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	<title>Noticiar &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>[São Paulo] Carta em resposta aos ataques à EMEI Pagu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Apr 2026 22:52:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
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					<description><![CDATA[Educadores respondem à perseguição feita pelo Brasil Paralelo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Sandra</h3>
<p style="text-align: justify;">Os espaços da EMEI Patrícia Galvão foram solicitados via processo SEI pela PMSP para uma obra audiovisual referente à Educação Infantil. No processo havia a determinação de que a não aceitação só poderia estar associada ao que previa o artigo 14,<br />
§3º, do Decreto Municipal nº 56.905/2016 que, em linhas gerais, referia-se à impossibilidade comprovada das condições para filmagens e gravações ou, se por incompatibilidade de agenda, deveríamos propor outra data.</p>
<p style="text-align: justify;">A informação que recebemos era a de que a rotina não seria alterada e como não tínhamos impossibilidade comprovada, não cabia margem para deliberação. Ironicamente, caso a EMEI PAGU estivesse nas condições em que se encontrava há um ano, teríamos impossibilidade comprovada, afinal, tínhamos um esgoto a céu aberto no interior da escola.</p>
<p style="text-align: justify;">Até aqui, nenhuma novidade: não problematizamos porque, genuinamente, o nosso entendimento era de que se tratava de uma demanda institucional e pedagógica da SME encaminhada pela DRE.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, em nenhum momento nos foi informado o teor do material a ser produzido, mesmo quando da visita técnica realizada pelos responsáveis, juntamente com a representante do SPCine, ocasião em que ao serem questionados responderam vagamente, tal qual descrito no relatório de visita técnica em que consta o nome da produção “Educação Infantil”.</p>
<p style="text-align: justify;">Na noite anterior à data marcada para a agravação, fomos surpreendidas por um termo de anuência em nome da Brasil Paralelo&#8230; Sim!!! Era a produtora responsável por vídeos de caráter marcadamente ideológico, em que diversas produções têm por objetivo descaracterizar e objetificar o ensino público pejorativamente.<br />
Imediatamente entramos em contato com a DRE e SPCine, pois enfim entendíamos que esta seria uma razão que justificasse a negativa, ainda mais porque, em pesquisa nas redes sociais da empresa, identificamos o que nos foi confirmado pelos profissionais na ocasião das gravações: as imagens vão compor o documentário &#8220;Pedagogia do Abandono&#8221;<br />
&#8211; Entre ideologia, baixa qualidade e centralização estatal&#8221;, ou seja, trata-se de uma produção onde vão associar as imagens da nossa escola a entrevistas feitas com pessoas aleatórias que sequer são educadoras para exemplificação da péssima qualidade da educação infantil paulistana. (Explicação dada pelos profissionais responsáveis pela gravação).</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159047" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem1.jpg" alt="" width="156" height="220" /><br />
As respostas que obtivemos foram “que nem a DRE poderia recusar, uma vez que se tratava de condução da PMSP”, “que recusar seria censurar a livre expressão e que não havia problemas em falarem mal da educação pública, já que a Rede Globo faz este serviço o tempo todo”. Tentaram nos tranquilizar dizendo que nossos nomes e o nome da escola não seriam expostos e que eu, diretora da escola, ficaria “mal-vista” diante das objeções.</p>
<p style="text-align: justify;">Vejam que o próprio cartaz de divulgação da produção já apresenta o teor e o afastamento com a realidade da educação pública municipal. Há uma criança em uma carteira de sala de aula, de fronte a uma lousa, como se estivesse copiando um texto, em detrimento de brinquedos posicionados atrás da cadeira, cena paradoxal ao Currículo da Cidade &#8211; Educação Infantil, que afirma que a escola de educação infantil deve propiciar contextos de uso social da escrita e da leitura, para que a hierarquização dessas linguagens não silencie as demais.</p>
<p style="text-align: justify;">Os processos específicos de alfabetização da linguagem escrita serão desenvolvidos a partir do Ensino Fundamental. O posicionamento das carteiras no cartaz também denota a ignorância quanto ao tema, uma vez que os espaços na educação infantil paulistana são voltados ao desenvolvimento das diversas linguagens, do brincar e da experimentação de novas possibilidades, posicionando mesas que articulem as crianças de acordo com a proposta das(os) educadoras(es), mas jamais enfileiradas de forma cartesiana voltadas para a lousa.</p>
<p style="text-align: justify;">Informamos ao profissional da produtora que não sabíamos o teor do documentário e ele nos comunicou que o &#8220;briefing&#8221; havia sido enviado à Prefeitura, o que não chegou à escola. Apesar da tensão, das problematizações e da manifestação da nossa profunda decepção ao constatar que um tema tão importante como a qualidade da escola fosse apresentado pela Brasil Paralelo autorizada pela PMSP, as gravações aconteceram como havia sido combinado: “espaços sem a presença das crianças”.</p>
<p style="text-align: justify;">No mesmo dia acessamos mais informações sobre o documentário que pretendem lançar no dia 20/04 e, não mais para a nossa surpresa, identificamos que se trata de um projeto para destruir a educação pública, bem como a imagem de Paulo Freire com identificações muito equivocadas. Será que há, nesta proposição, uma tentativa de contribuir com as ideias de que a terceirização/privatização da Educação Infantil seria a solução para uma educação de qualidade? Será? (A dúvida contém ironia).</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159046" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2.png" alt="" width="1297" height="715" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2.png 1297w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-300x165.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-1024x565.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-768x423.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-762x420.png 762w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-640x353.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-681x375.png 681w" sizes="(max-width: 1297px) 100vw, 1297px" /><br />
Não satisfeitos, produziram um vídeo para divulgar o documentário se aproveitando do momento em que foram impedidos de gravar em um espaço onde se encontravam as crianças que temos o dever de proteger, tanto a sua integridade quanto os seus direitos. Estava estabelecido que não seriam feitas filmagens em espaços onde as crianças estivessem, o que teria sido descumprido se não tivessem sido impedidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem, este texto serve a duas finalidades: a primeira é a elucidação dos fatos ocorridos à comunidade da EMEI Patrícia Galvão, às escolas parceiras do Território Educativo das Travessias, às escolas todas da Rede e a quem mais possa interessar; a outra finalidade é afirmar com muita convicção que o fechamento da porta não tinha a ver com o fato de querermos esconder que a Pagu se inspira e se apoia na vida e obra de Paulo Freire, pois esta concepção é fruto de muito estudo e motivo de orgulho; aliás, trata-se de uma Rede Municipal inteira que tem Paulo Freire em seus PPPs, seus currículos, planejamentos e sonhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Falta de discernimento ou muita pretensão uma produtora achar que tínhamos preocupação que ela não gravasse Paulo Freire estampado em nossas paredes? Comunico que se estão procurando evidências, acessem os muitos Projetos Políticos Pedagógicos das escolas da cidade, são documentos disponíveis.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159045" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem3.jpg" alt="" width="282" height="348" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem3.jpg 282w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem3-243x300.jpg 243w" sizes="(max-width: 282px) 100vw, 282px" />É lamentável que, com tantos sonhos e tanto por fazer, precisemos interromper nossas ações cotidianas para lidar com esses ataques que nos deixam abatidas por uma fração do tempo e nos faz retomar&#8230; Sempre com mais força! Por fim, o recado é este:</p>
<p style="text-align: justify;">“Não haverá nenhuma resposta geral, radical, toda. Apenas sinais, singularidades, pedaços,<br />
Brilhos passageiros, ainda que francamente luminosos.<br />
Vaga-lumes”.<br />
Georges Didi-Huberman</p>
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		<title>Irã e Gaza são apenas o começo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Apr 2026 17:23:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Israel]]></category>
		<category><![CDATA[Médio_Oriente]]></category>
		<category><![CDATA[Nacionalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[ A identidade judaica e o nacionalismo judaico são as versões sionistas da ideologia nazista de “sangue e solo”. Por Chris Hedges]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Chris Hedges</h3>
<p style="text-align: justify;">O genocídio em Gaza é o começo. Bem-vindo à nova ordem mundial. A era da barbárie tecnologicamente avançada. Não existem regras para os fortes, apenas para os fracos. Oponha-se ao forte, recuse-se a curvar-se às suas exigências caprichosas e você receberá uma chuva de mísseis e bombas. Assistimos a essa loucura diariamente com a guerra contra o Irã, o bombardeio de saturação do sul do Líbano e o sofrimento em Gaza.</p>
<p style="text-align: justify;">Órgãos internacionais como as Nações Unidas foram castrados, transformados em apêndices inúteis de outra época. A santidade dos direitos individuais, as fronteiras abertas e o direito internacional desapareceram. Os governantes mais psicopatas da história humana, aqueles que reduziram cidades a cinzas, que levaram populações aprisionadas a locais de execução e a terras desvastadas que ocuparam com valas e cadáveres em massa, voltaram com uma vingança, abrindo um vasto abismo moral.</p>
<p style="text-align: justify;">A lei, apesar de alguns esforços valentes de um punhado de juízes &#8212; que em breve serão expurgados &#8212;, internamente e em organismos internacionais como o Tribunal Internacional de Justiça, é desprezada e violada. Selvageria no exterior. Selvagem em casa.</p>
<p style="text-align: justify;">Lucy Williamson, da BBC, relata que Israel está destruindo o sul do Líbano “usando Gaza como modelo &#8212; um plano para destruição usado novamente como um caminho para a paz”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais de 1 milhão de pessoas já foram deslocadas no Líbano &#8212; um quinto de toda a população de um país que já abriga o maior número mundial de refugiados per capita &#8212; em apenas algumas semanas. Some-se a isso 2 milhões de deslocados em Gaza e 3 milhões de deslocados no Irã. 6 milhões de pessoas ficaram desabrigadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Por quatro décadas, o Primeiro-Ministro israelense, Benjamin Netanyahu, tem pressionado para que os EUA entrem em guerra com o Irã. As administrações anteriores, Republicanas e Democratas, recusaram, em grande parte por causa da oposição feroz dentro do Pentágono, que não via o Irã como uma ameaça existencial e não projetava um resultado positivo para os EUA ou seus aliados regionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas Donald Trump, encorajado por sua equipe de negociação inepta de seu genro Jared Kushner e seu colega empresário imobiliário e parceiro de golfe Steve Witkoff, ambos fervorosos sionistas, mordeu a isca de Israel. O conselheiro de segurança nacional da Grã-Bretanha, Jonathan Powell, que participou das negociações finais entre os EUA e o Irã, considerou Kushner e Witkoff como “ativos israelenses”.</p>
<p style="text-align: justify;">Joseph Kent, que renunciou ao cargo de diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo para protestar contra a guerra, escreveu em sua carta de renúncia que “o Irã não representava ameaça iminente para nossa nação, e é claro que começamos essa guerra devido à pressão de Israel e seu poderoso lobby americano”.</p>
<p style="text-align: justify;">A lógica pública para a guerra contra o Irã desde que começou em 28 de fevereiro tem sido proteana. É para encerrar o programa nuclear do Irã? É para frustrar o programa de mísseis balísticos do Irã? É porque os EUA realizaram ataques preventivos contra o Irã, como disse Marco Rubio, para garantir a segurança dos ativos dos EUA uma vez que Israel decidiu atacar? É porque o governo iraniano realizou uma repressão letal, matando centenas de manifestantes antigoverno durante protestos de rua massivos? É mudança de regime? É uma tentativa de encerrar o chamado terrorismo patrocinado pelo Estado do Irã? Ou esses subterfúgios servem a outro propósito?</p>
<p style="text-align: justify;">Certamente, Israel e os EUA buscam mudança de regime. Mas aqui parece que os EUA e Israel divergem. Israel também aparentemente procura, como no Iraque, Síria, Líbia e Líbano, a desintegração física do Irã, a quebra do país em enclaves étnicos e religiosos em guerra, a transformação do Irã em um Estado falido.</p>
<p style="text-align: justify;">Os persas no Irã constituem cerca de 61% da população com vários grupos minoritários, que muitas vezes sofrem repressão estatal, representando os 39% restantes. Esses grupos étnicos incluem azerbaijanos, curdos, amantes, balochs, árabes e turcomanos, juntamente com minorias religiosas como sunitas, cristãos, bahá&#8217;ís, zoroastristas e judeus. A quebra do Irã em enclaves étnicos e religiosos antagônicos deixaria Israel como a potência dominante na região, dando-lhe a capacidade de, se não ocupar seus vizinhos diretamente, controlá-los e subjugá-los através de proxies, parte de um desejo de longa data de uma Grande Israel. Também tornaria possível que os Estados estrangeiros controlassem as reservas de gás iranianas, a segunda maior do mundo, e suas reservas de petróleo, 12% do total global.</p>
<p style="text-align: justify;">A cruzada de Israel contra os palestinos, os libaneses e agora os iranianos é justificada pelo extermínio de 6 milhões de judeus durante o Holocausto. Mas não passa despercebido no Sul Global, especialmente entre palestinos, que quase todos os estudiosos do Holocausto se recusaram a condenar o genocídio em Gaza. Nenhuma das instituições dedicadas a pesquisar e rememorar o Holocausto traçou os óbvios paralelos históricos ou criticou o massacre em massa.</p>
<p style="text-align: justify;">Estudiosos do Holocausto, com um punhado de exceções, expuseram seu verdadeiro propósito, que não é examinar o lado sombrio da natureza humana e a propensão assustadora que todos nós temos a cometer o mal, mas santificar os judeus como vítimas eternas e absolver o estado etnonacionalista de Israel de seus crimes de colonialismo de assentamento, apartheid e genocídio.</p>
<p style="text-align: justify;">O sequestro do Holocausto, o fracasso em defender as vítimas palestinas porque elas são palestinas, implodiu a autoridade moral dos estudos do Holocausto e dos memoriais do Holocausto. Eles foram expostos como veículos não para evitar o genocídio, mas para perpetrá-lo, não para explorar o passado, mas para manipular o presente.</p>
<p style="text-align: justify;">Qualquer reconhecimento tépido de que o Holocausto pode não ser propriedade exclusiva de Israel e seus partidários sionistas é rapidamente encerrado. O Museu do Holocausto em Los Angeles excluiu, depois de uma reação, um post no Instagram que dizia: “NUNCA MAIS NÃO PODE APENAS SIGNIFICAR NUNCA MAIS PARA <abbr title="Operating System">OS</abbr> JUDEUS”. Nas mãos dos sionistas, “nunca mais” significa precisamente isso, nunca mais, <em>apenas</em> <em>para os judeus</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158963" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi.jpg" alt="" width="752" height="597" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi.jpg 752w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-300x238.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-529x420.jpg 529w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-640x508.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-681x541.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 752px) 100vw, 752px" />Aimé Césaire, em <em>Discurso sobre o Colonialismo</em>, escreve que Hitler parecia excepcionalmente cruel apenas porque presidia “a humilhação do homem branco”, aplicando à Europa os “procedimentos colonialistas que até então haviam sido reservados exclusivamente para os árabes da Argélia, as &#8216;coolies&#8217; da Índia e os negros da África”.</p>
<p style="text-align: justify;">A quase aniquilação da população aborígene da Tasmânia, o massacre alemão do Herero e Namaqua, o genocídio armênio, a fome de Bengala de 1943 &#8212; então o Primeiro-Ministro britânico Winston Churchill se referiu aos hindus como “um povo animalesco com uma religião animalesca” &#8212; juntamente com o lançamento de bombas nucleares em alvos civis em Hiroshima e Nagasaki, ilustra algo fundamental sobre “a civilização ocidental”.</p>
<p style="text-align: justify;">O genocídio não é uma anomalia, é codificado no DNA da “civilização” ocidental.</p>
<p style="text-align: justify;">“Na América”, disse o poeta Langston Hughes, “não é preciso dizer aos negros o que é o fascismo em ação. Nós sabemos. Suas teorias da supremacia nórdica e da supressão econômica há muito tempo são realidades para nós”.</p>
<p style="text-align: justify;">Os nazistas, quando formularam as leis de Nuremberg, usaram como modelo as leis destinadas a oprimir os negros. A recusa dos Estados Unidos em conceder cidadania a nativos americanos e filipinos &#8212; embora vivessem nos EUA e nos territórios dos EUA &#8212; foi imitada pelos fascistas alemães que retiraram a cidadania dos judeus. As leis antimiscigenação americanas, que criminalizavam o casamento inter-racial, foram a influência para proibir casamentos entre judeus alemães e arianos. A jurisprudência americana classificou qualquer pessoa com um por cento da ascendência negra &#8212; a chamada “regra de uma gota” &#8212; como negra. Os nazistas, ironicamente mostrando mais flexibilidade, classificaram qualquer pessoa com três ou mais avós judeus como judeus.</p>
<p style="text-align: justify;">Os milhões de vítimas indígenas de projetos coloniais em países como México, China, Índia, Austrália, Congo e Vietnã, por essa razão, são surdas para as afirmações dos judeus de que sua vitimização é única. Eles também sofreram holocaustos, mas esses holocaustos permanecem minimizados ou não reconhecidos por seus perpetradores ocidentais.</p>
<p style="text-align: justify;">Israel encarna o Estado etnonacionalista que nossos fascistas cristãos e a extrema-direita sonham em criar para si mesmos, que rejeita o pluralismo político e cultural, bem como as normas legais, diplomáticas e éticas. Israel é admirado pela extrema-direita porque virou as costas para o direito humanitário e usa força letal indiscriminada para “limpar” sua sociedade daqueles condenados como contaminadores humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi essa distorção do Holocausto como único que incomodou Primo Levi, preso em Auschwitz de 1944 a 1945 e que escreveu livros sobre a sobrevivência em Auschwitz. Levi foi um crítico feroz do Estado de apartheid de Israel e seu tratamento aos palestinos. Ele viu a Shoah [Holocausto] como “uma fonte inesgotável do mal” que “é perpetuada como ódio nos sobreviventes, e brota de mil maneiras, contra a própria vontade de todos, como uma sede de vingança, como colapso moral, como negação, como cansaço, como resignação”.</p>
<p style="text-align: justify;">Levi deplorou o maniqueísmo daqueles que “evitam nuances e complexidade”. Ele condenou aqueles que “reduzem o rio dos acontecimentos humanos a conflitos, e conflitos a duelos, nós e eles”. Ele alertou que a “rede de relações humanas dentro dos campos de concentração não era simples: não poderia ser reduzida a dois blocos, vítimas e perseguidores”. O inimigo, ele sabia, “estava do lado de fora, mas também dentro”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mordechai Chaim Rumkowski, conhecido como “Rei Chaim”, governou o gueto de Łódź na Polônia em nome dos ocupantes nazistas. O gueto tornou-se um campo de trabalho escravo que enriqueceu Rumkowski e seus senhores nazistas. Rumkowski deportou opositores para campos de extermínio. Estuprou e molestou meninas e mulheres. Exigiu obediência inquestionável. Incorporou o mal de seus opressores. Para Levi, ele foi um exemplo do que muitos de nós, em circunstâncias semelhantes, somos capazes de se tornar.</p>
<p style="text-align: justify;">“Estamos todos refletidos em Rumkowski, sua ambiguidade é nossa, é a nossa segunda natureza, nós híbridos moldados a partir de argila e espírito”, escreveu Levi <em>em Os Afogados e os Sobreviventes.</em> “Sua febre é nossa, a febre de nossa civilização ocidental que &#8216;desce no inferno com trombetas e tambores&#8217;, e seus adornos miseráveis são a imagem distorcida de nossos símbolos de prestígio social”.</p>
<p style="text-align: justify;">“Como Rumkowski, nós também estamos tão deslumbrados com o poder e o prestígio a ponto de esquecer nossa fragilidade essencial”, continuou Levi. “De bom grado ou não chegamos a um acordo com o poder, esquecendo que estamos todos no gueto, que o gueto está murado, que fora do gueto reinam os senhores da morte, que espera próxima ao trem.”</p>
<p style="text-align: justify;">Levi entendeu que a linha entre a vítima e o vitimizador é fina. Todos nós podemos nos tornar carrascos dispostos. Não há nada intrinsecamente moral sobre ser judeu ou um sobrevivente do Holocausto. Levi, por essa razão, era <em>persona non grata</em> em Israel.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158964" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg" alt="" width="1079" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg 1079w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-629x420.jpg 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1079px) 100vw, 1079px" />Os sionistas encontram no Holocausto e no Estado judeu um senso de propósito e significado, bem como uma superioridade moral nauseante. Após a guerra de 1967, quando Israel tomou Gaza, a Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, as Colinas de Golã da Síria e a Península do Sinai do Egito, Israel, como observou o sociólogo americano Nathan Glazer de forma aprovadora, tornou-se “a religião dos judeus americanos”. O Holocausto tornou-se o seu “capital moral”.</p>
<p style="text-align: justify;">“O sofrimento judaico é retratado como inefável, incomunicável e, no entanto, algo sempre a ser proclamado”, escreve o historiador europeu Charles S. Maier, em <em>The Unmasterable Past: History, Holocaust, and German National Identity</em>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">É intensamente privado, não para ser diluído, mas simultaneamente público para que a sociedade gentil confirme os crimes. Um sofrimento muito peculiar deve ser consagrado em locais públicos: museus do Holocausto, jardins de memória, locais de deportação, dedicados não como memoriais judeus, mas cívicos. Mas qual é o papel de um museu em um país, como os Estados Unidos, longe do local do Holocausto? É para reunir as pessoas que sofreram ou para instruir não-judeus? É suposto servir como um lembrete de que “pode acontecer aqui?” Ou é uma afirmação de que alguma consideração especial é merecida? Sob que circunstâncias uma tristeza privada pode servir simultaneamente como uma dor pública? E se o genocídio é certificado como uma tristeza pública, então não devemos aceitar as credenciais de outras tristezas particulares também? Um historiador americano de ascendência polonesa argumenta que, com a invasão alemã de 1939, os poloneses se tornaram os primeiros povos da Europa a experimentar o Holocausto e que os historiadores até agora “escolheram interpretar a tragédia em termos exclusivistas &#8212; ou seja, como o período mais trágico da história da Diáspora judaica”. Se os poloneses americanos reivindicam seu próprio “Holocausto esquecido”, que reconhecimento eles devem desfrutar? Os armênios e os cambojanos também têm o direito de financiar publicamente museus de holocausto? E precisamos de memoriais para adventistas do sétimo dia e homossexuais por sua perseguição nas mãos do Terceiro Reich?</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O sofrimento único confere um direito único.</p>
<p style="text-align: justify;">Qualquer crime que Israel realize em nome de sua sobrevivência &#8212; seu “direito de existir” &#8212; é justificado em nome dessa singularidade. Não há limites. O mundo é preto e branco, uma batalha interminável contra o nazismo, que é proteano, dependendo de quem Israel visa. Desafiar essa sede de sangue é ser um antissemita, facilitando outro genocídio de judeus.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa fórmula simplista não serve apenas os interesses de Israel, mas também os interesses das potências coloniais que realizaram seus próprios genocídios, aqueles que eles também procuram obscurecer.</p>
<p style="text-align: justify;">A sacralização do Holocausto nazista oferece um <em>quid pro quo</em> bizarro. Armar e financiar o Estado de Israel, bloqueando resoluções e sanções da ONU que condenariam seus crimes e demonizar os palestinos e seus apoiadores se tornam prova de expiação e apoio aos judeus. Israel, em troca, absolve o Ocidente de sua indiferença à situação dos judeus durante o Holocausto, e a Alemanha por perpetrá-lo. A Alemanha usa essa aliança profana para separar o nazismo do resto da história alemã, incluindo o genocídio que os colonos alemães realizaram contra os Nama e Herero no sudoeste alemão da África, agora na Namíbia.</p>
<p style="text-align: justify;">“Tal magia”, escreve o israelense historiador e estudioso do genocídio, Raz Segal, “legitima o racismo contra os palestinos no exato momento em que Israel perpetra o genocídio contra eles. A ideia de singularidade do Holocausto reproduz-se assim em vez de desafiar o nacionalismo excludente e o colonialismo de assentamento que levaram ao Holocausto.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Segal, diretor do programa de Estudos do Holocausto e Genocídio da Universidade de Stockton, em Nova Jersey, escreveu um artigo sobre a guerra em Gaza em 13 de outubro de 2023, intitulado: “Um caso de genocídio”.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa denúncia de um estudioso israelense do Holocausto, cujos familiares morreram no Holocausto, foi uma postura muito solitária.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Segal viu na exigência imediata do governo israelense que os palestinos evacuassem o norte de Gaza e a demonização dos palestinos por autoridades israelenses &#8212; o Ministro da Defesa disse que Israel estava “combatendo animais humanos” &#8212; o cheiro de genocídio.</p>
<p style="text-align: justify;">“Toda a ideia sobre prevenção e &#8216;nunca mais&#8217; é que &#8212; como ensinamos nossos alunos &#8212; há alertas vermelhos, e que uma vez que os notamos, devemos trabalhar para interromper o processo que pode se transformar em genocídio”, disse-me o professor Segal, “mesmo que ainda não seja genocida”.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Segal pagou pela sua honestidade. O convite para liderar o Centro de Estudos do Holocausto e Genocídio da Universidade de Minnesota, que não emitiu nenhuma condenação do genocídio, foi revogado.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o professor Segal e eu testemunhamos na capital do estado em Trenton, em oposição à adoção do projeto de lei da Aliança Internacional de Memória do Holocausto (IHRA), que equipara as críticas ao Estado de Israel a antissemitismo, fomos vaiados por sionistas e nossos microfones foram cortados pelo presidente da comissão. Lá estávamos nós, argumentando que esse projeto de lei iria reduzir a liberdade de expressão enquanto ao mesmo tempo nos negavam a liberdade de expressão.</p>
<p style="text-align: justify;">O genocídio é a próxima etapa no que o antropólogo, Arjun Appadurai, chama de “uma vasta correção malthusiana mundial” que é “voltada para preparar o mundo para os vencedores da globalização, sem o ruído inconveniente de seus perdedores”.</p>
<p style="text-align: justify;">O financiamento e o armamento de Israel pelos Estados Unidos e pelas nações europeias, enquanto realiza o genocídio, implodiu efetivamente a ordem jurídica internacional pós-Segunda Guerra Mundial. Ela não tem mais credibilidade. O Ocidente não pode mais ensinar ninguém sobre democracia, direitos humanos ou as supostas virtudes da civilização ocidental. O ardil, que de alguma forma nós, como nação, promovemos a democracia, a igualdade e os direitos humanos, está terminado.</p>
<p style="text-align: justify;">“Ao mesmo tempo em que Gaza induz vertigem, um sentimento de caos e vazio, torna-se para inúmeras pessoas impotentes a condição essencial da consciência política e ética no século XXI &#8211; assim como a Primeira Guerra Mundial foi por uma geração no Ocidente”, escreve Pankaj Mishra.</p>
<p style="text-align: justify;">Nenhum de nós que reportou de Israel e Palestina, onde trabalhei como repórter por sete anos, previu esse genocídio. E, no entanto, estávamos cientes do impulso genocida que estava no coração do projeto sionista &#8212; o desejo de grandes segmentos da sociedade israelense de erradicar e expulsar todos os palestinos. Esse impulso genocida estava lá desde o início do sionismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Victor Klemperer, professor de linguística e filho de um rabino de Berlim que viveu sob o domínio nazista, observou em seu diário: “Para mim, os sionistas, que querem voltar para o estado judeu de 70 d.C. (destruição de Jerusalém por Tito), são tão ofensivos quanto os nazistas. Com sua sede de sangue, suas antigas “raízes culturais”, sua visão de mundo ora hipócrita, ora obtusa, eles são páreo para os nacional-socialistas”.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158964" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg" alt="" width="1079" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg 1079w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-629x420.jpg 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1079px) 100vw, 1079px" />Cobri o rabino extremista Meir Kahane, que afirmava que a violência era uma virtude judaica, e a vingança, um mandamento divino. Quando eu estava baseado em Israel, ele foi impedido pelo governo israelense de se candidatar a cargos públicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Kahane foi assassinado em 5 de novembro de 1990, na cidade de Nova York. Seu partido, o Kach, foi declarado ilegal em Israel quatro anos depois, após Baruch Goldstein, um médico nascido no Brooklyn e membro do Kach, entrar na Mesquita de Ibrahimi, em Hebron, e abrir fogo contra os fiéis, matando 29 palestinos. Goldstein, vestido com seu uniforme de capitão do exército, foi dominado pelos fiéis e espancado até a morte. Fui enviado pelos meus editores em Nova York para entrevistar os sobreviventes. Quando receberam o material, insistiram para que eu fizesse mais entrevistas com colonos judeus que justificassem as queixas de Goldstein contra os palestinos, parte do jogo de equilíbrio, mas na verdade parte do esforço para obscurecer a verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">O Kach, após suas declarações de apoio ao massacre, foi declarado uma organização terrorista pelos Estados Unidos. Mas o kahanismo não morreu. Foi nutrido por extremistas judeus e colonizadores.</p>
<p style="text-align: justify;">A intolerância racial de Kahane e seus apelos à violência em massa contra os palestinos contaminaram segmentos cada vez maiores da sociedade israelense. Encontrou aceitação quase universal após os ataques de 7 de outubro.</p>
<p style="text-align: justify;">Testemunhei essa intolerância em comícios políticos realizados por Netanyahu, que recebeu financiamento generoso de americanos de direita associados ao AIPAC, quando concorreu contra Yitzhak Rabin, que negociava um acordo de paz com os palestinos. Os apoiadores de Netanyahu entoavam slogans inspirados por Kahane, como “Morte aos árabes” e “Morte a Rabin”. Queimaram uma efígie de Rabin vestida com um uniforme nazista. Netanyahu marchou em frente a um funeral simulado para Rabin.</p>
<p style="text-align: justify;">Rabin foi assassinado por um fanático judeu em 4 de novembro de 1995.</p>
<p style="text-align: justify;">Netanyahu, que se tornou Primeiro-Ministro pela primeira vez em 1996, passou sua carreira política cultivando esses extremistas judeus, incluindo Itamar Ben-Gvir, que tinha um retrato de Goldstein na parede de sua sala de estar, Bezalel Smotrich, Avigdor Lieberman, Gideon Sa&#8217;ar e Naftali Bennett.</p>
<p style="text-align: justify;">O pai de Netanyahu, Benzion, que trabalhou como assistente do fundador do sionismo revisionista, Vladimir Jabotinsky, e foi chamado por Benito Mussolini de “um bom fascista”, foi um líder do Partido Herut, que defendia que Israel se apropriasse de todas as terras da Palestina histórica. Muitos dos membros do Partido Herut realizaram ataques terroristas durante a guerra de 1948 que estabeleceu o Estado de Israel. Albert Einstein, Hannah Arendt, Sidney Hook e outros intelectuais judeus descreveram o Partido Herut, em uma declaração publicada no New York Times, como um partido “muito semelhante, em sua organização, métodos, filosofia política e apelo social, aos partidos nazistas e fascistas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Sempre houve uma vertente virulenta de fascismo judaico dentro do projeto sionista, espelhando a vertente do fascismo na sociedade americana. Infelizmente, para nós e para os palestinos, essas vertentes fascistas estão em ascensão.</p>
<p style="text-align: justify;">A decisão de obliterar Gaza tem sido, há muito tempo, o sonho dos sionistas de extrema-direita, herdeiros do movimento de Kahane. A identidade judaica e o nacionalismo judaico são as versões sionistas da ideologia nazista de “sangue e solo”. A supremacia judaica é santificada por Deus, assim como o massacre dos palestinos, que Netanyahu comparou aos amalequitas bíblicos, massacrados pelos israelitas. Europeus e euro-americanos nas colônias americanas usaram a mesma passagem bíblica para justificar o genocídio contra os nativos americanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Os inimigos — geralmente muçulmanos — destinados à extinção são subumanos que personificam o mal. A violência e a ameaça de violência são as únicas formas de comunicação compreendidas por aqueles que estão fora do círculo mágico do nacionalismo judaico.</p>
<p style="text-align: justify;">A redenção messiânica ocorrerá assim que os palestinos forem expulsos. Extremistas judeus exigem a demolição da Mesquita de Al-Aqsa, um dos três locais mais sagrados para os muçulmanos, supostamente construída sobre as ruínas do Segundo Templo Judaico, destruído em 70 d.C. pelo exército romano. Esses extremistas defendem sua substituição por um “Terceiro” Templo Judaico, uma medida que incendiaria o mundo muçulmano. A Cisjordânia, que os fanáticos chamam de “Judeia e Samaria”, está sendo anexada por Israel. Israel, governado por leis religiosas impostas pelos partidos ultraortodoxos Shas e Judaísmo Unido da Torá, em breve espelhará a teocracia despótica do Irã.</p>
<p style="text-align: justify;">James Baldwin previu, de forma profética, essa regressão à nossa barbárie inata. Ele alertou que havia uma “terrível probabilidade” de que “as populações ocidentais, lutando para manter o que roubaram de seus cativos e incapazes de se olhar no espelho, precipitarão um caos em todo o mundo que, se não acabar com a vida neste planeta, provocará uma guerra racial como o mundo jamais viu, e pela qual gerações ainda por nascer amaldiçoarão nossos nomes para sempre”.</p>
<p style="text-align: justify;">A selvageria no Irã, no Líbano e em Gaza é a mesma selvageria que enfrentamos em casa. Aqueles que perpetram o genocídio, o massacre e a guerra não provocada contra o Irã são as mesmas pessoas que desmantelam nossas instituições democráticas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158962" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982.jpg" alt="" width="793" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982.jpg 793w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-220x300.jpg 220w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-752x1024.jpg 752w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-768x1046.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-308x420.jpg 308w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-640x872.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-681x927.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 793px) 100vw, 793px" />Os iranianos, libaneses e palestinos sabem que não há como apaziguar esses monstros. As elites globais não acreditam em nada. Não <em>sentem</em> nada. Não se pode confiar nelas. Eles exibem as características essenciais de todos os psicopatas — charme superficial, grandiosidade e presunção, necessidade de estímulo constante, propensão à mentira, ao engano, à manipulação e incapacidade de sentir remorso ou culpa. Desprezam, considerando fraquezas, as virtudes da empatia, da honestidade, da compaixão e do altruísmo. Vivem segundo o lema “Eu. Eu. Eu.”</p>
<p style="text-align: justify;">“O fato de milhões de pessoas compartilharem os mesmos vícios não os torna virtudes, o fato de compartilharem tantos erros não os torna verdades, e o fato de milhões de pessoas compartilharem as mesmas formas de patologia mental não as torna sãs”, escreveu Erich Fromm em “The Sane Society”.</p>
<p style="text-align: justify;">Testemunhamos o mal por quase três anos em Gaza. Observamos agora no Irã. Observamos no Líbano. Vemos esse mal sendo justificado ou mascarado por líderes políticos e pela mídia.</p>
<p style="text-align: justify;">O The New York Times, num gesto digno de Orwell, enviou um memorando interno instruindo repórteres e editores a evitarem os termos “campos de refugiados”, “território ocupado”, “limpeza étnica” e, claro, “genocídio” ao escreverem sobre Gaza.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqueles que nomeiam e denunciam esse mal, incluindo os estudantes heroicos que montaram acampamentos em campis universitários aqui e no exterior, são difamados, colocados em listas negras e expurgados. São presos e deportados. Um silêncio ensurdecedor se abate sobre nós, o silêncio de todos os Estados autoritários. Sabemos onde isso termina. Deixe de cumprir seu dever, deixe de apoiar a guerra contra o Irã, de se manifestar contra o crime de genocídio e veja sua licença de transmissão revogada, como propôs Brendan Carr, presidente da FCC (Comissão Federal de Comunicações) de Trump.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos inimigos. Eles não estão na Palestina. Eles não estão no Líbano. Eles não estão no Irã. Eles estão aqui. Entre nós. Eles ditam nossas vidas. Eles são traidores dos nossos ideais. Eles são traidores do nosso país. Eles vislumbram um mundo de escravos e senhores. Gaza é apenas o começo. Não existem mecanismos internos para a reforma. Podemos obstruir ou nos render.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas são as únicas opções que nos restam.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Chris Hedges é jornalista estadunidense, autor de vários livros, entre os quais, </em>American Fascists<em> e </em>Death of the Liberal Class<em>.</em></strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">Traduzido do original em: <a class="urlextern" title="https://chrishedges.substack.com/p/iran-and-gaza-are-only-the-beginning" href="https://chrishedges.substack.com/p/iran-and-gaza-are-only-the-beginning" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://chrishedges.substack.com/p/iran-and-gaza-are-only-the-beginning</a></p>
</blockquote>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="size-thumbnail wp-image-158961 alignnone" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/abed_abdi_haifa-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />As obras que ilustram o artigo são do artista palestino Abed Abdi (1942 &#8212;)</em></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
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		<title>O Domo de Ferro está interceptando nossas chances de um futuro normal</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/03/158930/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 31 Mar 2026 09:57:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Israel]]></category>
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					<description><![CDATA[Os sistemas de defesa antimíssil de Israel reduziram drasticamente o custo de entrar em guerra — e uma sociedade que não teme a guerra está condenada a conviver com ela para sempre. Por Guevara Bader]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Guevara Bader</h3>
<p style="text-align: justify;">Nas últimas décadas, a engenharia israelense produziu algo próximo da maravilha tecnológica definitiva: um sistema de defesa antimíssil multicamadas capaz de transformar projéteis em um espetáculo de fogos de artifício no céu noturno. Mas sob essa proteção, uma transformação discreta, porém consequente, se consolidou, sendo mais perigosa que os próprios mísseis: o Domo de Ferro eliminou o medo da guerra entre os israelenses.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma tecnologia projetada para preservar vidas fomentou uma sensação de imunidade quase total, transformando a catástrofe da guerra em uma perturbação tolerável, senão em um produto de consumo estéril — algo absorvido pela vida cotidiana com indiferença, em algum lugar entre o noticiário da noite e a entrega de comida.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o medo da guerra diminui, também diminui a motivação pública para pôr fim a ela. Nesse contexto, a segurança tecnológica não encurta as guerras, mas contribui para sustentá-las como uma condição permanente. Israel, na era do Domo de Ferro, não se apresenta mais como uma sociedade civil vibrante que também mantém um exército; em vez disso, orgulha-se de ser essencialmente uma enorme base militar em torno da qual a vida civil se organiza.</p>
<p style="text-align: justify;">Um raro momento de franqueza do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu deu forma a essa transformação, quando ele alertou, em um discurso a autoridades financeiras em setembro passado, que Israel enfrentava um crescente isolamento internacional e precisaria se tornar uma “super-Esparta” economicamente autossuficiente. Mais tarde, ele minimizou a declaração, classificando-a como um “lapso de língua”, após as ações na bolsa de valores de Tel Aviv sofrerem uma queda. Mas, se de fato foi um lapso, foi revelador.</p>
<p style="text-align: justify;">O que Netanyahu delineou é o híbrido político e cultural em que os israelenses vivem: o dinamismo liberal e criativo de Atenas fundido com a disciplina rígida e o militarismo de Esparta. Na versão rudimentar de 2026, Atenas cria o algoritmo e Esparta aperta o gatilho.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado é uma sociedade que funciona como um complexo militar fortificado, governado por processos democráticos nominais, onde a fronteira entre as esferas civil e militar se tornou completamente indistinta. A indústria israelense transformou-se em uma máquina bem azeitada de inovação militar, convertendo a guerra, antes um fracasso diplomático, em uma característica definidora da existência do Estado. Essa perda interna de dissuasão é o nosso desastre nacional, pois uma sociedade que não teme a guerra é uma sociedade condenada a conviver com ela para sempre.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A guerra como uma assinatura mensal</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para entender a profundidade dessa distorção, é útil recorrer à linguagem que os israelenses usam para se descrever. Em Israel, não existem “cidadãos”, certamente não no sentido tedioso de participação democrática. Existe, em vez disso, uma “frente interna” — um termo que concebe o público como a formação passiva de retaguarda da força militar em combate. Sua função é absorver o impacto da situação e manter a compostura enquanto, simultaneamente, torce pelo exército que realiza operações no céu.</p>
<p style="text-align: justify;">Na prática, a “frente interna” transforma os cidadãos em unidades de apoio logístico, que devem “demonstrar resiliência”, um eufemismo para suportar o sofrimento sem reclamar, para não desviar o olhar fixo do atirador enquanto este realiza o próximo assassinato bem-sucedido.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse princípio organizador veio à tona com uma clareza incomum em junho passado. Após a primeira rodada de combates com o Irã, o analista militar do Haaretz, Amos Harel, apresentou ao público dados que comparavam as mortes israelenses com o número de mísseis que penetraram as defesas aéreas do país. A conclusão — uma morte para cada três mísseis que atingiram áreas povoadas — foi apresentada como prova de que “as baixas na população civil não foram tão catastróficas quanto se temia anteriormente”.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse cálculo, a morte é apenas um registro em um balancete. Um funeral não é visto como uma catástrofe, mas como um custo operacional aceitável, uma estatística fria que permite que o sistema continue funcionando. O preço é baixo o suficiente para que os tomadores de decisão simplesmente peguem uma caneta e perguntem, sem qualquer ironia: “Onde assinamos?”.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando as estatísticas permitem que as pessoas voltem a tomar seu café em Tel Aviv entre as idas a abrigos, a urgência de pôr fim ao ciclo começa a desaparecer. A guerra torna-se uma mensalidade, em vez de um risco existencial, sustentado enquanto o custo puder ser absorvido. Esse custo, é claro, é suportado de forma desproporcional pelos cidadãos palestinos de Israel, que, em comparação com os israelenses judeus, têm muito menos acesso a abrigos adequados e podem viver em áreas classificadas como “áreas abertas”, onde o Domo de Ferro está programado para permitir que mísseis caiam ou detonem interceptores acima deles.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa normalização se traduziu em um modelo econômico sem precedentes, no qual Israel passou de uma autopercepção de fortaleza sitiada para a de uma linha de produção de tecnologias de defesa, com cada conflito funcionando como uma forma de campo de testes contínuo. Cada interceptação gera dados; cada escalada aprimora o sistema.</p>
<p style="text-align: justify;">A “frente interna”, nesse sentido, funciona também como um vasto grupo de testadores beta, cujas interrupções são absorvidas pelos ciclos de pesquisa e desenvolvimento. O sucesso não se mede apenas em vidas poupadas, mas também em métricas de desempenho que impulsionam o valor das ações da indústria de defesa em exposições em Paris e Singapura.</p>
<p style="text-align: justify;">O mundo não está apenas observando com preocupação. Como clientes fiéis da Apple aguardando o próximo iPhone, é um consumidor observando quais tecnologias têm o melhor desempenho em “condições reais”. A própria guerra é a melhor campanha de marketing e, quando a economia nacional depende da superioridade militar global, a aspiração pela tranquilidade é percebida como sabotagem deliberada da linha de produção nacional.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Um estado permanente de adiamento</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-158932" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/3338-1-300x300.jpg" alt="" width="400" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/3338-1-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/3338-1-1024x1024.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/3338-1-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/3338-1-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/3338-1-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/3338-1-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/3338-1-681x681.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/3338-1.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" />Esse desenvolvimento se consolidou gradualmente. Do sistema de defesa antimíssil Arrow, que entrou em operação em 2000, ao Domo de Ferro em 2011 e, posteriormente, ao Estilingue de David em 2017, cada inovação ampliou a sensação de proteção dos israelenses e, com ela, diminuiu a percepção da vulnerabilidade. Porque, quando o teto está hermeticamente fechado, não há necessidade de buscar um caminho político a seguir ou vislumbrar um futuro além do conflito.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, estamos entrando na era dos sistemas a laser. O sistema Iron Beam, recentemente integrado à Força Aérea Israelense, pode interceptar mísseis com precisão, rapidez e “a um custo marginal insignificante”, vangloriou-se o Ministério da Defesa no final do ano passado.</p>
<p style="text-align: justify;">A fronteira entre realidade e representação se desfez ao longo do caminho. Em uma transmissão amplamente assistida, um comentarista militar sênior do Canal 12 analisou imagens de videogame como se fossem a documentação de um ataque americano ao Irã, acreditando ser a prova de um bombardeio contínuo.</p>
<p style="text-align: justify;">“Estas são imagens americanas, estamos apenas nos divertindo com elas”, disse ele, enquanto pixels digitais piscavam na tela. “O B-2 está atacando há dias… O que estamos vendo é toda a força do poder americano.” Mais perturbador do que sua identificação errônea das imagens foi a forma como isso ilustrou a transformação da guerra em uma forma de entretenimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre tudo isso, preside uma liderança política que enfrenta pressões legais e diplomáticas. Netanyahu permanece em sua residência em Cesareia com uma intimação pendente para comparecer a Haia. O ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, também é procurado por crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos em Gaza, enquanto o presidente Isaac Herzog aparece em depoimentos apresentados à Corte Internacional de Justiça por sugerir que toda a população de Gaza é responsável pelos ataques de 7 de outubro.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, quando a liderança de Israel é perseguida pelos agentes do direito internacional, a guerra perpétua acarreta implicações que vão além da estratégia. Ela influencia os incentivos, vinculando a sobrevivência política ainda mais à continuidade da crise.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado final é um ciclo conceitual fechado. Tecnologias defensivas, como interceptores, protegem a população; a estabilidade da população sustenta a ordem política; e, juntas, reduzem a pressão para a resolução do próprio conflito.</p>
<p style="text-align: justify;">A visão da “super-Esparta” condensa essa condição de ansiedade existencial em uma única solução de engenharia estéril, na qual garantir o presente com precisão crescente permite um adiamento indefinido da resolução no futuro. Com uma taxa de sucesso de 97%, o Domo de Ferro está interceptando qualquer chance que possamos ter de um futuro normal.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Guevara Bader é um cidadão palestino de Israel e atualmente cursa mestrado na Universidade Ben-Gurion.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Traduzido de: <a class="urlextern" title="https://www.972mag.com/iron-dome-intercepting-normal-future/" href="https://www.972mag.com/iron-dome-intercepting-normal-future/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.972mag.com/iron-dome-intercepting-normal-future/</a></p>
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		<title>[Rondônia] O latifúndio no banco dos réus</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Mar 2026 22:43:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Tribunal Popular organizado por entidades irá realizar julgamento sobre crimes cometidos em áreas de conflito agrário e contra advogados e defensores de direitos humanos. Por ABRAPO, CEBRASPO, COMSOLUTE, CPT, OPIROMA, MAB e LCP]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por ABRAPO, CEBRASPO, COMSOLUTE, CPT, OPIROMA, MAB e LCP</h3>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">Nos próximos dias 28 e 29 de março de 2026 ocorrerá em Porto Velho, capital do estado de Rondônia será instaurado um <b>TRIBUNAL POPULAR</b> que julgará crimes cometidos pelo latifúndio em Rondônia ao longo de décadas e, sobretudo, nos últimos anos onde se observou um crescente processo de assassinatos, despejos ilegais, ameaças, contra camponeses sem-terra, posseiros, indígenas, extrativistas, ribeirinhos e quilombolas. Nos últimos anos, em Rondônia, a escalada de violações praticadas por latifundiários e grupos paramilitares contou com a ação efetiva de forças policiais que passaram a atuar de forma a criminalizar milhares de famílias e advogados que atuam na área agrária.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">O ano de 2024, cujos dados consolidados foram publicados em abril de 2025 pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), marcou um período paradoxal na dinâmica agrária brasileira. Embora tenha ocorrido uma redução quantitativa no número de assassinatos diretos, os indicadores de conflitos por terra atingiram o maior patamar da última década, totalizando aproximadamente 1.768 ocorrências. Esse dado sinaliza uma cristalização das tensões territoriais, consolidando 2024 como o segundo ano mais violento da série histórica iniciada em 1985.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">O cenário de conflitos agrários no Brasil apresentou um agravamento crítico em 2025, caracterizado pelo incremento da letalidade nas disputas territoriais. Dados preliminares da Comissão Pastoral da Terra (CPT) indicam que o número de assassinatos no campo duplicou em relação ao ano anterior, saltando de 13 óbitos em 2024 para 26 registros até dezembro de 2025. O estado de Rondônia é uma das Unidades da Federação que lidera esse ranking macabro.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">Em virtude da situação fática e jurídica que engloba os inúmeros assassinatos e conflitos agrários que marcam a história recente de Rondônia, a Associação Brasileira de Advogados do Povo (ABRAPO), o Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (CEBRASPO), o Comitê de Solidariedade à Luta pela Terra (COMSOLUTE), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Organização dos Povos Indígenas de Rondônia, Noroeste do Mato Grosso e Sul do Amazonas (OPIROMA), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Comitê de Apoio à Luta pela Terra – Rondônia, Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia e Amazônia Ocidental (LCP) e outras organizações propõem o Tribunal Popular que colocará o latifúndio no banco dos réus.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">O Tribunal será presidido pelo Dr. Jorge Moreno (juiz aposentado do TJMA e vice-presidente da ABRAPO) e contará com um corpo de jurados integrado por juristas de Rondônia, de outros estados da Amazônia, do Nordeste, do Centro-Oeste, Sul e Sudeste do país; pesquisadores da UNIR, do IFRO e de outras Universidades Federais do Brasil; além de jornalistas, representantes sindicais, associações e movimentos sociais que irão compor o Júri Popular.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">Entre esses destaca-se a Prof.ª Drª Helena Angélica de Mesquita (Professora aposentada da UFG, que pesquisou à fundo o Massacre de Corumbiara), o Dr. Siro Darlan (Desembargador aposentado do RJ), representante da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB, a histórica líder seringueira Dercy Teles, de Xapuri (AC), primeira mulher a presidir um sindicato na Amazônia Acreana, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais &#8211; STR de Xapuri, em 1981. É uma das figuras centrais nos empates organizados pelos seringueiros em Xapuri, juntamente com figuras históricas tais quais Chico Mendes e Wilson de Souza Pinheiro.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;">O Tribunal Popular também terá a cobertura da imprensa popular e democrática, com jornalistas que escrevem para vários veículos de comunicação de todo o Brasil como Ópera Mundi, Intercept Brasil, Repórter Brasil, A Nova Democracia, Rondônia Plural, Voz da Terra, e outros. Outras representações de entidades e movimentos como a Rede Nacional de Advogados Populares (RENAP), Campanha Nacional Despejo Zero, Movimento Bem Viver e Global Sumud Brasil também estarão participando. Na condição de testemunhas de acusação estarão presentes lideranças indígenas, camponesas, ribeirinhas, de associações e movimentos de chacareiros, extrativistas e ocupações camponesas e urbanas.</p>
<p class="v1MsoNormal" style="text-align: justify;"><b>O &#8220;TRIBUNAL POPULAR CONTRA CRIMES DO LATIFÚNDIO&#8221; será realizado no AUDITÓRIO DO SINTERO (rua Rui Barbosa, nº 713, Bairro Arigolândia) com início no sábado, 28/03, às 08h e se estenderá até o domingo, 29/03,</b> onde na última sessão, serão apresentadas as alegações finais da acusação e defesa, a reunião de corpo de jurados e leitura da sentença dos acusados. As inscrições serão realizadas no local.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-158925 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal.jpeg" alt="" width="1080" height="1350" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal.jpeg 1080w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal-240x300.jpeg 240w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal-819x1024.jpeg 819w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal-768x960.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal-336x420.jpeg 336w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal-640x800.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/cartaz-tribunal-681x851.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px" /></p>
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		<title>Operários da indústria de armas italiana dizem não à guerra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Mar 2026 14:16:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Israel]]></category>
		<category><![CDATA[Itália]]></category>
		<category><![CDATA[Palestina]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[ Com base em um histórico de resistência à militarização, os trabalhadores da Leonardo estão se organizando contra a cumplicidade da empresa no genocídio em Gaza. Por Futura D’Aprile]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Futura D’Aprile</h3>
<p style="text-align: justify;">Quando Israel recomeçou os bombardeios a Gaza em outubro de 2023, ativistas da solidariedade à Palestina na Itália imediatamente fizeram a ligação com a empresa nacional de armamentos, a Leonardo, e lançaram uma campanha contra ela. A corporação é uma das maiores produtoras de armas do mundo e desempenha um papel importante na produção de componentes para os aviões F-35, usados ​​por Israel no genocídio em Gaza, além de trabalhar em conjunto com empresas israelenses de armamentos como a Elbit Systems.</p>
<p style="text-align: justify;">Instalações da Leonardo têm sido alvo de protestos, interrompendo a produção e aumentando a conscientização sobre o papel que a Itália e seu setor de defesa desempenham na destruição em curso. Crucialmente, a oposição também está crescendo dentro da empresa, com trabalhadores se manifestando contra a venda de armas para Israel e lutando para impedir que uma fábrica da Leonardo no sul do país seja convertida em produção militar.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Trabalhadores se posicionam</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em outubro, um grupo de trabalhadores de uma unidade de produção da Leonardo em Grottaglie, no sul da Itália, publicou uma petição exigindo que a empresa e suas subsidiárias suspendessem todo o fornecimento de material bélico a Israel. A petição pedia o fim de todos os acordos comerciais e relações de investimento com instituições, startups, universidades e organizações de pesquisa israelenses envolvidas em operações militares contra a população palestina.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais de 23.000 pessoas assinaram a petição, que dizia: “A Itália repudia a guerra como instrumento de agressão contra a liberdade de outros povos e como meio de resolver disputas internacionais”.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de Roberto Cingolan, presidente da Leonardo, ter declarado em setembro que a empresa não havia autorizado novas exportações para Israel “desde o início do conflito”, a declaração dos trabalhadores afirmava que a empresa mantinha uma sólida cooperação comercial e militar com Israel e que as licenças de exportação aprovadas antes de outubro de 2023 nunca foram canceladas.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos peticionários de Grottaglie, que pediu para permanecer anônimo, afirma que essa declaração pública ajudou a abrir um diálogo com trabalhadores de outras fábricas da Leonardo: “Mais do que um aumento imediato na oposição explícita, o resultado mais importante foi trazer o assunto para o centro das discussões, fomentando momentos de debate e análise aprofundada.”</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns meses depois, um grupo de trabalhadores da Divisão de Helicópteros de Turim, no norte da Itália, redigiu um boletim sobre a cumplicidade da Leonardo no genocídio em Gaza, que foi distribuído entre seus colegas. A mobilização contra a empresa os inspirou a investigar as relações da Leonardo com seus parceiros estratégicos, particularmente com Israel. Eles estudaram as leis sobre exportações, importações e o trânsito de produtos de defesa na Itália.</p>
<p style="text-align: justify;">“Os relatos amenizados ou flagrantemente distorcidos oferecidos pela grande mídia sobre os eventos em Gaza estão se enraizando entre nossos colegas”, explica um dos trabalhadores de Turim. “Eles não compreendem a gravidade desses eventos, especialmente no que diz respeito aos usuários finais do produto de seu trabalho.”</p>
<p style="text-align: justify;">“Em relação a Israel, nunca tivemos conhecimento dos contratos assinados e das relações internacionais envolvidas.” Eles continuam explicando que, em parte devido a restrições de sigilo industrial, os trabalhadores não têm uma ideia clara de quem usará os equipamentos que produzem; a empresa usa nomes fictícios para os projetos e dá indicações vagas sobre para onde os equipamentos são enviados.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa falta de transparência deixou os trabalhadores profundamente despreparados diante da indignação pública contra a empresa para a qual trabalham.</p>
<p style="text-align: justify;">O que esses funcionários querem é reafirmar sua integridade, explica o trabalhador de Turim: “Fomos ensinados que é nosso dever denunciar irregularidades, desfalques e violações do código de ética em nosso local de trabalho. Existe algo mais repreensível do ponto de vista ético do que colaborar com um governo criminoso que viola abertamente o direito internacional e cujos crimes contra a humanidade são flagrantes e notórios?”</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158860" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL.png" alt="" width="678" height="455" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL.png 678w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL-300x201.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL-626x420.png 626w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL-537x360.png 537w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL-640x429.png 640w" sizes="auto, (max-width: 678px) 100vw, 678px" />Não aos aviões de guerra</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores de Grottaglie também enfrentam outra luta, enquanto fazem campanha para impedir que sua fábrica se torne uma engrenagem ativa na máquina de guerra. A fábrica faz parte da Divisão de Aeronáutica do Grupo Leonardo e produz as seções da fuselagem da aeronave Boeing 787, empregando aproximadamente 1.200 pessoas diretamente e 300 em indústrias relacionadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde 2020, quando a pandemia de Covid-19 atingiu duramente a indústria aeronáutica, a produção despencou e a unidade corre o risco de fechar. Em julho de 2024, os sindicatos conseguiram evitar uma paralisação temporária, mas a produção ainda diminuiu. Para evitar o fechamento, a Leonardo quer redirecionar a produção para o setor militar.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um documento compartilhado “offline” entre os trabalhadores, juntamente com a petição sobre ligações com a violência de Israel, os trabalhadores denunciam essa mudança de prioridades. Para os trabalhadores que assinaram a petição, a Leonardo está fazendo uma escolha política.</p>
<p style="text-align: justify;">“O setor civil sempre foi mais estável e resiliente do que o militar, que tem encomendas mais limitadas e é muito mais influenciado por flutuações geopolíticas e decisões governamentais”, explica um dos peticionários, que pediu para permanecer anônimo. “A aviação civil, por outro lado, responde a uma demanda estrutural por mobilidade global, que estagnou durante a pandemia, mas agora retornou a níveis recordes, com previsão de crescimento ainda maior nas próximas décadas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para os trabalhadores de Turim e Grottaglie, o objetivo tem sido promover o diálogo e a conscientização sobre a cumplicidade das empresas com a violência israelense, visando construir uma massa crítica de trabalhadores motivados e bem informados, capazes de se engajar e se mobilizar para mudar a empresa. Eles também buscaram apoio dos principais sindicatos, mas receberam uma resposta morna.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Turim, os sindicatos estão focados na renovação dos contratos metalúrgicos e não estão dando atenção à petição, enquanto em Grottaglie os sindicalistas criticaram abertamente a oposição dos trabalhadores à empresa, pois temem que isso coloque ainda mais em risco o futuro da unidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda assim, os trabalhadores se organizaram fora dessas estruturas tradicionais, compartilhando suas petições com outras unidades de produção da Leonardo na Itália. E estão recebendo uma resposta positiva. A campanha também encontrou eco nos movimentos mais amplos de solidariedade à Palestina e pela paz.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Aprendendo com o passado</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores da Leonardo estão construindo sobre um legado de oposição dentro da indústria de defesa italiana. Na década de 1980, Elio Pagani, um funcionário da Aermacchi (agora Leonardo), documentou como a empresa forneceu aeronaves à Força Aérea Sul-Africana em janeiro de 1980, durante o apartheid, em violação ao embargo da ONU ratificado pela Itália em 1977. A denúncia de Pagani desencadeou um movimento popular que, em 1990, levou à aprovação pelo parlamento da primeira legislação italiana sobre controle de exportação e importação de armas: a Lei 185/90.</p>
<p style="text-align: justify;">Na década de 1980, a Valsella Meccanotecnica &#8211; empresa conhecida por vender minas antitanque ao Iraque durante a guerra com o Irã &#8211; foi abalada por 18 meses de greves. As trabalhadoras, lideradas por Franca Faita, finalmente venceram: a empresa perdeu importantes parceiros de produção e foi forçada a se dedicar à fabricação para o setor civil devido a uma moratória governamental de 1994 sobre a produção de minas terrestres. A empresa foi liquidada e, em 2005, fundiu-se com uma fabricante de caminhões.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, alguns fatores contextuais fizeram das décadas de 1980 e 1990 um contexto muito diferente para os trabalhadores rebeldes. O sentimento antiguerra na sociedade civil italiana era mais forte nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, e os sindicatos também eram mais independentes e mais antagônicos à política.</p>
<p style="text-align: justify;">“O que favoreceu essas iniciativas foi a presença de fortes movimentos de desarmamento e a existência de conselhos de fábrica abertos à discussão interna entre os trabalhadores e eleitos diretamente por eles”, explica Pagani.</p>
<p style="text-align: justify;">“Delegados, trabalhadores e conselhos de fábrica foram incentivados a questionar o verdadeiro significado do trabalho nas instalações militares e os efeitos das exportações de armamentos. Agora, estamos vivenciando mais de 30 anos de desertificação cultural que afetou tanto as pessoas &#8211; tornando-as mais individualistas &#8211; quanto os sindicatos, cuja atuação enfraqueceu o ímpeto dos trabalhadores.”</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda assim, as conquistas das décadas de 1980 e 1990 foram fruto de muitos anos de trabalho, afirma Pagani. “Os trabalhadores da Leonardo em Grottaglie e Turim devem persistir e buscar apoio em outras unidades de produção da empresa e em outras empresas de defesa. Sua iniciativa deve estar ligada à luta contra a logística bélica travada por estivadores, trabalhadores aeroportuários, ferroviários e de terminais intermodais na Itália.”</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, à medida que os Estados continuam a aumentar os gastos militares em meio a novas e devastadoras guerras, os trabalhadores de fábricas de armamentos em todo o mundo fariam bem em seguir as táticas italianas para desmantelar a militarização a partir de dentro.</p>
<p style="text-align: justify;">Com a guerra sempre à espreita e os Estados aumentando os gastos militares, os trabalhadores do negócio de armas podem ter um papel fundamental a desempenhar, conforme o movimento global contra a militarização grita: Não em nosso nome.</p>
<p style="text-align: center;"><em>Traduzido do original que pode ser acessado aqui: <a class="urlextern" title="https://newint.org/arms/2026/italian-arms-factory-workers-say-no-war" href="https://newint.org/arms/2026/italian-arms-factory-workers-say-no-war" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://newint.org/arms/2026/italian-arms-factory-workers-say-no-war</a></em></p>
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		<title>[RJ] UERJ: Calendário de lutas dos vigilantes e auxiliares administrativos da Conquista</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Mar 2026 20:08:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Funcionários terceirizados que pretam serviço para a UERJ, denunciam atrasos no salário. Por Invisíveis]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Invisíveis</h3>
<blockquote class="instagram-media" style="background: #FFF; border: 0; border-radius: 3px; box-shadow: 0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width: 540px; min-width: 326px; padding: 0; width: calc(100% - 2px);" data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/p/DVWSEt1DnKW/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14">
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</blockquote>
<p><script async src="//www.instagram.com/embed.js"></script>CALENDÁRIO DE LUTAS CONTRA CALOTES EM SALÁRIOS DE VIGILANTES E AUXILIARES ADMINISTRATIVOS PELA <a class="x1i10hfl xjbqb8w x1ejq31n x18oe1m7 x1sy0etr xstzfhl x972fbf x10w94by x1qhh985 x14e42zd x9f619 x1ypdohk xt0psk2 x3ct3a4 xdj266r x14z9mp xat24cr x1lziwak xexx8yu xyri2b x18d9i69 x1c1uobl x16tdsg8 x1hl2dhg xggy1nq x1a2a7pz notranslate _a6hd" tabindex="0" role="link" href="https://www.instagram.com/conquista.grupo/">@conquista.grupo</a> NA UERJ</p>
<p>2 e 3 de março: 9h rua Teixeira Ribeiro 229.na sede da empresa, para cobrar o pagamento, já que a diretoria disse que tem &#8220;explicações&#8221;. com o <a class="x1i10hfl xjbqb8w x1ejq31n x18oe1m7 x1sy0etr xstzfhl x972fbf x10w94by x1qhh985 x14e42zd x9f619 x1ypdohk xt0psk2 x3ct3a4 xdj266r x14z9mp xat24cr x1lziwak xexx8yu xyri2b x18d9i69 x1c1uobl x16tdsg8 x1hl2dhg xggy1nq x1a2a7pz notranslate _a6hd" tabindex="0" role="link" href="https://www.instagram.com/sindicatodosvigilantesrj/" target="_blank" rel="noopener">@sindicatodosvigilantesrj</a></p>
<p>3 de março: 18h, reunião online para pensar a mobilização e luta com trabalhadores terceirizados (link por dm) CHAMANDO ESTUDANTES, PROFESSORES, SERVIDORES E MAIS QUISER APOIAR A LUTA.</p>
<p>12 de março, 18h no hall do queijo, UERJ MARACANÃ: contra o calote da empresa CONQUISTA,<br />
REITORIA deve pagar salários!</p>
<p>3 MESES SEM SALÁRIO PARA VIGILANTES A E 2 MESES PARA AUXILIARES ADMINISTRATIVOS!</p>
<p>Não ESPERE articulação com Ministério do Trabalho, que é do presidente, que vai demorar para exigir decisão do poder judiciário! PROTESTE E PARALISE!</p>
<p>REITORIA GULNAR E DEUSDARÁ se coloca como &#8220;boazinha&#8221; por ter pago todas as FATURAS para a empresa CONQUISTA. MAS ELA QUE CONTRATOU UMA EMPRESA ENVOLVIDA EM CORRUPÇÃO E QUE DÁ CALOTES CONSTANTES EM TRABALHADORES TERCEIRIZADOS!</p>
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		<title>Os arquivos Epstein e a perspectiva de socialismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Feb 2026 20:12:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Socialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[A maioria dos ditos socialistas naturaliza e aceita a mistura com a classe dominante, isto é, aceita que se constitua relações amistosas com ela. Por Leo Vinicius]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Leo Vinicius</h3>
<p style="text-align: justify;">A divulgação de mensagens eletrônicas e outros documentos ligados a Jeffrey Epstein causou perplexidade e certamente surpresa na esquerda, ao revelar de forma mais contundente o nível de proximidade e “amizade” entre Noam Chomsky e o bilionário. Para além ou aquém dos crimes sexuais, Epstein era a personificação de tudo que socialistas, incluindo o próprio Chomsky, oporiam à classe dominante em termo de valores.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo Epstein em entrevista a Steve Bannon, ele integrou a Comissão Trilateral a convite de seu fundador, David Rockefeller. Ainda segundo Epstein, a preocupação ou intenção de David Rockefeller era que houvesse uma classe empresarial que gerisse o capitalismo global de modo que este não fosse impactado por mudanças de governos. Jeffrey Epstein, portanto, se constituiu em um operador e gestor político e econômico do capitalismo transnacional. Produzia relações e se beneficiava disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Obscuramente, também se tornou bilionário. Para explicar sua fortuna, jornalistas apontam, por exemplo, golpes e operações de tráfico de armas e drogas para a CIA <strong>[1]</strong>. Mesmo um fascista como Steve Bannon, em entrevista que realizou com Epstein divulgada na última leva de arquivos liberados, pergunta a Epstein: “Você é o diabo?”. Que Chomsky tenha sido um amigo fiel dessa figura “demoníaca” por dez anos, como mostram as mensagens e suas declarações públicas desde quando se conheceram por volta de 2015, naturalmente causa perplexidade na esquerda. Até porque a esquerda, talvez mais que a direita, e em época de “cultura do cancelamento”, procura por santos e pecadores. Em Seminário em Chiapas no final de 2024, o Capitão Marcos, do Exército Zapatista de Libertação Nacional, soltou algumas palavras sobre esse tema que vêm bem a calhar:</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Não idealizem os zapatistas. Somos igualmente ruins, baixos e merdas como vocês. Ocorre que estamos numa organização e num coletivo, que é o que equilibra, oculta e subordina essas baixezas e ruindades, e nos obriga a ser responsáveis. (Capitão Insurgente Marcos, 30 de dezembro de 2024)</p>
<p style="text-align: justify;">Chomsky não fazia parte de uma organização política, e embora não tenha cometido crime, defeitos seus, aos olhos dos socialistas, vieram à tona pela relação com Epstein.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158761" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/images-1.jpg" alt="" width="300" height="168" />O jornalista Chris Hedges, que conheceu pessoalmente Noam Chomsky, escreveu um curtíssimo texto sobre o assunto, após uma Nota publicada em 7 de fevereiro último por Valéria Chomsky, esposa de Noam. Chris Hedges termina escrevendo:</p>
<p style="text-align: justify;">Ele não foi enganado por Epstein. Ele foi seduzido. Sua associação com Epstein é uma mancha terrível e, para muitos, imperdoável. Ela turva irreparavelmente seu legado. Se há uma lição aqui é essa. A classe dominante não oferece nada sem esperar algo em troca. Quanto mais perto você chega desses vampiros, mais você se torna escravo deles. Nosso papel não é socializar com eles, mas sim destruí-los <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Creio que a grande maioria dos autoproclamados socialistas (incluo nessa categoria os autodefinidos comunistas e anarquistas), concordariam com esse trecho. Consigo imaginar quase um consenso quanto à lição exposta por Chris Hedges: não se deve socializar com a classe dominante, nosso papel é destruí-los, pois são inimigos da nossa classe e do que há de humano em nós.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">Quem discorda das “lições” acima expostas pelos zapatistas e por Chris Hedges, respectivamente, sobre a importância da organização coletiva e a importância da separação/distanciamento em relação à classe dominante?</p>
<p style="text-align: justify;">Se quase todos concordam, então por que a grande maioria dos autodenominados socialistas, principalmente os marxistas, quando constroem ou participam de organizações coletivas, é em última análise visando que seus quadros mais elevados se misturem à classe dominante, se tornando eles próprios gestores do capitalismo?</p>
<p style="text-align: justify;">E misturar-se pode significar tornar-se classe dominante ao tomar para si o poder do Estado, ou, como tem sido mais frequente, buscar cargos de governo e no parlamento nas democracias liberais. Nesse último caso, inevitavelmente, a aceitação das regras do jogo dessas instituições burguesas e toda espécie de encontros, reuniões, compromissos, jantares, tapinhas nas costas, inerentes à política nessas instituições, levam ao oposto da lição do caso Chomsky-Epstein, bem sintetizada por Chris Hedges. A relações de figurões do PT como Jaques Wagner, Rui Costa e Guido Mantega com o banqueiro bilionário Daniel Vorcaro são só o enésimo exemplo, que poderia ser encontrado também em qualquer outro país.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158760" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg" alt="" width="960" height="640" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-300x200.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-768x512.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-630x420.jpeg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-640x427.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-681x454.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px" />A clivagem ou hipocrisia, como se queira, é descomunal. Enquanto se condena (com pelo menos certa razão) as expressões de “amizade” de Chomsky com Epstein, se constrói e se sustenta organizações cujo objetivo é se misturar com a classe dominante. E frequentemente ainda colocam “socialista” ou “comunista” no nome da organização. Ainda pior, muitas vezes os membros ou simpatizantes da dita organização defendem ferrenhamente quando seus altos quadros, em posições nas instituições burguesas, como um Lula ou um Boulos, agem sem disfarces como operadores do grande capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Peguemos no Brasil o PT e o PSOL como exemplos, provavelmente duas entre as três maiores organizações políticas do país no quesito de filiados que se autodenominam socialistas (ou comunistas). Ambos partidos foram formados explicitamente para disputar espaço nas instituições burguesas. Segundo a racionalização de Lula na época da constituição do PT, ele teria se tornado necessário devido às lutas sindicais encontrarem um limite. Já o PSOL foi formado por uma cisão de parlamentares do PT. Ambos partidos fazem parte do atual governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Luiz Marinho, Ministro do Trabalho e quadro histórico do PT, tem utilizado seu cargo para, por exemplo, assediar auditores fiscais do trabalho que lavram flagrantes de trabalho escravo e para anular os flagrantes de trabalho escravo de grandes empresas como a JBS. Sequer o governo Bolsonaro chegou a esse ponto. Com exceção da CSP-Conlutas, nenhuma central sindical se manifestou contra esse ataque à política de combate ao trabalho escravo no Brasil, e que se dá de forma tão explícita em favor de grandes empresas.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato do Ministro do Trabalho, do Partido dos Trabalhadores, usar o cargo para beneficiar empresas flagradas explorando trabalho escravo, nem sequer abala sua posição no partido ou no governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Misturar-se com a classe dominante não é apenas meio, é objetivo do PT (e da CUT, seu braço sindical). De outro modo seria insustentável as práticas de Luiz Marinho (com aval do seu amigo Lula), assim como seria insustentável as práticas do Ministro da Educação do PT, Camilo Santana, com sua proximidade da Fundação Lemann. Evidentemente uma organização política que tivesse como princípio não se misturar à classe dominante mas destruí-la, não geraria e sustentaria esse padrão de figuras como Luiz Marinho, Camilo Santana, Jaques Wagner, José Dirceu etal. Partidos como o PT e o PSOL foram constituídos para se misturarem com a classe dominante. Na forma e no objetivo real principal (conseguir cargos parlamentares e no governo) são partidos burgueses, por mais apinhados de ditos socialistas que estejam. Banalidades básicas, alguém dirá com razão.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158763" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md.jpg" alt="" width="768" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/16003639685f639dc08d71c_1600363968_3x2_md-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" />No PSOL, temos agora o exemplo acachapante de Guilherme Boulos. Entrou no PSOL em 2018, já para ser candidato à presidência da república. Tem sido figura de ponta para levar o PSOL cada vez mais para perto do lulismo, a ponto de ter sido alçado por Lula a Ministro da Secretaria-Geral, cargo que nos governos do PT tem por função principal cooptar, enrolar, amansar e enganar movimentos sociais. E Boulos com pouco tempo no cargo tem desempenhado com esmero essa função. Está atualmente mentindo e tentando enganar os entregadores e os povos indígenas da Amazônia em favor do grande capital <strong>[3]</strong>. Ele e Sônia Guajajara, Ministra dos Povos Indígenas, também do PSOL, estão na linha de frente para garantir a efetivação do distópico Decreto nº 12600/2025, que coloca três importantíssimos rios amazônicos no “Plano Nacional de Desestatização”. Estão na linha de frente para garantir a destruição dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins-Araguaia, de modo a serem construídas hidrovias para o grande capital extrativista e do agronegócio. Nem Boulos nem Sônia Guajajara serão expulsos do PSOL. E não falta militantes do partido ou simpatizantes para defender Boulos. Ora, Boulos, no seu carreirismo e busca de poder pessoal entrou no PSOL evidentemente porque se trata de uma organização voltada ou propícia a isso: a ascensão social através das instituições burguesas. Em outras palavras, uma organização voltada e propícia a se misturar às classes dominantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Jones Manoel se filiando para se candidatar a deputado pelo PSOL, é só mais um que segue o caminho de buscar ascensão através de instituições burguesas, se misturar à classe dominante e ao mesmo tempo arrotar comunismo.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">Quando se trata de partidos disputando cargos ou de posse de cargos em instituições burguesas, a maioria dos ditos socialistas naturaliza e aceita a mistura com a classe dominante, isto é, aceita que se constitua relações amistosas com ela. Essa naturalização é o sintoma da maior derrota possível do campo que deveria ser antagônico à classe dominante. É uma derrota total, pois aqueles que se dizem antagônicos à classe dominante, e em geral acreditam mesmo que o sejam, se organizam para se tornar um amigo, um operador ou até mesmo um igual, isto é, parte da classe dominante.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa naturalização é constitutiva de grande parte das organizações políticas que se dizem socialistas ou comunistas, e da totalidade delas que se organizam para conquistar cargos nos parlamentos e governos. É essa naturalização, essa normalização inerente a esses partidos, que mantém um Boulos e um Luiz Marinho nos seus respectivos partidos, ao mesmo tempo que usam seus cargos mesmo que explicitamente contra os direitos dos trabalhadores e dos de baixo em favor dos capitalistas. Ou, se se preferir, é essa naturalização que mantém a maioria dos filiados a esses partidos apesar das práticas de um Boulos, um Luiz Marinho, um Lula e tal.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158760" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg" alt="" width="960" height="640" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1.jpeg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-300x200.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-768x512.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-630x420.jpeg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-640x427.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/2d4de6ae-lula-e-carlos-favaro.-ft-reproducao-instagram-@lula-960x640-1-681x454.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A hegemonia dessa naturalização dentro da classe trabalhadora e dos de baixo significa a derrota contínua de qualquer perspectiva de socialismo. É a hegemonia do “misturar-se com a classe dominante”.</p>
<p style="text-align: justify;">A lição do caso particular Epstein-Chomsky já foi dada inúmeras vezes pela história das lutas sociais: é preciso organizar coletivamente, social e politicamente, a autonomia de classe. É preciso construir e manter organizações que são simplesmente o oposto das organizações que atraem a maioria dos ditos socialistas e comunistas nos dias de hoje; feitas para a ascensão de alguns em meio à construção de relações com a classe dominante.</p>
<p style="text-align: justify;">O que os socialistas precisam não é se aproximar desses vampiros e se tornar seus escravos ou operadores. Os socialistas precisam é destruir a classe dominante. E isso se dará através da constituição de novas relações sociais, inclusive e fundamentalmente nas esferas da produção e reprodução.</p>
<h4 style="text-align: justify;">Notas</h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Ver <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2025/12/16/magazine/jeffrey-epstein-money-scams-investigation.html" href="https://www.nytimes.com/2025/12/16/magazine/jeffrey-epstein-money-scams-investigation.html" rel="ugc nofollow">https://www.nytimes.com/2025/12/16/magazine/jeffrey-epstein-money-scams-investigation.html</a>; e ver <a class="urlextern" title="https://www.dropsitenews.com/p/jeffrey-epstein-iran-contra-planes-leslie-wexner-pottinger-leese-arms-weapons-smuggling" href="https://www.dropsitenews.com/p/jeffrey-epstein-iran-contra-planes-leslie-wexner-pottinger-leese-arms-weapons-smuggling" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.dropsitenews.com/p/jeffrey-epstein-iran-contra-planes-leslie-wexner-pottinger-leese-arms-weapons-smuggling</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Ver <a class="urlextern" title="https://substack.com/home/post/p-187347674" href="https://substack.com/home/post/p-187347674" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://substack.com/home/post/p-187347674</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Ver <a class="urlextern" title="https://www.gazetadopovo.com.br/economia/guilherme-boulos-regulamentacao-trabalho-aplicativos-racha-base-entregadores/" href="https://www.gazetadopovo.com.br/economia/guilherme-boulos-regulamentacao-trabalho-aplicativos-racha-base-entregadores/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.gazetadopovo.com.br/economia/guilherme-boulos-regulamentacao-trabalho-aplicativos-racha-base-entregadores/</a>; e ver <a class="urlextern" title="https://www.esquerdadiario.com.br/Boulos-mentiu-aos-indigenas-do-Tapajos-60664" href="https://www.esquerdadiario.com.br/Boulos-mentiu-aos-indigenas-do-Tapajos-60664" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.esquerdadiario.com.br/Boulos-mentiu-aos-indigenas-do-Tapajos-60664</a></p>
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		<title>O padre e o pastor</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Feb 2026 00:34:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
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					<description><![CDATA[O protestantismo no Brasil foi a amante que reacendeu a paixão no coração de quem vivia a mesmice com a esposa. Por Luís]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Luís</h3>
<p style="text-align: justify;">O Brasil mudou muito nos últimos 25-30 anos? Não sei dizer ao certo, até por não estar sequer neste mundo na época mas, pelo que dizem os relatos e demais fontes, não parece. Fato é que, se há algo que, notavelmente, não é mais como costumava ser é a composição religiosa do Brasil: o cristianismo continua predominante, como era de se esperar, porém em uma forma diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Naquele Brasil, já se pensava no batismo da criança recém-nascida nas mãos do padre assim que ela vinha ao mundo, quase como a sua consolidação como um ser humano pleno, um lavar-de-umbigo sacro. Se aprendia a rezar o ave-maria, o pai-nosso à maneira do alfabeto e das cantigas de roda. Os domingos eram os dias da missa, as festas populares pertenciam aos santos. Suas representações em barro circundavam o Brasil, à mostra e bem cuidadas ou embaladas em sacos de plástico nos comércios, sendo uma daquelas coisas que os vendedores têm sempre de ter no estoque, tão característicos quanto a fauna e a flora, elementos que se viam tanto nas residências mais humildes como no palácio presidencial, semelhante ao futebol, à música e tudo mais que nos é característico…</p>
<p style="text-align: justify;">Então, alguns poucos anos se passam e tudo se modifica: os santos não são mais unanimidade, muitos dos que são ferrenhamente apegados a Jesus Cristo até zombam de Maria, a mãe de Deus. As imagens já não vendem tanto, são mais produtos destinados a um nicho, até objetos de um gosto nostálgico. As crianças são mais <em>laicas</em> do que nunca e, apesar de ainda terem em seus vocabulários muitas referências cristãs, são bem diferentes daquelas tipicamente católicas: menos ave-marias e agradecimentos fazendo o sinal da cruz e mais “sangue de Jesus tem poder”, “glória” e agora se agradece apontando os dedos para o céu ou de joelhos… O que aconteceu?</p>
<p style="text-align: justify;">Há um tempo, existia uma estranha seita bem distante do centro. Acreditavam em Jesus Cristo, como já era de se esperar — quem além dos chamados “macumbeiros” negaria a Deus? <strong>[1]</strong> —, mas difamavam a Santa Igreja, a Virgem (ou talvez não tão virgem) Maria e tudo mais que havia de sagrado, um absurdo! Inaceitável!</p>
<p style="text-align: justify;">Houve inclusive um episódio em que um líder, que talvez tenha pouco poder para se equivaler ao padre, o <em>pastor</em>, de uma dessas igrejas chutou raivosamente uma imagem da santa em rede nacional enquanto dirigia palavras ofensivas a ela e às crenças católicas. Vale lembrar que a televisão nesses anos não era como é a televisão de hoje. Aliás, nem a comparação com a internet seria adequada: esta é fragmentada em vários nichos, cosmos. Não há unidade, unanimidade. Seria provavelmente correto dizer que há uma internet para cada um, onde cada um consome o seu mundo e nada é universalmente reconhecido. Há uma internet de um grupo de jovens, dos idosos, das pessoas de meia idade… A televisão, por outro lado, era restrita, para o povo, a uns quatro canais que monopolizavam a atenção e a cultura, se assim podemos dizer, do país. Com a imagem do religioso e seu gesto passando em todos os canais se viu, ali, sim, o verdadeiro cancelamento.</p>
<p style="text-align: justify;">É claro que a Igreja Católica se aproveitou da situação para alertar seu rebanho contra as blasfêmias e heresias dos <em>evangélicos</em>. Poderia haver imagem melhor que aquela para fazer com que qualquer um que se preze se afaste dessa religião? Obviamente os padres logo foram advertir energeticamente aqueles que assistiram a missa contra esse absurdo, com todos os fiéis uniformemente em silêncio expressando a concordância para com o sacerdócio, além do espanto e revolta notável de vários.</p>
<p style="text-align: justify;">E, logo, alguns anos se passam e milhões desses católicos se tornam evangélicos, e estes ameaçam até mesmo ultrapassá-los em número (pois em relevância talvez já tenham passado) num futuro próximo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os católicos mais apegados poderiam chamar essa revolução de inversão de valores quando não percebem que não há aí nenhuma inversão: mesmo que as referências ao catolicismo abundassem, o fato é que, desde muito antes do Brasil ser como nós o conhecemos hoje, ser católico — e, na mesma lógica, ser cristão — muito pouco diz sobre valores. Aderir a um esquema rígido de valores é complexo, difícil. Se há em todo ser humano uma adesão a um conjunto desse tipo, ele se constitui através das experiências, da educação, da vivência: é uma adaptação, um aprender-a-viver, um <em>habitus</em> ou personalidade. A virtude depende da necessidade, e ter uma virtude que não atende a uma necessidade não é natural, o corpo sente que algo está errado. A religião cristã, seguida à risca, não é para todo mundo (e bem se poderia dizer que não é para ninguém), e se se quer torná-la popular, é preciso que ela seja não voluntária, mas <em>útil</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Como poderia ser popular o que é rígido, o que exige um esforço que o corpo nem sequer consegue suportar, o que não faz sentido? Se adaptando, e os santos foram muito importantes nisso: esses semideuses que rondavam a terra, o imaginário e eram visados nas orações e nas preces mais ligadas à vida cotidiana, enquanto o Deus-Pai era sempre muito distante, sempre inacessível. Seus mandamentos não diziam respeito ao que era do interesse de suas ovelhas, sua sabedoria, como tudo nessa figura, muito mais respeitada do que compreendida, e tal respeito não se funda nas suas obras, no que fez de benéfico, mas se dá simplesmente pelo fato de ser o que é, na sua posição — não atoa o chamam de “pai”. Os santos, por outro lado, são de carne, são como nós, especialistas nas paixões humanas, no amor, no casamento…, e assim como os pequeninos pedem aos irmãos, tios ou quem é que pensem ser mais afável para que os “liberem”, quando têm chance, ao invés das figuras que detém mais poder dentro da dinâmica familiar, se pede aos santos quando não se quer ver de frente as faces das suas vergonhas falando com Deus. Os santos são como as amizades de bar (e por quanto tempo não estiveram lá, como talvez a única peça que não é efêmera e secular, bem postados por cima dos balcões…), sempre presentes para quando os brasileiros comuns, afetivamente pobres, pedem migalhas a quem quer que se coloque na posição de igual em seus momentos de cansaço, para que possam aguentar a labuta de todos os dias com o objetivo de se manter vivo. Podem até mesmo dizer que lutam pela sua família, pelo dinheiro, pelo futuro, mas é pouco provável: o movimento se dá pelo costume, pelo tédio, pelo vazio. A nostalgia dos tempos de criança não se dá por acaso: no Brasil, a maturidade e a depressão se confundem com enorme facilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O cristianismo talvez tenha sido palatável para diferentes classes sociais, por oferecer afirmação ao modo de vida — ou pelo menos cumprir importantes demandas — de grupos bastante diferentes. Os ricos, em sua vida mansa, ascética, pacífica, são cristãos; os pobres, quando revoltados, quando identificados enquanto humilhados, enquanto os últimos, são cristãos e, mais que isso, são afirmados como os primeiros. Essa, definitivamente, é uma grande virtude do que quer se tornar publicamente muito respeitado: permitir várias interpretações diferentes com as quais pode-se identificar.</p>
<p style="text-align: justify;">Todavia, apesar de todas as simplificações e manobras que o clero fez ao longo do tempo para que mantivesse sua hegemonia, seu erro foi tornar-se cada vez mais distante, não acompanhar o ritmo da vida urbana. Como os casais apaixonados que põe o sentido da juventude na conquista do que veem como “amor” (e, assim como ocorre com os católicos, o conceito pelo qual se justifica a busca é opaco; o desejo de dominação, contudo, é muito concreto) e, depois de conseguirem o que tanto desejam, se deixam perder no costume, no tédio, na repetição, no ócio — tornando o companheiro um fardo a mais para se carregar e não, como se espera, um porto seguro, refúgio—, a Igreja esteve para com os fiéis: sempre com os mesmos rituais, assuntos, eventos… aquilo se tornava repetitivo, enfadonho, não fazia mais sentido em vista às urgências da vida das pessoas comuns.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158738 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr.jpg" alt="" width="900" height="530" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-300x177.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-768x452.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-713x420.jpg 713w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-640x377.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/opagadorrr-681x400.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" /></p>
<p style="text-align: justify;">No mundo de hoje muito se fala no efeito destrutivo das comparações nas redes sociais: comparar o orgânico, real e cru àquilo que é artificialmente trabalhado para que pareça o melhor possível, que é fruto de um trabalho de dissimulação, de pinça. O que geralmente não é lembrado é que esse fenômeno não é novo, e os heróis demonstram isso muito bem. Para que se torne um herói é preciso entender de economia simbólica, ou pelo menos ter a sorte de se adequar às suas regras ao longo da trajetória.</p>
<p style="text-align: justify;">O tipo clássico de herói de carne e osso é aquele que, além de ter grandes feitos, sabe se manter à distância: proximidade, profundidade, opinião, relação íntima, tudo isso gera conflito, divergência. O herói precisa, primeiramente, estar acima das contradições, ser unânime, o seu reconhecimento se dá por não poder ser reconhecido por nada que seja questionável. Não se veem contradições, defeitos (que, dizem por aí, “todo mundo tem”, mas são <em>ignorados</em> no caso, nos dois sentidos da palavra), o seu ser se dissolve na imagem do bem, porque o bem é tudo que se sabe a respeito do ser — e sempre que só se sabe o bem, se sabe muito pouco —, a figura imaculada é um não-ser. Exemplo máximo são os que morrem logo depois de nascer: tudo que será comentado ao seu respeito é positivo, se pensa no que seria, no que poderia ter feito, no melhor sentido do seu potencial, é o eterno “ e se”, e não se critica justamente porque não há quem seja capaz de criticar na falta de obras concretas. O ditado diz que ou você morre herói ou vive o bastante para se tornar vilão, o que é verdadeiro, mas a frase passa longe de ser crítica: ela constata com um realismo cinza, que se vê frente às regras do mundo com passividade, não propõe ruptura — que seria um tanto necessária… <em>Only God can judge me</em>…</p>
<p style="text-align: justify;">O outro tipo de herói é aquele que, do alto de seu pedestal, desce aos mortais e se abre à polêmica, à confusão. Deixa a mostra para o mundo as suas veias, artérias, entranhas, derrama o sangue pelo centro e não pelas margens <strong>[2]</strong>, justamente em um mundo que o corpo é vergonha e, o espírito, capital. Mas de onde vem o prestígio desta espécie?…</p>
<p style="text-align: justify;">A figura do padre ilustra bem o primeiro tipo e, também, o que deu origem ao vácuo que foi deixado no coração dos católicos: Ele é o espectro que se coloca ao centro e acima dos demais. Os ouvintes se assentam nos bancos, como iguais uns aos outros, para se submeterem ao que, ali, está mais próximo do Céu, próximo às figuras sagradas, das imagens e de toda aquela beleza cuidadosamente polida ao longo de séculos no palácio mais nobre que a cidade conhece. Tudo que se vê é a sua versão mais polida e gloriosa, e isso <em>constrange</em>, e constrange principalmente o povo. O povo é que tem de internalizar as disposições de violência, que se traumatiza, que vive sufocada pelas urgências, pelos medos e que se submete aos males da vida urbana. Ele é que vai olhar para dentro de si, para seus pecados e terá vergonha, se sentirá menos e abaixará a cabeça escondendo o rosto no confessionário para ser perdoado e disciplinado pelo padre, como um eterno educando, um eterno a-ser-lapidado que nunca chega à maturidade, o fiel é para sempre um menor a ser continuamente corrigido, mas sua correção não aponta para o crescimento, pois sua essência é a menoridade, enquanto a do sacerdote é a figura a quem o pai deixou parte de seu poder, é o que goza de parte da sua autoridade, um quase-pai.</p>
<p style="text-align: justify;">Os pastores aparecem nessa brecha deixada pelos católicos. Mas não os pastores das igrejas tradicionais, os presbiterianos, os batistas mais ortodoxos e semelhantes. Tais figuras não concentram tanto poder por si mesmos e são apenas parte de uma estrutura que é muito maior que os mesmos: são “somente” operários da fé. Adversários com quem a Igreja Católica não rivaliza, postados em lugares distantes dos grandes centros e das grandes margens, com frequentadores de classe-média, cultos e que conservam distância suficiente do resto para que não se pense além de seu próprio cosmo. Descendentes daqueles grandes europeus dos livros de história, vivem àquela maneira enquanto habitam o país tropical, mas muito, muito longe da selva…</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo distantes, sua semente chegou lá e cresceu entre os espinhos — e bem sabemos que o que cresce entre os espinhos é mais próspero do que o que cresce em solo pedregoso; aqui, os frutos católicos. Nos locais mais inóspitos, o pastor teve de aprender a se tornar herói. Porém, sem as regalias monetárias, sociais, culturais e outras, não poderia ser o herói tradicional, teve então de se tornar aquele que constrói com sangue seu capital. Ele não pode, como o primeiro tipo, se assentar na aura de Deus, da Igreja, ou da família, pois não herda nada. O padre é herdeiro de uma forte herança simbólica: geralmente oriundo de “boas famílias”, tem um sobrenome que vai além das letras, acumula respeito com seu nome e as posses que conquista no fluxo natural do mundo e, ao realizar sua vocação (ou pelo menos assim chamam…), é beneficiário de toda uma riqueza construída ao longo de séculos — e que foi construída em cima de muito mais sangue; porém, enquanto sangue for capital, não será visto como morte, mas como vida: <em>quem lembra do sangue derramado admirado com a Pirâmide de Quéops?</em> Se toda aura é trabalho de um acúmulo histórico, o pastor marginal terá de ser <em>duas vezes melhor</em>, mesmo estando há <em>500 anos atrasado</em>; é, por excelência, o <em>self-made man</em>. O seu maior feito? Ser o mais próximo de Deus na boca do inferno.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um cenário onde, para que se consiga viver (ou pelas dores da vida) se internaliza o “pior” <strong>[3]</strong>, o pastor consegue demonstrar ser bom. Mas não é bom por sua essência, não é alguém distante com quem se comparam os que comparecem ali — muitas vezes pela primeira vez ou após muito tempo sem qualquer experiência em Igrejas —, de quem não poderiam estar perto nem por sua menoridade moral, nem por sua inferioridade intelectual <strong>[4]</strong>. É um ser humano, muito humano, e que poderia muito bem ser amigo do ouvinte, familiar do ouvinte e, é claro, o próprio ouvinte. Não somente por sua origem simples, por sua aparência familiar — nisso Jesus também se enquadra e nós bem sabemos o quão longe está o mundo de Jesus — mas por sua carnalidade e abertura. Muitos não compreendem o sucesso que têm em seus empreendimentos aqueles que, na posição de líderes eclesiásticos, expõe os maiores horrores de seu passado: uso de drogas, vida na criminalidade, promiscuidade… “Como alguém vai respeitar assim?” perguntam; não veem que na quebra do teto de vidro, se quebra também o constrangimento, para de ser sobre domar e se começa a pensar em <em>engajamento</em>, o que é <em>muito mais prazeroso</em>, é <em>potência</em>, e de que carecem mais estes pequeninos que poder?… Mais que isso, ele rompe com o estéril, com o enfado do catolicismo deslocando o discurso do além para o <em>agora</em>. Não se fala em um Deus que está parado no céu, a esperar tranquilo pelo longínquo dia do julgamento final e sim do Deus que começa a ocupar o posto que era dos santos, ativo na vida cotidiana. É a ele que se recorre para se curar das doenças na falta de um sistema de saúde adequado, para que desvie os filhos do mau-caminho (que são muitos), para que se tenha recursos mínimo em um contexto de escassez. O pastor também participa ativamente do processo, conduzindo as doações, tocando nas feridas abertas de suas ovelhas, se infiltrando na sua vida pessoal, dando opiniões fortes… O pastor, como todo herói da sua espécie, é e tem que ser polêmico.</p>
<p style="text-align: justify;">Conseguimos perceber o desejo incontrolável por ascender socialmente nos dias atuais, e que exemplo melhor do que o pastor para mostrar que isso é possível? O padre tomou o “toco” até mesmo em seu discurso inflamado contra o protestantismo nos anos 90. Agora os pastores fazem o mesmo e seus antigos fiéis se deliciam no maior dos prazeres que o ressentimento pode proporcionar: difamar àquele que o atinge, mas a quem não consegue questionar.</p>
<p style="text-align: justify;">O protestantismo no Brasil foi a amante que reacendeu a paixão no coração de quem vivia a mesmice com a esposa. Ah, por que Jesus não advertiu, no seu apelo ao amor, que este não tem nada a ver com paixão… Não sei ao certo se é correto falar em morte ou metamorfose de Deus, mas, seja como for, se se amasse tanto a Deus por aí como se costuma dizer, isso aconteceria? Haveria mudança tão rápida e radical? E Maria, e os santos a quem diziam ter amor?…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Não se trata aqui de dar aval à tais declarações preconceituosas em relação às religiões de matriz africana, mas ilustrar o infeliz preconceito.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Queria<br />
Queria ter te conhecido antes<br />
Pra não ver você endurecido ante<br />
O mundo escurecido, instantes<br />
Antes do delírio: sangue<br />
É o que você derrama pelas margens<br />
(Minha autoria)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> <em>Pior</em> aqui aparece entre aspas para destacar o caráter arbitrário, flexível e não rígido do valor dessas disposições. Disposições iguais ou semelhantes podem ser negativas em uma determinada sociedade e positivas em outra, como a maior aptidão à violência, reatividade. Dentro da mesma sociedade pode ocorrer o mesmo, a depender dos princípios de percepção e apreciação e das regras de cada campo, pensando em Pierre Bourdieu. Aqui, o “ruim” é o que não é cristão, o que é corpo e não espírito (sobre essa oposição nas sociedades ocidentais, ver <em>Como o Racismo Criou O Brasil</em>, de Jessé Souza).<br />
<strong>[4]</strong> A intenção não é, evidentemente, defender essa inferioridade como se fosse real. Se trata, na verdade, de colocar como essas questões poderiam ser erroneamente vistas por quem participa do processo, seja no “topo” ou na “base”. Aliás, seria um tanto ridículo falar em superioridade ou inferioridade moral visto o que foi desenvolvido até aqui, e também a diferença de capacidade intelectual entre classes.</p>
<blockquote><p>Ilustram o artigo cenas do filme <strong>O Pagador de Promessas</strong>, de Anselmo Duarte (1962).</p></blockquote>
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		<title>[São Paulo] Favela do Moinho lança a campanha &#8220;Alê livre&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 21:00:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Em defesa da liberdade e da integridade física e psíquica de Alessandra Moja Cunha. Por Comitê em Defesa do Moinho e pela Liberdade das Pessoas Presas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Comitê em Defesa do Moinho e pela Liberdade das Pessoas Presas</h3>
<p style="text-align: justify;">Localizada entre os distritos da Santa Cecília e do Bom Retiro, há mais de 3 décadas a Favela do Moinho resiste a inúmeras tentativas de expulsão, incêndios, abusos, execuções policiais e criminalização generalizada da comunidade <strong>[1]</strong>. Trata-se, como se sabe, da última favela remanescente na região central de São Paulo.</p>
<p>Recentemente, o governo estadual escolheu a região, uma das mais valorizadas na cidade, para construir a sua nova sede administrativa. No mesmo pacote, incluiu a construção de um parque e de uma estação privatizada de trem precisamente no terreno em que as famílias do Moinho encontraram um modo viável de viver na região central, perto das oportunidades de trabalho e de serviços públicos.</p>
<p>O projeto, que é declaradamente a ponta de lança para favorecer os diversos empreendimentos imobiliários e empresariais que invadiram a região na última década <strong>[2]</strong>, impulsionou uma brutal escalada de assédios e ataques à comunidade.</p>
<p>Com coragem e articulada com movimentos sociais e apoiadores voluntários de longa data (todos eles signatários desta carta), a Favela do Moinho conseguiu arrancar aos governos estadual e federal um compromisso de subsídio integral de moradias para toda a comunidade <strong>[3]</strong>.</p>
<p>Foi nesse contexto de reivindicação legítima do direito à moradia que se deu a vexaminosa operação policial do dia 8 de setembro de 2025 coordenada pelo GAECO, do Ministério Público, e executada por dezenas de policiais.</p>
<p>A reação institucional à vitória significativa da comunidade foi a prisão decretada contra Alessandra Moja Cunha, uma das lideranças históricas do movimento de moradia do centro de São Paulo e desde sempre engajada na associação de moradores do Moinho, sob absurdas acusações de participação em organização criminosa, prática de extorsão, receptação, crime ambiental e associação para o tráfico.</p>
<p>Na ocasião, a sua casa foi arrombada pelos policiais que, sem respeitar a obrigatoriedade do uso câmeras corporais, a agrediram com um soco e ameaçaram dar choques com o fio desencapado que extraíram do televisor. Certos de que tinham guarida, os policiais ainda forjaram uma mochila de entorpecentes ilegais contra ela e o marido <strong>[4]</strong>.</p>
<p>Para agravar o quadro de explícita perseguição política, Alê foi transferida, sem qualquer motivação idônea, para uma penitenciária situada em Tupi Paulista, a 700 quilômetros da capital. Lá, próximo à divisa com o estado do Mato Grosso do Sul, Alê tem somente quatro horas diárias de banho de sol e não tem recebido visitas pessoais em razão da dificuldade de locomoção dos familiares.</p>
<p>Contra toda essa covardia e terror, estamos aqui para exigir verdade e justiça.</p>
<p>Alê tem uma história de que deve se orgulhar. Sempre se dedicou ao trabalho honesto e cotidiano, à subsistência de suas filhas e filhos, às diversas ações de apoio mútuo entre vizinhos e na luta pelos direitos da comunidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo dos últimos 15 anos, Alê foi ativa na defesa dos direitos básicos da comunidade relacionados, sobretudo, à regularização fundiária, ao fornecimento de água e luz e ao saneamento básico. É notória e amplamente documentada a sua participação em inúmeras negociações com órgãos públicos e na articulação com agentes da sociedade civil organizada <strong>[5]</strong>. Internamente, foi uma das principais responsáveis por promover e cuidar de espaços coletivos para atividades culturais, como a Casa Pública, o Parque Vermelhão, o Cine Moinho etc.</p>
<p>É preciso que todos saibam que há muito tempo a Alê era intimidada em razão de seu engajamento direto na luta por moradia digna. Como sempre de cabeça erguida, Alê jamais deixou de atuar à luz do dia e reivindicar legitimamente os direitos dos moradores <strong>[6]</strong>.</p>
<p>Agora está sendo acusada por uma série de fatos que jamais cometeu única e exclusivamente em razão da sua atuação como líder de movimento de moradia. Uma acusação fajuta, baseada em laços de parentesco e sem nenhuma prova concreta, hoje a mantém presa injustamente e em condições desumanas de isolamento.</p>
<p>Felizmente, dois escritórios renomados (Tofic Advogados e Toron Advogados) e o Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD) assumiram gratuitamente a defesa da Alê. Mas a sua família não tem condições financeiras de bancar viagens para visitá-la do outro lado do estado e só com sacrifícios imensos tem conseguido enviar o jumbo mensal.</p>
<p>Desse modo, a presente carta serve de endosso à campanha permanente pela liberdade da Alê <strong>[7]</strong> e igualmente de pedido de contribuição financeira para arcar com os custos para garantir visitas e jumbos até ela ser libertada. <a href="https://apoia.se/faveladomoinho" target="_blank" rel="noopener">CONTRIBUA COM O APOIA-SE</a>.</p>
<p>Somos muitas ao lado da Alê. Há mais de década conhecemos sua história, sua força e sua imensa dignidade. Enquanto ela estiver presa, estaremos reunidos em solidariedade pela preservação de sua integridade e por sua liberdade.</p>
<p>Alê livre!</p>
<p><a href="https://apoia.se/faveladomoinho" target="_blank" rel="noopener">https://apoia.se/faveladomoinho</a></p>
<p style="text-align: justify;">ASSINAM ESSA CAMPANHA:</p>
<ol style="text-align: justify;">
<li>Comitê em Defesa do Moinho e pela Liberdade das Pessoas Presas</li>
<li>Associação de amigos e familiares de presos/as (AMPARAR)</li>
<li>Associação dos Movimentos de Moradia da Região Sudeste</li>
<li>Campanha Despejo Zero São Paulo</li>
<li>Central de Movimentos Populares &#8211; CMP</li>
<li>Central Sindical e Popular CSP-Conlutas</li>
<li>Centro Acadêmico de Estudos Linguísticos e Literários Suely Yumiko (CAELL) &#8211; Letras USP</li>
<li>Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos</li>
<li>Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP</li>
<li>Comitê Brasilândia Nossas Vidas Importam</li>
<li>Defemde &#8211; Rede Feminista de Juristas</li>
<li>DHCTEM &#8211; Grupo de Pesquisa de Direitos Humanos, Centralidade do Trabalho e Marxismo (FDUSP)</li>
<li>Equipe São Paulo do Conselho Indigenista Missionário &#8211; CIMI</li>
<li>FACESP &#8211; Federação das Associações Comunitárias do Estado de São Paulo</li>
<li>Frente Nacional de Luta Campo e Cidade &#8211; FNL</li>
<li>GPTC &#8211; Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital (FDUSP)</li>
<li>Instituto Terra, Trabalho e Cidadania – ITTC</li>
<li>LabCidade – Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo</li>
<li>Luta Popular</li>
<li>Mandela Free</li>
<li>Movimento de Familiares das Vítimas do Massacre de Paraisópolis</li>
<li>Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB)</li>
<li>Movimento de Moradia do Centro de São Paulo – MMRC</li>
<li>Movimento de Mulheres Olga Benário</li>
<li>Movimento Esquerda Socialista (MES) &#8211; PSOL</li>
<li>Movimento Mulheres em Luta &#8211; MML</li>
<li>Movimento Negro Unificado (MNU)</li>
<li>MRFU &#8211; Movimento de Regularização Fundiária e Urbanização</li>
<li>MRT &#8211; Movimento Revolucionário de Trabalhadores</li>
<li>Observatório da Violência Policial e Direitos Humanos (OVP-DH)</li>
<li>Organização Socialista Libertária (OSL)</li>
<li>Programa de Assessoria, Garantia e Defesa de Direitos do Instituto das Irmãs da Santa Cruz (ADDIISC)</li>
<li>PSTU &#8211; Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado</li>
<li>Rede Emancipa de Educação Popular</li>
<li>Resistência &#8211; PSOL</li>
<li>SAJU Cidade &#8211; Serviço de Assessoria Jurídica Universitária, frente cidade (FDUSP)</li>
<li>Secretaria de Mulheres da União dos Movimentos de Moradia &#8211; UMM-SP</li>
<li>Sindicato Dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo – SINTUSP</li>
<li>Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Federal do Estado de São Paulo &#8211; SINDSEF-SP</li>
<li>União dos Movimentos de Moradia de São Paulo &#8211; UMMSP</li>
</ol>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p><strong>[1]</strong> Cf. documento da Fiocruz “Favela do Moinho luta por políticas públicas que priorizem sua permanência, a urbanização e o respeito aos direitos dos moradores”, de 2025”: <a href="https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/conflito/favela-do-moinho-luta-por-politicas-publicas-que-priorizem-sua-permanencia-a-urbanizacao-e-o-respeito-aos-direitos-dos-moradores/" target="_blank" rel="noopener">https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/conflito/favela-do-moinho-luta-por-politicas-publicas-que-priorizem-sua-permanencia-a-urbanizacao-e-o-respeito-aos-direitos-dos-moradores/</a></p>
<p><strong>[2]</strong> Nas palavras do vice-governador e líder da “política de desestatização” do governo estadual, o objetivo é que o projeto seja o “motor de revitalização da região central, atraindo investimentos, promovendo infraestrutura moderna e gerando um novo dinamismo econômico&#8221; [cf.: <a href="https://www.instagram.com/reels/DKS5TawyEjP/" target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/reels/DKS5TawyEjP/</a>]</p>
<p><strong>[3]</strong> Cf.: <a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/geral/audio/2025-06/familias-da-favela-do-moinho-receberao-r-250-mil-para-comprar-imovel" target="_blank" rel="noopener">https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/geral/audio/2025-06/familias-da-favela-do-moinho-receberao-r-250-mil-para-comprar-imovel</a></p>
<p><strong>[4]</strong> Cf.: <a href="https://ponte.org/operacao-que-prendeu-lideres-no-moinho-mandou-pms-sem-camera-para-suposto-flagrante-de-drogas/" target="_blank" rel="noopener">https://ponte.org/operacao-que-prendeu-lideres-no-moinho-mandou-pms-sem-camera-para-suposto-flagrante-de-drogas/</a></p>
<p><strong>[5]</strong> Para ilustrar: (1) participação em reportagem publicada pela Reporter Brasil em 18 de outubro de 2013: <a href="https://outraspalavras.net/outrasmidias/a-longa-resistencia-da-favela-do-moinho/" target="_blank" rel="noopener">https://outraspalavras.net/outrasmidias/a-longa-resistencia-da-favela-do-moinho/</a>; (2) reunião com o prefeito de São Paulo em 14 de dezembro de 2014: <a href="https://prefeitura.sp.gov.br/web/habitacao/w/noticias/187584" target="_blank" rel="noopener">https://prefeitura.sp.gov.br/web/habitacao/w/noticias/187584</a>; (3) participação na produção do documentário “Moinho 14”: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=3-Jq5nQw-bM" target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=3-Jq5nQw-bM</a>; (4) entrevista à BBC sobre a luta por água e esgoto, publicada em 26 de abril de 2022: <a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-61197414" target="_blank" rel="noopener">https://www.bbc.com/portuguese/brasil-61197414</a></p>
<p><strong>[6]</strong> Em outubro de 2014, Alê foi detida arbitrariamente, sem qualquer acusação, ameaçada e conduzida à Delegacia. Como nada havia contra ela, foi &#8220;liberada&#8221;. Procurou a Defensoria Pública e através dela ajuizou e ganhou, em sentença proferida em 2023, ação de indenização contra o Estado e de responsabilização criminal dos policiais envolvidos. Nas palavras do juiz do caso, foi tão flagrante a &#8220;ocorrência de ilegalidade, que no inquérito em que se analisava a ocorrência de crime de abuso de autoridade, foi proposta pelo Ministério Público, aceita pelos [policiais] autores do fato e acolhida pelo juízo transação penal”, o que demonstra cabalmente que se tratava “de situação que não se admitia arquivamento e que existia justa causa para deflagração ação penal&#8221; [cf. ação indenizatória n. 1054878-29.2019.8.26.0053, 2ª Vara do Juizado Especial da Fazenda Pública de SP]</p>
<p><strong>[7]</strong> O manifesto público da campanha foi lançado em dezembro de 2025 e pode ser acessado e republicado a partir daqui: <a href="https://www.instagram.com/p/DSnBI1Rjccf/?hl=pt" target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/p/DSnBI1Rjccf/?hl=pt</a></p>
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		<title>[São Paulo] O avesso da educação: relatos da destruição</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Feb 2026 16:18:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Este questionário procura coletar depoimentos dos educadores que trabalham no Estado e passaram pelos processos de avaliação de desempenho 360° em 2025. Por Coletivo de Professores Autônomos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Coletivo de Professores Autônomos</h3>
<p style="text-align: justify;">Olá!!</p>
<p style="text-align: justify;">Somos um coletivo de professores da rede de ensino do estado de São Paulo. Compartilhamos as dificuldades e o inconformismo com a precarização do trabalho docente e este ambiente feito de pressão e ameaça permanente. Neste sentido, este questionário procura coletar depoimentos dos educadores que trabalham no Estado e passaram pelos processos de avaliação de desempenho 360° em 2025.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma forma difícil, mas necessária para compartilharmos nossas dificuldades e denunciarmos o cenário tenebroso que hoje é o nosso trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Com isso, esperamos reunir informações e relatos que nos ajudem a preparar materiais e pensarmos em ações conjuntas.</p>
<p style="text-align: justify;">Agradecemos muito por aceitarem colaborar relatando sua experiência. Trata-se de um formulário bem reduzido. Você levará no máximo 7 minutos para preencher.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://forms.gle/mZksN9bj3Ya4BRVZA" target="_blank" rel="noopener">https://forms.gle/mZksN9bj3Ya4BRVZA</a></p>
<p style="text-align: justify;">
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