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	<title>Noticiar &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>[Belo Horizonte] Kasa Invisível Fica e Resiste!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Sep 2026 23:31:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
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					<description><![CDATA[Relatos de uma semana de vigílias e solidariedade.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Kasa Invisível</h3>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159762 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000039134-791x1024.jpg" alt="" width="640" height="829" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000039134-791x1024.jpg 791w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000039134-232x300.jpg 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000039134-768x994.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000039134-1187x1536.jpg 1187w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000039134-325x420.jpg 325w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000039134-640x828.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000039134-681x881.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/1000039134.jpg 1220w" sizes="(max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Relatos de uma semana de vigílias e solidariedade.</p>
<div dir="auto" style="text-align: justify;"></div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;">Após a resistência popular que impediu o despejo arbitrário de um dos imóveis na sexta-feira, dia 21 de agosto, a Kasa Invisível intensificou sua agenda de atividades, recebendo inúmeros grupos e coletivos solidários ao espaço.</div>
<div dir="auto"></div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;">Foram eventos praticamente diários onde a comunidade movimentou e cuidou da Kasa com cafés da manhã todos os dias a partir das 6:30 da manhã, apresentações musicais, cinema na calçada, arte, passeios de bike, aula com alunos do curso de arquitetura, sarau e até corte de cabelo grátis!</div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;"></div>
<div dir="auto"></div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;">Podemos dizer que o coletivo gestor e toda nossa rede de apoio está surpresa com o tamanho e a diversidade das formas de apoio, presença e cuidado com o espaço que ocupamos e mantemos há 13 anos.</div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;"></div>
<div dir="auto"></div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;">Por mais de uma década, construímos um espaço aberto para a comunidade, que pode ser usado por qualquer pessoa, coletivo, sindicato, movimento ou grupo que compartilhe e respeite princípios básicos anticapitalistas, antifascistas, e contrários a toda forma de opressão (de raça, de gênero, transfobia, etc.) e com uma base apartidária e de independência em relação ao Estado e ao mercado.</div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;"></div>
<div dir="auto"></div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;">Se hoje contamos com uma comunidade inteira defendendo esse espaço e as vidas que o habitam, é porque estivemos lado a lado, ombro a ombro na abertura de dezenas de novas ocupações, em protestos, marchas, panfletagens, distribuição de marmitas e recursos, jornadas de luta, festivais, mutirões, vigílias, almoços, plantios, oficinas, debates e todo tipo de agitação cujo objetivo é melhorar a vida das pessoas oprimidas e excluídas. Mantendo, em cada passo, a perspectiva de que a vitória de uma vida livre e próspera para todas só é possível com o fim do capitalismo e toda forma de opressão estatal.</div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;"></div>
<div dir="auto"></div>
<div dir="auto" style="text-align: justify;">Agradecemos a todos os movimentos, grupos e indivíduos que somaram nessa primeira semana de luta para manter a Kasa Invisível de pé. Segue uma breve lista do que rolou essa semana. Se esquecemos algo, pode nos lembrar &#8211; é muita coisa para lembrar, e no meio da luta, é capaz de perdermos algum detalhe.</div>
<div dir="auto"></div>
<div dir="auto"><a href="https://www.instagram.com/p/Dc39J25IB4Q/?igsi=MXg3MHJlaDl3MjI0bQ==">https://www.instagram.com/p/Dc39J25IB4Q/?igsi=MXg3MHJlaDl3MjI0bQ==</a></div>
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		<title>Juruna, presente!</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/08/159685/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2026 22:40:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
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					<description><![CDATA[A participação de Juruna é parte de uma história não contada sobre as origens do MTST]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Zé da Mata, Soraia Soriano, João Nélio, Paulinho Albuquerque, Lúcia Albuquerque</h3>
<p style="text-align: justify;">Hoje tivemos a notícia do falecimento de um grande camarada e amigo João Carlota, mais conhecido como Juruna. O João foi metalúrgico trabalhador da MAB em Campinas-SP e, quando o conhecemos, em 1996, era dirigente do Sindicato dos Metalúrgico de Campinas. Um grupo de militantes do MST realizava um trabalho de base com objetivo de ocupar terras para reforma Agrária no estado de São Paulo e o Juruna era o militante que assumiu a responsabilidade de articular cotidianamente a luta sindical com as lutas dos movimentos sociais. O companheiro teve uma contribuição muito importante na construção do movimento dos trabalhadores sem teto neste mesmo ano de 1996. Durante o trabalho de base para as ocupações de terras, os militantes do MST, com apoio e participação de Juruna, experimentaram de perto o surgimento várias ocupações urbanas por moradia na região. E é neste contexto que surge o MTST. Um coletivo de militantes de várias vertentes, do movimento sindical e também do MST, se somou para a contrução de mais um importante movimento social em nosso país. Foi um período em que para algumas direções sindicais, a luta do sindicato extravasa os limites da defesa corporativa da categoria, construindo no dia a dia as lutas dos trabalhadores em diversas frentes, articulando a luta sindical, a luta pela terra, luta por moradia e movimentos de bairro das periferias urbanas. A participação de Juruna é parte de uma história não contada sobre as origens do MTST, ou ao menos não relatada com o rigor histórico que merece. Desejamos homenajear esse companheiro, reconhecer sua importância histórica nas lutas sociais e lembrar dos momentos felizes que tivemos ao partilhar sua amizade. Apesar dos momentos difíceis das lutas, também nos divertíamos muito com ele. Esperamos que seus familiares e amigos fiquem firmes nesse momento triste para todos nós e possam se reconfortar com as boas lembranças e imoprtantes realizações que ele nos deixou. Juruna presente, na luta sempre! <img decoding="async" class="size-full wp-image-159686" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.48.03.jpeg" alt="" width="738" height="1600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.48.03.jpeg 738w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.48.03-138x300.jpeg 138w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.48.03-472x1024.jpeg 472w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.48.03-708x1536.jpeg 708w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.48.03-194x420.jpeg 194w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.48.03-640x1388.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2026-08-23-at-14.48.03-681x1476.jpeg 681w" sizes="(max-width: 738px) 100vw, 738px" /></p>
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		<title>[Belo Horizonte] Luta contra o despejo da Kasa Invisível</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/08/159674/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Aug 2026 19:11:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Kasa Invisível 🚨 ALERTA: RISCO IMEDIATO DE DESPEJO DA KASA INVISÍVEL🚨 Neste final de semana, fomos surpreendidos por uma decisão judicial que determina o despejo da Kasa Invisível. Nossos advogados já estão trabalhando para tentar reverter essa decisão, mas o despejo pode acontecer a qualquer momento ao longo desta semana. Por isso, viemos agora [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Kasa Invisível</h3>
<p style="text-align: justify;"><img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f6a8.png" alt="🚨" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> ALERTA: RISCO IMEDIATO DE DESPEJO DA KASA INVISÍVEL<img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f6a8.png" alt="🚨" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /></p>
<p style="text-align: justify;">Neste final de semana, fomos surpreendidos por uma decisão judicial que determina o despejo da Kasa Invisível. Nossos advogados já estão trabalhando para tentar reverter essa decisão, mas o despejo pode acontecer a qualquer momento ao longo desta semana.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, viemos agora pedir atenção e apoio às nossas amigas e amigos, às organizações e coletivos parceiros, às pessoas que frequentam a casa, aos nossos vizinhos e vizinhas e a todas as pessoas que apoiam e acreditam nesse projeto.</p>
<p style="text-align: justify;">Pedimos que estejam alertas e disponíveis para somar conosco caso seja necessário!</p>
<p style="text-align: justify;">Em breve, vamos convocar uma reunião aberta na Kasa Invisível para pensarmos coletivamente em como podemos resistir ao despejo e fortalecer essa luta. Nossa força é social e coletiva, e acreditamos que só poderemos enfrentar este momento por meio da solidariedade, da mobilização e do apoio mútuo.</p>
<p style="text-align: justify;">A Kasa Invisível é uma ocupação que, desde 2013, abriga um centro social, cooperativas e moradia, promovendo atividades sempre gratuitas e construindo uma rede viva de solidariedade com nossos vizinhos, outras ocupações, pessoas em situação de rua e diversos grupos e iniciativas da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A Kasa Invisível é construída por muitas mãos, e é com muitas mãos que vamos defendê-la!</p>
<p style="text-align: justify;"><img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f4e2.png" alt="📢" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> Fiquem atentos aos próximos chamados. Em breve divulgaremos informações sobre a reunião aberta e sobre como somar nesta luta.</p>
<blockquote><p>Apoie a vigília e resistência ao despejo. Como doar:</p></blockquote>
<p><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159675" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/signal-2026-08-21-14-10-23-008.jpg" alt="" width="900" height="1600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/signal-2026-08-21-14-10-23-008.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/signal-2026-08-21-14-10-23-008-169x300.jpg 169w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/signal-2026-08-21-14-10-23-008-576x1024.jpg 576w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/signal-2026-08-21-14-10-23-008-768x1365.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/signal-2026-08-21-14-10-23-008-864x1536.jpg 864w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/signal-2026-08-21-14-10-23-008-236x420.jpg 236w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/signal-2026-08-21-14-10-23-008-640x1138.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/signal-2026-08-21-14-10-23-008-681x1211.jpg 681w" sizes="(max-width: 900px) 100vw, 900px" /></p>
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		<title>A Gramática sem Dono &#8211; Parte II</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/08/159568/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Aug 2026 17:42:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
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					<description><![CDATA[A gramática de classe não exige aparatos burocráticos, exige enraizamento no chão do bairro, da fábrica, do escritório, precisamente o chão que a esquerda evacuou.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Phintener</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>O sintoma tomado como explicação</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A Parte I desta série demonstrou a emergência de uma gramática totalitária que atravessa o bolsonarismo e atinge, por homologia formal, as vertentes identitárias que se pretendem sua antítese. Resta enfrentar a questão central: por que o trabalhador precarizado adere à gramática que o subjuga? Recorrer aos clichês da “alienação” ou do “pobre de direita” é apenas a recusa da esquerda em olhar para a própria omissão. Esta Parte II toma a reação do eleitorado periférico não como um desvio moral, mas como um fato social a ser explicado.</p>
<p style="text-align: justify;">A análise cruza três fontes de dados: os registros eleitorais por zona do TSE (2024), os microdados de mobilidade da Pesquisa Origem-Destino (2023) e os setores censitários do Censo 2022. A cartografia que emerge desse mapeamento desmorona as ficções confortáveis da esquerda de Estado sobre o território que julgava dominar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>I. A disputa — três candidatos, 57 zonas, nenhuma vitória fácil</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A eleição municipal de São Paulo em 2024 produziu, no primeiro turno, um resultado que contrariou as expectativas de todos os campos. Ricardo Nunes (MDB), Guilherme Boulos (PSOL) e Pablo Marçal (PRTB) chegaram ao resultado final separados por menos de dois pontos percentuais entre si — uma diferença estatisticamente estreita para uma cidade com mais de seis milhões de eleitores.</p>
<figure id="attachment_159575" aria-describedby="caption-attachment-159575" style="width: 346px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159575 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagen1.png" alt="" width="346" height="176" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagen1.png 346w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagen1-300x153.png 300w" sizes="auto, (max-width: 346px) 100vw, 346px" /><figcaption id="caption-attachment-159575" class="wp-caption-text">Gráfico 1 — Participação dos três principais candidatos no total de votos válidos (1º turno). Fonte: TSE, Votação nominal por município e zona, 2024.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O equilíbrio agregado, no entanto, oculta uma geografia interna profundamente assimétrica. Das 57 zonas eleitorais da capital, Boulos e Marçal venceram 20 cada; Nunes venceu apenas 17 — apesar de ter obtido a maior votação nominal total. A distribuição territorial, e não os números brutos, é onde o argumento da Parte II começa.</p>
<figure id="attachment_159576" aria-describedby="caption-attachment-159576" style="width: 265px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159576 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem2.png" alt="" width="265" height="180" /><figcaption id="caption-attachment-159576" class="wp-caption-text">Gráfico 2 — Zonas eleitorais vencidas por cada candidato. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong> II. O paradoxo da Zona Leste: espoliação material e captura gramatical</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mais do que os totais agregados, é a cartografia do voto de Marçal que revela o nó analítico deste trabalho. Das 20 zonas eleitorais que conquistou, a esmagadora maioria concentra-se na Zona Leste histórica: Vila Formosa, Vila Matilde, Tatuapé, Sapopemba, Penha de França, Cangaíba, São Miguel Paulista, Itaquera, Ermelino Matarazzo e Vila Prudente. Falamos do tradicional cinturão produtivo paulistano — uma geografia ligada por contiguidade física e social ao ABC Paulista, matriz do sindicalismo combativo que gestou o PT e a CUT entre o fim dos anos 1970 e o início dos 1980. Com uma média de 31,2% de votos no quadrante leste — superando seu índice geral na capital —, a campanha de Marçal penetrou na medula desse território de trabalhadores. A escolha da Zona Leste como laboratório analítico central justifica-se precisamente por isso: ela condensa em estado puro o curto-circuito em tela — o mesmo tecido operário que Kowarick (1994) consagrou como epicentro das lutas urbanas da metrópole agora sob o domínio da teologia do empreendedor individual.</p>
<figure id="attachment_159577" aria-describedby="caption-attachment-159577" style="width: 398px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159577 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem3.png" alt="" width="398" height="229" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem3.png 398w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem3-300x173.png 300w" sizes="auto, (max-width: 398px) 100vw, 398px" /><figcaption id="caption-attachment-159577" class="wp-caption-text">Gráfico 3 — Percentual médio de votos em Marçal por perfil territorial. A Zona Leste e a Zona Norte apresentam os maiores índices. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O Censo 2022 permite dimensionar o peso demográfico desse território. A Zona Leste concentra 3,57 milhões de habitantes — o segundo maior contingente entre as regiões da cidade, atrás apenas da Zona Sul — e registra a maior média de moradores por domicílio: 2,42 pessoas, contra 1,75 no Centro Expandido e 1,90 na Zona Oeste. Famílias maiores em domicílios menores, com renda familiar mediana de R$ 4.600 mensais: é a combinação que amplifica o impacto de qualquer confisco do rendimento real — cada real a menos no salário divide-se por 2,42 pessoas.</p>
<figure id="attachment_159578" aria-describedby="caption-attachment-159578" style="width: 420px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159578" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem4.png" alt="" width="420" height="203" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem4.png 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem4-300x145.png 300w" sizes="auto, (max-width: 420px) 100vw, 420px" /><figcaption id="caption-attachment-159578" class="wp-caption-text">Gráfico 4 — Perfil territorial de São Paulo: população e moradores por domicílio por região. Fonte: Censo IBGE 2022. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A Pesquisa Origem-Destino do Metrô de São Paulo (2023) confirma e detalha esse quadro. Com renda familiar mediana de apenas 3,5 salários mínimos por família, a Zona Leste fica muito abaixo da Zona Oeste (R$ 9.433) e do Centro Expandido (R$ 7.646) — e 42,7% de seus domicílios vivem com menos de R$ 4.000 mensais. Para uma família mediana de 2,42 pessoas, o valor per capita é de R$ 1.901 — um rendimento de subsistência frente ao estrangulamento do custo de vida paulistano. O dado mais revelador não reside nas médias agregadas por região, mas no estrangulamento por faixa de renda: trabalhadores com renda per capita de até 1 salário mínimo despendem em média de 85 a 88 minutos por deslocamento, contra 61 minutos gastos por aqueles posicionados acima de 3 salários mínimos — uma assimetria do tempo de 40%. A distância percorrida expõe a mesma fratura territorial: são 17,1 km de percurso para a fração de menor rendimento contra 10,1 km para as faixas de maior renda, uma disparidade de 70%. Na Zona Leste, essa desigualdade materializa-se no fato de que mais de 83% das viagens de trabalho dependem exclusivamente do transporte coletivo, sem qualquer flexibilidade modal. A dependência estrita do ônibus não é apenas uma métrica de tempo — é a expressão territorial da ausência de margem: não há automóvel próprio, não há orçamento para transporte por aplicativo, tampouco folga na renda que autorize outra escolha.</p>
<figure id="attachment_159579" aria-describedby="caption-attachment-159579" style="width: 403px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159579" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem5.png" alt="" width="403" height="187" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem5.png 403w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem5-300x139.png 300w" sizes="auto, (max-width: 403px) 100vw, 403px" /><figcaption id="caption-attachment-159579" class="wp-caption-text">Gráfico 5 — Tempo e distância de deslocamento ao trabalho por faixa de renda per capita. Trabalhadores com renda de até 1 SM percorrem trajetos 70% mais longos e despendem 40% mais tempo do que trabalhadores com renda acima de 3 SM. Fonte: Pesquisa Origem-Destino Metrô SP 2023. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O gráfico abaixo sintetiza as quatro dimensões do território cruzadas nesta análise: população, renda, voto em Marçal e composição domiciliar. O padrão é inequívoco — as regiões de maior votação em Marçal são exatamente as de menor renda e maior densidade familiar.</p>
<figure id="attachment_159580" aria-describedby="caption-attachment-159580" style="width: 420px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159580 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6.png" alt="" width="420" height="315" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6.png 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-300x225.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-100x75.png 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-180x135.png 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-238x178.png 238w" sizes="auto, (max-width: 420px) 100vw, 420px" /><figcaption id="caption-attachment-159580" class="wp-caption-text">Gráfico 6 — Síntese: quatro dimensões do território e do voto por região (renda: mediana familiar). Fontes: Censo IBGE 2022, Pesquisa OD Metrô SP 2023 e TSE 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Os dados da RAIS 2024 esmiúçam a natureza do vínculo de trabalho que serviu de alicerce histórico à região. Na capital paulista, o setor industrial lidera o índice de formalização com 95,3% de empregos celetistas. Contudo, essa cobertura contratual traduz-se em um salário mediano de escassos R$ 2.950 (2,09 salários mínimos), sendo que 48,3% dos operários não atingem a faixa de 2 mínimos.</p>
<p style="text-align: justify;">Estrutura análoga verifica-se no setor de transportes, engrenagem vital da Zona Leste: com 94,4% de vínculos formais sob a CLT, o setor registra remuneração mediana de R$ 3.350 (2,37 SM), acumulando 41,4% de seus profissionais situados abaixo de 2 salários mínimos. O quadro expõe o drama do trabalhador de carteira assinada cuja remuneração sequer cobre os custos de reprodução da sua própria força de trabalho frente ao encarecimento da habitação e da mobilidade metropolitana. Longe de mitigar a espoliação material, a formalidade do contrato apenas a quantifica com precisão matemática no contracheque<strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">É precisamente nesse chão material que a gramática do coaching encontra seu solo mais fértil. Sob a lógica da economia narrativa, prevalecem as linguagens capazes de oferecer a estrutura mais eficaz para processar as angústias da experiência vivida. O coach entrega ao trabalhador da Zona Leste a arquitetura clássica da gramática autoritária: o arco de decadência e redenção, a identificação nítida do inimigo (o &#8216;sistema&#8217;, o Estado, a burocracia), a promessa de um protagonismo individual imediato e a completa dispensa de mediações corporativas. Trata-se de uma sintaxe que opera abaixo da consciência reflexiva do sujeito — não é necessário dominar suas regras formais para reproduzi-la no cotidiano da sobrevivência.</p>
<figure id="attachment_159581" aria-describedby="caption-attachment-159581" style="width: 340px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159581" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem7.png" alt="" width="340" height="191" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem7.png 340w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem7-300x169.png 300w" sizes="auto, (max-width: 340px) 100vw, 340px" /><figcaption id="caption-attachment-159581" class="wp-caption-text">Gráfico 7 — Top 10 zonas de Marçal: comparativo com Boulos e Nunes. Destacam-se as zonas da Zona Leste histórica. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>III. Do chão batido aos gabinetes: a retração da esquerda ao Centro e a tutela na periferia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A distribuição territorial do eleitorado de Guilherme Boulos projeta o espelho inverso daquilo que a narrativa progressista tradicional esperava. O candidato do PSOL não fincou suas maiores estacas na Zona Leste histórica, mas em dois polos sociologicamente antagônicos: o Centro Expandido (Pinheiros, Vila Mariana, Perdizes, Bela Vista) e a franja periférica de formação mais recente (Capão Redondo, Guaianases, Cidade Tiradentes, São Mateus e Campo Limpo).</p>
<figure id="attachment_159582" aria-describedby="caption-attachment-159582" style="width: 323px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159582" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem8.png" alt="" width="323" height="186" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem8.png 323w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem8-300x173.png 300w" sizes="auto, (max-width: 323px) 100vw, 323px" /><figcaption id="caption-attachment-159582" class="wp-caption-text">Gráfico 8 — Percentual médio de votos em Boulos por perfil territorial. Desempenho mais forte no Centro Expandido e na periferia distante. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Essa periferia distante — onde Boulos registrou seu melhor desempenho popular — caracteriza-se pela urbanização recente, pela baixa densidade de postos de trabalho e pela ausência de uma tradição fabril territorializada. <strong>[2]</strong> Ocorre que esse isolamento não constitui um mero detalhe geográfico, mas o resultado direto da metamorfose da esquerda combativa em esquerda de Estado: encerradas no formalismo corporativo dos setores organizados, as estruturas sindicais deram as costas aos trabalhadores informais, enquanto os quadros partidários de esquerda, convertidos em técnicos e gestores do Estado, desativaram a presença no território por considerarem a mobilização popular incompatível com a sua nova função de administradores da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante desse duplo deslocamento — corporativo e partidário —, a presença da esquerda nesses territórios deu-se quase exclusivamente pela via das lutas por moradia, das redes de solidariedade comunitária e da cobertura da assistência social, e não pelo enfrentamento direto do conflito entre patrão e trabalhador no local de produção ou de moradia. Nesses bairros, portanto, a atuação da esquerda governista estruturou-se na chave da tutela institucional, substituindo a solidariedade autônoma de classe pela intermediação burocrática junto às próprias instâncias do aparato público. Em contrapartida, a força de Boulos no Centro Expandido — cujo ápice registrou-se na Bela Vista, com 43,65% dos votos válidos — revela que seu núcleo eleitoral mais denso advém das zonas de alta renda e elevada escolaridade. Trata-se da geografia de reprodução das novas elites intelectuais e tecnocráticas, onde o discurso identitário e a pauta da gestão progressista da cidade encontram ressonância imediata — operando em um plano abstrato, blindado das agruras materiais e do confisco do tempo que martirizam o cotidiano do trabalhador no trecho metropolitano.</p>
<figure id="attachment_159583" aria-describedby="caption-attachment-159583" style="width: 292px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159583" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9.png" alt="" width="292" height="222" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9.png 292w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9-100x75.png 100w" sizes="auto, (max-width: 292px) 100vw, 292px" /><figcaption id="caption-attachment-159583" class="wp-caption-text">Gráfico 9 — Dispersão por zona eleitoral: Marçal × Boulos. Zonas acima da linha diagonal = Boulos à frente; abaixo = Marçal à frente. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>IV. O voto como escolha gramatical racional</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A reação habitual da esquerda a estes números insiste no diagnóstico que a Parte I caracterizou como sintoma: o recurso preguiçoso à ideia de que o trabalhador periférico &#8216;não sabe votar&#8217; ou é refém de &#8216;alienação&#8217;. Trata-se de uma manobra típica da moralidade identitária — transmutar o estrangulamento material do sujeito em defeito de sua consciência. Se Faye explica a circulação da gramática do coaching, falta decifrar por que a linguagem de classe atrofiou. A gramática totalitária reproduz-se sem necessidade de regência central: ganha escala porque cada indivíduo, ao utilizá-la, a ratifica no espaço social. O inverso é verdadeiro: a gramática de classe não exige aparatos burocráticos para pulsar — exige enraizamento no chão do bairro, da fábrica, do escritório – das relações sociais de trabalho. E foi precisamente esse chão que a esquerda evacuou.</p>
<p style="text-align: justify;">O nó do problema é claro: a gramática totalitária não triunfou por superioridade teórica na Zona Leste, mas por ter herdado o vazio deixado pela retirada das lutas sociais. O operário da Vila Matilde não se tornou um convertido; ficou desprovido de linguagem de classe. Esse deserto gramatical constitui o desfecho inescapável do acoplamento do sindicalismo e dos partidos de esquerda às engrenagens do Estado Amplo. Trata-se de um longo processo de assimilação no qual os órgãos de combate, ao se converterem em burocracias, abandonaram a organização autônoma do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a entidade sindical assume o controle de fundos de investimento, o trabalhador que a rejeita não está alienado: está formulando um diagnóstico lúcido sobre uma estrutura que se virou contra ele. O problema é que essa recusa justa é tragada por uma narrativa que perpetua a sua espoliação.</p>
<p style="text-align: justify;">A derrocada do sindicalismo tradicional não gerou um vácuo inerte, mas uma zona gramatical desprotegida. A gramática totalitária — leve, descentralizada e viral — move-se com desenvoltura nesses espaços abandonados. O coach não derrotou a burocracia sindical na arena das ideias; simplesmente ocupou o espaço que esta desocupou ao se metamorfosear em capital.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalhador que reage contra esse ecossistema exerce uma leitura precisa da sua estagnação — ainda que o seu voto acabe prisioneiro de uma gramática autoritária. O rótulo de &#8216;pobre de direita&#8217; serve apenas para blindar a esquerda governista de sua própria falência territorial, recusando-se a enxergar a razão material do protesto. Com isso, cumpre-se rigorosamente a máxima de Faye: quando a linguagem de libertação deixa de habitar o cotidiano, a gramática totalitária não precisa vencer o debate de ideias — basta-lhe a posse do terreno vago.</p>
<p style="text-align: justify;">A narrativa do coach-empreendedor converteu-se na única gramática de agência que o sistema manteve aberta para quem vive sob o confisco do rendimento real, a expulsão do mercado formal e a desregulamentação absoluta. Diante do cinismo das linguagens institucionais herdeiras do iluminismo gerencial, a teologia do empreendedorismo de si performa uma falsa liberdade — mas entrega o único simulacro de protagonismo disponível no ecossistema criado pela própria gramática totalitária.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>V. A acusação moral como escudo da burocracia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O insulto revela a estrutura. Ao rotular o espoliado periférico de “alienado” ou “pobre de direita”, a esquerda identitária reproduz o exato dispositivo que a Parte I identificou como marca do pós-fascismo: a essencialização do sujeito, a substituição da análise materialista pelo veredicto moral, a recusa da mediação em favor da condenação. O que torna esse dispositivo particularmente revelador é que ele opera nos dois polos do campo de esquerda — e de formas simétricas. A esquerda governista, assimilada pelo Estado Amplo, converte a crítica de classe em gestão identitária de conflitos: administra as diferenças sem tocar nas relações de exploração que as produzem. A extrema-esquerda, encastelada em sua pureza doutrinária, recusa o contato com a classe real porque a classe real não corresponde ao sujeito histórico que seus textos prescrevem. Ambas produzem o mesmo resultado prático: o terreno vago. Uma o produz por integração ao capital; a outra, por horror ao chão.</p>
<p style="text-align: justify;">Reed Jr. e Michaels dissecaram o mecanismo nos Estados Unidos: a centralidade identitária desloca o conflito de classe para um terreno perfeitamente palatável às elites corporativas. No caso brasileiro, o deslocamento tem uma especificidade: foi operado em parte pelas mesmas estruturas que deveriam ser seu antídoto. A burocracia sindical que gere fundos de pensão e senta em conselhos de administração não apenas deixou de representar o trabalhador — tornou-se parte do sistema que o explora. O rótulo de “pobre de direita” é a última linha de defesa dessa burocracia: enquanto o trabalhador da Zona Leste for visto como problema cognitivo, não será necessário enfrentar a ruptura estrutural que a própria esquerda produziu.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>VI. A gramática e o território</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A eleição de 2024 em São Paulo traduz no território o que a análise teórica demonstrou no plano discursivo: a gramática totalitária encontrou no antigo cinturão operário o seu solo mais fértil precisamente porque as instâncias de mediação de classe se retiraram do chão da fábrica e do bairro.</p>
<p style="text-align: justify;">O que a evidência empírica confirma não é uma mera correlação estatística entre espoliação e voto — isso qualquer regressão linear produziria. O que os dados escancaram é um paradoxo histórico: a Zona Leste, berço da maior densidade de organização trabalhadora desta metrópole, tornou-se o epicentro de adesão a uma narrativa que dissolve a consciência de classe no empreendedorismo de si. Não se trata de coincidência, mas de causalidade funcional: a gramática totalitária não penetrou apesar da tradição operária, mas através da casca em que essa tradição se converteu ao integrar-se às funções gerenciais do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">O contradiscurso possível não virá da tutela moral de uma burocracia partidária. Virá da reconstrução de uma linguagem enraizada no chão da vida cotidiana — no tempo espoliado no transporte, na conta que não fecha, no rendimento real confiscado pela metrópole. Somente uma gramática que coloque a exploração material no centro, oferecendo pertencimento sem exigir submissão à etiqueta gerencial, poderá romper os labirintos digitais do capital. A disputa decisiva não é pela conversão moral do indivíduo, mas pela posse das palavras que dão sentido à dor do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">E aqui está o verdadeiro paradoxo que os dados revelam: a Zona Leste não foi capturada pela gramática do coach apesar de ter sido o berço do sindicalismo combativo. Foi capturada por causa do que esse sindicalismo se tornou. O fascismo pós-fascista não precisou vencer a tradição operária da Vila Matilde — bastou-lhe aguardar que ela se desintegrasse por dentro. O triunfo da gramática totalitária no antigo cinturão operário de São Paulo não é uma vitória ideológica: é o resultado de uma vacância. Enquanto essa vacância não for preenchida por uma gramática que nomeie a exploração com a precisão com que os dados a revelam, o ônibus das cinco da manhã continuará sendo o veículo em que a gramática sem dono faz seus recrutamentos. Até quando os gabinetes continuarão culpando os trabalhadores pelo deserto que eles próprios produziram?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Nota metodológica: Os dados setoriais da RAIS referem-se ao município de São Paulo como um todo. O geocruzamento RAIS × distrito — que estabelece a densidade de postos de trabalho por unidade territorial e sua correlação com o resultado eleitoral por zona.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> A assimetria entre distritos-polo e distritos-dormitório constitui o dado estrutural que ancora empiricamente o argumento desta seção. Enquanto Itaim Bibi registra densidade de emprego formal equivalente a 420% de sua PEA residente — absorvendo, portanto, força de trabalho de outros territórios —, Itaim Paulista e Cidade Tiradentes, distritos nucleares da Zona Leste, operam com densidades de 15% e 16%, respectivamente. O trabalhador residente nesses distritos não apenas recebe menos: trabalha em outro território, percorrendo diariamente a distância entre o dormitório periférico e o polo atrator, o que explica de forma estrutural, e não apenas estatística, os 83% de dependência exclusiva do transporte coletivo registrados pela OD 2023.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Referências</strong></p>
<p style="text-align: justify;">BERNARDO, João. Capital, gestores, sindicato. São Paulo: Vértice, 1987.<br />
BERNARDO, João. Labirintos do Fascismo. Porto: Afrontamento, 2015.<br />
BERNARDO, João. Do sindicalismo de negócios ao negócio sindical. Passa Palavra, 3 jul. 2019. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2019/07/127156" href="https://passapalavra.info/2019/07/127156" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://passapalavra.info/2019/07/127156</a>.<br />
BERNARDO, João; PEREIRA, Luciano. Capitalismo Sindical. São Paulo: Xamã, 2008.<br />
COMPANHIA DO METROPOLITANO DE SÃO PAULO. Pesquisa Origem e Destino 2023. São Paulo: Metrô, 2025.<br />
FAYE, Jean-Pierre. Langages Totalitaires: critique de la raison, l&#8217;économie narrative. Paris: Hermann, 1972.<br />
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico 2022: Agregados por Setores Censitários. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.<br />
KOWARICK, Lúcio (org.). As lutas sociais e a cidade: São Paulo, passado e presente. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1994.<br />
REED JR., Adolph; MICHAELS, Walter Benn. No Politics but Class Politics. Londres: ERIS, 2023.<br />
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Votação nominal por município e zona — Eleições 2024. Disponível em: &lt;<a class="urlextern" title="https://dadosabertos.tse.jus.br" href="https://dadosabertos.tse.jus.br" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://dadosabertos.tse.jus.br</a>&gt;. Acesso em: jul. 2026.</p>
<p style="text-align: center;"><em>A obra que ilustra o artigo é da autoria de Paulo Ito (1978-).</em></p>
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		<title>A gramática sem dono</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jul 2026 15:46:48 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Quando ambos os polos passam a falar rigorosamente a mesma língua, a gramática totalitária se consuma. Por Marcelo Phintener]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Phintener</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Coerência sem coordenação: a gramática totalitária do Partido Digital Bolsonarista</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Há um enigma no centro de qualquer análise do bolsonarismo: como um movimento sem estrutura formal, sem programa unificado e sem disciplina institucional clássica produz uma coerência discursiva que partidos tradicionais raramente conseguem manter?</p>
<p style="text-align: justify;">A resposta a esse enigma encontra um marco fundamental na pesquisa do CCI/Cebrap publicada em <em>O Partido Digital Bolsonarista</em>. O livro demonstra que o movimento possui uma arquitetura organizativa real: hierarquias informais, cadeias de lealdade consolidadas e uma coordenação capilarizada pelas redes. É o mapeamento indispensável da engrenagem do ecossistema.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas há uma coerência que se manifesta mesmo onde a coordenação direta não alcança. Um pastor no Maranhão, um general em Brasília, um influenciador em São Paulo e um vereador no interior do Paraná podem nunca ter operado na mesma cadeia de comando e, ainda assim, produzem variações precisas do mesmo texto profundo.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse horizonte que Jean-Pierre Faye, em <em>Langages Totalitaires: critique de la raison, l&#8217;économie narrative</em> (1972), oferece o instrumental para nomear o que cimenta esse ecossistema: não apenas a coordenação, mas a existência de uma gramática que opera num nível anterior a qualquer articulação consciente.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que é uma gramática política</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Faye usa o termo “gramática” num sentido estrito: não como as regras formais da língua, mas como a estrutura subterrânea que determina o que pode ser dito, como pode ser dito e quais combinações de imagens e narrativas são possíveis dentro de um campo. Uma gramática política é o conjunto de regras implícitas que organiza a produção e a circulação do discurso: define quem é o inimigo, quais emoções são legítimas, que narrativas fazem sentido e quais imagens mobilizam.</p>
<p style="text-align: justify;">O crucial é que essa gramática opera abaixo da consciência política dos falantes. Ninguém precisa conhecer suas regras para aplicá-las. Ela circula — de meme em meme, de sermão em sermão — e se reproduz porque cada falante, ao usá-la, a confirma para os demais. Produz coerência por si mesma, prescindindo de um centro distribuidor ou de uma hierarquia que a imponha.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A gramática bolsonarista: elementos estruturais</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O ecossistema bolsonarista possui uma gramática identificável. Seus elementos têm precedentes históricos — Faye os rastreou na República de Weimar —, mas se manifestam em roupagens novas, adaptadas ao cenário brasileiro e à arquitetura digital.</p>
<p style="text-align: justify;">A gramática bolsonarista é estruturada em torno do inimigo que opera por dentro, não por fora: o infiltrado, o corrompido, o traidor que ocupa posições de poder para destruir a nação. Comunismo, globalismo, “marxismo cultural” e “ideologia de gênero” compartilham a mesma estrutura: forças que contaminam o tecido social a partir de dentro. Disso decorre a necessidade de vigilância, denúncia e expurgo permanentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Em oposição ao infiltrado, constrói-se a imagem de uma comunidade idílica pré-contaminação — o Brasil cristão, patriota, trabalhador e de família. Não se trata de uma construção política ou de uma aliança de interesses: é essência. E essências não negociam, restauram-se.</p>
<p style="text-align: justify;">O tempo é organizado em três momentos: um passado de ordem, um presente de decadência e um futuro de purificação — o mito de queda e redenção que Faye identifica nas linguagens totalitárias. Essa temporalidade possui uma eficácia mobilizadora que o reformismo progressista não consegue igualar: cria urgência absoluta, personifica os culpados e oferece salvação pela ação direta.</p>
<p style="text-align: justify;">A violência raramente é celebrada de forma explícita, mas é pressuposta como necessidade lógica: se a restauração exige o expurgo do elemento corruptor, o horizonte final é a eliminação simbólica ou física do inimigo. O líder, por sua vez, não representa a comunidade no sentido político-formal; ele a encarna, sem mediações. Daí a impossibilidade da crítica: contestar o líder não é exercer um direito democrático, é atacar a comunidade — e o crítico automaticamente se torna inimigo interno.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159519" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1022569960.jpg" alt="" width="410" height="615" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1022569960.jpg 410w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1022569960-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1022569960-280x420.jpg 280w" sizes="auto, (max-width: 410px) 100vw, 410px" />Como a gramática circula: a simbiose digital</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Embora os elementos dessa gramática remontem ao início do século XX, seu ambiente de circulação é inédito. As plataformas digitais funcionam como máquinas de replicação: não distribuem programas políticos complexos, mas fragmentos discursivos de alta velocidade — memes, cortes de vídeo, frases de efeito e reações.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada fragmento é pequeno demais para carregar uma posição ideológica completa, mas transporta os genes da gramática. É essa circulação molecular acumulada que satura o debate público. O algoritmo não possui ideologia partidária, mas sua lógica de engajamento favorece reações emocionais intensas, polarização e pânico moral. A gramática totalitária se ajusta a esse ecossistema não por coordenação prévia, mas por afinidade estrutural com a arquitetura das redes.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A antropofagia reacionária: a captura do identitarismo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O avanço desse ecossistema revela uma das operações mais sofisticadas do fascismo pós-fascista: ele não combate as pautas identitárias da esquerda, ele as deglute, mimetiza sua estrutura discursiva e as devolve como um espelho invertido. Essa captura opera por dispositivos gramaticais precisos.</p>
<p style="text-align: justify;">Primeiro, ocorre a inversão do lugar de fala. A extrema-direita se apropria da gramática que estrutura o debate em torno de opressão e vulnerabilidade para posicionar sua própria base — o homem comum, trabalhador, heterossexual, cristão — como a verdadeira minoria perseguida. As pautas de inclusão passam a ser lidas como privilégios outorgados por elites burocráticas (o consórcio entre imprensa, judiciário e academia). O ressentimento é assim legitimado: o cidadão comum reivindica o estatuto de vítima de um sistema que confisca seu rendimento e seu tempo em nome do politicamente correto.</p>
<p style="text-align: justify;">A gramática totalitária não se esquiva da fragmentação promovida pela esquerda; instrumentaliza-a como contraexemplo para erigir um identitarismo de sinal invertido — o hiperidentitarismo nacional-cristão. Em vez de atomizar o sujeito político, oferece uma essência unificada e excludente: o “verdadeiro patriota”. É uma matriz de pertencimento de consumo imediato, projetada para purificar o indivíduo de suas contradições materiais.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalhador precarizado — submetido diariamente a longos deslocamentos e à espoliação de seu rendimento — sofre, ao absorver esse código, uma mutação perceptiva: deixa de interpretar sua condição pelo prisma da exploração e passa a se ver como célula de uma comunidade orgânica ameaçada. É um curto-circuito analítico que sequestra o ressentimento material legítimo e o canaliza para a defesa metafísica da ordem que o explora.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Coordenação e gramática</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O mapeamento de Nobre e Teixeira evidencia com rigor as cadeias de lealdade, a engenharia do financiamento e os mecanismos de disciplina informal que dão corpo ao PDB. São achados fundamentais para desmistificar a tese de um movimento caótico ou espontâneo. Mas, sob a perspectiva de Faye, essa coordenação é, em grande medida, uma sofisticação secundária da própria gramática — não sua causa primeira.</p>
<p style="text-align: justify;">O PDB alcança tamanha eficácia de coordenação porque seus membros — dispersos, moleculares, muitas vezes desconectados entre si — já compartilham um código comum. É esse código que torna a ação conjunta imediata e orgânica, prescindindo de ordens explícitas ou de uma burocracia centralizada. A gramática funciona como condição de possibilidade da própria organização técnica.</p>
<p style="text-align: justify;">Daí decorre uma implicação crucial: o movimento é mais resiliente do que o modelo organizacional sugere. Tratá-lo apenas como organização leva à suposição de que, ao cortar o financiamento ou decapitar a liderança, o ecossistema colapsa. No entanto, a gramática existe de forma distribuída, em milhões de fragmentos que circulam de maneira autônoma.</p>
<p style="text-align: justify;">É por isso que a derrota eleitoral de Bolsonaro em 2022 não desmantelou o movimento — e nem mesmo a ameaça ou a consumação da prisão de suas figuras de proa tem esse poder. A hierarquia foi perturbada, novas lideranças regionais emergiram, as cadeias de lealdade sofreram disputas internas, mas o texto profundo continuou intacto. A punição jurídica ou a inelegibilidade operam no plano dos indivíduos e da superfície institucional; porém, enquanto a gramática circula e continua a fundar a topografia do aceitável, o campo de força permanece vivo, pronto para ser reativado e performado por novos agentes.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159520" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-3340011516.jpg" alt="" width="474" height="329" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-3340011516.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-3340011516-300x208.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" />A gramática e o coach: Marçal como caso analítico</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Pablo Marçal é o caso que melhor ilustra a autonomia da gramática frente à coordenação partidária. Outsider, desafiou a hierarquia estabelecida do PDB, disputou o espólio digital do bolsonarismo e emparedou o campo tradicional na eleição municipal de São Paulo em 2024 — à revelia e contra a vontade dos caciques do movimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob a lente da coordenação e das cadeias de lealdade, Marçal é uma anomalia inexplicável. Sob a lente de Faye, é a comprovação da tese: ele não precisou de autorização partidária porque dominava a gramática bolsonarista — a narrativa de decadência e redenção, o ataque ao inimigo interno e a promessa de conexão direta com o líder. Sua inovação foi traduzir essa gramática para o registro do empreendedorismo de si e do <em>coach</em> de autoajuda. Quem domina o código discursivo constrói legitimidade própria no ecossistema, imune ao veto da burocracia organizacional.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O impasse das gramáticas da esquerda e a conversão totalitária</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O exame da realidade concreta demonstra que o impasse da esquerda contemporânea não decorre de uma mera “falta de estratégia”, mas de uma conversão gramatical já consumada. O campo progressista fraturou-se em dois polos discursivos que, embora não tenham como objetivo deliberado o fortalecimento do fascismo, terminam por alimentá-lo: um deles por incapacidade de formular o contradiscurso materialista, e o outro por converter-se, ele mesmo, em uma nova modalidade de controle burocrático e totalitário.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro polo, o do universalismo abstrato, esvaziou-se de materialidade social. É uma linguagem institucional herdada do iluminismo jurídico, que articula categorias neutras como “direitos”, “justiça” e “democracia”, mas padece de anemia estética e afetiva. Ao converter a exploração em relatórios gerenciais e a política em gestão tecnocrática, torna-se ininteligível para a classe trabalhadora precarizada, cujo tempo e rendimento são diariamente corroídos. Frente à crueza da sobrevivência, soa como simulacro cínico.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo polo, o da fragmentação identitária, opera a inversão mais trágica. Ao abandonar a crítica da economia política em nome de micropolíticas de nicho, adota uma estrutura homóloga à do próprio fascismo. Sob uma retórica emancipatória, a linguagem identitária contemporânea passa a funcionar como um fascismo pós-fascista.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa mutação formal encontra genealogia histórica precisa nas teses de Zeev Sternhell em <em>O Nascimento da Ideologia Fascista</em>. Sternhell demonstra que o fascismo histórico não emerge de uma herança pura da direita conservadora, mas de uma revisão antimaterialista do marxismo e de uma dissidência interna ao sindicalismo revolucionário do início do século XX. Intelectuais como Georges Sorel, ao repudiarem o economicismo e o racionalismo do marxismo, operaram um entrecruzamento radical: substituíram as leis objetivas do desenvolvimento econômico pelo culto ao mito, à identidade orgânica e à violência regeneradora. Sob essa ótica, Mussolini não traiu o socialismo; ele consumou a premissa antimaterialista que permitiu fundar uma nova topografia de controle.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda identitária contemporânea mimetiza essa rota, fazendo as vezes de um novo tipo de nacionalismo. Se o nacionalismo clássico erguia o mito de uma comunidade de sangue e solo para neutralizar as fraturas de classe e exigir lealdade absoluta a uma essência abstrata, o identitarismo contemporâneo opera o mesmíssimo cercamento sob a forma de uma comunidade de trauma e biologia.</p>
<p style="text-align: justify;">A nação cede lugar ao gueto identitário, mas a mecânica política é idêntica: o pertencimento cultural ou biológico sobrepõe-se à condição material de classe. Dentro das fronteiras desse novo nacionalismo molecular, aciona-se o dispositivo da pureza e do expurgo permanente: o debate é substituído por tribunais inquisitoriais digitais, onde a dissidência conceitual é tratada como traição à pátria-identidade, um crime de contaminação moral que exige o cancelamento e a eliminação reputacional do indivíduo. Não há espaço para a contradição ou para a mediação: a essência do grupo é sagrada; o outro é o infiltrado permanente.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse arranjo, a universidade contemporânea atua como um dos mais potentes aparelhos privados de hegemonia do Estado Amplo: o cancelamento não constitui um acaso ou excesso isolado, mas sim uma tecnologia institucionalizada de poder. No interior da academia, o desvio conceitual é formalmente tipificado como heresia, mobilizando processos administrativos, a censura de linhas de pesquisa, a exclusão de bancas, reprovações sumárias e o bloqueio preventivo de contratações e publicações. A universidade passa a funcionar, portanto, como a alfândega ideológica que valida quem possui a pureza linguística necessária para ascender às novas elites.</p>
<p style="text-align: justify;">É a incompreensão dessa captura que alimenta o senso comum de certa esquerda contemporânea, cuja resposta tem sido a defenestração sumária e o desprezo pelo chamado “pobre de direita”. Ao converter captura linguística em falha moral do trabalhador, essa esquerda desconversa as razões de sua própria falência. Cancela-se o sujeito real para não enfrentar a realidade material — e esse moralismo valida a narrativa bolsonarista do inimigo infiltrado. Quando o discurso progressista rotula o espoliado periférico como “alienado” por buscar refúgio na teologia da prosperidade, carimba seu próprio divórcio das bases materiais. O vazio é preenchido por um policiamento de costumes que empurra o trabalhador para o único espaço que lhe oferece pertencimento místico e explicação totalizante para sua dor: o laboratório digital do pós-fascismo.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159518" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-2906373676.jpg" alt="" width="474" height="316" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-2906373676.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-2906373676-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" />A plasticidade estrutural e a captura das elites</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">É neste ponto que se revela o verdadeiro pulo do gato do fascismo pós-fascista: sua plasticidade estrutural, um fenômeno que remete diretamente às teses de João Bernardo em <em>Labirintos do Fascismo</em>. Bernardo desfaz a ilusão liberal e descortina o mito da virgindade das democracias representativas, demonstrando que estas jamais estiveram imunes ou descomprometidas com o fascismo. Longe de haver uma separação estanque entre o Estado Restrito (o aparato político-jurídico clássico de governos, parlamentos e tribunais) e o Estado Amplo (a rede difusa de corporações, fundações, aparelhos de hegemonia e, contemporaneamente, as plataformas digitais), o fascismo não destrói essas esferas: integra-as numa totalidade funcional.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante disso, desaba a objeção convencional de que a esquerda identitária careceria do aparato de força estatal para constituir uma modalidade pós-fascista. A posse do aparato clássico de coerção não é o critério que distingue a homologia formal, pois ambos os campos mobilizam instâncias de poder complementares. O que unifica a extrema-direita bolsonarista e a esquerda identitária é operarem como projetos agressivos de circulação e remodelação das elites no capitalismo. Ambas visam à ocupação dos postos de comando; o que muda é a distribuição de suas forças no interior do Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto a extrema-direita bolsonarista prioriza a colonização do Estado Restrito acoplada às milícias digitais do Estado Amplo, a gramática identitária de esquerda opera uma hibridização simétrica:</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li class="level1">
<div class="li"><strong>No Estado Amplo:</strong> a remodelagem ocorre pela via positiva da ocupação gerencial: o domínio do código identitário vira critério de recrutamento e ascensão em diretorias, conselhos, fundações e oligopólios de mídia. E pela via negativa, contra os dissidentes do código: demissões por pressão empresarial, boicotes econômicos, exclusão dos circuitos editoriais e acadêmicos.</div>
</li>
<li class="level1">
<div class="li"><strong>No Estado Restrito:</strong> a estratégia é homóloga: opera-se a ocupação de cargos de confiança nos altos escalões — ministérios, secretarias e conselhos reguladores —, transformando o jargão identitário em pré-requisito de governança e critério de fomento estatal, até a positivação jurídica de seus códigos. Capturado, o aparato punitivo do tribunal clássico passa a sancionar o desvio conceitual, fundindo a coerção penal do Estado Restrito com o linchamento moral do Estado Amplo.</div>
</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">A convergência não se esgota na infraestrutura digital das redes, mas se consuma na sua articulação com o próprio território. As plataformas e as <em>Big Techs</em> lucram com a extração de valor dessa guerra cultural permanente enquanto as novas elites burocráticas — públicas e privadas — disputam os postos de comando. Enquanto isso, a exploração do trabalho, a expropriação do tempo e o confisco do rendimento real permanecem intocados à sombra do espetáculo discursivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Para Bernardo, o traço distintivo do fascismo pós-fascista dos identitarismos está menos na ideologia declarada e mais nas modalidades organizativas: os antigos métodos de intimidação corporal cedem lugar às engrenagens virtuais do linchamento digital e do isolamento reputacional (BERNARDO, 2024). O fascismo sobrevive e se sofistica na exata medida em que transfere sua eficácia coercitiva para a esfera das interações em rede — renovando-se por meio de aparências e vocabulários que simulam o oposto de sua matriz histórica.</p>
<p style="text-align: justify;">Bernardo não está isolado nessa constatação, embora a formule com mais radicalidade. A crítica de dentro da própria esquerda à gramática identitária fragmentada tem genealogia própria. O teórico britânico Mark Fisher, num ensaio de 2013, descreveu o que chamou de “Castelo dos Vampiros”: uma cultura de denúncia pública movida por um desejo quase sacerdotal de excomungar, na qual toda a identidade de alguém pode ser reduzida a um deslize de linguagem. Para Fisher, essa cultura torna a solidariedade impossível, substituindo a ação coletiva pela vigilância recíproca do comportamento individual.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos Estados Unidos, Adolph Reed Jr. e Walter Benn Michaels sustentam tese semelhante por outro caminho: a centralidade dada às disparidades identitárias obscurece o que produz a desigualdade material, deslocando o conflito de classe para um terreno gerenciável pelas próprias elites. Não é acidental que o próprio Reed, socialista negro com décadas de militância, tenha tido uma palestra cancelada em 2020 por um núcleo da <em>Democratic Socialists of America</em>, que classificou sua intervenção como reacionária e reducionista de classe. O episódio ilustra com precisão o mecanismo: a crítica interna tratada não como divergência legítima, mas como contaminação a expurgar.</p>
<p style="text-align: justify;">O mecanismo se repete em padrões reconhecíveis: o intelectual de longa trajetória que, ao formular uma divergência tática, é reclassificado retroativamente como inimigo da causa; o professor que, pela imprecisão didática de uma aula, é denunciado a partir de um fragmento de vídeo descontextualizado; a escritora que, ao discordar de uma ortodoxia vocabular, é banida de festivais. Em todos os casos, a estrutura é a mesma que Bernardo descreve para o fascismo clássico: o expurgo não precisa de prova, precisa de suspeita; a pureza do grupo importa mais que a verdade; a punição serve menos para corrigir o indivíduo e mais para reafirmar os limites coercitivos da comunidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O padrão encontrou um caso emblemático em fevereiro de 2025. A psicanalista Maria Rita Kehl — figura histórica da esquerda brasileira e membra da Comissão Nacional da Verdade — foi alvo de linchamento virtual após criticar o “nicho narcísico” do movimento identitário. Os detratores não refutaram seu argumento: resgataram a figura de seu avô, um eugenista do início do século XX, e passaram a editar sua biografia na Wikipédia para sublinhar uma suposta “degenerescência hereditária” — termo retirado do próprio vocabulário eugenista que a esquerda historicamente combateu. Décadas de produção intelectual e militância foram substituídas pela genealogia biológica. É o mecanismo de Bernardo: não importa o que o sujeito fez, importa a contaminação essencialista que ele supostamente carrega.</p>
<p style="text-align: justify;">No ambiente das plataformas digitais — que extraem valor da fratura, do pânico moral e do engajamento pelo ódio —, a fragmentação identitária da esquerda e o hiperidentitarismo nacional-cristão da direita operam em simbiose algorítmica real. É o processo de convergência que Bernardo identifica como gerador do fascismo, atualizado para o ecossistema digital. A esquerda identitária, ao adotar a gramática do expurgo e da pureza, fornece ao pós-fascismo uma de suas modalidades renovadas, enquanto a exploração do trabalho e a expropriação do tempo seguem operando à sombra do espetáculo, em ambos os campos.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159521" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1223" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-scaled.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-300x143.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-1024x489.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-768x367.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-1536x734.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-2048x978.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-879x420.jpg 879w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-640x306.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-681x325.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" />A gramática sem dono</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Partido Digital Bolsonarista é, na superfície, a máquina de coordenação descrita por Nobre e Teixeira: hierarquia, lealdades e mobilização digital. Sob essa camada, contudo, opera o texto profundo de uma gramática totalitária que, nos termos de João Bernardo, já não pertence a um único espectro político. O fascismo pós-fascista é o nome do resultado quando essa gramática atravessa, por convergência, tanto o bolsonarismo quanto os identitarismos que se imaginam seus opostos.</p>
<p style="text-align: justify;">O diagnóstico do presente revela que o fascismo pós-fascista não é um quartel-general a ser sitiado, nem uma organização a ser desmontada por decretos judiciais ou pela regulação de plataformas. É, antes de tudo, uma gramática consolidada por uma arquitetura digital que favorece a exclusão, a essencialização do sujeito, a paranoia do inimigo interno e o linchamento molecular — uma gramática cuja origem e função histórica recente pertencem ao bolsonarismo, mas cuja circulação já não respeita fronteiras ideológicas.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda identitária fragmentada revela-se uma modalidade desse fenômeno. Não se trata de uma analogia retórica ou de uma provocação, mas do reconhecimento de uma homologia formal: a reprodução exata dos dispositivos de essencialização, paranoia do inimigo interno e expurgo permanente, transpostos para o Estado Amplo, para a arena virtual e para os escalões do Estado Restrito. Isso não apaga as distinções de escala e método que separam o gueto inquisitorial identitário da violência miliciana bolsonarista; mas a diferença de dinâmica não autoriza a recusa do nome.</p>
<p style="text-align: justify;">A coerência do ecossistema dispensa coordenação centralizada porque a gramática que o atravessa possui uma capacidade de circulação molecular que excede qualquer filiação política declarada, colonizando inclusive a inteligência discursiva de quem se imagina seu opositor. O verdadeiro triunfo do fascismo pós-fascista não está na eliminação física dos adversários, mas na sua conversão formal. Quando ambos os polos passam a falar rigorosamente a mesma língua — a da pureza mística, do linchamento reputacional e da aniquilação do outro —, a gramática totalitária se consuma. Enquanto essa guerra cultural permanente satura as redes e remodela as elites burocráticas, as engrenagens materiais da exploração do trabalho, da expropriação do tempo e do confisco do rendimento real permanecem blindadas, à sombra dos labirintos digitais.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159516" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513.jpg" alt="" width="474" height="355" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-238x178.jpg 238w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" /></strong></h4>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são de obras de Damian Ortega.</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Referências</strong></h4>
<ul>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">BERNARDO, João. <em>Labirintos do Fascismo</em>. Porto: Afrontamento, 2015.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">BERNARDO, João. “Quem é o quê?”. <em>Passa Palavra</em>, 19 dez. 2024. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/12/155419/" href="https://passapalavra.info/2024/12/155419/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://passapalavra.info/2024/12/155419/</a>.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">FAYE, Jean-Pierre. <em>Langages Totalitaires: critique de la raison, l&#8217;économie narrative</em>. Paris: Hermann, 1972.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">FISHER, Mark. “Exiting the Vampire Castle”. <em>The North Star</em>, 2013.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">NOBRE, Marcos; TEIXEIRA, Ana Claudia (org.). <em>O Partido Digital Bolsonarista</em>. São Paulo: CCI/Cebrap, 2026.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">TONIOL, Rodrigo. “O cancelamento de Maria Rita Kehl e as armadilhas do identitarismo”. <em>Folha de S. Paulo</em>, 12 fev. 2025. Republicado no <em>Blog da Boitempo</em>.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">REED JR., Adolph; MICHAELS, Walter Benn. <em>No Politics but Class Politics</em>. Londres: ERIS, 2023.</div>
</li>
<li class="level1">
<div class="li" style="text-align: justify;">STERNHELL, Zeev; SZNAJDER, Mario; ASHÉRI, Maia. <em>The Birth of Fascist Ideology: from cultural rebellion to political revolution</em>. Princeton: Princeton University Press, 1994.</div>
</li>
</ul>
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		<title>Nota ao Comitê Nacional da LSR</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Jun 2026 11:55:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[O enfrentamento das opressões exige métodos coletivos, transparentes e emancipatórios, capazes de proteger as pessoas envolvidas sem reproduzir lógicas punitivistas, arbitrariedades ou mecanismos de destruição política de indivíduos. Por Militantes da Célula do Rio Grande do Sul (LSR)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Militantes da Célula do Rio Grande do Sul (LSR)</h3>
<p style="text-align: justify;">Nós, militantes da célula do Rio Grande do Sul, dirigimo-nos ao Comitê Nacional para manifestar nossa discordância em relação ao processo conduzido pela Comissão de Conduta responsável por apurar o caso envolvendo os camaradas FL e GA.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossa divergência não se limita ao mérito da decisão tomada, mas diz respeito principalmente aos métodos políticos e organizativos empregados durante todo o processo. Entendemos que a forma como a questão foi conduzida revela problemas que extrapolam um caso específico e apontam para fragilidades democráticas que precisam ser debatidas por toda a organização.</p>
<p style="text-align: justify;">Em primeiro lugar, cabe recordar que o Congresso deliberou a construção de uma <em>Comissão de Conduta </em>justamente em razão de experiências anteriores vividas pela organização. Tratava-se de uma tarefa estratégica, destinada a estabelecer critérios claros, transparentes e coletivamente construídos para a mediação de conflitos, apuração de denúncias e proteção dos direitos políticos e individuais dos militantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, o trabalho deliberado pelo Congresso não foi concluído nos termos aprovados. A direção assumiu a condução do processo e indicou novos responsáveis para a tarefa, alterando, na prática, uma deliberação congressual sem amplo debate com a militância. Ainda que se considerasse necessária a constituição de uma nova comissão, entendemos que sua escolha deveria ter ocorrido pelos mesmos mecanismos democráticos utilizados anteriormente, com participação ampliada da militância, e não apenas por indicação do Comitê Nacional. Tal procedimento enfraquece o princípio da soberania das instâncias coletivas e cria precedentes preocupantes para a vida interna da organização.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, observamos que o processo foi marcado por forte peso de percepções subjetivas, avaliações morais e pressões externas. <strong>Em vez de privilegiar critérios políticos claros, evidências verificáveis e garantias de contraditório</strong>, a condução da apuração parece ter sido influenciada por narrativas e interpretações que não puderam ser devidamente debatidas pelo conjunto da militância, tampouco contou com a escuta de testemunhas indicadas por ambos os lados.</p>
<p style="text-align: justify;">A crítica que apresentamos não significa minimizar denúncias ou desconsiderar a importância de combater qualquer forma de violência, abuso ou opressão. Pelo contrário. <strong>A tradição do feminismo marxista</strong><strong> </strong><strong>nos</strong><strong> </strong><strong>ensina</strong><strong> </strong><strong>que</strong><strong> </strong><strong>o</strong><strong> </strong><strong>enfrentamento</strong><strong> </strong><strong>das</strong><strong> </strong><strong>opressões</strong><strong> </strong><strong>exige métodos coletivos, transparentes e emancipatórios, capazes de proteger as pessoas envolvidas sem reproduzir lógicas punitivistas, arbitrariedades ou mecanismos de destruição política de indivíduos.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Uma organização revolucionária não pode substituir a investigação séria pelo julgamento moral, nem transformar conflitos complexos em processos simplistas. O combate às opressões e às violências deve caminhar junto à defesa da democracia operária, do direito de defesa, da presunção política de boa-fé e da construção coletiva da verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Também consideramos grave que o processo tenha desconsiderado elementos relacionados às condições emocionais e à saúde mental dos envolvidos. Uma organização que se reivindica socialista deve ser capaz de combinar firmeza política com solidariedade humana, especialmente diante de situações de sofrimento psíquico e vulnerabilidade. A responsabilização política não pode significar abandono, isolamento ou negação do dever coletivo de cuidado.</p>
<p style="text-align: justify;">Da mesma forma, preocupa-nos a ausência de uma reflexão crítica por parte da direção acerca de suas próprias responsabilidades na condução do caso. <strong>Ao</strong><strong> </strong><strong>concentrar</strong><strong> </strong><strong>a</strong><strong> </strong><strong>análise exclusivamente sobre indivíduos, corre-se o risco de obscurecer problemas estruturais, falhas de acompanhamento político e limitações dos mecanismos internos de mediação de conflitos.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Também nos parece insuficiente a reflexão realizada pela direção sobre as consequências políticas e organizativas do processo para a célula de Goiás. Durante um período prolongado, a célula viu-se submetida a forte pressão externa, ao mesmo tempo em que ficou privada da atuação de um de seus principais dirigentes e referências políticas. Diante dessa situação excepcional, consideramos legítimo questionar quais foram os encaminhamentos concretos adotados pelo Comitê Nacional para garantir acompanhamento político, sustentação organizativa e apoio aos militantes diretamente impactados pelos acontecimentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o próprio CN reconhecia estar sobrecarregado pela complexidade da situação, cabe perguntar quais mecanismos foram acionados para suprir essa limitação. Houve solicitação formal de apoio à Internacional? A Internacional foi informada das dificuldades enfrentadas pelo Conselho Nacional para responder adequadamente às demandas políticas, organizativas e humanas decorrentes do caso? Caso tenha sido informada, quais medidas de apoio foram oferecidas? Caso não tenha sido, por que tal necessidade não foi apresentada?</p>
<p style="text-align: justify;">Essas questões não têm caráter secundário. Para uma organização marxista, a responsabilidade coletiva sobre seus quadros e organismos não pode ser substituída pela simples gestão administrativa de crises. Quando uma célula enfrenta pressões extraordinárias, cabe ao conjunto da organização mobilizar recursos políticos para sustentá-la, garantindo que seus militantes não sejam deixados isolados diante de conflitos que ultrapassam sua capacidade local de enfrentamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Também entendemos que uma organização socialista não pode adotar uma postura abstrata de neutralidade diante de situações concretas. <strong>O método marxista exige uma análise materialista da realidade, capaz de compreender não apenas os fatos em si, mas também as relações de força, os interesses em disputa e as consequências objetivas produzidas por cada decisão política.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nesse sentido, consideramos insuficiente a reflexão apresentada pela direção acerca dos efeitos concretos que suas deliberações e comunicações públicas produzem na vida dos militantes envolvidos. Os camaradas atingidos pelo processo não eram figuras isoladas, mas quadros que, durante anos, assumiram tarefas de direção, exposição pública e defesa das posições da organização em diferentes espaços políticos e institucionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Por essa razão, uma avaliação materialista da situação deveria considerar que acusações, sanções organizativas e notas públicas não produzem efeitos apenas no interior da organização, mas também repercutem em um contexto político mais amplo. Ignorar essa dimensão significa tratar como abstrata uma realidade profundamente concreta. Uma organização revolucionária deve ser capaz de avaliar como suas decisões podem ser apropriadas, amplificadas ou instrumentalizadas por forças externas, bem como os impactos que isso produz sobre seus militantes e sobre sua própria intervenção política.</p>
<p style="text-align: justify;">Consideramos igualmente problemática a forma como a organização apresentou à militância a saída da camarada BF. Em sua comunicação oficial, a direção afirmou que não teria havido debate suficiente sobre suas posições. Entretanto, ocorreram diversas instâncias de discussão, incluindo reuniões nacionais e internacionais, além da apresentação de um documento escrito no qual a camarada expôs de forma detalhada suas divergências políticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Contudo, os motivos que fundamentaram sua decisão foram reduzidos ou apresentados de forma parcial, sendo resumidos a desacordos relacionados à questão da saúde mental, quando suas críticas abrangiam aspectos muito mais amplos da condução do processo, da ausência de respaldo aos próprios militantes da organização e da priorização de pressões externas em detrimento do debate interno, da responsabilidade coletiva e do cuidado político com seus quadros.</p>
<p style="text-align: justify;">A camarada BF relatou ter se sentido violentada politicamente e descredibilizada ao longo de todo o processo. Entendemos que apresentar publicamente os argumentos que contestam sua posição sem expor de maneira clara, completa e honesta as razões políticas por ela defendidas não constitui um tratamento respeitoso de sua trajetória militante.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O método marxista de construção política exige que as divergências sejam apresentadas em sua totalidade, permitindo que o conjunto da militância tenha acesso aos diferentes argumentos em disputa. Uma organização</strong><strong> </strong><strong>revolucionária</strong><strong> </strong><strong>deve confiar na capacidade política de sua base para analisar criticamente os debates, formular suas próprias conclusões e participar conscientemente da elaboração coletiva de sua linha política.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Também cabe ressaltar que o debate sobre feminismo marxista e seus desdobramentos organizativos não é um tema novo em nossa organização. Trata-se de uma discussão presente há pelo menos dois congressos e que envolve divergências políticas legítimas acerca da construção de uma perspectiva feminista de classe, dos métodos de combate às opressões e da forma como esses</strong><strong> </strong><strong>princípios devem orientar a vida interna da organização.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Em um desses congressos, justamente os militantes</strong><strong> </strong><strong>e</strong><strong> </strong><strong>dirigentes</strong><strong> </strong><strong>que</strong><strong> </strong><strong>posteriormente seriam os mais atingidos pelos acontecimentos recentes apresentaram</strong><strong> </strong><strong>propostas</strong><strong> </strong><strong>de acréscimo ao documento que orientava o debate sobre feminismo marxista. Na ocasião, fomos orientados pela direção nacional a retirar essas contribuições, sob a avaliação de que não seria o momento adequado para incorporá-las ao texto.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>No congresso seguinte, emergiu uma discussão acerca das contradições presentes em qualquer processo político que envolva conflitos, denúncias e disputas de interpretação</strong><strong> </strong><strong>da</strong><strong> </strong><strong>realidade.</strong><strong> </strong><strong>Entre</strong><strong> </strong><strong>os</strong><strong> </strong><strong>temas</strong><strong> </strong><strong>levantados</strong><strong> </strong><strong>estava</strong><strong> </strong><strong>a</strong><strong> </strong><strong>necessidade</strong><strong> </strong><strong>de</strong><strong> </strong><strong>refletir sobre a possibilidade de instrumentalização de pautas legítimas em conflitos</strong><strong> </strong><strong>políticos concretos. Embora reconheçamos que o debate ocorreu já ao final dos trabalhos congressuais, a orientação da direção foi no sentido de não aprofundar aquela discussão naquele momento.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Retomamos esse episódio não para questionar as circunstâncias em que tal</strong><strong> </strong><strong>decisão foi tomada, mas porque a experiência acumulada posteriormente demonstra que se tratava de um debate necessário. Os acontecimentos recentes evidenciam que a organização carece de uma elaboração mais aprofundada sobre a relação entre combate às opressões, democracia interna, garantias políticas e métodos de apuração de conflitos.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Do ponto de vista do feminismo marxista, essa reflexão é indispensável. A tradição marxista sempre rejeitou qualquer concepção idealizada dos sujeitos sociais. O materialismo histórico parte do entendimento de que todas</strong><strong> </strong><strong>as</strong><strong> </strong><strong>relações</strong><strong> </strong><strong>humanas</strong><strong> </strong><strong>são atravessadas por contradições, interesses, pressões sociais e determinações históricas concretas. A luta contra a opressão das mulheres não exige a suspensão da análise crítica da realidade, mas justamente o seu aprofundamento.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Por essa</strong><strong> </strong><strong>razão,</strong><strong> </strong><strong>o</strong><strong> </strong><strong>feminismo</strong><strong> </strong><strong>marxista</strong><strong> </strong><strong>busca</strong><strong> </strong><strong>combater</strong><strong> </strong><strong>simultaneamente</strong><strong> </strong><strong>dois</strong><strong> </strong><strong>desvios: de um lado, a minimização ou negação das opressões efetivamente existentes; de outro, a substituição da análise concreta dos fatos por pressupostos abstratos</strong><strong> </strong><strong>acerca dos sujeitos envolvidos. A defesa intransigente das mulheres e das pessoas oprimidas não pode significar a renúncia aos métodos de investigação, ao contraditório, à avaliação das evidências e à compreensão das múltiplas determinações presentes em cada situação concreta.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Em nossa avaliação, a experiência recente</strong><strong> </strong><strong>demonstra</strong><strong> </strong><strong>a</strong><strong> </strong><strong>necessidade</strong><strong> </strong><strong>de</strong><strong> </strong><strong>retomar</strong><strong> </strong><strong>esse debate de forma mais</strong><strong> </strong><strong>profunda</strong><strong> </strong><strong>e</strong><strong> </strong><strong>sistemática.</strong><strong> </strong><strong>Não</strong><strong> </strong><strong>porque</strong><strong> </strong><strong>as</strong><strong> </strong><strong>opressões</strong><strong> </strong><strong>sejam</strong><strong> </strong><strong>menos reais ou menos importantes, mas justamente porque o enfrentamento consequente das opressões exige métodos políticos sólidos, democráticos e compatíveis com a tradição marxista de análise concreta da realidade concreta.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, consideramos importante registrar que o debate realizado em nossa célula ocorreu por iniciativa e insistência dos próprios militantes que a compõem, e não como resultado de uma orientação política da organização voltada a promover um amplo processo de discussão e elaboração coletiva sobre os acontecimentos. Entendemos que tal fato reforça nossa preocupação com os limites democráticos observados ao longo de todo o processo.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante do conjunto desses acontecimentos, chegamos à conclusão de que a confiança política necessária para a continuidade de nossa construção militante encontra-se profundamente abalada. Uma organização revolucionária sustenta-se não apenas pela concordância programática, mas também pela confiança em seus métodos, em sua capacidade de ouvir posições divergentes e em sua disposição para realizar avaliações críticas de seus próprios erros.</p>
<p style="text-align: justify;">Em não encontrando ressonância junto a essa Direção Nacional, estamos nos afastando do quadro militante da LSR.</p>
<p style="text-align: justify;">Não descartamos a possibilidade de, no futuro, voltarmos a construir conjuntamente este projeto político. Contudo, entendemos que isso dependeria de uma reflexão crítica séria por parte da organização acerca dos problemas aqui apontados. No momento presente, não enxergamos condições concretas para a disputa de nosso posicionamento político no interior da organização. A experiência recente demonstra que, mesmo tendo ocupado responsabilidades nacionais e apresentado suas críticas em diversas instâncias formais de debate, a camarada BF não encontrou espaço efetivo para que suas posições fossem consideradas e respondidas politicamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante disso, reafirmamos nossa solidariedade aos camaradas atingidos pelo processo e nosso compromisso com a construção de uma organização socialista fundada na democracia interna, na transparência, na responsabilidade coletiva e na confiança política entre seus militantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Atenciosamente CD, JB e MB.</p>
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		<title>[São Paulo] Exibição do documentário &#8220;Moinho de Gente&#8221; + Debate!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Jun 2026 20:24:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
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					<description><![CDATA[Queremos discutir o impacto do que está acontecendo na Favela do Moinho hoje, para pensar caminhos para a luta  por outra forma de organizar a cidade. Por Favela do Moinho]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Favela do Moinho</h3>
<p style="text-align: justify;">Lançado em abril de 2026 pelo Intercept, o filme produzido por Caio Castor e Gabi Moncau mostra a luta contra a expulsão da última favela do centro de São Paulo. Com a desculpa de construir um parque e transferir o complexo administrativo do governo do Estado, as famílias do Moinho sofreram cenas de terror, repressão, promessas não cumpridas, falta de moradia definitiva&#8230; mas também mostraram a força da luta por moradia, sem rabo preso com os governos, em defesa da dignidade das moradoras e moradores.</p>
<p style="text-align: justify;">Queremos discutir o impacto do que está acontecendo na Favela do Moinho hoje, pra, dos aprendizados, pensar caminhos para a luta em defesa da vida, por outra forma de organizar a cidade e a sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;"><img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f44a-1f3fd.png" alt="👊🏽" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> Para discutir trocar essa ideia, após a exibição do documentário, contaremos com: Carmen Silva (MSTC e Ocupação 9 de Julho), Vladmir Safatle (Professor de Filosofia da USP), Alexsandra e Cintia Bonfim (moradoras do Moinho) e Irene Maestro (Luta Popular e campanha Despejo Zero).</p>
<p style="text-align: justify;"><img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f4a5.png" alt="💥" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> Além disso, vai rolar a exposição “Moinho, nossa faixa de gaza” &#8211; Centro de Memória e Resistência da Favela do Moinho!<br />
A atividade é aberta e gratuita.</p>
<p style="text-align: justify;"><img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f449-1f3fd.png" alt="👉🏽" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> Data: 17/06/2026 (quarta-feira)<br />
Horário: 19h00Local; Ocupação 9 de Julho<br />
Endereço: Rua Álvaro de Carvalho, 427 (perto do metrô Anhangabaú)</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.instagram.com/p/DZUH0VPxHoL/" target="_blank" rel="noopener">https://www.instagram.com/p/DZUH0VPxHoL/</a><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159336" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-11-at-16.38.19.jpeg" alt="" width="1280" height="1600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-11-at-16.38.19.jpeg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-11-at-16.38.19-240x300.jpeg 240w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-11-at-16.38.19-819x1024.jpeg 819w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-11-at-16.38.19-768x960.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-11-at-16.38.19-1229x1536.jpeg 1229w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-11-at-16.38.19-336x420.jpeg 336w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-11-at-16.38.19-640x800.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/WhatsApp-Image-2026-06-11-at-16.38.19-681x851.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" /></p>
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		<title>[Goiás] Demandas dos estagiários do Tribunal de Justiça</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/06/159309/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jun 2026 14:41:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[just]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Essa luta é nossa, dos nossos antigos e futuros colegas. Por Estagiários do TJ de Goiás]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Estagiários do TJ de Goiás</strong></h3>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://c.org/9cdpk5C2jd" target="_blank" rel="noopener"><em>Assine e compatilhe!!</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">Olá pessoal, eu e mais alguns colegas estamos organizando um requerimento formal para ser enviado ao Tribunal de Justiça com demandas ouvidas nesse grupo e por demais pessoas. Para esse envio ganhar mais força, fizemos um abaixo-assinado para acompanhar o requerimento formal com a possibilidade de uma reunião para sermos ouvidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa pauta tratará das seguintes principais demandas:</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>1. Reajuste da bolsa-estágio</strong><br />
Atualização anual da bolsa conforme o aumento do salário mínimo, garantindo maior justiça financeira e melhores condições de permanência e desenvolvimento dos estagiários.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2. Vale-alimentação para estagiários</strong><br />
Realização de estudos para viabilizar a concessão de vale-alimentação, reduzindo os custos diários e assegurando alimentação adequada durante o estágio.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>3. Calendário fixo de pagamentos</strong><br />
Estabelecimento de um calendário anual de pagamentos para evitar atrasos, facilitar o planejamento financeiro dos estagiários e assegurar o cumprimento de compromissos pessoais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>4. Revisão do recesso forense como férias</strong><br />
Reavaliação da contabilização do recesso forense como férias, garantindo aos estagiários o direito a um período efetivo e adequado de descanso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>5. Melhoria na comunicação instituciona</strong>l<br />
Implementação de uma comunicação mais clara, eficiente e responsiva entre a instituição e os estagiários, com retorno efetivo às demandas e soluções concretas para as reivindicações apresentadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Pedimos por gentileza que nos apoiem assinando a petição e compartilhem com todos os nobres colegas estagiários, obrigado!</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Dez anos de uma quase-organização: entrevista com o Grupão</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/06/159296/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jun 2026 14:23:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Talvez a tarefa dos revolucionários nesse tempo histórico de neblina seja manter acesa um pouco essa mínima capacidade de inventar contra o modo de ser das coisas. Por Pensamiento y Batalla entrevista Grupão]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Pensamiento y Batalla entrevista Grupão</h3>
<p style="text-align: justify;">Após viagens ao Brasil entre 2024 e 2025, companheiros da editora militante chilena Pensamiento y Batalla (PyB) organizaram um livro reunindo entrevistas a coletivos com os quais tiveram contato, compondo um panorama de perspectivas e trajetórias diversas na militância anticapitalista e antiestatal em várias partes do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre os grupos entrevistados, está o nosso: uma rede mais ou menos informal de camaradas que, desde 2016, se reúne duas ou mais vezes por ano para discutir teoria e prática da luta de classes. Sem a pretensão de criar uma cara pública, chamamos essas reuniões entre nós simplesmente de “Grupão”. Foi a forma que encontramos para que camaradas que se aproximaram no intenso período em torno de 2013 continuassem em contato: uma auto-organização de “resíduos” das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;">O Grupão foi um espaço de reflexão sobre nossas derrotas, tanto da incorporação à ordem das organizações produzidas no ciclo dos anos 1970-80, quanto dos limites das revoltas deste século. Ao mesmo tempo, a existência da nossa articulação também permitiu que companheiros mantivessem esforços de investigação, ação e reflexão sobre a conjuntura e as novas lutas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando sintetizamos nossos debates em textos coletivos, a falta de uma identidade pública gerou um problema de apresentação. No livro <em>Incêndio</em>, de 2022, por exemplo, usamos a assinatura de “um grupo de militantes na neblina” (estamos “na neblina”, já que o horizonte revolucionário parece encoberto nesse tempo…). Com isso, tentamos preservar a característica difusa e as divergências que existem dentro do Grupão. Para a entrevista aos chilenos, a solução foi outra: reunimos cinco colegas de diferentes estados (Goiás, Minas Gerais e São Paulo), respondemos às perguntas oralmente e as transcrevemos, apresentando um pouco de nossas polêmicas e questões em aberto.</p>
<p style="text-align: justify;">No fim, essa entrevista acabou sendo um dos primeiros documentos públicos que apresenta mais sistematicamente o Grupão nesses 10 anos. Se o texto já está circulando em espanhol, passou da hora de publicá-lo também em português, então enviamos ao Passa Palavra.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PyB &#8211; Em quais outras cidades ou estados brasileiros, além da grande São Paulo, há núcleos organizados da sua rede? Como se estrutura essa rede nacionalmente?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X &#8211;</strong> Eu acho difícil falar assim. O termo “núcleos organizados” não necessariamente corresponde à nossa realidade. Tem coletivo de militantes em alguns lugares e, em outros, tem indivíduos militantes que se afinam com os diálogos que a gente desenrola.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y &#8211;</strong> Não tem esse nível de formalização. Em algumas cidades a gente tem uma coisa que é mais nucleada, em outras não. A gente se mantém junto garantindo dois encontros presenciais anuais, em locais onde tem mais pessoas organizadas. Fora isso, essas pessoas fazem reuniões, tanto para pensar a ação política, quanto estudos, reflexões de conjuntura etc. E também existem grupos<em> online</em> que estudam, que discutem junto, de diversos estados do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159297" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907.jpg" alt="" width="964" height="1045" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907.jpg 964w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-277x300.jpg 277w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-945x1024.jpg 945w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-768x833.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-387x420.jpg 387w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-640x694.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-681x738.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 964px) 100vw, 964px" />PyB &#8211; Por que optaram por constituir uma rede mais ou menos informal, e não um grupo público de caráter formal?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> Ai, essa é engraçada, hein?<em> [risos] </em>Porque carrega uma carga. Você tem várias formas. A galera já passou por um monte de coisas, de organização e tal. Ao mesmo tempo, existem vários formatos aí sendo construídos, com mais tempo, menos tempo. Na verdade, a gente não consegue encontrar algo que seja diferente do que a gente já viveu ou do que a gente conhece. Tem um excesso de organização no caso brasileiro, eu acho. E de formas específicas: de núcleos, de articulação de militantes, etc. No cardápio foi experimentado muita coisa. E, quando isso acontece, as possibilidades vão se esvaindo. A impressão que eu tenho é essa: a gente se mantém assim por não ter capacidade de responder essa questão e produzir algo que possa ser coerente e compatível com as coisas que a gente pensa e que a gente faz.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y &#8211;</strong> Eu daria um passo atrás também, no sentido de que não me parece que foi uma opção, num primeiro momento. No primeiro momento, nós saímos de organizações, sejam de caráter mais autonomista ou do marxismo tradicional, que vinham de formas estruturadas e mais bem estabelecidas, em alguns casos bem rígidas. E aí eu acho que o encontro desses militantes coloca a necessidade de pensar em alguma coisa diferente do que a gente tinha vivido antes. Então, acho que a gente é um pouco empurrado para isso. Mas, depois de um certo tempo, sim, se coloca a questão: se a gente deveria se conformar em algo mais formalizado ou não. Aí a gente não quer repetir mais o mesmo. A gente quer pensar em um formato de atuação política distinto. Mas, na verdade, nem o informal é muito claro para a gente, porque não tem nem definições do que seria uma rede informal tão bem estabelecida. Talvez esse seja até o nosso problema. A gente tem que formalizar o informal de alguma forma.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> É, seria uma boa formalizar. Porque daí, por exemplo, no 1º de Maio da CUT e da Força, poderia alguém do Grupão falar em nome da nossa estrutura!<em> [risos]</em> É, então é o dilema. Não dá, né?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211;</strong> A gente pode também responder as perguntas com outra pergunta, sem problema nenhum. Por que a necessidade de fazer isso nesse tempo? A gente não vê a necessidade de pressa para isso. O Camarada Z ia dizer que foi uma condição. Não foi uma escolha. E essa condição é coerente com a situação do conjunto das lutas que operaram nos últimos anos no Brasil. E com a dificuldade mesmo de transpô-las. Como a gente não consegue atravessar esse tempo também, a gente não sabe o justo lugar de fazer formalmente uma nova organização. Nem sequer botar isso como uma pergunta. Talvez não seja uma questão para nós nesse momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> Eu acho que a gente se encontrou num momento que ainda o calor de junho de 2013 ainda estava no ar. Muito movimento na rua, ocupações. E a gente estava muito envolvido nas lutas e nas críticas, e vinha de trajetórias diferentes. Por outro lado, a gente não tinha pressupostos teóricos claramente definidos no grupo. Quando você tem uma teoria claramente definida, é muito mais simples, porque daí você coloca um programa escrito e todo mundo adere àquilo. Mas o que juntou a gente foi muito mais o movimento real. Então não é que a gente não queira se formalizar nunca. Eu acho que tínhamos uma intenção, talvez no começo, de virar uma organização mais definida. O problema é que fomos com muita cautela. O fato de termos saído de outras organizações, como os companheiros já falaram, fazia com que a gente não quisesse repetir algumas coisas que acontecem nesses espaços &#8211; por exemplo, você começar a prezar muito mais os símbolos daquela organização (o nome, a bandeira, as cores), e virar mais a imagem do que o conteúdo em si. E o conteúdo que queríamos era o movimento real. Se for fazer uma comparação com religiões, assim, a gente tentou tirar toda a carcaça de simbologia, de ícones e ficar com o momento do milagre, né? “Testemunhas do movimento real”. Queremos nos manter muito ligados e fiéis ao fenômeno do movimento e, nesse sentido, qualquer exagero de definições poderia afastar a gente do momento vivo da luta. Ao não se definir muito e não se fechar, é uma forma também de continuar aberto para formas novas de lutas, e adaptar a nossa forma de organização a elas. Então, eu acho que tinha essa preocupação em não virar uma seita em volta de símbolos e perder o conteúdo.</p>
<p style="text-align: justify;">E acho que tem medo também: será que se a gente definir muito, vai rachar? Então, fomos ficando numa indefinição. E isso também equilibrou posições divergentes dentro. Eu concordo que não foi uma opção consciente por completo. A gente foi fazendo assim e, quando viu, passou 10 anos. Até hoje funcionou. De certa forma, essa “quase-organização” também chama os participantes à responsabilidade. Porque você não pode dizer: “ah, a organização existe, está lá pronta”. Não. É uma condição permanentemente tensa, ela pode se desfazer. Como ela não é totalmente formalizada, ela não é estável, não independe da gente. Então, a gente está sempre também repensando ela, rediscutindo ela.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X &#8211;</strong> Apesar dessa rede ter esse caráter informal, a gente também tem grupos públicos que se mostram onde atuamos. Beleza, essa rede não se mostra de forma pública, enquanto um grupo, formalmente, etc. Mas, digamos assim, há subconjuntos dessa rede que se mostram publicamente, que se colocam nas lutas, que estão atuando em cidades, etc. Ao longo desse processo, vários grupos se criaram, surgiram, se dissolveram, acabaram. Essa rede é ativa e tem muita troca. Eu acho que as pessoas saem de lugares, vão para outras, e influenciam, incentivam, criam novos grupos. Então eu acho que essa questão da rede é meio dual. Talvez seja uma questão de escala. Numa escala maior, a gente é um grupo de caráter informal, não público, mas se a gente pensar no micro, em certos lugares, no tempo e no espaço, a gente adquire um caráter mais formal e forma grupo público.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211; </strong>Eu acho interessante essa coisa da treta em que a gente se envolveu. Nas tretas, eu acho que a gente produz a forma que tem a ver com a própria necessidade da treta. Por exemplo, no passado, O Mal Educado, as ocupações de escola. A gente produziu ali um tipo de organização.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> A gente vem de um conjunto de experiências, e em algum momento, se produz a necessidade de compreendê-las com uma perspectiva crítica. A gente foi tentando buscar outras possibilidades nas ações que a gente já se envolveu. Porém, isso complexificou muito nossa situação. Fomos buscar a resposta e encontramos mais contradições, e é com elas que nós estamos lidando hoje. O nosso problema não é falta de fazer, é que a gente fez bastante, dentro do que a gente pôde e tal. E isso trouxe contradições concretas, que a gente está agora tentando entender, tentando lidar. Inclusive, isso, em alguns casos, tem inviabilizado até a inserção em algumas coisas, porque estamos lidando com esse drama.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159299" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316.jpg" alt="" width="860" height="386" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316.jpg 860w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-300x135.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-768x345.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-640x287.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-681x306.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 860px) 100vw, 860px" />PyB &#8211; Quais são as diversas origens e trajetórias daqueles que participam do espaço de vocês? Vieram de quais lutas e movimentos anteriores?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> Talvez sejam duas origens. Tem uma geração mais velha, que são os que vieram ainda do ciclo de lutas que formou o PT. No caso, essa geração se formou dos anos 1980 para os 90 nos movimentos sociais territoriais: primeiro o Movimento Sem Terra (MST) e, depois, fundando o Movimento Sem Teto (MTST), inicialmente como um braço urbano do MST. O que liga essa história ao Grupão, era uma uma posição interna de defender a tática radical. De achar que era possível, apesar de uma estratégia oficial reformista, tensionar esses movimentos a partir de uma prática combativa, apostando que a radicalidade da ação direta poderia transformar o conteúdo também desses movimentos. Tinha a ver com o setor de “frente de massas”, que era o responsável por fazer a ocupação, por organizar as resistências aos despejos e outras ações diretas &#8211; expropriações, abrir pedágios, manifestações. A criação do MTST teve a ver com esse tensionamento no MST, de um setor que achava que não bastava o movimento no campo. Se a contradição estava explodindo nas cidades, então tinha que chegar nas periferias urbanas, começar a cercar as rodovias com ocupações de terras. Só que essa experiência, ao mesmo tempo, vinha sendo feita dentro desses movimentos que estavam incorporados na estratégia geral da esquerda, que acabou culminando na eleição do Lula em 2002.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> Isso. A gente acreditava que a ação radical se sobrepunha ao programa reformista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211;</strong> Das organizações formadas no ciclo de lutas dos anos 1970 e 80, o PT logo vai se incorporar ao Estado. O movimento sindical nos anos 1990 já estava entregando direitos para os patrões, a CUT aderiu às câmaras setoriais, as oposições sindicais perdiam espaço. E dos anos 90 para os 2000, os movimentos sociais como o MST eram ainda um ponto de radicalidade, onde o conflito continuou acirrado por mais tempo. Isso tensionava a própria estratégia institucional do PT. E aí, depois da eleição de 2002, tem uma baixa geral das lutas e greves. O MST passou um ano sem fazer ocupação de terra, e esses setores que defendiam uma posição mais radicalizada vão continuar tentando tensionar. Teve as ações contra empresas do agronegócio feitas pelos grupos de mulheres do MST em 2006, que destruiu as mudas da Aracruz e da Monsanto. Mas esses setores vão ficando isolados, e isso culmina na ruptura em 2011 na <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2011/11/48866/" href="https://passapalavra.info/2011/11/48866/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Carta dos 51”</a>, que foi um marco da saída de vários militantes, que fizeram caminhos diferentes. Alguns vieram aqui constituir o Grupão, outras fizeram outros caminhos. A carta falava da integração desses movimentos no regime de gestão democrático-popular.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> É um momento histórico específico ali em 2011, que junta com a outra geração do Grupão, que vem de uma juventude urbana mais autonomista, que vinha dos Ação Global dos Povos e do Centro de Mídia Independente (CMI), que formou aqui no Brasil o Movimento Passe Livre (MPL), que de alguma forma também estava tensionando a gestão pacificadora dos governos de esquerda. Era um movimento que lutava contra a tarifa do transporte coletivo, formado principalmente por secundaristas, universitários, punks… uma juventude urbana precária que não se enquadrou na institucionalidade. O MPL não se institucionalizou, talvez, porque o transporte não cria “base social”. Na moradia, tem ali uma base, e alguém pode fazer uma negociação em nome dela, forma-se uma relação dirigente e base. Nos sindicatos, os diretores sindicais representam a categoria. No transporte, talvez pela forma fluída, dinâmica, não dá tempo de conformar uma base ali e organizar ela a ponto de criar uma relação estável de dirigente, que pode estabelecer uma relação negocial com o Estado. Então a pauta do transporte ficou na mão dessa juventude mais anarquista/autonomista, que fazia ação direta.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2003 teve a primeira explosão em Salvador, que foi a Revolta do Buzú, e que foi uma luta com caráter de revolta. Parou a cidade de Salvador, mas tomou um golpe das entidades estudantis. O mesmo tipo de revolta se repetiu em Florianópolis em 2004 e 2005, as duas Revoltas da Catraca, que baixaram o preço da passagem dois anos seguidos. E isso formou o MPL, que era um movimento que tinha os princípios de autonomia, horizontalidade, ação direta, e que lutava contra a tarifa de ônibus. Esse movimento foi se conformando ao longo dos anos 2000 e ele vai ter o seu auge em 2013, quando ocorre a explosão em Porto Alegre, Goiânia, São Paulo, Rio de Janeiro, tudo ao mesmo tempo, e vira um fenômeno nacional, revolta em todo canto. Teve protesto inclusive em cidades muito pequenas no interior, onde nem tem transporte coletivo. Esse momento entra no ciclo mundial de revoltas. O que aconteceu em 2013 no Brasil se conecta à nível global com a Primavera Árabe, com o que aconteceu na Turquia no mesmo ano, depois o Chile, Hong Kong, enfim…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211; </strong>Enfim, alguns que faziam esse caminho se encontraram ali, no pós-2013, já no refluxo da revolta, com críticas em comum… e em crise também. Se a geração mais velha carregava uma crise das lutas serem incorporadas, a geração mais nova carregava uma crise também da revolta ter quebrado, refluído, e o pouco que sobrou depois. A gente se encontrou naquele momento, já tínhamos feito alguns debates juntos. Um site importante para isso foi o Passa Palavra, no qual publicamos textos, tanto da saída do 51 do MST quanto também dos debates do MPL. Como o próprio MPL entrou em crise, a gente estava debatendo ali em busca de alguma coisa nova.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> No fim de 2015 vem as ocupações de escola, que a gente ajuda a organizar. Tem essa ferramenta na época, que foi O Mal Educado, um jornal secundarista que alguns companheiros organizaram. Muito baseado na experiência do Chile, a gente convoca as primeiras ocupações de escola. Tinham companheiros que eram secundaristas. A gente preparou duas, três, quatro ocupações em São Paulo, e isso explodiu e virou duzentas. De novo essa característica da luta explosiva, da aposta que a ação radical consegue um conteúdo de novo tipo. Não teve um trabalho de base prévio que preparou uma grande organização secundarista, foi uma tática radical de ocupar algumas escolas que contaminou. Essa experiência colou a gente. O Grupão surgiu nesse momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211; </strong>Do ponto de vista teórico, tem uma coisa importante que é que os companheiros que vinham do movimento social clássico tinham uma formação muito mais marxista, leninista, que mistura maoísmo, Igreja Católica.. mas que era movimentista também, então esses “ismos” não importavam tanto, o debate era muito ligado ao concreto. E a geração mais jovem vinha de um pensamento parecido, mas com uma formação mais no autonomismo/anarquismo. Mas os dois lados vinham criticando as próprias posições, em crise, e a gente se encontrou nesse meio do caminho. Então acho que o Grupão tem um pouco a ver também com essa mistura teórica, pensando nas trajetórias.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159301" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681.jpg" alt="" width="900" height="675" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-681x511.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />PyB &#8211; Quais são os acordos e as divergências mais importantes da militância que forma sua rede? Quais elementos teóricos e/ou práticos que os fizeram confluir?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Eu acho que o elemento teórico-prático que fez a gente convergir, que é o nosso primeiro ponto de concordância, foi o momento histórico do entorno de junho de 2013, em que a gente se encontrou na rua, nos conflitos daquele período. A gente se encontrou nesse contexto, fazendo críticas parecidas. A crítica da gestão e da pacificação petista. De que o ciclo de lutas dos anos 1970-80 resultou numa forma de contenção da classe na democracia. Essa crítica era teórica e também prática, já que encontrou tração no movimento de 2013 e na alta de greves daquele período. Isso correspondia à ideia de que a gente tinha que fazer lutas de enfrentamento que quebrassem o consenso. Uma aposta na revolta. Eu acho que nosso encontro foi aí, na posição anti-gestão. Isso convergiu com a conjuntura naquele momento, convergiu nas lutas e a gente quis continuar se reunindo e se encontrando.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, conforme a gente foi começando nossos debates, vimos que tinha, de fundo, nas nossas conversas, concepções teóricas divergentes. Indo para outro nível, saindo da conjuntura, indo para a estrutura, para a teoria mesmo. A caracterização do momento do capitalismo sempre foi uma polêmica, desde o começo no Grupão. Por um lado, uma posição que vê uma dinâmica cíclica do capitalismo, que sempre operou e continuaria operando, de ciclos de expansão e crise, que estão ligados também a ciclos de luta e recuperação das lutas, que a gente pode dizer que é mais inspirada no marxismo autonomista. E uma outra concepção que bebe mais da teoria da crítica do valor, que vê um colapso do capitalismo desde os anos 1970 &#8211; então, a dinâmica cíclica já não estaria mais operando e o capitalismo teria entrado numa crise estrutural, e hoje estaria girando em falso. Enfim, daí vai todo um debate. Mas eu acho que essa discussão teórica da crise, se é colapso ou são crises cíclicas, sempre foi um debate interno nosso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y </strong>&#8211; Eu tenho uma pergunta. Você acha que isso é causa de divergência? Ou é prolífico para o debate, na medida que também a gente se obriga a contrapor os termos… Eu imagino que na pergunta deles, “discordância” é sobre aquilo que cria uma dificuldade de caminhar junto. E, até hoje, essa discordância não foi uma coisa de dificuldade de caminhar junto. Na verdade, analisando a história do Grupão, isso permitiu um campo de debates interessante em que essas duas posições existem.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Inclusive, várias pessoas, como eu, têm uma posição que a gente brinca que é “agnóstica”. Pra mim, qual é a situação atual do capitalismo: crise cíclica ou estrutural? Eu não sei, e tudo bem. A gente encontra convergência na luta concreta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu acho que tem algum desdobramento nessa questão de crise terminal ou crise cíclica: a gente tem uma perspectiva revolucionária ou não tem uma perspectiva? Mas eu não diria que isso necessariamente está ligado puramente a uma concepção econômica. Porque se a gente pegar, por exemplo, a galera comunista de conselhos lá dos anos 20, eles já estavam com uma concepção de crise terminal do capital naquela época e tem a galera que continua com essa perspectiva até hoje. Eles estão, sei lá, quase 100 anos falando da crise terminal e isso faz parte de um longo ciclo. Eu acho que por mais que a gente pense na questão de ciclos longos, eu não sei se puramente a questão econômica leva a isso. Tanto é que você tem hoje, por exemplo, a galera aí da esquerda comunista defendendo ainda essa questão do capitalismo decadente e eles ainda têm uma concepção revolucionária. Ainda acreditam que, apesar disso, há possibilidade de revolução. Não sei se eu confundi muito, mas eu acho que talvez tenha uma questão econômica / política.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y</strong> &#8211; Eu acho que você não está confundindo, não. Eu acho que, na verdade, essas coisas são conectadas. No limite, a importância de discutir se a crise é estrutural não é um preciosismo de uma análise econômica correta ou incorreta, ou identificar as verdades da dinâmica do capital. Isso está relacionado justamente com pensar as consequências para a questão política. Que transformação que está posta? Tenho mais afinidade com a ideia de uma crise estrutural &#8211; que é mais do que a ideia de terminal, porque “terminal” parece que já acabou, que vai ter um dia em que vai morrer, específico, quando vão desligar as máquinas, e não é bem assim. É um processo. Já a análise da crise cíclica está muito vinculada aos ciclos revolucionários que a gente viu ao longo do século XX. Então a questão é: é possível se repor? É possível se repor uma revolução nos velhos moldes? Curiosamente, eu acho que ninguém no Grupão defende isso efetivamente. Uma revolução nos velhos moldes da Revolução Socialista, por exemplo. Eu acho que tem uma crítica até razoável, que tem um acúmulo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; E aí tem uma outra questão também, que mesmo no campo que defende a crise estrutural, também tem diferenças em relação às consequências. Por exemplo, eu não entendo que a consequência é… “Ah, então, beleza, vamos ficar aqui vendo o capitalismo ruir e quando sobrar as ruínas e tudo, a gente tenta organizar uma nova sociedade.” “Porque o sujeito histórico morreu e não tem nada mais a ser feito, tudo é estrutura e tudo é uma determinação completamente insuperável.” Tem algumas pessoas da crítica do valor, não todo mundo, que chegam nessa consequência. E aí, nenhuma prática nunca é possível. Eu acho que é diferente a ideia de “vamos pensar a crítica da prática que a gente estabeleceu no passado e vamos experimentar coisas aqui e agora”. Porque, afinal de contas, estamos vivos e a história não está pré-determinada, ainda que a gente enxergue tendências nela. Estamos vivos e somos sujeitos da vida e as pessoas estão indignadas, estão revoltadas, querem fazer alguma coisa a respeito do mundo e do seu futuro. Será, e aí a pergunta, que é possível pensar alguma outra saída que não seja a extrema-direita, que não seja só a destruição? Enfim, eu acho que tanto no campo da crise cíclica quanto no campo da crise estrutural, existem diferentes leituras das consequências do entendimento do capitalismo nesse momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y </strong>&#8211; Por isso é legal você levantar essa questão, que a gente consiga, de alguma forma, se manter junto, apesar das diferentes análises de crise, a priori. Porque eu acho que, quando chega na parte do “fazer alguma coisa”, tem algumas divergências, mas eu acho que tem um certo encontro ali, num sentimento de crítica das esquerdas e crítica do passado &#8211; que não é só uma crítica política da prática, é uma crítica também interpretativa do capitalismo que as organizações tradicionais carregam. Eu acho que a gente tem uma diferença em comum, digamos, em relação a esses conflitos tradicionais, ainda que os caminhos para nossas interpretações sejam diferentes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; A gente tem aqui uma convergência negativa, isso é muito interessante, o nosso espaço, ele consegue ser permeável a inúmeras experiências concretas, objetivas de luta da classe, a gente pôde participar dessas experiências, dessas lutas que aconteceram, foram inúmeras, trazer elas de volta para um lugar em que a gente também se sente livre e confortável em fazer a crítica radical delas, de apontar os limites.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, a gente é permeável a uma série de experiências que as pessoas estão fazendo em inúmeros cantos, com inúmeras qualidades, com inúmeras intenções, a gente contribui com essas lutas, volta para um espaço e a gente se sente livre de poder criticar elas de uma maneira honesta e radical também. Eu acho que poucos espaços organizativos permitem isso. Na maior parte dos espaços organizativos que a gente tem conhecimento existe um certo pudor e um certo medo de implodir tudo, na medida em que a gente pega uma experiência que é cara a nós e passa um pente fino dela, apontando também os limites e aquilo que traz de qualidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, quando a gente vai analisar a experiência das greves de entregadores, o quanto que ao mesmo tempo que elas podem ser disruptivas e também são uma confluência com o atual estágio de guerra de baixa intensidade de todos contra todos, de um capitalismo ultraviolento, essa lógica do auto empreendimento, etc. Ou seja, a gente tenta também manter a crítica como critério da nossa divergência e da nossa convergência. Me parece que aquilo que nos une é também aquilo que permite a nossa diferenciação no limite, que eu acho que é o que tem de mais virtuoso na lógica do Grupão. Justamente poder fazer do exercício da crítica o mais radical que a gente puder, o mais aberto que a gente puder, o lugar que a gente produziu.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu fico meio sem saber o quanto esse espaço aberto ao debate polarizado é de fato algo que pode ser entendido como divergência, o quanto que ele não é justamente aquilo que converge com o Grupão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y &#8211; </strong>Talvez a gente tenha até dado um acento muito grande aqui na discussão para essa questão da leitura da crise. Na verdade, a gente nunca sentou e fez um debate especificamente sobre isso. Em geral, a gente está sempre discutindo as lutas concretas e aí essas posições estão de fundo. E muitos militantes nem têm uma definição exata sobre isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Do ponto de vista mais prático, outra polêmica foi com companheiros que falavam da necessidade de se organizar no “centro da classe”. Isso marcou muito nossos primeiros debates. Uma discussão com correntes que defendem que a gente deveria se organizar nos setores do operariado fabril, porque esse seria o núcleo duro da classe trabalhadora, a partir do qual tem a maior produção de valor e, por isso, seria o ponto estratégico para a revolução: “pôr a classe ao centro e ir ao centro da classe”. No debate com essa galera, que acho que foi formativo no início do Grupão, a gente foi encontrando uma linha nossa, que começou como brincadeira, mas que era assim: “tem a galera do centro da classe e a galera do centro da treta”. A ênfase do Grupão era nas lutas. Então, se for pensar assim, onde se posicionar? Para nós, parecia às vezes menos importante essa discussão econômica crua que pensa: “esse setor de trabalhadores está num ponto estratégico porque aqui se produz não sei quanto de capital”. E, no caso, a gente dizia: “bom, tem setores que têm uma posição que é estratégica do ponto de vista social” &#8211; o setor de transporte, por exemplo. Setores com possibilidade de lutas mais dinâmicas. Os pontos a partir dos quais pode ter explosões que contaminem outros setores e que ganhem escala, que cresçam. Nossa centralidade é uma centralidade das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Dialogando com as perguntas colocadas para nós aqui, uma organização pressupõe o quê? Um programa? E, um programa pressupõe o quê? Uma leitura de mundo, uma visão de mundo, uma teoria da revolução, é o mínimo que se espera de uma organização política, uma leitura da realidade, uma apresentação das contradições dessa realidade e uma perspectiva revolucionária. Mas nós não temos. Eu não acho que nós não temos porque nós não queremos ter. Até porque a gente, apesar de fazer a crítica, não se aprofundou nesses meandros. Tem lá os democráticos populares, nós somos os revolucionários situacionistas, e está tudo certo? O buraco é mais embaixo. A tragédia é um pouco maior do que a gente imagina. Olhar para uma perspectiva estratégica, questionar, não concordar com ela, opôr-se a ela, não significa que no lugar onde você atua na revolta ou nas lutas não possa reproduzir aquilo que é a base da existência do que você está negando. Eu acho que essa é uma grande contradição nossa com a ação prática.</p>
<p style="text-align: justify;">A grande dificuldade é lidar com as coisas que a gente reproduz e que nos aproximam do que criticamos. E a gente faz isso em silêncio, porque a gente também não quer dar brecha para críticas externas. Mas o fato é que a prática como critério da verdade, na lógica maoísta, está longe de ser uma definição que realmente resolva nossos dilemas. E nem a teoria é este critério. Mas é preciso compreender que essas coisas não estão separadas, é preciso juntar, é preciso permanentemente revisá-las. Revisá-las é uma palavra complicada. Compreender, estudar, ler, repetir.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje em dia, por exemplo, o ponto parece fácil. A gente lê O Capital, daí todo mundo entendeu o que é mais valor, todo mundo sabe que o negócio é fazer uma revolução socialista, impor uma derrota ao capitalismo, implantar uma transição, uma mediação entre a ação radical e ação institucional. Esse é o problema geral, está aí. Mesmo não gostando, a gente acaba participando. Eu estou para dizer que nosso problema é um pouco mais profundo. Não é só uma questão de compreensão teórica se a crise é estrutural, se a crise é cíclica.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é porque a gente não gosta dessa coisa de programa. Ou que a gente não tem programa, porque a gente escolheu não ter. Eu acho que é mais complicado o assunto, que ter as coisas, produzir certas coisas, implica o conjunto de condicionamentos da forma pela qual você quer lidar com a ação. Então, a gente resolveu não criar amarras para a gente lidar com a ação. Isso traz outros problemas. O fato da gente não ter uma definição teórica, prática, uma leitura de mundo e atua no mundo sem ter isso. Eu sei que na cabeça de cada um tem alguma coisa. Eu acho que nós lidamos razoavelmente bem com isso. Ninguém vai para a luta sem saber nadar, “estou aqui só porque eu quero entender o que está acontecendo”. Não, quem está lá quer influenciar, quer levar para algum lugar a revolta. Está lá tentando potencializar o nível de aceleramento, de contradição dela, de enfrentamento. Está lá querendo dialogar com outros militantes para trazer junto para trocar ideia. Então, existe uma intencionalidade, sim, porém, isso não é programática. Está muito mais ligada à experiência de vivência de cada coletivo, cada espaço, cada lugar, porque é uma formulação complexa, vamos dizer assim, da leitura da revolução. Eu acho até que algumas pessoas têm vontade de ter um programa, uma teoria da revolução, uma proposta de onde a gente vai estar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y</strong> &#8211; de alguma forma, essas coisas têm uma conexão com a questão da centralidade negativa do trabalho. Fiquei refletindo aqui sobre a ideia do Camarada K de que o trabalho seria como um centro da forma social, mas um trabalho que tem a ver com essa pessoa sem lugar, forma da forma tradicional de produtor de valor, etc. E, ao mesmo tempo, pessoas que trabalham insanamente, esfolação profunda da existência. Eu fiquei pensando se a gente, de alguma forma, não tem também uma centralidade negativa das lutas, à medida que a gente põe as lutas, mas essas lutas também se esfacelam e se negam e se repõem. Se a gente está conseguindo fazer isso, então, acho que até está interessante.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei, fiquei pensando nessa questão da luta como crítica das formas anteriores de luta. Então, propomos lutas que a esquerda em geral não entende muito, porque não tem clareza de quem é o dirigente, o formato é completamente outro de como a luta se dá. E, ao mesmo tempo, ao ela se dar, não se põe como uma forma, não se põe como uma forma permanente. Não é que a gente está, por exemplo, fizemos a luta do motoboy, agora a gente tem uma cartilha de como atuar, não se sabe. Tem uma experiência, obviamente, e essa experiência ela se perpetua no tempo como uma forma de olhar para trás e falar “a gente fez isso naquele momento, podemos fazer isso de novo aqui, ou não fazer e tal”. Mas não tem um formato estrito, como as organizações têm normalmente. Quais são as nossas táticas de luta? Qual a forma que a gente desenvolve a luta? Isso é interessante e fiquei pensando se a gente teria uma centralidade negativa das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu só queria fazer um comentário para Camarada Y. Eu acho que a centralidade negativa do trabalho é interessante porque acho que mesmo os que têm a leitura da crise estrutural no Grupão, que a princípio vão pensar um colapso do trabalho e da acumulação de valor a partir da mais-valia extraída do processo de trabalho, não tem uma leitura que acha que o trabalho acabou. No sentido de que, às vezes, pode parecer isso, de que não tem mais trabalho. Na verdade, essa perspectiva acaba se encontrando com o autonomismo operaísta, porque, no fundo, tem uma ideia de que o trabalho ainda é central, no sentido de que ele é o ponto de tortura nas nossas vidas, que todo mundo tem que acordar e ir trabalhar. E acho que é até uma leitura de que, com a crise estrutural, as pessoas estão se esfolando até mais, porque as formas ficam até mais pesadas e mais cruéis, e que, então, eu acho que é como quando falamos da centralidade negativa do trabalho. O trabalho é central, mas a gente quer se libertar dele.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu acho que ter uma perspectiva revolucionária não significa que a gente precisa ter um receituário, um programa, uma perspectiva de que a gente precisa cumprir certas etapas ou certos processos para que a revolução venha, mas sim uma ideia de fundo, uma perspectiva geral de rompimento com o sistema capitalista. Então eu não acho que simplesmente a gente nunca ter dialogado sobre ter um programa, sobre ter uma série de medidas a serem tomadas, nos coloca numa condição de que a gente não tem uma perspectiva revolucionária. No entanto, eu acho que isso ainda é uma questão em aberto. Eu já vi camaradas colocando isso: “não sei se eu acredito na perspectiva da revolução”. Eu acho que tem uma série de acúmulos teóricos sobre o pensamento do próprio desenvolvimento do capital e da revolução que, de certa forma, a gente vê na nossa prática, ela se relaciona muito com algumas teorias que já foram desenvolvidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu acredito, sim, nessa questão de que tem momentos de baixa, momentos de alta e eu não acredito que a nossa atividade enquanto militantes nesse momento, que a gente poderia considerar talvez como contra-revolucionário, eu não acho que o nosso papel nesse momento é fazer a revolução, e eu acho que no Grupão a gente também não acha isso. Eu acho que a gente nunca pensou que as nossas práticas ou o nosso envolvimento nas lutas poderia desenvolver a revolução. Mas eu acho que a nossa inserção nos processos de luta vai muito mais nessa questão de investigação, no sentido de situar a gente no tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu acredito que a gente deveria fazer essa separação. Ter uma perspectiva revolucionária não significa que a gente necessita de uma estratégia revolucionária, porque eu não acredito que a gente possa ter uma estratégia revolucionária nesse tempo. Não significa que isso vai ser uma constante, significa que agora a gente não pode ter isso, mas possivelmente em um momento de ápice das lutas pode vir a surgir.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159302" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550.jpg" alt="" width="675" height="900" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550-315x420.jpg 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550-640x853.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 675px) 100vw, 675px" />PyB &#8211; Quais as lutas sociais mais importantes que vocês se envolveram desde que o grupo se formou? Como foi a intervenção prática de vocês?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Então, naquele período de 2016-17 ainda teve muita luta estudantil secundarista, que foi uma coisa um pouco nova no Brasil. Nesse patamar, tinha o exemplo do Chile, que inspirou muito por aqui. A gente traduziu uma cartilha do Chile, que foi útil para preparar as ocupações de escolas. Foi um movimento muito dinâmico, muito vivo e muito autônomo também (os partidos não tinham muito espaço). Foi o período do impeachment, em que, do ponto de vista institucional, a direita estava se articulando para derrubar a Dilma. As ocupações aconteceram nesse período escaparam da dinâmica do jogo institucional.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Depois teve a luta do telemarketing, que era uma ideia do Disk Revolta. A gente começou a notar que estava explodindo de pequenas insatisfações, que tem a ver com a discussão sobre o trabalho em formas ultra precárias, os <em>bullshit jobs</em>, os trabalhos de merda, e que se expressavam em formas que os sindicatos e os partidos não tinham condições de dar vazão a essas insatisfações, a essas inquietações. Parecia que ali havia uma explosividade que talvez estivesse represada.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Mas eu acho que tem também um aspecto de 2013. A gente via os dados sobre as greves daquele período, que em 2013 teve o maior auge de greve da história do Brasil desde os anos 80. Então a gente falava, “bom, teve um ciclo lá nos anos 70, 80 e está tendo um novo ciclo agora”. Essas lutas estão acontecendo muitas vezes de forma subterrânea, tá cheio de conflitos nos locais de trabalho e a gente tem que investigar. O Disk Revolta teve a ver com isso: em um ano a gente descobriu um monte de pequenos conflitos que às vezes não são greves abertas. Um grupo de trabalhadores fizeram uma sabotagem desligando o cabo do fone para poder ter um tempo maior de mute e aumentar os espaços de não trabalho. A gente começou a buscar essas pequenas lutas dentro do trabalho para politizar elas. É um contexto de reforma trabalhista e isso também fazia os sindicatos se mobilizarem, chamarem greve geral e vira uma oportunidade para a gente também experimentar lutas nas categorias que a gente está ou em categorias que a gente conhece ou que a gente acha interessante ir lá e fazer algum contato.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Essas pequenas lutas para além da explosividade foram importantes para a gente perceber o quanto um monte de coisa estava acontecendo, mas também para oxigenar nós mesmos. Foi muito importante para o próprio Grupão termos investigado um monte de pequenas lutinhas que até hoje a gente considera como importante. Deu uma centralidade para a nossa militância.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Na questão do local de trabalho, um ponto que para nós foi caro &#8211; sobretudo no diálogo contra as forças de esquerda &#8211; é que quase toda a esquerda no Brasil se organiza para tomar sindicato. Então o militante entra na empresa e começa a fazer um trabalho com o objetivo de ganhar a direção do sindicato. Temos companheiros que passaram anos trabalhando de forma clandestina na fábrica para mapear contatos no sentido de fazer uma chapa e disputar a direção do sindicato. Ao mesmo tempo, nesse período, vai acontecendo um monte de lutas e você não pode participar porque, se você se expõe, você é demitido e não consegue entrar na chapa e disputar a direção. É uma dinâmica totalmente voltada para a disputa eleitoral. Uma organização estruturada em volta do aparato sindical que, no Brasil, é ligado ao Estado. Por isso a gente queria tentar outras formas de organização nos locais de trabalho, fora das eleições e do aparato sindical.</p>
<p style="text-align: justify;">Na categoria de professores da rede privada aqui em São Paulo, por exemplo, tivemos a experiência de puxar uma greve por fora do sindicato, organizando assembleias autoconvocadas e comissões nas escolas, às vezes mais abertas, às vezes clandesitnas. Tinha a questão de não ser uma categoria estável, porque eles estão no setor privado e podem ser demitidos. Ao longo de 2017 e 2018, teve uma experiência muito rica nesse setor. Recuperando uma tradição que tinha no Brasil durante a ditadura, de se organizar por fora do aparato. Acompanhamos processos de luta assim em diferentes categorias. Até essa última, que foi o Breque dos Apps com os entregadores de aplicativos durante a pandemia. Já estavam acontecendo pequenas greves de entregadores de aplicativos, fizemos contatos e ajudamos essa rede a conformar uma comunicação nacional que permitiu a convocatória desta data, que foi o breque dos aplicativos na pandemia. Também construímos grupos de algumas cidades com esses entregadores.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Essa questão da crítica ao sindicalismo, talvez ela tenha levado a gente para essas perspectivas mais de trabalho precário, etc., justamente porque o sindicato não estava presente. Acho que tivemos uma facilidade de entrada em vários desses lugares justamente porque nada estava constituído. A possibilidade de criação e experimentação era muito maior.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159303" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676.jpg" alt="" width="675" height="900" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676-315x420.jpg 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676-640x853.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 675px) 100vw, 675px" />PyB &#8211; Qual papel acreditam que as minorias revolucionárias &#8211; como a rede de vocês &#8211; deve cumprir, tanto nos processos de luta mais cotidianos, quanto em levantes espontâneos?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; A minha resposta é rápida: é não atrapalhar. Isso é o mínimo, né? O mínimo é não atrapalhar. Porque, às vezes, a gente acha que está ajudando e atrapalha.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; É… Mas, claro, dá para falar muito mais que isso. E também dá para questionar: será que a gente é uma minoria revolucionária? Não sei nem se a gente se entende como uma minoria revolucionária. Eu acho que começa por aí. Acho que esse debate ainda está em aberto. Eu não gostaria de falar minoria revolucionária. Gosto mais do “pró-revolucionário”. Mas, em relação ao nosso papel, acho que ainda está em aberto. A pergunta de como as minorias revolucionárias devem atuar, qual papel elas devem desempenhar, pode se confundir com o papel de guiar para a revolução. Quando coloca minorias revolucionárias nesse sentido, parece isso. E eu não acho que esse seja o nosso papel. Também não acho que a gente tenha se colocado nessa perspectiva nunca. De certa forma, a gente tenta não só não atrapalhar, mas também incentivar os processos espontâneos de luta que os trabalhadores estão colocando, estão se envolvendo, com todos os limites que isso implica. Acho que o papel aqui talvez seja muito mais de crítica e tentativa de potencializar do que necessariamente de dirigir ou tentar despertar a revolução.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong>&#8211; As lutas já estão acontecendo. A todo momento tem conflitos acontecendo e nosso papel tem muito mais a ver com registrar esses conflitos, publicizar eles, fazer a informação circular. Vou dar um exemplo. A gente acompanhou aqui em São Paulo um supermercado que faliu, o Seta Atacadista. Na verdade, não foi uma falência. O patrão simplesmente estava dando um calote. Ele foi fechar o mercado e estava tentando tirar a mercadoria de noite para os trabalhadores chegarem no dia seguinte e serem demitidos todos, não receber nada. Só que, de noite, os trabalhadores ficaram sabendo, porque alguém comentou no bairro que tinha caminhões lá indo esvaziar o supermercado. E eles foram e cercaram o mercado e ocuparam o mercado para não deixar a mercadoria sair e não deixar o patrão dar o calote. Então, de repente, descobre que tem um supermercado ocupado na periferia sul de São Paulo. Aí a gente foi lá, publicou uma notícia daquilo. Aí a gente falou: bom, o Seta é uma rede de supermercados. O patrão deve estar dando esse golpe na empresa inteira, ele vai falir e deixar todo mundo no vazio. Vamos encontrar outros e avisar que isso está acontecendo, tentar fazer informação circular. A gente vai em outros, descobre outras pequenas lutas e tenta potencializar o processo nesse sentido. Acho que é diferente de uma noção de dirigir ou de levar a consciência. É como fazer as lutas circularem, integrar elas e, nisso, potencializar elas. É fazer as coisas irem além de seu local, além de sua categoria</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PyB &#8211; Quais elementos da forma clássica de militância da esquerda, ou do anarquismo, que consideram obsoletos? O “trabalho de base”? O “acúmulo de forças”?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Tá, as duas. Com certeza.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; É, o trabalho de base, eu acho que nós temos coisas pra conversar. Trabalho de base. Mas essa de acúmulo de forças, eu acho que entre nós, eu não sei se alguém tem alguma expectativa com isso. Acho que a gente nem fala essa palavra, na verdade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu diria, além disso, a questão da “consciência”. Essa parte entra no acúmulo de forças: levar a consciência pra galera e acumulando gente até a gente fazer a revolução. A gente não acredita nisso. A questão da “estratégia revolucionária” entra aí, acho que a gente não entende que esse seja o momento para estratégia revolucionária. Estou falando um pouco por mim, mas eu acho que o fato da gente nunca ter se debruçado sobre isso, de certa forma, diz um pouco sobre isso também. A gente nunca acreditou que necessitava fazer um programa ou ter uma estratégia revolucionária porque a gente acha que isso está além de nós. Não é a gente que vai cumprir esse papel.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; A coisa do trabalho de base, eu até fiquei pensando… Fiquei curioso porque eu não sabia se o termo “trabalho de base” existia da mesma forma em espanhol. Porque eu acho que em algumas línguas você não tem o equivalente direto. Eu acho que tem muito a ver com a formação da nossa esquerda atual a partir das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). A ideia de que você tem um trabalho de base pressupõe uma comunidade de base. O ciclo de lutas dos anos 70-80 foi muito baseado nisso. Se for pensar, o próprio MST surge disso. A ocupação forma uma comunidade ali. E, claro, tem todo um peso da igreja na formação do MST, mas ele surge disso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z </strong>&#8211; A ocupação forma uma comunidade e aquela comunidade é a base do movimento. Isso impõe a necessidade de um tipo de trabalho permanente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; O processo do acúmulo de forças tinha um pensamento um pouco gramsciano da esquerda desde os anos 70, que é de guerra de trincheiras. Guerra de posições. Vai aumentando as bases até você ter uma hegemonia. Essa é a ideia do acúmulo de forças. E a esquerda atuaria de um lado com uma luta institucional pelos partidos e do outro pelos movimentos, e com o “<em>movimento de pinça</em>” chegaria ao poder. Foi o que aconteceu no Brasil, aconteceu em outros lugares da América Latina e acho que a nossa reflexão também é pensar: “bom, esse acúmulo de forças a gente já fez”. Talvez não seja preciso do ponto de vista econômico, mas a gente dizia: “esse &#8216;acúmulo de forças&#8217; virou acúmulo de forças produtivas”. Não é que acumulou força para o nosso lado, acumulou para o capital no fim das contas. Os movimentos, e a gente viu isso acontecer, viraram tecnologia de gestão do capitalismo. Então o MST agora vai construir uma fábrica de tratores com capital chinês. São os maiores produtores de arroz orgânico da América Latina. As cooperativas têm ação na bolsa de valores. Sem falar do ponto de vista social, o quanto é funcional ao capital ter certos setores do proletariado empobrecido organizados pelas burocracias. Melhor do que deixar eles soltos para o caos social. Então os movimentos cumpriram um papel civilizatório. E aí até aquela base da comunidade de base perde seu conteúdo e vira um cadastro. O que é o MTST hoje? Tem ocupações onde quase ninguém mora: eles erguem pequenas barracas de lona preta, não deixam construir com madeirite ou bloco; fazem um cadastro e esse cadastro vira uma lista, a partir do qual o movimento repassa o bolsa aluguel do estado e faz um ranking para as pessoas ganharem a moradia com base na participação. Os movimentos viraram tecnologia de gestão. O “acúmulo de forças” virou isso, virou o acúmulo de forças produtivas. A reflexão que fica disso é: como que a gente se organiza? Será que é possível produzir um acúmulo que seja nosso? Talvez só um acúmulo de experiência, porque tudo que a gente vai construindo de estrutura para se reproduzir vai entrando na lógica da reprodução capitalista. Essa é uma crise nossa. É uma reflexão nossa também quando a gente pensa nas lutas que são mais sem estrutura, e justamente por isso elas acabam sendo mais descontínuas no tempo. É porque a reprodução no tempo também implica, de alguma forma, você entrar na lógica desse sistema.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Por outro lado, também essa ideia de acúmulo de forças, de acúmulo organizativo, entra naquilo que o Camarada Z falou. A gente não vive uma escassez organizativa da classe, vive uma superprodução de organizações da classe, e isso também entra em contradição com a lógica da própria luta. Não é mais uma questão de que não se acumulam processos organizativos, eles se acumulam em excesso! E acabam eles mesmos travando o processo da luta. É uma contradição de algo que deu certo, não só que deu errado. Não é que “faltou trabalho de base”: teve trabalho de base demais, e tem uma lógica de sustentação desse trabalho de base que começa também a competir entre si dentro da sua própria base. Ao ponto, e eu acho que é o máximo da esquizofrenia da esquerda, que é uma pessoa condensar quatro organizações. Eles se apresentam assim “eu estou aqui como fulano que é de tal, tal e tal organização…”. Uma mesma pessoa está em quatro organizações. Então é obsoleto o “acúmulo de forças”, o “trabalho de base”, ou é aquilo que é hoje hegemônico? Porque pra nós pode ser obsoleto, mas do ponto de vista da luta real, não parece que é obsoleto isso. Continua existindo, mas nessa perspectiva de gestão, de controle, de travar qualquer processo que desorganize a base na qual esses movimentos podem se manter existindo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Para voltar um pouco na discussão do “revolucionário”. A gente vê experiências que a gente teve muito acúmulo organizativo no Brasil e esse acúmulo jogou contra a revolução, porque ele vira um acúmulo de contenção. Os grandes movimentos sociais produziram contenção da classe. Se for pensar, os companheiros estavam nos anos 90 do MST pensando em formas de luta insurrecionais, pensando que a partir daquele movimento você ia ter a preparação do exército popular para fazer uma revolução no Brasil. No momento que tivesse uma explosão, eles estariam prontos para tomar o poder. Mas quando vem 2013, o que virou? O MST naquele momento, que já estava integrado ao mercado e ao Estado, foi uma ferramenta de contenção. No fundo, o acúmulo organizativo serviu muito mais para segurar a classe trabalhadora do que para permitir uma potencialização das lutas. Quando a gente fala que o papel do militante às vezes é não atrapalhar, é porque a gente sabe que, se a gente se organizar demais, pode até ter o efeito contrário. E várias vezes a gente entra em processos com a intenção de fortalecer e depois, quando vai fazer o balanço, vê que talvez tenha atrapalhado!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Tem uma palavrinha mágica que a galera colocou no jogo que não é nova, é antiga, e que eu acho que justificou um pouco esse tipo de movimento, vamos dizer assim, que é a “resistência”. Resistir passou a ser garantir a manutenção daquilo que a gente conquistou. Então ela e o acúmulo de força passava por um tipo de momento em que a luta se converteu no que o movimento chamava de resistência. Por exemplo, a intersindical dizia “nenhum direito a menos”, movimento sindical combativo. Mas isso foi mais ou menos um diálogo de derrotados bem sucedidos. Isso é o mais louco da dialética do processo. Ser bem sucedido não significa ter chegado a uma plenitude, vamos dizer assim, na sua tática, no resultado de suas lutas, mas é conseguir justificar no tempo e nas condições que ela existe. Se temos vontade de olhar para esse passado, agora a gente precisa olhar com as ferramentas que a gente adquiriu no processo das nossas experiências, não mais como a gente olhou. Eu não vejo disposição da galera olhar pra trás, pras experiências, e reformular a sua leitura. Eu vejo uma galera querendo reafirmar aquela crítica para sustentar algo que, inclusive, a gente já tá fracassado no que a gente buscou.</p>
<p style="text-align: justify;">Só faz sentido voltar lá pra ver se o que a gente produziu como política faz sentido. Olhar para trás, é olhar para os limites da nossa crítica, não da experiência em si, da forma generalizada, mas do específico, daquilo que a gente reafirmou no passado. Quando o passado vem atormentando a gente é porque tem alguma coisa lá que tá mal resolvida. Aquilo lá que a gente produziu explicou naquele momento, ajudou a gente a dar um passo, mas agora estamos tendo dificuldade, e aí há uma necessidade de olhar para aquilo e falar “olha isso aqui! Tem alguma coisa que nos incomoda”. E eu acho que passa por isso que nós estamos conversando aqui, essas leituras de fundo, de força, de resistência.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso que eu falei do trabalho de base. Não que eu ache que a gente defenda o trabalho de base, é que eu acho que essa palavra apesar de parecer simples ela carrega o grau de complexidade dessa totalidade que vai ser vai ser a herança do seu passado, vai estar aí a possibilidade daquilo que o X falou, que nós não temos essa perspectiva de levar a consciência, de levar a formação. Mas nessa palavrinha condensa tudo isso. A palavrinha trabalho de base ela é pesada. Na verdade, as pessoas simplificam ela como se fosse “vamos ali convencer o cara a fazer uma greve”, “vamos ali fazer um programa de formação”, “vamos ali fazer uma luta x, e ajudar na resistência do moinho”, essa palavrinha ela carrega um conjunto de contradições que, pra mim, está a base do limite que a gente está vivendo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu acho que tem uma questão também, que talvez seja mais um elemento de crítica nossa, é que de certa forma essa análise anterior, antiga, da perspectiva do trabalho de base era de “vamos montar organizações de massa”. Eu acho que a gente não tem essa perspectiva de organização de massa. Eu acho que essa é uma questão. A gente não acredita na possibilidade de organização de massa de perspectiva radical nesse momento histórico porque criar uma organização de massa significa, no final, nos tornarmos gestores. Por mais que a gente acredite nas lutas de massa, a gente não acredita na solidificação disso. É interessante a gente ver às vezes para alguns agrupamentos anarquistas, autonomistas, que estão falando “a gente criou a nossa organização de massas aqui e tal” e aí quando a gente vai ver a organização de massas e a gente pergunta “quantas pessoas tem?” no final a gente vai ver que é o mesmo número de gente que tem no Grupão. A gente não tem essa perspectiva de que vamos acumular gente e a revolução vai vir. A gente não acredita na possibilidade de organização de massa. Talvez no momento de ascensão das lutas essas formas se tornem possíveis. Mas agora não é esse momento, então não adianta a gente criar esses instrumentos que, no final, como o W falou, quando a luta vier na verdade vai servir para controle, para contenção.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu fiquei pensando na acusação, que a gente recebeu muito, de que o autonomismo que a gente representaria teria uma “centralidade da tática”. E, de fato, a gente reconhece isso. Quando a gente estava falando que a gente acreditava que pela tática radical era possível tensionar a realidade e produzir conteúdos que abriam caminho para uma ruptura anticapitalista, e que às vezes a tática é mais importante que o discurso da organização, que a ação concreta é mais importante, então de fato eu acho que tem um pensamento taticista nosso, “lutista”. Eu acho que isso é uma coisa em comum na nossa formação como Grupão. Só que eu acho que isso daí é uma condição do tempo. Tem organizações hoje que falam em “estratégia”, mas o que a gente está falando é que talvez não seja um momento de estratégia, que não tem mais lugar. Não é tempo histórico de estratégia. A gente acha que, no fundo, quem está falando que tem estratégia, tá meio iludido… teoricamente, estratégia é uma coisa que você está pensando em um plano para longo prazo. As estratégias hoje não são isso. Mesmo a suposta “estratégia democrática popular” que o PT teve, que formou aquela geração dos anos 70 para cá… se ela foi uma estratégia nos anos 70, desde os anos 2000 ela já não é uma estratégia mais. Ela foi bem sucedida, eles chegaram no governo. Ela virou o que? Ela virou uma ferramenta de gestão. Esse pensamento estratégico de acúmulo, de um ponto de vista proletário, de um ponto de vista que quer romper com esse mundo, ele não existe. Porque o acúmulo nunca é para a gente, o acúmulo sempre acaba sendo acúmulo de força produtiva. Vira um acúmulo dentro da lógica do capital. Então do nosso lado a gente não consegue acumular coisas duradouras assim, e isso talvez seja uma inviabilidade da estratégia, já que quando a gente acumula, vira contenção nossa. Então talvez o pensamento estratégico esteja ligado a algo quase contrarrevolucionário. O Grupão nunca disse isso com essas palavras, mas talvez seja um pouco isso que a gente intui e que nesse sentido o lugar mais potente é mesmo o da tática. O comunismo seja uma tática. Que nem a gente viu que ocupava uma escola e isso foi se reproduzindo como um meme. De uma, duas, três escolas ocupadas que a gente planejou de forma conspirativa, de repente explodiu duzentas escolas ocupadas em São Paulo, mil no Brasil no ano seguinte. Talvez um processo que vá romper com este mundo vai se dar assim também, uma propagação no nível tático, e acho que a gente sempre tenta extrair conteúdo político das táticas pensando assim.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Acho que são dois vícios diferentes a tática e a estratégia. Acho que ambos contêm os seus limites, não é que a estratégia por si é sempre contenção. Hoje ela funciona como contenção por essas inúmeras razões. Não é que ela esteja sempre obsoleta. No nosso tempo ela é obsoleta de fato, mas pode ser que ela se transforme um pouco no sentido do que o X estava falando. Nisso a gente poderia ter aproveitado muito mais os momentos de se posicionar politicamente nas outras lutas que a gente compôs, estimulando pensamentos que dessem vazão a outros questionamentos que são de ordem estratégica, além da luta concreta. Um pensamento de conteúdo, conteúdo do comunismo, ele não necessariamente é estratégia no sentido que a gente está falando. Mas ele pode servir de formulações autônomas de outros polos nesse viés, entende? E nesse sentido ele se compõe como um estímulo para a estratégia. Eu acho que a gente pecou em certa medida de não ter estipulado na formulação tática esses outros pensamentos que são para além daquela luta. A tática se resume naquela forma daquela luta, naquele tempo, naquele espaço. O que tem um caráter positivo e é bom porque ele mantém firme o conflito como central, porém é uma dialética entre esse momento, esse imediato, e o posterior. A gente também não sabe muito bem como jogar…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Sim, é verdade. A questão que fica é: será que isso não seria uma estratégia nossa? Talvez o fato da gente não ter estratégia, da gente se manter baixo, da gente ter o foco nas lutas, de se basear muito mais nas táticas de inserção, de potência, será que isso também não é uma estratégia nossa?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Eu acho que é um pouco a provocação do X, e também eu acho que é um pouco a ausência de uma compreensão. Você encontra num lugar de conforto mínimo que te mantém existindo, porém esse lugar já está esquentando. Na verdade, no nosso caso, essa porra já está saindo fumaça preta porque o cabeçote está rachado. Nós mesmos estamos incomodados com a nossa estratégia. Se é que a reflexão do X faz sentido, e eu acho que faz, porque eu acho que é esse o nosso tempo, é o tempo da crise daquilo que a gente constituiu como formas de se manter organizado, em movimento, articulando ações e reflexões. A gente vive como a música do Belchior “ano passado eu morri mas esse ano eu não morro”. Mas o fato é que a gente morreu e a gente está tentando não morrer de novo. Como a gente sabe que não tem perspectiva de um horizonte, de uma revolução, isso ao mesmo tempo é trágico, porém nos dá uma condição de falar “opa, também não precisa ficar loucão assim, com essa ansiedade toda”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159298" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379.jpg" alt="" width="960" height="949" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379.jpg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-300x297.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-768x759.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-425x420.jpg 425w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-640x633.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-681x673.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px" />PyB &#8211; Quando afirmam que a “investigação” deve ser o centro da preocupação política, a que se referem concretamente? Tomam como referência a experiência da “investigação militante” desenvolvida pelo operaísmo italiano dos anos 60-70? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Deixa eu falar uma coisa engraçada para você. Outro dia o pessoal fez homenagem para o Toni Negri aqui em casa, aí eu falei assim “alguém precisa avisar os 51 do MST que a gente era negriano e não sabia”. Alguém precisava ter avisado a gente: “Olha o que vocês estão fazendo, tem um cara que pensava essas coisas, exatamente isso”. Eu olhei para lá e falei “pô a gente era negriano e não sabia”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu gostei disso, Z. Porque tem muita coisa que a gente está levando um pouco sem reflexão, mas tem um monte de gente que refletiu sobre isso, chegou ao mesmo ponto da gente e refletiu sobre isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; A gente encontrou algo em comum com os operaístas na questão da enquete operária. Para nós, pensar o local de trabalho que a gente está, mapear ele, organizar ele, buscar os pontos de conflito, isso é enquete. Então às vezes, inclusive, a própria investigação pode ser a própria luta. Por exemplo, quando eu estive aqui, o pessoal que trabalhava no metrô, percebeu que os terceirizados da bilheteria estavam fazendo uma greve selvagem e a gente organizou uma solidariedade a eles. Nesse processo a gente descobriu como funcionava o trabalho na bilheteria. Isso foi uma enquete operária no próprio processo de luta. A gente já lia antes o Castoriadis, o João Bernardo &#8211; a gente não falou dele, mas acho que é uma outra influência grande que veio de uma experiência em Portugal, do jornal Combate. Mas uma diferença com essa tradição dos anos 60-70 é que ali tinha uma expectativa muito positiva para o trabalho. Uma perspectiva de autogestão que cada pequena ação operária mostrava que o trabalhador podia controlar a fábrica se ele quisesse. E o auge disso foi nos anos 70, as lutas autogestionárias. Na revolução portuguesa de 74, teve um movimento que tomou uma porcentagem importante das fábricas do país. As empresas estavam sob o controle dos trabalhadores. Eu acho que esse era um horizonte das lutas no fordismo, e acho que a gente tinha uma intuição aqui &#8211; daí vocês me corrijam se vocês acham que eu não estou certo &#8211; de que essa tendência autogestionária não é a mesma coisa hoje. A gente viu isso na organização do call center, que no fundo a vontade era também explodir aquele lugar e sair de lá. Você não é o operário que está fazendo um avião que vai voar e fazer a sociedade ir para o futuro. Hoje o conteúdo das lutas no trabalho parece mais anti-trabalho do que autogestionário, e acho que a gente encontrou nisso uma afinidade também com o pensamento anti-gestão do Grupão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Tem também um outro caminho, não sei se vocês tiveram o mesmo preconceito que a gente que é um pouco mais velho, teve, que era o seguinte: em certa medida, a gente foi vendo a degeneração das formas organizativas anteriores. Entendia elas como uma camada mais de reificação sobre os dilemas e as composições das lutas dos trabalhadores. Tinha até uma música do Tom Zé, que era muito boa: “não tem nenhum operário na platéia, não tem nenhum operário no palco, mas Tom Zé sabe muito bem aquilo que é bom para a classe operária”. Eram camadas de reificação que iam se afirmando na tentativa de buscar também um conflito. Foi meio intuitivo, a gente precisava investigar para além daquilo que é dito pela representação dos trabalhadores. Qual é o nível de conflituosidade que existe no chão, no quente daquelas contradições que não podem ser transmitidas pelas formas tradicionais? Não significa que os trabalhadores não reifiquem, só que a reificação imediata daquele processo é distinta da reificação que vai ser feita por uma organização que já quer se manter, já tem todo um laço, um entrelaçamento de posicionamentos, uma fauna organizativa que ele está preso e que ele é obrigado a idealizar ainda mais aquela parte da realidade. Então a idealização feita a quente pelo trabalho permitia a gente entender muito melhor quais eram as contradições que estavam postas e como potencializar elas no sentido anti-trabalho, não no sentido propriamente de tomada do lugar do trabalho. A gente entendia que as formas sindicais e partidárias não davam conta de dar vazão a isso, a gente precisava furar esse bloqueio. A gente não tinha uma formulação teórica sobre isso, ela veio comprimida por uma necessidade da própria luta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; A pergunta fala especificamente do operaísmo italiano, que fez uma investigação entre o começo e auge das lutas se a gente pegar de 60 a 70. Se a gente vê a Tendência Johnson-Forest ou até a galera do Socialismo ou Barbárie, ali era algo mais de “estamos desiludidos com a nossa forma de organização atual e precisamos nos reencontrar”. Também era uma perspectiva de se reconectar, de entender a nova conjuntura, e eu acho que esse é o papel da enquete que de certa forma a gente pegou. É muito diferente de uma situação quente, como o jornal Combate, dentro de um processo revolucionário e de tentar potencializar isso. Nossa perspectiva de enquete foi muito mais se religar, entender o que está acontecendo e se inserir. Nossa crítica à esquerda era justamente essa, a esquerda chega lá e quer falar para a galera. A gente não quer falar <em>para</em> a galera, a gente quer falar <em>com</em> a galera, a gente quer entender o que a galera fala, e nesse sentido essa perspectiva da investigação tem muito mais a ver com uma autoformação nossa, do que necessariamente com a perspectiva da gente apontar para alguma solução. Uma crítica que um camarada fez foi: “vocês estão aí nessa coisa da enquete operária, e a diferença de vocês e dos leninistas é que os leninistas tem o partido e vocês estão com a enquete para poder fazer a revolução”, mas eu não acredito nisso. Eu não acredito na nossa possibilidade de fazer a revolução através da enquete, mas da gente entender o contexto atual e como a gente se insere nos processos que estão acontecendo, como a gente se liga a classe, qual o movimento da classe atualmente, muito mais do que o que a gente quer levar a classe a fazer. Eu acho que a gente também faz um pouco de confusão entre a própria ideia de enquete operária e copesquisa, mas eu acho que a ideia da investigação militante é mais interessante nesse sentido, que a investigação que a gente faz de certa forma coloca as duas coisas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; E isso permitiu a gente chegar mais a fundo em compreensões sobre o caráter ambíguo das explosões que aconteceram recentemente. O modo tradicional de caracterizar uma determinada luta pode ser muito perverso. Você recorta e joga essa luta parcialmente e isso vira um consenso num circuito grande da esquerda e acaba jogando tudo fora, na lata do lixo. Todas as possibilidades de quebra daquela realidade se transformam em uma coisa chapada, homogênea. Então acho que essa investigação também permitia a gente sair dessas formas que homogeneizavam a realidade, botavam a realidade com uma coisa preta no branco, mas é muito mais cinza, cheio de nuances. Os caras não esperavam ver da boca de caminhoneiros as demandas, por exemplo, dos pequenos caminhoneiros daqui da entrada de São Paulo. Não é a busca da verdade, mas é um pouco nesse sentido que você falou, reconexão com os processos reais de luta, compreender os limites e como eles também reificam a realidade, e como que a gente também conseguiria contribuir numa tendência que a gente acredita ser de ruptura, ou de contribuição com outras lutas de trabalhadores que estavam acontecendo. A investigação foi caindo no nosso colo. A gente não fez um caminho consciente…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu acho que tem uma coisa que liga também com a discussão de estratégia que a gente teve antes com a discussão de consciência, eu acho que o pensamento da investigação ele inverte o plano da consciência. Então, ao invés de você levar uma resposta pronta pra classe trabalhadora, é o movimento inverso. Você vai pra porta de uma empresa não pra dar um panfleto que vai contar uma verdade pro cara, mas pra descobrir, pra aprender alguma coisa. O que tem de mais importante nesse processo é você descobrir uma denúncia daquela fábrica, descobrir alguma coisa ali… O militante, no fundo, tá aprendendo, e não indo dizer alguma coisa e, claro, a partir desse aprendizado a gente faz elaborações que são importantes para nós e que também podem ser úteis pra luta. Eu acho que é um pouco por aí, e acho que liga com estratégia também porque aí tem uma discussão do conteúdo. Qual a relação entre a enquete e o conteúdo do comunismo? Pensar que o conteúdo do comunismo talvez não tenha sido estático ao longo da história e que cada composição de classe ao longo da história projetou uma certa perspectiva no horizonte. Quando os caras estavam discutindo lá no século XIX na Comuna de Paris como eles queriam que fosse o mundo depois da revolução, eles estavam fazendo isso com base no chão que eles pisavam, que era um certo capitalismo; e que foi outro em 1920 quando a galera formou os conselhos; foi outro nos anos 60, quando o tema era autogestão; e talvez seja outro no nosso tempo. Então eu acho que o papel da enquete é descobrir quais lutas estão acontecendo de fato para encontrar o conteúdo do comunismo do nosso tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos pegar o exemplo dos entregadores. Para boa parte da esquerda tinha uma dificuldade de se relacionar com esse setor porque já vinha com uma resposta pronta que era baseada em formulações que a classe trabalhadora fez em outro ciclo, em outro período que tinha a ver com os marcos fordistas da CLT, que gerava muito rechaço nos entregadores. E por quê? A visão de antes vai dizer então eles são conservadores. Não. Na luta a gente entendeu: é não querer ter chefe, não querer ter hora para entrar e sair. Mas ao mesmo tempo os companheiros estavam fazendo greve e se organizando para bloquear McDonald&#8217;s. Vinha gente trabalhar e os caras estavam no piquete e falavam “não, a gente está brecando aqui hoje, não é dia de trabalhar”. E o cara que veio trabalhar ficava no breque. Uma ação de classe muito mais radical do que uma categoria como bancários faz hoje em dia, que coloca uma faixa na frente do banco da agência e finge que está fazendo uma greve. Eles queriam autonomia e estabilidade. Ou seja, não é que eles queriam simplesmente negar a CLT, não era negar a possibilidade de um salário bom, de uma vida boa, de ter um direito à saúde, um direito em caso de um acidente que acontecesse, era ao contrário. Era ter acesso a tudo isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; E a crítica ao sindicalismo também é uma coisa de: “a gente não quer ninguém negociando pela gente” e no entanto cai essa coisa de “o trabalhador que rejeita o sindicato quer fazer negociação direta com o patrão”. Eu acho que de fato eles querem isso, mas não é uma negociação individual com o patrão, eles querem organização coletiva com pressão, a partir dos pontos que eles determinam ali. Eu lembro que eu conversava com uma companheira que falava “na verdade parece muito mais com aquele ciclo dos anarquistas no começo do século XX, aquela galera que não queria que as suas organizações fossem institucionalizadas pelo Estado e ao mesmo tempo queria fazer as lutas diretas, se auto-organizar”. O que a gente vê talvez seja mesmo uma questão de gestão da miséria, barbárie. Alguns grupinhos e iniciativas foram organizadas nesse sentido de “todo mundo coloca uma graninha e daí a gente ajuda quem se acidentar”, e tal. A gente pode ver isso dentro de uma dinâmica de que está tirando a responsabilidade da empresa. Mas ao mesmo tempo a gente também pode ver isso dentro de uma ótica de avanço de perspectiva de auto-organização, que é interessante. Só que a gente fica nessa contradição porque a gente não quer também potencializar a gestão da miséria. Mas ao mesmo tempo o desenvolvimento de novas relações e novas organizações, formas de se relacionar que surgem daquilo, são muito interessantes. Então como é que a gente junta isso? A esquerda só fala coisas como “precisa ter CLT”, “precisa de sindicato”, “precisa disso”, mas não olha para essas expressões mais orgânicas da classe, em buscar os conflitos e as formas de organização invisíveis, subterrâneas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159304" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503.jpg" alt="" width="1046" height="1493" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503.jpg 1046w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-210x300.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-717x1024.jpg 717w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-768x1096.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-294x420.jpg 294w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-640x913.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-681x972.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1046px) 100vw, 1046px" />PyB &#8211; Como surgiu a ideia de editar o livro “Incêndio”? Qual foi seu principal objetivo ao circular esses textos no meio autônomo/radical?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Tem dois textos nesse livro, né? O primeiro texto chama <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2019/01/125118/" href="https://passapalavra.info/2019/01/125118/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Olha como a coisa virou”</a>, que acho que foi o primeiro texto coletivo que a gente escreveu no Grupão. E a gente escreveu em 2018, que foi o ano que estava se elegendo o Bolsonaro, foi um ano muito tenso. Só que no Grupão tinha uma intuição, mesmo antes do Bolsonaro ser eleito, de que ele era de alguma forma um “candidato do tempo”. Porque tínhamos uma leitura de 2013 como a revolta que explodiu a guerra social, e que rompeu com a pacificação, com o regime de gestão petista e trouxe à tona o conflito. E o Bolsonaro, de alguma forma, era o candidato que trazia à tona o conflito também. Não era o mesmo conflito de classe que a gente queria em 2013, mas ele escancarava a guerra social em vários sentidos. Então parecia para gente que o espírito de revolta de 2013 ainda estaria vivo e eleitoralmente o Bolsonaro teria condições de sequestrar um pouco dessa energia de revolta. Ele vencer a eleição reforçou esse ponto.</p>
<p style="text-align: justify;">A gente tinha uma hipótese para explicar a eleição que era que o bolsonarismo sequestrava parte daquela energia de revolta social de 2013 de forma muito louca porque ao mesmo tempo também era a expressão da repressão em 2013, das forças policiais, do exército que estava no Haiti reprimindo nas favelas e que veio pra cá reprimir, fazer garantia de lei e ordem. Então o Bolsonaro condensava esses dois lados da coisa: a repressão e também o sequestro da energia de revolta, tirando essa revolta de termos de classe e levando pra uma coisa mais ambígua &#8211; justamente por isso fascista, porque como o João Bernardo define, fascismo é uma revolta dentro da ordem. Então o texto continha uma hipótese para o período: “se o Bolsonaro expressa uma energia de revolta social que era nossa em 2013 e que agora foi sequestrada por uma extrema direita, quer dizer que existe algum conteúdo que nos interessa no meio dessa coisa toda” . E isso nos fez, durante o período seguinte, ter uma posição que fez a gente se afastar do conjunto da esquerda que adotou uma posição “se unir contra o fascismo”. A gente tinha muita ressalva com esse discurso antifascista no sentido de que ele poderia simplesmente significar uma defesa daquela democracia, do consenso e do apaziguamento que estávamos combatendo anos antes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K </strong>&#8211; De certa forma, a gente tentou traçar durante o Bolsonaro uma postura que não era exatamente antifascista, ou ela o era em outros termos, que não era de defender a civilização e a ordem capitalista contra a irracionalidade fascista, mas sim de buscar no proletariado, inclusive nos trabalhadores que apoiavam o Bolsonaro, uma energia de revolta que agora a insurgência de direita estava sequestrando. Eu acho que o texto tinha um pouco essa aposta: tentar escapar da polarização Bolsonaro-PT e entender as lutas nos seus próprios termos. Levar elas para o plano trabalhadores versus capital, colocar uma oposição em termos de classe. A gente teve essa experiência em várias categorias, como os entregadores. O segundo texto do <em>Incêndio</em>, que é o <a class="urlextern" title="https://neblina.xyz/masterclass" href="https://neblina.xyz/masterclass" rel="ugc nofollow">“</a><a class="urlextern" title="https://neblina.xyz/masterclass" href="https://neblina.xyz/masterclass" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Masterclass de fim do mundo</a><a class="urlextern" title="https://neblina.xyz/masterclass" href="https://neblina.xyz/masterclass" rel="ugc nofollow">”</a>, é uma compilação, um balanço do conjunto dessa experiência que a gente teve durante o bolsonarismo, que foi agravada obviamente pela pandemia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Vale a pena falar que no período da pandemia o Grupão teve algumas diferenças internas. Chegou praticamente a rachar, apesar de que não completamente. O texto acabou sendo escrito por um lado, digamos, dessa divisão. Quais eram os lados dessa polarização interna? O primeiro dizia: “tem um vírus mortal rolando aí e a nossa tarefa é criar redes de solidariedade para se proteger contra a pandemia.” A auto-organização da quarentena e das medidas sanitárias vinha em primeiro lugar. O outro setor &#8211; e eu estava mais desse lado &#8211; argumentava que para muitos trabalhadores a quarentena não seria uma opção. Você vai se proteger na medida em que você consegue, mas se as pessoas ainda tem que sair para trabalhar, ainda precisam lutar contra o seu patrão, e quem está em casa também. Por isso, nossa primeira tarefa deveria ser apoiar o conflito. O texto do Incêndio coloca essa questão nas entrelinhas em muitos momentos: a ênfase na solidariedade ou no conflito? Depois da pandemia e com o texto publicado, hoje para nós está claro que essas coisas não se excluem completamente. Para você ter conflito você tem que ter uma rede de solidariedade mínima entre os trabalhadores que estão em conflito, e que certas redes de solidariedade, em certas situações, também podem ser conflituosas para o capital. Enfim, o grupo que escreveu o incêndio, e daí assinou como “militantes na neblina” &#8211; foi uma forma também de não colocar o nome “Grupão” &#8211; era o setor que estava criticando as redes de solidariedade como um embrião de gestão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Só para explicar um pouco, por exemplo, no caso específico dos entregadores, uma fração que foi alçada à categoria de imprescindíveis para a reprodução, chamados de trabalhos “essenciais”. Como também não tinham muita organização formal, era uma linha de frente para o capital. Daí a galera discutiu se poderia se organizar para entregar EPIs para os trabalhadores ou então fazer com que a própria luta se voltasse contra o iFood, contra a Rappi, e obrigar que essas empresas fizessem a proteção dos trabalhadores, aumentando o pagamento salarial. Óbvio que a gente estava pensando “é importante fazer a segurança, ter EPI de qualidade”, mas dentro disso saber que não adianta a gente, enquanto grupo externo, ficar fazendo “vamos lá levar máscara para os caras”, “vamos lá fazer vaquinha para ajudar o cara”, era quebrar com essa lógica de uma forma específica e botar isso como conteúdo objetivo da luta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X </strong>&#8211; Eu acho que o W apresentou dois extremos ali do debate sobre solidariedade e conflito, que é anterior à pandemia e ele se desenvolve na pandemia. De certa forma, acaba se radicalizando. Mas eu não acho que a ruptura se deu nesses termos exatamente. Até porque eu fiquei mais do lado da galera que estava vendo outras formas de luta e resistência dentro de processos de solidariedade, que também eram conflituosos. Acompanhamos e apoiamos a greve dos entregadores da Loggi no Rio de Janeiro, que foi anterior ao Breque dos Apps. O mesmo com rodoviários fazendo greve selvagem. Lá em Paraty, a gente estava de olho no desenvolvimento das barreiras sanitárias organizadas por moradores de bairros afastados, que tinham treta com o poder público. Divulgando a galera que estava nos locais de trabalho, com raiva de seus patrões que estavam se utilizando das políticas sanitárias a bel prazer, sem nenhum tipo de fiscalização por parte do poder público, enquanto o mesmo poder público censurava trabalhadores precarizados do centro que estavam lá vendendo artesanato, fazendo arte, música, enfim. Aqui em Goiânia, um dos pontos que foi interessante é que a gente conseguiu uma inserção com os entregadores, que foi a galera que já estava recebendo kit de entrega de máscara e álcool gel, mas era uma máscara de pano escrota. A gente se juntou, fez uma vaquinha e foi lá distribuir pra galera. E foi super massa ter essa troca. Isso abriu nossa inserção para a greve contra o agendamento de corridas nos apps, por exemplo, que a gente construiu junto na pandemia. As coisas ficaram um pouco misturadas em certo momento. Eu acho que essas questões não ficaram tão pretas ou brancas assim.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Isso é uma coisa engraçada dessa experiência: foi uma divisão funcional de tarefas também. No momento em que o auxílio emergencial produziu revoltas de rua, a gente se envolveu. Quando virou uma coisa de redes de solidariedade a gente falou “isso aí é pelego”, aí vocês se envolveram. Então, de alguma forma, a gente pôde acompanhar o movimento inteiro. Quando a gente voltou a se encontrar, deu para conversar e os dois produziram sínteses.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X </strong>&#8211; Voltando à questão do <em>Incêndio</em>, eu já estava no Grupão no processo da escrita dos dois textos. Não participei do <em>“Olha como a coisa virou”</em>, mas é o que eu tenho mais acordo. Em relação ao <em>“Masterclass do fim do mundo”</em>, a minha discordância além de questões chaves, terminológicas ou de definições de certos processos (como por exemplo as barreiras sanitárias e tal, que também foi dual, tinha coisa muito pelega, mas tinha coisa muito interessante de combatividade), é o tom final do texto de “chegamos ao fim da linha” &#8211; que deu um tom também no próprio Grupão. O Masterclass caiu numa coisa completamente niilista, que reforçou uma questão, que eu acho que a gente está tentando sair agora, de: “é o fim, talvez a gente nem deve mais pensar em revolução, talvez seja uma questão de pensar apenas resistência”. Na minha visão, a gente tinha muito claro, muito estabelecido entre a gente, por mais que não falasse muito, que a nossa perspectiva era revolucionária. A partir do <em>Masterclass</em> eu comecei a pensar que talvez esse não fosse o caso, que talvez realmente haviam camaradas que pensassem que não tem mais pra onde ir, que é o fim mesmo, e agora é sobre puxar o freio e segurar essa porra. Eu acho que isso levou o Grupão por um lado meio negativo. Dessa coisa meio da gente simplesmente achar que é o fim da linha.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Em certa medida, são textos que se propõem a fazer sínteses do tempo histórico. Não sei se a gente poderia falar em conjuntura, como uma coisa bem dividida: “o que acontece no âmbito da política”, “da cultura”, “da economia”, uma coisa meio escolarizada fordista, isso já foi pro saco. A gente não se importa com isso. A gente se importa em tentar captar aquilo que você chamou do “espírito da revolta” no processo. O sequestro desse espírito da revolta, e um certo apogeu dessas forças de extrema direita. É uma tendência a uma dessocialização que agrava uma forma violenta das relações cotidianas. Mas acho que o ponto é que ambos são, e daí entro numa reflexão que a gente precisa fazer entre nós, que ambos são expressões de transições de conjunturas. A gente pode pegar um texto anterior, da crise do MPL, que é o <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2014/05/95701/" href="https://passapalavra.info/2014/05/95701/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Revolta popular: o limite da tática”</a> que expressa um tempo histórico. Expressa a luta conscientemente contra o consenso e quebramos a janela do consenso, fizemos o consenso se desdobrar e se esvair em um processo aberto. Capta como que esse processo aberto poderia escorregar para uma revolta de vernizes de extrema direita, que foi o <em>“Olha como a coisa virou”</em>, e a gente até termina meio “otimista”, perguntando para onde caminha a revolta. Pode ser que ela volte para outro campo, mas a tônica era que é possível passar o calhamaço da extrema direita durante um tempo. E o <em>“Masterclass do fim do mundo” </em>combina o combo de tragédias. Era a tragédia de uma população relativamente encantada com discursos que, para a gente, se assimilavam ao que foi o fascismo histórico, chama-se lá como foi. Tinha a expressão de violências e estratégias bárbaras de deixar ou dirigir o genocídio mediado por um vírus, tinha experiências políticas, no caso do Amazonas, de deixar as pessoas sem oxigênio. Enfim, aquela marcha fúnebre que passava tudo. Aquilo deu a tônica de um apogeu em um momento histórico. Só que isso também passou. Então ambos os textos, apesar de serem textos de propósito de síntese, não tem a pretensão de ser algo manualesco, algo que dê um caminho. São sínteses de tempo histórico. De dizer um pouco, do ponto de vista sintético, qual é a experiência que a gente tem visto na luta de classes no Brasil nesses dois tempos. Nesse sentido é bom, mas no outro sentido é datado. O problema de você generalizar coisas a partir das lutas concretas de um momento é que fica um pouco impressionista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu entendo a preocupação do Camarada X e eu concordo com ela. Politicamente o texto tem uma conclusão muito pessimista. Aquele livro termina muito pessimista. Só que de fato a gente viu a maior onda de revoltas da história da humanidade globalmente, a maior onda de greves da história do Brasil. Na China também houve um ciclo de greves enorme, e isso não deu em revolução, tampouco em saldo organizativo. No fundo, essa constatação tem a ver com o problema do acúmulo organizativo. A gente estava escrevendo esse texto na ressaca das greves de motoboys e das lutas da pandemia, que tinham sido derrotadas. O Revolucionários dos Apps, grupo de entregadores de app em Goiânia foi cooptado. Em São Paulo o grupo do Treta no Trampo implodiu com brigas internas. Foi péssimo aquele momento. A gente escreveu esse texto em um tom de derrota. E vendo também as revoltas pelo mundo não encontrando o horizonte… por isso que é “neblina”, porque não vê horizonte revolucionário. A gente até brincou: “quando tiver um horizonte revolucionário a gente muda o nome da assinatura”. Só que o problema é que o balanço que você faz nessa situação é muito pessimista, e isso tem uma implicação política. Por um lado é levar a sério o que se está analisando, falar de não ter horizonte, e de fato a gente tem que entender que pode ser sinistra a consequência de dizer que não tem acúmulo de forças hoje. Então por que eu vou militar? É o problema político do texto.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Em geral os livros políticos tem propostas de ação, o nosso não tem, o nosso é só uma lamentação. No final é o chamado a quem percebe essa lamentação, é uma proposta de encontrar um chamado às outras organizações que percebem nesse momento histórico a gravidade do tempo. Eu acho que é um ponto. Ele não teve um papel organizador como os livros podem ter. Foi uma síntese nossa, e aí a gente ficou lidando com essa síntese, com esse balanço muito pessimista. Eu acho que tem um pouco a ver com a situação do Grupão hoje, que a gente está num momento difícil do nosso espaço, que tem muita gente que está muito desiludida.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X &#8211;</strong> Eu acredito que a gente deve resgatar o horizonte revolucionário, não como uma coisa a ser construída por nós, mas uma coisa que considerando todo o processo histórico é uma possibilidade, não é a negação dessa possibilidade. A gente não pode dizer que vai acontecer, mas a gente não pode dizer também que não vai acontecer. Então é melhor que a gente segure a possibilidade e avance para isso, até porque têm outras lutas que trazem conteúdos importantes para a perspectiva revolucionária hoje. Por exemplo, me trouxeram a referência do Irã em 2021 quando teve uma greve gigante de trabalhadores de óleo e petroquímica, 100 mil trabalhadores organizados e criação de conselhos. Eles estavam fazendo defesa de conselhos. Eles estavam defendendo uma perspectiva que a gente pensou que havia acabado, mas aconteceu. Mostra uma continuidade. Eu não vou falar que mostra uma “invariância”, mas mostra que há uma atualidade ainda em formas clássicas que podem se atualizar, como os grupos de WhatsApp, a perspectiva das equipes dos entregadores, enfim. Eu acho que são elementos que a gente precisa pensar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; A crítica sempre é posicionada, por mais que ela seja radicalmente negativa, ela é sempre posicionada. A gente parte do pressuposto, ainda que não tenha as condições objetivas de realizar, de que existe a necessidade e a possibilidade, talvez não a probabilidade, da humanidade viver uma humanidade sem classes. A gente parte desse pressuposto. Ele é a onde a gente joga a âncora para fazer a crítica. A gente não faz a crítica no vazio. Ela é posicional. Nesse sentido, acho que isso ajuda a gente a entender que mesmo que uma revolução, uma ruptura, não esteja na ordem do dia ou aquilo que organiza o nosso cotidiano, ela serve mesmo no exercício da imaginação. Ela serve para a gente criar a negativa desse mundo. Óbvio, uma negativa imanente, a gente parte do pressuposto de que existem as contradições. As condições de vida tendem às lógicas mais irracionais, mais destrutivas, mais bárbaras. A gente só consegue perceber isso quando a gente alça no oposto, ou seja, talvez não seja provável, mas é possível uma humanidade sem classes, uma humanidade livre das determinações da sua auto-escravidão. Eu acho que isso é o que faz com que a gente possa pensar. Então, de certa maneira, é também inegável que a gente tenha o pressuposto revolucionário para fazer a crítica do capital. Sem o pressuposto revolucionário a gente não consegue fazer a crítica efetiva do capital. Talvez a tarefa dos revolucionários nesse tempo histórico sinistro de neblina seja manter acesa um pouco essa mínima capacidade de inventar contra o modo de ser das coisas.</p>
<p><em>As obras que ilustram o artigo são de Theo v</em><em>an Doesburg </em></p>
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		<title>Mini-Manual de organização e autodefesa contra a violência institucional no SUS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jun 2026 15:32:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Este manual serve para alertar os trabalhadores da saúde da existência de práticas e informações que podem e devem te ajudar a se defender de determinadas violências institucionais. Por Viva SUS]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Viva SUS</h3>
<p style="text-align: justify;">Trabalhadoras do SUS:</p>
<p style="text-align: justify;">Este manual serve para alertar você da existência de práticas e informações que podem e devem te ajudar a se defender de determinadas violências institucionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Organizar-se coletivamente contra essas mesmas violências, sistematicamente praticadas dentro dos serviços de saúde do SUS.</p>
<p style="text-align: justify;">Todas as informações compartilhadas neste material são, ou de lastro público (como os processos trabalhistas e matérias veiculadas), ou denúncias relatadas na escuta dos serviços ao longo dos últimos 4 anos de organização do VivaSUS. Todo o seu conteúdo é de interesse público (!!!)</p>
<p>TRABALHADORAS DO SUS, É HORA DE PERDER A PACIÊNCIA!!!</p>
<p><strong>Para baixar o manual, clique no link que está na Bio: <a href="https://www.instagram.com/vivasus_?utm_source=ig_web_button_share_sheet&amp;igsh=ZDNlZDc0MzIxNw==" target="_blank" rel="noopener">@vivasus_</a></strong></p>
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