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	<title>Destaques &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>O “terceiro campo” revisitado: O internacionalismo proletário em meio à guerra e a “liberação” nacional</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/10/160140/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 Oct 2026 15:49:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[Há um ressurgimento preocupante da tendência de subordinar a crítica aos Estados, à guerra e à dominação capitalista a um campo nacional. Por Antithesi]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Antithesi</h3>
<p style="text-align: right;">Agosto de 2026</p>
<p style="text-align: justify;">O texto a seguir surgiu de uma série de encontros e trocas de ideias ao longo do último ano em torno da história e relevância atual do internacionalismo proletário. O que conferiu a esses debates uma urgência particular foi o ressurgimento preocupante do “campismo” nos meios radicais — e, cada vez mais, nos não tão radicais —: a tendência renovada de subordinar a crítica aos Estados, à guerra e à dominação capitalista ao apoio ao “mal menor”, a um campo nacional com base na opressão real da população que pretende representar, ou a forças identificadas com a “resistência ao imperialismo”. Da Ucrânia à Ásia Ocidental e Sudeste Asiático, a pressão para escolher entre campos imperialistas ou nacionais concorrentes tornou-se, mais uma vez, um problema político central.</p>
<p style="text-align: justify;">Várias conversas ocorridas em Paris na primavera de 2026 ajudaram a dar forma mais concreta a essas preocupações. Uma delas dizia respeito à tradução em andamento dos textos de Marie-Louise Berneri, extraídos de <em>War Commentary for Anarchism</em> e <em>Freedom</em>, que haviam sido reunidos em <em>Neither East Nor West</em>.<strong>[1]</strong> Outra tratava de Henri Simon — o comunista conselhista centenário e ex-membro de <em>Socialisme ou Barbarie</em>, falecido recentemente — e de sua relação com Henry Chazé, figura-chave tanto na <em>Union Communiste</em> quanto na Fração Francesa da Esquerda Comunista Internacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses encontros apontavam, para além de qualquer organização ou tradição política isolada, a uma história mais ampla do internacionalismo proletário, desenvolvida tanto nas correntes comunistas, como nas anarquistas em oposição à guerra capitalista e às formas políticas através das quais os proletários têm sido repetidamente subordinados: a colaboração de classes antifascista, a “libertação” nacional, as “guerras nacionais justas” e o alinhamento com um campo imperialista apresentado como “anti-imperialista”. Porém, recuperar essa história também levanta uma questão mais complexa do que simplesmente reafirmar uma posição internacionalista, ou do “terceiro campo”: <strong>por que essa posição permaneceu, em quase todos os casos a partir de 1920, uma posição minoritária dentro da classe?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O problema não era apenas debilidade numérica. Os grupos que mantiveram uma posição internacionalista raramente se conectavam, exceto de forma breve e parcial, com os movimentos de massa da classe à qual eles se dirigiam. Eles eram pequenos, clandestinos, perseguidos, teoricamente sólidos e organizativamente frágeis. Eles escreviam para a classe que, na esmagadora maioria dos casos, marchava na direção oposta — sob bandeiras nacionais, frentes antifascistas ou exércitos de liberação.</p>
<p style="text-align: justify;">A onda revolucionária de 1917-20 é a exceção óbvia: o momento em que se produziu, efetivamente, uma reversão do ponto de vista no nível das massas. Entre 1917 e 1920 — na Rússia, Alemanha, Hungria, partes da Itália, e os motins que abalaram os exércitos da Entente ao final da guerra — a recusa internacionalista da guerra converteu-se brevemente em uma força material. Os soldados confraternizaram-se através das trincheiras e se recusaram a lutar; as e os trabalhadores recusaram-se a produzir e formaram conselhos. A fórmula de Lenin “transformar a guerra imperialista em guerra civil” não era apenas um slogan; descrevia algo que realmente estava ocorrendo, impulsionado não primariamente pela organização bolchevique, mas pela exaustão, a raiva e a radicalização política de milhões de pessoas enviadas à morte em nome de interesses que, visivelmente, não correspondiam aos seus. O que tornou essa conexão possível não foi, primariamente, a correção de sua linha política. Foi a exaustão material de anos nas trincheiras, combinados com uma densidade organizativa preexistente na classe trabalhadora que pôde ser reativada em outro sentido. Até 1921 ou 1922, a onda revolucionária já havia sido derrotada em quase toda parte, e quando o ciclo de maior alcance de guerras seguinte chegou, nos anos 1930 e 1940, a posição internacionalista voltou a ser circunscrita, em larga medida, a pequenas minorias. Por que se produziu, então, essa conexão entre fatiga de guerra, organização de classe e internacionalismo revolucionário e por que não ocorreu novamente da mesma forma é a questão mais importante levantada por essa experiência — e que nós gostaríamos de manter aberta ao longo do debate.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O ponto de partida do internacionalismo proletário é o rechaço à pressão permanente exercida sobre os proletários e proletárias para escolher entre os campos estatais — um rechaço baseado no reconhecimento de que a guerra não é uma aberração do funcionamento normal do capitalismo, mas sua condensação: a competição entre Estados por mercados, territórios e mão de obra, a reorganização da produção por meio da destruição e a imposição de uma disciplina que os tempos de paz nem sempre puderam impor. Essa pressão não aparece apenas como patriotismo ou nacionalismo suprematista. Ela toma a forma de antifascismo, liberação nacional, defesa da democracia, anti-imperialismo, resistência à ocupação ou apoio ao mal menor. Em todos os casos, abandona-se a autonomia proletária em nome de uma tarefa política supostamente mais urgente.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa tendência, frequentemente chamada de “terceiro campo” proletário ou “terceira opção”, recusa a lógica do “mal menor” entre as máquinas estatais. Um capitalismo mais débil em conflito com um mais forte segue sendo capitalismo. Um Estado dominado ou atacado não deixa de organizar a exploração, a disciplina laboral, o controle policial de populações e de unir as classes sob a forma da nação. A nação é uma das formas políticas por meio das quais o antagonismo de classe é deslocado: uma sociedade dividida pela exploração se apresenta como uma comunidade comum de cidadãs e cidadãos, associados por um interesse compartilhado, um destino comum e, em tempos de guerra, por um inimigo comum. A derrota de um bloco imperialista se limita a alterar o equilíbrio das forças nos marcos da competição global; não é a vitória da classe trabalhadora, nem um passo em direção à sua autoabolição. Nem sequer desafia o imperialismo <em>per se</em>. As máquinas de guerra democráticas, os movimentos de liberação nacional e os oponentes autoritários ou teocráticos do ocidente exigem, em diferentes linguagens, a mesma renúncia: a suspensão da luta de classes autônoma em nome de uma necessidade política maior.</p>
<p style="text-align: justify;">A clareza política da corrente internacionalista não advém do sectarismo, nem do isolamento enquanto tal. Advém do fato de que essas e esses militantes foram obrigados, por conta do desenvolvimento reacionário do próprio movimento operário, a quebrar com as formas através das quais o movimento estava sendo incorporado ao Estado, à nação e ao esforço de guerra. Sua clareza foi forjada, portanto, por meio de sucessivas rupturas: com o patriotismo social em 1914, com o stalinismo, com a defesa da URSS, com a colaboração de classe anti-fascista, com a liberação nacional enquanto modernização e construção do Estado, e com qualquer ideia segundo a qual a emancipação proletária passaria pela vitória de um Estado ou de um campo imperialista.</p>
<p style="text-align: justify;">A condição dos minoritária dos grupos explicitamente internacionalistas não deve ser interpretada como ausência de resistência à guerra. A mobilização bélica nunca é puramente ideológica ou voluntária. Requer disciplina, coerção, medo, propaganda, a coação legal e controle policial da população. A evasão do recrutamento, a deserção, a desobediência militar, a recusa em participar da produção bélica, a exaustão social, as greves e a hostilidade ao Estado, tudo isso pode enfraquecer o esforço de guerra sem implicar, de forma consciente e explícita, uma postura internacionalista. A questão política premente é em que medida tais recusas podem ser transformadas em um repúdio de classe da guerra capitalista e de todos os Estados nacionais, ao invés de serem absorvidas pelo pacifismo, o humanismo democrático, o nacionalismo ou o campo rival.<img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160146" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web.jpg" alt="" width="1030" height="685" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web.jpg 1030w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web-1024x681.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web-768x511.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web-632x420.jpg 632w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web-640x426.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web-681x453.jpg 681w" sizes="(max-width: 1030px) 100vw, 1030px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Os textos reunidos em nossa publicação<strong>[2]</strong> devem ser lidos não como uma doutrina imutável, mas como tentativas situadas de formular uma resposta de classe em momentos em que o proletariado se viu pressionado a tomar parte de mobilizações nacionais, antifascistas, democráticas ou anti-imperialistas. Cada caso aborda o mesmo problema a partir de um ângulo histórico diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira formulação aparece com particular clareza na resposta do anarquismo japonês à invasão da Manchúria, em 1931. A Federação Libertária Japonesa escreveu de dentro de um país imperialista agressor. Seu alvo prioritário era o Estado japonês, seu exército, sua classe capitalista e o discurso patriótico mediante o qual se justificava a invasão. Nesse texto, a pátria não é uma comunidade formada por explorados e seus exploradores. É a forma política por meio da qual se pede aos pobres que suportem a fome, o frio e a morte, enquanto a classe dominante obtém lucro e poder.</p>
<p style="text-align: justify;">O que principal aqui é que a denúncia do imperialismo japonês não se transmuta em apoio ao campo nacional oposto. A Federação Libertária Japonesa indaga quem se beneficiaria caso a influência japonesa fosse anulada na China em virtude da vitória do movimento de liberação nacional. Sua resposta é: não os trabalhadores os campesinos chineses enquanto força social autônoma, mas a burguesia chinesa ascendente e os capitais estrangeiros em competição com o Japão. Essa foi uma das primeiras formas da dupla recusa, desenvolvida de modo mais claro nos textos posteriores da nossa publicação.</p>
<p style="text-align: justify;">O texto se refere especificamente à posição tomada por Kropotkin, em 1914 — apoiando a Entente por considerar o militarismo alemão o perigo maior. Os anarquistas japoneses consideraram isso um erro fatal. Assim que um imperialismo é considerado suficientemente pior para justificar o apoio ao outro, o internacionalismo já foi dissolvido na lógica da guerra entre Estados. O problema é aceitar que se peça aos proletários e às proletárias que avaliem qual classe dominante deveria derrotar a outra.</p>
<p style="text-align: justify;">A <em>Union Communiste</em> desenvolveu a mesma questão de uma comunista mais sistemática durante a Guerra Sino-Japonesa de 1937. A experiência espanhola já havia estabelecido suas bases: A Frente Popular havia mostrado que o apoio “crítico” à burguesa democrática equivalia a reforçar o aparato que havia esmagado as trabalhadoras e trabalhadores de Barcelona em maio de 1937 e eliminado as forças que não podiam ser subordinadas à linha nacional-democrática &#8211; o POUM e as correntes anarquistas mais radicais. Sua polêmica contra Trotski é central. Trotski argumentava que a China, um país semicolonial atacado pelo Japão, liderava uma guerra nacional progressista a ser apoiada pelos revolucionários, de modo a manter, ao mesmo tempo, uma independência política de Chiang Kai-shek.</p>
<p style="text-align: justify;">A <em>Union Communiste </em>rechaçou essa distinção entre apoio militar e independência política. A questão não era qual lado havia sido atacado. A defesa nacional é organizada por intermédio do Estado burguês, seu exército e sua liderança política; apoiá-la significa, portanto, reforçar o aparato mediante o qual se subordina a classe trabalhadora. Na China, isso supunha fortalecer o poder militar e burocrático de Kuomintang — a mesma força burguesa que havia esmagado a revolução operária de 1926-27. Um aparato estatal construído em nome da guerra anti-imperialista não se torna inócuo porque o apoio a ele é qualificado de “crítico”. A disciplina da guerra nacional transforma o “apoio crítico” em participação prática no esforço nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante a Segunda Guerra Mundial, a mesma questão reapareceu na forma de antifascismo e de defesa da União Soviética. Esse alinhamento em massa foi a culminação do desarmamento político do proletariado durante o período entreguerras, em que a integração institucional da classe trabalhadora ao Estado democrático pela social-democracia e a política stalinista das Frentes Populares, a qual transformou a luta de classes na defesa antifascista da democracia burguesa, já havia minado qualquer base para a autonomia da classe. Para a maior parte da esquerda, a guerra se apresentava como a luta entre o fascismo e a democracia ou como uma guerra em que a URSS tinha que ser defendida, apesar do stalinismo. Nesse momento, os grupos internacionalistas haviam rompido não apenas com o stalinismo, mas com a posição trotskista de que a Rússia, enquanto um Estado degenerado operário, devia ser defendida contra o imperialismo — uma lógica que, em última instância, contribuiu para a subordinação das massas proletárias em todo o mundo ao campo imperialista Aliado.</p>
<p style="text-align: justify;">As minorias internacionalistas na Europa ocupada tentaram manter outra posição. Os <em>Revolutionären Kommunisten Deutschlands</em> (RKD), o <em>Groupe Révolutionnaire Prolétarien/Union des Communistes Internationalistes</em> (GRP/UCI), frações da esquerda comunista e a rede anarquista em torno de André Arru, que operava desde Marseille e Toulouse, opuseram-se ao nazismo e à ocupação alemã, mas também ao imperialismo Aliado, ao stalinismo, às frentes de resistência nacional baseadas na colaboração de classe e a restauração da ordem capitalista sob o nome de “Liberação”. Esses grupos produziram panfletos em alemão e francês, dirigindo-se aos soldados alemães enquanto proletários uniformizados, em vez de meros instrumentos do Estado nazista, e chamaram à confraternização, deserção, recusa à disciplina e à luta contra todos os Estados. Tentaram romper a coesão nacional imposta por meio da guerra, intervindo politicamente nas próprias fileiras do próprio exército. E, certamente, isso não supunha a negação da realidade da ocupação alemã, nem do terror nazista; tratava-se da recusa de traduzir essa realidade em apoio ao campo Aliado, à resistência patriótica ou ao Estado soviético. Alguns militantes foram presos, deportados ou mortos. Karl Fischer da RKÖ apenas sobreviveu à repressão nazista para ser sequestrado após a guerra pelo aparato soviético e enviado ao Gulag.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa tendência não estava ausente no contexto grego. A corrente em torno de Aghis Stinas — através de suas formas sucessivas de organização durante a Ocupação — manteve uma posição internacionalista dentro da Grécia ocupada, tanto frente ao Eixo como ao campo Aliado, e contra a linha da unidade nacional do EAM/ELAS, a qual identificava como uma subordinação da classe trabalhadora ao imperialismo Aliado. A posição internacionalista se manteve não apenas nos centros metropolitanos da Europa ocidental, mas também em um país submetido a condições de extrema repressão, onde a pressão no sentido da unidade nacional foi uma das mais intensas.<strong>[3]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No contexto da Itália, as greves de março de 1943 em Turim, Milão e os centros industriais do norte mostraram que poderia surgir uma verdadeira ruptura da classe operária no seio do Estado agressor, impulsionada pela fome, a exaustão e o ódio à disciplina fascista. Mas essa ruptura foi absorvida mais tarde no quadro da liberação nacional antifascista, sobretudo por intermédio do PCI e CLN, a coalizão transclassista de Liberação Nacional que unia comunistas, democrata-cristãos e até monarquistas. Os textos de nossa compilação, escritos em torno da conjuntura italiana por grupos da Grã-Bretanha e da França ocupada — sem que houvesse qualquer comunicação entre eles —, registram essa situação de forma quase idêntica. Os textos de Berneri recusam a identificar os bombardeamentos dos Aliados com a liberação e os justapõem com as greves dos trabalhadores e a sabotagem na Itália para desmascará-los como um meio de impor a “ordem” capitalista; os textos da esquerda comunista atacam esse mesmo processo como uma contrarrevolução preventiva encaminhada à restauração da ordem capitalista por meio do antifascismo e nacionalismo. O que o quadro da liberação nacional suprimiu foi a possibilidade de que a revolta operária contra o fascismo e a guerra excedessem os limites da reconstrução do Estado antifascista e se transformassem em guerra de classes.</p>
<p style="text-align: justify;">Na França, a “liberação” de Paris em 1944 colocou brevemente a questão se acaso essas minorias internacionalistas poderiam se ligar com um movimento operário mais amplo. Militantes do GRP/UCI e do RKD participaram no comitê de greve na Renault. Por um instante, a expectativa de uma onda revolucionária não era absurda. Mas essa abertura foi logo fechada. A influência stalinista nos locais de trabalho, o retorno da ordem estatal e a estabilização trazidas pelos exércitos Aliados limitaram as possibilidades. Os grupos que haviam preservado uma posição internacionalista ao longo dos anos de repressão careciam das bases e envergadura necessárias para influenciar a situação quando a oportunidade surgiu brevemente. Somente a clareza intelectual não pode produzir, sozinha, uma força mais ampla; isso depende do nível da organização de classe, da desintegração da disciplina militar, do enfraquecimento da legitimidade do Estado e a possibilidade de conectar recusas isoladas em um movimento comum.</p>
<p style="text-align: justify;">A revista <em>War Commentary</em>, na Grã-Bretanha, não funcionou sob a ocupação alemã, mas dentro de um dos Estados imperialistas democráticos vencedores. O internacionalismo não é colocado à prova unicamente sob a ditadura ou a ocupação; também se põe à prova dentro da democracia, quando o Estado democrático exige disciplina laboral, censura, obediência militar e silêncio em nome do esforço de guerra antifascista. Os anarquistas ligados à <em>War Commentary</em> defendiam que a Grã-Bretanha não estava lutando por liberdade contra o fascismo. Tratava-se, antes, de um Estado imperial defendendo suas colônias, mercados, rotas mercantis, bem como sua posição global. A guerra antifascista era uma guerra capitalista. A exigência de que os trabalhadores apoiassem o esforço de guerra significava a incorporação à disciplina do Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso eram importantes suas tentativas de chegar aos soldados. <em>War Commentary</em> dirigia-se às tropas não como partes de uma instituição nacional supostamente neutra, mas como a massa de trabalhadores uniformizados, sujeitos à disciplina, porém capazes de discutir, rebelar-se e revoltar-se. Por meio da seção de correspondência com soldados, a <em>Forces Newsletter </em>e as referências a antigos motins e conselhos de soldados, a publicação pretendia abrir um canal de comunicação dentro das próprias forças armadas. O processo judicial movido em 1945, acusando-os de conspiração com o objetivo de causar descontentamento nas forças armadas, revelou os limites da tolerância democrática, mesmo no momento em que a guerra chegava ao fim e a desmobilização ameaçava converter novamente os soldados em uma força social volátil. O perigo não era uma iminente revolta militar, mas a possibilidade de que os soldados que voltavam para casa — trabalhadores uniformizados, logo retornando às lutas nos locais de trabalho, nas ruas e nas lutas por moradia<strong>[4]</strong> — poderiam trazer a rebeldia de volta à vida civil. A tentativa do <em>War Commentary</em> de se dirigir a eles como proletários pensantes, em vez de súditos militares obedientes, atingiu, portanto, uma verdadeira linha de fratura na transição da guerra para a ordem do pós-guerra.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão colonial, no entanto, expôs o limite desse grupo. O texto de Albert Meltzer de 1942 sobre a independência nacional ainda admitia que as lutas de independência nacional poderiam, em determinadas condições, adquirir um conteúdo progressista. Isso aponta para uma dificuldade persistente: como opor ao seu próprio Estado imperial e apoiar as lutas do povo colonizado, sem politicamente endossar movimentos nacionalistas que, simplesmente, não farão do que reproduzir a dominação de classe sob uma outra bandeira.</p>
<p style="text-align: justify;">No contexto colonial propriamente dito, o relato de Ngo Van sobre o Vietnã no período imediatamente após a Segunda Guerra Mundial é de grande importância, na medida em que torna essa dificuldade brutalmente concreta. Sua perspectiva veio da experiência imediata do colonialismo francês, a ocupação japonesa, o colapso da autoridade japonesa, a intervenção britânica, o retorno da intervenção francesa e a ascensão de Viet Minh. Em 1945, houve um breve momento, durante o vácuo de poder que foi criado com a retirada dos japoneses, em que os operários e camponeses pobres atuaram de forma indepentente. Nas minas de Hongay-Campha, os trabalhadores tomaram o controle da produção e formaram conselhos. Em Saigon, comitês independentes e militantes internacionalistas da oposição de esquerda reivindicaram armas, controle operário e terra para os camponeses e formaram comitês populares. Esses movimentos foram esmagados não somente pelas forças coloniais, mas também pelo Viet Minh. O assassinato de militantes da oposição de esquerda não foi um excesso acidental. Refletia a lógica da liberação nacional como construção do Estado: as forças que não podiam ser subordinadas à nova autoridade nacional deviam ser eliminadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Escrevendo posteriormente, em 1968, durante a Guerra do Vietnã, Ngo Van não minimizou a violência do imperialismo americano, mas recusou que essa violência se tornasse uma razão para apoiar o Estado de Ho Chi Minh. Sua posição era que os trabalhadores vietnamitas e os camponeses não tinham nada a ganhar nem com o capitalismo americano, nem com o capitalismo de Estado do Vietnã do Norte. A liberação nacional correspondia a uma mudança de patrões. A administração colonial podia até se retirar, mas a exploração se reorganizava em mãos de uma burocracia nacional, pelo partido-Estado e pela emergente classe dominante nacional. Sua percepção mostrou-se totalmente correta.</p>
<p style="text-align: justify;">No Vietnã, o risco de que o apoio a uma guerra nacional levaria ao estabelecimento de um regime capitalista de Estado não era mais uma antecipação teórica: havia se convertido em experiência histórica. O movimento nacional havia mostrado que, para monopolizar o poder estatal, destruiria as iniciativas autônomas do proletariado e do campesinato. A crítica da liberação nacional de Ngo Van não advinha, por conseguinte, da indiferença ante à dominação colonial, mas da experiência de uma luta em que a guerra anticolonial se havia transformado na formação de um novo poder estatal contra as mesmas forças sociais que dizia representar.</p>
<p style="text-align: justify;">A Guerra do Vietnã nos anos 1960 lança uma luz diferente à análise das mobilizações contra a guerra e a insubordinação dos soldados. O fracasso do exército americano não foi simplesmente uma derrota no campo de batalha, mas o resultado de uma insubordinação de classe generalizada. A resistência dentro do exército e da sociedade civil — deserção, imprensa clandestina dos soldados, recusas em ir a combate, assassinatos de oficiais por parte dos próprios subordinados, <strong>[5]</strong> quebras de disciplina, e exaustão de uma classe operária recrutada — minou a capacidade do Estado americano de continuar a guerra. Essa resistência não se cristalizou em um movimento proletário internacionalista; manteve-se em larga medida pacifista, democrática e, em termos gerais, anti-imperialista. Ainda assim, mostra que a recusa mais ampla à guerra pode adquirir importância material até mesmo quando o internacionalismo explícito do “terceiro campo” permanece minoritário. O problema é como explicar e conectar tais recusas sem que sejam absorvidas pelo pacifismo liberal, o apoio ao campo rival ou um anti-imperialismo que não atenta para o conteúdo de classe das forças em oposição.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse sentido, é relevante, e contrário às posições acríticas sobre a liberação nacional prevalentes hoje, o manifesto de Paris de 1976 dos comunistas árabes e israelenses, publicado na revista <em>Khamsin</em>, que desenvolve a crítica simultânea do sionismo, o Estado israelense, os regimes árabes, as organizações nacionais palestinas e as forças imperialistas ativas na região. O Estado israelense é analisado como capitalismo de Estado sionista, baseado no deslocamento em massa, dominação militar e violência brutal contra a população palestina, bem como na incorporação das trabalhadoras e trabalhadores judeus à defesa nacional e ao projeto sionista nacionalista e expansionista, que implica a limpeza nacional e, recentemente, o genocídio. Ao mesmo tempo, as trabalhadoras e trabalhadores judeus não são reduzidos a uma mera extensão do Estado. O conflito de classes, as greves selvagens, as hierarquias internas e a revolta social daquela época ainda eram uma realidade no interior da sociedade israelense e permaneceram politicamente relevantes. Hoje, a correlação de forças de classe é distinta e as ideologias nacionalistas reacionárias têm muito mais peso — não apenas em Israel, mas em toda a região e a nível internacional.</p>
<p style="text-align: justify;">A crítica do “Manifesto” ao nacionalismo palestino não é secundária em relação à crítica ao sionismo. Esta rechaça tanto a estratégia orientada ao Estado da OLP, como a alternativa negacionista que se opunha a qualquer compromisso em nome da liberação nacional total e a destruição do Estado de Israel. Essas posições diferiam em termos táticos, mas compartilhavam o mesmo horizonte: a organização das proletárias e proletários palestinos como um povo nacional representado pelas lideranças políticas e militares. A emancipação não pode ser igualada à construção de um Estado, à vitória de um exército nacional ou um reconhecimento diplomático de uma liderança nacional. A posição defendida por essas e esses camaradas era clara: um Estado palestino pode eliminar o álibi do nacionalismo árabe e colocar as trabalhadoras e os trabalhadores palestinos frente a frente com sua própria classe dominante; porém não constituiria sua emancipação.</p>
<p style="text-align: justify;">A paz entre os Estados, ou entre atores estatais e quase estatais, não é o oposto à guerra. É uma nova organização da mesma realidade: fronteiras, acordos securitários, medidas policiais, reconhecimento diplomático, gestão de populações, reconstrução e novas formas de incorporação a economias nacionais. Nesse sentido, a paz dá continuidade ao conteúdo de classe por outros meios. Não elimina as forças que organizaram o conflito, mas estabiliza potencialmente sua relação e redistribui seus papéis.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa dinâmica se aplica ao presente sem anacronismos. Acordos temporários, cessar-fogos, trocas de prisioneiros ou reféns, mecanismos de reconstrução e garantias securitárias tornam-se potencialmente aceitáveis para atores como Hamas, Irã, Catar, Israel e Estados Unidos, cada qual de acordo com suas próprias razões e estratégias. Porém, tais acordos não podem ser igualados aos interesses das proletárias e proletários palestinos. Regulam as condições sob as quais os palestinos seguem sendo governados, vigiados, expulsos, contidos, empregados, desempregados, dependentes de auxílio ou mesmo assassinados em massa.</p>
<p style="text-align: justify;">O último de nossa compilação, de Arya Zahedi sobre o Irã, traz para o presente a crítica do “campismo” anti-imperialista. O conflito entre o Estado iraniano com os Estados Unidos, Israel e com o Ocidente é novamente tratado por tais “anti-imperialistas” como razão suficiente para deixar de lado seu caráter de classe, sua brutal repressão de classe e das lutas sociais, bem como sua função na dominação capitalista na Ásia ocidental. A República Islâmica utiliza o conflito externo para impor violentamente a disciplina interna: para reprimir greves, esmagar o movimento das mulheres, impor a austeridade, a polícia moral, reprimir as minorias e apresentar a luta social como traição em um momento de estado de emergência nacional. Isso não é exclusividade do Irã. Todos os Estados utilizam o perigo externo para exigir a unidade interna. O que é específico hoje é que setores da esquerda internacional aceitam essa lógica quando o Estado em questão confronta os Estados Unidos, Israel ou o Ocidente, sem o pretexto do caráter socialista do Estado, nem de uma “terceira via” rumo ao socialismo, como no passado.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado é previsível: trabalhadores, mulheres, migrantes, minorias e prisioneiros que combatem o regime desaparecem de vista quando caem as bombas. O esforço de guerra do Estado é requalificado de “resistência”; aqueles que são explorados e reprimidos pelo Estado passam para o plano secundário. O conflito com um imperialismo mais forte não transforma um Estado em um agente da emancipação. Simplesmente faz com que o Estado seja mais efetivo internamente, já que a dissidência pode ser criminalizada como traição.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse problema vai além da velha esquerda: stalinismo, democracia social, antifascismo patriótico ou o clássico campismo anti-imperialista. Afeta correntes que se apresentam como uma crítica radical do marxismo tradicional. Não obstante, essas correntes não devem ser equiparadas entre si. A teoria da comunização, a crítica do valor, o marxismo influenciado por Postone, a herança da Escola de Frankfurt e a política antialemã têm histórias diferentes e levam frequentemente a conclusões políticas opostas. No entanto, algumas versões dessas correntes compartilham uma tendência comum: o proletariado aparece tão completamente integrado ao capital que não pode mais ser pensado como o sujeito contraditório da transformação comunista.</p>
<p style="text-align: justify;">A abordagem da <em>Théorie Communiste</em> é mais sutil. TC não se limita a reproduzir a teoria da total subsunção do proletariado ao capital. Porém se recusa, igualmente, a localizar a superação comunista na possível constituição da classe trabalhadora como a classe para si: qualquer autonomia positiva ou autoafirmação do proletariado permanece, para TC, uma afirmação de um dos polos da relação de capital e, portanto, um limite a ser superado. O problema é que, uma vez que a atividade autônoma da classe fica reduzida a tal limite, a passagem para além da relação de capital não pode emergir através do desenvolvimento e generalização daquela mesma atividade. Antes, é localizada estruturalmente na transformação da relação de classe: a superfluidade crescente do trabalho para a valorização e na separação cada vez maior entre a reprodução do proletariado e a valorização de sua força de trabalho. A abolição do proletariado tende, assim, a aparecer menos como o desfecho possível de sua própria atividade autônoma e contraditória do que como o resultado de uma contradição produzida pelo próprio capital, que acaba convertendo o pertencimento de classe em uma restrição externa que é logo abolida pelas medidas de comunização de uma população cuja afirmação como classe se tornou impossível.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossa crítica a essas posições não consiste em apegar-se a um culto nostálgico e “trabalhista” ao trabalho e da fábrica. O horizonte comunista não é a auto-afirmação do proletariado enquanto uma classe no interior do capitalismo, mas a abolição do capital enquanto relação social e, portanto, do proletariado enquanto tal. O problema surge quando a crítica necessária da auto-afirmação do proletariado se converte em uma negação teórica da capacidade da classe de transformar a si mesma por meio de suas próprias lutas. Caso o proletariado seja entendido apenas como inteiramente subsumido ao capital, integrado em uma “sociedade totalmente administrada” ou, ainda, nada mais do que um polo da relação de capital, então a possibilidade de ruptura tende a ser deslocada para outro lugar. Às vezes, é transferida para as populações excedente, migrante, racializada, absolutamente excluída ou indefinidamente nomeada de “os bárbaros”. Por vezes, é transferida aos movimentos de liberação nacional, cujo conteúdo de classe permanece sem análise. Em outros casos, especialmente em meios antialemães, o deslocamento se move na direção oposta: em direção à defesa de um Estado existente, ou seja, Israel, como uma suposta barreira contra a barbárie antissemita.</p>
<p style="text-align: justify;">A trajetória dos antialemães é um caso em que a ideia inicial já continha o germe de seu desenvolvimento posterior. É bem verdade que em setores da esquerda alemã havia uma tendência a tratar o antissemitismo e o Holocausto como o mero fato de mencionar o fascismo, o capitalismo ou o imperialismo em geral bastasse para compreender sua forma histórica determinada. Mas os antialemães responderam a isso separando essa forma histórica da relação de classe, do Estado capitalista e da história material da violência imperialista. O resultado não foi uma análise dialética do antissemitismo como um momento específico no interior da totalidade capitalista, mas sim a elevação dessa particularidade ao estatuto de excepcionalidade política. O antissemitismo não é simplesmente um racismo entre outros, nem o Holocausto é um massacre de Estado entre outros; porém, nenhum dos dois pode ser entendido como uma singularidade não derivada, separada da totalidade social capitalista que produziu o Estado moderno, a racialização, a concorrência imperial e o nacionalismo exterminador. O erro dos antialemães não foi, portanto, apenas apoiar mais tarde Israel, os Estados Unidos ou a OTAN. Já estava presente na própria forma da correção: em vez de derivar a particularidade da totalidade, terminaram por contrapor cada vez mais a particularidade à totalidade.<img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160147" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d.webp" alt="" width="1200" height="628" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d.webp 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d-300x157.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d-1024x536.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d-768x402.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d-803x420.webp 803w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d-640x335.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d-681x356.webp 681w" sizes="(max-width: 1200px) 100vw, 1200px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A partir daí, Israel foi despojado da sua realidade como Estado capitalista com as suas próprias relações de classe, sua violência nacionalista e sua função geopolítica, e foi elevado à condição de portador privilegiado da memória histórica e da razão antifascista. A defesa de Israel derivou de forma imperceptível em uma apologia do poder dos EUA e da OTAN, recodificada em defesa da civilização contra a barbárie antissemita. Não se trata de um desvio menor em relação à crítica original. É, antes, a sua <em>reductio ad absurdum</em>: a teoria crítica da integração total, levada ao seu extremo, que gera um apoio acrítico ao poder existente. Essa trajetória merece ser nomeada e descrita precisamente porque mostra até que ponto o deslocamento da emancipação para fora das relações de classe pode inverter a intenção política original.</p>
<p style="text-align: justify;">As consequências políticas da concepção da TC tornam-se mais evidentes em seu debate com Minassian sobre Gaza.<strong>[6]</strong> Na sua análise de Gaza, TC reconhece corretamente a fragmentação do proletariado palestino e a sua produção em “população excedente”. O problema reside no que se entende por atividade de classe autônoma. Para TC, a auto-organização proletária continua a ser uma afirmação da classe no âmbito da relação de capital e, por conseguinte, um limite a ser superado. Dado que a auto-organização implica que a classe atue estritamente como tal, ela pode adotar em si mesma formas nacionais ou outras formas de incorporação. A distinção entre auto-organização e autonomia de classe fica, assim, difusa. A autonomia já não designa uma tendência no interior da luta através da qual os proletários entram em conflito com as formas que os organizam como classe do capital, mas é tratada como a busca de uma atividade de classe supostamente pura, separada dessas determinações. Daí a acusação de “pureza conceitual” contra as tentativas de identificar tendências autônomas no interior das lutas da população palestina. O resultado é paradoxal: uma vez que a auto-organização nacionalista pode ser aceita como a forma efetiva de luta proletária, enquanto que distinguir os antagonismos que a atravessam é considerado suspeito de impor uma pureza abstrata, as “bandeiras disponíveis” dos proto-Estados nacionais ou religiosos tendem a tornar-se as formas de luta praticamente ineludíveis. O que fica assim privado de significado político independente são, precisamente, as lutas reais e os atritos materiais dirigidos contra o Hamas enquanto burocracia governante.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso tem consequências para além da própria análise de TC. Converge politicamente com uma esquerda “anti-imperialista” mais ampla que vigia violentamente essa fronteira nacional, difamando de forma preventiva a própria perspectiva de uma solidariedade para além das fronteiras nacionais — ou qualquer tentativa de enquadrar o conflito em termos de classe em vez de nação — como expressão de uma “mentalidade colonialista” ou de um “sionismo liberal”. Em última instância, esse enfoque trata o aparelho capitalista da liberação nacional como um limite insuperável da luta, rendendo a posição internacionalista à lógica do mal menor.</p>
<p style="text-align: justify;">O apoio à resistência nacional palestina e o apoio ao Estado israelense são, obviamente, resultados políticos distintos. No entanto, subjacente a essas diferenças políticas evidentes, reside um deslocamento teórico familiar: a emancipação já não se situa nas lutas contraditórias do proletariado contra a sua própria constituição capitalista. Em vez disso, a atividade transformadora tende a ser buscada seja nas determinações sob as quais a classe está atualmente organizada, seja em outras figuras privilegiadas de negatividade, seja, ainda, totalmente fora da autoatividade proletária — na nação oprimida, no sujeito excluído, na identidade vitimizada, na negatividade abstrata ou num Estado que afirma defender a civilização contra a barbárie.</p>
<p style="text-align: justify;">O nosso ponto de partida é diferente. Não exige uma crença ingênua num sujeito revolucionário já constuído. O proletariado não é revolucionário por ser puro, externo ao capital ou já consciente da sua tarefa. É importante porque é produzido pelo capital, disciplinado pelo capital e, ainda assim, capaz, em meio à luta, de interromper a reprodução da relação que o constitui. O problema não pode ser resolvido pela redução do significado político das lutas do proletariado à sua integração no capital. Não se trata de substituir o antigo sujeito-trabalhador afirmativo por outra figura purificada de negatividade — o chamado “abjeto”, as populações excedentes ou um mecanismo estrutural que se supõe produzir a ruptura por si mesmo —, mas sim trabalhar através das recusas contraditórias que emergem dentro das próprias relações sociais capitalistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso nos leva de volta ao Vietnã. A história da Guerra do Vietnã é importante não porque oferece um modelo replicável, mas porque localiza o terreno onde a intervenção internacionalista deve operar. A recusa da guerra começa quase sempre sob formas confusas, parciais e não programáticas. Não obstante, é precisamente esse espaço de resistência espontânea que fornece a base material para uma ruptura internacionalista proletária com a máquina de guerra nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso também nos leva de volta à questão com que começamos: por que essa resistência espontânea raramente se cristalizou numa ruptura de massas comparável à que ocorreu entre 1917 e 1920? Para responder a isso, temos que olhar para além da derrota ideológica. A ausência de uma onda internacionalista comparável nas décadas seguintes resultou de uma profunda mudança estrutural. A “densidade organizativa” material que possibilitou motins, a confraternização e o surgimento da forma conselho foi sistematicamente desmantelada. Por um lado, as formas autônomas de organização de classe foram fisicamente esmagadas ou institucionalmente integradas ao aparelho de Estado através da burocratização sindical, da social-democracia e do stalinismo. Por outro lado, a própria composição da classe sofreu uma transformação radical: sucessivas ondas de reestruturação capitalista, desindustrialização e fragmentação de comunidades operárias compactas dissolveram a antiga base material da ação coletiva. Por conseguinte, o problema hoje não é simplesmente como reviver os modelos organizativos de 1917, mas como a recusa contemporânea à guerra pode adquirir um conteúdo de classe e tornar-se uma força material no interior da realidade estruturalmente fragmentada do proletariado atual.</p>
<p style="text-align: justify;">O rearmamento europeu coloca este problema com urgência nos dias de hoje. Os governos falam a linguagem da preparação militar e da defesa nacional, mas a disposição de lutar não é algo de que o Estado dispõe por si mesmo. Deve ser produzida mediante o medo, a disciplina, a propaganda, as fronteiras, as leis de recrutamento e a punição. A vontade política de lutar — no sentido de uma identificação voluntária em massa com os projetos militares nacionais — é notavelmente débil em toda a Europa hoje. A Ucrânia é o indicador mais nítido disso: o recrutamento forçado, a evasão generalizada do serviço militar e a fricção social interna gerada pelo custo da guerra contradizem por completo o mito de uma população uniformemente unida por trás da bandeira. Isso não significa que os trabalhadores e soldados ucranianos tenham adotado uma posição proletária internacionalista, pelo menos não num sentido organizado. Contudo, a defasagem entre o que o Estado necessita e o que as pessoas estão dispostas a aguentar é uma fratura real — o tipo de fratura em que temos que trabalhar.</p>
<p style="text-align: justify;">Em última análise, a história que estamos analizando nos leva mais a um problema prático do que a uma conclusão definitiva: em que condições pode a posição internacionalista intervir nas fraturas reais da mobilização de guerra e ajudar a transformá-las numa ruptura de classe com o Estado, a nação e a organização capitalista da vida? Estas fraturas não são imediatamente revolucionárias e podem ser absorvidas pelo pacifismo ou pelo “campismo” — uma tendência visível, por exemplo, no significado político contestado das mobilizações dos trabalhadores portuários contra os carregamentos de armas. Mas sem elas, o “terceiro campo” continua a ser uma fórmula abstrata.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Antithesi, (21 de junho &#8211; 11 de agosto de 2026) Traduzido por Yasmin</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Marie Louise Berneri, Neither East Nor West: Selected Writings, Freedom Press, Londres, 1952. Agradecemos especialmente aos nossos companheiros em Paris pelas conversas que ajudaram a dar início a este projeto: por trazerem os escritos de Berneri para nossas discussões e por chamarem nossa atenção para a relação entre Henry Chazé e Henri Simon. Agradecemos particularmente pelo trabalho que está sendo realizado sobre a correspondência entre eles, o que despertou nossa curiosidade e nos incentivou a explorar mais a fundo essas conexões.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Referência à publicação recente do grupo na Grécia: 100 anos contra todos os campos: internacionalismo proletário, guerra e revolução [100 χρόνια ενάντια σε κάθε στρατόπεδο: Προλεταριακός διεθνισμός, πόλεμος και επανάσταση], uma coletânea de textos escritos em contextos de guerra, ocupação, domínio colonial e repressão, por anarquistas antimilitaristas, comunistas de esquerda e conselhistas, internacionalistas da Europa ocupada e combatentes das colônias, que compartilham uma postura comum: a emancipação do proletariado não passa pela vitória de nenhuma pátria ou governo, nem pela burguesia nacional ou “anti-imperialista”. (N. T.)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Essa corrente política, no entanto, não deve ser analisada isoladamente do contexto social mais amplo da Grécia ocupada. As primeiras ondas de greves, manifestações e ações coletivas em Atenas não surgiram de um aparelho do EAM já consolidado. No início da Ocupação, o mecanismo organizacional do Partido Comunista tinha sido gravemente abalado pela ditadura, pelas prisões, pelo exílio e pela infiltração policial. Muitas das lutas iniciais surgiram, em vez disso, das pressões materiais imediatas da fome, da queda dos salários, das cozinhas de caridade, do trabalho forçado, das condições hospitalares e da questão da sobrevivência física. Em vários casos, operários, funcionários, inválidos da frente albanesa, doentes de tuberculose e comités locais agiram antes ou mesmo contra as hesitações iniciais da liderança do EAM/EEAM, que, no entanto, acabou por apoiar, coordenar e absorver politicamente estas iniciativas. (N. A.) A questão, portanto, não é opor uma espontaneidade pura à organização. Pelo contrário, o caso grego mostra como a hegemonia do EAM se formou através de um processo de intervenção em lutas que inicialmente a precederam. O que mais tarde surgiu como um movimento unificado de libertação nacional continha em si uma história mais desigual de autoatividade social: iniciativas nos locais de trabalho, comitês hospitalares, protestos contra a fome e greves que tiveram início a partir da reprodução concreta da vida da classe trabalhadora sob a ocupação. A crítica internacionalista de Stinas ganha parte do seu significado neste contexto. Insistiu que estas rupturas sociais não deveriam ser subordinadas à reconstrução de uma frente nacional, quer sob os auspícios dos Aliados, quer sob a liderança política do EAM. (N. A.)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> No verão e no outono de 1946, num contexto de grave escassez de moradia, desmobilização e austeridade do pós-guerra, dezenas de milhares de pessoas — muitas delas ex-militares e as suas famílias — ocuparam acampamentos militares vazios e, mais tarde, hotéis e apartamentos por toda a Grã-Bretanha. O movimento não constituiu um desafio revolucionário ao Estado, mas mostra como o retorno dos soldados à vida civil podia tornar-se uma fonte de atrito social e de ação direta na transição da guerra para a ordem social do pós-guerra.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong>No texto original em inglês, utiliza-se a palavra fragging, que se refere às granadas de fragmentação (frag grenades) que os soldados americanos costumavam usar para assassinar seus superiores, simulando acidentes de combate. [N. T.]</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Ver « Gaza 2024 », Théorie Communiste 28, p. 101-138</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Textos da coleção publicada</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Federação Libertária Japonesa, “What To Do About War?”, Jiyu Rengo Shinbun, no. 64, November 1931; originalmente publicado em Esperanto; trad. John Crump, reimpresso em Anarchist Opposition to War, Seattle: Charlatan Stew, 1995. (<a class="urlextern" title="https://theanarchistlibrary.org/library/japanese-libertarian-federation-what-to-do-about-war" href="https://theanarchistlibrary.org/library/japanese-libertarian-federation-what-to-do-about-war" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://theanarchistlibrary.org/library/japanese-libertarian-federation-what-to-do-about-war</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Union Communiste, “En face le conflit sino-japonais”, L&#8217;Internationale, no. 31, 3 October 1937. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article5995" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article5995" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article5995</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">War Commentary editorial group, “War and Resistance”, War Commentary, vol. 1, no. 1, November 1939. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6258" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6258" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article6258</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">War Commentary editorial group, “The Third Choice”, War Commentary, vol. 1, no. 10, August 1940. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6289" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6289" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article6289</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Les Communistes Révolutionnaires / Die Revolutionären Kommunisten, “Ouvriers! Soldats! / Arbeiter! Soldaten!”, bilingual leaflet in French and German, July 1942. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article5300" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article5300" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article5300</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Die Revolutionären Kommunisten, “Deutsche Soldaten! Kameraden!”, leaflet in German, occupied France, September 1942; Alemão original reimpresso em Philippe Bourrinet, The &#8216;Bordigist&#8217; Current (1912-1952), Editoriale Fondazione Amadeo Bordiga, 2013.</p>
<p style="text-align: justify;">Groupe Révolutionnaire Prolétarien, “Quelques Thèses”, bulletin of the Groupe Révolutionnaire Prolétarien, March 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" href="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Groupe Révolutionnaire Prolétarien, “La situation politique en France”, bulletin of the Groupe Révolutionnaire Prolétarien, March 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" href="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Groupe Révolutionnaire Prolétarien, “Position du prolétariat révolutionnaire à l&#8217;égard de l&#8217;Allemagne”, bulletin of the Groupe Révolutionnaire Prolétarien, March 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" href="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Groupe Révolutionnaire Prolétarien, “Position du prolétariat révolutionnaire à l&#8217;égard de la Russie”, bulletin of the Groupe Révolutionnaire Prolétarien, March 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" href="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Communistes Révolutionnaires, “Appel aux ouvriers juifs”, Fraternisation Prolétarienne, no. 3, April 1943. (<a class="urlextern" title="http://archivesautonomies.org/spip.php?article1545" href="http://archivesautonomies.org/spip.php?article1545" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">http://archivesautonomies.org/spip.php?article1545</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Fédération Internationale Syndicaliste Révolutionnaire, “À tous les travailleurs intellectuels et manuels”, leaflet printed in Toulouse, 1943; rascunho feito em Marseille por Jean Solier, pseudônimo André Arru, Voline and comrades. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/anarchismes/2eguerre/anarchistes-resistance-tome1.pdf" href="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/anarchismes/2eguerre/anarchistes-resistance-tome1.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/anarchismes/2eguerre/anarchistes-resistance-tome1.pdf</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Marie-Louise Berneri, “The &#8216;Liberation&#8217; of Italy: Bombs will do the Job”, War Commentary, vol. 4, no. 16, mid-June 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/warcommentary/war-commentary-volume4-cira-n16.pdf" href="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/warcommentary/war-commentary-volume4-cira-n16.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/warcommentary/war-commentary-volume4-cira-n16.pdf</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Albert Meltzer, “Patriotism”, War Commentary, vol. 4, no. 15, June 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/warcommentary/war-commentary-volume4-cira-n15.pdf" href="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/warcommentary/war-commentary-volume4-cira-n15.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/warcommentary/war-commentary-volume4-cira-n15.pdf</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Fédération Internationale Syndicaliste Révolutionnaire, “Mort Aux Vaches”, poster, Toulouse, August 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://placard.ficedl.info/article9268.html?lang=fr" href="https://placard.ficedl.info/article9268.html?lang=fr" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://placard.ficedl.info/article9268.html?lang=fr</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Marie-Louise Berneri, “British Bombing”, War Commentary, vol. 4, no. 21, September 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article5557" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article5557" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article5557</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Union des Communistes Internationalistes, “Contre la guerre impérialiste, révolution socialiste!”, Le Réveil Prolétarien, no. 1, October 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1488" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1488" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article1488</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Marie-Louise Berneri, “War and Fascism”, War Commentary, vol. 5, no. 4, mid-December 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6416" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6416" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article6416</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Anarchist Federation, “Manifesto of the Anarchist Federation on War”, War Commentary, vol. 5, no. 4, mid-December 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6417" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6417" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article6417</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">GRP-UCI / Union des Communistes Internationalistes, “Pourquoi des Conseils d&#8217;usine?”, Le Réveil Prolétarien, no. 6, March 1944. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1497" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1497" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article1497</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">GRP-UCI / Union des Communistes Internationalistes, “L&#8217;armée &#8216;rouge&#8217; et la classe ouvrière”, Le Réveil Prolétarien, no. 7, April 1944. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1498" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1498" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article1498</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">“Manifeste aux prolétaires d&#8217;Europe”, Bulletin International de Discussion de la Gauche communiste italienne, June 1944. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article2086" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article2086" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article2086</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Fraction Française de la Gauche Communiste, “Éditorial”, L&#8217;Étincelle, no. 0, August 1944.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/gcf/etincelle/etincelle-n00" href="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/gcf/etincelle/etincelle-n00" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/gcf/etincelle/etincelle-n00</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Fraction Française de la Gauche Communiste, “Résolution sur les mouvements nationalistes”, Internationalisme, no. 1, January 1945. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1690" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1690" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article1690</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Antithesi, “Ngo Van: The Imperialist Slaughterhouse and Class Autonomy in Vietnam in 1945”, in <em>100 Years Against Every Camp: Proletarian Internationalism, War and Revolution</em>, Antithesi, junho de 2026. (baseado principalmente em: <a class="urlextern" title="https://theanarchistlibrary.org/library/ngo-van-in-the-crossfire" href="https://theanarchistlibrary.org/library/ngo-van-in-the-crossfire" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://theanarchistlibrary.org/library/ngo-van-in-the-crossfire</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Solidarity, “News from Zengakuren”, Solidarity. For Workers&#8217; Power, vol. 2, no. 5, July 1962; inclui o excerto an excerpt from Zengakuren Newsletter, no. 3. (<a class="urlextern" title="https://libcom.org/article/solidarity-workers-power-205" href="https://libcom.org/article/solidarity-workers-power-205" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://libcom.org/article/solidarity-workers-power-205</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Ngo Van, “Sur la réforme agraire”, Cahiers de discussion pour le socialisme de conseils, no. 8, April 1968. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article4728" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article4728" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article4728</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Ngo Van, “Réflexions préliminaires sur la guerre du Vietnam”, Cahiers de discussion pour le socialisme de conseils, no. 8, April 1968. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article4613" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article4613" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article4613</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Mustapha Khayati, Lafif Lakhdar et al., “Adresse aux prolétaires et aux jeunes révolutionnaires arabes et israéliens contre la guerre et pour la révolution prolétarienne”, maio de 1976; insert in Khamsin, no. 3; parcialmente reimpresso em Jeune Taupe, no. 10, June 1976. Signatários incluem Hakima Berada, Mustapha Khayati, Maroine Dib, Kamal Lahbadi, Dany Diner, Lafif Lakhdar, Avishai Ehrlich, Eli Lobel, Abdul-Kader El-Janaby, Moshé Machover, Mikhal Marouane, Emir Harbi, Moshe Speier, Lea Horowitz, Khalil Toama and Abdallah Zannan; signatários posteriores: Ayed Nagib, Mohamed Cheret and Khaldoun Abou El-Wafa. (<a class="urlextern" title="https://situationnisteblog.com/2020/05/25/5368/" href="https://situationnisteblog.com/2020/05/25/5368/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://situationnisteblog.com/2020/05/25/5368/</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Arya Zahedi, “The Anti-Imperialist Imperialism Club: On Left Internationalism and Iran”, Heatwave, no. 2, Fall 2025, PM Press. (<a class="urlextern" title="https://libcom.org/article/anti-imperialist-imperialism-club-left-internationalism-and-iran-arya-zahedi-2025" href="https://libcom.org/article/anti-imperialist-imperialism-club-left-internationalism-and-iran-arya-zahedi-2025" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://libcom.org/article/anti-imperialist-imperialism-club-left-internationalism-and-iran-arya-zahedi-2025</a>)</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A obra em destaque e a primeira obra no corpo do texto é de autoria de Myriam Thyes. A segunda obra no corpo de texto é da autoria de Pierre Bismuth.</p>
</blockquote>
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		<title>A emenda ficou pior que o soneto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Oct 2026 11:14:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
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					<description><![CDATA[Dilemas e perspectivas para o segundo turno de 2026. Por vidaventovela]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por vidaventovela</h3>
<p style="text-align: justify;">10 de outubro de 2026</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O mesmo dilema, oito anos depois</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Estamos a poucos dias do segundo turno das eleições de 2026, entre Lula e Flávio Bolsonaro. Flávio está na frente. O campo bolsonarista tem maioria no Congresso.</p>
<p style="text-align: justify;">E nós vivemos de novo o dilema de oito anos atrás. Naquela época, a esquerda afirmou que, se Bolsonaro ganhasse, o terror tomaria conta de tudo e toda perspectiva de ganho social seria perdida. Depois, mobilizou-se pela prisão de Bolsonaro, com uma postura que lembra o populismo penal que as gestões petistas praticam nos governos estaduais.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato é que, mesmo com Bolsonaro preso e apenas o filho como porta-voz, o Flávio venceu o primeiro turno e chega ao segundo com vantagem. A pergunta, então, é uma só: qual é a visão estratégica que devemos ter para este momento?</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160131" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/m_Toureiro.jpg" alt="" width="362" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/m_Toureiro.jpg 362w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/m_Toureiro-217x300.jpg 217w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/m_Toureiro-304x420.jpg 304w" sizes="(max-width: 362px) 100vw, 362px" />Um saldo negativo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O saldo das organizações e dos movimentos sociais que se mobilizaram para fins eleitorais é, em geral, negativo. O melhor exemplo é a última eleição presidencial: foi seguida essa mesma lógica e hoje o povo está ainda mais à direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Se for repetida a fórmula, daqui a quatro anos a tendência é piorar ainda mais. Já vivemos um período difícil no país. Os movimentos sociais perderam credibilidade, assim como a maioria das instituições sindicais e associativas da classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo não corresponde aos anseios das pessoas frente a seus problemas. O voto no Flávio Bolsonaro, muitas vezes, é mais um voto contra o governo.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Nem mais nem menos ingênuos</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">É preciso ter claro: os milhões de brasileiros que votaram em Bolsonaro não são nem mais nem menos ingênuos que os que votaram em Lula. São, em sua maioria, trabalhadores muito explorados. Estão buscando construir uma interpretação da realidade, muitas vezes movidos por uma indignação que nasce da sua própria condição de classe.</p>
<p style="text-align: justify;">Do outro lado, quem vota no candidato do PT não está, necessariamente, despertando uma consciência de classe. Muitas vezes esse voto também está ligado a visões ingênuas ou simplistas da realidade, por mais que agradem ao gosto da esquerda.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, a questão não é louvar quem aposta no governo Lula, com voto crítico ou não, e demonizar quem vota em Bolsonaro. A questão é: os movimentos vão às ruas disputar a consciência do povo? E de que forma?</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160134" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5.webp" alt="" width="940" height="1249" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5.webp 940w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5-226x300.webp 226w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5-771x1024.webp 771w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5-768x1020.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5-316x420.webp 316w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5-640x850.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5-681x905.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 940px) 100vw, 940px" />O limite da campanha do medo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A campanha não diz “o governo Lula tem vários problemas, mas o projeto de Bolsonaro é pior”. Diz “Lula, Lula, Lula, é 13, para sonhar de novo, para ser feliz”. E completa: se for o Flávio, vai acabar o bolsa família, as universidades, vai acabar tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que vimos? Houve desmontes, sim, só que nem sempre generalizados como foi alarmado. Que conquistas são essas que se desmancha logo nos primeiros meses do governo Bolsonaro. São como casas sem fundamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, o melhor movimento estratégico não é tentar virar o voto de quem não votou em Lula. No curto prazo pode render um benefício momentâneo. No médio prazo, traz enormes contradições: a massa convencida agora tende, como nos últimos anos, a se decepcionar, se frustrar e migrar para os candidatos da direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Também é preciso dizer: esse clima de terror e alarmismo tem, muitas vezes, influência de quem ocupa cargos no governo federal e nos partidos. Gente que teme perder o posto e ter que procurar outro emprego ou se pendurar em outro governo.</p>
<p style="text-align: justify;">E quando a base, passada a eleição, começar a ver as capitulações, a corrupção e a miséria que continua, ficará mais indignada ainda com o processo eleitoral. Mesmo que houvesse intenção de mudar, o Estado não tem capacidade de responder. Parte dessa base irá para a abstenção; outra parte, para a direita. Não à toa a abstenção é alta, mesmo enquanto deputados mantêm verdadeiros currais no interior, levando gente para votar como gado em troca de cargos e contratos temporários nas prefeituras.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160135" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/images.jpg" alt="" width="397" height="503" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/images.jpg 397w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/images-237x300.jpg 237w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/images-331x420.jpg 331w" sizes="auto, (max-width: 397px) 100vw, 397px" />A luta não é entre esquerda e direita</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Não é a disputa entre esquerda e direita que rege a história. É a luta de classes. A democracia representativa está em frangalhos e já não dá conta das necessidades do povo.</p>
<p style="text-align: justify;">Se gastarmos nossa energia tentando convencer, pelo mal menor, o trabalhador que votou em Bolsonaro, o resultado será pequeno. E quem for convencido tem grande chance de voltar para a direita daqui a quatro anos. Essa dinâmica já se esgotou.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós, lutadores do povo, não podemos ser os funcionários mal pagos de partido, que irão arcar com a ressaca pós-eleição enquanto outros estão em seus cargos. Precisamos construir uma alternativa a partir da organização de base, que não caia no mesmo ciclo da redemocratização da década de 1980, quando grande grande parte do acúmulo dos movimentos sociais foi absorvida pela institucionalidade para disputar o Estado. Basta disso.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que barra um golpe</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Um dos argumentos para deixar de lado qualquer questão para a campanha de Lula é a ameaça de um golpe de Estado e intervenção estrangeira. Mas a história mostra que o golpe pode vir com a direita no poder ou com a esquerda eleita. Na Espanha, em fevereiro de 1936, a Frente Popular venceu as eleições. Em julho, os militares deram o golpe mesmo assim. O mesmo se repetiu em outros momentos da história.</p>
<p style="text-align: justify;">Na Espanha, o que impediu o golpe militar foi os trabalhadores, em sua maioria envolvidos pelo anarquismo e sindicalismo revolucionário, que fez frente aos ataques dos poderosos com greves, barricadas e confrontos nas ruas.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o que pode barrar um golpe, ou resistir a ele, é justamente o que ainda temos de mais fraco: a organização de base. É nela que precisamos focar para sair de um ciclo que só tende a piorar. Daqui a quatro anos, se nada mudar, será muito pior.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160133" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU.avif" alt="" width="1200" height="1597" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU.avif 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-225x300.avif 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-769x1024.avif 769w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-768x1022.avif 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-1154x1536.avif 1154w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-316x420.avif 316w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-640x852.avif 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-681x906.avif 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Organize-se</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Lula ou Flávio eleitos, a perspectiva para o futuro é de mais arrocho salarial, precarização das condições de vida e perda de direitos. Desse modo, seja o trabalhador que votou em Lula, o que votou em Bolsonaro, o que votou em outro candidato ou o que se absteve: nosso papel é construir a organização de base. Organização de classe, no local de trabalho e no local de moradia, fortalecendo as lutas e a solidariedade nas comunidades, independente do voto de cada um. Esse é o nosso grande desafio.</p>
<p style="text-align: justify;">Muito mais do que dizer “vote” ou “não vote”, temos que dizer: organize-se.</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li class="level1">
<div class="li">Participe da assembleia na sua comunidade e no seu local de trabalho.</div>
</li>
<li class="level1">
<div class="li">Apoie as greves e as paralisações.</div>
</li>
<li class="level1">
<div class="li">Apoie as ocupações de terra e a construção de hortas.</div>
</li>
<li class="level1">
<div class="li">Construa grupos de autodefesa das mulheres nas favelas, nas comunidades rurais e nos territórios indígenas, em todos os cantos.</div>
</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">É assim que vamos criar o futuro, sem cair no imediatismo nem no alarmismo que querem nos impor.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>MAIS DO QUE VOTAR OU NÃO VOTAR, É PRECISO SE ORGANIZAR.</strong></p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são de Ismael Nery.</em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Professores do ensino fundamental debatem o 1º turno</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/10/160096/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 Oct 2026 19:10:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Um grupo de professores do ensino fundamental debate o resultado do 1º turno das eleições brasileiras de 2026, em que Flávio Bolsonaro venceu Lula. Por Professores do Primário]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 id="professores_do_ensino_fundamental_debatem_o_1_turno" class="sectionedit11" style="text-align: justify;"><strong>Por Professores do Primário</strong></h3>
<p id="professores_do_ensino_fundamental_debatem_o_1_turno" class="sectionedit11" style="text-align: justify;"><em>Um grupo de professores do ensino fundamental debate o resultado do 1º turno das eleições brasileiras de 2026, em que Flávio Bolsonaro venceu Lula.</em></p>
<div class="level3" style="text-align: justify;">
<p><strong>Lauretta: </strong>Bom dia, companheiros! Força que o novo sempre vem!</p>
<p><strong>Panfilo: </strong>Só tendo fé na geração futura mesmo, porque a dos nossos pais e a nossa falhou miseravelmente.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Educai a nova geração. A missão de vocês está árdua. Não estou muito otimista. Mesmo querendo ser! Acredito que a nossa geração nem vai a chegar ver um novo ciclo. Está só começando…</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160098" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-300x225.jpg" alt="" width="400" height="300" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p><strong>Filostrato:</strong> Como diz o Panfilo, falhamos miseravelmente! Não conseguimos nem mesmo convencer aqueles que sofrem as mazelas junto conosco.</p>
<p><strong>Fiammetta: </strong>Sim. Mas nós lutamos tanto! Eu não consigo compreender a forma como tem que falar com essa galera.</p>
<p><strong>Dioneo: </strong>Será que é <em>falar</em>? Nem estou sabendo o que <em>pensar</em> e dizer…</p>
<p><strong>Fiammetta: </strong>Eu percebi que nossos alunos que se manifestaram contra a direita… É principalmente a galera que entrou nas universidades federais. Inclusive serão muito afetados pela entrada do Flávio.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160099" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/simile-1997.jpgLarge-223x300.jpg" alt="" width="323" height="435" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/simile-1997.jpgLarge-223x300.jpg 223w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/simile-1997.jpgLarge-312x420.jpg 312w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/simile-1997.jpgLarge.jpg 446w" sizes="auto, (max-width: 323px) 100vw, 323px" /></p>
<p><strong>Filostrato: </strong>Precisamos reordenar os sindicatos. Eles se tornaram base de política institucional eleitoreira, e o pior de tudo, uma política fascista e individualista. Vejo os embates no nosso sindicato, puro interesse eleitoral. Elegemos agora mesmo, um presidente no sindicato para derrubar os sanguessugas de lá, o que ele faz? Vai apoiar a direita na eleição.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Fato! O <em>modus operandi</em> da esquerda tem falhado há muito tempo. É difícil resumir… Mas também é um reflexo da geopolítica mundial. A tendência ultra conversadora. O individualismo…</p>
<p><strong>Filostrato: </strong>Sim, a luta contra a mídia foi feroz.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>A lógica neoliberal vai engolindo tudo que passar pela frente. Vejo que o indivíduo está se reorganizando politicamente para também enfrentar esses desafios. De uma forma equivocada, mas sim… Muito mais subjetivo. Nem o próprio indivíduo se reconhece nesse processo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160100" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/tamayura-1996.jpgLarge-227x300.jpg" alt="" width="327" height="433" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/tamayura-1996.jpgLarge-227x300.jpg 227w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/tamayura-1996.jpgLarge-317x420.jpg 317w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/tamayura-1996.jpgLarge.jpg 453w" sizes="auto, (max-width: 327px) 100vw, 327px" /><br />
<strong>Panfilo: </strong>Eu acho que uma primeira observação é que não existe mais <em>uma</em> classe trabalhadora. A fragmentação do mercado de trabalho criou uma situação em que temos trabalhadores numa situação mais precarizada e outros numa situação menos precarizada. Ou seja, como criar uma consciência de classe, se a própria economia criou posições distintas? Todos são trabalhadores e são explorados, mas há distinções internas que impossibilitam uma identificação como parte de um todo coeso. Nesse cenário, o corporativismo domina. Uma coisa que poderia contornar essa fragmentação é a esquerda voltar a ser militante no sentido de ações de solidariedade, principalmente nas periferias. Quem faz solidariedade na periferia são ONGs e Igrejas, simples assim. A esquerda partidária e sindical não está nem aí. Não é à toa que o trabalhador da periferia não se identifica com a esquerda. Pelo contrário, ele vê uma esquerda que tem uma vida melhor, porque são pessoas que têm diploma universitário, fazendo discurso em prol da igualdade, mas não vê ações reais, então entende isso como hipocrisia e enxerga a esquerda como parte do <em>establishment</em>. O bolsonarismo nadou de braçada aí.</p>
<p><strong>Elissa: </strong>Tem uma questão de falha de comunicação. Nós falamos uma língua, a classe trabalhadora fala outra, porque o dicionário da classe trabalhadora está vindo do discurso religioso, da meritocracia, do empreendedorismo, então não temos como dialogar. Vir falar de Karl Marx e mais-valia para quem está pensando em abrir um negócio ou trabalhar em aplicativo e, com a bênção de Deus, virar empreendedor, é chover no molhado.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Concordo plenamente!! Estou cansada de ver pesquisadores frequentando a região rural de onde eu vim até para dizer “como se planta mandioca”, mas bem distantes dessa realidade. Com toda a modernização, informatização… discursos “intelectuais” não estão colando mais.</p>
<p><strong>Elissa: </strong>Outra coisa é que esquerda gosta de polemizar questões identitárias que para a maior parte dos trabalhadores não fazem sentido algum. Linguagem neutra de gênero é visto pela maior parte da classe trabalhadora como uma maluquice sem sentido.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160101" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1977-300x149.jpg" alt="" width="400" height="199" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1977-300x149.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1977.jpg 570w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p><strong>Filomena: </strong>Quando estava no mestrado, falava muito sobre isso com meus professores. Gente!! Vocês estão muito distantes de nós! Um ativismo na produção intelectual muito grande. Longe da prática!</p>
<p><strong>Fiammetta: </strong>Enquanto a gente desmerece <em>influencers</em> e comunicadores de Tiktok, é lá que eles estão nadando de braçada. Parece que vamos ter que emburrecer para nos comunicar.</p>
<p><strong>Panfilo: </strong>Eu acho que a questão não é emburrecer. Atos valem mais que palavras. O capitalismo tem um princípio fundamental que é o do individualismo/competição. Nós temos que nos contrapor a isso propondo ações coletivas/solidariedade. As pessoas irão perceber que a esquerda está propondo coisas do interesse delas quando elas perceberem que são parte de uma ação coletiva baseada na solidariedade.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Acredito demais na força do coletivo! As poucas ações que ainda consigo fazer são as ligadas à Igreja, e com muito sacrifício. Convenhamos, aqui entre nós, na nossa realidade de tanto trabalho, quem está conseguindo alcançar a comunidade? Nós também estamos imersos nesse capitalismo cruel. Muito trabalho! E quando pensamos em querer trabalhar menos, damos conta da realidade e as contas não fecham. Nós estamos vivendo na lei da sobrevivência. Sinceramente, não sei como as pessoas que ganham um salário mínimo estão sobrevivendo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160097 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kokoro.jpg" alt="" width="247" height="510" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kokoro.jpg 247w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kokoro-145x300.jpg 145w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kokoro-203x420.jpg 203w" sizes="auto, (max-width: 247px) 100vw, 247px" /></p>
<p><strong>Lauretta: </strong>O Flávio no seu discurso de ontem me impactou. “Acabou a era do PT”. Parece ser isso. A esquerda vai ter que se reconfigurar. Renovar o discurso.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Além de tudo já discutido. Tem um fator crucial que é a religiosidade do nosso país. O Brasil é um país cristão. O partido que sabe usar o discurso em “favor dos cristãos” conquista o eleitor. Pode estar tudo ruim, mas se você disser que Deus proverá tudo. Pronto! A esquerda radical tem atacado muito os cristãos. Não é um discurso que a população brasileira aceita bem.</p>
<p><strong>Elissa: </strong>A pauta antirracista, ideologias de gênero, direitos iguais… por aí vai! Sobressaiu demais nos últimos anos. O povo quer é pagar as contas e comer bem.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>A esquerda sempre esteve muito distante. Quando estava cursando o mestrado. Ficava pensando “Meu Deus, quem são os alienados da história?” Esse povo está muito fora da casinha.“ É muito distante da realidade brasileira. Tem que reconfigurar o discurso e a prática.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-160107 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/33316c4d-8d18-4da5-80c4-871da215da3b-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />As imagens que ilustram este artigo são reproduções de obras de</em> Tōkō Shinoda (1913-2021).</p>
</div>
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		<title>Hora de “desbigtechtizar” a vida [3]</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 12 Oct 2026 15:30:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[Em uma era onde qualquer pessoa com um smartphone pode ser um emissor de conteúdo, as redações tradicionais e as iniciativas independentes de checagem atuam como um remédio social. Por Marcelo Tavares de Santana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Tavares de Santana*</h3>
<p style="text-align: justify;">Ferramentas digitais são práticas, rápidas, e nos ajudam em diversas tarefas, no entanto, há momentos que precisamos parar e fazer grandes reflexões sobre assuntos que deveriam estar pacificados. Desde os primórdios da civilização humana, a busca e a preservação da verdade têm ocupado um lugar central e insubstituível no desenvolvimento moral, ético e social das mais diversas culturas e tradições religiosas ao redor do globo. A verdade nunca foi tratada pelas sociedades ancestrais apenas como um mero conceito epistemológico ou uma simples correspondência entre o discurso e a realidade factual: ela sempre foi erguida como o alicerce espiritual e comunitário que permite a coexistência pacífica e a confiança mútua.</p>
<p style="text-align: justify;">Em todas essas matrizes culturais, independentemente de suas diferenças teológicas e geográficas, podemos observar um consenso comum: a mentira corrompe a alma do indivíduo e desintegra o tecido da sociedade. A verdade, portanto, é a argamassa invisível que sustenta a humanidade. No entanto, a história moderna nos mostrou, de forma trágica e devastadora, como a subversão desse princípio ancestral pode levar a humanidade aos seus capítulos mais sombrios. Quando a verdade deixa de ser um valor moral e passa a ser tratada como um obstáculo a ser superado por projetos de poder, o terreno é pavimentado para o totalitarismo. Ninguém compreendeu e instrumentalizou essa distorção de maneira tão letal quanto Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista durante o Terceiro Reich. A ele é frequentemente atribuída a máxima maquiavélica que ecoa até os dias de hoje: &#8220;Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade&#8221;. Goebbels percebeu que as massas não são movidas por argumentos lógicos e complexos, mas por apelos emocionais, medos primais e repetição exaustiva. Ele controlava rigidamente o rádio, a imprensa, o cinema e as artes, criando um monopólio da informação onde qualquer narrativa divergente era silenciada pela violência e pela censura.</p>
<p style="text-align: justify;">Saltando das transmissões de rádio da década de 1930 para o hiperconectado século XXI, percebemos que o perigo da manipulação da informação não ficou confinado aos livros de história; ele apenas mudou de roupagem, ganhando uma escala e uma velocidade sem precedentes. Hoje, não lidamos mais com um Ministério da Propaganda centralizado, mas com um ecossistema digital caótico, fragmentado e algorítmico, onde proliferam as chamadas &#8220;<em>fake news</em>&#8221; e a difusão sistemática de desinformação nas redes sociais e plataformas de mensagens. A revolução digital e a Internet prometeram, em seus primórdios, uma democratização radical do conhecimento e, de fato deram voz a milhões que antes não a tinham. Contudo, a ausência de mediadores editoriais, de uma educação crítica, e o modelo de negócios das grandes empresas de tecnologia transformaram essa utopia em um campo minado. As redes sociais são projetadas para maximizar o engajamento do usuário, mantendo-o conectado pelo maior tempo possível para exibir anúncios direcionados. Consequentemente, os algoritmos tendem a promover organicamente teorias da conspiração, manchetes sensacionalistas e notícias fabricadas, pois elas viralizam até seis vezes mais rápido do que a verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Grupos mal-intencionados, desde estelionatários em busca de cliques até agentes políticos e estatais interessados em desestabilizar democracias, exploram essa arquitetura digital. Eles utilizam exércitos de robôs (<em>bots</em>), perfis falsos, <em>deepfakes</em> (vídeos manipulados por inteligência artificial) e disparos em massa em redes como o WhatsApp para criar uma falsa percepção de consenso. As pessoas são então enclausuradas em &#8220;bolhas&#8221; ou &#8220;câmaras de eco&#8221;, onde só consomem informações que confirmam seus vieses preexistentes. O impacto disso é devastador: eleições são manipuladas, a confiança nas instituições democráticas despenca, reputações são destruídas e crises de saúde pública são agravadas, como vimos na proliferação de mentiras sobre vacinas e tratamentos sem eficácia comprovada durante a pandemia global.<br />
Diante desse cenário de guerra informacional, a importância da formação cidadã contra as <em>fake news</em> torna-se, talvez, o maior desafio educacional do nosso tempo. Particularmente, crianças e adolescentes sem a devida orientação, correm o risco de se tornarem tanto vítimas da desinformação quanto vetores de propagação, compartilhando impulsivamente mentiras que parecem divertidas, chocantes ou que validam suas identidades em formação. Podem ser criadas gerações de pessoas desinformadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Nessa missão de separar o joio do trigo no vasto oceano de dados em que navegamos, destaca-se a importância das agências de verificação de fatos. Em uma era onde qualquer pessoa com um smartphone pode ser um emissor de conteúdo, as redações tradicionais e as iniciativas independentes de checagem atuam como um remédio social. Essas organizações não trabalham com opiniões, mas com uma metodologia rigorosa e transparente, baseada no jornalismo de dados, na consulta a fontes primárias oficiais, em laudos científicos e em registros públicos. Quando um boato viraliza, seja sobre a segurança de uma urna eletrônica, a procedência de um desastre ambiental ou uma suposta declaração polêmica de uma figura pública, as agências de verificação entram em ação para dissecar a informação. Elas reconstituem o caminho do dado, buscam a origem de imagens e vídeos usando ferramentas de busca reversa e consultam especialistas independentes. O trabalho das agências é fundamental não apenas para rotular o que é falso, verdadeiro, impreciso ou tirado de contexto, mas também para expor o modo de operação das redes de desinformação. Ao publicarem os passos de suas investigações, elas educam o público sobre como a mentira foi construída. Embora frequentemente sofram ataques orquestrados e sejam injustamente acusadas de viés político por grupos cujas narrativas falsas foram desmentidas, as agências de verificação seguem códigos de princípios internacionais rigorosos — como o da International Fact-Checking Network (IFCN) —, que exigem suprapartidarismo, justiça e transparência em suas correções.</p>
<p style="text-align: justify;">No Brasil, por exemplo, o Projeto Comprova é uma iniciativa sem fins lucrativos que reúne dezenas de veículos de comunicação brasileiros de diferentes matrizes editoriais com um único objetivo: investigar e desmentir rumores, conteúdos fabricados e táticas de manipulação que ganham tração na internet, especialmente em períodos eleitorais e crises nacionais. No entanto, confesso que alguns dos parceiros desse projeto são mídias que inspiram suspeitas de interesses econômicos contra as instituições republicanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Contudo, delegar a responsabilidade da verdade apenas às escolas e às agências de <em>fact-checking</em> é um erro estratégico: a linha de frente dessa batalha moral e cognitiva encontra-se dentro de casa. A família é o primeiro laboratório de socialização, onde a criança aprende a ler o mundo, a formar seus valores e a interpretar a realidade. Quando pais e responsáveis se omitem do debate sobre o que os jovens consomem em suas telas, eles abrem espaço para que algoritmos e influenciadores de procedência duvidosa assumam a tutoria intelectual de seus filhos. O diálogo familiar eficaz sobre <em>fake news</em> não deve ser construído na base do autoritarismo, da vigilância punitiva ou do confisco de aparelhos, pois tais atitudes costumam gerar alienação e sigilo por parte do adolescente. Ao contrário, deve-se adotar uma postura de escuta ativa e curiosidade genuína.<br />
Desse ponto, e aceitando que boa parte de nossas vidas já estão sequestradas pelas plataformas, principalmente as relações sociais, uma estratégia de redução de danos é procurar e começar a seguir agências de verificação em seus canais dentro das próprias plataformas junto à família, numa tentativa de fazer os algoritmos colocaram mais fatos checados mas nossas vidas. Sendo muito sincero, o cenário sobre a disseminação da verdade está ruim, mas podemos e devemos colaborar na formação de gerações mais vacinadas contra o fascismo e seus métodos de desinformação. Infelizmente, não parece razoável fazer sugestões de agências de verificação, assim cada pessoa ou família precisará pesquisar, discutir e escolher suas agências de verificação para seguir. Sem dúvida, atitudes assim são melhores que só adotar ferramentas digitais para fazer um trabalho que é intrinsecamente humano!</p>
<p style="text-align: justify;">Boas escolhas a todos!</p>
<p>*Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal de São Paulo.</p>
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		<title>Revolução, poder dual e a rede de resposta rápida das Cidades Gêmeas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 10 Oct 2026 08:59:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[A rede de resposta rápida das Cidades Gêmeas se formou como uma operação de contrainteligência para deter a Gestapo de Trump. Por Connor O'Callaghan]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Connor O&#8217;Callaghan</h3>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">1º de julho de 2026</p>
<p style="text-align: justify;">O ensaio a seguir, primeiramente circulado de mão em mão em formato de zine, examina a insurgência popular contra a Operação Metro Surge em Minnesota durante o inverno de 2026. Nele, O&#8217;Callaghan argumenta que a rede de resposta rápida das Cidades Gêmeas representou uma forma embrionária de poder dual, uma instituição popular que contestava diretamente o controle estatal sobre um território urbano. Embora a caracterização do autor sobre a rede como uma “força policial paralela” seja talvez discutível, o ensaio levanta questões fundamentais para os revolucionários que passaram por esse ciclo de luta. Quando a coalizão que sustenta o controle da classe dominante sobre um território se fragmenta (como quando o MPD e o ICE entraram em conflito aberto), quando massas de pessoas comuns começam a agir fora e contra a lei como algo natural, as condições para uma ruptura revolucionária começam a se delinear. No entanto, se tais potenciais não conseguem se aprofundar e se expandir para antagonismos mais amplos, é decisivo entender os limites que os mantêm sob controle, especialmente tendo em vista a próxima crise eleitoral. Enquanto Trump desmantela sistematicamente os mecanismos pelos quais as elites historicamente administraram seus conflitos, como os revolucionários podem intervir nessas situações para garantir que produzam não apenas mais uma rodada de rebelião, mas formas de contrapoder prontas para intervir quando a ordem liberal finalmente colapsar?</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p style="text-align: justify;">A Operação Metro Surge foi a maior operação de repressão à imigração da história. Em seu auge, 3.000 agentes do DHS cercaram as Cidades Gêmeas. Janeiro estava tão saturado de agentes que era impossível sair de casa sem encontrá-los. Mais de cem mil habitantes de Minnesota organizaram uma conspiração em massa contra a operação federal. A cada semana, voluntários em um sistema de entrega de comida alimentavam milhares de famílias abrigadas em suas casas. Inquilinos com intuição do que viria e chaves de fenda instalaram novas fechaduras em prédios de apartamentos para manter fora os federais e os proprietários. <em>Strippers</em> se recusaram a dançar para agentes e os expulsaram das boates. Mães de crianças se envolveram em perseguições em alta velocidade na rodovia. Médicos faziam visitas domiciliares para fazer partos. Professores juntavam dinheiro do aluguel para seus alunos. Uma enfermeira com uma pistola chutava lanternas traseiras. Um motorista de táxi patrulhava do nascer ao pôr do sol, à procura do ICE. Jovens com balaclavas faziam dos pneus de carros alugados seus inimigos. Crianças do Movimento Indígena Americano distribuíam máscaras de gás e sopa de arroz selvagem. Avós faziam vigília em escolas de ensino fundamental. Sofás e quartos vagos se enchiam quando os endereços precisavam mudar. Imigrantes escapavam da prisão entrando em becos e cortando caminho pelas salas de estar de estranhos. Manifestantes faziam o mesmo. Em massa, as pessoas tinham a experiência de estar fora da lei, e contra ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Contravigilância, perseguições em alta velocidade, redes clandestinas, comunicações criptografadas, postos de controle, nomes de código. Quando essas coisas são normalizadas e adotadas por massas de pessoas, é um salto qualitativo para a luta insurgente. Esta é a base a partir da qual os revolucionários podem avançar.</p>
</div>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">Não existe uma fórmula mecânica para a revolução, mas existem condições particulares que dão aos revolucionários uma vantagem estratégica. Essas condições não são astrológicas, são dialéticas. São forjadas a partir de árvores de decisão reais, por muitos atores trabalhando com, contra e através uns dos outros.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma dessas condições é a desagregação da coalizão governante. O establishment não é monolítico em seus interesses. Muitas vezes eles se alinham, mas muitas vezes entram em conflito e divergem. O que realmente importa para as diferentes facções da classe dominante é que elas possam mediar seus interesses concorrentes dentro de um quadro confiável. Quando isso não é mais possível, quando surgem diferenças intratáveis e diferentes facções empregam meios irregulares para conseguir o que querem, abrem-se fissuras que as forças populares podem explorar para tornar a revolução possível. A Operação Metro Surge produziu antagonismos entre o governo estadual e o federal, levando à breve desunião de suas respectivas forças armadas.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160050" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/white-on-white-malevich-1918.pngLarge.png" alt="" width="401" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/white-on-white-malevich-1918.pngLarge.png 601w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/white-on-white-malevich-1918.pngLarge-300x300.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/white-on-white-malevich-1918.pngLarge-70x70.png 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/white-on-white-malevich-1918.pngLarge-421x420.png 421w" sizes="auto, (max-width: 401px) 100vw, 401px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Outro germe inicial da revolução social é a mudança de lealdade de milhares de pessoas em suas ações. Em nenhum lugar isso foi mais verdade do que nas Cidades Gêmeas, onde todos os tipos imagináveis de pessoas participaram. A resistência ao ICE tornou-se a característica definidora da vida. Enquanto a rede clandestina mencionada ajudava as pessoas a escapar do desaparecimento, a rede de resposta rápida (RRN) ascendeu como a vanguarda confrontacional do movimento local. A RRN das Cidades Gêmeas era uma maneira simples de interpelar grandes números de pessoas em papéis funcionais que desafiavam diretamente os agentes federais. Milhares de pessoas aprenderam que isso era mais eficaz do que exigir algo das autoridades. Em vez disso, exigiram isso de si mesmas. Essa descoberta é uma pré-condição essencial para a luta revolucionária.</p>
<p style="text-align: justify;">O que a RRN ameaçava criar era um poder dual: uma instituição popular estabelecida contra o Estado, pronta para usurpá-lo. O poder dual não é um projeto “prefigurativo” aninhado confortavelmente, mas antagonicamente, dentro da ordem vigente. É um arranjo instável de forças que sufocam agressivamente umas às outras. Ocorre quando dois quadros políticos concorrentes existem no mesmo lugar, ao mesmo tempo, e apenas um pode vencer. Tais situações ocorrem durante movimentos revolucionários, quando as forças armadas e os corpos políticos do establishment governante são substituídos por novas instituições da própria iniciativa direta do povo. A RRN era uma infraestrutura maciçamente participativa que contestava quem controlava um terreno urbano específico. Era essencialmente uma força policial paralela de caráter popular de massa.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora a RRN nunca tenha realizado todo o seu potencial, foi um projeto realmente existente que os revolucionários devem estudar cuidadosamente, a fim de orientar nossas lutas futuras. Tais formações transformam expressões refletidas de recusa em lutas propositais pelo poder. Isso lhes permite facilitar o salto além da rebelião e em direção à reorganização em massa da sociedade, que marca uma revolução.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A rede de resposta rápida</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A rede de resposta rápida das Cidades Gêmeas se formou como uma operação de contrainteligência para deter a Gestapo de Trump. Postos diários na sede do ICE registravam placas de veículos, descrições e partidas de comboios, compilando essas informações em um banco de dados público de milhares de veículos, marcados como “confirmado-ICE”, “altamente suspeito” e “não-ICE”. Essas informações não eram coletadas para o objetivo abstrato de conscientizar ou documentar atrocidades; os dados de vigilância eram instrumentos de ataque na medida em que eram operacionais. Em vez de ficar em espera, os patrulheiros usavam essas informações para rastrear agentes e confrontá-los diretamente. Ao fazer isso, a RRN se tornou a maneira mais militante e também mais popular de participação.</p>
<p style="text-align: justify;">Toda a região metropolitana foi dividida em zonas de vizinhança. Cada zona operava uma chamada de patrulha diária, rigorosamente organizada, com duração de um dia inteiro. Em turnos de duas horas, despachantes remotos facilitavam a cobertura completa de suas zonas. Eles realizavam chamada, atribuíam rotas, executavam verificações de placas, registravam encontros com o ICE e transmitiam informações entre zonas. O despachante não dava ordens; os patrulheiros mantinham um alto grau de autonomia <strong>[1]</strong>. Os melhores despachantes evitavam impulsos conservadores; incentivavam o discernimento e a coragem. As chamadas soavam como rádios de policiais, só que em vez dos policiais, é uma mãe transmitindo ao despache que sua rota será ponto a ponto, no sentido oeste na Franklin, enquanto busca sua filha na escola. Então, um casal aposentado pede para verificar uma placa de um veículo suspeito que estão seguindo para o norte na Hiawatha: “dois ocupantes do sexo masculino, rostos cobertos, em um Jeep Cherokee vermelho com placas de Nebraska. Despache, podemos fazer uma verificação de placa para Bravo, Charlie, Papa, Zero…” As placas voltam positivas: ICE confirmado. Os aposentados continuam na perseguição, e um patrulheiro próximo transmite que agora está indo para o leste como reforço.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160056" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/red-square-1915.jpgLarge-300x300.jpg" alt="" width="400" height="401" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/red-square-1915.jpgLarge-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/red-square-1915.jpgLarge-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/red-square-1915.jpgLarge-419x420.jpg 419w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/red-square-1915.jpgLarge.jpg 599w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" />Tendo uma conta no Signal, a RRN era notavelmente fácil de aderir. Poucas habilidades básicas estavam envolvidas, e aquelas que estavam eram ensináveis. Em temperaturas abaixo de zero, pessoas comuns realizavam tarefas históricas importantes. No seu melhor, a RRN tornava muitas operações do ICE inviáveis ao seguir os agentes antes que eles pudessem montar uma batida. Isso levava a frequentes perseguições em alta velocidade e confrontos em becos. Isso irritava tanto os agentes que eles freavam bruscamente na frente dos patrulheiros, quebravam seus vidros, cortavam os cintos de segurança e jogavam os motoristas em montes de neve.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando não estavam sendo seguidos, os agentes comprimiam o tempo de sequestro para sete minutos, na expectativa da vinda dos patrulheiros. Nos bairros mais densos da resistência, o ICE treinava para entrar e sair em apenas uma fração de seu já reduzido prazo. Em Powderhorn, os <em>respondedores rápidos</em> frequentemente chegavam em menos de dois minutos.</p>
<p style="text-align: justify;">Após dois meses, a RRN acumulou um banco de dados de placas de código aberto e abrangente, usando-o para patrulhar toda a cidade com cobertura quase constante. A infraestrutura do movimento apoiava os patrulheiros com cartões de gasolina e comida grátis. Postos de controle começaram a surgir como patrulhas a pé mais confrontacionais. A RRN fez mais do que apenas forçar a questão de quem controlava as ruas: ao orquestrar uma força popular hostil ao governo federal, ela forneceu uma resposta inequívoca.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Desagregação da classe dominante</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As formações de poder dual frequentemente conseguem ascender aproveitando-se da desintegração das ordens estabelecidas. Este foi certamente o caso da RRN das Cidades Gêmeas. Por uma breve janela de tempo, a classe dominante estava dividida. O Condado de Hennepin instruiu as cadeias a não cooperarem com a repressão à imigração. Mais de uma dúzia de promotores federais renunciaram ao escritório do Procurador dos EUA em Minnesota após o assassinato de Renée Good, deixando-o dois terços vago. Agentes federais impediram o MPD de acessar o corpo de Alex Pretti. O ICE fez perfil racial de pelo menos um policial fora de serviço, sacando armas e exigindo ver seus documentos de imigração. Conforme o caos aumentava, o Comandante da Patrulha de Fronteira Greg Bovino e o Chefe de Polícia de Minneapolis Brian O&#8217;Hara apontavam os dedos um para o outro. O prefeito Jacob Frey viralizou ao dizer ao ICE para “cair fora de Minneapolis”, enquanto o governador Tim Walz chamou a operação de “uma invasão nazista”. Trump chamou ambos de terroristas, e o Departamento de Justiça os acusou de conspiração criminosa para impedir agentes federais.</p>
<p style="text-align: justify;">É fácil reduzir essas brigas a meros espetáculos da mídia. De certa forma, elas o eram. A Casa Branca e os Democratas de Minnesota estavam ambos implorando para “baixar a temperatura”. Ainda assim, não é frequente que promotores, cadeias, políticos estaduais e federais, a polícia e o DHS estejam tão desunidos. O aspecto mais significativo desse conflito foi entre o MPD e o ICE. Desde que um de seus policiais linchou George Floyd em 2020, o departamento de polícia de Minneapolis tem buscado desesperadamente reabilitar sua imagem pública. Um mês de ICE invadindo as Cidades Gêmeas como uma campanha de <em>Call of Duty</em> desfez quase seis anos de relações públicas contrainsurgentes. O efeito foi que, por dois meses, a polícia local preferiu ficar de fora. Isso criou uma abertura crítica para que a RRN preenchesse o vazio deixado pela aplicação da lei municipal.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160051" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1915-2.pngLarge-300x300.png" alt="" width="400" height="401" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1915-2.pngLarge-300x300.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1915-2.pngLarge-70x70.png 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1915-2.pngLarge-419x420.png 419w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1915-2.pngLarge.png 598w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" />Em janeiro, a Metro Surge tornou-se insustentável tanto para o governo estadual quanto para o federal. Na primeira semana, quando o ICE assassinou Renée Good, a rede de resposta rápida cresceu em milhares. Na semana seguinte, o ICE atirou no migrante venezuelano Julio Sosa-Celis. Manifestantes forçaram os agentes a recuar e saquearam seus veículos, roubando documentos do FBI, identidades governamentais e pelo menos duas armas de agentes do DHS. Uma greve geral importante na semana seguinte precedeu agentes da BORTAC matando Alex Pretti. Uma coletiva de imprensa mal conduzida tentando justificar sua morte com base em que Pretti estava armado gerou reação conservadora contra a Casa Branca. Os erros da administração, combinados com o crescente tamanho e militância da resistência, ameaçavam tornar a operação um atoleiro para o governo federal. Os Democratas estaduais também devem ter percebido que estavam perdendo o controle da situação. Em seu pico, estima-se que a rede de resposta rápida tivesse 80.000 participantes, em comparação com os míseros 600 policiais do MPD. Mesmo com os 3.000 agentes federais, a RRN excedia dramaticamente a presença combinada das forças de segurança. O resultado foi uma séria crise de legitimidade para o estado. O presidente do Sindicato da Polícia de Minneapolis reconheceu isso como tal, <a class="urlextern" title="https://www.reddit.com/r/altmpls/comments/1qv7bup/statement_issued_by_minneapolis_police_federation/#lightbox" href="https://www.reddit.com/r/altmpls/comments/1qv7bup/statement_issued_by_minneapolis_police_federation/#lightbox" rel="ugc nofollow">escrevendo</a> em fevereiro que:</p>
<p style="text-align: justify;">A Federação de Policiais de Minneapolis não apoia indivíduos ou grupos privados que estabeleçam postos de controle, bloqueios ou zonas de patrulha não autorizados em vias públicas. Ninguém tem autoridade legal para parar, deter, interrogar ou revistar pessoas ou veículos fora dos poderes legais do governo. Quando os policiais se movem e solicitam a remoção de bloqueios ilegais, eles não são recebidos com cooperação, mas com hostilidade aberta. O protesto pacífico é um direito constitucional. Personificar a aplicação da lei não é.</p>
<p style="text-align: justify;">Walz e Frey precisavam restaurar a ordem em Minneapolis, para não serem usurpados pelo poder popular; o DHS precisava transformar as forças de segurança locais em braços de sua agenda de imigração e reprimir a resistência. Assim, os Democratas se resignaram ao papel de parceiro júnior, em troca de uma operação de repressão à imigração menos teatral. Dois dias após o assassinato de Pretti, Walz e Trump fizeram concessões para ficar “na mesma sintonia”. Como parte do acordo, Bovino foi demitido, uma redução da operação foi planejada e os agentes foram instruídos a diminuir o gás lacrimogêneo. Em troca, Tom Homan anunciou um “nível sem precedentes de cooperação” da polícia local. Walz sugeriu que as cadeias deveriam começar a colaborar com a repressão à imigração. A polícia municipal começou a parar suspeitos de serem <em>respondedores rápidos</em> por “obstruir investigações federais”. Policiais de choque com escavadeiras destruíram postos de controle. Ambos os lados reivindicaram vitória.</p>
<p style="text-align: justify;">Reentrando em uma aliança, a classe dominante buscou esmagar a resistência antes que ela pudesse amadurecer para se tornar uma administradora legítima da cidade. Para que a RRN se tornasse um verdadeiro poder dual, ela teria que superar pelo menos três limites.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Limites da rede de resposta rápida</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Em primeiro lugar, se a RRN era uma organização extremamente embrionária que poderia amadurecer para suplantar a polícia, seu potencial revolucionário era limitado por não ter uma instituição popular acompanhante para reorganizar a vida econômica e política. Embora essa segunda instituição de poder dual pudesse ter assumido várias formas, uma oportunidade perdida para que ela se desenvolvesse foi a greve de aluguéis cancelada para 1º de março.</p>
<p style="text-align: justify;">A organização de inquilinos proliferou durante toda a Metro Surge. Prédios inteiros se reuniram pela primeira vez e conversaram politicamente. Prédios já organizados redobraram seus esforços. Em janeiro, várias associações de inquilinos se uniram como um sindicato em toda a cidade. Juntos, o recém-formado Sindicato dos Inquilinos das Cidades Gêmeas <a class="urlextern" title="https://inthesetimes.com/article/ice-minnesota-rent-strike-twin-cities-labor-unions" href="https://inthesetimes.com/article/ice-minnesota-rent-strike-twin-cities-labor-unions" rel="ugc nofollow">anunciou</a> uma meta audaciosa: 10.000 inquilinos reteriam milhões de dólares dos proprietários a partir de 1º de março. Infelizmente, o sindicato não cumpriu sua cota de compromissos e <a class="urlextern" title="https://twincitiestenants.org/" href="https://twincitiestenants.org/" rel="ugc nofollow">votou contra</a> a greve.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160054" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/four-square-1915.jpgLarge-297x300.jpg" alt="" width="397" height="402" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/four-square-1915.jpgLarge-297x300.jpg 297w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/four-square-1915.jpgLarge-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/four-square-1915.jpgLarge-415x420.jpg 415w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/four-square-1915.jpgLarge.jpg 593w" sizes="auto, (max-width: 397px) 100vw, 397px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Uma autópsia completa da organização que precedeu a votação da greve é necessária, mas está além do escopo deste ensaio. Ainda assim, não vamos assumir que o resultado era inevitável. Um número muito menor de grevistas poderia ter sobrecarregado os tribunais de despejo, criando um para-choque para aqueles involuntariamente pegos no processo. Talvez o início do movimento teria gerado impulso suficiente para que milhares se juntassem até abril. Claro, trata-se de especulação. Mas o fato de que o governador imediatamente implorou aos organizadores que cancelassem a greve sugere um poder não alavancado no exato momento em que a disrupção econômica estava se tornando o próximo terreno de luta. Depois que o ICE foi forçado a se retirar das Cidades Gêmeas, a Casa Branca retaliou negando a Minnesota US$ 250 milhões em reembolsos do Medicaid. Inquilinos em greve teriam pressionado a classe política local por duas frentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Independentemente disso, mesmo que a greve ocorresse, os revolucionários teriam que imediatamente reconfigurar sua natureza. Os sindicatos são ligados por uma relação essencialmente reformista. São corpos mediadores, defendendo reformas específicas em nome dos trabalhadores perante o establishment. Os sindicatos não são um poder dual. Durante uma greve, os revolucionários que buscam um poder dual teriam que avançar para a tomada das propriedades diretamente para as pessoas que nelas vivem. Não haveria mais uma “exigência” à velha guarda da cidade; o próprio povo socializaria imediatamente sua habitação. Uma RRN em ascensão defenderia a habitação expropriada da polícia que tentasse restabelecer as velhas relações de propriedade. As duas organizações do poder dual se uniriam e, com base nisso, contestariam o regime. Isso parece um tanto fantástico. Mas há momentos que suspendem completamente o julgamento comum, em que tudo está em jogo. As revoluções emanam desses momentos e dependem de visões fantásticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso nos leva ao próximo limite: todo o movimento, e a RRN em particular, condenou-se ao se orientar em torno do slogan “FORA ICE!”<strong>[2]</strong>. O slogan em si não caracteriza o potencial revolucionário do movimento. “FORA ICE!” é indiferente quanto a se o ICE saiu porque foi forçado ou porque cumpriu sua missão. Como uma demanda, encolhe a imaginação. Mas para a RRN, “FORA ICE!” precipitou o fim prematuro de sua própria existência. Sob tal bandeira, não havia necessidade de vislumbrar a RRN <em>após</em> a ocupação. De fato, à medida que os agentes do DHS se retiravam das Cidades Gêmeas, a RRN se atrofiou.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160052" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/black-square-and-red-square-1915.jpgLarge-189x300.jpg" alt="" width="289" height="460" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/black-square-and-red-square-1915.jpgLarge-189x300.jpg 189w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/black-square-and-red-square-1915.jpgLarge-264x420.jpg 264w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/black-square-and-red-square-1915.jpgLarge.jpg 377w" sizes="auto, (max-width: 289px) 100vw, 289px" />A RRN sempre esteve vinculada a uma relação forma-função. Antes da Metro Surge, uma organização sem fins lucrativos de direitos dos imigrantes operava uma linha direta centralizada para denunciar grandes operações do ICE. Em dezembro, esse modelo era completamente inefetivo. As chamadas de patrulha de bairro descentralizadas substituíram a antiga linha direta para capturar ou impedir sequestros rápidos em nível de rua. Foi construída em resposta a uma supersaturação de agentes, otimizada para confirmação visual e fortemente dependente de conjuntos de dados precisos de contravigilância. Mas cada um desses pilares foi minado em meados de fevereiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob Homan, o ICE tentou ser menos visível. Os agentes trocaram equipamento tático por roupas civis e aumentaram o número de motoristas mulheres e latinos. Patinhos de borracha, adesivos de “mãe de cachorro” e frases de para-choques inócuas buscavam disfarçar veículos como amigáveis. Novos carregamentos de carros chegavam a cada semana, e agentes foram pegos instalando placas novas em áreas de preparação. Enquanto isso, carros alugados usados em semanas anteriores eram devolvidos à Enterprise. Visitantes dirigindo Nissans “confirmados ICE” eram parados por patrulheiros, levando a muitas discussões constrangedoras resolvidas por algum tipo de verificação de identidade. A ofuscação intencional do ICE coincidiu com a redução do número de agentes. Milhares de agentes deixaram o estado, e os que permaneceram eram mais difíceis de identificar. Tornava-se mais comum pegar um falso positivo do que interromper uma batida. Havia desconfiança beirando a paranoia. A RRN perdeu o bonde.</p>
<p style="text-align: justify;">O que a RRN fez quando o ICE estava “fora”, mas não totalmente? Os revolucionários (o autor incluído) não forneceram direção clara. O movimento colidiu com o limite de seu slogan orientador: sem um motivo claro, os números diminuíram e a RRN se desintegrou.</p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente, nada suplantará realmente a polícia enquanto se permanecer desarmado<strong>[3]</strong>. Para ser claro, o ponto não é que os patrulheiros <em>deveriam</em> estar armados; apenas que a RRN seria inibida de alcançar o pleno poder dual até que fosse capaz de contestar também o monopólio estatal da violência com uma capacidade de violência própria. Como em todos os conflitos assimétricos, a revolução será, em última instância, uma vitória política, não militar. No entanto, as armas são uma parte de fato de qualquer revolução, sejam elas disparadas contra o inimigo ou estabeleçam um <em>détente</em>. Nesse aspecto, os revolucionários americanos estão em uma posição única. Enquanto nossos camaradas em outros países precisam contrabandear armas através das fronteiras ou imprimi-las em 3D nas montanhas, milhões de americanos já possuem AR-15s. Aqueles que não têm podem comprar uma no Walmart.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas se a questão de adquirir armas é descomplicada, organizá-las é uma questão completamente diferente. Depois que Alex Pretti foi morto, um grupo desconhecido de defensores da Segunda Emenda anunciou uma “marcha armada” em Minneapolis. O grupo denunciou o DHS por executar Pretti sob o pretexto de que seu porte oculto legal representava uma ameaça iminente à aplicação da lei. Em 24 horas, a marcha foi cancelada devido à enorme suspeita pública. A reação pública teve pouco a ver com as armas; quase ninguém no movimento parecia se importar que Pretti estivesse armado. A controvérsia era que ninguém conhecia o grupo armado. Isso foi particularmente alarmante no contexto de uma organização hiperlocal em toda a cidade que atraiu dezenas de milhares de pessoas para um contato próximo. Quem eram aqueles caras? É possível que fossem pessoas honestas e bem-intencionadas; é possível que não fossem. Independentemente disso, quando o movimento popular não tinha nenhum vínculo estabelecido com eles, a suspeita de que fossem atores maliciosos foi tão forte que os forçou a marcha a ser cancelada.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160057" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/suprematism-with-blue-triangle-and-black-square-1915.jpgLarge-247x300.jpg" alt="" width="347" height="422" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/suprematism-with-blue-triangle-and-black-square-1915.jpgLarge-247x300.jpg 247w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/suprematism-with-blue-triangle-and-black-square-1915.jpgLarge-345x420.jpg 345w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/suprematism-with-blue-triangle-and-black-square-1915.jpgLarge.jpg 493w" sizes="auto, (max-width: 347px) 100vw, 347px" />Com armas, a confiança em seu uso disciplinado e contido é essencial. Um alto grau de trabalho relacional será tão necessário quanto o conhecimento técnico. Se o movimento popular algum dia chegasse ao ponto de se armar, teria que emanar de dentro da própria RRN.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O espectro da guerra civil</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se a RRN tivesse conseguido superar esses limites antes de ser eclipsada pela redução e disfarce dos agentes do ICE, poderia ter exacerbado os conflitos jurisdicionais entre as forças armadas do estado, criando uma situação ainda mais instável.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante toda a Metro Surge, o bloco liberal da classe dominante temia abertamente essa exata escalada. Em janeiro, <em>The Guardian</em> <a class="urlextern" title="https://www.theguardian.com/commentisfree/2026/jan/21/ice-minnesota-trump" href="https://www.theguardian.com/commentisfree/2026/jan/21/ice-minnesota-trump" rel="ugc nofollow">publicou</a> a manchete: “Fizemos Simulações de Guerra Civil nos EUA de Alto Nível. Minnesota é Exatamente Como Elas Começam.” O artigo descreve o conflito armado entre forças estaduais e federais em uma grande cidade como um dos eventos precipitantes de uma guerra civil. Mesmo antes da publicação do artigo, Trump já havia ameaçado invocar a Lei da Insurreição. À medida que a resistência crescia, ele colocou 1.500 soldados ativos prontos para o inverno em alerta no Alasca. Policiais militares em Fort Bragg também foram preparados para possível ação. Tim Walz <a class="urlextern" title="https://www.theatlantic.com/politics/2026/01/tim-walz-fort-sumter-minneapolis-ice/685801/" href="https://www.theatlantic.com/politics/2026/01/tim-walz-fort-sumter-minneapolis-ice/685801/" rel="ugc nofollow">comparou</a> a situação a Fort Sumter, os primeiros tiros confederados da Guerra Civil (ele também alertou que John Brown “certamente não é para onde queremos ir”). Se Walz lamentava possíveis John Browns, Frey continha soldados da União. Apesar de um influxo de pedidos para que o prefeito mobilizasse o MPD contra as operações do ICE, ele não estava disposto a autorizar, <a class="urlextern" title="https://www.politico.com/news/2026/01/18/jacob-frey-minneapolis-intimidated-ice-00735659" href="https://www.politico.com/news/2026/01/18/jacob-frey-minneapolis-intimidated-ice-00735659" rel="ugc nofollow">afirmando</a> que “não podemos estar em um lugar onde duas entidades governamentais estão literalmente lutando entre si”.</p>
<p style="text-align: justify;">A tensão aguda nas Cidades Gêmeas se desenrolou em meio a ações altamente irregulares das forças armadas dos EUA. No início do ano, Trump <a class="urlextern" title="https://thehill.com/homenews/administration/5528730-trump-military-training-cities-crime-crackdown/" href="https://thehill.com/homenews/administration/5528730-trump-military-training-cities-crime-crackdown/" rel="ugc nofollow">disse</a> aos líderes militares para usar cidades americanas “perigosas” como “campos de treinamento”. Ao contrário do levante de 2020, quando seu então Secretário de Defesa se recusou à sugestão de Trump de “atirar nas pernas dos manifestantes”, agentes do DHS em Minneapolis assassinaram dois <em>respondedores rápidos</em> em plena luz do dia. Trump caracterizou ambos postumamente como terroristas, enquanto se vangloriava de conceder imunidade para agentes federais. O senador Mark Kelly, veterano da Marinha e membro do Comitê de Serviços Armados do Congresso, gravou um vídeo bizarro com cinco colegas lembrando oficiais militares de recusar ordens ilegais da Casa Branca. A mensagem ou sugere conhecimento de ordens ilegais ou as presume prováveis. Independentemente disso, prenuncia duas possibilidades que os revolucionários devem levar a sério: operações militares dos EUA contra seus próprios cidadãos, ou as forças armadas se recusando a obedecer a ordens presidenciais.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a guerra civil está nas manchetes das principais publicações, na boca de uma classe dominante combativa e na mente de milhões de pessoas, os revolucionários não devem recuar da ideia nem descartá-la como hipérbole. Precisamos engajar o debate diretamente e reformulá-lo a partir da perspectiva de um caminho popular viável. A guerra civil assusta as pessoas. Para muitos, evoca imagens de violência fratricida, morte em massa sem sentido e devastação total. Parte de nossa tarefa é transformar a ansiedade sobre uma guerra civil em convicção por uma revolução. Fazer isso é parte fundamental das nossas obrigações. Em vez de nos situarmos contra um conflito que pode ocorrer de qualquer maneira, temos que organizar um polo dentro dele.</p>
<p style="text-align: justify;">Walz e Trump, obviamente, negociaram para chegar a um patamar inferior a esse cenário específico. As forças populares também não estavam organizadas o suficiente para levar essa situação a um desfecho. Ainda assim, embora tenham conseguido evitar o pior que imaginavam, tensões significativas entre a classe dominante persistem. Os revolucionários precisam rastreá-las estrategicamente e agir.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160055" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/quadrilateral-and-the-circle-1915.jpgLarge-209x300.jpg" alt="" width="309" height="444" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/quadrilateral-and-the-circle-1915.jpgLarge-209x300.jpg 209w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/quadrilateral-and-the-circle-1915.jpgLarge-293x420.jpg 293w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/quadrilateral-and-the-circle-1915.jpgLarge.jpg 418w" sizes="auto, (max-width: 309px) 100vw, 309px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A próxima eleição</strong></p>
<p style="text-align: justify;">É significativo que a classe dominante narre sua desunião por meio da guerra civil, não apenas pelo conflito dramático que evoca, mas por sua ressonância histórica com o presente. As eleições são a principal maneira pela qual a classe dominante americana compartilha seu turno de governo. Em dois séculos e meio, a única vez que a democracia burguesa americana falhou em mediar o conflito de elites foi a Guerra Civil, na qual abolicionistas e africanos escravizados em greve transformaram com sucesso uma guerra pela União em uma revolução social pela emancipação. Pela primeira vez desde então, as eleições podem não ser mais uma força estabilizadora suficiente para a coalizão governante. A janela para a revolução está se abrindo novamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Trump nunca concedeu a eleição de 2020. Nos últimos dias de seu primeiro mandato, ele tentou desesperadamente manter o poder, convencendo milhões de pessoas a duvidar da integridade das eleições dos EUA. Ele entrou com mais de sessenta processos judiciais, organizou eleitores falsos e instruiu aliados a forjar contagens de votos. Como esforço de última hora, 2.000 apoiadores de Trump invadiram o Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2021 para impedir a certificação. Apesar dessas tentativas sem precedentes de manter o poder, Trump falhou.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma teoria da conspiração fundamental dos negacionistas das eleições de 2020 é de que pessoas votaram ilegalmente. Por exemplo, Trump <a class="urlextern" title="https://kstp.com/kstp-news/top-news/no-truth-to-claims-trump-won-minnesota-3-times-or-even-once/" href="https://kstp.com/kstp-news/top-news/no-truth-to-claims-trump-won-minnesota-3-times-or-even-once/" rel="ugc nofollow">afirma</a> falsamente ter vencido em Minnesota em todas as suas três eleições, “se você contar os votos legais”. Cinco anos após o motim do Capitólio, ele enviou 2.000 agentes do ICE para as Cidades Gêmeas, tornando-a a maior operação de repressão à imigração já realizada. No mesmo dia em que Alex Pretti foi assassinado, a Procuradora-Geral Pam Bondi extorquiu Tim Walz, afirmando que o acesso ao cadastro eleitoral do estado seria uma pré-condição para a retirada dos agentes federais. Ao fazer isso, ela vinculou a suposta fraude somali (o pretexto para a Operação Metro Surge) às dúvidas sobre a integridade das eleições em Minnesota.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, Trump exigiu que 48 estados apresentassem seus cadastros eleitorais para “depuração” federal, na qual a administração eliminará eleitores que considerar inelegíveis. O governo federal <a class="urlextern" title="https://www.brennancenter.org/our-work/research-reports/tracker-justice-department-requests-voter-information" href="https://www.brennancenter.org/our-work/research-reports/tracker-justice-department-requests-voter-information" rel="ugc nofollow">jamais</a> fez isso antes. Algumas dezenas de estados se recusaram e estão sendo processados pelo Departamento de Justiça. Em agosto, Trump postou no Truth Social que “Os estados são meramente um &#8216;agente&#8217; do Governo Federal na contagem e tabulação dos votos. Eles devem fazer o que o Governo Federal, representado pelo Presidente dos Estados Unidos, lhes diz, PARA O BEM DO NOSSO PAÍS, para fazer.” Em fevereiro, o assessor de Trump, Steve Bannon, sugeriu que o ICE guardasse locais de votação para as eleições de meio de mandato de 2026. Em seguida, Trump assinou uma ordem executiva estabelecendo uma lista federal de eleitores elegíveis, a ser mantida pelo DHS.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160053" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/composition-with-a-black-circle-1916.jpgLarge-216x300.jpg" alt="" width="316" height="440" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/composition-with-a-black-circle-1916.jpgLarge-216x300.jpg 216w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/composition-with-a-black-circle-1916.jpgLarge-302x420.jpg 302w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/composition-with-a-black-circle-1916.jpgLarge.jpg 431w" sizes="auto, (max-width: 316px) 100vw, 316px" />Essa manipulação eleitoral descarada, da qual o DHS é um executor, distingue a próxima eleição das de 2016, 2020 e 2024. Trump está desmantelando os guardrails que mal o impediram de reverter sua derrota eleitoral anterior. Pessoal do DOJ, FBI e DHS que investigaram Trump, processaram os invasores de 6 de janeiro ou confirmaram os resultados das eleições de 2020 foram substituídos. Todos as três dezenas de especialistas eleitorais da Agência de Segurança Cibernética e Infraestrutura foram demitidos. O novo Diretor de Segurança Eleitoral tentou ajudar Trump a reverter os resultados de 2020. O FBI desmantelou sua Equipe de Corrupção Pública e invadiu o escritório eleitoral do Condado de Fulton, GA, em busca de evidências de fraude eleitoral. Trump perdoou os réus de 6 de janeiro e agora está tentando criar um fundo federal para compensá-los. Ao contrário de 2020, ele está mais preparado para manter o poder se for derrotado. Ao contrário de 2016 e 2024, a eleição está perdendo qualquer aspecto remanescente de “livre e justa”. Especialmente se Trump buscasse um terceiro mandato — algo sobre o qual ele tem especulado repetidamente —, isso estaria totalmente fora dos limites da ordem e, portanto, seria um ultraje para a elite. No entanto, o establishment Democrata não tem plano; tem apenas uma fidelidade fútil às normas moribundas do liberalismo através das quais originalmente chegou ao poder.</p>
<p style="text-align: justify;">Se as eleições não são mais um vetor para equilibrar o conflito de elites, podemos imaginar um cenário em que a agitação popular em torno das eleições possa evoluir para uma situação revolucionária? Devemos ser capazes disso. A recente decisão da Suprema Corte que esvaziou a Lei dos Direitos de Voto foi usada para erradicar distritos de maioria negra em todo o Sul. Milhões de eleitores negros do Sul — alguns dos quais ainda carregam as cicatrizes deixadas pelos pastores-alemães durante o Movimento pelos Direitos Civis — estão indignados. Foram as suas campanhas armadas de registro de eleitores e a sua mobilização em massa que deram origem aos grupos revolucionários das décadas de 1960 e 1970, nos quais muitos de nós buscamos inspiração. De fato, daquele período até a Guerra Civil — e remontando à primeira Revolução Americana —, o <em>sufrágio</em> é um fio condutor da tradição revolucionária americana.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora a luta anti-ICE tenha sido o movimento mais combativo do segundo mandato de Trump, os protestos “No Kings” têm sido os maiores. Cada marcha sucessiva atraiu milhões de pessoas a mais que a anterior, culminando em 8 milhões de americanos em mais de 2.000 cidades. Os revolucionários precisarão unir essas duas lutas e organizar-se dentro do “No Kings” para transformar seu horizonte de integridade eleitoral em uma força inteiramente nova pelo comunismo. Podemos até nos inspirar no movimento original “No Kings” de 250 anos atrás, que afirmou corretamente que quando um governo se torna destrutivo para seu povo, é nosso dever aboli-lo e organizar um novo.</p>
<p style="text-align: justify;">Como um polo revolucionário na ordem liberal em desintegração, devemos oferecer ao movimento de massa mais do que um repertório tático combativo. A rebelião certamente será necessária, e devemos incentivá-la e participar. Mas, sem uma organização revolucionária pronta para inaugurar algo novo, os “motins eleitorais” serão apenas a face mais extrema do protesto, uma maneira mais militante de “fazer nossas vozes serem ouvidas”. Em vez disso, um poder dual, com a participação ativa de centenas de milhares, idealmente milhões, de pessoas deve estar pronto para assumir o controle onde as facções de elite em guerra falharem.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Traduzido de: </em><a class="urlextern" title="https://illwill.com/dual-power#fn1" href="https://illwill.com/dual-power#fn1" rel="ugc nofollow">https://illwill.com/dual-power#fn1</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Como a rede de resposta rápida não era uma organização, mas uma forma memética, seu caráter político mudava entre os bairros. É verdade que em algumas áreas &#8211; especialmente nos subúrbios &#8211; os despachantes davam instruções, geralmente para deixar de lado ou permanecer observando. Dessa forma, é essencial que os militantes sejam os que compõem funções como a de despachante, que são altamente influentes no caráter das interações com os agentes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Apesar de suas limitações, o slogan foi, afinal, aquele sob o qual mais de 100.000 habitantes de Minnesota organizaram sua conspiração. Se esse slogan em particular era necessário para uma mobilização tão ampla, então talvez o que fosse necessário fosse a organização autoconsciente dos revolucionários para antecipar o limite do slogan e estar prontos para superá-lo com um novo princípio organizador, muito parecido com o que é sugerido em relação à greve de aluguéis.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> É claro, alguns <em>respondedores rápidos</em> estavam armados. Alex Pretti é um exemplo. Mas a questão da defesa armada revolucionária vai além de uma questão de propensão individual a portar armas e requer seu uso organizado.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-160067 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kazimir-malevich.jpgPortrait-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kazimir-malevich.jpgPortrait-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kazimir-malevich.jpgPortrait-355x350.jpg 355w" sizes="auto, (max-width: 70px) 100vw, 70px" /> As imagens que ilustram esse artigo são reproduções de obras de</em> Kasimir Malevitch (1879-1935).</p>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<h3><span class="info-icon-circle-wrapper">  </span></h3>
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		<title>A urna e a luta de classes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Oct 2026 11:31:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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					<description><![CDATA[Em que condições a classe trabalhadora pode voltar a se organizar como classe? Por Gabriel Teles]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Gabriel Teles</h3>
<blockquote><p>Este texto surgiu originalmente como uma sequência de postagens em uma rede social. A sugestão de alguns integrantes do Passa Palavra de transformar aquelas notas em um texto deu origem à versão que segue. Preferi preservar parte da forma original, inclusive seu caráter fragmentário, em vez de reconstruir retrospectivamente o argumento como se tivesse nascido como um ensaio.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">O crescimento eleitoral da extrema direita tornou visível um processo político que vinha sendo construído havia anos. Sua expansão não começou durante a campanha. Erros de comunicação, desempenho de candidatos e circulação de vídeos nas redes podem explicar movimentos conjunturais; não explicam um processo construído ao longo de anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela foi construída durante anos, enquanto parte da esquerda se acostumava a identificar política com disputa eleitoral, administração de governos e circulação institucional. A cada eleição, mobilizam-se militantes, reorganizam-se alianças, aperfeiçoam-se estratégias de comunicação e procuram-se os segmentos do eleitorado que precisam ser conquistados. Quando as urnas fecham, grande parte dessa mobilização também termina.</p>
<p style="text-align: justify;">O problema dessa temporalidade é simples: aquilo que aparece eleitoralmente em um domingo foi produzido socialmente durante anos. A urna apenas apresentou a conta.</p>
<h4 style="text-align: justify;"></h4>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A classe trabalhadora não deixou de ser politizada</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Uma das explicações recorrentes para esse processo é a “despolitização”. A classe trabalhadora teria perdido interesse pela política, abandonado antigas referências coletivas e se tornado disponível para discursos simplistas e autoritários.</p>
<p style="text-align: justify;">“Despolitização”, porém, é uma palavra confortável porque transforma uma mudança nas formas e nos agentes da politização em ausência de política.</p>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores continuaram sendo politizados todos os dias. Essa politização continuou ocorrendo nos locais de trabalho e nas igrejas, atravessando relações familiares e redes sociais, sob a influência de empresários, organizações políticas e outros agentes. A questão relevante é que essa politização passou a ocorrer cada vez menos através de organizações constituídas pelos próprios trabalhadores em torno de seus conflitos e interesses.</p>
<p style="text-align: justify;">O chamado “vazio” nunca esteve realmente vazio. Enquanto determinadas formas de organização de classe recuavam, outras instituições, relações e agentes continuavam produzindo interpretações sobre trabalho, família, violência, mérito, Estado, autoridade e desigualdade. Por isso, talvez seja mais preciso falar em transformação das formas de politização do que simplesmente em despolitização.</p>
<h4 style="text-align: justify;"></h4>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Quando a política se torna gestão</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Esse processo possui uma história. Durante décadas, parte considerável da esquerda deslocou progressivamente o centro de sua atividade para o interior das instituições. Eleições, mandatos parlamentares, governos, ministérios e a gestão de políticas públicas passaram a absorver uma parcela crescente de suas energias, quadros e expectativas.</p>
<p style="text-align: justify;">O problema não está simplesmente em ocupar essas instituições. A questão decisiva é com que grau de autonomia as organizações de classe conseguem relacionar-se com governos, partidos, parlamentos e aparelhos burocráticos, inclusive quando estes são dirigidos por forças consideradas aliadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando essa autonomia se enfraquece, ocorre uma inversão importante: são as necessidades de conservação das posições institucionais que começam a estabelecer os limites da mobilização social. A temporalidade eleitoral passa a ordenar prioridades, alianças e conflitos; reivindicações são filtradas segundo as possibilidades da gestão; mobilizações podem ser contidas para não desgastar governos aliados. Aquilo que deveria constituir uma mediação passa a organizar o horizonte da própria política.</p>
<p style="text-align: justify;">Há ainda um problema anterior. A representação introduz uma separação entre aqueles que lutam e aqueles que passam a falar, negociar e decidir em seu nome. Quanto mais essa separação se estabiliza, mais a atividade autônoma dos trabalhadores tende a aparecer como algo que deve ser traduzido, administrado ou contido por organizações especializadas. A burocratização, nesse sentido, não decorre apenas de um afastamento posterior das organizações em relação aos trabalhadores; encontra condições para se desenvolver na própria separação entre representantes e representados.</p>
<p style="text-align: justify;">A consequência não é simplesmente uma esquerda “afastada do povo”. O processo é mais profundo: organizações que deveriam constituir fontes relativamente autônomas de poder social tornam-se dependentes dos ritmos, recursos e limites das instituições burocráticas às quais se vinculam. A capacidade de agir independentemente delas diminui justamente quando essa independência se torna necessária, seja para pressionar um governo aliado, seja para resistir a um governo adversário.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse sentido que a autonomia importa. Ela pressupõe a capacidade de manter organizações, conflitos e decisões cuja existência não dependa do calendário eleitoral, dos cargos disponíveis ou das necessidades administrativas de um governo. Isso não implica uma idealização de uma exterioridade pura em relação ao Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma força social organizada pode utilizar posições institucionais sem se reduzir a elas. Quando a relação se inverte, ministérios, gabinetes e eleições deixam de ser terrenos particulares de uma luta mais ampla e passam a definir seus limites. A política profissionaliza-se precisamente quando a capacidade autônoma de organização da classe perde densidade.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160022" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-3-240x300.jpeg" alt="" width="560" height="700" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-3-240x300.jpeg 240w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-3-336x420.jpeg 336w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-3.jpeg 432w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Enquanto isso, a vida material piorou</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Essa transformação política ocorreu enquanto as condições materiais de parcelas extensas da classe trabalhadora também se modificavam.</p>
<p style="text-align: justify;">Precarização, terceirização, endividamento, jornadas extensas, insegurança econômica, deterioração de serviços públicos e novas formas de controle sobre o trabalho passaram a organizar uma parte crescente da experiência cotidiana.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas condições não possuem consequências políticas automáticas. Quem está endividado não encontra dentro do boleto uma explicação para o sistema de crédito. Quem passa horas no transporte não recebe junto com a passagem uma interpretação da organização capitalista das cidades. Quem trabalha sob metas cada vez mais intensas não deduz espontaneamente das metas as determinações da exploração.</p>
<p style="text-align: justify;">As pessoas vivem imediatamente as consequências das relações sociais. Suas determinações são muito menos imediatamente visíveis. É nessa distância entre experiência e explicação que a disputa política encontra um de seus terrenos.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Organizar ressentimentos reais</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A extrema direita demonstrou capacidade para atuar nesse terreno. Ela não precisa inventar o desemprego, a dívida, a insegurança, a deterioração dos serviços ou a sensação de que a vida se tornou mais difícil. Essas experiências possuem bases materiais bastante concretas. O que ela oferece são explicações para sofrimentos verdadeiros.<br />
O responsável pode ser o imigrante, o comunista, a mulher, o professor, o STF, os impostos, uma suposta “ideologia” ou qualquer outro personagem capaz de condensar contradições cujas determinações efetivas são muito mais difíceis de identificar.</p>
<p style="text-align: justify;">O inimigo pode mudar. O mecanismo permanece semelhante: experiências inicialmente dispersas recebem uma explicação comum e passam a ser organizadas politicamente.<br />
É nesse sentido que a extrema direita consegue organizar ressentimentos reais. O ressentimento não precisa ser fabricado artificialmente. Ele pode nascer de experiências concretas de deterioração da vida e ser reorganizado contra agentes que pouco ou nada têm a ver com suas causas. O ressentimento, evidentemente, não explica sozinho a expansão da extrema direita. Interesses materiais, valores, formas de sociabilidade e adesões conscientes a determinados projetos políticos também estão em jogo. Aqui, interessa tratá-lo como uma das matérias que podem ser politicamente organizadas, e não como chave geral do fenômeno.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>“O povo ficou fascista”</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Diante disso, surge uma explicação ainda mais confortável: “o povo ficou fascista”. A formulação possui uma vantagem para quem a utiliza. Se o problema fundamental está numa deficiência moral ou intelectual da população, pouco resta a explicar. Basta denunciar a ignorância, o ressentimento ou a manipulação daqueles que votaram de determinada maneira.</p>
<p style="text-align: justify;">A responsabilidade pelo fenômeno retorna aos próprios indivíduos que precisam ser explicados. Isso não exige negar a existência de racismo, misoginia, autoritarismo, ou adesões efetivas a projetos de extrema direita entre trabalhadores. Também não há qualquer razão para supor que posições de classe produzam espontaneamente posições políticas radicalizadas.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão começa justamente aí: como determinadas experiências sociais são transformadas em determinadas identificações políticas?</p>
<p style="text-align: justify;">Chamar milhões de pessoas de fascistas pode expressar indignação diante de posições efetivamente autoritárias. Como explicação, entretanto, deixa intacto o problema que deveria explicar.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Uma classe fragmentada não se constitui espontaneamente como classe</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Uma classe fragmentada no trabalho, desorganizada politicamente e submetida diariamente às formas dominantes de interpretação da sociedade não desenvolverá espontaneamente uma consciência correspondente aos seus interesses coletivos.</p>
<p style="text-align: justify;">A exploração não ensina automaticamente quem explora. A precarização tampouco produz necessariamente radicalização.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela pode produzir o contrário: medo de perder o emprego, competição entre trabalhadores, rotatividade, isolamento e redução do tempo disponível para construir relações coletivas. Pessoas submetidas a condições semelhantes podem viver essas condições durante anos sem constituí-las como experiência política comum.</p>
<p style="text-align: justify;">Há uma contradição particularmente importante no capitalismo contemporâneo. Empresas conseguem coordenar milhares de trabalhadores por sistemas digitais, metas, aplicativos e algoritmos. O processo produtivo pode adquirir níveis extraordinários de integração enquanto aqueles que o realizam permanecem fragmentados política e organizativamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Ser reunido pelo capital no processo de trabalho e constituir-se politicamente como classe são processos distintos. A organização, portanto, não consiste simplesmente em reunir politicamente uma classe que já estaria pronta à espera de sua representação. É na própria experiência do conflito, na criação de solidariedades e na elaboração comum dos antagonismos que trabalhadores dispersos podem constituir-se como força coletiva. A classe não precisa apenas encontrar uma organização que a represente; precisa produzir formas de organização através das quais possa agir por si mesma.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A pergunta menos interessante</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Depois de uma derrota eleitoral, quase toda discussão tende a convergir para uma pergunta: como derrotar a extrema direita na próxima eleição?</p>
<p style="text-align: justify;">É uma pergunta necessária para partidos que disputam eleições. É muito menos suficiente como problema estratégico e para aqueles que pensam numa transformação radical da sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Se todo o diagnóstico termina perguntando como produzir outro resultado eleitoral, continuamos examinando o fenômeno exatamente no terreno em que ele apareceu, e não naquele em que foi produzido.</p>
<p style="text-align: justify;">Evidentemente, campanhas, alianças e governos interferem nos resultados e nas próprias condições em que os trabalhadores se organizam. Isso não elimina uma diferença fundamental entre conquistar votos e constituir força social.</p>
<p style="text-align: justify;">Nada disso elimina uma diferença fundamental entre conquistar votos e constituir força social.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma eleição pode ser vencida sem que se tenha alterado significativamente a capacidade autônoma de organização da classe trabalhadora. Também é possível administrar o Estado durante anos enquanto relações sociais que alimentam forças adversárias continuam sendo reproduzidas fora dele.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Outra pergunta</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Talvez a pergunta deva ser deslocada: em que condições a classe trabalhadora pode voltar a se organizar como classe?</p>
<p style="text-align: justify;">Isso recoloca no centro os locais de trabalho, os bairros, os conflitos cotidianos, as organizações próprias e as formas concretas de luta.</p>
<p style="text-align: justify;">A formulação também exige cuidado. “Voltar às bases” não pode significar simplesmente reconstruir uma imagem idealizada da organização operária do passado. A própria composição da classe mudou, assim como seus locais de trabalho, seus deslocamentos, sua estabilidade ocupacional e suas formas de sociabilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Há ainda um problema na própria palavra “base”. Uma base costuma pressupor algo situado acima dela. Muitas vezes a fórmula conserva a divisão entre uma direção que produz a política e trabalhadores que precisam ser conscientizados, mobilizados ou conquistados por essa direção.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez o problema, portanto, não seja simplesmente como a esquerda pode “voltar às bases”. A própria formulação conserva aquilo que deveria ser posto em questão: de um lado, organizações que elaboram estratégias; de outro, uma base à qual é preciso retornar, organizar e conscientizar. Uma política da auto-organização começa quando essa divisão entre dirigentes e dirigidos deixa de ser tomada como natural.</p>
<p style="text-align: justify;">A organização de classe coloca então outro problema: criar condições para que aqueles que vivem os conflitos possam produzir coletivamente interpretações sobre eles, decidir suas formas de ação e construir organizações capazes de permanecer para além de uma conjuntura eleitoral.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160024" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-300x235.jpg" alt="" width="560" height="439" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-300x235.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-768x602.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-536x420.jpg 536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-640x502.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-681x534.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5-511x400.jpg 511w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-5.jpg 800w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Uma sociedade não é disputada apenas nas eleições</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Talvez uma das lições mais incômodas desse processo seja justamente esta: ninguém disputa uma sociedade apenas disputando eleições.</p>
<p style="text-align: justify;">Eleições condensam relações sociais que continuam existindo antes e depois delas. Uma campanha pode modificar conjunturalmente essas relações; dificilmente consegue substituí-las.</p>
<p style="text-align: justify;">Não existe, portanto, um atalho eleitoral capaz de resolver uma derrota produzida durante anos nas formas de organização, nas relações cotidianas e na capacidade de diferentes forças oferecerem interpretações para experiências reais de sofrimento social.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso não torna as eleições irrelevantes. Apenas impede que confundamos o resultado eleitoral com o conjunto das relações de força que o produziram. A questão decisiva é onde se encontra a capacidade organizada de agir para além do momento eleitoral e, sobretudo, em que medida os próprios trabalhadores conseguem constituir organizações relativamente autônomas diante do Estado, dos governos, dos partidos e das burocracias que pretendem representá-los.</p>
<p style="text-align: justify;">Auto-organização, nesse sentido, não é uma palavra de ordem abstrata. É o processo pelo qual experiências dispersas de exploração podem ser transformadas em experiência coletiva, produzindo formas próprias de organização e capacidade de intervenção sobre as relações que as engendram. A classe não se constitui politicamente pela simples existência de milhões de indivíduos submetidos à exploração. Ela se constitui nas lutas através das quais esses indivíduos reconhecem interesses comuns e desenvolvem capacidade coletiva de agir.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse processo que a luta de classes adquire uma existência propriamente política. Não porque todo conflito entre capital e trabalho produza imediatamente consciência ou organização, e sim porque determinadas lutas podem romper o isolamento em que a exploração é vivida, produzir solidariedades e criar organizações que sobrevivam ao conflito que lhes deu origem. A questão decisiva é a constituição de uma força social capaz de agir com continuidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A auto-organização, porém, não diz respeito apenas aos meios da luta. Há uma relação entre as formas pelas quais uma transformação é produzida e as relações sociais que podem emergir dela. Se a emancipação dos trabalhadores pressupõe que eles assumam coletivamente o controle sobre suas próprias condições de existência, essa capacidade não pode ser simplesmente delegada durante a luta para reaparecer depois de uma ruptura. As formas de organização construídas no presente já colocam, portanto, o problema de quem decide, quem executa e quem controla as decisões coletivas.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa capacidade exige autonomia. Organizações dos trabalhadores podem se relacionar com partidos, governos e instituições sem encontrar neles seu princípio de organização. Quando passam a depender de seus calendários, recursos e necessidades, a lógica se inverte: em vez de a representação institucional expressar uma força constituída na luta, é a reprodução das instituições que passa a estabelecer os limites daquilo que pode ser reivindicado, organizado e enfrentado.</p>
<p style="text-align: justify;">A disputa eleitoral desloca a capacidade política para um terreno em que a ação dos trabalhadores assume necessariamente a forma da representação: escolhe-se quem decidirá, legislará e administrará. O problema, portanto, não está apenas na importância excessiva concedida às eleições. Está na substituição recorrente da capacidade coletiva de agir pela capacidade de escolher quem agirá em seu nome. Uma vitória eleitoral pode modificar as condições em que a luta se desenvolve; não elimina essa separação.</p>
<p style="text-align: justify;">A luta de classes não começa na urna e tampouco encontra nela sua forma privilegiada. Sua força reside na capacidade dos trabalhadores de constituírem relações, organizações e formas de decisão que ampliem seu poder de agir diretamente sobre as próprias condições de existência. A urna pode registrar uma relação de forças; não pode criá-la. Nenhuma urna corrige aquilo que não foi construído na luta de classes.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160026" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-a-285x300.jpeg" alt="" width="100" height="105" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-a-285x300.jpeg 285w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-a-399x420.jpeg 399w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Topor-a.jpeg 600w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" />Este artigo está ilustrado com desenhos de Roland Topor (1938-1997)</em>.</p>
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