.jpg 304w" sizes="auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px" />O jornalismo não poderia tocar nesses pontos porque isso significaria enfrentar o verdadeiro problema: o rap não foi engolido pelo sistema; o rap foi formatado pelo sistema desde a sua produção primária<strong>.</strong> O que antes levava décadas para se institucionalizar — punk, rock, MPB, samba, funk — hoje leva meses. A cultura perdeu sua capacidade de maturação porque a forma social da cultura mudou. Mas o texto ignora tudo isso, fingindo que a história está dada, que o rap tinha uma essência revolucionária que foi traída por ingratidão dos mais jovens, e que o papel do veterano é lamentar. É preguiçoso. É covarde. É ideologicamente nocivo. Uma verdadeira bosta… A matéria chama as falas de D2 de “crítica”, mas crítica é desmontagem das estruturas, não confissão subjetiva. Crítica exige investigar por que o mainstream se expande, por que o underground se fragiliza, por que as formas de insurgência perdem potência, por que a dissidência é absorvida com tanta facilidade. Crítica exige tocar no ponto central: não há cultura insurgente quando a forma social dominante é a plataforma algorítmica. O capitalismo tardio sofisticou o mecanismo de captura ao ponto de transformar qualquer gesto de autonomia em conteúdo imediatamente monetizável. O rap não fugiu disso; foi sua vítima exemplar.</p>
<p style="text-align: justify;">D2, ao invés de formular isso, escolhe a rota moralista: o rap de hoje é menos interessante, menos profundo, menos revolucionário. Esse moralismo é o pior tipo de decadência intelectual: a decadência travestida de consciência. O veterano, em vez de pensar a nova fase do capital, culpa a nova fase da cultura. D2 age como um cão que morde o próprio rabo, alegre e abobado. O problema não é o jovem que faz trap de dois minutos; é a lógica de consumo que exige trap de dois minutos. Mas para compreender isso, seria necessário formular a crítica da produção, não a crítica da estética. E D2 não ousa. Talvez por incapacidade conceitual; talvez por conveniência; talvez por ambas. O texto jornalístico, por sua vez, é ainda mais pobre e medíocre. Ele não apenas não critica: ele celebra a crítica superficial. Ele a transforma em produto de circulação, reforçando exatamente a lógica que D2 afirma lamentar. É como assistir a um incêndio sendo descrito por um bombeiro que joga gasolina. A matéria dá mais espaço às frases emotivas do que aos processos históricos. Não contextualiza o que é mainstream hoje; não explica por que o rap se tornou lucrativo; não analisa a profissionalização acelerada do gênero; não menciona a financeirização das gravadoras-distribuidoras; não problematiza o papel das plataformas como novos donos dos meios de produção musical. É jornalismo de entretenimento travestido de análise — e de análise não tem nada. É o puro lixo jornalístico.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-158915" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/61PccE3JWDL._SL1280_-2141653846.jpg" alt="" width="1280" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/61PccE3JWDL._SL1280_-2141653846.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/61PccE3JWDL._SL1280_-2141653846-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/61PccE3JWDL._SL1280_-2141653846-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/61PccE3JWDL._SL1280_-2141653846-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/61PccE3JWDL._SL1280_-2141653846-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/61PccE3JWDL._SL1280_-2141653846-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/61PccE3JWDL._SL1280_-2141653846-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" /></p>
<p style="text-align: justify;">E quando D2 fala do passado — “o rap era música que não existia no Brasil”, “samplear os mais velhos era reverência” — a matéria trata isso como sabedoria ancestral. Mas não questiona a romantização óbvia: o rap nunca foi puro; sempre teve disputas internas, conflitos, divergências, tensões de classe, apropriações, rivalidades, estratégias de sobrevivência em um mercado hostil. Não havia uma “essência”; havia contradição. Mas contradições não vendem bem — então o jornalismo cultural as transforma em nostalgia. A nostalgia, por sua vez, vira mercadoria. A mercadoria, por sua vez, vira ideologia. A Rolling Stone não publica uma crítica — publica uma peça de autopromoção. O veterano se lamenta, a revista transforma o lamento em manchete, o público consome a melancolia como performance como quem come um pão dormido requentado. A crítica vira estética da crítica, higienizada, embaladinha, pronta para consumo. Tudo isso é a fórmula perfeita para uma indigestão. O rap vira pauta de revista, não pauta de conflito. É a vitória final da indústria cultural: transformar o ressentimento do artista em conteúdo rentável. E o pior é que D2 julga ser sagaz em suas assertivas. Mal sabe ele que está sendo patético.</p>
<p style="text-align: justify;">E é nesse ponto que a crítica precisa ser implacável: o discurso de D2 não é revolucionário, é profundamente conservador, idiotizante e babaca<strong>.</strong> Não conservador no sentido moral, mas conservador no sentido histórico: ele tenta preservar uma imagem fixa do rap que nunca existiu, ao invés de compreender o movimento real das forças sociais. É a fala de quem vê a história como decadência, não como transformação estrutural. A matéria amplifica isso com prazer, porque a decadência vende. O público adora ouvir que “o rap de hoje não presta” — isso cria a ilusão reconfortante de pertencimento a um passado glorioso. É a mesma lógica do rockeiro que diz que “o rock morreu” a cada década. Ao invés de perguntar: por que o rap mudou? Em que condições sociais ele mudou? Que forma social organiza a música hoje? Como o capital de plataforma redefine o som, o comportamento, o discurso, o flow? A matéria prefere a pergunta mais velha do mundo: “o que você sente falta?”. E D2, previsivelmente, responde com o que sua própria posição histórica permite: ele sente falta do lugar simbólico que tinha quando era jovem. Confunde perda de centralidade com perda de essência. A matéria não apenas aceita isso — ela transforma isso em tese.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158913" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/filmes_6949_Malandro03-1697672887.jpg" alt="" width="352" height="464" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/filmes_6949_Malandro03-1697672887.jpg 352w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/filmes_6949_Malandro03-1697672887-228x300.jpg 228w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/filmes_6949_Malandro03-1697672887-319x420.jpg 319w" sizes="auto, (max-width: 352px) 100vw, 352px" />A crítica real não está em D2; está no que ele não pode dizer. Ele não pode dizer que a cultura perdeu autonomia porque isso implicaria criticar o mesmo sistema que o consagrou. Ele não pode dizer que o rap virou indústria porque ele próprio é parte da indústria. Ele não pode dizer que o rap virou produto porque ele próprio é um produto histórico. Então ele opta pela rota inofensiva: “sinto falta do underground”. É quase cômico. O underground que ele sente falta foi destruído pelo mesmo processo de mainstreamização que o lançou ao estrelato. A matéria, por sua vez, atua como cúmplice, porque vive precisamente dessa integração. D2 diz que “não se escreve o futuro sem olhar para o passado”. É uma frase bonita, mas vazia; vazio como ele. Olhar para o passado não basta; é preciso compreender o passado. E compreender o passado não é reverenciar os mais velhos — é analisar as condições de produção que permitiram o surgimento do rap brasileiro. A matéria não faz isso. D2 não faz isso. Ambos se refugiam na estética da memória — uma memória higienizada, adornada, confortável. Uma memória que serve muito bem ao mercado porque transforma a história em decoração.</p>
<p style="text-align: justify;">O discurso de D2 é um discurso derrotado, incapaz de compreender as próprias condições históricas que o formaram. E o jornalismo cultural é o porta-voz dessa derrota, transformando o lamento em pauta, em manchete, em mercadoria. O rap não perdeu essência. O rap perdeu autonomia. E a matéria da <em>Rolling Stone</em> é uma prova viva disso: ela transforma uma crítica inexistente em espetáculo, reforçando a mesma lógica que diz estar denunciando. Em última instância, a figura de Marcelo D2 condensa a farsa inteira: vendido como malandro sagaz, cool, inteligente e crítico, ele não passa de um personagem perfeitamente ajustado às necessidades simbólicas do capital, girando em torno do próprio rabo enquanto posa de consciência lúcida. Sua imagem é a da rebeldia higienizada, da malandragem de boutique, do “outsider” que desfruta de todas as garantias do insider; é o ícone de um tempo em que a crítica virou estilo e a insurgência virou etiqueta de marketing. D2 encarna a miséria intelectual elevada à condição de produto: não pensa o sistema, ornamenta o sistema; não enfrenta as contradições, flutua sobre elas com frases feitas; não aponta saídas, recicla ressentimentos rentáveis. Patético não apenas pelo que diz, mas pelo lugar histórico que ocupa e não tem coragem de nomear: o de funcionário de luxo de uma indústria que transforma em espetáculo até a própria ruína do que um dia foi movimento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Ilustram o artigo diferentes capaz e cartazes do musical Ópera do Malandro.</em></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/03/158910/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>3</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Contradições entre os oprimidos e o obscurantismo progressista</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/03/158864/</link>
					<comments>https://passapalavra.info/2026/03/158864/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Mar 2026 12:20:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://passapalavra.info/?p=158864</guid>

					<description><![CDATA[Até que ponto setores que se reivindicam de esquerda não participam ativamente da produção desse novo obscurantismo? Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">O obscurantismo não é produto exclusivo da direita, tampouco resulta de uma via de mão única. Ele se manifesta sempre que a realidade social é mistificada, quando relações históricas concretas são reinterpretadas por meio de visões de mundo irracionais, anticientíficas ou pseudocientíficas. O obscurantismo se define pela sua função social: bloquear a compreensão da totalidade, interditar a crítica estrutural e converter a política em dogma moral.</p>
<p style="text-align: justify;">A história do fascismo demonstra com clareza como esse mecanismo opera nos setores reacionários. No entanto, a questão que se impõe hoje é outra, mais incômoda: até que ponto setores que se reivindicam de esquerda não participam ativamente da produção desse novo obscurantismo? Até que ponto determinadas formas de identitarismo, mesmo quando animadas por intenções declaradamente antirracistas, não acabam reproduzindo lógicas ultra-sectárias e reacionárias? Asad Haider aponta que a transformação da identidade em fundamento absoluto da política produz contradições internas devastadoras. Ao deslocar a luta do plano das relações sociais para o terreno da identidade fixa, cria-se um campo propício à irracionalização do conflito, onde divergências políticas passam a ser interpretadas como traições ontológicas. A crítica deixa de ser momento necessário do avanço coletivo e passa a ser tratada como violência simbólica.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158868" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507.jpg" alt="" width="855" height="545" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507.jpg 855w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507-300x191.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507-768x490.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507-659x420.jpg 659w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507-640x408.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507-681x434.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 855px) 100vw, 855px" />É nesse ponto que a reflexão de João Bernardo se torna incontornável — e profundamente incômoda. Ao analisar as raízes históricas do racismo moderno, ele observa que a atribuição de uma cultura a uma biologia (e vice-versa), característica central do fascismo, não é estranha a certos momentos do próprio movimento negro. Trata-se de uma advertência dura, mas necessária: quando a identidade é naturalizada, ela se torna terreno fértil para a biologização da política. A referência a Marcus Garvey é exemplar. Quando Garvey afirmou que “nós fomos os primeiros fascistas” e que Mussolini teria se inspirado nele, não se tratava apenas de bravata pessoal. Seu projeto recusava explicitamente a fusão de culturas e a miscigenação biológica, estabelecendo uma concepção de identidade racial fechada, essencializada e excludente. Esse tipo de formulação, ainda que se apresente como anticolonial, reproduz os mesmos pressupostos estruturais do racismo que afirma combater.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, qualquer crítica aos limites históricos e políticos do movimento negro — ou de seus desdobramentos identitários contemporâneos — é rapidamente rotulada como racismo. A crítica política é interditada em nome de uma moral identitária. Como observa João Bernardo, vivemos um momento em que às nações somaram-se as identidades, todas elas marcadas pelo ressentimento, pela vaidade e por uma lógica obsessiva que interpreta a realidade a partir de um único prisma. No movimento negro contemporâneo, essa lógica se expressa na redução de toda a complexidade social ao “mito da cor”. Esse processo se desenvolve em um contexto histórico de aprofundamento da crise capitalista, de precarização generalizada da vida e de perda de horizonte coletivo. A miséria material avança de forma brutal, enquanto a classe dominante reforça sua autoconfiança e sua capacidade de impor seus interesses mesmo em meio a crises devastadoras. O resultado é uma sociedade marcada pelo adoecimento físico e psíquico, pela fragmentação social e pela busca desesperada por pertencimento e sentido.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158867" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608.jpg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />Nesse cenário, o deslocamento da política para o plano identitário funciona como substituto da organização coletiva. Em vez de enfrentar as estruturas que produzem a miséria, canaliza-se a indignação para disputas simbólicas, para o reconhecimento institucional e para a ocupação de espaços burocráticos. Não por acaso, as lutas identitárias contemporâneas mantêm relação orgânica com partidos políticos e com o Estado burguês, operando muito mais como formas de mediação do conflito do que como forças de ruptura. A história do racismo moderno confirma essa dinâmica. As revoltas de negros escravizados (como a Revolta dos Malês) foram respondidas não apenas com repressão direta, mas com estratégias sofisticadas de controle, deportação e reorganização da força de trabalho. A ideia de “repatriar” negros libertos para a África, apresentada como solução filantrópica, funcionou historicamente como mecanismo de expulsão dos elementos mais combativos e de estabilização da ordem escravista.</p>
<p style="text-align: justify;">A experiência da Libéria é emblemática. Fundada sob inspiração liberal estadunidense, ela rapidamente se converteu em um regime no qual ex-escravizados transformaram-se em classe dominante, reproduzindo relações de exploração brutal sobre a população autóctone. A identidade racial compartilhada não impediu a reprodução da dominação de classe. Pelo contrário: serviu como legitimação ideológica de um novo regime de opressão. Esses exemplos históricos desmontam qualquer ilusão de que a identidade, por si só, possa fundamentar um projeto emancipatório. Sem crítica da totalidade, sem análise das relações de classe e sem organização coletiva, a política identitária tende a oscilar entre o espiritualismo moral e a integração burocrática. Teses, protestos e exigências acabam resvalando — como advertia Emil Ludwig — do plano simbólico para o material sem mediações conscientes, abrindo espaço tanto para o autoritarismo quanto para a instrumentalização reacionária.O desafio que se coloca aos lutadores sociais hoje não é escolher entre identidade e classe, mas superar a falsa oposição entre ambas. Isso exige romper com o obscurantismo progressista, recuperar a crítica histórica e recolocar a organização popular no centro da política. Sem isso, a luta se fragmenta, o irracionalismo avança e o capital segue intacto, administrando tanto a miséria material quanto a miséria política.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158865" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893.jpg" alt="" width="818" height="538" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893.jpg 818w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893-300x197.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893-768x505.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893-639x420.jpg 639w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893-640x421.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893-681x448.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 818px) 100vw, 818px" /></p>
<p><em>As imagens que ilustram esse artigo são obras de Anish Kapoor.</em></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://passapalavra.info/2026/03/158864/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
