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	<title>Achados &amp; Perdidos &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Para quem não é venezuelano</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Jan 2026 17:43:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Achados & Perdidos]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Venezuela]]></category>
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					<description><![CDATA[É preciso repudiar o imperialismo brutal dos EUA. Mas contentar-se em denunciar apenas isso, agir e indignar-se apenas diante disso, despertar a suspeita e a atenção apenas diante disso, deixando-o intencionalmente sem contexto nem pano de fundo, em primeiro plano: isso é um exemplo de pensamento limitado e unilateral. Por Diego Colombo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Diego Colombo</h3>
<p style="text-align: justify;">Além de algumas diferenças que neste momento são irrelevantes (mas que no futuro podem ser graves), hoje a maioria dos venezuelanos compartilha as mesmas emoções e ideias. Após mais de vinte e cinco anos de regime chavista, temos a esperança de uma mudança de governo, da recomposição de uma ordem social minimamente democrática. Também temos a angústia de que, mesmo com a tragédia de hoje, nada disso seja possível.</p>
<p style="text-align: justify;">Escrevo, então, minha opinião para os não venezuelanos.</p>
<p style="text-align: justify;">É inadmissível, sem nuances, que um país ataque militarmente outro dessa maneira. Mesmo quando se trata da captura de um autêntico ditador, que além disso é um assassino. A sensação de ver nossa própria capital sendo bombardeada por forças estrangeiras é muito difícil de descrever. Mas nenhum de nós se surpreende mais com a violência em nosso país, pois ela se tornou um hábito. Não tenho a menor compaixão pelos agentes do SEBIN, mortos esta madrugada no meio das operações.</p>
<p style="text-align: justify;">Na Venezuela, todos os meios possíveis foram tentados para sair da ditadura, tanto nas urnas como nas ruas. Não faltou vontade nem mártires: não é por acaso que o pior centro de tortura do continente fica no centro de Caracas. No entanto, após longos anos de luta contra o terrorismo de Estado, após 8 milhões de exilados, imprensa censurada, abusos legais e medidas anticonstitucionais, sindicatos tomados, perseguições e proscrições, militantes e organizações desaparecidos, repressão paramilitar nos bairros mais pobres, tribunais militares e execuções extrajudiciais, de tanques e gases diante dos protestos mais espontâneos, de mentiras e manipulações da mídia, de viver sob sistemas de saúde, transporte e educação devastados, e após a catástrofe da fome nos anos anteriores à pandemia — depois de tudo isso, a derrota da classe trabalhadora venezuelana, sem dúvida, foi completa.</p>
<p style="text-align: justify;">E não foi apenas de forma objetiva e material; também foi de forma subjetiva. Está no furioso anticomunismo de uma população que, até recentemente, era tradicionalmente aberta e inclusiva. Está em uma dor que se manifesta na frustração e na incompreensão que costuma atrapalhar, quase imediatamente, as trocas políticas no exterior.</p>
<p style="text-align: justify;">A economia da Venezuela depende efetivamente em 90% do petróleo; Chávez e Maduro destruíram uma das indústrias petrolíferas mais eficientes do mundo, levando-a ao seu nível histórico de produção. Foram eles que iniciaram, diante do declínio, a gradual privatização da PDVSA por meio de empresas mistas: concessões à Chevron (EUA), Repsol (Espanha), Maurel (França), a empresas chinesas e russas. De 3,4 milhões de bdp antes do chavismo, caiu para menos de 1 milhão. Além desse desastre, todos os planos de industrialização do país fracassaram, assim como os planos de agricultura. As sanções econômicas internacionais existiram e pioraram a situação. Mas elas chegaram em 2019, e nessa altura a economia já estava arruinada. Não há dúvida de que os EUA precisam de satisfazer o seu défice de petróleo, esse interesse é claramente a principal motivação do seu ataque. Mas também é verdade que os EUA produzem 13,6 milhões de bdp e que as infraestruturas venezuelanas estão nas piores condições. Deve haver, então, mais do que um interesse. Tem a ver com o seguinte.</p>
<p style="text-align: justify;">Por mais nobre e bem-intencionada que seja a preocupação com a “soberania dos povos”, com a sua “autodeterminação” e com o cumprimento do direito internacional, o fundamental nestas questões é considerar o conteúdo real dessas ideias, o seu funcionamento concreto. Sem dúvida, a repulsa à ingerência norte-americana na Venezuela é justificada. Mas essa preocupação torna-se hipócrita, ou mesmo voluntariamente desinformada, quando não é coerente; pois não parece que se aplique o mesmo critério quando se trata da China, da Rússia, de grupos paramilitares estrangeiros ou mesmo de Cuba. Como se houvesse algumas violações da soberania nacional que são inaceitáveis e outras que são discutíveis e relegáveis. Estamos falando de interferência constante, direta, concreta e ilegal; da presença ativa de suas forças repressivas; do trabalho indiscriminado de seus serviços de inteligência; da exploração brutal, extensa e irresponsável dos recursos do território; de contratos financeiros de endividamento absolutamente impossíveis de pagar. Cada um é livre para investigar. Contra toda proteção, continuam existindo jornalistas venezuelanos corajosos e pessoas que dão seu testemunho arriscando sua integridade. Para completar, como último elemento, o conflito do narcotráfico é tratado como um mero álibi ou desculpa, como se o narcotráfico não fosse um negócio multimilionário global; como se não implicasse um nível de degradação humana incalculável em suas consequências, pelas condições de sua produção e circulação; como se não devastasse diariamente a existência de milhares de jovens venezuelanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Se quisermos pensar a realidade seriamente e em sua complexidade, não podemos repetir esquemas vazios, formais, confortáveis e indiferenciados. É preciso repudiar o imperialismo brutal dos EUA. Mas contentar-se em denunciar apenas isso, agir e indignar-se apenas diante disso, despertar a suspeita e a atenção apenas diante disso, deixando-o intencionalmente sem contexto nem pano de fundo, em primeiro plano: isso é um exemplo de pensamento limitado e unilateral. E essa interpretação, com sua pobreza e sua aparente pulcritude, não é de forma alguma casual. Esse viés, esse grande esforço para não investigar nem querer ver o quadro completo, tem sido totalmente interessado e buscado, mesmo desde o início da presidência de Chávez. A causa é esta: que todos os governos populistas da América Latina, e grande parte dos partidos de esquerda, foram cúmplices ativos, diretos, explícitos e corruptos do que já se perfilava como uma das piores ditaduras da história da América Latina: desde Evo, Ortega, Mujica, Kirchner, Lula e Correa, até Castro e os diversos partidos comunistas, passando pelo trotskismo, o autonomismo e outros tipos de correntes que permaneceram passivas, ambíguas e relativamente indiferentes. Houve exceções, mas foram apenas isso, exceções tão brilhantes quanto escassas. O valor do antichavismo foi cooptado pela ala contrária do arco político. Um belo presente.</p>
<p style="text-align: justify;">Todo esse apoio se deveu à enorme riqueza que entrou na Venezuela no início da era Chávez. Não foi obra de um grande programa econômico, mas efeito de uma contingência própria do funcionamento do mercado capitalista: um aumento dos preços internacionais do petróleo. Não há um consenso estabelecido sobre o valor gigantesco que entrou no orçamento nacional. Com essa imensa quantidade de divisas, o chavismo esboçou uma série de missões sociais que, inegavelmente, geraram melhorias reais e objetivas, reconhecidas por vários observadores, mas que, entenda-se bem, foram sempre superficiais, irregulares, insustentáveis e insuficientes. O aparato repressivo encarregou-se de censurar qualquer indício de sua própria incapacidade, e cada erro, conflito ou problema era encobrido com as vendas dos “petrodólares”. Assim, a estrutura da sociedade venezuelana, com seus piores defeitos, não só permaneceu intacta, como levou à criação de uma nova classe: um comando armado de militares, entre burgueses, narcotraficantes e administradores estatais, chamado de “boliburguesia”. Esse nome é muito significativo, pois representa como, nesse mar de desperdício descontrolado, corrupção e ineficiência, o controle privado dos meios de produção também permaneceu intacto. Há testemunhos de sobra de que os líderes políticos dos países latino-americanos sabiam da barbárie que ocorria na Venezuela, enquanto aplaudiam com interesse a farsa.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi, portanto, um favor muito lamentável para o futuro, para todo desejo de construção de uma sociedade mais justa, o de ter apoiado do exterior não apenas Maduro, mas o próprio Chávez. E também o de ter preferido muitas vezes olhar para o outro lado. Isso não se deve ao fato de a Venezuela ter em si mesma uma importância singular. É porque milhões de trabalhadores em todo o mundo ouviram seus colegas, amigos e parceiros recém-chegados (repito: 8 milhões de exilados) falarem sobre o desastre delirante e fracassado que foi chamado de “Socialismo do Século XXI”, e porque seus testemunhos ajudaram a expulsar as palavras “esquerda” e “socialismo” de seu horizonte comum. Diante disso, não é demais acrescentar que os gestos mais cotidianos e vergonhosos de xenofobia em relação aos exilados vieram, indiscutivelmente, dos setores progressistas. Enquanto os trabalhadores comuns venezuelanos e estrangeiros se solidarizavam ou se rejeitavam mutuamente na dura competição diária que é a vida proletária (como acontece com os imigrantes em todos os lugares neste mundo globalizado), o verdadeiro desprezo por nós veio dessa camada de ideólogos, universitários, professores, artistas e intelectuais, ofendidos por ver suas ilusões inocentes desaparecerem diante de seus olhos, contraditas por pessoas de carne e osso, e já incapazes de qualquer condescendência. Como se não pudessem acreditar que alguns de nós, os outros, fôssemos capazes dessa enorme destruição, ou como se a causa de tudo tivesse que ser sempre, para que seu esquema funcionasse, o onipresente “império” norte-americano. Se Trump fala, certamente há mentiras por trás do que ele diz; se Chávez anunciava a criação repentina de um milhão de moradias, aplausos cegos e pronto. Se eu peço justiça por algum companheiro do meu país de acolhimento, posso ser mais um daqueles que encarnam demandas legítimas; se peço justiça por Rodney Álvarez, sou um verme, um “facho” ou alguém a serviço da CIA. Nem mesmo a vasta onda de imigrantes desesperados os despertou ainda, completamente, de seu sonho adolescente acrítico.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje ocorre o pior cenário para um país já desintegrado e sem saída. Era, também, o único cenário possível. Todo o resto pertence ao registro dos ideais e valores abstratos, que não existem.</p>
<p style="text-align: justify;">Se alguém realmente se interessa pela política de outros países, países alheios ao seu — e não apenas por curiosidade, espetáculo ou fetiche, mas como algo onde está em jogo a vida mais íntima de seres humanos reais —, o caso da Venezuela é um excelente espelho para medir a altura ética, o compromisso militante e o rigor intelectual de cada um. Ou seja, uma grande oportunidade para enfrentar a capacidade que cada um tem de ver a si mesmo, diante do desastre que denuncia, o lugar que ocupa.</p>
<p style="text-align: justify;">É por isso que a Venezuela tem sido essa espinha sutil e constante da época em que nos coube viver.</p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.vidaysocialismo.com.ar/para-quienes-no-son-venezolanos-por-diego-colombo/" target="_blank" rel="noopener">https://www.vidaysocialismo.com.ar/para-quienes-no-son-venezolanos-por-diego-colombo/</a></p>
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		<title>Carta Aberta da Companhia Antropofágica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 06 Jul 2024 16:08:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Achados & Perdidos]]></category>
		<category><![CDATA[Racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Houve, sim, um mal-entendido. Sempre há… Mas ele, ao contrário do que se poderia pensar, não desmente supostas atitudes racistas; ao contrário, as revela. Por Companhia Antropofágica]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Companhia Antropofágica</h3>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas e ruídos da sinfonia racista: cenas inverossímeis do real</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Quem tomasse contato com um relato fidedigno acerca do ocorrido no palco do Teatro Sérgio Cardoso, na cerimônia de entrega dos troféus aos melhores da APCA (Associação Paulista de Críticos Teatrais) de 2023, na última terça-feira, 02 de julho, poderia facilmente dizer: isso não pode ter sido assim, é muito caricato… a realidade, contudo, já há algum tempo, tem desbancado a ficção, por seu caráter absurdamente explícito e explicitamente absurdo. Por isso, e infelizmente, proliferam narrativas as mais estapafúrdias, mas tendem a emplacar somente aquelas que corroboram com o <em>status</em> <em>quo</em>, veiculadas pela grande mídia, e que confirmam o senso comum (hegemônico), independentemente da sua veracidade. Neste caso, a narrativa ideológica de que estamos diante de um grande “mal-entendido”, de “uma coisa tão boba”, já que “não haveria motivo para (…) constranger ninguém”, para citar as palavras de um dos envolvidos. Em suma, a de que a “acusação de racismo” seria “inaceitável”, uma vez que não haveria espaço para racistas em um evento que “defende direitos iguais para todos”, como consta em um “comunicado” feito pelos organizadores da premiação.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós, da Companhia Antropofágica, nos sentimos na obrigação de vir a público opor a essa versão dos fatos — oficial e falsa — uma outra, nossa. Não se trata de uma narrativa alternativa, mas antes de uma crítica sobre nossa condição cotidiana, enquanto país, no que diz respeito à maneira como pessoas racializadas são tratadas. Ela se fará em dois momentos distintos, complementares e necessários, em cuja dialética apostamos. Primeiro, um relato reflexivo ao qual se segue um ensaio.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Parte</strong> <strong>1</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em>“Ao chegar ao Teatro, nos reunimos para ver o texto de agradecimento que leríamos</em> <em>juntos ao receber o prêmio. Um dos integrantes nos explicou o protocolo do evento que</em> <em>havia</em> <em>sido</em> <em>enviado</em> <em>pela</em> <em>produção</em> <em>do</em> <em>prêmio</em> <em>por</em> <em>e-mail:</em> <em>“vamos</em> <em>receber</em> <em>a</em> <em>estatueta</em> <em>no</em> <em>palco</em> <em>e</em> <em>devolver</em> <em>na</em> <em>coxia”.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O teatro foi a última categoria a receber a premiação, e nós fomos o último grupo a</em> <em>fazer os agradecimentos. Subimos todos, no espírito de coletividade, 32 pessoas no palco,</em> <em>só</em> <em>da</em> <em>Antropofágica.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Eu estava atrás, ao lado direito, perto da coxia. Um integrante da Antropofágica</em> <em>estava ao meu lado com uma das duas ou três estatuetas que estavam passando de mão</em> <em>em mão. Pedi a estatueta para tirar uma foto. Tirei três fotos, e a bateria do meu celular</em> <em>acabou. Eu tinha um carregador na minha bolsa. Devolvi a estatueta, tirei a bolsa do ombro,</em> <em>abri-a, pluguei o carregador no celular, coloquei o celular na bolsa, fechei e devolvi a bolsa</em> <em>ao</em> <em>ombro.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Um momento depois, alguém me chamou do lado do palco — não reconheci quem</em> <em>era. Ele me explicou que era preciso devolver a estatueta, que era cênica. Respondi a ele</em> <em>que eu já sabia disso, e que ele deveria ver com quem estava a estatueta, pois não estava</em> <em>comigo. Imediatamente ele apontou para alguém que estava atrás dele e disse: “ele me</em> <em>disse</em> <em>que</em> <em>você</em> <em>colocou</em> <em>o</em> <em>prêmio</em> <em>na</em> <em>bolsa”.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O que eu poderia responder? Isso já havia sido dito… Se ele duvidava, só havia uma</em> <em>resposta</em> <em>possível,</em> <em>abrir</em> <em>minha</em> <em>bolsa</em> <em>e</em> <em>mostrar</em> <em>a</em> <em>ele</em> <em>que</em> <em>meu</em> <em>gesto</em> <em>foi</em> <em>de</em> <em>guardar</em> <em>o</em> <em>celular</em> <em>e</em> <em>não</em> <em>a</em> <em>estatueta.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Ele empalideceu e me pediu mil desculpas. Eu fiquei constrangido por ter sido</em> <em>interpelado no palco, durante a entrega da premiação, e de estar me movimentando num</em> <em>momento</em> <em>em</em> <em>que deveria estar em silêncio respeitoso à fala dos outros colegas que</em> <em>agradeciam pelo prêmio, disse apenas a ele que não, eu não desculpava. Não tenho</em> <em>obrigação. Me recolhi e fiquei quieto, de costas para o sujeito, me controlando para não ficar</em> <em>triste</em> <em>ou</em> <em>com</em> <em>raiva,</em> <em>para</em> <em>não</em> <em>estragar</em> <em>a</em> <em>alegria</em> <em>dos</em> <em>meus</em> <em>amigos.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Um integrante da Antropofágica que viu tudo falou ali na hora com outros integrantes</em> <em>sobre o que acontecera, e o grupo decidiu se pronunciar ali mesmo. Lemos o texto que</em> <em>estava preparado, de nosso agradecimento. Devolvemos o prêmio, conforme o protocolo.</em> <em>Procurei o homem que me havia interpelado e não o encontrei em lugar nenhum. Ele</em> <em>sumira.”</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Parte</strong> <strong>2</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Não faz muito tempo uma furadeira foi <em>confundida </em>com uma arma; pouco tempo depois foi a vez de um guarda-chuva <em>ser tomado </em>por fuzil; recentemente, um pedaço de madeira e até mesmo um saco de pipoca <em>ludibriaram </em>as forças policiais — todos esses <em>equívocos</em> culminaram na morte de pessoas negras; naqueles já julgados pelo poder público, os assassinos foram inocentados. A lista dos ditos “ruídos” é tão extensa que seria o caso de se perguntar se tais erros de interpretação não são a regra, mais do que a exceção.</p>
<p style="text-align: justify;">Cumpre, nesse sentido, explicitar o óbvio: houve, sim, um mal-entendido. Sempre há… Mas ele, ao contrário do que se poderia pensar, não desmente supostas atitudes racistas; ao contrário, as revela. Em um país em que o mito da miscigenação foi durante tanto tempo a forma pela qual as relações raciais foram entendidas, é somente naquilo que escapa à razão, naquilo que dribla as boas intenções, que podemos encontrar a realidade que tanto se tenta esconder. Para sondar o insondável, para chegar ao recalcado, precisamos de um olhar mais sensível, atento aos detalhes e disposto a fazer perguntas, mais do que a dar respostas. Mas precisamos também de fatos, não de suas versões distorcidas e interessadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Por que a abordagem se deu <em>durante</em> a entrega do prêmio, e não <em>depois</em> dela?</p>
<p style="text-align: justify;">Não passou pela cabeça dos bem-informados que privar um ator de ouvir os agradecimentos de seus colegas, em nome de um suposto mal-entendido, seria, por si só, já um constrangimento?</p>
<p style="text-align: justify;">Qual era o objetivo dos bem-intencionados ao não se satisfazerem com a resposta, dada pelo ator e omitida até agora, de que o prêmio não estaria com ele, se não forçá-lo a uma revista disfarçada e aparentemente voluntária?</p>
<p style="text-align: justify;">Qual o sentido de compartilhar a informação de que alguém teria visto o troféu sendo colocado dentro da bolsa, se não forçá-lo a uma revista disfarçada e aparentemente voluntária?</p>
<p style="text-align: justify;">Por que um homem negro, no momento em que recebe um prêmio, abriria sua bolsa <em>voluntariamente</em>?</p>
<p style="text-align: justify;">Se tantas pessoas estavam mal-informadas em relação à natureza dos troféus, por que não informar a todos os presentes?</p>
<p style="text-align: justify;">Por que o homem que interpelou o ator e disse querer se desculpar não ficou para elucidar, ali na hora, o suposto “mal-entendido”?</p>
<p style="text-align: justify;">Não nos interessa, neste caso, cancelar ou linchar ninguém, nem pessoalizar os acontecimentos. Mas precisamos encarar a realidade: há várias recorrências em todos esses mal-entendidos, a primeira delas é certamente a imagem do negro como <em>suspeito</em> <em>padrão</em>, como aquele ser perigoso, sempre propenso a toda sorte de contravenção, aquele, ao fim e ao cabo, que precisa ser vigiado e cuja palavra não é confiável. Essa é uma imagem preconceituosa e racista, impregnada no inconsciente deste país e responsável pelas inúmeras violências a que estão sujeitos os mais vulneráveis no Brasil. Do enquadro em um espaço “sem seguranças” até o genocídio policial, a gramática é semelhante; diante da incerteza em relação a pessoas negras, não se deve hesitar: atira primeiro, pergunta quem é depois. Primeiro revista, depois se desculpa pela desconfiança. Os ditos mal-entendidos tendem, desse modo, a se resolver sempre em prejuízo das vítimas, e não de seus algozes.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato de esse episódio ter se dado justamente em um espaço plural, cuja defesa aberta e necessária da diversidade se faz não só com palavras politicamente corretas, mas também com o reconhecimento genuíno daqueles que merecem estar representados nesse espaço, só prova o quanto estamos diante de uma questão estrutural.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante disso, escrevemos esta carta como um ato antirracista; mais um entre tantos outros que vimos e recebemos de maneira solidária nos últimos três dias — e os quais gostaríamos de publicamente agradecer. Que não se restrinja à condenação de um ou outro indivíduo, mas que seja condenação inexorável do racismo estrutural. Que possamos propor, junto a outras coletividades, a outros movimentos sociais, a outros grupos de teatro, ações em que o racismo possa ser banido, junto com suas outras expressões congêneres. Convidamos, por fim, a todos aqueles que queiram se juntar a nós a fazer esta carta circular.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Saudações</strong> <strong>Antropofágicas</strong></p>
</div>
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		<title>Relato de uma Ex professora da Escola Parceira</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 May 2024 10:12:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Achados & Perdidos]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[A privatização não é a melhor saída, é apenas uma forma bem cara de gastar o nosso dinheiro. Por Letícia]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3><strong>Por Letícia</strong></h3>
<blockquote><p>O relato abaixo está circulando em grupos de WhatsApp e se insere no contexto do movimento grevista contra a privatização da escola pública no Paraná.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Meu nome é Letícia e trabalhei como professora de matemática de fevereiro a julho de 2023 no colégio estadual Anita Canet, pela escola Parceira. Eu já dava aula nessa escola antes como PSS, e quando entrou o projeto achei que seria interessante continuar, passei por todos os processos do contrato, prova, entrevista e tudo mais.<br />
Minha primeira decepção foi quando recebi meu primeiro pagamento, pois a promessa é que o salário seria o mesmo, realmente o valor da hora aula é o mesmo, mas a quantidade de hora atividade é reduzida e isso dá uma diferença no valor final, fazendo com que como PSS meu salário fosse mais alto além de ter mais tempo pra planejar as aulas.<br />
A cobrança é bem maior, a maioria dos meus novos colegas ja eram do particular e já estavam acostumados, não questionavam nada, e muitos estão lá até hoje e gostam. Talvez eu também estivesse se não tivesse sido DEMITIDA.<br />
O porquê eu fui demitida até hoje não sei, pois isso não ficou claro, mas olhando para outros colegas que também foram dispensados desconfio que foi por conta de apresentar &#8220;muitos&#8221; atestados. Eu estava passando por um momento difícil na minha vida particular, cheguei a ter uma crise de pânico durante uma aula, e fui tratada muito mal, como se fosse minha culpa e eu tivesse fingindo por não querer trabalhar, logo depois descobri que estava grávida, e um dia tive um sangramento e tive que sair correndo, isso foi na último dia antes das férias de julho, durante as férias tive um aborto espontâneo, e no retorno as aulas, sem que ninguém perguntasse oque aconteceu comigo eu simplesmente fui demitida. Então além de ter que lidar com toda a dor de perder meu bebê, também tive que lidar com a dor de ser descartada, fazendo com que eu duvidasse da minha capacidade profissional, e isso ainda dói, eu me sinto injustiçada.<br />
Ao longo dos seis meses que trabalhei lá e conversando com alguns ex colegas percebi algumas coisas: a uma grande rotatividade de funcionários, muitas demissões, pedidos de remoção dos antigos QPM, mais cobrança e menos tempo para produção, falta de comunicação, entre outros.<br />
Claro que também tiveram pontos positivos, não posso negar, os alunos ganharam uniformes novos, a escola foi pintada, está mais bonita, a cantina tem nutricionista, tem acadêmicos para substituir os professores que faltam e assim os alunos não ficarem de aula vaga. Mas tudo isso está sendo pago para ser feito, nada é de graça, a escola parceira recebe um valor muito mais alto por aluno do que as escolas estaduais no geral, e esse dinheiro é dinheiro público, não é a empresa que deu tudo isso porque ela se preocupa com os alunos, ela tem lucro em cima disso.<br />
O colégio Anita Canet podia não ser uma escola referência em São José dos Pinhais, mas eu cresci naquela escola, estudei lá, minha mãe trabalhava lá, era uma família. Se hoje sou professora é graças a muitos dos mestres que tive lá, se eu questiono e luto por uma educação melhor é porque tive professores que me ensinaram a pensar além de decorar fórmulas e datas. E me dói ver esses professores saindo de lá, pedindo remoção por não aguentarem a pressão, pois uma escola que já foi uma família se tornou uma empresa, ondem eles fingem que se importam com você mas te descartam na primeira oportunidade, pois empresas querem lucro, e pessoas se tornam apenas números. É esse o futuro da nossa educação? Números e mais números? O futuro depende do hoje, depende da educação, e se permitirmos que eles dominem a educação as esperança de um futuro mais humano reduz consideravelmente, precisamos lutar por uma educação de qualidade de verdade, é não por uma que apenas pareça ser boa.<br />
Se o governo quer realmente melhorar a educação, então ele mesmo pode contratar e capacitar profissionais para isso, pois como teremos uma educação de qualidade se não for investido em profissionais de qualidade? A escola precisa ser um lugar seguro para os alunos e para os professores e funcionários também, com cursos de capacitação, contratação de permanente de funcionários e não com um entra e sai de funcionários. A privatização não é a melhor saída, é apenas uma forma bem cara de gastar o nosso dinheiro, dinheiro público, para dar lucro a empresas.<br />
#Diga não a privatização!<br />
#Vamos a luta!<br />
#Greve já!</p>
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		<title>Dois relatos de uma trabalhadora municipal de Porto Alegre</title>
		<link>https://passapalavra.info/2024/05/152822/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 May 2024 11:45:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Achados & Perdidos]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[Não é através das eleições, votando em candidatos "menos ruins", que iremos conseguir resolver ou mesmo amenizar essa situação das enchentes.  Por Ana Bombassaro]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3><strong>Por Ana Bombassaro</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">A situação em Porto Alegre é bastante crítica para os atingidos pela cheia e mesmo para quem não foi atingido diretamente por não morar nas áreas de risco, perto do rio. O rio subiu e se mantém a um nível de 5,29m, o centro da cidade está alagado e todo o entorno, que compreende da zona sul à zona norte, com pessoas sendo resgatadas de suas casas o tempo todo por equipes e levadas para abrigos ou casa de parentes que estão fora dessa área. O dique da zona norte pode romper a qualquer momento e inundar ainda mais outras áreas. O sentimento de solidariedade é enorme e muita gente se envolve para ajudar de alguma forma, seja nos resgates, seja nos abrigos, nos postos de recolhimento, produzindo e distribuindo marmitas. A questão, porém, reside nos seis locais de tratamento e abastecimento de água, aonde quatro estão danificados por conta da enchente, e somente dois estão operando parcialmente. Isto significa que grande parte da população já está desabastecida e que, logo, logo, todos ficarão sem água potável. Está difícil encontrar água mineral para comprar, as prateleiras dos mercados estão se esvaziando de alguns itens e ainda têm todos os desabrigados de outras cidades que estão sendo acolhidos em Porto Alegre. A entrada e saída da cidade é somente pela RS 40, que se encontra sempre engarrafada, dificultando o trânsito de caminhões de abastecimento e logística de socorro das vítimas. Em entrevista no dia de ontem, o prefeito sugeriu que aqueles que tiverem casa na praia, se desloquem para lá a fim de contribuir com o esvaziamento da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O capitalismo gera as crises, uma vez que não possui a capacidade de atender as nossas necessidades reais pois não gera lucro. O número de mortos no RS até o momento está em torno de 90 pessoas, com cerca de 362 feridos e mais de 100 pessoas desaparecidas. Algumas cidades, como Eldorado do Sul, deixarão de existir mudando drasticamente o mapa do RS, pois estão completamente submersas.<br />
Não é através das eleições, votando em candidatos &#8220;menos ruins&#8221;, que iremos conseguir resolver ou mesmo amenizar essa situação das enchentes. Estas tendem a ser cada vez mais catastróficas. É evidente que precisamos pressionar os governantes para que invistam em infraestrutura, contudo, sem cair na ingenuidade de que isso será realmente atendido. Nosso foco deve ser superar essas relações de controle e subordinação que nos tornam reféns do imobilismo, deixando-nos de mãos atadas para situações de emergência como ilustrada atualmente no Rio de Grande do Sul, no qual as decisões são tomadas por cima e a nós é imposto o papel de &#8220;colaboradores&#8221;, executando o que os governantes decidem, sem levarem em consideração as nossas necessidades reais. O governo, cinicamente, pede ajuda à população para que envie pix, enquanto corta verbas para assistência social, saúde, educação, setores da sociedade que são básicos para a manutenção da nossa existência numa sociedade marcada pela desigualdade social. Assim, o problema central do capitalismo não é este ou aquele governo, mas a sociedade como um todo; trata-se, portanto, das relações de produção capitalistas que devem ser contestadas.<br />
_________________________</p>
<p style="text-align: justify;">Enchente histórica no Estado do Rio Grande do Sul (RS) deixa moradores completamente ilhados necessitando serem resgatados e acolhidos em abrigos provisórios. Há também a devastação de algumas regiões do Estado que estão completamente ou parcialmente submersas, configurando um novo mapa do RS.</p>
<p style="text-align: justify;">O que se vê atualmente é o despreparo dos governantes em lidar com a situação que coloca moradores em risco, revelando a incapacidade do Estado, expressão política da classe burguesa, em todas as suas frações e subdivisões, em atender as necessidades verdadeiramente humanas. O Estado é um aparato desumano de controle social para a reprodução da barbárie capitalista, contrário à preservação da vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa situação é uma experiência bastante trágica que estamos vivendo. Por isto, exige um posicionamento urgente através de uma análise mais aprofundada, que não caia em simples esquemas superficiais, vistos em vários meios que reproduzem a perspectiva da esquerda à direita do capital. O reducionismo político dessas duas alas do capital busca colocar a culpa neste ou naquele governante, como se fosse uma questão estritamente de &#8220;vontade política&#8221; e não da essência da perversa relação de exploração capitalista da força de trabalho e do meio ambiente. O capital degrada tudo que ele vê pela frente, deixando rastros de destruição por onde passa, como demonstrado por esses eventos climáticos extremos ao redor do planeta e que soa como um alerta do que virá pela frente enquanto essa relação de exploração não for abolida.</p>
<p style="text-align: justify;">O jogo de empurra empurra, em buscar culpados para a tragédia que não possui nada de natural, pretende encobrir a realidade, que se mostra escancarada na nossa frente. Só não enxerga quem realmente não quer ver, ou seja, aqueles que possuem interesse em defender a existência do capitalismo. A sociedade que vivemos não corresponde às nossas necessidades e precisa ser destruída para que o novo surja &#8211; e o novo precisa ser radicalmente diferente. Somente a luta muda a vida, mas a luta por uma nova sociedade. Ao contrário dessa luta, as promessas e discursos ilusórios a favor deste ou daquele governo só prolongam continuamente o nosso sofrimento, à medida que suga como um vampiro as nossas forças e vitalidade para suprir as necessidades de uma minoria parasitária.</p>
<p><strong>O Capitalismo é a catástrofe!</strong></p>
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		<title>Para onde vai a Índia?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 31 Jan 2024 04:43:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Achados & Perdidos]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Índia]]></category>
		<category><![CDATA[Racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[A transformação de um país constitucionalmente laico como a Índia numa espécie de teocracia fundamentalista é um fenômeno comum a outras nações que mergulharam no nacionalismo étnico-religioso. Por Henrique Carneiro]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por <a href="https://www.facebook.com/henrique.carneiro.5/posts/pfbid025rd32NEcoM3EfhwWvsbW5gJaz3WXNAPb681VPi1RW49JELCAxhMTupwECCFYeajRl?__cft__[0]=AZUTCJL55paXQm3L02x111I1FX0JrNjEqsCbdKL2reLK2sIR9kN1lZhXfzCLVNYamtaTqNkrSe35aYOECrVzCtgjAFracfhVIx16aG87g1AbCr2-7Fndar4WQU-Sx9UMfPA&amp;__tn__=%2CO%2CP-R" target="_blank" rel="noopener">Henrique Carneiro</a></h3>
<p style="text-align: justify;">O governo indiano acaba de inaugurar, ao custo de centenas de milhões de rúpias, um dos maiores templos hinduístas, dedicado a Rama, no lugar em que se acredita ele teria nascido, na pequena cidade de Ayodhia, no mais populoso dos estados indianos, o Uttar Pradesh, no norte do país. Esse templo foi, desde o ataque, em 1992, de uma multidão hinduísta para destruir a mesquita que lá havia e substituí-la pelo templo à Rama, um pivô do conflito que levou o partido hinduísta de extrema direita, o Barathia Janata Party, a chegar ao poder, sob a liderança de Narendra Modi.</p>
<p style="text-align: justify;">A transformação de um país constitucionalmente laico como a Índia numa espécie de teocracia fundamentalista é um fenômeno comum a outras nações que mergulharam no nacionalismo étnico-religioso. Todo país que reconheça a cidadania a partir de uma única religião ou etnia é um etnonacionalismo que exclui e tende ao supremacismo contra as minorias.</p>
<p style="text-align: justify;">O nazismo foi o mais radical desses projetos que estabelecia a racialidade como base da nacionalidade. Israel também está indo nessa mesma dinâmica, com a cidadania garantida a todos os judeus do mundo, independente de sua nacionalidade, e excluindo os nativos palestinos desse direito, num projeto que os setores mais explícitos definem como a expulsão dos árabes de toda a Palestina.</p>
<p style="text-align: justify;">O hinduísmo, como todas as religiões, tem um enorme acervo cultural, com valores universais, mas também possui a sua deriva supremacista e opressora. Não é à toa o fascínio que o hinduísmo vai ter no nascimento do nazismo. Não é apenas a suástica, símbolo sagrado no hinduísmo e no budismo, que vai ser apropriada. O movimento germanista do Völkisch, que no século XIX criou uma identidade racialista biomística, se inspirou na mitologia do nordicismo para construir um mito ariano.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos seus inspiradores foi o britânico Houston Stewart Chamberlain (1855-1927), que emigrou e se radicou na Alemanha, casando-se com a filha do compositor Wagner e se tornando um dos guardiões de sua herança em Bayreuth. Seu livro “As fundações do século XIX” será a principal inspiração para o “filósofo” do Terceiro Reich, Alfred Rosenberg, um dos executados em Nuremberg, que publicou “O mito do século XX”, a obra nazista mais vendida depois do Mein Kampf. Chamberlain aprendeu sânscrito para se aprofundar nos Vedas, que representam uma sociedade baseada em castas, com o domínio absoluto da Tradição, oposta ao racionalismo científico, ao republicanismo laico e à democracia.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns dos intelectuais mais influentes do neo-fascismo pós hitleriano, na vertente analisada por Benjamin R. Teitelbaum, em “Guerra pela eternidade”, foram o italiano Julius Evola e o francês René Guénon. Ambos admiradores e estudiosos do hinduísmo, que lhes forneceu a noção de uma decadência histórica do Ocidente, na era da Kali Yuga, quando a fonte mais original do tradicionalismo religioso de uma metafísica irracionalista foi buscada num suposto tronco da cultura védica ariana. Guénon se tornará muçulmano e foi viver no Egito, em busca de uma sociedade anti-moderna, onde faleceu após duas décadas sem voltar para a Europa.</p>
<p style="text-align: justify;">Na recusa do igualitarismo social, na denúncia da mestiçagem como um “Völkerchaos” (caos de povos), na atribuição de supremacia a uma suposta raça branca nórdica, vinculada a mitologias de Atlântida e da ilha boreal lendária de Thule, na exaltação da violência imperial e do militarismo colonialista, essa vertente do pensamento da ultra-direita encontra hoje um terreno fértil na Índia.</p>
<p style="text-align: justify;">A perseguição aos muçulmanos assume nesse país a condição de estigmatização mais profunda e sectária, ameaçando repetir o que foi um dos maiores massacres do século XX, quando da separação da Índia e do Paquistão, repetido depois pela guerra de independência de Bangladesh. Hoje, os massacres em Manipur sinalizam a disposição genocida de uma parte do hinduismo fanático do partido governante na Índia, cuja origem foi, nos anos de 1920, no RSS, que simpatizava com o nazismo e do qual saiu o assassino de Gandhi. O templo de Rama em Ayodhia não é apenas um “Vaticano hindu”, como está sendo chamado, mas um altar do neofascismo, do racismo e do<br />
fudamentalismo religioso.</p>
<p style="text-align: justify;">Fenômenos análogos ocorrem em outros países, com outras religiões, que justificam projetos de extermínio e limpeza étnica, como em Israel. Não é coincidência a aliança política entre Modi e Netanyahu e a proposta de buscar trabalhadores indianos para serem mão de obra barata em Israel. O Paquistão, também criado em base ao fundamentalismo islâmico e ao nacionalismo religioso, também fomenta o ódio racial e religioso, criando a situação mais perigosa para os futuros conflitos mundiais, onde ambos os contendores são detentores de armamento nuclear.</p>
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		<title>PM da Bahia e ruralistas atacam  indígenas Pataxó Hã-Hã-Hãe</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jan 2024 00:13:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Achados & Perdidos]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Os fazendeiros já chegaram atirando e batendo de pau na gente. Por Cacique Neilton]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3><strong>Por Cacique Neilton</strong></h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Chegaram 15 viaturas da polícia, conversaram com a gente e falaram que estavam ali para mediar a situação com a gente. Nós falamos que já estávamos conversando com o MPF e o MPI e que a polícia devia mediar com os fazendeiros e mandá-los embora. A polícia então tirou as viaturas e colocou elas de um lado e de outro e abriu o caminho e deixou os fazendeiros frente à frente com a gente. Os fazendeiros já chegaram atirando e batendo de pau na gente. Queimaram dois carros da gente. Atiraram em Nega, eu vi Nega tombando, agarrei ela e aí atiraram em mim e eu consegui ouvir as últimas palavras dela. Aí chegaram dois caras e disseram que iam socorrer a gente e jogaram a gente em uma caminhonete e levaram pra Potiraguá. Nega morreu na estrada.</p>
<p>O pessoal me fez um curativo em Potiraguá e me mandaram para fazer a cirurgia em Itapetinga. Depois da cirurgia, me mandaram pro Costa do Cacau. Cheguei no Costa do Cacau e me mandaram pra um neuro, por que minha perna direita não está se movendo.</p>
<p>Tem muita gente espancada, gente baleada, gente com braço quebrado, tem um neto do cacique Jovino que foi baleado na nádega esquerda. Ele teve alta, mas a bala vai ficar alojada, porque é mais seguro deixar aonde está. <img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-151515 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-22-at-17.23.34.jpeg" alt="" width="1024" height="980" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-22-at-17.23.34.jpeg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-22-at-17.23.34-300x287.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-22-at-17.23.34-768x735.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-22-at-17.23.34-439x420.jpeg 439w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-22-at-17.23.34-640x613.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/01/WhatsApp-Image-2024-01-22-at-17.23.34-681x652.jpeg 681w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O  golpe segue nos locais de trabalho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Jan 2024 18:03:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Achados & Perdidos]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Para os trabalhadores, democracia começa pelo poder deles nos locais de trabalho. Por Leo Vinicius]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Leo Vinicius</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">Dia 8 de janeiro de 2024.</p>
<p style="text-align: justify;">O golpe está sendo dado.</p>
<p style="text-align: justify;">Na Fundação Casa Rui Barbosa (Ministério da Cultura) passam por cima do regimento da democracia interna para nomeação do presidente. O regimento da Casa Rui Barbosa estabelece que os servidores sejam ouvidos para a escolha do presidente. Neste, como no governo anterior, o regimento foi rasgado assim como o pouco de democracia instituída.</p>
<p style="text-align: justify;">Na Fundacentro (Ministério do Trabalho) em 2023, pela primeira vez na história, a Comissão Interna que tem membros eleitos pelos servidores e que regimentalmente tem a incumbência de analisar, homologar e conceder progressões funcionais e retribuições de titulação, tem sido reduzida a órgão consultivo, tendo suas decisões desrespeitadas pela presidência. Um golpe no pouco de democracia interna instuída visando rebaixamento salarial.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse dia 8 de janeiro, como em todos os dias do ano, cabe refletir que, para as burocracias partidárias, &#8220;democracia&#8221; se resume basicamente à possibilidade de ocuparem cargos no Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Para os trabalhadores, democracia começa pelo poder deles nos locais de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">O golpe antidemocrático não está sendo televisionado. Mas ele está em andamento nos locais de trabalho.</p>
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		<title>Censura identitária nas Universidades</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Nov 2023 10:04:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Achados & Perdidos]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[Vamos esperar que quantas fogueiras identitárias estejam assando hereges antes de reagir contra isso? Por Luís Felipe Miguel]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Luís Felipe Miguel</h3>
<p style="text-align: justify;">Richard Miskolci foi declarado &#8220;persona non grata&#8221; por transativistas do Brasil, em abaixo-assinado que inclui organizações, como a Antra, e ex-personalidades públicas, como Jean Wyllys.</p>
<p style="text-align: justify;">Miskolci é professor da Unifesp, pesquisador reconhecido no âmbito das sexualidades. Seu crime? Estar desenvolvendo uma crítica acadêmica ao conceito de &#8220;cisgeneridade&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele certamente não pode ser acusado de inimigo dos direitos das pessoas trans. Mas parece que isso não é o importante &#8211; que todas as pessoas tenham garantida sua integridade física, dignidade, autonomia.</p>
<p style="text-align: justify;">O importante é impor uma nova leitura dogmática, cujas fragilidades teóricas e inconsistências empíricas não precisam ser sanadas, porque não podem ser expostas &#8211; o &#8220;cancelamento&#8221; é a arma mais eficaz. O que está em curso é uma tentativa de intimidação e de bloqueio do debate.</p>
<p style="text-align: justify;">Tornar &#8220;persona non grata&#8221; um pesquisador por divergência conceitual? Tem coisa mais inquisitorial que isso?</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos esperar que quantas fogueiras identitárias estejam assando hereges antes de reagir contra isso?</p>
<p style="text-align: justify;">A nota da Sociedade Brasileira de Sociologia, que reproduzo abaixo, aponta na direção correta.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">&#8220;A Sociedade Brasileira de Sociologia vem a público manifestar seu apoio ao professor Richard Miskolci e repudiar nota emitida por transativistas em 7 de novembro de 2023 contra o sociólogo.</p>
<p>Postada em rede social como abaixo-assinado, a nota repreende o<br />
pesquisador e especialista em gênero e sexualidade por sua crítica sociológica à noção de cisgeneridade, declara-o persona non grata e ainda afirma que o abaixo assinado será enviado para sua universidade, o que constitui ameaça.</p>
<p>A liberdade de cátedra é uma conquista da sociedade democrática. Não podemos aceitar nenhuma forma de constrangimento, perseguição e ameaça à ciência e seus profissionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Belém, 10 de novembro de 2023<br />
Edna Castro<br />
Presidente da SBS&#8221;</p>
</blockquote>
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		<title>Cada um sabe de si, deus de ninguém&#8230;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Oct 2023 07:06:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Achados & Perdidos]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Israel]]></category>
		<category><![CDATA[Nacionalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Palestina]]></category>
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					<description><![CDATA[Não é compatível com qualquer posição libertária a defesa de grupos religiosos fundamentalistas em nome de qualquer nacionalismo ou anti-imperialismo. Por M. Ricardo de Sousa]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por M. Ricardo de Sousa</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>1</strong> &#8211; Como libertário sou radicalmente crítico do uso do terrorismo seja por Estados seja por grupos e fracções armadas, definindo-se o terrorismo como o uso de violência indiscriminada contra pessoas comuns visando obter a intimidação ou submissão dessas pessoas num dado conflito político. O uso da violência revolucionária e da acção directa é um problema distinto que deve, no entanto, levar em conta os objectivos e alvos, na luta social, que devem ser necessariamente membros das classes dominantes e estruturas armadas que as servem.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2</strong> &#8211; No conflito Israel / Palestina deve ser levado em conta a existência de duas comunidades, divididas elas também em classes e grupos com interesses conflitivos, não se podendo negar o direito das comunidades palestinianas às suas terras e organizar livremente as suas instituições mesmo defendendo, como libertários, que as instituições Israelistas e Palestinianas não devem ser submetidas às determinações religiosas e devem consagrar todos os direitos e liberdades conquistadas pelos povos. A coexistência desses dois povos e culturas semitas não é compatível com a ocupação e expansionismo terrorista sionista, nem com uma política de expulsão de cada uma dessas comunidades desses territórios como defendem sectores muçulmanos em relação aos judeus e sectores fundamentalistas judaicos em relação aos palestinianos. Só podendo ser levado em conta, neste momento e a curto prazo, as decisões históricas da ONU, dos dois Estados, mesmo sendo nós contra a existência de Estados como solução definitiva para o auto-governo dos povos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>3</strong> &#8211; Não é compatível com qualquer posição libertária a defesa de grupos religiosos fundamentalistas em nome de qualquer nacionalismo ou anti-imperialismo, temos de considerar esses grupos armados fundamentalistas como inimigos de todos os povos, mesmo daqueles em nome do que dizem combater. Grupos como o Hamas, Daesh e Al-Qaida, e similares, são assumidamente fundamentalistas religiosos, reacionários e fanáticos milenaristas que não podem merecer qualquer solidariedade das correntes libertárias que se situam nas antípodas do seu pensamento e prática e partilham uma tradição da luta social e operária anti-clerical, anti-capitalista e anti-estatista.</p>
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		<title>Comentários sobre Gaza</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Oct 2023 23:55:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Achados & Perdidos]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Israel]]></category>
		<category><![CDATA[Palestina]]></category>
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					<description><![CDATA[Eu tento mais fazer malabarismos entre ativistas palestinos, jornalistas israelenses e insuportáveis tankies bombásticos que não sei por que dominam meu feed. Por Um camarada ítalo-israelense]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Um camarada ítalo-israelense</h3>
<blockquote><p>Essa mensagem foi originalmente escrita em italiano em um grupo de telegram após pedidos para que comentar o ataque de ontem a Israel. O autor é italo-israelense, muito inserido na comunidade hebraica italiana mas também anti-sionista, estudioso de línguas e civilizações orientais, marxista, fez doutorado sobre o Bund (organização internacionalista hebraica de início século XX), acompanha muito as acontecimentos na região.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Olá, queridos,<br />
Tenho poucos comentários a fazer, acompanho os acontecimentos como vocês! Em vez de um jornal específico, estou me apegando ao Twitter, onde, além das notícias de última hora, também encontro reflexões mais estruturadas. Mas, mesmo lá, é difícil encontrar uma voz confiável sobre tudo. Eu tento mais fazer malabarismos entre ativistas palestinos, jornalistas israelenses e insuportáveis tankies bombásticos que não sei por que dominam meu feed.</p>
<p style="text-align: justify;">Basicamente: uma situação incrivelmente caótica. Nada parecido com isso jamais havia acontecido em Israel, seja por natureza (internamente) ou em números. Na guerra do Kippur, um evento que beira o limite em termos de trauma, nunca houve tantas mortes em um único dia, especialmente entre civis. A IDF parecia muito desorganizada: portões não tripulados e sistemas automáticos neutralizados por drones (uma das novidades). O exército ainda não restabeleceu totalmente o controle e tem poucos instantes que mais um vídeo de pessoas armadas nos arredores de Tel Aviv foi divulgado. No entanto, fala-se da entrada de centenas de pessoas&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Tantas acusações (e várias teorias conspiratórias) contra Netanyahu, Smotrich, Ben Gvir e cia., que, embora aspirem à recompactação nacional, e talvez a conseguirão, são vistos como ineficientes e incapazes no que diz respeito a padrões mínimos de segurança e operatividade. Lapid inicialmente propôs a Netanyahu que formasse um governo com ele, mandando embora religiósos e ministros que nunca serviram nas forças armadas.<br />
Sinceramente, não sei fazer previsões: a situação ficou muito tensa em Israel no ano passado por causa da reforma da justiça. O país estava dividido ao meio e ficou muito polarizado. Muitos reservistas estavam em desacordo com o governo (Brothers in Arms), será que agora eles vão se alistar? Será que tudo vai se unir novamente? Parece-me que há uma mistura de &#8220;o governo é incapaz, não existe, eu me auto-organizo&#8221; (na busca dos desaparecidos, no acolhimento dos evacuados, mas até mesmo em alguém que foi com um rifle nos braços resgatar sua família por conta própria) e de unidade nacional redescoberta (nas doações de sangue transbordantes, nas filas de doações para soldados e evacuados, etc.).<br />
De acordo com muitos, o governo deve sair enfraquecido&#8230; Veremos, no entanto, o que haverá depois da carnificina com que eles retaliarão em Gaza. Promete ser um desastre.</p>
<p style="text-align: justify;">No nível tático, Israel teme duas coisas acima de tudo:<br />
1) a entrada no conflito do Hezbollah (muito mais forte militarmente do que o Hamas) e a reabertura da frente norte. O Hezbollah, no entanto, parece ter sido pego de surpresa e, até agora, houve apenas alguns confrontos episódicos. A paranoia está em alta, com a notícia de sete soldados israelenses que se mataram entre si pensando que estavam atirando em inimigos. Sobre a colaboração do Irã, estão surgindo reivindicações e acusações, mas talvez seja propaganda em ambos os casos, ou talvez até queiram que apareça como simples propaganda.<br />
2) O reacendimento de protestos internos em cidades árabe-israelenses, como aconteceu no ano passado. Aqui também, alguns episódios ontem e esta noite, mas de pouca importância.<br />
De qualquer forma, todos os reservistas disponíveis foram convocados.</p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista do Hamas: a situação é difícil de decifrar. Foi com certeza um sucesso militar, mas pode muito bem levar à sua aniquilação. Entretanto, há alguns pontos claros. Além de todos os motivos que conhecemos, os objetivos práticos provavelmente eram dois: impedir a chamada normalização das relações de Israel com a Arábia Saudita e obter prisioneiros para trocar por detidos nas prisões israelenses (mais de 5.000)<br />
Em relação a esse último ponto, a título de comparação, Gilad Shalit (soldado israelense preso em 2006) foi libertado em 2011 em troca da libertação de 1.027 palestinos. No momento, aparentemente há mais de 160 prisioneiros em Gaza. Deve-se ter em mente, no entanto, que 1) eles não são soldados, 2) nem todos são israelenses (aparentemente há vários franceses, alemães, americanos e mexicanos capturados na rave no deserto, onde houve quase metade dos mais de 650 mortos totais, muitos deles estrangeiros). A troca com Shalit foi muito contestada na época, o que acontecerá agora que outros países também estão envolvidos não é fácil de dizer, mas, pelo menos em parte, suponho que a operação renderá algo…</p>
<p style="text-align: justify;">Por um lado, algumas das imagens de ontem (como a escavadeira rompendo a cerca) têm um significado simbólico extraordinário; por outro lado, os vídeos de Sderot ou Be&#8217;eri são terríveis. Não vejo nenhum sentido (histórico, estratégico ou qualquer outro) em matar pessoas aleatoriamente, casa por casa &#8211; o que Israel também faz, bombardeando de cima -, em sequestrar pessoas de 90 anos ou fazer um massacre em uma rave. Apesar de toda a teorização sobre a violência decolonial, parece-me que se trata de uma espiral em direção a uma catástrofe cada vez maior. Entretanto, é verdade que ela conseguiu romper o silêncio.</p>
<p style="text-align: justify;">Com relação ao impacto de tudo isso na infosfera, não tenho uma opinião clara&#8230; o conflito das bolhas.<br />
O bom me parece que, além das torcidas de estádios (no estilo &#8220;sempre com Israel&#8221;) e dos comunicados de imprensa dos governos, a ocupação israelense não fica em segundo plano nas condenações ao Hamas, mas é colocada como ponto de partida para qualquer solução possível de longo prazo.</p>
<p style="text-align: justify;">No momento, Israel está concentrando tanques no sul e é provável que entre em Gaza por terra e cause estragos.<br />
We&#8217;ll see.</p>
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