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	<title>Destaques &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Velha Toupeira (46)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Sep 2026 11:25:43 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Israel]]></category>
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					<description><![CDATA[]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159773" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO.jpg" alt="" width="2480" height="827" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO.jpg 2480w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO-2048x683.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO-1259x420.jpg 1259w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/VT046-GERAR-ANTISSEMITISMO-681x227.jpg 681w" sizes="(max-width: 2480px) 100vw, 2480px" /></p>
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		<title>Tamagochis sonham com o cachorro caramelo?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 03 Sep 2026 12:11:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[Uma lojinha de pets é o negócio perfeito para tempos de genocídio. Por Primo Jonas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Primo Jonas</h3>
<p style="text-align: justify;">Na esquina da avenida perto de casa abriu uma loja de mercadorias para <em>pets</em>. É uma loja bonita, toda de vidro. Dentro dela estão diversas formas e cores espalhadas pelas estantes: os produtos. No centro da vitrine, uma tela LED onde aparecem gatinhos em movimento. Os vizinhos de esquina são um posto de gasolina, uma loja de roupinhas interiores femininas e uma rotisseria de massas artesanais. Hoje em Buenos Aires se vê um grande número de comércios fechando. Um comércio para <em>pets</em>, no entanto, é uma boa aposta.</p>
<p style="text-align: justify;">*</p>
<p style="text-align: justify;">Ao contemplar a loja do outro lado da rua, num dia frio deste outono, me lembrei da ovelha elétrica de Rick Deckard. Protagonista do livro <em>Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, </em>do escritor Philip K. Dick., Rick vive no mundo distópico de 1992, imaginado em 1968. Ele é um caçador de recompensas que sonha em ser proprietário de um animal vivo, mas sua situação econômica não o permite. Para demonstrar aos demais cidadãos sua empatia pela vida do outro, foi necessário recorrer a um animal elétrico. Os animais silvestres haviam praticamente desaparecido devido à guerra nuclear <strong>[1]</strong>, por isso a sociedade os elevou a um componente ideológico central e institucionalizou a compra e venda de animais raros para fins de ostentação pública.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159756" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/picassodog.png" alt="" width="1600" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/picassodog.png 1600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/picassodog-300x135.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/picassodog-1024x461.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/picassodog-768x346.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/picassodog-1536x691.png 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/picassodog-933x420.png 933w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/picassodog-640x288.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/picassodog-681x306.png 681w" sizes="(max-width: 1600px) 100vw, 1600px" />*</p>
<p style="text-align: justify;">Quem viu o filme <em>Blade Runner</em> conheceu apenas a narrativa da novela policial, embora o existencialismo também esteja bem representado. Quem viu o filme <em>Blade Runner 2049</em> conheceu outra faceta da história, que é um conflito entre a tecnologia e a religião. Algumas outras coisas muito interessantes ficaram de fora de ambas produções audiovisuais.</p>
<p style="text-align: justify;">*</p>
<p style="text-align: justify;">Semanas antes um amigo me havia relatado que sua cachorra, já veterana, foi diagnosticada com câncer, um tumor no cérebro. O veterinário então lhe deu a boa notícia: havia um tratamento para salvá-la, a quimioterapia. Foi grande a surpresa do meu amigo, mas não apenas por escutar essa oferta comercial de parte do veterinário, mas principalmente pela recusa do profissional em realizar a eutanásia alegando que a vida da cachorra ainda poderia ser salva.</p>
<p style="text-align: justify;">*</p>
<p style="text-align: justify;">No “inverno nuclear” de 1992 a atmosfera está coberta de uma poeira eterna que pode afetar as cognições de um ser humano, se a pessoa fica muito tempo exposta a ela. J. Isidore é um destes homens afetados pela poeira, obrigado a viver em edifìcios abandonados e sobreviver por meio de sub-empregos. Um Zé qualquer cujo trabalho é andar pelas ruas recolhendo animais elétricos defeituosos e levá-los à veterinária eletrônica. No filme <em>Blade Runner 2049</em> é possível enxergar no personagem atuado por Ryan Gosling uma versão <em>incel</em> da solidão e da segregação social vivida por Isidore. São cidadãos de segunda classe, que não têm acesso às riquezas materiais da sociedade. São indivíduos com vivências duras e que encontram nas imagens, nos personagens mágicos que aparecem nas suas telas e nos dizem coisas, encontram nessas expressões um sentido maior para sua existência. Nas telinhas de 1992 existe um personagem chamado Buster Friendly que está 24h falando em programas de rádio, de televisão, em vários lugares ao mesmo tempo. Não é como o Grande Irmão de <em>1984</em>, um líder distante mas obsessivo. Buster Friendly funciona como um influencer contemporâneo, buscando abarcar todos os temas e conquistar a atenção contínua de seu público. Eu acredito que se trata de um projeto político que hoje está sendo levado à prática por personagens como Donald Trump, que poderíamos caracterizar como o influencer mais poderoso do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159754" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1.avif" alt="" width="1920" height="2473" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1.avif 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1-233x300.avif 233w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1-795x1024.avif 795w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1-768x989.avif 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1-1193x1536.avif 1193w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1-1590x2048.avif 1590w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1-326x420.avif 326w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1-640x824.avif 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/ab802c2d2d2a01cb24214f57a199c9b7a60f00cc-799x1029-1-681x877.avif 681w" sizes="(max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />*</p>
<p style="text-align: justify;">Rick começou o dia refletindo sobre como ganhar mais dinheiro e terminou a novela questionando as contingências da humanidade. Coisas da vida. Buscamos uma coisa, encontramos outra. Sobre gênero, breves comentários: a mulher de Rick logo no começo já deixa tudo bem claro. Ele é um policial. “<em>Get your crude cop&#8217;s hand away</em>”. Pior, ele é um assassino contratado pelos policiais. O único que Rick tem a responder é que ele nunca havia matado um ser humano. Como também soem ser as coisas na vida, o caçador de recompensas frustrado termina transando com uma jovem androide, e então tudo muda em sua mente. Nasce a empatia. Nasce a dúvida. Este terrorista palestino, é um ser humano? Este menino de rua, é um ser humano? Esta imigrante mexicana, é um ser humano? Mas sejamos coerentes. Que um homem tenha que penetrar outro ser com seu pênis para que consiga sentir algum tipo de empatia, isso deveria ser parte do passado, uma etapa a superar no progresso moral da humanidade em direção ao igualitarismo. Rick não foi capaz de sentir a empatia antes do sexo. Quantos hoje também não o são?</p>
<p style="text-align: justify;">*</p>
<p style="text-align: justify;">O livro me apresentou as fronteiras da autenticidade humana, os limites da empatia, e como os diferentes seres podem atravessar esses limites: desumanização e hiper-humanização. Uma lojinha de <em>pets</em> é o negócio perfeito para tempos de genocídio.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159753" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Landseer_Edwin-Old_Shepherds_Chief_Mourner_1837-1024x777-1.jpg" alt="" width="1024" height="777" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Landseer_Edwin-Old_Shepherds_Chief_Mourner_1837-1024x777-1.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Landseer_Edwin-Old_Shepherds_Chief_Mourner_1837-1024x777-1-300x228.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Landseer_Edwin-Old_Shepherds_Chief_Mourner_1837-1024x777-1-768x583.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Landseer_Edwin-Old_Shepherds_Chief_Mourner_1837-1024x777-1-554x420.jpg 554w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Landseer_Edwin-Old_Shepherds_Chief_Mourner_1837-1024x777-1-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Landseer_Edwin-Old_Shepherds_Chief_Mourner_1837-1024x777-1-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Landseer_Edwin-Old_Shepherds_Chief_Mourner_1837-1024x777-1-640x486.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/Landseer_Edwin-Old_Shepherds_Chief_Mourner_1837-1024x777-1-681x517.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />Nota</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Se escrito nos dias de hoje, a causa dessa desaparição teria sido o colapso ecológico do antropoceno.</p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são de Andy Warhol, Pablo Picasso, Keith Hering e Edwin Landseer.</em></p>
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		<title>A cara do Brasil</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 31 Aug 2026 14:58:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Desporto/esporte]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Jan Cenek Como sacaram os criadores de memes: o Brasil é hexa. Foi eliminado da sexta Copa do Mundo consecutivamente. Entre as eliminações consta a surra de 7 x 1 para a Alemanha, na Copa de 2014, disputada no Brasil. Mas, como o que é ruim sempre pode piorar, a eliminação para a Noruega [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<div class="level1">
<p style="text-align: justify;">Como sacaram os criadores de memes: o Brasil é hexa. Foi eliminado da sexta Copa do Mundo consecutivamente. Entre as eliminações consta a surra de 7 x 1 para a Alemanha, na Copa de 2014, disputada no Brasil. Mas, como o que é ruim sempre pode piorar, a eliminação para a Noruega por 2 x 1, na Copa de 2026, foi, em muitos aspectos, ainda mais vexatória. É a pior colocação brasileira em 60 anos. Igualou a 11ª posição de 1966. O grande símbolo do vexame é o sujeito apelidado pejorativamente como menino Ney, apesar de ser um veterano em franca decadência. Neymar é um ex-jogador em atividade que foi convocado e atrapalhou a seleção brasileira. O menino Ney jogou como se fosse o dono do time e da bola, e não por mérito esportivo. Deu no que deu. Foi ridículo ver Neymar brigando com os noruegueses por absoluta incapacidade de competir esportivamente. Como se não bastasse, transformou uma cobrança de pênalti em disputa particular com o goleiro adversário, como se a seleção brasileira não estivesse a poucos minutos da eliminação. Qualquer jogador que anotasse um gol e diminuísse a diferença de 2 para 1 no final de uma partida pegaria a bola e reiniciaria o jogo rapidamente, para buscar o empate. O que fez o menino Ney? Resolveu discutir com o goleiro desperdiçando tempo. Atitude típica de um rematado narcisista, que está mais preocupado com a própria imagem do que com o resultado esportivo. Sobretudo, foi ridícula a discussão que precedeu a convocação de Neymar, com muita gente &#8211; quiçá a maioria, entre os quais diversos ex-jogadores &#8211; defendendo a convocação do sujeito que não fazia uma boa partida há anos. Na canção <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=XJp24DoZ1A0&amp;list=RDXJp24DoZ1A0&amp;start_radio=1" href="https://www.youtube.com/watch?v=XJp24DoZ1A0&amp;list=RDXJp24DoZ1A0&amp;start_radio=1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">A cara do Brasil</a>, os compositores Celso Viáfora e Vicente Barreto perguntam: “qual a cara da cara da nação?” Fiquei pensando e me ocorreu uma ideia incômoda: e se a cara do Brasil for o menino Ney?</p>
<p style="text-align: justify;">Neymar surgiu quase genial: leve, rápido, habilidoso, quase completo. Dominava quase todos os fundamentos do jogo, exceto o mais importante: nunca soube atuar coletivamente, faltou-lhe inteligência esportiva, debilidade que cresceu com o tempo. Por isso encerrou sua participação em Copas &#8211; oxalá tenha realmente encerrado &#8211; batendo boca com um goleiro, em vez de pegar a bola e reiniciar a partida o mais rápido possível. O advérbio “quase” é uma boa definição para o menino Ney. Quase foi um gênio. Na prática, tornou-se um grande desperdício, provavelmente o maior do esporte brasileiro. Eis outra boa definição para o sujeito: desperdício. Foi bisonho ver Neymar nas duas últimas Copas: superado pelo tempo, ele insistia em jogadas individuais que não era mais capaz de executar. A mania burra de prender excessivamente a bola o tornou alvo de faltas e pancadas e pode ter contribuído para as muitas contusões que teve durante a carreira. Jogadores com inteligência esportiva, como Ronaldo Fenômeno, sempre alertaram que o lugar para as jogadas individuais é perto da área, porque ali os marcadores evitam penalidades e faltas. Como o futebol é um esporte essencialmente coletivo, é na adaptação das potencialidades individuais às coletivas que se forjam os gênios e as grandes equipes. O melhor exemplo é Messi jogando no mais alto nível aos 39 anos. Perdeu as arrancadas longas, mas soube se adaptar, poupando energias para empregá-las no momento exato. Assim foi campeão mundial com a seleção argentina em 2022 e vice em 2026. Já Neymar, que é absolutamente incapaz de atuar coletivamente, atrapalhou a seleção brasileira. Foi assim nas duas últimas Copas. Em 2022, já sem a velocidade que tinha, insistiu na individualidade desperdiçando, assim, a maioria das jogadas. A eliminação contra a Croácia, nas quartas de final, foi exemplar. Após desperdiçar dezenas de jogadas insistindo em dribles que não funcionaram, o menino Ney marcou um belo gol na prorrogação. Só que, minutos depois, veio o empate croata numa falha coletiva da seleção brasileira e, na sequência, a derrota nas penalidades. Os brasileiros resolveram pressionar a saída de bola adversária quando estavam à frente no placar e bastava controlar a partida. O menino Ney, que já tinha 30 anos, participou da falha coletiva, também avançou; mas quando o movimento se mostrou errado e a equipe sofreu o gol, ele simplesmente culpou os companheiros de equipe, como se não tivesse participado do erro coletivo. Fosse um jogador genial, tivesse a inteligência esportiva de um craque, teria orientado os companheiros em campo e evitado o empate croata. É onde um craque genial se distancia de um rematado narcisista: nas vitórias, mérito dele; nas derrotas, culpa dos outros. E assim as derrotas vão se impondo sobre as vitórias. Em 2026, a seleção brasileira começou a perder para a Noruega justamente quando Neymar entrou em campo. Foi como se a equipe estivesse com um jogador a menos, porque ele não conseguia acompanhar o ritmo dos demais. Os jogadores mais rápidos e perigosos do Brasil, naquele momento da partida, Vini Jr e Endrick, tiveram que ser recuados para recompor a marcação. Como a especialidade de ambos não é marcar, a equipe perdeu qualidade no ataque e na defesa. O jogo brasileiro ficou lento e previsível porque todas as bolas tinham que passar pelos pés do menino Ney, como se ele fosse o dono da bola e do time. Estava desenhada a derrota. Não é coincidência: a seleção argentina cresceu e se encontrou quando encaixou e potencializou coletivamente o talento de Messi, que já era um veterano; já o último título da seleção brasileira veio com a Copa América de 2019, que Neymar não disputou porque estava contundido. É que o futebol é essencialmente coletivo e exige inteligência. Há cada vez menos espaço &#8211; em todos os sentidos &#8211; para narcisistas como Neymar.</p>
<p style="text-align: justify;">Muito se discute sobre a decadência do futebol brasileiro. Uma das hipóteses levantadas é que os jogadores são vendidos para o exterior muito jovens. Aos 18 anos já não atuam mais no Brasil. Endrick e Estevão, ambos negociados pelo Palmeiras, são dois exemplos. Como os melhores jogadores vão embora muito cedo, não criam vínculos com os clubes brasileiros e com a própria seleção, além de se formarem como atletas no exterior. Assim estaria se perdendo a “essência” do futebol brasileiro. Mas não foi exatamente esse o movimento de Lionel Messi, que foi para o Barcelona aos 13 anos, se formou como atleta na Espanha e só brilhou realmente na seleção argentina depois dos 30 anos? Messi foi campeão olímpico com <em>la albiceleste</em> aos 21 anos, em 2008. Mas o primeiro título com a seleção principal veio apenas na Copa América de 2021, quando tinha 34 anos. A consagração definitiva chegou um ano depois, na Copa de 2022, vencida pelos argentinos. Messi tinha 35 anos. Já o movimento do menino Ney foi diferente: seguiu para o Barcelona aos 21 anos, quase formado. Se digo quase, é porque lhe faltava o mais importante: nunca soube atuar coletivamente, nunca teve inteligência esportiva. Se é assim, a pergunta é incômoda, mas possível: como teria sido a carreira esportiva do menino Ney se ele tivesse se formado no Barcelona? Impossível saber ao certo. Mas se soubesse jogar coletivamente, com um mínimo de formação humanista, se fosse menos narcisista… São muitos “ses”, mas é razoável pensar que Neymar seria melhor como ser humano e, também, como atleta, se tivesse outra formação. Como ser humano: Neymar “é a bet encarnada, a expectativa do milagre que nunca se realiza”. A sacada é de <a class="urlextern" title="https://jacobin.com.br/2026/07/o-salvador-messianico-que-virou-vilao/" href="https://jacobin.com.br/2026/07/o-salvador-messianico-que-virou-vilao/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Fabio Luis Barbosa dos Santos</a>. Como atleta: Neymar foi quase. O advérbio fica por minha conta. E fica também por minha conta uma outra impressão: Neymar é o brasileiro com muito orgulho, com muito amor, a personificação do refrão ufanista que a torcida repete exaustivamente. Impossível imaginar alguém com mais amor (próprio) que o quase craque. O menino Ney não explica a decadência do futebol brasileiro, mas, por outro lado, não é exagero dizer que ele é a maior expressão dela.</p>
<p style="text-align: justify;">A canção <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=6yiQg47H5W8&amp;list=RD6yiQg47H5W8&amp;start_radio=1" href="https://www.youtube.com/watch?v=6yiQg47H5W8&amp;list=RD6yiQg47H5W8&amp;start_radio=1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">A cara do Brasil</a> foi lançada por Ney Matogrosso em 1997. A seleção brasileira havia sido campeã mundial três anos antes, de forma pragmática: uma defesa bem postada atrás, Romário e Bebeto decidindo na frente. <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=L7fnV_5k9CM" href="https://www.youtube.com/watch?v=L7fnV_5k9CM" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">A cara do Brasil</a> foi regravada pelo próprio Celso Viáfora em 1999. A seleção brasileira havia sido derrotada na final pela França, um ano antes, apesar de contar com Ronaldo, Rivaldo e Roberto Carlos. Lançada entre as Copas de 1994 e 1998, a canção pergunta o que é o Brasil passando pelo futebol e a encantadora equipe de 1982:</p>
<p style="text-align: center;"><em>O Brasil é o lixo que consome</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Ou tem nele o maná da criação?</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Brasil Mauro Silva, Dunga e Zinho</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Que é Brasil zero a zero e campeão</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Ou o Brasil que parou pelo caminho</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Zico, Sócrates, Júnior e Falcão?</em></p>
<p style="text-align: justify;">A seleção brasileira derrotada pela Itália em 1982 continua sendo lembrada justamente pelo futebol encantador. O “maná da criação”, como no verso acima. O “futebol arte”, como se costuma dizer. Desconfio que parte da confusão relacionada à decadência futebolística brasileira passa pela expressão “futebol arte”. É que a arte pode ser individual, ainda que inserida numa tradição, como ocorre com o romance; já o futebol é essencialmente coletivo. Por isso o menino Ney foi um quase craque e é, ao mesmo tempo, a personificação da decadência do futebol brasileiro, que ainda forma bons jogadores, mas não consegue potencializá-los coletivamente. A seleção de 1982 encantou porque o coletivo potencializou o talento individual e o refinamento estético. Todos os gols, especialmente os mais belos, foram construídos em jogadas coletivas. É o que pouco se viu na seleção brasileira depois, inclusive em 2002, com Ronaldo e Rivaldo. Daí a nostalgia pela equipe de Zico, Sócrates e Falcão. É verdade que a equipe de 1982 reuniu, provavelmente, o melhor meio-campo brasileiro, assim como é sabido que o futebol se ganha na meiúca, Espanha e Argentina comprovaram a tese na Copa de 2026. Tinham as melhores meiúcas. Não basta reunir craques, o coletivo precisa potencializar o talento individual, especialmente no meio-campo. A força do conjunto deve ser maior que a soma das capacidades individuais. Esse milagre do encontro aconteceu algumas vezes na seleção brasileira: 1970 com Pelé, Gerson, Rivelino e Tostão; 1982 com Zico, Sócrates, Júnior e Falcão. Outra sacada de Fabio Luis Barbosa dos Santos <strong>[1]</strong>: o Brasil derrotou a Itália em 1970 jogando o fino da bola; perdeu em 1982 para o mesmo adversário, apesar do futebol encantador; para vencer os italianos em 1994, o Brasil jogou como se fosse a Itália. A diferença é que a seleção brasileira ainda contava com craques decisivos, como Romário e Bebeto, que se potencializavam. Trinta e dois anos depois, em 2026, um técnico italiano dirigiu a seleção brasileira, e a equipe perdeu como se fosse a Itália. Não superou a Noruega nem na posse de bola. Não tinha nem talentos individuais nem um coletivo forte, sequer uma dupla de ataque genial, como em 1994.</p>
<p style="text-align: justify;">Na canção <em>A cara do Brasil</em>, a pergunta sobre o que é o Brasil surge “meio a esmo” para o compositor “esparramado na rede”, que vai desenhando a cara do país a partir das contradições nacionais, inclusive as futebolísticas. Brasil encantador de 1982? Ou Brasil precavido de 1994? Mais que isso, Celso Viáfora e Vicente Barreto cutucam um furúnculo nacional:</p>
<p style="text-align: center;"><em>A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Ninguém precisa consertar</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Se não der certo a gente se vira sozinho</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>De certo então nada vai dar</em></p>
<p style="text-align: justify;">A referência a Garrincha e Aleijadinho é forte. Foram gênios tortos. Penso nos Profetas e nos Passos da Paixão, do Aleijadinho, expostos no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG). Estão entre as obras mais impactantes que conheço. Imagino Garrincha parafusando algum João, na lateral, como no verso de <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=qcdOtuVjaxc" href="https://www.youtube.com/watch?v=qcdOtuVjaxc" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Chico Buarque</a>. Só que, no futebol, o talento individual separado do coletivo é cada vez menos decisivo. Aleijadinho tinha uma equipe de trabalho que quase não é lembrada. Garrincha era genial, mas jogou em equipes fortes, e não faria em 2026 o que fez em 1958 e em 1962. Isso porque o espaço é muito menor, o coletivo conta ainda mais e a capacidade física dos atletas é muito maior. Digo de passagem: uma obviedade como essa ser uma heresia no Brasil diz muito sobre a cara do país, que morre de amor e de orgulho por si próprio, e sempre precisa de reis e <a class="urlextern" title="https://jacobin.com.br/2026/07/o-salvador-messianico-que-virou-vilao/" href="https://jacobin.com.br/2026/07/o-salvador-messianico-que-virou-vilao/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">salvadores messiânicos</a>. <em>Messi-ânicos</em>… A discussão absurda sobre levar ou não Neymar para a Copa de 2026 passou pela crença estúpida em salvadores messiânicos. Deu no que deu: um vexame quiçá pior do que o 7 x 1. Na canção <em>A cara do Brasil</em>, a referência a Garrincha e Aleijadinho é tão forte, a ideia de que “a gente se vira sozinho” é tão entranhada, que eu não prestava atenção no verso seguinte &#8211; <em>de certo então nada vai dar</em> &#8211; que desmente a ilusão, que é um tapa na cara da nação. O vexame na Copa de 2026 me fez perceber o verso final da canção, que refuta o pachequismo ufanista.</p>
<p style="text-align: justify;">“O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível” &#8211; escreveu Drummond <strong>[2]</strong>. Acrescento: não há nenhum Garrincha, nenhum Aleijadinho, nenhum Drummond disponíveis. Mas há o menino Ney e um país que é quase a cara dele: que confunde enriquecimento pessoal com capacidade esportiva, que tem uma absurda necessidade de salvadores messiânicos e uma estúpida ilusão de que cada um deve se virar sozinho. Como cravou o poeta <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2021/10/140383/" href="https://passapalavra.info/2021/10/140383/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Souzalopes</a>, um craque das palavras que tive o prazer de conhecer:</p>
<p style="text-align: center;"><em>contra o tédio</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>contra o bódi</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>ou nóis si uni</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>ou nóis si fódi</em></p>
<p style="text-align: justify;">Vale para o futebol e para a vida, inclusive porque um não está separado da outra. Só que é o inverso do que tem acontecido no Brasil. A discussão que precedeu a convocação do menino Ney foi ridícula porque não passou pela capacidade esportiva do sujeito para disputar uma Copa do Mundo. Estava em jogo outra questão, ainda que não declarada. Neymar é milionário, portanto, é bom e deve jogar. Eis o raciocínio curto da maioria dos defensores do menino Ney. Por isso qualquer crítica ao sujeito costuma ser associada à inveja. É que as pessoas querem enriquecer, como Neymar. Todo o resto é detalhe menor, inclusive os meios e as consequências. Nudez pornográfica da meritocracia: quem enriquece é bom, os demais são fracassados. Pior ainda: na cabeça dos defensores do menino Ney, ele não tem nenhuma responsabilidade pelas derrotas brasileiras nem é a principal expressão delas, porque a culpa é sempre dos outros. Neymar é a cara do Brasil <em>com muito orgulho e muito amor</em>: em que cada um se acha capaz de se virar sozinho, enquanto todos se lascam coletivamente.</p>
<p style="text-align: justify;">O futebol brasileiro encantava não apenas pelas conquistas, estava em jogo uma possibilidade civilizatória: como criação concreta, estética, proletária e coletiva; contra o pragmatismo, as simplificações, o tédio e o trabalho estranhado. Ao que tudo indica, o encantamento relacionado ao futebol brasileiro é passado. O que foi atestado pelo vexame na Copa de 2026, ao escalar um ex-jogador em atividade, que, além disso, é a grande expressão da decadência do futebol brasileiro: com sua falta de inteligência esportiva e, consequentemente, sua incapacidade de se potencializar e se fortalecer coletivamente. Vale para o menino Ney e para o futebol brasileiro, por isso o primeiro personifica a decadência do segundo. Se o vexame servir, pelo menos, para encerrar a participação de Neymar na seleção brasileira e, quem sabe, sepultar o refrão ufanista repetido pela torcida, já será um avanço significativo. O menino Ney e o brasileiro <em>com muito orgulho e muito amor</em> são, antes de tudo, insuportáveis.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>Fabio Luis Barbosa dos Santos. <em>Saudade do que nunca fomos: brasileiros e o futebol</em>. São Paulo: Elefante, 2026.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong>Carlos Drummond de Andrade. <em>Mané e o sonho</em>. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.blogletras.com/2014/07/mane-e-o-sonho.html" href="https://www.blogletras.com/2014/07/mane-e-o-sonho.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.blogletras.com/2014/07/mane-e-o-sonho.html</a></p>
</div>
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		<title>Rock, política e sociedade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 29 Aug 2026 15:47:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Juventude]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
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					<description><![CDATA[Esse estranhamento, alcançado por meio de dissonância de acordes, são elementos fundamentais que caracterizam o rock. Por Michel Goulart da Silva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Michel Goulart da Silva</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">Embora com décadas de existência, o rock continua a ser uma das expressões musicais mais ouvidas em todo o mundo, sendo impactado pela dinâmica da sociedade e afetando comportamentos e ideologias. O rock é uma das expressões da relação intrínseca entre manifestação artística e sociedade. O rock compõe um conjunto de elementos, que passa pelas letras, pela sonoridade, pela manifestação de estilo de vida e de uma cultura compartilhada, que se manifesta em roupas, cortes de cabelo, entre outros aspectos.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159740" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/EnsHfbLM-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1705" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/EnsHfbLM-scaled.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/EnsHfbLM-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/EnsHfbLM-1024x682.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/EnsHfbLM-768x511.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/EnsHfbLM-1536x1023.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/EnsHfbLM-2048x1364.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/EnsHfbLM-631x420.jpg 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/EnsHfbLM-640x426.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/EnsHfbLM-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" />Em sua formulação original, o rock nasce afastado do ambiente clássico ou mesmo acadêmico, em grande medida tendo sua constituição associado a populações pobres e negras, como desdobramento do <em>blues</em>. Criado na década de 1950, o rock é associado a nomes de bandas famosas, como The Beatles, Rolling Stones, The Who, Pink Floyd, Led Zeppelin, entre outras, e músicos, como John Lennon, Mick Jagger, Roger Waters, Freddie Mercury, entre outros. Em sua história, o rock:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“[…] passou por inúmeras metamorfoses, que levaram a sofisticações harmônicas, melódicas e poéticas, e rupturas que o atualizaram em relação às condições sociais em que estavam inseridos seus criadores e consumidores. Esse processo levou o rock a tornar-se amplo e diversificado como gênero musical, para dar conta das diferentes expressões do comportamento jovem à medida que este ficou cada vez mais complexo”.<strong>[1]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em seu desenvolvimento, o rock passou por diferentes fases, se diversificando em diálogo com outras expressões musicais e mesmo culturais de diversos países marcado em grande medida pela pluralidade de experiências da juventude. Essa diversificação se deu a diante das experimentações dos diferentes compositores e com a incorporação de diversos elementos sonoros, “fruto de um longo processo de fusões e confluências de transformações musicais, sociais e comportamentais”.<strong>[2]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O rock se tornou um dos gêneros musicais mais ouvidos no mundo e, por certo, um dos mais lucrativos. Observa, dessa forma, ao longo das décadas as posturas mais diversas por parte de músicos e de seus admiradores, mostrando-se plural e bastante diversificado. O rock está bastante marcado pelo desenvolvimento econômico ocorrido no século XX, seja por conta da tecnologia necessária para executar o som, seja por conta de sua inserção como produto na indústria cultural. O processo de transformações na sociedade impactou materialmente o próprio fazer artístico. Observa-se, assim, um rápido desenvolvimento dos meios de comunicação e difusão de informações ou mesmo de distribuição de produções artísticas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159741" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Cancoes-de-Amor-no-Templo-do-Rock-Newton-e-Carol-2003-acrilica-sobre-papelao.jpg" alt="" width="635" height="425" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Cancoes-de-Amor-no-Templo-do-Rock-Newton-e-Carol-2003-acrilica-sobre-papelao.jpg 635w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Cancoes-de-Amor-no-Templo-do-Rock-Newton-e-Carol-2003-acrilica-sobre-papelao-300x201.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Cancoes-de-Amor-no-Templo-do-Rock-Newton-e-Carol-2003-acrilica-sobre-papelao-628x420.jpg 628w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Cancoes-de-Amor-no-Templo-do-Rock-Newton-e-Carol-2003-acrilica-sobre-papelao-537x360.jpg 537w" sizes="auto, (max-width: 635px) 100vw, 635px" />Esse processo associado ao rock tem como uma de suas marcas o desenvolvimento e o aprimoramento dos equipamentos eletrônicos usados em shows ou em gravações, como guitarra, baixo, bateria e teclado, entre outros. O processo de experimentação musical levou a que, com novos sons e técnicas, fosse impulsionada a criação de equipamentos como pedais de efeito, sintetizadores e consoles de mixagem avançados.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse processo também transformou a distribuição e divulgação do rock, por meio de produtos diversos relacionados às bandas, como camisetas e cartazes, e pelo trabalho de revistas especializadas e canais de televisão. Os videoclipes se tornaram uma forma importante de divulgação, papel cumprido pela televisão, principalmente pelo trabalho da MTV, a partir da década de 1980. Esses videoclipes expressam interpretações imagéticas das letras ou mesmo permitem identificar elementos culturais relacionados.</p>
<p style="text-align: justify;">O desenvolvimento da internet e de mídias digitais permitiu uma maior dinâmica nesse processo. Plataformas como Spotify, Apple Music e YouTube permitiram uma difusão mais ampla das músicas, ainda que esse processo permaneça tendo uma grande influência das gravadoras. Redes sociais como Instagram, Facebook e Twitter facilitaram a interação entre fãs e bandas, promovendo shows, divulgação de vídeos e lançamentos de músicas. Por outro lado, o <em>streaming</em> trouxe a possibilidade a transmissão de apresentações gravadas ou ao vivo e inclusive sua disponibilização na internet.</p>
<p style="text-align: justify;">No rock, ainda que não aborde temas diretamente políticos ou procure sempre ser subversivo, a postura dos artistas, bem como suas harmonias e melodias, pretendem ser provocativas, fazendo com que possam soar apenas como “barulho” ou “distorção” para pessoas acostumadas a outras expressões musicais. Esse estranhamento, alcançado por meio de dissonância de acordes, são elementos fundamentais que caracterizam o rock. O rock também incorporou o uso de elementos eletrônicos, como os teclados.</p>
<p style="text-align: justify;">O rock vai além da música, envolvendo aspectos culturais, políticos, econômicos ou mesmo morais. O rock se desenvolve em uma sociedade capitalista em que a cultura de massas determina aspectos sociais e políticos, marcado pelo desenvolvimento tecnológico, seja na produção, seja na difusão das músicas. Trata-se de um fenômeno “reconstruído constantemente, sujeito às forças do mercado, dos vazios entre gerações, das diferentes vivências juvenis e das negociações entre a cultura mundializada e suas manifestações locais”.<strong>[3]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159742" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Escalpo-Paulista-2005-acrilica-sobre-fibrocimento-.jpg" alt="" width="484" height="425" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Escalpo-Paulista-2005-acrilica-sobre-fibrocimento-.jpg 484w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Escalpo-Paulista-2005-acrilica-sobre-fibrocimento--300x263.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Escalpo-Paulista-2005-acrilica-sobre-fibrocimento--478x420.jpg 478w" sizes="auto, (max-width: 484px) 100vw, 484px" />Pode-se compreender o rock como uma expressão musical que se define a partir de símbolos e elementos culturais que extrapolam sua sonoridade e que, em grande medida, se remetem à juventude e à rebeldia. O rock, desde sua origem, “transitou entre os extremos de prosperar numa estrutura mercantilista convencional enquanto cultivava a ambição de implodir o próprio sistema que possibilitava sua difusão”. <strong>[4] </strong>Portanto, o rock está associado à construção de subjetividades e é uma possível expressão cultural de sua época.</p>
<p><em>As obras que ilustram o artigo são de Dora Longo Bahia.</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> ANAZ, Sílvio. O que é rock. São Paulo: Popbooks, 2013, p. 80.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong>ANAZ, Sílvio. O que é rock. São Paulo: Popbooks, 2013, p. 15.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3] </strong>JANOTTI JUNIOR, Jeder. Aumenta que isso é Rock and Roll: mídia, gênero musical e identidade. Rio de Janeiro: E-Papers, 2003, p. 23.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4] </strong>MERHEB, Rodrigo. O som da revolução: uma história cultural do rock (1965-1969). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012, p. 15.</p>
<p style="text-align: justify;">
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		<title>Classes sociais ?</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/08/159592/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 27 Aug 2026 06:51:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Extinguiu-se o sonho de outro futuro — antecipação ou ilusão — esmagado pela obsessão exclusiva do presente. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: right;">«Que curioso destino filosófico, o seguido pelo princípio de Heisenberg!»<br />
Gaston Bachelard, <em>La Philosophie du non</em></p>
<p style="text-align: center;"><strong>1</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nos meios marxistas sou quase invariavelmente associado à formulação de uma teoria sobre os gestores enquanto classe social, o que em grande parte dos casos suscita repúdio ou até reacções de indignação. Esta atitude revela, por um lado, a ignorância desses meios relativamente a tudo o que ultrapasse o seu limitado quadro de pensamento, porque a noção de que os gestores constituem uma categoria social própria é amplamente adoptada pelos autores que se dedicam ao estudo das questões sócio-económicas. Há divergências quanto à sua definição e ao escopo que lhes é atribuído, mas a especificidade dos gestores é correntemente evocada e nunca é bom sinal que um meio ideológico se isole dos debates mais gerais. Por outro lado, aquela atitude de rejeição revela uma estranha ignorância da história do marxismo e das suas — tantas vezes mortíferas — polémicas internas, porque as discussões em torno da questão dos gestores marcaram profundamente os confrontos no seio da revolução russa e, depois da segunda guerra mundial, na esfera soviética e na Revolução Cultural chinesa.</p>
<p style="text-align: justify;">No artigo <em>Gestores: um esboço de bibliografia</em> (<a href="https://passapalavra.info/2025/02/155812/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>) tentei que os leitores do Passa Palavra abrissem os olhos para a importância da questão, mas foi um esforço perdido. O texto valeu-me ao todo duas observações jocosas, embora não depreciativas, e a escassez de comentários serviu para mostrar que ninguém está interessado em aprofundar o assunto e muito menos em ler livros impressos em papel e que, se alguma vez o fizessem, seria sempre no conforto do lar e nunca em bibliotecas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas esta atitude dos meios marxistas tem raízes mais fundas e a ignorância não se deve apenas ao comodismo. Antes de decidir se os gestores são ou não uma classe social, convém reflectir um pouco sobre a existência dessas classes.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>2</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A divisão em classes sociais, como hoje as entendemos, começou a ser formulada no contexto de uma crítica da economia capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">No início do capitalismo, que devemos situar na transição do século XVIII para o século seguinte, era flagrante a clivagem entre uma elite rica, constituída por proprietários com acesso ao poder político, e um proletariado desmunido de tudo e sem capacidade eleitoral. Esta incontestável evidência fornecia o critério suficiente para a divisão em classes. Porém, a partir dos meados do século XIX, com o desenvolvimento de uma luta dos trabalhadores especificamente anticapitalista, aquela dicotomia deu lugar a uma noção mais elaborada de classes sociais. Os esboços de uma nova concepção do funcionamento interno do sistema económico levaram a que o simples antagonismo externo entre ricos e pobres fosse reformulado nos termos de uma relação de exploração, considerada como uma contradição de classe entre burguesia e trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde então a noção de classe social faz parte de uma crítica da economia, que Karl Marx sintetizou na formulação da mais-valia. Já não se tratava da mera produção de bens e da sua repartição desigual, mas de focar a análise económica nos processos de trabalho, concebidos como processos no tempo. Não os bens materiais, mas as diferentes relações com o tempo de trabalho passaram a definir as classes sociais e a fornecer a base para uma crítica do capitalismo. Ao longo de muitos anos e muitas páginas tenho procurado mostrar como a noção do processo de trabalho enquanto processo no tempo desvenda o âmago do capitalismo, e talvez o leitor incrédulo encontre alguns esclarecimentos neste meu breve texto (<a href="https://12673923774868154941.googlegroups.com/attach/ccf5074d7c78e6a3/O%20tempo-%20subst%C3%A2ncia%20do%20capitalismo.pdf?part=0.1&amp;view=1&amp;vt=ANaJVrF3A5uqWirOrqdyh6f86uob1gWpK86hbOA7Ic0Aeg07U-0WkJtignjO9hEX0WDD_sg-bVV-XR8Yc5PtdcY_xulAZ7MYkftiCOKS_OL279r5c7ugoZI" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>). Nos termos que presidem à formulação da mais-valia, a definição de classes sociais não deve residir fundamentalmente nas relações jurídicas de propriedade, mas nas diferentes relações de controle ou de dependência relativamente ao tempo de trabalho no processo de produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Adoptando uma perspectiva oposta, nos meios capitalistas os processos de trabalho eram — e continuam a ser — analisados estritamente pela diversidade de funções técnicas desempenhadas, sem que delas se deduzissem quaisquer generalizações que implicassem uma crítica ao sistema de produção ou sequer permitissem a definição de classes sociais. Alheada de hierarquias e exclusivos, a multiplicidade de funções técnicas era apresentada como promotora de uma harmonia devido à sua convergência em processos de fabrico integrados, e não como resultado de contradições mais profundas.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, e exteriormente às análises centradas no funcionamento interno do processo de produção, quaisquer que elas fossem, a noção de um hiato insuperável entre ricos e pobres foi substituída por um escalonamento gradual em categorias de rendimentos, formado por sucessivas divisões tripartidas. Enquanto as contradições entre classes sociais supunham a crítica do sistema de produção, a divisão em classes baixa, média e alta, cada uma divisível noutros três níveis, diz exclusivamente respeito à capacidade de consumo. São perspectivas opostas. Se a crítica da economia incide na exploração de mais-valia enquanto núcleo das contradições no processo de produção e a partir daí concebe a totalidade do sistema económico, pelo contrário, a divisão de rendimentos tripartida incide no consumo, concebido como motor de toda a economia.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>3</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No começo do século XX, ou ainda nos anos finais do século XIX, começou a difundir-se a percepção de que ao lado da burguesia, e aparentemente misturados com ela, existiam outros detentores do poder económico que, embora não fossem proprietários, se distinguiam pelo exercício de um controle devido ao seu elevado nível de aptidões técnicas. Num modo de produção que abandonara os procedimentos arcaicos ligados ao artesanato e desenvolvia velozmente os novos mecanismos exigidos pelo fabrico industrial em massa, a competência técnica conferia uma importância sem precedentes. Surgiram assim os rudimentos da noção de uma classe de gestores.</p>
<p style="text-align: justify;">No exílio siberiano, em 1899 e 1900, Ian Vatslav Makhaisky divulgou clandestinamente os seus primeiros ensaios em que antecipou a definição de uma classe de gestores. Se eu tenho dito e repetido que a História é irónica, não poderia haver ironia maior do que exactamente ao mesmo tempo, nos anos da passagem de século, um ensaio desencadear toda uma nova análise social e económica através da noção de gestores e uma comunicação oral desencadear a reformulação de toda a física através da noção de quantum. Num caso como no outro, não foram poucas as resistências com que estas concepções depararam.</p>
<p style="text-align: justify;">Na realidade a situação poderia aparecer confusa, já que perante os gestores ocorria uma hesitação simétrica das outras duas classes. A burguesia temia que os gestores, seus aliados na exploração dos trabalhadores, viessem a converter-se em seus rivais, tanto na economia como na política. E os trabalhadores indagavam se os gestores, seus patrões técnicos no processo de trabalho, não poderiam, apesar disso, ou talvez por isso mesmo, ser seus aliados contra a burguesia.</p>
<p style="text-align: justify;">Os dilemas neste triângulo têm marcado desde então as lutas sociais. De um lado, enquanto a extrema-esquerda considerava que na Rússia soviética ocorrera uma verdadeira contra-revolução, dando origem a um novo sistema anti-socialista, Leon Trotsky sustentava que o stalinismo correspondia a uma degenerescência apenas política, preservando o carácter socialista da base económica. No cerne deste dissídio estava o reconhecimento ou a negação da existência de uma classe de gestores, o que permitiria que o stalinismo se fundamentasse ou não numa classe social específica. Do outro lado, tanto o fascismo como o New Deal reconheciam explicitamente a importância dos gestores e a novidade social que eles encerravam, e precisamente por isso uma boa parte da extrema-esquerda agregava o New Deal e o fascismo numa entidade política comum. Ficava assim colocado o programa fascista de uma revolução capitalista apesar da, ou contra a, burguesia, abrindo-se uma época que ainda hoje não se encerrou, mas, pelo contrário, se tornou mais complexa.</p>
<p style="text-align: center;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159601 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-1024x1019.jpg" alt="" width="640" height="637" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-1024x1019.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-768x764.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-422x420.jpg 422w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-640x637.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5-681x678.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-5.jpg 1449w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" />4</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A situação tornou-se mais complexa porque os indivíduos não são unidades componentes das classes sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Já desde há muitos anos que eu defino os indivíduos, implicitamente quando não explicitamente, como percursos entre campos de atracção social. Os campos podem, por sua vez, conter campos menores ou sobrepor-se parcialmente a outros campos ou cruzar-se com eles, de modo que as unidades componentes dos campos de atracção social são também campos sociais. Cada indivíduo consiste num percurso mutável, e em boa medida fortuito, entre uma variedade de campos. A função do cérebro é unificar no tempo esses percursos, guardá-los na memória e projectá-los no futuro, e para isto serve a linguagem. Um indivíduo, portanto, resume-se ao seu percurso, tal como o tem gravado e o antecipa pela linguagem, e a permanente dispersão dos percursos impede que os indivíduos sejam considerados como unidades componentes de qualquer grupo social.</p>
<p style="text-align: justify;">Aliás, o carácter em grande parte aleatório destes percursos levou-me a equipará-los ao movimento browniano, mas considero hoje excessiva essa analogia e prefiro evocar uma simples tendência a um movimento de tipo browniano. Quando um dos campos de atracção social se torna hegemónico ou, pelo menos, exerce uma força apelativa muito acentuada, a versatilidade e a aleatoriedade dos percursos reduzem-se. Só na situação inversa, quando o poder atractivo dos campos se dispersa, é que o perfil dos percursos se aproxima do movimento browniano.</p>
<p style="text-align: justify;">Perante esta dualidade fundamental entre campos sociais e percursos individuais é difícil não proceder a uma analogia com as dualidades na física quântica, por exemplo a alternativa entre determinar o <em>momentum</em> ou determinar a posição, ou a análise de um comportamento como partícula ou como onda, além de várias outras. Aliás, a ironia da História alcançou um grau supremo quando os Thomson pai e filho receberam ambos o prémio Nobel, a trinta e um anos de distância, um por ter determinado o electrão como partícula e o outro como onda. Afinal, foi Niels Bohr quem melhor sintetizou a questão ao definir a relação entre os dois termos como uma complementaridade.</p>
<p style="text-align: justify;">Também aqui, no assunto que agora me ocupa, ou a análise incide nos campos de atracção social, e nomeadamente nas classes sociais e na relação entre elas, ou incide nos indivíduos enquanto percursos entre campos. E a complementaridade entre os dois termos da alternativa requer uma complementaridade entre os métodos de abordagem. Se visarmos os campos sociais devemos recorrer à crítica da economia e à história comparada. Mas se pretendermos seguir os percursos individuais a ficção é o único instrumento ao nosso dispor, já que a imaginação romanesca é uma invenção de percursos. Quem se limitar a uma única destas duas perspectivas perde metade do mundo, o que é a maneira mais certa de perder o mundo inteiro.</p>
<p style="text-align: justify;">É devido a esta dualidade de planos complementares, mas sem correspondência directa — ou campos sociais ou indivíduos — que a situação se pôde tornar ainda mais complexa. Com efeito, na elite económica vemos hoje frequentemente burgueses comportando-se como gestores. Por um lado eles continuam a ser juridicamente proprietários dos meios de produção, têm consciência disto e nunca prescindem do privilégio. Mas ao mesmo tempo procedem como gestores na organização das empresas e na estratégia económica geral. Podemos dizer, então, que no plano das classes sociais a divisão entre burguesia e gestores se mantém claramente definida, mas que um número crescente de capitalistas circula entre ambos os campos. Nesta complementaridade, ou pretendemos definir indivíduos, e neste caso são burgueses exercendo mais ou menos plenamente funções de gestão, ou pretendemos definir classes sociais, e neste caso as suas características são independentes dos percursos individuais.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>5</strong></p>
<p>Porquê parar aqui?</p>
<p style="text-align: justify;">Se raciocinar um pouco mais, vejo a possibilidade, aliás, a necessidade de ampliar esta perspectiva, numa situação em que a definição económica da classe trabalhadora em função da extorsão de mais-valia, ou seja, de uma exploração pensada em termos de tempos de trabalho, já não tem correspondência directa numa entidade sociológica única. O desenvolvimento da produtividade é inerente à aceleração dos ciclos de mais-valia relativa, com o consequente aumento de qualificação exigido a um número restrito de trabalhadores, enquanto são desqualificados aqueles que antes se consideravam dotados de qualificações superiores, ao mesmo tempo que a maior parte da mão-de-obra é considerada não qualificada. Esta crescente hierarquização de funções e aptidões leva a que não exista hoje nenhum campo de atracção social que seja atravessado pela totalidade dos trabalhadores e os unifique numa convergência de interesses, apesar de todos eles estarem submetidos ao mesmo sistema de exploração da mais-valia, à mesma dialéctica dos tempos de trabalho. Em conclusão, da classe no plano económico já não se pode deduzir uma classe no plano social. Deixou de haver um campo social hegemónico que atraia todos os trabalhadores e secundarize ou mesmo marginalize os campos que os dispersam. A realidade agora é outra.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta constatação leva a uma mudança radical de perspectiva. É directamente no campo das relações sociais e, portanto, das lutas sociais que devemos detectar a existência — ou as modalidades da inexistência — dos trabalhadores enquanto classe. É muito comum nos meios de esquerda a ilusão de que a proliferação de pequenas lutas corresponda a uma luta de classe ou, pelo menos, a promova. Assim tudo seria simples, mas não é, porque a luta global não resulta de uma soma de lutas isoladas. Uma luta generalizada da classe trabalhadora, que além de colectiva seja realmente activa, define-se pela capacidade de converter as relações de solidariedade estabelecidas nessa luta em novas relações de produção, ou seja, na base de uma nova economia. É isto que caracteriza uma luta generalizada e activa, a tendência à transformação da reciprocidade num novo modelo económico. As lutas isoladas, pelo contrário, circunscrevem-se aos limites definidos por uma só empresa, o que as impede de desenvolver, ou sequer esboçar, novas relações sociais capazes de sustentar uma nova estrutura económica. Extinguiu-se o sonho de outro futuro — antecipação ou ilusão — esmagado pela obsessão exclusiva do presente. Quando sonham, se sonham, é com um passado fictício.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, se a definição económica da classe trabalhadora deixou de corresponder a um perfil sociológico único, ou seja, se já não existem campos de atracção hegemónicos que configurem socialmente os trabalhadores como uma classe, isto significa que os percursos individuais dos trabalhadores se dispersam por campos atravessados também por indivíduos que têm diferentes referências sociais, nomeadamente reflectindo a classificação por estratos de rendimento. Por exemplo, trabalhadores qualificados e gestores baixos ou intermédios partilham campos que se assumem como de classe média alta ou baixa. Mas são os identitarismos que, nos dias de hoje, mais tragicamente representam a fragmentação social dos trabalhadores, a um ponto tal que parece existir uma tendência inerente à proliferação de identidades e sub-identidades. A multiplicação de exemplos deste tipo explica — e promove — a incapacidade de generalização das lutas laborais na nossa época.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>6</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A fragmentação social e a dispersão agravaram-se nas duas últimas décadas, porque cada vez mais as relações entre indivíduos são relações virtuais, de tal modo que o virtual se está a tornar, ou já se tornou, mais real do que a restante realidade. Do mesmo modo, com a difusão do trabalho à distância, as relações de trabalho são cada vez mais frequentemente, ou mesmo exclusivamente, relações virtuais. Neste contexto, as redes sociais converteram-se nos campos mais frequentados pelos percursos individuais, o que propicia a transversalidade social desses encontros. Assim, quer pelas relações profissionais quer pelos contactos exteriores à actividade profissional, assumem uma importância crescente os campos sociais que fragmentam as classes, o que contribui para confinar a definição global de classe exclusivamente ao plano económico.</p>
<p style="text-align: justify;">Olhemos em torno de nós. Cada pessoa anda agarrada a um telemóvel (celular). Porém, se invertermos a perspectiva, diremos que por enquanto cada telemóvel precisa de uma mão que o segure. Avancemos um pequeno passo, e a Inteligência Artificial permitirá em breve, se não permite já, que os telemóveis prescindam das pessoas. Onde ficam, então, os restos da classe trabalhadora, na sua definição sociológica?</p>
<p style="text-align: justify;">E de que modo deveremos considerar as movimentações sociais na época contemporânea, entendida como um hoje dilatado até ao amanhã, se o capitalismo continuar capaz de recuperar as lutas e assimilar as reivindicações dos trabalhadores enquanto estímulo para o aumento da produtividade e para novos ciclos de mais-valia relativa? Se no reflexo social das contradições económicas Karl Marx pôde apresentar o motor da História, como reactivar o motor que hoje dê à economia uma volta histórica?</p>
<p style="text-align: justify;">E há quem pense que a História está parada, à espera de que o que não se realizou se realize!</p>
<p style="text-align: justify;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-159599" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-b-214x300.jpeg" alt="" width="100" height="140" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-b-214x300.jpeg 214w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-b-299x420.jpeg 299w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/LeWitt-b.jpeg 499w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" />Este artigo está ilustrado com reproduções de obras de Sol LeWitt (1928-2007).</em></p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (11)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Aug 2026 17:43:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
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					<description><![CDATA[Para além da greve e da revolta, a comuna é uma tática que também é uma forma de vida. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 9</strong></h4>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A revolta, o bloqueio, a barricada, a ocupação. A comuna. É isso que veremos nos próximos cinco, quinze, quarenta anos. A lista não é nova. Tornou-se uma espécie de senso comum entre alguns grupos que se identificam com o fim do programa. O objetivo aqui não é reiterar os itens, nem simplesmente explicar por que eles são mais prováveis de serem eficazes agora do que em algum momento anterior. Este é certamente o caso. O argumento deste livro, no entanto, não é que as lutas de circulação apontem a abordagem correta para “bloquear o capital” (ou como quer que alguns possam expressá-lo) de modo a subjugá-lo. A circulação é o valor em movimento rumo à realização; é também um regime de organização social dentro do capital, interligado com a produção em uma relação mutável cujo desequilíbrio se manifesta como crise. Tentamos estabelecer as bases teóricas e históricas para as “circunstâncias já existentes, dadas e transmitidas do passado”, para explicar por que, nessas circunstâncias, novas lutas pela circulação são inevitáveis e como uma compreensão mais completa desse quadro conceitual e da história material pode mediar entre o que é e o que deveria ser. Isso exigirá lidar com os limites da onda mais recente de lutas, ao mesmo tempo em que se tenta extrair o núcleo prático, por assim dizer, a partir do qual as lutas futuras certamente florescerão.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>A Praça e a Aliança de Classes</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A <em>ágora</em> grega clássica é tanto um mercado quanto uma assembleia pública, um caráter duplo que persiste de forma cada vez mais fantasmagórica na primeira era das revoltas. O retorno da <em>revolta linha</em> à praça lembra as lutas do mercado da primeira era de revoltas, lembra as reivindicações sociais dessas lutas conduzidas por meio da economia. Não pode deixar de ser assim. Ao mesmo tempo, demonstra a impossibilidade de tal retorno.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando as diversas iterações do “movimento das praças” que orientaram a luta global em 2010-11 surgem na ágora, elas apresentam, em muitos aspectos, uma demonstração clara do argumento deste livro. Elas vão diretamente para o local exemplar de circulação. Sua base nas populações excedentes é manifesta. Pode-se considerar a precipitação da Primavera Árabe pela autoimolação de Mohamed Bouazizi, um dos tunisianos em ascensão empurrados para a economia informal e então sujeitos a assédio incessante pela polícia. Tal precipitação depende da natureza excepcional do episódio, seu paroxismo de empobrecimento. Mas depende simultaneamente da natureza paradigmática da situação de Bouazizi, como um entre muitos que se tornaram excedentes pelas transformações político-econômicas, não absorvíveis, sem futuro, lançados nos espaços públicos das cidades.</p>
<p style="text-align: justify;">E, no entanto, a localização da <em>revolta linha</em> na praça moderna é um sinal de seu confinamento ao espaço da política. Esse é mais ou menos o problema transcendental de 2011. O capitalismo realizado repousa sobre a separação entre o político e o econômico, a autoridade do povo capaz de ser conceituada independentemente dos problemas supostamente tecnocráticos da criação e distribuição de recursos. Essa separação é expressa na distância entre nossas principais riotologias, encontradas anteriormente: por um lado, a política da ideia de Badiou e, por outro, o economismo mecânico do New England Complex Systems Institute e outros. A população da <em>revolta linha</em>, podemos agora reconhecer, alcança uma ordem histórica não por meio de uma ideia compartilhada, nem pelas flutuações mortais dos preços dos alimentos, mas correspondendo a uma unidade político-econômica subjacente, uma reorganização material da sociedade, que lhes proporciona um conjunto compartilhado de problemas e uma arena compartilhada na qual enfrentá-los.</p>
<p style="text-align: justify;">As armadilhas da política são muitas. A necessidade de repressão violenta e a indignação que a acompanha para expandir os acampamentos Occupy é paralela à sua orientação mais ampla em relação ao Estado e suas instituições. Outra armadilha é vista na longa revolta da crise grega: seu <em>antikristos</em> de antagonistas e policiais, incessante desde 2008, precede e fundamenta o acampamento na Praça Syntagma, em Atenas, e os ataques repetitivos ao prédio do Parlamento. Provavelmente, o exemplo mais angustiante da armadilha política é a descoberta de que os aparentes golpes públicos da Primavera Árabe dão origem a revoluções formalistas de fatal incompletude. <em>O povo quer a queda do regime</em>. “Mas esse antagonismo é, na verdade, interminável, circular”, como alguns observaram. “Nada pode tornar essa circularidade mais clara do que a saída de Mohamed Morsi, 30 meses após a queda de Hosni Mubarak, um ano e uma semana após sua própria eleição. Acontece que <em>não foi</em> a queda do regime que o povo queria, não era a democracia em algum sentido abstrato” <strong>[1]</strong>. Apesar dos projetos de reabilitação empreendidos por vários filósofos, a democracia continua sendo o contrário da absolutização. “Se começamos com o Estado, terminamos com o Estado”, observa Kristin Ross, argumentando que narrar o nascimento da Comuna de Paris como um confronto entre uma população e seu governo é limitar nossa compreensão do evento a uma disputa pelo controle de um Estado que continua sendo o Estado <strong>[2]</strong>. este é o limite tanto para a teoria quanto para a prática, principalmente para nossa compreensão de todas as maneiras pelas quais o Estado moderno evolui a partir das estruturas do capital e delas depende.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159708" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E.jpg" alt="" width="1960" height="1304" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E.jpg 1960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-1024x681.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-768x511.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-1536x1022.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-631x420.jpg 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-640x426.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/YCKGYOUNUFDM7LDDCOZ7WAZY7E-681x453.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1960px) 100vw, 1960px" />Esse anseio democrático sem sentido não estará mais presente em nenhum outro lugar do que nos Estados Unidos, onde a deliberação se torna um fim em si mesma. Os objetivos práticos do Occupy Wall Street (OWS) são rapidamente colocados entre parênteses. Originalmente, ele declara sua intenção (de forma um tanto implausível) de bloquear a bolsa de valores, de interromper o movimento virtualizado do próprio capital financeiro. Empurrado rapidamente para a praça que o tornaria famoso, cercado por barricadas e pela polícia, ele flui periodicamente para as ruas ou para a ponte do Brooklyn. Seu outro objetivo declarado é desenvolver uma única demanda contra a oligarquia financeira, entendida como responsável pela crise financeira, e contra as políticas de austeridade implementadas em resposta a ela. Torna-se claro rapidamente, ainda que tacitamente, que qualquer demanda específica fragmentaria o frágil agrupamento. E assim o acampamento se torna “sua própria demanda”, ao mesmo tempo um apelo pelo reconhecimento da miséria vivida pela austeridade e uma prefiguração imaginária da autogestão futura. É revelador que a inovação mais famosa do OWS seja o “microfone humano”, uma forma de comunicação.</p>
<p style="text-align: justify;">O Occupy Oakland compartilhará semelhanças genéricas com o OWS e não faltará deliberação. Suas diferenças serão mais reveladoras. O mais militante dos acampamentos, ele encarna a ideia de revolta como modalidade, não apenas porque regularmente salta para as ruas da cidade e entra em revolta aberta. Entendido de acordo com a intensa condensação de riqueza, gentrificação e crescente desigualdades peculiares (mas não exclusivas) Oakland e à área da baía, a destruição regular de propriedades pelo Occupy Oakland é uma espécie de fixação de preços: uma tentativa de reduzir os valores imobiliários em alta, minando os padrões burgueses de habitabilidade. Ao mesmo tempo, isso afeta diretamente a economia. Por duas vezes, os ocupantes fecharam o vasto Porto de Oakland (ambas as vezes em uma colaboração incômoda com o sindicato dos estivadores e armazéns), uma vez dentro de uma tentativa de greve geral — a primeira nos Estados Unidos desde 1946. Junto com essas lutas clássicas de circulação, não é surpresa que o Occupy Oakland tenha se concentrado em uma cozinha comunitária, sinalizando a centralidade da população excedente para o acampamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de seu papel na rede nacional de acampamentos no outono de 2011, a formação do Occupy Oakland deve ser igualmente registrada à luz de outras histórias. Uma delas é a “dupla revolta”, um lugar-comum mal reconhecido a nível sistêmico. Na França, os distúrbios de 2005 espalharam-se de banlieue em banlieue, particularmente aquelas com populações fortemente informalizadas e imigrantes, após as mortes de Zyed Benna e Bouna Traoré enquanto fugiam da polícia; em 2006, os chamados distúrbios CPE responderam às tentativas de reestruturar os mercados de trabalho juvenis e caracterizaram-se por ocupações universitárias. O padrão se repete no Reino Unido em ordem inversa: primeiro as lutas estudantis de 2010, incluindo ocupações de universidades e a invasão da sede do Partido Conservador; depois os distúrbios de Tottenham em 2011, após o assassinato de Mark Duggan. Em Oakland, as revoltas no início de 2009 seguem o assassinato de Oscar Grant pela polícia; 2009-2010 vê uma série de ocupações universitárias atraindo repressão militarizada em toda a Califórnia (e no país), mas centrada na vizinha Berkeley.</p>
<p style="text-align: justify;">A forma da duplo revolta é bastante clara. Uma revolta surge quando os jovens descobrem que os caminhos que antes prometiam uma integração formal minimamente segura na economia agora estão fechados. A outra revolta surge das populações excedentes racializadas e da gestão violenta do Estado sobre elas. Os detentores de promissórias vazias e os detentores de nada. Quando essa dupla contemporânea é reconhecida, os dois lados são considerados opostos, a abjeção de um traindo o privilégio relativo do outro. Isso é, em si, uma compreensão unilateral da crise e de suas populações, dos modos e temporalidades através dos quais a exclusão se desenrola. A tarefa não é descobrir novas categorias sociológicas que possam substituir as classificações obsoletas de uma era anterior, substituindo um conjunto reificado de atores por outro. Em vez disso, é trazer à tona o movimento real dentro do qual essas categorias sociais se desenvolvem, mudam, se elaboram internamente e em relação a outras forças sociais. O acampamento de Oakland, que se autodenominou brevemente Comuna de Oakland, pode ser entendido como uma tentativa impossível de sintetizar os dois grupos constituintes da dupla revolta — e como um exemplo vivo do terreno de luta cada vez mais compartilhado por essas populações, seu movimento inacabado em direção umas às outras.</p>
<p style="text-align: justify;">A composição do acampamento era sua força e sua fraqueza: a base de sua militância e os termos de sua aliança de classe insustentável entre os excluídos e os marginalizados. A composição do acampamento captura “uma contradição central embutida nas manifestações contemporâneas da cidade de tendas… entre a abjeção do campo de refugiados e o ativismo do campo político”, como Sasha X denomina as questões <strong>[3]</strong>. Essa descrição, no entanto, ignora a subsunção contínua do “campo político” dentro das condições político-econômicas. Seria igualmente preciso descrever o Occupy Oakland como um exemplo de proletarização incompleta. No momento, ainda não é possível unificar a dupla revolta em um único acampamento. Isso se manifesta mais claramente na contradição entre ideologia e prática. O discurso dominante do Occupy — “somos os 99%” e, portanto, merecedores de uma parcela equivalente da riqueza social e do poder de classe — é incapaz de representar aqueles cujas vidas já estão além das promessas de melhorias institucionais e políticas redistributivas. Há pouco reconhecimento nessa formulação da relação material entre o movimento Occupy e o planeta das favelas, mesmo que esse planeta apresente cada vez mais lugares como Oakland. Ao mesmo tempo, porém, as formas de luta de Oakland (revolta, greve geral, paralisação do porto) se comportam mais claramente com a política das populações excedentes, uma política sem programa.</p>
<p style="text-align: justify;">Tal política, tendendo à absolutização, não ficaria sem oposição. Aqueles que ainda eram capazes de projetar, a partir de sua circunstância social, uma imagem de redistribuição e restauração de algum momento anterior de equilíbrio social (ssempre lembrando o período do Longo Crescimento e um keynesianismo nostálgico) muitas vezes estavam dispostos a impor essa visão por meio da colaboração passiva e ativa com a polícia. Isso se provaria uma obstrução igual à própria polícia.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de tudo, o acampamento era singular. Certamente se destacava no mapa nacional de acampamentos do Occupy: todos black blocs e com más intenções, partes deles envolvidos em uma política qualitativamente diferente, enfrentando o Estado de austeridade como antagonista, em vez de parceiro traído, uma Sociedade de Inimigos para quem lutar contra a polícia era menos um objetivo do que uma inevitabilidade de posição. É mais contínuo com uma narrativa internacional, um fio condutor que se estende desde as revoltas nas periferias até todas as festas de gás lacrimogêneo do futuro. A aliança contínua ou indistinguibilidade entre acampamentos de população excedente e outros agregados políticos que não podem ser apropriados para uma parceria com o Estado é uma característica básica das <em>revolta linha</em> — e que certamente se expandirá e se intensificará à medida que continua a se transformar, juntamente com o aumento da produção da não produção e da volatilidade política global.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>A Rua e a Divisão</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A lógica das lutas de circulação não viu exemplo mais espetacular do que o de 24 a 25 de novembro de 2014, quando a revolta se espalhou de cidade em cidade a partir de um subúrbio de St. Louis, após um momento de violência intolerável, de gestão fatal de populações racializadas, começando da maneira como as revoltas começam na era da r<em>evolta linha</em>, não do nada, mas de todos os lugares. O local dessa revolta é a rua, a rua onde Michael Brown foi assassinado, a rua onde as pessoas se reuniram para aguardar a notícia de que seu assassino não seria indiciado, a rua onde as pessoas se encontraram depois. A rua onde a violência contra a polícia abriu espaço para a pilhagem de estabelecimentos comerciais e permitiu a evasão para outros alvos. E, eventualmente, as rodovias, em escala continental, fechando cruzamentos após cruzamentos em todo o Sistema Rodoviário Interestadual, a paisagem construída da circulação, outrora o maior projeto de obras públicas conhecido na história. E, no entanto, isso não deve ser reduzido a espetáculo, a representação. O bloqueio do tráfego, a interrupção da circulação como um projeto imediato e concreto, não registrou nada além do desejo insaciável de <em>fazer tudo parar</em>. As rodovias e vias públicas eram o que havia de mais próximo <em>disso tudo</em>, da totalização anti-humana e da reificação do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159706" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1.jpg" alt="" width="1200" height="1600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1-768x1024.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1-1152x1536.jpg 1152w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1-315x420.jpg 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1-640x853.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Copia-de-IMG_5428-1200x1600-1-681x908.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />As cenas semelhantes em todo o país transmitem uma sensação estranha de coordenação, de organização sem organização. Os distúrbios seriam levados à expansão nacional não apenas pela impunidade do policial, mas por uma série de assassinatos em todo o país, policial contra pessoa, elos de uma cadeia sem fim. Ainda mais notável e sugestivo do que o salto espacial desses distúrbios, porém, é sua duração inicial. É nisso que reside a verdadeira novidade de Ferguson.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois que Michael Brown foi morto a tiros por Darren Wilson, as revoltas locais começaram quase imediatamente e duraram mais de duas semanas. A medição de revoltas é uma ciência inexata; no entanto, essa sequência parece ter durado mais do que qualquer uma dos casos semelhantes já discutidos, de Detroit, Newark e Chicago até o presente. Qualquer pessoa que já tenha estado em Ferguson reconhecerá o quão extraordinário é esse fato. Uma pequena cidade incorporada ao norte de St. Louis, sua população é de cerca de 20.000 habitantes, abaixo do pico de 30.000 em torno de 1970, antes da desindustrialização. Não há coisas para queimar que durem duas semanas. Não há praça para ser ocupada, mas a cumplicidade entre a rua e a praça persiste. Na área comercial da West Florissant Avenue, epicentro da revolta, as pessoas incendiaram o mercado QuikTrip e usaram o terreno como sua praça até que ele foi isolado pelo Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">A transformação racial da cidade tem sido impressionante, mesmo seguindo um curso cada vez mais comum, passando de cerca de três quartos de brancos e um quarto de negros em 1990 para quase o inverso em 2010. A estrutura tradicional dos Estados Unidos de fuga dos brancos, que outrora transformou os centros das cidades em áreas de concentração da população excedente, sofreu uma mutação para se assemelhar ao modelo europeu e global de banlieues e bidonvilles, que reúnem as populações excedentes em anéis ao redor das cidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Phil A. Neel oferece uma explicação clara de como essas mudanças demográficas e a geografia da paisagem atenuada fornecem os termos para a “revolta suburbana”, cujo locus classicus está na revolta descentralizada e sem demandas de Los Angeles em 1992 <strong>[4]</strong>. Neel localiza uma coordenada adicional para explicar a dificuldade de conter a revolta: a ausência de uma classe mediadora de líderes negros dedicados à ordem em nome da comunidade. Esta é uma expressão reveladora do que é, na verdade, uma mudança estrutural muito maior.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma convenção quase universal das <em>revoltas linha</em>, das rebeliões e dos revoltas que, pouco depois de eclodirem e obterem uma vitória substancial ou aparente, se dividem em dois impulsos. Estes são, por vezes, abertamente antagónicos, outras vezes sobrepostos e coniventes. O primeiro impulso é em direção a uma espécie de populismo, uma tentativa de aumentar as fileiras mobilizando a simpatia do público, usando a seu favor a cobertura da mídia e outros aparatos discursivos. Ele é inevitavelmente atraído para alguma versão da política da respeitabilidade e, em geral, para a persuasão moral da desobediência civil passiva e da não violência em geral. Ele pretende desenvolver uma força política, influenciar a opinião pública, obter concessões. Eventualmente, será atraída sem falha para a arena eleitoral, subordinada como plataforma ou bancada da política partidária. Se essa fração política for chamada desde o início a justificar a desordem da revolta, ela assume a afirmação de Martin Luther King Jr. de que “uma revolta é a linguagem dos que não são ouvidos”. Isso tem um apelo imediato; seria difícil não ouvir em qualquer revolta o lamento dos empobrecidos. No entanto, isso apresenta uma sintomatologia pouco examinada, pressupondo que o grito incipiente da revolta deve, na verdade, ter algum significado ainda indecifrável além de si mesmo e, além disso, que essa criação de significado é seu aspecto principal — os outros aspectos infelizes que se vêem no noticiário são negados no apelo humanista universal para reconhecer o sofrimento do outro e até mesmo perdoar os excessos em sua expressão. Dentro dessa compreensão, mesmo a revolta sem demandas é transcodificada para <em>ser ela própria uma demanda</em>, algo que poderia ser satisfeito pela ordem atual se pudesse ser compreendido. A negociação se torna uma verdade transhistórica.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo impulso encontra na revolta algo além ou antes da comunicação. Ela se volta menos para a política e mais para os aspectos práticos, voltando-se para o material, tanto no sentido baixo quanto no alto. Esses aspectos práticos podem incluir saques, controle do espaço, erosão do poder da polícia, tornar uma área hostil a intrusos e destruir propriedades entendidas como constituindo a exclusão dos manifestantes do mundo que eles veem sempre diante de si e no qual não podem entrar.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa divisão é tão antiga quanto a própria revolta e não é clara. Há aspectos práticos nos atos discursivos e, inversamente, a janela quebrada ou a loja incendiada são inevitavelmente uma forma de comunicação. No entanto, a divisão é evidente, vivida socialmente pelos participantes e repetida em grande parte sem falhas. Isso também se provaria em Ferguson, onde cada noite de tumultos apresentava tanto marchas pacíficas que seguiam em grande parte as prescrições da polícia quanto ações menos ordeiras que incluíam incêndios criminosos e tiros contra policiais. Embora as facções tenham trabalhado em colaboração durante os primeiros dias, ou talvez ainda não estivessem totalmente formadas, elas passaram a estar cada vez mais em desacordo, especialmente depois que um grande número de clérigos nacionais chegou a Ferguson para amplificar o que consideravam ser as lições do Dr. King.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas é aqui que uma mudança histórica surge à vista, uma mudança de importância primordial. Desde o movimento pelos direitos civis (e antes dele, a “primeira geração” do movimento feminista), o lado das estruturas legais, da persuasão moral e da política da respeitabilidade efetivamente hegemonizou o debate rapidamente após cada revolta. Isso aconteceu em grande parte porque essa abordagem podia oferecer ganhos reais, ainda que limitados. Tais resultados já não parecem plausíveis. O sucesso da estratégia discursiva baseava-se em um certo grau de riqueza social, mercados de trabalho em equilíbrio e uma continuidade do lucro digna de ser preservada, mesmo que isso significasse sacrifícios relativos para o capital.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159705" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1696" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-scaled.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-300x199.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-1024x678.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-768x509.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-1536x1017.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-2048x1356.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-634x420.jpg 634w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-640x424.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/jornadas-junho-2013-6-681x451.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" />Talvez se possa imaginar exigências no presente que, se atendidas, alterariam substancialmente as circunstâncias dos excluídos. Mas o aumento do número de excluídos é o mesmo fato que a incapacidade de atender a tais exigências — as duas faces da crise. Assim como os EUA não podem mais proporcionar acumulação em nível global e, portanto, devem ordenar o sistema mundial por coerção em vez de consentimento, o Estado não pode mais oferecer o tipo de concessões conquistadas pelo movimento pelos direitos civis, não pode mais comprar a paz social. É tudo bastão e nenhuma cenoura. A revolta em Baltimore após o assassinato de Freddie Gray em 2015, cuja duração e intensidade foram enfrentadas pela Guarda Nacional e um estado de emergência de nove dias, apenas confirmam essa situação.</p>
<p style="text-align: justify;">Por causa disso, a divisão não pode mais ser facilmente superada. O prolongamento das revoltas e de sua fúria é, sem dúvida, uma medida das pressões sociais que se acumulam em torno do policiamento racializado e da violência imanente aplicada à gestão das populações excedentes em geral. É também uma medida do apelo cada vez menor da moderação e da conformidade otimista. Essa abordagem ainda mantém algum carisma, como atesta a institucionalização em curso das revoltas de Ferguson e Baltimore dentro da contenção das ONG&#8217;s. Ao mesmo tempo, o argumento de que a violência e a subordinação sem fim são estruturais e não podem ser resolvidas nem prática nem teoricamente por meio da participação redistributiva torna-se cada vez mais difícil de refutar.</p>
<p style="text-align: justify;">A menos que ocorram mudanças imprevisíveis na organização social subjacente, a divisão se tornará mais ampla e permanecerá aberta por mais tempo. É assim que a tendência à absolutização se manifesta em nível prático. Se entendermos cada caso semelhante como uma divisão de duração crescente, o número de divisões abertas em um determinado momento também aumentará. É previsível que uma série em cascata delas — inicialmente, mas não exclusivamente, orientadas por lutas racializadas — consiga preservar suas próprias existências enquanto atrai outras lutas para aproveitar sua principal chance contra uma desordem crescente, uma desordem que agora parece pertencer não à revolta, mas ao Estado, ao que antes era uma ordem violenta. Contra essa grande desordem, uma auto-organização necessária, a sobrevivência em uma chave diferente. Não é preciso pensar que isso é provável para considerá-lo mais provável do que um programa socialista renovado, mesmo que com novos adornos para uma economia supostamente nova.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Comuna e Catástrofe</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Se a praça e a rua têm sido os dois locais principais das <em>revoltas linha</em>, ambos se abrem para a comuna. A comuna, no entanto, não é um lugar nesse sentido, não é uma “aglomeração territorial”, como Kropotkin expressou <strong>[5]</strong>. Sua história tem sido a de escapar dessa designação, mesmo quando casos específicos assumem os nomes de seus locais. Pode-se dizer que é, em vez disso, uma relação social, uma forma política, um evento. Ela tem sido chamada de todas essas coisas. Também sugerimos que é uma tática, compreensível dentro do desenvolvimento do repertório de ação coletiva de Tilly neste livro. Isso pode parecer uma conclusão curiosa para um empreendimento tão sustentado e elaborado como a comuna. Uma última digressão, então, para dar sentido a tal afirmação e reuni-la em algo completamente diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Bruno Bosteels, ao deslocar a comuna da exemplaridade abrangente de Paris, fornece uma visão fundamental. Em seu estudo sobre o que o historiador Adolfo Gilly chamou de Comuna de Morelos (que atingiu seu auge em 1914-15), ele admite:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">No nível das formas organizacionais aparentes, o anarquismo é acusado de favorecer revoltas e ataques espontâneos como parte de sua ideologia de ação direta, à qual apenas uma consciência de classe socialista, voltada para a tomada do poder estatal, é capaz de emprestar a organização necessária para um movimento político duradouro <strong>[6]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essa antinomia, com sua conjunção já ideológica entre identificação política e formas de ação, é precisamente o que a comuna dissolve: “No entanto, há uma forma política na qual anarquistas e socialistas — mesmo no México — parecem capazes de encontrar um terreno comum: a forma da comuna” <strong>[7]</strong>. Essa multiplicidade da comuna é observada por Marx em relação a Paris, da qual ele extrai uma lição mais unívoca:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Seu verdadeiro segredo era este. Era essencialmente um governo da classe trabalhadora, produto da luta da classe produtora contra a classe apropriadora, a forma política finalmente descoberta sob a qual se poderia trabalhar a emancipação econômica do trabalho <strong>[8]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essa conclusão é ambígua se tomarmos Morelos como um estudo de caso em contraposição a Paris, dada sua continuidade provisória de camponeses e trabalhadores, reforma agrária ao lado de lutas anticapitalistas nas usinas de açúcar em rápida industrialização (uma ambiguidade que Bosteels estende por toda a história subterrânea da “Comuna Mexicana”, passando pela revolta zapatista de 1994 e pela Comuna de Oaxaca de 2006). Ou seja, a partir dessa perspectiva, não parece nada claro que o segredo composicional da comuna seja um “governo da classe trabalhadora” singular, mas sim a comunalidade de várias frações sociais.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159709" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139.webp" alt="" width="1300" height="867" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139.webp 1300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139-1024x683.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/san-cristobal-de-las-casas-chiapas-zapatismo-mexico-placa-zapatismo.jpg-2121715139-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1300px) 100vw, 1300px" />E é exatamente esse o ponto. Dentro das transformações do presente, a forma da comuna é impensável sem a modulação da classe trabalhadora tradicional para um proletariado expandido. Ou seja, ela não é orientada por trabalhadores produtivos, mas sim pela população heterogênea daqueles que não têm reservas. Assim como a revolta, a comuna pode contar com trabalhadores, mas não necessariamente como trabalhadores. Ross argumenta que a comuna é definida, em parte, pela plenitude de sua relação.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O que a comuna, como meio político e social, oferecia que a fábrica não oferecia era um escopo social mais amplo — que incluía mulheres, crianças, camponeses, idosos e desempregados. Ela compreendia não apenas o reino da produção, mas tanto a produção quanto o consumo <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">À primeira vista, essa é uma afirmação curiosa, pois é o próprio capitalismo que se baseia nos circuitos interligados de produção e consumo, uma combinação que nos proporcionou as duas formas originais da luta moderna: greve e revolta, fixação de salários e preços. A implicação deve ser que a comuna oferece produção e consumo de necessidades (e de prazeres! — “luxos comunitários”, como diz Ross) além das medidas do capital. Ou seja, além do salário e do preço. Assim é, em teoria. O comunismo no presente, que não pode mais ser confundido com o comando dos trabalhadores sobre a produção e a distribuição no modo socialista, é a quebra do índice entre o trabalho de cada um e seu acesso às necessidades — as atividades sociais gêmeas reguladas pelos salários e preços, respectivamente. Ele pode preservar a produção e o consumo em um sentido geral. Mas elimina as mediações que ligam a produção ao consumo. Só então as compulsões de valor que organizam as relações sociais são quebradas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, escondido nas sombras projetadas pela luz abstrata do ideal, há igualmente um sentido prático e concreto desse reconhecimento de que a comuna está além da produção e do consumo capitalistas. Se nos voltamos no último momento para as histórias materiais, é porque não temos outro ponto de partida. Nem a Comuna de Paris nem a de Morelos podem ser compreendidas independentemente das catástrofes sociais — as revoltas — que as precederam <strong>[10]</strong>. A comuna aparece além do salário e do preço porque essas lutas deixam de ser possíveis em qualquer sentido prático, porque a reprodução humana naquele momento não se encontra nem no local de trabalho nem no mercado. Na medida em que a comuna é uma abertura histórica, ela é também uma exclusão, e essa exclusão é inseparável de sua existência operacional. Como Marx nos lembra, “A grande medida social da Comuna foi sua própria existência operacional” <strong>[11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A comuna, então, tem uma continuidade com a revolta. Ela pressupõe a impossibilidade da fixação de salários como meio de garantir qualquer tipo de emancipação. É provável que seja inaugurada, como muitas lutas na primeira era das revoltas, por aqueles para quem a questão da reprodução além do salário há muito se coloca — aqueles que foram socialmente forjados como portadores dessa crise. “As mulheres foram as primeiras a agir”, lembra-nos Lissagaray sobre a Comuna de Paris, “endurecidas pelo cerco — elas tiveram uma dose dupla de miséria” <strong>[12]</strong>. Esse cerco que é o gênero nunca terminou.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a comuna também rompe com a base da revolta na fixação de preços, porque o abastecimento para a subsistência não se encontra mais nessa ação. Está além da greve e da revolta. Em tal situação, a comuna surge não como um “evento”, mas como uma tática de reprodução social. É fundamental entender a comuna primeiro como uma tática, como <em>uma prática à qual a teoria é adequada</em>. Para além da greve e da revolta, o que distingue os problemas e possibilidades da reprodução daqueles da produção e do consumo é o seguinte: a comuna é uma tática que também é uma forma de vida.</p>
<p style="text-align: justify;">As comunas que estão por vir se desenvolverão onde as lutas pela produção e circulação se esgotaram. É provável que as comunas que estão por vir surjam primeiro não em cidades muradas ou em comunidades de retiro, mas em cidades abertas, onde aqueles excluídos da economia formal e deixados à deriva na circulação agora observam o fracasso do mercado em suprir suas necessidades. O <em>glacis</em> ao redor da Muralha de Thiers é agora o <em>Boulevard Periphérique</em>; a população excedente se reúne agora nas rodovias ao redor de Lima, Dhaka e Dar es Salaam. Mas não apenas lá.</p>
<p style="text-align: justify;">As coisas se desintegram, o centro e a periferia não se sustentam. Girando e girando na noite, somos consumidos pelo fogo. Talvez a Longa Crise do capital possa se reverter; é uma aposta perigosa para ambos os lados. Dentro da persistência da crise, no entanto, a reprodução do capital através do circuito de produção e circulação — salário e mercado — parece cada vez mais não como uma possibilidade, mas como um limite para a reprodução proletária. Um circuito morto e em chamas. Aqui, a revolta retorna tarde e aparece cedo, tanto em excesso quanto em falta. A comuna nada mais é do que o nome para a tentativa de superar esse limite, uma catástrofe peculiar ainda por vir.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Research and Destroy, “The Wreck of the Plaza” (A destruição da praça), 14 de junho de 2014, researchanddestroy.wordpress.com. Este artigo foi publicado anteriormente com o título sugestivo “Plaza-Riot-Commune” (Praça-Revolta-Comuna).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Kristin Ross, <em>Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune</em>, Verso: Londres, 2015, 14.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Sasha X, “Occupy Nothing: Utopia, History, and the Common Abject,” <em>Mediations</em>, 28: 1, outono de 2014, 62.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Phil A. Neel, “New Ghettos Burning”, 17 de agosto de 2014, ultracom.org.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Ross, <em>Communal Luxury</em>, 123-4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Bruno Bosteels, “The Mexican Commune,” in <em>Communism in the Twenty-First Century</em>, vol. 2, ed. Shannon Brincat, Santa Barbara: Praeger, 2014, 168.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Ibid.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Karl Marx e V. I. Lenin, <em>The Civil War in France: The Paris Commune</em>, New York: International Publishers, 1968, 60.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ross, <em>Communal Luxury</em>, 112.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Para uma análise das condições político-econômicas de Morelos antes da Comuna, see Paul Hart, <em>Bitter Harvest: The Social Transformation of Morelos, Mexico, and the Origins of the Zapatista Revolution, 1840-1910</em>, Albuquerque: University of New Mexico, 2005, 149, 191-2.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Marx, <em>The Civil War</em>, 65.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Prosper-Olivier Lissagaray, <em>History of the Paris Commune of 1871</em>, trad. Eleanor Marx Aveling, London: Verso, 2012, 65.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>Ilustram este artigo fotografias de levantes recentes: do Occupy Wall Street à Primavera Árabe; do estallido chileno às jornadas de Junho de 2013 no Brasil e ao levante zapatista em Chiapas, no México.</em></p>
</blockquote>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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