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	<title>Portugal &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Ikea desdenha os trabalhadores</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Dec 2024 08:25:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[A tentativa da Ikea de impedir o acesso a publicações deste tipo demonstra o incômodo gerado pela troca de informações.  Por Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Passa Palavra</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">Desde há cerca de um ano este site vem publicando denúncias e relatos feitos por diversos trabalhadores de diferentes unidades da Ikea de Portugal. Em dezembro de 2023 publicámos o primeiro deles, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2023/12/150931/" href="https://passapalavra.info/2023/12/150931/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">A seita</a>, hoje com 37 comentários &#8211; um conjunto de relatos com novas denúncias para além das que já aparecem na publicação original, todas elas feitas por trabalhadores da própria Ikea. Três meses depois publicámos <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/03/151903/" href="https://passapalavra.info/2024/03/151903/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Ikea, a grande mentira</a>, hoje com 13 comentários feitos por trabalhadores também da Ikea. Ao todo são 50 comentários, publicados ao longo de um ano inteiro, a grande maioria denunciando o assédio moral, a exploração do trabalho, o adoecimento físico e mental e as inadequadas condições de trabalho no interior das empresas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-155355 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/ikea1jpg.jpg" alt="" width="337" height="150" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/ikea1jpg.jpg 337w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/ikea1jpg-300x134.jpg 300w" sizes="(max-width: 337px) 100vw, 337px" />Todos os relatos são unânimes em apontar a discrepância entre o discurso de empresa moderna &#8211; que valoriza os trabalhadores e cria um bom ambiente de trabalho &#8211; e as práticas de humilhação cotidiana. Entre as diversas práticas adotadas pelas chefias estão: o acúmulo de funções, as alterações das escalas, a concessão de benesses para alguns trabalhadores em detrimento dos outros. Ou seja, práticas que pretendem ampliar a submissão dos trabalhadores, dificultando a construção de vínculos horizontais para o questionamento das arbitrariedades cometidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda assim, os trabalhadores continuam a compartilhar as denúncias entre si, como nos indicam os comentários que chegam regularmente ao site. Trata-se de uma resistência, provavelmente compartilhada em grupos de mensagem que eventualmente permitem que mais trabalhadores escrevam novos relatos. O comentário feito no dia 29 de novembro demonstra que tal fórum entre trabalhadores gera incômodos na empresa, que aparentemente bloqueou os sites de denúncia dentro das redes internas da empresa. Não sabemos se o Passa Palavra está entre os sites bloqueados, e por mais que não recomendemos que este tipo de texto seja publicado utilizando as redes fornecidas pelas empresas, nos parece evidente que a tentativa da empresa de impedir o acesso a publicações do tipo demonstra o incômodo gerado pela troca de informações.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-155354" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/Ikea2.jpg" alt="" width="259" height="194" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/Ikea2.jpg 259w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/Ikea2-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/Ikea2-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/Ikea2-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/12/Ikea2-238x178.jpg 238w" sizes="(max-width: 259px) 100vw, 259px" />Desde o início da existência do Passa Palavra temos sido um espaço aberto à articulação das lutas em locais de trabalho. Continuamos abertos aos trabalhadores da Ikea, e de qualquer outra empresa, para que nos enviem relatos e denúncias para contato@passalavra.info. Aos demais leitores do site fica o convite de prestar atenção ao que acontece na Ikea de Portugal, e investigar se há outras movimentações subterrâneas no assim chamado setor de serviços, dos dois lados do Atlântico.</p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo foram retiradas de propagandas da Ikea.</em></p>
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		<title>O 25 de Abril está morto</title>
		<link>https://passapalavra.info/2024/04/152647/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Apr 2024 19:48:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[Migrantes]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
		<category><![CDATA[Zona euro]]></category>
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					<description><![CDATA[Aceitar a derrota quando ela de fato ocorre é o mínimo que deve fazer um revolucionário. A crença em uma falsa vitória é sempre pior que uma derrota assimilada conscientemente. Por Dois imigrantes em Portugal]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3><strong>Por Dois imigrantes em Portugal</strong></h3>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;">O 25 de Abril está morto. Isto é o que pudemos constatar em poucos meses de vida e trabalho em Portugal. Isto é o que pudemos constatar em nosso primeiro “feriado” comemorativo desta data, que o 25 de Abril está morto. Afirmamos isso ao não notarmos sequer sombra do ímpeto contestatório do Processo Revolucionário em Curso (PREC) de outrora, entre os trabalhadores. A partir de nossas experiências imediatas e daquilo que acompanhamos da vida política recente em Portugal, não de um estudo sociológico, o que vemos é a total apatia dos trabalhadores, concomitantemente a uma ascensão considerável da extrema-direita fascistizada e da xenofobia, capitaneada eleitoralmente pelo Chega. Em nossos trabalhos, o que vemos são trabalhadores rindo dos colegas humilhados por seus chefes e gerentes, regozijando-se quando é o outro que teve seu salário descontado por um “pedido errado” ou uma taça quebrada. Uma total ausência de solidariedade e consciência de classe, mesmo que totalmente prática. Uma colega brasileira, fodida como todos nós, chegou a reclamar que o filho tinha que fazer um trabalho sobre o 25 de Abril, “aquela merda de revolução dos esquerdistas”. A mesma disse que sua maior contradição era gostar de Raul Seixas e Paulo Coelho, pois ela era de direita e ambos “eram comunistas”. Outro colega, português e tão fodido como nós, afirmou que o problema do 25 de Abril era “não ter matado todos os comunistas”. Enquanto isso os patrões podem dormir sossegados. Poderia o 25 de abril não estar morto?</p>
<p style="text-align: justify;">Os patrões jogam ainda com a questão dos contratos de trabalho, pois sabem que os setores como a Restauração (restaurantes, cafés, bares, etc.) e a Construção Civil são a porta de entrada para o trabalho de milhares de imigrantes em busca de trabalho. Ter um contrato de trabalho é condição primordial para tentar uma permanência legalizada no país, por meio das chamadas Manifestações de Interesse. Prometem-se contratos que nunca chegam e, quando chegam, são totalmente inferiores ao que de fato se trabalha, pagando-se “por fora” o restante de horas trabalhadas, o que é muitas vezes muito mais do que o número de horas previstas no contrato. Jornadas de 12 horas são comuns, pois “quanto mais você trabalhar, mais você irá ganhar”, dizem os patrões. Assim como toda a sonegação de impostos realizada com burlas diárias, chegamos a ouvir que “afinal, não estamos aqui a trabalhar para eles [o Estado], não é mesmo?! Prefiro pagá-los por fora do que dar dinheiro a eles!”. Um de nós chegou mesmo a ouvir do proprietário de um bar: “isto aqui é uma família!”. Certos setores econômicos de Portugal se encontram no futuro do pretérito, reproduzindo de forma modernizada relações trabalhistas que há muito já deveriam ter desaparecido, mesmo no capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Portugal vive ainda uma brutal crise habitacional, com aluguéis atingindo patamares sem antecendentes nas últimas décadas. Centenas de trabalhadores dividem apartamentos superlotados, alugando quartos individuais quando muito. Para se alugar um apartamento de 1 quarto, fora dos grandes centros, paga-se quase 1000 euros mensalmente. Mas, para conseguir esse “privilégio” de alugar uma moradia só para a sua família, pede-se de 4 a 6 meses de adiantamento, entre aluguéis e cauções, além de fiador em muitos casos. Isto pode representar um mínimo de 3500 euros só para conseguir começar a morar com um mínimo de decência. Fora a xenofobia. Não vamos gastar o tempo do leitor com longas descrições de situações vividas, mas sim, ela existe. No trabalho, no banco, no mercado, nas ruas, em todo lugar e em diversos níveis, do mais sútil ao mais grosseiro e violento. Aonde vive o 25 de Abril?</p>
<p style="text-align: justify;">Acordamos hoje para trabalhar no feriado (um de nós apenas, pois o outro quase partiu para a ação direta contra um gerente histérico ontem e pediu demissão), assistindo a cobertura do 25 de Abril nos jornais locais. O que vimos foi um “7 de Setembro à portuguesa”, com paradas militares celebrando a hierarquia na corporação e diante dos Chefes de Estado. A declaração do presidente português, que repercutiu pelos maiores jornais do mundo, que afirmou a “dívida histórica” e o “dever de reparação financeira” dos “povos escravizados”, demonstra que a luta anticolonial dos revolucionários de outrora também foi totalmente recuperada, apropriada pelo programa fascistoide “decolonialista” e identitário, hoje hegemônico na esquerda. Não sobra nada. Nas ruas, o que vimos foram apresentações escolares, cravos de papel sendo distribuídos e comemorações vazias. E turistas, muitos turistas circulando e consumindo, conforme já aguardavam os patrões da Restauração. Ontem não havia o menor “espírito” do 25 de Abril nas ruas, e amanhã já não haverá vestígios novamente. Transformando-se em uma “data cívica” como outra qualquer, o 25 de Abril morreu.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, não foi uma vitória para a Democracia, o 25 de Abril? Para aqueles que vendem sua força de trabalho, que insistimos em chamar de proletários, com certeza foi uma vitória a derrubada do fascismo salazarista. Sob o porrete fascista é muito mais difícil para a classe se organizar politicamente. Enfim, Portugal se tornou uma grande Democracia, de fato. Isto significa que instaurou-se um regime político mais adequado ao imperativo da mais-valia relativa, especialmente após o estabelecimento da União Europeia, que retirou Portugal do ostracismo econômico de 5 décadas de fascismo. No entanto, como toda Democracia surgida da derrocada de regimes totalitários, graças à luta de milhares de trabalhadores, trata-se de um regime inerente à dominação capitalista (burguesa e gestorial) de classe. Politicamente, as Democracias são de fato ambientes um pouco mais abertos à organização política. Mas, não nos emocionemos muito com isso, pois sabemos o que acontece com iniciativas que se ponham a questionar a ordem dominante, no “Estado Democrático de Direito”. Neste sentido, que é hoje o mais importante por ser aquele que constitui o real processo em curso, enquanto os democratas e muitos conservadores comemoram a “vitória da liberdade” conquistada pelo 25 de Abril, para os trabalhadores (de fato, independentemente, dos matizes ideológicos), assim como para as debilitadas forças sociais anticapitalistas, significa hoje uma grande derrota, pois foi completamente fagocitado pelo Estado e suas instituições.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se trata de uma reflexão ressentida ou derrotista. Aceitar a derrota quando ela realmente ocorre é o mínimo que deve fazer um revolucionário. A crença em uma falsa vitória é sempre pior que uma derrota assimilada conscientemente. Não temos “esperança”, um instrumento dos idealistas. Temos a certeza racional de que, enquanto o capitalismo existir, as contradições que lhe são inerentes podem eclodir em novas lutas e novas formas de organização da classe. Se isto ocorrer novamente em Portugal (não apenas), e é o que desejamos que aconteça, poderemos dizer que o 25 de Abril está vivo novamente.</p>
</div>
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		<title>Ikea, a grande mentira</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 Mar 2024 03:47:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Quem veste a farda da Ikea conta as verdadeiras histórias, contrárias ao que a Ikea passa para o exterior. Por Uma Pessoa]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Uma Pessoa</h3>
<blockquote><p>Em dezembro de 2023, o Passa Palavra publicou o texto &#8220;A seita&#8221;, escrito por um trabalhador da Ikea, contendo várias denúncias contra a Ikea (ver <a href="https://passapalavra.info/2023/12/150931/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>). O texto que agora publicamos, escrito por outro trabalhador, traz novas informações sobre a realidade do trabalho no interior da empresa.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">A Ikea funciona com grupos de direções ditadoras e responsáveis autoritários.</p>
<p style="text-align: justify;">É assim já há algum tempo e cada vez está pior, tudo é encoberto e o que funciona é a cultura do Medo e das Perseguições.</p>
<p style="text-align: justify;">A Diretora Bárbara G. é ameaçadora, várias vezes em reuniões intimidou os colaboradores e a maioria não gosta dela e foge dela, mas ninguém fala, pois todos nós vivemos aterrorizados.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma diretora que deveria há muito ter saído da Ikea, mas a amizade e o lugar prometido com a Helen D., faz com que o terror continue e a Ikea é cúmplice em tudo isto.</p>
<p style="text-align: justify;">Gastam dinheiro com carros, casas, telemóveis e até as suas famílias são beneficiadas, o seu marido até faz parte, participa e é pago pela Ikea, falta total de transparência da Ikea que beneficia estes grupos que controlam todos os movimentos dos colaboradores e onde existem gastos exorbitantes.</p>
<p style="text-align: justify;">O ambiente é desagradável, vários assédios e muitos casos de desrespeito pelos colaboradores.</p>
<p style="text-align: justify;">A Ikea bloqueou a Trustpilot e tem “gente” a trabalhar com um objetivo.</p>
<p style="text-align: justify;">O responsável Cláudio V. conhece os problemas e a Responsável de People and Culture Lélia sabe bem sobre estes abusos, coação, assédios, perseguições e pressões que foram contadas em alguns casos pelos próprios colaboradores, mas a Ikea não quer atuar pois teria de mexer com Chefias e podia sair nalgum programa de televisão ou jornais.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma colaboradora decidiu enfrentar o responsável de Ikea Food e o que aconteceu? Foi alvo de insultos, racismo, perseguição, sabotagem no seu trabalho e despromovida. Todos os responsáveis conheciam a situação, pois foram muitos colaboradores que saíram da Ikea e falaram e nós que continuamos também falamos do que sofríamos por parte do Ikea Food Manager e kitchen Prodution Manager.</p>
<p style="text-align: justify;">A Ikea nega tais acusações.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-151907 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/bathroom-with-two-mirrors-two-sink-and-storage-units-with-di-80508b9f5053fce0c77fc7b8ea108f4c-1009x1024.jpg" alt="" width="640" height="650" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/bathroom-with-two-mirrors-two-sink-and-storage-units-with-di-80508b9f5053fce0c77fc7b8ea108f4c-1009x1024.jpg 1009w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/bathroom-with-two-mirrors-two-sink-and-storage-units-with-di-80508b9f5053fce0c77fc7b8ea108f4c-296x300.jpg 296w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/bathroom-with-two-mirrors-two-sink-and-storage-units-with-di-80508b9f5053fce0c77fc7b8ea108f4c-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/bathroom-with-two-mirrors-two-sink-and-storage-units-with-di-80508b9f5053fce0c77fc7b8ea108f4c-768x779.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/bathroom-with-two-mirrors-two-sink-and-storage-units-with-di-80508b9f5053fce0c77fc7b8ea108f4c-414x420.jpg 414w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/bathroom-with-two-mirrors-two-sink-and-storage-units-with-di-80508b9f5053fce0c77fc7b8ea108f4c-640x649.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/bathroom-with-two-mirrors-two-sink-and-storage-units-with-di-80508b9f5053fce0c77fc7b8ea108f4c-681x691.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/03/bathroom-with-two-mirrors-two-sink-and-storage-units-with-di-80508b9f5053fce0c77fc7b8ea108f4c.jpg 1183w" sizes="(max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Manager Ikea Business João autoritário, só sabe falar mal com os colaboradores.</p>
<p style="text-align: justify;">A Ikea nega tais acusações.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma colaboradora já foi pressionada por uma chefia de customer Relation e team leader a tentarem acusá-la e quiseram despedi-la, a questão foi que a mesma se mexeu e então o caso ficou nulo. Mas o que a colaboradora sofreu foi grave, mas responsável de people and Culture que faz parte destes grupos não atuou, pois, as amizades sobrepõem-se.</p>
<p style="text-align: justify;">A Ikea volta a negar tais acusações.</p>
<p style="text-align: justify;">Um ex. colaborador foi mesmo levado pelo responsável de segurança e coagido, tendo feito ou não algo incorreto não são estes responsáveis que podem tratar os colaboradores desta maneira, acabou por abandonar a Ikea, sendo proibido de falar. A Ikea volta a negar tais acusações.</p>
<p style="text-align: justify;">A colaboradora de logística anula-se e chora muitas vezes, fala que 2 dos teams leaders falam mal, estão sempre a deitá-la abaixo e é muita pressão, muitas injustiças e medo, pois precisa do trabalho. A Ikea volta a negar tais acusações.</p>
<p style="text-align: justify;">A colaboradora de sales é partilhada e tem sofrido por parte dos responsáveis vários insultos, acusações e desvalorização dos eu trabalho, andou muito em baixo e com muita dificuldade em trabalhar, também falou da situação, mas a resposta foi se não quiseres podes sair. A Ikea volta a negar tais acusações.</p>
<p style="text-align: justify;">Colaboradores que se sentem desconfortáveis pois sofrem com comentários depreciativos das chefias e até de outros colaboradores que são amigos das chefias e são protegidos pelas mesmas.</p>
<p style="text-align: justify;">Chefias e teams líderes com flertes indesejados.</p>
<p style="text-align: justify;">Histórias na primeira pessoa de quem sofre na Ikea e que vivem com medo das represálias, dos castigos.</p>
<p style="text-align: justify;">O Ikea proíbe os sindicatos, têm uma delegada que nada faz e não fala com os colaboradores, faz parte dos grupos da Ikea.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem veste a farda da Ikea conta as verdadeiras histórias, contrárias ao que a Ikea passa para o exterior.</p>
<blockquote><p><em>O texto vai ilustrado com imagens retiradas do catálogo da Ikea.</em></p></blockquote>
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		<title>A seita</title>
		<link>https://passapalavra.info/2023/12/150931/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Dec 2023 21:42:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Na Ikea esta seita funciona através do controlo total. Por Um colaborador]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="message-htmlpart1" class="message-htmlpart">
<div class="rcmBody" dir="ltr">
<h3>Por Um Colaborador</h3>
<p style="text-align: justify;">Vários colaboradores queixam-se do mesmo e alguns até com medo de serem despedidos, de serem prejudicados e de ficarem estagnados, falaram com o Departamento de <em>Service Office</em>, chegaram a falar com o Sr. Cláudio Valente e chegaram a escrever ao CEO da Ikea de Portugal, Jesper Brodin, e o que queriam era sempre calar os colaboradores.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a seita montada na Ikea não quer ajudar ou se preocupa com o que direções, <em>management</em> e chefias fazem de mal aos colaboradores. O lema para negarem tudo é dizerem que têm total confiança na sua equipa de topo.</p>
<p style="text-align: justify;">O esquema é culpar o colaborador, abafar tudo o que se diz, desmentir e fazer de tudo para que saiam da Ikea.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu ainda trabalho na Ikea por necessidade, mas não me sinto bem e tenho de ter cuidado, não posso discordar de nenhuma decisão, tenho de estar sempre bem e vivo em pânico, num verdadeiro horror.</p>
<p style="text-align: justify;">Os casos são muitos que sucederam e sucedem na Ikea, mas a seita onde os vários grupos detêm poderes dentro da empresa, tudo fazem para controlar os colaboradores e chegam a usar métodos nada legais.</p>
<p style="text-align: justify;">O meu grande amigo trabalhou na Prosegur e ele mesmo dizia: cuidado com o que falas e com quem falas, eles vigiam os colaboradores e mesmo os clientes.</p>
<p style="text-align: justify;">Está tudo relacionado com os chefes de segurança, que até chegaram através de câmaras a agilizar esquemas e depois levam o colaborador e ele que assine a carta de despedimento. Obtêm informações através de conhecimentos até com autoridades.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-150936" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/carl-milles-and-the-statuette.jpg" alt="" width="500" height="281" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/carl-milles-and-the-statuette.jpg 500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/carl-milles-and-the-statuette-300x169.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px" />Acreditem que a Ikea vai dizer sempre que é mentira, que são a melhor empresa e que se preocupam muito com os colaboradores.</p>
<p style="text-align: justify;">O que se preocupam sempre é em saber quem não está contente, não em perceber as causas e atuar em situações que ocorrem como bulling por parte de chefias, intimidação, ameaças e perseguições.</p>
<p style="text-align: justify;">Posso contar que o meu chefe de restaurante chegou várias vezes a me gritar, insultar e tive várias crises de choro e pânico. Fui ao departamento de <em>People and culture</em> e nada fizeram; até chegam a premiar os responsáveis com promoções, projetos e afins, mesmo sabendo destas situações.</p>
<p style="text-align: justify;">Vários colegas também sofreram assédios de chefias que os tratam de forma diferenciada, dizem o que querem, diminuem-nos, inferiorizam-nos e nas suas costas gozam.</p>
<p style="text-align: justify;">Colaboradores são reprimidos, pois sabem que se comentarem alguma coisa estão marcados e fala-se que existe uma lista com nomes dos menos desejados.</p>
<p style="text-align: justify;">Atuam se falares com penalizações e torturando o colaborador.</p>
<p style="text-align: justify;">Existe um grande desgaste a nível psicológico e mental nos vários departamentos, que funcionam como uma seita, têm os seus informadores que estão ali para depois ir contar às chefias o que se passou, o que ouviram.</p>
<p style="text-align: justify;">O tratamento diferenciado nos horários; na seleção duvidosa para subidas de cargos, vigilância; não te ajudarem para que não consigas; desde a forma de falar agressiva, desde te ameaçarem com pressões para saíres sem os teus direitos.</p>
<p style="text-align: justify;">Os departamentos de Vendas, Apoio ao cliente, caixas, Logística e Ikea Food com chefias que gozam com tudo, que te acusam, que mostram mesmo diferenciação de tratamento e te levam a que a tua saúde seja afetada, pois andas sempre com stress, vives de pânico, tens depressões, tens dores causadas por tudo isto.</p>
<p style="text-align: justify;">Vários colaboradores sofriam com chefes que lhes levantavam a voz, impunham as suas ideias e quem não concordasse era humilhado. Em Vendas era o Chefe de Departamento e em logística vários <em>team leader</em> eram mal educados ou mal educadas e gozavam.</p>
<p style="text-align: justify;">Relacionamentos e chefes que se metiam com colaboradores.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Customer Relation</em> e <em>Business</em> pessimamente geridos e jogos de interesse onde tratavam mal colaboradores.</p>
<p style="text-align: justify;">Na Ikea esta seita funciona através do controlo total; criam redes de conexões onde discutem o que fazer com o colaborador X e onde colocam nos lugares ao seu redor os seus seguidores, que são os ouvidos deles.</p>
<p style="text-align: justify;">A tortura emocional que fazem contra os colaboradores e a discriminação disfarçada.</p>
<p style="text-align: justify;">Até nos sindicatos a Ikea reprime e criou uma imagem falsa e bélica &#8220;para inglês ver&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Aconselharam-me a sindicalizar, depois tudo de forma escondida soube que existia uma delegada sindical que está nesta seita, pois nenhum sindicato entra na Ikea, apenas existe esta figura que tem uma aliança com as direções e não apoia os colaboradores.</p>
<p style="text-align: justify;">Os colaboradores não podem ter VOZ.</p>
</div>
</div>
<div id="message-part2" class="message-part">
<div class="pre" style="text-align: justify;"><em>As imagens que ilustram o artigo são fotografias de esculturas de Carl Milles.</em></div>
</div>
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		<title>Uma história de violência</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Oct 2014 10:31:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[A quem pretende contestar a austeridade não se exige menos do que o respeito incondicional pelas regras do jogo, o repúdio da violência e a garantia de que se indignará de modo inequivocamente pacífico. Por Ricardo Noronha 1. A fisionomia dos dias tranquilos No longínquo ano de 1962, a manifestação do 1.º de Maio em [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>A quem pretende contestar a austeridade não se exige menos do que o respeito incondicional pelas regras do jogo, o repúdio da violência e a garantia de que se indignará de modo inequivocamente pacífico. </em><strong>Por Ricardo Noronha</strong><span id="more-100262"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>1. A fisionomia dos dias tranquilos</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No longínquo ano de 1962, a manifestação do 1.º de Maio em Lisboa transformou-se num motim que se espalhou da Rua da Madalena até às Escadinhas do Duque e dos Restauradores até ao Terreiro do Paço. Viviam-se tempos agitados desde a candidatura presidencial de Humberto Delgado, em 1958, à qual se haviam seguido manifestações e protestos, o início da guerra em Angola, diversas conspirações militares, uma sublevação gorada no quartel de Beja e a prisão de vários estudantes universitários no contexto da crise académica, estando prestes a iniciar-se a grande greve pelas oito horas de trabalho nos campos do Sul. Os alicerces do regime tremiam e a preparação da jornada de luta havia já produzido os seus mártires em Aljustrel, a 28 de Abril, onde dois mineiros foram mortos a tiro pela GNR. Não era por isso um 1.º de Maio qualquer, e os trabalhadores responderam à violência policial com menos medo e mais determinação do que o esperado. Organizada clandestinamente, como era hábito, a manifestação deveria partir do Rossio e percorrer a Baixa ao fim da tarde. Como também era hábito, a polícia procurou impedi-la quando se gritavam já palavras de ordem contra o regime e a Guerra Colonial, carregando sobre todos os que circulavam na zona, a começar pelos operários que chegavam ao Terreiro do Paço vindos da Margem Sul. Os confrontos prolongaram-se durante horas, com pedras removidas da calçada e postes de sinalização utilizados contra a polícia, que empregou gás lacrimogéneo e canhões de água com tinta azul, disparando sobre os manifestantes enquanto a GNR carregava a cavalo, provocando vários feridos e pelo menos um morto, Estêvão Giro, militante do PCP. Os feridos que recorreram aos hospitais acabaram nos calabouços do Governo Civil. Uma semana depois houve nova manifestação, comemorativa da vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, com o mesmo desenlace. O Diário de Lisboa do dia seguinte fazia o rescaldo dos «incidentes», como se de um temporal se tratasse: «Esta manhã a população de Lisboa, em boa ordem, como que esquecida já dos incidentes de ontem, entregou-se aos seus afazeres, não se notando qualquer vigilância especial nas ruas. A cidade retomou a fisionomia dos seus dias tranquilos, com as esplanadas, cafés e outros recintos públicos a funcionar normalmente. Nas ruas da Baixa, porém, algumas montras partidas lembravam aos transeuntes os incidentes de ontem, dos quais resultaram a morte de uma senhora e dez feridos.»</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2. O camarada «Campos»</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Um jovem dirigente do PCP, Francisco Martins Rodrigues, ou «Campos», como era conhecido na clandestinidade, discordou profundamente desse diagnóstico e considerou tudo aquilo revelador de que algo havia mudado na disposição das massas. Das suas dúvidas e inquietações, expressas por carta ao Comité Central, resultou a ruptura com a organização onde militava há mais de uma década, que o levara à prisão em Peniche e dali o ajudara a evadir-se, a cuja Comissão Executiva pertencia e no seio da qual encontrara vozes mais críticas do que a sua, nomeadamente nas células das zonas operárias de Lisboa e da Margem Sul. «Campos» ligou-se rapidamente a diversos outros militantes do PCP dispersos no exílio argelino e europeu, fundando em Paris o Comité Marxista Leninista Português (CMLP) e a Frente de Acção Popular (FAP). O primeiro escrito da nova corrente surgida à esquerda do PCP tinha um título elucidativo – «Luta armada e luta pacífica no nosso movimento» <strong>[1]</strong> – e debruçava-se fundamentalmente sobre a questão da violência, partindo da experiência do «ciclo de lutas de 1958-62». Considerando o salazarismo «um nível superior na táctica repressiva sobre as massas», caracterizado «por manter a luta de classes em limites controláveis» e por ser «mestre na arte das falsas concessões, na capacidade de manobra, no avanço e recuo conforme as circunstâncias», o texto passava a modernidade portuguesa a contrapelo, considerando o regime uma resposta às necessidades do desenvolvimento capitalista, desafiado agora pela «extrema agudização atingida pela luta de classes» e pela «radicalização revolucionária do proletariado e das grandes massas oprimidas». O paciente esforço de acumulação de forças que caracterizava a estratégia do PCP, combinando formas de luta legais, semilegais e ilegais em busca de uma aliança com a oposição liberal, fora ultrapassado pelo que «Campos» considerava ser o «centro de gravidade do movimento», os sectores sociais mais combativos e habitualmente mais reprimidos, que desejavam pegar em armas contra a ditadura. Os acontecimentos haviam colocado na ordem do dia uma insurreição popular capaz de «fazer saltar em pedaços todo o espírito de resignação, fatalismo e descrença que domina sempre os oprimidos» e «desencadear a violência comprimida no peito dos proletários e camponeses explorados, escarnecidos, batidos durante 40 anos». O texto relembrava tanto a violência fundadora na origem do Estado Novo como a violência quotidiana do seu aparelho repressivo, ao qual apenas a violência comprimida no peito dos proletários e camponeses poderia pôr cobro. Era necessário impedir que a cidade recuperasse a fisionomia dos dias tranquilos, com as esplanadas, cafés e outros recintos públicos a funcionar normalmente, um «normalmente» que abrigava no seu seio relações de exploração seculares, alimentando-se do espírito de resignação, fatalismo e descrença que dominava os oprimidos e que era necessário fazer saltar em pedaços. A insurreição concebida por «Campos» dirigia-se contra essa normalidade erguida sob um amontoado de destroços e cadáveres, temporariamente cristalizada num estado de excepção que a tradição dos oprimidos se habituara a considerar a regra. Os «incidentes» de Maio de 1962, com os seus mortos e feridos resumidos pelo Diário de Lisboa a uma linha, haviam dado vida a uma contra-história, uma narrativa que apresentava o presente como uma paz estabelecida à custa dos vencidos e em cujas entrelinhas se insinuava uma guerra civil latente. Que esta se apresentasse enquanto a ordem natural das coisas vinha ilustrar precisamente a profundidade da vitória de uns e da derrota dos outros.</p>
<p><strong><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/policias.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-100264" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/policias-300x199.jpg" alt="policias" width="300" height="199" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/policias-300x199.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/policias.jpg 833w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>3. A guerra dos cem anos</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As vicissitudes que acompanharam Francisco Martins Rodrigues e o CMLP ultrapassam o âmbito deste artigo, tal como a acidentada história das organizações combatentes que surgiram na sua esteira, antes e depois do 25 de Abril. As suas reflexões condensaram contudo alguns dos principais problemas políticos relacionados com a questão da violência, que se encontram a jusante de tudo o que separa uma ditadura de uma democracia e não se deixam resolver pela simples constatação de que certos direitos, liberdades e garantias estão inscritos na Constituição. Não se trata apenas de salientar que as bastonadas da polícia num regime ditatorial se distinguem a custo das que desfere a polícia num regime democrático; ou de relembrar que, apenas 20 anos após os «incidentes» de 1962, a Polícia de Segurança Pública (PSP) assassinou a tiro dois homens nas ruas do Porto, num outro 1.º de Maio de sangrenta memória. As questões suscitadas por «Campos» tornam-se tanto mais pertinentes se recordarmos as continuidades entre a Companhia Móvel da PSP (extinta após o 25 de Abril) e o Corpo de Intervenção que lhe veio suceder em 1976, ou o papel secular da Guarda Nacional Republicana na instauração e restauração dos direitos de propriedade na zona do latifúndio <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Os acontecimentos de 1962 relembram-nos o papel da violência num tempo longo que é, grosso modo, o do século XX português: recuando 50 anos, aproximamo-nos da implantação da República e da vaga de greves operárias e rurais que a acompanhou; avançando 50 anos é o nosso tempo que emerge, em toda a sua indeterminação e incerteza. Ao longo desses 100 anos não foram poucos os momentos de elevada mobilização e conflituosidade social em que a violência foi chamada a desempenhar um papel decisivo – a grande vaga revolucionária posterior à Primeira Guerra Mundial, os levantamentos contra a ditadura militar e o Estado Novo, o ciclo grevista da Segunda Guerra Mundial, os anos do marcelismo e do PREC, a primeira metade da década de 1980 e os anos finais do cavaquismo –, sugerindo uma cronologia capaz de ultrapassar a ascensão e queda dos regimes políticos para se ocupar das classes sociais e das relações de forças em que se joga o seu enfrentamento. Trata-se de uma história subterrânea, arredada para as notas de rodapé e feita por protagonistas anónimos, que nos fala de tempos e lugares diferentes, ligados por um fio vermelho que vai dos operários conserveiros de Setúbal em 1911 aos trabalhadores rurais alentejanos em 1962, dos trabalhadores da TAP reprimidos pelo COPCON em 1974 aos manifestantes que enfrentaram a polícia nas ruas do Porto em 1982. Feita de problemas, acontecimentos, sujeitos e representações que desafiam uma imagem pacificada do passado e nos confrontam com outro século XX português, ela desloca o seu olhar das peripécias dos governantes para as experiências e motivações dos governados, destacando as situações em que a violência foi evidente e em que a sua natureza de acontecimento histórico se apresentou incontornável e decisiva. Torna-se então possível pensar o funcionamento quotidiano de normas, comportamentos e relações sociais à luz dos procedimentos disciplinares e dos dispositivos de controlo que têm o aparelho repressivo do Estado como derradeiro suporte, questionando termos como «autoridade», «legitimidade», «proporcionalidade» ou «operacionalidade». Pensar a repressão não apenas (ou não tanto) naquilo que ela tem de excepcional e de excessivo – no sangue que faz correr, na dor que provoca, no encarceramento, deportação ou morte em que redunda –, mas antes na sua prática institucionalizada, na sua natureza de monopólio legítimo da violência, nos efeitos que produz ao nível dos comportamentos, na distinção que estabelece entre o que é permitido e o que é interdito, implica deslocá-la da margem para o centro e fazer dela um ângulo de observação privilegiado. A história dos subalternos é uma história de violência.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/manifs.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-100265 aligncenter" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/manifs-300x225.jpg" alt="manifs" width="300" height="225" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/manifs-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/manifs.jpg 634w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong style="line-height: 1.5em;">4. Legalidade e ilegalidade</strong></p>
<p style="text-align: justify;">E, finalmente, todas as questões inerentes ao poder e à violência, à legalidade e à ilegalidade, à guerra e à paz, podem ser subtraídas à sua coloração moral e retomadas enquanto elementos da luta de classes. Fazê-lo implica questionar uma narrativa que apresenta o Estado como a incontornável alternativa à guerra de todos contra todos, um vasto arsenal discursivo empenhado em garantir que os homens se convertem em lobos assim que escapam às malhas apertadas da soberania para atribuir ao Direito a incumbência de defendê-los de si próprios. Essa narrativa é tanto mais potente quanto – no que ao Estado e ao seu monopólio da violência legítima diz respeito – foi capaz de se tornar hegemónica e quase indisputada, como se os seus pressupostos fossem neutros e o seu horizonte inultrapassável. Olhando para a esfera político-partidária e institucional, da extrema-direita à extrema-esquerda, é lícito afirmar que a história chegou efectivamente ao fim, e categorias como «representação», «soberania» ou «cidadania» ocupam uma espécie de tecto da evolução política, para lá do qual se encontra apenas a barbárie. Isso é particularmente visível na condenação generalizada de todas as formas de violência que não a do Estado, na adesão incondicional à sua autoridade e na adesão ao pressuposto de que nele se encontra representado o interesse universal. É por isso que a multiplicação das formas de controlo e das leis de excepção – permitindo a máxima amplitude repressiva e fazendo de cada cidadão uma potencial ameaça – se vêem denunciadas enquanto negações do Direito, mesmo que tudo venha sugerir tratar-se de uma actualização necessária à gestão da correlação de forças que o Direito se encarrega de institucionalizar. Denunciar procedimentos policiais que se encontram inscritos nos imperativos estratégicos da governabilidade enquanto «abusos», ou até «ilegalidades», é a máxima evidência de que os cálculos estratégicos se viram substituídos por juízos morais. É a impotência que desta forma se indigna e exige ser melhor governada.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/policias-2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-100266 alignright" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/policias-2-300x190.jpg" alt="policias 2" width="300" height="190" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/policias-2-300x190.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/policias-2.jpg 620w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>E contudo, se alguma coisa nos revelou o último ano e meio é que as nossas opiniões, as nossas vontades, as nossas ideias, os nossos argumentos, os nossos programas e propostas, os magníficos documentos que elaboramos, as alternativas que se debatem, tudo isso, em suma, que compõe o jogo democrático feito de negociações, diálogo, cedências e compromissos foi suspenso, confiscado, anulado e enfiado na gaveta do «custe o que custar, não há alternativa, o melhor povo do mundo aguenta, aguenta». No seu lugar surgiu um interminável monólogo sussurrado nas televisões e que tem como função banalizar a infinita violência da austeridade, o seu cortejo de crianças que desfalecem nas escolas, idosos alimentados a Nestum, doentes sem remédios, famílias a viver na rua, desempregados sem subsídio, assalariados empobrecidos e comerciantes arruinados. Para que tudo isso se torne aceitável, é necessário que a ordem reine nas ruas, que todos se sintam potenciais alvos, que a violência do Estado seja um conjunto de «intervenções» sobre uma sucessão de «incidentes» para repor a «normalidade». A quem pretende contestar a austeridade não se exige menos do que o respeito incondicional pelas regras do jogo, o repúdio da violência e a garantia de que se indignará de modo inequivocamente pacífico. Esse imperativo revela-se bastante claro nos seus objectivos, uma vez que só podemos falar propriamente de pacifismo se este corresponder à escolha de uma opção entre muitas outras, se a guerra for uma possibilidade real, pois de outra forma o pacifismo é apenas um eufemismo para traduzir obediência e subordinação ao monopólio da violência por parte do Estado, aquele mesmo espírito de resignação, fatalismo e descrença de que nos falava Francisco Martins Rodrigues há quase 50 anos. É porque desafia a violência organizada, sem a qual seriam impossíveis as relações sociais de exploração e dominação, que a violência que tem feito nas ruas a sua tímida aparição não pode ser menos do que inaceitável e quase escandalosa. Ela ultrapassa as fronteiras do que é lícito, ao questionar a correlação de forças sobre a qual se ergue a ordem do Estado e da acumulação capitalista, interrompendo o tempo homogéneo e vazio do progresso para revelar a fragilidade do que parecia sólido, identificando a evidência da guerra sob a fisionomia dos dias tranquilos, reabrindo uma história que se pretendia chegada ao fim.</p>
<p><strong>Notas:</strong></p>
<p><strong>[1]</strong> Rodrigues, Francisco Martins (1974), Luta armada e luta pacífica no nosso movimento, Lisboa: Unidade Popular.</p>
<p><strong>[2]</strong> A esse respeito, cf. Cerezales, Diego Palácios (2011), Portugal à coronhada – Protesto popular e ordem pública nos séculos XIX e XX, Lisboa: Tinta-da-China.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O presente artigo é o primeiro de três artigos inicialmente publicados no dossier «Violência» do n.º 3 da revista Imprópria. Editada pelo coletivo português <a href="http://www.unipop.info/" target="_blank">Unipop</a>, a Imprópria é uma publicação em papel dedicada à pesquisa e reflexão na área do pensamento crítico.</em></p>
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		<title>André Barata, o que falta ainda responder</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Oct 2014 13:01:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Socialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[A rejeição da lógica produtivista passa por uma luta que advogue formas democráticas e horizontais de organização dos hospitais e postos de saúde, das escolas e de quaisquer outros serviços públicos. ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Passa Palavra</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">É tão raro, em Portugal como no Brasil, que haja na esquerda um debate construtivo, com argumentos e sem amuos, que não resistimos ao prazer de continuar esta conversa com André Barata. Os episódios anteriores podem ser lidos <a href="http://www.ionline.pt/iopiniao/uma-esquerda-recomposta/pag/-1" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>, <a href="http://passapalavra.info/2014/08/98449" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>, <a href="http://www.andrebarata.com/entry/a-esquerda-e-o-estado-resposta-ao-passa-palavra" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>, <a href="http://passapalavra.info/2014/08/98983" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> e <a href="http://www.andrebarata.com/entry/por-um-estado-social-mais-libertario" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-154927" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/10292964_Focjg-219x300-1.jpeg" alt="" width="219" height="300" />Estamos de acordo com André Barata quando escreve que a «primeira evidência da plasticidade do Estado é a sua história», mas foi precisamente por isso que no nosso artigo anterior colocámos questões acerca do Estado Social. As experiências históricas da construção do Estado Social, desde a sua origem com Bismarck até às suas várias modalidades ao longo do século XX na Europa e nos Estados Unidos, levam-nos a duvidar do seu cariz emancipador. Lembramos Walter Benjamin, quando escreveu que «os que num momento dominam são os herdeiros de todos os que venceram antes».</p>
<p style="text-align: justify;">Evoca-se usualmente como exemplo do Estado Social a Alemanha durante a república de Weimar. E ainda que se queiram pôr de parte os cadáveres de Rosa Luxemburg e de Karl Liebknecht e de tantos outros de nomes menos conhecidos, com o argumento de que eles foram assassinados pelas mesmas forças que se erguiam contra a república, convém lembrar que toda a república de Weimar assentou numa aliança entre a social-democracia e o estado-maior do exército. Ano após ano, à medida que se iam edificando as peças do Estado Social, a social-democracia ia prescindindo de liberdades políticas com a justificativa de que era preferível perder alguma coisa para salvar o resto. E foi assim que no penúltimo dia de Janeiro de 1933, depois de se ter perdido tudo perdeu-se o resto também. Mas o Estado Social não acabou ali a sua história, porque se reencarnou na Frente do Trabalho nacional-socialista. É esta «plasticidade» que convém não esquecer.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-154926" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/2014_02_26_15_08_322-300x228-1.png" alt="" width="300" height="228" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/2014_02_26_15_08_322-300x228-1.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/2014_02_26_15_08_322-300x228-1-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/2014_02_26_15_08_322-300x228-1-100x75.png 100w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" />O Estado Social surgiu quando se tornou necessário ao capitalismo edificar infra-estruturas sociais que ultrapassassem os limites das simples empresas. Os elementos constitutivos do Estado Social não são avaliados pela sua rentabilidade imediata, porque eles são rentáveis não caso a caso mas para a globalidade das empresas capitalistas, e não de imediato mas a médio e longo prazo. Por isso não reconhecemos no Estado Social um «obstáculo concreto à hegemonia mercadorizadora da vida das sociedades» nem «a escolha colectiva da sociedade por organizar certos sectores da vida social, caracterizados por uma maior sensibilidade à equidade, de forma independente da lógica de oferta e procura no mercado». Um sistema de saúde público, gratuito e de qualidade não contradiz a lógica mercantil capitalista. Pelo contrário, destina-se a preservar as despesas de formação feitas pelos capitalistas na mais importante de todas as mercadorias — a força de trabalho. E o mesmo raciocínio se aplica a qualquer dos outros elementos do Estado Social.</p>
<p style="text-align: justify;">A alteração das bases de intervenção do Estado nas últimas décadas não implicou, a nosso ver, uma diminuição da sua intervenção. O neoliberalismo, longe de implicar um «Estado mínimo», apenas reorientou as metas dessa intervenção, concentrando-se na construção das condições sociais necessárias a uma concorrência dinâmica. Trata-se, afinal, de uma reorganização da área capitalista pública de acordo com aquela reorganização da área capitalista privada a que geralmente se chama toyotismo. O financiamento público de escolas privadas por parte do Estado português, conforme evocou André Barata, é um exemplo flagrante deste tipo de intervencionismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas quando vemos André Barata, no 4º § do seu último artigo, propor que instituições daquele tipo de Estado Social cuja rentabilidade, como dissemos, é pensada globalmente e a médio e longo prazos entrem em concorrência com empresas de educação e de saúde cuja rentabilidade é específica e pensada a curto prazo, só podemos concluir que se asseguraria assim a falência não só política mas também económica daquele Estado Social que André Barata defende. O mercado, tal como existe no capitalismo, é um péssimo lugar para escolher modelos sociais distintos, porque as regras do jogo são ditadas exclusivamente por um desses modelos.</p>
<p style="text-align: justify;">É certo que se o sistema escolar se restringir e deteriorar, se os ócios se confundirem com a barbárie, se os bairros populares se arruinarem progressivamente e caírem na decrepitude, o sistema público de saúde tornar-se-á desnecessário porque já não haverá força de trabalho qualificada a preservar. Mas isto significa apenas que o Estado Social é um dos elementos de um capitalismo desenvolvido. E mais: que é um dos factores de pressão para o desenvolvimento capitalista. Em vez de entrar em contradição com o capitalismo, o Estado Social é um dos seus mecanismos. Voltamos aqui à questão da mais-valia relativa, que André Barata pôs de lado, parece-nos que demasiado apressadamente.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-154925" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/10/ls_magritte20-223x300-1.jpg" alt="" width="223" height="300" />É claro que é muito mais cómodo viver num Estado Social que funcione bem do que num Estado Social a fechar escolas e a desmantelar postos de saúde. Do mesmo modo é muito mais confortável ser um trabalhador na Suécia do que no Haiti, mesmo sabendo que o elevado nível de qualificação dos trabalhadores na Suécia e a alta produtividade do sistema em que eles laboram representa um grau de exploração muitíssimo superior ao dos trabalhadores no Haiti. Assim como é muito mais cómodo para nós que as polícias obtenham informações acerca da nossa vida através do Facebook, dos telemóveis, das câmaras de vídeo e de toda essa parafernália do que através de torturas, mesmo sabendo que acumulam assim muito mais informações a nosso respeito do que a Pide conseguia com os seus métodos. Mas a questão é precisamente essa — a da comodidade. O capitalismo prospera pela absorção dos conflitos e não pelo seu agravamento.</p>
<p style="text-align: justify;">A luta contra a lógica de transformação da vida em mercadoria é, certamente, um objectivo que partilhamos com André Barata. Mas consideramos que esta luta não pode limitar-se à defesa de uma educação e saúde públicas e gratuitas. A rejeição da lógica produtivista deve considerar não só a questão da rentabilidade imediata como também a da rentabilidade global do sistema capitalista servido pela educação e pela saúde. Por isso consideramos que a rejeição da lógica produtivista passa por uma luta que advogue formas democráticas e horizontais de organização dos hospitais e postos de saúde, das escolas e de quaisquer outros serviços públicos. É aqui que poderá assumir um significado anticapitalista a acção das «instituições, serviços e funcionários, que resistem no dia a dia das suas actividades ao desvirtuamento da intencionalidade intrínseca das suas funções». Repetimos. Para nós a «intencionalidade» do Estado Social é o desenvolvimento do capitalismo, mas quando os funcionários «resistem no dia a dia das suas actividades» eles estão já a fazer outra coisa que contradiz o capitalismo. Qualquer «revolução de direcções a fazer» deverá preocupar-se menos em olhar para cima, para o Estado, e mais em olhar para o lado. É naquela «organização colectiva», naquele «modelo de organização composto por uma liberdade comum em exercício» que nós insistimos.</p>
<p style="text-align: justify;">Teríamos gostado também que André Barata tivesse situado no além-fronteiras o Estado Social, considerando os debates em torno do estreitamento ou do relaxamento da União Europeia e os debates entre os defensores da manutenção de Portugal na zona euro e os nostálgicos do escudo. Esperemos que fique para a próxima vez.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>As obras que ilustram o artigo são de René Magritte</em></p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">Os leitores portugueses que não percebam certos termos usados no Brasil<br />
e os leitores brasileiros que não entendam outros termos usados em Portugal<br />
encontrarão<a href="http://passapalavra.info/2013/04/76628" target="_blank" rel="noopener"><em> aqui</em></a> um glossário de gíria e de expressões idiomáticas.</p>
</blockquote>
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		<title>Sobre suspiros, ilusões e ingenuidade: ping-pong com André Barata</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Aug 2014 08:58:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Nacionalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Como não é frequente uma discussão política feita em termos correctos e objectivos, vamos juntar mais uma peça a este saudável debate. ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Passa Palavra</strong></h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Em 31 de Julho André Barata, um dos dirigentes do partido Livre, publicou no jornal <em>i</em> o artigo «<a href="http://www.ionline.pt/iopiniao/uma-esquerda-recomposta/pag/-1" target="_blank" rel="noopener">Por uma esquerda recomposta</a>» , a que respondemos em 5 de Agosto com o artigo «<a href="http://passapalavra.info/2014/08/98449" target="_blank" rel="noopener">Livres do nacionalismo?</a>» . Nove dias depois André Barata contra-argumentou no artigo «<a href="http://www.andrebarata.com/entry/a-esquerda-e-o-estado-resposta-ao-passa-palavra " target="_blank" rel="noopener">A Esquerda e o Estado (Resposta ao Passa Palavra)</a>» . Como não é frequente na esquerda — aliás, na direita também não — uma discussão política feita em termos correctos e objectivos, vamos juntar mais uma peça a este saudável debate.</p>
<p style="text-align: justify;">Não pretendemos somente, para empregar os termos de André Barata, «identificar uma base comum de convicções», mas ainda clarificar as divergências, para que os leitores possam formar com ponderação as suas próprias posições. Ora, na sua resposta André Barata centrou-se em duas divergências, «sobre o papel emancipador do Estado e sobre a ação política baseada em partidos».</p>
<p><strong>1.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Começamos pela «ação política baseada em partidos». André Barata defende que deve haver uma junção entre a actuação dos movimentos sociais fora do aparelho de Estado e a actuação dos partidos de esquerda no interior do aparelho de Estado. Com efeito, foi este o programa do PT no Brasil, e a nossa crítica à «ação política baseada em partidos» deve antes de mais ser avaliada pela nossa análise da cooptação dos movimentos sociais pelos governo PT, do presidente Lula como da presidente Dilma. Analisámos essa cooptação tanto do lado do governo, hoje sobretudo graças à intervenção do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, mas também, antes dele, de Luiz Dulci, sem esquecer José Dirceu. E abordámos a outra ponta do problema na crítica que temos prosseguido à burocratização dos movimentos sociais e, no caso mais importante, à sua paulatina transformação empresarial. Ora, como em Portugal os movimentos sociais só existem no plano das discussões políticas e são desprovidos de realidade prática efectiva, é o caso brasileiro que nos parece sobretudo importante para estudar a questão. Por isso preferimos agora concentrar-nos na outra divergência assinalada por André Barata.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes disso, porém, queremos sublinhar o nosso acordo com André Barata quando ele escreve que «o impulso totalitário não é um exclusivo do Estado, antes tem substitutos igualmente impiedosos nas comunidades, nos locais de trabalho, nos partidos ou mesmo nas famílias». O <em>Passa Palavra</em> não tem apresentado a organização política não partidária como uma panaceia, mas, muito mais modestamente, como a menos má das formas de organização. Nem nos escusámos a criticar a utilização autoritarista de formas e princípios originariamente libertadores. Essa luta contra «o impulso totalitário» deve ser uma luta de todos os dias e em todas as circunstâncias.</p>
<p><strong>2.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-154528" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/08/office-workers-1950s-300x200-1.jpg" alt="" width="300" height="200" />Passando à outra divergência, que diz respeito ao «papel emancipador do Estado», temos insistido em que o Estado não é algo de plástico, passível de ser moldado consoante uns ou outros interesses sociais, mas uma estrutura com características próprias, que dita as regras do jogo àqueles que insistem em jogá-lo. E parece-nos muito estranha uma passagem desta «Resposta ao Passa Palavra» onde André Barata considera «bastante evidente que, desde 1974, o Estado português – quase sempre com a oposição dos seus governos – projetou e levou longe a concretização de um programa de emancipação da sociedade portuguesa». Não compreendemos esta noção de uma oposição entre Estado e governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Aliás, se for para «levar a sério a experiência histórica do Estado social», convém não esquecer que a sua introdução se deveu a Bismarck, que o concebeu como um poderoso meio de luta contra a social-democracia. Também Keynes deixou muito clara, nos seus escritos, a função social e política da série de reformas que depois da segunda guerra vieram a sustentar o <em>welfare state</em>, o Estado de bem-estar social. Aliás, a história do <em>welfare state</em> é inseparável da história da guerra fria.</p>
<p style="text-align: center;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-154527" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/08/zzz-life-in-america-in-the-1950s-after-total-war-can-come-total-living-222x300-1.gif" alt="" width="222" height="300" /></p>
<p style="text-align: justify;">Numa multiplicidade de artigos e abordando a questão sob uma variedade de pontos de vista, o <em>Passa Palavra</em> tem procurado analisar as consequências sociais e políticas, além de económicas, daquela modalidade de exploração que em termos marxistas se denomina <em>mais-valia relativa</em>. Sobretudo, temos procurado mostrar a capacidade da mais-valia relativa para absorver as reivindicações económicas e sociais ou, mais fundamentalmente ainda, temos procurado mostrar como a mais-valia relativa é movida por muitas dessas reivindicações. Assim, o <em>welfare state</em> foi precisamente o enquadramento genérico da mais-valia relativa numa dada época histórica. A passagem do taylorismo ao toyotismo parece ter ditado o fim do <em>welfare state</em> na sua forma clássica.</p>
<p style="text-align: justify;">Se, onde André Barata fala de Estado social, entendermos mais-valia relativa, os termos da questão ficam profundamente alterados.</p>
<p><strong>3.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Na nossa perspectiva, a luta contra a exploração implica sempre uma luta contra o Estado, mas isto não significa que, consoante as circunstância e a capacidade organizativa da classe trabalhadora, não haja formas estatais em que a luta se possa desenvolver pior ou melhor. Precisamente por isso, parece-nos que teria sido útil que nesta sua resposta André Barata desenvolvesse uma passagem daquele artigo no <em>i</em> que suscitou este debate, quando ele criticou «uma esquerda refugiada no patriotismo em extremidade peninsular ou, ainda, na nostalgia do regresso ao passado do escudo». Gostaríamos que André Barata desenvolvesse aquelas ideias, porque é ali que podemos «identificar uma base comum de convicções».</p>
<p style="text-align: justify;">Na nossa opinião, a «aversão a fronteiras» não se relaciona apenas nem sobretudo com a «natureza apátrida da dívida». Muito mais fundamentalmente, ela decorre da transnacionalização do capital, tanto do capital financeiro como do capital investido na produção de bens materiais e serviços. Para nós — e têmo-lo sublinhado de muitas maneiras, a propósito das lutas em Portugal e das lutas no Brasil — a transnacionalização do capital e a assumpção de poderes de facto soberanos pelas grandes companhias transnacionais faz com que os antigos Estados nacionais percam a razão de ser. Como fica, nesta perspectiva, a crítica de André Barata à esquerda patriótica e aos nostálgicos do Escudo?</p>
<p style="text-align: justify;">Quando André Barata critica aquela esquerda que «faz ressurgir a figura política do Estado, mas para reagir e contrapor ao carácter fortemente apátrida da primeira uma reativação da figura do Estado-nação», é aqui que identificamos «uma base comum de convicções». Estamos de acordo com André Barata quando ele afirma que «esta é uma via de enclausuramento identitário que se alimenta sobretudo do ressentimento face à agressividade austeritária». Em vários artigos, temos insistido que um abandono da zona euro corresponderia a um agravamento das condições de exploração dos trabalhadores residentes em Portugal, que só poderia ser operado através de modalidades de capitalismo de Estado, justificadas ideologicamente pelos mitos nacionais. Parece-nos que André Barata converge com este ponto de vista ao escrever que «mesmo que o patriotismo de esquerda consiga opor-se ao estatismo apátrida da dívida, fá-lo-á sobretudo pela reposição da centralidade do Estado-Nação na vida das sociedades, no fim e ao cabo, um outro estatismo com as suas formas de opressão».</p>
<p style="text-align: justify;">Mas que conclusões práticas imediatas extrai daqui André Barata para a recomposição de forças da esquerda portuguesa?</p>
<p><strong>4.</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-154526" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/08/immigrant-workers-300x185-1.jpg" alt="" width="300" height="185" />No último parágrafo da sua resposta André Barata esboça o que o «Estado social», tal como ele o entende, deveria ser: «O Estado social tem de resultar do impulso organizador de liberdades comuns das comunidades. É nessa capacidade criativa de as sociedades, as grandes e as pequenas comunidades se organizarem cooperativamente desativando o dispositivo mercadorizador que deve radicar um novo impulso da ideia de Estado social universal e solidário. Quiçá, a palavra “Estado” na expressão “Estado social” esteja demasiado próxima dos seus usos soberanistas e estatistas que, por outra porta, reintroduzem lógicas de dominação. Mas se filtrarmos bem os usos e as menções que fazemos das palavras talvez consigamos ter uma perceção clara de quão importante é não abdicar desta ideia que tem sido o que de mais nobre animou o programa do Estado social».</p>
<p style="text-align: justify;">Se na linguagem tudo está na forma como definirmos os termos e na precisão ou latitude que lhes conferirmos, na política tudo está na forma de organização das entidades, qualquer que seja o seu nome. E é aqui que dia a dia se vão definindo os campos e as convergências, ou clivagens, fundamentais. Não se trata só, parece-nos, de «filtrarmos bem os usos e as menções que fazemos das palavras», mas antes de mais de filtrarmos bem os usos e as aplicações que fazemos das formas de organização.</p>
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		<title>Dossiê: Lutas contra a austeridade em Portugal</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 23 Aug 2014 12:40:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dossiês]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Uma recolha dos artigos que publicámos acerca das lutas contra a austeridade em Portugal, e acerca da falta de lutas. Por Passa Palavra A inevitável greve de 24 de Novembro de 2011 É bem possível que nunca uma greve geral tenha sido tão previsível como a que teve lugar em Portugal a 24 de Novembro [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Uma recolha dos artigos que publicámos acerca das lutas contra a austeridade em Portugal, e acerca da falta de lutas.</em> <strong>Por Passa Palavra</strong></p>
<p><span id="more-98855"></span></p>
<h4 style="text-align: justify;"><a href="http://passapalavra.info/2011/12/49852" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/12/greve5-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />A inevitável greve de 24 de Novembro de 2011</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>É bem possível que nunca uma greve geral tenha sido tão previsível como a que teve lugar em Portugal a 24 de Novembro de 2011.</em> <strong>Por Ricardo Noronha</strong></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2012/03/54758" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/03/fotografo-grito4-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />Um dia para recordar: 22 de Março de 2012</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>Todos os esforços para diabolizar exclusivamente os agentes fotografados no momento das agressões apenas perpetuarão o equívoco que trata como uma excepção aquilo que é efectivamente uma regra.</em> <strong>Por Ricardo Noronha</strong></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2012/05/58146" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/05/fontinha-55e1-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />Da Fontinha a São Lázaro</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>Uma simples evidência: se existe um espaço devoluto e se existe vontade de lhe dar uso, porque não fazê-lo?</em> <strong>Por Passa Palavra</strong></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2012/09/63963" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/09/Primavera-1-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />Lutas precisam-se, lutadores também</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>Como se podem mobilizar para uma actividade de protesto desempregados, precários e trabalhadores em dificuldades?</em> <strong>Por Passa Palavra</strong></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2012/09/64467" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/09/15-de-Setembro-2-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />15 de Setembro: declarar vitória?</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>Perante a mobilização de centenas de milhares de pessoas, o caminho mais fácil é declarar vitória. O uso do essencialismo parece-nos, contudo, pouco útil</em>. <strong>Por Passa Palavra</strong></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2012/09/64828" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/09/image1-70x70.jpeg" alt="" width="70" height="70" />A classe trabalhadora vai à rua e encontra os mesmos do costume</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>A dinâmica das lutas sociais não se compadece com as intenções dos seus agentes individuais e sem uma crítica persistente à possibilidade de surgirem e de se desenvolverem os mecanismos de hetero-organização das lutas, o perigo da sua burocratização está sempre à espreita</em>. <strong>Por Passa Palavra</strong></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2012/10/65415" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/10/Portugal-3-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />Tudo calmo na frente ocidental?</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>Evitar o isolamento, combatendo as tendências que procuram fazer do movimento social o suporte de uma solução de governo à esquerda, é o principal desafio</em>. <strong>Por <strong>Sebastião Tibão</strong></strong></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2012/11/67566" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/11/Manifesta%C3%A7%C3%A3o-8-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />A quem serve o triunfalismo?</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>Importa quebrar com uma espécie de boa moral, que se preocupa mais em defender a lei do que os interesses de quem trabalha</em>. <strong>Por Passa Palavra</strong></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2012/12/68532" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/12/Estivadores-3-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />A internacional dos estivadores</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>Nada provoca tanta revolta no seio da burguesia como a revolta no seio dos trabalhadores</em>. <strong>Por Ricardo Noronha</strong></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2013/04/76544" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/04/Antip%C3%A1ticos-15-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />Simpatia pela antipatia</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>Discutir as virtudes da rua sem discutir a ausência de lutas nos locais de trabalho é, do nosso ponto de vista, insuficiente.</em> <strong>Por Passa Palavra</strong></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2013/06/79899" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/06/PP_Portugal3-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />O vale-tudo da unidade contra a troika esconde um nacionalismo larvar</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>À tragédia concreta da austeridade que assola a classe trabalhadora soma-se a tragédia política de uma esquerda que em Portugal é a ponta-de-lança da difusão de uma ideologia e de um projecto nacionalista</em>. <strong>Por Passa Palavra</strong></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2013/07/81583" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/07/IMG_7500-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />6 de Julho: um brasileiro em Lisboa</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>Antes de ser reflexo, tudo ali parecia refluxo.</em> <strong>Por Vavá Filho</strong></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2013/10/87399" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://www.tvi.iol.pt/multimedia/oratvi/multimedia/imagem/id/13990738/70x70" alt="" width="70" height="52" />Pouco a acrescentar: as manifestações de Outubro e a luta contra a austeridade</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>Uma eventual via de fuga não passa, como é óbvio, por desistir, mas sim por mudar de direção e de escala</em>.<strong>Por Passa Palavra</strong></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2014/01/90584" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/01/Professores-3-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />Portugal: a revolta dos professores, ou do desaparecimento do professor como figura pública</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>A proletarização da profissão docente e a desvalorização da pedagogia são duas faces da mesma moeda, que se traduzem no enfraquecimento da profissão e no esvaziamento da sua função pública.</em> <strong>Por Teresa N. R. Gonçalves</strong></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2014/01/90647" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/01/Tribunal-Constitucional-70x70.jpeg" alt="" width="70" height="70" />A esquerda do Tribunal: os perigos do ativismo judicial</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>A esquerda partidária e sindical tende a identificar no Tribunal Constitucional uma espécie de novo ativismo, ao qual se atribui a derradeira alternativa à política de austeridade.</em> <strong>Por Passa Palavra</strong></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2014/03/93069" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/03/ng3079266-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />A esquerda da polícia</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>Quando polícias e militares reclamam nas ruas, o papel dos anticapitalistas não é defendê-los, mas defender aqueles que têm na polícia e nas forças armadas o inimigo</em>. <strong>Por Passa Palavra</strong></p>
<h4><a href="http://passapalavra.info/2014/06/96648" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/06/Chiado-1-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />As regras da experiência: sobre a perseguição judicial a Miguel Carmo</a></h4>
<p style="text-align: justify;"><em>Perante a multiplicação das medidas de austeridade, há que dar o exemplo e castigar a ousadia de quem recusa a inevitabilidade da precariedade, do desemprego e da miséria.</em> <strong>Por Observatório do Controlo e Repressão</strong></p>
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		<title>Livres do nacionalismo?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Aug 2014 08:55:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autorais]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Nacionalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Zona euro]]></category>
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					<description><![CDATA[É sempre positivo que no actual contexto político se diga explicitamente que não são as propostas proteccionistas que podem romper com a austeridade. Por Passa Palavra A discussão política só faz sentido dentro de um quadro em que não se percam de vista as divergências, mas, ao mesmo tempo, quando possível, se utilize o que é [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>É sempre positivo que no actual contexto político se diga explicitamente que não são as propostas proteccionistas que podem romper com a austeridade</em>. <strong>Por Passa Palavra</strong></p>
<p><span id="more-98449"></span></p>
<p style="text-align: justify;">A discussão política só faz sentido dentro de um quadro em que não se percam de vista as divergências, mas, ao mesmo tempo, quando possível, se utilize o que é partilhável.</p>
<p style="text-align: justify;">Num texto recente (leia <a href="http://www.ionline.pt/iopiniao/uma-esquerda-recomposta/pag/-1" target="_blank" rel="noopener"><em>aqui</em></a>), André Barata, dirigente do recém-criado partido Livre, procura discutir politicamente de que modo é que a esquerda pode aspirar a modificar o actual estado de coisas marcado pela austeridade. De acordo com o diagnóstico do autor, a dívida estaria a substituir-se «de facto ao soberano» e «a precariedade restitui ao poder político atributos de um absolutismo que não conceberíamos há alguns anos atrás». Ou seja, o poder dos Estados estaria condicionado pelos mercados, no caso pelo mercado financeiro de transacção de títulos da dívida pública.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/08/Livres-2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-98463" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2018/03/Livres-2-300x229.jpg" alt="Livres 2" width="300" height="229" /></a>Se é verdade que o endividamento massivo do Estado coloca sempre problemas económicos e sociais profundos, tendencialmente resolvidos à custa da compressão do emprego e do rendimento dos trabalhadores, também é verdade que o Estado não é independente dos chamados mercados. Pelo contrário, o Estado tem-se definido progressivamente como uma empresa que, por um lado, auxilia na regulação e na articulação das condições gerais de produção de uma sociedade e, por outro, mascara essa sua conexão com a classe dominante sob a ideologia de que seria uma emanação da comunidade nacional. E que, por conseguinte, teria como missão defender o bem comum, isto é, nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Em suma, enquanto a esquerda continuar a suspirar por um Estado livre de interferências externas, sejam elas o mercado, a dívida ou a banca, continuará aprisionada na ilusão que o Estado propaga para justificar a sua existência e, desse modo, prolongar o poder da classe capitalista dos gestores.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas se o texto de André Barata não consegue romper com o mito do Estado benfazejo e da sua falsa oposição ao mercado, o autor procura afirmar o que seria uma alternativa que considera democrática e que rompa com a integração da social-democracia ao cânone neoliberal. No fundo, face à falência do projecto preconizado pelo Bloco de Esquerda, o Livre aparenta querer apresentar-se como o substituto, mais <em>responsável</em> e <em>consequente.</em> Enquanto o Bloco de Esquerda corre, como um menino perdido, em busca de aceitação pelo Partido Comunista, o Livre aparenta prosseguir um projecto tão inteligente quanto oportunista. Consciente da sua incapacidade em se tornar numa <em>esquerda grande</em>, o horizonte do Livre parece assentar na formação de uma <em>esquerda pequena</em>, com poucos quadros, mas que consiga reunir votos suficientes para governar com o Partido Socialista.</p>
<p style="text-align: justify;">Num texto publicado neste local (leia <a href="http://passapalavra.info/2014/06/96980" target="_blank" rel="noopener"><em>aqui</em></a>) foram apresentadas as contradições e os perigos da ambiguidade entre querer manter um pendor de contestação e aspirar a chegar ao governo. A ilusão de que o Estado pode ser independente ou ter supremacia sobre as empresas e o mercado pode desembocar, no plano parlamentar, numa nova cooptação de sectores da esquerda. Em vez de esgotar energias e activistas pretendendo mudar o mundo a partir do parlamento, a esquerda deveria preocupar-se em ajudar a construir movimentos sociais de base dinamizados por desempregados, precários, entre outros trabalhadores, em torno de temas concretos que afectam directamente os visados.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/08/Livres-1.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-medium wp-image-98468" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2018/03/Livres-1-300x232.jpg" alt="Livres 1" width="300" height="232" /></a>Apesar deste cenário, não podemos deixar de destacar um excerto do texto de André Barata que nos parece representar um ponto positivo e convergente: «Não deve preocupar à esquerda apenas as suas dificuldades em convergir, mas também de se renovar ideologicamente a sua capacidade propositiva. Não é certamente esse o caso de uma esquerda refugiada no patriotismo em extremidade peninsular ou, ainda, na nostalgia do regresso ao passado do escudo». Esta é uma crítica bastante pronunciada ao nacionalismo do Partido Comunista e, pelos vistos, do próprio Bloco de Esquerda. A este título, e independentemente das divergências que relevamos nos parágrafos anteriores, é sempre positivo que no actual contexto político se diga explicitamente que não são as propostas proteccionistas que podem romper com a austeridade. Achamos curioso, porém, que esta declaração de princípios ocorra em paralelo com a aproximação à Manifesto, a ex-corrente do Bloco de Esquerda, cujas principais figuras advogam a saída de Portugal do euro e o regresso ao escudo.</p>
<p style="text-align: justify;">O que levanta uma questão: até que ponto é que a formação de um campo político antinacionalista, reivindicada por André Barata, constitui uma questão menor face ao mito da unidade de esquerda? Com o Partido Socialista, diga-se.</p>
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		<title>Se o que se diz por aí for verdade&#8230;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Jul 2014 21:31:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
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					<description><![CDATA[Mais do que ter um Estado pesado a controlar tudo e todos, os capitalistas deixam existir manchas relativamente autónomas no tecido social.  Por João Valente Aguiar]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por João Valente Aguiar</strong></h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Se o que se diz por aí for verdade, o Bloco de Esquerda está cada vez mais próximo do fim.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-153781" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/07/Janela-7-225x300-1.jpg" alt="" width="225" height="300" />As consequências, sendo fundados os maus agouros, poderão ter repercussões de peso. Se o Bloco se partir, veremos uns a juntarem-se ao Partido Socialista (PS), outros ao Partido Comunista (PC) e outros a fundarem partidos pequeninos como o Livre.</p>
<p style="text-align: justify;">Por falar em Livre, a estratégia de Rui Tavares parece ter sido a de criar um espaço próprio que sugou parte significativa dos votos do Bloco e esperar que até às legislativas do próximo ano contabilize mais votos que, sem ele, iriam para o Bloco. Penso que os que forem do Bloco para o PC farão um caminho natural, pois terão uma base nacionalista transversal a unificá-los. Os que forem para o PS serão residuais, tal como todos os antigos provenientes do PC e da extrema-esquerda que foram para lá no passado.</p>
<p style="text-align: justify;">O grande problema aqui é saber se o PS também se alinha numa perspectiva anti-euro. Creio que este será o objectivo <a href="http://www.esquerda.net/artigo/programa-de-reestruturacao-propoe-se-reduzir-2497-mil-milhoes-de-euros-da-divida/33317" target="_blank" rel="noopener">daquele texto</a> escrito por Francisco Louçã com o deputado do PS, Pedro Nuno Santos, entre outros. Mas, como <a href="http://passapalavra.info/2014/06/96980" target="_blank" rel="noopener">a primeira parte do último artigo do Ricardo Noronha</a> demonstra, o Louçã tem-se comportado de forma menos brilhante do ponto de vista táctico do que imagina. É que acabou sempre por cair nas armadilhas do PS (Alegre, Sá Fernandes, Roseta, etc.) e o mais provável é que isto aconteça de novo. Ao pensar que vai influenciar a ala esquerda (ou, mais exactamente, nacionalista) do PS, Louçã acabará por se afundar no meio. Só uma falência do Banco Espírito Santo (BES), que levasse a uma profunda deterioração política e a um rombo no sistema financeiro, é que dará chances a essas propostas de cisão da economia portuguesa da zona euro.</p>
<p style="text-align: justify;">E, já que falo do BES, lembro que são hoje os tecnocratas do Banco Central Europeu e afins quem procura acabar de vez com a tese dos bancos <em>too big to fail</em> [demasiado importantes para poderem falir], como demonstram as palavras do Presidente do Banco de Inglaterra e de um sujeito do Bundesbank <a href="http://passapalavra.info/2014/06/97153" target="_blank" rel="noopener">na segunda parte do meu artigo «Pé ante pé»</a>. E assim os capitalistas vão concretizando algumas das palavras de ordem da esquerda, mas de uma forma distinta — não querem que as coisas entrem em falência sistémica. Desse modo, os chavões contra a financeirização e pela falência da banca incumpridora tornam-se transversais à esquerda e aos tecnocratas, com a diferença relevante de que os segundos têm uma abordagem pragmática das coisas. Se, no lugar dos tecnocratas, fosse certa trotskista que conhecemos…</p>
<p style="text-align: justify;">Curiosa convergência. Os slogans esquerdistas contra a financeirização encobrem os objectivos profundos dos capitalistas na actual conjuntura: corte da ligação entre o soberano e a banca; sistema de <em>bail-in</em> <strong>[*]</strong> que não utilize dinheiro estatal para compensar as falhas no balanço dos bancos; supervisão bancária central a partir do Banco Central Europeu; equilíbrio entre a integração bancária global e a compartimentação de entidades, de modo a que a falência de um banco não faça o sistema entrar em colapso. Ao mesmo tempo, enquanto a esquerda entretém os seus activistas e simpatizantes com as tretas do capital especulativo e da finança internacional, as relações de produção mantêm-se intactas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-153780" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/07/Janela-3-300x159-1.jpg" alt="" width="300" height="159" />Não me parece que este raciocínio seja descabido. O que não consigo perceber é como se opera uma homologia entre os slogans da esquerda e os procedimentos que os capitalistas têm levado a cabo. Sabemos que a esquerda cumpre funcionalidades específicas e relevantes para a consolidação do poder dos gestores. Mas ao nível concreto e empírico, que canais políticos, institucionais, económicos se estabelecem entre sectores que no dia-a-dia, tanto quanto se sabe, são incomunicáveis entre si? Dito de uma maneira mais prosaica, o que explica que muitos esquerdistas enveredem pela histeria contra a finança internacional e a corrupção dos políticos, e estes mesmos slogans, embora de maneira enviesada, digam respeito a acções que sectores hegemónicos dos tecnocratas têm levado a cabo na sequência da crise económica?</p>
<p style="text-align: justify;">Não creio que isto se explique por via de qualquer conspiração. Há pelo menos duas dimensões estruturais associadas. 1) A da pertença da esquerda a uma fracção dos gestores que lhes permite penetrar no seio de sectores descontentes da classe trabalhadora e mantê-los desviados da luta fundamental. 2) Não sendo nacionalistas, os capitalistas utilizam e retiram vantagem do nacionalismo propagado pela esquerda, para manterem as suas operações supranacionais intactas enquanto os trabalhadores ficam nacionalmente fragmentados. Estas duas dimensões estão associadas, mas enfermam de duas limitações.</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda dimensão explica a funcionalidade do nacionalismo, mas não explica por que surgiu o nacionalismo e não outra ideologia qualquer. Se na época fordista os pais da esquerda, que hoje criticamos, eram nacionalistas, a sua ênfase incidia sobretudo no plano reformista e na gestão directa do processo produtivo. Hoje a funcionalidade dessa esquerda é simplesmente ideológica e já não parte de um corporativismo prático e activo para o enquadramento institucional, e não só ideológico, da classe trabalhadora. Ainda que esta dimensão não seja completamente satisfatória, é a que me parece ser mais sólida.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto à primeira dimensão, ela deixa-me mais insatisfeito, porque não é o resultado que explica a origem. Ou seja, como se produz a transversalidade de propostas genéricas (apesar da grande diferença na sua operacionalização; se fosse essa esquerda a governar a situação seria ainda pior e mais catastrófica) entre a esquerda miserabilista e os principais procedimentos dos tecnocratas? Ou será simples coincidência entre o nacionalismo de uns e a recuperação das vantagens que isso traz aos outros?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-153779" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2014/07/Janela-4-300x168-1.jpg" alt="" width="300" height="168" />Estou aqui cheio de interrogações e às tantas as coisas até poderão ser mais simples. A esquerda é nacionalista e os capitalistas, na base da mais-valia relativa, não a aniquilam mas apropriam-se do que mais lhes convém, as vantagens políticas do nacionalismo. É que se os capitalistas determinam de alto a baixo as configurações institucionais e económicas das empresas, é a inexistência de um poder absoluto e unidireccional que lhes permite introduzir flexibilidade e adaptabilidade no sistema. Mais do que ter um Estado pesado a controlar tudo e todos (típico dos regimes mais avançados da mais-valia absoluta), os capitalistas deixam existir manchas relativamente autónomas no tecido social. Se no campo económico é isso que explica o seu entusiasmo pela profusão de pequenas empresas dinâmicas e criativas (para depois adquirirem as suas invenções, renovar a classe, etc.), no campo político é isso que lhes permite ir controlando as insatisfações da população. Creio que uma perspectiva que visualize o capitalismo como uma combinação do autoritarismo das relações de trabalho com a plasticidade institucional dentro e fora das empresas poderá contribuir para explicar como os capitalistas operam a ligação entre os seus interesses e os de outros sectores da sociedade que ideologicamente dizem ser-lhes opostos e que na vida concreta aparentam não ter qualquer contacto.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[*]</strong> O termo <em>bail-in</em> foi popularizado primeiro por <em>The Economist</em> e classifica uma situação em que os credores de uma instituição, neste caso de um banco, são obrigados a prescindir de parte do que lhes seria devido, contribuindo assim para salvar a instituição. O <em>bail-in</em> opõe-se a um <em>bail-out</em> em que a instituição é salva por fundos públicos, disponibilizados pelo Estado.</p>
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