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	<title>Noticiar &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>[Belo Horizonte] Eleições e a Permanente Ameaça do Fascismo no Brasil</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2026 17:36:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
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					<description><![CDATA[Posição do Coletivo Kasa Invisível Frente às Eleições 2026]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por <a href="https://kasainvisivel.org/2026/10/25/posicao-coletivo-kasa-eleicoes-2026/" target="_blank" rel="noopener">Kasa Invisível</a></h3>
<h4 class="wp-block-heading has-accent-1-color has-text-color has-link-color wp-elements-1" style="text-align: justify;"><strong>Nossa posição</strong></h4>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">A eleição presidencial de 2026 pode ser decisiva para o que conhecemos por “democracia” no Brasil. O segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro pode abrir caminho para o que militantes, especialistas e grande parte da população entende como uma guinada autoritária caso o filho do ex-presidente golpista seja eleito.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Já teremos um tempo muito difícil pela frente mesmo com Lula no poder. Com Flávio na presidência, a República corre o risco de retornar ao pior dos tempos autoritários da Ditadura com o que há de mais novo do fascismo contemporâneo. Falamos isso sob o peso de uma ameaça grave de despejo de uma das nossas ocupações e em meio a uma ampla campanha por Despejo Zero em Belo Horizonte, quando várias ocupações estão em risco de despejo.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Concordamos com esse diagnóstico possível e também com o fato de que com a predominância da extrema-direita no Congresso após essas eleições, os poderes legislativos e judiciário já estarão perigosamente alinhados para atacar a classe trabalhadora, desmantelar direitos garantidos, atacar os mais pobres, mulheres, a população negra, indígena e LGBTQIAPN+ , nas cidades e nos campos, jogando o controle cada vez mais sem limites nas mãos de um eventual governo bolsonarista.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Não vamos pedir para ninguém votar, muito menos para que não votem. Somos um pequeno coletivo, sabemos do nosso tamanho e nossas limitações. Nossa comunidade e as pessoas atingidas por nossos canais de comunicação são pessoas de esquerda, algumas mais outras menos radicais e já tomaram suas decisões. Qualquer pedido no sentido de chamar para o voto ou abstenção seria inócuo. Também não temos intenção de disputar ou integrar a avalanche de posicionamentos eleitorais no mercado de ideias, ampliado pelo mundo digital e transformando a todos em um concorrente ou inimigo em potencial.</p>
<figure class="wp-block-image size-large" style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-2844" src="https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/DSC00016.jpg?resize=727%2C483&amp;ssl=1" sizes="(max-width: 727px) 100vw, 727px" srcset="https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/DSC00016-scaled.jpg?resize=1024%2C680&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/DSC00016-scaled.jpg?resize=300%2C199&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/DSC00016-scaled.jpg?resize=768%2C510&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/DSC00016-scaled.jpg?resize=1536%2C1021&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/DSC00016-scaled.jpg?resize=2048%2C1361&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/DSC00016-scaled.jpg?resize=403%2C268&amp;ssl=1 403w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/DSC00016-scaled.jpg?w=1454&amp;ssl=1 1454w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/DSC00016-scaled.jpg?w=2181&amp;ssl=1 2181w" alt="" width="727" height="483" data-recalc-dims="1" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Ação <a href="https://www.instagram.com/p/Dd8sKSqlfgo/?img_index=1" target="_blank" rel="noopener">por Despejo Zero </a>em 1 de outubro de 2026.</em></figcaption></figure>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Como <a href="https://enlacezapatista.ezln.org.mx/2015/05/27/sobre-as-eleicoes-organizar-se-subcomandante-insurgente-moises/" target="_blank" rel="noopener">disseram os zapatistas</a>, no México:</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="padding-left: 40px; text-align: justify;"><em> “Se você já decidiu que não vai votar, nós não dizemos que está bem, nem dizemos que está mal. Só lhe dizemos que achamos que não é suficiente, que tem que se organizar. E claro, que se prepare, porque vão lhe colocar a culpa das misérias da esquerda partidária institucional.”</em></p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Portanto, respeitamos e apoiamos a decisão individual por focar, no momento, em votar e angariar votos para Lula. Mas reforçamos que não só será insuficiente se engajar nessa luta de última hora, como a busca desesperada por votos para uma vitória eleitoral é parte do problema que foi construído pela própria esquerda institucional, especialmente o Partido dos Trabalhadores no poder.</p>
<h4 class="wp-block-heading has-accent-1-color has-text-color has-link-color wp-elements-2" style="text-align: justify;"><strong>Princípios e fins</strong></h4>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;"><a href="https://kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2024/12/Principios-Kasa-2024-1.pdf" target="_blank" rel="noopener">Nossos princípios</a> são públicos e contam com tópicos como apartidarismo, crítica radical ao estado e ao capitalismo. No entanto, cerramos fileiras de luta com muitos partidos do campo democrático de esquerda, movimentos sociais e grupos que não compartilham uma crítica radical ao estado e aos partidos. Nos encontramos nas lutas e por elas construímos a possibilidade de uma vida melhor e um mundo mais justo.</p>
<figure class="wp-block-image size-large" style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="wp-image-2845" src="https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/noxftk3.webp?resize=727%2C486&amp;ssl=1" sizes="(max-width: 727px) 100vw, 727px" srcset="https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/noxftk3.webp?resize=1024%2C685&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/noxftk3.webp?resize=300%2C201&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/noxftk3.webp?resize=768%2C513&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/noxftk3.webp?resize=403%2C269&amp;ssl=1 403w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/noxftk3.webp?w=1080&amp;ssl=1 1080w" alt="" width="727" height="486" data-recalc-dims="1" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Bloco Antifa no ato contra Flávio Bolsonaro em 10 de outubro de 2026.</em></figcaption></figure>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Estivemos recentemente nas ruas e nos atos denunciando Flávio Bolsonaro e o fascismo, como sempre estivemos, chamando e comparecendo em protestos, manifestações, bloqueios, abrindo caminho e apoiando novas ocupações, seja durante o governo Lula, seja no governo Jair Bolsonaro. Somos e seremos uma oposição popular e crítica, seja qual governo for eleito.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">No entanto, é necessário também elaborar uma crítica externa e interna dos processos que nos trouxeram até aqui, nessas 3 semanas de mobilização para “virar voto” e vencer o bolsonarismo nas urnas.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Vemos com preocupação o desespero que se instalou depois do primeiro turno das eleições presidenciais. Em falas públicas e debates no nosso espaço, falamos sobre como prevalecia um clima de calmaria com relação às eleições de 2026, se comparamos com as de 2018 e 2022. Parecia que o fascismo não era mais uma ameaça, que o governo Lula era favorito e imbatível. Mesmo com as análises de especialistas dizendo que o bolsonarismo cresce nas urnas de última hora, toda a sociedade e o próprio Partido dos Trabalhadores não pareciam preocupados. Demonstravam estar bastante confortáveis com a vantagem de apenas 2 pontos nas pesquisas.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Quando falamos em princípios e do compromisso a eles, é para não nos perdemos na caminhada e principalmente porque acreditamos que as formas organizativas são capazes de elaborar questões de maneiras distintas e avançar nas lutas. Ainda que sempre fiéis ao que mais importa e fazendo uma leitura crítica das práticas, acreditamos estarmos abertos para mudar tanto os princípios quanto as práticas quando necessário. Porém, quando criticamos a forma-partido e a disputa por controle do Estado, estamos falando objetivamente de um meio e um fim de luta. Estamos afirmando sem rodeios que a ação direta é mais importante do que terceirizar nossa ação política, achando que governantes eleitos com dinheiro, publicidade e recursos que mudariam a vida de comunidades inteiras, vão representar nossos interesses. Apenas o povo salva o povo e apenas a luta muda a vida. Se não temos uma construção organizada e com propostas e princípios claros no cotidiano, estaremos sempre sofrendo com o desespero de última hora.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Concordamos, portanto, com a <a href="https://socialismolibertario.net/nosso-posicionamento-frente-ao-cenario-eleitoral/" target="_blank" rel="noopener">Organização Socialista Libertária</a>:</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="padding-left: 40px; text-align: justify;"><em>“Quando afirmamos que as eleições são uma farsa, criticamos um sistema político que restringe a participação popular à escolha periódica de representantes, deslocando a capacidade de decisão das mãos da população para as instituições do Estado. A disputa eleitoral desmobiliza as classes oprimidas ao apresentar a representação parlamentar como alternativa à organização coletiva.”</em></p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Ficou claro nessas semanas de outubro que a confiança na “terceirização da ação política” em Lula e no PT, manteve as pessoas e movimentos sociais calados e tranquilos até a desvantagem no primeiro turno. E agora, vemos uma mobilização insana que se propõe até mesmo a emular o chamado “<a href="https://www.youtube.com/watch?v=6Bh0yWxtV1A" target="_blank" rel="noopener">partido digital bolsonarista</a>”, formando “exércitos” digitais para replicar conteúdo pré-fabricado. Não julgamos nenhuma das táticas de agora, mas não deixaremos de alertar para os riscos a que todos corremos em não nos organizar permanentemente e ficarmos a mercê do outro campo para agir. Basta lembrar que quando o presidente era Jair Bolsonaro, administrando uma pandemia de forma assassina, a mesma esquerda dizia que “<em>não era hora de protestar</em>” porque seria “<em>um pretexto para o golpe</em>”. E quando Lula foi eleito em 2022, também não era hora de jogar contra um governo de esquerda. Um povo que passa 4 anos anos ouvindo que não é hora de manifestar, fazer greve e pressionar um governo, agora só sabe ir para rua quando já é arriscado ser tarde demais para barrar o fascismo.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">De forma semelhante, denunciamos a anemia da esquerda na <a href="https://kasainvisivel.org/2024/10/04/toda-bandeira-fica-preta-no-fogo/" target="_blank" rel="noopener">última eleição para prefeito em BH</a>, quando essa esquerda não se uniu em pautas claras, populares e combativas, ficando nãos apenas de fora do segundo turno, mas também sendo obrigada a pintar um fantasioso “Fuad Antifascista” para barrar o candidato bolsonarista. Hoje temos como prefeito, seu vice Álvaro Damião da União Brasil, candidato anti-povo, gentrificador, aliado declarado do estado de Israel e com propostas alinhadas à direita.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">No nível federal, se o PT e a gestão Lula-Alckmin tivessem optado por governar para o povo, com pautas de esquerda e não de centro, estariam muito mais à frente e em vantagem eleitoral e dependeriam menos de emular o bolsonarismo nas redes e em pautas como a redução da maioridade penal. E não buscariam avançar em um mês com pautas que silenciou por 3 anos e meio, como <strong>fim da escala 6×1</strong>, <strong>tarifa zero nos transportes urbanos</strong>, combate à <strong>plataformização dos trabalho</strong>, <strong>bets e plataformas de apostas</strong> e o poder das <strong>Big Techs </strong>(que agora entram como aliados da extrema-direita e de Trump para eleger Flávio Bolsonaro em troca do acesso a minerais e mercados brasileiros). Além de não bancar pautas novas, o governo Lula também decidiu não enfrentar retrocessos e manter a <strong>Reforma Trabalhista da terceirização </strong>aprovada em 2017, a <strong>Reforma da Previdência de 2019</strong>, <strong>privatização da Eletrobrás </strong>e ainda manteve o <strong>Teto de Gastos </strong>com novo nome de <strong>Arcabouço Fiscal </strong>e <strong>paralisou reforma agrária e demarcação de terras indígenas</strong>.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Mesmo com tudo isso, o próprio Lula declarou publicamente que acreditava que iria vencer no primeiro turno. Um erro de cálculo grave para o maior político que o país já teve, o mais votado e o que mais participou de eleições presidenciais. Uma incapacidade de leitura do cenário político, onde a extrema-direita se organiza, pelo menos desde 2015, uma nova cultura política, que alinha novas gerações e os mais velhos em torno de mídias e “partidos” digitais, rompendo com as barreiras da mídia tradicional, ajudando a organizar também no mundo real, a vida e um senso de comunidade dentro das igrejas, escolas, batalhões e espaços de trabalho.</p>
<h4 class="wp-block-heading has-accent-1-color has-text-color has-link-color wp-elements-3" style="text-align: justify;"><strong>Se a ameaça fascista é permanente, a organização para a luta também deve ser</strong></h4>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Qualquer que seja o resultado das eleições neste domingo, está claro que a política institucional, o PT e mesmo Lula, são barreiras insuficientes para a extrema-direita e o fascismo miliciano brasileiro. Se Lula vencer, nada garante que a extrema-direita volte com ainda mais força em 2030, dessa vez sem nenhum nome de peso na esquerda e sem o Supremo Tribunal Federal, inocentemente creditado como uma das poucas barreiras ao autoritarismo.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Por isso, é necessário agora desejar o melhor e nos preparar para o pior. Mais do que “exércitos” digitais e declarações virtuais, precisamos estar nos organizando onde pisamos, sem nos desesperar. <a href="https://kasainvisivel.org/2026/10/17/conversa-raul-zibechi/" target="_blank" rel="noopener">Raúl Zibechi</a> nos lembra que, mesmo em meio à ditadura militar, “foram criadas as condições para o nascimento – apenas uma década depois – do Movimento Sem Terra, do Partido dos Trabalhadores e do centro sindical CUT.” Ou seja, até nos mais sombrios lixões da história, nascem flores de luta.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Zibechi continua:</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="padding-left: 40px; text-align: justify;">“<em>Essa é a história de toda a América Latina. Tornamo-nos fortes nos tempos sombrios da repressão e do militarismo, crescemos e acumulamos forças que depois desperdiçamos no jogo institucional.(…) Desde a década de 1980, essa é a nossa realidade: apostamos tudo em eleições, reformas constitucionais, legislação que é uma letra morta e, enquanto isso, desarmamos nossos poderes que são a única garantia contra os opressores. </em>”</p>
<figure class="wp-block-image size-large" style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="wp-image-2846" src="https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/RA.webp?resize=727%2C545&amp;ssl=1" sizes="(max-width: 727px) 100vw, 727px" srcset="https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/RA.webp?resize=1024%2C768&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/RA.webp?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/RA.webp?resize=768%2C576&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/RA.webp?resize=373%2C280&amp;ssl=1 373w, https://i0.wp.com/kasainvisivel.org/wp-content/uploads/2026/10/RA.webp?w=1440&amp;ssl=1 1440w" alt="" width="727" height="545" data-recalc-dims="1" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Bloco Antifa no ato contra Flávio Bolsonaro em 10 de outubro de 2026, denunciando a conciliação de classes petista.</em></figcaption></figure>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Portanto, não abraçamos o discurso fatalista que condena tudo à falta de ação, ao exílio ou à depressão, caso Flávio seja eleito. Aceitar isso é trabalhar para o seu sucesso já dentro de nossos sentimentos e vontades. Todas as pessoas em vulnerabilidade social, nas periferias, ocupações, favelas, pessoas trans, negras, indígenas e mulheres de todas as partes, estarão em maior segurança se organizando coletivamente desde já. Não apenas saindo para votar quando a situação chegou a um grau máximo de emergência. Muito menos deixando o isolamento e a tristeza da derrota falarem mais alto. Numa outra crítica libertária, o grupo anarco-comunista <a href="https://passapalavra.info/2026/10/160202/">The Polar Bl@st</a> relembra que:</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="padding-left: 40px; text-align: justify;">“<em>Cada discussão sobre o voto estratégico desvia do trabalho real de construir alternativas. Cada segundo dedicado a defender partidos de esquerda normaliza a ideia de que a libertação flui de cima para baixo, do Parlamento, em vez de fluir de baixo para cima, da luta.</em>”</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Ou seja, nossa real defesa e agenda política vem do poder que temos em nossas mãos, de baixo para cima. Como sempre disseram nossos camaradas da <a href="https://teiadospovos.org/eleicoes-no-brasil/" target="_blank" rel="noopener">Teia dos Povos</a> em conversas e por escrito, o que temos em nosso controle não poderá ser tomado facilmente com uma nova eleição ou canetada. É preciso construir lutas, comunidades, coletivos, movimentos, espaços e territórios.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Tudo o que temos somos nós mesmos e nossas alianças. Nossos líderes não vão nos salvar de dentro de palácios e gabinetes, por mais que eles caminhem a cada 4 anos pelas avenidas acenando para nós e vendendo esperança. Como disseram os estudantes do outro lado do oceano em revolta ao longo desse mesmo outubro, é preciso desejar e abri caminho para “<a href="https://criticadesapiedada.com.br/2026/10/14/abandonar-a-epoca-contemporanea-artifices/" target="_blank" rel="noopener">o fim da era contemporânea</a>”. Se a regra é, cada dia mais, um estado de exceção permanente, devemos nós, pessoas oprimidas e excluídas, construir nós mesmas um estado de exceção que poderemos habitar para além do Estado e do Capital.</p>
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: justify;">Vença quem vencer, estaremos nas ruas contra o fascismo e o capitalismo. Estarmos prontos e juntos, é tudo!</p>
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		<title>E aí, combinou com os russos?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Oct 2026 21:00:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
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		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[Está claro que a classe dominante quer um pesado ajuste fiscal e não querem crescimento econômico, sabem bem que se a coisa continuar como está não teremos um pouso forçado, mas sim uma queda livre da economia. Por Charles Júnior e Antônio Carlos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Charles Júnior e Antônio Carlos</h3>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">Feola, técnico do Brasil na Copa de 1958, antes do jogo contra os russos, apresentou um plano para a vitória, no que Garrincha teria levantado e dito: “O plano é ótimo, mas você combinou com os russos?”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2026 a história se repete. Mudam os titulares e o campo de jogo, mas o causo se encaixa perfeitamente.</p>
<p style="text-align: justify;">O PT tinha o plano perfeito: derrotar Flávio nas urnas, muito porque seria “…mais fácil, porque Bolsonaro é também mais fácil do que Tarcísio” <strong>[1]</strong>. Endossando esse plano, um experiente dirigente do centrão disse: “<em>As pesquisas mostram, pela intenção de voto e pela rejeição, que Flávio Bolsonaro não vence a eleição. O PT não tem atacado essa candidatura pois está claro que é a mais fácil de ser batida no segundo turno. Lula quer Flávio </em><em>Bolsonaro, pois é vitória certa do PT.”</em> <strong>[2]</strong><em>. </em>Mas como Garrincha na Copa de 58, sempre há quem desconfie dos planos. Aquele que cravou sua posição foi um político petista que volta ao jogo depois de um tempo fora dos gramados, o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha. Observemos o que ele disse bem antes das eleições: “Do meu ponto de vista, a candidatura do Tarcísio era mais fácil de ser derrotada do que a do Flávio. É o contrário. A rejeição do Flávio, ou dos Bolsonaros, é uma rejeição já medida, precificada. Sabemos que qualquer coisa que a gente jogar no Flávio não vai pegar, porque a rejeição já está no limite, assim como a do Lula” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Os resultados do primeiro turno mostraram quem estava certo. O PT apostou no desgaste de Flávio com seus costumeiros escândalos, mas ele já tinha alta rejeição. Quem já vota nele não deixaria de votar e, pior, Flávio conseguiu ampliar a porcentagem eleitoral, abrindo vantagem sobre Lula.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse texto vamos perseguir as peças que se moveram na economia política e quais os cenários futuros da corrida presidencial ao Estado Nacional Burguês.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Os números do 1º Turno</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160219 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto2.png" alt="" width="335" height="597" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto2.png 335w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto2-168x300.png 168w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto2-236x420.png 236w" sizes="auto, (max-width: 335px) 100vw, 335px" />Em uma primeira observação dos dados das duas últimas eleições, somados os dois candidatos principais, temos 92% dos votos, sobrando apenas 8% para os outros, ou seja, essa é uma eleição polarizada em apenas dois candidatos. Outra observação é que, em relação à eleição de 2022, Lula perdeu 3,27 pontos percentuais dos votos e Flávio Bolsonaro aumentou 3,83 p.p., ou seja, aproximadamente que o Lula perdeu, Flávio ganhou, além de tomar mais um tantinho dos outros candidatos. Na tabela 2 vemos que Lula perdeu por volta de 3% dos votos na região Sudeste e Nordeste.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 1.</strong></p>
<div class="table sectionedit2" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>Candidato</strong></td>
<td class="col1"><strong>votos válidos 2022</strong></td>
<td class="col2"><strong>votos válidos 2026</strong></td>
<td class="col3"><strong>variação</strong></td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>Lula</strong></td>
<td class="col1">48,43%</td>
<td class="col2">45,16%</td>
<td class="col3">-3,27p.p</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>Bolsonaros</strong></td>
<td class="col1">43,2%</td>
<td class="col2">47,03%</td>
<td class="col3">+3,83 p.p</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>outros</strong></td>
<td class="col1">8,37%</td>
<td class="col2">7,81%</td>
<td class="col3">-0,56</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;"><strong>Fonte: poder 360</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 2. Variação dos votos de LULA por região</strong></p>
<div class="table sectionedit3" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>Região</strong></td>
<td class="col1"><strong>2022</strong></td>
<td class="col2"><strong>2026</strong></td>
<td class="col3"><strong>variação (p.p.)</strong></td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>Sudeste</strong></td>
<td class="col1">42,63%</td>
<td class="col2">39,68</td>
<td class="col3">-2,95%</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>Nordeste</strong></td>
<td class="col1">66,76%</td>
<td class="col2">63,77</td>
<td class="col3">-2,99%</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>Sul</strong></td>
<td class="col1">36,78%</td>
<td class="col2">31,28</td>
<td class="col3">-5,50%</td>
</tr>
<tr class="row4">
<td class="col0"><strong>Norte</strong></td>
<td class="col1">47,09%</td>
<td class="col2">44,65</td>
<td class="col3">-2,44%</td>
</tr>
<tr class="row5">
<td class="col0"><strong>Centro-Oeste</strong></td>
<td class="col1">37,83%</td>
<td class="col2">32,62</td>
<td class="col3">-5,21%</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: Poder 360</p>
<p style="text-align: justify;">Analisando as tabelas acima, podemos concluir que existem dois grupos consolidados e a eleição é definida pelo deslocamento de votos de uma pequena fração dos eleitores.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitos estão tentando entender qual a causa desse deslocamento de votos e não faltam especialistas com explicações estatísticas, sociológicas, filosóficas, antropológicas, místicas, astrológicas, etc. A crise sistêmica, a crise estrutural, a financeirização, a saudade dos anos dourados do pós-guerra, o fim do padrão ouro-dólar. A tese do capital especulativo engolindo a tudo e a todos também é divertida.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160221" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3.png" alt="" width="720" height="932" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3.png 720w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3-232x300.png 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3-324x420.png 324w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3-640x828.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto3-681x882.png 681w" sizes="auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px" />Voltando ao núcleo duro do governo, se o afastamento de um conselheiro como João Paulo Cunha já fez falta, imaginem 3. A perda de Luiz Gushiken e os tortuosos caminhos seguidos por Mantega deixaram um buraco grande no núcleo duro petista. E, como em toda inquisição cirandeira, logo se iniciou a caça às bruxas, afinal, é importante achar um culpado. A vítima foi o secretário de comunicação do Governo, Sidronio. Dizem que o Governo não soube comunicar bem suas realizações e os influencers de esquerda falam que a campanha perdeu a batalha nas redes, outros dizem que para ganhar a eleição Lula precisa comunicar a possibilidade de futuro. A velha desculpa de que a direita tem uma máquina de comunicação, assim, a esquerda precisa se adequar e montar uma máquina própria. Os “exércitos” de hoje em dia são espelhos dessa necessidade se concretizando.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto escrevíamos o texto, um desses especialistas do jornal da FIESP reforçou a perspectiva dominante. Em uma entrevista para o Estadão, ele nos disse o seguinte <strong>[4]</strong>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Minha experiência diz que o governo Lula deixou passar, <strong>desde 2024, incólume a percepção da maioria da opinião pública de que a economia do País seguia no rumo errado. </strong>Várias pesquisas detectaram isso. O governo Lula não enfrentou essa questão, não desenvolveu uma narrativa coerente, para dar conta dessa questão. Quando chega a campanha eleitoral, uma parte importante da população que via o País indo na direção errada e, como tal, reclamando por mudança, foi atraída com relativa facilidade pelo discurso de mudança, de transformação, do candidato oposicionista.”</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Bom, concordamos que a comunicação é uma arma política, utilizada para atingir determinados objetivos, concordamos que existe uma operação midiática para manufaturar a opinião pública, mas, afinal, se as condições de vida dessas pessoas estivessem realmente razoáveis, elas dificilmente acreditariam nas mentiras, pois teriam a realidade para contradizer.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossos interlocutores podem argumentar que existe um grupo fiel ao bolsonarismo, mesmo com as mortes na pandemia, destruição ambiental, ataque aos direitos trabalhistas, etc. Mas, convenhamos, o PT tem uma quantidade de ataques bem ampla: liberação dos transgênico, flexibilização das leis ambientais, reformas da previdência, regularização da grilagem de terras na Amazônia, explosão da população carcerária no país, privatizações (pré-sal, rodovias, etc.), e por aí vai. A velocidade e o grau de intensidade foram lentas, com jeitinho, mas fez. A distinção entre eles é diferente do que se apresenta nas propagandas ideológicas. Como resumiu muito bem Gustavo Machado, do ILAESE, “…a nova direita, por ser ligada ao mercado exportador quer uma mudança radical, flexibilização total das leis trabalhistas e enxugamento máximo da máquina estatal a fim de baratear sua produção e direcionar os recursos públicos cada vez mais para si, leia-se: partir pro tudo ou nada, mudança pra pior &#8211; condições de trabalho análogas a escravidão, flexibilidade total de todas as condições de trabalho, nenhuma proteção social, extermínio dos serviços públicos existentes (SUS, educação pública, assistência social, etc), etc. Já o setor de esquerda se apresenta como mantenedor das instituições, as garantias legais, o Estado, a estrutura jurídica existente, etc., soando como a mantenedora da ordem” <strong>[5]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">As questões culturais, religiosas, ideológicas, dentre outras, podem explicar parte da polarização, como falamos acima, mas a esquerda deixou muito a desejar aos trabalhadores quando governou e a vida concreta, o dia a dia mesmo, consolida as visões de mundo. Enfim, existem dois grupos consolidados, mas, para nossos amigos teóricos , falta explicar qual a motivação do deslocamento de uma parte que definiu as eleições.</p>
<p style="text-align: justify;">Para nós estão relacionados aos movimentos que ocorreram na economia no período anterior à eleição. Podemos estar errados, nem sempre acertamos, afinal, não temos bola de cristal, mas estamos com um bom placar à frente.</p>
<p style="text-align: justify;">Veremos agora como a economia moveu-se nos no período anterior ao fracasso do Plano perfeito.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Por onde escaparam os votos da esquerda?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160220" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4.png" alt="" width="1181" height="1200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4.png 1181w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-295x300.png 295w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-1008x1024.png 1008w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-70x70.png 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-768x780.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-413x420.png 413w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-640x650.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/texto4-681x692.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1181px) 100vw, 1181px" />Em junho de 2025 escrevemos:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Na imagem 03, vemos o último quadrimestre da indústria. Observemos que a capacidade instalada em utilização está parada nos últimos meses. Mesmo assim, nos 3 últimos meses houve um crescimento do faturamento, das horas trabalhadas e do emprego. E para somar a isto, redução da massa salarial e do rendimento médio real.</p>
<p style="text-align: justify;">(…) Didaticamente, o ciclo econômico brasileiro está chegando ao ápice, ou no topo da produção de riqueza e acumulação. Acumulação esta que é a parte da mais-valia reinjetada no processo produtivo, acumulando Capital e aumentando a máquina produtiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos perto do momento em que estas relações de produção de acumulação de capital chegarão ao ápice da contradição com as forças produtivas materiais da sociedade. “De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se nos seus entraves”. Queda da taxa de lucro em alto e bom som. A roda vai parar por produzir demais, abrindo um período de crise e destruição de capital, fixo e <strong>variável</strong>. Do nosso lado, fome, miséria e morte. Eles vão fazer de tudo para jogar a crise no nosso colo. <strong>[6]</strong>” [grifo nosso]</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong>É meu amigos, com o arrocho salarial, inflação e aumento das horas trabalhadas: eles estão jogando a crise no nosso colo.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Como identificamos naquele momento, a economia tinha atingido seu ápice, tinha produzido demais, consumo demais e empregos demais para os padrões da burguesia brasileira, e ela começou a reclamar. Pode parecer um contra senso, mas é assim que funciona na sociedade capitalista e em particular numa economia dominada. Para a burguesia era necessário pôr um fim nessa festa.</p>
<p style="text-align: justify;">No mesmo texto citamos a fala do Presidente do Banco Central que cumpriria o papel de chato no rolê,aquele que acaba com a festa; Nas palavras do próprio Galipolo: <strong>“Quando a festa está ficando muito aquecida e o pessoal está subindo em cima da mesa, tira a bebida da festa”, </strong>foi exatamente o que aconteceu, como podemos ver nos dados do PIB segundo o IBGE.</p>
<p style="text-align: justify;">Principais resultados do PIB — do 2º trimestre de 2025 ao 2º trimestre de 2026</p>
<div class="table sectionedit4" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>Taxas (%)</strong></td>
<td class="col1"><strong>2025.II</strong></td>
<td class="col2"><strong>2025.III</strong></td>
<td class="col3"><strong>2025.IV</strong></td>
<td class="col4"><strong>2026.I</strong></td>
<td class="col5"><strong>2026.II</strong></td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0">Acumulado ao longo do ano / mesmo período do ano anterior</td>
<td class="col1">2,7</td>
<td class="col2">2,4</td>
<td class="col3">2,3</td>
<td class="col4">1,8</td>
<td class="col5">1,9</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0">Últimos quatro trimestres / quatro trimestres imediatamente anteriores</td>
<td class="col1">3,3</td>
<td class="col2">2,7</td>
<td class="col3">2,3</td>
<td class="col4">2,0</td>
<td class="col5">1,9</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0">Trimestre / mesmo trimestre do ano anterior</td>
<td class="col1">2,4</td>
<td class="col2">1,8</td>
<td class="col3">1,8</td>
<td class="col4">1,8</td>
<td class="col5">2,0</td>
</tr>
<tr class="row4">
<td class="col0">Trimestre / trimestre imediatamente anterior (com ajuste sazonal)</td>
<td class="col1">0,4</td>
<td class="col2">0,1</td>
<td class="col3">0,2</td>
<td class="col4">1,1</td>
<td class="col5">0,5</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: IBGE — Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegar em uma eleição presidencial com a economia desacelerando não é uma boa notícia para um postulante à reeleição, por isso o governo lançou mão de várias medidas para segurar a queda: fim da escala 6×1, reajuste no Bolsa Família, proibição das bets, Desenrola 1, 2 e 3, divulgação da aprovação da distribuição de canetas emagrecedoras pelo SUS, Pé de Meia, Reforma Brasil, Gás do Povo, Luz do Povo, isenção do Imposto de Renda para quem recebe até cinco mil reais, reforma do Minha Casa, Minha Vida, uma singela quantia de a R$ 59,5 bilhões para o Plano Brasil Soberano e R$ 140 bilhões à <a class="urlextern" title="https://www.brasildefato.com.br/2024/01/22/governo-federal-anuncia-politica-industrial-com-investimento-de-r-300-bilhoes-ate-2026/" href="https://www.brasildefato.com.br/2024/01/22/governo-federal-anuncia-politica-industrial-com-investimento-de-r-300-bilhoes-ate-2026/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Nova Indústria Brasil (NIB)</a>, dentre outra medidas menores.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo com tudo isso, acreditamos que a desaceleração da economia joga luz sob o deslocamento dos votos. E o que mais pode ter acontecido nos trimestres anteriores ao período eleitoral.</p>
<p style="text-align: justify;">A flor que desabrocha, mesmo vermelho sangue, chega ao ápice e definha.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda bem que existem pessoas no país que buscam investigar a realidade, como o pesquisador da FGV Manoel Pires <strong>[7]</strong>. Intrigado com o fato de a inflação estar baixa, o desemprego baixo e mesmo assim a popularidade do Presidente da República não decolar, resolveu analisar os dados do índice de consumo das famílias e descobriu um dado interessante. Vamos a ele:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">(…) depois de uma boa recuperação na saída da pandemia,<strong> há uma quebra estrutural a partir do terceiro trimestre de 2024</strong> que indica que o comportamento mudou e o crescimento do consumo praticamente encontra-se estagnado desde então. De fato, entre o terceiro trimestre de 2024 e o segundo de 2026, ou seja, nos últimos sete trimestres, o consumo das famílias cresceu de forma acumulada &#8211; ponta contra ponta &#8211; apenas 0,84% ao passo que o PIB no mesmo período e na mesma métrica cresceu 3,65%.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160217" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico.png" alt="" width="751" height="451" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico.png 751w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-300x180.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-699x420.png 699w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-640x384.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/grafico-681x409.png 681w" sizes="auto, (max-width: 751px) 100vw, 751px" />(…) Se o PIB está crescendo mais de 3% de forma acumulada no período, mas o consumo está com esse comportamento, de onde vem o crescimento? O principal vetor de crescimento nesse período tem vindo das exportações que no mesmo período &#8211; ponta contra ponta &#8211; cresceu 8,3% oriundo da expansão da agropecuária e do setor extrativo mineral.</p>
<p style="text-align: justify;">O problema é que esses setores não geram o famoso efeito gotejamento, (…) para os demais setores da economia. Além disso, outras variáveis são boas candidatas para explicar o comportamento do consumo, tais como o elevado endividamento das famílias. O que está acontecendo com o consumo das famílias deveria receber maior atenção.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, o Presidente Lula chegou nas eleições com quase 2 anos de consumo estagnado, leia-se: desaceleração da economia. Parece fazer sentido que esses fatores são suficientes para uma porcentagem de eleitores com expectativas de melhoria mudar o voto. Ou pensar assim seria muito economicismo? Muito para aqueles que esquecem que é do salário que vem os gastos com cultura, lazer, educação, igreja, supermercado, drogas lícitas e ilícitas e toda a vida dos trabalhadores, aposentados e seus agregados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Cenários</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No dia após o primeiro turno o clima era de velório entre os trabalhadores mais conscientes e de euforia no mercado. A bolsa de São Paulo subiu, o dólar e os juros futuros caíram. Rebbaca Nossig, estrategista de ações da Nomad <strong>[8]</strong>, explicou o motivo da euforia:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mais do que o alívio imediato, o resultado das urnas trouxe uma sensível melhora nas perspectivas para a trajetória da dívida pública, ancorando a confiança do mercado em um cenário econômico mais estável a partir de 2027 <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Traduzindo o vocabulário dos analistas de mercado, uma melhora na trajetória da dívida significa ajuste fiscal, cortes de gastos com saúde,educação e etc.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltando no tempo, há um ano o editorial da Folha de Sẫo Paulo <strong>[10]</strong>, na seção “ O que a Folha Pensa”, era didático já pelo título <strong>“Desaceleração do PIB é necessária neste momento”. </strong>Nele, a Folha defende que a elevação da taxa de juros é necessária :</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A tarefa dos juros, em português claro, é dificultar o consumo e o investimento, de modo que a queda da demanda tire o fôlego de uma inflação que está acima dos 5% em 12 meses, ante uma meta de 3%.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">E diz eufemisticamente que é necessário uma desaceleração da economia por muito tempo :</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em tal cenário, não se pode considerar mau resultado a alta de 0,4% do Produto Interno Bruto no segundo trimestre, bem abaixo do 1,3% do primeiro. O desaquecimento, que não sugere uma guinada traumática, é necessário e, pela lógica, deve continuar por algum tempo.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Está claro que a classe dominante quer um pesado ajuste fiscal e não querem crescimento econômico, sabem bem que se a coisa continuar como está não teremos um pouso forçado, mas sim uma queda livre da economia. Como<strong> disse o amigo Armando há uns tempos atrás: “ A Argentina é a antessala do Brasil, acontece lá, tá chegando aqui!”, </strong>ou seja, a quebradeira e limpeza dos gastos públicos para o orçamento da união se voltar unicamente para as necessidades das classes dominantes é a demanda de uma parcela importante dela.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado das eleições do primeiro turno já definiu elementos fundamentais para o cenário dos próximos anos, o PL terá uma bancada importante de deputados na Câmara e maioria no senado, todos de prontidão para defender os interesses do grande capital exportador.<strong> Caso Flávio Bolsonaro ganhe as eleições,</strong> terá facilidade para passar todas as medidas contra os trabalhadores, como o ajuste fiscal já anunciado. Não que o centrão seja algo diferente, mas dentro do mesmo partido a coisa facilita, são menos acordos e conchavos nas festinhas privadas, tudo em casa já alinhado desde antes da eleição.</p>
<p style="text-align: justify;">Caso Lula vença, será um cenário parecido com a vitória da presidenta Dilma em 2014. A classe dominante com pressa e pressionando o governo para implementar medidas de ajuste fiscal, reforma da previdência, fim do aumento real do salário mínimo, contrato de trabalho por horas e o governo emparedado no congresso nacional. Do outro lado, pressionado pelos segmentos de trabalhadores que foram às ruas e às redes sociais para derrotar a extrema direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Começamos o texto lembrando do técnico Feola, no final ele saiu vitorioso, levando a copa de 58 por 2×0 contra Rússia, pois ele tinha Didi, Nilton Santos, Belini, Vavá, Garrincha e Pelé. E nós, temos quem?</p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo cheiro de revolta está no ar, a juventude cheira revolta, organiza autonomamente, mesmo que contra o 22, não tão revoltosos como na Europa <strong>[11]</strong>, mas milhões estão nas ruas. Negro Drama, é a hora de funcionar…e como bem disse mano Brown “… E de onde vem os diamante?”</p>
<p><strong>Notas</strong></p>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[1] </strong><a class="urlextern" title="https://veja.abril.com.br/politica/o-adversario-mais-facil-para-lula-na-eleicao-segundo-o-vice-do-pt/?utm_source=chatgpt.com" href="https://veja.abril.com.br/politica/o-adversario-mais-facil-para-lula-na-eleicao-segundo-o-vice-do-pt/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://veja.abril.com.br/politica/o-adversario-mais-facil-para-lula-na-eleicao-segundo-o-vice-do-pt/?utm_source=chatgpt.com</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[2] </strong><a class="urlextern" title="https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/14/kassab-reafirma-que-flavio-nao-vence-eleicao-e-diz-que-centrao-favorece-pt.amp.htm?utm_source=chatgpt.com" href="https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/14/kassab-reafirma-que-flavio-nao-vence-eleicao-e-diz-que-centrao-favorece-pt.amp.htm?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/14/kassab-reafirma-que-flavio-nao-vence-eleicao-e-diz-que-centrao-favorece-pt.amp.htm?utm_source=chatgpt.com</a></div>
<div class="content"><strong>[3] </strong><a class="urlextern" title="https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/flavio-e-rival-mais-dificil-do-que-tarcisio-diz-conselheiro-de-lula/?utm_source=chatgpt.com" href="https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/flavio-e-rival-mais-dificil-do-que-tarcisio-diz-conselheiro-de-lula/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/flavio-e-rival-mais-dificil-do-que-tarcisio-diz-conselheiro-de-lula/?utm_source=chatgpt.com</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[4]</strong> <a class="urlextern" title="https://www.estadao.com.br/politica/eleicoes/lavareda-nega-revolucao-de-direita-ve-margem-estreita-e-aponta-3-frentes-para-lula-vencer-flavio/?srsltid=AU7gw4WeK9oMlr-whWEtHYTOo0L0cwcJ8mK2F4vMWfqcOb9PpgqCXhq8" href="https://www.estadao.com.br/politica/eleicoes/lavareda-nega-revolucao-de-direita-ve-margem-estreita-e-aponta-3-frentes-para-lula-vencer-flavio/?srsltid=AU7gw4WeK9oMlr-whWEtHYTOo0L0cwcJ8mK2F4vMWfqcOb9PpgqCXhq8" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.estadao.com.br/politica/eleicoes/lavareda-nega-revolucao-de-direita-ve-margem-estreita-e-aponta-3-frentes-para-lula-vencer-flavio/?srsltid=AU7gw4WeK9oMlr-whWEtHYTOo0L0cwcJ8mK2F4vMWfqcOb9PpgqCXhq8</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[5] </strong><a class="urlextern" title="https://www.instagram.com/p/DdeSUo_jTuY/" href="https://www.instagram.com/p/DdeSUo_jTuY/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.instagram.com/p/DdeSUo_jTuY/</a> &#8211; transcrição livre de fala de Gustavo Machado em Podcast não identificado e postado em seu canal.</div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[6] </strong>Publicado originalmente em <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/06/156796/" href="https://passapalavra.info/2025/06/156796/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://passapalavra.info/2025/06/156796/</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[7] </strong>Observações sobre popularidade do governo e a economia <a class="urlextern" title="https://substack.com/home/post/p-215126029" href="https://substack.com/home/post/p-215126029" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://substack.com/home/post/p-215126029</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[8] </strong>A Nomad é uma fintech brasileira fundada em 2019 que permite a brasileiros abrir uma conta digital e de investimentos nos Estados Unidos diretamente pelo aplicativo Nomad Global.</div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[9] </strong><a class="urlextern" title="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/mercado/mercado-hoje-5-outubro-2026/#goog_rewarded" href="https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/mercado/mercado-hoje-5-outubro-2026/#goog_rewarded" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/mercado/mercado-hoje-5-outubro-2026/#goog_rewarded</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[10]</strong> <a class="urlextern" title="https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/09/desaceleracao-do-pib-e-necessaria-neste-momento.shtml" href="https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/09/desaceleracao-do-pib-e-necessaria-neste-momento.shtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/09/desaceleracao-do-pib-e-necessaria-neste-momento.shtml</a></div>
</div>
<div class="fn">
<div class="content"><strong>[11] </strong><a class="urlextern" title="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" href="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/</a></div>
</div>
</div>
<div></div>
<div style="text-align: center;"><em>A pedido dos autores, as imagens que ilustram o artigo foram mantidas como no arquivo original</em></div>
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		<title>A mediocridade e superficialidade do primeiro debate presidencial</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Oct 2026 10:42:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
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					<description><![CDATA[A explicação para essa mediocridade e superficialidade do debate não reside simplesmente na incapacidade, mas na própria natureza do processo eleitoral. Por O Jardineiro]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por O Jardineiro</h3>
<p style="text-align: right;"><em>“Por isso, quanto mais medíocre é um homem, mais prontamente triunfa; ele pode engolir sapos vivos, resignar-se a tudo, adular as pequenas paixões baixas” &#8211; Balzac, Ilusões perdidas.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>“As mediocracias negaram sempre as virtudes, as belezas, as grandezas; deram o veneno a Sócrates, o madeiro a Cristo, o punhal a César, o desterro a Dante, o cárcere a Galileu, o fogo a Bruno; e, enquanto escarneciam desses homens exemplares, esmagando-os com a sua sanha, ou armando contra eles algum braço enlouquecido, ofereciam o seu servilismo a governantes imbecis, ou davam o seu ombro para sustentar as mais torpes tiranias” &#8211; Ingenieros, O Homem Medíocre.</em></p>
<p style="text-align: justify;">O debate presidencial ocorrido no dia 18 de outubro de 2026 entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro ofereceu um retrato fiel da mediocridade e superficialidade geradas pela democracia burguesa. Para usar termos de Guy Debord, a política institucional se transformou na expressão máxima da “sociedade do espetáculo”, na qual a vida concreta foi substituída por sua representação contemplativa. Se a democracia burguesa fosse séria, esperaríamos um embate de propostas e discursos de como resolver problemas que enfrentamos concretamente; o que se assistiu, contudo, foi um “espetáculo” marcado pela extrema superficialidade, no qual nenhum dos candidatos demonstrou capacidade — ou melhor, interesse — de aprofundar-se nos problemas e as soluções necessárias para enfrentá-los.</p>
<p style="text-align: justify;">A explicação para essa mediocridade e superficialidade do debate não reside simplesmente na incapacidade, mas na própria natureza do processo eleitoral. O objetivo de um debate televisivo contemporâneo entre candidatos das eleições não é expor visões de mundo; seu propósito único é a persuasão imediatista para a conquista de votos, e isso se dá agradando a maioria da população e dos financiadores. “Os candidatos devem satisfazer os interesses de seus financiadores, bem como da direção do partido e simultaneamente devem agradar grande parte da população por meio de discursos. O resultado dessa combinação são bordões repetitivos com novos penteados”<strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160213" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor2.jpg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor2.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor2-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor2-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor2-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor2-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor2-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />Em uma disputa acirrada, onde cada voto está importando, aprofundar temas reais representa um risco. Ao detalhar como pretende resolver um problema — seja ele qual for —, o candidato inevitavelmente contraria interesses, e cria flancos vulneráveis para os ataques do adversário. Sob essa lógica, o “ser” que foi substituído pelo “ter”, cede ao “parecer”: a imagem suplanta o conteúdo, e a exaltação da mediocridade passa a ser habitual. A estratégia para a vitória eleitoral torna-se a adesão a propostas genéricas, a discursos retóricos e a ataques pessoais <em>ad hominem</em>, cujo intuito é apenas produzir uma imagem de superioridade ética perante o seu competidor. Os candidatos no debate fazem um verdadeiro teatro, mas um teatro ruim, com bordões repetitivos e não têm conteúdo significativo. Um exemplo disso são as mudanças de propostas dos candidatos: Flávio se tornou defensor do fim da escala 6×1, Lula se tornou defensor da redução da maioridade penal para 16 anos. Nenhuma de suas propostas parece ser convicção frente a necessidade de conseguir votos, e cada um se parece mais com o outro discursivamente. Enganar é o objetivo final.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse teatro eleitoral nos faz questionar algo que ouvimos bastante: a de que a presença de uma autoridade governamental é indispensável para evitar o caos e manter a ordem na sociedade. Costuma-se argumentar que, sem a figura do governante e a do Estado, a convivência humana se tornaria inviável e desorganizada.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, esse “palco espetacular” do debate expõe uma forma de organização profundamente irracional. A alienação generalizada e a democracia burguesa legitimam que indivíduos frequentemente desqualificados, movidos por interesses pessoais e mesquinhos, concentrem em suas mãos o poder de decisão sobre a vida e o futuro da maioria da população. Longe de representar a racionalidade ou o bem comum, o Estado atua como uma forma de regular a vida das pessoas através da reprodução do capitalismo e de suas irracionalidades. E isso gera consequências para as pessoas, como o desejo fetichizado no qual as pessoas votam desejando alguma transformação, mas, posteriormente, se conformam com a manutenção da realidade.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160212" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor1.jpg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor1.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor1-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor1-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor1-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor1-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor1-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">“O desejo fetichizado tem na democracia representativa a sua forma mais cristalina de existência, pois basta você escolher seu “representante” e governante e pronto, pode continuar alheio à vida política. A valoração da política se dá apenas no momento eleitoral, bem como a ação política se reduz ao voto. Depois de heroicamente, […] votar, o cidadão vai para casa e passa a cuidar de sua vida privada”<strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Superar essa dinâmica exige questionar a premissa de que precisamos ser governados. Uma forma genuinamente racional de organização encontra-se na autogestão social.</p>
<p style="text-align: justify;">Diferentemente da sociedade atual, em que a população entrega seu poder de decisão a uma burocracia estatal a cada quatro anos, a autogestão social seria uma sociedade na qual as próprias pessoas deliberam diretamente sobre as questões e problemas que afetam suas vidas. Esse processo ocorre por meio de discussões coletivas, fundamentadas em problemas concretos e reais da vida cotidiana — da produção à distribuição. Para isso, claro, as classes sociais e a relação entre elas devem ser abolidas, pois apenas seria possível a deliberação coletiva quando os interesses pessoais correspondessem aos interesses coletivos.</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">“A revolução significa necessariamente a aniquilação da democracia. A autogestão social como conteúdo do modo de produção comunista necessariamente exclui a democracia. Democracia e autogestão são, portanto, antípodas. Uma é inversamente proporcional à outra. À medida que avança a democracia, a autogestão recua. À medida que avançam as lutas autogestionárias, recua a democracia, visto que esta é uma função direta do estado e aquelas são a negação deste. Só teremos comprovado o fim das relações de classe, portanto da exploração, quando o estado capitalista e suas formas de regime político (democracia e/ou ditadura) tiverem sido eliminados”<strong>[3].</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Neste segundo turno, portanto, os revolucionários, aqueles interessados em contribuir com este processo de abolição das classes sociais e, por conseguinte, do Estado, devem assumir a posição de não ser iludido pelo processo eleitoral — deve-se negá-lo —, mas isso seria insuficiente se não ressaltarmos a necessidade de lutar contra a sociedade capitalista. O voto nulo autogestionário parece ser uma resposta coerente.</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">“A luta pelo voto nulo autogestionário (luta, pois se vincula ao objetivo final, que é a autogestão social, e não uma simples campanha) difere das demais formas de voto nulo, pois: a) não visa anular as eleições e sim criticar a democracia burguesa, o processo eleitoral e a sociedade capitalista como um todo; b) não se dirige como oposição aos candidatos e aos partidos do momento e sim faz a denúncia da burocracia partidária em geral, explicita seus vínculos com a reprodução do capitalismo e propõe a constituição de novas formas de organização, antagônicas aos partidos políticos; c) faz parte do processo mais amplo de luta pela superação do capitalismo, do qual a democracia burguesa, os partidos e o sistema eleitoral são partes integrantes. Dessa maneira, não se trata de uma atitude individual isolada, mas antes de um momento constitutivo do processo de luta mais amplo: a luta pelo voto nulo autogestionário faz parte da luta pela autogestão social, pois está articulada ao projeto revolucionário e à classe revolucionária de nossa época, o proletariado”<strong>[4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160214" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3.jpg" alt="" width="2500" height="1667" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3.jpg 2500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3-1536x1024.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3-2048x1366.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kapoor3-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2500px) 100vw, 2500px" />Enquanto a política institucional reduz os indivíduos a “cidadãos”, a meros espectadores passivos de debates vazios e doadores de votos, a autogestão social devolve a ele a responsabilidade e o poder sobre a própria realidade. A verdadeira organização racionalmente determinada pelo humanismo concreto não virá da escolha de novos governantes no topo de uma estrutura hierárquica do aparato estatal, mas da capacidade da sociedade de se organizar por si mesma, fundamentalmente a partir da produção e da vida cotidiana. Não se vinculem à mediocridade e superficialidade dos candidatos: votem nulo e lutem pela autogestão social!</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Texto de Mateus Alexandre Alves intitulado “Para Além das Eleições” disponível aqui: <a class="urlextern" title="https://movaut.blogspot.com/2020/11/para-alem-das-eleicoes.html" href="https://movaut.blogspot.com/2020/11/para-alem-das-eleicoes.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://movaut.blogspot.com/2020/11/para-alem-das-eleicoes.html</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Texto de Nildo Viana intitulado “Psicanálise Da Ilusão Eleitoral”, disponível aqui: <a class="urlextern" title="https://informecritica.blogspot.com/2026/09/psicanalise-da-ilusao-eleitoral-nildo.html" href="https://informecritica.blogspot.com/2026/09/psicanalise-da-ilusao-eleitoral-nildo.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://informecritica.blogspot.com/2026/09/psicanalise-da-ilusao-eleitoral-nildo.html</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Texto de Lucas Maia intitulado “Teses Sobre Democracia, Eleições, Voto e Voto Nulo”, disponível aqui: <a class="urlextern" title="https://redelp.net/index.php/renf/article/view/751/718" href="https://redelp.net/index.php/renf/article/view/751/718" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://redelp.net/index.php/renf/article/view/751/718</a>.a</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Texto de Rubens Vinícius intitulado “Voto Nulo Autogestionário e Coerência Revolucionária”, disponível aqui: <a class="urlextern" title="https://redelp.net/index.php/rma/article/view/1006/954" href="https://redelp.net/index.php/rma/article/view/1006/954" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://redelp.net/index.php/rma/article/view/1006/954</a>.</p>
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		<title>Flávio Bolsonaro, a crise do lulismo  e os limites da resistência popular</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Oct 2026 15:09:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Notas para uma interpretação marxista da conjuntura brasileira. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Ensaio de conjuntura — 12 de outubro de 2026<strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ainda que estejamos no calor dos acontecimentos, há momentos históricos nos quais a reflexão crítica precisa interromper o ritmo frenético das notícias e das disputas imediatas para examinar com maior profundidade o movimento real da sociedade. A conjuntura brasileira nos coloca diante dessa necessidade imperativa, sobretudo quando as possibilidades de agravamento dos conflitos políticos alcançam dimensões que estão para além do calendário eleitoral. A luta pela emancipação humana, compreendida como superação das relações sociais fundadas na exploração do trabalho assalariado e na divisão da sociedade em classes antagônicas, pressupõe a organização coletiva dos trabalhadores e o conhecimento das condições históricas que sustentam sua subordinação ao capital. Pensar a conjuntura representa, nesse sentido, uma atividade vinculada à prática social, às experiências de resistência e à elaboração de alternativas capazes de enfrentar os fundamentos materiais da dominação burguesa.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta análise é parte de um trabalho intelectual e político coletivo, que depende do confronto entre diferentes interpretações, pesquisas e experiências sociais. Meu objetivo é compartilhar uma elaboração ainda aberta, submetê-la à crítica e contribuir para um debate que se desenvolva para além dos limites deste ensaio e da minha perspectiva particular. Dito isso, adentremos ao debate.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Niterói, 2026</strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Introdução</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 colocou a sociedade brasileira diante da possibilidade concreta de uma nova vitória da extrema direita. Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos. As primeiras pesquisas do segundo turno confirmaram a vantagem do candidato do Partido Liberal, embora o resultado ainda esteja indefinido. O Datafolha registrou 52% contra 48% dos votos válidos, enquanto o levantamento Ipespe/Abrapel, divulgado neste 10 de outubro, apresentou Flávio com 52,7% e Lula com 47,3%. A eleição ocorrerá no dia 25 de outubro de 2026, mas a gravidade da conjuntura recomenda reconhecer desde agora a possibilidade de que o Brasil seja governado novamente pelo bolsonarismo, desta vez sob condições políticas e institucionais distintas daquelas existentes em 2018.</p>
<p style="text-align: justify;">A comparação com as eleições de 2018 acrescenta elementos importantes para compreender a gravidade do cenário atual. Naquele ano, Jair Bolsonaro venceu Fernando Haddad, candidato que substituiu Lula depois do impedimento judicial de sua candidatura, com 55,13% dos votos válidos no segundo turno, contra 44,87% do representante petista. A vitória ocorreu num ambiente de crise institucional, desgaste do Partido dos Trabalhadores e reorganização das forças conservadoras, que encontraram no bolsonarismo uma alternativa para ampliar sua influência política. Quatro anos depois, em 2022, Lula retornou à Presidência com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Jair Bolsonaro, numa disputa marcada pela intensa polarização política, consequências sociais da pandemia e uma ampla frente eleitoral que reuniu diferentes setores políticos em oposição à continuidade do governo. A pequena diferença entre os candidatos, de aproximadamente 2,1 milhões de votos, demonstrou a persistência de uma expressiva base social conservadora, apesar do desgaste provocado pela experiência governamental bolsonarista e dos conflitos institucionais acumulados naquele período. A derrota nas urnas foi seguida pela radicalização de setores da extrema direita, que contestaram o resultado eleitoral e participaram de iniciativas de ruptura institucional, culminando nos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023.</p>
<p style="text-align: justify;">Oito anos depois da primeira vitória de Jair Bolsonaro, a extrema direita alcança novamente o segundo turno, desta vez com Flávio Bolsonaro diante de Lula, após um período marcado pelas consequências judiciais da tentativa de golpe de Estado <a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a>(que ainda assim não responsabilizou todos os envolvidos, apenas, digamos, o “testa de ferro”). A capacidade eleitoral do bolsonarismo evidencia a profundidade de suas relações sociais e políticas diante das dificuldades do governo petista para ampliar sua base de apoio e enfrentar as condições históricas que favoreceram a expansão da extrema-direita.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160191" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer1.jpg" alt="" width="410" height="412" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer1.jpg 410w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer1-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer1-70x70.jpg 70w" sizes="auto, (max-width: 410px) 100vw, 410px" />1 &#8211; A crise da Nova República e os limites históricos do lulismo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A vitória de Jair Bolsonaro em 2018 encontrou condições favoráveis na crise política aberta durante a década anterior. O esgotamento dos mecanismos de conciliação que sustentaram os governos petistas comprometeu sua capacidade de administrar os conflitos sociais e preservar as alianças estabelecidas entre diferentes setores da burguesia. As manifestações de Junho de 2013 evidenciaram contradições que escapavam aos limites tradicionais da representação partidária, mas a diversidade de interesses presentes naquele movimento também demonstrou a ausência de uma direção política capaz de unificar o descontentamento popular em torno de um projeto de transformação social.</p>
<p style="text-align: justify;">O agravamento da crise econômica a partir de 2014 e a intensificação das disputas entre frações das classes dominantes favoreceram a reorganização conservadora, que encontrou na ofensiva contra o governo Dilma Rousseff e na instrumentalização política do combate à corrupção instrumentos eficazes de mobilização social. Em conjunturas de crise, a reação burguesa frequentemente encontra na identificação de inimigos políticos um recurso para atribuir a determinados governos, partidos ou indivíduos a responsabilidade por contradições presentes na dinâmica da acumulação capitalista, alimentando a expectativa de que a substituição dos dirigentes políticos seria suficiente para solucionar os problemas estruturais da sociedade<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a>. A construção desses espantalhos políticos integra os mecanismos ideológicos de preservação da ordem, mediante os quais o descontentamento produzido pela deterioração das condições materiais de existência pode ser canalizado contra adversários específicos, enquanto as relações sociais responsáveis pela reprodução periódica das crises continuam relativamente protegidas do questionamento público. No Brasil, a responsabilização do PT pela crise econômica e moral do país cumpriu um papel nesse processo, embora os governos petistas também estivessem implicados na administração das contradições do capitalismo brasileiro, circunstância que evidencia os limites de uma interpretação restrita à disputa entre representantes políticos das diferentes frações burguesas. A extrema direita desenvolveu nesse ambiente capacidade de organização e intervenção ideológica, articulada a setores empresariais, religiosos e políticos que identificaram no bolsonarismo uma alternativa para enfrentar a crise de legitimidade das instituições e radicalizar a ofensiva contra os trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo Bolsonaro aprofundou e radicalizou conflitos históricos da sociedade brasileira ao explorar as condições políticas e institucionais favoráveis à implementação de medidas autoritárias, expressas nos ataques às universidades, na hostilidade contra movimentos sociais e intensificação do discurso militarista em articulação com políticas econômicas favoráveis ao capital e uma condução desastrosa da crise sanitária<a href="#_ftn3" name="_ftnref3">[3]</a>. As centenas de milhares de mortes registradas durante a pandemia é parte fundamental dessa experiência histórica, diante das responsabilidades governamentais associadas à disseminação de informações falsas e à resistência contra medidas de proteção coletiva.</p>
<p style="text-align: justify;">A derrota eleitoral de 2022 limitou a capacidade política do bolsonarismo naquele momento, mas os anos seguintes houve avanço como movimento organizado. A responsabilização de Jair Bolsonaro pela tentativa de ruptura institucional produziu consequências jurídicas e modificou suas condições de atuação. Entretanto, a prisão do ex-presidente não comprometeu a capacidade eleitoral da extrema direita, que com o aumento da influência encontrou continuidade por intermédio de outras lideranças e estruturas políticas. A crise do lulismo manifesta-se diante dessa capacidade de reorganização conservadora.</p>
<p style="text-align: justify;">O Partido dos Trabalhadores nasceu de experiências importantes de organização operária, mobilização sindical e contestação política durante a ditadura e o processo de redemocratização. Entretanto, sua consolidação como força governamental reforçou relações com a administração estatal e estabeleceu compromissos econômicos e políticos que limitaram as possibilidades de transformação estrutural da sociedade brasileira. Os governos Lula produziram melhorias materiais efetivas para parcelas expressivas da população e ampliaram determinadas políticas sociais, mas preservaram fundamentos centrais da economia capitalista brasileira. A política de conciliação entre interesses antagônicos, historicamente vinculada à trajetória petista, encontrou condições favoráveis durante o ciclo de valorização internacional das commodities e expansão das exportações brasileiras para a China (2003-2011), que impulsionou o crescimento econômico, a arrecadação estatal, o crédito e o consumo interno, sustentando compromissos entre diferentes frações da burguesia e concessões materiais aos trabalhadores, enquanto a desaceleração econômica e a deterioração das condições internacionais de acumulação comprometeram progressivamente as bases materiais desse pacto, expondo os trabalhadores às contradições estruturais do capitalismo brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">O problema contemporâneo tem consequências adicionais. A manutenção do lulismo como principal referência política do campo progressista deixa claro a dependência em relação à liderança individual de Lula, que se consolidou ao longo de um processo histórico de lutas sociais e disputas institucionais e que não resultou no desenvolvimento de organizações populares independentes com capacidade equivalente de mobilização nacional. Pelo contrário. O que houve foi um processo que acentuou a burocratização tornando a distância com as bases sociais ainda maior. A defesa da governabilidade interfere nas relações entre partidos, sindicatos e movimentos sociais, sobretudo quando a radicalização de determinados conflitos contraria compromissos estabelecidos com setores empresariais ou representantes parlamentares conservadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa relação contraditória com a mobilização popular encontra um exemplo significativo na comparação entre Junho de 2013 e a atual conjuntura eleitoral. Naquele período, manifestações inicialmente organizadas contra o aumento das tarifas de transporte desencadearam uma ampla contestação social, enfrentaram violenta repressão policial e foram submetidas a sucessivas tentativas de criminalização, enquanto o governo Dilma Rousseff subordinava sua resposta política à preservação da ordem institucional e à incorporação das reivindicações numa agenda governamental de conciliação. Treze anos depois, diante da possibilidade de derrota eleitoral de Lula, a mobilização popular é central no discurso das mesmas forças políticas que historicamente demonstraram dificuldades para conviver com movimentos independentes de contestação social. Entretanto, o chamado presidencial às ruas encontra limites na trajetória dessas organizações, que por estar vinculado à administração estatal enfraqueceu sua capacidade de intervenção cotidiana entre parcelas importantes dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">A adesão de estudantes, professores e militantes à defesa da reeleição contrasta com as dificuldades de mobilização autônoma dos setores mais precarizados da classe trabalhadora, sendo essa uma contradição histórica; a convocação eleitoral pode reunir multidões em defesa de um governo, mas a construção de uma força social independente depende de relações organizativas, experiências coletivas e conflitos que se desenvolvem muito além das circunstâncias imediatas de uma eleição.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda institucional frequentemente demonstra grande capacidade de mobilização diante de ameaças à permanência de Lula no Executivo, mas têm dificuldades para sustentar conflitos relacionados à exploração do trabalho e às condições materiais de existência da população. Tem-se, portanto, a centralidade da preservação governamental em sua concepção de defesa da democracia e a posição subordinada atribuída à organização independente dos trabalhadores. A devoção à liderança presidencial agrava esse processo quando transforma a crítica ao governo em ameaça à unidade política do campo progressista. O reconhecimento das conquistas sociais produzidas durante os governos petistas não elimina a necessidade de investigar seus limites históricos.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160197" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/KIEFER7.jpg" alt="" width="500" height="429" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/KIEFER7.jpg 500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/KIEFER7-300x257.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/KIEFER7-490x420.jpg 490w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" />A vitória eleitoral de Lula em 2022 não interrompeu a reorganização da extrema direita. O bolsonarismo conservou sua presença social, ampliou sua influência parlamentar e desenvolveu condições para disputar novamente a Presidência, enquanto a esquerda institucional esteve fortemente vinculada à defesa do governo e à expectativa de contenção do neofascismo mediante a atuação das instituições republicanas. A diferença entre essas estratégias tem importância histórica diante da conjuntura. A extrema direita construiu condições para preservar sua atividade política durante a ausência de Jair Bolsonaro no Executivo, ao mesmo tempo que parcelas expressivas das organizações progressistas continuaram dependentes da trajetória de Lula. A construção de uma sucessão familiar no bolsonarismo também apresenta limites e contradições internas, mas sua eficácia eleitoral em 2026 aponta para a continuidade de um movimento que alcançou setores importantes da sociedade brasileira.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>2 &#8211; Flávio Bolsonaro e a reorganização política da extrema direita</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A dimensão dessa ameaça se amplia quando examinamos os resultados parlamentares do cenário atual. O Partido Liberal elegeu 121 deputados federais, conquistou 19 cadeiras em disputa no Senado e deverá iniciar a próxima legislatura com uma bancada de 28 senadores. O fortalecimento conservador alcançou também os governos estaduais e os legislativos regionais, com a consolidação do bolsonarismo em unidades federativas economicamente estratégicas e a ampliação da presença institucional de partidos da direita tradicional. Esse fenômeno ilumina a capacidade dessas forças de articular sua influência eleitoral a estruturas da administração política e econômica da sociedade. Mesmo diante de uma eventual vitória de Lula, a nova composição do Congresso Nacional imporá dificuldades consideráveis à condução do governo e às organizações populares que pretendem defender direitos historicamente conquistados. A possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro, entretanto, acrescenta uma contradição grave: o fortalecimento simultâneo de uma liderança presidencial vinculada à extrema direita e de uma representação parlamentar capaz de sustentar parte importante de suas iniciativas.</p>
<p style="text-align: justify;">A candidatura de Flávio Bolsonaro representa uma demonstração da capacidade de reprodução política de um movimento que sobreviveu à derrota presidencial de 2022, às investigações sobre a tentativa de golpe de Estado e à prisão de Jair Bolsonaro. Durante os últimos anos, uma parcela expressiva das organizações progressistas depositou suas expectativas na atuação das instituições republicanas, especialmente no Supremo Tribunal Federal, como instrumento de contenção da extrema direita. A responsabilização criminal do ex-presidente teve consequências, mas a expansão eleitoral de seu campo político demonstra que a preservação da legalidade constitucional não resolveu as contradições sociais e institucionais responsáveis pelo crescimento do bolsonarismo. O movimento conservou relações com setores empresariais, organizações religiosas, agentes políticos e grupos sociais que reconhecem em suas lideranças uma alternativa para a direção do Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">A expressiva votação obtida por Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026 coloca uma questão diante da desproporção entre sua trajetória política individual e a dimensão nacional da liderança que sua candidatura conseguiu reunir. Depois de quatro mandatos como deputado estadual no Rio de Janeiro e de sua eleição para o Senado em 2018, Flávio chegou à disputa presidencial sem experiência na administração do Executivo e sem um protagonismo histórico comparável ao de Lula, dirigente oriundo das grandes mobilizações operárias do final da ditadura, fundador do Partido dos Trabalhadores e presidente da República em diferentes períodos. A diferença entre essas trajetórias torna significativo o resultado eleitoral, que demonstra a capacidade de determinadas organizações e correntes políticas de reunir grandes parcelas da população em torno de candidaturas sustentadas por identificações coletivas, estruturas partidárias e expectativas sociais desenvolvidas ao longo de processos históricos anteriores.</p>
<p style="text-align: justify;">A sucessão familiar no bolsonarismo é um elemento importante desse fenômeno, na medida em que o sobrenome Bolsonaro concentra uma identificação construída por meio de sucessivas campanhas eleitorais, conflitos institucionais, organizações conservadoras e redes de comunicação que conservaram sua atividade mesmo após a derrota presidencial de 2022. Flávio encontrou uma estrutura política relativamente consolidada, composta por dirigentes partidários, parlamentares, lideranças religiosas, organizações empresariais e comunicadores capazes de sustentar a continuidade do movimento, ao mesmo tempo que desenvolveu uma atuação voltada à ampliação de alianças com setores da direita tradicional. Sua experiência parlamentar e interlocução com diferentes dirigentes políticos favoreceram essa aproximação entre grupos interessados na recomposição de uma direção conservadora para o governo federal.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160198" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer8.jpg" alt="" width="375" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer8.jpg 375w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer8-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer8-315x420.jpg 315w" sizes="auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px" />A especificidade dessa candidatura também se manifesta na tentativa de conciliar a fidelidade às principais bandeiras do bolsonarismo com uma apresentação pública mais moderada, construída por meio de uma linguagem institucional distinta daquela que caracterizou a atuação de Jair Bolsonaro. A defesa de alterações constitucionais, de mudanças no funcionamento do Judiciário e endurecimento da legislação penal demonstra, contudo, a continuidade de objetivos políticos vinculados à reorganização autoritária do Estado, agora articulados à promessa de maior capacidade administrativa e estabilidade governamental. Essa combinação encontra condições favoráveis na ampliação da representação conservadora no Congresso Nacional e na aproximação de partidos que identificam a candidatura como uma oportunidade de recuperar ou ampliar sua influência sobre a administração federal.</p>
<p style="text-align: justify;">As articulações realizadas após o primeiro turno confirmam a capacidade de Flávio de reunir forças políticas anteriormente distribuídas entre candidaturas distintas, com destaque para o apoio do Republicanos, do Novo, Podemos e da federação União Brasil-Progressistas, além das manifestações favoráveis de lideranças como Tarcísio de Freitas, Romeu Zema e Ronaldo Caiado. O apoio da direção da Frente Parlamentar da Agropecuária demonstra, por sua vez, a convergência entre segmentos organizados do grande capital agrário e a perspectiva de um governo conservador. Essas aproximações não eliminam os conflitos entre os diferentes grupos envolvidos, mas indicam a existência de interesses econômicos e políticos capazes de sustentar acordos em torno da ocupação do Executivo federal e da orientação das políticas governamentais. A dimensão econômica da campanha também é fator que lhe confere vantagem. Os registros eleitorais divulgados até o início de outubro indicavam uma arrecadação superior a 70 milhões de reais para a candidatura de Flávio, provenientes de fundos públicos, estruturas partidárias e contribuições privadas, enquanto o investimento declarado em impulsionamento digital alcançava aproximadamente 9 milhões de reais, com forte concentração nas últimas semanas anteriores ao primeiro turno. A existência desses recursos integra a análise das condições materiais da disputa política diante da importância que a comunicação digital conquistou na organização do bolsonarismo. A concentração empresarial das plataformas, a profissionalização das campanhas e a atuação de redes de influenciadores estabelecem condições específicas para a circulação de discursos políticos, com consequências para a relação entre representantes, organizações e eleitores.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>3 &#8211; A classe trabalhadora, o conservadorismo e os limites da resistência popular</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A dimensão mais complexa desse processo está na composição social do eleitorado conservador, na adesão de parcelas expressivas da classe trabalhadora. Os levantamentos divulgados pelo Datafolha durante a campanha indicaram vantagem de Flávio entre eleitores de renda familiar intermediária e entre evangélicos, além de uma presença significativa entre os segmentos mais pobres, nos quais Lula conservava a preferência majoritária. A heterogeneidade desse eleitorado recomenda cautela diante de explicações que atribuem sua orientação política exclusivamente à manipulação ideológica, ao conservadorismo religioso ou à oposição ao Partido dos Trabalhadores. A investigação precisa considerar as experiências concretas de trabalho, a insegurança econômica, o endividamento, a violência urbana e as relações estabelecidas pelos indivíduos com instituições religiosas, lideranças comunitárias, organizações políticas e meios de comunicação. A expansão do trabalho precarizado e das ocupações organizadas sob a ideologia do empreendedorismo acrescenta contradições à formação das identidades políticas contemporâneas, sobretudo quando trabalhadores submetidos a condições semelhantes de exploração desenvolvem expectativas divergentes acerca do Estado, dos direitos sociais e da organização coletiva. A identificação com discursos favoráveis à iniciativa individual, ao endurecimento penal e à autoridade política pode coexistir com reivindicações relacionadas à melhoria dos rendimentos, ao acesso a serviços públicos e à proteção social. Essas orientações resultam de experiências históricas e relações sociais que precisam ser examinadas concretamente, considerando também a capacidade das organizações conservadoras de estabelecer vínculos cotidianos com setores populares e de apresentar respostas imediatas a problemas que afetam suas condições de existência.</p>
<p style="text-align: justify;">O crescimento eleitoral da direita ocorre, portanto, num contexto em que parcelas consideráveis da população experimentam dificuldades materiais persistentes e encontram nas instituições tradicionais da esquerda uma capacidade limitada de organização cotidiana. O PT como principal referência progressista, fortemente vinculada à liderança individual de Lula, contrasta com a expansão de uma direita que conseguiu desenvolver mecanismos de reprodução política e eleitoral relativamente independentes da presença de Jair Bolsonaro no Executivo.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160193" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3.webp" alt="" width="966" height="700" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3.webp 966w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3-300x217.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3-768x557.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3-580x420.webp 580w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3-640x464.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer3-681x493.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 966px) 100vw, 966px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O problema se agrava diante da fragilidade das organizações populares. As manifestações recentes de estudantes, professores e trabalhadores da educação representam uma reação importante ao resultado eleitoral, mas se concentram em segmentos com limites consideráveis diante de uma ofensiva política mais ampla. A classe trabalhadora brasileira, submetida à fragmentação das relações de trabalho e ao enfraquecimento de seus instrumentos tradicionais de organização, enfrenta dificuldades para forjar uma força independente capaz de sustentar conflitos prolongados. A defesa da reeleição de Lula mobiliza setores expressivos da sociedade, mas também denuncia a dependência política de organizações progressistas em relação à continuidade de uma liderança cuja trajetória esteve vinculada à conciliação entre interesses antagônicos.</p>
<p style="text-align: justify;">A extrema direita brasileira alcançou um estágio de fortalecimento eleitoral, parlamentar e social que amplia suas possibilidades de intervenção sobre o Estado, enquanto parcelas importantes da esquerda estão subordinadas às disputas institucionais e aos limites da representação burguesa. A eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderá intensificar uma ofensiva contra as organizações dos trabalhadores, mas sua derrota eleitoral tampouco eliminará as condições históricas que sustentam esse movimento. A questão consiste em compreender como o bolsonarismo alcançou tamanha influência, quais relações favorecem seu avanço institucional e que condições efetivas existem para a construção de uma resistência popular capaz de sobreviver ao resultado das urnas.</p>
<p style="text-align: justify;">A possibilidade de retorno do bolsonarismo à Presidência produziu um sentimento de vulnerabilidade entre parcelas expressivas da população identificadas com o campo progressista. Esse receio se fundamenta na experiência acumulada durante o governo de Jair Bolsonaro e no reconhecimento das condições institucionais mais favoráveis à extrema direita depois das eleições parlamentares de 2026. Entretanto, a insegurança também está relacionada à percepção de que as organizações populares disponíveis apresentam dificuldades para sustentar uma resistência prolongada diante de uma ofensiva política mais sistemática. A questão se manifesta com intensidade nas universidades. Depois do primeiro turno, estudantes e professores organizaram manifestações em diferentes cidades brasileiras, com destaque para a mobilização realizada no centro do Rio de Janeiro em 7 de outubro. Milhares de participantes ocuparam as ruas para expressar oposição à candidatura de Flávio Bolsonaro e defender as liberdades democráticas. A iniciativa se mostrou capaz de convocar e disposição de luta entre segmentos que reconhecem os riscos associados ao fortalecimento da extrema direita.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160201" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11.jpg" alt="" width="1133" height="732" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11.jpg 1133w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-300x194.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-1024x662.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-768x496.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-650x420.jpg 650w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-341x220.jpg 341w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-640x413.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer11-681x440.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1133px) 100vw, 1133px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A importância histórica do movimento estudantil brasileiro também deve ser pensado. As universidades concentraram experiências relevantes de resistência durante a ditadura militar, participaram de mobilizações pela democratização e desempenharam papel significativo em diferentes conflitos sociais. A produção acadêmica também contribuiu para a elaboração de conhecimentos críticos sobre a sociedade brasileira mediante investigações relacionadas à exploração econômica, violência estatal e às desigualdades sociais. Entretanto, o reconhecimento dessa importância não elimina os limites políticos da resistência concentrada no setor educacional. As universidades integram a estrutura institucional do Estado e dependem de mecanismos administrativos, orçamentários e jurídicos que interferem diretamente nas condições de organização de seus trabalhadores e estudantes. Parte significativa das entidades representativas mantém relações históricas com partidos e organizações sindicais vinculadas à administração estatal, circunstância que pode condicionar suas estratégias e limitar a independência das mobilizações.</p>
<p style="text-align: justify;">A assembleia de docentes da Universidade Federal Fluminense realizada em 8 de outubro oferece um exemplo concreto dessa relação. A categoria deliberou pelo apoio à candidatura de Lula no segundo turno, ao mesmo tempo que aprovou uma agenda de mobilizações e incentivou a realização de plenárias nos diferentes campi. A decisão expressa o reconhecimento da gravidade da conjuntura, mas também demonstra a centralidade da disputa eleitoral na orientação imediata da organização sindical.  Há, contudo, outra contradição. As instituições universitárias reúnem pesquisadores dedicados ao estudo do fascismo, da desigualdade social e dos mecanismos históricos da dominação capitalista, mas a elaboração intelectual desses problemas não resulta necessariamente em participação política organizada. A burocratização da atividade acadêmica, a pressão produtivista e a fragmentação das relações profissionais podem favorecer uma distância considerável entre o reconhecimento teórico da gravidade política e a disposição coletiva de reorganizar a rotina institucional diante dos conflitos sociais. Essa situação não autoriza uma condenação generalizada de professores e pesquisadores, muitos dos quais desenvolvem atividades políticas relevantes e participam diretamente de organizações populares. Entretanto, demonstra que a existência de conhecimento crítico no interior das universidades não assegura sua incorporação à prática social. A produção intelectual pode alcançar elevado nível de sofisticação enquanto as relações institucionais continuam subordinadas às prioridades administrativas e profissionais que organizam a vida acadêmica.</p>
<p style="text-align: justify;">É preciso, no entanto, ampliar a resistência para além dos setores universitários. A classe trabalhadora brasileira experimentou transformações nas últimas décadas, mediante a expansão da terceirização, da informalidade e do trabalho subordinado às plataformas digitais e essas relações modificaram as experiências cotidianas de organização contribuindo para enfraquecer determinados mecanismos tradicionais de solidariedade coletiva. As manifestações estudantis podem estimular processos importantes de reorganização política entre gerações que tiveram experiências limitadas de participação em grandes movimentos populares. Sua eficácia histórica, entretanto, dependerá da capacidade de estabelecer relações com categorias profissionais, associações territoriais e organizações comunitárias que atuam fora do ambiente universitário.</p>
<p style="text-align: justify;">Há uma diferença material entre a visibilidade de uma manifestação e sua capacidade de interferir na reprodução econômica da sociedade. Mobilizações concentradas em determinadas instituições podem produzir repercussão pública, mas encontram dificuldades para sustentar conflitos quando isoladas de trabalhadores organizados em outros setores. A interrupção coletiva de atividades produtivas, a organização nos locais de trabalho e a articulação entre categorias profissionais ampliam as possibilidades de intervenção social diante de governos pouco dispostos à negociação. O problema estratégico é compreender como a disposição de luta demonstrada por estudantes e professores poderá contribuir para uma reorganização mais ampla das relações entre trabalhadores. A defesa da universidade pública tem maior densidade política quando vinculada às condições de vida das populações que sustentam essas instituições, inclusive daquelas excluídas do ensino superior.</p>
<p style="text-align: justify;">A fragilidade dessa articulação contribui para explicar o sentimento de vulnerabilidade que acompanha a conjuntura. A extrema direita demonstrou capacidade de organização eleitoral, influência social e expansão parlamentar, enquanto a resistência mais visível se concentra em segmentos que encontra obstáculos para sustentar uma ofensiva de maior amplitude. O risco gira em torno de transformar a mobilização atual numa resposta estritamente eleitoral que para ter continuidade dependa da vitória ou derrota de Lula em 25 de outubro.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160200" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer10.jpg" alt="" width="210" height="281" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>4 &#8211; O fascismo e as particularidades da sociedade brasileira</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A análise do fascismo demanda uma investigação histórica de suas condições de formação, de seus vínculos com o desenvolvimento capitalista e das relações políticas que favorecem a mobilização reacionária. O emprego indiscriminado do conceito utilizado para designar qualquer manifestação de autoritarismo ou conservadorismo, dificulta a identificação de suas características específicas<a href="#_ftn4" name="_ftnref4">[4]</a>. Entretanto, o cuidado conceitual também não pode funcionar como obstáculo ao reconhecimento de processos históricos concretos nos quais movimentos de extrema direita ampliam sua capacidade de mobilização social, legitimam a violência política e conquistam posições institucionais favoráveis à repressão das organizações trabalhadoras.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Introdução ao fascismo, Leandro Konder, que considera o fascismo “um dos fenômenos políticos mais significativos do nosso século”, desenvolve sua interpretação a partir das contradições do capitalismo monopolista e das condições históricas que favoreceram a reorganização da direita radical no século XX. Sua análise identifica no fascismo um movimento político anticomunista, vinculado à preservação das relações capitalistas de propriedade, capaz de mobilizar setores populares mediante uma linguagem de contestação à ordem existente. Essa capacidade de elaborar ideologicamente as insatisfações sociais é importante para compreender a expansão contemporânea do bolsonarismo. O movimento fascista não depende de uma população inteiramente satisfeita com o capitalismo; sua intervenção política encontra possibilidades precisamente nas crises que comprometem a legitimidade das instituições e alimentam expectativas de transformação social. O conteúdo dessa transformação, entretanto, está subordinado à preservação da propriedade privada e à reorganização das relações de dominação.</p>
<p style="text-align: justify;">A experiência brasileira apresenta particularidades que impedem sua identificação imediata com os movimentos fascistas europeus. José Chasin, em O integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hiper-tardio, publicado em 1978, demonstra a importância de investigar as especificidades do capitalismo brasileiro antes de estabelecer equivalências entre manifestações ideológicas historicamente distintas. Sua crítica à caracterização automática do integralismo como fascismo brasileiro decorre da investigação das condições materiais que sustentaram o pensamento de Plínio Salgado, com atenção a formação tardia e subordinada do capitalismo nacional. A regressividade integralista precisava ser compreendida dentro das contradições de uma sociedade marcada pela herança colonial, assim como da centralidade da propriedade agrária e ausência de uma transformação burguesa equivalente àquela experimentada pelas principais potências europeias.</p>
<p style="text-align: justify;">A contribuição de Chasin é fundamental para a investigação contemporânea, embora o Brasil de 2026 apresente condições econômicas diferentes daquelas existentes durante a ascensão integralista. Fatores como o desenvolvimento industrial, a urbanização, a financeirização da economia e a expansão das tecnologias digitais modificaram as relações sociais, os mecanismos de dominação e as possibilidades de organização política. A concentração da propriedade, da dependência econômica e de uma estrutura estatal coercitiva, entretanto, demonstra que a modernização capitalista brasileira conservou fundamentos históricos de desigualdade e autoritarismo.</p>
<p style="text-align: justify;">A formação do Estado burguês brasileiro também precisa ser compreendida a partir da incorporação das classes dominantes aos mecanismos de modernização econômica, sem que isso tenha resultado na destruição das relações sociais responsáveis pela exploração e subordinação política dos trabalhadores. A expansão do capitalismo ocorreu mediante transformações produtivas acompanhadas pela preservação de estruturas repressivas e participação do Estado na organização dos interesses empresariais. A democratização política ampliou direitos e estabeleceu garantias constitucionais, mas a concentração do poder econômico continuou a condicionar a experiência social da população.</p>
<p style="text-align: justify;">José Paulo Netto acrescenta elementos importantes a essa investigação ao relacionar a ofensiva conservadora às contradições do capitalismo contemporâneo e às dificuldades históricas das organizações trabalhadoras. Em entrevista concedida a Milton Pinheiro, publicada em maio de 2021, Netto examinou o fortalecimento da extrema direita brasileira a partir de sua relação com a crise capitalista internacional e com as consequências políticas da conciliação de classes praticada pelos governos petistas. Naquela ocasião, advertiu também contra a identificação automática entre os milhões de eleitores de Bolsonaro e militantes fascistas organizados, distinção fundamental para compreender a composição social heterogênea do movimento.  O apoio eleitoral a uma candidatura reacionária não significa necessariamente a adesão integral de seus eleitores a um programa fascista. Entretanto, a legitimidade conferida por milhões de votos pode ampliar substancialmente a capacidade de atuação das organizações que defendem esse programa. Aqui, destaco um dos pontos fundamentais da entrevista de Netto (2021):</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 40px;">Ao contrário do que alguém já disse, nas sociedades capitalistas, as lutas de classes não tiram férias. Desenvolvem-se muito irregularmente e nunca de forma linear – às vezes aberta e espetacularmente, outras vezes subterrânea e discretamente. E, com frequência, sem se expressar no nível especificamente político. Mas estão sempre – insista-se: sempre – operantes. São vetores reais e objetivos nas organizações societárias regidas pelo capital – a sua efetividade não depende da vontade dos sujeitos políticos, ainda que deles dependa a sua direção e, em boa medida, o seu desenlace.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">O bolsonarismo reúne segmentos sociais diferentes, cujas motivações políticas não são homogêneas, mas sua direção estabelece relações concretas com o anticomunismo, o militarismo, o nacionalismo conservador e a hostilidade contra organizações populares independentes.</p>
<p style="text-align: justify;">A caracterização do movimento precisa considerar ainda sua inserção histórica. O fascismo europeu alcançou o governo mediante uma combinação de violência política, colaboração de setores conservadores tradicionais e utilização de procedimentos institucionais reconhecidos. A nomeação de Hitler para a chancelaria alemã em 1933 e a ascensão de Mussolini ao governo italiano em 1922 demonstram a importância das alianças estabelecidas entre movimentos reacionários e representantes da ordem burguesa. A violência contra organizações operárias integrou esses processos antes da conquista do poder e teve dimensões muito superiores depois dela. A legalidade, portanto, participou da reorganização dos Estados, mesmo quando os movimentos fascistas atuaram simultaneamente por intermédio de práticas extralegais.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160199" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9.jpg" alt="" width="1367" height="608" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9.jpg 1367w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9-300x133.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9-1024x455.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9-768x342.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9-944x420.jpg 944w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9-640x285.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer9-681x303.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1367px) 100vw, 1367px" /></p>
<p style="text-align: justify;">No Brasil, a extrema direita dispõe de relações importantes com setores parlamentares, agentes policiais, lideranças religiosas e organizações empresariais ao passo em que constrói bases sociais populares e se infiltra nas expressões artísticas e culturais. O bolsonarismo desenvolveu também uma infraestrutura própria de comunicação e consolidou vínculos com segmentos da população que reconhecem em suas lideranças representantes legítimos de determinadas expectativas sociais. Essas características indicam tendências de fascistização, mas não autorizam a identificação automática entre a conjuntura brasileira e os regimes europeus do século XX. A questão fundamental se relaciona à composição histórica da dominação burguesa nacional. A expansão conservadora encontra um Estado que preservou, mesmo depois da Constituição de 1988, estruturas coercitivas enraizadas na vida social. A repressão contra trabalhadores, a violência policial nas periferias e a criminalização de movimentos populares integram relações historicamente estabelecidas, sobre as quais uma eventual administração bolsonarista poderá atuar com recursos institucionais ampliados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>5 &#8211; Os sinais concretos de uma disposição repressiva</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A análise da extrema direita brasileira precisa investigar as condições efetivas de intensificação dos conflitos políticos. A existência de discursos reacionários é uma dimensão importante, mas a demonstração de uma disposição concreta para o enfrentamento depende da identificação de práticas, organizações e iniciativas que interferem diretamente na liberdade de atuação dos adversários. Os acontecimentos registrados depois do primeiro turno revelam um ambiente de tensão grave nas instituições de ensino. Em 8 de outubro, a Universidade Federal Fluminense encaminhou à Polícia Federal denúncias de ameaças contra estudantes e instalações universitárias. As mensagens mencionavam a possibilidade de incendiar a instituição e agredir participantes de manifestações políticas. A universidade solicitou providências aos órgãos competentes e adotou medidas internas de proteção, diante do receio de episódios de violência contra integrantes da comunidade acadêmica.</p>
<p style="text-align: justify;">A gravidade da conjuntura também se manifesta em episódios de intimidação política contra estudantes, professores e eleitores identificados com a esquerda. Em Arapiraca, no interior de Alagoas, um grupo de apoiadores de Flávio Bolsonaro entrou no campus da Universidade Federal de Alagoas, em veículos identificados com a candidatura, e tentou retirar cartazes críticos ao candidato e ao seu vice, Alfredo Gaspar. A intervenção de uma professora provocou um confronto verbal com os integrantes do grupo, enquanto a universidade solicitou providências às autoridades responsáveis pela segurança e investigação do episódio. A situação teve contornos ainda mais preocupantes diante do incêndio de grandes proporções que atingiu a Universidade Federal de Pernambuco, no Recife, na noite de 7 de outubro, destruindo laboratórios, equipamentos e acervos científicos acumulados ao longo de décadas, com prejuízos preliminarmente estimados em 100 milhões de reais. O acontecimento ocorreu após relatos de ameaças contra estudantes e instalações universitárias, algumas delas acompanhadas de referências à candidatura de Flávio Bolsonaro, circunstâncias que motivaram pedidos de investigação sobre uma possível origem criminosa, ainda sem comprovação pericial. A Universidade Federal Fluminense, em Niterói, também encaminhou à Polícia Federal mensagens divulgadas em grupos identificados com o bolsonarismo que mencionavam planos de incendiar instalações universitárias e agredir estudantes envolvidos em manifestações políticas. A sucessão desses acontecimentos provocou a reação do Ministério da Educação e de entidades representativas da comunidade acadêmica, diante do crescimento das ameaças à integridade física de estudantes, docentes e trabalhadores das universidades.</p>
<p style="text-align: justify;">A intimidação política alcançou também brasileiros residentes no exterior, com a divulgação de informações pessoais de eleitores de Lula e o incentivo a denúncias perante autoridades estrangeiras, inclusive mediante ameaças de deportação. Na Polônia, um parlamentar europeu publicamente vinculado ao campo bolsonarista participou da exposição de duas brasileiras identificadas com a candidatura petista, episódio que evidencia a dimensão internacional dessas articulações conservadoras. A ausência de comprovação de orientações diretas da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro para a execução dessas iniciativas é uma distinção necessária à apuração das responsabilidades individuais e institucionais, mas está longe de encerrar sua interpretação política. A reprodução de práticas autoritárias depende também de relações sociais, referências ideológicas e mecanismos de identificação coletiva por meio dos quais militantes e simpatizantes reconhecem determinadas condutas como legítimas, mesmo na ausência de comandos explícitos de suas lideranças. A responsabilidade política dos dirigentes conservadores precisa ser examinada, portanto, em relação aos discursos que difundem, às organizações com as quais estabelecem vínculos e às atitudes que adotam diante da violência praticada por seus apoiadores. Esses episódios indicam a existência de setores radicalizados dispostos a utilizar a intimidação e a ameaça como instrumentos de intervenção política, comprometendo as condições de participação pública de seus adversários e ampliando os riscos enfrentados pelas organizações populares numa conjuntura de fortalecimento da extrema direita.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160194" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4.webp" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer4-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />A importância desses acontecimentos reside nas relações que podem estabelecer com o ambiente político criado pelo fortalecimento eleitoral bolsonarista. Determinados grupos interpretam a expectativa de vitória conservadora como legitimação para interferir diretamente na atividade de seus adversários. A intimidação de estudantes, a tentativa de remover manifestações políticas e a exposição pública de opositores indicam uma disposição para restringir liberdades que estão além da disputa argumentativa. A retórica repressiva também tem posição relevante na campanha de Flávio Bolsonaro. Neste 10 de outubro, durante atividade eleitoral em São Gonçalo, o candidato reiterou propostas de endurecimento penal, defendeu a redução da maioridade penal para 16 anos e prestou continência a policiais militares presentes no evento. A aproximação pública com integrantes das corporações policiais integra uma linguagem política que relaciona autoridade estatal, segurança e ampliação das punições.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa orientação encontra correspondência em uma sociedade marcada pela naturalização da violência policial. A repressão contra trabalhadores e populações periféricas integra práticas historicamente perpetradas pelo Estado brasileiro, que não depende exclusivamente da presença da extrema direita no governo. Entretanto, a ascensão de lideranças que legitimam publicamente o endurecimento coercitivo pode ampliar a influência de setores interessados em intensificar essas políticas. Um episódio recente em Niterói contribui para compreender a profundidade dessas contradições. Em setembro de 2026, o trabalhador Danilo Jander Francisco Alves morreu depois de ser baleado na cabeça por um policial militar durante uma abordagem em Icaraí. Sua morte provocou indignação e mobilizações em defesa da responsabilização do agente, expondo novamente a violência policial como realidade concreta na vida de trabalhadores que dependem das ruas para garantir sua sobrevivência. O episódio também suscita uma questão relacionada à influência conservadora entre segmentos de motociclistas e entregadores da região. A aproximação política de determinados trabalhadores com lideranças como Douglas Gomes e Carlos Jordy, ambos vinculados ao Partido Liberal, requer investigação específica, sobretudo diante da defesa de políticas de segurança que valorizam o fortalecimento da autoridade policial. A extensão dessa aproximação não pode ser generalizada para toda a categoria sem documentação correspondente, mas sua existência como problema político ilumina uma contradição importante que é quando a experiência cotidiana da exploração e da violência estatal coexiste com identificações ideológicas favoráveis ao endurecimento repressivo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160196" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6.jpeg" alt="" width="900" height="643" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6.jpeg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6-300x214.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6-768x549.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6-588x420.jpeg 588w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6-640x457.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer6-681x487.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />A compreensão dessa relação depende das condições concretas de vida dos trabalhadores. As jornadas extensas, a instabilidade econômica e a insegurança profissional não produzem espontaneamente uma consciência antagônica ao capital. A extrema direita desenvolveu capacidade de conferir sentido político a determinadas experiências sociais mediante a valorização do esforço individual, a defesa da propriedade e a promessa de restauração da autoridade. A identificação com representantes conservadores pode expressar expectativas de proteção e estabilidade, mesmo quando as políticas defendidas por essas lideranças favorecem estruturas responsáveis pela reprodução da desigualdade. O problema da fascistização precisa ser compreendido dentro dessas relações sociais. A disposição repressiva de determinados grupos encontra condições favoráveis quando discursos reacionários conquistam legitimidade pública, quando as organizações populares apresentam fragilidades e quando parcelas dos aparelhos estatais reconhecem vantagens na colaboração com forças reacionárias.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>6 &#8211; O que pode acontecer com uma vitória de Flávio Bolsonaro?</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro precisa ser examinada a partir das condições institucionais concretas que encontrará em 2027. O fortalecimento parlamentar conservador cria oportunidades políticas importantes, mas a implementação de seu programa dependerá das negociações entre partidos, das condições econômicas e da capacidade de resistência social, elemento este fundamental que em sua ausência facilitará o fortalecimento ultra-conservador e a implementação das suas políticas econômicas principalmente. Um primeiro cenário envolve a reorganização das relações entre Executivo e Congresso. A formação de uma coalizão conservadora poderá favorecer a aprovação de reformas administrativas, medidas econômicas orientadas à ampliação da participação empresarial e alterações na legislação penal. A direção dessas iniciativas dependerá dos compromissos estabelecidos com partidos aliados e dos interesses representados pelas diferentes bancadas, com atenção aquelas vinculadas ao agronegócio, ao setor financeiro e organizações empresariais. A composição do Supremo Tribunal Federal também será objeto de disputa. A ampliação da bancada conservadora no Senado favorece pressões sobre a Corte, propostas de alteração de suas competências e de iniciativas relacionadas à responsabilização de ministros. A possibilidade de futuras nomeações presidenciais acrescenta uma dimensão importante à reorganização institucional, embora a composição do tribunal não possa ser modificada livremente pelo Executivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Na segurança pública, o programa apresentado por Flávio indica a possibilidade de intensificação das políticas de encarceramento e endurecimento penal. A classificação de facções criminosas como organizações narcoterroristas, a redução da maioridade penal e a expansão das unidades prisionais integram uma orientação que valoriza a ampliação do poder coercitivo do Estado. Suas consequências precisam ser avaliadas diante de uma sociedade na qual a repressão policial se concentra sobre determinados segmentos da classe trabalhadora. Já as universidades poderão enfrentar novas disputas relacionadas ao financiamento, autonomia administrativa e orientação das políticas educacionais, assim como a criminalização direta do movimento estudantil. A defesa de escolas cívico-militares e a possibilidade de alterações nas prioridades orçamentárias indicam pontos de conflito. Entretanto, a efetiva implementação dessas iniciativas dependerá das decisões governamentais e das relações estabelecidas com o Congresso e os governos estaduais.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160195" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer5.jpg" alt="" width="480" height="416" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer5.jpg 480w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kiefer5-300x260.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 480px) 100vw, 480px" />Há ainda a possibilidade de aprofundamento das pressões sobre organizações populares diante de políticas que ampliem a criminalização dos protestos ou restrinjam determinadas atividades associativas. Essa hipótese encontra fundamentos no histórico do primeiro governo Bolsonaro e nas manifestações de segmentos de seus apoiadores. A experiência internacional demonstra que governos de extrema direita podem combinar procedimentos eleitorais regulares com iniciativas graduais de concentração de poder. A reorganização das instituições ocorre mediante disputas legislativas, alterações administrativas e conflitos em torno da aplicação das garantias constitucionais. A violência política pode integrar esse processo, mas suas características concretas dependem das relações estabelecidas entre movimentos sociais, governos e aparelhos repressivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vitória de Flávio Bolsonaro poderá modificar a correlação de forças, sobretudo se sua administração conseguir estabelecer alianças duradouras com setores tradicionais da burguesia e conquistar influência ampliada sobre mecanismos de controle institucional. Entretanto, a intensidade de uma eventual ofensiva também dependerá das resistências encontradas e das contradições internas do bloco conservador. O ponto decisivo está na possibilidade de que a extrema direita utilize sua legitimidade eleitoral para aprofundar a influência sobre o Estado, ampliando progressivamente os recursos necessários à contenção dos adversários políticos. A história do fascismo demonstra a importância desse processo.</p>
<p style="text-align: justify;">O fortalecimento conservador também alcançou as disputas pelas presidências da Câmara e do Senado. O favoritismo eleitoral de Flávio Bolsonaro estimulou novas negociações entre o PL e partidos tradicionalmente vinculados ao chamado Centrão, com consequências potenciais para a permanência de Hugo Motta e Davi Alcolumbre nas direções das respectivas Casas. O controle dessas posições interfere diretamente na definição da pauta legislativa, na tramitação de propostas e na organização das relações entre Executivo e Congresso. A eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia reunir, portanto, condições institucionais favoráveis à implementação de parte de seu programa político. Entretanto, seria inadequado imaginar que a ampliação parlamentar conservadora resultaria automaticamente em um governo sem contradições internas. As relações entre partidos burgueses são condicionadas por disputas econômicas, interesses regionais e negociações relacionadas à distribuição de recursos públicos. O próprio bolsonarismo reúne segmentos diferentes, cujas expectativas nem sempre coincidem com aquelas defendidas por representantes tradicionais das classes dominantes.</p>
<p style="text-align: justify;">A possibilidade de colaboração entre essas forças, contudo, é um ponto sensível. O fascismo histórico demonstrou que setores conservadores podem contribuir para a ascensão de movimentos dessa natureza mesmo sem compartilhar integralmente seus objetivos ideológicos. A perspectiva de estabilidade política, contenção das organizações operárias e preservação das relações capitalistas pode favorecer alianças entre grupos que anteriormente mantinham conflitos. A convergência de interesses não elimina as disputas internas, mas cria condições para iniciativas comuns contra adversários identificados como ameaças à ordem existente. Essa possibilidade precisa ser examinada diante das propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro. Seu programa eleitoral prevê modificações na legislação penal, ampliação da infraestrutura prisional, expansão de escolas cívico-militares e alterações em regras relacionadas ao funcionamento do Judiciário. Na economia, defende a redução de despesas administrativas, a retomada de privatizações e reformas orientadas à ampliação da participação empresarial. O candidato também promete preservar programas sociais existentes, aspecto que demonstra a preocupação de sua campanha em conquistar legitimidade entre trabalhadores dependentes dessas políticas. Há combinação entre preservação seletiva de benefícios sociais, defesa do investimento privado e endurecimento repressivo.</p>
<p style="text-align: justify;">O Estado burguês apresenta, portanto, uma contradição que a esquerda institucional frequentemente encontra dificuldades para enfrentar. As garantias jurídicas podem ser fundamentais para preservar liberdades políticas e proteger organizações populares diante de ameaças concretas. Sua existência, entretanto, não substitui a capacidade social de resistência dos trabalhadores. A proteção institucional dos direitos depende também das relações políticas que sustentam sua aplicação e da força coletiva daqueles que necessitam dessas garantias para preservar suas condições de organização.</p>
<p style="text-align: justify;"><em> As imagens que ilustram o artigo são obras de Anselm Kiefer.</em></p>
<h4><strong>Notas</strong></h4>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> A responsabilização judicial pela tentativa de golpe de Estado alcançou integrantes importantes da cúpula político-militar do governo Jair Bolsonaro, incluindo os generais Walter Braga Netto, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira, o almirante Almir Garnier, o ex-ministro Anderson Torres, o ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem e Mauro Cid, além do ex-presidente, condenado a 27 anos e três meses de prisão. Ao final dos julgamentos dos quatro núcleos principais, em dezembro de 2025, o STF havia condenado 29 acusados e absolvido dois. Entretanto, essas condenações não desarticularam as organizações políticas, as relações empresariais e as bases sociais que sustentam o bolsonarismo, sendo que principal partido, o PL, ampliou expressivamente sua representação parlamentar nas eleições de 2026. A contradição evidencia os limites da responsabilização criminal individual diante de um movimento político enraizado nas próprias instituições republicanas e articulado a setores das classes dominantes, preservando condições para disputar novamente a direção do Estado, inclusive com a perspectiva de rever politicamente os efeitos das condenações.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> As contradições entre as organizações conservadoras também se manifestam nas disputas contemporâneas pela direção política da direita brasileira. O Movimento Brasil Livre (MBL), que desempenhou papel destacado na ofensiva contra o governo Dilma Rousseff, encontra-se atualmente em conflito com a hegemonia bolsonarista. Após sua derrota no primeiro turno de 2026, Renan Santos, uma das principais lideranças do movimento, recusou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro e sinalizou disposição para dialogar com setores da esquerda, embora tenha descartado apoio eleitoral a Lula. O episódio evidencia a instabilidade das alianças conservadoras e os conflitos entre organizações que participaram de uma mesma ofensiva política, mas desenvolveram interesses próprios na disputa pela representação institucional e influência social.</p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a> A atuação do governo Jair Bolsonaro entre 2019 e 2022, sobretudo durante a pandemia de covid-19, foi objeto de sucessivas denúncias e investigações. Em junho de 2021, a Câmara dos Deputados acumulava 122 pedidos de impeachment, enquanto a CPI da Pandemia, concluída em outubro daquele ano, recomendou a responsabilização criminal do presidente por diferentes condutas relacionadas à crise sanitária. O STF também instaurou investigações durante seu mandato, mas essas iniciativas não resultaram em seu afastamento, e Bolsonaro continuou na Presidência até dezembro de 2022. Sua condenação criminal pela tentativa de golpe de Estado ocorreu somente em setembro de 2025. O episódio demonstra os limites políticos e institucionais da responsabilização de dirigentes do Estado quando a continuidade governamental encontra sustentação parlamentar e apoio de setores das classes dominantes.</p>
<p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a> “Nem todo movimento reacionário é fascista. Nem toda repressão – por mais feroz que seja – exercida em nome da conservação de privilégios de classe ou casta é fascista. O conceito de fascismo não se deixa reduzir, por outro lado, aos conceitos de ditadura ou de autoritarismo.” Konder, Leandro. Introdução ao Fascismo, 1977.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Referências centrais para a leitura</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">KONDER, Leandro. Introdução ao fascismo. Rio de Janeiro: Graal, 1977.</p>
<p style="text-align: justify;">CHASIN, José. O integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hiper-tardio. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas, 1978.</p>
<p style="text-align: justify;">Arquivo Internet Marxista</p>
<p style="text-align: justify;">NETTO, José Paulo. Pequena história da ditadura brasileira (1964–1985). São Paulo: Cortez, 2014.</p>
<p style="text-align: justify;">NETTO, José Paulo. <a href="https://pcb.org.br/portal2/27275">Entrevista do Momento, concedida a Milton Pinheiro, 12 de maio de 2021</a>. Partido Comunista Brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Sobre o autor</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Arthur Moura é historiador, cineasta, músico e pesquisador. Doutorando em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Educação pela Faculdade de Formação de Professores da UERJ e graduado em História pela UFF. Realizador de quase trinta filmes autorais, desenvolve pesquisas sobre cinema político independente, luta de classes, Estado, cultura e comunicação popular. Sua produção intelectual e audiovisual articula a crítica marxista da sociedade capitalista à investigação histórica das relações de dominação, das organizações políticas e experiências de resistência dos trabalhadores. É responsável pelo Canal Arthur Moura, espaço independente de produção audiovisual, análise política e debate crítico.</p>
<p style="text-align: justify;">
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		<title>No Ceará, a Amazon paga menos que um salário mínimo a quem atende seus clientes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Oct 2026 15:07:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Mais de 500 trabalhadores do atendimento remoto da Amazon no Ceará recebem cerca de R$ 1.389 por mês. Em São Paulo, a mesma função paga o dobro, segundo os trabalhadores. Por União Terra e Trabalho (UTT)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><a href="https://uniaoterraetrabalho.org/2026/10/20/no-ceara-a-amazon-paga-menos-que-um-salario-minimo-a-quem-atende-seus-clientes/" target="_blank" rel="noopener">Por União Terra e Trabalho (UTT)</a></h3>
<p style="text-align: justify;">No Ceará, mais de 500 trabalhadores do atendimento da Amazon recebem cerca de R$ 1.389 por mês, por 36 horas semanais. É menos que o salário mínimo do país, de R$ 1.621. Em São Paulo, quem faz o mesmo trabalho, com o mesmo treinamento e a mesma jornada, recebe o dobro, segundo os trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">A denúncia veio de uma trabalhadora da operação, que em 2026 gravou vídeos públicos sobre as condições de trabalho. O nome dela fica preservado aqui. A pergunta que ela deixa resume o caso:</p>
<blockquote class="v1gmail-wp-block-quote"><p>&#8220;Meu trabalho vale menos que o de uma pessoa que mora em São Paulo?&#8221;</p></blockquote>
<h2 class="v1gmail-wp-block-heading" style="text-align: justify;">Atendimento de casa, para o país inteiro</h2>
<p style="text-align: justify;">Desde 2024, a Amazon mantém no Ceará uma central de atendimento em home office. Cada trabalhador atende de casa, por telefone, chat e e-mail, clientes de todo o Brasil. É atendimento receptivo, SAC e ouvidoria. &#8220;Nós não atuamos com vendas&#8221;, diz a trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">A própria empresa deixa o desenho à vista. Uma <a href="https://www.amazon.jobs/en/jobs/SF250118652/atendimento-ao-cliente-temporario-estado-de-ceara-brasil" target="_blank" rel="noopener noreferrer">vaga de 2025 para o Ceará</a> oferecia R$ 1.280 quando o mínimo era R$ 1.518, ou seja, 84% dele. A vaga exigia morar no estado, previa turnos rotativos entre 6h e 24h, inclusive em feriados, e pedia que o trabalhador fornecesse o cômodo silencioso, a mesa, a cadeira e a internet banda larga.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo o relato, a maioria encontra erro no contracheque todo mês e precisa cobrar a correção. Um trabalhador ficou quase dois meses sem receber o salário correto.</p>
<h2 class="v1gmail-wp-block-heading" style="text-align: justify;">Faltam R$ 232 por mês</h2>
<p style="text-align: justify;">Para chegar ao mínimo, faltam R$ 232 por mês. Descontado o INSS de 7,5%, sobram cerca de R$ 1.285 no bolso, e só a <a href="https://www.dieese.org.br/analisecestabasica/2026/202609cestabasica.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">cesta básica de Fortaleza, R$ 779,96 em setembro de 2026</a>, leva 61% disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Pagar o mínimo custaria à Amazon ao menos R$ 3.090 por trabalhador por ano, com 13º salário e férias. Para 500 trabalhadores, R$ 1,55 milhão. Isso equivale a pouco mais de dois minutos do <a href="https://www.poder360.com.br/poder-economia/lucro-da-amazon-sobe-31-em-2025/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">lucro líquido de US$ 77,7 bilhões que a empresa teve em 2025</a>, ao câmbio de R$ 4,975 por dólar de 6 de outubro de 2026. O cálculo é da UTT.</p>
<h2 class="v1gmail-wp-block-heading" style="text-align: justify;">Um patrão, muitos preços</h2>
<p style="text-align: justify;">A Amazon organiza o atendimento como uma operação só: mesmo sistema, mesmo treinamento, mesmos clientes. O que muda é quanto ela paga por hora, conforme o lugar onde o trabalhador mora. No Ceará, a hora sai por R$ 7,72. Em São Paulo, por cerca de R$ 15,43. Nos Estados Unidos, o atendimento remoto da empresa começa <a href="https://chinookobserver.com/?p=48300" target="_blank" rel="noopener noreferrer">em torno de US$ 15 por hora, cerca de R$ 75</a></p>
<p style="text-align: justify;">A justificativa da empresa é o custo de vida. Os números não confirmam: a <a href="https://www.dieese.org.br/analisecestabasica/2026/202609cestabasica.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">cesta básica em São Paulo custa 18% mais que em Fortaleza (R$ 922,51 contra R$ 779,96</a>), mas o salário relatado é 100% maior. O que existe é uma desigualdade antiga entre as regiões do Brasil, que a empresa transforma em margem de lucro. <a href="https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/negocios/ceara-tem-2-pior-rendimento-domiciliar-per-capita-do-brasil-veja-valores-por-estado-1.3746362" target="_blank" rel="noopener noreferrer">A renda por pessoa no Ceará é de R$ 1.390, menos da metade da de São Paulo, R$ 2.956</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Como isso funciona:</p>
<ul class="v1gmail-wp-block-list" style="text-align: justify;">
<li><strong>Contratar onde o salário é mais baixo.</strong> A vaga exige morar no Ceará, embora o trabalho seja remoto e atenda o país inteiro.</li>
<li><strong>Prender o salário ao lugar.</strong> A lei brasileira aplica ao trabalho remoto as regras e convenções do lugar onde o trabalhador está lotado (<a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/lei/l14442.htm" target="_blank" rel="noopener noreferrer">CLT, art. 75-B, § 7º</a>). A mesma função passa a valer menos no Nordeste.</li>
<li><strong>Fugir da categoria.</strong> A Amazon diz ser varejista, não empresa de telemarketing, e escapa das convenções que garantem mais que o mínimo por 36 horas.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">O trabalho remoto poderia apagar a distância. A empresa faz o contrário: usa a casa de cada trabalhador como posto de trabalho e escolhe a mão de obra mais barata sem mudar de endereço. É a mesma lógica que leva fábricas e centrais de atendimento para onde o salário é menor.</p>
<h2 class="v1gmail-wp-block-heading" style="text-align: justify;">Trabalhar menos não pode ser ganhar menos</h2>
<p style="text-align: justify;">A Amazon se apoia numa regra do Tribunal Superior do Trabalho, a <a href="https://www.conjur.com.br/2016-fev-18/tst-regula-prazo-vista-altera-orientacao-jurisprudencial/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">OJ 358</a>, que permite pagar o mínimo proporcional a quem trabalha menos de 44 horas por semana. Mas as 36 horas não são escolha da empresa. São o limite legal do teleatendimento, fixado por uma norma de saúde, a <a href="https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselhos-e-orgaos-colegiados/comissao-tripartite-partitaria-permanente/arquivos/normas-regulamentadoras/nr-17-anexo-ii-teleatendimento-atualizado-2021.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">NR-17, Anexo II</a>, que diz: &#8220;sem prejuízo da remuneração&#8221;. A jornada menor existe para proteger quem atende o público o dia inteiro, não para cortar salário.</p>
<p style="text-align: justify;">O Brasil acaba de afirmar o mesmo princípio. Em 14 de outubro de 2026, o Senado aprovou, por 75 votos a 1, a <a href="https://www.oliberal.com/politica/veja-quem-votou-a-favor-e-contra-o-fim-da-escala-6x1-1.1182725" target="_blank" rel="noopener noreferrer">emenda que reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas sem redução de salário</a>. A Amazon no Ceará pratica o contrário: menos horas, salário menor.</p>
<h2 class="v1gmail-wp-block-heading" style="text-align: justify;">O que os trabalhadores reivindicam</h2>
<p style="text-align: justify;">A UTT apoia as reivindicações dos trabalhadores:</p>
<ol class="v1gmail-wp-block-list" style="text-align: justify;">
<li>Nenhum salário abaixo do mínimo do país: R$ 1.621 pela jornada de 36 horas do teleatendimento.</li>
<li>Reconhecimento da função como teleatendimento, com todas as garantias de saúde da NR-17: jornada de 6 horas, pausas e proteção contra metas abusivas.</li>
<li>Mesmo trabalho, mesmo salário: fim da diferença entre Ceará e São Paulo.</li>
<li>Folha de pagamento correta e no prazo.</li>
<li>Nenhuma retaliação contra quem denunciou.</li>
</ol>
<h2 class="v1gmail-wp-block-heading" style="text-align: justify;">A resposta também atravessa fronteiras</h2>
<p style="text-align: justify;">A Amazon é um patrão global, que usa as fronteiras entre países e entre regiões de um mesmo país para pagar menos. Por isso a UTT preparou um relatório internacionalista sobre o caso, em português e em inglês, para organizações da classe trabalhadora de outros países. Pedimos que tomem este conflito como causa de solidariedade, divulguem o caso e nos ajudem a documentar quanto a empresa paga pelo atendimento em cada lugar.</p>
<p style="text-align: justify;">Se você trabalha ou já trabalhou no atendimento da Amazon, no Ceará, em São Paulo ou em qualquer outro lugar, fale com a UTT pelo e-mail <a href="mailto:uniaoterraetrabalho@protonmail.com" rel="noreferrer">uniaoterraetrabalho@protonmail.com</a>. Preservamos a identidade de quem nos procura.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>MESMO TRABALHO, MESMO SALÁRIO.</strong></p>
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		<title>Uma volta a 64? Não. A neocolônia de 1500</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 Oct 2026 19:41:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[O diagnóstico que devemos inferir é: hoje nós discutimos uma gramática que não é nossa. Um tipo de linguagem que não mais tem apelo. Um tipo de luta já perdida, combatida no campo de batalha dos inimigos. Por Sérgio Elia]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="level3">
<h3>Por Sérgio Elia</h3>
<p style="text-align: justify;">Dormimos em 2026, acordamos em 64 e, no dia 25, mesmo uma improvável virada apenas adiará um novo 22 de abril de 1500. Será uma inovação e tanto: um povo escolher voltar a ser colônia.</p>
<p style="text-align: justify;">Vendida como algo revolucionário, vivemos uma ruptura reacionária da extrema direita com o fantasma moribundo da democracia liberal. Mas estamos tratando tudo como normal. Em nenhum momento reagimos à altura dessa ruptura, acreditando numa institucionalidade que já está morta.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a pergunta que devemos nos fazer é: qual a responsabilidade da esquerda brasileira nisso?</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160159 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/mao-1967.jpg" alt="" width="417" height="420" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/mao-1967.jpg 417w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/mao-1967-298x300.jpg 298w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/mao-1967-70x70.jpg 70w" sizes="auto, (max-width: 417px) 100vw, 417px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Sim, a mídia corporativa, de forma escandalosa e calculada, deu muito menos destaque do que deveria aos fatos e denúncias sobre a trajetória de Flávio, enquanto ele se apresenta claramente como administrador de colônia.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, as redes sociais criaram um mundo em que a verdade factual perde relevância e as fake news se tornaram uma realidade normalizada.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, enfrentamos uma conjuntura geopolítica internacional marcada pela ascensão da extrema direita, com elites latino-americanas sabendo trabalhar para se tornarem suas representantes locais.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, a sociedade brasileira, com seu crescente neopentecostalismo que sequestrou boa parte do cristianismo, assim como os diversos projetos de guerra cultural, simbolizados por iniciativas como o Brasil Paralelo, além do cinturão do agronegócio que se expandiu para novas regiões do país, tornou-se cada vez mais conservadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas também é verdade que a política econômica liderada por Haddad foi de uma ineptidão política colossal. Um erro desde o começo; uma tragédia anunciada: como ter tido como principal projeto de governo, no início do mandato com toda a força de uma nova gestão com o fôlego recente das urnas, uma reforma tributária cujos frutos, como a redução dos impostos da cesta básica ou o cashback, só apareceriam plenamente em 2027, podendo ser politicamente colhidos por Flávio?</p>
<p style="text-align: justify;">Como negociar a queda de um quase criminoso teto de gastos em prol de um arcabouço fiscal menos pior, capitulando mansamente diante da restrição da capacidade de investimento público em qualquer novo projeto digno de nota, seja de desenvolvimento, seja de política social?</p>
<p style="text-align: justify;">Como entrar em brigas totalmente impopulares, como a taxa das blusinhas?</p>
<p style="text-align: justify;">Como não encarar, sob o pretexto de manter o controle inflacionário, a desastrosa manutenção da política de juros do Banco Central sob Galípolo? Os juros estratosféricos tornaram o crédito inviável, e o endividamento do consumidor e do pequeno e médio empreendedor — tanto urbano quanto agrícola — tornou-se inevitável, o que poderia ajudar a explicar, em boa medida, o crescimento da rejeição a Lula nas pequenas cidades do cinturão agrícola.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160161" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/morre-xxii-1994-300x273.jpg" alt="" width="400" height="364" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/morre-xxii-1994-300x273.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/morre-xxii-1994-462x420.jpg 462w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/morre-xxii-1994.jpg 500w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">E, sobretudo, como não olhar para 2022 e se dar conta de que as mulheres beneficiárias do BPC foram, de muitas maneiras, decisivas para evitar nossa derrota e a reeleição de Jair Bolsonaro? Em nome da redução do déficit fiscal e de uma tal “responsabilidade econômica” a ser vendida para um tal “mercado”, o governo fez questão de economizar bilhões, justamente prejudicando aquelas mulheres, chefes de família, que nos salvaram em 2022? Quem não conhece alguém que deixou de conseguir sacar esses benefícios abruptamente ou que, depois de uma doença, deficiência ou situação de extrema vulnerabilidade, encontrou todo tipo de dificuldade para receber um benefício?</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de ser eleito em 2022, Lula prometeu travar as boas batalhas. Prometeu governar “do seu jeito”. Pautar projetos de interesse nacional, como o fim da escala 6 x 1, ou enfrentar o criminoso orçamento secreto.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se tratava de dizer que seria fácil ou que dependia apenas de sua vontade, mas de assumir, percebendo os novos tempos, a necessidade de mobilizar uma narrativa em defesa de um projeto de nação. As prováveis derrotas no Congresso não significariam uma derrota para o seu governo. Significariam demonstrar claramente que, ao menos, assumia sem medo a disputa pelos interesses populares.</p>
<p style="text-align: justify;">Nem sequer uma política minimamente ousada de democratização do acesso à terra e à moradia foi pautada, algo que poderia ter sido feito de forma bem menos traumática do que imaginamos, se houvesse disposição para avançar um pouco além da covardia e do comodismo da conciliação.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, como em 2004, 2005 ou 2009, tentou-se uma composição. Dessa vez, porém, com um Congresso que sequestrou uma parcela mais que expressiva do orçamento e que, em boa parte, já não representava apenas interesses fisiológicos: havia ali um inequívoco projeto ideológico de extrema direita, golpista, sedento de sangue e claramente antidemocrático.</p>
<p style="text-align: justify;">Lula tentou conciliar com quem já não queria conciliação.</p>
<p style="text-align: justify;">Lula não se deu conta de que os tempos mudaram e de que teria que responder diretamente, sem qualquer verniz, às urgências mais cotidianas, abraçando aquilo que, pejorativamente, se chama de “populismo”.</p>
<p style="text-align: justify;">Falhou ao ser extremamente conciliador, responsável e pragmático. Falhou em sequer ter lutado por um mísero projeto de apelo popular que respondesse, por exemplo, ao anseio pela diminuição da criminalidade. Combater a lavagem de dinheiro enfrentando determinados agentes e setores do mercado financeiro é necessário e louvável, mas isso pouco ou nada ressoa para quem vive diariamente com medo da violência na rua. A cegueira da esquerda quanto à acusação de que compactuamos com o crime que tanto aflige aos trabalhadores brasileiros não deveria ser tão mansamente por nós aceita, o que está longe de significar defender qualquer política violenta ou puramente demagógica.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160163" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/taxi-cab-ii-1959-300x193.jpg" alt="" width="500" height="321" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/taxi-cab-ii-1959-300x194.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/taxi-cab-ii-1959-341x220.jpg 341w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/taxi-cab-ii-1959.jpg 600w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Talvez Lula tivesse perdido em todas essas empreitadas. Mas perderia de uma forma que não legitimaria propagarmos, com tanta certeza e prepotência, que há um pobre de direita burro e ignorante.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, se não fomos nós que pautamos o debate público, se desistimos de lutar por um projeto nacional assumidamente nosso, não sejamos nós os ignorantes e burros incapazes de compreender e aprender com os fatos.</p>
<p style="text-align: justify;">É bom repetirmos, em voz alta: não sejamos nós os ignorantes e burros incapazes de compreender e aprender com os fatos.</p>
<p style="text-align: justify;">A verdade é que a extrema direita capta, com cinismo, um diagnóstico verdadeiro: para milhões de pessoas, alguma coisa precisa romper com “tudo que está aí”. Ela percebe que a ordem existente já não consegue oferecer a promessa de integração, prosperidade e segurança que legitimava o capitalismo e a democracia liberal. E é justamente aí que ocorre uma inversão extraordinária e reveladora: a extrema direita passa a ocupar o lugar da ruptura, enquanto a esquerda passa a assumir, no imaginário popular, um lugar conservador e envelhecido.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles são, nesse sentido, mais sinceros no diagnóstico, não na solução. Dizem que nesse modelo de sociedade não há lugar para todos, que o Estado atrapalha, que os direitos sociais são falhos, que os conflitos não serão resolvidos pela conciliação e que, de uma forma ou outra, alguém terá de perder. A solução que oferecem para a crise é cínica, antidemocrática e destruidora.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas é apresentada como ruptura.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, a esquerda liberal responde à mesma crise defendendo os princípios falidos de uma democracia liberal corrupta e decadente prometendo com grande dose de derrotismo administrá-la com maior humanismo, sem enfrentar seus inequívocos limites e contradições.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, é verdade que eles oferecem uma saída que apenas intensifica a submissão popular.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160168" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/purple-triangle-1963-215x300.jpg" alt="" width="315" height="440" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/purple-triangle-1963-215x300.jpg 215w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/purple-triangle-1963-301x420.jpg 301w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/purple-triangle-1963.jpg 344w" sizes="auto, (max-width: 315px) 100vw, 315px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas nós propomos mais conformismo, paciência e equilíbrio a uma população sem expectativas.</p>
<p style="text-align: justify;">Afinal, quem hoje parece radical e quem parece conservador?</p>
<p style="text-align: justify;">Nós parecemos conservadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós desistimos de qualquer grande projeto. Não perseguimos qualquer utopia, sendo metralhados por um realismo refém do comodismo.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse sentido que a extrema-direita também ganha por parecer mais sincera: não porque revela qualquer solução viável para o mundo, mas porque explicita, sem qualquer verniz, um antagonismo que nós insistimos em esconder.</p>
<p style="text-align: justify;">Não por acaso, esse discurso encontra terreno fértil porque o cidadão comum, desgostoso com qualquer apelo a um corpo social — visto como armadilha para a letargia corruptora — e identificado com um conceito altamente neoliberal de liberdade, quer apenas não ser atrapalhado para poder “cuidar do próprio nariz em paz”. É aí que o conservadorismo moral e o discurso individualista neoliberal conseguem acomodar uma aparente contradição funcional: de um lado, a exigência de valores pétreos e sagrados na vida privada como refúgio diante da crueldade competitiva de um mundo corrompido; de outro, a legitimação de que, na selva da disputa capitalista, cada um seja implacável ao lutar pelos próprios interesses, sem que o Estado ou aqueles considerados culpados pela própria miséria e inércia o atrapalhem. O reacionarismo moral e o individualismo oferecem, assim, refúgios normativos que validam, sem culpa, um indivíduo ainda mais perverso, pois ele percebe, instintivamente e sem filtros, que vive no estado de natureza hobbesiano, sem que o Estado hobbesiano se ofereça para protegê-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">O que estamos deixando de compreender quando parcelas expressivas dos mais jovens caminham para a extrema direita em diferentes partes do mundo? Quando os líderes mais boçais e mitômanos da extrema direita são justamente jovens que angariam apoio justamente por assumirem um tom que acomoda e identifica tão bem terrorismo moral, autoritarismo e um discurso aparentemente contraditório de insubordinação ao sistema?</p>
<p style="text-align: justify;">Por que insistimos em destacar a hipocrisia de tais discursos e não nos questionamos por que somos vistos como sendo o tal do “sistema”?</p>
<p style="text-align: justify;">Acordemos: nós parecemos ser o sistema.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós parecemos envelhecidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Para o jovem sufocado por uma realidade sem horizontes do capitalismo digital, a extrema direita encarna a ousadia da recusa, de uma retórica ousada e aparentemente sincera.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, a esquerda, engessada em sua defesa mansa de uma institucionalidade decrépita, é percebida como velha, antiquada e hipócrita.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160170" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-6-1959-228x300.jpg" alt="" width="328" height="432" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-6-1959-228x300.jpg 228w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-6-1959-319x420.jpg 319w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-6-1959.jpg 361w" sizes="auto, (max-width: 328px) 100vw, 328px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Ela defende um horizonte social sem definir claramente o que almeja e insiste em lutar pelos arranjos de uma ordem que já faliu — querendo administrá-la com um pouco mais de traquejo retórico, aparentando querer assumir apenas um álibi de superioridade moral.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto às elites econômicas nacionais, todo o projeto da extrema direita representa, com novas roupagens de velhos projetos, os compromissos com aquela elite econômica que Florestan Fernandes, Celso Furtado, Darcy Ribeiro e Caio Prado Jr., cada um a seu modo, já haviam identificado: uma elite interessada na preservação de seus próprios privilégios, incapaz de converter desenvolvimento econômico e industrialização em um projeto autônomo de nação, e historicamente disposta a associar seus interesses aos do capital externo em vez de confrontar a posição dependente do país na ordem internacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso não é novidade e sempre contou com o apoio das mídias tradicionais, que, em grande medida, trabalharam em favor desses interesses.</p>
<p style="text-align: justify;">O que é novo é assumirem tão escancaradamente que entregavam tudo do Brasil, resignando-se mansamente a que uma família assuma tal projeto sem qualquer constrangimento, permitindo que se perca o mínimo que esse povo levou com tanto sangue, suor e lágrimas para ser conquistado por séculos.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto nos preocupávamos em denunciar a hipocrisia e as associações autoritárias do lema “Deus, pátria, família e liberdade”, apontando a contradição entre a defesa da liberdade, hipocrisia moral e o autoritarismo, talvez tenhamos subestimado sua contradição mais profunda: a pátria. O suposto patriotismo dessa extrema direita é um “patriotismo” que despreza o próprio povo, não reconhece suas conquistas históricas, desvaloriza sua cultura e desacredita sua capacidade de construir o próprio futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">É o patriotismo de uma elite que não se reconhece na beleza e esforço de seu povo, sonhando viver em Miami.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse aspecto, nossa extrema direita consegue ser ainda pior que suas congêneres estrangeiras: além de autoritária e excludente, é entreguista e profundamente antipatriótica. Sequer apresenta um projeto de desenvolvimento nacional. Sua pátria é uma abstração ideológica; o Brasil real e seu povo são obstáculos a serem superados.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, a derrota nas eleições legislativas e na disputa pelo Executivo, já no primeiro turno, pode se revelar o maior revés da nossa história. Vamos ser realistas, sabendo dimensioná-la agora para poder enfrentá-la com as armas certas. Não devemos nos iludir minimamente: foi nada menos que catastrófica.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa vez, a extrema direita não terá qualquer receio de destruir os ganhos sociais, econômicos e civilizatórios do país. Temer, ainda com a cínica retórica de quem sempre representou, já produziu estragos catastróficos nos direitos sociais, na Petrobras e na indústria da construção civil, sob o impulso do lavajatismo. Jair tentou ir muito além, promovendo não apenas a corrosão de direitos e da nossa infraestrutura econômica e social, mas também a degradação moral da própria sociedade brasileira, simbolizada pela tragédia da pandemia e pelas imagens de fome e adoecimento dos povos Yanomami. Se Bolsonaro pai não avançou ainda mais, foi apenas por sua própria inaptidão, preguiça ou incompetência.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas agora não há qualquer razão para supor que esta jovem e motivada extrema direita que chega ao poder terá a mesma timidez ou encontrará os mesmos limites institucionais.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160173" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge-300x234.jpg" alt="" width="500" height="390" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge-300x234.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge-538x420.jpg 538w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge-640x499.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge-681x531.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge-511x400.jpg 511w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-1.jpgLarge.jpg 750w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Há tempos, assumiram claramente sua face, declarando sua guerra. As mangas já estão arregaçadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles tentarão destruir e colocar sob seu controle, sem qualquer constrangimento, o STF; corroer a Polícia Federal; aparelhar joias nacionais como o IBGE; desidratar ainda mais as agências reguladoras, submetendo-as aos interesses financeiros; dinamitar os direitos conquistados pelas mulheres ao longo de décadas aprovando projetos que atentem contra os direitos de meninas vítimas de estupro; e perseguir, sem qualquer verniz, toda a elite intelectual representada pelas universidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem qualquer política ambiental, de apoio aos indígenas ou de proteção às populações mais vulneráveis, será uma destruição total.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles não serão covardes como em 2022. Aprenderam muito bem as lições. Não subestimemos sua inteligência nem sua habilidade. Não subestimemos quem, ao vivo, no Jornal Nacional, sabe explorar o peso de anunciar quem será seu ministro.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles sabem para quem trabalham e, com o apoio — e a chantagem — de quem quer nos recolonizar, não hesitarão em passar a boiada sobre o nosso povo.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, devemos deixar de temer a realidade e compreender, de uma vez por todas, que, historicamente, o limite da extrema-direita foram os tanques soviéticos em Berlim. Não há razão para esperar bom senso de quem leva seu projeto autoritário às últimas consequências.</p>
<p style="text-align: justify;">A diferença é que, agora, essa extrema direita pretende destruir até mesmo os compromissos sociais que o capitalismo foi obrigado a aceitar no pós-guerra graças à concorrência ideológica do estado soviético. Mas agora, já não há espaço ou barreira, em seu projeto, sequer para a social-democracia, um mínimo Estado de bem-estar social ou para políticas keynesianas. Eles não mais admitem conceder nada. Sua hipocrisia acabou; suas intenções estão escancaradas.</p>
<p style="text-align: justify;">A luta de classes, como luta entre dois lados, nunca foi pretendida dentro da institucionalidade petista. Ela nunca existiu. E, até então, era compreensível.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160175" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-300x219.jpg" alt="" width="400" height="293" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-300x219.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-574x420.jpg 574w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1960.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas já há muito tempo tal luta só é uma guerra verdadeiramente organizada e ininterrupta vinda de um só lado. O lado de cima.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós nunca soubemos explicitá-la, e agora é nossa culpa se não o fizermos.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois, para que exista uma luta, é preciso que haja quem resista. Senão, é apenas um massacre.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, para além disso, como pode haver uma guerra pelos fatos?</p>
<p style="text-align: justify;">Pois a tudo isso se soma a pós-verdade, que é muito mais sutil do que a simples mentira. É a decadência completa da relevância da verdade factual. O mundo informacional foi segmentado, sobretudo pelos algoritmos, em realidades que quase não precisam mais se encontrar. Parte da população simplesmente não toma conhecimento de determinados fatos da forma como eles realmente se apresentam — algo que, de outra maneira, já ocorria sob a mídia tradicional.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas agora há algo além: mesmo quando o fato chega, ele pode chegar recortado, deslocado de contexto, reinterpretado ou inteiramente reorganizado dentro de uma narrativa que lhe dá outro sentido. Já não é necessário esconder um fato para neutralizá-lo. Basta mudar a perspectiva a partir da qual ele mais facilmente fará sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">E disso não pode se subtrair uma sociedade cada vez mais conservadora, na qual parcelas significativas da população passaram a se mobilizar muito mais intensamente por pautas morais e de costumes do que pela conquista de ganhos materiais concretos para suas próprias vidas. Isso não aconteceu espontaneamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Para eles, basta uma guerra moral.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi resultado também de uma longa disputa pela formação do senso comum, pela linguagem e pelos valores através dos quais a realidade passa a ser interpretada.</p>
<p style="text-align: justify;">O diagnóstico que devemos inferir é: hoje nós discutimos uma gramática que não é nossa. Um tipo de linguagem que não mais tem apelo. Um tipo de luta já perdida, combatida no campo de batalha dos inimigos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas será que devemos continuar tentando disputar o discurso da extrema direita em seus próprios termos, ajustando o nosso ao deles? Ou devemos pautar, sem meias palavras nem pudor, de forma atualizada e sem anacronismos, a nossa própria gramática, o nosso discurso?</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160179" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-f-60-1-1959-300x229.jpg" alt="" width="400" height="305" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-f-60-1-1959-300x229.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-f-60-1-1959-551x420.jpg 551w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-f-60-1-1959-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-f-60-1-1959-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-f-60-1-1959.jpg 630w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Há nisso uma ironia histórica: a extrema direita, sob influência olavista de quem caçoávamos com presunção, parece ter compreendido muito bem uma lição gramsciana que parte da esquerda teve medo de colocar em prática por fleuma — o poder não se disputa apenas nas eleições ou dentro do Estado; disputa-se quando se revela sua soberania também na cultura, nas instituições, no humanismo do que é sagrado e religioso, na profundidade politizadora da mídia e na própria produção cotidiana do senso comum.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós não o fazemos por espírito democrático; eles agora o fazem declaradamente como libertadores “sagrados” do capital que se torna, ao modo de Benjamin, cada vez mais sagrado.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem nunca se assustou, por exemplo, ao descobrir que um prestador de serviço comum se informa a partir de documentários como os do Brasil Paralelo, que lhe revelariam a verdade secreta de um Brasil dominado pela esquerda? Ou com o fato de soar cada vez mais comum, sobretudo entre os mais jovens, dizer que o nazismo é de esquerda? Será que não percebemos o quanto isso ajuda a produzir uma sociedade progressivamente cega e alheia à própria relevância factual? Será que continuaremos debochando da ignorância alheia, ignorando que isso se torna cada vez mais um fato?</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto a extrema direita travava essa guerra sem pudor, parte da esquerda recuava até mesmo diante da possibilidade de realizar, em sentido verdadeiramente emancipador, aquilo que o tão atacado e incompreendido Paulo Freire propunha: formar sujeitos capazes de compreender criticamente o mundo em que vivem. Para além do <a class="wikilink2" title="prouni" href="https://wiki.passapalavra.info/doku.php?id=prouni" rel="nofollow" data-wiki-id="prouni">ProUni</a>, do Pé-de-Meia e das políticas de cotas, iniciativas legítimas e importantes para a inclusão social, o PT termina seus governos sem deixar ao país um legado de formação crítica e emancipadora à altura de um partido que se diz de esquerda. Sem propor um projeto nacional de educação de base verdadeiramente transformador, capaz de elevar o patamar educacional brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado está diante de nós: uma sociedade em que parcelas da população podem se mobilizar apaixonadamente por uma guerra cultural mesmo quando dela não resulta qualquer melhoria concreta em sua renda, seu trabalho, sua segurança ou sua qualidade de vida.</p>
<p style="text-align: justify;">E é por isso que a experiência da pandemia funcionou como marco estruturante desse processo. Pode parecer contraintuitivo que governos de extrema direita tenham embarcado no negacionismo sanitário, mas tal retórica legitimou profundamente um ideal de feroz liberdade individualista, capaz de romper com qualquer concepção de liberdade fundamentada em um corpo social coletivo. A mensagem deixada foi clara: absolutamente nada poderia impedir a economia de continuar funcionando, mesmo que isso significasse que o próprio indivíduo ou os outros ao seu redor morressem.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi a consagração da ideia de que essa liberdade não carrega mais nenhuma obrigação coletiva, apenas direitos absolutos sobre si mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">É o caráter fatalista e predatório do capitalismo levado às últimas consequências, em uma lógica que remete ao realismo capitalista analisado por Mark Fisher.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi o golpe final contra qualquer ideia de corpo social. O erro do nosso discurso? Tratar o temor pela própria sobrevivência econômica dos cidadãos comuns como expressão dos interesses mesquinhos do empresário “malvado”, ignorando que todos, dos mais pobres à classe média, sofriam com os efeitos da paralisação econômica.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160181 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1968.jpg" alt="" width="395" height="570" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1968.jpg 395w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1968-208x300.jpg 208w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1968-291x420.jpg 291w" sizes="auto, (max-width: 395px) 100vw, 395px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A retórica conta. E ela perde votos.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, devemos compreender que a pandemia e o negacionismo das vacinas não representaram apenas um crime contra a população, mas também um profundo ataque ao espírito crítico do corpo social, cujo alcance simbólico muitos ainda ignoram.</p>
<p style="text-align: justify;">E tamanha perda jamais será recuperada apenas pela apresentação racional dos fatos. O que se atacou durante a pandemia foi a legitimidade da ciência, da razão e do bom senso, em prol de um discurso messiânico e altamente individualista que beirou o darwinismo social. A Dialética do Esclarecimento não nos ensinou que a própria racionalidade tem suas contradições? Nosso erro não pode ser achar que basta demonstrar os fatos para que a verdade se imponha. A razão não vence simplesmente porque dispõe dos fatos.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois o que há de mais explícito nos fascismos — e que torna toda essa conjuntura tão próxima do neofascismo, do qual a extrema direita sabe se utilizar tão bem — não é apenas a linguagem ou qualquer outra característica forçosamente comparada com aquilo que se viu na Europa. É também a construção permanente de conflitos internos, de inimigos e de uma sensação de perigo iminente, crise contínua e decadência moral. Nada disso precisa ser materialmente experimentado por cada indivíduo para produzir efeitos políticos. As pessoas não precisam presenciar a ameaça em suas próprias vidas; basta que sejam mantidas sob a sensação permanente de que ela está em toda parte e pode alcançá-las a qualquer momento. E isso eles sabem fazer muito bem.</p>
<p style="text-align: justify;">Se dormimos em 2026 e acordamos, no dia 4 de outubro, em 64, apenas um enfrentamento claro e incansável, a partir de agora e pelos próximos anos, poderá impedir que, no dia 25, despertemos novamente em 22 de abril de 1500, retrocedendo mais de cinco séculos em nossa história.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é nada fácil, mas, para lutarmos para além da retórica falida e insossa, devemos saber o que combatemos e como.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-160183 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/17fbeff1-6631-4864-89ed-e2c29b65c2e1.jpgPortrait-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />Este artigo está ilustrado com reproduções de obras de Al Held (1928-2005).</em><span class="info-icon-circle-wrapper">  </span></p>
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		<title>Uma proposta de luta contra a 6&#215;1</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 16 Oct 2026 20:43:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Pelo fim IMEDIATO da 6x1 para os terceirizados dos serviços públicos federais!]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A PEC do fim da 6&#215;1 passou, mas ameaças à redução de jornada de trabalho permanecem!</p>
<p style="text-align: justify;">Falam sobre alterações na PEC aprovada e inclusive, a proposta da PEC das horas, que retira muitos direitos já conquistados. No serviço público federal, além da PEC existe a Instrução Normativa (IN) SEGES/MGI nº 148/2026 a qual determina a redução para 40 horas da jornada de trabalho. Juntando tudo isso, as administrações das universidades e outros espaços públicos federais podem determinar IMEDIATAMENTE a redução de carga horária e fim da 6&#215;1. Ninguém precisa esperar 14 meses com o risco de perder tudo neste tempo. Enquanto em alguns lugares do Brasil isso já foi efetivado por meio de mobilizações de trabalhadores e estudantes, em outros ninguém nunca ouviu falar da IN!</p>
<p style="text-align: justify;">Mobilize-se! Quem trabalha limpando, servindo comida e fazendo vários serviços gerais também quer descansar AGORA!</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://uma-proposta.vercel.app" target="_blank" rel="noopener">https://uma-proposta.vercel.app</a></p>
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		<title>A emenda ficou pior que o soneto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Oct 2026 11:14:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
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					<description><![CDATA[Dilemas e perspectivas para o segundo turno de 2026. Por vidaventovela]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por vidaventovela</h3>
<p style="text-align: justify;">10 de outubro de 2026</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O mesmo dilema, oito anos depois</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Estamos a poucos dias do segundo turno das eleições de 2026, entre Lula e Flávio Bolsonaro. Flávio está na frente. O campo bolsonarista tem maioria no Congresso.</p>
<p style="text-align: justify;">E nós vivemos de novo o dilema de oito anos atrás. Naquela época, a esquerda afirmou que, se Bolsonaro ganhasse, o terror tomaria conta de tudo e toda perspectiva de ganho social seria perdida. Depois, mobilizou-se pela prisão de Bolsonaro, com uma postura que lembra o populismo penal que as gestões petistas praticam nos governos estaduais.</p>
<p style="text-align: justify;">O fato é que, mesmo com Bolsonaro preso e apenas o filho como porta-voz, o Flávio venceu o primeiro turno e chega ao segundo com vantagem. A pergunta, então, é uma só: qual é a visão estratégica que devemos ter para este momento?</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160131" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/m_Toureiro.jpg" alt="" width="362" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/m_Toureiro.jpg 362w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/m_Toureiro-217x300.jpg 217w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/m_Toureiro-304x420.jpg 304w" sizes="auto, (max-width: 362px) 100vw, 362px" />Um saldo negativo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O saldo das organizações e dos movimentos sociais que se mobilizaram para fins eleitorais é, em geral, negativo. O melhor exemplo é a última eleição presidencial: foi seguida essa mesma lógica e hoje o povo está ainda mais à direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Se for repetida a fórmula, daqui a quatro anos a tendência é piorar ainda mais. Já vivemos um período difícil no país. Os movimentos sociais perderam credibilidade, assim como a maioria das instituições sindicais e associativas da classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo não corresponde aos anseios das pessoas frente a seus problemas. O voto no Flávio Bolsonaro, muitas vezes, é mais um voto contra o governo.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Nem mais nem menos ingênuos</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">É preciso ter claro: os milhões de brasileiros que votaram em Bolsonaro não são nem mais nem menos ingênuos que os que votaram em Lula. São, em sua maioria, trabalhadores muito explorados. Estão buscando construir uma interpretação da realidade, muitas vezes movidos por uma indignação que nasce da sua própria condição de classe.</p>
<p style="text-align: justify;">Do outro lado, quem vota no candidato do PT não está, necessariamente, despertando uma consciência de classe. Muitas vezes esse voto também está ligado a visões ingênuas ou simplistas da realidade, por mais que agradem ao gosto da esquerda.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, a questão não é louvar quem aposta no governo Lula, com voto crítico ou não, e demonizar quem vota em Bolsonaro. A questão é: os movimentos vão às ruas disputar a consciência do povo? E de que forma?</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160134" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5.webp" alt="" width="940" height="1249" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5.webp 940w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5-226x300.webp 226w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5-771x1024.webp 771w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5-768x1020.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5-316x420.webp 316w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5-640x850.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/ismael-nery5-681x905.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 940px) 100vw, 940px" />O limite da campanha do medo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A campanha não diz “o governo Lula tem vários problemas, mas o projeto de Bolsonaro é pior”. Diz “Lula, Lula, Lula, é 13, para sonhar de novo, para ser feliz”. E completa: se for o Flávio, vai acabar o bolsa família, as universidades, vai acabar tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que vimos? Houve desmontes, sim, só que nem sempre generalizados como foi alarmado. Que conquistas são essas que se desmancham logo nos primeiros meses do governo Bolsonaro. São como casas sem fundamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, o melhor movimento estratégico não é tentar virar o voto de quem não votou em Lula. No curto prazo pode render um benefício momentâneo. No médio prazo, traz enormes contradições: a massa convencida agora tende, como nos últimos anos, a se decepcionar, se frustrar e migrar para os candidatos da direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Também é preciso dizer: esse clima de terror e alarmismo tem, muitas vezes, influência de quem ocupa cargos no governo federal e nos partidos. Gente que teme perder o posto e ter que procurar outro emprego ou se pendurar em outro governo.</p>
<p style="text-align: justify;">E quando a base, passada a eleição, começar a ver as capitulações, a corrupção e a miséria que continua, ficará mais indignada ainda com o processo eleitoral. Mesmo que houvesse intenção de mudar, o Estado não tem capacidade de responder. Parte dessa base irá para a abstenção; outra parte, para a direita. Não à toa a abstenção é alta, mesmo enquanto deputados mantêm verdadeiros currais no interior, levando gente para votar como gado em troca de cargos e contratos temporários nas prefeituras.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160135" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/images.jpg" alt="" width="397" height="503" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/images.jpg 397w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/images-237x300.jpg 237w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/images-331x420.jpg 331w" sizes="auto, (max-width: 397px) 100vw, 397px" />A luta não é entre esquerda e direita</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Não é a disputa entre esquerda e direita que rege a história. É a luta de classes. A democracia representativa está em frangalhos e já não dá conta das necessidades do povo.</p>
<p style="text-align: justify;">Se gastarmos nossa energia tentando convencer, pelo mal menor, o trabalhador que votou em Bolsonaro, o resultado será pequeno. E quem for convencido tem grande chance de voltar para a direita daqui a quatro anos. Essa dinâmica já se esgotou.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós, lutadores do povo, não podemos ser os funcionários mal pagos de partido, que irão arcar com a ressaca pós-eleição enquanto outros estão em seus cargos. Precisamos construir uma alternativa a partir da organização de base, que não caia no mesmo ciclo da redemocratização da década de 1980, quando grande grande parte do acúmulo dos movimentos sociais foi absorvida pela institucionalidade para disputar o Estado. Basta disso.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que barra um golpe</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Um dos argumentos para deixar de lado qualquer questão para a campanha de Lula é a ameaça de um golpe de Estado e intervenção estrangeira. Mas a história mostra que o golpe pode vir com a direita no poder ou com a esquerda eleita. Na Espanha, em fevereiro de 1936, a Frente Popular venceu as eleições. Em julho, os militares deram o golpe mesmo assim. O mesmo se repetiu em outros momentos da história.</p>
<p style="text-align: justify;">Na Espanha, o que impediu o golpe militar foi os trabalhadores, em sua maioria envolvidos pelo anarquismo e sindicalismo revolucionário, que fez frente aos ataques dos poderosos com greves, barricadas e confrontos nas ruas.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o que pode barrar um golpe, ou resistir a ele, é justamente o que ainda temos de mais fraco: a organização de base. É nela que precisamos focar para sair de um ciclo que só tende a piorar. Daqui a quatro anos, se nada mudar, será muito pior.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160133" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU.avif" alt="" width="1200" height="1597" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU.avif 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-225x300.avif 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-769x1024.avif 769w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-768x1022.avif 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-1154x1536.avif 1154w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-316x420.avif 316w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-640x852.avif 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/N6SIPJLLTRA2HLFOGS37JSG2AU-681x906.avif 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Organize-se</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Lula ou Flávio eleitos, a perspectiva para o futuro é de mais arrocho salarial, precarização das condições de vida e perda de direitos. Desse modo, seja o trabalhador que votou em Lula, o que votou em Bolsonaro, o que votou em outro candidato ou o que se absteve: nosso papel é construir a organização de base. Organização de classe, no local de trabalho e no local de moradia, fortalecendo as lutas e a solidariedade nas comunidades, independente do voto de cada um. Esse é o nosso grande desafio.</p>
<p style="text-align: justify;">Muito mais do que dizer “vote” ou “não vote”, temos que dizer: organize-se.</p>
<ul>
<li class="li">Participe da assembleia na sua comunidade e no seu local de trabalho.</li>
<li class="li">Apoie as greves e as paralisações.</li>
<li class="li">Apoie as ocupações de terra e a construção de hortas.</li>
<li class="li">Construa grupos de autodefesa das mulheres nas favelas, nas comunidades rurais e nos territórios indígenas, em todos os cantos.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">É assim que vamos criar o futuro, sem cair no imediatismo nem no alarmismo que querem nos impor.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>MAIS DO QUE VOTAR OU NÃO VOTAR, É PRECISO SE ORGANIZAR.</strong></p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são de Ismael Nery.</em></p>
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		<title>[São Paulo] Liberdade para Alê!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 Oct 2026 11:33:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[O que estamos fazendo diante da criminalização das lutas sociais que já acontece dentro da democracia? Por Favela do Moinho]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Favela do Moinho</h3>

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<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.instagram.com/p/DecxzyuFgEP/?img_index=2" target="_blank" rel="noopener">400 DIAS PRESA. EM PLENA DEMOCRACIA. ALÊ LIVRE!</a></p>
<p style="text-align: justify;">Todo mundo está preocupado com a possibilidade de o Brasil voltar a viver uma ditadura. Mas o que estamos fazendo diante da criminalização das lutas sociais que já acontece dentro da democracia?</p>
<p style="text-align: justify;">Esse cenário tende a piorar e precisamos fortalecer os nossos e nossas lutas AGORA!</p>
<p style="text-align: justify;">O que aconteceu com a Alê, da Favela do Moinho, deveria preocupar qualquer pessoa que participa de um movimento social.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2025, a Favela do Moinho, uma das últimas comunidades populares do centro de São Paulo, foi desmontada em meio a operações policiais, demolições e promessas de reassentamento feitas pelos governos federal e estadual.</p>
<p style="text-align: justify;">Alessandra Moja Cunha, a Alê, liderança histórica da comunidade e da luta por moradia, foi presa em 8 de setembro de 2025. A defesa contesta as acusações, denuncia graves violações de direitos e sustenta que sua atuação comunitária está sendo criminalizada.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, Alê completa 400 dias presa. Mais de um ano. Sem que sua situação deixe de exigir uma resposta pública.</p>
<p style="text-align: justify;">Quantas lideranças mais poderão passar por isso? O que acontece com uma comunidade quando suas principais referências são retiradas de circulação? E como impedir que situações semelhantes se repitam em outros movimentos?</p>
<p style="text-align: justify;">Tentaram nos calar. Mas a história do Moinho continua circulando.</p>
<p style="text-align: justify;">Acabamos de conquistar o 48º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, na categoria Multimídia, com &#8220;Moinho de Gente: a expulsão da última favela do centro de São Paulo&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse reconhecimento precisa se transformar em mais debate, mais informação e mais solidariedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Precisamos que essa história saia das telas e entre nas assembleias, nas associações, nos sindicatos, nas universidades, nas ocupações e nas ruas.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Falem sobre o caso nas redes sociais e façam informes nas assembleias dos seus movimentos.<br />
&#8211; Publiquem notas de solidariedade, cobrem esclarecimentos e providências das autoridades e dos representantes políticos.<br />
&#8211; Organizem exibições do documentário e cine-debates. Chamem a gente para participar!</p>
<p style="text-align: justify;">
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		<title>Professores do ensino fundamental debatem o 1º turno</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Oct 2026 19:10:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Um grupo de professores do ensino fundamental debate o resultado do 1º turno das eleições brasileiras de 2026, em que Flávio Bolsonaro venceu Lula. Por Professores do Primário]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 id="professores_do_ensino_fundamental_debatem_o_1_turno" class="sectionedit11" style="text-align: justify;"><strong>Por Professores do Primário</strong></h3>
<p id="professores_do_ensino_fundamental_debatem_o_1_turno" class="sectionedit11" style="text-align: justify;"><em>Um grupo de professores do ensino fundamental debate o resultado do 1º turno das eleições brasileiras de 2026, em que Flávio Bolsonaro venceu Lula.</em></p>
<div class="level3" style="text-align: justify;">
<p><strong>Lauretta: </strong>Bom dia, companheiros! Força que o novo sempre vem!</p>
<p><strong>Panfilo: </strong>Só tendo fé na geração futura mesmo, porque a dos nossos pais e a nossa falhou miseravelmente.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Educai a nova geração. A missão de vocês está árdua. Não estou muito otimista. Mesmo querendo ser! Acredito que a nossa geração nem vai a chegar ver um novo ciclo. Está só começando…</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160098" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-300x225.jpg" alt="" width="400" height="300" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/reminiscence-2005.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p><strong>Filostrato:</strong> Como diz o Panfilo, falhamos miseravelmente! Não conseguimos nem mesmo convencer aqueles que sofrem as mazelas junto conosco.</p>
<p><strong>Fiammetta: </strong>Sim. Mas nós lutamos tanto! Eu não consigo compreender a forma como tem que falar com essa galera.</p>
<p><strong>Dioneo: </strong>Será que é <em>falar</em>? Nem estou sabendo o que <em>pensar</em> e dizer…</p>
<p><strong>Fiammetta: </strong>Eu percebi que nossos alunos que se manifestaram contra a direita… É principalmente a galera que entrou nas universidades federais. Inclusive serão muito afetados pela entrada do Flávio.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160099" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/simile-1997.jpgLarge-223x300.jpg" alt="" width="323" height="435" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/simile-1997.jpgLarge-223x300.jpg 223w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/simile-1997.jpgLarge-312x420.jpg 312w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/simile-1997.jpgLarge.jpg 446w" sizes="auto, (max-width: 323px) 100vw, 323px" /></p>
<p><strong>Filostrato: </strong>Precisamos reordenar os sindicatos. Eles se tornaram base de política institucional eleitoreira, e o pior de tudo, uma política fascista e individualista. Vejo os embates no nosso sindicato, puro interesse eleitoral. Elegemos agora mesmo, um presidente no sindicato para derrubar os sanguessugas de lá, o que ele faz? Vai apoiar a direita na eleição.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Fato! O <em>modus operandi</em> da esquerda tem falhado há muito tempo. É difícil resumir… Mas também é um reflexo da geopolítica mundial. A tendência ultra conversadora. O individualismo…</p>
<p><strong>Filostrato: </strong>Sim, a luta contra a mídia foi feroz.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>A lógica neoliberal vai engolindo tudo que passar pela frente. Vejo que o indivíduo está se reorganizando politicamente para também enfrentar esses desafios. De uma forma equivocada, mas sim… Muito mais subjetivo. Nem o próprio indivíduo se reconhece nesse processo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-160100" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/tamayura-1996.jpgLarge-227x300.jpg" alt="" width="327" height="433" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/tamayura-1996.jpgLarge-227x300.jpg 227w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/tamayura-1996.jpgLarge-317x420.jpg 317w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/tamayura-1996.jpgLarge.jpg 453w" sizes="auto, (max-width: 327px) 100vw, 327px" /><br />
<strong>Panfilo: </strong>Eu acho que uma primeira observação é que não existe mais <em>uma</em> classe trabalhadora. A fragmentação do mercado de trabalho criou uma situação em que temos trabalhadores numa situação mais precarizada e outros numa situação menos precarizada. Ou seja, como criar uma consciência de classe, se a própria economia criou posições distintas? Todos são trabalhadores e são explorados, mas há distinções internas que impossibilitam uma identificação como parte de um todo coeso. Nesse cenário, o corporativismo domina. Uma coisa que poderia contornar essa fragmentação é a esquerda voltar a ser militante no sentido de ações de solidariedade, principalmente nas periferias. Quem faz solidariedade na periferia são ONGs e Igrejas, simples assim. A esquerda partidária e sindical não está nem aí. Não é à toa que o trabalhador da periferia não se identifica com a esquerda. Pelo contrário, ele vê uma esquerda que tem uma vida melhor, porque são pessoas que têm diploma universitário, fazendo discurso em prol da igualdade, mas não vê ações reais, então entende isso como hipocrisia e enxerga a esquerda como parte do <em>establishment</em>. O bolsonarismo nadou de braçada aí.</p>
<p><strong>Elissa: </strong>Tem uma questão de falha de comunicação. Nós falamos uma língua, a classe trabalhadora fala outra, porque o dicionário da classe trabalhadora está vindo do discurso religioso, da meritocracia, do empreendedorismo, então não temos como dialogar. Vir falar de Karl Marx e mais-valia para quem está pensando em abrir um negócio ou trabalhar em aplicativo e, com a bênção de Deus, virar empreendedor, é chover no molhado.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Concordo plenamente!! Estou cansada de ver pesquisadores frequentando a região rural de onde eu vim até para dizer “como se planta mandioca”, mas bem distantes dessa realidade. Com toda a modernização, informatização… discursos “intelectuais” não estão colando mais.</p>
<p><strong>Elissa: </strong>Outra coisa é que esquerda gosta de polemizar questões identitárias que para a maior parte dos trabalhadores não fazem sentido algum. Linguagem neutra de gênero é visto pela maior parte da classe trabalhadora como uma maluquice sem sentido.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-160101" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1977-300x149.jpg" alt="" width="400" height="199" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1977-300x149.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/untitled-1977.jpg 570w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p><strong>Filomena: </strong>Quando estava no mestrado, falava muito sobre isso com meus professores. Gente!! Vocês estão muito distantes de nós! Um ativismo na produção intelectual muito grande. Longe da prática!</p>
<p><strong>Fiammetta: </strong>Enquanto a gente desmerece <em>influencers</em> e comunicadores de Tiktok, é lá que eles estão nadando de braçada. Parece que vamos ter que emburrecer para nos comunicar.</p>
<p><strong>Panfilo: </strong>Eu acho que a questão não é emburrecer. Atos valem mais que palavras. O capitalismo tem um princípio fundamental que é o do individualismo/competição. Nós temos que nos contrapor a isso propondo ações coletivas/solidariedade. As pessoas irão perceber que a esquerda está propondo coisas do interesse delas quando elas perceberem que são parte de uma ação coletiva baseada na solidariedade.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Acredito demais na força do coletivo! As poucas ações que ainda consigo fazer são as ligadas à Igreja, e com muito sacrifício. Convenhamos, aqui entre nós, na nossa realidade de tanto trabalho, quem está conseguindo alcançar a comunidade? Nós também estamos imersos nesse capitalismo cruel. Muito trabalho! E quando pensamos em querer trabalhar menos, damos conta da realidade e as contas não fecham. Nós estamos vivendo na lei da sobrevivência. Sinceramente, não sei como as pessoas que ganham um salário mínimo estão sobrevivendo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-160097 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kokoro.jpg" alt="" width="247" height="510" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kokoro.jpg 247w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kokoro-145x300.jpg 145w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/kokoro-203x420.jpg 203w" sizes="auto, (max-width: 247px) 100vw, 247px" /></p>
<p><strong>Lauretta: </strong>O Flávio no seu discurso de ontem me impactou. “Acabou a era do PT”. Parece ser isso. A esquerda vai ter que se reconfigurar. Renovar o discurso.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>Além de tudo já discutido. Tem um fator crucial que é a religiosidade do nosso país. O Brasil é um país cristão. O partido que sabe usar o discurso em “favor dos cristãos” conquista o eleitor. Pode estar tudo ruim, mas se você disser que Deus proverá tudo. Pronto! A esquerda radical tem atacado muito os cristãos. Não é um discurso que a população brasileira aceita bem.</p>
<p><strong>Elissa: </strong>A pauta antirracista, ideologias de gênero, direitos iguais… por aí vai! Sobressaiu demais nos últimos anos. O povo quer é pagar as contas e comer bem.</p>
<p><strong>Filomena: </strong>A esquerda sempre esteve muito distante. Quando estava cursando o mestrado. Ficava pensando “Meu Deus, quem são os alienados da história?” Esse povo está muito fora da casinha.“ É muito distante da realidade brasileira. Tem que reconfigurar o discurso e a prática.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-160107 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/33316c4d-8d18-4da5-80c4-871da215da3b-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />As imagens que ilustram este artigo são reproduções de obras de</em> Tōkō Shinoda (1913-2021).</p>
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