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	<title>Noticiar &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>[São Paulo] Exibição do documentário &#8220;Moinho de Gente&#8221; + Debate!</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/06/159335/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Jun 2026 20:24:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
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					<description><![CDATA[Queremos discutir o impacto do que está acontecendo na Favela do Moinho hoje, para pensar caminhos para a luta  por outra forma de organizar a cidade. Por Favela do Moinho]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Favela do Moinho</h3>
<p style="text-align: justify;">Lançado em abril de 2026 pelo Intercept, o filme produzido por Caio Castor e Gabi Moncau mostra a luta contra a expulsão da última favela do centro de São Paulo. Com a desculpa de construir um parque e transferir o complexo administrativo do governo do Estado, as famílias do Moinho sofreram cenas de terror, repressão, promessas não cumpridas, falta de moradia definitiva&#8230; mas também mostraram a força da luta por moradia, sem rabo preso com os governos, em defesa da dignidade das moradoras e moradores.</p>
<p style="text-align: justify;">Queremos discutir o impacto do que está acontecendo na Favela do Moinho hoje, pra, dos aprendizados, pensar caminhos para a luta em defesa da vida, por outra forma de organizar a cidade e a sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;"><img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f44a-1f3fd.png" alt="👊🏽" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> Para discutir trocar essa ideia, após a exibição do documentário, contaremos com: Carmen Silva (MSTC e Ocupação 9 de Julho), Vladmir Safatle (Professor de Filosofia da USP), Alexsandra e Cintia Bonfim (moradoras do Moinho) e Irene Maestro (Luta Popular e campanha Despejo Zero).</p>
<p style="text-align: justify;"><img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f4a5.png" alt="💥" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> Além disso, vai rolar a exposição “Moinho, nossa faixa de gaza” &#8211; Centro de Memória e Resistência da Favela do Moinho!<br />
A atividade é aberta e gratuita.</p>
<p style="text-align: justify;"><img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f449-1f3fd.png" alt="👉🏽" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> Data: 17/06/2026 (quarta-feira)<br />
Horário: 19h00Local; Ocupação 9 de Julho<br />
Endereço: Rua Álvaro de Carvalho, 427 (perto do metrô Anhangabaú)</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.instagram.com/p/DZUH0VPxHoL/" target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/p/DZUH0VPxHoL/</a><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159336" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-11-at-16.38.19.jpeg" alt="" width="1280" height="1600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-11-at-16.38.19.jpeg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-11-at-16.38.19-240x300.jpeg 240w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-11-at-16.38.19-819x1024.jpeg 819w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-11-at-16.38.19-768x960.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-11-at-16.38.19-1229x1536.jpeg 1229w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-11-at-16.38.19-336x420.jpeg 336w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-11-at-16.38.19-640x800.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-11-at-16.38.19-681x851.jpeg 681w" sizes="(max-width: 1280px) 100vw, 1280px" /></p>
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		<title>[Goiás] Demandas dos estagiários do Tribunal de Justiça</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/06/159309/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jun 2026 14:41:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[just]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Essa luta é nossa, dos nossos antigos e futuros colegas. Por Estagiários do TJ de Goiás]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Estagiários do TJ de Goiás</strong></h3>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://c.org/9cdpk5C2jd" target="_blank" rel="noopener"><em>Assine e compatilhe!!</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">Olá pessoal, eu e mais alguns colegas estamos organizando um requerimento formal para ser enviado ao Tribunal de Justiça com demandas ouvidas nesse grupo e por demais pessoas. Para esse envio ganhar mais força, fizemos um abaixo-assinado para acompanhar o requerimento formal com a possibilidade de uma reunião para sermos ouvidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa pauta tratará das seguintes principais demandas:</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>1. Reajuste da bolsa-estágio</strong><br />
Atualização anual da bolsa conforme o aumento do salário mínimo, garantindo maior justiça financeira e melhores condições de permanência e desenvolvimento dos estagiários.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2. Vale-alimentação para estagiários</strong><br />
Realização de estudos para viabilizar a concessão de vale-alimentação, reduzindo os custos diários e assegurando alimentação adequada durante o estágio.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>3. Calendário fixo de pagamentos</strong><br />
Estabelecimento de um calendário anual de pagamentos para evitar atrasos, facilitar o planejamento financeiro dos estagiários e assegurar o cumprimento de compromissos pessoais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>4. Revisão do recesso forense como férias</strong><br />
Reavaliação da contabilização do recesso forense como férias, garantindo aos estagiários o direito a um período efetivo e adequado de descanso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>5. Melhoria na comunicação instituciona</strong>l<br />
Implementação de uma comunicação mais clara, eficiente e responsiva entre a instituição e os estagiários, com retorno efetivo às demandas e soluções concretas para as reivindicações apresentadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Pedimos por gentileza que nos apoiem assinando a petição e compartilhem com todos os nobres colegas estagiários, obrigado!</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Mini-Manual de organização e autodefesa contra a violência institucional no SUS</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/06/159292/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jun 2026 15:32:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Este manual serve para alertar os trabalhadores da saúde da existência de práticas e informações que podem e devem te ajudar a se defender de determinadas violências institucionais. Por Viva SUS]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Viva SUS</h3>
<p style="text-align: justify;">Trabalhadoras do SUS:</p>
<p style="text-align: justify;">Este manual serve para alertar você da existência de práticas e informações que podem e devem te ajudar a se defender de determinadas violências institucionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Organizar-se coletivamente contra essas mesmas violências, sistematicamente praticadas dentro dos serviços de saúde do SUS.</p>
<p style="text-align: justify;">Todas as informações compartilhadas neste material são, ou de lastro público (como os processos trabalhistas e matérias veiculadas), ou denúncias relatadas na escuta dos serviços ao longo dos últimos 4 anos de organização do VivaSUS. Todo o seu conteúdo é de interesse público (!!!)</p>
<p>TRABALHADORAS DO SUS, É HORA DE PERDER A PACIÊNCIA!!!</p>
<p><strong>Para baixar o manual, clique no link que está na Bio: <a href="https://www.instagram.com/vivasus_?utm_source=ig_web_button_share_sheet&amp;igsh=ZDNlZDc0MzIxNw==" target="_blank" rel="noopener">@vivasus_</a></strong></p>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/reel/DY1onBGqTny/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
<div style="padding: 16px;">
<p>&nbsp;</p>
<div style="display: flex; flex-direction: row; align-items: center;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 50%; flex-grow: 0; height: 40px; margin-right: 14px; width: 40px;"></div>
<div style="display: flex; flex-direction: column; flex-grow: 1; justify-content: center;">
<div style="background-color: #f4f4f4; border-radius: 4px; flex-grow: 0; height: 14px; margin-bottom: 6px; width: 100px;"></div>
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</div>
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<div style="color: #3897f0; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: 550; line-height: 18px;">Ver essa foto no Instagram</div>
</div>
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<p>&nbsp;</p>
<p style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; line-height: 17px; margin-bottom: 0; margin-top: 8px; overflow: hidden; padding: 8px 0 7px; text-align: center; text-overflow: ellipsis; white-space: nowrap;"><a style="color: #c9c8cd; font-family: Arial,sans-serif; font-size: 14px; font-style: normal; font-weight: normal; line-height: 17px; text-decoration: none;" href="https://www.instagram.com/reel/DY1onBGqTny/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" target="_blank" rel="noopener">Um post compartilhado por VivaSUS (@vivasus_)</a></p>
</div>
</blockquote>
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			</item>
		<item>
		<title>Velha Toupeira (42)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/05/159224/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 May 2026 12:52:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[PassaPalavraTV]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159223" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/VT042-DE-VOLTA-A-ESCRAVIDAO.jpg" alt="" width="2362" height="787" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/VT042-DE-VOLTA-A-ESCRAVIDAO.jpg 2362w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/VT042-DE-VOLTA-A-ESCRAVIDAO-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/VT042-DE-VOLTA-A-ESCRAVIDAO-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/VT042-DE-VOLTA-A-ESCRAVIDAO-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/VT042-DE-VOLTA-A-ESCRAVIDAO-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/VT042-DE-VOLTA-A-ESCRAVIDAO-2048x682.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/VT042-DE-VOLTA-A-ESCRAVIDAO-1261x420.jpg 1261w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/VT042-DE-VOLTA-A-ESCRAVIDAO-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/VT042-DE-VOLTA-A-ESCRAVIDAO-681x227.jpg 681w" sizes="(max-width: 2362px) 100vw, 2362px" /></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A última declaração de Zoe Rogers do Palestine Action perante o júri</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/05/159214/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 14 May 2026 10:58:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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		<category><![CDATA[Reino Unido]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Vocês podem achar estranho que o que está acontecendo na Palestina tenha passado completamente despercebido, podem ter notado certas palavras que foram censuradas, e que, até nossas declarações finais, a palavra genocídio não foi dita uma única vez. Por Leo Vinicius]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Leo Vinicius</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">Em 6 de agosto de 2024, ativistas do <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/07/156892/" href="https://passapalavra.info/2025/07/156892/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Palestine Action</a> entraram na fábrica da Elbit em Filton, na Inglaterra, e destruíram equipamentos da concreta máquina de genocídio, como um carregamento de quadricópteros usados para matar a população em Gaza. A Elbit Systems é a maior empresa bélica israelense, e possui uma subsidiária no Brasil, <a class="urlextern" title="https://www.ael.com.br/" href="https://www.ael.com.br/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">chamada AEL</a>, com sede em Porto Alegre.</p>
<p style="text-align: justify;">Seis ativistas foram presos no local. Outros ligados a essa ação foram presos em novembro de 2024 e junho de 2025, totalizando 24, que ficaram conhecidos como os Filton24. É o primeiro caso na história da Grã Bretanha em que o Estado tenta considera a destruição de propriedade como terrorismo. Alguns ficaram presos 18 meses antes do julgamento, em condições e violações de direitos que fizeram muitos deles entrarem em greve de fome.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159216" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk.jpg" alt="" width="1536" height="1024" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/palestine-action-uk-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 1536px) 100vw, 1536px" />Em fevereiro de 2026 os seis primeiros ativistas foram julgados, e não foram condenados pelos jurados em nenhuma das acusações, sendo libertados. Dos 24, apenas um não foi solto. Porém, não satisfeito com o resultado, o Estado obrigou que eles fossem novamente julgados. Um novo julgamento com uma série de <a class="urlextern" title="https://thegrayzone.com/2026/04/12/uk-jail-palestine-action-terrorism-uk/" href="https://thegrayzone.com/2026/04/12/uk-jail-palestine-action-terrorism-uk/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">violações de direitos que a imprensa britânica foi proibida de divulgar</a>, como, por exemplo, os jurados não serem informados de que os réus estão sendo acusados de terrorismo e a imprensa britânica proibida de noticiar isso por ordem judicial.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se de uma de uma série de ações estatais para criminalizar e impedir ações e movimentos contra o genocídio e o apartheid na Palestina. A proscrição do Palestine Action como grupo terrorista, que levou milhares de britânicos a serem presos por terrorismo por se manifestarem contra essa proscrição expressando apoio verbal ao Palestine Action, foi uma dessas ações estatais. A tentativa atual pelo Estado e por grande parte da imprensa burguesa de proibir passeatas contra o genocídio cometido por Israel é outra. Acabar com julgamentos de júri para a maioria dos processos penais também está em pauta. Ora, as pessoas comuns que formam os júris normalmente compreendem as motivações dos ativistas e empatizam com seus objetivos. Por isso também no novo julgamento dos 6 de Filton foi proibido que os acusados se defendessem propriamente, explicando aos jurados suas motivações por trás da ação.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 5 de maio de 2026, saiu o resultado do novo julgamento. Charlotte Head, Samuel Corner, Leona Kamio e Fatema Rajwani foram considerados culpados por destruição de propriedade. Zoe Rogers e Jordan Devlin foram inocentados. Samuel Corner também foi condenado por lesão corporal grave contra um policial. No momento em que escrevo as penas ainda não foram proferidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Até mesmo nos seus discursos finais aos jurados, os ativistas foram <a class="urlextern" title="https://thegrayzone.com/2026/04/29/uk-palestine-action-defendants-terror/" href="https://thegrayzone.com/2026/04/29/uk-palestine-action-defendants-terror/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">proibidos pelo juiz de falar aos jurados sobre o princípio da equidade do júri</a>, isto é, o princípio de que os jurados podem absolver um réu a partir de suas consciências, mesmo que seja provado que ele fez algo ilegal.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159217" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1440" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-scaled.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-2048x1152.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/5b88e320-5760-11f0-9ba9-9f966e2be36f-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Abaixo, segue a <a class="urlextern" title="https://filtonactionists.com/zoes-closing-speech/" href="https://filtonactionists.com/zoes-closing-speech/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">última declaração de Zoe Rogers diante do júri</a> em 29 de abril de 2026:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Como vocês provavelmente já perceberam, decidi me representar neste julgamento. Não porque minha advogada estivesse fazendo um trabalho ruim ou algo do tipo &#8211; na verdade, nos tornamos amigas próximas &#8211; e estou sempre dizendo aos outros que tenho a melhor advogada. Sou muito grata por tudo o que ela fez por mim, neste julgamento e no anterior. Mas desta vez eu queria poder falar com vocês pessoalmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante este julgamento, vocês ouviram algumas evidências muito importantes. Ouviram que existem fábricas em solo britânico produzindo armas para enviar a Israel. Ouviram que os drones que eles fabricam incluem quadricópteros Thor VTOL usados ​​para lançar granadas, drones que são anunciados como “testados em combate” contra palestinos. Ouviram que drones usam inteligência artificial para alvejar crianças, que drones de vigilância Magni X funcionam em conjunto com “drones assassinos” e que a Pesquisa &amp; Desenvolvimento realizada no Reino Unido é vital para as forças armadas israelenses. Vocês também já devem ter ouvido falar que a unidade de Filton foi inaugurada pelo embaixador israelense, que possui licenças de exportação para Israel e que a própria Elbit é a “espinha dorsal” das forças armadas israelenses.</p>
<p style="text-align: justify;">Vocês ouviram como tentamos todos os meios democráticos disponíveis, incluindo manifestações, arrecadação de fundos, acampamentos, petições, cartas para parlamentares, adesivos com informações da Anistia Internacional sobre o apartheid, vigílias, piquetes em fábricas de armas, e a lista continua. E como nada disso funcionou. Vocês ouviram como a ação direta é eficaz, como ela pôs fim ao apartheid durante o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, como ela está sendo usada hoje no Reino Unido para fechar fábricas de armas, quatro das quais foram fechadas permanentemente.</p>
<p style="text-align: justify;">Vocês ouviram que, depois de destruirmos esses drones, fomos presos por terrorismo &#8211; mantidos incomunicáveis ​​- e passamos 18 meses na prisão sem julgamento. Vocês ouviram que este é um novo julgamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de ouvir o depoimento de nós seis, vocês podem achar estranho que o que está acontecendo na Palestina tenha passado completamente despercebido, podem ter notado certas palavras que foram censuradas, e que, até nossas declarações finais, a palavra genocídio não foi dita uma única vez. Houve interrupções por parte da acusação, mudanças repentinas de assunto por parte dos nossos advogados &#8211; é quase como se tópicos inteiros de conversa tivessem sido proibidos. A acusação sabe muito bem que estamos certos ao afirmar que essa fábrica está fornecendo armas a Israel para serem usadas em Gaza. É por isso que eles estão optando por suprimir essa informação em vez de contestá-la. A acusação decidiu que a legalidade das ações de Israel é irrelevante neste julgamento. Porque eles sabem que vocês não poderiam, em sã consciência, nos considerar culpados de nada se tivessem a oportunidade de ouvir toda a verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Para nos considerar culpados de dano criminal, é preciso ter certeza. Vocês talvez reconheçam a expressão “além de qualquer dúvida razoável”, é a mesma coisa. E vou usar uma analogia para explicar isso, porque, ao contrário deste grupo, eu não tenho formação em Direito.</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos imaginar que você e alguém que você ama foram passar férias juntos. E um dia vocês decidem saltar de paraquedas. Agora, você quer ter certeza de que esse paraquedas vai te segurar. Você não compraria um barato na Amazon, nem pegaria emprestado um de um amigo que estivesse mofando no galpão há tempos. Porque você quer saber tudo sobre esse paraquedas! Sua história, quem o fabricou, como foi usado, talvez até mesmo suas motivações? Porque você quer ter certeza de que, enquanto estiver caindo em direção ao chão, quando acionar o mecanismo, o paraquedas vai te segurar, porque se você não tiver certeza, bem, isso é um erro irreparável. E essa decisão não é diferente. É algo permanente, com consequências que mudam a vida, e o mais importante, não há como voltar atrás.</p>
<p style="text-align: justify;">A acusação precisa te convencer para que você possa condenar. Mas como ter certeza se você sabe que não ouviu toda a verdade?</p>
<p style="text-align: justify;">Sou uma pessoa comum, com amigos, família, uma vaga na universidade, um gato que amo, basicamente muita coisa a perder indo para a prisão. Mas vocês sabem que todos nós tínhamos a intenção de ser presos no dia 6 de agosto. Tínhamos a intenção de ir a julgamento. E não vou falar pelos outros aqui, mas a razão pela qual eu estava disposta e confiante o suficiente para permitir isso foi porque eu sabia que agora, 20 meses depois, eu estaria diante de 12 pessoas comuns como vocês. Não políticos, não especialistas em Direito, não advogados e juízes com crinas de cavalo de 400 anos na cabeça, mas um painel de iguais a mim. Vocês são o melhor contrapeso ao poder e à tirania dentro do sistema jurídico como ele existe hoje. É um privilégio ser julgado por vocês. E não digo isso para bajulá-los, mas porque, como você já deve ter ouvido, o direito ao julgamento por júri está ameaçado, com um projeto de lei tramitando na Câmara dos Comuns neste exato momento. Os júris como os conhecemos hoje podem não existir por muito mais tempo, justamente porque seus bolsos não podem ser subornados por pessoas ricas e poderosas. (E também porque os júris frequentemente se recusam a condenar nesses tipos de casos). E essa é uma posição de grande poder para vocês.</p>
<p style="text-align: justify;">Ninguém pode obrigá-los a condenar neste caso, nem mesmo o juiz. Aliás, o juiz está expressamente proibido de lhes dizer para condenar! Vocês, e somente vocês, podem decidir sobre seus veredictos. Mas não só podem nos absolver, como têm o DIREITO de nos absolver. Ninguém pode puni-los por sua decisão. Ninguém pode sequer lhes perguntar porquê.</p>
<p style="text-align: justify;">Quero que saibam, porém, que, seja qual for a sua decisão, não os culparei. Como poderia, se foram mantidos tão no escuro? Mas podem ter certeza de uma coisa. Estou orgulhosa, muito orgulhosa de ter participado disso. Estou orgulhosa de ter superado o meu medo e de ter agido, porque é claro que estava com medo, ninguém invade uma fábrica de armas israelense por diversão! E posso afirmar com absoluta certeza que essa foi a melhor coisa que já fiz, porque há uma grande probabilidade de que, graças às nossas ações naquela noite, vidas inocentes tenham sido salvas.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, jamais terei vergonha de ter sido julgada, de ter passado 18 meses na prisão e de poder enfrentar muitos mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Vocês sabem que fomos tratados como terroristas durante todo esse processo. Uma assistente social que trabalha com vítimas de violência doméstica, duas professoras de jardim de infância, uma graduada de Oxford, uma artista e eu. Parece distópico, mas é verdade, assim como a proscrição do Palestine Action.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas desta vez, vocês são os que decidem. Ao contrário do que a promotoria e o governo querem que vocês sejam, vocês não são meros instrumentos de aprovação. Não caiam na armadilha deles.”</p>
<p style="text-align: justify;">
</blockquote>
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		<title>[Greve na USP] Aos que não foram chamados à mesa: um manifesto em defesa da permanência, mobilização e luta estudantil</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 May 2026 19:28:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
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					<description><![CDATA[Ao negar a legitimidade das reivindicações por melhores condições de permanência, a USP nega-se uma vez mais o reconhecimento dos estudantes como parte do corpo político da universidade. Por ex-alunos e alunos da FAUUSP]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por ex-alunos e alunos da FAUUSP</h3>
<p style="text-align: justify;">Parece consensual que, dentro e fora dos muros da universidade, vivemos um momento crítico. Em momentos como este, palavras de ordem das mais distintas vêm de todos os lados, algumas sendo repetidas regularmente: diálogo, pluralidade, democracia… Palavras que, ao não se assentarem em ações concretas, tampouco no reconhecimento do outro como sujeito de igual estatuto político, ficam soltas no vazio e, mais do que isso, voltam-se como condenação àqueles que não possuem outra opção senão agir.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesta nota, escrita por ex-alunos e alunos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAUUSP), membros de gestões recentes do Grêmio desta faculdade (<strong>gfaud</strong>), nos colocamos em apoio e solidariedade aos estudantes brutalmente agredidos pela Polícia Militar na madrugada de 10 de Maio <strong>[1]</strong><sup><strong> </strong></sup>e ao movimento grevista da Universidade de São Paulo. Em meio a posicionamentos institucionais de repúdio vindos dos mesmos que, dois dias atrás, condenaram as ações estudantis de modo a abrir caminho ao que ocorreu na madrugada deste domingo, é preciso colocar em evidência alguns dissensos que se escondem sob palavras vazias e conclamar uma verdadeira tomada de posição.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>TAMBÉM SOMOS SUJEITOS POLÍTICOS</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A USP foi a última das grandes universidades a aderir ao sistema de cotas, implementando-as apenas nos vestibulares de 2017, permanecendo por mais de dez anos na contramão de um movimento nacional que vislumbrava universidades mais plurais, populares e democráticas. O elitismo acadêmico uspiano deu suas caras, mas foi a força do corpo estudantil, por meio de greves e ocupações, que conseguiu enfim começar a ruir os altos muros da universidade e abrir passagem para vivências historicamente apartadas do reduto acadêmico.</p>
<p style="text-align: justify;">Ocorre que, das cotas para cá, a universidade se diversificou, escutam-se novas linguagens e outros corpos são vistos ocupando os espaços. Esses novos estudantes, que vêm de todos os cantos do país, decidiram que não querem apenas adentrar a USP, querem transformá-la. Queremos permanecer e disputar também os rumos deste que é mais um dos espaços de formação política de nossa sociedade, a fim não de constituir outra elite intelectual, mas sim uma outra relação entre academia e sociedade que seja parte de uma transformação mais ampla.</p>
<p style="text-align: justify;">“Seja qual for a sua história, sua trajetória ou seu jeito de ser, a USP tem espaço para você!” foi uma das frases da campanha institucional de recepção dos calouros de 2026. Em 2024, o espaço concedido pela USP a 51 estudantes para se alojarem, às vésperas do início das aulas, foi um acampamento provisório instalado sob as arquibancadas do Centro de Práticas Esportivas <strong>[2]</strong>. Esse é apenas um entre os diversos desafios relativos à permanência dos novos estudantes, mas evidencia as condições precárias da habitação estudantil, bem como a difícil realidade enfrentada pelos estudantes para viver em São Paulo com políticas de permanência insuficientes.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a permanência estudantil extrapola as políticas afirmativas e as políticas de assistência, ambas sabidamente limitadas. A vida universitária demanda o reconhecimento dos pares. Entretanto, a relação entre discentes e docentes muitas vezes esbarra em abusos fundados na deslegitimação das novas vozes. Estes ocorrem de forma direta, a partir de humilhações e assédios constantemente denunciados &#8211; mas que raramente têm resolução diante de uma burocracia hierarquizada -, e também indireta, pelo desdém e indiferença para com as novas vozes que não compartilham do repertório dito imprescindível, da mesma formação elitizada, do mesmo referencial-teórico europeu.</p>
<p style="text-align: justify;">Permanecer só é possível quando nos reconhecemos no espaço em que estamos inseridos. Este reconhecimento não ocorre pois não nos vemos ao entrarmos em salas de aula cujos currículos invisibilizam vivências distintas daquela compartilhada entre professores de maioria branca, representantes de elites intelectuais e culturais, quase sempre de São Paulo. Não queremos aqui advogar por uma representatividade vazia, mas reiterar que os corpos historicamente apartados da universidade carregam consigo outros repertórios e subjetividades frente aqueles cristalizados pela academia. Nosso reconhecimento não ocorre porque os espaços de socialização, interlocução e mobilização que conquistamos têm sido reiteradamente atacados e, em muitos casos recentes, cerceados e tomados. Não ocorre porque nossas mobilizações por pautas justas, como a melhoria das políticas de permanência, o aumento do número de professores, a implementação de cotas para os concursos de docentes, isto é, pautas que visam transformar a universidade em uma instituição realmente mais plural, têm sido deslegitimadas pelo corpo docente que alça o controle da burocracia. Parece que a tão celebrada democratização da universidade encontrou seu teto.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meio às mobilizações por uma universidade radicalmente múltipla, emergem vozes ditas progressistas a anunciarem que os estudantes estão sendo manipulados, que utilizam de táticas violentas, ou a reivindicar uma ilusória “neutralidade institucional”, uma miragem mobilizada para deslegitimar vozes que buscam o reconhecimento de suas angústias, demandas e desejos para a USP. Tal neutralidade é inexistente pois trata-se de um discurso que visa a conservação do espaço e da hierarquia que mantém o poder de um grupo que não mais representa a multiplicidade que compõe a universidade e não reconhece as novas vozes que aqui emergem <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve presente, assim como mobilizações anteriores, clama pelo reconhecimento de que as pautas do corpo estudantil são legítimas, assim como deveriam ser legítimas nossas vozes e referenciais. Que também somos e, mesmo que sem reconhecimento, continuaremos a ser sujeitos políticos que constroem essa universidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>SOBRE AS ATUAIS MOBILIZAÇÕES</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A atual greve estudantil se iniciou no interior de um ciclo de luta diante da precariedade de condições de trabalho e estudo no ambiente universitário e da escalada contínua de políticas de cunho neoliberal, como a “bonificação” por “projetos” ofertada pela reitoria aos docentes como falso aumento salarial. As políticas de permanência sequer foram incluídas na discussão orçamentária e, para além disso, os estudantes ainda tiveram os espaços sob sua autonomia ameaçados. Alguns aspectos das movimentações recentes merecem destaque.</p>
<p style="text-align: justify;">Em primeiro lugar, é preciso mais uma vez dizer: os espaços estudantis estão sob ataque! No processo que deu início à greve, fomos surpreendidos com a apresentação de uma minuta <strong>[4]</strong><sup><strong> </strong></sup>referente aos espaços estudantis, pela sua suposta regularização. Estes se constituem como os poucos espaços dentro da universidade em que temos algum grau de autonomia, condição necessária para a atuação dessas entidades estudantis e os únicos lugares nos quais podemos nos mobilizar e termos nossas vozes amplamente reconhecidas. Neles, em diálogo uns com os outros, é onde podemos ter nossas histórias, medos e desejos reconhecidos como legítimos, e é onde podemos discuti-los coletivamente. Nunca há consenso, mas é justamente a partir do dissenso que temos construído nossa mobilização. Não há neutralidade, tampouco concordância inabalável, quando estamos em um grupo diverso que é capaz de legitimar vozes plurais.</p>
<p style="text-align: justify;">Cabe aqui também destacar o que essa minuta significa, especialmente se colocarmos em perspectiva a série de medidas institucionais recentes de cerceamento de espaços estudantis, aumento de dispositivos de vigilância e da militarização nos campi. A diminuição de sua importância, como foi feito por parte dos docentes frente à possibilidade de que esses conflitos pudessem ser resolvidos dentro das unidades, entre diretoria e centros acadêmicos, serve única e exclusivamente para dissuadir a mobilização estudantil em torno desta pauta. Além disso, é ofensivo ignorar que esse aparente consenso esconde que a minuta retira autonomia e abre margem para a total tomada do espaço no futuro. Mais que isso, o não reconhecimento público da gestão estudantil faz dela dependente de acordos com a diretoria das unidades e a reitoria desta Universidade e, portanto, condiciona a autonomia estudantil ao aval do corpo diretivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Já com o acirramento das mobilizações, na busca por negociações, o corpo estudantil recebeu negativas em relação ao diálogo supostamente defendido pela reitoria. Inicialmente, pela sua recusa à participação nas mesas de negociação e, depois, pelo encerramento unilateral destas &#8211; estopim que levou o movimento estudantil à ocupação da reitoria, cujo objetivo era a retomada das negociações. Destacamos que, assim como na última greve geral em 2023, a ocupação de espaços foi utilizada como último recurso, sempre em resposta ao encerramento do diálogo por parte do gabinete do reitor. A resposta oferecida aos estudantes é brutal e covarde, pois respalda a violência policial no cerceamento da ocupação. Como vemos, o suposto diálogo parece iluminar apenas as salas de decisão, estas trancadas aos estudantes, cabendo-lhes apenas a tratativa com a PM. No fundo, a ocupação escandaliza não porque seja violenta (pois não foi), mas porque interrompe a coreografia elegante da omissão: expõe que o “diálogo” celebrado pela burocracia universitária é muitas vezes apenas o nome polido que se dá à obediência.</p>
<p style="text-align: justify;">Na tarde do dia 10 de Maio, a mesma reitoria que encerrou as negociações com o corpo estudantil publicou uma nota informando que não houve notificação da ação policial que reprimiu violentamente os estudantes que ocupavam o prédio administrativo. Mesmo sem notificação à reitoria, a ação truculenta parecia respaldada pela administração da USP. Isso porque o cerceamento policial foi permitido, legitimando a ameaça constante de uso da violência. Foi legitimada em cada uma das notas de repúdio que condenaram a ocupação da reitoria pelo dano causado ao patrimônio público, como se o ínfimo dano material desqualificasse, mais uma vez, toda e qualquer tentativa de diálogo com aqueles que possuem demandas, medos e desejos distintos da alta burocracia uspiana.</p>
<p style="text-align: justify;">É comovente observar a sofisticação moral da nossa universidade: cita democracia em solenidades, pluralidade em campanhas institucionais, pensamento crítico em projetos pedagógicos — mas quando estudantes pobres, cotistas, trabalhadores e filhos das periferias do Brasil ousam pôr em prática exatamente este pensamento crítico e se organizar em busca de uma nova universidade, acabam acusados de desrespeitar a democracia e a instituição. A omissão, anuência com o discurso criminalizante e deslegitimação da luta perpetrada pelo próprio quadro diretivo das unidades abre caminho para ações como a que a PM realizou na madrugada do dia 10 de Maio. A universidade que diz formar cidadãos parece preferir súditos bem-comportados; aceita a diversidade desde que muda, incentiva a presença dos novos corpos desde que estes não alterem a decoração da sala, prega a inclusão desde que esta não toque na hierarquia real que organiza quem fala, quem decide e quem apenas agradece pela oportunidade de estar ali.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre as falas que diziam-se preocupadas com o desmonte e os ataques à universidade pública, observamos posições passivas, como tem sido nos últimos anos. A universidade pública tem, sim, sido desmontada e atacada reiteradamente. Os estudantes têm sido sempre a linha de frente nesta luta: somos nós que sofremos os assédios e agressões dos fascistas que recorrentemente causam perturbações na rotina uspiana; somos nós que denunciamos reiteradamente a destruição da infraestrutura universitária, clara na situação corrente dos bandejões, do transporte público que atende os campi, das partições da USP que desidratam com a ausência de servidores suficientes. Fomos nós que, em 2022 e em 2023, nos mobilizamos pelo aumento do número de docentes e pela implementação de cotas nos concursos, pauta que afeta diretamente o pleno funcionamento da universidade e frente a qual esta categoria se manteve amplamente passiva até aquele momento. A preocupação verbalizada pelos docentes com estas questões, embora possamos crer como verdadeira, não foi acompanhada de um conjunto concreto de ações enquanto o movimento estudantil não tensionou esse debate, pressionando diretamente a categoria. E se hoje podemos celebrar a realização de concursos para docentes com reserva de vagas PPI, e também a chegada dos primeiros docentes negros a unidades como a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design, é porque houve reconhecimento, entre os docentes, da legitimidade pautada pelo corpo estudantil.</p>
<p style="text-align: justify;">Cabe destacar que a categoria docente concentra a maior parte do poder político-institucional dentro da universidade. Embora sujeitos a fatores externos, bem sabemos, são os professores que tomam as principais decisões sobre os rumos da USP. Hoje observamos este poder ser usado muito mais para rechaçar estudantes que se engajam na luta por uma universidade plural do que, de fato, para construí-la participativamente. A coragem de estudantes que colocaram em risco sua própria segurança física, psicológica e jurídica para construir o ideal de universidade que deveria ser um sonho coletivo foi reiteradamente deslegitimada. Sem a construção imagética de que a ocupação representava uma escalada da violência e uma ameaça ao patrimônio público, a desocupação imposta pela polícia seria um desfecho descolado do processo que nos trouxe até aqui. Seria expressão de ataques vindos de forças externas, mas não é esse o caso. A gravidade deste fato é acentuada quando lembramos que, há quinze anos, na última vez em que a reitoria foi ocupada e tal violência empregada, os estudantes lutavam por uma pauta de caráter ideológico (que permanece justiçada agora): a retirada da Polícia Militar do campus. Em contraste, hoje os estudantes lutam por algo muito mais básico: o reconhecimento de que fazem parte desta universidade, que terão a dignidade de se alimentar sem medo de ingerir comida estragada e contaminada; de fugir da humilhação e sofrimento impostos pela ausência de recursos mínimos para manter o sonho de se formar na USP. É esta a raiz da nossa revolta e é contra esses ideais tão mínimos que a universidade emprega a violência.</p>
<p style="text-align: justify;">Não podemos deixar de indicar mais uma vez que ao negar a legitimidade das reivindicações por melhores condições de permanência, nega-se uma vez mais o reconhecimento dos estudantes como parte do corpo político da universidade. Rejeitar o diálogo com aqueles que vivenciam a precariedade habitacional do CRUSP e que dependem dos bandejões e do auxílio permanência para viver em São Paulo é dizer que o que existe é suficiente, que não há perspectiva de futuro com plena inclusão dessas novas vozes na academia. É reiterar que somos bem-vindos quando não ameaçamos tensionar a estabilidade da estrutura universitária, este castelo construído para manter-nos fora. Somos bem-vindos quando despidos de nossos próprios repertórios e desejos, quando amoldados às preexistências que deseja-se conservar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>TOMEMOS POSIÇÃO</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isto posto, fica claro que vivemos um momento histórico e crítico. Daqui, escolhemos o caminho que, inevitavelmente, trilharemos juntos como parte da Universidade de São Paulo. Entendemos que este precisa estar conectado com as lutas dos que vieram antes, constituindo-se como um movimento histórico que vai além dos muros da nossa universidade, se assentando, portanto, em lutas comuns que visam a construção de novos horizontes políticos contrários a quaisquer hierarquias sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma universidade que preserva memoriais contra a ditadura enquanto autoriza, normaliza ou relativiza métodos que carregam precisamente sua sombra histórica. O DCE Livre carrega o nome de Alexandre Vannucchi Leme não como ornamento nostálgico, mas como lembrete incômodo de que a repressão ao movimento estudantil nunca foi um acidente externo à vida universitária; ela sempre foi o teste decisivo de seus princípios. E hoje o teste retorna. Quem fala em pluralismo, mas se cala diante da polícia dentro da universidade, defende apenas o pluralismo dos que já têm cadeira, sala, título e estabilidade. Quem condena a quebra de vidros com mais energia do que a quebra de corpos revela, sem querer, sua verdadeira pedagogia: patrimônio acima de gente, ordem acima de justiça, reputação institucional acima da dignidade estudantil e humana.</p>
<p style="text-align: justify;">Os ares fascistas que pairam sobre o Governo do Estado de São Paulo só poderão ser enfrentados no ambiente universitário se os dissensos próprios da pluralidade dos corpos que compõem nossa academia construírem espaços capazes de ouvir as diversas vozes que hoje nos constituem. Talvez assim, estudantes, professores, funcionários e todos os outros interessados na construção de uma nova universidade encontrem caminhos comuns que visam o enfrentamento dos tempos sombrios que nos espreitam.</p>
<p style="text-align: justify;">Da parte dos estudantes está colocada nossa luta irrestrita contra o projeto de destruição do ensino público de qualidade. Dos funcionários, como suas posições e atuações recentes deixam claras, também. É hora que o corpo docente, por sua vez, assuma também uma posição clara, que esteja posta numa manifestação pública, mas também e principalmente em ações concretas que movam a política interna desta universidade no sentido da reconstrução e do fortalecimento da mesma, e das relações entre as categorias que a compõe. Assim, poderemos juntos avançar no diálogo, na democratização e até mesmo num verdadeiro pluralismo universitário.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>ASSINAM ESTE MANIFESTO:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Allan Pedro dos Santos Silva &#8211; gfaud 2021/ 2023</p>
<p style="text-align: justify;">Ana Pacheco &#8211; gfaud 2021/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Bárbara Carneiro &#8211; gfaud 2019/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Breno Terra &#8211; gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Camila Rosado &#8211; gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Felipe Leonidas &#8211; gfaud 2020/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Gabrielle Gusmão &#8211; gfaud 2019/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Helena Nakamura gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Henrique Munhoz Clesca &#8211; gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">João Generoso &#8211; gfaud 2018/2019</p>
<p style="text-align: justify;">João Iwamoto &#8211; gfaud 2024/2026 Ketlyn Caroline Gonçalves &#8211; gfaud 2018/2019</p>
<p style="text-align: justify;">Larissa Hiratsuka &#8211; gfaud 2017/2018</p>
<p style="text-align: justify;">Lucas Lopes &#8211; gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Luciana Salvarani &#8211; gfaud 2022/2025</p>
<p style="text-align: justify;">Matheus Martins &#8211; gfaud 2021/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Miguel Fiorelli &#8211; gfaud 2021/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Nicolas Sarracino &#8211; gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Paulo Tadashi &#8211; gfaud 2018/2019</p>
<p style="text-align: justify;">Patrick Corrêa &#8211; gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Rafael Kim &#8211; gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Raphael Ramos &#8211; gfaud 2024/2025</p>
<p style="text-align: justify;">Rodolfo Sydow &#8211; gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Yu Weibin &#8211; gfaud 2022/2023</p>
<p style="text-align: justify;">Roberto Shimoda &#8211; gfaud 2017/2018</p>
<p style="text-align: justify;">Horrana Porfirio Soares &#8211; gfaud 2015/2016</p>
<p style="text-align: justify;">Hudynne Helena Guimarães Lima &#8211; gfaud 2015/2017</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>Ver em: <a class="urlextern" title="https://www.brasildefato.com.br/2026/05/07/estudantes-da-usp-em-greve-ocupam-reitoria/" href="https://www.brasildefato.com.br/2026/05/07/estudantes-da-usp-em-greve-ocupam-reitoria/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.brasildefato.com.br/2026/05/07/estudantes-da-usp-em-greve-ocupam-reitoria/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong>Ver em: <a class="urlextern" title="https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/04/a-espera-de-moradia-alunos-da-usp-vivem-debaixo-de-arquibancada-de-estadio.shtml" href="https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/04/a-espera-de-moradia-alunos-da-usp-vivem-debaixo-de-arquibancada-de-estadio.shtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/04/a-espera-de-moradia-alunos-da-usp-vivem-debaixo-de-arquibancada-de-estadio.shtml</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3] </strong>Destacamos o posicionamento de um grande número de docentes de universidades federais e estaduais contra as vozes conservadoras que se disfarçam sob esta suposta neutralidade, exposto no texto <a class="urlextern" title="https://pluralismoencarnado.com/" href="https://pluralismoencarnado.com/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Em defesa do pluralismo encarnado”</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Ver em: <a class="urlextern" title="https://iclnoticias.com.br/usp-restringir-comercio-contas-estudantis/" href="https://iclnoticias.com.br/usp-restringir-comercio-contas-estudantis/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://iclnoticias.com.br/usp-restringir-comercio-contas-estudantis/</a>.</p>
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		<title>A entrevista de Paulo Galo no Três Irmãos: notas críticas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 May 2026 14:04:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[A entrevista de Paulo Galo não pode ser reduzida a um episódio isolado, nem tampouco a um conjunto de opiniões mais ou menos acertadas, mas deve ser situada como expressão de uma configuração histórica na qual experiência de luta, mediação comunicacional e formas políticas herdadas se entrelaçam de maneira tensa e, muitas vezes, contraditória. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Já tem um tempo que venho maturando a necessidade de escrever um texto sobre Paulo Galo. Com esforço considerável, assisti à sua entrevista no podcast “Três Irmãos”, conduzido por Rodrigão e Robertinho (duas antas do ponto de vista político e comunicacional). Pensar sua atuação pública e as polêmicas em que vem se envolvendo exige um debate de grande densidade, capaz de atravessar as tradições políticas da esquerda e suas contradições históricas, os processos de luta engendrados por setores autônomos da classe, a midiatização dessas experiências e a captura progressiva de personagens forjados no calor do conflito por estruturas comunicacionais interessadas em administrar suas aparições, reorganizar seus sentidos e colaborar ativamente para a institucionalização da política, isto é, para a conversão de experiências reais de enfrentamento em mercadoria discursiva, circulação controlada e esvaziamento estratégico. Sendo Paulo Galo uma figura de peso na cena política recente, torna-se necessário submeter seu pensamento e sua prática a um exame, atento tanto aos seus méritos quanto aos seus limites, sem concessões afetivas, sem blindagens militantes e sem a indulgência típica de um tempo em que a crítica é frequentemente sacrificada em nome da adesão, da torcida ou da conveniência circunstancial.</p>
<p style="text-align: justify;">Quero iniciar este texto situando quem é Paulo Galo e de que modo se constitui o seu processo de politização, compreendendo sua trajetória como parte de uma configuração histórica específica em que o trabalho urbano, reconfigurado pela expansão das plataformas digitais e intensificação da precarização, produz formas de consciência que não emergem de tradições organizativas estáveis, mas de experiências fragmentadas que, ao se acumularem, passam a exigir elaboração política. Paulo Roberto da Silva Lima, conhecido como Paulo Galo, se forma no interior das periferias de São Paulo, espaço em que a inserção no mundo do trabalho se dá sob condições marcadas pela instabilidade, informalidade persistente e necessidade constante de adaptação a atividades que garantam a reprodução imediata da vida, sem oferecer qualquer horizonte de segurança. Esse percurso é uma regra para amplos setores da classe trabalhadora brasileira nas últimas décadas, especialmente após a reestruturação produtiva que dissolveu formas relativamente estáveis de emprego e expandiu um universo de ocupações desprovidas de proteção institucional.</p>
<p style="text-align: justify;">A entrada de Galo no trabalho por aplicativos representa a inserção em uma forma de exploração que reorganiza a relação entre capital e trabalho, substituindo a figura clássica do patrão por sistemas de gestão baseados em algoritmos, avaliações e mecanismos de controle indireto que operam com alto grau de opacidade. A experiência cotidiana do entregador, marcada por jornadas extensas, remuneração variável, riscos constantes e possibilidade permanente de bloqueio unilateral, produz um tipo de percepção social que tende a romper com a ideia de autonomia propagada pelas plataformas, revelando a dependência que sustenta esse modelo. Nesse contexto, se desenvolve o processo de politização de Galo, sem uma formação teórica sistemática previamente consolidada, elaborando progressivamente uma experiência compartilhada, na qual problemas inicialmente percebidos como individuais passam a ser reconhecidos como expressão de uma condição comum, o que força um processo amplo de politização e conflitos evidentes. A convivência com outros trabalhadores, a troca de relatos sobre bloqueios, quedas de rendimento e estratégias de sobrevivência, assim como a percepção de que essas experiências se repetem de forma recorrente, criam as bases para uma compreensão mais ampla da exploração, abrindo espaço para a construção de práticas coletivas.</p>
<p style="text-align: justify;">A emergência dos Entregadores Antifascistas, no contexto da pandemia de 2020, foi um momento de condensação desse processo. A intensificação da demanda por entregas, associada à exposição ampliada desses trabalhadores no espaço público, produz uma visibilidade inédita para uma categoria até então relativamente invisibilizada, ao mesmo tempo em que evidencia de maneira aguda as condições sob as quais esse trabalho é realizado. A organização de paralisações, manifestações e ações coordenadas surge como resposta a um acúmulo de tensões que encontram naquele momento uma possibilidade de expressão coletiva. Galo se projeta nesse cenário como uma figura capaz de articular linguagem e experiência, transformando vivências dispersas em discurso politizado, sem recorrer a mediações excessivamente abstratas. Sua fala se caracteriza por uma combinação de referências práticas, memória recente de luta e uma disposição para confrontar diretamente estruturas de poder, o que lhe confere ressonância junto a setores que não se reconhecem nos formatos tradicionais de organização política. Essa capacidade de comunicação, entretanto, não pode ser dissociada das condições que a tornam possível, uma vez que sua circulação se dá majoritariamente por meio de plataformas que operam segundo critérios de visibilidade e engajamento, introduzindo desde o início uma tensão entre expressão política e captura midiática.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo desse percurso, a trajetória de Galo passa a atravessar diferentes campos de disputa, articulando a questão do trabalho precarizado com debates mais amplos sobre violência estatal, racismo estrutural e memória histórica, especialmente após o episódio envolvendo a estátua de Borba Gato. Essa ampliação do campo de intervenção torna visíveis relações que já atravessavam a experiência social que o constitui, uma vez que a precarização do trabalho, a repressão policial e a produção de narrativas históricas oficiais integram um mesmo conjunto de determinações que estruturam a vida nas periferias urbanas. A compreensão de quem é Paulo Galo exige, portanto, uma abordagem que considere simultaneamente as condições materiais que estruturam sua trajetória, os processos de politização que emergem dessas condições e as formas de mediação que reconfiguram sua atuação no espaço público, produzindo uma figura que concentra, em si, tanto a potência de uma experiência coletiva em movimento quanto os limites impostos por um ambiente político e comunicacional que tende a absorver, reorganizar e, em última instância, neutralizar aquilo que nele aparece como força de ruptura.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159192" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962.jpg" alt="" width="1200" height="533" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-300x133.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-1024x455.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-768x341.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-946x420.jpg 946w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-640x284.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-681x302.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Se a trajetória de Paulo Galo só pode ser compreendida a partir das condições materiais que a engendram, a análise de sua entrevista no podcast “Três Irmãos” exige compreender a questão em outro plano, não mais centrado apenas na formação de sua experiência política, mas na forma através da qual essa experiência passa a circular, ser interpretada e, sobretudo, reorganizada no interior de um dispositivo comunicacional que não opera de maneira neutra, obviamente. A entrevista, na verdade, é uma estrutura que condiciona previamente o modo como essas ideias podem aparecer, estabelecendo limites, ritmos e registros que incidem diretamente sobre o conteúdo do que é dito. O ambiente construído ao longo da conversa, marcado por um tom de informalidade constante, pela presença recorrente de interrupções, comentários laterais e momentos de descontração forçada, cria uma sensação de proximidade que, à primeira vista, pode sugerir abertura e espontaneidade, mas que, sob análise mais detida, revela um mecanismo de regulação da fala que impede o aprofundamento das questões colocadas. A crítica, quando emerge, não encontra condições de desenvolvimento contínuo, sendo frequentemente absorvida por uma dinâmica que privilegia a leveza, a fluidez e a manutenção do ritmo, elementos fundamentais para a retenção da audiência, mas profundamente limitadores do ponto de vista da elaboração política.</p>
<p style="text-align: justify;">A atuação dos âncoras não pode ser reduzida a uma suposta falta de preparo ou a uma limitação individual de compreensão, ainda que tais aspectos se manifestem de forma evidente em diversas intervenções. O papel dos entrevistadores consiste em garantir a estabilidade do ambiente, evitando rupturas, conduzindo o diálogo para zonas de conforto discursivo e mantendo a conversa dentro de parâmetros que assegurem sua continuidade como produto consumível. A recorrência de formulações genéricas, ancoradas no senso comum mais imediato, não é apenas expressão de superficialidade, mas elemento constitutivo de uma forma de mediação que substitui a complexidade por familiaridade, tornando o conteúdo rapidamente assimilável e, por isso mesmo, desprovido de maior densidade. É nesse ambiente que a fala de Galo opera, carregando consigo uma tensão constante entre a experiência concreta que a sustenta e as condições de sua circulação. Ao mencionar sua participação em greves, manifestações e ações diretas, sua fala insere na entrevista uma dimensão que escapa à lógica predominante do debate, remetendo a práticas organizadas em torno da intervenção direta sobre as condições de trabalho, e não da representação. Essa dimensão, no entanto, não se desenvolve plenamente, sendo continuamente atravessada por uma dinâmica que a reconduz ao nível da opinião, da comparação com outros atores e da disputa por reconhecimento no interior de um campo já estruturado pela visibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A crítica que Galo dirige às estruturas partidárias e a determinadas figuras públicas surge com uma força que deriva de sua posição externa a esses circuitos, mas também com limites evidentes, na medida em que permanece, em grande parte, no plano da denúncia, sem alcançar uma formulação mais sistemática das formas de organização que poderiam efetivamente superar os problemas apontados. Essa limitação não pode ser atribuída exclusivamente ao indivíduo, devendo ser compreendida em relação às condições em que sua fala se produz, uma vez que o espaço em que ela se insere não favorece a construção de mediações mais complexas, operando antes como um filtro que privilegia a imediaticidade e a resposta rápida.</p>
<p style="text-align: justify;">A própria dinâmica do podcast contribui para esse efeito, ao organizar a entrevista como uma sequência de estímulos que se sucedem em ritmo acelerado, impedindo que qualquer questão seja levada às últimas consequências. O pensamento aparece fragmentado, constantemente interrompido por risos, comentários ou mudanças de assunto, configurando uma forma de discurso que se mantém em movimento permanente, mas que raramente se aprofunda, forjando um campo em que a política se apresenta como fluxo, como circulação contínua de falas que se sucedem sem necessariamente se desenvolverem, produzindo uma sensação de debate que, no entanto, não se traduz em avanço efetivo da compreensão.</p>
<p style="text-align: justify;">A passagem para o debate que se desdobra fora da entrevista, especialmente nas intervenções de figuras como Chavoso da USP e Humberto Matos, permite observar com ainda mais nitidez as tensões que atravessam o campo político no qual Galo passa a operar, uma vez que aquilo que, no interior do podcast, aparece de forma fragmentada e muitas vezes diluída, ganha contornos mais definidos quando confrontado com posições que procuram dar sentido e direção ao episódio.</p>
<p style="text-align: justify;">Chavoso afirmou em vídeo que as críticas dirigidas a determinados atores deveriam ter sido feitas em âmbito privado, refletindo uma concepção de política que pressupõe a existência de um campo relativamente coeso, no qual a exposição pública de divergências seria prejudicial à luta. Essa posição se ancora em uma ideia de unidade que, ao invés de resultar de um processo de elaboração comum, antecede o próprio debate, funcionando como critério que regula aquilo que pode ou não ser dito em determinadas condições. O efeito dessa orientação é a contenção da crítica justamente nos pontos em que ela incide sobre formas de atuação já consolidadas no interior do próprio campo que se pretende transformador, criando uma espécie de zona protegida em que determinadas posições circulam sem serem efetivamente tensionadas. Chavoso também sugere que a visibilidade proporcionada por um podcast deveria ser utilizada prioritariamente para atacar ideologias dominantes, o que direciona a discussão para outro registro, igualmente revelador. Parte-se de uma compreensão segundo a qual o espaço midiático pode ser instrumentalizado de maneira relativamente direta, como se bastasse ocupar esse espaço com determinado conteúdo para produzir efeitos proporcionais à sua radicalidade. Isso diz muito sobre o “bom uso” de fachadas como as CPI´s… Essa leitura ignora que o próprio formato em questão opera segundo uma lógica que reorganiza as falas, submetendo-as a critérios de circulação, retenção e engajamento que não são definidos pelos participantes, mas pela estrutura que os abriga. A crítica, ao ingressar nesse circuito, não se mantém intacta, sendo traduzida, condensada e redistribuída de acordo com essas exigências, o que altera profundamente sua eficácia.</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia de que haveria uma ordem adequada de enfrentamento (primeiro os inimigos externos, depois as contradições internas), reforça uma visão estratégica que, embora compreensível em determinados contextos históricos, encontra dificuldades quando aplicada a um cenário em que as formas de mediação política já se encontram profundamente integradas às dinâmicas de reprodução do capital. A distinção entre campos opostos perde nitidez quando setores que se apresentam como críticos operam, na prática, dentro de estruturas que reproduzem as mesmas lógicas de separação, especialização e gestão da política. Nessa situação, a crítica dirigida ao interior desse campo deixa de ser um desvio ou uma fragilidade e passa a constituir uma dimensão necessária da própria luta.</p>
<p style="text-align: justify;">A intervenção de Humberto Matos explicita uma forma de compreensão da política que se apresenta como estratégica, responsável e orientada por um horizonte definido, mas que, examinada com mais atenção, mostra a permanência de uma estrutura que concentra a elaboração em instâncias separadas da prática social imediata. Ao enfatizar a necessidade de unidade, de maturidade no debate e de preservação de determinadas trincheiras, constrói-se um campo em que o conflito tende a ser regulado antes de se desenvolver, sendo traduzido em diferenças de tom, de abordagem ou de oportunidade, ao invés de ser tratado como expressão de divergências muito mais profundas. A referência constante à estratégia como elemento central da ação política introduz uma concepção na qual a definição dos rumos da luta aparece como tarefa de sujeitos ou instâncias dotadas de maior capacidade de elaboração, reforçando a divisão entre aqueles que pensam e aqueles que executam. Essa divisão, historicamente associada a determinadas leituras do bolchevismo, encontra, no contexto contemporâneo, novas formas de manifestação, especialmente quando articulada à centralidade da comunicação. A política passa a se organizar como campo de produção e circulação de discurso, no qual a capacidade de formular, ajustar e difundir posições assume um papel central, frequentemente em detrimento da construção de práticas coletivas mais enraizadas.</p>
<p style="text-align: justify;">A distinção estabelecida entre manter princípios e modular o discurso de acordo com as condições de circulação evidencia a adaptação dessa forma de política às exigências do meio em que ela se realiza. A possibilidade de ajustar a forma sem alterar o conteúdo permite uma flexibilidade que facilita a inserção em diferentes espaços, mas também contribui para a separação entre discurso e prática, uma vez que a radicalidade pode ser preservada no plano da intenção enquanto sua expressão é continuamente calibrada. Esse movimento se articula com a lógica das plataformas digitais, onde a visibilidade depende de uma constante negociação com formatos, públicos e algoritmos, reforçando a tendência à especialização de determinados sujeitos na gestão dessa comunicação. Essa especialização produz uma camada de mediadores que operam em relativa autonomia em relação às bases sociais que dizem representar, consolidando uma divisão do trabalho político em que diferentes funções são distribuídas entre sujeitos distintos. Alguns se ocupam da intervenção direta, outros da elaboração teórica, outros da comunicação, outros da atuação institucional. Embora essa divisão possa ser apresentada como necessária à complexidade da luta contemporânea, ela tende a reproduzir, no interior do próprio campo político, a separação entre direção e base.</p>
<p style="text-align: justify;">A contraposição a essa forma de organização encontra expressão nas tradições que colocam a autoatividade da classe no centro do processo de transformação. A experiência dos conselhos operários, em diferentes momentos históricos, aponta para a possibilidade de formas de organização em que a deliberação sobre as condições de vida e de trabalho não é delegada a instâncias separadas, mas realizada diretamente pelos próprios trabalhadores. Nesse modelo, a distinção rígida entre elaboração e execução perde sentido, uma vez que a prática coletiva incorpora, simultaneamente, momentos de reflexão e decisão. O contraste entre essas duas perspectivas não se resolve no plano da retórica, nem pode ser reduzido a uma divergência de opiniões sobre táticas ou estratégias específicas. Ele se manifesta na própria forma que a política assume em cada caso, seja como direção concentrada, mediação e representação, seja como processo aberto de auto-organização e deliberação coletiva. A análise das falas que emergem a partir da entrevista de Paulo Galo permite identificar, com relativa clareza, a coexistência e o choque dessas formas no interior de um mesmo campo, evidenciando que as disputas contemporâneas não se limitam à escolha de alvos ou à definição de prioridades, mas dizem respeito à própria estrutura da ação política e às possibilidades efetivas de transformação social.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159191" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled.jpg" alt="" width="1460" height="655" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled.jpg 1460w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-300x135.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-1024x459.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-768x345.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-936x420.jpg 936w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-640x287.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-681x306.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1460px) 100vw, 1460px" />A entrevista permite ainda avançar para um nível mais profundo de análise, no qual as próprias categorias mobilizadas por Galo passam a exigir um exame, não apenas pelo que afirmam, mas pelo modo como se articulam com as condições históricas em que são formuladas. A afirmação de que “não tem como vencer a máquina, tem como quebrar a máquina”, longe de ser apenas uma frase de efeito, condensa uma percepção real acerca da assimetria estrutural entre os trabalhadores e os sistemas que organizam sua exploração, especialmente no contexto das plataformas digitais, onde o controle se realiza por meio de mecanismos opacos, descentralizados e de difícil apreensão imediata. A intuição de que a disputa não pode se limitar à tentativa de operar dentro dessas regras aponta para um reconhecimento, ainda que não sistematizado, dos limites das estratégias que se restringem à adaptação. Essa percepção, no entanto, convive com uma ausência de mediações que permitiriam transformar essa intuição em um horizonte político mais consistente. A ideia de “quebrar a máquina” aparece como gesto, como imagem de ruptura, mas não se desdobra em uma análise das condições concretas sob as quais essa ruptura poderia ocorrer, nem das formas de organização capazes de sustentá-la. O problema não reside na radicalidade da formulação, mas na distância entre essa radicalidade e a construção de um processo histórico efetivo. A crítica atinge o alvo, mas permanece no nível da negação imediata, sem produzir uma elaboração que a conecte a práticas duradouras. Esse limite se articula com outro aspecto recorrente na entrevista, que é a tendência à generalização difusa, na qual questões complexas são condensadas em formulações amplas que produzem reconhecimento imediato, mas não avançam na determinação concreta dos problemas. O debate frequentemente desliza para um plano em que categorias como “esquerda”, “povo”, “política” ou “revolta” aparecem de maneira pouco diferenciada, criando uma espécie de campo homogêneo que obscurece as mediações internas, as divisões e as contradições que estruturam essas próprias categorias. A crítica ganha amplitude, mas perde precisão, e essa perda de precisão limita sua capacidade de intervenção.</p>
<p style="text-align: justify;">A defesa da revolta popular como única via capaz de transformar a realidade expressa, por sua vez, uma leitura que reconhece o papel da ação coletiva, mas que tende a operar numa perspectiva imediata, no qual a explosão do conflito aparece como solução em si mesma. A história das lutas sociais, no entanto, mostra que a irrupção de movimentos de massa, por mais intensos que sejam, não se traduz automaticamente em transformação estrutural, sobretudo quando não encontram formas de organização capazes de sustentar, aprofundar e orientar esse movimento. A revolta, enquanto momento, pode romper a normalidade, mas a ausência de estruturas que permitam sua continuidade frequentemente abre espaço para recomposições que reconduzem o processo aos seus limites anteriores.</p>
<p style="text-align: justify;">A tradição marxista, especialmente em suas vertentes mais críticas ao estatismo e ao centralismo partidário, oferece elementos fundamentais para compreender o impasse. A ênfase na autoatividade da classe, presente em autores como Marx e retomada por correntes posteriores, não se limita à afirmação de que a transformação deve ser protagonizada pelos próprios trabalhadores, mas implica uma crítica às formas que tendem a separar essa atividade de instâncias de direção externas. A emancipação não pode ser concebida como resultado de uma ação conduzida por sujeitos especializados, nem como efeito automático de explosões espontâneas, exigindo a construção de formas organizativas nas quais a própria classe seja capaz de deliberar sobre seus caminhos. O que se observa, na fala de Galo, é a presença simultânea de uma crítica à delegação da política, expressa na desconfiança em relação aos partidos e à representação, e a ausência de uma formulação mais precisa das formas que poderiam substituir esse modelo. A recusa da mediação institucional não se traduz automaticamente na afirmação de uma mediação alternativa, deixando aberto um espaço em que a crítica corre o risco de se esgotar na denúncia. Esse vazio histórico é resultado de um período em que as formas tradicionais de organização perderam capacidade de mobilização, sem que novas formas tenham se consolidado de maneira estável.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a circulação dessa crítica no interior de um ambiente mediado por plataformas digitais introduz uma nova camada de complexidade. A própria capacidade de comunicação de Galo, que constitui um de seus principais atributos políticos, se realiza dentro de estruturas que tendem a transformar essa comunicação em mercadoria, submetendo-a a critérios de visibilidade, engajamento e circulação que escapam ao controle direto dos sujeitos. A disputa pela consciência, nesse cenário, passa a se dar em um terreno no qual a forma de apresentação tem tanto peso quanto o conteúdo, criando uma situação em que a política se aproxima cada vez mais da lógica da produção de discurso.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão que se coloca, portanto, não se limita a avaliar se determinadas falas estão corretas ou equivocadas, mas a compreender como elas se inscrevem em uma configuração histórica na qual experiência, comunicação e organização se encontram profundamente tensionadas. A entrevista de Paulo Galo, tomada em sua totalidade, oferece um material privilegiado para observar esse entrelaçamento, evidenciando tanto a potência de uma experiência que emerge de condições reais de exploração quanto os limites impostos por formas de mediação que tendem a reorganizar essa experiência segundo uma lógica que não coincide com as exigências de uma transformação efetiva. Se o percurso desenvolvido até aqui permite apreender algo com maior nitidez, é o fato de que a entrevista de Paulo Galo não pode ser reduzida a um episódio isolado, nem tampouco a um conjunto de opiniões mais ou menos acertadas, mas deve ser situada como expressão de uma configuração histórica na qual experiência de luta, mediação comunicacional e formas políticas herdadas se entrelaçam de maneira tensa e, muitas vezes, contraditória. A força de sua fala reside justamente no vínculo com uma experiência concreta de exploração que não se deixa dissolver completamente, que insiste em reaparecer sob a forma de denúncia, de inconformismo e de recusa, apontando para limites reais das estruturas existentes; ao mesmo tempo, essa força encontra obstáculos quando atravessa um campo em que a política se realiza cada vez mais como linguagem, como circulação e como gestão de posições. A coexistência de uma crítica à representação com a ausência de formas consolidadas de auto-organização, a presença de uma radicalidade discursiva que não se traduz automaticamente em prática coletiva, a centralidade crescente da comunicação em detrimento da construção de estruturas materiais de luta, tudo isso aponta para um momento em que as mediações tradicionais se encontram desgastadas, mas continuam operando, enquanto alternativas efetivas ainda se apresentam de maneira fragmentária e instável.</p>
<p style="text-align: justify;">A tentação de resolver o impasse por meio de atalhos, seja pela aposta exclusiva na revolta imediata, seja pela confiança na direção estratégica de instâncias especializadas, seja pela crença na capacidade de disputar o espaço midiático como se ele fosse neutro, tende a reproduzir, sob novas formas, os limites já identificados. O desafio que se coloca não é escolher entre esses caminhos como se fossem alternativas isoladas, mas enfrentar a tarefa mais complexa de pensar e construir formas de organização que consigam articular experiência, elaboração e prática sem reintroduzir as separações que caracterizam a própria sociabilidade capitalista. A entrevista de Paulo Galo adquire um valor que ultrapassa o seu conteúdo imediato, funcionando como ponto de condensação de tensões que atravessam o presente: a distância entre palavra e ação, a captura de experiências de luta por circuitos de visibilidade, a persistência de formas políticas que já não respondem às condições atuais e a dificuldade de produzir novas formas que consigam se afirmar com consistência. Pensar essas tensões com rigor, sem concessões fáceis e sem simplificações, talvez seja uma das tarefas mais urgentes para qualquer projeto que pretenda ir além da reprodução das formas existentes e enfrentar, em termos efetivos, as condições que sustentam a dominação contemporânea.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são de Francis Bacon (1909 &#8211; 1992)</em></p>
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		<title>A armadilha do desarmamento em Gaza</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 May 2026 14:38:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Israel]]></category>
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					<description><![CDATA[ Os ataques contínuos de Israel e as restrições à ajuda humanitária transformaram o cessar-fogo em uma farsa. Agora, Israel condiciona a retirada do cessar-fogo à entrega total das armas do Hamas. Por Muhammad Shehada ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Muhammad Shehada</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Em um prédio de vários andares bombardeado no bairro de Tal Al-Hawa, na Cidade de Gaza, meu amigo Anas, sua esposa e sua filha de 3 anos estão abrigados em um apartamento no primeiro andar, sem portas nem janelas. A maioria das paredes desabou total ou parcialmente, assim como grande parte do teto da sala de estar. No centro do andar, há um buraco profundo aberto por uma bomba israelense de 900 kg que não explodiu.</p>
<p style="text-align: justify;">O prédio está crivado de balas. Os dois últimos andares foram repetidamente bombardeados e alvejados por tanques e drones israelenses, e o térreo foi quase completamente destruído. A escada não liga mais aos três andares superiores, deixando o prédio em risco de desabar a qualquer momento. Por enquanto, ele permanece de pé em meio a um mar de prédios totalmente arrasados.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há eletricidade, água encanada, esgoto ou banheiros em funcionamento. À noite, Anas dorme com um olho aberto para ficar de olho em ratos e camundongos que possam morder sua filha. Moscas, mosquitos e baratas também infestam o prédio, fazendo ninhos nas tubulações de esgoto destruídas e sob a vasta quantidade de entulho. Durante o dia, Anas e sua esposa passam o tempo procurando trabalho ou ajuda humanitária; seus sucessos são dolorosamente raros e mal dão para mantê-los vivos.</p>
<p style="text-align: justify;">O dia todo eles são atormentados pelo zumbido incessante de drones israelenses sobrevoando suas cabeças, <a class="urlextern" title="https://www.972mag.com/drones-grenades-gaza-chinese-autel/" href="https://www.972mag.com/drones-grenades-gaza-chinese-autel/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">prontos para atirar para matar</a>, bem como pelos sons de explosões, metralhadoras e demolições que ocorrem atrás da <a class="urlextern" title="https://www.972mag.com/gaza-yellow-line-expanding-israel/" href="https://www.972mag.com/gaza-yellow-line-expanding-israel/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Linha Amarela”</a> — a <a class="urlextern" title="https://www.972mag.com/gaza-yellow-line-expanding-israel/" href="https://www.972mag.com/gaza-yellow-line-expanding-israel/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">fronteira em expansão</a> que marca a ocupação direta de Israel de mais da metade do território de Gaza, que está sendo <a class="urlextern" title="https://www.aljazeera.com/news/2025/12/15/israel-demolishes-more-buildings-in-military-controlled-gaza-analysis" href="https://www.aljazeera.com/news/2025/12/15/israel-demolishes-more-buildings-in-military-controlled-gaza-analysis" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">sistematicamente arrasado</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é, na verdade, a vida de uma das famílias mais afortunadas de Gaza, pois pelo menos eles têm um teto sobre suas cabeças. Mais de seis meses após a assinatura do chamado “cessar-fogo”, a maioria dos palestinos na Faixa ainda vive em frágeis barracas de plástico que <a class="urlextern" title="https://www.972mag.com/photos-rainstorm-khan-younis-tents/" href="https://www.972mag.com/photos-rainstorm-khan-younis-tents/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">alagam quando chove</a>, retêm o calor sufocante quando o sol brilha forte demais e correm o risco de serem levadas por ventos moderados.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159163" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp1.jpg" alt="Armadilha do desarmamento" width="2569" height="807" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp1.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp1-300x94.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp1-1024x322.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp1-768x241.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp1-1536x482.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp1-2048x643.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp1-1337x420.jpg 1337w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp1-640x201.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp1-681x214.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2569px) 100vw, 2569px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Meus amigos, familiares e colegas no terreno têm se mostrado dispostos a suportar essa situação, contanto que acreditem que seja um sofrimento temporário no caminho para um futuro melhor. No entanto, eles estão cada vez mais internalizando a triste realidade de que <a class="urlextern" title="https://www.972mag.com/podcast-israel-emptied-half-of-gaza-whats-next/" href="https://www.972mag.com/podcast-israel-emptied-half-of-gaza-whats-next/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">não há fim à vista</a> para as condições deliberadamente insuportáveis ​​que Israel impôs a Gaza.</p>
<p style="text-align: justify;">Com a guerra entre EUA e Israel contra o Irã consumindo a atenção da mídia global e a energia diplomática, e <a class="urlextern" title="https://www.reuters.com/world/middle-east/trumps-gaza-plan-hold-iran-war-pauses-disarmament-talks-sources-say-2026-03-09/" href="https://www.reuters.com/world/middle-east/trumps-gaza-plan-hold-iran-war-pauses-disarmament-talks-sources-say-2026-03-09/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">efetivamente paralisando</a> o “plano de paz para Gaza” do presidente Trump, o enclave sitiado foi praticamente removido da agenda mundial — despriorizado por governos ocidentais e regionais e raramente mencionado na grande mídia. Mas, nos bastidores, as negociações sobre o desarmamento do Hamas continuaram.</p>
<p style="text-align: justify;">Tanto o governo israelense quanto o governo Trump têm apresentado consistentemente essa questão como o principal obstáculo para qualquer retirada israelense, obscurecendo o fato de que Israel mesmo não cumpriu seus principais compromissos sob o acordo. E, nas últimas semanas, o homem encarregado de supervisionar o processo de desarmamento fez novas exigências ao Hamas, alinhadas a Israel, que parecem ter sido elaboradas para serem impossíveis de serem aceitas, sabotando deliberadamente o cessar-fogo e permitindo que Israel continue seu genocídio sem impedimentos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">De promessas quebradas ao desarmamento total</h3>
<p style="text-align: justify;">Na primeira fase do cessar-fogo, o Hamas concordou em libertar todos os reféns israelenses restantes em troca da libertação dos prisioneiros palestinos, da retirada das forças israelenses para a Linha Amarela e do fim imediato de “todas as operações militares”.</p>
<p style="text-align: justify;">Após isso, Israel deveria facilitar a entrada em Gaza de uma Força Internacional de Estabilização (FIE) e do Comitê Nacional para a Administração de Gaza (CNAG), um mínimo de 600 caminhões de ajuda humanitária por dia e 200.000 tendas, juntamente com 60.000 moradias temporárias. A partir daí, as negociações para a segunda fase do cessar-fogo — que inclui novas retiradas israelenses e o desarmamento do Hamas — deveriam começar.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, seis meses depois, Israel ainda não cumpriu sua parte do acordo.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde o início do cessar-fogo, o exército israelense matou <a class="urlextern" title="https://www.msf.org/not-ceasefire-life-gaza-continues-be-suffocated-six-months#:~:text=As%20of%208%20April%202026%2C%20at%20least,ceasefire%20on%2010%20October%2C%20according%20to%20Gaza's" href="https://www.msf.org/not-ceasefire-life-gaza-continues-be-suffocated-six-months#:~:text=As%20of%208%20April%202026%2C%20at%20least,ceasefire%20on%2010%20October%2C%20according%20to%20Gaza's" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">mais de 750</a> palestinos; continuou a <a class="urlextern" title="https://www.haaretz.com/gaza/2026-03-19/ty-article/.premium/humanitarian-aid-trucks-entering-gaza-falls-80-percent-as-food-prices-surge/0000019d-0251-df92-a9df-ebd16eda0000" href="https://www.haaretz.com/gaza/2026-03-19/ty-article/.premium/humanitarian-aid-trucks-entering-gaza-falls-80-percent-as-food-prices-surge/0000019d-0251-df92-a9df-ebd16eda0000" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">restringir o fluxo</a> de ajuda humanitária; bombardeou Gaza por terra, ar e mar; impediu a entrada do CNAG; e recusou-se a permitir a entrada de moradias temporárias. E limitou até mesmo a entrada de tendas sob o pretexto ridículo de que o Hamas poderia reciclar a pequena quantidade de alumínio para produzir armas, apesar da própria inteligência israelense <a class="urlextern" title="https://www.mako.co.il/news-military/be11d799e08b8910/Article-2c24821e8a1da91026.htm" href="https://www.mako.co.il/news-military/be11d799e08b8910/Article-2c24821e8a1da91026.htm" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">demonstrar</a> que o Hamas não está se rearmando. (Israel também tem permitido a entrada de alimentos enlatados em Gaza, que o Hamas poderia igualmente reciclar para produzir armas, se quisesse).</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, em meio à fumaça da guerra com o Irã, Israel está propondo um truque simples: uma proposta maximalista para o desarmamento total e unilateral do Hamas e de todos os outros grupos armados em Gaza — sem garantias ou prazo para a retirada israelense, e sem a qual não haveria reconstrução no enclave. Agora, essa se tornou a exigência oficial do homem encarregado das negociações.</p>
<p style="text-align: justify;">A proposta foi entregue ao Hamas no Cairo, em meados de março, por Nickolay Mladenov, diretor-geral do Conselho de Paz do presidente Donald Trump e seu Alto Representante para Gaza. O Hamas conhece Mladenov há mais de uma década, desde sua atuação como Coordenador Especial da ONU para o Processo de Paz no Oriente Médio entre 2015 e 2020, e se encontrava com ele regularmente durante suas visitas a Gaza para tentar reduzir as tensões com Israel. Desta vez, porém, os líderes do Hamas ficaram chocados com sua conduta.</p>
<p style="text-align: justify;">O Hamas e outras facções palestinas (incluindo a Jihad Islâmica Palestina, a Frente Democrática para a Libertação da Palestina e a Frente Popular para a Libertação da Palestina) foram convidados para uma reunião em 14 de março com mediadores egípcios e catarianos sem serem informados da presença de Mladenov. Segundo um líder do Hamas presente na reunião, que falou sob condição de anonimato, eles só foram informados após chegarem à sala de reuniões.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159169 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp2.jpeg" alt="Armadilha do desarmamento" width="1500" height="1250" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp2.jpeg 1500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp2-300x250.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp2-1024x853.jpeg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp2-768x640.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp2-504x420.jpeg 504w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp2-640x533.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/pp2-681x568.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O líder do Hamas afirmou que Mladenov não se comportou da maneira que o grupo esperava, como diplomata da ONU. Falando com um tom condescendente, disse a fonte, ele apresentou um ultimato para que todas as facções palestinas em Gaza aceitassem o desarmamento total, tanto de armas pesadas quanto leves, sob pena de uma retomada da ofensiva israelense.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele fez a proposta oralmente, em vez de por escrito, e exigiu uma resposta imediata. As facções palestinas pediram mais tempo para consultas internas, e ele concedeu uma semana. Mladenov, que preside o Conselho Nacional de Segurança da Faixa de Gaza (NCAG), deixou claro que não permitiria a entrada do órgão administrativo em Gaza até que as facções armadas palestinas concordassem com sua iniciativa.</p>
<p style="text-align: justify;">A proposta de Mladenov, cuja cópia (anotada por mediadores) foi analisada pela revista +972, reescreve completamente o plano de Trump. O cronograma da proposta condiciona a suspensão dos ataques israelenses a Gaza à aceitação, pelo Hamas e outras facções palestinas, do princípio do desarmamento total. Da mesma forma, Mladenov tornou a aceitação do desarmamento total um pré-requisito para a entrada em Gaza tanto das Forças Internacionais de Estabilização (FIE) quanto do NCAG, bem como de quaisquer instalações temporárias.</p>
<p style="text-align: justify;">O plano também estipula o desarmamento total de armas pesadas e leves, e o desmantelamento completo de túneis ou outras infraestruturas militantes nos 58% de Gaza atualmente controlados pelos militares israelenses, dentro de 60 dias. Exige que o Hamas e outras facções forneçam todas as informações sobre a localização de sua infraestrutura nessas áreas, tudo isso sem qualquer retirada israelense ou mobilização das FIE. Durante esses 60 dias, as facções palestinas também são obrigadas a cessar todas as atividades militares, incluindo desfiles.</p>
<p style="text-align: justify;">Do 30º ao 90º dia, a Faixa de Gaza Ocidental, atualmente controlada pelo Hamas, também seria “limpa” de todas as armas “pesadas”. As facções palestinas teriam que entregar todos os seus foguetes, fuzis e dispositivos explosivos ao NCAG e permitir a destruição completa de todos os túneis e infraestrutura militares — novamente, sem qualquer retirada israelense.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante as negociações que antecederam o cessar-fogo de outubro, mediadores americanos e árabes distinguiram entre “armas ofensivas”, que representam uma ameaça a Israel, como foguetes ou túneis que cruzam para o território israelense, e “armas defensivas”, como armas de fogo que poderiam ser usadas para repelir uma invasão israelense, mas não para atacar Israel de dentro da Faixa de Gaza.</p>
<p style="text-align: justify;">A proposta de Mladenov introduziu os termos “armas pesadas” e “armas pessoais”. Todas as armas “pesadas” — incluindo até mesmo AK-47 e Kalashnikovs — teriam que ser entregues até o 90º dia, enquanto o exército israelense ainda controla 58% de Gaza e poderia invadir grande parte do restante em minutos.</p>
<p style="text-align: justify;">Do dia 91 ao 250, as forças de segurança do NCAG registrariam e recolheriam todas as “armas pessoais”, e somente após uma comissão de investigação verificar que Gaza está completamente livre de quaisquer armas — um processo bastante complexo — Israel faria uma retirada limitada e “gradual” ao longo de um período indefinido até a “Linha Vermelha”, que ainda lhe manteria o controle de cerca de 38% de Gaza.</p>
<p style="text-align: justify;">A remoção de escombros e a reconstrução, segundo a proposta de Mladenov, só começariam no dia 251. A partir desse dia, Israel começaria a se retirar em direção a um “perímetro de segurança” que lhe manteria o controle de 20% de Gaza, incluindo grande parte das terras agrícolas do enclave. Israel permaneceria lá indefinidamente até que “Gaza esteja devidamente segura contra qualquer ressurgimento da ameaça terrorista”, uma frase indefinida que poderia incluir a “desradicalização” como pré-requisito.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;">Uma fórmula para o controle permanente</h3>
<p style="text-align: justify;">As facções palestinas ficaram indignadas com a proposta de Mladenov. Algumas disseram aos mediadores que preferiam não negociar com ele em futuras conversas, argumentando que ele estava “ultrapassando os limites” de seu papel como coordenador entre o NCAG e o Conselho de Paz, segundo uma fonte do Hamas. Em uma publicação no X, o alto funcionário do Hamas, Basem Naim, <a class="urlextern" title="https://x.com/DrNaimbasem/status/2036875311149674944" href="https://x.com/DrNaimbasem/status/2036875311149674944" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">descreveu Mladenov</a> como “mais realista que o rei” (referindo-se ao fato de ele ter adotado completamente a posição de Israel) e o acusou de “querer atingir seus próprios objetivos às custas do nosso povo e de seus direitos legítimos, para agradar aos americanos e israelenses”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159178 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Screenshot-2026-05-05-at-11-28-05-Picture6.jpg.webp-imagem-WEBP-1430-×-1177-pixels-Redimensionada-54.png" alt="Armadilhas do desarmamento" width="781" height="643" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Screenshot-2026-05-05-at-11-28-05-Picture6.jpg.webp-imagem-WEBP-1430-×-1177-pixels-Redimensionada-54.png 781w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Screenshot-2026-05-05-at-11-28-05-Picture6.jpg.webp-imagem-WEBP-1430-×-1177-pixels-Redimensionada-54-300x247.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Screenshot-2026-05-05-at-11-28-05-Picture6.jpg.webp-imagem-WEBP-1430-×-1177-pixels-Redimensionada-54-768x632.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Screenshot-2026-05-05-at-11-28-05-Picture6.jpg.webp-imagem-WEBP-1430-×-1177-pixels-Redimensionada-54-510x420.png 510w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Screenshot-2026-05-05-at-11-28-05-Picture6.jpg.webp-imagem-WEBP-1430-×-1177-pixels-Redimensionada-54-640x527.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Screenshot-2026-05-05-at-11-28-05-Picture6.jpg.webp-imagem-WEBP-1430-×-1177-pixels-Redimensionada-54-681x561.png 681w" sizes="auto, (max-width: 781px) 100vw, 781px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Dois líderes do Hamas, que falaram sob condição de anonimato, me disseram que consideram essa proposta “catastrófica” e uma manobra de Netanyahu para retomar a guerra ou manter Gaza sob impasse. Assim, após receber uma prorrogação do ultimato inicial de uma semana, o Hamas apresentou sua resposta a Mladenov em meados de abril: antes de qualquer passo em direção ao desarmamento, <a class="urlextern" title="https://www.972mag.com/gaza-ceasefire-netanyahu-sabotage-ncag/" href="https://www.972mag.com/gaza-ceasefire-netanyahu-sabotage-ncag/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Israel deve primeiro cumprir todas as suas obrigações</a> da primeira fase do acordo de cessar-fogo.</p>
<p style="text-align: justify;">O Hamas e outras facções palestinas alegam que, se concordassem com o plano de Mladenov, simplesmente facilitariam o plano de Israel de completar seu genocídio. Incluir fuzis na primeira fase do desarmamento significa que as facções palestinas seriam incapazes de organizar qualquer insurgência ou resistência; como um líder do Hamas me disse: “Se Netanyahu mudar de ideia amanhã por causa das eleições [próximas] e decidir expulsar as Forças Internacionais de Estabilização e retomar Gaza, ele poderá fazê-lo em menos de 10 minutos”.</p>
<p style="text-align: justify;">As facções palestinas também acreditam que desarmar Gaza enquanto as forças israelenses ainda ocupam grandes partes da Faixa incentivaria ainda mais o movimento de colonos israelenses e o governo de extrema-direita a começar a construir assentamentos nas áreas controladas pelos militares. Colonos armados poderiam então invadir qualquer parte de Gaza e lançar pogroms, <a class="urlextern" title="https://www.972mag.com/topic/settler-pogroms/" href="https://www.972mag.com/topic/settler-pogroms/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">como fazem quase diariamente na Cisjordânia</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Igualmente preocupante para as facções palestinas é o fato de o plano de Mladenov conceder o monopólio da violência em Gaza ao NCAG, em vez da Autoridade Palestina (AP) ou da Organização pela Libertação da Palestina (OLP). Isso significa que as forças de segurança no terreno responderiam a Mladenov e Trump, e não a qualquer órgão palestino.</p>
<p style="text-align: justify;">O Reino Unido, o Egito e a Arábia Saudita <a class="urlextern" title="https://www.reuters.com/world/uk/britain-pushes-northern-ireland-model-disarming-gaza-2025-10-14/" href="https://www.reuters.com/world/uk/britain-pushes-northern-ireland-model-disarming-gaza-2025-10-14/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">têm pressionado</a> para que o modelo da Irlanda do Norte seja a base para o descomissionamento — em vez do desarmamento propriamente dito — em Gaza. Lá, o descomissionamento significava que o Exército Republicano Irlandês (IRA) e a Força Voluntária do Ulster (UVF) não precisavam se render ou se desarmar como pré-requisito para a paz; em vez disso, eles guardavam suas armas em depósitos, seguindo uma política rigorosa de não usá-las ou exibi-las. As armas, então, serviam como garantia de que o Acordo da Sexta-Feira Santa de 1998 seria cumprido.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, em 2001, o IRA suspendeu seu processo de desarmamento, alegando que o governo britânico havia descumprido a promessa de retirar as tropas da Irlanda do Norte. O IRA só se desarmou em 2005 e a UVF em 2009.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa sequência foi, na verdade, fundamental para o sucesso do processo. Como enfatizou posteriormente o ex-presidente irlandês Bertie Ahern, que supervisionou o desarmamento do IRA, “o descomissionamento acabou sendo encarado não como uma condição prévia para a participação nas negociações, mas como um resultado necessário”.</p>
<p style="text-align: justify;">O Hamas, assim como o IRA, considera seu armamento a única garantia da retirada israelense de Gaza. O grupo já <a class="urlextern" title="https://www.skynewsarabia.com/live-story/1659732/65089-%D8%AD%D9%85%D8%A7%D8%B3-%D9%85%D8%B3%D8%AA%D8%B9%D8%AF%D9%88%D9%86-%D9%84%D9%85%D9%86%D8%A7%D9%82%D8%B3%D8%A9-%D8%AA%D8%AC%D9%85%D9%8A%D8%AF-%D8%AA%D8%AE%D8%B2%D9%8A%D9%86-%D8%A7%D9%84%D8%B3%D9%84%D8%A7%D8%AD" href="https://www.skynewsarabia.com/live-story/1659732/65089-%D8%AD%D9%85%D8%A7%D8%B3-%D9%85%D8%B3%D8%AA%D8%B9%D8%AF%D9%88%D9%86-%D9%84%D9%85%D9%86%D8%A7%D9%82%D8%B3%D8%A9-%D8%AA%D8%AC%D9%85%D9%8A%D8%AF-%D8%AA%D8%AE%D8%B2%D9%8A%D9%86-%D8%A7%D9%84%D8%B3%D9%84%D8%A7%D8%AD" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">concordou</a> em guardar essas armas em depósitos e afirmou que as forças de segurança do NCAG podem atirar ou deter qualquer membro que use ou mesmo mostre uma arma em público. As armas permaneceriam guardadas por cinco a dez anos, ou mesmo indefinidamente, e seriam totalmente destruídas como resultado da paz, e não como condição prévia.</p>
<p style="text-align: justify;">O Hamas provavelmente tentaria reter o máximo possível de seu arsenal para preservar sua influência, coesão interna e posição regional. Contudo, sob crescente pressão dos estados árabes e em meio à profunda impopularidade em Gaza, o governo local quase certamente aceitaria um modelo de descomissionamento semelhante ao da Irlanda do Norte como forma de contornar as exigências maximalistas de Israel por rendição total.</p>
<p style="text-align: justify;">Netanyahu, porém, insiste que o desarmamento significa a entrega e destruição imediatas de <a class="urlextern" title="https://www.timesofisrael.com/liveblog_entry/netanyahu-says-hamas-must-surrender-all-its-rifles-for-trumps-peace-plan-to-advance/" href="https://www.timesofisrael.com/liveblog_entry/netanyahu-says-hamas-must-surrender-all-its-rifles-for-trumps-peace-plan-to-advance/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">60.000 armas de fogo leves</a> em Gaza.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159179 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Screenshot-2026-05-05-at-11-31-05-imagem-JPEG-443-×-570-pixels.png" alt="Armadilhas do desarmamento" width="443" height="570" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Screenshot-2026-05-05-at-11-31-05-imagem-JPEG-443-×-570-pixels.png 443w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Screenshot-2026-05-05-at-11-31-05-imagem-JPEG-443-×-570-pixels-233x300.png 233w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Screenshot-2026-05-05-at-11-31-05-imagem-JPEG-443-×-570-pixels-326x420.png 326w" sizes="auto, (max-width: 443px) 100vw, 443px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Os Emirados Árabes Unidos também têm pressionado pelo desarmamento total e completo de Gaza para garantir que o Hamas — que consideram um braço da Irmandade Muçulmana — não tenha chance de retomar ou permanecer no poder e para transformar o grupo em um exemplo de advertência para os defensores da resistência na região. Os emiratis também acreditam que isso representaria um golpe para o Eixo da Resistência do Irã.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas essa exigência é cínica. Se o Hamas a rejeitar, terá que assumir a culpa pelo destino sombrio de Gaza. Mesmo que o grupo a aceite, o processo de recolhimento de todas as armas leves em Gaza é complexo e quase impossível de verificar.</p>
<p style="text-align: justify;">Diversas tribos e clãs estão armados, juntamente com várias facções menores e mais radicais que o Hamas. Além disso, durante o genocídio israelense, armas leves caíram nas mãos de criminosos, gangues ou indivíduos aleatórios em meio ao caos. Israel sempre pode alegar ter informações sobre uma célula armada remanescente ou sobre alguns AK-47 ainda não recolhidos, e usar isso como desculpa para manter sua ocupação de Gaza.</p>
<p style="text-align: justify;">Nessa situação, Mladenov desempenha três funções. Além de seu cargo como Alto Representante, ele é pesquisador visitante no Washington Institute for Near East Policy, um think tank pró-Israel <a class="urlextern" title="https://books.google.co.uk/books?id=ppQX6EcgZkcC&amp;pg=PA164&amp;redir_esc=y#v=onepage&amp;q&amp;f=false" href="https://books.google.co.uk/books?id=ppQX6EcgZkcC&amp;pg=PA164&amp;redir_esc=y#v=onepage&amp;q&amp;f=false" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">apoiado pelo AIPAC</a> [organização de lobby israelense nos EUA]. Ele também é o diretor-geral da Academia Diplomática Anwar Gargash, nos Emirados Árabes Unidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Falando anonimamente, duas fontes próximas ao NCAG disseram ao +972 que Mladenov nomeou os comissários do NCAG como “contratados” da Academia Anwar Gargash, o que significa que eles recebem seus salários diretamente da instituição. Outra fonte próxima ao chefe do NCAG, Ali Shaath, afirmou que cada comissário recebe cerca de US$ 18.000 por mês como salário.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar desse salário generoso, esses comissários são essencialmente um governo no exílio que opera apenas no papel. Mais de 100 dias após a criação do NCAG, eles permanecem no escuro até mesmo sobre os mínimos detalhes, como a localização de seus escritórios ou onde morariam e dormiriam caso cruzassem para Gaza. Sua legitimidade e popularidade nas ruas estão se esgotando rapidamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, para os habitantes de Gaza, Israel e seus aliados transformaram o desarmamento em um pré-requisito para a sobrevivência, exigindo que eles entreguem sua única moeda de troca enquanto os tanques israelenses permanecem em seu território e seus drones sobrevoam a região. Este não é um caminho para a reconstrução; é uma armadilha disfarçada de linguagem diplomática, uma fórmula para a subjugação permanente, onde os palestinos precisam provar sua absoluta e verificável indefesa antes mesmo que Israel finja se retirar.</p>
<p style="text-align: justify;">O sofrimento de Gaza não é moeda de troca; é um crime. E enquanto o mundo não o reconhecer como tal — sem pré-condições, sem ressalvas e sem antes pedir às vítimas que entreguem a última coisa que impede seu extermínio — Anas e sua família, e milhares como eles, permanecerão exatamente onde estão: presos sob um céu aberto, aguardando uma justiça que sabe seu endereço, mas se recusa a bater à porta.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159180 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Screenshot-2026-05-05-at-11-33-08-Shoreless-Sea-37.jpeg-imagem-JPEG-700-×-537-pixels.png" alt="Armadilhas do desarmamento" width="700" height="537" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Screenshot-2026-05-05-at-11-33-08-Shoreless-Sea-37.jpeg-imagem-JPEG-700-×-537-pixels.png 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Screenshot-2026-05-05-at-11-33-08-Shoreless-Sea-37.jpeg-imagem-JPEG-700-×-537-pixels-300x230.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Screenshot-2026-05-05-at-11-33-08-Shoreless-Sea-37.jpeg-imagem-JPEG-700-×-537-pixels-547x420.png 547w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Screenshot-2026-05-05-at-11-33-08-Shoreless-Sea-37.jpeg-imagem-JPEG-700-×-537-pixels-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Screenshot-2026-05-05-at-11-33-08-Shoreless-Sea-37.jpeg-imagem-JPEG-700-×-537-pixels-640x491.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Screenshot-2026-05-05-at-11-33-08-Shoreless-Sea-37.jpeg-imagem-JPEG-700-×-537-pixels-681x522.png 681w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>Muhammad Shehada é um escritor e analista político de Gaza, além de pesquisador visitante do Conselho Europeu de Relações Exteriores.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Traduzido de: </em><a class="urlextern" title="https://www.972mag.com/gaza-disarmament-trap-israel-ceasefire/" href="https://www.972mag.com/gaza-disarmament-trap-israel-ceasefire/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.972mag.com/gaza-disarmament-trap-israel-ceasefire/</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de Tayseer Barakat (1959-).</em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Como o hipermilitarismo permeia o cotidiano em Israel</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Apr 2026 20:05:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Israel]]></category>
		<category><![CDATA[Nacionalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[ Do sagrado ao mundano, a iconografia militar permeia a esfera pública israelense — moldando nossa imaginação, nossos desejos e nossa identidade coletiva. Por Nissi Peli]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Nissi Peli</h3>
<p style="text-align: justify;">Em certo momento do ensino fundamental, uma fantasia bizarra se formou em minha mente: eu desejava morrer heroicamente como soldado de combate no exército israelense, ter minha foto pendurada nos corredores da escola como o primeiro soldado morto em combate e ser lembrado todos os anos no Dia da Lembrança.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando terminei o ensino médio, minha consciência política já começava a se formar. Mesmo assim, eu me apegava ao credo sionista liberal de que eu poderia ser um bom e moral soldado, e mudar o sistema por dentro. Quando fui convocado para o corpo blindado, logo percebi a impossibilidade disso e, depois de alguns meses, consegui uma dispensa médica.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, por alguns anos após deixar o exército, tive pesadelos recorrentes sobre ser recrutado novamente. Em um sonho particularmente vívido, quando tinha 20 anos e morava em Berlim, olhei pela janela e vi toda a minha turma do ensino fundamental e minha professora lá embaixo. Eles gritavam que minha dispensa havia sido cancelada e que eu tinha que voltar imediatamente com eles para me alistar novamente, porque a guerra havia começado.</p>
<p style="text-align: justify;">A sociedade israelense contemporânea é caracterizada pelo <a class="urlextern" title="https://www.972mag.com/topic/israeli-militarism/" href="https://www.972mag.com/topic/israeli-militarism/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">hipermilitarismo</a>. Essa forma de militarismo não é meramente uma filosofia política: é um estado de espírito que estrutura fundamentalmente o eu, moldando nossa imaginação, pensamentos, desejos, relacionamentos e senso de coletividade como israelenses. Quase tudo é percebido e compreendido em termos, valores e imagens militares, enquanto um estado permanente de emergência e guerra se torna a ordem natural.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa ideologia abrange todo o espectro israelense, desde o militarismo espiritual e teológico dos jovens das colinas e dos colonos religiosos até o militarismo secular e liberal que se destaca entre a burguesia israelense. Em praticamente qualquer fase da vida, os israelenses se veem e veem aqueles ao seu redor através de uma lente militar: como futuros soldados (como jovens pré-militares e, posteriormente, como potenciais reservistas), soldados da ativa ou ex-soldados.</p>
<figure id="attachment_159093" aria-describedby="caption-attachment-159093" style="width: 1298px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159093 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto1.jpg" alt="" width="1298" height="860" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto1.jpg 1298w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto1-300x199.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto1-1024x678.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto1-768x509.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto1-634x420.jpg 634w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto1-640x424.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto1-681x451.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1298px) 100vw, 1298px" /><figcaption id="caption-attachment-159093" class="wp-caption-text">À esquerda: Um anúncio de 2018 do Hospital Materno-Infantil Lis, de Ichilov, apresentando a ilustração de um bebê saudando com uma boina do exército, acompanhada do texto: “Destinatário do Prêmio de Excelência do Presidente para o ano de 2038 (provavelmente nascerá em Lis)”. Esse prêmio, uma das mais prestigiosas honrarias militares de Israel, é concedido anualmente a 120 soldados das Forças de Defesa de Israel. (Captura de tela). À direita: Uma campanha de 2022 da organização sem fins lucrativos “Um Israelense de Verdade Não Evade”. A palavra Mishtamet (evasor do serviço militar) tem uma conotação pejorativa única em hebraico. O pôster da campanha mostra a mão de uma pessoa idosa marcada com uma tatuagem de Auschwitz, segurando uma placa de identificação militar, ao lado do texto: “Saiba de onde você veio e para onde você vai”. (Captura de tela)</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Mesmo aqueles que não se alistam, ou que são dispensados ​​do serviço militar obrigatório mais tarde, são vistos em relação ao exército e tratados como párias pela maioria da sociedade israelense. Objetores de consciência enfrentam não apenas prisão, mas também <a class="urlextern" title="https://www.972mag.com/israeli-army-refusers-gaza-genocide/" href="https://www.972mag.com/israeli-army-refusers-gaza-genocide/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">hostilidade e incitação constantes</a>, enquanto políticos de todo o espectro ocasionalmente <a class="urlextern" title="https://www.timesofisrael.com/lapid-says-hell-push-for-revoking-ultra-orthodox-draft-dodgers-right-to-vote/" href="https://www.timesofisrael.com/lapid-says-hell-push-for-revoking-ultra-orthodox-draft-dodgers-right-to-vote/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">ameaçam</a> retirar os direitos civis daqueles que se recusam a “compartilhar o fardo”.</p>
<p style="text-align: justify;">Muito já se falou sobre a <a class="urlextern" title="https://www.972mag.com/podcast-israel-militarism/" href="https://www.972mag.com/podcast-israel-militarism/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">sociologia do militarismo em Israel</a>: como oficiais militares de alta patente frequentemente se tornam políticos bem-sucedidos; como jornalistas recebem treinamento em unidades de mídia militar; como cafés, bares e trens estão lotados de soldados e civis com armaduras; e como o sistema educacional participa da doutrinação militarista e dos esforços de recrutamento do exército. O que muitas vezes passa despercebido, no entanto, é a maneira como <a class="urlextern" title="https://www.972mag.com/memorial-stickers-israel-soldiers-gaza-war/" href="https://www.972mag.com/memorial-stickers-israel-soldiers-gaza-war/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">o militarismo permeia o cotidiano em Israel</a> em suas formas mais banais — uma fenomenologia do cotidiano militarizado.</p>
<figure id="attachment_159094" aria-describedby="caption-attachment-159094" style="width: 1298px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159094" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto2.jpg" alt="" width="1298" height="767" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto2.jpg 1298w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto2-300x177.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto2-1024x605.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto2-768x454.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto2-711x420.jpg 711w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto2-640x378.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto2-681x402.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1298px) 100vw, 1298px" /><figcaption id="caption-attachment-159094" class="wp-caption-text">À esquerda: Placa de sinalização em uma rodovia israelense com os dizeres: “Rodovia 16: o tráfego está fluindo. Juntos, venceremos!”, 25 de novembro de 2024 (Nissi Peli). À direita: Bandeiras exibindo insígnias de unidades do exército israelense instaladas pela prefeitura de Ramat Gan, 12 de novembro de 2024. (Nissi Peli).</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Parte disso se deve à mercantilização do militarismo em uma sociedade capitalista. Às vezes, ele é vendido diretamente: por exemplo, cursos que preparam jovens para ingresso em funções militares nas áreas de cibersegurança ou inteligência, ou treinamento de “condicionamento físico para combate” para unidades de elite. Um cartaz de recrutamento recente, direcionado a adolescentes que frequentam a praia dizia: “Se perguntarem, estou no mar com amigos. Acha que possui o fator MAR? Venha provar seu valor em um dos Gibushim da Marinha” — seminários de treinamento físico e mental de vários dias para unidades militares de elite.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, com mais frequência, o militarismo serve como plataforma para vender outros produtos. Inúmeros anúncios não apenas mostram soldados usando as mercadorias, mas também exploram a carga emocional do militarismo na sociedade israelense: o “heroísmo” e o “patriotismo” dos soldados que servem em combate, a nostalgia dos soldados que retornam para casa para suas famílias no fim de semana e até mesmo seu apelo sexual.</p>
<figure id="attachment_159095" aria-describedby="caption-attachment-159095" style="width: 1298px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159095" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto3.jpg" alt="" width="1298" height="831" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto3.jpg 1298w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto3-300x192.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto3-1024x656.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto3-768x492.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto3-656x420.jpg 656w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto3-640x410.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto3-681x436.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1298px) 100vw, 1298px" /><figcaption id="caption-attachment-159095" class="wp-caption-text">À esquerda: Foto de perfil de um soldado israelense em um aplicativo de namoro. (Captura de tela). À direita: Um anúncio da empresa de limpeza “Cleaning Fighters”, apresentando soldados israelenses sentados em um cenário urbano devastado, provavelmente em Gaza, com o título: “Em breve, limpeza de sofás em Gaza.” (Captura de tela).</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Considere, por exemplo, um anúncio recente de uma empresa israelense de lubrificantes: para o Dia Internacional da Mulher, ela publicou uma série de imagens retratando mulheres soldados (entre elas, uma piloto de caça e uma soldado uniformizada usando a bandana vermelha da Rosie Rebitadeira), cada uma segurando um frasco de lubrificante, acompanhada da legenda: “Ei, gata, você é uma super-heroína”. Ou veja os inúmeros perfis (principalmente masculinos) em aplicativos de namoro que apresentam fotos em uniforme militar, às vezes tendo como pano de fundo a Gaza destruída. Em um desses perfis que encontrei recentemente, um atirador de elite da reserva é fotografado apontando seu rifle para fora da janela de uma casa destruída em Gaza ou no Líbano.</p>
<figure id="attachment_159096" aria-describedby="caption-attachment-159096" style="width: 1298px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159096" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto4.jpg" alt="" width="1298" height="661" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto4.jpg 1298w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto4-300x153.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto4-1024x521.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto4-768x391.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto4-825x420.jpg 825w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto4-640x326.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/foto4-681x347.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1298px) 100vw, 1298px" /><figcaption id="caption-attachment-159096" class="wp-caption-text">Campanha publicitária online da empresa israelense de lubrificantes Noom. (Captura de tela).</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Nessa última Páscoa Judaica, os clientes dos supermercados israelenses podiam encontrar “Matzá do Heroísmo” e “Matzá dos Leões em Levantamento” (em referência ao nome que Israel deu à sua guerra de junho contra o Irã), com imagens de soldados, bombardeiros B-2 e aviões F-15 “a caminho de bombardear o Irã”. Em um café de Tel Aviv, encontra-se um profiterole com o nome de um soldado morto em combate, uma tendência recente em Israel de nomear alimentos e bebidas para “honrar” os falecidos.</p>
<p style="text-align: justify;">O hipermilitarismo deixa pouco espaço para algo além da guerra eterna. De fato, o Primeiro-Ministro israelense, Benjamin Netanyahu, admitiu isso em setembro, quando argumentou que Israel precisa se tornar uma “super-Esparta”, garantindo a autossuficiência econômica e expandindo a produção nacional de armamentos para lidar com o crescente “isolamento diplomático” do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Somente desmantelando essa ideologia — especialmente o mito de que o militarismo sionista garante, ao invés de ameaçar, a segurança dos judeus — poderemos começar a caminhar rumo a um futuro diferente, mais justo e próspero tanto para judeus quanto para palestinos.</p>
<p style="text-align: justify;">Para mais exemplos, visite a página do <a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/militarized_realism/" href="https://www.instagram.com/militarized_realism/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"><em>Realismo Militarizado</em> no Instagram</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Nissi Peli é escritor e ativist do New Profile &#8211; Movimento para a Desmilitarização da Sociedade Israelense.</em></strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Traduzido de: <a class="urlextern" title="https://www.972mag.com/israel-hypermilitarism-everyday-life/" href="https://www.972mag.com/israel-hypermilitarism-everyday-life/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.972mag.com/israel-hypermilitarism-everyday-life/</a></p>
</blockquote>
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		<title>[São Paulo] Carta em resposta aos ataques à EMEI Pagu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Apr 2026 22:52:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
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					<description><![CDATA[Educadores respondem à perseguição feita pelo Brasil Paralelo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Sandra</h3>
<p style="text-align: justify;">Os espaços da EMEI Patrícia Galvão foram solicitados via processo SEI pela PMSP para uma obra audiovisual referente à Educação Infantil. No processo havia a determinação de que a não aceitação só poderia estar associada ao que previa o artigo 14,<br />
§3º, do Decreto Municipal nº 56.905/2016 que, em linhas gerais, referia-se à impossibilidade comprovada das condições para filmagens e gravações ou, se por incompatibilidade de agenda, deveríamos propor outra data.</p>
<p style="text-align: justify;">A informação que recebemos era a de que a rotina não seria alterada e como não tínhamos impossibilidade comprovada, não cabia margem para deliberação. Ironicamente, caso a EMEI PAGU estivesse nas condições em que se encontrava há um ano, teríamos impossibilidade comprovada, afinal, tínhamos um esgoto a céu aberto no interior da escola.</p>
<p style="text-align: justify;">Até aqui, nenhuma novidade: não problematizamos porque, genuinamente, o nosso entendimento era de que se tratava de uma demanda institucional e pedagógica da SME encaminhada pela DRE.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, em nenhum momento nos foi informado o teor do material a ser produzido, mesmo quando da visita técnica realizada pelos responsáveis, juntamente com a representante do SPCine, ocasião em que ao serem questionados responderam vagamente, tal qual descrito no relatório de visita técnica em que consta o nome da produção “Educação Infantil”.</p>
<p style="text-align: justify;">Na noite anterior à data marcada para a agravação, fomos surpreendidas por um termo de anuência em nome da Brasil Paralelo&#8230; Sim!!! Era a produtora responsável por vídeos de caráter marcadamente ideológico, em que diversas produções têm por objetivo descaracterizar e objetificar o ensino público pejorativamente.<br />
Imediatamente entramos em contato com a DRE e SPCine, pois enfim entendíamos que esta seria uma razão que justificasse a negativa, ainda mais porque, em pesquisa nas redes sociais da empresa, identificamos o que nos foi confirmado pelos profissionais na ocasião das gravações: as imagens vão compor o documentário &#8220;Pedagogia do Abandono&#8221;<br />
&#8211; Entre ideologia, baixa qualidade e centralização estatal&#8221;, ou seja, trata-se de uma produção onde vão associar as imagens da nossa escola a entrevistas feitas com pessoas aleatórias que sequer são educadoras para exemplificação da péssima qualidade da educação infantil paulistana. (Explicação dada pelos profissionais responsáveis pela gravação).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159047" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem1.jpg" alt="" width="156" height="220" /><br />
As respostas que obtivemos foram “que nem a DRE poderia recusar, uma vez que se tratava de condução da PMSP”, “que recusar seria censurar a livre expressão e que não havia problemas em falarem mal da educação pública, já que a Rede Globo faz este serviço o tempo todo”. Tentaram nos tranquilizar dizendo que nossos nomes e o nome da escola não seriam expostos e que eu, diretora da escola, ficaria “mal-vista” diante das objeções.</p>
<p style="text-align: justify;">Vejam que o próprio cartaz de divulgação da produção já apresenta o teor e o afastamento com a realidade da educação pública municipal. Há uma criança em uma carteira de sala de aula, de fronte a uma lousa, como se estivesse copiando um texto, em detrimento de brinquedos posicionados atrás da cadeira, cena paradoxal ao Currículo da Cidade &#8211; Educação Infantil, que afirma que a escola de educação infantil deve propiciar contextos de uso social da escrita e da leitura, para que a hierarquização dessas linguagens não silencie as demais.</p>
<p style="text-align: justify;">Os processos específicos de alfabetização da linguagem escrita serão desenvolvidos a partir do Ensino Fundamental. O posicionamento das carteiras no cartaz também denota a ignorância quanto ao tema, uma vez que os espaços na educação infantil paulistana são voltados ao desenvolvimento das diversas linguagens, do brincar e da experimentação de novas possibilidades, posicionando mesas que articulem as crianças de acordo com a proposta das(os) educadoras(es), mas jamais enfileiradas de forma cartesiana voltadas para a lousa.</p>
<p style="text-align: justify;">Informamos ao profissional da produtora que não sabíamos o teor do documentário e ele nos comunicou que o &#8220;briefing&#8221; havia sido enviado à Prefeitura, o que não chegou à escola. Apesar da tensão, das problematizações e da manifestação da nossa profunda decepção ao constatar que um tema tão importante como a qualidade da escola fosse apresentado pela Brasil Paralelo autorizada pela PMSP, as gravações aconteceram como havia sido combinado: “espaços sem a presença das crianças”.</p>
<p style="text-align: justify;">No mesmo dia acessamos mais informações sobre o documentário que pretendem lançar no dia 20/04 e, não mais para a nossa surpresa, identificamos que se trata de um projeto para destruir a educação pública, bem como a imagem de Paulo Freire com identificações muito equivocadas. Será que há, nesta proposição, uma tentativa de contribuir com as ideias de que a terceirização/privatização da Educação Infantil seria a solução para uma educação de qualidade? Será? (A dúvida contém ironia).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159046" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2.png" alt="" width="1297" height="715" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2.png 1297w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-300x165.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-1024x565.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-768x423.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-762x420.png 762w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-640x353.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-681x375.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1297px) 100vw, 1297px" /><br />
Não satisfeitos, produziram um vídeo para divulgar o documentário se aproveitando do momento em que foram impedidos de gravar em um espaço onde se encontravam as crianças que temos o dever de proteger, tanto a sua integridade quanto os seus direitos. Estava estabelecido que não seriam feitas filmagens em espaços onde as crianças estivessem, o que teria sido descumprido se não tivessem sido impedidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem, este texto serve a duas finalidades: a primeira é a elucidação dos fatos ocorridos à comunidade da EMEI Patrícia Galvão, às escolas parceiras do Território Educativo das Travessias, às escolas todas da Rede e a quem mais possa interessar; a outra finalidade é afirmar com muita convicção que o fechamento da porta não tinha a ver com o fato de querermos esconder que a Pagu se inspira e se apoia na vida e obra de Paulo Freire, pois esta concepção é fruto de muito estudo e motivo de orgulho; aliás, trata-se de uma Rede Municipal inteira que tem Paulo Freire em seus PPPs, seus currículos, planejamentos e sonhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Falta de discernimento ou muita pretensão uma produtora achar que tínhamos preocupação que ela não gravasse Paulo Freire estampado em nossas paredes? Comunico que se estão procurando evidências, acessem os muitos Projetos Políticos Pedagógicos das escolas da cidade, são documentos disponíveis.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159045" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem3.jpg" alt="" width="282" height="348" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem3.jpg 282w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem3-243x300.jpg 243w" sizes="auto, (max-width: 282px) 100vw, 282px" />É lamentável que, com tantos sonhos e tanto por fazer, precisemos interromper nossas ações cotidianas para lidar com esses ataques que nos deixam abatidas por uma fração do tempo e nos faz retomar&#8230; Sempre com mais força! Por fim, o recado é este:</p>
<p style="text-align: justify;">“Não haverá nenhuma resposta geral, radical, toda. Apenas sinais, singularidades, pedaços,<br />
Brilhos passageiros, ainda que francamente luminosos.<br />
Vaga-lumes”.<br />
Georges Didi-Huberman</p>
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