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	<title>Mundo &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Operários da indústria de armas italiana dizem não à guerra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Mar 2026 14:16:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
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					<description><![CDATA[ Com base em um histórico de resistência à militarização, os trabalhadores da Leonardo estão se organizando contra a cumplicidade da empresa no genocídio em Gaza. Por Futura D’Aprile]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Futura D’Aprile</h3>
<p style="text-align: justify;">Quando Israel recomeçou os bombardeios a Gaza em outubro de 2023, ativistas da solidariedade à Palestina na Itália imediatamente fizeram a ligação com a empresa nacional de armamentos, a Leonardo, e lançaram uma campanha contra ela. A corporação é uma das maiores produtoras de armas do mundo e desempenha um papel importante na produção de componentes para os aviões F-35, usados ​​por Israel no genocídio em Gaza, além de trabalhar em conjunto com empresas israelenses de armamentos como a Elbit Systems.</p>
<p style="text-align: justify;">Instalações da Leonardo têm sido alvo de protestos, interrompendo a produção e aumentando a conscientização sobre o papel que a Itália e seu setor de defesa desempenham na destruição em curso. Crucialmente, a oposição também está crescendo dentro da empresa, com trabalhadores se manifestando contra a venda de armas para Israel e lutando para impedir que uma fábrica da Leonardo no sul do país seja convertida em produção militar.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Trabalhadores se posicionam</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em outubro, um grupo de trabalhadores de uma unidade de produção da Leonardo em Grottaglie, no sul da Itália, publicou uma petição exigindo que a empresa e suas subsidiárias suspendessem todo o fornecimento de material bélico a Israel. A petição pedia o fim de todos os acordos comerciais e relações de investimento com instituições, startups, universidades e organizações de pesquisa israelenses envolvidas em operações militares contra a população palestina.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais de 23.000 pessoas assinaram a petição, que dizia: “A Itália repudia a guerra como instrumento de agressão contra a liberdade de outros povos e como meio de resolver disputas internacionais”.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de Roberto Cingolan, presidente da Leonardo, ter declarado em setembro que a empresa não havia autorizado novas exportações para Israel “desde o início do conflito”, a declaração dos trabalhadores afirmava que a empresa mantinha uma sólida cooperação comercial e militar com Israel e que as licenças de exportação aprovadas antes de outubro de 2023 nunca foram canceladas.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos peticionários de Grottaglie, que pediu para permanecer anônimo, afirma que essa declaração pública ajudou a abrir um diálogo com trabalhadores de outras fábricas da Leonardo: “Mais do que um aumento imediato na oposição explícita, o resultado mais importante foi trazer o assunto para o centro das discussões, fomentando momentos de debate e análise aprofundada.”</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns meses depois, um grupo de trabalhadores da Divisão de Helicópteros de Turim, no norte da Itália, redigiu um boletim sobre a cumplicidade da Leonardo no genocídio em Gaza, que foi distribuído entre seus colegas. A mobilização contra a empresa os inspirou a investigar as relações da Leonardo com seus parceiros estratégicos, particularmente com Israel. Eles estudaram as leis sobre exportações, importações e o trânsito de produtos de defesa na Itália.</p>
<p style="text-align: justify;">“Os relatos amenizados ou flagrantemente distorcidos oferecidos pela grande mídia sobre os eventos em Gaza estão se enraizando entre nossos colegas”, explica um dos trabalhadores de Turim. “Eles não compreendem a gravidade desses eventos, especialmente no que diz respeito aos usuários finais do produto de seu trabalho.”</p>
<p style="text-align: justify;">“Em relação a Israel, nunca tivemos conhecimento dos contratos assinados e das relações internacionais envolvidas.” Eles continuam explicando que, em parte devido a restrições de sigilo industrial, os trabalhadores não têm uma ideia clara de quem usará os equipamentos que produzem; a empresa usa nomes fictícios para os projetos e dá indicações vagas sobre para onde os equipamentos são enviados.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa falta de transparência deixou os trabalhadores profundamente despreparados diante da indignação pública contra a empresa para a qual trabalham.</p>
<p style="text-align: justify;">O que esses funcionários querem é reafirmar sua integridade, explica o trabalhador de Turim: “Fomos ensinados que é nosso dever denunciar irregularidades, desfalques e violações do código de ética em nosso local de trabalho. Existe algo mais repreensível do ponto de vista ético do que colaborar com um governo criminoso que viola abertamente o direito internacional e cujos crimes contra a humanidade são flagrantes e notórios?”</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158860" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL.png" alt="" width="678" height="455" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL.png 678w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL-300x201.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL-626x420.png 626w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL-537x360.png 537w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL-640x429.png 640w" sizes="(max-width: 678px) 100vw, 678px" />Não aos aviões de guerra</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores de Grottaglie também enfrentam outra luta, enquanto fazem campanha para impedir que sua fábrica se torne uma engrenagem ativa na máquina de guerra. A fábrica faz parte da Divisão de Aeronáutica do Grupo Leonardo e produz as seções da fuselagem da aeronave Boeing 787, empregando aproximadamente 1.200 pessoas diretamente e 300 em indústrias relacionadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde 2020, quando a pandemia de Covid-19 atingiu duramente a indústria aeronáutica, a produção despencou e a unidade corre o risco de fechar. Em julho de 2024, os sindicatos conseguiram evitar uma paralisação temporária, mas a produção ainda diminuiu. Para evitar o fechamento, a Leonardo quer redirecionar a produção para o setor militar.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um documento compartilhado “offline” entre os trabalhadores, juntamente com a petição sobre ligações com a violência de Israel, os trabalhadores denunciam essa mudança de prioridades. Para os trabalhadores que assinaram a petição, a Leonardo está fazendo uma escolha política.</p>
<p style="text-align: justify;">“O setor civil sempre foi mais estável e resiliente do que o militar, que tem encomendas mais limitadas e é muito mais influenciado por flutuações geopolíticas e decisões governamentais”, explica um dos peticionários, que pediu para permanecer anônimo. “A aviação civil, por outro lado, responde a uma demanda estrutural por mobilidade global, que estagnou durante a pandemia, mas agora retornou a níveis recordes, com previsão de crescimento ainda maior nas próximas décadas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para os trabalhadores de Turim e Grottaglie, o objetivo tem sido promover o diálogo e a conscientização sobre a cumplicidade das empresas com a violência israelense, visando construir uma massa crítica de trabalhadores motivados e bem informados, capazes de se engajar e se mobilizar para mudar a empresa. Eles também buscaram apoio dos principais sindicatos, mas receberam uma resposta morna.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Turim, os sindicatos estão focados na renovação dos contratos metalúrgicos e não estão dando atenção à petição, enquanto em Grottaglie os sindicalistas criticaram abertamente a oposição dos trabalhadores à empresa, pois temem que isso coloque ainda mais em risco o futuro da unidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda assim, os trabalhadores se organizaram fora dessas estruturas tradicionais, compartilhando suas petições com outras unidades de produção da Leonardo na Itália. E estão recebendo uma resposta positiva. A campanha também encontrou eco nos movimentos mais amplos de solidariedade à Palestina e pela paz.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Aprendendo com o passado</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores da Leonardo estão construindo sobre um legado de oposição dentro da indústria de defesa italiana. Na década de 1980, Elio Pagani, um funcionário da Aermacchi (agora Leonardo), documentou como a empresa forneceu aeronaves à Força Aérea Sul-Africana em janeiro de 1980, durante o apartheid, em violação ao embargo da ONU ratificado pela Itália em 1977. A denúncia de Pagani desencadeou um movimento popular que, em 1990, levou à aprovação pelo parlamento da primeira legislação italiana sobre controle de exportação e importação de armas: a Lei 185/90.</p>
<p style="text-align: justify;">Na década de 1980, a Valsella Meccanotecnica &#8211; empresa conhecida por vender minas antitanque ao Iraque durante a guerra com o Irã &#8211; foi abalada por 18 meses de greves. As trabalhadoras, lideradas por Franca Faita, finalmente venceram: a empresa perdeu importantes parceiros de produção e foi forçada a se dedicar à fabricação para o setor civil devido a uma moratória governamental de 1994 sobre a produção de minas terrestres. A empresa foi liquidada e, em 2005, fundiu-se com uma fabricante de caminhões.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, alguns fatores contextuais fizeram das décadas de 1980 e 1990 um contexto muito diferente para os trabalhadores rebeldes. O sentimento antiguerra na sociedade civil italiana era mais forte nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, e os sindicatos também eram mais independentes e mais antagônicos à política.</p>
<p style="text-align: justify;">“O que favoreceu essas iniciativas foi a presença de fortes movimentos de desarmamento e a existência de conselhos de fábrica abertos à discussão interna entre os trabalhadores e eleitos diretamente por eles”, explica Pagani.</p>
<p style="text-align: justify;">“Delegados, trabalhadores e conselhos de fábrica foram incentivados a questionar o verdadeiro significado do trabalho nas instalações militares e os efeitos das exportações de armamentos. Agora, estamos vivenciando mais de 30 anos de desertificação cultural que afetou tanto as pessoas &#8211; tornando-as mais individualistas &#8211; quanto os sindicatos, cuja atuação enfraqueceu o ímpeto dos trabalhadores.”</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda assim, as conquistas das décadas de 1980 e 1990 foram fruto de muitos anos de trabalho, afirma Pagani. “Os trabalhadores da Leonardo em Grottaglie e Turim devem persistir e buscar apoio em outras unidades de produção da empresa e em outras empresas de defesa. Sua iniciativa deve estar ligada à luta contra a logística bélica travada por estivadores, trabalhadores aeroportuários, ferroviários e de terminais intermodais na Itália.”</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, à medida que os Estados continuam a aumentar os gastos militares em meio a novas e devastadoras guerras, os trabalhadores de fábricas de armamentos em todo o mundo fariam bem em seguir as táticas italianas para desmantelar a militarização a partir de dentro.</p>
<p style="text-align: justify;">Com a guerra sempre à espreita e os Estados aumentando os gastos militares, os trabalhadores do negócio de armas podem ter um papel fundamental a desempenhar, conforme o movimento global contra a militarização grita: Não em nosso nome.</p>
<p style="text-align: center;"><em>Traduzido do original que pode ser acessado aqui: <a class="urlextern" title="https://newint.org/arms/2026/italian-arms-factory-workers-say-no-war" href="https://newint.org/arms/2026/italian-arms-factory-workers-say-no-war" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://newint.org/arms/2026/italian-arms-factory-workers-say-no-war</a></em></p>
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		<title>Mentiras que lhe dirão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Feb 2026 09:23:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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					<description><![CDATA[Mas o espírito da história se move de maneiras estranhas. O que está morto nunca morre de verdade. E ouviremos, uma e outra vez, as mesmas mentiras... Por Phil A. Neel]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Phil A. Neel</h3>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p><em>Traduzido do <a href="https://illwill.com/lies" target="_blank" rel="noopener">Inglês</a>.</em></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">A cidade glacial está sob cerco. Nos longos e frios invernos no coração do Meio-Oeste, o ar pode ficar tão frio que dói respirar. Mercenários mascarados, em veículos sem identificação, percorrem os bancos de neve, sequestrando pessoas nas ruas e levando-as para centros de detenção por períodos indeterminados. Cada um dos mercenários recebe dezenas de milhares em um “bônus de assinatura” (até 50 mil e 60 mil dólares em perdão de empréstimos estudantis), simplesmente para pegar em armas em nome do regime em batalha. Diante de uma crise econômica em câmera lenta, na qual um boom surreal do mercado de ações, apoiado pelo Estado, é acompanhado por uma estagflação persistente na economia cotidiana, o puxa-saquismo é uma das poucas indústrias que apresentam algum crescimento real. Enquanto as ruas congelam em Minneapolis, a notação do Standard &amp; Poor atinge níveis recordes. Enquanto isso, o crescimento do emprego no ano passado foi tão desanimador que, após a divulgação dos números, o regime agiu rapidamente para demitir o chefe do Departamento de Estatísticas do Trabalho e ameaçar os meios de comunicação que divulgavam os números. <strong>[1]</strong> Além do declínio no emprego, devido ao congelamento da imigração, a profundidade da crise é sinalizada pela queda contínua na Taxa de Participação na Força de Trabalho, que serviu como o maior obstáculo ao crescimento do emprego no primeiro semestre de 2025 – indicando que um montante cada vez maior de pessoas está abandonando completamente a força de trabalho, mas não são contabilizadas nas estatísticas de desemprego. <strong>[2] </strong>O cerco pode, assim, ser entendido como uma espécie de keynesianismo mercenário, destinado a compensar a falta de emprego nos novos setores de defesa movidos a IA, que têm sido o foco da política institucional mais ampla de pilhagem-e-reestruturação.</p>
<p style="text-align: justify;">Enviados de cidades distantes, eles algemam os detidos e os espancam quando mais nenhuma reação é possível. Disparam munições “não letais” com clara intenção de mutilar. Repetidas vezes, atropelam pessoas por veículos. Indivíduos que simplesmente estão voltando do trabalho para casa têm suas janelas quebradas e são arrastados para fora de seus veículos para serem espancados e detidos por horas, às vezes dias. Agora, eles estão atirando em pessoas com munição letal. Invadiram o estacionamento de uma escola de ensino fundamental. Tiraram uma mãe de seu carro, colocaram-na em uma van sem identificação e foram embora, deixando seu bebê em uma cadeirinha, com a porta aberta, em temperaturas negativas (felizmente, resgatado por pessoas da multidão). Lançaram gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral em um carro cheio de crianças, hospitalizando todas elas, incluindo um bebê de seis meses que não conseguia respirar. <strong>[3] </strong>Em represália à resposta da comunidade, eles começaram a invadir as casas de cidadãos também, muitas vezes errando os endereços. O prefeito diz que não há nada a ser feito. O governador convocou a Guarda Nacional – destacada não contra os mercenários, é claro, mas contra aqueles que protestam contra eles. As autoridades judiciais da nação não apenas se recusaram a abrir processos, mas, além disso, foram ordenadas a investigar as vítimas e seus familiares. Todas as noites, o mundo inteiro assiste a vídeos de corpos envoltos em sombras, movendo-se na escuridão gelada da cidade sitiada. Nas lives, as pessoas gritam e choram, os mercenários berram suas ameaças, disparam suas armas e, diante de uma multidão grande o suficiente, recuam. Os hotéis que os hospedam são pichados. Os carros que abandonam são saqueados. Em resposta, mais tropas são enviadas pelo presidente, um rei louco, num corpo em decomposição, berrando ordens incoerentes do seu palácio no pântano. O sol nasce e acordamos com o sabor amargo de novas atrocidades à nossa espera.</p>
<p style="text-align: justify;">Há cinco anos, a poucos quarteirões de onde Renee Good foi assassinada pelo covarde Jonathan Ross, um assassinato semelhante desencadeou a maior revolta popular em mais de uma geração. Logo depois, nos contaram uma série de mentiras sobre essa rebelião. Disseram-nos que era um “movimento social não violento”, mesmo com a imagem de uma delegacia de polícia em chamas piscando ao fundo. Disseram-nos que, embora houvesse alguma violência, ela havia sido iniciada por agitadores externos, talvez policiais, ou até mesmo nacionalistas brancos. Quem quer que fossem, eles não eram membros da “comunidade”, mas sim indivíduos apenas “querendo causar confusão”. Disseram-nos que o plano desde sempre foi processar o assassino, e que foi apenas uma coincidência que as acusações só foram feitas depois que quase todas as grandes cidades do país viram seus centros saqueados e incendiados. Disseram-nos para irmos para casa, que tudo tinha acabado. Disseram-nos que os distúrbios eram apenas a desculpa de que Trump precisava para declarar a lei marcial e cancelar as próximas eleições. Disseram-nos que, se eleito, Biden iria arrumar as coisas. Disseram-nos que as deportações iriam acabar e que as políticas de Trump seriam revertidas. As crianças seriam libertadas das jaulas. Disseram-nos que devíamos voltar ao mais do mesmo da política — que essa era a única maneira de “fazer as coisas acontecerem”. No conjunto, essas mentiras resultaram em uma única grande inverdade: a revolta nunca ocorreu e nunca poderá ocorrer novamente. <strong>[4]</strong> Mas o espírito da história se move de maneiras estranhas. O que está morto nunca morre de verdade. E ouviremos, uma e outra vez, as mesmas mentiras:</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Se você está aqui legalmente, não precisa se preocupar…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Essa é sempre a primeira mentira, que apenas os mais tresloucados ou os mais irracionais acreditam. Mesmo para os defensores ferrenhos do Estado, essa primeira mentira foi destruída no momento em que o tiro foi disparado. Por isso, ela foi reconfigurada: “se você não estiver obstruindo os agentes federais…”. E logo acrescentaram os adendos habituais: “por que você estava em um motim, para começar?” (dito às pessoas que moram no bairro); “por que você trouxe seus filhos para um protesto?” (para as famílias que buscavam os filhos na escola); “esses cidadãos têm ligações com grupos radicais de esquerda” (válido automaticamente para todos os que se opõem à agência). Eventualmente, a ladainha de mentiras proferidas por qualquer força tirânica tende a se normalizar em torno do guia de estilo das Forças de Defesa de Israel (IDF), refinado no solo bombardeado da Palestina, que há muito serve como laboratório para novos horrores. E, claro, como até uma rápida olhada na história demonstraria, os horrores nunca permanecem confinados à terra sagrada. Quando o bumerangue imperial retorna à mão que o lançou, o processo sempre começa com o chamado “elemento criminoso”. E então passa a ser os esquerdistas e os sindicalistas. E depois seus simpatizantes. E depois qualquer inimigo. Eventualmente, eles têm como alvo os inimigos inerentes da nação, figurados em termos de sangue e solo.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-158686 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="932" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-768x511.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-631x420.webp 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-640x426.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-681x453.webp 681w" sizes="(max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo completamente alheios aos protestos, cidadãos americanos foram detidos em batidas policiais e tiveram a validade de suas certidões de nascimento negada. Indígenas americanos foram mantidos em cativeiro por dias — usados, em parte, como moeda de troca para forçar as lideranças tribais a abrir seus territórios à agência. Isso não é um exagero: na cidade sitiada, qualquer pessoa que não pareça suficientemente branca (e branca da maneira certa) deve portar sua prova de cidadania o tempo todo, sob pena de ser detida e sequestrada. Este é, quase palavra por palavra, o cenário que foi profetizado pelos “esquerdistas radicais” com o advento de agências como o Departamento de Segurança Interna (DHS) e o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), após a aprovação da Patriot Act por uma coalizão bipartidária durante a Guerra ao Terror. Foi nessa mesma época que a Agência de Segurança Nacional (NSA) ganhou novos e amplos poderes. A primeira operação interagências para combater “gangues transnacionais violentas” foi iniciada em 2005, sob o governo Bush, e antecipa grande parte da linguagem ainda usada hoje. Mas o novo estado de segurança foi um esforço conjunto. Na verdade, embora tenha sido iniciado durante um governo republicano, foram os democratas que transformaram essas agências em órgãos operacionais e expandiram amplamente seus poderes.</p>
<p style="text-align: justify;">Tanto o ICE quanto o DHS foram rapidamente expandidos sob Obama, que supervisionou o maior aumento nas deportações e de campos de deportação, construídos, em parte, por meio de um acordo de US$ 1 bilhão sem licitação com a empreiteira prisional privada Core Civic (na época, Corrections Corporation of America). <strong>[5]</strong> Na verdade, Jonathan Ross, o agente que assassinou Good, foi contratado pela agência no auge dessa onda de deportações da era Obama. Nos mesmos anos, houve uma expansão dos centros de dados da NSA, incluindo a cerimônia de inauguração do Centro de Dados da Iniciativa Nacional Abrangente de Segurança Cibernética em Utah, que é talvez o núcleo da infraestrutura moderna de vigilância em massa. <strong>[6]</strong> Da mesma forma, foi o governo Obama que assinou os primeiros acordos com a Palantir para rastrear crimes transfronteiriços, estabelecendo as bases para a colaboração de longa data da empresa com o ICE. <strong>[7]</strong> Hoje, a empresa foi contratada para construir um aplicativo “que preenche um mapa com alvos potenciais de deportação, traz um dossiê sobre cada pessoa e fornece uma ‘pontuação de confiança’ sobre o endereço atual da pessoa…”. <strong>[8]</strong> Esses foram os mesmos anos em que os apelos para “abolir o ICE” ganharam força, juntamente com os apelos para reverter os programas de vigilância da NSA e desmantelar a Segurança Interna. Não é preciso dizer que essas demandas foram rejeitadas tanto por democratas quanto por republicanos como sendo nada mais do que reclamações estridentes de radicais irrealistas renitentes. Agora, enfrentamos precisamente a “realidade” que nos foi prometida.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“O assassino será processado…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Essa mentira é o bote salva-vidas para os muitos milhões que ainda se agarram a algum resquício de fé em um estado de direito outrora flutuante que, segundo qualquer critério razoável, já submergiu até o fundo do mar escuro e revolto. Vão nos dizer para esperar, para deixar o sistema funcionar, como se a ordem cívica submersa fosse ressurgir. Na realidade, essa ordem sempre foi uma gentileza temporária, possibilitada apenas pelas águas calmas de uma ordem imperial bem estabelecida. Lançado na crise, a probidade do Estado é sempre sacrificada pela efervescência do puro poder subjacente. Aqueles que baseiam sua fé nessa probidade simplesmente não conseguem entender o novo mundo em que se encontram. O que estamos testemunhando, então, é o lento e constrangedor crepúsculo da ingenuidade política bem-educada que definiu toda uma geração de liberais. Os liberais são, em sua essência, uma espécie de adoradores da legalidade. Tire-lhes a legislação e os processos judiciais e você ficará com penitentes confusos, cegos pelos horrores sombrios vislumbrados brevemente por trás de sua fé destruída. No curto prazo, eles continuarão como antes, só que com mais fervor. Confrontados com evidências incontestáveis de sua realidade política, os liberais se agarrarão ainda mais fortemente às ruínas de sua civilidade desmoronada, entrando com ação judicial após ação judicial, escrevendo para os seus deputados, indo de porta em porta para defender candidatos medíocres nas eleições de meio de mandato, tais como fanáticos cheios de feridas se flagelando em penitência pela praga.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem demora, vimos uma série interminável de ações judiciais movidas contra quase todos os aspectos do programa trumpista. Em 20 de janeiro de 2026, havia um total de 253 processos ativos de contestação de ações do governo. Porém, mesmo quando obtêm decisões favoráveis, elas se mostram inexequíveis. Por um lado, com controle decisivo sobre a Suprema Corte, bem como sobre as nomeações federais em todas as agências relevantes, qualquer contestação legal pode ser, em última instância, anulada. A Suprema Corte já anulou as ordens de tribunais inferiores em 17 ocasiões.<strong> [9]</strong> Por outro lado, os poderes executivos podem ser mobilizados para simplesmente anular decisões judiciais por decreto, seja de forma direta (por meio da proliferação de indultos presidenciais, concedidos a licitantes nos bastidores, por exemplo) ou buscando os mesmos fins, por meio de canais diferentes. Por exemplo, quando a deportação de Kilmar Abrego Garcia foi considerada ilegal por um tribunal inferior (e, em um caso raro, a decisão foi mantida pela Suprema Corte), o governo federal procurou indiciá-lo por acusações espúrias, a fim de justificar tentativas subsequentes de deportação. No entanto, precisamente porque esses casos acabam por seguir seu curso nos tribunais e, de fato, geram um certo atrito administrativo, os liberais conseguem manter uma fé mágica de que podem, eventualmente, ter êxito.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-158687 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-681x454.webp 681w" sizes="(max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso deixa pouca esperança para uma resposta judicial aos assassinatos de Renee Good e Alex Pretti. Pouco depois do assassinato de Good, Ross foi evacuado do local, que foi limpo sem registro de provas ou investigação. Da mesma forma, outras agências foram proibidas de proteger o local do assassinato de Pretti. O Departamento de Justiça não apresentou nenhuma acusação, tampouco as autoridades municipais ou estaduais. O regime tem afirmado que Ross e todos os seus outros mercenários têm imunidade total. Eles têm repetido mentiras descaradas sobre o assassinato de Pretti, imediatamente refutadas por inúmeros vídeos. Neste momento, como em qualquer assassinato cometido pela polícia, as denúncias só serão formalizadas em qualquer uma dessas mortes caso houver mobilizações em massa de escala e intensidade suficientes. Passeatas pacíficas, mesmo que enormes ou disfarçadas de “greve geral” (mas que não fecham nenhuma empresa de grande porte da cidade), não têm como alcançar esse objetivo. Neste momento, simplesmente não há nenhum mecanismo imaginável pelo qual passeatas de protesto a fim de ganhar atenção política possam encorajar alguém no poder a levar esses assuntos a julgamento. Ataques à propriedade inimiga, bloqueios totais e greves podem forçar tal resultado, à maneira dos distúrbios no caso de George Floyd, vários anos antes. Nesse caso, porém, mesmo um julgamento e uma condenação poderiam ser facilmente anulados por meio de um indulto presidencial e, se os casos de 6 de janeiro servirem de indício, tudo indica que o executivo iria atrás disso. Não se pode mais confiar que o Estado nem mesmo finja fazer justiça. Os liberais são deixados a chorar, chicoteando suas costas feridas em atos fúteis de penitência, na esperança de reconquistar a atenção de seu deus delinquente. Eventualmente, seus furúnculos estouram e a peste os leva, como aos demais.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“O ICE não é bem-vindo aqui…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Talvez isso seja verdade em algum sentido espiritual — na mente do político progressista convencido de que, no fundo do coração, o ICE não tem influência. No entanto, se você permite que atrocidades sejam cometidas na sua frente e não toma nenhuma medida substantiva para impedi-las, além de um discurso forte e talvez uma ou duas ações judiciais sem efeito, você não está, na verdade, cedendo também em espírito? Essa mentira se tornou um refrão comum entre os políticos locais. O prefeito disse isso. O governador também. E, apesar de claramente “não ser bem-vindo”, o ICE se sentiu bem à vontade. Os mercenários do ICE vagam pelas ruas. Arrombam as portas das pessoas, instruídos por seus superiores de que não precisam de um mandado assinado por um juiz. A ordem é claramente ilegal, mas isso parece não importar mais. <strong>[10]</strong> As únicas forças que minimamente se mobilizam contra essa invasão são pessoas comuns, que arriscam prisão, mutilação e morte para enfrentar os homens armados enviados para levar seus vizinhos para campos de prisioneiros. Redes robustas de defesa comunitária se espalham pela cidade congelada, enraizadas na infraestrutura criada justamente por essa incansável “extrema-esquerda” que tanto incomoda o regime. Por causa dessas redes, os mercenários raramente conseguem se mover sem serem rastreados, raramente param em algum lugar sem serem cercados e raramente tomam qualquer atitude sem serem filmados.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem dúvida, as redes de resposta comunitária desse tipo estão entre as formas mais importantes de organização de classe que os EUA viram nas últimas décadas. Conforme explicado por Adrian Wohlleben:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">Com a construção de eixos de defesa, ou “centros”, combinados com outras práticas autônomas de rastreamento, perseguição e interrupção, a luta atual contra o ICE iniciou uma repolitização da inteligência infraestrutural, juntamente com uma inversão de sua orientação “cinegética” (de presa para predador). Esse fato, combinado com a notável tendência de restituir o político nos espaços da vida cotidiana, aponta para uma superação dos limites de 2020… <strong>[11]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">No entanto, parece improvável que até mesmo essa inteligência infraestrutural distribuída e incorporada ao tecido urbano da vida cotidiana seja suficiente. Embora seja um primeiro passo necessário, o andamento da história muitas vezes ultrapassa nossos esforços. Para acompanhar, é necessário dar um salto para o desconhecido.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Vá lá e vote…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Estamos diante de uma realidade sombria: a invasão está aqui, a santificada “resistência” da classe política nunca chegou e o poder bruto que governa o mundo está escancarado para todos. Os democratas já recusaram, em larga medida, os apelos para pressionar pela abolição do ICE e, em vez disso, defenderam sua fórmula desgastada de câmeras corporais e melhor treinamento. <strong>[12]</strong> Diante de tudo isso, como uma mentira tão simples pode persistir? Como alguém poderia estar legitimamente convencido de que votar, ainda mais nas eleições de meio de mandato, enfraqueceria o poder do regime? No entanto, mesmo para os ex-liberais desiludidos com sua fé nos canais legais, que agora perseguem o ICE em seus Honda Fit, soprando seus pequenos apitos e brandindo seus celulares como um escudo — e, apesar do disparate da imagem, legitimamente arriscando a morte para fazê-lo —, uma fé residual no sistema eleitoral permanecerá, mesmo depois que qualquer crença na ordem judicial tiver sido destruída. As eleições são, para os liberais, precisamente a maneira pela qual os erros sistêmicos são corrigidos. Elas oferecem um caminho de volta aos domínios legislativo e executivo, de onde o poder parece ser exercido. Assim, apoderar-se do legislativo em 2026 e, com sorte, o executivo em 2028, parece ser um meio razoável pelo qual o regime poderia ser deposto e seus erros, corrigidos. No entanto, mesmo para os liberais agora mobilizados, o medo paira no fundo da mente: e se isso for, afinal, uma mentira?</p>
<p style="text-align: justify;">A ilusão do “vá lá e vote” persiste, em parte, porque os EUA agora se transformaram totalmente no que Ernst Fraenkel, um advogado trabalhista que viveu a ascensão dos nazistas, chamou de “estado duplo”, no qual o regime é capaz de “manter uma economia capitalista governada por leis estáveis — e manter uma normalidade cotidiana para muitos de seus cidadãos — ao mesmo tempo em que estabelece um domínio de ilegalidade e violência estatal”, nas palavras do acadêmico Aziz Huq. Nessa modalidade de duas vias, um “Estado normativo”, marcado por um “sistema jurídico comum de regras, procedimentos e precedentes”, continua a operar, enquanto, paralelamente, um “Estado prerrogativo”, definido por “arbitrariedade ilimitada e violência sem controle por garantias legais”, se torna a norma em certas áreas geográficas ou na governança de grupos demográficos específicos. Para Fraenkel, essa zona “sem lei” não nega totalmente a zona legal, mas opera em conjunto com ela, mesmo que os “dois estados coabitem de forma incômoda e instável” porque “pessoas ou casos podem ser arrancados do estado normativo e jogados no estado prerrogativo” por um capricho político. Mas a tendência é clara: com o tempo, o ditatorial “estado prerrogativo distorceria e lentamente desmantelaria os procedimentos legais do estado normativo, deixando um domínio cada vez menor para a lei comum”. <strong>[13]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso é possível, em parte, porque o poder social não opera principalmente por meio do Estado. Na sua raiz, o poder da elite sobre as massas populares é econômico. O Estado e toda a classe política que o dirige são, em última análise, uma emanação dessa forma mais fundamental de poder de classe, definida pelo controle sobre a riqueza social. Essa é a chave para compreender o comportamento aparentemente suicida do regime: o Estado nunca teve a intenção de servir como uma instituição representativa universal que defende os direitos do “povo” de forma abstrata. Ele sempre foi projetado para ser, em última análise, uma máquina para negociar entre segmentos da elite proprietária e defender seus interesses. Em certos períodos de prosperidade imperial, os interesses gerais da população estão vagamente alinhados com os da elite. Mas esses são pactos temporários. Embora Fraenkel, nascido e criado em uma dessas épocas, veja o Estado prerrogativo como uma exceção, esse está, na verdade, mais próximo da norma histórica. O mistério do comportamento bizarro do regime se dissipa quando o vemos como uma luta faccional entre os quadros existentes das elites — em outras palavras, como um mecanismo de poder e pilhagem, empregado por certas facções do capital contra a população em geral, e potencialmente em detrimento de outras facções — e uma tentativa frenética dessas elites, desafiadas por blocos ascendentes de capital em outros lugares, de definir um curso estratégico que permita que seu poder sobreviva em um futuro geopolítico incerto.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158688 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover.webp" alt="Mentiras que irão te contar " width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Talvez a tendência mais importante por trás do surgimento de um estado dual ditatorial seja esta: mesmo enquanto a inflação dizima os salários e os custos da energia disparam na economia cotidiana, o mercado de ações atingiu níveis sem precedentes. Como resultado, os quinze capitalistas mais ricos do país ganharam quase US$ 1 trilhão em riqueza ao longo de 2025 (de US$ 2,4 trilhões para US$ 3,2 trilhões), enquanto todos os 935 bilionários dos EUA juntos agora controlam o dobro da riqueza (US$ 8,1 trilhões) da metade mais pobre da população (170 milhões de pessoas). <strong>[14]</strong> Tampouco isso é uma exceção trumpista. É, ao contrário, parte de uma tendência que vem se consolidando desde a era Obama, no início da década de 2010 — que, por sua vez, reviveu uma tendência que começou no final da década de 1990 com a primeira bolha da internet, antes de ser interrompida por seu colapso — e que se acelerou em níveis sem precedentes, não sob Trump, mas sob Biden. No total, os 0,01% mais ricos dos americanos (cerca de 16 mil famílias de elite) controlam agora cerca de 12% da riqueza nacional, três vezes mais do que a mesma parcela da população controlava no auge da Era Dourada do século XIX. <strong>[15]</strong> Apesar dos contínuos alertas de que Trump está “destruindo a economia”, a realidade é que a economia está funcionando muito bem. Dada essa realidade sombria, não devemos imaginar que eleger democratas, em distritos eleitorais já grotescamente manipulados pelo gerrymandering, resultaria em um regime substancialmente diferente do atual.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Não dê a Trump um pretexto…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Aqui chegamos ao cerne da questão. Uma vez que a ilusão da civilidade desmorona, revelando a força e a fraude do poder como tal, novas mentiras surgem para servir a funções clássicas de contra-insurgência. Seu objetivo é atenuar a resposta imediata ao Estado tirânico, auxiliá-lo em sua repressão expondo militantes e impedir qualquer preparação para o que está por vir. “Não dê a eles um pretexto”, “Não morda a isca”, “Não dê a eles o que querem” — tudo isso acompanhado de novas teorias da conspiração sobre tijolos pré-plantados e agentes provocadores. Como em 2020, essas mentiras giram em torno da alegação de que lutar contra o exército invasor de mercenários acabará por dar ao governo uma desculpa para invocar a Lei de Insurreição e impor a lei marcial. Essa mentira parece ter integridade porque o regime ameaçou repetidas vezes fazer exatamente isso. Mas logo qualquer traço de lógica evapora-se. O que seria um “pretexto” suficiente e por que um regime que não tem absolutamente nenhum escrúpulo em violar a constituição, falsificar provas e perseguir seus oponentes precisaria de tal desculpa? Por que simplesmente não inventar uma? Agentes federais invadiram uma cidade e estão atacando e assassinando civis ativamente — isso já é uma forma de lei marcial, só que não no papel. Mais importante ainda, o objetivo principal da lei marcial é impor a quietude. Recompensar preventivamente o regime com exatamente o que ele quer não evita tanto a lei marcial, mas a torna desnecessária. Se as pessoas continuarem a se recusar a ficar quietas e o regime acabar invocando os poderes normativos adequados para declarar a lei marcial, isso não será culpa de ninguém além do próprio regime, independentemente do que ele escolher como gatilho.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas também temos que perguntar se a lei marcial é, de fato, necessária. Como sugere o modelo de estado duplo de Fraenkel, não há um momento em que um governo eleito se torna repentinamente autoritário. Em vez disso, formas prerrogativas de poder coexistem com as normativas e expandem progressivamente seu domínio de influência ao longo do tempo. O cerco às Cidades Gêmeas é uma evidência clara de que tal processo está bem encaminhado. Manifestar-se pacificamente contra o poder prerrogativo não faz nada para impedir seu progresso. Portanto, nos deparamos com uma escolha: ou não fazer nada além de protestar e registrar o aumento da repressão lentamente nas sombras, ou resistir abertamente e, assim, forçar essa repressão a se revelar para que todos vejam. A primeira opção traz menos riscos imediatos. Ela pode ser justificada como uma pausa estratégica enquanto construímos nossas capacidades. Mas tal afirmação requer então apontar onde essas capacidades estão sendo construídas. Enquanto isso, resistir abertamente acarreta enormes riscos imediatos: prisões em massa, tortura e assassinatos seletivos de ativistas, além de abrir as portas para uma aplicação ainda mais ampla do poder prerrogativo contra uma parcela maior da população. A principal diferença entre as duas opções é que a resistência aberta pelo menos traz consigo a possibilidade de desencadear a mobilização em massa necessária para construir o poder popular e derrubar uma elite tirânica, enquanto a petição por meio de canais normativos restritos não traz essa possibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A história demonstra claramente que tentar esperar que a situação se agrave ainda mais, na esperança de que o estado normativo seja restaurado por meio da intervenção de seus adeptos remanescentes (neste caso, políticos democratas, certos republicanos de centro e tecnocratas do governo, como Jerome Powell), apenas fortalece as elites que se beneficiam da ordem prerrogativa. A questão é, portanto, dupla: primeiro, o que deve ser feito? Segundo, o que será feito conosco independentemente disso? É aqui que surge a questão da guerra civil. A política americana pode ser entendida como sempre existindo em um estado latente de guerra civil. Sob certas condições, essa latência então cai por terra e o espectro de uma guerra civil real torna-se amplamente visível. Já em 2020, esse “espectro sempre presente de uma segunda guerra civil, mais balcanizada” havia entrado na consciência pública. <strong>[16]</strong> A visão da guerra civil tende a acompanhar as mudanças no exercício do poder estatal, particularmente em resposta a revoltas emancipatórias. Conforme explicado por Idris Robinson:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">O funcionamento do Estado se dá, fundamentalmente, afastando a ameaça onipresente de guerra civil. O Estado, como tal, pode ser considerado como aquilo que bloqueia e inibe a guerra civil. O que é único neste país é a nossa tradição emancipatória singular, que está ligada à nossa compreensão da guerra civil. <strong>[17]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, a reestruturação aparentemente suicida do Estado em duas vias é um meio padrão através do qual as revoltas populares e outros conflitos sociais incendiários são inibidos e a ordem existente, restaurada.</p>
<p style="text-align: justify;">No passado, os poderes prerrogativos foram invocados precisamente para afastar o espectro da guerra civil e da revolução. Desde a sua aprovação em 1807, a Lei da Insurreição foi invocada pelo menos 30 vezes por quinze presidentes, formal e informalmente. Da mesma forma, a lei marcial foi declarada pelo menos 68 vezes. Embora ambos tenham sido usados para conter ameaças da direita (particularmente durante a Reconstrução e o movimento pelos direitos civis do pós-guerra) ou conflitos violentos entre grupos de trabalhadores, os usos mais comuns da força militar federal têm sido, de longe, a repressão de revoltas de escravos, greves e outras revoltas. Uma das primeiras grandes mobilizações internas das forças armadas dos EUA foi realizada pelo genocida Andrew Jackson para reprimir a rebelião de escravos de Nat Turner, em 1831. Da mesma forma, a Lei de Insurreição foi invocada por Rutherford Hayes para encerrar a Grande Greve Ferroviária de 1877, por Warren Harding durante a Batalha de Blair Mountain, em 1921, — a maior revolta armada desde a Guerra Civil —, por Lyndon Johnson, em resposta aos distúrbios que se seguiram ao assassinato de Martin Luther King Jr., em 1968, e por George H.W. Bush, em resposta à revolta em Los Angeles, em 1992. <strong>[18]</strong> Em outras palavras, nem invocar a Lei de Insurreição nem declarar lei marcial sinaliza necessariamente uma guerra civil iminente, ou mesmo a suspensão do poder normativo.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Um agente provocador começou tudo…”</h3>
<p style="text-align: justify;">À medida que o cerco continua, as atrocidades se acumulam e os apelos e protestos dos políticos progressistas provam ser impotentes, algo vai acontecer. Mais e mais pessoas vão começar a destruir propriedades do ICE sempre que puderem. Cada vez mais pessoas verão a necessidade de fechar e destruir a infraestrutura econômica central através da qual o poder da elite opera. Por exemplo, o UnitedHealth Group, com sede nos subúrbios de Minneapolis, foi um dos principais doadores da campanha de Trump (mais de US$ 5 milhões, juntamente com Musk) e é um dos principais beneficiários das políticas do Projeto 2025 de Trump. <strong>[19]</strong> Da mesma forma, a corporação Target, também sediada nos subúrbios das Cidades Gêmeas — e conhecida por operar um dos maiores bancos de dados de reconhecimento facial do mundo, compartilhando esses dados com o governo — doou US$ 1 milhão para o fundo de posse de Trump e tem colaborado ativamente com as forças de ocupação. <strong>[20]</strong> À medida que a polícia e a Guarda Nacional entrarem em cena para apoiar o ICE, as pessoas se insurgirão. As greves se espalharão. Eventualmente, quando ficar claro que o ICE pode e vai matar você sem consequências, alguém revidará. É aí que surge a mentira final, dizendo-nos que a revolta em si não foi iniciada pela população, mas por “agitadores externos”, policiais à paisana ou até mesmo supremacistas brancos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa mentira tem uma longa história, já bem documentada. <strong>[21]</strong> E, no entanto, a mentira persiste, perpetuada ativamente por ativistas que agem como informantes autoproclamados dentro de qualquer movimento em curso. Ao alegar que qualquer ação agressiva praticada contra o inimigo é cometida por agentes da polícia secreta, esses informantes, de fato, perseguem, vigiam e, às vezes, detêm manifestantes para entregá-los à polícia. Muitas vezes, a própria polícia incentiva esse mito, como durante a Rebelião de George Floyd, em 2020, quando se espalharam rumores de que a primeira janela havia sido quebrada por um policial à paisana ou um supremacista branco, e a polícia então divulgou uma declaração juramentada, fingindo tê-lo identificado como membro dos Hells Angels, para, pouco depois, abandonar discretamente tal alegação — nenhuma acusação foi apresentada, enquanto as evidências dos registros de prisão mostravam claramente que a maioria dos detidos nos distúrbios vinha das imediações. <strong>[22]</strong> Dois outros casos de 2020 mostram as consequências da disseminação de tais rumores.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro ocorreu em Seattle: depois que a polícia abandonou a delegacia leste da cidade, a área foi ocupada por manifestantes. Houve intensos debates sobre se a delegacia seria incendiada, como em Minneapolis. Muitos alegaram que qualquer tentativa de fazê-lo seria uma ação de um agente provocador. Então, em 12 de junho, um homem com roupa colorida decidiu tentar, empilhando detritos contra a lateral do prédio, ateando fogo e indo embora. Ativistas no local apagaram o fogo, enquanto outros perseguiram e filmaram o homem, alegando que ele era um agente provocador. Embora ele tenha escapado, esses ativistas-informantes postaram as imagens online e as divulgaram até que fossem compartilhadas com a polícia, que as usou para identificar Isaiah Thomas Willoughby como suspeito. Willoughby se declarou culpado por incêndio criminoso no ano seguinte e foi condenado a dois anos de prisão e mais alguns anos de liberdade condicional depois disso. Logo, foi revelado que Willoughby não era um agente provocador, mas sim o companheiro de casa enlutado de Manuel Ellis, um homem desarmado assassinado pela polícia na cidade vizinha de Tacoma, no início daquele ano. <strong>[23]</strong></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158689 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar " width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O segundo caso ocorreu em Atlanta: depois que Rayshard Brooks foi morto pela polícia de Atlanta do lado de fora de um Wendy’s local, pessoas do bairro ocuparam o terreno e, posteriormente, incendiaram o prédio. Informantes-ativistas imediatamente alegaram que o incêndio criminoso foi um ato de um agente provocador e vasculharam a internet para encontrar vídeos de uma mulher branca supostamente ateando fogo, que foram então entregues à polícia. A mulher branca, porém, não era uma agente provocadora. Ela era, na verdade, a namorada de Rayshard Brooks e, por causa desses informantes, foi acusada e declarada culpada por incêndio criminoso. <strong>[24]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso não quer dizer que policiais à paisana ou informantes não participem dos protestos. Há evidências bem documentadas de que eles o fazem. Da mesma forma, agentes federais se infiltram em grupos ativistas, onde sugerem e ajudam a coordenar ações altamente ilegais como forma de armadilha — isso é algo absolutamente a se prestar atenção dentro de assembleias públicas e espaços fechados para planejamento e preparação. Mas isso não ocorre no meio de um protesto ativo. Como qualquer veterano das lutas políticas nos Estados Unidos pode dizer, os policiais à paisana colocados no meio dos protestos quase sempre têm a tarefa de gravar secretamente, comunicar-se com a polícia do outro lado e, em certos casos, deter participantes que se preparam para atirar objetos ou empunhar armas. Em outras palavras, os policiais à paisana desempenham praticamente a mesma função que os próprios ativistas informantes. O objetivo final do mito do agente provocador é, portanto, fazer com que os ativistas desempenhem o papel de contra-insurgentes.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Estamos em desvantagem…”</h3>
<p style="text-align: justify;">A mentira final afirma que, mesmo que tentássemos, não há como revidar. Essa é a desculpa já mobilizada pelo prefeito, que justificou não mobilizar a polícia para impedir ou investigar os mercenários com alegações de que o ICE superaria em número e armamento as forças policiais locais. <strong>[25]</strong> Da mesma forma, o governador sabe que chamar a Guarda Nacional contra uma agência federal seria um ato criminoso, resultando na federalização das tropas estaduais, o que, se resultar em divisões nas cadeias de comando, é convencionalmente visto como o caminho mais provável para confrontos entre as forças estaduais e federais e, portanto, o início de uma guerra civil — como é explicado em um artigo amplamente compartilhado que documenta simulações de potenciais conflitos civis, realizadas por acadêmicos da Universidade da Pensilvânia. [26] No entanto, todas essas considerações são incapazes de compreender dois fatos cruciais. Primeiro, elas aceitam a suposta oposição entre “democratas” e “republicanos” tal como essa se apresenta e, assim, superestimam a disposição dos políticos locais — muitos financiados por exatamente os mesmos interesses corporativos que Trump — de se comprometerem com qualquer coisa que se assemelhe remotamente a uma resistência significativa a uma invasão federal. Segundo, eles assumem que a resistência deve vir de dentro do próprio estado, talvez apoiada por instituições afiliadas, como sindicatos e organizações sem fins lucrativos. Ao fazer isso, eles ignoram completamente o papel de uma população mobilizada.</p>
<p style="text-align: justify;">A perspectiva de uma guerra civil real surge quando conflitos materiais estabelecidos entre as elites coincidem com a agitação popular, permitindo que esta última sirva de veículo para os primeiros. As guerras civis podem escalar para conflitos revolucionários quando sua dimensão popular é organizada independentemente dessas elites e assume um caráter partisan <strong>[*]</strong> — ou seja, que busca não apenas uma redistribuição de bens ou direitos dentro do sistema existente, mas a transformação social desse próprio sistema, em direção a fins emancipadores. No momento, os conflitos entre grupos de elite não são suficientes para incentivar qualquer rebelião liderada por políticos locais. É muito improvável que o conflito simulado entre as forças estaduais e federais realmente ocorra, a menos que seja desencadeado de fora, ou seja, pela agitação popular vinda de baixo. E é precisamente aí que as previsões existentes falham, recusando-se a levar em conta a perspectiva de um conflito mais geral, em toda a sociedade, com as forças de ocupação. A realidade que os políticos liberais estão tentando desesperadamente disfarçar é que o povo supera em número a força invasora, que o poder das elites econômicas por trás de Trump depende dos trabalhadores e que, mesmo que minimamente organizados, esses trabalhadores têm, portanto, a capacidade de derrotar a invasão por conta própria.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158690 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota da tradução</strong></p>
<p style="text-align: justify;">[*] Para Phil A. Neel, partisan refere-se ao indivíduo ou grupo que participa ativamente nas lutas que emergem de conflitos de classe cotidianos e localizados. Trata-se, portanto, do projeto comunista que visa intervir diretamente nas lutas, e não teorizar o movimento de forma abstrata. Ver “Teoria do Partido” (disponível em <a href="https://antipoda.comrades.sbs/traducao/2025/09/21/teoriadopartido.html" target="_blank" rel="noopener">Antípoda</a> ).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas do autor</strong></p>
<p style="text-align: justify;">1.Peter Hart, “Trump’s Attacks on Jobs Numbers Are Noise – And Still Dangerous”, Center for Economic and Policy Research, 23 de setembro de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">2. Leila Bengali, Ingrid Chen, Addie New-Schmidt e Nicolas Petrosky-Nadeau, “The Recent Slowdown in Labor Supply in Demand”, Federal Reserve Bank of San Francisco, 12 de janeiro de 2026. Figura 4.</p>
<p style="text-align: justify;">3. Kilat Fitzgerald, “North Minneapolis ICE shooting: Children hospitalized after flash bang, tear gas hits van”, Fox9 KMSP, 15 de janeiro de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">4. Identificando essa resposta desde o início, Idris Robinson afirmou a verdade: “De fato, uma revolta militante ocorreu em todo o país. A ala progressista da contra-insurgência visa negar e desarticular esse acontecimento.” (“How it Might Should be Done”, Ill Will, 16 de janeiro de 2020 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">5. Eric Levitz, “The Obama Administration’s $1 Billion Giveaway to the Private Prison Industry”, New York Magazine Intelligencer, 15 de agosto de 2016 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">6. Ingrid Burrington, “A Visit to the NSA’s Data Center in Utah”, The Atlantic, 19 de novembro de 2015. Disponível online aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">7. Palantir, “Sobre a Palantir”, Palantir, 21 de agosto de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">8. Joseph Cox, “‘ELITE’: The Palantir App ICE Uses to Find Neighborhoods to Raid”, 404 Media, 15 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">9. Lawfare, “Trump Administration Litigation Tracker”, Lawfare, 20 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">10. Luke Barr, “ICE memo allows agents to enter homes without judicial warrant: Whistleblower complaint”, ABC News, 22 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">11. Adrian Wohlleben, “Revolts Without Revolution”, Ill Will, 14 de novembro de 2025 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">12. Mychal Denzel Smith, “‘Abolish ICE’ Is More Popular Than Ever. How Will Democrats Drop the Ball This Time?”, The Intercept, 18 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">13. Aziz Huq, “America is Watching the Rise of a Dual State”, The Atlantic, 23 de março de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">14. Sharon Zhang, “Top 15 US Billionaires Gained Nearly $1 Trillion in Wealth in Trump’s First Year”, Truthout, 7 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">15. Marcus Nunes, “The Great Reconcentration: Why America’s Ultra-Wealthy Now Control 12% of National Wealth”, Money Fetish, 20 de janeiro de 2026. Disponível online aqui. (O número citado por Nunes 2026 usa a metodologia estabelecida em: Emmanuel Saez e Gabriel Zucman, “The Rise of Income and Wealth Inequality in America: Evidence from Distributional Macroeconomic Accounts”, Journal of Economic Perspectives, 34(4), outono de 2020 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">16. Robinson, “How it Might Should be Done”.</p>
<p style="text-align: justify;">17. Robinson, “How it Might Should be Done”.</p>
<p style="text-align: justify;">18. Joseph Nunn, Elizabeth Goitein, “Guide to Invocations of the Insurrection Act”, Brennan Center for Justice, 25 de abril de 2022 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">19. Ian Vandewalker, “Unprecedented Big Money Surge for Super PAC Tied to Trump”, Brennan Center for Justice, 5 de agosto de 2025. Disponível online aqui; People’s Action, “UnitedHealth Will Be a Top Beneficiary of Trump’s Project 2025”, People’s Action, 15 de outubro de 2024 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">20. KPFA, “The Hidden Side of Target: Surveillance, Policing, and a Call for Scrutiny”, KPFA, 20 de fevereiro de 2025. Disponível online aqui; Mike Hughlett, “Target gave $1M to Trump inauguration fund, a first for the company”, The Minnesota Star Tribune, 29 de abril de 2025 (disponível online aqui); Louis Casiano, “Anti-ICE agitators occupy Minnesota Target store, demand retailer stop helping federal agents”, Fox News, 19 de janeiro de 2026 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">21. Dave Zirin, “The Fiction of the ‘Outside Agitator”, The Nation, 3 de maio de 2024 (online aqui); Code Switch, “Unmasking the ‘Outside Agitator’”, NPR, 10 de junho de 2020 (online aqui); Glenn Houlihan, “The ‘Outside Agitator’ Is a Myth Used to Weaken Protest Movements”, In These Times, 3 de junho de 2020 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">22. Logan Anderson, “Who was Umbrella Man, who smashed windows before ‘first fire’ in 2020 Minneapolis protests?”, The Minnesota Star Tribune, 30 de maio de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">23. Mike Carter, “CHOP protester who pleaded guilty to arson was Manuel Ellis’ housemate, lawyer says”, The Seattle Times, 9 de junho de 2021 (online aqui); Procuradoria dos Estados Unidos, “Tacoma man sentenced to two years in prison for early morning fire in ‘CHOP’ zone”, United States Attorney’s Office Western District of Washington, 5 de outubro de 2021 (online aqui). 24. Para uma visão geral dos protestos em Atlanta, consulte: Anônimo, “At the Wendy’s: Armed Struggle at the End of the World”, Ill Will, 9 de novembro de 2020 (online aqui). Para saber mais sobre as consequências legais, consulte: Kate Brumback, “2 Plea Guilty in Fire at Atlanta Wendy’s During Protest After Rayshard Brooks Killing”, Claims Journal, 7 de dezembro de 2023 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">25.Tim Miller e Anne Applebaum, “Anne Applebaum and Jacob Frey: Using Lies to Justify Violence”, The Bulwark, 9 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">26.Claire Finkelstein, “We ran high-level US civil war simulations. Minnesota is exactly how they start”, The Guardian, 21 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Como os hackers estão revidando contra o ICE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Feb 2026 22:47:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Mesmo diante de uma forte presença policial interna com ampla capacidade de vigilância e tecnologias de ponta, ainda existem maneiras de nos defendermos da vigilância. Por Cooper Quintin]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Cooper Quintin</h3>
<p style="text-align: justify;">O ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) tem invadido cidades americanas, buscando, <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.brennancenter.org/our-work/research-reports/ice-wants-go-after-dissenters-well-immigrants" href="https://www.brennancenter.org/our-work/research-reports/ice-wants-go-after-dissenters-well-immigrants" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">vigiando</a>, <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.propublica.org/article/immigration-dhs-american-citizens-arrested-detained-against-will" href="https://www.propublica.org/article/immigration-dhs-american-citizens-arrested-detained-against-will" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">assediando</a>, <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.opb.org/article/2025/12/06/vancouver-ice-alleged-crushing-legs/" href="https://www.opb.org/article/2025/12/06/vancouver-ice-alleged-crushing-legs/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">agredindo</a>, <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://kstp.com/kstp-news/local-news/woman-says-she-was-detained-by-ice-in-minneapolis-for-being-a-citizen-observer/" href="https://kstp.com/kstp-news/local-news/woman-says-she-was-detained-by-ice-in-minneapolis-for-being-a-citizen-observer/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">detendo</a> e <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.amnesty.org/en/latest/news/2025/12/estados-unidos-nuevas-investigaciones-revelan-violaciones-de-derechos-humanos-en-los-centros-de-detencion-de-alligator-alcatraz-y-krome-en-florida/" href="https://www.amnesty.org/en/latest/news/2025/12/estados-unidos-nuevas-investigaciones-revelan-violaciones-de-derechos-humanos-en-los-centros-de-detencion-de-alligator-alcatraz-y-krome-en-florida/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">torturando</a> imigrantes indocumentados. Também tem <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.propublica.org/article/immigration-dhs-american-citizens-arrested-detained-against-will" href="https://www.propublica.org/article/immigration-dhs-american-citizens-arrested-detained-against-will" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">como alvo pessoas</a> com <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.opb.org/article/2025/10/30/tacoma-hillsboro-victor-cruz-ice-immigration-oregon-law-enforcement/" href="https://www.opb.org/article/2025/10/30/tacoma-hillsboro-victor-cruz-ice-immigration-oregon-law-enforcement/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">autorização de trabalho</a>, <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://truthout.org/articles/ice-kidnapped-my-neighbor-in-broad-daylight-the-aftermath-left-me-reeling/" href="https://truthout.org/articles/ice-kidnapped-my-neighbor-in-broad-daylight-the-aftermath-left-me-reeling/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">solicitantes de asilo</a>, <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.theguardian.com/us-news/2025/dec/15/ice-lawsuit-violent-assault" href="https://www.theguardian.com/us-news/2025/dec/15/ice-lawsuit-violent-assault" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">residentes permanentes</a> (portadores de “green card”), <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://sahanjournal.com/immigration/ice-arrest-cedar-riverside-minneapolis-somali-man/" href="https://sahanjournal.com/immigration/ice-arrest-cedar-riverside-minneapolis-somali-man/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">cidadãos naturalizados</a> e <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.houstonchronicle.com/opinion/outlook/article/i-m-citizen-ice-wrongfully-detained-me-21244415.php" href="https://www.houstonchronicle.com/opinion/outlook/article/i-m-citizen-ice-wrongfully-detained-me-21244415.php" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">até mesmo cidadãos por nascimento.</a> O ICE gastou <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=http://www.eff.org/deeplinks/2026/01/ice-going-surveillance-shopping-spree" href="http://www.eff.org/deeplinks/2026/01/ice-going-surveillance-shopping-spree" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">centenas de milhões de dólares em tecnologia de vigilância</a> para espionar qualquer pessoa — e potencialmente todos — nos Estados Unidos. Pode ser difícil imaginar como se defender contra uma força tão avassaladora. Mas alguns hackers criativos iniciaram projetos para realizar contra-vigilância contra o ICE e, com sorte, proteger suas comunidades por meio do uso inteligente da tecnologia.</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos começar com a Flock, a empresa por trás de diversas tecnologias <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://sls.eff.org/technologies/automated-license-plate-readers-alprs" href="https://sls.eff.org/technologies/automated-license-plate-readers-alprs" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">de leitura automática de placas de veículos</a> (ALPR) e outras câmeras. Você pode se surpreender com a quantidade de câmeras da Flock em sua comunidade. Muitas prefeituras, grandes e pequenas, em todo o país, fecharam contratos com a Flock para que os leitores de placas rastreiem a movimentação de todos os carros em suas cidades. Embora esses contratos sejam firmados por departamentos de polícia locais, muitas vezes o ICE <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.404media.co/ice-taps-into-nationwide-ai-enabled-camera-network-data-shows/" href="https://www.404media.co/ice-taps-into-nationwide-ai-enabled-camera-network-data-shows/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">também obtém acesso às informações</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Devido à sua onipresença, as pessoas têm interesse em descobrir onde e quantas câmeras Flock existem em suas comunidades. Um projeto que pode ajudar com isso é o <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.hackster.io/news/colonel-panic-s-oui-spy-is-a-slick-bluetooth-low-energy-scanner-or-a-foxhunting-handset-c16927adad71" href="https://www.hackster.io/news/colonel-panic-s-oui-spy-is-a-slick-bluetooth-low-energy-scanner-or-a-foxhunting-handset-c16927adad71" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">OUI-SPY</a>, um pequeno dispositivo de hardware de código aberto. O OUI-SPY funciona com um chip barato compatível com Arduino, chamado ESP-32. Existem vários programas disponíveis para serem carregados no chip, como o “Flock You”, que permite detectar câmeras Flock, e o “Sky-Spy”, para detectar drones sobrevoando a área. Há também o “BLE Detect”, que detecta vários sinais Bluetooth, incluindo os da Axon, dos óculos Ray-Ban da Meta que <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://github.com/sh4d0wm45k/glass-detect/blob/main/glass-detect/glass-detect.ino" href="https://github.com/sh4d0wm45k/glass-detect/blob/main/glass-detect/glass-detect.ino" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">gravam você secretamente</a> e muito mais. Ele também possui um modo conhecido como “caça à raposa” para rastrear um dispositivo específico. Ativistas e pesquisadores podem usar essa ferramenta para mapear diferentes tecnologias e quantificar a disseminação da vigilância.</p>
<p style="text-align: justify;">Existe também o <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://wigle.net/" href="https://wigle.net/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aplicativo de código aberto Wigle</a>, projetado principalmente para mapear redes Wi-Fi, mas que também possui a capacidade de emitir um alerta sonoro quando um identificador específico de Wi-Fi ou Bluetooth é detectado. Isso significa que você pode configurá-lo para receber uma notificação quando detectar produtos da Flock, Axon ou outros dispositivos indesejados nas proximidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Um YouTuber criativo, Benn Jordan, <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.youtube.com/watch?v%3DPp9MwZkHiMQ" href="https://www.youtube.com/watch?v%3DPp9MwZkHiMQ" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">descobriu uma maneira de enganar as câmeras Flock</a> para que não gravassem sua placa, simplesmente pintando um pequeno ruído visual sobre ela. Isso é inofensivo o suficiente para que qualquer pessoa ainda consiga ler a placa, mas impediu totalmente que os dispositivos Flock a reconhecessem como tal naquele momento. <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://codes.findlaw.com/ca/vehicle-code/veh-sect-5201/" href="https://codes.findlaw.com/ca/vehicle-code/veh-sect-5201/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Alguns estados americanos</a> proíbem motoristas de ocultar suas placas. Portanto, essa prática não é recomendada.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais tarde, Jordan descobriu <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.youtube.com/watch?v%3DvU1-uiUlHTo" href="https://www.youtube.com/watch?v%3DvU1-uiUlHTo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">centenas de câmeras Flock mal configuradas</a> que expunham sua interface de administrador sem senha na internet pública. Isso permitia que qualquer pessoa com conexão à internet visualizasse transmissões de vigilância ao vivo, baixasse 30 dias de vídeo, visualizasse registros e muito mais. As câmeras estavam apontadas para parques, trilhas públicas, cruzamentos movimentados e até mesmo um parquinho infantil. Isso representou uma enorme quebra de confiança pública e uma grande falha para uma empresa que alega trabalhar pela segurança pública.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158677" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/logo-footer.png" alt="" width="557" height="752" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/logo-footer.png 557w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/logo-footer-222x300.png 222w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/logo-footer-311x420.png 311w" sizes="auto, (max-width: 557px) 100vw, 557px" />Também foram lançados diversos aplicativos para denúncia de avistamentos de agentes do ICE, incluindo aplicativos para relatar avistamentos de agentes do ICE em sua área, como <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://stopice.net" href="https://stopice.net" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Stop ICE Alerts</a>, <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://iceout.org" href="https://iceout.org" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">ICEOUT.org</a> e ICE Block. O ICEBlock foi <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://9to5mac.com/2025/10/02/following-doj-pressure-apple-pulls-iceblock-from-the-app-store/" href="https://9to5mac.com/2025/10/02/following-doj-pressure-apple-pulls-iceblock-from-the-app-store/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">removido da lista de aplicativos da Apple a pedido da Procuradora-Geral Pam Bondi</a>, fato pelo qual <a class="urlextern" title="https://www-eff-org.translate.goog/cases/eff-v-doj-dhs-ice-tracking-apps?_x_tr_sl=auto&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt-BR&amp;_x_tr_pto=wapp" href="https://www.eff.org/cases/eff-v-doj-dhs-ice-tracking-apps" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">estamos processando a empresa</a>. Há também o Eyes Up, um aplicativo para gravar e arquivar com segurança operações do ICE, <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://mashable.com/article/apple-removes-app-archiving-videos-of-ice" href="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://mashable.com/article/apple-removes-app-archiving-videos-of-ice" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">que foi retirado do ar pela Apple no início deste ano.</a></p>
<p style="text-align: justify;">Outro projeto interessante que documenta o ICE e cria um acervo de informações de código aberto é <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://wiki.icelist.is/index.php?title%3DMain_Page" href="https://wiki.icelist.is/index.php?title=Main_Page" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">o ICE List Wiki</a>, que contém informações sobre empresas que têm contratos com o ICE, incidentes e encontros com o ICE e veículos que o ICE utiliza.</p>
<p style="text-align: justify;">Pessoas sem conhecimento de programação também podem se envolver. <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.chicagotribune.com/2025/10/20/whistles-chicago-ice/" href="https://www.chicagotribune.com/2025/10/20/whistles-chicago-ice/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Em Chicago, as pessoas usavam apitos para alertar seus vizinhos sobre a presença</a> de agentes do ICE ou que eles estão na área. Muitas pessoas imprimiram apitos em 3D, juntamente com folhetos de instruções, para distribuir em suas comunidades, permitindo uma distribuição mais ampla dos apitos e, consequentemente, alertas mais precoces para os vizinhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitos hackers começaram a oferecer treinamentos de segurança digital para suas comunidades ou a criar <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://activistchecklist.org/" href="https://activistchecklist.org/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">sites com dicas de segurança</a>, incluindo como <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.reclaimcontrol.tech/" href="https://www.reclaimcontrol.tech/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">proteger seus dados dos olhares atentos da indústria de vigilância</a>. Para alcançar um público mais amplo, instrutores até começaram a oferecer treinamentos sobre como defender suas comunidades e o que fazer em uma operação da imigração em <a class="urlextern" title="https://translate.google.com/website?sl=auto&amp;tl=pt&amp;hl=pt-BR&amp;client=webapp&amp;u=https://www.404media.co/ice-defense-training-on-fortnite-new-save-collective/" href="https://www.404media.co/ice-defense-training-on-fortnite-new-save-collective/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">videogames, como Fortnite</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Existe também o projeto Rayhunter da EFF (Electronic Frontier Foundation) para detecção de simuladores de antenas de celular, sobre o qual <a class="urlextern" title="https://www-eff-org.translate.goog/deeplinks/2025/03/meet-rayhunter-new-open-source-tool-eff-detect-cellular-spying?_x_tr_sl=auto&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt-BR&amp;_x_tr_pto=wapp" href="https://www.eff.org/deeplinks/2025/03/meet-rayhunter-new-open-source-tool-eff-detect-cellular-spying" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">já escrevemos bastante</a>. O Rayhunter funciona em um hotspot móvel barato e não exige conhecimento técnico aprofundado para ser usado.</p>
<p style="text-align: justify;">É importante lembrar que não somos impotentes. Mesmo diante de uma forte presença policial interna com ampla capacidade de vigilância e tecnologias de ponta, ainda existem maneiras de nos defendermos da vigilância. Não podemos ceder ao niilismo e ao medo. Devemos continuar buscando pequenas formas de nos proteger e proteger nossas comunidades e, quando possível, revidar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>A EFF não tem qualquer vínculo com esses projetos (exceto o Rayhunter) e não os endossa. Não fazemos nenhuma declaração sobre a legalidade do uso de qualquer um desses projetos. Consulte um advogado para determinar os riscos envolvidos.</em></strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>Tradução a partir do original que pode ser acessado aqui: <a class="urlextern" title="https://www.eff.org/deeplinks/2026/01/how-hackers-are-fighting-back-against-ice" href="https://www.eff.org/deeplinks/2026/01/how-hackers-are-fighting-back-against-ice" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.eff.org/deeplinks/2026/01/how-hackers-are-fighting-back-against-ice</a></em></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>Autodefesa popular contra o ICE em Minneapolis</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 31 Jan 2026 17:08:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Poucas dessas condições poderiam ter sido previstas com antecedência. A única maneira de se adaptar efetivamente foi cultivar uma cultura aberta e acolhedora que incentivasse a iniciativa e a auto-organização. Por Crimethinc]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Crimethinc</h3>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">As redes de resposta rápida organizadas pela população para defender suas comunidades contra agentes federais que buscam sequestrá-las, brutalizá-las e aterrorizá-las passaram por uma evolução vertiginosa para acompanhar as táticas em constante mudança do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). Ao longo do último mês e meio de ocupação, voluntários nas Cidades Gêmeas [Minneapolis e St. Paul] atualizaram continuamente seu modelo de resposta rápida, chegando a um sistema dinâmico e resiliente. No relatório a seguir, exploramos os detalhes desse sistema para o benefício de outras pessoas em todo o país que em breve poderão enfrentar pressões semelhantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2 de dezembro, 100 agentes do ICE foram enviados às Cidades Gêmeas como parte de uma operação conjunta de detenções e deportações em várias cidades. Desde então, as Cidades Gêmeas se tornaram cidades sitiadas, irreconhecíveis para muitos moradores. O número de agentes federais que as ocupam aumentou 30 vezes, chegando a quase 3.000. Para efeito de comparação, o Departamento de Polícia de Minneapolis tem cerca de 600 policiais. O assassinato de Renee Nicole Good, membro da rede de resposta rápida, em 7 de janeiro, seguido uma semana depois pelo tiroteio de outra pessoa em 14 de janeiro, chamou a atenção do país.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, a maioria das pessoas presume que o que está acontecendo nas Cidades Gêmeas se assemelha à atuação do ICE e à resistência em outras partes do país. Pelo contrário, a escala de detenções, deportações e confrontos não tem precedentes <strong>[1]</strong>.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158618 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/4-1024x683.webp" alt="" width="640" height="427" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/4-1024x683.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/4-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/4-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/4-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/4-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/4-681x454.webp 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/4.webp 1360w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A Onda</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Durante os meses que antecederam a chegada em massa de agentes do ICE às Cidades Gêmeas, moradores e organizações locais criaram uma rede de resposta rápida relativamente centralizada, na qual observadores enviavam relatos com diferentes níveis de comprovação a um administrador por meio de um sistema de mensagens de texto em massa. Assim que os administradores conseguiam receber, formatar e verificar os relatos, eles os divulgavam rapidamente no sistema e as pessoas próximas convergiam para lá. Isso pareceu funcionar para direcionar pessoas a grandes operações, como uma batida em um complexo de apartamentos, mas começou a falhar à medida que o ICE experimentava operações mais rápidas e menos intensivas.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, por volta de 1º de dezembro, as batidas praticamente cessaram e o influxo de agentes iniciou uma campanha de batidas em portas e de prisões rápidas. O modelo anterior tornou-se imediatamente obsoleto, porque a janela de tempo para intervir diminuiu para questão de minutos. Membros da comunidade que desejavam algo mais confrontativo do que o sistema existente, baseado em observadores legais e com gargalos, começaram a construir um sistema paralelo para preencher as lacunas e agir com mais agilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Este novo sistema começou com um chat em larga escala para denúncias na região sul da cidade, onde qualquer pessoa podia enviar um alerta de qualquer tipo. À medida que as operações do ICE aumentavam em volume e velocidade, o chat aberto e mais ágil cresceu em número de membros e se tornou um espaço que atraiu aqueles que queriam fazer mais do que simplesmente registrar as operações do ICE. As pessoas integraram o programa de apitos existente para alertar pessoas específicas sobre a chegada do ICE e para importunar os agentes, e cada vez mais passaram a interferir — bloqueando veículos do ICE com carros particulares, usando seus corpos para bloquear os agentes, usando multidões e patrulhas de carro para intimidar pequenos grupos de agentes e fazê-los recuar.</p>
<p style="text-align: justify;">Conforme os chats cresciam, mais chats foram criados para dividir a cidade em segmentos cada vez menores — alguns dos quais chegaram a ter um raio de apenas quatro quarteirões. Isso permite que as pessoas vejam relatos diretamente relevantes para elas e respondam a avistamentos próximos de forma rápida e eficaz.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158616 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2.webp" alt="" width="730" height="456" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2.webp 730w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2-300x187.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2-672x420.webp 672w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2-640x400.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2-681x425.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 730px) 100vw, 730px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Contravigilância</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Essas redes se beneficiaram enormemente de um programa de contravigilância na sede local do ICE. O Whipple, um prédio federal em Fort Snelling, nos arredores de Minneapolis e St. Paul, há muito tempo serve como sede regional do ICE, tendo abrigado anteriormente outras agências federais. O complexo está localizado em frente a uma base da Guarda Nacional, próximo a uma base militar e ao lado do próprio forte preservado. O forte fica no local sagrado da confluência de dois rios. Foi um dos primeiros locais de colonização da região; em certa época, foi um campo de concentração que abrigava indígenas Dakota.</p>
<p style="text-align: justify;">O Whipple inclui escritórios, instalações de processamento e detenção no subsolo e um amplo estacionamento. Membros da comunidade identificaram esse complexo como um local estratégico durante o verão; mantendo presença lá desde agosto.</p>
<p style="text-align: justify;">O prédio é cercado por duas rodovias estaduais, dois rios e um aeroporto. Com apenas duas saídas para veículos, rastrear os carros do ICE que entram e saem das instalações é fácil. O Whipple Watch, como é chamado, envolve manifestantes e observadores posicionados no local há meses, coletando informações sobre os comboios que se dirigem à cidade ou levam detentos ao aeroporto, identificando padrões de operação, como dias e horários de pico, e catalogando cuidadosamente as placas dos veículos que entram e saem. Esse banco de dados de placas é usado quase que constantemente, diariamente, permitindo que as equipes de resposta rápida a pé e em carros confirmem a presença de veículos do ICE em tempo real. O ICE começou a trocar carros e placas ao longo do dia para minar essa contravigilância, mas o volume de informações recebidas só aumenta.</p>
<p style="text-align: justify;">O Whipple Watch descreve seus objetivos como triplos:</p>
<ul>
<li class="li">fornecer um sistema de alerta precoce sobre picos e comboios para as redes locais de resposta rápida,</li>
<li class="li">coletar dados com foco especial no banco de dados de placas, e</li>
<li class="li">garantir que o ICE saiba que está sendo vigiado, mesmo em seu próprio território.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Inegavelmente o Whipple Watch obteve sucesso em atingir esses objetivos específicos, mesmo diante de uma força militarizada hostil.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-158617 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/3.webp" alt="" width="959" height="640" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/3.webp 959w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/3-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/3-768x513.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/3-629x420.webp 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/3-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/3-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 959px) 100vw, 959px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Como funciona</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Cada área da cidade (Southside, Uptown, Whittier, etc.) possui turnos rotativos de encaminhadores, que administram uma chamada do Signal em andamento durante o horário de operação. Às vezes, vários encaminhadores se revezam para dividir as tarefas extras de monitorar o chat, repassar relatórios para outros canais e verificar placas de veículos. A central de encaminhamento também ajuda a distribuir as patrulhas uniformemente pela área, anota informações e auxilia as pessoas em situações de confronto. Todos os patrulheiros, em viaturas e a pé, permanecem conectados à chamada durante toda a patrulha. Há um fluxo constante de informações, permitindo que outras viaturas decidam se estão em uma boa posição para se juntar à patrulha, assumir o seguimento da viatura ou continuar procurando por outros veículos.</p>
<p style="text-align: justify;">Como a estrutura foi dividida em zonas mais específicas baseadas em bairros, as pessoas em muitas áreas também desenvolveram um sistema de chat diário, com conversas que são recriadas e excluídas diariamente para mantê-las organizadas e sem atingir o limite máximo de participantes (já que o número máximo de membros de um grupo do Signal é de 1000). Diversas áreas das cidades e dos subúrbios replicaram a estrutura básica desse sistema, mas com modelos, estruturas de bate-papo, sistemas de verificação e coleta de dados ligeiramente diferentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma equipe de coleta de dados reúne dados anonimizados enviados pelo Whipple Watch e por muitos dos chats locais de resposta rápida, agregando-os em formatos acessíveis, como mapas interativos de pontos críticos. Essa equipe também administra o banco de dados pesquisável de placas de veículos, classificadas por “confirmado como ICE”, “suspeito de ICE”, “confirmado como não ICE” e outras categorias.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-158622 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/5-300x213.jpg" alt="" width="300" height="213" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/5-300x213.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/5-592x420.jpg 592w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/5-640x454.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/5.jpg 676w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></p>
<p style="text-align: justify;">“Meus pais estão num café e ouviram apitos e buzinas. Todo mundo no café se levantou e correu para a porta”</p>
<p style="text-align: justify;">Surgiram grupos de bate-papo adicionais específicos, como de escolas, comunidades religiosas, ajuda mútua de entregas de mantimentos e similares. Outro desenvolvimento foi o bate-papo de integração das Redes de Vizinhança, que funciona como um centro de informações para novos voluntários. Pessoas de qualquer lugar da cidade — ou de qualquer lugar do estado de Minnesota — podem ser adicionadas e orientadas sobre uma lista de opções de bate-papo. Os administradores as adicionam aos bate-papos abertos ou as conectam aos processos de verificação e treinamento para os bate-papos mais fechados.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais recentemente, os encaminhadores experimentaram um sistema de substituição no qual os patrulheiros que seguem os veículos até o limite de sua zona podem se comunicar por meio da central de encaminhamento através de bate-papos para passar o veículo para um patrulheiro na região seguinte. Isso permite que os patrulheiros permaneçam em rotas cada vez mais restritas, que eles podem conhecer rapidamente e intimamente, navegando por elas melhor do que qualquer agente do ICE.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, os retransmissores de língua espanhola copiam os alertas do ICE das chamadas da central de encaminhamento e dos bate-papos locais, os traduzem e os enviam para grandes redes de Signal e WhatsApp em espanhol.</p>
<p style="text-align: justify;">O que pode parecer, visto de fora, uma formalização excessiva de chats para diferentes tipos de informação, ou ainda <em>pouca</em> estrutura nas chamadas totalmente abertas em que todos os patrulheiros de uma determinada zona participam simultaneamente, na verdade se transforma em um ecossistema de comunicação altamente eficaz, auto-organizado e bem mantido. A informação circula de forma confiável em todas as escalas por meio dos chats e dos encaminhadores, e os patrulheiros rapidamente adotam uma cultura de práticas que lhes permitem evitar interrupções e transmitir informações de maneira clara e organizada. Os voluntários se organizam em turnos de duração variável, decidindo quais rotas percorrer com base em seus conhecimentos, habilidades, interesses e disponibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse sistema está em constante mudança, é altamente adaptável, um tanto difícil de explicar para quem está de fora e surpreendentemente fácil de integrar — depois que se supera o choque de receber mais de 1500 novas mensagens por dia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>“Você não imagina o quão louco é isso aqui”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A resposta do ICE tem sido clara. Eles mudaram suas táticas. Foram expulsos de bairros durante operações. Foram flagrados conversando sobre o medo que sentem e sobre o fato de muitos deles terem saído.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles também intensificaram de forma contínua e agressiva a violência contra observadores. Patrulheiros que seguem o ICE muito de perto ou por muito tempo frequentemente são cercados, de modo que entre quatro e dez agentes podem cercar o carro, bater nas portas, gritar, filmar e ameaçá-los de prisão. Patrulheiros que bloquearam o ICE com seus carros foram atropelados, tiveram os vidros quebrados, foram retirados à força para serem detidos ou presos. Pessoas foram colocadas em veículos do ICE, levadas a quilômetros de distância e depois jogadas para fora. Agentes tiraram pessoas de seus carros, dirigiram os veículos por vários quarteirões e as deixaram correndo na rua. Recentemente, agentes têm usado spray de pimenta em carros — às vezes tentando empestear o interior do veículo para forçar as pessoas a saírem, outras vezes apenas usando a arma química para marcar os carros de forma visível, visando maior assédio e perseguição.</p>
<p style="text-align: justify;">Recentemente, agentes do ICE jogaram uma lata de gás lacrimogêneo para fora do veículo enquanto dirigiam na rodovia, na tentativa de impedir que alguém os seguisse. Os agentes não apenas seguiram os policiais até suas casas, como também identificaram o motorista ou o veículo que os seguia e os conduziram até seus endereços residenciais como forma de intimidação. Patrulheiros relataram que foram agredidos, tentaram atropelá-los, dirigiram diretamente em direção aos seus veículos, foram mantidos sob a mira de armas, tiveram seus pneus furados e foram arrastados para fora de veículos em movimento. Embora o assassinato de Renee Nicole Good tenha chocado a nação, não foi nenhuma surpresa para aqueles que estiveram nas ruas das Cidades Gêmeas nas últimas seis semanas.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158615 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1-1024x683.webp" alt="" width="640" height="427" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1-1024x683.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1-681x454.webp 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1.webp 1360w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O modelo das Cidades Gêmeas: não o copie, aprenda com ele</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O que diferencia a rede de resposta rápida das Cidades Gêmeas e seu ecossistema circundante não é a estrita adesão a uma estrutura específica. É uma análise clara de suas condições, a disposição para se adaptar e a coragem para lutar à medida que a violência aumenta.</p>
<p style="text-align: justify;">Os moradores das Cidades Gêmeas têm observado atentamente seus oponentes. Eles sabem como os agentes do ICE se posicionam, onde se concentram, como se vestem, dirigem e reagem. Vivem em uma área urbana relativamente pequena e densamente povoada, com muitas áreas onde se pode ir a pé, e com ruas planejadas em formato de grade para facilitar a locomoção de carro. As pessoas estão conectadas aos seus vizinhos, construindo sobre os laços remanescentes de movimentos e levantes passados. O prefeito de Minneapolis tenta manter a aparência liberal de sua administração; é improvável que a polícia seja mobilizada como reforço para as operações do ICE. Essas são condições concretas e observáveis ​​que definiram diretamente o planejamento e a implementação da resistência aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqueles que estão inseridos no modelo estão comprometidos com a agilidade e a adaptabilidade à medida que as condições mudam. A cidade possui bairros com características e perfis demográficos distintos, portanto, a expansão do modelo foi concebida para variar de um bairro para o outro. Após o fim das batidas, o ICE passou a operar quase exclusivamente a partir de um local principal com entradas e saídas limitadas, o que levou os organizadores a investirem fortemente em contravigilância nessa área. Quando as operações do ICE mudaram para sequestros rápidos e aleatórios nas ruas e a bater nas portas das pessoas, a única maneira possível de prever onde eles agiriam era identificar os veículos do ICE à medida que se aproximavam. Assim, as pessoas passaram a se concentrar em identificar os veículos do ICE nas ruas e a permanecer perto deles. O ICE precisava recorrer a táticas de surpresa e emboscada, então os socorristas empregaram ruídos — apitos e buzinas — para alertar rapidamente à distância. Os agentes do ICE não gostam de operar em menor número nem de serem cercados, então os patrulheiros reúnem carros e formam bloqueios improvisados ​​de trânsito.</p>
<p style="text-align: justify;">Poucas dessas condições poderiam ter sido previstas com antecedência. A única maneira de se adaptar efetivamente foi cultivar uma cultura aberta e acolhedora que incentivasse a iniciativa e a auto-organização.</p>
<p style="text-align: justify;">Não podemos subestimar a importância da coragem que transborda para as ruas das Cidades Gêmeas. É fácil desconsiderar as redes de resposta rápida, pois sabemos que simplesmente filmar e observar essa crescente onda de violência não basta. Muitas redes em todo o país se desmobilizaram antes mesmo de começarem, ao tentarem controlar rigidamente as ações de seus participantes, apesar da ampla disposição para agir mais contundentemente. Os instrutores muitas vezes pregam a não interferência; alguns voluntários de resposta rápida se policiam mutuamente nas ruas por atirar projéteis ou até mesmo por gritar. Em alguns casos, isso decorre de um medo de autopreservação em relação à repressão contra as ONGs envolvidas nas ações de resposta rápida. Em outros casos, manifesta-se como um algo bem-intencionado, porém equivocado, na “segurança”, que nada mais é do que paternalismo, decidindo quais níveis de risco são apropriados para outras pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa cautela excessiva também pode ser encontrada nas Cidades Gêmeas. Há instrutores e encaminhadores que, por padrão, dizem às pessoas para se afastarem em vez de apoiá-las no que quer que se sintam compelidas a fazer. Há pessoas que, em vez de atrapalharem o trabalho do ICE, atrapalham aqueles que estão agindo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a luta aqui é definida por aqueles que ultrapassam os limites. As pessoas usam seus carros e seus corpos para bloquear agentes e libertar pessoas presas. Elas atiram bolas de neve e pedras; chutam para trás as bombas de gás lacrimogêneo. Cobrem carros e agentes com tinta e quebram os vidros dos veículos. Não param de gritar na cara dos sequestradores quando são agredidas, atingidas por spray de pimenta ou balas de borracha. Elas testemunham os sequestros com pessoas mascaradas, os desaparecimentos não divulgados e o número recorde de mortes causadas por esse novo ICE, agora mais ousado, e estão dispostas a correr riscos reais para impedi-los. Elas vivenciam a violência retaliatória e, apesar disso, são mais fortes e mais corajosas.</p>
<p style="text-align: justify;">Estar preparado para a onda de fiscalização do ICE em sua cidade — e lembre-se, ela está chegando — significa estudar o terreno em que você está lutando e usar a criatividade. O que funcionar melhor para a sua cidade provavelmente não será exatamente como essas unidades de observação diárias em seus quartéis-generais e patrulhas móveis de resposta rápida. Será necessária uma análise minuciosa de como melhor utilizar seus pontos fortes e explorar as fraquezas deles em seus contextos específicos. Comece a estudar, planejar, conectar-se e experimentar agora.</p>
<p style="text-align: justify;">Observamos as Cidades Gêmeas, não para replicar os detalhes, mas sim pela clareza de análise, ação rápida e decisiva, experimentação ágil, profundo cuidado mútuo e coragem contagiante.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Este relatório foi enviado por visitantes das Cidades Gêmeas, que foram gentilmente acolhidos na rede por alguns dias. Agradecemos a todos que nos mostraram sua cidade, nos explicaram os sistemas e nos acompanharam em patrulhas. Amor e indignação.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Para saber mais sobre a versão anterior do modelo de resposta rápida, desenvolvida em Los Angeles e aprimorada em Chicago e outros locais durante o outono, comece aqui <a class="urlextern" title="https://crimethinc.com/2025/12/03/when-the-feds-come-to-your-city-standing-up-to-ice-a-guide-from-chicago-organizers" href="https://crimethinc.com/2025/12/03/when-the-feds-come-to-your-city-standing-up-to-ice-a-guide-from-chicago-organizers" rel="ugc nofollow">https://crimethinc.com/2025/12/03/when-the-feds-come-to-your-city-standing-up-to-ice-a-guide-from-chicago-organizers</a>. Para aprender como configurar loops no Signal exclusivos para administradores, comece aqui <a class="urlextern" title="https://crimethinc.com/2024/05/27/the-sunbird-how-to-start-an-announcements-only-thread-on-signal-and-how-organizers-in-austin-used-one-to-coordinate-solidarity-with-palestine#start-your-own-announcements-only-service-on-signal" href="https://crimethinc.com/2024/05/27/the-sunbird-how-to-start-an-announcements-only-thread-on-signal-and-how-organizers-in-austin-used-one-to-coordinate-solidarity-with-palestine#start-your-own-announcements-only-service-on-signal" rel="ugc nofollow">https://crimethinc.com/2024/05/27/the-sunbird-how-to-start-an-announcements-only-thread-on-signal-and-how-organizers-in-austin-used-one-to-coordinate-solidarity-with-palestine#start-your-own-announcements-only-service-on-signal</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Traduzido de: <a class="urlextern" title="https://pt.crimethinc.com/2026/01/15/rapid-response-networks-in-the-twin-cities-a-guide-to-an-updated-model" href="https://pt.crimethinc.com/2026/01/15/rapid-response-networks-in-the-twin-cities-a-guide-to-an-updated-model" rel="ugc nofollow">https://pt.crimethinc.com/2026/01/15/rapid-response-networks-in-the-twin-cities-a-guide-to-an-updated-model</a></em></p>
</div>
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		<title>Good Bye, Kapital!? A Alemanha em queda</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/01/158595/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Jan 2026 12:43:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Alemanha]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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					<description><![CDATA[ As crises cíclicas do capital são cada vez mais potentes no coração do sistema. Por Charles Júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Charles Júnior, Antônio Carlos e Pedro Seeger</h3>
<p style="text-align: justify;">O celebre filme “Adeus, Lênin!” retrata o fim da chamada Alemanha Oriental de uma forma tragicômica. O dedicado Alex tenta a todo custo esconder de sua mãe o fim da Alemanha socialista. No limite, após uma grande propaganda da Coca-Cola cobrir a lateral do prédio ao lado, de frente a sua janela, grava um telejornal com ajuda de um taxista e seus amigos informando a mãe que a Coca-Cola é uma criação comunista. Um lindo e amoroso filme que carrega nossa melancólica mágoa da derrota <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegando a contemporaneidade, parece que na Alemanha de 2025 a vida voltou a imitar a arte, porém com os sinais contrários e uma população inteira como coadjuvante. Literalmente tá entrando muita água no chopp da Alemanha capitalista. A principal economia do bloco derrete.</p>
<p style="text-align: justify;">O fechamento da Fábrica da Volkswagen em Desdren e a demissão de 35.000 operários é o símbolo maior desse grande rearranjo capitalista. A máquina capitalista mais potente da Europa começa a falhar. O país que há décadas importa migrantes do mundo inteiro hoje tem a mesma taxa de desemprego da última crise. No geral, parece uma operação complexa para a burguesia alemã esconder de milhões de trabalhadores que as suas vidas estão em risco. Sua propaganda é a clássica demagogia do inimigo externo o risco do comunismo invadir as ruas da Europa é sempre um ótimo argumento para justificar mudanças <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158606" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb.png" alt="" width="1920" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb.png 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-300x169.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-1024x576.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-768x432.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-1536x864.png 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-747x420.png 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-640x360.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/gb-681x383.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />Produção industrial em queda</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Marx no capítulo 1, do livro 1 do Capital diz que “A riqueza das sociedades onde reina o modo de produção capitalista aparece como uma &#8216;enorme coleção de mercadorias&#8217;”. Nós acrescentamos que a capacidade de manutenção e ampliação da produção determina os limites da dominação da burguesa e as possibilidades de luta dos trabalhadores <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste sentido, a situação da Alemanha merece atenção. Sua produção manufatureira, o motor da economia, vem decaindo e isto se espelha na política. Vamos aos dados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 1. Produção Anual da Manufatura</strong></p>
<div class="table sectionedit14" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>2010</strong></td>
<td class="col1">90.5</td>
<td class="col2"><strong>2018</strong></td>
<td class="col3">105.0</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>2011</strong></td>
<td class="col1">98.2</td>
<td class="col2"><strong>2019</strong></td>
<td class="col3">101.7</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>2012</strong></td>
<td class="col1">97.1</td>
<td class="col2"><strong>2020</strong></td>
<td class="col3">92.7</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>2013</strong></td>
<td class="col1">97.1</td>
<td class="col2"><strong>2021</strong></td>
<td class="col3">97.1</td>
</tr>
<tr class="row4">
<td class="col0"><strong>2014</strong></td>
<td class="col1">99.0</td>
<td class="col2"><strong>2022</strong></td>
<td class="col3">96.9</td>
</tr>
<tr class="row5">
<td class="col0"><strong>2015</strong></td>
<td class="col1">100.0</td>
<td class="col2"><strong>2023</strong></td>
<td class="col3">95.8</td>
</tr>
<tr class="row6">
<td class="col0"><strong>2016</strong></td>
<td class="col1">101.1</td>
<td class="col2"><strong>2024</strong></td>
<td class="col3">91</td>
</tr>
<tr class="row7">
<td class="col0"><strong>2017</strong></td>
<td class="col1" colspan="3">103.8</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte : OCDE. <a class="urlextern" title="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" href="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Data explorer</a> — Índice 100 base 2015</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tabela 2. Produção trimestral da manufatura</strong></p>
<div class="table sectionedit15" style="text-align: justify;">
<table class="inline">
<tbody>
<tr class="row0">
<td class="col0"><strong>2024-T4</strong></td>
<td class="col1">92.5</td>
</tr>
<tr class="row1">
<td class="col0"><strong>2025-T1</strong></td>
<td class="col1">93.4</td>
</tr>
<tr class="row2">
<td class="col0"><strong>2025-T2</strong></td>
<td class="col1">92.8</td>
</tr>
<tr class="row3">
<td class="col0"><strong>2025-T3</strong></td>
<td class="col1">91.8</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p style="text-align: justify;">Fonte: OCDE. <a class="urlextern" title="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" href="https://data-explorer.oecd.org/vis?fs[0]=Topic%2C1%7CEconomy%23ECO%23%7CShort-term%20economic%20statistics%23ECO_STS%23&amp;pg=0&amp;fc=Topic&amp;bp=true&amp;snb=54&amp;df[ds]=dsDisseminateFinalDMZ&amp;df[id]=DSD_KEI%40DF_KEI&amp;df[ag]=OECD.SDD.STES&amp;df[vs]=4.0&amp;dq=DEU.Q.PRVM.IX.C..&amp;pd=2024-Q4%2C2025-Q4&amp;to[TIME_PERIOD]=false&amp;vw=tb" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Data explorer</a> — Índice 100 base 2015</p>
<p style="text-align: justify;">Na série histórica iniciada em 2015 até o 3° trimestre de 2025, observamos que a produção da economia alemã caiu quase 9%. Pode parecer pouco, mas precisamos ter em mente que o capital é acumulação, é investimento em cima de investimento, é aumento da máquina produtiva. Caso contrário a feroz concorrência pode levar a chama da acumulação a se apagar. Instantaneamente, o reflexo na vida do povo trabalhador é direto: aumento do desemprego, queda no poder de compra, políticas de austeridade, redução do Estado de bem-estar social, etc. A situação é tão delicada para os burgueses alemães que a névoa da guerra volta a assombrar os trabalhadores na Europa <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">No gráfico 1 temos na linha laranja as despesas de consumo das famílias, linha verde investimentos em máquinas e equipamentos e a linha investimentos em construção civil. O mais relevante para nós é a linha verde, importante indicador da acumulação de Capital, que, como podemos ver, está em franca queda e bem distante do ponto máximo atingido em 2020.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 1: Investimentos e consumo na economia alemã</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158604" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1.png" alt="" width="967" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1.png 967w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-269x300.png 269w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-917x1024.png 917w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-768x858.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-376x420.png 376w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-640x715.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g1-1-681x761.png 681w" sizes="auto, (max-width: 967px) 100vw, 967px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte: Departamento Federal de Estatística (Destatis)</p>
<p style="text-align: justify;">Além do fechamento de fábricas, queda da produção e investimentos, outra coisa que será difícil a classe dominante alemã esconder dos trabalhadores é a queda nas exportações. No gráfico 2, temos na cor laranja o índice de crescimento das exportações e em azul o crescimento das importações.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 2. Crescimento da exportação e importação</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158601" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2.png" alt="" width="1080" height="1466" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2.png 1080w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-221x300.png 221w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-754x1024.png 754w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-768x1042.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-309x420.png 309w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-640x869.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g2-681x924.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte: Departamento Federal de Estatística (Destatis)</p>
<p style="text-align: justify;">No meio desse baque econômico a burguesia alemã tenta esconder dos trabalhadores sua habilidade ímpar em fazer a vida virar morte. “Adeus, Lênin” é fichinha perto do que vem pela frente. Mesmo uma das opções clássicas para sair da crise, o desemprego, parece não estar funcionado. Segundo a chefe da Agência Federal de Emprego do país, Andrea Nahle, <a class="urlextern" title="https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/economia/noticia/2025/12/28/mercado-de-trabalho-alemanha.ghtml" href="https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/economia/noticia/2025/12/28/mercado-de-trabalho-alemanha.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">as chances de desempregados na Alemanha encontrarem trabalho nunca foram tão baixas</a>. A taxa de desemprego está em 6.3%, igualando ao ponto mais alto durante a crise econômica de 2020, como podemos ver no gráfico abaixo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 3 — desemprego na Alemanha</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158602" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3.png" alt="" width="922" height="464" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3.png 922w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-300x151.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-768x386.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-835x420.png 835w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-640x322.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g3-681x343.png 681w" sizes="auto, (max-width: 922px) 100vw, 922px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte : <a class="urlextern" title="https://pt.tradingeconomics.com/germany/unemployment-rate" href="https://pt.tradingeconomics.com/germany/unemployment-rate" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Bundesagentur für Arbeit</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A combalida saúde da economia Alemã</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No final de 2025 <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/a-corrida-das-montadoras-alem%C3%A3s-para-alcan%C3%A7ar-a-china/a-75372891" href="https://www.dw.com/pt-br/a-corrida-das-montadoras-alem%C3%A3s-para-alcan%C3%A7ar-a-china/a-75372891" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">uma notícia no jornal DW destacou</a>: “A indústria automobilística emprega mais de um milhão de pessoas e há muito tempo é um termômetro da saúde econômica alemã”. A notícia segue com um preciso diagnóstico “as vendas estão encolhendo, empregos estão sendo cortados e fábricas enfrentam ameaças de fechamento”. Ou seja, como verificamos nos dados acima a saúde da economia alemã não vai bem.</p>
<p style="text-align: justify;">Um do motivos é que sua menina dos olhos era o mercado chinês, isso mesmo, “era”. Segue o DW:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Houve tempos em que a participação de mercado da Volkswagen se aproximava de 50%. Até alguns anos atrás, as montadoras alemãs vendiam um em cada três carros no país asiático”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Porém, após 2008, o governo chinês passou a incentivar a produção de veículos elétricos, sendo o principal tipo de carro vendido na China atualmente.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Hoje, a cada dois <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/chinesa-byd-supera-tesla-como-maior-vendedora-de-carros-el%C3%A9tricos/a-75371916" href="https://www.dw.com/pt-br/chinesa-byd-supera-tesla-como-maior-vendedora-de-carros-el%C3%A9tricos/a-75371916" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">carros vendidos na China</a>, um é elétrico — e quase todos são de marcas chinesas. As vendas alemãs despencaram em seu mercado mais importante”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por fim, a notícia relata que diante da derrota sofrida pela burguesia alemã no mercado chinês, eles se voltam para a Índia, porém, enfrentando a concorrência dos carros indianos, coreanos, japoneses e agora dos carros chineses.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra notícia que explica o desengavetamento do empoeirado acordo com o Mercosul, parado há 25 anos, <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/uni%C3%A3o-europeia-aprova-acordo-de-livre-com%C3%A9rcio-com-mercosul/a-75449058" href="https://www.dw.com/pt-br/uni%C3%A3o-europeia-aprova-acordo-de-livre-com%C3%A9rcio-com-mercosul/a-75449058" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">vem do próprio DW</a>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Para os defensores, como Alemanha e Espanha, este acordo, ao contrário, revitalizará uma economia europeia em dificuldades, enfraquecida pela concorrência chinesa e pelas tarifas dos Estados Unidos (…) Ao eliminar grande parte das tarifas, o pacto impulsionaria as exportações europeias de automóveis, máquinas, vinho e queijo”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Levando em consideração a grande importância da indústria automobilística que “há muito tempo é um termômetro da saúde economia alemã”, vamos focar um pouco mais em seus dados.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Gráfico 4- Produção de veículos automotores: Alemanha</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158603" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4.png" alt="" width="1200" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4.png 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-300x125.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-1024x427.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-768x320.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-1008x420.png 1008w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-640x267.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/g4-681x284.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fonte : <a class="urlextern" title="https://www.ceicdata.com/pt/indicator/germany/motor-vehicle-production" href="https://www.ceicdata.com/pt/indicator/germany/motor-vehicle-production" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">CEICDATA</a></p>
<p style="text-align: justify;">No gráfico acima, observamos a grande queda vinda junto da última crise cíclica. Como de praxe, o padrão/patamar produtivo foi alterado, agora os carros elétricos são a bola da vez e a Alemanha não está acompanhando a toada. A queda em relação ao ápice ocorrido em 2025 é de 33%.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <a class="urlextern" title="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpvmedkn80lo" href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpvmedkn80lo" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">matéria da BBC NEWS</a> observamos o busílis:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Todas as &#8216;três grandes&#8217; montadoras viram seus lucros antes dos impostos despencarem em cerca de um terço nos primeiros nove meses de 2024, e cada uma delas avisou que seus ganhos para o ano como um todo seriam menores do que o previsto anteriormente”, ou seja o cerne é a queda da taxa de lucro. Também pode ser verificado na queda vendas: “Entre 2017 e 2023, as vendas da VW caíram de 10,7 milhões para 9,2 milhões, enquanto, no mesmo período, as da BMW passaram de 2,46 milhões para 2,25 milhões, e as da Mercedes-Benz, de 2,3 milhões para 2,04 milhões, conforme mostram os relatórios das empresas”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Para encerrar esse mapeamento das notícias no jornalão burguês, <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-br/ind%C3%BAstria-alem%C3%A3-perde-100-mil-postos-de-trabalho-em-12-meses/a-72832333" href="https://www.dw.com/pt-br/ind%C3%BAstria-alem%C3%A3-perde-100-mil-postos-de-trabalho-em-12-meses/a-72832333" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">mais uma notícia do DW</a>, segundo Jan Brorhilker, sócio de umas das maiores consultorias empresariais do mundo, a Ernst &amp; Young:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“As empresas industriais estão sob imensa pressão” e “concorrentes agressivos, especialmente da China, estão forçando a queda dos preços, os principais mercados consumidores estão enfraquecendo, a demanda na Europa está estagnada em um nível baixo e há uma grande incerteza em torno de todo o mercado dos EUA”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158596" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632.jpg" alt="" width="1661" height="1200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632.jpg 1661w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-300x217.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-1024x740.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-768x555.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-1536x1110.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-581x420.jpg 581w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-640x462.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Good_Bye_Lenin-369390260-large-1643718632-681x492.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1661px) 100vw, 1661px" />Conexões e conclusões </strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Os cortes de gastos são mais fáceis de vender em nome da defesa do que em nome de uma noção generalizada de eficiência. Ainda assim, esse não é o propósito da defesa, e os políticos devem insistir neste ponto. O objetivo é a sobrevivência. O chamado “capitalismo liberal” precisa sobreviver e isso significa reduzir os padrões de vida para os mais pobres e gastar dinheiro para ir à guerra. Do estado de bem-estar social ao estado de guerra…”.</p>
<p style="text-align: justify;">E vão nesta toada: reduzindo gastos sociais, aumentando a capacidade de endividamento e, numa nova rodada, tendem a retomar a retirada de direitos dos trabalhadores <strong>[2]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Fechamos assim nosso último material sobre a Europa e com os dados acima sobre a Alemanha tudo se encaixa.</p>
<p style="text-align: justify;">Os investidores, governos, economistas, analistas, jornalistas e demais ideólogos burgueses se acostumaram com o fato de que em cada fim de ciclo econômico fosse sacrificada uma economia da periferia do capital. Foi assim com Argentina, Venezuela, Brasil, Grécia e outras. Dessa vez as coisas estão ocorrendo de outra maneira. Além das tradicionais vítimas da periferia do capital, entrou para o seleto grupo de economias combalidas a cada rodada de ciclo econômico uma importante economia do centro do capital, desde a crise de 2020 a economia da Alemanha continua em declínio. Em resumo, as crises cíclicas do capital são cada vez mais potentes no coração do sistema.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra importante conclusão, a China durante décadas foi mercado de trabalho e consumo para as grandes empresas da Europa, porém em alguns setores as coisas começam a mudar, como vimos no caso dos carros elétricos. Nesse importante mercado a economia chinesa consegue praticar preços de produção bem menores que os seus concorrentes, porém, pelo fato da taxa de lucro tendencialmente diminuir, ela precisará de um mercado consumidor muito maior, como muito bem nos ensinou Marx no livro 3 do Capital e Rosa Luxemburgo em seu <em>Acumulação de Capital</em>. Nessa busca por mercados, além dos alemães, ela encontrará empresas dos EUA, França, Coreia do Sul e Japão. Se a tendência atual for confirmada e o capital sair do estado estacionário, veremos outra rodada de superação, ápice, crise e estagnação com retomada se iniciando.</p>
<p style="text-align: justify;">Levando em conta que nessa quadratura histórica as disputas por mercados assumem cada vez mais as características militares. Ou seja, a guerra e o protecionismo tomam a frente da economia-política, tudo fica às claras (arma na mesa e dedo em riste!).</p>
<p style="text-align: justify;">Neste novo momento do capital, com a necessidade do império-do-terror/coração-do-sistema se salvar, uma crise no coração do sistema tende a estar mais próxima. Com tudo isso no jogo, nos resta saber onde explodirá a nova destruição do capital a fim de retomar suas taxas de lucros perdidas e se agora com o velho e experiente proletariado europeu ameaçado ele há de se tornar classe para si novamente. No berço das revoluções ainda há muitos bebês para serem gerados e o céu, meus amigos, o céu deve ser atacado.</p>
<p style="text-align: justify;">Seguimos afiando nossas armas para quando o carnaval chegar e nós descer! Até a próxima.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Derrota iniciada em 1921 com o massacre de Kronstadt. O pior é que nos lembra nossos amigos que tentam com todas as maneiras mostrar que os “socialistas de mercado” ou sem mercado (como Cuba) são superiores e tem ou tiveram vitórias que, se não fossem o malvado Capitalismo imperialista, seria a salvação do povo pobre do mundo. Este debate é complicado, mas partimos do pressuposto que estamos derrotados. Imóveis não, derrotados.<br />
<strong>[2]</strong> <strong>Charles Júnior e Antônio Carlos</strong>, <em>“Europa – do estado de bem-estar ao estado de guerra”</em>. In: <a class="urlextern" title="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" href="https://revistachama.wordpress.com/2025/06/03/europa_doestadodebemestaraoestadodeguerra/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Revista Chama</a> (03/06/2025)<br />
<strong>[3]</strong> Quando está tudo bem (emprego em alta, todo mundo comendo, pagando seus alugueis, bebendo seu chopp, comprando uma peita nova pro mozão e se reproduzindo a felicidade reina, quando as demissões começam a aparecer a vida aperta e os questionamentos ganham força.</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>Nazismo no poder e antinazismo popular nos EUA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Jan 2026 12:51:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
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					<description><![CDATA[ Servirão esses processos de resistência para fortalecer laços, ampliar a força da população organizada contra o nazismo estatal e abrir um horizonte alternativo à tendência de ascensão e aprofundamento do neofascismo? Por Leo Vinicius ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Leo Vinicius</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Nazismo no poder nos EUA </strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Donald Trump possui um histórico de afirmações protorracistas quando não indubitavelmente racistas <strong>[1]</strong>. Seu imaginário eugênico racial não surgiu ontem <strong>[2]</strong>. Na última campanha presidencial, por exemplo, afirmou que “os imigrantes ilegais envenenam o sangue do nosso país”. <em>Envenenar o sangue</em>, expressão que Hitler usou, por exemplo, no seu livro <em>Mein Kampf</em> (<em>Minha Luta</em>). Pesquisa de opinião realizada em 2024 constatou que 34% dos estadunidenses concordavam com essa afirmação de Trump — 61% dos Republicanos concordavam, 30% dos independentes e 13% dos Democratas <strong>[3]</strong>. Quando Trump estava em seu primeiro mandato, pesquisas já apontavam a importância do ressentimento racial na sua base de apoio e eleitoral <strong>[4]</strong> — o que não significa, evidentemente, que os votos necessários para o eleger vieram somente através de um ressentimento racial.</p>
<p style="text-align: justify;">O oportunista JD Vance, atual vice-presidente dos EUA e mais provável sucessor de Trump, era antiTrump cerca de dez anos atrás. Chamou Trump de “Hitler da América” em 2016, e no mesmo ano disse que: “Não tenho estômago para Trump. Acho que ele é nocivo e está levando a classe trabalhadora branca para um lugar muito sombrio” <strong>[5]</strong>. Mas, desde que resolveu se juntar a Trump, sua retórica de supremacismo racial têm sido até mais aberta que a de Trump. Ele sabe que a onda que pegou para surfar precisa ser alimentada…</p>
<p style="text-align: justify;">O ICE (Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro) foi criado no governo Bush filho, durante a “guerra ao terror”. No seu governo, Obama pegou aquilo que era um órgão que existia apenas em alguns estados, e o tornou em órgão de abrangência nacional, triplicando seu orçamento. Por sua vez, Trump triplicou também o orçamento do ICE, tornando seu orçamento maior do que o orçamento bélico de quase todos os países do mundo. Um orçamento maior que o do FBI e de outros órgãos federais juntos. Sem contar o orçamento para construção de prisões para confinar a população abduzida, que aumentou de três a quatro vezes.</p>
<p style="text-align: justify;">Claramente o governo Trump transformou o ICE na sua polícia de limpeza étnica/social/política <strong>[6]</strong>. As prisões majoritariamente de imigrantes sem antecedentes criminais no governo Trump, contrastam com os dados anteriores a 2025 <strong>[7]</strong>. É a face mais brutal e espetacular da sua política racial. Em 2025, 32 pessoas morreram nas prisões do ICE, o maior número nas suas duas décadas de existência <strong>[8]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Indígenas, os mais nativos daquela terra, têm sido abduzidos pelo ICE também. Embora não sejam muitos casos reportados <strong>[9]</strong>, agentes do ICE falam abertamente para indígenas que eles serão os próximos <strong>[10]</strong>. A publicidade usada para recrutar agentes para o ICE também deixa pouca dúvida sobre a transformação do ICE na polícia de uma política de supremacismo racial <strong>[11]</strong>. Em suma, uma polícia política nazista.</p>
<p style="text-align: justify;">A política de conquista territorial de Trump — outro aspecto semelhante ao nazismo e com o fascismo histórico — também expõe a ideologia de supremacismo racial. No caso da vez, a Groenlândia, postagens da Casa Branca utilizam conceitos nazistas e se direcionam a subculturas racistas e neonazistas <strong>[12]</strong>. O interesse de Trump pela Groenlândia provavelmente foi despertado pelo seu amigo Ronald Lauder, um bilionário do setor de cosméticos, que teria sugerido a ele comprar a maior ilha do mundo no seu primeiro mandato. O próprio Lauder fez investimentos na Groenlândia e possui interesse financeiro nela. Os interesses dos donos da Big Techs estadunidenses também podem ter acrescentado, devido aos minerais e quem sabe também ao projeto de cidade utópica (ou distópica) a ser construída na Groenlândia, idealizada por Peter Thiel, bilionário dono da Palantir e principal guru da extrema direita high tech apocalíptica do Vale do Silício. Mas não se deve descartar o peso que pode ter esse tipo de expansão territorial espetacular como signo de uma América Grande Novamente, como compensação simbólica para uma base social e para um povo que não terá sua perspectiva de vida melhorada por nenhum gestor do capitalismo, nazista, liberal ou progressista.</p>
<p style="text-align: justify;">O nazismo está no poder nos EUA porque ele não está só no Estado. Ela está em grandes empresas. No primeiro semestre de 2025, os investimentos das Big Techs corresponderam a 92% do crescimento do PIB dos EUA. Não fossem elas, O PIB dos EUA teria crescido apenas 0.1% no período, embora as Big Techs representem apenas 4% do PIB do país. E as Big Techs, umas mais outras menos, estão surfando e alimentando a onda do fascismo. Uma conversão aparentemente por conveniência, como no caso da Meta, cuja atual presidente e vice-líder do conselho administrativo é ex-vice-assessora de Segurança Nacional de Trump. Ou como no caso de Larry Ellison, um dos dois homens mais ricos do mundo, supremacista judaico e dono da Oracle, que comprou a rede de TV CBS, a Paramount e a operação estadunidense do Tik Tok, tudo para difundir propaganda favorável a Israel e limitar informação de denúncia dos crimes israelenses. Pela permissão de agências governamentais a esses negócios, a CBS de Ellison tem feito uma cobertura favorável a Trump. Mas nenhuma é tão intrínseca e abertamente fascista quanto a Palantir de Peter Thiel. Seu cofundador, John Lonsdale, não esconde seu pensamento racial reacionário e supremacista. Também não esconde que uma missão da Palantir é acabar com “comunistas”, ou mesmo matá-los (lembrando que a Palantir realiza principalmente serviços envolvendo base de dados para governos e forças repressivas). Alex Karp, CEO da Palantir fala abertamente do orgulho da Palantir servir ao Ocidente e aos EUA, e a países que não pode falar, e em ocasiões, se necessário meter medo e até mesmo matar “nossos inimigos” <strong>[13]</strong>. Essa mesma empresa foi contratada pelo governo brasileiro em 2025 para análise de dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação.</p>
<p style="text-align: justify;">No regime nazista de Hitler, a ideologia racial chegou a sobredeterminar a racionalidade econômica capitalista. No caso de Trump e do movimento MAGA, há uma tendência de sobredeterminação também, que, no entanto, ainda não é forte o suficiente para superar certas barreiras impostas pela razão econômica de uma burguesia. Trump, por exemplo, teve que limitar as incursões do ICE em fazendas, restaurantes e hotéis por pressão dos empresários desses setores, uma vez que dependiam do trabalho de imigrantes indocumentados <strong>[14]</strong>. Trump gostaria, mas ainda não conseguiu alcançar Israel. Fundado e mantido como Estado étnico colonial, Israel está na vanguarda do neonazismo mundial, com seu <em>lebensraum</em> <strong>[15]</strong>, sua política supremacista, seu genocídio e sua ideologia étnica que é a razão de Estado.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158590" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ice-out-thousands-rally-against-ice-in-minneapolis-despite-cold-and-business-shutdowns-1769225559094-16_9-1390796039.webp" alt="" width="1200" height="675" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ice-out-thousands-rally-against-ice-in-minneapolis-despite-cold-and-business-shutdowns-1769225559094-16_9-1390796039.webp 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ice-out-thousands-rally-against-ice-in-minneapolis-despite-cold-and-business-shutdowns-1769225559094-16_9-1390796039-300x169.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ice-out-thousands-rally-against-ice-in-minneapolis-despite-cold-and-business-shutdowns-1769225559094-16_9-1390796039-1024x576.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ice-out-thousands-rally-against-ice-in-minneapolis-despite-cold-and-business-shutdowns-1769225559094-16_9-1390796039-768x432.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ice-out-thousands-rally-against-ice-in-minneapolis-despite-cold-and-business-shutdowns-1769225559094-16_9-1390796039-747x420.webp 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ice-out-thousands-rally-against-ice-in-minneapolis-despite-cold-and-business-shutdowns-1769225559094-16_9-1390796039-640x360.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ice-out-thousands-rally-against-ice-in-minneapolis-despite-cold-and-business-shutdowns-1769225559094-16_9-1390796039-681x383.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Antinazismo popular nos EUA</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Diante das incursões dos agentes mascarados do ICE em grandes e médias cidades dos EUA — levando terror a bairros, separando famílias, abduzindo crianças, deixando crianças sem pais —, uma reação de caráter comunitário e popular tem ocorrido, principalmente nas cidades com tradição mais progressista. Não se trata de protestos, que embora tenham também ocorrido, têm sido bastante limitados e pouco efetivos. Essa solidariedade ativa comunitária ganhou maior repercussão quando, em janeiro de 2026, o governo Trump enviou mais de 2 mil agentes do ICE a Mineápolis e um deles assassinou Renee Good, uma mulher branca de 37 anos que tentava dificultar a passagem de um carro do ICE.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa solidariedade ativa, é importante destacar, parte da comunidade independente de cor da pele e nacionalidade. Bastante expressivo o caso de dois irmãos brancos, ainda menores de idade, que passam as manhãs seguindo os carros do ICE nas ruas de Chicago, filmando as ações dos agentes, de modo a impedir violência e ilegalidades. Eles são apoiados pelos pais, que são cristãos praticantes <strong>[16]</strong>. Aliás, são os não-imigrantes e brancos, como Renee Good, que possuem melhores condições e têm geralmente realizado as formas de solidariedade ativa mais arriscadas, isto é, se colocando em situações próximas a agentes do ICE, com o risco de sofrer violência que isso comporta, por vezes consumada <strong>[17]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Apitos foram distribuídos nos bairros para que sejam usados como alertas se alguém vir a presença do ICE. Escolas em Mineápolis passaram às aulas online para proteger os alunos. Pais e vizinhos organizam caronas e acompanham a pé crianças até na ida e volta da escola, além de ficarem de vigias em frente às escolas. Grupos de vizinhos vigiam a porta de comércios, que ficam de portas fechadas mesmo quando abertos ao público, para que os funcionários possam trabalhar com mais tranquilidade. Pais de crianças em creches com imersão em espanhol têm deixado seus filhos em casa para que os funcionários não precisem se arriscar indo ao trabalho. Igrejas e grupos comunitários levantam dinheiro para fazer compras e entregá-las a famílias que não se sentem seguras saindo de casa. Ajuda mútua e dinheiro têm sido direcionados a pessoas que não podem pagar o aluguel por não poderem trabalhar, ou porque quem era responsável pela renda na família foi abduzido ou para quem precisa de um lugar quente depois que as janelas da casa foram quebradas pelo ICE <strong>[18]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora longo para ser inserido no meio de um texto, vale a pena ler o relato abaixo publicado por Margaret Killjoy, música e escritora anarquista, publicado por ela no Bluesky em 21 de janeiro:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Vim a Minneapolis para fazer uma reportagem sobre o que está acontecendo, e uma das principais perguntas que eu tinha em mente era: “Qual é a dimensão da resistência?” Afinal, estamos todos acostumados com as notícias chamando Portland de “zona de guerra” ou algo do tipo, quando há apenas alguns protestos em uma parte da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Cheguei tarde ontem à noite. Logo de manhã, vi carros seguindo um carro do ICE pela rua, buzinando para ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais tarde, não tínhamos percorrido nem três quarteirões quando encontramos pessoas defendendo uma creche. (A ideia de que as pessoas precisam defender uma creche… pense nisso.)</p>
<p style="text-align: justify;">Em metade das esquinas por aqui, há pessoas — de todas as classes sociais, incluindo Republicanos — de guarda, atentas a veículos suspeitos, que são reportados a uma rede robusta e totalmente descentralizada que rastreia veículos do ICE e mobiliza as equipes de resposta.</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho participado ativamente de movimentos de protesto há 24 anos. Nunca vi nada que se aproximasse dessa escala. Minneapolis não está aceitando o que está acontecendo aqui. O ICE assassinou uma mulher por participar disso, e tudo o que isso fez foi atrair mais pessoas, de todas as classes sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">É um movimento genuinamente sem líderes (ou lotado de líderes), descentralizado de uma forma que o Estado está absolutamente despreparado para lidar. Existem algumas práticas básicas envolvidas, e as pessoas ensinam umas às outras essas práticas, refinando-as coletivamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de vir, perguntei a um amigo local se o frio (vai chegar a -20°C nos próximos dias) impediria as pessoas de saírem. “Não, nós vamos estar lá. É o ICE que não aguenta.”</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje conversei com uma senhora de 76 anos que estava há horas no frio, protegendo seus vizinhos. Eu também estava começando a sentir frio, mesmo com as roupas de inverno novas que comprei para esta viagem (e eu moro nas montanhas!).</p>
<p style="text-align: justify;">Ela nem sequer estava usando chapéu.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra pessoa disse: “Somos de Minnesota. Estamos ansiosos para tirar nossas roupas de inverno do armário este ano.”</p>
<p style="text-align: justify;">Ele era um engenheiro de áudio cujo filho estudava na região. De jeito nenhum ele deixaria alguém mexer com as crianças enquanto estivesse por perto.</p>
<p style="text-align: justify;">Um outro amigo me disse o seguinte: “O ICE cometeu o erro clássico dos nazistas. Eles invadiram um povo de inverno no meio do inverno.”</p>
<p style="text-align: justify;">Não quero pintar um quadro cor-de-rosa, porque é uma cidade sitiada. Pessoas estão sendo sequestradas o tempo todo. Uma pessoa me contou que presenciava de um a dois sequestros por dia, só no trabalho que fazia acompanhando o ICE.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas quando perguntei a um dos organizadores o que eles queriam ver na cobertura da imprensa, eles me disseram que queriam que as pessoas vissem as coisas lindas que estão construindo aqui, e não apenas as piores histórias dos piores crimes do ICE.</p>
<p style="text-align: justify;">O que as pessoas estão fazendo aqui é lindo. É uma beleza trágica, mas real.</p>
<p style="text-align: justify;">Estou aqui há 24 horas, mas pelo que já vi, acredito sinceramente que vamos vencer. As pessoas aqui sabem muito bem que o que acontece aqui impacta o país inteiro, que isso define o tom da resistência. O ICE está furioso, o ICE está apavorado com a sua profunda impopularidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Nunca vi uma população tão unida. Se as pessoas conseguirem manter essa união, se conseguirem aceitar que pessoas diferentes terão maneiras diferentes de combater o fascismo, se conseguirmos lembrar às ONGs e organizações que elas podem se juntar à resistência, mas não controlá-la, então, bem, as pessoas daqui farão história.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Um caso em que a dona da casa gravou a situação em que se encontrava diante do ICE do início ao fim é bastante expressiva da diferença que a ação coletiva, o apoio ativo da comunidade, realiza concretamente. Mãe de uma criança pequena, ela estava em casa em Mineápolis e pediu comida por aplicativo. Quando abriu a porta para receber o pedido, a entregadora da empresa DoorDash entrou na casa apavorada, falando coisas em espanhol. O ICE estava atrás dela, e já estava do lado de fora da casa querendo entrar. A dona da casa falava aos agentes do ICE que ela era mãe de uma criança que estava na casa, tendo em mente o recente assassinato de Renne Good. Nervosa e sem saber o que fazer diante da situação, na qual era pressionada pelos agentes do ICE a fazendo temer pela sua segurança e de sua filha, mas não queria entregar aquela trabalhadora nas mãos de uma Gestapo. Ela ligou para a polícia para ao menos saber o que fazer. A resposta da polícia a induziu a entregar a trabalhadora (embora a polícia não tenha dito que legalmente, naquela situação, ela não precisava fazê-lo). Ela pediu para trabalhadora sair, mesmo com muito pesar e desespero. Nesse meio tempo vizinhos começaram a aparecer envolta do terreno da casa com apitos e antagonizando os agentes do ICE. O número de vizinhos foi aumentando com seus apitos. Nessa nova situação, de apoio e ação coletiva, o comportamento da dona da casa muda totalmente. Ela já não fala mais para a entregadora sair, e antagoniza também o ICE, de forma destemida. Eles começam a se retirar e ela continua os antagonizando, de forma ainda mais forte, numa espécie de descarga final de adrenalina. A entregadora foi salva <strong>[19]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158591" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ICE-Out-of-Minnesota-protest-on-Jan-23-in-Minneapolis_1_1-3303397714.jpg" alt="" width="700" height="468" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ICE-Out-of-Minnesota-protest-on-Jan-23-in-Minneapolis_1_1-3303397714.jpg 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ICE-Out-of-Minnesota-protest-on-Jan-23-in-Minneapolis_1_1-3303397714-300x201.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ICE-Out-of-Minnesota-protest-on-Jan-23-in-Minneapolis_1_1-3303397714-628x420.jpg 628w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ICE-Out-of-Minnesota-protest-on-Jan-23-in-Minneapolis_1_1-3303397714-537x360.jpg 537w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ICE-Out-of-Minnesota-protest-on-Jan-23-in-Minneapolis_1_1-3303397714-640x428.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/ICE-Out-of-Minnesota-protest-on-Jan-23-in-Minneapolis_1_1-3303397714-681x455.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px" />Após o assassinato de Renee Good, pesquisa de opinião apontou que quase metade dos estadunidenses apoiam a abolição do ICE, 42%, contra 48% que são contra a abolição, sendo que 52% veem o ICE de forma bastante negativa <strong>[20]</strong>. Mas se o antinazismo tem base popular ativa, o nazismo no poder se ergue a partir de uma base popular também. As opiniões sobre o ICE, por exemplo, são bastante polarizadas entre eleitores Democratas e Republicanos. No entanto, esperar que a tendência de ascensão do neofascismo seja modificada por via eleitoral, evidentemente é uma ilusão que até mesmo muitos liberais já não possuem. Certamente o ICE não será abolido pelos Democratas caso voltem ao governo. O histórico dos governos Democratas é de ampliação do ICE e de seu financiamento. Mas o mais importante é o fato de que são os partidos de (extrema) direita que possuem o ímpeto e um projeto de transformação. O centro e a esquerda institucionais seguem a reboque da onda, sem interromper a tendência, embora possam em certas situações significar um alívio momentâneo para grupos sociais quando estão no governo. Terrivelmente simbólico de como seguem ao reboque da onda neofascista foi o apoio incondicional que o governo Joe Biden deu para que Israel cometesse genocídio.</p>
<p style="text-align: justify;">Se existe algo ainda no que se apoiar, nos EUA, é nesse antinazismo popular, ativo e prático existente em muitas cidades. O nível de violência empregado pelo ICE e pelas foças do Estado ainda não conseguiu deixar as pessoas aterrorizadas, de modo a romper essa solidariedade ativa. Conseguirão escalar a violência a ponto de colocar as pessoas em isolamento e em silêncio diante da limpeza étnica nas suas cidades e bairros? Servirão esses processos de resistência para fortalecer laços, ampliar a força da população organizada contra o nazismo estatal e abrir um horizonte alternativo à tendência de ascensão e aprofundamento do neofascismo?</p>
<p style="text-align: justify;">Dia 23 de janeiro aconteceu em Minnesota algo que não ocorria há oitenta anos nos Estado Unidos: uma greve geral. A paralisação com slogan “ICE fora de Minnesota: Dia da Verdade e da Liberdade”, foi convocada por sindicatos e endossada por diversas organizações. Legalmente os sindicatos dos EUA não podem convocar greve geral, então a convocação não foi feita de forma explícita como greve. As grandes federações sindicais, geralmente coveiras de ações significativas, endossaram o chamado. Algo que mostra o impulso popular que a causa está tendo naquele estado. O fato é que foi uma paralisação comunitária, envolvendo toda a sociedade civil.</p>
<p style="text-align: justify;">Pequenos comerciantes fecharam seus estabelecimentos. algumas grandes empresas também, já prevendo o alto absenteísmo e talvez também para preservar suas imagens. Cerca de 700 empresas fecharam em Minnesota e cerca de 300 ações de solidariedade ocorreram por todo o país no dia 23 de janeiro. Uma multidão ocupou o aeroporto de Mineápolis e 100 clérigos foram presos na ação &#8211; muitos imigrantes trabalham no aeroporto e a incrível rede informal de inteligência formada pela classe trabalhadora apontou planos do ICE para abduzir motoristas de aplicativo no embarque e desembarque, além de informar que o ICE possui reservas em hotel da cidade até junho. Apesar do frio glacial, dezenas de milhares de pessoas se encontraram nas ruas de Mineápolis para dizer em alto e em bom som que querem o ICE fora do estado.</p>
<p style="text-align: justify;">A ausência de plano e programa do governo do estado e da prefeitura para defender a população do terror do ICE, apesar da retórica anti-ICE do governador e do prefeito, acabou também abrindo espaço para a população tomar a iniciativa. Mas a solidariedade popular ativa e a mobilização em Mineápolis, em um nível sem precedentes em muitos anos nos EUA, evidentemente não vem do nada. A cidade tem um histórico progressista, e esse atual levante de resistência foi constituído a partir de experiências de luta anteriores e de redes e organizações existentes. A experiência de luta e formação de redes decorrentes das ações em resposta ao assassinato de George Floyd pela polícia em 2020, que ocorreu em Mineápolis e gerou uma revolta que se espalhou pelo país, foram uma importante base para a mobilização atual, segundo ativistas locais.</p>
<p style="text-align: justify;">Restrita ao estado de Minnesota, uma paralisação geral acaba tendo um efeito mais simbólico e de demonstração de potência, pois não pressionará economicamente o governo federal. A expectativa de Kieran Knutson, dirigente da seção local de Mineápolis do sindicato de trabalhadores da comunicação, CWA, era de que a paralisação de 23 de janeiro “não será apenas um evento isolado. Deve ser algo impactante, que mostre que estamos falando sério e que nos ensine lições valiosas para a construção do movimento, além de nos dar ideias sobre como dar o próximo passo” <strong>[21]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Trump abertamente deixou de enviar suas milícias do ICE para San Franscisco a pedido de dois bilionários de Big Techs, os donos da Nvidia e da Salesforce <strong>[22]</strong>. Nvidia que é uma das três empresas estadunidenses com maior valor de mercado, e agente fundamental do crescimento do PIB dos EUA. Podemos supor que, ainda não comprometidos com uma ideologia supremacista, perceberam que a presença do ICE na região seria ruim para a gestão de RH. Pelo menos uma parte significativa do movimento que se forma contra a política nazista do governo Trump possui clareza de que a pressão econômica é fundamental. Na mesma semana da greve geral em Minnesota, trabalhadores de tecnologia do Vale do Silício criaram um abaixo-assinado clamando para que seus patrões liguem para Trump pedindo que ele retire o ICE das cidades, para que cancelem contratos com o ICE e falem publicamente contra o ICE <strong>[23]</strong>. Em Mineápolis e em outras cidades, a rede de varejo Target, que tem sede em Mineápolis, tem sido alvo de protestos e boicote por deixar que o ICE entre nas suas lojas. Para 1º de maio já está sendo chamada mobilização e paralisação nacional contra o ICE e a política de Trump.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem sabe a greve de 23 de janeiro em Mineápolis posso ter servido de exemplo inicial. Um ensaio inicial de mobilização da classe trabalhadora intervindo diretamente no processo de acumulação de capital e poder. Passo esse necessário para mudar o rumo da história e realmente derrotar o fascismo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://en.wikipedia.org/wiki/Racial_views_of_Donald_Trump" href="https://en.wikipedia.org/wiki/Racial_views_of_Donald_Trump" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2023/12/22/us/politics/trump-blood-comments.html" href="https://www.nytimes.com/2023/12/22/us/politics/trump-blood-comments.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.theguardian.com/us-news/2024/oct/18/election-trump-immigration-poll" href="https://www.theguardian.com/us-news/2024/oct/18/election-trump-immigration-poll" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.vox.com/identities/2017/12/15/16781222/trump-racism-economic-anxiety-study" href="https://www.vox.com/identities/2017/12/15/16781222/trump-racism-economic-anxiety-study" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.poder360.com.br/internacional/trump-jamais-e-hitler-leia-o-que-j-d-vance-ja-disse-do-republicano/" href="https://www.poder360.com.br/internacional/trump-jamais-e-hitler-leia-o-que-j-d-vance-ja-disse-do-republicano/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.kenklippenstein.com/p/21-secret-ice-programs-revealed" href="https://www.kenklippenstein.com/p/21-secret-ice-programs-revealed" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.theguardian.com/us-news/2025/dec/22/ice-detentions-record-immigration" href="https://www.theguardian.com/us-news/2025/dec/22/ice-detentions-record-immigration" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.theguardian.com/us-news/ng-interactive/2026/jan/04/ice-2025-deaths-timeline" href="https://www.theguardian.com/us-news/ng-interactive/2026/jan/04/ice-2025-deaths-timeline" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.sdnewswatch.org/fact-brief-ice-native-americans-detained-minneapolis/" href="https://www.sdnewswatch.org/fact-brief-ice-native-americans-detained-minneapolis/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=CYesjIgCDys" href="https://www.youtube.com/watch?v=CYesjIgCDys" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.kpbs.org/news/border-immigration/2025/09/22/experts-concerned-about-white-nationalist-imagery-in-ice-recruitment-materials" href="https://www.kpbs.org/news/border-immigration/2025/09/22/experts-concerned-about-white-nationalist-imagery-in-ice-recruitment-materials" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>; e <a class="urlextern" title="https://www.throughline.news/p/the-white-supremacist-regime?utm_source=post-email-title&amp;publication_id=9349&amp;post_id=184637464&amp;utm_campaign=email-post-title&amp;isFreemail=false&amp;r=8aroa&amp;triedRedirect=true&amp;utm_medium=email" href="https://www.throughline.news/p/the-white-supremacist-regime?utm_source=post-email-title&amp;publication_id=9349&amp;post_id=184637464&amp;utm_campaign=email-post-title&amp;isFreemail=false&amp;r=8aroa&amp;triedRedirect=true&amp;utm_medium=email" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.theguardian.com/us-news/2026/jan/14/trump-administration-white-supremacist-language" href="https://www.theguardian.com/us-news/2026/jan/14/trump-administration-white-supremacist-language" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=sl7vb1-gw5U&amp;pp=ygUVc2VjdWxhciB0YWxrIHBhbGFudGly" href="https://www.youtube.com/watch?v=sl7vb1-gw5U&amp;pp=ygUVc2VjdWxhciB0YWxrIHBhbGFudGly" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.braziliantimes.com/destaque-1/trump-suspende-batidas-do-ice-em-restaurantes-hoteis-e-fazendas/" href="https://www.braziliantimes.com/destaque-1/trump-suspende-batidas-do-ice-em-restaurantes-hoteis-e-fazendas/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.haaretz.com/2011-08-26/ty-article/lebensraum-as-a-justification-for-israeli-settlements/0000017f-e6ef-dea7-adff-f7ffc0bd0000" href="https://www.haaretz.com/2011-08-26/ty-article/lebensraum-as-a-justification-for-israeli-settlements/0000017f-e6ef-dea7-adff-f7ffc0bd0000" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=-yKSgM0G1xQ" href="https://www.youtube.com/watch?v=-yKSgM0G1xQ" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=8g1tu-XgdhE" href="https://www.youtube.com/watch?v=8g1tu-XgdhE" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.facebook.com/grant.boulanger/posts/pfbid09Upd66NjhnVC5FndY9KmxnWvoge3QSD8wqgJNPqVa54Q2zdVGx31HhpDyTeuaF1Fl?__cft__%5b0%5d=AZabVXiAUGYYAmXl0fKb9wzVa_jOAF-Kpd0OBHFOaO596lknHOAxzB2CCaPbLmrLZLLDqBlSkEGDAFrffpyJ3OTFcUutDmvxJfv5BW1TK3iUH7QFzJ4W7cN-V1Mf3HIlQ2w&amp;__tn__=%2CO%2CP-R" href="https://www.facebook.com/grant.boulanger/posts/pfbid09Upd66NjhnVC5FndY9KmxnWvoge3QSD8wqgJNPqVa54Q2zdVGx31HhpDyTeuaF1Fl?__cft__%5b0%5d=AZabVXiAUGYYAmXl0fKb9wzVa_jOAF-Kpd0OBHFOaO596lknHOAxzB2CCaPbLmrLZLLDqBlSkEGDAFrffpyJ3OTFcUutDmvxJfv5BW1TK3iUH7QFzJ4W7cN-V1Mf3HIlQ2w&amp;__tn__=%2CO%2CP-R" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=_5afBDwASyE" href="https://www.youtube.com/watch?v=_5afBDwASyE" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://today.yougov.com/politics/articles/53892-after-the-shooting-in-minneapolis-majorities-of-americans-view-ice-unfavorably-and-support-major-changes-to-the-agency" href="https://today.yougov.com/politics/articles/53892-after-the-shooting-in-minneapolis-majorities-of-americans-view-ice-unfavorably-and-support-major-changes-to-the-agency" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://paydayreport.com/over-700-minnesota-businesses-closed-300-solidarity-actions-nationwide/" href="https://paydayreport.com/over-700-minnesota-businesses-closed-300-solidarity-actions-nationwide/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://calmatters.org/justice/2025/10/trump-cancels-san-francisco-immigration-surge/" href="https://calmatters.org/justice/2025/10/trump-cancels-san-francisco-immigration-surge/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> ver <a class="urlextern" title="https://www.kron4.com/news/technology-ai/silicon-valley-tech-workers-call-on-their-ceos-to-pressure-trump-over-ice/" href="https://www.kron4.com/news/technology-ai/silicon-valley-tech-workers-call-on-their-ceos-to-pressure-trump-over-ice/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></p>
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		<title>As liberdades curdas devem ser sacrificadas em nome da centralização da Síria?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Jan 2026 12:40:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Nacionalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Uma prioridade central para as forças progressistas e democráticas na Síria é interromper o banho de sangue, permitir o retorno seguro dos civis deslocados e lutar contra o discurso de ódio e as práticas sectárias no país. Por Joseph Daher]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joseph Daher</h3>
<p style="text-align: justify;">Apesar de o governo de Ahmed al-Sharaa e as Forças Democráticas Sírias (FDS) terem concordado, na terça-feira, com mais um cessar-fogo, as disputas internas e as tensões no país continuam.</p>
<p style="text-align: justify;">As FDS convocaram uma mobilização geral dos curdos para defender seus territórios em meio às ofensivas militares do governo, que buscam consolidar seu poder na Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">Semanas de confrontos viram as forças armadas governamentais avançarem para os bairros de maioria curda de Sheikh Maqsoud e Ashrafiyeh, em Aleppo, o que resultou no deslocamento forçado de mais de 100 mil civis. Isso culminou com a captura, pelas forças do governo, de grandes partes das províncias de Deir Ezzor e Raqqa, após a retirada das FDS.</p>
<p style="text-align: justify;">A ofensiva militar de Damasco em Aleppo, assim como em outras áreas controladas pelas FDS, ocorreu após o término do prazo de 31 de dezembro de 2025, estipulado no acordo de 10 de março de 2025. Mediado por Washington entre o presidente sírio interino Ahmed al-Sharaa e Mazloum Abdi, chefe das FDS, o acordo buscava integrar os braços civil e militar das FDS ao Estado. No entanto, o impasse político permaneceu.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, a escalada militar ocorreu apenas dois dias após uma reunião em Damasco entre as autoridades sírias e as FDS, com a presença de militares dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">É evidente que, durante as negociações em curso, as autoridades sírias estavam elaborando um plano para lançar primeiro uma operação militar em Aleppo e, em seguida, estendê-la a outras áreas controladas pelas FDS. Elas mobilizaram diversas tribos árabes — que já mantêm contato com al-Sharaa há algum tempo — em Deir Ezzor e Raqqa, a fim de preparar uma ofensiva geral contra as FDS.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso foi feito com o apoio da Turquia, além de um sinal verde de Washington.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Incerteza</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O cessar-fogo inicial de 18 de janeiro e o acordo de 14 pontos previam a entrada das forças armadas sírias no nordeste do país e a integração das FDS ao exército nacional. Ainda assim, isso não impediu a escalada militar do governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Um novo acordo foi firmado na terça-feira, 20 de janeiro. A Agência Árabe Síria de Notícias (SANA) anunciou que as forças armadas do governo sírio não entrarão nos centros das cidades de al-Hasakah e Qamishli, permanecendo em suas periferias. Damasco também declarou que as forças militares sírias não entrarão em vilarejos curdos e que não haverá forças armadas nesses vilarejos além de forças de segurança locais formadas por residentes da região.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, segundo a SANA, espera-se que Abdi “proponha um candidato das FDS para o cargo de vice-ministro da Defesa, bem como um candidato ao governo de Hasaka, nomes para representação parlamentar e uma lista de indivíduos para emprego em instituições do Estado sírio”. No entanto, muitas incertezas permanecem quanto à viabilidade desses acordos e à sua implementação.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a situação no notório campo de al-Hol, em Hasaka — que abriga famílias e afiliados do Estado Islâmico (ISIS) — está gerando temor real, com relatos alarmantes sobre a fuga de centenas de membros do ISIS.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158573" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women.avif" alt="" width="2500" height="1875" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women.avif 2500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-300x225.avif 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-1024x768.avif 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-768x576.avif 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-1536x1152.avif 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-2048x1536.avif 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-560x420.avif 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-80x60.avif 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-100x75.avif 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-180x135.avif 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-238x178.avif 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-640x480.avif 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-681x511.avif 681w" sizes="auto, (max-width: 2500px) 100vw, 2500px" />Apoio externo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Embora os EUA (junto com a França) estivessem oficialmente trabalhando para reduzir as tensões entre os dois atores e, apesar de serem parceiros de longa data das FDS no combate ao Estado Islâmico (ISIS), Washington não impôs nenhuma pressão significativa para interromper as ações militares do governo sírio.</p>
<p style="text-align: justify;">Na prática, os EUA tornaram-se um importante apoiador das novas autoridades governantes, como evidenciado pelas múltiplas reuniões entre Trump e al-Sharaa, bem como pela retirada das sanções Caesar em dezembro de 2025.</p>
<p style="text-align: justify;">Após a queda do regime de Assad, a Turquia tornou-se um dos atores regionais mais importantes na Síria, especialmente no norte do país. Ao apoiar as autoridades sírias dominadas pelo Hay&#8217;at Tahrir al-Sham (HTS), Ancara consolidou sua influência sobre o país.</p>
<p style="text-align: justify;">Além de pressionar pelo retorno de refugiados sírios e buscar lucrar com as oportunidades econômicas oferecidas pela reconstrução, o principal objetivo da Turquia é negar as aspirações curdas por autonomia — percebidas como uma ameaça à segurança nacional — e desmantelar a Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria (AANES).</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Fragilidades</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em poucos dias, as autoridades governantes sírias capturaram dois terços dos territórios controlados pelas FDS. Para além dos aspectos geoestratégicos imediatos, esse avanço rápido também demonstra as limitações do projeto político da AANES entre populações não curdas, especialmente árabes. Ao longo dos anos, setores da população árabe protestaram contra discriminação, práticas de “segurança” direcionadas, prisão de ativistas e a falta de representação real nas instituições da AANES.</p>
<p style="text-align: justify;">Em vez de desenvolver estratégias para conquistar o consentimento das classes populares árabes nas áreas sob seu controle, as lideranças das FDS optaram por colaborar com líderes tribais para administrar as populações locais. No entanto, esses líderes tribais são conhecidos por mudar de lealdade conforme os atores políticos mais poderosos do momento e por focar na defesa de seus próprios interesses materiais. À medida que o equilíbrio de forças se deslocou progressivamente em favor de Damasco, os líderes tribais seguiram o mesmo caminho.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, a confiança equivocada da liderança das FDS na continuidade do apoio dos EUA, bem como a falta de interesse em construir alianças políticas mais amplas e profundas com forças democráticas e progressistas do país, enfraqueceram a sustentabilidade do projeto político das FDS.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158575" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747.jpg" alt="" width="1024" height="682" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-631x420.jpg 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-640x426.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />Centralização do poder</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em última instância, a recente ofensiva militar das forças armadas do governo deve ser entendida como parte da tentativa contínua das atuais elites governantes sírias de centralizar o poder e rejeitar um caminho mais inclusivo para o futuro da Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse tem sido o caso desde a queda de Assad. Nos meses seguintes, violações significativas de direitos humanos foram cometidas sob a liderança de al-Sharaa, notadamente os massacres de populações alauítas e drusas no litoral e em Sweida. Paralelamente a esses ataques, as autoridades governantes também buscaram restringir direitos e liberdades democráticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, as autoridades governantes e seus apoiadores são acusados de promover um discurso agressivo contra os curdos e as FDS, com alegações de racismo significativo e de violações de direitos humanos cometidas por forças governamentais e grupos armados aliados.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, o ministro sírio dos Assuntos Religiosos, Mohammad Abu al-Khair Shukri, emitiu uma diretriz religiosa conclamando mesquitas em todo o país a celebrar o que descreveu como “conquistas e vitórias” das forças alinhadas a Damasco no leste da Síria, e a rezar pelo sucesso dos soldados do Exército Árabe Sírio.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ao incentivar especificamente a menção ao versículo seis da Surata al-Anfal do Alcorão, sugere-se que ele pretendia fazer referência à campanha militar Anfal de 1988, conduzida por Saddam Hussein contra os curdos no atual Curdistão iraquiano, marcada por ataques químicos, assassinatos em massa e destruição generalizada.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar desse contexto preocupante, governantes regionais e internacionais continuaram a apoiar as autoridades sírias, legitimando e fortalecendo seu poder sobre o país.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, embora al-Sharaa tenha concedido direitos linguísticos, culturais e de cidadania à população curda na Síria, bem como cargos oficiais no Estado, permanecem temores legítimos.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma prioridade central agora para as forças progressistas e democráticas na Síria é interromper o banho de sangue, permitir o retorno seguro dos civis deslocados e lutar contra o discurso de ódio e as práticas sectárias no país. O futuro da Síria está em jogo. De fato, as novas autoridades governantes demonstraram que seus planos não representam uma ruptura radical com as práticas autoritárias do antigo regime.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, Damasco não oferece planos para uma representação política democrática e inclusiva nem para o compartilhamento de poder. Todos os sírios que buscam democracia, justiça social e igualdade deveriam se preocupar com essas dinâmicas e combatê-las com todas as suas forças.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Joseph Daher é acadêmico e autor de Syria after the Uprisings*, The Political Economy of State Resilience; Hezbollah: the Political Economy of Lebanon&#8217;s Party of God; Marxism and Palestine.</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>*Publicado no Brasil pela <a href="https://contrabando.xyz/product/siria-depois-do-levante/?srsltid=AfmBOoqMmJGS3uEx-QIaV5PpPp_I517ylfZTObMC4bqjQVY4J5RQc4Zr" target="_blank" rel="noopener">Contrabando Editorial</a>, com o título </em><strong>Síria depois do Levante</strong><em>. Publicamos um capítulo intitulado &#8220;A questão curda na Síria&#8221; <a href="https://passapalavra.info/2023/09/150055/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Traduzido do original em inglês, publicado em </em><a class="urlextern" title="https://www.newarab.com/opinion/should-kurdish-freedoms-be-sacrificed-syrias-centralisation" href="https://www.newarab.com/opinion/should-kurdish-freedoms-be-sacrificed-syrias-centralisation" rel="ugc nofollow">The New Arab</a></p>
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		<title>Meras Conchas Vazias: Combatendo a Terceirização nos Museus da França</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Jan 2026 12:16:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[ As perspectivas e os desafios da organização em instituições culturais francesas cada vez mais vazias. ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Valentin J. e Ethel L.</h3>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Em Paris, você pode entrar em museus e instituições de arte, comprar seus ingressos, passar por uma verificação de segurança e deixar seus pertences em um guarda-volumes. Todos os funcionários usam o mesmo uniforme, juntamente com um crachá com o logotipo do Louvre ou da Fundação Louis Vuitton. No entanto, você talvez não tenha percebido que quase todos os funcionários que você viu não trabalham para esses museus, apesar de serem a “cara” das instituições: eles trabalham para uma empresa terceirizada/prestadora de serviços externa, com o museu dependendo da terceirização para quase tudo, exceto a própria exposição.</p>
<p style="text-align: justify;">Muséa, Pénélope, Marianne International, City One: nos últimos vinte anos, essas empresas viram sua atuação dentro dos museus crescer. Elas são prestadoras de serviços e vendem serviços de recepção e visitas guiadas para museus. Essa tendência começou em meados dos anos 2000, com o Museu Quai Branly, e se disseminou na década de 2010, tanto em museus nacionais quanto em instituições privadas, com quase todos os serviços — da segurança e limpeza à recepção, manutenção predial e visitas guiadas — agora terceirizados.</p>
<p style="text-align: justify;">A introdução de atores privados e a mudança nas prioridades dos museus em direção ao engajamento público levaram a uma divisão do trabalho em tarefas que antes eram executadas por um corpo unificado de funcionários públicos responsáveis ​​pela recepção e vigilância. Esses novos prestadores de serviços remodelaram funções de atendimento ao público, como recepção, vigilância e visitas guiadas — funções que envolvem interação direta com o público. É amplamente reconhecido que a terceirização promove a especialização do trabalho, fragmentando tarefas antes integradas. Essa divisão do trabalho também é marcada por uma homogeneização dos perfis sociais atribuídos a cada função especializada. Nos casos aqui examinados, por exemplo, as mulheres são predominantemente empregadas em funções de engajamento público e recepção, enquanto os homens se concentram em cargos de vigilância. Concomitantemente, estudos sociológicos mostram que a terceirização não apenas reforça, mas também reproduz normas de gênero, tornando invisíveis certas formas de trabalho e “naturalizando” as divisões de gênero em áreas como conservação, transmissão de conhecimento e interação com o visitante. <strong>[1]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158553" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa.jpg" alt="" width="2400" height="1600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa.jpg 2400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa-1536x1024.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa-2048x1365.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/museu-do-louvre-como-e-a-mona-lisa-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2400px) 100vw, 2400px" />Como a organização do trabalho em museus se tornou tão fragmentada? Vamos explorar algumas possíveis razões. Em primeiro lugar, as políticas francesas têm se concentrado cada vez mais no aperto do orçamento estatal. A cultura e as instituições culturais dependem fortemente de subsídios públicos desde o século XX. Essa dependência evoluiu para um compromisso formal do Estado em fornecer serviços culturais públicos com a criação do Ministério da Cultura em 1959. Embora o Ministério tenha sido fundado com o objetivo de tornar a arte acessível a todos, estudos sociológicos no final da década de 1960 revelaram que os museus continuavam sendo espaços frequentados principalmente por aqueles que se sentiam “no direito” de visitar e interagir com a arte. <strong>[2]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Paralelamente a uma crescente sensação de “desencantamento” com a ideia da experiência universal da arte promovida pelas instituições, a década de 1980 testemunhou uma mudança na cultura e no espírito das políticas públicas. Racionalização, cortes orçamentários e inspiração proveniente do setor privado tornaram-se as forças motrizes dos sucessivos governos, intensificando-se ao longo dos anos. Um nome acadêmico foi dado a esse espírito: NGP, Nova Gestão Pública.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra dinâmica pode ser observada: os museus seguem um modelo de “sistema de estrelas”, onde um pequeno número de instituições responde por 90% do número de visitantes nacionais, enquanto os museus restantes atraem coletivamente apenas cerca de 10%. Desde a década de 1990, os principais museus públicos — a começar pelo Louvre —– conquistaram gradualmente autonomia em relação ao Ministério da Cultura. Essa mudança permite que eles retenham os lucros obtidos e administrem seus próprios orçamentos, em vez de redistribuir parte deles para instituições menores, como acontecia anteriormente. Como resultado, eles podem decidir de forma independente como alocar seus recursos, seja para contratações, investimentos ou outras prioridades.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora essa decisão possa ter parecido acertada na época, ela também pressionou alguns museus a limitar déficits ou até mesmo gerar lucros, uma tarefa bastante difícil no setor cultural. Além disso, uma mudança na política que regulamentava a contratação de servidores públicos em 2008 limitou o número de trabalhadores empregados diretamente pelo Estado, o que também impactou os museus públicos. <strong>[3]</strong> As instituições são incentivadas — ou até mesmo pressionadas — a equilibrar as contas com menos funcionários e subsídios estagnados, enquanto enfrentam um número crescente de visitantes. De modo geral, nos últimos 30 anos, tanto as instituições culturais públicas quanto as privadas têm adotado cada vez mais conceitos de gestão do setor industrial, como a força de trabalho <em>just-in-time</em>, que lhes permite adaptar-se aos picos de visitantes e às flutuações sazonais, criando, assim, contratos de curto prazo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os fenômenos descritos acima podem ser os fatores que incentivaram os museus a contratar prestadores de serviços para tarefas que viabilizam o acesso do público. Diversas explicações foram apresentadas para essa tendência, sendo a principal delas o fato de os museus tenderem a se concentrar em sua atividade principal: a produção de exposições. <strong>[4]</strong> No entanto, uma explicação mais pragmática pode ser o verdadeiro fator determinante: isso permite que as instituições mantenham sempre uma equipe completa e se adaptem à demanda sazonal flutuante sem o ônus da gestão direta de pessoal. Os prestadores de serviços, atuando como subcontratados, oferecem muito mais flexibilidade do que trabalhadores individuais e assumem a responsabilidade pelos recursos humanos. Os contratos entre museus e prestadores de serviços geralmente especificam apenas o número de “cargos” necessários, dependendo das flutuações sazonais de visitantes. Os prestadores, então, têm liberdade para contratar conforme acharem melhor para garantir a lucratividade, alinhando-se, ainda que de forma geral, às preferências dos museus. Isso frequentemente resulta em um pequeno número de funcionários permanentes apoiado por um grupo rotativo de trabalhadores contratados por prazo determinado, embora existam variações. No caso de visitas guiadas, os subcontratados às vezes atuam meramente como intermediários entre os museus e os guias freelancers. Por outro lado, em alguns museus, a equipe de recepção terceirizada é composta quase que inteiramente por funcionários permanentes. A inconsistência nas práticas de contratação entre as instituições reduz as oportunidades de interesses compartilhados e solidariedade entre os funcionários dos museus.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158552" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/84277580_BVParisMona-LisaLouvreVisitors-wait-in-line-to-see-the-Mona-Lisa-in-the-Medici.jpg" alt="" width="450" height="740" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/84277580_BVParisMona-LisaLouvreVisitors-wait-in-line-to-see-the-Mona-Lisa-in-the-Medici.jpg 450w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/84277580_BVParisMona-LisaLouvreVisitors-wait-in-line-to-see-the-Mona-Lisa-in-the-Medici-182x300.jpg 182w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/84277580_BVParisMona-LisaLouvreVisitors-wait-in-line-to-see-the-Mona-Lisa-in-the-Medici-255x420.jpg 255w" sizes="auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px" />Já é politicamente questionável que os museus nacionais dependam tanto da terceirização, pois isso, na prática, vincula sua sobrevivência a empresas privadas. Mas, como era de se esperar, esse sistema também acarreta sérios problemas em relação às condições de trabalho, à gestão e à remuneração. Os trabalhadores dessas empresas terceirizadas têm condições de trabalho muito piores do que os funcionários internos dos museus. No dia a dia, os diferentes acordos trabalhistas sob os quais operam resultam em frequentes mudanças de turno, jornadas de trabalho noturnas até mais tarde e salários por hora significativamente inferiores para a equipe de recepção terceirizada… Devemos acrescentar que esses acordos trabalhistas não são atualizados de forma completa há 20 anos!</p>
<p style="text-align: justify;">As condições de trabalho dos funcionários terceirizados de museus são agravadas por uma dupla vigilância: eles são frequentemente monitorados por um gerente da empresa prestadora de serviços e também acompanhados de perto pela equipe administrativa do museu, que garante o cumprimento dos termos do contrato. Legalmente, os trabalhadores terceirizados não podem receber ordens dos museus. Portanto, as informações e os ajustes no trabalho devem ser feitos do museu para a empresa prestadora de serviços, que então instrui seus gerentes, que por sua vez orientarão a equipe da recepção, os fiscais ou os guias.</p>
<p style="text-align: justify;">A terceirização também afeta a forma como os trabalhadores percebem seus próprios papéis. No nosso caso, os funcionários da recepção que entrevistamos expressaram um forte sentimento de distanciamento das instituições em que trabalham. Alguns também relataram sentir-se desconectados da arte e da cultura, apesar de trabalharem em museus. Isso ocorre em parte porque os contratos entre museus e prestadores de serviços às vezes os proíbem de interagir com os visitantes sobre esses assuntos —– mesmo quando estão posicionados diretamente em frente a obras de arte ou coleções. Embora essas experiências possam variar de acordo com a função, para os funcionários da recepção, essa desconexão pode contribuir para a desvalorização do seu trabalho, agravada pela sensação de desempenhar tarefas invisíveis, como recepcionar visitantes e fornecer informações.</p>
<p style="text-align: justify;">Para além desses problemas estruturais, alguns desses fornecedores recorrem a uma gestão severa. Em resposta, os trabalhadores por vezes ameaçam apresentar queixas à Inspection du travail (IT) <strong>[5]</strong>, mas isso frequentemente leva à não renovação dos seus contratos. Na maioria das vezes, porém, as queixas à IT revelam-se inúteis, uma vez que dependem da permanência do trabalhador na empresa até à realização da inspeção — um processo que pode demorar até um ano, apesar da elevada rotatividade de pessoal. A gestão de recursos humanos representa um desafio adicional. Embora não pretendamos defender a existência de recursos humanos, a grave falta de pessoal nos níveis de gestão superior obriga os trabalhadores a verificarem pessoalmente os seus salários em relação às horas trabalhadas. Noutro caso, um simples pedido por uma sala de intervalo adequada prolongou-se por meses e permanece por resolver, com a empresa de terceirização e o museu a acusarem-se mutuamente pela inação.</p>
<p style="text-align: justify;">Para sermos honestos, não fomos os primeiros a questionar essas questões. Já existem tentativas de contestar essas práticas há anos. A situação nos museus franceses é realmente crítica, com falta de pessoal e prédios com sérios problemas estruturais. Mas a maioria das greves e protestos foi realizada por trabalhadores contratados diretamente, muito mais sindicalizados e com empregos mais estáveis ​​do que os nossos. Como muitos dos nossos colegas têm contratos de curta duração (às vezes de apenas um dia!), é compreensível que relutem em se engajar nesse tipo de luta, especialmente quando uma greve oficial significa perder uma parte considerável do salário mensal, além de enfrentar grande insegurança. Uma greve teria pouco efeito de qualquer forma: alguns dos nossos colegas têm contratos flexíveis, o que significa que podem ser alocados para praticamente qualquer local onde o empregador precise deles. Como os trabalhadores terceirizados são facilmente substituíveis, uma greve em um local de trabalho teria pouco impacto. As empresas de terceirização têm uma reserva de trabalhadores disponíveis caso alguém falte. Em caso de greve, algumas pessoas contatadas pela empresa para preencher turnos podem nem saber que são fura-greves até chegarem ao local de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Sendo assim, como nós, trabalhadores de museus, mesmo sem trabalhar para o museu, poderíamos encontrar maneiras de lutar contra isso, de recuperar nossa autonomia quando raramente, ou nunca, encontramos nossos colegas da mesma prestadora de serviços que trabalham em outros locais em Paris? Como poderíamos organizar uma resistência coletiva quando todos sentem que têm muito a perder para agir? Responder a essas perguntas é particularmente difícil, visto que as diferentes prestadoras de serviços raramente se comunicam além de questões estritamente operacionais do dia a dia, o que limita a possibilidade de unir lutas entre diferentes empresas. No fim, vários de nossos camaradas organizaram, com a ajuda do Sud, a<em> Union Syndicale Solidaires</em>. Esses trabalhadores, em sua maioria do Palais de la Porte Dorée, estavam fartos do escopo vago e cada vez mais amplo de suas funções. O museu frequentemente lhes pedia para assumir tarefas como vigilância, jardinagem e limpeza, nenhuma das quais constava em suas descrições oficiais de cargo. Além disso, a inauguração do novo Museu da História da Imigração no mesmo edifício trouxe um fluxo de visitantes, aumentando ainda mais a pressão sobre a equipe, embora o aumento da carga de trabalho não tenha sido reconhecido. O que diferenciava esses colegas era seu envolvimento prévio no ativismo sindical — alguns eram inclusive sindicalizados, o que é relativamente incomum na França, onde a sindicalização permanece particularmente baixa. Esses colegas já sabiam a quem recorrer, eram mais determinados e tinham um melhor entendimento de seus direitos do que outros. Com a ajuda de advogados e camaradas, nosso sindicato entrou com uma ação judicial contra quatro museus e três empresas terceirizadas: o Louvre (que trabalhava com a Muséa), o museu Mucem de Marselha (com a Pénélope) e a Bolsa de Comércio e o Palácio da Porte Dorée (com a Marianne International).</p>
<p style="text-align: justify;">O processo judicial não visava diretamente as nossas condições de trabalho, algo que, como já mencionamos, é da competência da Inspeção do Trabalho. Ele foi instaurado contra a própria prática de terceirização, sendo as supostas infrações “<em>prêt de main d&#8217;oeuvre illicite</em>” e “<em>délit de marchandage</em>”, duas infrações que podem ser julgadas pela justiça. Primeiro, o “<em>prêt de main d&#8217;oeuvre</em>” refere-se ao uso ilegal de mão de obra externa. Com isso, argumentamos que o trabalho que realizamos nos museus é fundamental para sua missão principal e, portanto, não deve ser tercerizado para fornecedores externos. Segundo, a acusação de “<em>marchandage</em>” questiona a injustiça da terceirização, pois nos nega os direitos e benefícios concedidos aos funcionários internos.</p>
<p style="text-align: justify;">Juntamente com essa denúncia, vários jornais começaram a abordar a questão da terceirização em museus, principalmente o jornal de esquerda<em> Libération</em>, que demonstrou interesse desde o início. No fim, para nossa própria surpresa, a história recebeu ampla cobertura — da TV local e rádio nacional aos jornais quebequenses — em grande parte porque o Louvre estava envolvido.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158551" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1.jpg" alt="" width="2268" height="1514" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1.jpg 2268w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1-1024x684.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1-768x513.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1-1536x1025.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1-2048x1367.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1-629x420.jpg 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/1993-11-20T120000Z_1822768092_PBEAHUNKIEX_RTRMADP_3_LOUVRE-scaled-1-681x455.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2268px) 100vw, 2268px" />abaEmbora a imprensa já tivesse dado alguma cobertura às dificuldades dos trabalhadores em diversos locais terceirizados ao longo dos anos, o assunto finalmente veio à tona por completo. Para nossos camaradas, o feedback esmagador da campanha foi a sensação de que suas lutas finalmente foram reconhecidas, de que foram vistos — e de que não estavam sozinhos. O que podemos afirmar com certeza é que a campanha deixou sua marca e que muitos de nossos camaradas passaram a entender de fato como trabalhar para um prestador de serviços externo piora nossas condições de trabalho. Quanto à ação judicial, embora não possamos confiar totalmente nela, ainda esperamos que estabeleça um precedente. Contudo, embora a perspectiva de acabar com nossa própria terceirização e reintegrar os museus não seja impossível (casos assim já ocorreram no passado, principalmente no setor de telecomunicações), ainda é improvável. Mas, se tal oportunidade surgisse, a aproveitaríamos com prazer. Muitos de nós, na verdade, estamos mais ou menos satisfeitos com nosso trabalho — apenas esperamos por mais funcionários, melhores salários e maior reconhecimento, como provavelmente a maioria dos trabalhadores deseja.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que mais queríamos era lançar luz sobre a terceirização no setor cultural. Como escrevemos anteriormente, é possível entrar e percorrer um museu inteiro sem interagir com um único funcionário. Recepção, guias, até mesmo segurança ou limpeza, não devem ser vistos como fontes de lucro no caso dos museus. Como costumamos dizer às pessoas que nos perguntam sobre toda essa confusão: os museus acabam se transformando em empresas sem funcionários, apenas com gestores. Qual é o limite da terceirização em museus, quando a legislação permite que eles utilizem cada vez mais prestadores de serviços para suas atividades? Que impacto isso terá no acesso à arte, com uma força de trabalho fragmentada e terceirizada em instituições culturais, desde as pessoas que recepcionam os visitantes até aquelas que apresentam e explicam as obras de arte? E os museus perderão sua capacidade de funcionar adequadamente se todas as suas competências forem progressivamente terceirizadas?</p>
<p style="text-align: justify;">Por ora, o uso da terceirização tem sido explicado oficialmente (e ironicamente) pelo desejo dos gestores de museus de se concentrarem em suas “missões essenciais”: a criação de exposições. Mas agora, com os museus nacionais alugando espaços para exposições privadas e dependendo mais do que nunca de eventos privados para obter receita, surge a pergunta: irão ainda mais longe e terceirizarão o próprio processo de criação de exposições? <strong>[6]</strong> Nosso receio é que os museus se tornem meras conchas vazias — instituições sem alma, focadas unicamente na autopreservação, desaparecendo, na prática, em espírito.</p>
<p><em>Traduzido do<a href="https://notesfrombelow.org/article/mere-shells-fighting-outsourcing-in-frances-museum" target="_blank" rel="noopener"> inglês</a> por Bruna Costa</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Schütz, G. (2022). Subcontratação sob uma perspectiva de gênero: uma análise da terceirização “permanente” de serviços gerais com base no caso dos serviços de recepção. Entreprises et histoire, No 107(2), 45-59. <a class="urlextern" title="https://doi.org/10.3917/eh.107.0045" href="https://doi.org/10.3917/eh.107.0045" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://doi.org/10.3917/eh.107.0045</a>.</p>
<p><strong>[2]</strong> Ver Bourdieu, P., &amp; Darbel, A. (1969). O Amor pela Arte: Os Museus de arte na Europa e seu público.</p>
<p><strong>[3]</strong> A mudança de 2008 é chamada, Révision Générale des Politiques Publiques (Revisão Geral da Política Pública), e permite principalmente que apenas um em cada dois funcionários públicos aposentados seja substituído.</p>
<p><strong>[4]</strong> Veja o debate sobre ética organizado pelo Comitê Nacional Francês do ICOM (Conselho Internacional de Museus) em 24 de março de 2025: <a class="urlextern" title="https://www.icom-musees.fr/ressources/pour-une-delegation-responsable-musees-et-externalisation" href="https://www.icom-musees.fr/ressources/pour-une-delegation-responsable-musees-et-externalisation" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.icom-musees.fr/ressources/pour-une-delegation-responsable-musees-et-externalisation</a></p>
<p><strong>[5]</strong> Inspeção do trabalho.</p>
<p><strong>[6]</strong> Um caso interessante é o da exposição “Machu Picchu e os tesouros do Peru” na Cité de l’Architecture et du Patrimoine; toda a ala de exposições temporárias foi cedida à empresa privada World Heritage Exhibitions LLC. Veja: <a class="urlextern" title="https://www.citedelarchitecture.fr/fr/exposition/machu-picchu-et-les-tresors-du-perou" href="https://www.citedelarchitecture.fr/fr/exposition/machu-picchu-et-les-tresors-du-perou" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.citedelarchitecture.fr/fr/exposition/machu-picchu-et-les-tresors-du-perou</a></p>
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		<title>O que a esquerda iraniana está dizendo sobre os protestos em massa?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 10 Jan 2026 03:36:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Irão/Irã]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Eles estão apoiando os protestos em massa, ao mesmo tempo que condenam a intervenção dos EUA e de Israel. Por Owen Jones ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Owen Jones</h3>
<p style="text-align: justify;">Protestos em massa estão varrendo o Irã, desencadeados inicialmente pela fúria generalizada com a desastrosa situação econômica do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Os protestos cresceram em tamanho e incluem demandas cada vez maiores pela derrubada da República Islâmica. Ao mesmo tempo, Donald Trump ameaçou bombardear o Irã novamente — e a ameaça de um novo ataque militar israelense paira sobre o país.</p>
<p style="text-align: justify;">De forma deprimente, alguns dos manifestantes apoiam Reza Pahlavi &#8211; filho do Xá do Irã, deposto pela Revolução Islâmica de 1979. O próprio Xá foi imposto após os serviços secretos dos EUA e do Reino Unido orquestrarem um golpe contra o governo progressista de Mohammad Mosaddegh, derrubado em 1953. Seu regime brutal alimentou a desilusão em massa que levou à revolução.</p>
<p style="text-align: justify;">Pahlavi tem incitado seus apoiadores às ruas. Se ele chegar ao poder, uma ditadura será substituída por outra. Será um regime pró-EUA e, dadas as complexas divisões étnicas, religiosas e políticas no Irã, isso plausivelmente pode levar a um enorme derramamento de sangue e até mesmo uma guerra civil.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que está dizendo a esquerda iraniana?</p>
<p style="text-align: justify;">O maior partido de esquerda é o Tudeh — o partido comunista do Irã, que foi violentamente reprimido pela República Islâmica na década de 1980.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-158477" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-819x1024.webp" alt="" width="440" height="550" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-819x1024.webp 819w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-240x300.webp 240w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-768x960.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-1229x1536.webp 1229w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-1638x2048.webp 1638w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-336x420.webp 336w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-640x800.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests-681x851.webp 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Tehran-protests.webp 1920w" sizes="auto, (max-width: 440px) 100vw, 440px" /></strong>Seu <a class="urlextern" title="https://www.tudehpartyiran.org/en/2025/12/30/statement-of-the-tudeh-party-of-iran-widespread-popular-protests-are-a-renewed-beginning-for-challenging-religious-capitalist-despotism-and-for-liberating-the-homeland-from-deprivation-pover/" href="https://www.tudehpartyiran.org/en/2025/12/30/statement-of-the-tudeh-party-of-iran-widespread-popular-protests-are-a-renewed-beginning-for-challenging-religious-capitalist-despotism-and-for-liberating-the-homeland-from-deprivation-pover/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">primeiro comunicado</a>, divulgado em 30 de dezembro, tem como título: <strong>“Protestos populares generalizados representam um novo começo para desafiar o despotismo religioso-capitalista e para libertar a pátria da privação, da pobreza, da corrupção e do regime antipopular da República Islâmica!”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O comunicado menciona uma revolta popular impulsionada pela “rápida alta dos preços das moedas estrangeiras e do ouro” e celebra o grito de guerra “Morte ao ditador”, que, segundo eles, “abalou os alicerces do regime despótico no poder”.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles se referem a trabalhadores que organizam protestos e greves, incluindo funcionários da Petro-Refinaria de Kangan, que lutam por salários atrasados, e à União das Associações de Caminhoneiros e Motoristas do Irã, que expressaram “séria preocupação com a situação econômica caótica, a crescente pressão sobre o mercado e a situação crítica de subsistência dos motoristas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Acrescentam:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">As principais raízes dos protestos atuais devem ser buscadas nas desastrosas políticas socioeconômicas do regime do Velayat-e Faqih: a intensificação sem precedentes da pobreza, a inflação superior a 40%, a forte desvalorização da moeda nacional, a alta descontrolada das taxas de câmbio, a queda do poder de compra dos cidadãos, a corrupção generalizada e a busca por privilégios, e a continuidade das sanções desumanas impostas pelo imperialismo estadunidense e seus aliados.</p>
<p style="text-align: justify;">O sistema político que governa nossa pátria — ou seja, a tutela absoluta de Ali Khamenei — é irreformável. Valendo-se de extensas estruturas militares e de segurança, este governo violou aberta e violentamente os direitos e a autoridade do povo para determinar seu próprio destino. Sem superar esse regime de despotismo religioso e domínio do grande capital, não há esperança de melhorar as condições atuais, aliviar as pressões econômicas, reduzir a pobreza e a privação, resolver a escassez de eletricidade e água ou pôr fim à onda violenta e sangrenta de repressão contra as liberdades e os direitos democráticos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa ditadura não apenas arrastou o Irã e sua sociedade para a beira do colapso e da destruição, mas também expôs o país ao grave e repetido perigo de intervenção estrangeira e da substituição do despotismo atual por outra forma decadente de tirania — uma dominada por servos do imperialismo americano e do governo genocida israelense.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Eles pedem solidariedade entre diferentes grupos sociais, “desde trabalhadores, operários e aposentados até mulheres, estudantes, jovens e comerciantes &#8211; contra as políticas agressivas deste regime, e os esforços para organizar movimentos de protesto coordenados em todo o país podem lançar as bases para desafiar seriamente o regime e abrir caminho para transformações fundamentais e democráticas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Concluem:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Continuamos a acreditar que todas as forças progressistas e defensoras da liberdade no país — desde a esquerda e as forças nacionalistas até os grupos nacional-religiosos, bem como indivíduos e forças que ultrapassaram a política de preservação do “sistema” e do governo atual — devem unir forças e desempenhar um papel importante e eficaz na organização dos protestos em massa que ocorrem hoje no Irã.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A <a class="urlextern" title="https://www.tudehpartyiran.org/en/2026/01/02/statement-of-the-tudeh-party-of-iran-we-unequivocally-condemn-any-intervention-by-u-s-imperialism-the-genocidal-israeli-state-and-their-domestic-accomplices-in-the-sensitive-developments-of-our-co/" href="https://www.tudehpartyiran.org/en/2026/01/02/statement-of-the-tudeh-party-of-iran-we-unequivocally-condemn-any-intervention-by-u-s-imperialism-the-genocidal-israeli-state-and-their-domestic-accomplices-in-the-sensitive-developments-of-our-co/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">segunda declaração</a>, emitida em 2 de janeiro de 2026, tem como título: <strong>“Condenamos inequivocamente qualquer intervenção do imperialismo estadunidense, do Estado genocida de Israel e de seus cúmplices internos nos assuntos delicados do nosso país!”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mais uma vez, descrevem uma “nova onda de protestos populares” desencadeada pelas “condições socioeconômicas insuportáveis ​​do país”. Mencionam a violenta repressão estatal e acrescentam:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O Partido Tudeh do Irã considera justos e legítimos os protestos populares contra as condições desumanas vigentes — especialmente a atual situação econômica e de subsistência opressiva. Desde o início, em união com outras forças nacionais e democráticas do país, apoiamos a expansão e o aprofundamento desses protestos populares, ao mesmo tempo em que apelamos à preservação da calma, à continuidade das formas civis de protesto e ao atendimento, por parte da República Islâmica, das legítimas reivindicações do povo.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas, embora se alinhem com “a repulsa da maioria da sociedade em relação à ditadura islâmica no poder”, denunciam a intervenção do “governo quase fascista de Donald Trump” — especificamente sua ameaça de bombardear o Irã.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles dizem:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essa postura é uma tentativa flagrante de interferir nos assuntos internos do Irã, especialmente quando o regime do Velayat-e Faqih se mostra totalmente incapaz de se livrar da crise, da instabilidade e do medo constante da população, buscando prolongar sua sobrevivência unicamente por meio da repressão e do aparato militar e de segurança.</p>
<p style="text-align: justify;">A interferência imperialista dos EUA nos assuntos internos de nossa pátria constitui uma clara violação da soberania nacional do Irã e serve apenas para garantir os interesses imperialistas no Oriente Médio e no Golfo Pérsico. Outro ponto crucial é que, dadas as políticas do governo de extrema-direita de Trump e seu alinhamento total com o governo criminoso e genocida de Netanyahu, que está à frente da máquina de guerra de Israel, qualquer intervenção nos assuntos internos do Irã não só é manifestamente prejudicial à revolta popular contra a República Islâmica, como também pode trazer consequências catastróficas para o país.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O Partido Tudeh “condena explícita e resolutamente a intervenção flagrante do imperialismo estadunidense e de seus aliados regionais e domésticos nos assuntos internos do Irã”, denunciando também as políticas desastrosas da ditadura.</p>
<p style="text-align: justify;">Eles mencionam o “golpe vergonhoso” de 1953 e afirmam que “a política de &#8216;mudança de regime&#8217; sempre foi perseguida para servir aos interesses estratégicos do imperialismo global e jamais poderá levar à liberdade, à realização dos direitos nacionais e democráticos ou à soberania do povo sobre seu próprio destino”.</p>
<p style="text-align: justify;">Afirmam que o movimento de massas não precisa da assistência do governo estadunidense “quase fascista” para ter sucesso e concluem:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Avante rumo à unidade e à solidariedade do povo iraniano na luta contra o regime do Velayat-e Faqih! Viva a paz; viva a luta do povo iraniano, trabalhador e sofrido.”</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">É muito deprimente assistir a uma turbulência política em que os principais atores são todos abomináveis. É por isso que é importante ouvir a esquerda iraniana &#8211; e tentarei compartilhar suas posições da melhor maneira possível.</p>
<p style="text-align: center;"><em>Traduzido do original que pode ser acessado <a class="urlextern" title="https://www.owenjones.news/p/whats-the-iranian-left-saying-about" href="https://www.owenjones.news/p/whats-the-iranian-left-saying-about" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a></em>.</p>
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		<title>Solidariedade aos venezuelanos?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 08 Jan 2026 12:39:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Venezuela]]></category>
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					<description><![CDATA[ Qualquer posicionamento em rechaço à intervenção americana na Venezuela que ignore as décadas de crise e regime autoritário que existem no país é caduco, cego. Por Davi]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Davi</h3>
<p style="text-align: justify;">Como todos que possuem acesso à alguma mídia devem saber, os Estados Unidos sequestraram Nicolás Maduro, chefe de Estado da Venezuela, no último dia 3 de janeiro. O tema toma conta quase integralmente do noticiário e redes sociais desde então, com eventos ainda em desenvolvimento, mas acredito ser possível realizar uma leitura inicial &#8211; não exaustiva &#8211; da situação.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Traição</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A ação militar sugere traição interna no regime bolivariano, como disse Rafael Uzcátegui em <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2026/01/158441/" href="https://passapalavra.info/2026/01/158441/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">seu artigo</a>. De fato, já fora divulgado que haviam <a class="urlextern" title="https://www.bloomberglinea.com.br/internacional/de-agente-da-cia-em-caracas-a-ataque-com-150-avioes-como-os-eua-capturaram-maduro/" href="https://www.bloomberglinea.com.br/internacional/de-agente-da-cia-em-caracas-a-ataque-com-150-avioes-como-os-eua-capturaram-maduro/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">agentes da CIA</a> no terreno coletando informações de contatos internos do regime, que passavam informações precisas sobre a rotina de Maduro. Traições de figuras próximas do regime não seriam novidade, <a class="urlextern" title="https://es.wikipedia.org/wiki/Manuel_Cristopher_Figuera" href="https://es.wikipedia.org/wiki/Manuel_Cristopher_Figuera" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">como no caso do major-general Manuel Cristopher Figuera</a>, que se refugiou em 2019 após uma tentativa fracassada de golpe. Somente lunáticos como Breno Altman acreditam que o regime segue firme, sem fissuras internas e que a ação foi realizada de forma isolada pelos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Chavismo trumpista</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Provavelmente não foi por acaso que Trump indicou Delcy Rodriguez, militante histórica do chavismo e que exerceu diversos cargos de importância como ministra de Economia, diretora do Banco Central e ministra do Petróleo. Segundo alguns relatos da mídia, haveria razões para que esse pacto fosse de interesse de ambos, pois o núcleo político de Delcy estaria sendo mais escanteado no arranjo político do governo Maduro.</p>
<p style="text-align: justify;">Manter o regime seria uma necessidade econômica para o governo Trump e as empresas conseguirem lucrar com a exploração do Petróleo venezuelano, pois uma transição forçada seria muito mais custosa em termos de perdas e conflito, com resultados mais incertos do que o sequestro do líder do regime. A solução <em>realpolitik</em> seria manter por enquanto um governo chavista alinhado aos EUA, pois a oposição liberal seria débil demais entre os atores políticos envolvidos — militares, Legislativo e Judiciário.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158465" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164.jpg" alt="" width="2560" height="1920" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-1024x768.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-1536x1152.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-2048x1536.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/venezuela-bvb-3-1669506164-681x511.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" />Situação política na Colômbia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Trump ameaçou uma série de outros países em sequência ao ataque: Cuba, Colômbia, México, Groenlândia e Irã. Falando especificamente da Colômbia, foi sugerido que uma ação militar semelhante poderia ocorrer contra o presidente Gustavo Petro, a quem Trump acusa de relações com o narcotráfico. Essas falas têm repercutido bastante na mídia e na política colombianas, com diversos pronunciamentos do presidente Petro feitos nas últimas horas, chegando a defender que o povo tome o poder com armas caso seja atacado. Apesar das retóricas inflamadas, penso ser muito difícil que algo semelhante se repita em breve na Colômbia, pois há uma realidade bastante diferente da venezuelana. O país tem apresentado bons resultados econômicos recentemente, há uma democracia burguesa “respeitada” e certa liberdade política. Petro está em seus últimos meses de governo e haverá eleições em março, sendo o candidato de seu partido, Ivan Cepeda, o favorito para ganhá-las. As hostilidades de Trump tendem a fortalecer a esquerda governista, inclusive políticos de oposição criticaram sua postura. Se, porventura, houver uma ação análoga contra a Colômbia, há um risco real de uma grande convulsão social com efeitos incertos. Lembremos que o governo Petro é fruto dos recentes “<em>estallidos</em>” sociais do país, em <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Protestos_na_Col%C3%B4mbia_em_2019" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Protestos_na_Col%C3%B4mbia_em_2019" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">2019</a> e <a class="urlextern" title="https://pt.wikipedia.org/wiki/Protestos_na_Col%C3%B4mbia_em_2021" href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Protestos_na_Col%C3%B4mbia_em_2021" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">2021</a>, que seriam inclusive as maiores revoltas populares da história da Colômbia <strong>[1]</strong>. Portanto, há motivos para acreditar que nesse caso seria mais um blefe do que uma ameaça de fato. A força dos blefes de Trump, entretanto, é poder torná-los reais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A reação dos venezuelanos</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As reações públicas dos venezuelanos foram divididas entre os venezuelanos que moram na Venezuela e os refugiados em outros países. Dentro da Venezuela, segundo reportagens, houveram reações mistas: uma celebração tímida e algumas demonstrações públicas de apoio ao regime, muito provavelmente ordenadas desde cima pela classe dominante. Em ambos os grupos existe apreensão. Longas filas para estocar alimentos foram vistas nas ruas nos dias seguintes à operação.</p>
<p style="text-align: justify;">Fora da Venezuela, houveram comemorações em mais de 30 países com refugiados venezuelanos, segundo a líder da oposição María Corina Machado. Foram notórias as manifestações no Chile, Argentina e Colômbia. Após a euforia inicial, parece haver bastante expectativa e também apreensão entre essas pessoas, que vislumbraram uma possibilidade de retornar à sua terra natal no futuro. Esses imigrantes e refugiados também publicaram milhares de vídeos em redes sociais explicando por que estavam comemorando, apesar da ação ter sido feita pelos Estados Unidos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Como a esquerda reagiu?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As reações iniciais de boa parte da esquerda brasileira foram de repúdio, com a CSP-Conlutas convocando uma manifestação em protesto ao ataque à Venezuela já no dia 3. Diversas declarações públicas sobre defesa da soberania foram publicadas, houve a linha de que as ações dos EUA não terminariam na Venezuela e Vladimir Safatle disse que “o fato de Maduro ser um ditador pouco importa agora”. Houve uma reação um tanto tímida do Governo Federal, com Lula falando em defesa da soberania em abstrato, buscando não se chocar frontalmente com nenhum dos lados do conflito e preservar sua melhora de relação com Trump.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 5, a CSP-Conlutas chamou um novo ato não só pela soberania, mas agora pedindo também “a libertação de Maduro”, algo surpreendente, pois o PSTU (dirigente da CSP), sempre fizera oposição explícita ao governo chavista. Ambos os atos foram pequenos, com um perfil muito mais de esquerda militante organizada.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158464" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/doc-20260103-46287077-12623952_642-8959195_20260103222615-2898818448.jpg" alt="" width="1188" height="625" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/doc-20260103-46287077-12623952_642-8959195_20260103222615-2898818448.jpg 1188w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/doc-20260103-46287077-12623952_642-8959195_20260103222615-2898818448-300x158.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/doc-20260103-46287077-12623952_642-8959195_20260103222615-2898818448-1024x539.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/doc-20260103-46287077-12623952_642-8959195_20260103222615-2898818448-768x404.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/doc-20260103-46287077-12623952_642-8959195_20260103222615-2898818448-798x420.jpg 798w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/doc-20260103-46287077-12623952_642-8959195_20260103222615-2898818448-640x337.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/doc-20260103-46287077-12623952_642-8959195_20260103222615-2898818448-681x358.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1188px) 100vw, 1188px" />Na Colômbia houve uma reação similar à da esquerda brasileira, mas com posições muito mais enfáticas do presidente Gustavo Petro contra a ação dos EUA. No momento existe um aproveitamento político em defesa da soberania nacional colombiana e um ato nacional convocado para quarta-feira, 7 de janeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao redor do mundo houveram protestos contra a intervenção americana, também com um perfil muito à esquerda. Curiosamente, houve uma participação quase nula de venezuelanos em todos esses protestos, algo que inclusive foi usado por venezuelanos e pela direita para zombar dos manifestantes em alguns vídeos.</p>
<p style="text-align: justify;">De todo modo, os atuais protestos contra a intervenção americana na Venezuela e pela libertação de Maduro parecem condenados ao fracasso. A pauta exigiria literalmente uma revolução dentro dos EUA para que Maduro fosse libertado, ou então um ataque de outra potência estrangeira. Os grupos dirigentes dos protestos, sabendo disso, aproveitam o momento para angariar mais seguidores e fazer propaganda.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Uma vela para Maduro?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Qualquer posicionamento em rechaço à intervenção americana na Venezuela que ignore as décadas de crise e regime autoritário que existem no país é caduco, cego. Parte do sucesso da operação americana foi ter escolhido um “alvo perfeito”: um regime sem legitimidade num país devastado e sem futuro. Boa parte do repúdio da esquerda se deve, na verdade, a ilusões quanto ao regime chavista: Jones Manoel, influenciador de esquerda, diz que acha Hugo Chávez uma inspiração e o maior líder popular do século XXI. O MST está avaliando o envio de militantes para protestos pró-chavismo na Venezuela.</p>
<p style="text-align: justify;">É compreensível que a discussão sobre a Venezuela ser ou não uma ditadura pouco importe a pessoas como Vladimir Safatle, que não tiveram que virar pedintes ou trabalhadores informais em outros países e têm altos salários garantidos pelo Estado por período vitalício.</p>
<p style="text-align: justify;">Aliás, é profundamente hipócrita que, após tantos anos de crise migratória, apenas agora a esquerda resolva “se importar” com os venezuelanos. No caso, prestando solidariedade apenas aos venezuelanos alinhados ao governo e se importando apenas em desmerecer e ridicularizar os refugiados que celebraram o sequestro de Maduro. Essa esquerda não tem coragem ou meios de tentar realizar ações conjuntas com os refugiados venezuelanos — sabem o quão ridículo seria chamá-los para um ato em prol da volta de Maduro ao poder. Resta falar apenas com sua claque de universitários e “esclarecidos”.</p>
<p style="text-align: justify;">Façamos um exercício meramente hipotético: se Bolsonaro tivesse sido bem sucedido na tentativa de golpe em 2022, realizasse uma repressão brutal contra a esquerda e o governo Biden o sequestrasse, acham mesmo que essa esquerda que vocifera hoje nas redes sociais faria alguma coisa para exigir sua libertação e retomada ao poder, para que aí sim depois o assunto se resolvesse internamente? Aí fica escancarada a profunda hipocrisia do discurso de “defesa da soberania”.</p>
<p style="text-align: justify;">A crise na Venezuela está longe de acabar com a continuidade do chavismo e a esquerda se encontra sem condições de intervir de qualquer maneira porque continua esquecendo quem mais importa: a população e os trabalhadores venezuelanos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> MARIÑO FANDIÑO, JUAN JOSE. Historia de los paros nacionales en Colombia.</p>
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