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	<title>Destaques &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>A maior mobilização popular em 10 anos: outubro de 2026</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/11/160324/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Nov 2026 18:25:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[Alguns preferem fechar os olhos e esperar um “melhor momento”, tratando com desprezo os “ingênuos” que se mobilizaram. Eu fico com o que disse o poeta Carlos Drummond de Andrade: “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.” Por Davi.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Davi</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">As eleições de 2026 foram o acontecimento político mais importante dos últimos 4 anos e marcam o início de um novo período histórico no Brasil do ponto de vista das lutas sociais. Depois de todos serem surpreendidos com os resultados do primeiro turno, que favoreceram enormemente a extrema-direita, obtendo maioria no Congresso e nos executivos estaduais, houve uma ampla mobilização popular em rechaço à possibilidade de eleição de Flávio Bolsonaro. Isso culminou na primeira virada de uma disputa presidencial em segundo turno, contra todos os prognósticos de favoritismo dos institutos de pesquisas e analistas políticos. Essa virada pode ser resumida em um motivo: a mobilização da classe trabalhadora brasileira.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">Bolsonarismo e petismo</h3>
<p style="text-align: justify;">Nas últimas décadas, a esquerda radical em geral realizou um movimento de distanciamento do PT, visto como o partido hegemônico da ordem capitalista e conciliador de classes. Em sua primeira década de governo, o Brasil passou por profundas mudanças no que se refere ao crescimento econômico, integração no comércio global, estabilidade cambial, investimentos em infraestrutura, acesso ao crédito, diminuição da mortalidade infantil, aumento da cobertura vacinal, crescimento do emprego formal e poder de compra. Ao mesmo tempo, a informalidade no trabalho continuou elevada, o encarceramento e os índices de homicídios aumentaram, assim como a repressão e letalidade policial. Fatores crônicos de precariedade no acesso a direitos sociais não foram resolvidos enquanto dirigentes partidários enriqueciam e casos de corrupção aumentavam. Há diversos outros elementos que poderiam ser citados, tanto no aspecto de melhoria do padrão de vida quanto na continuidade de problemas sociais, mas não vou me estender, pois isso já foi tratado de forma detalhada em diversos artigos e é de fácil acesso para quem quer pesquisar.</p>
<p style="text-align: justify;">As contradições ficaram escancaradas após as revoltas populares de junho de 2013, iniciadas pelo Movimento Passe Livre, em que uma energia de rebelião e descontentamento com a carestia dos transportes públicos paralisou as grandes cidades brasileiras, ultrapassando até a própria vanguarda autonomista do movimento e conquistando a redução das tarifas em dezenas de cidades. Ali “um Brasil se descobria”, como me recordo de um dos vídeos da época, e a população começou a se interessar mais por política, seja de esquerda ou de direita. O artigo <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2013/06/79726/" href="https://passapalavra.info/2013/06/79726/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">A Revolta dos Coxinhas</a> resume a ambiguidade da vitória popular, em que elementos radicais da extrema-direita começam a tomar a direção de alguns grupos de manifestantes e gerar forte desconforto na esquerda. Logo o PT assume a narrativa de que aquilo se tratava de uma conspiração de agentes estrangeiros da direita, apostando na negação do caráter proletário daquelas lutas.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde então sabemos bem o que ocorreu. Surge o Movimento Brasil Livre, emulando o nome do MPL. O impeachment de Dilma acontece em 2016, após manifestações multitudinárias. Surge Bolsonaro, que é eleito em 2018, no que era um claro momento de refluxo dos movimentos sociais e ascensão de organizações fascistas. Há um período grande de medo e incerteza durante os anos de 2018-2022, com a pandemia e a morte evitável de centenas de milhares de pessoas, até chegarmos no governo Lula 3 que representou a resistência institucional ao bolsonarismo e seu projeto ditatorial. No meio disso, ocorreram outros movimentos populares que merecem destaque: as vitoriosas greves dos garis do Rio de Janeiro de 2014 e 2015, as ocupações de escola no Brasil em 2015 e 2016, a greve dos caminhoneiros de 2018 (que foi um prenúncio da captura da revolta pelo bolsonarismo) e a greve dos entregadores de aplicativo de 2020.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo Lula 3 surge num momento de refluxo da mobilização popular. Os trabalhadores ficaram contidos pelo medo da repressão de Bolsonaro e do contágio na pandemia, algo que fortaleceu a posição de Lula como alternativa institucional ao bolsonarismo, prometendo um mínimo de estabilidade na democracia burguesa, além de cumprir preceitos básicos de políticas públicas. Um exemplo dessa posição é de que quase não houve mobilização popular para impedir a tentativa de golpe de 2022, em que após a eleição, bolsonaristas iniciaram um movimento de bloqueio de rodovias federais que paralisou as estradas brasileiras por alguns dias na semana do 31 de outubro, chegando a <a class="urlextern" title="https://www1.folha.uol.com.br/internacional/en/brazil/2022/11/bolsonarists-cause-over-300-roadblocks-in-25-states-and-in-the-federal-district.shtml" href="https://www1.folha.uol.com.br/internacional/en/brazil/2022/11/bolsonarists-cause-over-300-roadblocks-in-25-states-and-in-the-federal-district.shtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">mais de 300 pontos de bloqueio</a>, afetando voos internacionais e contando com <a class="urlextern" title="https://apublica.org/2022/10/video-mostra-prf-dizendo-a-bolsonaristas-que-nao-ira-multa-los-por-bloqueio-de-rodovia/" href="https://apublica.org/2022/10/video-mostra-prf-dizendo-a-bolsonaristas-que-nao-ira-multa-los-por-bloqueio-de-rodovia/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">apoio das forças de segurança</a>. Em pouco tempo, Bolsonaro pediu para que seus apoiadores saíssem das estradas e fizessem acampamentos nos quartéis do exército, até culminar na catarse coletiva que foi o 8 de janeiro de 2023.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo Lula 3 nasce, portanto, num momento de alta incerteza e polarização política. A grande burguesia fez oposição ao seu mandato durante quase todo o seu governo pela sua recusa de realizar grandes cortes nas despesas do Estado para diminuir o déficit fiscal, o que na visão dela faria com que a taxa de juros abaixasse e a inflação entrasse em controle. Apesar disso, houveram alguns bons indicadores econômicos do ponto de vista da classe trabalhadora, como a mínima histórica da taxa de desemprego, crescimento do emprego formal, crescimento da massa salarial, <a class="urlextern" title="https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2026/02/07/reajuste-salarial-em-2025-acima-da-inflacao-dieese-inpc.htm" href="https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2026/02/07/reajuste-salarial-em-2025-acima-da-inflacao-dieese-inpc.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">crescimento geral dos salários acima da inflação</a>. Mas, claro, partindo de uma situação em que metade dos brasileiros possuem <a class="urlextern" title="https://github.com/matheushexsel/pentefino/blob/master/research_notes/Pente%20fino%20dados%20pol%C3%ADticos%20Brasil%202026/13_renda_por_faixa_e_simulacoes_de_impacto.md" href="https://github.com/matheushexsel/pentefino/blob/master/research_notes/Pente%20fino%20dados%20pol%C3%ADticos%20Brasil%202026/13_renda_por_faixa_e_simulacoes_de_impacto.md" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">renda domiciliar per capita abaixo de R$ 1.500 e 80% estão abaixo de R$ 3.000</a>, segundo dados do IBGE.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Fato é que, assim como no período de 2018-2022, de 2023 a 2026 a maioria da classe trabalhadora ainda viveu em modo de sobrevivência, incluindo vários dos jovens que participaram em movimentos sociais no início da década de 2010 e que agora começam a estar mais estabelecidos dentro do mercado de trabalho. Nesse governo Lula 3, o espírito foi de “normalização” das rotinas de exploração e procura por pontos de estabilidade, algo que reflete o relativamente alto crescimento econômico que tivemos e a diminuição do desemprego. Vivemos em uma sociedade plenamente voltada para fazer a máquina capitalista girar.</p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista proletário, talvez o evento mais significativo desse período <a class="urlextern" title="https://x.com/poponze/status/2110571941501239358/video/1" href="https://x.com/poponze/status/2110571941501239358/video/1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">tenha sido a denúncia feita por redes sociais do jovem Rick Azevedo em 2023</a> contra a rotina de trabalho da escala 6×1, algo que comoveu o Brasil, gerou um movimento chamado Vida Além do Trabalho, fez com que ele ganhasse o cargo de vereador no Rio de Janeiro em 2024 e agora a eleição para deputado federal em 2026. O instrumento de pressão para que essa pauta fosse alcançada na eleição presidencial de 2026 foi menos uma ação direta no mundo real e mais uma denúncia coletiva no mundo virtual, algo que pode ser visto como uma medida de recuperação dos conflitos que integra redes sociais e a política institucional hoje em dia. Tudo isso corrobora o argumento de que não vivemos nesse período uma ascensão dos movimentos populares e da ação direta. Abaixo o gráfico do número de greves no Brasil como ilustração adicional.<img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160285" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-1.png" alt="" width="1301" height="650" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-1.png 1301w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-1-300x150.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-1-1024x512.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-1-768x384.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-1-841x420.png 841w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-1-640x320.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-1-681x340.png 681w" sizes="(max-width: 1301px) 100vw, 1301px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Nesse marasmo, não houve muito entusiasmo por parte da esquerda com o governo Lula 3, algo que foi uma oportunidade para “webcomunistas” crescerem e também se elegerem em 2026, como Jones Manoel e Humberto Matos.</p>
<p style="text-align: justify;">A derrota em 2022 também fez com que a extrema-direita entrasse em refluxo por conta das consequências da perseguição aos golpistas e a prisão de Jair Bolsonaro. Mesmo assim, no mundo virtual, o MBL (agora Missão) e influencers bolsonaristas capitalizaram no ataque aos jovens de esquerda, seja na rua ou em universidades públicas. Também capitalizaram nos discursos de protesto ao governo Lula, culpando-o pela alta do custo de vida. Foi nesse período que se popularizaram os debates em podcasts no YouTube entre influencers de direita e esquerda.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse clima de apatia mudou após o resultado do primeiro turno de 2026.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">A luta contra Flávio Bolsonaro</h3>
<p style="text-align: justify;">Após o resultado, o clima de medo que ocorreu na eleição de 2018 voltou para a esquerda. Uma catástrofe iria acontecer, onde o filho do presidente que tentou dar um golpe e matou milhares na pandemia era o favorito e contaria com grande favorecimento em todas as esferas do Estado. O projeto da direita que ascendeu é o ódio e a eliminação da esquerda, o avanço do ajuste fiscal, o crescimento da repressão policial e paramilitar, a violência no campo e a perda de direitos trabalhistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dia após o resultado do primeiro turno, em 5 de outubro, estudantes da UFF de Niterói (RJ) tomaram as ruas e iniciaram a mobilização popular contra a eleição de Flávio Bolsonaro.<img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160286" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/manifestacao.jpg" alt="" width="398" height="267" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/manifestacao.jpg 398w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/manifestacao-300x201.jpg 300w" sizes="(max-width: 398px) 100vw, 398px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Diversos influencers e grupos de diferentes correntes de esquerda aderiram ao chamado para mobilização e voto em Lula. A ideia foi criar uma frente ampla pela democracia e compartilhar ao máximo conteúdos críticos a Flávio Bolsonaro, além de ações sincronizadas em redes sociais, a fim de impulsionar seu alcance pelos algoritmos de visibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 7 de outubro, milhares de estudantes e trabalhadores marcham da Candelária até a Cinelândia, no Rio de Janeiro. Também ocorreram manifestações em Salvador, Porto Alegre e Goiânia. No 8 de outubro, houveram manifestações em pelo menos 13 estados, incluindo São Paulo, Paraná, Bahia, Ceará e Distrito Federal. Dia 9 de outubro, atos em universidades de pelo menos oito estados. 11 de outubro, centenas de milhares de pessoas na manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, com participação de Lula. 12 de outubro, manifestação em Copacabana ocupa aproximadamente sete quarteirões da Avenida Atlântica. Também ocorrem atos em outras capitais. 13 de outubro: manifestantes ocupam a Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Em São Paulo, ocorre o <em>Ato da Virada</em>, no Largo da Batata. 14 de outubro, o Senado aprova o fim da escala 6×1. Atos ocorrem em Goiânia, Recife e São Luís, além de assembleias estudantis em São Paulo.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160283" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/garis6x1a.jpg" alt="" width="335" height="597" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/garis6x1a.jpg 335w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/garis6x1a-168x300.jpg 168w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/garis6x1a-236x420.jpg 236w" sizes="(max-width: 335px) 100vw, 335px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Entre 15 e 17 de outubro: atos em Florianópolis, São Gonçalo, Niterói, Ribeirão Preto, Mogi das Cruzes, Lagarto, Curitiba, Ponta Grossa, Colombo, Curitiba, Campinas, São Paulo, Sorocaba e Santos. 18 de outubro: pela manhã, um grupo independente do PT organiza um ato no Largo da Batata em São Paulo, após o partido tentar desmobilizar o encontro. Ocorrem atos em mais de 100 cidades brasileiras e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil convoca uma mobilização nacional pela reeleição de Lula. 19 de outubro: Porto Alegre registra um dos maiores atos de sua história. Indígenas dos povos Yanomami e Ye&#8217;kwana, da maior terra indígena do Brasil, lançam uma carta aberta: <a class="urlextern" title="https://reporterbrasil.org.br/wp-content/uploads/2026/10/CartaFLYY-eleicoesout2026.pdf" href="https://reporterbrasil.org.br/wp-content/uploads/2026/10/CartaFLYY-eleicoesout2026.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">não nos deixem morrer com a eleição de Flávio Bolsonaro</a>. Ameaças de garimpeiros contra indígenas e <a class="urlextern" title="https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2026/10/focos-de-fogo-em-manaus-e-cidades-vizinhas-disparam-apos-o-primeiro-turno-das-eleicoes.shtml" href="https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2026/10/focos-de-fogo-em-manaus-e-cidades-vizinhas-disparam-apos-o-primeiro-turno-das-eleicoes.shtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">incêndios explodem na Amazônia após o primeiro turno</a>. Entre 20 e 23 de outubro, centenas de atos populares são organizados em todo o país.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160284" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/garis61.jpg" alt="" width="335" height="597" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/garis61.jpg 335w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/garis61-168x300.jpg 168w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/garis61-236x420.jpg 236w" sizes="auto, (max-width: 335px) 100vw, 335px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Dia 24, véspera da eleição, mobilização popular culminou em manifestações multitudinárias no Rio de Janeiro e em São Paulo. Eu estive no ato em São Paulo e digo que foi um dos maiores atos que fui na minha vida. Mais tarde, no mesmo dia, fui num bairro popular panfletar um material feito por um colega autonomista contra Flávio Bolsonaro, sem apologia à Lula e com um chamado à mobilização popular. Meu objetivo não era virar o voto de ninguém, apenas trazer uma visão crítica acerca do candidato e da política institucional. Dialoguei com um senhor que votaria no Flávio para que ele conhecesse melhor o histórico do seu candidato. Mesmo não tendo convertido seu voto, chegamos à conclusão de que, caso ele vencesse, deveria ser cobrado pelos trabalhadores, assim como Lula. Um rapaz de 16 anos veio falar comigo e com meu colega, dizendo que estava começando a conhecer mais sobre política agora e muito interessado em se mobilizar. Ele me lembrou eu mesmo quando iniciei a militância na mesma idade em junho de 2013. A maioria dos nossos jovens colegas que estavam na ação de panfletagem participavam pela primeira vez numa ação política e comentaram que queriam continuar se envolvendo após a eleição. Algumas pessoas vieram espontaneamente conversar conosco, senti uma grande disposição de conversar.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160287" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/masp.jpg" alt="" width="399" height="501" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/masp.jpg 399w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/masp-239x300.jpg 239w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/masp-334x420.jpg 334w" sizes="auto, (max-width: 399px) 100vw, 399px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Dia 25 de outubro: prefeituras ligadas ao bolsonarismo removem o transporte público necessário para realizar a eleição em 27 cidades do Brasil, que concentram 10% do eleitorado, numa tentativa de dificultar que eleitores pobres de Lula cheguem aos locais de votação. A denúncia do golpe em curso é seguida por uma série de protestos em redes sociais, ações na Justiça e se inicia um movimento espontâneo de caronas em pontos de ônibus para eleitores. Guardadas as devidas diferenças, lembrei-me das patrulhas anti-ICE que ocorreram em Minneapolis este ano, em que pessoas comuns espontaneamente se auto-organizaram e pegaram seus carros para patrulhar onde estavam integrantes do ICE e denunciá-los. Mais tarde e depois de grande pressão popular, o STF determina pela primeira vez na história a prorrogação da eleição até às 19h, algo que não foi seguido na grande maioria das urnas. Pessoas começam a ir até os locais de votação para fiscalizar e verificaram que a decisão não estava sendo descumprida.</p>
<p style="text-align: justify;">Fim do dia 25, contra o poder econômico que apostava na vitória de Flávio, contra as redes sociais trumpistas, contra as ameaças de garimpeiros aos indígenas, contra os ataques vindos de bolsonaristas, contra os resultados das pesquisas e favoritismo de Flávio, contra a sabotagem no transporte, e apesar do próprio PT, a classe trabalhadora brasileira elege Lula presidente do Brasil pela quarta vez, com o <a class="urlextern" title="https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/10/26/taxa-de-abstencoes-brancos-e-nulos-soma-2184percent-e-chega-a-minima-historica.ghtml" href="https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/10/26/taxa-de-abstencoes-brancos-e-nulos-soma-2184percent-e-chega-a-minima-historica.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">menor valor histórico de abstenções, votos brancos e nulos numa eleição presidencial</a>.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160288" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/onibusasalvador.jpg" alt="" width="416" height="738" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/onibusasalvador.jpg 416w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/onibusasalvador-169x300.jpg 169w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/onibusasalvador-237x420.jpg 237w" sizes="auto, (max-width: 416px) 100vw, 416px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">Aprendizados e reflexões</h3>
<p style="text-align: justify;">Essas semanas de tirar o fôlego mostraram que existia sim uma grande energia sendo represada, esmagada por uma sociedade voltada exclusivamente para o trabalho, onde tanto o lazer, o dinheiro e os laços sociais são escassos. Pudemos sentir novamente uma coletividade com um objeto emancipatório em comum, ainda que frágil e dentro dos limites da institucionalidade burguesa. O fim da escala 6×1 é a maior conquista trabalhista em décadas e mostra uma nova dinâmica de recuperação dos conflitos, que combina com uma tendência de outros países no continente americano em diminuir as jornadas de trabalho. Já se fala muito inclusive em implantação de escala 4×3 em algumas categorias de trabalhadores, o que poderia ser uma nova pauta de classe a ser encampada.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um <a class="urlextern" title="https://pt.anarchistlibraries.net/library/joao-bernardo-a-autogestao-da-sociedade-prepara-se-na-autogestao-das-lutas" href="https://pt.anarchistlibraries.net/library/joao-bernardo-a-autogestao-da-sociedade-prepara-se-na-autogestao-das-lutas" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">importante artigo</a>, João Bernado diz que “em qualquer luta importa mais a forma de organização dos participantes do que o conteúdo ideológico inicial. A tomada de consciência faz-se através da possibilidade que cada pessoa tiver de colaborar na condução prática da luta, sem se limitar a ouvir doutrinas ensinadas por outros”.</p>
<p style="text-align: justify;">Na luta contra Flávio Bolsonaro, pudemos ver tanto elementos de uma luta coletiva passiva, no caso das pessoas que estavam seguindo influencers como o político Janones, quanto de lutas coletivas ativas, como na iniciativa que pequenos grupos independentes tiveram em criar materiais próprios, fazer passeatas e ajudar com caronas e fiscalização das urnas. É uma ambivalência que perdurou durante essas semanas e pode continuar após a definição da eleição. Contudo, continuando com a citação do artigo:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“A aprendizagem ideológica só é criativa quando ajuda a conceptualizar experiências já adquiridas ou em vias de aquisição; e quanto mais profundamente vividas forem essas experiências tanto mais longe se pode levar a aprendizagem ideológica. É a luta o fundamento e o principal motor desta pedagogia, e a autonomia ou se aprende a partir de uma base prática ou não se aprende.”</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Daí podemos entender que há oportunidades de aproveitar a energia e os eventos que ocorreram para dialogar com uma parcela muito mais ampla da sociedade do que aquela na qual a esquerda radical se confinou. Houve uma experiência de luta, ainda que com objetivos limitados e reformistas, que praticamente todos os brasileiros viveram em grande intensidade nas últimas semanas. As pessoas estão falando muito mais sobre política nesse momento e está aparecendo disposição para um diálogo que de certa maneira pode favorecer a esquerda radical. Até mesmo os eleitores do Flávio não demonstraram o entusiasmo que se viu com a candidatura de Jair Bolsonaro em 2018, parecia que não existia campanha e quase ninguém saia em sua defesa, os votos no Flávio eram em grande maioria “frouxos”. Assim como sem uma grande parcela de “votos críticos”, Lula não teria sido capaz de virar a eleição. Inclusive, a maioria dos meus colegas que participaram de lutas “autônomas” também esteve envolvido em maior ou menor grau nesta mobilização.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos agora em um novo período histórico: Flávio fugiu para os EUA, vacilando em se autoproclamar presidente do Brasil e alegar fraude nas urnas, seguindo os passos golpistas do seu pai. Parece se encontrar isolado politicamente.</p>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2026/10/29/denuncias-de-assedio-eleitoral-no-trabalho-veja-como-denunciar.ghtml" href="https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2026/10/29/denuncias-de-assedio-eleitoral-no-trabalho-veja-como-denunciar.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Há um movimento de políticos e patrões para perseguir e demitir “petistas”</a> e também está havendo grande indignação popular contra isso, com diversos relatos de trabalhadores sendo demitidos por motivação política. Essa frente poderia ser uma forma de elevar a contradição entre trabalhadores e patrões neste momento, resgatando a independência de classe.</p>
<p style="text-align: justify;">Indígenas <a class="urlextern" title="https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2026/10/29/ameaca-de-envenenamento-a-indigenas-apos-a-reeleicao-de-lula-perguntas-e-respostas-sobre-investigacao-em-ms.ghtml" href="https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2026/10/29/ameaca-de-envenenamento-a-indigenas-apos-a-reeleicao-de-lula-perguntas-e-respostas-sobre-investigacao-em-ms.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">ainda estão sendo ameaçados e mortos no Brasil por motivos políticos</a>, há um pedido de suas articulações nacionais por sua defesa que está ganhando espaço. Em resposta ao “exército do Lula”, criaram o “<a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/exercitodospovosindigenas/" href="https://www.instagram.com/exercitodospovosindigenas/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">exército dos povos indígenas</a>”.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda há um grande sentimento de indignação contra as prefeituras e governos que tentaram dar um golpe nas eleições e sabotar os transportes públicos. Diversos atos estão sendo marcados no Brasil. Em <a class="urlextern" title="https://g1.globo.com/ba/bahia/eleicoes/2026/noticia/2026/10/26/grupo-protesta-em-salvador.ghtml" href="https://g1.globo.com/ba/bahia/eleicoes/2026/noticia/2026/10/26/grupo-protesta-em-salvador.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Salvador</a> e <a class="urlextern" title="https://www.metropoles.com/sao-paulo/grupo-protesta-em-frente-a-prefeitura-de-sp-por-onibus-reduzidos-na-eleicao" href="https://www.metropoles.com/sao-paulo/grupo-protesta-em-frente-a-prefeitura-de-sp-por-onibus-reduzidos-na-eleicao" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">São Paulo</a>, manifestantes foram às ruas pedir a renúncia dos prefeitos por tentativa de golpe.</p>
<p style="text-align: justify;">Lula está em seu último mandato e não há sucessor à altura para 2030. Governará com forças políticas que tentarão a todo custo desestabilizar seu governo. Isso pode complicar manter a independência de classe, pois muitos dos seus eleitores sairão em sua defesa. Assim como muitas das pessoas que não eram organizadas, estavam desorientadas e encontraram em Janones uma figura de referência, podem permanecer seguindo sua liderança, o que também prejudica a independência de classe de futuras mobilizações. Além, é claro, da problemática mistura de elementos nacionalistas e ufanistas que também marcou a campanha.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, entendo que a situação que nos encontramos não é culpa do PT, nem de Bolsonaro ou qualquer político. É de todos nós enquanto classe trabalhadora, que não fomos capazes de superar o limite histórico de construção de movimentos independentes e lutas nos locais de trabalho, nessa realidade de sucessivas crises do primeiro quarto do século XXI. A burocratização é um fenômeno que começa na base. Mas vejam o que está ocorrendo no mundo e o que ocorreu no Brasil! Existe um clima de mobilização e revolta por contágio, saindo de maneira caótica, mas que possui elementos que podem sim ser aproveitados como matéria prima para a construção de um novo ciclo de lutas, novas articulações e relações sociais. Alguns preferem fechar os olhos para isso e esperar um “melhor momento”, tratando com desprezo os “ingênuos” que se mobilizaram. Eu fico com o que disse o poeta Carlos Drummond de Andrade:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.”</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160282" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/61.jpg" alt="" width="750" height="467" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/61.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/61-300x187.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/61-675x420.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/61-640x399.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/61-681x424.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p></blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>A arte de destaque é de autoria de Francis Gruber (1912-1948).</em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>O dia depois de amanhã</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Nov 2026 02:37:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Charles Junior, Antonio Carlos e Pedro Seeger O Brasil parece que capotou umas trinta vezes, pelo amor de Santa Rosa de Luxemburgo. Realmente não temos motivos para ficar tristes depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, conduzido pela 4ª vez à presidência do país. Mas, parafraseando Maiakovski [1], também não temos motivos [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Charles Junior, Antonio Carlos e Pedro Seeger</h3>
<p style="text-align: justify;">O Brasil parece que capotou umas trinta vezes, pelo amor de Santa Rosa de Luxemburgo.</p>
<p style="text-align: justify;">Realmente não temos motivos para ficar tristes depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, conduzido pela 4ª vez à presidência do país. Mas, parafraseando Maiakovski<strong> [1]</strong>, também não temos motivos para ficar felizes. Não apenas porque temos o Congresso mais a direita desde as últimas eleições, com a possibilidade inclusive de barrar PECs enviadas pelo governo<strong> [2]</strong>, mas essencialmente porque vem chumbo grosso aí. Como falado em outros momentos, as classes dominantes brasileiras e internacionais querem mais arrocho<strong> [3]</strong>, haja vista as falas de representantes do mercado já na 2⁠ª feira pós-eleições. A interminável ladainha do aumento dos juros, necessidade de ajuste fiscal e descontrole das contas públicas já tomou conta novamente dos noticiários da economia, com os agentes do mercado exigindo compromissos do presidente reeleito. Mesmo com negativas por parte dos representantes do governo federal, sabemos muito bem para que lado pende Lula e o PT<strong> [4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes disso, precisamos olhar um pouco mais como se desenha o quadro político após a votação do dia 25. Então bora lá, CHAMA!</p>
<p style="text-align: justify;">Pressionado e acuado, o governo petista fez em um mês o que não se dispôs (ou não se arriscou) a fazer em quatro anos: proibição das <em>bets</em>; aprovação do fim da escala 6×1 e diminuição da jornada de trabalho; perdão das dívidas de milhões de microempreendedores individuais (MEIs), com ampliação de faturamento possível para esse enquadramento e até a possibilidade de ter mais funcionários. Se o segundo turno durasse mais uma semana, ninguém sabe o que mais poderia ter sido abocanhado.</p>
<p style="text-align: justify;">Reiteramos que, graças à derrota no 1º turno, o avanço foi maior do que nos outros 46 meses de Lula 3. O novo foi a boa e velha meia esquerda da seleção da classe trabalhadora. Veloz e hábil, as mobilizações de rua entortaram as defesas de seu próprio time e dos adversários. Tanto nas capitais quanto no interior entrou em jogo nossa melhor jogadora empurrando as duas defesas para dentro do gol. Marta Maria entrou com bola e tudo, cantando:</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Mas é preciso ter força, é preciso ter raça</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">É preciso ter gana sempre</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Quem traz no corpo a marca</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Maria, Maria, mistura a dor e a alegria</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">…</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Marta, Maria, é um dom, uma certa magia</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Uma força que nos alerta</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Uma mulher que merece viver e amar</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Como outra qualquer do planeta<strong> [5]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Sem superestimar os números nem a determinação política das ruas, mas foi algo novo, que chacoalhou a conjuntura. Muitas dessas manifestações foram feitas a contragosto e à revelia do PT, que continuava apostando unicamente na mudança de comunicação para tentar alcançar o oponente bolsonarista (sabemos que se tem uma coisa que a direção petista tem medo, desde 2013, é de gente na rua). Soma-se a isso a postura diferente de Lula no 2꠶ turno e os vacilos de Flávio, que demorou a perceber a mudança enquanto já dividia ministérios e falava em mudar a constituição<strong> [6]</strong>, ou seja, entrou de salto alto e levou a virada.</p>
<p style="text-align: justify;">O que todos os jornais nacionais (muito a contragosto, ainda desejosos de uma terceira via e de uma mítica direita não-bolsonarista) e internacionais louvaram como sagacidade e capacidade miraculosa de Lula nada mais é do que a alienação típica das eleições e da democracia burguesa: toda a frenética militância de inúmeras pessoas se torna fruto da ação de uma única pessoa. Assim, Lula pode alardear que conseguiu derrotar mais uma vez o clã Bolsonaro, ainda que se dependesse unicamente dele e do seu partido as coisas teriam provavelmente tomado um rumo muito diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Devemos ficar atentos no desenrolar desse processo, se toda essa explosão vem de anseios anteriores à eleição que emergiram agora ou não, e como e por quais canais essa onda vai seguir. Que Lula e aliados busquem convertê-la unicamente a seu favor e, no limite, desmobilizá-la, não é novidade. Como o farão e que resistência irão enfrentar é o que nos parece ser a chave para o próximo período. Na conta entra o papel do chamado exército de Lula, comandado pelo general Janones. Não nos espanta que uma esquerda acostumada a falar de quadros, tática e estratégia goste de se acomodar na hierárquica estrutura militar. Mas uma análise dessa ferramenta está além desse nosso texto a quente, carecemos de tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Então diz aí, o que vem nesse próximo período?</p>
<p style="text-align: justify;">Pela perspectiva dos agentes do mercado, a reeleição de Lula significa continuidade de um arranjo fiscal cuja insuficiência o próprio governo já reconhece. A ministra do Planejamento afirmou que, em 2027, “seja quem for o próximo presidente”, não se governa com as regras atuais sem gerar inflação e dívida<strong> [7]</strong>. Também disse que o próximo presidente precisará aprovar uma PEC de contenção de despesas, e que 2026 não seria ano para reformas estruturais<strong> [8]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Se nada mudar, a dívida bruta passaria de 80,1% do PIB para 115% em 2036. Estabilizá-la exigiria superávit primário de 2,1% do PIB ao ano, o que o país não alcança nem em um cenário mais otimista. O Itaú projeta dívida de 86,5% já em 2027 e estima em 2,4% do PIB o superávit necessário<strong> [9]</strong>. Outros falam de crise fiscal aguda e observa que a receita real não poderá mais crescer como em 2023-2026, com PIB em torno de 2%<strong> [10]</strong>. O Ibre/FGV avalia que, mesmo executado, o ajuste previsto no PLDO 2027 (cerca de 1,4 p.p. do PIB em três anos) seria insuficiente, e que não há agente público plenamente comprometido com a sustentabilidade fiscal<strong> [11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Na atividade e nos juros, o desempenho recente depende em parte de estímulos que se esgotam. As medidas anunciadas movimentarão cerca de R$ 190 bilhões e acrescentarão até 1,4 p.p. ao crescimento de 2026<strong> [12]</strong>. O FMI projeta alta de 2,2% em 2026 e desaceleração em 2027, com desemprego subindo de 6,2% para 6,8%. Atribui isso a condições monetárias restritivas, à retirada do estímulo fiscal e à incerteza global. O economista-chefe do BMG vê o PIB de 2027 mais próximo de 1% do que de 1,5%<strong> [13]</strong>. O boletim Focus aponta crescimento de 1,85% em 2026 e 1,4% em 2027, com inflação de 5,01% e 4,3%, acima da meta de 3%, enquanto a Selic, embora em queda, continua em 13,75%<strong> [14]</strong>. Por fim, o Banco Mundial também cita desafios fiscais como freio à aceleração da atividade.<strong> [15]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A reação dos mercados indica um forte déficit de credibilidade. No pregão seguinte ao primeiro turno, em que Flávio Bolsonaro apareceu à frente, o dólar caiu 4,12% e o Ibovespa subiu 7,85%, com queda superior a 130 pontos-base nos juros longos<strong> [16]</strong>. Parte desse movimento reflete a expectativa de menor gasto, privatizações e redução de impostos, e não apenas um juízo sobre a política fiscal. Ainda assim, ele sugere que o mercado precifica a continuidade como risco.</p>
<p style="text-align: justify;">Há também restrições políticas e externas. Segundo a cientista política Lara Mesquita (FGV), a primeira preocupação do presidente será política. Economistas defendem que o ajuste ocorra nos primeiros meses de mandato, antes que a janela política se feche<strong> [17]</strong>. O FMI alerta para um crescimento global “apoiado numa única perna”, a da inteligência artificial, e para o risco de petróleo acima de US$ 130 o barril<strong> [18]</strong>. Como contraponto, André Esteves (BTG) sustenta que não há “terra arrasada”<strong> [19]</strong> e alguns agentes do mercado consideram o arcabouço uma regra moderna, ainda que pressionada por inflação e juros altos.</p>
<p style="text-align: justify;">Todas essas reclamações, avisos e chamados à razão, assim como muitos outros, mostram as pressões e chantagens que o dito “mercado” e seus agentes fazem sobre o governo reeleito. Não há menção direta, pelo menos por enquanto, a retirada de direitos e benefícios, mas quando (e não se) os cortes começarem, esse pode ser o caminho que irão seguir. Os capitalistas já reclamam que o fim da 6×1 aumentará os custos com força de trabalho, e seguirão pedindo estímulos, benefícios, incentivos e perdão de dívidas e impostos. Nesse cenário, poderão as ruas se contrapor a sanha direitista do congresso e as vacilações do governo?</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, o bordão de campanha “para o trabalhador, proteção, para o bandido, prisão” indica a vontade de recrudescer ainda mais a repressão no país. Lula quer emplacar o Ministério da Segurança Pública ainda esse ano e aceitou a redução da maioridade penal para crimes hediondos. Que outras medidas poderiam vir para apaziguar as bancadas conservadoras e sua fome de recursos?</p>
<p style="text-align: justify;">Conseguirá Lula, seu partido e seus aliados, incluindo o exército digital de Janones, canalizar as ruas para um mero enfrentamento ao Congresso? Ou tentarão a desmobilização jogando a carta de confiança no governo e de que agora não é hora para críticas? Poderão as mobilizações se disseminar e radicalizar, ou mesmo se manter? O governo será emparedado entre as ruas e os representantes do mercado e seus aliados no Congresso?</p>
<p style="text-align: justify;">Veremos como será o proclamado “melhor governo que um presidente já fez”. Como não queremos fazer previsões, deixamos aqui mais perguntas e pistas do que respostas e soluções. Acreditamos na criatividade dos trabalhadores e sabemos que poderão contar com diversos aliados no caminho da radicalização. Mas muito continua em aberto, e a euforia não pode lançar areia nos nossos olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma última coisa, Flávio, como um bom Bolsonaro, não aceitou a derrota, e, ao que tudo indica, já caçou seu rumo para os EUA. Será que seus apoiadores darão o ar da graça nas ruas? Os seus aliados vão defendê-lo ou vão entrar em uma briga pelo posto de líder da oposição?</p>
<p style="text-align: justify;">Já, do nosso lado, pipocam manifestações de rua pelo mundo (desde nossos amigos gregos, passando pela Espanha, Itália, França, EUA, Sérvia, Polônia, México, Czechia, Indonésia, Polônia, Alemanha, Peru, Síria, Índia, Portugal, Chile, Argentina e Venezuela), e aí, vai virar ou vai para em “mais democracia”?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160314" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/11/texto2.jpg" alt="" width="402" height="497" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/11/texto2.jpg 402w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/11/texto2-243x300.jpg 243w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/11/texto2-340x420.jpg 340w" sizes="auto, (max-width: 402px) 100vw, 402px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Assaltemos os céus, antes que eles nos afoguem em uma chuva de sangue e explosões.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais perguntas para o tempo que vem.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas </strong></h4>
<div class="fn" style="text-align: justify;">
<div class="content"><strong> [1]</strong> Ver publicação em <a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/p/De6PkudocDc/?mdxt=MWg0MmZhN2F4b21tag==" href="https://www.instagram.com/p/De6PkudocDc/?mdxt=MWg0MmZhN2F4b21tag==" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.instagram.com/p/De6PkudocDc/?mdxt=MWg0MmZhN2F4b21tag==</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [2] </strong>Além de poder barrar indicações do governo, essenciais no troca-troca de cargos por apoio. Outro medo do governo é que a pauta de impeachment de ministros do STF trave toda a agenda do próximo ano, impedindo o avanço dos projetos prioritários. Ver PL poderá barrar PECs de Lula no Senado, diz cientista política &#8211; <a class="urlextern" title="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c38xzyql4qzpo" href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c38xzyql4qzpo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.bbc.com/portuguese/articles/c38xzyql4qzpo</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [3] </strong>Ver nosso último artigo &#8211; <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2026/10/160208/" href="https://passapalavra.info/2026/10/160208/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://passapalavra.info/2026/10/160208/</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [4] </strong>E não nos esquecemos do reajuste fiscal de Dilma em 2015 logo após derrotar Aécio prometendo justamente o contrário. Parece que isso foi há tanto tempo, não?</div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [5]</strong> Maria, Maria &#8211; Milton Nascimento</div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [6]</strong> E suas infelizes falas no último debate antes das eleições. Ter chamado Lula de nove dedos, alcunha comum pela qual manifestantes de direita se referem ao presidente, foi um tiro no pé. Assim como não conseguir responder sobre relações com a milícia e desmandos do pai durante a pandemia. Um espetáculo, mas em tempos de identidades simbólicas, não achamos que tenha sido inócuo.</div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [7]</strong><a class="urlextern" title="https://acionista.com.br/tebet-diz-que-janela-para-mudar-o-arcabouco-nao-e-agora/" href="https://acionista.com.br/tebet-diz-que-janela-para-mudar-o-arcabouco-nao-e-agora/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> https://acionista.com.br/tebet-diz-que-janela-para-mudar-o-arcabouco-nao-e-agora/</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [8]</strong><a class="urlextern" title="https://istoedinheiro.com.br/tebet-novo-arcabouco" href="https://istoedinheiro.com.br/tebet-novo-arcabouco" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> https://istoedinheiro.com.br/tebet-novo-arcabouco</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [9]</strong><a class="urlextern" title="https://acionista.com.br/governo-preve-falta-de-verba-para-pisos-em-2027/" href="https://acionista.com.br/governo-preve-falta-de-verba-para-pisos-em-2027/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> https://acionista.com.br/governo-preve-falta-de-verba-para-pisos-em-2027/</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [10]</strong> <a class="urlextern" title="https://www.abinee.org.br/wp-content/uploads/2026/07/cc2606.pdf" href="https://www.abinee.org.br/wp-content/uploads/2026/07/cc2606.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.abinee.org.br/wp-content/uploads/2026/07/cc2606.pdf</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [11]</strong><a class="urlextern" title="https://blogdoibre.fgv.br/posts/quem-tem-de-fato-uma-agenda-de-ajuste-fiscal-no-brasil" href="https://blogdoibre.fgv.br/posts/quem-tem-de-fato-uma-agenda-de-ajuste-fiscal-no-brasil" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> https://blogdoibre.fgv.br/posts/quem-tem-de-fato-uma-agenda-de-ajuste-fiscal-no-brasil</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [12]</strong><a class="urlextern" title="https://www.infomoney.com.br/?p=3360278" href="https://www.infomoney.com.br/?p=3360278" rel="ugc nofollow"> https://www.infomoney.com.br/?p=3360278</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [13]</strong> <a class="urlextern" title="https://setcesp.org.br/noticias/o-que-o-fmi-preve-para-a-economia-brasileira-em-2027-e-os-desafios-para-retomar-o-crescimento" href="https://setcesp.org.br/noticias/o-que-o-fmi-preve-para-a-economia-brasileira-em-2027-e-os-desafios-para-retomar-o-crescimento" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://setcesp.org.br/noticias/o-que-o-fmi-preve-para-a-economia-brasileira-em-2027-e-os-desafios-para-retomar-o-crescimento</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [14]</strong> <a class="urlextern" title="https://www.agazeta.com.br/mundo/o-que-o-fmi-preve-para-a-economia-brasileira-em-2027--e-os-desafios-para-retomar-crescimento-1026" href="https://www.agazeta.com.br/mundo/o-que-o-fmi-preve-para-a-economia-brasileira-em-2027--e-os-desafios-para-retomar-crescimento-1026" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.agazeta.com.br/mundo/o-que-o-fmi-preve-para-a-economia-brasileira-em-2027&#8211;e-os-desafios-para-retomar-crescimento-1026</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [15]</strong><a class="urlextern" title="https://economicnewsbrasil.com.br/2026/01/13/banco-mundial-revisa-crescimento-global-e-aponta-ritmo-do-brasil-em-2026/" href="https://economicnewsbrasil.com.br/2026/01/13/banco-mundial-revisa-crescimento-global-e-aponta-ritmo-do-brasil-em-2026/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> https://economicnewsbrasil.com.br/2026/01/13/banco-mundial-revisa-crescimento-global-e-aponta-ritmo-do-brasil-em-2026/</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [16]</strong><a class="urlextern" title="https://www.moneytimes.com.br/arcabouco-e-a-regra-menos-bem-sucedida-da-historia-diz-economista-chefe-da-arx-investimentos/" href="https://www.moneytimes.com.br/arcabouco-e-a-regra-menos-bem-sucedida-da-historia-diz-economista-chefe-da-arx-investimentos/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> https://www.moneytimes.com.br/arcabouco-e-a-regra-menos-bem-sucedida-da-historia-diz-economista-chefe-da-arx-investimentos/</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [17]</strong><a class="urlextern" title="https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/opiniao/colunistas/inacio-aguiar/o-problemao-que-estara-na-mesa-do-presidente-eleito-mas-passara-longe-do-debate-eleitoral-1.3783190" href="https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/opiniao/colunistas/inacio-aguiar/o-problemao-que-estara-na-mesa-do-presidente-eleito-mas-passara-longe-do-debate-eleitoral-1.3783190" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/opiniao/colunistas/inacio-aguiar/o-problemao-que-estara-na-mesa-do-presidente-eleito-mas-passara-longe-do-debate-eleitoral-1.3783190 </a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [18]</strong><a class="urlextern" title="https://www.opovo.com.br/noticias/mundo/2026/10/14/fmi-reduz-previsao-de-crescimento-do-brasil-para-2026.html" href="https://www.opovo.com.br/noticias/mundo/2026/10/14/fmi-reduz-previsao-de-crescimento-do-brasil-para-2026.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> https://www.opovo.com.br/noticias/mundo/2026/10/14/fmi-reduz-previsao-de-crescimento-do-brasil-para-2026.html</a></div>
<div class="content" style="text-align: justify;"><strong> [19]</strong><a class="urlextern" title="https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/116324/proximo-governo-nao-herdara-terra-arrasada--diz-andre-esteves" href="https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/116324/proximo-governo-nao-herdara-terra-arrasada--diz-andre-esteves" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/116324/proximo-governo-nao-herdara-terra-arrasada&#8211;diz-andre-esteves</a></div>
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		<title>O Passa Palavra e os comentários</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Nov 2026 12:18:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[Reiteramos nosso compromisso com um espaço democrático, aberto e plural, onde possam ocorrer reflexões autênticas sobre as lutas sociais. Por Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Passa Palavra</h3>
<p style="text-align: justify;">O Passa Palavra foi concebido como um site destinado a noticiar as lutas, apoiá-las e pensar sobre elas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto ao pensar, nosso objetivo sempre foi o de estimular a reflexão coletiva. O pensamento único, o monolitismo, a transmissão verticalizada de ideias, características da esquerda burocrática, são coisas que desprezamos.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, nossa seção de comentários sempre foi aberta aos leitores, como forma de estimular a publicação de comentários que tornassem o pensar um exercício verdadeiramente coletivo, para que o público contribuísse ativamente na empreitada, dialogando com os textos publicados, criticando-os, oferecendo perspectivas alternativas, trazendo dados, bibliografia e informações antes ignorados, e assim por diante.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo dos anos, foram vários os debates travados no Passa Palavra que se tornaram uma verdadeira construção coletiva do pensar. Tivemos discussões profícuas e altamente qualificadas, que chegaram às centenas de comentários, muitas vezes superiores aos textos então publicados, que possibilitaram que o Passa Palavra se tornasse um espaço de reflexão e formação política para muitas pessoas, incluindo os próprios membros do Passa Palavra.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, nossa seção de comentários sempre foi moderada, para evitar que os debates fossem sabotados e tumultuados por comentários ofensivos, irrelevantes ou provenientes da extrema-direita e do fascismo. Isso não significa que nos opúnhamos aos debates francos, duros e enérgicos, mas a moderação era necessária para assegurar que as discussões continuassem a ser um exercício de reflexão coletiva sobre as lutas sociais. Sempre fomos transparentes sobre isso e, com certa frequência, postamos comentários alertando aos leitores sobre os termos da nossa política de moderação.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem. Acontecimentos recentes tornaram necessária, a nosso ver, uma atualização da política de moderação de comentários.</p>
<p style="text-align: justify;">Em primeiro lugar, o Passa Palavra tem sido inundado por comentários irrelevantes, que reproduzem o padrão de comunicação e a linguagem típicos das redes sociais. Todos os dias, moderamos diversos comentários de trolls, postados com a intenção deliberada de desestabilizar as discussões. É a transposição, para o mundo virtual, do modelo de ação dos provocadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Em segundo lugar, temos visto inúmeros comentários postados com a única finalidade de realizar ataques direcionados contra indivíduos, algo que não podemos tolerar. Em 2015 publicamos nosso <a href="https://passapalavra.info/2015/02/102443/" target="_blank" rel="noopener">Manifesto contra o trashing</a>, onde alertamos que o Passa Palavra permanece um espaço aberto e plural, mas não podemos admitir a publicação de textos e comentários enviados por pessoas imbuídas de má-fé, interessadas apenas em promover ataques e perseguições contra esta ou aquela pessoa.</p>
<p style="text-align: justify;">Em terceiro lugar, temos deparado com inúmeros comentários cujo propósito exclusivo é o de fazer publicidade de organizações políticas que já dispõem de seus próprios espaços de divulgação.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossa reação imediata foi vetar em bloco todos os comentários que associamos a estes ataques. Isto pode ter levado a comentários bem-intencionados serem apagados juntos aos ataques e, ao atribuirmos publicamente como critério apenas as ofensas, causamos certa confusão entre os leitores.</p>
<p style="text-align: justify;">Para manter o bom ambiente e esclarecer os critérios adotados em relação aos comentários, explicitamos que serão aprovados aqueles que:</p>
<ol>
<li style="text-align: justify;">não sejam completamente irrelevantes e postados com a finalidade exclusiva de veicular provocações e tumultuar as discussões;</li>
<li style="text-align: justify;">não sejam pessoalmente insultuosos;</li>
<li style="text-align: justify;">não violem os <a href="https://passapalavra.info/2020/04/131443/" target="_blank" rel="noopener">Pontos de Partida</a>;</li>
<li style="text-align: justify;">não sejam postados com a finalidade de fazer publicidade de organizações políticas;</li>
</ol>
<p style="text-align: justify;">Com isso, reiteramos o compromisso do Passa Palavra com a disponibilização de um espaço democrático, aberto e plural, onde possam ser travadas discussões que promovam reflexões autênticas sobre as lutas sociais.</p>
<blockquote><p>A fotografia em destaque é de uma instalação intitulada &#8220;Frost Activity&#8221;, de autoria de Olafur Eliasson (1967-).</p></blockquote>
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		<title>A metamorfose</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Nov 2026 20:47:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
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					<description><![CDATA[A paixão pelo Real que reinou na esquerda do século XX, cujo objetivo se resumia a revelar a Verdade por trás das relações sociais, converteu-se na paixão pela imagem. Por André Antunes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="section_highlight_wrapper">
<div class="level3" style="text-align: justify;">
<h3>Por André Antunes</h3>
<p>Nas 3 semanas infindas que se passaram, andávamos pelas ruas em grupos, até que éramos interpelados pelas estranhas “coisas de esquerda” que passávamos a sinalizar. Não eram broches, não eram adesivos, não eram bandeiras. Nossa pura existência no mundo, com nossos cabelos, nossas roupas e nossos trejeitos produzia uma estranha reação daqueles que nos viam. Éramos surpreendidos com gritos acalorados de “Lula!”, ou então com confrontações coléricas ao estilo “Bolsonaro!”. Novamente: durante esses dias, não carregamos broches, nem adesivos, nem bandeiras. A identificação instantânea, ora como “dentro” de um grupo, ora como “fora”, também produzia em nós uma reação imediata, a depender do interlocutor: “vai tomar no cu!” para aqueles que gritavam Bolsonaro; “faz o L!” para aqueles que gritavam Lula.</p>
<p>Mas e se, em um exercício hipotético, aqueles dias nunca tivessem realmente passado? E se, de súbito, todos fossem transformados em <em>in-groups </em>e <em>out-groups</em>? Pois não foi justamente isso que aconteceu? Aqueles “de esquerda”, em suas mais diversas formas, passaram a tratar-se a partir de um abstrato “nós”, em uma frente amplíssima sem distinções. Por outro lado, a variedade de visões, percepções e experiências de mundo daqueles “de direita” deu lugar a “eles”.</p>
<p>A bem da verdade, foi a própria população brasileira que se fraturou. A situação eleitoral transformou-se em um 50/50. E assim, todos nós, sem exceção, descobrimos o pior da ideologia petista que tanto criticamos: sua efetividade manifestada como uma <em>falsidade socialmente objetiva</em>. O fato de estarmos reféns do PT, entrando em uma paranoia contra “infiltrados”, empreendendo recuos táticos, tudo isso foi posto como uma condição objetiva para nossa própria sobrevivência. Novamente, fomos todos capturados pelo encanto. Dessa vez, como das outras, para “salvar a democracia”.</p>
<p>Mas e se fôssemos ainda mais longe em nosso esforço imaginativo? E se, de um dia para a noite, estivéssemos envolvidos em uma guerra de todos contra todos, em que, andando pelas ruas, corrêssemos o risco de ser identificados (e de reagir) a qualquer momento? Os vídeos de agressões e confrontos inesperados entre petistas e bolsonaristas são uma síntese dessa situação, de uma guerra sem fim contra o “outro”.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160295" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/11/22222.jpg" alt="" width="381" height="475" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/11/22222.jpg 481w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/11/22222-241x300.jpg 241w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/11/22222-337x420.jpg 337w" sizes="auto, (max-width: 381px) 100vw, 381px" /></p>
<p>Com isso, trago uma nova anedota. Na véspera das eleições, em 23 de outubro de 2026, eu e alguns amigos nos deslocamos da Praça Cívica da Universidade Federal de Juiz de Fora, dirigidos pelo DCE pelego, rumo à Praça Antônio Carlos. Lá, ao fim do trajeto, após gritarmos nas ruas em apoio a Lula, nos transformamos em um pequeno ponto vermelho em meio à cidade que passava a sinalizar para si mesmo. Na Praça era transmitido o debate presidencial entre Lula e Flávio. Em um espaço povoado apenas por eleitores de Lula, os gritos iniciavam-se em comemoração a cada fala &#8211; reitero: cada fala &#8211; do presidente Lula (até aquela já bem conhecida do “para o trabalhador proteção, para o bandido prisão”). Ao mesmo tempo, cada fala de Flávio era acompanhada de vaias e xingamentos histéricos, em uma atitude de reação automática, quase como se as pessoas ali estivessem enfrentando diretamente o Flávio Bolsonaro em pessoa. Do outro lado do mundo (ou do “nosso” mundo) estava quase metade dos brasileiros que não votaram em Lula &#8211; e que, é sempre bom lembrar, rejeitam fortemente ambos os candidatos. Gritamos, naquele momento, muito mais para dizer que “nós” tínhamos a Verdade (seja lá o que o “nós” signifique).</p>
<p>Como sair desse engodo? Como burlar essa falsidade socialmente objetiva? Como “desalistarmos” (com o perdão do neologismo) de um exército cujo general nem escolhemos e que, não obstante, seguimos as ordens? Como os jovens, que se formaram na brasa desse processo, poderiam transitar da defesa de Lula e do PT para uma crítica ferrenha e fundamentada? A <em>tendência </em>parece ser contrária, ainda que não se deva ignorar o nosso papel em construir <em>contratendências</em>. Mas afinal, essas alternativas realmente estão sendo construídas?</p>
<p>Não almejo conceder respostas às perguntas, mas, antes, fazer-nos pensar. Pensando essas aflições, recordei Pasolini, o cineasta e poeta italiano que, em 1973, publicou no jornal <em>Corriere della Sera </em>o artigo <em>O discurso dos cabelos</em>. Nele, ele relatava: “A primeira vez que vi os cabeludos foi em Praga. No hall do hotel onde estava hospedado entraram dois jovens estrangeiros com os cabelos compridos até os ombros. Atravessaram o hall, dirigiram-se a um canto um pouco apartado e sentaram a uma mesa. Ficaram sentados ali durante uma meia hora, observados pelos clientes, por mim inclusive; depois foram embora. Tanto ao cruzarem com as pessoas apinhadas no hall, quanto durante o tempo em que estiveram sentados em seu canto apartado, os dois não disseram uma só palavra (talvez &#8211; embora não me lembre bem &#8211; tivessem cochichado alguma coisa entre si; mas, suponho, algo de estritamente prático, inexpressivo).</p>
<p>No relato de Pasolini diante dos enigmáticos cabeludos, transparece o silêncio. Aqueles jovens eram portadores de uma linguagem não verbal. Mas o que dizia essa linguagem proveniente do domínio imediato dos “signos”, da semiologia?</p>
<p>Era a seguinte: “Somos dois cabeludos. Pertencemos a uma nova categoria humana que está neste momento aparecendo no mundo, que tem seu centro nos Estados Unidos e que, na província (como por exemplo &#8211; ou melhor, sobretudo &#8211; aqui em Praga), é desconhecida. Para vocês, portanto, somos uma Aparição. Exercemos nosso apostolado, já plenos de um saber que nos farta e nos exaure totalmente. Nada temos a acrescentar oral e racionalmente àquilo que física e ontologicamente dizem nossos cabelos. Graças também ao nosso apostolado, o saber de que estamos plenos pertencerá também a vocês um dia. Por enquanto é uma novidade, uma grande novidade, que cria no mundo, junto com o escândalo, uma expectativa: a qual não será traída. Têm razão os burgueses em nos olhar com ódio e terror, porque aquilo em que consiste o comprimento de nossos cabelos contesta-os de forma absoluta. Mas não nos tomem por pessoas mal-educadas e selvagens: estamos conscientes de nossa responsabilidade. Não olhamos para vocês, ficamos na nossa. Façam vocês o mesmo e aguardem os acontecimentos”.</p>
<p>Parece-me que os “jovens cabeludos” de Pasolini, operando uma estranha linguagem não verbal, não só se multiplicaram, mas também passaram a <em>olhar de volta </em>e a <em>reagir</em>. De súbito, viramos todos cabeludos, obrigados a contestar ou validar cada grito vindo do lado contrário ou do abstrato “nós”. Ser “de esquerda” passou a significar transmitir “signos” de esquerda, ou “coisas de esquerda”. Ainda que, lá no fundo, todos nós tenhamos consciência de não sermos pelegos, nem oportunistas, nem performáticos, já estamos bailando nesse compasso. Para os “outros”, somos todos “petistas” e devemos <em>olhar</em> <em>de</em> <em>volta</em> e <em>reagir</em> enquanto tais. A paixão pelo Real que reinou na esquerda do século XX, cujo objetivo se resumia a revelar a Verdade por trás das relações sociais, converteu-se na paixão pela imagem. Não importa o que somos, o que importa é como aparecemos, como somos lidos e codificados. O poder codificou-se e, no limite, nos tornamos todos “petistas” e “bolsonaristas”. Quando a realidade cobra de nós <em>olhar de volta </em>e <em>(re)agir</em>, não somos nós que decidimos os movimentos bruscos que se seguem.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-160294 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/11/33333-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /> Ilustramos este artigo com reproduções de obras de Sonia Delaunay (1885-1979).</p>
</div>
</div>
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		<item>
		<title>A Baldeação da Força de Trabalho: O &#8220;Cata-Louco&#8221;, os Surfistas de Trem e a Linha Invisível que separou Guarulhos de São Paulo nos Anos 80</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/10/160275/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Oct 2026 10:46:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Transportes]]></category>
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					<description><![CDATA[Embora os “surfistas de trem” tenham sumido das manchetes, a cicatriz urbana da década de 1980 continua aberta. Por Edson da Silva Freires]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Edson da Silva Freires*</h3>
<p style="text-align: justify;">Na manhã de uma terça-feira de 1985, a plataforma de uma estação ferroviária na franja leste da Região Metropolitana de São Paulo ferve. O som metálico dos trilhos avisa que a composição da antiga Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) se aproxima. O que se vê, porém, não é apenas um meio de transporte lotado, mas uma imagem que chocou o país e virou símbolo de uma era: dezenas de jovens e trabalhadores equilibrando-se no teto dos vagões em movimento, desviando de fios de alta tensão, ou espremidos nos estribos com as portas abertas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160084 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Historia-e-Mobilidade_Urbana_SP_Anos_80.jpg" alt="Composição da antiga CBTU Fonte: - Wikipédia / Acervo Histórico." width="250" height="161" /></p>
<p style="text-align: justify;">A grande imprensa da época costumava tratar o fenômeno como “irresponsabilidade juvenil”, apelidando aqueles jovens de “surfistas de trem”. No cotidiano das franjas periféricas, o deboche vinha embalado no jargão popular: aquele sistema sucateado e superlotado era o “trem cata-louco”. No entanto, longe de ser um modismo inconsequente ou uma simples falha técnica de engenharia, o colapso dos trilhos nos anos 1980 funcionava como uma violenta engrenagem oculta de controle social e planejamento urbano. O corpo do trabalhador periférico era o motor indispensável para construir a São Paulo do futuro, mas sua presença residencial nessa mesma cidade era proibida.</p>
<h4 class="li" style="text-align: justify;">Duas Cidades, Duas Realidades: O Chão de Fábrica e os Prédios Espelhados</h4>
<p style="text-align: justify;">Durante a década de 1980, a capital paulista vivia uma contradição monumental. Os eixos centrais e o quadrante sudoeste expandiam-se verticalmente com grandes centros corporativos de alto padrão, e o subsolo da cidade era cavado freneticamente para a expansão das linhas do Metrô. Para erguer essa muralha de concreto e modernidade, o capital precisava de um exército de braços.</p>
<p style="text-align: justify;">É aí que o mapa da segregação socioespacial ganha contornos reais. Através de leis de zoneamento excludentes e do preço proibitivo da terra no centro expandido, o Estado empurrava essa mão de obra para loteamentos irregulares, áreas de risco e bairros desprovidos de infraestrutura nas franjas do município vizinho de Guarulhos — como as bordas do Jardim Bananal e o distrito dos Pimentas — e nos extremos da Zona Leste de São Paulo.</p>
<p style="text-align: justify;">O espaço urbano tornava-se o espelho da desigualdade: de um lado, o Centro Expandido concentrava os investimentos estatais, redes de transporte modernas e postos de trabalho de alta renda; do outro, a Periferia Metropolitana confinava as classes populares em bairros-dormitório autoconstruídos, cuja única ligação com o centro econômico era um sistema de transportes deliberadamente precário.</p>
<h4 class="li" style="text-align: justify;">A Produção da Cidade-Dormitório sob a Ótica de Flávio Villaça</h4>
<p style="text-align: justify;">Para compreender a transformação de bairros de Guarulhos e dos extremos da Zona Leste em cidades-dormitório, a história social precisa dialogar com a arquitetura urbana de Flávio Villaça. Em sua obra, Villaça demonstra que a segregação do espaço intra-urbano é ditada pelas classes dominantes, que manobram os investimentos estatais de transporte em seu próprio benefício. O transporte de alta velocidade e qualidade (como as linhas subterrâneas do Metrô) é priorizado para conectar as zonas de moradia da elite aos seus centros corporativos.</p>
<p style="text-align: justify;">Em contrapartida, as massas trabalhadoras são segregadas nas franjas periféricas através da especulação imobiliária e da barreira do preço da terra. Áreas como o Jardim Bananal, Guaianazes e os Pimentas tornaram-se repositórios residenciais exclusivos para a reprodução da força de trabalho. Na lógica metropolitana da época, o trabalhador só tinha o direito de acessar o centro como um objeto de trânsito rápido e barato para o patrão, sendo compelido a passar o restante de suas horas em trânsito ou dormindo nas margens esquecidas da cidade.</p>
<h4 class="li" style="text-align: justify;">A Baldeação como Tortura Clandestina e a Voz da Memória</h4>
<p style="text-align: justify;">Para o operário da construção civil residente em Guarulhos, por exemplo, a jornada de trabalho começava horas antes do amanhecer. Não existia uma linha direta ou integrada. O trajeto era um circuito penoso de baldeações: ônibus municipais sacolejantes em vias de terra, longas caminhadas e, finalmente, o funil das estações ferroviárias de subúrbio.</p>
<p style="text-align: justify;">Como defendia o historiador Edward P. Thompson, a experiência de classe é forjada no cotidiano, na forma como as pessoas vivem as imposições do sistema econômico. No contexto metropolitano paulista, a baldeação diária não era um detalhe logístico; era um ritual de esgotamento físico. Viajar pendurado ou no teto não era uma escolha ousada, mas o limite físico imposto a quem, se perdesse aquela composição atrasada e lotada, perderia também o emprego e o sustento da família.</p>
<p style="text-align: justify;">A crueza desse sistema não ficou registrada apenas nos relatórios técnicos; ela está gravada na memória viva de quem cruzava essa fronteira metropolitana. Aquele sistema vivia abarrotado de surfistas e de pessoas penduradas nas portas que simplesmente não fechavam, equilibrando marmitas e com um cigarro sem filtro na boca enfrentando a jornada.</p>
<figure id="attachment_160083" aria-describedby="caption-attachment-160083" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-160083 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Historia-e-Mobilidade_Urbana_SP_Anos_8.jpg" alt="" width="800" height="463" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Historia-e-Mobilidade_Urbana_SP_Anos_8.jpg 800w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Historia-e-Mobilidade_Urbana_SP_Anos_8-300x174.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Historia-e-Mobilidade_Urbana_SP_Anos_8-768x444.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Historia-e-Mobilidade_Urbana_SP_Anos_8-726x420.jpg 726w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Historia-e-Mobilidade_Urbana_SP_Anos_8-640x370.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Historia-e-Mobilidade_Urbana_SP_Anos_8-681x394.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /><figcaption id="caption-attachment-160083" class="wp-caption-text">Fonte: Revista Trip / Acervo de Imagens Históricas.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Para um jovem da época, que saía da periferia em direção ao centro com o sonho de olhar os instrumentos musicais nas vitrines da rua Santa Ifigênia, a transição entre os sistemas de transporte escancarava a segregação. Ao desembarcar na Estação Penha do Metrô — uma estrutura moderna e funcional —, bastava olhar para a linha paralela para enxergar o descaso: o “bate-lata” da CBTU, uma frota totalmente lascada, passando e estalando os eixos nos trilhos feito uma velha máquina a vapor. Essa fratura exposta era a tradução visual de uma metrópole que escolhia quem viajava com dignidade e quem era empurrado ao limite do risco.</p>
<h4 class="li" style="text-align: justify;">Uma Chaga Nacional: O Espelho das Outras Metrópoles</h4>
<p style="text-align: justify;">O cenário vivido nos trilhos que conectavam Guarulhos à capital paulista estava longe de ser uma exclusividade regional. Na verdade, o colapso estrutural da CBTU e da RFFSA era uma chaga nacional; a crise estava escancarada no Brasil todo.</p>
<p style="text-align: justify;">No Rio de Janeiro, a situação nos ramais da Baixada Fluminense e da Zona Oeste (gerenciados pela antiga Flumitrens e RFFSA) empilhava corpos nos tetos e estribos sob o mesmo silêncio estatal. Passageiros eram diariamente expostos a passarelas de ferro baixas e redes aéreas de 3.000 volts, o que resultava em decapitações e eletrocussões frequentes, geralmente omitidas pela grande mídia. Da mesma forma, em Salvador e Recife, os trens que ligavam as periferias urbanas aos centros econômicos operavam no absoluto limite do sucateamento, com frotas obsoletas e portas abertas travadas pelo excesso de passageiros.</p>
<p style="text-align: justify;">O “surfe ferroviário” e o fenômeno dos “pingentes” foram, portanto, a expressão máxima de um modelo de metropolização brasileiro. O que mudava era apenas o sotaque regional; a engrenagem de moer o corpo e o tempo da classe trabalhadora periférica funcionava sob o mesmo roteiro de descaso de norte a sul do país.</p>
<h4 class="li" style="text-align: justify;">A Lente dos Jornais contra o Descaso Planejado</h4>
<p style="text-align: justify;">Ao abrirmos as páginas amareladas da grande imprensa paulista e nacional da década de 1980, a contradição do sistema fica escancarada. As manchetes de jornais como O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo costumavam tratar as mortes e os acidentes nos trilhos sob a ótica da falta de educação do passageiro ou da imprudência juvenil. Noticiava-se com frequência os corpos recolhidos nos trilhos como vítimas da “febre do surfe ferroviário”.</p>
<p style="text-align: justify;">O que a imprensa comercial raramente aprofundava eram as páginas dos relatórios técnicos que admitiam intervalos absurdos entre os trens, falta crônica de manutenção nas frotas e a ausência completa de portas automáticas funcionais. A “irresponsabilidade” apontada pelas autoridades era, na verdade, a única alternativa de sobrevivência em um sistema em colapso.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto os investimentos públicos massivos eram canalizados para erguer os bairros corporativos da elite paulistana e as linhas modernas do Metrô subterrâneo, o transporte de subúrbio que alimentava essa mesma construção civil operava no limite do sucateamento. Conforme as dinâmicas apontadas por Milton Santos sobre os sistemas de objetos e ações, o corpo e o tempo do trabalhador eram tratados pelo planejamento estatal como engrenagens sacrificáveis para a modernização do centro das metrópoles.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora os “surfistas de trem” tenham sumido das manchetes com a modernização gradual do sistema nos anos 1990, a cicatriz urbana da década de 1980 continua aberta. A barreira invisível entre as periferias e os eixos centrais ainda se faz sentir nas horas gastas em conduções lotadas e na histórica falta de habitabilidade social nas áreas centrais. Lembrar do “cata-louco” e do colapso ferroviário nacional não é apenas revisitar o passado; é entender os mecanismos políticos e econômicos que desenharam as linhas da desigualdade que dividem as nossas cidades até os dias de hoje.</p>
<p style="text-align: justify;">* <em>Graduado</em> <em>em</em> <em>Engenharia</em> <em>Civil</em> <em>e</em> <em>Pesquisador</em> <em>Independente em</em> <em>História</em> <em>Social</em> <em>Urbana</em></p>
<h4 style="text-align: justify;">Referências Teóricas:</h4>
<div class="li" style="text-align: justify;">SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. EdUSP, 2006.</div>
<div class="li" style="text-align: justify;">THOMPSON, Edward P. Costumes em Comum: Estudos sobre a Cultura Popular Tradicional. Companhia das Letras, 1998.</div>
<div class="li" style="text-align: justify;">VILLAÇA, Flávio. Espaço Intra-Urbano no Brasil. Studio Nobel, 2001.</div>
<h4 style="text-align: justify;">Referências Eletrônicas:</h4>
<div class="li" style="text-align: justify;">WIKIMEDIA COMMONS. Ficheiro: Estação Engenheiro Sebastião Gualberto (1994). Disponível em: &lt;wikipedia.org&gt;. Acesso em: 10/2026.</div>
<div style="text-align: justify;"></div>
<div class="li" style="text-align: justify;">REVISTA TRIP. Mar raivoso: A ousadia e o protesto dos surfistas ferroviários no Rio de Janeiro. Disponível em: &lt;uol.com.br&gt;. Acesso em: 10/2026.</div>
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		<title>&#8220;Tudo é montado pra enganar”: trabalhador da Blaze conta como a casa de apostas lucra bilhões às suas custas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Oct 2026 18:34:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[“Sou totalmente a favor da proibição”:  trabalhador da Blaze conta como a casa de apostas lucra bilhões às suas custas. Por União Terra e Trabalho (UTT).]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por União Terra e Trabalho (UTT)*</h3>
<p style="text-align: justify;">A Blaze nasceu em 2019, tem matriz no exterior e virou uma das marcas mais conhecidas das apostas no Brasil. Patrocina Neymar e usou influenciadores com dezenas de milhões de seguidores. Pelo balancete obtido pela Folha de S.Paulo, entre janeiro e novembro de 2025 a operação brasileira recebeu R$ 11 bilhões em depósitos de jogadores, teve receita bruta de R$ 1,9 bilhão e lucro de R$ 361 milhões, uma margem de 33%. <a href="https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/economia/blaze-gastou-r-330-mi-com-anuncios-em-2025-e-tem-virginia-como-principal-influenciadora-no-brasil/">No mesmo período, gastou R$ 330 milhões com publicidade e mandou R$ 350 milhões em dividendos para a sede fora do país</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Conversamos com um trabalhador do setor de atendimento ao “usuário” da empresa. Ele entrou antes da regulamentação do setor e acompanhou, de dentro, a passagem da clandestinidade para a licença federal e, agora, da licença para a proibição. É que em 25 de setembro de 2026, a Medida Provisória 1.394 vetou as apostas de quota fixa no país. As notas e os dados em destaque são da UTT.</p>
<p style="text-align: justify;">O vício em apostas causa prejuízos às comunidades tal qual o álcool e o cigarro. A fala de um operador deste sistema pode ajudar a educar a classe trabalhadora sobre a verdade escondida por debaxo dos panos.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><b>Entrar, ficar, ver de perto</b></em></p>
<p><b>Como você chegou na Blaze?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Entrei antes da regulamentação. Já tinha gente lá havia dois, três anos. Meu contrato era com uma empresa de Curaçao (uma pequena ilha holandesa na Venezuela) chamada Prolific. Ela pagava direto no Pix. Não tinha sistema que declarasse imposto: o dinheiro caía e eu que me virasse com a Receita.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>E o que mudou com a regulamentação?</b></p>
<p style="text-align: justify;">O curioso é que a regulamentação foi mais mal vista pela galera de dentro do que o contrário. Teve gente que pediu para sair naquela época. E eles não regularizaram todo mundo. O que se dizia no corredor, e é boato, é que a Blaze tinha uns 10 mil trabalhadores antes. Quando se regulamentaram, fecharam a operação praticamente só para o Brasil e cortaram muita gente, acho que entre 500 e 600 pessoas do time externo. Era tudo contrato com gente de fora, nada assegurado. Foi muito fácil desligar.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>Como é o trabalho no dia a dia? Tem pressão, controle do tempo?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Prefiro não entrar muito no lado trabalhista. Eu ganho acima do mercado e já trabalhei em lugar pior. Mas a empresa é desorganizada, parece startup: nenhum processo definido, tudo no boca a boca. Um decide uma coisa, daqui a pouco muda.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde a regulamentação, começaram a pressionar a gente a se mudar para São Paulo. Dizem que é híbrido, mas são quatro dias no escritório e um em casa. Ofereceram uma ajuda de custo de uns R$ 500 para a mudança, com o mesmo salário, para morar numa cidade muito mais cara. Quase ninguém que eu conheço foi. O ápice foi quando tiraram nosso vale-alimentação, por uns três meses este ano. Do nada, voltaram com ele, depois da canetada do Lula. Disseram que &#8220;ouviram os funcionários&#8221;. Ficam as teorias.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>Como o trabalho está dividido?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Tem suporte ao cliente, tinha um time de qualidade que avaliava a gente, um pessoal para problemas técnicos da plataforma e uma equipe só de pagamentos. Depois isso se misturou e todo mundo passou a processar pagamento também. É muita gente, atendendo duas marcas: a Blaze e a Jonbet. A Jonbet era para ser a bet do Jon Vlogs, mas é a mesma empresa. Os contratos com fornecedores são iguais. Só se separa na tela.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><b>As engrenagens</b></em></p>
<p style="text-align: justify;"><b>O que vocês são orientados a fazer quando alguém tenta sacar um valor alto ou tem a conta zerada?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Sempre tem alguma explicação, mas sucinta e mal explicada. A mais comum é a tal da <i>referral fraud</i>, a fraude de indicação. A pessoa entra no programa de indicação e o sistema pode simplesmente banir a conta. Tem quem abuse, que espalha o link em vários grupos para gente criar conta, e eu já vi isso. Mas tem caso sem explicação nenhuma: gente com milhares de reais na conta, ou que já gastou milhares jogando, banida porque uma indicação foi classificada como fraude.</p>
<p style="text-align: justify;">E nós também não temos a explicação. A orientação é mandar a pessoa para o e-mail. Lá, a equipe de tickets responde mais ou menos assim: &#8220;fizemos a verificação, você fraudou, conforme os termos de serviço que você aceitou ao criar a conta&#8221;. E acabou. Não diz por quê, não manda nada específico. Raramente se cita lei. Aí a pessoa que se vire na Justiça.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>E quando é algo que dá para verificar na hora?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Um exemplo é o <i>cashback</i> semanal. Dependendo do nível de aposta, a pessoa recebe de volta parte do prejuízo. Muita gente reclama que o valor veio errado, e o cálculo está lá, bonitinho. Só que ele é feito para pegar rato. A pessoa acha que vai recuperar parte de tudo o que perdeu, mas se teve algum ganho no período, esse ganho é descontado. Tudo é montado para enganar.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>E quando o cliente chega com provas de erro da plataforma, uma aposta que ele não fez, saldo sumindo?</b></p>
<p style="text-align: justify;">A ordem é culpar o usuário. Fraude de cashback, fraude de indicação, fraude de tudo. O dispositivo dele não funcionou, a conexão deve ter caído. Quase 100% das justificativas são essas. Se ele tem um print ou uma gravação de tela, aí o papo é &#8220;vamos entrar em contato com o provedor do jogo&#8221;, manda para o e-mail, e eu nunca soube o que acontece depois. Se não tem print, não tem choro nem vela. Está nos termos de serviço, e eles se escoram nos termos como se fossem lei, uma Constituição.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>Como é a divisão entre o cliente comum e o grande apostador?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Existem os VIPs, e alguns poucos VIPs têm gerente VIP. Não sei como é feita a classificação. Com eles, quase tudo é resolvido direto com o gerente, pelo WhatsApp. Para nós sobra pouca coisa, tipo um saque que demora. Mesmo aí tem diferença: se um cliente comum está esperando um saque de R$ 10, a gente manda um texto pronto. Para o VIP, tem que escrever na mão, personalizado.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>E as travas de segurança, como o reconhecimento facial? São retiradas para quem movimenta milhões?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Essa parte eu não sei. Já é com o gerente, e eu não trabalho lá. Mas é tudo direto pelo WhatsApp, tanto que vazaram recentemente umas conversas daquele cara (Willer Tomaz).</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160260" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/foto-300x169.jpg" alt="" width="677" height="381" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/foto-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/foto-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/foto-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/foto-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/foto-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/foto-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/foto-681x383.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/foto.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 677px) 100vw, 677px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em><b>Quem manda e onde fica a informação</b></em></p>
<p style="text-align: justify;"><b>De onde vêm as ordens? Fica evidente para vocês que existe uma fachada jurídica?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Fica, e por um motivo simples: a gente não conhece os nossos chefes. Conhecemos um dos administradores que está no CNPJ, que na prática é o nosso chefe, e uma pessoa abaixo dele. Acabou. Os outros administradores, ninguém sabe quem são. Quem pesquisa um pouco acha a razão social, Foggo Entertainment Ltda., e uma sócia chamada Purple &amp; Green, que por sua vez é de outra empresa. Está tudo no Google, é só procurar o CNPJ.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>Onde ficam os sistemas que vocês usam? Há orientação sobre o que fazer se a polícia ou a Justiça intervierem?</b></p>
<p style="text-align: justify;">As orientações sobre informação são rasas e quase sempre jogam a responsabilidade em nós. Tentaram instalar aqueles programas de monitoramento remoto de computador corporativo, mas não passou, porque eu uso meu computador pessoal e eles não podem botar isso nele.</p>
<p style="text-align: justify;">Fora isso, é tudo em serviço conhecido: Google Drive, Gmail, Zendesk para o atendimento, Slack para a comunicação interna. Nada em servidor próprio, nada num lugar físico. Tudo na nuvem, fácil de se livrar. Depois que saiu a notícia daquele advogado que teria lavado dinheiro pela Blaze, eles apagaram tudo o que havia de antigo no Slack. Tudo. Eu só tenho alguns prints.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><b>A proibição e o que vem depois</b></em></p>
<p style="text-align: justify;">“Sou totalmente a favor da proibição. Completa”</p>
<p style="text-align: justify;"><b>Como a empresa reagiu à MP que proibiu as bets?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Saiu um discurso, inclusive em textos que eles espalharam, de insegurança jurídica, de que é pior para a população o negócio ficar clandestino. Classe trabalhadora eles não falam, é &#8220;população&#8221;. A empresa age como se a MP fosse cair logo.</p>
<p style="text-align: justify;">Primeiro disseram que não iam demitir ninguém. Esta semana demitiram metade dos trabalhadores. Eu fiquei na parte que não foi demitida. E, por mais estranho que pareça, a maioria recebeu a demissão com felicidade. Depois de tanta tentativa de expulsar a galera do home office, ser demitido com todos os direitos, e ainda poder processar a empresa depois, virou alívio. Agora está tudo parado. Eu bato o ponto e fico, basicamente de férias, recebendo salário.</p>
<p style="text-align: justify;"><b>E qual é a sua posição sobre a proibição?</b></p>
<p style="text-align: justify;">Trabalhando nesse setor, vendo os processos por dentro, a pilantragem e as empresas de fachada, sou totalmente a favor da proibição. Completa. Não só do cassino: da aposta esportiva online também. O acesso é fácil demais e o controle, muito difícil. Se alguém disser que precisa de algo para a galera se divertir, acho menos pior liberar cassino físico do que manter isso.</p>
<p style="text-align: justify;">As pessoas acham que pagar R$ 30 milhões de outorga e regularizar funcionário é um custo pesado para essas empresas. Não é. Elas movimentam bilhões e bilhões. Vi uma notícia de que o custo para o SUS com ludopatia é várias vezes maior do que o imposto que elas pagam. E esse dinheiro vai embora. Pega uma Betano: aparece como coisa brasileira, patrocina Brasileirão, Flamengo, mas é empresa gringa. Pelo que conversei com gente de lá, quase tudo o que entra aqui sai do país. Não fica no nosso povo.</p>
<p style="text-align: justify;">* Informação de autoria: A União Terra e Trabalho (UTT) é uma articulação nacional criada em 2026 por organizadores de base que propõe a reconstrução do sindicalismo revolucionário no Brasil através dos locais de trabalho e comunidades. Tem como método a investigação junto ao povo e a ação coletiva por meio da autonomia política e da soberania econômica. Está presente no Ceará e no Rio de Janeiro. <a href="https://uniaoterraetrabalho.org">https://uniaoterraetrabalho.org</a></p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-160267 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/people-ufan-lee-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /> Ilustramos esta entrevista com a reprodução de uma obra de Lee Ufan.</em></p>
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		<title>A única urgência é o 3º turno: resistência e organização independente dos trabalhadores</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/10/160226/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 24 Oct 2026 10:42:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
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					<description><![CDATA[Somente nós, trabalhadores unidos nas organizações criadas na luta e para a luta, sem desvios partidários-sindicais, podemos buscar por uma transformação radical da sociedade. Por EducaLuta]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<h3 style="text-align: justify;">Por EducaLuta</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>O cenário das eleições e papel ativo dos trabalhadores</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A cada disputa eleitoral no Brasil, repete-se um cenário no qual temos os candidatos da esquerda liberal, capitaneados pelo PT, que querem manter a instituições da República que estão irremediavelmente corrompidas e não apresentam perspectivas de avanços na melhoria das condições de vida dos trabalhadores. O que os candidatos do PT podem apenas prometer é uma defesa abstrata da democracia contra um fascismo abstrato e tentar manter o que resta de programas sociais, pois o que resta a fazer é manter o que ainda está aí. Ou seja, essa posição política/eleitoral não almeja nenhuma melhora substancial nas condições de vida, mas para garantir sua posição de administrador de um Estado em crise é capaz de negociar (pactuar, buscar consenso) do que ainda resta de direitos adquiridos pelos trabalhadores com setores do capital, para manter sua posição de gestor do Estado, tendo acesso a inimagináveis volumes de capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, há a extrema direita que se caracteriza por atacar qualquer forma de legislação trabalhista, seguridade social, previdenciária e ambiental, pois quer garantir uma capacidade irrestrita de acumulação de capital aos empresários, pois entende que os marcos da social democracia ou mesmo um liberalismo humanizado já não é possível no capitalismo nos dias de hoje. Por isso há sempre um discurso de austeridade fiscal (corte de gastos) e um brutal ataque ao meio ambiente, para buscar novas fronteiras para acumulação de capital, por exemplo expandindo a fronteira agrícola ou a especulação financeira imobiliária. Esse discurso individualista, do cada um por si, está intimamente ligado à lógica religiosa de que aqueles que ascendem à riqueza são “ungidos” por Deus. A extrema direita faz uma síntese do discurso do empresário de si próprio com a religiosidade conservadora, baseada em uma teologia da prosperidade, mas é incapaz de atender aos verdadeiros anseios e necessidades concretas da classe dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Devido ao cenário apresentado acima, as eleições têm um papel menor quando se trata de melhora nas condições de vida do trabalhador. Os dois lados favoritos a administrar o Estado estão comprometidos com a acumulação de capital. Mesmo considerando que um dos lados têm uma visão social liberal e o outro tem uma postura autoritária, ambos estão comprometidos em assegurar as atuais condições de reprodução do sistema e farão a repressão necessária para isso. O que irá determinar se os trabalhadores manterão o que ainda têm de benefícios sociais ou mesmo a possibilidade de avanços, será sua capacidade de organização para resistir e lutar pelas suas demandas, a partir de instrumentos de luta desenvolvidos pelos próprios trabalhadores.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160239" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-5-1999-300x225.jpg" alt="" width="400" height="300" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-5-1999-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-5-1999-559x420.jpg 559w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-5-1999-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-5-1999-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-5-1999-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-5-1999-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-5-1999.jpg 639w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O 5º governo do PT</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O PT busca governar o Brasil pela 6ª vez. O partido já representou os anseios por transformação social no país, no entanto já em 2002 &#8211; portanto, antes de sua primeira vitória em eleições presidenciais &#8211; Lula assinava a sua chamada “Carta ao Povo Brasileiro”, que ficou conhecida como a “Carta aos Banqueiros”, em que se comprometia em acalmar empresários e investidores com “<em>respeito aos contratos e obrigações do país</em>”. De fato, o PT segue firme no compromisso de garantir ao capitalismo brasileiro e estrangeiro suas melhores condições de reprodução, sem atingir nenhuma estrutura jurídica, política ou econômica.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo Lula 3 confirmou mais uma vez esse pacto. Enquanto se apresentava como rival ao agronegócio, garantiu o “maior plano SAFRA da história”. Embora tenha criado um Ministério dos Povos Indígenas, os três primeiros anos de Lula 3 registraram mais assassinatos de indígenas do que os quatro anos de Bolsonaro; foram registrados 169 conflitos relativos a direitos territoriais, e apontou-se que centenas de terras indígenas continuam pendentes de regularização. Enquanto se diz alternativa à extrema-direita, brindou os patriotas com José Múcio no Ministério da Defesa, com aprovação direita de Jair Bolsonaro; Múcio tem longa carreira no PFL (Democratas) e no PTB, sendo um aliado de Roberto Jefferson no Mensalão; Jefferson, agora um bolsonarista, ao fazer a denúncia deste esquema em 2005, colocou o PL no centro do “escândalo” petista.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160228" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/17-nov-62-1962-300x220.jpg" alt="" width="400" height="294" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/17-nov-62-1962-300x220.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/17-nov-62-1962-572x420.jpg 572w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/17-nov-62-1962-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/17-nov-62-1962-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/17-nov-62-1962.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O atual governo PT também demitiu Ana Moser, do Ministério dos Esportes, dando lugar para Fufuca, do PP, que abrigou bolsonaristas na sua equipe. O Ministério do Turismo foi cedido ao União Brasil, então partido de Sergio Moro. O Ministério do Planejamento e Orçamento foi destinado a Simone Tebet, que votou a favor do impeachment de Dilma Roussef. Luciano Bivar, que abrigou Jair Bolsonaro no PSL, hoje é suplente do senador Humberto Costa, ex-presidente do PT. Em 2024, PT e PL se uniram em 85 disputas municipais. Com a saída de Haddad do Ministério da Fazenda, Dario Durigan &#8211; tecnocrata ex-diretor de “políticas públicas do Whatsapp”, da big tech Meta (Facebook, Instagram e Whatsapp) &#8211; assumiu o comando da economia e finanças do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas redes sociais, o petismo usa a expressão “Congresso inimigo do povo”; Lula, por sua vez, declara que conseguiu no Congresso todas as aprovações que precisou. Em entrevista à GloboNews, a ministra Simone Tebet afirmou que infelizmente o governo não encontrou um congresso fiscalista. Ou seja, o próprio Congresso impediu que o governo Lula 3 promovesse cortes mais profundos nos gastos. Tebet afirma que o final de 2026 é uma oportunidade para o Brasil arrochar ainda mais os “gastos”. Fernando Haddad, candidato do PT à presidência em 2018, criador da EBSERH &#8211; que terceirizou os hospitais universitários -, e ministro responsável pelo Novo Arcabouço Fiscal (atualização do Teto de Gastos do Temer, batizado na época pelo petismo de “PEC do Fim do Mundo / PEC da Morte”), pretende retirar da <strong>Constituição </strong>os gastos mínimos com Saúde e Educação. O próprio presidente Lula pretende mudar a <strong>Constituição </strong>ainda em 2026. O PT quer que as forças federais também sejam responsáveis pela “segurança pública”, o que a atual Constituição não permite. Caso eleito, Flávio Bolsonaro ganhará esta carta branca.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra questão que cabe reflexão é que após tantos governos petistas, os dados do Anuário Estatístico do ILAESE 2025/26, explicitam uma superexploração do trabalho no país. Segundo o ILAESE, em 2024, na Comgás, campeã em exploração do trabalho, apenas o equivalente a 16 minutos de uma jornada de oito horas correspondia aos salários e benefícios dos trabalhadores, enquanto as 7 horas e 44 minutos restantes eram classificadas como trabalho não pago. Segundo a PEIC, os dados nacionais de setembro mostram que o endividamento continua atingindo mais de quatro em cada cinco famílias brasileiras.</p>
<p style="text-align: justify;">Em outubro de 2026, o salário mínimo nacional vigente é de R$ 1.621,00, enquanto o salário mínimo necessário calculado pelo DIEESE para set/26 foi de R$ 7.750,01. Em todos esses anos, o analfabetismo não foi superado, mantendo na casa dos 5,6% em 2022 e 4,9% em 2025. Na segurança alimentar, 6,5 milhões permanecem em insegurança em 2024, segundo o IBGE.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, o novo governo do PT não cumpriu demandas como a reestatização da Eletrobras e da BR Distribuidora (assim como Lula 2 rejeitou em 2007 o plebiscito popular pela Reestatização da Vale do Rio Doce). Depois de quatro anos de Lula 3, a extrema-direita acaba de ampliar seu número de cadeiras nas câmaras e nos governos estaduais, com aumento da participação de empresários, ruralistas e comerciantes. Fica evidente que o PT não é uma ameaça ao sistema ou à qualquer direita.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>E o Bolsonaro, hein?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O que podemos esperar de um governo Flávio Bolsonaro? Seu plano de governo e falas de campanha são caminhos importantes para conjecturar o futuro, contudo, o primeiro passo é recapitular o que sua família e seu espectro político fizeram na última década.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160230" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/7-nov-62-1962-300x220.jpg" alt="" width="400" height="294" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/7-nov-62-1962-300x220.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/7-nov-62-1962-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/7-nov-62-1962-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/7-nov-62-1962.jpg 504w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto “oposição crítica” ao governo Temer, votaram em peso nas medidas que aprofundaram a fragilidade dos vínculos de trabalho e no desmonte garantias trabalhistas e sociais: Reforma Trabalhista, Lei da Terceirização, Teto de Gastos, Novo Ensino Médio e a retirada da exclusividade da Petrobrás na exploração dos poços do pré-sal (Lei nº 13.365/2016).</p>
<p style="text-align: justify;">Já no governo de Jair Bolsonaro, o projeto de desmonte de empresas estatais, principalmente no setor energético, foi mantido com a PPI (Preço de Paridade de Importação) e ampliado com a privatização da BR Distribuidora e de três refinarias, sendo que o objetivo era oito. Ficamos ainda mais reféns das variações do preço do barril de petróleo no mercado internacional e o resultado foi o aumento vertiginoso da gasolina e do diesel, pela primeira vez na história brasileira mais alto que a gasolina, e, consequentemente, dos alimentos. A privatização da Eletrobrás, iniciada com Temer, foi concluída por Jair e vimos o aumento do preço da luz elétrica. O governo Bolsonaro também promoveu a liquidação da empresa estatal de microchips CEITEC, a única do setor no país.</p>
<p style="text-align: justify;">Jair Bolsonaro e seus filhos também levaram adiante a Reforma da Previdência, capitaneada por Paulo Guedes. A idade das mulheres subiu para 62 anos e o cálculo atual diminui o salário dos novos aposentados. Presenciamos os diversos e repetidos descasos diante da pandemia e ainda aguardamos o dia em que Bolsonaro será condenado por estes crimes cometidos contra o povo brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Não foram poucas as tentativas do bolsonarismo em emplacar a reforma administrativa, que tem a estabilidade e a ampliação dos contratos temporários como seus principais alvos, sendo um duro golpe na qualidade dos serviços públicos.</p>
<p style="text-align: justify;">O plano de governo de Flávio Bolsonaro intitulado “<em>Para o Brasil Vencer o Atraso</em>”, reúne em nove eixos temáticos elementos que indicam a ampliação do desmonte de empresas e serviços estatais , da precarização das relações de trabalho e do entreguismo.</p>
<p style="text-align: justify;">No primeiro eixo, “Brasil sem Medo”, o plano propõe endurecer a repressão intensificando com um estado policial com objetivos claros de criminalizar a pobreza e legitimar a morte de trabalhadores/as por forças policiais e militares.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160233" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/truitt-67-1967-300x204.jpg" alt="" width="400" height="271" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/truitt-67-1967-300x204.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/truitt-67-1967.jpg 504w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O segundo eixo, “Brasil por Elas”, apresenta ações de proteção e autonomia feminina, sendo que as pautas femininas serão resolvidas com aplicativos de celular e capacitações para o emprego.</p>
<p style="text-align: justify;">O terceiro eixo, “Brasil sem Fila”, busca ampliar a digitalização dos serviços públicos, com clara intenção de entregar os dados dos cidadãos às Big Techs.</p>
<p style="text-align: justify;">O quarto eixo, “Brasil Mais Barato”, prevê reduzir custos e prevenir o endividamento e traz como principais motivos a falta de dinheiro das famílias, a cobrança de impostos e falta de educação financeira e não as condições precarizadas de renda e consumo.</p>
<p style="text-align: justify;">O quinto eixo, “Brasil que Prepara”, reúne propostas para educação, saúde, idosos, esporte e cultura com objetivo de entregar a grandes grupos privados e <em>big techs </em>as ações nessas áreas.</p>
<p style="text-align: justify;">O sexto eixo, “Brasil que Prospera”, apresenta incentivos à auto responsabilidade individual por emprego e renda. Defende o negociado sobre o legislado. Passa a ser tarefa do indivíduo procurar, encontrar e executar soluções para problemas sociais produzidos pela sociedade capitalista como falta de trabalho, renda, alimentação, saúde, educação e moradia.</p>
<p style="text-align: justify;">O sétimo eixo, “Brasil que Cresce”, busca priorizar a iniciativa privada na infraestrutura e exploração dos recursos naturais e inovação tecnológica com a entrega e dependência do capital e tecnologias estrangeiras em mineração e inteligência artificial.</p>
<p style="text-align: justify;">O oitavo eixo, “Brasil que Cumpre a Constituição”, busca reformar o STF e o mandato de presidente, com pretensões vagas de mudanças no modelo dos três poderes da república brasileira.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160235" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-6-1999-300x233.jpg" alt="" width="400" height="311" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-6-1999-300x233.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/remember-no-6-1999.jpg 504w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O nono eixo, “Brasil que Não Volta Atrás”, estabelece um “Tesouraço” para reduzir a “máquina pública” com a retomada do Programa Nacional de Desestatização e uma entrega generalizada das empresas públicas à iniciativa privada. O candidato já tem feito acenos ao mercado e estabelecido reuniões com empresários que envolvem debates sobre previdência, reforma administrativa e revisão da recém aprovada fim da 6×1.</p>
<p style="text-align: justify;">Observando a retrospectiva dos governos Temer/Jair e o plano atual, fica a impossibilidade de manter as políticas sociais atuais, como diz o plano de governo, e o objetivo claro e manifesto de fazer um “Tesouraço”. Para o conjunto dos trabalhadores, um novo governo Bolsonaro pretende intensificar a exploração da força de trabalho e dificultar ainda mais as condições de vida. Suas propostas se mostram alinhadas aos interesses das <em>big techs </em>e ao “Escudo das Américas” de Donald Trump, que busca ampliar a presença militar dos EUA na América Latina sob o pretexto de combater o “terrorismo” do narcotráfico. Flávio Bolsonaro é a nova face do velho entreguismo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O que fazer? Como fazer?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O próximo governo de quem for eleito será de mais “ajuste fiscal”, que implica redução dos gastos sociais. Ambos lados já prometeram. Apesar de tentadora, afirmar ao colega de trabalho com voto diferente do seu, “eu avisei”, não é uma solução, tampouco aceitar a resignação melancólica de quem “perdeu” a eleição. A sabedoria popular é fértil em criar provérbios para explicar as relações da vida cotidiana. Em dias de jogos de futebol é comum ouvir: não importa o time que ganhe o jogo, amanhã terei que levantar para ir trabalhar. Essa frase serve também para pensarmos sobre as eleições e qual a sua importância na nossa vida cotidiana. Não importa o candidato que ganhe as eleições, as condições de vida e trabalho não serão resolvidas a favor dos assalariados e MEI&#8217;s (muitas vezes também assalariados, mas juridicamente “empresários”, o que lhes retira direitos tradicionais, como férias, 13º e seguridade social, como licença saúde, aposentadoria, etc.).</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, são os trabalhadores que devem se auto-organizar para reivindicar e pressionar os políticos, seus administradores e os patrões para melhorar as condições de vida e trabalho, sendo quem quer que esteja no poder. Sendo assim, algumas atitudes podem auxiliar nossas lutas. Sabemos que as demandas necessárias para melhorar as condições de vida são várias e temos que ter o pé no</p>
<p style="text-align: justify;">chão, saber medir a nossa capacidade de mobilização. Com isso pensar em reivindicações máximas como aumento de salário para toda a categoria, demanda essa que necessita de uma ampla mobilização e luta de todas categorias, mas também em reivindicações mais imediatas e que melhoram o dia a dia do seu ambiente de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">O processo da reivindicação mínima e máxima é uma dinâmica pedagógica para os trabalhadores, na qual deve-se ter claro quais os desafios para se organizar com o objetivo de reivindicar e pressionar por um refeitório, por exemplo, e os desafios para lutar por aumentos salariais e jornadas de trabalho dignas. Faça uma reflexão de qual é o nível de consciência do conjunto dos seus colegas e imaginem atividades e tarefas para cada nível, disposição para enfrentamento e a capacidade de organização em seu local de trabalho. Todo mundo deve participar da luta de classes, não somente “esclarecidos” ou mais experientes.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160237" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/15-nov-65-1965-300x225.jpg" alt="" width="400" height="300" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/15-nov-65-1965-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/15-nov-65-1965-559x420.jpg 559w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/15-nov-65-1965-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/15-nov-65-1965-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/15-nov-65-1965-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/15-nov-65-1965-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/15-nov-65-1965.jpg 639w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, é comum que a organização, mobilização e disposição para o enfrentamento por melhores condições de trabalho seja reduzida. Por isso, é necessário partir de reivindicações que sejam condizentes com os níveis de consciência e da força de mobilização, partindo sempre do menor para o maior. Busque elencar problemas no seu local de trabalho que precisam ser melhorados e que incomodam outros colegas. Sejam condições de alimentação, transporte, conforto ou até mesmo banheiros adequados para as necessidades dos trabalhadores. Tente conversar com colegas que também sofrem com os mesmos problemas, estabeleça um grupo em que seja possível confiar.</p>
<p style="text-align: justify;">Atentem que os patrões e gestores diretos e indiretos (sindicalistas e políticos profissionais) sempre tentarão evitar ao máximo que qualquer tipo de união real e efetiva aconteça entre os trabalhadores. Por isso, é necessário confiança entre os colegas que estejam dispostos a lutar, para que nenhuma informação indevida chegue antes do planejado ao conhecimento das chefias. Não se deve ter nenhuma confiança em ideias abstratas de democracia e liberdade de imprensa e organização. Os patrões desejam saber quem está disposto a se mobilizar para o mais rápido possível reprimir e que essa repressão sirva de exemplo para intimidar qualquer outra iniciativa dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Junto com esses colegas estabeleça um espaço seguro para conversas. Elas podem ser tanto de forma virtual/remota ou presencial. Tente despertar nos seus colegas a consciência e a prática de que é através da sua auto-organização queresolver demandas pode ser mais efetivo, bem como acumular experiências e aprendizado. A organização própria é mais efetiva pois não depende de desvios carreiristas e/ou eleitorais. Além disso, é necessário buscar graus mais amplos e mais complexos de organização, também forjados nas batalhas dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, entre os colegas que estão dispostos a lutar, não entre em discussões sobre se é melhor Lula ou a família Bolsonaro. Você encontrará nos dois lados, petistas e bolsonaristas, ou em nenhum dos dois, pessoas que estão dispostas a lutar para melhorar as condições de trabalho. Porém, mantenha no grupo de comunicação apenas aqueles que se provem confiáveis. Com esse grupo estabelecido e com as demandas mapeadas, busquem formas para reivindicar essas demandas. Uma carta aberta, para começar, é possível enviá-la aos colegas, chefes e gestores, assim como enviar para jornais e organizações da sua região. Porém, tomem todos cuidados necessários diante das possibilidades de repressão, evitando personalizar as ações. Nenhuma ação necessita de nomes próprios, mas sim da força coletiva. É importante destacar que a carta aberta é só um exemplo. Dependendo do local de trabalho, outras maneiras podem ser desenvolvidas para demonstrar descontentamento e apresentar as reivindicações de forma direta, sem necessidade de contatos com políticos profissionais ou apelos para o sindicato.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160241" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1-april-65-1965-300x209.jpg" alt="" width="400" height="279" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1-april-65-1965-300x209.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/1-april-65-1965.jpg 504w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A auto-organização, além de possibilitar uma efetiva busca por melhores condições de vida e trabalho, permite que criemos força e acúmulo de experiências de luta para trilharmos um caminho de superação do sistema de exploração como um todo. Somente assim nós tomamos em nossas mãos as pautas e reivindicações, desconsiderando políticos e instituições que simulam representar nossos interesses. Somente nós, trabalhadores unidos nas organizações criadas na luta e para a luta, sem desvios partidários-sindicais, podemos buscar por uma transformação radical da sociedade. Aqueles que ganham com o sistema, sempre lutarão para deixar como está, seja uma ou outra fração partidária. Na polarização eleitoral, há sempre um ganha-ganha para os de cima.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-160243 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/33ad9a31-9e8c-4312-aaa6-493086c51786.jpgPortrait-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /> Este artigo está ilustrado com reproduções de obras de Anne Truitt (1921-2004).</em></p>
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