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	<title>Pensar &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (3)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jul 2026 14:42:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
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					<description><![CDATA[A greve e a revolta são lutas práticas pela reprodução dentro da produção e da circulação respectivamente. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>PARTE 1: REVOLTA</strong></h4>
<p><strong>CAPÍTULO 1</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O Que é Uma Revolta?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O que está em jogo na definição de revolta não é simplesmente a possibilidade de fazer distinções históricas úteis, mas também a decifração do significado e do potencial político da revolta. Esse também é um problema para a pesquisa. Certamente, as revoltas frequentemente apresentam violência, direta, indireta ou como ameaça. Os problemas surgem quando os dois [revolta e violência] são atrelados um ao outro. Se alguém estiver, por exemplo, analisando registros públicos e selecionar <em>violência</em> e palavras relacionadas como termos de pesquisa, essa correlação terá um profundo efeito nos resultados. Da mesma forma, o pressuposto de que a violência indica uma revolta apresentará instantaneamente desafios para qualquer conceituação útil da atividade em questão.</p>
<p style="text-align: justify;">Considere as confusões que se proliferam quando se faz a fusão, neste exemplo do texto de abertura de <em>“Rioting in America”</em> de Gilje:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mesmo nos primeiros anos do século XIX, à medida que os trabalhadores refinavam suas táticas de greve, a coerção era necessária para impor a unidade e persuadir os proprietários quanto à legitimidade das exigências dos trabalhadores. Essa coerção frequentemente assumia a forma de revoltas &#8211; seja cobrindo de piche e penas um sapateiro recalcitrante em Baltimore ou brigando com os fura-greves nas docas de Nova York. A força era frequentemente usada para enfrentar a força, e as revoltas e a violência representam os sinais da história trabalhista americana desde a década de 1830 até o século XX. Antes de 1865, a maioria das greves violentas se limitava a cabeças rachadas e eram assuntos locais. Depois de 1865, as revoltas passaram a ter alcance nacional. Na grande greve ferroviária de 1877, os trabalhadores lutaram contra os militares de Baltimore a São Francisco. As dimensões dessas guerras trabalhistas continuaram a ganhar as manchetes nacionais com as batalhas em Homestead em 1892, Pullman em 1894, Ludlow em 1914 e Blair Mountain, West Virginia, em 1921. Acrescente a esses grandes cataclismos inúmeras escaramuças nas cidades, vilas e no campo, e veremos que grande parte da história do trabalho americano está escrita com sangue, como revoltas <strong>[1]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ficamos um pouco surpresos ao saber que a revolta é um aspecto marcante da história do trabalho. É um complemento da greve, seu braço armado. Ou talvez a revolta seja simplesmente uma subcategoria, a <em>greve violenta</em>; às vezes, elas se elevam ao status de “guerras trabalhistas”, chegando enfim ao último floreio gramaticalmente desajeitado, determinado a aproximar o máximo possível as palavras “revoltas” e “sangue”.</p>
<p style="text-align: justify;">Como costuma acontecer até mesmo com as concatenações mais arbitrárias, uma verdade é, no entanto, capturada. O eco de “escrito em letras de sangue e fogo” é sugestivo. A famosa descrição de Marx da acumulação primitiva insiste na violência das expropriações que produzem as condições para o capitalismo. À medida que os cavaleiros da indústria substituírem os cavaleiros da espada, parecerá que a apropriação do excedente sob o capital, diferentemente de todos os modos anteriores de produção, é garantida por meio de consentimento livre. Mas essa dupla liberdade do trabalho — <em>dos</em> meios de subsistência e <em>para</em> dispor de suas capacidades à vontade — é precisamente o que foi assegurado por essa violência originária, que não é dissolvida, mas sim sublinhada e preservada dentro da dominação impessoal da relação de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de se admirar, portanto, que a violência ronde o mundo do trabalho. Esse é o núcleo da verdade no relato de Gilje e o momento em que a violência poderia ter sido reconhecida como analiticamente independente da constituição da revolta. Com essa separação esclarecedora, a força ideológica dessa associação exclusiva poderia ser inspecionada. Mas é exatamente o que não acontece. É do caráter do pensamento burguês preservar uma compreensão mais moral do que prática do antagonismo social. Assim, em vez disso, encontramos a notável insistência de que a violência é sempre e em todos os casos um sinal da revolta — mesmo quando envolve “brigas com fura-greves”, um absurdo evidente. Citando “alguns precedentes legais”, Gilje acabará chegando à sua definição completa de revolta como “qualquer grupo de doze ou mais pessoas tentando fazer valer sua vontade imediatamente por meio do uso da força fora dos limites normais da lei” <strong>[2]</strong>. Uma revolta, não podemos deixar de notar, é o anverso perfeito de um júri.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta é, nesse sentido, sempre e em toda parte ilegítima, o que pode não nos surpreender, a não ser pela alegação inicial de que ela serviu “para persuadir os proprietários da legitimidade das demandas dos trabalhadores”. A partir daí, os problemas categoriais só se proliferam. A consequência desse relato em particular é reduzir a greve em sua totalidade ao aspecto mais mínimo e ascético, a inação encontrada ao abandonar as ferramentas. Ela é sempre pacífica e sempre dentro da lei — apesar dos longos períodos da história durante os quais até mesmo a greve ou “reunião” mais moderadas eram ilegais, e apesar dos inúmeros exemplos de lutas com piquetes e outras formas de violência.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159420" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430.jpg" alt="" width="1504" height="1157" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430.jpg 1504w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-300x231.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-1024x788.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-768x591.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-546x420.jpg 546w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-640x492.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-681x524.jpg 681w" sizes="(max-width: 1504px) 100vw, 1504px" /> Por meio de tais construções contrafactuais, obtemos um modelo de greve severamente limitado, tanto em termos de quais ações ela pode incluir, quanto em relação a seu escopo histórico e geográfico. De fato, a greve contemplada aqui quase não existe. Essa definição também tem o efeito contrário de ampliar e desfigurar nosso conceito de revolta para além de qualquer particularidade; ele pode ser encontrado em todos os tempos e lugares como algo que beira a essência trans-histórica. Uma definição mais persuasiva, mas ainda limitada, é oferecida por David Halle e Kevin Rafter:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[A revolta] envolve publicamente pelo menos um grupo, que com pouca ou nenhuma tentativa de ocultação, agride ilegalmente pelo menos um outro grupo ou ataca ou invade ilegalmente uma propriedade… de forma que se indique que as autoridades perderam o controle… os ataques a outro grupo ou à propriedade devem atingir um determinado limite de intensidade <strong>[3]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso pode ser útil em comparação com a avaliação de William Sewell, um dos principais historiadores da ação coletiva. Embora se baseie em Tilly, Sewell também dá à violência um lugar de destaque em sua estrutura analítica em todos os períodos históricos, concluindo que “o argumento essencial de Tilly ainda pode ser explicado de forma mais econômica com o uso de sua tipologia de violência competitiva, reativa e proativa” <strong>[4]</strong>. O que diferencia Sewell de Gilje é que, ao deslocar os termos revolta/greve para os registros de violência em vez de sobrepor as duas estruturas à força, ele é capaz de avaliar a mudança de uma orientação dominante para outra dentro de um repertório de ações aberto à transformação histórica. Ou seja, ele mantém a possibilidade de periodização como tal. Isso é exatamente o que Gilje efetivamente abandona ao obscurecer totalmente metade do trabalho da história. Tilly observa,</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O repertório de ações coletivas evolui de duas maneiras diferentes: o conjunto de meios disponíveis para as pessoas muda em função de transformações sociais, econômicas e políticas, enquanto cada meio de ação individual se adapta a novos interesses e oportunidades de ação. Rastrear essa dupla evolução do repertório é uma tarefa fundamental para a história social <strong>[5]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A descrição da revolta como expressão multifacetada da violência social geral que muda de forma a torto e a direito, conforme ditam as circunstâncias, ressalta a segunda enquanto apaga a primeira — e, com ela, qualquer chance de compreender a importância sistemática do retorno da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Econômico e o Político</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">O confusão entre revolta e violência tem sido uma ferramenta essencial para a redução política da revolta, seu isolamento da política propriamente dita, cuja medida se baseia implicitamente em um modelo de auto-consciência ou em sua ausência. Foi isso que Thompson começou a criticar, chamando-a de “visão espasmódica da história popular:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">De acordo com essa visão, as pessoas comuns dificilmente podem ser consideradas agentes históricos antes da Revolução Francesa. Antes desse período, elas se intrometem ocasionalmente em momentos de súbita perturbação social. Essas irrupções são compulsivas, em vez de autoconscientes ou autoativadas: são simples respostas a estímulos econômicos <strong>[6]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essas conceitualizações são renovadas na ciência positivista e quantitativa, por exemplo, do New England Complex Systems Institute. Seu estudo de 2011, focado em nações com baixos salários, traça uma correlação de explicação única [single-bullet] em que os autores “identificam um limite específico de preço dos alimentos acima do qual os protestos se tornam prováveis” <strong>[7]</strong>. Há desvios mais matizados dessas suposições subjacentes, articulando aumentos insuportáveis nos preços das mercaorias com mudanças econômicas mais amplas, como a reestruturação do FMI, programas e relações comerciais forçadas, que fornecem as condições para regimes alimentares precários. Enfatizando a construção da fome e da escassez, esses relatos, no entanto, assumem um verdadeiro mecanismo autonômico [autonomic] de encadeamento entre estímulo e resposta. A definição efetiva de revolta aqui é condicional. É simplesmente o que acontece quando os preços dos alimentos atingem um certo apogeu, uma versão da abordagem dos “historiadores do crescimento”, rejeitada por Thompson por “obliterar as complexidades do motivo, do comportamento e da função, que, se fossem notados pelo estudo de seus análogos marxistas, os fariam protestar” <strong>[8]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa abordagem encontra seu contraponto de forma um tanto perversa em Alain Badiou. Ele oferece um sentido qualitativo e abstrato do momento político. Em muitos aspectos, seu relato transcende os limites de seus contemporâneos, intelectuais de esquerda que, confrontados com as revoltas de Tottenham em 2011, aprenderam pouco. Na melhor das hipóteses, fomos levados a pensar que as revoltas alcançaram um espontaneísmo lamentável, aquela acusação que é a reanimação do pensamento socialista da tropa “espasmódico”. Foi um espetáculo estranho ver uma teoria política outrora moderna ser apresentada como um truísmo, como se o debate entre Lênin e Luxemburg tivesse sido resolvido e suas conclusões fossem válidas para sempre, sem necessidade de análise real. Em geral, os relatórios foram ainda menos generosos. Os participantes eram farsantes da sociedade antes deles, movidos pelas compulsões de autocancelamento da época, avatares do individualismo materialista momentaneamente liberados, talvez aptos a escapar de explosões sem sentido se lhes fosse fornecido um programa político. Como Slavoj Žižek perguntou, queixoso, do recinto de papel da <em>London Review of Books</em>: “Quem conseguirá direcionar a raiva dos pobres?” Era difícil não temer que um filósofo quisesse se encarregar dessa tarefa.</p>
<p style="text-align: justify;">Badiou, no entanto, deixa claro que as revoltas para as quais ele volta sua atenção não estão em busca de uma direção de vanguarda, sem a qual só podem afirmar a sociedade da qual surgiram. Ele as identifica como um fato periodizante em meio à sua própria realização:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[…] vários povos e situações estão nos dizendo, em uma linguagem ainda indistinta, que esse período acabou; que há um renascimento da História. Devemos então nos lembrar da Ideia revolucionária, inventando sua nova forma ao aprender com o que está acontecendo <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A Ideia surge do evento da revolta, que então fornece uma força e duração organizacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse esquema, há uma certa alternância entre períodos em que “a concepção revolucionária de ação política foi suficientemente esclarecida (…) e, com base nisso, garantiu apoio maciço e disciplinado” e “períodos intervalares [quando], em contraste, a ideia revolucionária do período anterior (…) está dormente” <strong>[10]</strong>. Na falta de uma ideia ordenadora (muitas vezes aparecendo como a Ideia majestosa), esses últimos períodos dão origem à expressão dessa desordem no modo protopolítico da revolta. Badiou vê uma “estranha semelhança” entre nosso passado recente e a Restauração Francesa após a derrota final do espírito republicano: “desde o início da década de 1830, foi um grande período de revoltas, que muitas vezes foram momentânea ou aparentemente vitoriosas… Essas foram precisamente as revoltas, às vezes imediatas, às vezes mais históricas, características de um período intervalar” <strong>[11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159422" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars.jpg" alt="" width="1920" height="1552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-300x243.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-1024x828.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-768x621.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-1536x1242.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-520x420.jpg 520w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-640x517.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-681x550.jpg 681w" sizes="(max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />O puramente econômico e o puramente político, como era de se esperar, mostram os limites um do outro em negativo. O conto indexical do New England Complex Systems Institute não pode fazer muito além de atender certas quantidades à medida que elas se aproximam de determinados níveis e aguardar a revolta que inevitavelmente seguirá. O método deles parece ser relativamente preciso, depois de dados concretos, mas dificilmente é explicativo em relação à revolta como fenômeno social.</p>
<p style="text-align: justify;">O relato de Badiou, ao contrário, é admiravelmente explicativo, mas impreciso. Ou seja, ele fornece um contexto social reconhecível para a revolta em oposição a outras formas de ação, uma demanda por periodização, e está preparado para aceitar a revolta como um testemunho sério sobre a transformação histórica. No entanto, há imprecisões em sua pesquisa histórica, o que deriva de periodizações um tanto arbitrárias da história francesa a partir de desejos políticos imputados, em direção a uma trajetória global de revolta, à qual essa distribuição histórica não corresponde. O movimento oscilante que ele deduz para a França, com fases que duram décadas, tem pouca força de periodização; provavelmente preciso para seu país natal, ele combina pouco ou nada com as tendências da história em outros lugares. Além disso, qualquer revolta de importância política (uma “revolta histórica”, em sua tipologia) aparece como um evento praticamente sem determinação, fora do tempo. Os analistas quantitativos nos dão causalidade demais; Badiou, de menos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas duas abordagens estão diante de nós como Scylla e Charybdis, os duros bancos de areia do economicismo vulgar e o redemoinho da abstração política. Como navegar entre elas, entre a revolta como jogo de fome e a revolta como emanação de uma estrutura diáfana de sentimento político? Sem dúvida, cada um deles é, de certa forma, informativo, mas ainda insuficiente. Se enfatizamos a periodização, é primeiro porque mudanças fundamentais e duradouras no repertório da ação coletiva sugerem que a periodização é possível em formas mais completas do que espasmos ou oscilações, tanto em escalas infranacionais quanto supranacionais. Se a revolta olha para a periodização, o período, por sua vez, olha de volta para a revolta pelo buraco da fechadura dialética. É difícil, talvez impossível, estabelecer o que é uma revolta sem a periodização; com ela, a revolta (e também a greve) pode ser entendida como um conjunto de práticas diante de circunstâncias práticas, com ou sem um imaginário sobre a autoconsciência reflexiva dos participantes em que se baseiam tantos relatos.</p>
<p style="text-align: justify;">É na prática que Thompson baseia sua análise. Sua conclusão agrega um conjunto de outras práticas, incluindo bloqueio, confisco, revenda, ameaça e violência real contra comerciantes e transportadores. É a partir dessas práticas, em relação a um senso personalizado do custo de se manter vivo, que ele deduz a prática de fixação de preços como a atividade unificadora. Thompson, por sua vez, foi criticado pelo peso que ele dá ao costume e ao direito presumido de transformar o costume em uma arma, que é aproveitada pela multidão. No entanto, o caso mais básico que ele constrói se aproxima do indiscutível: o caso de reconhecer que a situação de revolta não é nem a simples fome nem a “emoção” política (como a revolta já foi chamada), mas sim o domínio do mercado. Se o mercado era “o ponto em que os trabalhadores mais frequentemente sentiam sua exposição à exploração, era também o ponto &#8211; especialmente em distritos manufatureiros rurais ou dispersos &#8211; em que eles podiam se organizar mais facilmente” e, portanto, era “tanto na arena da guerra de classes quanto na fábrica e na mina que se deu a revolução industrial” <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Falar de guerra de classes não pode deixar de tender a um certo reducionismo. Não parece, pelo menos no sentido ortodoxo que adquiriu, totalmente adequado ao mundo protoindustrial em questão, nem ao presente quando o pertencimento de classe fornece não tanto um limite, mas uma lógica para a mobilização política. Apenas assim, como nossa introdução observa, a “fixação de preços de mercadorias no mercado” descreve apenas uma fração da revolta contemporânea. Thompson, e ele não está sozinho, aponta uma saída em um momento de atenção ao tema da revolta. Ele faz uma pausa em sua pesquisa para observar: “Os iniciadores das revoltas eram, com muita frequência, as mulheres”, pela razão evidente de que “elas também eram, é claro, as mais envolvidas no comércio cara a cara, mais sensíveis aos significados dos preços, mais experientes em detectar baixo peso ou qualidade inferior” <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso é apenas razoável, no caso das excluídas antecipadamente do “patriarcado do salário” <strong>[14]</strong> encontrarem mais intensamente a luta no mercado, uma vez que a agricultura de subsistência é minada e a questão básica da sobrevivência é forçada a entrar em uma esfera de troca em expansão. E isso nos oferece, mais do que uma lógica de circulação, a esfera do consumo e da troca. Além disso, gera uma lógica de reprodução como tal.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Dilema da Reprodução</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A reprodução social tem sempre dois lados. Do lado dos despossuídos do capital, ela é tanto a venda da força de trabalho quanto a compra do que é necessário para reproduzir essa força de trabalho. Do lado do próprio capital, é a valorização das mercadorias na produção e a realização desse valor na troca. Essas são as mesmas atividades, evidentemente, vistas de posições diferentes. A ilustração mais clara do caráter duplo da reprodução, sua unidade contraditória, é a chamada <em>double moulinet</em> ou, em alemão, <em>zwickmühle</em>, uma palavra que o inglês traduz como “dilema”.</p>
<p style="text-align: justify;">Na narrativa tradicional desse dilema, trata-se de uma história do trabalho: da força de trabalho refeita e revendida pelo salário, e do trabalho reprodutivo infinitamente apropriado para esse processo, mais comumente referido como “trabalho feminino” não remunerado. O que Thompson vislumbra é que esse trabalho reprodutivo acontece não apenas em casa &#8211; cozinha, quarto, berçário &#8211; mas também, no período pesquisado por ele, é encaminhado pelo mercado. Quando o mercado parece ser a principal condição para a reprodução, as lutas pela reprodução inevitavelmente se situarão nele. Ao mesmo tempo, não podemos deixar de notar que essa situação não se aplica a todos os sujeitos igualmente &#8211; que aqueles que são os últimos a entrar e os primeiros a sair do assalariamento, aqueles que nunca foram incluídos, aqueles que, na melhor das hipóteses, conseguem acesso secundário, estarão na vanguarda daqueles que se encontram lutando pela reprodução de maneiras que vão além do salário. Nessa divisão dos participantes, encontramos outra maneira de ver a conjuntura das épocas marcadas como “revolta” e “revolta linha”.</p>
<p><img decoding="async" class="size-full wp-image-159419 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-06-30-185922.png" alt="" width="198" height="340" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-06-30-185922.png 198w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-06-30-185922-175x300.png 175w" sizes="(max-width: 198px) 100vw, 198px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Na introdução, estabelecemos uma definição tripartite de greve como a forma de ação coletiva que luta para definir o preço da força de trabalho, é unificada pela identidade do trabalhador e se desenvolve no contexto da produção; a revolta luta para definir os preços no mercado, é unificada pela desapropriação compartilhada e se desenvolve no contexto do consumo. A greve e a revolta são distinguidas mais ainda como táticas principais dentro das categorias genéricas de lutas pela produção e circulação. Podemos agora reafirmar e elaborar essas táticas como sendo cada uma delas um conjunto de práticas usadas pelas pessoas quando sua reprodução é ameaçada. A greve e a revolta são lutas práticas pela reprodução dentro da produção e da circulação respectivamente. Seus pontos fortes são igualmente seus pontos fracos. Eles fazem usos estruturados e improvisados do terreno dado, mas esse é um terreno que eles não criaram nem escolheram. A revolta é uma luta pela circulação porque tanto o capital quanto os seus despossuídos foram levados a buscar a reprodução nesse terreno.</p>
<p style="text-align: justify;">Se essa parece ser uma linguagem um tanto técnica para uma experiência sensorialmente carregada &#8211; um antagonismo social dramático carregado de perigo, fúria, desespero e certo prazer social -, isso é apenas uma resposta às rejeições convencionais da revolta já encontradas, por meio da apresentação de um argumento que não deveria ter sido necessário. A revolta, que compreende práticas organizadas contra ameaças à reprodução social, não pode ser nada além de política. Isso não quer dizer que a contradição da reprodução possa ser resolvida na circulação mais do que na produção. Na verdade, é a existência dessas duas esferas, em sua unidade e contradição, que garante a existência e dá forma às lutas pela reprodução. Se as vastas expansões da revolução industrial fornecem os excedentes para o desenvolvimento de aparatos militares e policiais modernos, elas também fornecem excedentes que podem ser usados para comprar a paz social. À medida que esses excedentes derretem e parcelas cada vez maiores da população se tornam excedentes para a economia, o Estado se volta cada vez mais para a coerção como estilo de gestão: o salário social do compromisso keynesiano é retirado em favor da ocupação policial das comunidades excluídas.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a polícia e a revolta passam a se pressupor mutuamente. A revolta passa a se reconhecer por meio dessa imbricação. Caminhando por Hackney durante as revoltas de 2011, passando por cenas de angústia e excitação, passando por latas de lixo em chamas e os detritos de saques, alguns observadores concluíram que “uma luta coerente estava sendo travada aqui … para insistir no respeito dos policiais, forçar o reconhecimento de um assunto em que a rotina diária vê apenas um abjeto”. <strong>[15]</strong> A passagem aponta para a revolta como uma relação necessária com a estrutura atual do Estado e do capital, travada pelos abjetos &#8211; pelos excluídos da produtividade. Mas também aponta para a dependência da revolta em relação ao seu antagonista. No momento, a polícia aparece como necessidade e limite.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse é o tema dialético, esse dilema de necessidade e limite. O mercado, a polícia, circulação. Essas não são situações em que qualquer superação final é possível; é onde as lutas começam e florescem, desesperadamente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Gilje, <em>Rioting in America</em>, 3.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Ibid., 4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> David Halle e Kevin Rafter, “Riots in New York and Los Angeles: 1935-2002”, em <em>New York and Los Angeles: Politics, Society, and Culture—A Comparative View</em>, ed. David Halle, Chicago: University of Chicago Press, 2003, 347.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> William Sewell, “Violência coletiva e lealdades coletivas na França: por que a Revolução Francesa fez a diferença”, <em>Política e Sociedade,</em> n.º 18, 1990, 529.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Charles Tilly, “Getting It Together in Burgundy, 1675-1975” (Unindo forças na Borgonha, 1675-1975), Teoria e Sociedade, 4: 4, 1977, 493.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Thompson, “Economia moral”, 76.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Marco Lagi, Karla Z. Bertrand e Yaneer Bar-Yam, “As crises alimentares e a instabilidade política no Norte da África e no Oriente Médio”, Cambridge, MA: Instituto de Sistemas Complexos da Nova Inglaterra, 10 de agosto de 2011, 1.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Thompson, “Moral Economy”, 78.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Badiou, <em>The Rebirth of History</em>, 87.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Ibid., 38-39.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Ibid., 41.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Thompson, “Moral Economy”, 134, 120.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Ibid., 115; 116</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Silvia Federici, <em>Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation</em>, Nova York: Autonomedia, 2004, 68,97-100.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> “A Rising Tide Lifts All Boats”, <em>Endnotes</em> 3 2011, 102.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As gravuras que ilustram este artigo são, respectivamente, das greves de Baltimore (1877), Homestead (1892) e Pullman (1894).</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jun 2026 16:51:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
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					<description><![CDATA[O que, dentro do movimento objetivo do capital, une a revolta à circulação, a greve à produção, e nos leva de um para o outro? Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>INTRODUÇÃO (continuação)</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Mercado e o Chão da Fábrica</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A principal dificuldade em definir a revolta advém de sua profunda associação com a violência; para muitos, esta associação é tão carregada afetivamente para um lado ou para outro que é difícil de dissipar e, por sua vez, dificulta perceber outras coisas. Sem dúvida, muitas revoltas envolvem violência — talvez a grande maioria, se incluirmos danos materiais à propriedade, bem como ameaças explícitas ou <em>sub voce</em> [indiretas]. Não está totalmente claro se tal inclusão é natural ou razoável. Que dano material seja igual a violência não é uma verdade, mas a adesão a um conjunto particular de ideias sobre propriedade, relativamente recente, que envolve identificações específicas entre humanos e riqueza abstrata do tipo que culmina, por exemplo, no entendimento jurídico de que corporações são pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, essa insistência na violência da revolta obscurece a violência cotidiana, sistemática e onipresente que persegue a vida cotidiana na maior parte do mundo. A visão de uma sociabilidade geralmente pacífica que só excepcionalmente irrompe em violência é um imaginário acessível apenas a alguns. Para os demais — a maioria — a violência social é a norma. A retórica contra a revolta violenta torna-se um dispositivo de exclusão, voltado não tanto contra a “violência”, mas contra grupos sociais específicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ao longo de mais de dois séculos, as greves frequentemente também envolveram violência: batalhas campais entre trabalhadores de um lado e policiais, fura-greves e mercenários do outro, que em seu auge assemelhavam-se a combates militares. Se estendermos a categoria como acima, a violência é onipresente na greve, mesmo como uma espécie de contraviolência defensiva. Reportando da França em 1968, o poeta italiano Angelo Quattrocchi observou:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores podem ameaçar destruir as máquinas, e a ameaça por si só pode impedir uma intervenção armada. Senhores da fábrica, a despossessão é sua maior força. As máquinas, o Capital, propriedade de outros e usufruído por outros, estão agora em suas mãos <strong>[6]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta passagem pretende distinguir a greve limitada, para Quattrochi um evento covarde e coreografado, da ocupação de fábrica. É sugestivo que ele tenha escolhido fazer a distinção naquele momento, observando uma Paris onde revolta e greve entraram em intensa colaboração e competição, cada uma tentando transcender não apenas os seus próprios limites, mas também os da outra. Dito isso, o servilismo cinzento da greve limitada é, em si, um desenvolvimento histórico particular. A situação real que ele descreve, o potencial dos trabalhadores para disporem das engrenagens da produção como bem entenderem, está no cerne da greve.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas isso pressupõe que já sabemos a diferença entre revolta e greve. Se não é a violência, o que é então? E. P. Thompson, cujo pensamento é a pedra angular deste livro, fornece a base para uma resposta em seu memorável “A Economia Moral da Multidão Inglesa no Século XVIII”. Se essa resposta foi curiosamente ignorada, é quase certamente porque o ensaio nunca formaliza completamente a lógica que apresenta. Criticando as reduções e a força despolitizadora contidas no termo “bread riot” (revolta do pão), ele produz uma visão mais sistemática da economia política da revolta:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Tem-se sugerido que o termo “revolta” é uma ferramenta de análise pouco afiada para tantas queixas e motivos particulares. É igualmente um termo impreciso para descrever a ação popular. Se procuramos a forma característica da ação popular, não devemos considerar bate-bocas junto às padarias de Londres, nem mesmo as grandes contendas provocadas pelo descontentamento com os grandes moleiros, mas as “rebeliões do povo” (especialmente em 1740, 1756, 1766, 1795 e 1800) nas quais se destacaram os mineiros de carvão, os mineiros de estanho, os tecelões e os trabalhadores das malharias. O notável sobre essas “insurreições” é, primeiro, a sua disciplina, e, segundo, o fato de mostrarem um padrão de comportamento cuja origem devemos buscar centenas de anos antes; um padrão que se torna mais, e não menos, sofisticado no século XVIII; que se repete, aparentemente de forma espontânea, em diferentes partes do país e depois da passagem de muitos anos tranquilos. A ação central nesse padrão não é o saque dos celeiros, nem o furto de grãos e farinha, mas “fixar o preço” <strong>[7]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">É precisamente esta a situação que se inverterá com a virada do século:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O conflito econômico das classes na Inglaterra do século XIX encontrou a expressão característica na questão dos salários: no século XVII os trabadores mobilizavam-se rapidamente e partiam para a ação por causa do aumento dos preços <strong>[8]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Thompson capta a textura da transformação profunda em curso, de forma tão elusiva quanto imanente:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal começou. Nesses anos, a forma alternativa de pressão econômica — a pressão sobre os salários — está se tornando mais vigorosa; existe algo mais que retórica por trás da linguagem da sedição — organização de ligas clandestinas, juramentos, o obscuro “Ingleses Unidos”. Em 1812, os tradicionais motins da fome coincidem em parte com o luddismo. Em 1816, os trabalhados de East Anglia não só determinavam os preços, mas também exigiam um salário mínimo e o fim do sistema <em>speenhamland</em> de assistência aos pobres. Eles antecediam a revolta muito diferente dos trabalhadores de 1830. A forma antiga de ação continua a existir na década de 1840 e até mais tarde: estava profundamente arraigada no Sudoeste. Mas nos novos territórios da Revolução Industrial, ela passou gradativamente a outras formas de ação <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Preços e salários, eis a combinação. Um é a medida do mercado, o outro do chão de fábrica e da mina, e do trabalho agrícola desde que a agricultura de subsistência e as terras que outrora eram propriedade comum ruíram em meio a sangue e fogo. R. H. Tawney aborda o mesmo ponto, em termos um tanto diferentes:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A economia do bairro medieval era aquela em que o consumo tinha, de certa forma, a mesma primazia na mente do público, como árbitro indiscutível do esforço económico, tal como o século XIX atribuía aos lucros <strong>[10]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas os salários são, em si, um tipo especial de preço. Lembrando-nos disso, a fórmula se torna clara: em primeira instância, <em>a revolta é a fixação de preços para as mercadorias, enquanto a greve é a fixação de preços para a força de trabalho</em>. Este é o primeiro nível ou perspectiva de análise necessário para compreender a história da revolta, que poderíamos chamar de nível prático. A prática política em sua dimensão mais completa é a da reprodução — da família e do indivíduo, da comunidade local. Na virada do século XVIII para o XIX, a questão da reprodução desloca seu centro de gravidade de um lugar para o outro, de uma luta para a seguinte.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159375" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1.jpg" alt="" width="1920" height="1511" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-300x236.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-1024x806.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-768x604.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-1536x1209.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-534x420.jpg 534w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-640x504.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-681x536.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />É evidente que consumidor e trabalhador não são duas classes opostas, muito menos consecutivas. Em vez disso, são dois papéis momentâneos dentro da atividade coletiva necessária para reproduzir uma única classe: o emergente proletariado moderno, que precisam se virar dentro da relação salário-mercadoria. Se um momento prevalece sobre o outro, isso indica o grau de desenvolvimento técnico e social dentro dessa relação e a posição que o proletário ocupa nela. Na cena da revolta, aqueles que definem os preços no mercado podem ser trabalhadores (como no caso dos “mineiros de carvão, os mineiros de estanho, os tecelões e os trabalhadores das malharias” de Thompson), mas este não é o fato imediato que os levou até lá. Esse reconhecimento permite um refinamento de nossas definições.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve é a forma de ação coletiva que:</p>
<p style="text-align: justify;">1. luta para definir o preço da força de trabalho (ou as condições de trabalho, que são praticamente a mesma coisa: a quantidade de miséria que pode ser comprada por libra);</p>
<p style="text-align: justify;">2. apresenta trabalhadores aparecendo <em>enquanto trabalhadores</em>;</p>
<p style="text-align: justify;">3. se desenrola no contexto da produção capitalista, caracterizando-se pela sua interrupção na fonte por meio da suspensão do trabalho, do bloqueio do chão de fábrica, etc.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta é a forma de ação coletiva que:</p>
<p style="text-align: justify;">1. luta para definir o preço das mercadorias (ou sua disponibilidade, o que é praticamente a mesma coisa, pois a questão é igualmente de acesso);</p>
<p style="text-align: justify;">2. apresenta participantes sem nenhum outro laço em comum além de sua despossessão;</p>
<p style="text-align: justify;">3. se desenrola no contexto do consumo, caracterizando-se pela interrupção da circulação comercial.</p>
<p style="text-align: justify;">Este aparato conceitual é simples, mas poderoso, e é suficiente para o período inicialmente analisado por nossos estudiosos, isto é, estendendo-se até o século XX. No entanto, ele apresenta problemas para o presente. As lutas características da <em>revolta-linha</em>, o período que se inicia na década de 1960, juntamente com o último florescimento da greve, e que continua até o presente, não podem ser compreendidas adequadamente dentro da estrutura da fixação de preços, mesmo no sentido ampliado de Thompson. Mas também não podem ser compreendidas sem ela. É aqui que precisaremos de um segundo nível ou hotizonte: o da periodização, preocupado precisamente com o grau de desenvolvimento técnico e social do capital acima mencionado, em todas as suas eloquentes e ambíguas flutuações.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Circulação-Produção-Circulação Linha</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Já observamos que a primeira transição, revolta-greve, corresponde histórica e logicamente à Revolução Industrial e sua extensão e intensificação da relação salarial no início do longo século XIX britânico. A segunda transição, greve-revolta linha, corresponde, por sua vez, ao período de “desintegração da hegemonia” dos Estados Unidos no final do longo século XX. Uma ascensão e uma queda. Um certo padrão em meio à confusão e ao ruído da história, levando-nos agora ao outono do império, conhecido pelos termos de capitalismo tardio, financeirização, pós-fordismo e assim por diante — aquela ladainha dilatada que corre para acompanhar o ritmo do nosso desastre proteico.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas datações são extraídas do esquema de Giovanni Arrighi, que descreve quatro “longos séculos e ciclos sistêmicos de acumulação”.</p>
<p style="text-align: justify;">“A principal característica do perfil temporal do capitalismo histórico esboçado aqui é a estrutura semelhante de todos os longos séculos”, observa Arrighi <strong>[11]</strong>. A estrutura recorrente é uma sequência tripartite que começa com uma expansão financeira originalmente liderada pelo capital mercantil; seguida de uma expansão material “de toda a economia mundial” liderada pela manufatura ou, mais amplamente, pelo capital industrial, na qual o capital se acumula sistematicamente; e quando isso atinge seus limites, uma expansão financeira final. Durante essa fase, nenhuma recuperação real da acumulação é possível, mas apenas estratégias mais ou menos desesperadas de adiamento. Historicamente, o setor financeiro da economia líder, em tal situação, encontrou uma potência industrial em ascensão para absorver seu excesso de capital, financiando assim sua própria substituição. Essa nova hegemonia se formará em bases necessariamente expandidas, capaz de restaurar a acumulação em escala global, mas, ao mesmo tempo, partindo de uma posição mais próxima de seus próprios limites de expansão — daí os ciclos sobrepostos de Arrighi, ampliando-se e acelerando-se à medida que avançam, a série de transferências antes conhecida como <em>translatio imperii</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159371" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322.png" alt="" width="809" height="533" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322.png 809w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-300x198.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-768x506.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-637x420.png 637w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-640x422.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-681x449.png 681w" sizes="auto, (max-width: 809px) 100vw, 809px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa esquematização tem sido motivo de várias pesquisas sobre a transição para o capitalismo, frequentemente encontradas sob o título “Comércio ou Capitalismo?”. Robert Brenner, Ellen Meiksins Woods e outros argumentaram que o desenvolvimento de extensas redes comerciais e a consequente reorganização social não deve ser confundido com o capitalismo propriamente dito, e particularmente com o “desenvolvimento implacável e sistemático das forças produtivas” do capital, que não se pode dizer que tenha começado muito antes do ciclo britânico e da decolagem industrial <strong>[12]</strong>. É precisamente essa distinção que anima o argumento aqui apresentado. Os mercados são indiscutivelmente anteriores ao capitalismo e continuam nele; tornam-se parte da constituição do capitalismo somente quando são transformados pela elaboração do nexo salário-mercadoria e submetidos às disciplinas da produção de mais-valia. Isso acompanha a primeira transição, <em>revolta-greve</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">E, no entanto, é difícil contestar a descoberta de Arrighi de que os impérios comerciais protocapitalistas seguiram praticamente a mesma parábola de desenvolvimento de suas versões mais realizadas. Os dois grandes impérios capitalistas, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, preservam e transmutam as formas de desenvolvimento, preenchendo-as com novos conteúdos. Dentro do alcance espiralado do capital, cada ciclo apresenta uma fase dominada pela lógica da produção, aqui significando a valorização das mercadorias, que Arrighi generaliza como D-M. Ao interromper estas, estão as fases dominadas pela circulação, pois tal é o caráter do capital mercantil ou financeiro, que Arrighi define como a realização de valores, ou M-D. Nunca é uma questão de ou/ou. Ambos os processos devem estar em vôo conjunto, ou o capital cessaria completamente de se mover (e capital imóvel não é capital de forma alguma). A descrição aqui diz respeito ao equilíbrio de forças dentro do circuito expandido do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos, portanto, uma periodização que corresponde às nossas práticas: <em>revolta-greve-revolta linha</em> mapeia as fases de <em>circulação-produção-circulação</em>. É verdade que o período que abrange o início do século XX foi para a Grã-Bretanha, na época ainda a principal economia capitalista, um período financeiro ou centrado na circulação. Aqui, o raciocínio do esquema de Arrighi baseado na sobreposição de ciclos fica claro. Embora os Estados Unidos tenham experimentado sua própria “Longa Depressão”, correspondente à inflexão econômica da Grã-Bretanha no final do século XIX, ainda assim eles supervisionaram, nesse período, uma notável expansão da produção, impulsionada por uma segunda Revolução Industrial capaz de contrabalançar o declínio britânico. Nossa fase atual de circulação, no entanto, carece de muitas evidências desse contrapeso sistêmico; apesar de toda a atenção dada ao papel da China como a nova oficina do mundo, por exemplo, ela já está perdendo mão de obra industrial <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">De fato, isso aponta para o que é único, pelo menos provisoriamente, sobre o nosso momento dentro de uma estrutura de sistemas mundiais. O alcance em espiral de longos séculos pode ter ficado sem espaço para se expandir; a retomada em uma escala maior não parece estar nos planos (embora não devamos descartar facilmente a capacidade do capital de se salvar de uma crise aparentemente total). O capital produtivo dominou, digamos, de 1784 a 1973. É possível que volte a dominar. No momento, isso parece incerto. Longe de sustentar uma hegemonia ascendente, os Estados Unidos, em seu declínio, estão — apesar de seu setor financeiro hipertrofiado — encerrando sua trajetória como nação devedora maciça. Agora é possível argumentar que, mesmo em nível global ou sistêmico, o capital se encontra em uma fase de circulação que não está sendo atendida pelo aumento da produção em outros lugares — uma fase distinta que inevitavelmente teremos de chamar de <em>circulação-linha</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa forma, os regimes britânico e americano podem ser fundidos em um único metaciclo, que segue a sequência <em>circulação-produção-circulação linha</em>. Novamente, isso requer uma certa suavização heurística da trajetória volátil do sistema-mundo capitalista. Trata-se de um argumento, não de uma verdade absoluta. Ainda assim, achamos que é um argumento sugestivo: é possível mapear as três fases de Arrighi na periodização do capital de Brenner no que pode ser visto como um “arco de acumulação”, pelo menos no Ocidente, emergindo do comércio com a Revolução Industrial e descendo para as finanças com a desindustrialização generalizada, sem nenhuma reversão em vista. A sequência coeva de <em>revolta-greve-revolta linha</em> torna-se, portanto, uma história do capitalismo e uma exposição de sua forma atual, das contradições do presente.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Revolta e Crise</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Para que o retorno da revolta sirva de testemunho sobre o <em>status</em> do capitalismo como tal, deve haver mais do que uma coincidência entre as duas sequências. Deve haver um encadeamento teórico. Esse é o terceiro e último nível do horizonte analítico, o da própria história, pelo qual nos referimos ao entrelaçamento dialético das lutas vividas com as compulsões do movimento autônomo do capital, entendido como um movimento real da existência social. O que, dentro do movimento objetivo do capital, une a revolta à circulação, a greve à produção, e nos leva de um para o outro?</p>
<p style="text-align: justify;">Essa pergunta já recebeu uma resposta preliminar. As fases lideradas pela produção material gerarão lutas dentro da produção, sobre o preço da força de trabalho; as fases lideradas pela circulação verão lutas no mercado, sobre o preço das mercadorias. Esse é um relato sincrônico, sem uma dinâmica que nos leve de uma fase a outra; além disso, ele ainda não aborda as peculiaridades da <em>revolta linha</em> e da <em>circulação linha</em>. Isso requer uma rápida passagem pela teoria marxiana da crise <strong>[14]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159374" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8.jpg" alt="" width="1920" height="1552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-300x243.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-1024x828.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-768x621.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-1536x1242.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-520x420.jpg 520w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-640x517.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-681x550.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />O valor, para Marx, tem tanto uma existência qualitativa como relação social como uma existência quantitativa no valor de troca <strong>[15]</strong>. O valor de troca de uma mercadoria viabiliza a mais-valia, a “essência invisível do capital”, valorizada na produção e realizada como lucro na circulação. A circulação, Marx se esforça por decifrar, nunca pode ser, por si só, a fonte de novo valor para o capital como um todo. A ideia de que isso poderia acontecer recebe um tratamento extenso e desdenhoso n&#8217;<em>O Capital</em>, que termina:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por mais que nos viremos, a conclusão final permanece a mesma. Se forem trocados equivalentes, não haverá mais-valia, e se forem trocados não equivalentes, ainda não teremos mais-valia. A circulação, ou a troca de mercadorias, não cria valor <strong>[16]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essas categorias são infinitamente problemáticas, principalmente pelos limites da “circulação”. O extraordinário desenvolvimento do transporte, uma das principais marcas de nosso tempo, parece, a princípio, se encaixar nessa descrição, circulando produtos para realizar como lucro a mais-valia valorizada em outro lugar. Alguns argumentam que a mudança de local, ao contrário, aumenta o valor de uma mercadoria. Em seu sentido mais restrito, os “custos puros de circulação” podem ser limitados a atividades que não fazem nada além da troca em si, a transferência abstrata de título: vendas, contabilidade e coisas do gênero. Além disso, a financeirização e a “globalização” (ou seja, a extensão em direção aos limites planetários das redes e processos logísticos, coordenados pelos avanços nas tecnologias da informação) também devem ser entendidas como estratégias temporais e espaciais, respectivamente, para internalizar novas entradas de valor de outro lugar e de outro momento. Mas isso só pode afirmar a proposição de que a fase atual de nosso ciclo de acumulação é definida pelo colapso da produção de valor no centro do sistema-mundo; é por essa razão que o centro de gravidade do capital se desloca para a circulação, carregado pelo tripé da toyotização, da tecnologia da informação e das finanças.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, os fatos práticos são esclarecedores. Como Brenner observa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Entre 1973 e o presente, o desempenho econômico nos EUA, na Europa Ocidental e no Japão, segundo todos os indicadores macroeconômicos padrão, deteriorou-se, ciclo econômico após ciclo econômico, década após década (com exceção da segunda metade da década de 1990) <strong>[17]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O crescimento do PIB global dos anos 50 até os anos 70 permaneceu acima de 4%; desde então, tem se mantido em 3% ou menos, às vezes muito menos <strong>[18]</strong>. Mesmo os melhores momentos durante a Longa Crise foram, em geral, piores do que os piores momentos do longo <em>boom</em> anterior. Se estipulássemos que o transporte pode fazer parte da valorização tanto como da realização, ainda assim nos confrontaríamos com o fato de que as grandes expansões do transporte global e a aceleração do tempo de rotatividade desde os anos 70 são concomitantes ao recuo da produção industrial nas principais nações capitalistas. Essa marcha a passos largos, por sua vez, é concomitante exatamente com o que a teoria do valor projeta de uma mudança em direção à circulação: menos produção de valor, menos lucros sistêmicos. De qualquer forma, a navegação e as finanças não parecem ter detido a estagnação e o declínio da lucratividade global. Tomando emprestado um termo de Gilles Chatelet, poderíamos chamar sua colaboração de “cibermercantilismo”, análogo ao modo pré-industrial no qual nenhuma quantidade de compras baratas e vendas caras ou vendas cada vez maiores pode levar à expansão.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, isso não quer dizer que não tenham aumentado os lucros de empresas individuais, que podem obter vantagem competitiva diminuindo seus próprios custos de circulação em um jogo de “empobreça-seu-vizinho” para a era da tecnologia da informação. Da mesma forma, as empresas podem participar de esquemas que recirculam e redistribuem o valor já existente, retirando uma parte à medida que ele passa. Sem ir muito longe no labirinto marxológico, podemos afirmar de forma bastante incontroversa sobre o período em questão que o capital, diante de retornos muito reduzidos nos setores tradicionalmente produtivos, vai em busca de lucro além dos limites da fábrica — no setor FIRE (<em>Finance, Insurance, and Real Estate</em>: isto é, Finanças, Seguros e Imóveis), ao longo das rotas traçadas pelas redes logísticas globais —, mas não encontra nenhuma solução contínua para a crise que o afastou da produção em primeiro lugar. Em vez disso, há uma agitação cada vez mais frenética, esquemas mais elaborados, bolhas e colapsos cada vez maiores. Em um movimento de desespero dialético, aquilo que levou o capital à esfera fratricida da circulação de soma zero faz praticamente o mesmo com uma parcela crescente da humanidade. Crise e desemprego, os dois grandes temas d&#8217;<em>O Capital</em>, são expressões da falha trágica do capital: ao buscar o lucro, ele precisa destruir a fonte do lucro, esbarrando em limites objetivos em seu impulso incessante de acumulação e produtividade. Os <em>Grundrisse</em> oferecem a formulação mais concisa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O próprio capital é a contradição em processo, [pelo fato] de que procura reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, ao mesmo tempo que, por outro lado, põe o tempo de trabalho como única medida e fonte da riqueza. Portanto, ele diminui o tempo de trabalho na forma necessária para aumentá-lo na forma supérflua; portanto, coloca o supérfluo em medida crescente como uma condição — questão de vida ou morte — para o necessário <strong>[19]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A “contradição em processo” nada mais é do que a própria lei do valor em movimento, apresentando-se de várias formas. Podemos vê-la como a contradição entre o valor e o preço, as medidas de produção e circulação, respectivamente — o que se revelará também como a contradição entre o capital como um todo e os capitais individuais. Esses últimos não se preocupam com a saúde geral do sistema capitalista, nem são obrigados a fazê-lo. Ao contrário, são obrigados a competir com outros capitais em seu setor. Portanto, embora a necessidade de expansão, de gerar novo valor que leve à acumulação sistêmica, seja um absoluto existencial do ponto de vista de todo o capital, os capitalistas individuais não pensam em termos de valor e acumulação. Eles medem sua existência em preço e riqueza e são compelidos a buscar lucro onde quer que ele seja encontrado, independentemente das consequências para o todo.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse fenômeno unitário também é uma contradição entre a mais-valia absoluta e a relativa. As lutas intercapitalistas para economizar todos os processos substituem reiteradamente a força de trabalho por máquinas e formas organizacionais mais eficientes e, assim, com o tempo, aumentam a proporção entre capital constante e variável, entre trabalho morto e trabalho vivo, expulsando a fonte de mais-valia absoluta na luta por sua forma relativa.</p>
<p style="text-align: justify;">A crise é o desenvolvimento dessas contradições até o ponto de ruptura. Isso caracteriza não uma escassez de dinheiro, mas seu excesso. Os lucros acumulados ficam ociosos, incapazes de se converter em capital, pois não há mais nenhuma razão sedutora para investir em mais produção. As fábricas ficam em silêncio. Buscando salários em outros lugares, os trabalhadores deslocados descobrem que a automação que economiza mão de obra se generalizou em vários setores. Agora, a mão de obra não utilizada se acumula lado a lado com a capacidade não utilizada. Essa é a produção da não-produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, voltamos, sob um disfarce um pouco diferente, à questão de classe, na forma do que Marx chama de “população excedente, cuja miséria está na razão inversa da quantidade de tortura que ela tem à disposição na forma de trabalho. Por fim, quanto mais extensas forem as seções pauperizadas da classe trabalhadora e o exército industrial de reserva, maior será o pauperismo oficial. <em>Essa é a lei geral absoluta da acumulação capitalista</em>” <strong>[20]</strong>. Como aponta o <em>Endnotes</em> no tratamento mais incisivo dessa questão: “Essa população excedente não precisa se encontrar completamente &#8216;fora&#8217; das relações sociais capitalistas. O capital pode não precisar desses trabalhadores, mas eles ainda precisam trabalhar. Assim, eles são forçados a se oferecer para as formas mais abjetas de escravidão assalariada na forma de produção e serviços insignificantes — identificados com mercados informais e, muitas vezes, ilegais de troca direta que surgem junto com as falhas da produção capitalista” <strong>[21]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de surpreender que essa população excedente seja racializada em todo o Ocidente. A capacidade de lucro do capital sempre exigiu a produção e a reprodução da diferença social; em mercados de trabalho com excesso de oferta, o mecanismo das diferenças salariais dá um salto do quantitativo para o qualitativo. Junto com as “recuperações sem emprego” desde 1980, que dão suporte às teorias subjacentes de aumento do excedente, a taxa de desemprego, por exemplo, entre os negros estadunideneses tem se aproximado consistentemente do dobro da média atual, se não for mais alta, o que tem provocado, entre outras coisas, uma vasta expansão do complexo industrial-prisional para gerenciar esse excedente humano. O próprio processo de racialização está intimamente ligado à produção de populações excedentes, cada uma funcionando para constituir a outra de acordo com lógicas variadas de profunda exclusão. Como argumenta Chris Chen:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O surgimento do estado carcerário anti-negros nos EUA a partir da década de 1970 exemplifica os rituais de violência estatal e civil que reforçam a racialização da vida sem salário e a marcação racial da vagabundagem. Do ponto de vista do capital, a “raça” é renovada não apenas por meio de diferenças salariais racializadas persistentes ou do tipo de segregação ocupacional postulada pelas teorias raciais anteriores de “mercado de trabalho dividido”, mas também por meio da racialização de populações excedentes ou supérfluas não assalariadas, de Cartum às favelas do Cairo <strong>[22]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso opera, por sua vez, no nível da revolta contemporânea, uma rebelião excedente que é marcada pela raça e, por sua vez, a marca. Daí uma distinção final em relação à greve, que, na forma moderna, existe dentro de uma estrutura legal (mesmo que isso seja frequentemente ultrapassado). Aqui, começamos a entender o tipo de trabalho ideológico que está sendo feito pela insistência na ilegitimidade peculiar da revolta. A ilegalidade da revolta é, entre outras coisas, a ilegalidade do corpo racializado.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Lutas na Circulação</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Uma população, portanto, cuja própria existência — sua possibilidade de reprodução — é redirecionada pela reorganização econômica da esfera da produção para a da circulação. Essa não é a “sociedade de consumo” no sentido popular, “a vitória definitiva do materialismo em uma adoração universal do fetiche da mercadoria” <strong>[23]</strong>. Mas é uma sociedade de consumo mesmo assim: população excedente confrontada com o velho problema do consumo sem acesso direto ao salário. Não de forma absoluta, não de forma homogênea em todo o mundo, mas suficientemente. Falamos de mudanças de tendência. Quando a base para a sobrevivência do capital muda substancialmente para a circulação, e a base para a sobrevivência dos empobrecidos muda da mesma forma, aí encontraremos a <em>revolta linha</em>. Assim, ela nomeia a reorganização social, o período em que ela domina e a principal forma de ação coletiva que corresponde a essa situação.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma maneira um tanto técnica de falar sobre exclusão e empobrecimento, sem dúvida, esse uso de categorias da economia política clássica e sua crítica. A virtude dessa linguagem está em seu poder de explicar a ligação entre <em>revolta</em> e <em>revolta linha</em> para revelar que a revolta do pão e a revolta racial, esses nomes imprecisos emparelhados, mantêm uma unidade profunda. Em uma formulação resumida, a crise sinaliza um deslocamento do centro de gravidade do capital para a circulação, tanto teórica quanto praticamente, e a revolta deve ser entendida, em última instância, como uma luta pela circulação, da qual a fixação de preços e a rebelião dos excedentes são formas distintas, embora relacionadas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159377" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original.jpg" alt="" width="1500" height="991" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original.jpg 1500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-300x198.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-1024x677.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-768x507.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-636x420.jpg 636w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-640x423.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-681x450.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px" />O novo proletariado, que deve agora (de acordo com o sentido original da palavra) expandir-se para incluir as populações excedentes entre os “sem reservas”, encontra-se em um mundo transformado. Já detalhamos algumas dessas transformações. A situação pode ser definida como um quiasmo de épocas. Em 1700, a polícia, tal como a reconhecemos, não existia; o mercado era vigiado ocasionalmente pelo oficial de justiça ou o funcionário parroquial. Ao mesmo tempo, a maioria das necessidades diárias da vida era produzida localmente. Em suma, o Estado estava longe e a economia, perto. Em 2015, o Estado está próximo e a economia, distante. A produção é aerossolizada; as mercadorias são montadas e entregues por meio de cadeias logísticas globais. Muitas vezes até mesmo os gêneros alimentícios básicos têm origem em um continente distante. Enquanto isso, o exército interno permanente do Estado está sempre à mão — progressivamente militarizado, sob o pretexto de fazer guerra às drogas e ao terror. A <em>revolta linha</em> não pode deixar de se voltar contra o Estado; não há como não fazê-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">O encontro espetacular com o Estado não deve, no entanto, sugerir que não exista uma forma diretamente econômica na revolta contemporânea, além de seu conteúdo político-econômico subjacente. As duas formas mais visíveis são a destruição econômica e o saque, uma frequentemente seguindo a outra em uma negação conjunta da troca e da lógica do mercado. Apesar da aparência universal desse aspecto da revolta, ela é sempre tratada como um desvio da e um comprometimento com a queixa inicial que poderia ter dado legitimidade a revolta. Que reivindicação ética poderia ser feita em relação ao roubo total? O fato de isso parecer misterioso aponta para um momento de fechamento ideológico e suprema ignorância histórica. O saque não é o momento da falsidade, mas da verdade que ecoa por séculos de revolta: uma versão da fixação de preços no mercado, embora a preço zero. É uma volta desesperada à questão da reprodução, embora dramaticamente limitada pela estrutura do capital em que inicialmente opera.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a revolta levanta a questão da reprodução, ela o faz como negação. Ele representa a reversão do destino dos trabalhadores na modernidade tardia. O poder histórico dos trabalhadores tem se apoiado em um setor produtivo em crescimento e em sua capacidade de se apoderar de uma parte do excedente em expansão. Desde a virada dos anos 70, o trabalho foi reduzido a negociações defensivas, compelido a preservar as empresas capazes de fornecer salários, afirmando o domínio do capital em troca de sua própria preservação. O trabalhador que aparece <em>como trabalhador</em> no período de crise enfrenta uma situação em que “o próprio fato de agir como classe aparece como uma restrição externa” <strong>[24]</strong>. Essa dinâmica, que poderíamos chamar de armadilha da afirmação, tornou-se uma forma social generalizada e uma estrutura conceitual, a irracionalidade racional do nosso tempo. A própria desordem da revolta pode ser entendida como a negação imediata disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas lutas, por sua vez, não podem deixar de confrontar o capital onde ele é mais vulnerável. Não há necessidade de imputar um tipo de consciência a essa forma latente de conflito com o capital. Compelido ao espaço de circulação, a revolta se encontra onde o capital tem deslocado cada vez mais seus recursos. A mais ou menos simultânea explosão de revoltas em Louis, Los Angeles, Nashville e mais de uma dúzia de outras cidades é um veredicto tão decisivo quanto se poderia imaginar sobre a tese da circulação. É fácil dizer que essa interrupção é amplamente simbólica: quanto do capital está em outro lugar, globalmente distribuído, resiliente, desmaterializado? As tomadas de rodovias no final de novembro de 2014 são, no entanto, um índice da situação real em que a luta ocorrerá. Além disso, elas demonstram os limites das várias categorias de revoltas. Elas são, evidentemente, descendentes das revoltas pré-modernas de exportação. Não são menos irmãos do que a paralisação do porto de Oakland em 2011 e o longo bloqueio do túnel planejado para o Vale de Susa pelo movimento No-TAV. Reconhecer isso é reconhecer que a revolta é uma tática privilegiada na medida em que é um exemplo da categoria mais ampla que designamos como “lutas na circulação”: a revolta, o bloqueio, a ocupação e, no horizonte mais distante, a comuna.</p>
<p style="text-align: justify;">“Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal surgiu”, escreveu Thompson sobre a transição de dois séculos atrás <strong>[25]</strong>. Até mesmo a imprensa burguesa tem um vislumbre disso: Em 2011, a <em>Newsweek</em> exibiu um revoltoso de Tottenham em sua capa, com roupa de treino e máscara, e as chamas no fundo, com a manchete “O DECLÍNIO E A QUEDA DA EUROPA (E TALVEZ DO OCIDENTE)” <strong>[26]</strong>. Algo acabou, ou deveria ter acabado; todos podem sentir isso. É uma espécie de interregno. Uma calmaria miserável, iluminada em todos os lugares pela sensação de declínio e incêndios acesos ao longo do terreno planetário da luta. As músicas no rádio são as mesmas — horríveis, surpreendentes. Elas prometem que nada mudou, mas nunca cumprem suas promessas, não é mesmo? As fissuras na organização da sociedade aumentam a cada semana. E, no entanto, essa persistência ansiosa, essa suspensão incômoda. Haverá uma recuperação? Uma catástrofe maior? O que devemos preferir? Essa é a tônica da época das revoltas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Angelo Quattrochi, “What Happened,” em The Beginning of the End: France, May 1968, eds. Angelo Quattrochi e Tom Nairn, Nova York: Verso, 1998, 49.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> E. P. Thompson, “The Moral Economy of the English Crowd in the Eighteenth Century,” <em>Past and Present</em>, n.º 50, fevereiro de 1971, 107-8. (<em>Edição brasileira In: Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo. Companhia das Letras, 1998</em>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ibid., 79.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ibid., 128-9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> R. H. Tawney, <em>Religion and the Rise of Capitalism</em>, Londres: Harcourt Brace, 1926, 33.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Giovanni Arrighi, <em>The Long Twentieth Century: Money, Power, and the Origins of Our Times</em>, Londres: Verso, 1996, 219-20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Robert Brenner, <em>The Economics of Global Turbulence</em>, Londres: Verso, 2009, 13.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Alan Freeman, “Investing in Civilisation: What the State Can Do in a Crisis” em <em>Bailouts and Bankruptcies</em>, eds., Julie Guardand Wayne Antony, eds., Winnipeg: Fernwood, 2009.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> É frequentemente observado que Marx não deixou uma teoria completa sobre a crise. Sua teoria do valor em geral, no entanto, fornece a base lógica para uma teoria elaborada. Para o melhor resumo disso, ver Anwar Shaikh, “Introduction to the History of Crisis Theories” [Introdução à história das teorias da crise], <em>US Capitalism in Crisis</em> [O capitalismo americano em crise], Nova York: URPE, 1978.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Para a explicação mais eloquente desta parte da teoria de Marx, ver I. I. Rubin, <em>Essays on Marx&#8217;s Theory of Value</em>, trad. Fredy Perlman e Milos Samardzija, Nova Iorque: Black Rose, 1990, 120-21.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Karl Marx, Capital: <em>A Critique of Political Economy</em>, vol. 1, Londres: Penguin, 1992, 226.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Robert Brenner, “What&#8217;s Good for Goldman Sachs”, prólogo da edição espanhola de <em>The Economics of Global Turbulence</em>, Madri: Akal, 2009. Disponibilizado ao autor em manuscrito, 6.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Ibid., 8.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Karl Marx, <em>Grundrisse</em>, Londres: Penguin Books, 1993, 706.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Karl Marx, <em>Capital</em>, vol. 1, 798 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> “Misery and Debt” [Miséria e dívida], <em>Endnotes</em> 2, 2010, 30, nota de rodapé 15.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> Chris Chen, “The Limit Point of Capitalist Equality” [O ponto limite da igualdade capitalista], <em>Endnotes</em> 3, 2013, 217.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Tom Nairn, “Why It Happened” [Por que aconteceu], em <em>The Beginning of the End: France, May 1968</em> [O começo do fim: França, maio de 1968], eds. Angelo Quattrochi e Tom Nairn, Nova York: Verso, 1998, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Théorie Communiste, “Communization in the Present Tense” [Comunização no tempo presente], em Communization and its Discontents: Contestation, Critique, and Contemporary Struggles [Comunização e seus descontentamentos: contestação, crítica e lutas contemporâneas], ed. Benjamin Noys, Nova York: Minor Compositions, 2011, 41.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Thompson, “Moral Economy” [Economia moral], 128.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> <em>Newsweek</em>, 22 de agosto de 2011.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram este artigo são da revolta de que se seguiu ao assassinato de Martin Luther King Jr. em 1968.</em></p>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Introdução (continuação)</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (1)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Jun 2026 12:55:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
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					<description><![CDATA[Esta é, portanto, a necessidade mais básica: uma teorização propriamente materialista da revolta. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Joshua Clover</h3>
<blockquote><p>Este livro foi publicado originalmente em inglês pela editora Verso (2016). Esta é uma tradução coletiva feita por alguns camaradas no âmbito de um grupo de estudos. A revisão da tradução é do Passa Palavra.</p></blockquote>
<p style="text-align: right;"><em>para Oakland, para a comuna</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A. Uma ordem violenta é desordem; e</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>B. Uma grande desordem é uma ordem.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Estas duas coisas são uma. (Páginas de ilustrações.)</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>—“The Connoisseur of Chaos,” Wallace Stevens</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Você sabe como conseguir, sem entrada, sem dinheiro nunca, dinheiro não dá em árvore de jeito nenhum, só os brancos têm, fazem com uma máquina, para te controlar, você não pode roubar nada de um homem branco, ele já roubou, ele te deve tudo o que você quiser, até a vida dele. Todas as lojas abrirão se você disser as palavras mágicas. As palavras mágicas são: Contra a parede, filho da puta, isso é um assalto! Ou: Quebre a janela à noite (essas são ações mágicas), quebre as janelas durante o dia, a qualquer hora, juntos, vamos quebrar a janela e tirar a merda de lá. Sem entrada. Sem tempo para pagar. Pegue o que quiser.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>—“Black People!”, Amiri Baraka</em></strong></p>
<hr />
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Agradecimentos</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Como muitos outros livros de teoria política, este livro é fruto de mobilizações políticas que, por sua vez, orientaram grupos de leitura, pesquisas e inúmeras discussões. Em todas essas variadas circunstâncias, tenho sido grato pela amizade, discernimento e diligência — literal e figurativa — de Ian Balfour, Ali Bektaş, Lauren Berlant, Sean Bonney, Bruno Bosteels, Shane Boyle, Sarah Brouillette, Lainie Cassel, Maya Gonzalez, Virginia Jackson, Neil Larsen, Laura Martin, Phil Neel, Sianne Ngai, Will O&#8217;Connor, Simone Pinet, Nina Power, Louis-Georges Schwartz, Tim Simons, Michael Szalay, Alberto Toscano, Wendy Trevino e Derek Zika. Provavelmente esqueci alguns. As formulações iniciais foram propostas por Beverly Silver, incentivadas por William Sewell, e desenvolvidas posteriormente em visitas ao Centro de Teoria Social e História Comparada de Robert Brenner e ao Centro Arrighi de Estudos Globais. A produção deste livro não teria sido possível sem o apoio de Sebastian Budgen e do pessoal da Verso, de David Theo Goldberg e do Instituto de Pesquisa em Humanidades da Universidade da Califórnia, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Warwick e da assistência editorial de Deborah Young.</p>
<p style="text-align: justify;">Seeta Chaganti e Carol Clover proporcionaram as condições de possibilidade. Sou particularmente grato aos camaradas cujos pensamentos e ações são os nervos e tendões deste livro, incluindo Aaron Benanav, Jasper Bernes, Chris Chen, Tim Kreiner, Colleen Lye, Annie McClanahan, Chris Nealon e Juliana Spahr. <em>E quando tudo estiver terminado, dê-me sua mão para que possamos recomeçar do início.</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>INTRODUÇÃO</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Uma Teoria da Revolta</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">As revoltas estão chegando, já estão aqui, outros estão a caminho, ninguém duvida disso. Eles merecem uma teoria adequada.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma teoria da revolta é uma teoria da crise. Isso é verdade em uma dimensão específica e local, em momentos de vidros quebrados e incêndios, em que a revolta é considerada a irrupção de uma situação desesperadora, a pauperização até o limite, a crise de uma determinada comunidade ou cidade, de algumas horas ou dias. Entretanto, a revolta só pode ser compreendida como tendo uma significação estrutural e imanente, para parafrasear Frantz Fanon, na medida em que pudermos descobrir o movimento histórico que fornece sua forma e substância. Devemos, então, passar para outros níveis, nos quais as instâncias aglutinadoras próprias das revoltas são indissociáveis da crise capitalista contínua e sistêmica. Além disso, a revolta como uma forma particular de luta ilumina o caráter da crise, torna-a novamente pensável e oferece uma perspectiva a partir da qual podemos ver seu desdobramento.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira relação entre a revolta e a crise é a do excedente. Isso já parece um paradoxo, pois tanto a crise quanto a revolta são comumente entendidos como decorrentes de escassez, carência, privação. Ao mesmo tempo, a revolta é a própria experiência do excesso. Excesso de perigo, excesso de informação, excesso de equipamento militar. Excesso de emoção. De fato, as revoltas já foram conhecidas como “emoções”, uma história ainda visível na palavra francesa: <em>émeute</em>. O excesso crucial no momento da revolta é simplesmente o dos participantes, da população. O momento em que os partidários da revolta excedem a capacidade de gerenciamento da polícia, quando os policiais fazem sua primeira retirada, é o momento em que a revolta se torna totalmente ela mesma, se afasta da continuidade sombria da vida cotidiana. A incessante regulação social que parecia ideológica, onipresente e abstrata é, nesse momento de excesso, revelada como uma questão prática, aberta à contestação social.</p>
<p style="text-align: justify;">Todos esses excessos correspondem a transformações sociais mais amplas, das quais essas experiências de excesso afetivo e prático são indissociáveis. Essas transformações são as reestruturações materiais que respondem à crise capitalista e a constituem, e que apresentam excedentes de capital e população como características centrais. E são elas que propõem a revolta como uma forma necessária de luta.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158125 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017.jpg" alt="" width="928" height="627" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017.jpg 928w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-300x203.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-768x519.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-622x420.jpg 622w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-640x432.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/la_92_still_-_publicity_-_embed_-_h_2017-681x460.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 928px) 100vw, 928px" /></p>
<p style="text-align: justify;">“Qualquer população tem um repertório limitado de ação coletiva”, observa Charles Tilly, grande historiador dessas questões. Escrevendo em 1983, ele mede uma transformação histórica singular, uma mudança oceânica cujas marés se espalharam logo ou tarde pelo mundo industrializado:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em algum momento do século XIX, as pessoas da maioria dos países ocidentais abandonaram o repertório de ação coletiva que vinham usando há cerca de dois séculos e adotaram o repertório que usam até hoje <strong>[1]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A mudança em questão foi da revolta para a greve. Desde a passagem marcada por Tilly, ambas as táticas existem no repertório; a questão é saber qual delas predomina, fornecendo a orientação principal na guerra incessante pela sobrevivência e pela emancipação. A percepção de um recuo da revolta nessa narrativa tem sido um lugar-comum. A frase de abertura do popular volume <em>Rioting in America</em>, de 1996, nos informa: “As revoltas fazem parte do passado americano” <strong>[2]</strong>. Mas o passado nunca está morto. Ele sequer é passado.</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, outra transformação já estava em andamento: desde os anos 60 ou 70, a grande mudança histórica se inverteu. À medida que as nações superdesenvolvidas entraram em uma crise contínua, ainda que irregular, a revolta voltou a ser a principal tática no repertório da ação coletiva. Isso é verdade tanto no imaginário popular quanto no domínio dos dados (na medida em que tais questões permitem a comparação estatística). Independentemente da perspectiva, as revoltas alcançaram uma resoluta centralidade social. As lutas trabalhistas foram, em sua maioria, reduzidas a ações defensivas esfarrapadas, enquanto a revolta aparece cada vez mais como a figura central do antagonismo político, um espectro que surge em debates insurrecionais, em estudos governamentais ansiosos e em reluzentes capas de revistas. Os nomes se tornaram pontos cardeais de nosso tempo. A nova era de revoltas tem raízes em Watts, Newark, Detroit; passa pela Praça Tiananmen em 1989 e Los Angeles em 1992, chegando ao presente global de São Paulo, Gezi Park, San Lázaro. A revolta proto-revolucionária da Praça Tahrir, a revolta quase permanente da Exarcheia, a virada reacionária da Euromaidan. No núcleo crepuscular: Clichy-sous-Bois, Tottenham, Oakland, Ferguson, Baltimore. São muitos para contar.</p>
<p style="text-align: justify;">A teoria é imanente à luta; muitas vezes ela precisa se apressar para alcançar uma realidade que se acelera. Uma teoria do presente surgirá de seus confrontos vividos, em vez de chegar à cena carregada de homilias e prescrições retroativas a respeito de como a guerra contra o Estado e o capital deve ser travada, programas que, segundo nos dizem, alguma vez funcionaram e que agora podem ser renovados e impostos mais uma vez em nosso momento bastante distinto. O subjuntivo é um modo adorável, mas não é procedimento do materialismo histórico.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui chegamos a uma espécie de encruzilhada. De forma muito esquemática, a associação da estrutura analítica de Marx com uma descrição leninista da estratégia política — centrada na organização proletária em direção ao partido revolucionário e na tomada do Estado e da produção — está profundamente sedimentada. A revolta não tem lugar nesse cenário conceitual. Com frequência, entende-se que a revolta não tem política alguma, é uma irrupção espasmódica que deve ser lida de forma sintomática e talvez receba uma dose paternalista de simpatia. Aqueles que atribuíram à revolta o potencial de uma abertura insurrecional para uma ruptura social geralmente vêm de tradições intelectuais e políticas indiferentes ou até mesmo antitéticas ao comando do Estado e da economia, mais notoriamente (mas não exclusivamente) as de algumas vertentes do anarquismo <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso expressa uma ligação subterrânea do comunismo, tanto por céticos quanto por adeptos, com a “organização” como tal, e mais ainda com algum partido de esquerda da ordem, com um senso científico do progresso da história, com a modernidade pela qual devemos passar com toda sua barbárie maquinada. Ao contrário, a revolta, como é amplamente aceito até mesmo entre seus partidários, é uma grande desordem.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a oposição entre greve e revolta passa a representar, por meio de um silogismo velado, a oposição do marxismo <em>tout court</em> a outras tradições intelectuais e políticas, geralmente aquelas que são antidialéticas, se não diretamente anticomunistas. A maioria, se não todos os lados, compartilharam dessa visão. Não faltaram livros à esquerda e à direita para nos informar, ora em tons melancólicos, ora comemorativos, que o declínio do movimento trabalhista e do binômio classe revolucionária &#8211; partido de massa, ou a suposta transcendência de qualquer teoria do valor-trabalho, significam que podemos finalmente deixar a análise de Marx e suas categorias para o século XX, se não para o século XIX. Você já deve estar familiarizado com a narrativa. Os países de origem do capitalismo não apresentam mais uma classe trabalhadora industrial com poder ou magnitude crescentes, que pudesse servir como uma vanguarda para as classes exploradas em geral, muito menos tomar as rédeas da produção. Além disso, o foco original no trabalhador fabril inglês e a contabilização desse trabalho como particularmente produtor de valor e, portanto, mais próximo do coração do capital, representou o sujeito da política inevitavelmente como branco e masculino. Dada a globalização do capital, seu salto para todos os cantos da existência social e os desenvolvimentos vitais da política anticolonial (para abreviar uma série de intervenções cruciais e complexas), será necessário um novo sujeito revolucionário e um novo desdobramento revolucionário.</p>
<p style="text-align: justify;">Decerto isso é uma caricatura. Essas sugestões são, de fato, em muitos aspectos, instrutivas, se não simplesmente verdadeiras. Isso não significa uma refutação do materialismo histórico, mas põe um conjunto de problemas para ele. O enfraquecimento dos movimentos trabalhistas tradicionais no Ocidente e a intensificação de uma desapropriação mais completa não apontam para o fim do antagonismo anticapitalista potencialmente revolucionário nem da força analítica do materialismo histórico. Além disso, ainda precisaremos do último para compreender o primeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Afinal de contas, o materialismo histórico é uma teoria da transformação, se é que é alguma coisa. Isso não quer dizer que toda mudança histórica deva ser apoiada. Mas um marxismo que só consegue entender a tendência da realidade como um erro não é marxismo algum. O significado da revolta mudou radicalmente. Ela não será entendida se não nomearmos as determinações e forças segundo as quais ela assume seu novo papel e pelas quais ela é impelida irresistivelmente para o futuro, mesmo quando olha para trás, para os séculos XVII e XVIII. Esta é, portanto, a necessidade mais básica: uma <em>teorização propriamente materialista da revolta</em>. A revolta para os comunistas, digamos.</p>
<p style="text-align: justify;">Não está claro se esse livro existe. Talvez a abordagem mais próxima seja <em>The Rebirth of History: Times of Riots and Uprisings</em>, de Alain Badiou: “Eu também sou marxista — na íntegra, completamente e, portanto, naturalmente, não há necessidade de reiterar isso”, insiste ele, reiterando-o em várias ocasiões ao mesmo tempo em que observa que ele é</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">bem ciente dos problemas que foram resolvidos e que é inútil reexaminá-los; e dos problemas que permanecem pendentes e que exigem de nós uma retificação radical e uma esforço inventivo. Todo conhecimento vivo é composto de problemas que precisam ser construídos ou reconstruídos, e não de descrições repetitivas <strong>[4]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Depois de oferecer essa nota promissória, ele não se preocupa muito com a problemática do capital, nem faz muito uso das categorias que nos foram legadas pela crítica da economia política. Ficamos com “a Ideia” desempenhando o papel deixado pelo partido, fornecendo uma coordenação do espírito revolucionário que procede a certa distância dos desenvolvimentos dialéticos das forças sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Badiou organiza seu livro como uma taxonomia de revoltas organizada em torno da Primavera Árabe. Essa é uma das abordagens genéricas que se sobrepõem a esses estudos, dividindo as revoltas de acordo com o status político, a causa disparadora principal ou eventual, a composição dos participantes. Outra é o estudo sociológico dos manifestantes e suas condições imediatas, e seu primo próximo, a fenomenologia (geralmente em primeira pessoa). Há também os estudos de caso de revoltas famosas, além de pesquisas e atlas menos glamourosos. Independentemente de suas lacunas, a biblioteca das revoltas é escura e profunda; apenas uma fração pode ser abordada aqui. Este livro tem outras promessas a cumprir. Ele também se baseia na teoria do valor de Marx e na teoria da crise, da qual a primeira não pode ser desvinculada, em relatos de como os setores urbanos se esvaziam, como setores inteiros da economia se erguem e caem, e como o sistema-mundo se organiza e desorganiza; a tradição da análise dos sistemas mundiais fornece uma estrutura de amplitude global e de <em>longue durée</em> para pensar o evento localizado da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;">Há limites para essa extensão, necessariamente. É evidente que as revoltas na Índia e na China, para escolher apenas dois exemplos contemporâneos, têm suas próprias características distintas (e seus próprios estudos em desenvolvimento). Minhas alegações se referem principalmente às nações do Ocidente de desenvolvimento industrial precoce e agora em processo de desindustrialização. Esses lugares não têm um apelo privilegiado para as revoltas; eles são, na verdade, o terreno em que uma lógica específica se torna visível, uma lógica tanto da revolta quanto do capital em seu outono catastrófico. Espero que essas reflexões sejam, de certa forma, adaptáveis, pois estão inseridas em mudanças político-econômicas que, por sua vez, estão fadadas a viajar.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158124" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before.webp" alt="" width="2000" height="1335" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before.webp 2000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-1024x684.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-768x513.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-1536x1025.webp 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-629x420.webp 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/knbc-la-riots-sliders-pico-fire-before-681x455.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px" />Além disso, assim como a nova era de revoltas expressa as transformações globais do capital e, portanto, carrega suas condições objetivas, ela se torna uma ocasião para examinar mais profundamente essas transformações. Se este livro oferece alguma novidade, elas são as seguintes: primeiro, definições mais claras de <em>revolta</em> e <em>greve</em>, que padecem de mais confusão do que se poderia esperar. Em segundo lugar, uma explicação de por que a revolta voltou e por que ele assume a forma que tem no presente. E, em terceiro lugar, uma vez que a lógica da revolta e sua relação com as transformações do capital tenham sido apreendidas, fornecer algumas previsões sobre o futuro da luta. Uma teoria do presente, portanto. No mínimo, a teoria deve ser capaz de explicar por que, após o fracasso em apresentar uma acusação contra o policial que assassinou Michael Brown em Ferguson, Missouri, houve uma onda nacional de revoltas — e por que, como se por uma telepatia entre os empobrecidos, as revoltas em cidade após cidade assumiram a forma de bloqueio da rodovia disponível mais próxima.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Revolta-Greve-Revolta Linha</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Este livro está organizado mais ou menos em ordem cronológica, desde a era de ouro das revoltas até a era das greves e vice-versa, com foco especial nas passagens de transição. No entanto, não se trata de uma crônica. Em vez disso, ele aproveita a oportunidade para desenvolver uma série de conceitos e argumentos sobre revolta e economia política à medida que avança. Ele constrói um modelo explicativo que pode coordenar os principais fatos do presente, de modo que eles possam se manifestar de forma um pouco mais eloquente. Ao se aproximar da era atual, os capítulos inevitavelmente se tornam um pouco mais detalhados. No entanto, o todo será necessariamente uma simplificação das infinitas complexidades da realidade; assim são os modelos heurísticos. Pelo menos, isso faz com que os livros sejam mais curtos.</p>
<p style="text-align: justify;">O Riot Act do Rei George I em 1714, em resposta, em parte, às revoltas da Coroação que acompanharam sua ascensão, se apresentava como “Um ato para prevenir revoltas e assembleias desordeiras, e para punir os desordeiros de forma mais rápida e eficaz”. Isso levanta uma questão sobre o estatuto comunicativo da revolta desde seu início. Trata-se, em grande parte, de uma declaração, de um discurso — ele prescreve a linguagem que deve ser lida para declarar uma reunião ilegal (daí a expressão, “ler o Riot Act”). Com ele, o termo <em>riot</em> muda decisivamente de seu sentido mais antigo de “vida desregrada, solta ou esbanjadora; deboche, dissipação, extravagância” e até mesmo “folia, alegria ou barulho desenfreados” para seu significado contemporâneo de “uma violenta perturbação da paz por uma assembleia ou grupo de pessoas; um surto de ilegalidade ativa ou desordem entre a população”. Chaucer, como tantas vezes, antecipa a modernidade da palavra. “Roubos e revoltas são conversíveis”, escreve ele em <em>The Cook&#8217;s Tale</em>, observando que o mestre paga o preço pela folia do aprendiz <strong>[5]</strong>. Ele associa a palavra à reviravolta das hierarquias sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">A transição da revolta para a greve ocorre de forma irregular. A chegada da greve como fato social ocorre entre 1790 e 1842, data da primeira greve em massa na Inglaterra. Assim como muitas mudanças marítimas, é difícil reconhecê-las em sua primeira aparição, mas elas se mostrarão com clareza em um exame posterior. Será útil reconhecer a continuidade, bem como a oposição, a maneira como o novo conteúdo para a luta emerge de formas mais antigas de ação e, portanto, passa por períodos de indefinição. O mesmo pode ser dito sobre o retorno das revoltas; ainda é cedo. Com o declínio do movimento trabalhista no Ocidente, a revolta aumenta, tanto relativa quanto absolutamente. Inevitavelmente, há um intervalo em que as duas táticas coexistem uma ao lado da outra. De uma perspectiva, elas parecem disputar a primazia; de outra, a volatilidade de sua presença dual durante essa segunda transição produz uma situação revolucionária, que é amplamente conhecida com o nome, não totalmente preciso, de “1968”. O ano histórico-mundial de 1973 é o ano da virada, com o colapso dos lucros industriais sinalizando o início do que deveria ser corretamente chamado de Longa Crise, com suas recomposições de classe e divisão global do trabalho que progressivamente minam as possibilidades de organização militante dos trabalhadores no Ocidente. Na década de 80, a transição está praticamente concluída. Se isso aparece inicialmente como parte de um fechamento mais amplo das fronteiras revolucionárias — como o fim da história concomitante com a saída do comunismo do século XX —, o veredicto é mais uma vez aberto ao debate. O debate está intrinsecamente ligado ao retorno da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Revolta-greve-revolta</em>, portanto. Mas isso não é suficiente. Tal formulação pode sugerir uma simples oscilação, ou pior, uma regressão. Essa narrativa tem seu apelo, dadas as tonalidades afetivas do presente, as insinuações de um colapso civilizacional acelerado por uma catástrofe ecológica. No entanto, isto é apenas um contorno, não uma teoria. Ela não é explicativa nem precisa. A nova era de revoltas, em muitos aspectos não se assemelha à sua antecessora. Antes do século XIX, as dificuldades gerais enfrentadas pelos pobres para administrar a subsistência, incluindo não apenas as revoltas pelo pão, mas também as revoltas contra os cercamentos das terras comuns, proporcionavam a ocasião para o surgimento do antagonismo social. Notavelmente, esses eventos incluíam as “revoltas contra exportações”, revoltas em que o transporte de grãos para fora do condado, especialmente em épocas de fome, era interrompido por esforços combinados e coordenados. De acordo com muitos relatos, essa configuração básica das necessidades é mantida até hoje; estudos empíricos que relacionam os preços dos alimentos a revoltas continuam sendo comuns e, de certa forma, persuasivos, principalmente em países com baixos salários. No entanto, as revoltas começam agora não no celeiro, mas na delegacia de polícia, literal ou figurativamente, incitados pelo assassinato de um jovem de pele escura pela polícia, ou em decorrência do fracasso do aparato legal em responsabilizar adequadamente a polícia por sua violência. A nova era encontra seu paradigma nas revoltas de Los Angeles de 1992, após a absolvição dos policiais que foram gravados espancando brutalmente Rodney King após uma parada de trânsito — revoltas que se espalharam por várias outras cidades e continuaram por cinco dias. Cada vez mais, as revoltas contemporâneas ocorrem dentro de uma lógica de racialização e têm o Estado, e não a economia, como seu antagonista direto. A revolta retorna não apenas a um mundo mudado, mas ela mesma se transformou.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Revolta-greve-revolta linha</em>. Assim fica melhor. Esses termos compõem as três seções do livro. Cada uma delas tem não apenas um período apropriado, mas também um lugar apropriado. Para a primeira era de revoltas, o mercado, mas sobretudo o porto; para a era da greve, o chão de fábrica; e, para a nova era de revoltas, a praça e a rua. Para cumprir essa sequência tripartite, este livro precisará descobrir tanto a continuidade das duas eras de revoltas quanto suas diferenças: a unidade de uma revolta no mercado e os levantes frequentemente racializados dirigidos aparentemente contra o Estado. Aqui está o argumento, em sua forma condensada e abstrata, ao qual o restante do livro acrescentará detalhes e digressões, bem como uma estrutura político-econômica e um olhar para o futuro.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Charles Tilly, “Expressando sua opinião sem eleições, pesquisas ou movimentos sociais”, <em>The Public Opinion Quarterly</em> 47: 4, inverno de 1983, 464.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Paul A. Gilje,<em> Rioting in America</em>, Bloomington: Indiana University Press, 1999, 1.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> The Invisible Committee, <em>The Coming Insurrection</em>, Cambridge: Semiotext(e), 2009, e sua continuação To Our Friends, trad. Semiotext(e), Cambridge: Semiotext(e), 2015, são as versões mais incisivas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Alain Badiou, <em>The Rebirth of History: Times of Riots and Uprisings</em>, trad. Gregory Elliot, Nova York: Verso, 2012, 8.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> “For thefte and riot, they been convertible.” Geoffrey Chaucer, <em>The Riverside Chaucer</em>, 3ª ed., Larry D. Benson, ed. geral, Boston: Houghton Mifflin, 1987, 85.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram este artigo são da revolta de Los Angeles, em 1992</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016</p>
<p style="text-align: center;">© Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Velha Toupeira (43)</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Jun 2026 14:38:04 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159341" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA.jpg" alt="" width="2560" height="853" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA-2048x682.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA-1260x420.jpg 1260w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA-681x227.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></p>
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		<title>Pierre Bourdieu para pensar o rap e mais um pouco&#8230;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Jun 2026 10:05:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
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					<description><![CDATA[Pensar o hip-hop como campo implica reconhecer a existência de regras próprias,  hierarquias, e luta por capitais. Por Luís]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Luís</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">Para falar da importância de Bourdieu, de uma forma bastante rápida e introdutória, e deixando claro que este texto se propõe a ser não muito mais do que um ponto de vista que incrementa as discussões e o debate de uma forma que espero ser benéfica — ainda se reconhecendo como alguém que fala “de fora” do espaço — e uma ajuda a quem quer que queira pensar mais profundamente, facilitando e introduzindo um pouco do pensamento desse autor que considero tão importante. Utilizando, aqui, principalmente o conceito de <em>campo</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159331" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos1.jpg" alt="" width="960" height="640" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos1.jpg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos1-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos1-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos1-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos1-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos1-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px" />Acho bastante oportuno começar problematizando a questão de tratar o hip-hop (pensando mais e principalmente no rap) como um campo. Não porque considere essa abordagem equivocada: ao contrário, acredito que seja a forma mais precisa de analisar o rap. O problema está, na verdade, nesse “descobrir” o rap como um campo: Em Pierre Bourdieu, o conceito de campo designa um espaço (não físico) relativamente autônomo, estruturado por relações de força e marcado por disputas constantes por reconhecimento, legitimidade e posições. Trata-se, portanto, de um espaço <strong>necessariamente</strong> hierarquizado, ou seja, vertical. Nesse sentido, pensar o hip-hop como campo implica reconhecer a existência de um jogo social, com regras próprias, estratégias, hierarquias, mecanismos de consagração e luta por capitais (simbólico, econômico…). Tal constatação, por si só, já estabelece uma tensão importante com a origem do hip-hop enquanto cultura de rua, coletiva e representa uma contradição em relação ao discurso de horizontalidade, união, luta conjunto do “povo” contra o “sistema”.</p>
<p style="text-align: justify;">Todo campo possui uma <em><strong>autonomia relativa,</strong></em> ou seja, regras próprias, práticas mais ou menos valorizadas, um jeito de existir. Quanto mais autônomo um campo, menos sua forma de valorar (definir o que é belo, feio, desejável, indesejável, qual conduta é correta…) proveniente de outros campos e das tendências dominantes no espaço social, aqui pensando principalmente no que Bourdieu chama de “campo econômico”. A autonomia do hip-hop pode ser pensada tendo em vista os elementos que foram e ainda são, de certa forma, a ela identificados que já citamos anteriormente: a coletividade, a rebeldia, a negação da distinção positiva advinda do maior poder financeiro…</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159332" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos4.jpg" alt="" width="1716" height="1144" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos4.jpg 1716w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos4-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos4-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos4-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos4-1536x1024.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos4-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos4-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos4-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1716px) 100vw, 1716px" />Nas últimas décadas, contudo, observa-se uma transformação significativa. A entrada mais intensa na indústria, a profissionalização do artista o discurso meritocrático, a ideia do “MC profissional”, “MC empreendedor”, a glorificação do sucesso financeiro individual e a visão do rap como caminho para ascensão individual — legitimada pela aura dos “iluminados” — passaram a ocupar um lugar central no discurso e na prática de do campo, ou seja, sendo cada vez mais “submissa” à linguagem e visão do mercado. Assim, os critérios do campo econômico passaram a reorganizar, em grande medida, o funcionamento do campo cultural do hip-hop, na produção e distribuição e na mente dos agentes que participam de tudo isso.</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia de “jogo”, muito presente no discurso atual do rap, ajuda a entender esse movimento. Especialmente nos Estados Unidos, competir para estar no topo virou algo normal há tempo. Um exemplo bastante ilustrativo é a “diss”, que quase sempre não representa um embate ideológico ou uma discussão entre iguais em torno de uma questão relevante e sim um meio ferramenta de disputa prestígio, legitimidade, ou seja, capital simbólico que pode e provavelmente deve logo ser reconvertido em dinheiro — capital econômico. Isso tudo se passa, muitas vezes, sem que os agentes precisem usar de eufemismos ou quaisquer formas de mascarar esse movimento, com declarações explícitas de luta por capitais ( o <em>this is business)</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Algo interessante de se observar é o que Bourdieu diz a respeito das estratégias adotadas pelos novos agentes que ingressam no campo. Em geral, esses pretendentes dispõem de pouco capital acumulado historicamente, com o autor chegando a dizer que seu único capital é “a crença no próprio jogo”, e, por isso, tendem a recorrer a estratégias de subversão da ordem estabelecida. É nesse contexto que emerge com frequência o discurso da “volta às origens”, da pureza e da autenticidade. Importa observar, contudo, que esse discurso nem sempre possui um conteúdo político efetivo. Muitas vezes, ele funciona como uma estratégia simbólica de ascensão dentro do próprio campo, mobilizando a ideia de autenticidade como recurso para obtenção de reconhecimento e poder. Diante disso, talvez o desafio não esteja simplesmente em optar entre vencer o jogo ou retornar às origens. A questão mais profunda pode ser a necessidade de interrogar o próprio jogo: seus pressupostos, seus critérios de valor e o papel que uma cultura de rua pode ou deve desempenhar quando passa a operar plenamente como um campo estruturado. Não apresento essas reflexões como respostas definitivas, mas como pontos de partida para uma discussão coletiva que considere tanto a dimensão simbólica quanto as condições sociais e materiais de produção do hip-hop contemporâneo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159330" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos3.jpg" alt="" width="750" height="750" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos3.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos3-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos3-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos3-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos3-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/osgemeos3-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" />Para que se possa compreender essas questões melhor e entender o funcionamento dos campos, recomendaria a leitura do livro <em>Razões Práticas</em>, primeiramente, e depois do texto/livro <em>A Produção da Crença, </em>além de outros materiais bastante úteis como aulas e mesmo outros livros do autor. Lembrando que Pierre Bourdieu trata de diversos outros temas que dialogam com nossas questões, como Educação e Classe, de uma maneira que considero espetacular, porém não penso que seja hora de aprofundar nisso, quis apenas me deter na exposição que propus no início. Para ilustrar os movimentos históricos dentro de um campo, eu considero o texto do Arthur sobre o Marechal, principalmente na metade inicial, fundamental.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma série de 4 videoaulas do canal da FFLCH sobre Bourdieu:</p>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://youtu.be/R5J-zXXn2aI?si=5lHRVa2zVlz5jS2f" href="https://youtu.be/R5J-zXXn2aI?si=5lHRVa2zVlz5jS2f" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Parte 1</a></p>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://youtu.be/gvDAh_la82I?si=Aq1oIIg86fbUFdwW" href="https://youtu.be/gvDAh_la82I?si=Aq1oIIg86fbUFdwW" rel="ugc nofollow">Parte 2</a></p>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://youtu.be/9VBfgGoTR84?si=ueTXNR3wrnaJCJ5C" href="https://youtu.be/9VBfgGoTR84?si=ueTXNR3wrnaJCJ5C" rel="ugc nofollow">Parte 3</a></p>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://youtu.be/08PR0ub6coQ?si=nFAmsfmbwlu6Y1HJ" href="https://youtu.be/08PR0ub6coQ?si=nFAmsfmbwlu6Y1HJ" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Parte 4</a></p>
<p style="text-align: justify;">Uma aula do ex-aluno Clóvis de Barros, com cerca de 9 horas de duração (só áudio):</p>
<p style="text-align: justify;"><a class="urlextern" title="https://youtu.be/MVYHAphYxyc?si=yelf-PJ7cykw-HH6" href="https://youtu.be/MVYHAphYxyc?si=yelf-PJ7cykw-HH6" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Aqui</a></p>
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		<title>Matrix, entre a revolução e a exploração</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Jun 2026 14:10:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[Em Matrix, como ocorre na sociedade capitalista, o processo de exploração do trabalho encontra-se oculto em uma mercadoria fetichizada. Por Michel Goulart da Silva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Michel Goulart da Silva</h3>
<p style="text-align: justify;">Em março de 1999, o filme <em>Matrix</em> estreava nos cinemas, conquistando grande sucesso de público e crítica. O filme trazia uma reflexão sobre diversos aspectos da realidade vividos no cotidiano, como a relação com a tecnologia e com o meio ambiente. Com seu grito de “acorde” (o <em>wake up</em>, da música do <em>Rage Against the Machine</em>, que faz parte da trilha sonora do filme), o filme, apesar de ser uma produção hollywoodiana, se tornou uma expressão da revolta diante dos ataques que governantes em diferentes países faziam contra os direitos dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Eram tempos de crescimento do movimento que ficou conhecido como “antiglobalização”, que ocupou as ruas em reuniões de organismos internacionais, como o Banco Mundial e o FMI, e que pouco depois abandonariam o confronto direto para se somar a governos “progressistas” na construção de sucessivas edições do Fórum Social Mundial. Por outro lado, eram também tempos em que a internet e o mundo dos aplicativos não tinham dominado a sociedade, como ocorre na atualidade, mostrando um caráter até mesmo de previsão do filme.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme <em>Matrix</em> tem uma história bastante simples, que remete a uma versão moderna da Caverna de Platão. Os seres humanos vivem na Matrix, uma realidade artificialmente criada por máquinas. Séculos antes, o mundo teria sido destruído e os humanos escravizados, servindo como um tipo de bateria para fornecer energia às máquinas. Essa é possivelmente uma das metáforas mais fortes do filme, na medida em que remete aos trabalhadores que sustentam o capital e que mantém uma relação de estranhamento com o produto do seu trabalho. Marx destacava que o trabalho estranhado faz “do <em>ser genérico do homem</em>, tanto da natureza quanto da faculdade genérica espiritual dele, um ser <em>estranho</em> a ele, um <em>meio</em> de sua existência <em>individual</em>. Estranha do homem o seu próprio corpo, assim como a natureza fora dele, tal como a sua essência espiritual, a sua essência <em>humana</em>” <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalhador, no capitalismo, não conhece o valor produzido pelo seu trabalho da mesma forma que no filme as pessoas estão presas a essa realidade artificialmente criada. Nessa sociedade, “transformam-se em seres que são o reflexo de uma realidade imediata, cotidiana, parcial, desconhecem a essência das coisas, e orbitam o mundo fenomênico, obnubilado por sombras e enganos” <strong>[2]</strong>. Em <em>Matrix</em>, como ocorre na sociedade capitalista, o processo de exploração do trabalho encontra-se oculto em uma mercadoria fetichizada. Segundo Marx, “a opressão humana inteira está envolvida na relação do trabalhador com a produção, e todas as relações de servidão são apenas modificações e consequências dessa relação” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159322" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl.jpg" alt="" width="1200" height="800" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1715362921663e5c69d2787_1715362921_3x2_xl-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Nesse debate, algo que chama a atenção na Matrix passa pelo fato de controlar toda a vida do trabalhador. Os humanos, enquanto dão energia para a Matrix, estão dormindo, ou seja, toda a sua energia vital é sugada. Essa forma de exploração lembra em grande medida o processo de trabalho da sociedade capitalista, no qual,</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Mediante a compra da força de trabalho, o capitalista incorpora o próprio trabalho, como fermento vivo, aos elementos mortos que constituem o produto e lhe pertencem igualmente. De seu ponto de vista, o processo de trabalho não é mais do que o consumo da mercadoria por ele comprada, a força de trabalho, que, no entanto, ele só pode consumir desde que lhe acrescente os meios de produção. O processo de trabalho se realiza entre coisas que o capitalista comprou, entre coisas que lhe pertencem” <strong>[4]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O processo de incorporação de tecnologias impacta nesse trabalho, no qual, cada vez mais, o produto parece se distanciar do próprio trabalhador. Entende-se que</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“[…] a atividade do trabalhador, limitada a uma mera abstração da atividade, é determinada e regulada em todos os aspectos pelo movimento da maquinaria, e não o inverso. A ciência, que força os membros inanimados da maquinaria a agirem adequadamente como autômatos por sua construção, não existe na consciência do trabalhador, mas atua sobre ele por meio da máquina como poder estranho, como poder da própria máquina” <strong>[5]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">No cenário de distopia de <em>Matrix</em>, um grupo de humanos organizou a resistência à opressão promovida pelas máquinas. Contudo, para que a resistência conquistasse novos adeptos, as pessoas precisariam ser literalmente acordadas. No interior da Matrix havia algumas pessoas que acabavam sendo os potenciais revoltosos, afinal, ainda que sem saber exatamente o que estavam acontecendo, se sentiam desconfortáveis com aquele ambiente, como acontecia com o protagonista do filme, um hacker conhecido como Neo. Como em Platão, onde as pessoas precisariam ver a luz, por mais que a cegassem em um primeiro momento, em <em>Matrix</em> deveriam ver a realidade em sua materialidade. Essa realidade concreta é chamada, em certo momento do filme, de “deserto do real”.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme, ainda que de forma contida, faz um elogio à subversão, chamando todos a acordarem antes que uma grande tragédia possa vir a consumir a sociedade e o planeta, colocando em cena personagens que seriam a célula de uma organização revolucionária dedicada a destruir a Matrix. Um dos enfrentamentos centrais dessa organização política passa pelo processo de cooptação, na medida em que a Matrix pode oferecer às pessoas qualquer coisa que deseje. No capitalismo, “a sedução e o encantamento foram aprimorados, com o intuito de fazer com que as mercadorias assumissem papeis imprescindíveis na vida da classe trabalhadora” <strong>[6]</strong>. Como no capitalismo e sua promessa de felicidade, a Matrix pode oferecer um mundo de possibilidades, desde que as pessoas não questionem sua lógica e seu funcionamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora tenha uma mensagem da necessidade da organização como forma de transformação da realidade, o filme tem evidentes limites políticos. Sua narrativa se perde na busca e na idolatria do “escolhido”, o protagonista Neo, que seria um ser humano especial com a capacidade de destruir sozinho a Matrix. O embate central, embora não deixe de ser com as máquinas, vai ganhando a cara das lutas contra Smith, que deixa de ser um agente da Matrix para se tornar uma espécie de defeito do sistema. O filme acaba apresentando uma necessidade de sacrifício quase religioso, não apenas do próprio Neo, mas dos seus companheiros que voltam todos os seus esforços para ajudar as ações do protagonista.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159323" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted.webp" alt="" width="1200" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted.webp 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted-300x180.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted-1024x614.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted-768x461.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted-700x420.webp 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted-640x384.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/230306130026-keanu-reeves-the-matrix-restricted-681x409.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Em suas continuações, nos filmes <em>Reloaded</em> e <em>Revolutions</em>, ambos lançados em 2003, essa personificação do salvador avançou no discurso de que nada seria possível de mudar. Mostra-se ao longo da narrativa que mesmo esse “escolhido” seria uma peça dentro da própria Matrix, portanto, até mesmo a subversão por ele representada estaria sob controle e levaria a um ciclo no qual a Matrix sempre voltaria a existir. Nessa lógica, “no fim, nada é realmente resolvido: a Matrix continua lá, explorando os seres humanos, sem garantia de que não surgirá um novo Smith; a maioria dos seres humanos continuará escravizada” <strong>[7]</strong>. O eterno retorno sem novidades parece ser um mote pouco criativo do mais recente filme da franquia, <em>Matrix Resurrections</em>, lançado em 2021.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme <em>Matrix</em>, ao dar maior ênfase à figura messiânica de Neo, profetizado como o “escolhido”, deixa de contar a história de uma organização rebelde. Opta por mostrar, de forma crescente, que, mesmo que a luta seja importante, não há possibilidade de revolução e que o capitalismo sempre conseguirá se reerguer. No limite, o que o filme aponta é que o papel da subversão e da revolta passa por conquistar reformas na sociedade e não por colocar abaixo o sistema que explora a humanidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong><br />
<strong>[1]</strong> Karl Marx. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004, p. 85.<br />
<strong>[2]</strong> Vanessa Batista de Andrade. Crédito e neuroeconomia: estudo crítico das estratégias econômicas para aceleração da circulação e seus efeitos sobre a classe trabalhadora. Marília: Lutas Anticapital, 2025, p. 96.<br />
<strong>[3]</strong>. Karl Marx. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004, p. 89.<br />
<strong>[4]</strong> Karl Marx. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013, livro I, p. 262-3.<br />
<strong>[5]</strong> Karl Marx. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboço da crítica da economia política. São Paulo: Boitempo; Rio de Janeiro: UFRJ, 2011, p. 581.<br />
<strong>[6]</strong> Vanessa Batista de Andrade. Crédito e neuroeconomia: estudo crítico das estratégias econômicas para aceleração da circulação e seus efeitos sobre a classe trabalhadora. Marília: Lutas Anticapital, 2025, p. p. 104.<br />
<strong>[7]</strong> Slavoj Zizek. Lacrimae Rerum: ensaios sobre cinema moderno. São Paulo: Boitempo, 2009, p. 176.</p>
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		<title>O desencantamento em Black Sabbath</title>
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		<pubDate>Thu, 28 May 2026 14:19:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Em meio ao desencantamento com a utopia e a persistência do sofrimento e da exploração, não deixam de denunciar os problemas que os afetavam. Por Michel Goulart da Silva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Michel Goulart da Silva</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Embora mais conhecida como um dos principais nomes do <em>heavy metal</em>, a banda Black Sabbath também se mostrou atenta a temas políticos e sociais de sua época. Criada no contexto da Guerra do Vietnã, os membros da banda, ainda jovens, viram sua geração sendo impactada pelos horrores que o circundavam. O processo de transformações econômicas, políticas e sociais parece ter sido um importante elemento que afetou sua percepção do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os jovens de sua geração viviam os impactos da libertação sexual e se embrenhavam na contracultura, mas também viam amigos e parentes sendo arrastados para a guerra ou, no caso dos que ficavam, ao mundo da pobreza e do desemprego. Os quatro jovens que criaram Black Sabbath pareceriam encarar esse cenário em sua cidade. Birmingham, na Inglaterra, onde a banda foi criada, era “<em>uma pequena e decadente cidade industrial, sobrevivendo à época em que a Europa já não se orgulhava dessa indústria</em>”. <strong>[</strong><strong>1]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-159264" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-223x300.webp" alt="" width="323" height="434" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-223x300.webp 223w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-312x420.webp 312w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1.webp 595w" sizes="auto, (max-width: 323px) 100vw, 323px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa realidade parece ter forjado na banda um certo desencanto. Os quatro jovens trabalhadores de Birmingham pareciam estar desacreditados dessa utopia que muito ressoava na classe média. Nos anos 1960, “<em>a celebração das drogas, dos sonhos e da imaginação procurava reduzir a pedacinhos uma realidade sufocante</em>”. <strong>[</strong><strong>2]</strong> Mas, apesar das lutas encampadas pela juventude, não se conseguia transformar essa realidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O rock expressou muito dessa percepção da realidade. Nos anos 1960, os astros do rock “<em>haviam encantado a opinião pública com flores, desfiles e promessas de mudar o mundo. Black Sabbath avançou ao fim da procissão, ainda professando a necessidade do amor, mas avisando aos errantes que não haveria volta a um ingênuo estado de graça</em>”. <strong>[</strong><strong>3]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O desencanto parece ser a base que levou à criação de uma versão mais sombria do rock, com uma guitarra que expressava acordes tensos e um baixo que amplificava essas distorções. O heavy metal pode ser entendido “<em>como um catalisador de oposição e contestação ao status quo vigente, cujo estilo de vida entra em confronto com os conceitos convencionais de legalidade e moralidade</em>”. <strong>[</strong><strong>4]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Observa-se nas letras da banda Black Sabbath não apenas imagens sombrias, como as de Lúcifer na música título do primeiro álbum, mas também do desânimo em relação à sociedade e mesmo à vida. Uma de suas músicas mais famosas, “Paranoid”, ainda que bastante agitada em sua harmonia e melodia, traz uma letra que pode ser interpretada como a descrição de um estado depressivo.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-159265" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/2-300x300.webp" alt="" width="400" height="399" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/2-300x300.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/2-70x70.webp 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/2-768x765.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/2-422x420.webp 422w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/2-640x638.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/2-681x678.webp 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/2.webp 803w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" />Contudo, ao mesmo tempo em que mostram o desencanto com a utopia, suas músicas não deixam de questionar a realidade e mesmo criticar a sociedade. Os temas políticos, embora sejam minoritários em meio à exacerbação de uma subjetividade sombria e mesmo depressiva, atravessaram a carreira da banda, em especial em seus primeiros álbuns. Um exemplo é Paranoid, de 1970.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse álbum encontra-se aquela que talvez seja a mais explícita letra política da banda, na música “War Pigs”. Sua letra, escrita sob o impacto da guerra no Vietnã, “<em>foi baseada em relatos que a própria banda ouvia enquanto tocavam em bases militares norte americanas na Alemanha, vindo de pessoas que tinham retornado da guerra, ou daqueles que tinham parentes que estavam lutando em nome dos Estados Unidos</em>”. <strong>[</strong><strong>5]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nessa música, faz-se uma crítica direta aos líderes militares e políticos, comparando-os a “bruxas em missas negras”. Essa imagem associa os generais a figuras tradicionalmente vistas como maléficas e manipuladoras, destacando a perversidade de quem comanda guerras.</p>
<p>Generais reuniram seus exércitos<br />
Assim como as bruxas durante as missas negras<br />
Mentes malignas que tramam destruição<br />
Feiticeiros que edificam a morte</p>
<p style="text-align: justify;">Denuncia-se também a manipulação que se faz para justificar as guerras.</p>
<p>No campo, os corpos queimam<br />
Enquanto a máquina de guerra continua funcionando<br />
Morte e ódio à humanidade<br />
Envenenando as mentes daqueles que sofreram lavagem cerebral</p>
<p style="text-align: justify;">Na letra de “War Pigs” denuncia-se como os poderosos iniciam guerras, mas se escondem das consequências, deixando que os pobres lutem e morram em seu lugar.</p>
<p>Políticos se escondem<br />
Eles só iniciaram a guerra<br />
Por que eles deveriam lutar?<br />
Eles deixam esse papel para os pobres, sim!</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159266 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/3-1024x785.webp" alt="" width="640" height="491" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/3-1024x785.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/3-300x230.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/3-768x589.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/3-548x420.webp 548w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/3-80x60.webp 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/3-640x491.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/3-681x522.webp 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/3.webp 1043w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Outro exemplo são duas músicas do álbum Master of Reality, de 1971. Em “Children Of The Grave” faz-se um apelo à juventude, diante das ameaças atômicas em meio à Guerra Fria.</p>
<p>Revolução em suas mentes<br />
As crianças começam a marchar<br />
Contra o mundo que têm de viver<br />
E todo ódio que está em seus corações<br />
Elas estão cansadas de serem empurradas<br />
E apenas ouvir e obedecer<br />
Elas enfrentarão o mundo até que vençam<br />
E o amor venha a fluir</p>
<p style="text-align: justify;">Procura-se mostrar como os atos de resistência do presente podem impactar nesse futuro, ainda que persista a dúvida de se conseguirão transformar a realidade.</p>
<p>As crianças do amanhã vivem<br />
Nas lágrimas que caem hoje<br />
O Sol se erguerá amanhã<br />
Trazendo a paz de alguma forma?<br />
O mundo tem que viver<br />
Na sombra do medo atômico?<br />
Elas conseguirão ganhar a batalha pela paz<br />
Ou irão desaparecer? Yeah</p>
<p style="text-align: justify;">Para que se conquista esse mudo, a música faz um chamado à ação.</p>
<p>Então crianças do mundo<br />
Ouçam o que eu digo<br />
Se vocês querem um lugar melhor para viverem<br />
Espalhem as palavras hoje<br />
Mostrem ao mundo que o amor<br />
Ainda está vivo e vocês devem ser fortes<br />
Ou vocês crianças do hoje<br />
Serão as crianças da sepultura</p>
<p style="text-align: justify;">Na música “Into the Void”, retrata-se um futuro sombrio para a humanidade, muito parecido com uma distopia. O desenvolvimento tecnológico, em suas contradições, é pensado a partir de seu impacto sobre a vida no planeta.</p>
<p>Motores de foguetes queimam o combustível muito rápido<br />
Subindo ao céu à noite, eles explodem<br />
Pelo universo, os motores gritam<br />
Esse poderia ser o fim do homem e do tempo?<br />
De volta à terra a chama da vida queima lentamente<br />
Em todos os lugares, miséria e aflição<br />
A poluição mata o ar, a terra e o mar<br />
O homem se prepara para encontrar seu destino</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159267" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/4-300x297.webp" alt="" width="400" height="396" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/4-300x297.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/4-70x70.webp 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/4-768x760.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/4-424x420.webp 424w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/4-640x634.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/4-681x674.webp 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/4.webp 808w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa exploração dos céus deixa para os sofrimentos, mas não os apaga, permanecendo entre as pessoas.</p>
<p>Motores de foguetes queimam o combustível muito rápido<br />
Subindo ao céu à noite tão vasto<br />
Metal ardente atravessando a atmosfera<br />
A terra permanece com preocupação, ódio e medo<br />
Com as batalhas cheias de ódio e enfurecidas<br />
Foguetes que voam em direção ao Sol incandescente<br />
Pelos impérios do vazio eterno<br />
Liberdade para o suicídio final</p>
<p style="text-align: justify;">Essas são alguns exemplos que mostra seu olhar sobre a realidade. Em suas músicas, Black Sabbath “<em>cantava as crianças sem pai e o absurdo do mundo</em>”. <strong>[</strong><strong>6]</strong> Em meio ao desencantamento com a utopia e a persistência do sofrimento e da exploração, não deixam de denunciar os problemas que os afetavam. São a expressão de preocupações daquela geração de jovens, que não enxergavam o futuro, diante tanto da ameaça da guerra como da pobreza deixada pela exploração capitalista.</p>
<p>&nbsp;</p>
<div class="level3">
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>CHRISTE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: ARX, Saraiva, 2010, p. 13.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> JACOBY, Russell. O fim da utopia: política e cultura na era da apatia. Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 235.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> CHRISTE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: ARX, Saraiva, 2010, p. 17.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> CERBELERA NETO, Diogo Ramos. O heavy metal sob a ótica da criminologia cultural: o cenário underground e seus aspectos criminológicos. In: Paulo Silas Filho; Matheus Belló; Gabriel Teixeira Santos. (Org.). Heavy Metal e Criminologia. Londrina: Thoth, 2020, p. 48.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5</strong><strong>] </strong>KELLES, Monique Pena. “War Pigs”: heavy metal e criminologia: um diálogo possível. In: Paulo Sillas Filho, Matheus Beló Moraes, Gabriel Teixeira Santos. (Org.). Heavy Metal e Criminologia. Londrina: Thoth, 2020, p. 160.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> CHRISTE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: ARX, Saraiva, 2010, p. 18.</p>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-159279 size-thumbnail" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1000025838-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />Ilustramos este artigo com fotografias de </em>Vo Anh Khanh<em>  (1936-2023).</em></p>
</div>
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		<title>Poemas para a solidão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 May 2026 14:10:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artes]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[a solidão por fim veio, e ela não fugiu, e a solidão se misturou, se entrelaçou, e se consolidou com sua alma. Por M.h.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por M.h.</h3>
<p>Os barulhos do vazio estridente dessa casa vazia me fazem querer correr e me esconder debaixo dos cabelos da minha mãe, mas quando eu percebo que não tem mais ninguém, que apenas me restou a mim e que de mim devo fazer casa, meu peito incha e quase explodo em desespero,</p>
<p>os cabelos dela estão pela casa e as lembranças de um dia ser amada em parágrafos curtos parecem cenários que nunca existiram.</p>
<p>o silêncio foi e sempre será a tortura dada por aqueles que um dia disseram me amar</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* </strong></p>
<p>A solidão veio quando dois rios díspares que tão perto nasceram juntos se dissiparam.<br />
a solidão a abraçou, se fincou em cada célula morta, e dançou com a chuva em formato de lágrimas que caiu, caiu e não cansou.<br />
a solidão por fim veio, e ela não fugiu, e a solidão se misturou, se entrelaçou, e se consolidou com sua alma.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* </strong></p>
<p>Eu nunca me calei no tribunal do<br />
finlandês perverso, que ameaçava tirar<br />
a minha voz.<br />
Mas eu me calei diante da monstruosidade feroz do meu Ser em me dizer não,<br />
mesmo quando isso feria minha intuição.<br />
Eu enxerguei a sabedoria da minha mente como um delírio;<br />
Eu me tornei o finlandês perverso que estridentemente ansiava comer a minha alma e fazer pó da minha existência,<br />
e quando eu percebi isso… Eu o ceifei.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* </strong></p>
<p>ela estava lá, juntando os pedaços de todas as suas vísceras jogadas e pisadas pelo chão. o sangue não escorria mais; as cicatrizes foram se tornando as coisas que ela mais apreciava em si. as lágrimas agora estavam se acumulando como sinal de sua liberdade.</p>
<p>no entanto, nada é tão belo assim.</p>
<p>aquele sentimento personificado, ele chegou tão singelo, como o sol que vem aparecendo ao amanhecer sem machucar.</p>
<p>até finalmente a abraçar, ela nem pôde suspirar de alívio — apenas sentiu tudo sendo jogado para o lado de fora novamente. transbordava sangue. tudo doía.</p>
<p>aquele sentimento personificado, agora como se estivesse pisando no solo do sol.</p>
<p>nada mudou(?)</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* </strong></p>
<p>Naquela manhã me entregaram a<br />
cabeça de uma rosa decapitada.</p>
<p>Todos estavam te rodeando, papeando em como você era jovem demais.<br />
Era estranho, eu cresci acreditando que era perfeitamente capaz de expressar<br />
os ecos da minha cabeça,<br />
mas quando eu senti sua mão gelada, eu não pude respirar,<br />
eu não consegui te olhar.</p>
<p>Às arvores do lado de fora foram as únicas que me mandaram a brisa suave. brisa que mais se parecia com um dos seus abraços medonhos,<br />
não parecia estranho? Eu percebi que nunca aprendi a me expressar…<br />
Até eu desaguar na espuma de um oceano pronto para levar minhas lágrimas, e mandar as palavras.</p>
<p style="text-align: center;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="size-thumbnail wp-image-158783 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Rothko-b-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /> A pintura em destaque é de Mark Rothko (1903 &#8211; 1970)</em></p>
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		<title>Primeiro de Maio</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/05/159235/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 May 2026 00:07:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artes]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Onde eu vim parar? Por Lucas Gomes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Lucas Gomes</h3>
<p style="text-align: justify;">Ela sentiu o coração acelerar, mas foi antes do estrondo. Foi quando o elevador começou a descer lentamente, uma gaiola apertada e barulhenta, ela nunca tinha entrado em um elevador tão antigo. A porta era uma malha de metal articulada e os cabos estavam todos à vista. Fosse outra a situação ela talvez chegasse a sentir medo de ser transportada por um mecanismo tão rústico, ainda que o hotel aparentasse ser um lugar respeitável. Enquanto descia veio o estrondo. A repressão já havia começado?</p>
<p style="text-align: justify;">Com um freio brusco o elevador a deixou no térreo. Por um momento ela desejou que a porta se abrisse sozinha, como fazem os elevadores modernos. Mas não. Ele te trouxe até aqui, você pode inclusive ver a mecânica que explica a comodidade do transporte vertical nas grandes cidades, mas quem abre a porta é você, ninguém fará isso em teu lugar. Uma pequena preguiça se apossou dela, uma que voltaria para assombrá-la uma e outra vez nos anos seguintes. Tanta iniciativa ela já havia tomado: gastou seu dinheiro suado, rompeu laços, chorou, amou pela primeira última vez, teve medo, teve esperança, pegou o ônibus sozinha ao aeroporto carregando suas malas. Até a porta do elevador ela teria que abrir com a força dos braços?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159239" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062.jpg" alt="" width="1200" height="800" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Foto_20240501_marcha-1ro-de-mayo-cgt-4-pedro-perez-227243062-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />A ausência de Rodri oprimia levemente seu peito e estimulava sua mente. Ela fantasiava que seus óculos eram como a câmera de um celular que mostraria a ele tudo o que ela estava por ver naquela nova cidade. Mas dentro do elevador ela podia apenas escutar, com enorme intriga, o som disforme de uma multidão, instrumentos de sopro, um ritmo grave e constante dos tambores, apitos distantes, e finalmente um estrondo que pareceu ter ocorrido a poucos quarteirões de distância. Abriu a porta do elevador um pouco desajeitada e esquadrinhou o pequeno saguão para interpretar os rostos dos presentes. Não havia pânico, ninguém corria para fechar as portas e janelas. O hotel estava movimentado devido ao feriado mas em aparente desconexão com o que ocorria lá fora. Ela deixou sua chave com o recepcionista, que lhe respondeu com o tom enfático mas afável dos porteños recomendando evitar a região da praça Congresso e a Avenida de Mayo. Certamente, então, é onde ela gostaria de estar. Se lançou à rua como quem mergulha no mar, pressentindo a força das correntes. Na madrugada, quando chegou ao hotel, aquela estreita rua estava deserta e iluminada com luzes alaranjadas. Agora a luz do dia mostrava melhor a sua sujeira e também uma boa quantidade de pessoas andando em ambos sentidos. Quase todos estavam caracterizados com alguma cor, alguns de branco, outros de verde, outros de azul, por meio de camisetas, coletes ou abrigos, como se fossem torcedores de alguma equipe esportiva. Elas andavam tranquilas, em pequenos grupos, sem nenhum sinal de preocupação. Um novo estrondo, forte como o anterior, fez vibrar seus tímpanos e suas tripas e ela pode conectá-lo com outros mais fracos, mais agudos que o seguiram. Eram fogos que os próprios manifestantes estavam soltando, não eram bombas da polícia.</p>
<p style="text-align: justify;">Tomou rumo em direção a esquina mais próxima, onde a rua Libertad cruzava a Bartolomé Mitre, na intersecção vislumbrou um fragmento de massas, dois quarteirões adiante, de onde o rugido vinha. As apertadas ruas do centro criavam uma sensação de labirinto por mais que os mapas garantissem o frio cálculo de um bairro quadriculado. Não era o labirintismo de caminhos sinuosos e o medo de se perder. Era a sensação de que havia uma visão superior, uma presença grande e alta que unificava toda aquela massa de gente, mas para os seres humanos a visão total estava bloqueada e só restava as perspectivas parciais das ruas finas, com os quarteirões históricos de Buenos Aires projetados sobre nossas cabeças. A passo decidido ela foi de encontro com a manifestação. Cruzou a rua Rivadavia, que naquele trecho é apenas uma rua mais, e foi forçando o passo até o limite da famosa avenida de Maio, quando viu que aquele rio de gente era caudaloso demais para ela entrar.</p>
<p style="text-align: justify;">Posicionou-se apertada entre outras pessoas para observar a manifestação, mas logo as cenas vividas na sua mente se tornaram mais fortes que as que ela absorvia pelos seus olhos. Os tempos todos de sua vida se misturaram. Presentes paralelos, memórias do passado, memórias futuras do presente, construção de memória presente projetada sobre o futuro… Aflita, protegida atrás de uma banca de jornal com sua prima e companheiras dela da escola onde trabalhava. Elas observavam a uma distância prudente os enfrentamentos entre a polícia e os manifestantes. O chão ao redor todo molhado como se o inverno de Santiago tivesse se adiantado um mês e meio. Todas cobriam suas bocas e narizes com panos para diminuir os efeitos do mar de gás lacrimogêneo lançado pelos blindados que no Chile são chamados de<em> zorrillos</em>, gambás &#8211; os que atiram jatos d&#8217;água são chamados de <em>guanacos</em>, animal semelhante à lhama e igualmente conhecido por seus poderosos cuspes. Pobres animaizinhos, merecem homenagens melhores de nossa parte. Nenhum cachorro nasce policial!, brincávamos sempre com minha prima. Cada vez que via um manifestante se aproximar dos blindados para arremessar pedras, molotovs, ou o que fosse, seu coração se apertava em uma mistura de sentimentos. Esse pode ser o Rodri, tem mais ou menos a altura dele. A matilha de vira-latas se misturava à confusão, corria atrás da figura vestida toda de preto que arremessava uma pedra e logo retornava para a distância segura onde mais manifestantes desafiavam as forças repressivas. Algumas barricadas precárias tentavam diminuir a capacidade de manobra da polícia na ampla avenida Alameda. Talvez seu principal valor era expressar uma ação mancomunada de quem mostrava valentia contra os covardes fardados. As colunas haviam saído da avenida Brasil mas nunca puderam chegar ao lugar onde ocorreria o ato combativo do Primeiro de Maio, na intersecção com a avenida Matucana.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159236" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908.jpg" alt="" width="1200" height="675" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1123407908-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Na manhã daquele primeiro de Maio ela havia acordado na casa de Rodri com a primeira luz do dia e uma pequena ressaca. Sentia um sabor estranho, mas não na boca, em algum lugar mais fundo, mais difícil de descrever com anatomia. Uma lágrima escapou de seu olho enquanto este encarava absorto a janela. Eu não sou uma vítima. Eu sou o que eu escolho ser. Ela se permitiu dissociar entre o calor que vinha do corpo de Rodri e o céu pálido que amanhecia. Voar, renascer. Odiar-se. Repetir, repetir, repetir. Fazendo o menor barulho possível ela se sentou na cama e olhou o rosto inexpressivo e inchado de Rodri enquanto dormia, a sua barba rala, o seu cabelo intensamente negro. Quantas vezes mais ela aguentaria acordar sentindo-se assim? Estúpida. Eu sou uma estúpida. Outras lágrimas cairam de seus olhos ao perceber que não podia deixar de sentir carinho por aquele com quem compartilhou a cama, com quem havia tido uma noite de bebedeira, briga e tentativa de sexo. Por que eu ainda sinto isso por este imbecil? Um imbecil que de vez em quando sabe ser doce, de vez em quando diz meu nome como se fosse um feitiço, eriçando os pelos de minha nuca, um imbecil com um abraço que visto como se fosse uma segunda pele. Esquivando a garrafa de pisco e as latas de cerveja no chão ela buscou seus pertences, suas roupas e foi embora sem despertá-lo. Queria tomar um banho e comer antes de ir à casa da prima para que fossem juntas à manifestação.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro que chamou sua atenção foi a ausência da cor vermelha. Ela sempre achou graça da fixação de alguns companheiros com aqueles rostos desenhados como fotos antigas, símbolos de outros séculos que ninguém mais conhecia. Antes de 2019 ela nunca tinha dado muita bola para tudo isso, que diferença poderia haver entre uma cor e outra? Foi só depois que ela entendeu o sentido histórico das cores vermelha e preta, que se a bandeira do Chile era um símbolo importante, que se a bandeira mapuche, a Wenufoye, tinha uma importância histórica, também o vermelho e o preto tinham seu motivo de ser. Naquela grande festa da classe trabalhadora argentina não havia bandeiras da cor vermelha. Era estranho pois não chovia e no entanto ela via no meio da multidão da avenida muitas pessoas com guarda-chuvas, das mesmas cores que predominavam nas faixas que naquele momento passavam adiante dela, o azul e o branco. Nas faixas ela reconheceu um símbolo e uma sigla que se repetia, “C.G.T.”. Conseguiu ler também “<em>La Fraternidad”</em>, um nome bonito, mas depois uma série de siglas sem detalhe que pareciam não se importar com o leitor das faixas: UPCN, UOM, UOCRA, SATSAID, SADOP. Não havia palavras de ordem, não havia mensagens políticas, não havia referência à data que estava sendo celebrada. Eram apenas siglas, estampadas em faixas sustentadas por hastes grossas nos braços de homens igualmente grossos. Uma faixa em particular chamou sua atenção: ao lado das palavras<em> Confederación General del Trabajo,</em> o desenho de um abraço. Era isso mesmo? Sim, um abraço peculiar desenhado em uma faixa sindical. Um homem alto acolhe em seu peito a cabeça de cabelos claros e trançados de uma mulher, ambos rostos escondidos pela perspectiva com que foram desenhados. Essa imagem disparou uma pequena carga elétrica nela, que então percebeu a pouca quantidade de mulheres naquela multidão. Quem eram aquelas duas pessoas de rostos escondidos? E por quê estampavam uma faixa sindical num primeiro de Maio?</p>
<p style="text-align: justify;">Para chegar até o limiar da torrente de pessoas na avenida de Mayo ela precisou forçar a passagem entre alguns grupos e outras pessoas que também observavam a manifestação no remanso das ruas transversais. A ideia de entrar no meio da avenida para participar da manifestação foi naturalmente eliminada de seus planos. Retrocedeu quinze metros até um lugar no quarteirão com mais espaço e consultou o seu celular para ver o mapa. O sinal estava saturado, era possível ver o mapa da cidade mas não sua localização. Ela teve que traçar mentalmente o plano: deveria ir até a avenida 9 de Julio, muito larga e que provavelmente permitiria a ela cruzar para o outro lado da manifestação, e de do outro lado da avenida de Mayo subir alguma das ruas até a altura da praça Congresso. Guardou o celular na pochete e caminhou de volta o pequeno trecho de rua até a Rivadavia, observando as curvas e o estilo garboso das esquinas do centro. Ao virar à direita com o corpo sua cabeça ainda admirava o chamativo edifício de três andares e grandes janelas que ornava aquela esquina, com parapeitos na terraça que lembravam uma torre medieval. Achou engraçado como o estilo dessas esquinas lembrava um pouco os edifícios históricos pomposos do centro de Santiago, mas em uma escala pequenina, despretensiosa, como se estivessem conscientes de estar escondidos naquelas ruelas apertadas. Teve vontade de parar para observar com mais tempo os detalhes e cada elemento daquelas fachadas. Haveria oportunidade para isso nos próximos dias, semanas, meses. Anos?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159238" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571.jpg" alt="" width="800" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571.jpg 800w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/1-de-mayo-de-1909-2459837571-681x511.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" />Das sombras da pequena Rivadavia ela viu se desabrochar lentamente a avenida 9 de Julio, com todo o céu que ela ainda não tinha conseguido ver, suas árvores frondosas e a linha de edifícios baixos do outro lado. Pela primeira vez avistou carros da polícia, mas nenhum blindado, nenhum cordão policial com escudos, nenhuma tensão no ar. Naquele momento ela se sentiu uma turista e não soube concluir se isso era algo bom ou algo ruim. Para não dar muita pinta ela decidiu seguir andando como se soubesse o que estava fazendo. Em direção à avenida de Mayo ela foi se unindo a um volume cada vez maior de pessoas e então pode ver muito melhor as grandes colunas coloridas de manifestantes, um carnaval barulhento, que ela conseguiria atravessar devido às proporções enormes da avenida central. No cruzamento entre a avenida 9 de Julio e a avenida de Mayo não existem árvores e é possível ver os edifícios ao longo de muitos quarteirões. Enquanto observava algumas das grandes faixas de uma coluna toda verde, na qual os integrantes usavam coletes que diziam <em>Camioneros</em>, ela divisou num prédio que parecia estar sobre as pistas da avenida, alguns quarteirões mais adiante, o rosto daquela mulher do abraço! A loira sindicalista! Nessa imagem, espécie de gigantografia estampada num alto edifício, a loira parecia falar com um microfone antigo, o seu penteado arrumado em um coque ou trançado sobre a nuca, seu rosto portando uma expressão severa. Ela não entendia se a mulher cantava ou se dava um discurso, que talvez fosse então transmitido pela antena da torre bem alta que havia na terraça do mesmo edifício. Para observar melhor essa cena ela subiu na borda de uma fonte que estava seca, ali naquela intersecção das avenidas, no boulevard entre a pista principal e a pista local da 9 de Julio. Após alguns poucos segundos observando intrigada a loira sindicalista estampada no prédio, uma nuvem grossa de fumaça invadiu os seus olhos e o cheiro de gordura queimada penetrou profundamente em seu nariz, quase derrubando-a da fonte. Não era o gás lacrimogêneo que ela respirou em Santiago, era um dos vários postos de churrasco de rua vendendo comida para os manifestantes. Sua curiosidade era mais forte que sua recusa moral à carne, então procedeu a estudar mais de perto a famosa culinária argentina. Se aproximou lateralmente, misturando-se com os clientes, e viu as grelhas sobre as bacias cheias de carvão em seu interior, montadas como mesas onde a carne era cozinhada e aguardava os compradores. Havia o setor de <em>patis</em>, hambúrgueres finos que eram acompanhados com cebola e às vezes com um ovo frito; os <em>choris</em>, linguiças alinhadas em pequenas filas, derrubando as gotas de gordura que faziam as brasas assobiar uma música de luxúria e êxtase; e por fim os bifes de <em>bondiola</em>, o corte mais gorduroso e macio da carne de porco. Os <em>patis </em>e <em>choris</em> já cozinhados eram amontoados na parte menos quente da grelha – que aparentava ser um pedaço qualquer de grade metálica improvisada – e eram servidos, assim como a <em>bondiola</em>, na forma de um sanduíche, abraçados por um pão. Os comensais, depois de receber em mãos sua porção, se deslocavam alguns passos mais à direita para a mesa de molhos, podendo arriscar-se com as grandes bisnagas de ketchup, mostarda e maionese, ou então com o <em>chimichurri</em> ou com uma variedade local de vinagrete. Depois de analisar a cadeia produtiva ela passou a observar a perícia do churrasqueiro daquele posto. Era um homem avultado de pele escura, mais escura que a média naquela manifestação, tinha um bigode branco bem ralo assim como alguns poucos cabelos brancos ao redor da careca. Vestia uma camiseta branca, já bastante suja àquela altura, com letras verdes que diziam <em>Sindicato de Camioneros</em>, acompanhadas de um desenho das fronteiras da Argentina na mesma cor. As letras e o desenho se deformavam pela circunferência de sua barriga. De cima de seus olhos parecia derramar, junto com o suor, uma tensão que aparentava ser permanente em seu rosto enquanto manipulava a comida: quebrava um ovo na pequena chapa, dava voltas aos <em>patis</em>, pedia ao seu ajudante que buscasse mais <em>choris</em>, mexia na cebola que se caramelizava lentamente com a temperatura, escolhia um pedaço de <em>bondiola</em> e o envolvia com pão. Em uma de suas mãos sujas havia uma pequena faca com a qual cortava o pão, os <em>choris </em>preparados em sua versão “borboleta” (a linguiça cortada na metade horizontalmente), também os pedaços de <em>bondiola</em> e o que mais precisasse ser cortado: plásticos, papéis, algum engraçadinho que se recusasse a pagar.</p>
<p style="text-align: justify;">Com ímpeto ela atravessou a manifestação aproveitando o espaço aberto entre duas colunas: FATCA, toda de verde, avançava já em direção à praça do Congresso, enquanto UOYEP, em azul, ainda aguardava sobre o cruzamento carregando uma enorme faixa que dizia “<em>Amor y Lealtad. Alberto Murua conducción</em>”, e ao lado o rosto de um senhor careca usando óculos. Ímpeto e pressa, antes que o mar se fechasse novamente sobre ela, arrastando-a para o turbilhão inexplicável de afeto pelo sr. Murua. Ela poderia virar em qualquer paralela da avenida de Mayo, mas decidiu estender a caminhada até o prédio da loira sindicalista para aproveitar o dia de céu azul. Olhou no celular e viu que poderia tomar a avenida Belgrano até a avenida Entre Rios, que passava em frente ao Congresso. Afastada da concentração, do golpe ininterrupto dos bombos carregados por homens de torso nu, dos estrondos pirotécnicos, se sentiu mais relaxada e segura. Caminhava pela pista local da avenida 9 de Julio junto a alguns pequenos grupos, como na frente do seu hotel. Não era apenas a ausência da cor vermelha. Até na manifestação pelega da CUT o vermelho era a cor predominante. Bem, os argentinos não tem a cor vermelha em sua bandeira, isso pode ser um fator. Mas não havia nenhum sinal de símbolos comunistas, ela não pode ver nenhuma referência a partidos políticos, movimentos sociais, as colunas se pareciam mais a torcidas organizadas, com uma forte presença de homens parrudos e mal encarados, alguns deles saltando com vigor ao som dos instrumentos de seu sindicato. Uma repressão policial seria fortemente resistida por gente assim. Será por isso que a polícia aqui parece estar tão distante e tranquila? Mas se são tantos e estão tão organizados, por quê não tomam o poder? Ela passou por um pequeno grupo de homens vestindo os coletes verdes dos <em>Camioneros</em> que compartilhavam garrafas de cerveja parados ao lado de um banco do boulevard. Um deles segurava algo no centro da roda, ela logo entendeu que eram carreiras de pó sobre uma pequena tábua e viu como um a um foram compartilhando também das carreiras. Algumas coisas não são tão diferentes entre nossos países, apesar da vulgaridade excessiva desta cena, pensou ela. Rodri voltou à sua mente. Ele não era um operário rude e corpulento como esses sujeitos que hoje tomavam as ruas do centro de Buenos Aires. Ele é um rapaz franzino que muda de trabalho com frequência, nunca pisou em uma fábrica. Ele… nós, nós não saíamos às ruas para festejar e demonstrar esse excesso de disposição. Menos ainda os pelegos do sindicalismo oficial. Não vamos às ruas para expor essa despreocupação grosseira. Não, essa nós guardamos para os momentos íntimos, quando pensamos que ninguém nos olha. Na marcha somos combatentes, os alcoólatras que cheiram pó são quem chega em casa de noite, dois personagens diferentes em um mesmo corpo. Eu já chorei demais. Não importa se aqui as pessoas cheiram pó na rua, não importa agora quem são os pelegos, não importa a cor das bandeiras no primeiro de Maio. Importa conseguir se matricular na faculdade, conseguir equivalências dos anos que já estudei em Santiago, importa começar a buscar trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">O edifício do antigo Ministério de Obras Públicas, onde habita a loira, é de um estilo extremamente sóbrio: um volume pesado aferrado ao chão por seu enorme rodapé feito de placas de pedras adestradas para vestir as arestas e também as curvas das esquinas. Sua entrada está escondida, de costas à avenida 9 de Julio, onde foram instaladas escadas externas que provavelmente remediaram a falta desse elemento de segurança no projeto original. O rosto dela está formado por uma grande estrutura metálica apoiada na parte mais alta da face norte do prédio, cobrindo algumas das janelas dos últimos andares. Como a maior parte da estrutura é vazada, pois a figura foi realizada com linhas sutis, o efeito não é pesado e de longe é possível pensar que se trata de linhas pintadas sobre a fachada. Ela seguiu até a avenida Belgrano e antes de virar a esquina quis olhar uma última vez o edifício. Para sua surpresa, do lado oposto, na face sul, havia uma outra imagem da loira sindicalista. Desta vez mais tranquila, com um discreto sorriso no rosto, o coque que parecia ser uma marca pessoal e uma flor adornando sua roupa. Era notável a intenção de manter viva aquela imagem antiga na mente dos argentinos. Novamente ela se lembrou da fileira de rostos estampados nas bandeiras de alguns partidos comunistas. Quando será que começou essa moda de fazer propaganda política com rostos de pessoas? O que há de tão imortal num rosto, em uma forma, que as ideias não são suficientes para transmitir?</p>
<p style="text-align: justify;">Pela avenida Belgrano fluíam outras torrentes da sopa de letras. Esse trecho também estava fechado para o trânsito de carros, estava repleta de ônibus estacionados. Pelo asfalto algumas colunas subiam com ela em direção ao Congresso. FATUN, FATQYP, UPFPARA, FOECYT. SOMRA, SUTERH, AGOEC, SUTECBA, UTEDYC, UTICRA. A caminhada pela avenida estava muito agradável, sem o aperto que ela viu na avenida de Mayo mas com o som de algumas bandas sindicais à distância, uma maior quantidade de pessoas que não pareciam estar fantasiadas para um jogo de futebol. Ali haviam árvores nas calçadas, a parede de edifícios contíguos repleta de varandas, dando a ela uma sensação de proximidade e diálogo entre a vida das pessoas e as ruas. Sua vontade era conseguir bisbilhotar por alguma daquelas janelas para entender como vive uma pessoa naquela cidade, como é a sala, como é o quarto de uma argentina em Buenos Aires, com quantas pessoas vivem, que tipo de quadros penduram em suas paredes, que comidas cozinham em seus fogões. Alguns quarteirões adiante ela sentiu que já não havia tanta gente, então decidiu voltar para as imediações da avenida de Mayo virando na rua San José. Novamente ela se encontrava no ambiente sombreado e estreito das ruas do centro, onde já não era possível observar tranquilamente as fachadas dos edifícios que agora se erguiam vertiginosamente de ambos lados. Apenas nas esquinas, com a abertura dos ângulos e o descanso transversal da parede de edifícios daqueles quarteirões todos contíguos e apertados, nas esquinas era possível admirar as curvas, os adornos de serralheria nos parapeitos e portões. Na medida em que se aproximava da avenida de Mayo o ruído da multidão crescia, as explosões se tornavam mais frequentes, o ritmo grave dos bombos sendo surrados retumbava. Uma vez mais seu coração se acelerou desmedido. Já conseguia ver aquele fragmento de dez ou quinze metros de manifestação no enquadramento das esquinas da rua San José com a avenida: as bandeiras e faixas sobre a multidão, um grupo de pessoas observando na borda da intersecção. Mas sua visão se nublou por uma fração de segundo. Um novo estrondo grave e profundo inconscientemente a fez buscar alguma parede, para isso foi preciso desviar de algumas pessoas até encontrar um pequeno recuo da entrada de um dos prédios. Seu coração palpitava, a respiração era rápida, descontrolada. O cheiro de gordura queimada entrava novamente em seu nariz e era como se lhe tapasse o ar, como se a intoxicasse. Lembrou-se de que não havia comido nada desde que se levantou, ansiosa para ver o primeiro de Maio argentino. Aos poucos foi deixando de escutar, grandes manchas brancas apareceram em sua visão e ela precisou apoiar-se na parede. Sem que ela tivesse notado antes, uma grande coluna se dirigia à avenida vindo atrás dela pela mesma rua, toda de verde com as grande letras ATE em suas bandeiras, empurrando e espremendo quem estivesse em seu caminho, e foi então que ela foi ao chão.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159237" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540.jpg" alt="" width="987" height="555" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540.jpg 987w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/dia-del-trabajador-1166568-1540200540-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 987px) 100vw, 987px" />Sic vos, non vobis mellificatis apes</em>. <em>Apes</em>, abelhas. <em>Mellificatis</em>, segunda do plural. Vocês produzem mel, mas não para vocês mesmas,<em> vobis</em>, dativo. Elas são como a classe trabalhadora, não é mesmo? Isso é Virgílio, acho. Já começaram as aulas? Aos poucos sua visão periférica foi retornando, uma rajada de explosões agudas despertou sua audição. Menina, ei, menina, você me escuta? Está acordada? Ela percebe que está deitada no chão. Duas mulheres a estão olhando de cima, agachadas uma de cada lado seu. Sente um pouco de água caindo sobre sua testa e descendo em meio ao seu cabelo. Você vai ficar bem, companheira, não se preocupe. Você veio sozinha? Uma delas é morena, de pele escura e rosto já marcado pela idade, está usando um colete azul. A outra tem o cabelo pintado de loiro, tem um aspecto mais jovial, está usando um colete e um boné verdes. Do lado de fora ela escuta mais forte do que nunca o ruído dos manifestantes, a poucos metros de distância, mas ela está em um lugar amplo. Sente o chão frio e vê sobre as duas mulheres abóbadas altas, com arcos e ornamentos de alvenaria em relevo, e também uma frase em latim escrita no teto abobadado? Sim, ali estava em letras grandes. Suas pernas estão erguidas por uma terceira mulher, que veste uma camiseta com o rosto… da loira sindicalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Onde eu vim parar?</p>
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		<title>Black Alien: poesia de aço</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 May 2026 21:02:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
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					<description><![CDATA[Black Alien não resolve as contradições que o atravessam, ele as organiza e é nessa organização que reside sua força. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">“É só tubarão, tarântula, piranha, vagabundo e filho da puta.”</p>
<p style="text-align: justify;">A história de Black Alien não se explica pela queda, mas pela criação. Como historiador, não compartilho de qualquer perspectiva que suprima o sujeito do seu tempo; ainda assim, é impossível ignorar que Black parece operar alguns passos à frente, inaugurando linguagem, abrindo circuitos, tensionando formas e produzindo obra enquanto o país ainda não possuía o vocabulário para nomeá-la. Falar dele é falar de formação estética, de redes culturais, laboratórios musicais, atravessamentos entre mundos sociais e simbólicos e só depois, muito depois, tocar nas fraturas pessoais que o Brasil insiste em eleger como narrativa principal. Sua trajetória não cabe na moldura estreita da ruína nem na fantasia moral da superação: ela exige leitura de autor, não de paciente; leitura de obra, não de escândalo.</p>
<p style="text-align: justify;">A abordagem da trajetória de Black Alien exige precisão teórica para que não caiamos na armadilha historiográfica que transforma o artista em epifenômeno da própria ruína, anulando sua potência criativa para reduzi-lo à figura-tipo do “gênio autodestrutivo”, um arquétipo que, além de pobre, é racialmente marcado e amplamente mobilizado pela cultura brasileira para administrar a memória de artistas negros. O fenômeno contemporâneo onde mídias e formadores de opinião exaltam as desgraças de artistas como entretenimento é perceptível, sobretudo em tempos de plataformas virtuais, resultado do espetáculo como única via para explicar o mundo e as coisas. O vício, por maior que tenha tido impacto concreto na vida de Black Alien, não pode ocupar o centro interpretativo, sob pena de reproduzir um enquadramento moralizante que naturaliza o sofrimento como essência e a queda como destino. Ele deve ser entendido como expressão de um conjunto de determinações sociais como a precariedade estrutural da indústria cultural brasileira que consome artistas até o esgotamento, a ausência de cuidado ou amparo sistemático nas redes de produção musical, a intensa pressão performativa que recai sobre corpos racializados e a própria lógica do capitalismo tardio que, como vários autores analisam, captura subjetividades até o limite da exaustão psíquica. Desse modo, a droga não explica a obra, mas a obra, em sua densidade formal, histórica e estética, revela muito sobre as tensões que atravessam o sujeito que a produz.</p>
<p style="text-align: justify;">A criação de Black Alien é anterior e maior do que qualquer fratura; é fruto de um repertório vasto, de uma sensibilidade aguçada, de uma inteligência literária rara, de um trânsito social complexo, de encontros artísticos (como o laboratório estético com SpeedFreaks e a experiência no Planet Hemp) e de uma relação singular com a linguagem, que o coloca anos à frente de seus pares. Se a dependência aparece no percurso, ela deve ser tratada como elemento material de uma formação social contraditória, nunca como chave interpretativa do artista. O centro analítico é e deve ser a criação, o modo como Black Alien organiza o verbo, reinventa a métrica, expande o imaginário do rap brasileiro, estrutura uma poética de tensão permanente, e produz obra enquanto o país ainda aprendia a nomear aquilo que ele já havia criado.</p>
<p style="text-align: justify;">A insistência em reduzir artistas como Black Alien ao drama biográfico denuncia não apenas pobreza analítica, mas uma operação histórica mais profunda que envolve a tendência da indústria cultural (especialmente no Brasil) de transformar corpos negros em narrativas consumíveis, retirando deles a complexidade formal, o pensamento estético e a historicidade concreta que deveriam ser o centro de qualquer análise séria. Adorno já sugeria que, no capitalismo tardio, o sofrimento individual é rapidamente recodificado como mercadoria emocional, e isso se intensifica quando o artista provém das margens, pois o sistema cultural encontra aí terreno fértil para produzir mitos que se alimentam de ruína. Essa lógica é tão eficaz que, quando alguém como Black Alien surge com uma obra monumental, intricada, radicalmente inventiva, a crítica apressada corre para enquadrá-lo na matriz da “tragédia pessoal”, como se fosse mais fácil lidar com a sua dor do que com a sua inteligência. A dificuldade de nomear sua contribuição estética mostra um déficit histórico do próprio campo cultural brasileiro, que raramente reconhece artistas negros como produtores de forma e não apenas de testemunho.</p>
<p style="text-align: justify;">A obra de Black Alien, entretanto, exige um tipo de leitura que escapa a esse esquema; sua escrita depende de escolhas formais meticulosas, da combinação entre humor corrosivo e metáfora espiritual, do uso virtuoso de síncopes internas, da articulação entre referências eruditas e cultura pop, da velocidade mental que reorganiza imagens múltiplas em ciclos rítmicos próprios. Esse trabalho de linguagem (e não qualquer peripécia biográfica) é o que funda sua singularidade. O artista não pode ser reduzido à condição de “sobrevivente”, porque a sobrevivência, no seu caso, é consequência de uma obra que o excede: é a criação que molda o sujeito, e não apenas o sujeito que sofre para criar. Analisar Black Alien a partir da forma é tirar o foco da intriga para a inteligência, do escândalo para o rigor, da queda para o gesto de invenção; é recusar o exotismo da ruína e recolocar sua obra no lugar que ela ocupa, ou seja, o da construção estética de alta densidade num país que raramente reconhece a grandeza de seus próprios criadores. A singularidade estética de Black Alien advém do seu lugar num trânsito social complexo, que o expõe simultaneamente a mundos distintos e que, longe de fragmentá-lo, amplia seu horizonte expressivo. A formação escolar em espaços de classe média alta de Niterói, o contato precoce com idiomas estrangeiros, as viagens à Europa ainda na adolescência, o ambiente doméstico atravessado por referências culturais díspares, tudo isso se combina com a sociabilidade de São Gonçalo, a rua como espaço de observação aguda, o skate como pedagogia do risco, a noite da Lapa como laboratório sensível, e, sobretudo, a relação estética com SpeedFreaks como experiência de criação compartilhada. Esse trânsito contínuo entre esferas sociais e simbólicas, ora protegido, ora vulnerável; ora incluído, ora expulso, produz um tipo de inteligência que é tensionada. Black Alien pensa entre fronteiras e essa condição liminar é importante para a sua linguagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua lírica não se encaixa na rigidez do rap dos anos 1990, nem na assepsia emocional do rap dos anos 2010; ela nasce do cruzamento das duas margens, carregando simultaneamente erudição e precariedade, lucidez e vertigem, humor refinado e crítica amarga. A mistura de inglês e português é expressão natural de alguém que cresceu em ambientes multilíngues e multiculturais. As referências a Saturno, Babel, Jah, anéis planetários, zoológico urbano, boxe, Estado, anjos, Cinta-Larga, indústria, formam fragmentos de mundos distintos que ele consegue organizar dentro de um mesmo campo poético. Black Alien opera como um poliglota simbólico que traduz, deforma e reconstrói códigos de universos sociais que normalmente não dialogam entre si. É por isso que sua obra tem a marca do excesso organizado, a densidade imagética que ele produz só é possível porque sua formação não obedece às hierarquias tradicionais da cultura brasileira, que ainda separam rigidamente o “culto” e o “popular”. Ele transita entre esses polos com naturalidade, e sua potência estética reside justamente nessa capacidade de converter deslocamento social em forma artística.</p>
<p style="text-align: justify;">A posição de Black Alien na história da música brasileira, portanto, não é periférica nem marginal, mas axial no sentido mais rigoroso do termo. Sua obra atua como um eixo de reorganização da linguagem; depois dele, o rap brasileiro já não funciona do mesmo modo, pois ele não apenas acrescenta temas ou amplia repertórios, mas tensiona a forma, a métrica, a sintaxe, a velocidade do verso, o regime de imagens inaugurando uma língua que antes não existia. Ao produzir essa inflexão, ele cria um antes e um depois no campo do rap, abrindo um novo horizonte de possibilidades estéticas e expandindo os limites da literatura oral urbana no Brasil contemporâneo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Black Alien &amp; SpeedFreaks</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A história de Black Alien não existe sem SpeedFreaks, da mesma forma que a história de SpeedFreaks não existe sem Black Alien. Não se trata de complementaridade romântica nem daquela noção batida de “parceria criativa”. A relação entre os dois tem densidade histórica, é um fenômeno estético produzido por condições sociais, técnicas e culturais específicas de Niterói e São Gonçalo nos anos 1990. É ali que surge uma das duplas mais inventivas da música brasileira, uma dupla que não imitava nada e não seguia ninguém, porque operava num campo onde tradição, forma e regra praticamente não existiam. Eles se inventaram “sozinhos”. Criaram linguagem porque não possuíam uma pronta. Descobriram caminhos porque não tinham mapa. É isso que torna Black &amp; Speed tão raros: não são “bíblias” de um estilo, mas os criadores do terreno onde outros estilos seriam possíveis.</p>
<p style="text-align: justify;">As origens sociais dos dois ajudam a entender essa explosão. Enquanto Black Alien transitava entre colégios de classe média alta e a vida concreta de São Gonçalo, Speed crescia numa Niterói que ainda pulsava com restos da contracultura, do rock experimental, do pós-punk e de uma sociabilidade de guetos artísticos que nunca tiveram grande visibilidade pública. Cada um trazia de si uma fratura, uma incompletude e é justamente esse material estilhaçado que produz invenção. A formação híbrida de Black Alien encontra na sensibilidade melancólica de Speed um eixo inesperado: o primeiro opera pela aceleração, pela inteligência técnica e humor corrosivo; o segundo pelo desvio, pela paranoia poética e lentidão febril e os dois juntos criam uma forma. Do ponto de vista materialista, o encontro deles se explica por condições concretas, de uma cena alternativa de Niterói e São Gonçalo, as fitas independentes, os primeiros home studios, o acesso parcial a equipamentos, a falta de indústria estruturada e o fluxo cultural intenso que atravessava a juventude nos anos 90, sendo esse amálgama um processo fundamental para essa formatação. A ausência de um mercado organizado permitia uma liberdade estética que seria impossível anos depois. O rap ainda não tinha passado por profissionalização, a internet era pressentimento, não ferramenta, e as gravadoras deixavam buracos por onde entravam experimentações. Foi nesse vácuo que a dupla prosperou, sem supervisão, sem direção artística, regulação externa. Eles puderam errar, testar, ousar e, sobretudo, inventar.</p>
<p style="text-align: justify;">A pesquisa de Rafael Porto sobre a vida de Speed ilumina o processo. Speed guardava tudo desde beats, fonogramas, projetos inacabados, rascunhos, trechos soltos. Guardava como quem vive numa relação quase carnal com o estúdio. Rafael encontrou isso tudo num HD entregue pela família, arquivos brutos sem polimento, pedaços de obra dispersa que revelam como Speed trabalhava a linguagem sonora como quem trabalha madeira ou metal. Ele experimentava, repetia, criava sobre erros, derretia e reconstruía suas próprias bases. Essa atitude experimental (profundamente moderna) é o motor da parceria com Black Alien. Não é que Speed produzisse para Black cantar; é que ambos trabalhavam como dois artesãos tentando resolver o mesmo problema de como fazer caber múltiplos mundos dentro de um verso. O processo criativo deles não tinha ordem natural. Nunca funcionou como divisão de tarefas (“eu produzo, você rima”). Era um fluxo contínuo de obsessão. Eles passavam horas ouvindo, regravando, testando velocidades, invertendo trechos, mudando a ordem interna das sílabas. Se há algo que define essa dupla é justamente a ausência de estabilidade e é dessa instabilidade que surge a força estética deles. O rap brasileiro, naqueles anos, ainda trabalhava com estruturas fixas; a dupla interferia nessas estruturas como quem joga água fervendo sobre o gelo. A métrica que eles criam (e que Black levará ao limite em <em>Babylon By Gus &#8211; Vol. I</em>), nasce da experimentação material, da hora, do estúdio, da sujeira, do improviso, da respiração acelerada do Speed e da inteligência ágil do Black.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159228 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/20150903173854124691e-1030800423.jpg" alt="" width="615" height="615" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/20150903173854124691e-1030800423.jpg 615w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/20150903173854124691e-1030800423-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/20150903173854124691e-1030800423-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/20150903173854124691e-1030800423-420x420.jpg 420w" sizes="auto, (max-width: 615px) 100vw, 615px" />Quando se ouve “Jah Jah Overall”, “Guerrilha Verbal” ou qualquer outro registro da dupla, percebe-se que ali já existe uma forma distinta de organizar o som. E isso não é fenômeno técnico apenas, mas social. Black (com sua formação híbrida, bilíngue, leitor voraz) puxa a linguagem para fora do rap; Speed (com seu imaginário melancólico, paranoico e altamente sensível) puxa o rap para um lugar de delírio poético. O choque entre esses polos produz uma lírica que ultrapassa a fronteira do gênero. Eles não são “um grupo de rap”, estando mais próximos de um experimento de linguagem. Aqui cabe, sim, uma menção lateral a Anselm Jappe, não no diagnóstico apocalíptico do “fim da arte”, que pode soar abstrato demais para o nosso caso, mas na ideia central de Jappe de que o capitalismo contemporâneo drena a energia vital da forma artística. Black &amp; Speed surgem justamente num momento anterior a esse esvaziamento brutal. Eles criam antes que o mercado imponha a forma, antes que o rap brasileiro se converta em produto esportivo e motivacional e antes que o algoritmo colonize a música. Ou seja, eles criam num tempo em que a invenção estética ainda não havia sido algemada pelo valor. Nesse sentido, a dupla é exemplar, pois não são manifestação tardia de uma forma decadente, mas expressão precoce de uma forma insurgente.</p>
<p style="text-align: justify;">O álbum Na Face, gravado mas nunca lançado oficialmente, é o ápice desse laboratório. A lista de participações (Herbert Vianna, Igor Cavalera, Otto, Chorão), revela que o disco era reconhecido como obra relevante dentro de comunidades musicais distintas. Mas ele se perde num vazio institucional: gravado sem estrutura, ensaiado sob pressão, circulou como fantasma em MP3, como mito entre DJs e colecionadores. Hoje, parece evidente que se trata de um dos discos “perdidos” mais importantes da música brasileira. Mas a clandestinidade tem consequência histórica: enquanto a dupla inventava linguagem, a indústria fazia de tudo para não vê-la. Isso reforça um ponto materialista essencial: a obra não desaparece porque é fraca — desaparece porque não cabe no sistema de produção artística da época.</p>
<p style="text-align: justify;">Black Alien leva consigo, para o Planet Hemp e mais tarde para seu trabalho solo, tudo aquilo que aprendeu com Speed como a velocidade interna, a rima em espiral, o verso que muda de direção no meio do caminho, o humor como arma, a crítica como narrativa. Speed, por sua vez, absorve de Black a noção de rigor, o controle rítmico, a estrutura interna do verso, a tensão entre velocidade e pausa. Essa troca produz dois artistas que se modificam reciprocamente ao ponto de, em certos momentos, escreverem como se estivessem dentro da mente um do outro. Por isso, quando Black Alien grava <em>Babylon By Gus &#8211; Vol. I</em>, em 2003-2004, o disco carrega espectros do Speed em cada decisão formal como a síncope interna, a expansão imagética, o humor sombrio, as metáforas delirantes, o cruzamento de referências, a crítica ao mundo, a paranoia produtiva, as camadas sobrepostas de mundo. <em>O Ano do Macaco</em> é, nesse sentido, também uma obra da dupla, ainda que só um deles esteja no estúdio. O processo inventado por Black &amp; Speed permanece ali, como memória sonora daquilo que um laboratório criativo pode gerar quando não é atravessado por censura estética nem pela violência silenciosa do mercado. A dupla Black Alien &amp; Speed, portanto, não é um capítulo lateral da música brasileira, mas o eixo subterrâneo que reorganiza possibilidades formais, históricas e poéticas do rap.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Black Alien e o Planet Hemp</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A relação de Black Alien com o Planet Hemp é outro ponto nodal. Sua entrada reorganiza o grupo por dentro e contribui para alterar, por fora, o curso do rap brasileiro. Quando Black Alien passa a integrar o Planet Hemp, em 1996, a banda já não é apenas um experimento de rap-rock, mas um fato político em consolidação. Vive cercada pela polícia, monitorada pelo Judiciário, demonizada pela grande imprensa, celebrada por amplos setores da juventude urbana e observada com desconfiança pelos segmentos progressistas “respeitáveis” que, em plena onda de neoliberalização do país, preferiam artistas dóceis a coletivos insurgentes. O Planet Hemp carregava o estigma da “apologia” num contexto em que qualquer dissidência cultural era tratada como ameaça moral. Isso significa que o grupo não operava apenas no campo musical, situando-se no centro de uma disputa política aberta.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse ambiente que Black Alien entra. Ela se dá por convite interno, reconhecimento estético e necessidade. O Planet precisava de alguém capaz de sustentar a velocidade das bases, de atualizar a retórica de enfrentamento e de reorganizar a energia do palco. Black, então com pouco mais de vinte anos, surge exatamente como esse corpo capaz de ocupar a zona de fogo cruzado entre música, polícia e política. A função dele não é substituir ninguém, mas reatualizar o grupo, deslocar seu centro de gravidade e permitir que a banda continuasse respirando. Com sua dicção veloz, arsenal de referências, precisão técnica e ironia aguda, ele reposiciona o Planet dentro do campo da música contestatória brasileira. Mas para entender o peso dessa entrada, é preciso reconstruir o contexto histórico.</p>
<p style="text-align: justify;">O Brasil de meados dos anos 1990 é governado por Fernando Henrique Cardoso, período marcado pela conversão agressiva ao neoliberalismo, privatizações, desmonte de políticas sociais, avanço das igrejas neopentecostais e ascensão de um tipo de moralismo urbano que demoniza juventudes periféricas e expressões culturais tidas como “de risco”. O rap ainda não é mercadoria consolidada; é visto como algo hostil ao Estado e inconveniente ao mercado. Ao mesmo tempo, o genocídio da juventude negra se intensifica, a violência policial é legitimada como “ordem” e a guerra às drogas cria um clima de perseguição aos corpos racializados. Nesse cenário, o Planet Hemp funciona como ruptura, como ponto de destruição da normalidade moral. Eles afrontam a PM, falam abertamente de maconha, ocupam espaços de mídia mainstream levando a desobediência civil como palavra de ordem. E justamente por isso, a entrada de Black Alien tem um significado político profundo que intensifica a dimensão estética da dissidência. O Planet já era guerra simbólica; com Black, torna-se guerra estética. A letra que Black Alien estreia com força no segundo disco do Planet Hemp (Zerovinteum) é um documento histórico de primeira ordem porque condensa, numa única operação formal, as principais contradições sociais do Brasil urbano dos anos 1990. O racismo estrutural, a violência contra a juventude negra, a criminalização da pobreza e a lógica repressiva do Estado aparecem como forças que organizam a própria linguagem. Black expõe a função real da polícia numa sociedade de classes racializada. A segurança pública aparece como gestão violenta da pobreza, como mecanismo de controle social que protege a circulação da mercadoria e do turismo ao custo da eliminação física de corpos considerados descartáveis. Essa constatação, inserida numa letra que já rompe com a linearidade e com a expectativa narrativa do rap tradicional, ganha densidade histórica porque não é apresentada como exceção ou desvio, mas como normalidade funcional da ordem urbana capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">A força crítica da letra reside justamente no modo como essa violência não é separada da forma estética. O racismo atravessa a própria estrutura da linguagem, quando o sujeito se apresenta como “elemento”, antecipando a leitura policial do corpo negro como ameaça. Trata-se de um gesto profundamente materialista: a identidade não é afirmada, mas desmontada, revelando como o Estado já inscreveu o indivíduo numa gramática repressiva antes mesmo de qualquer ato. Ao se nomear segundo a lógica do prontuário, Black expõe o processo de alienação que transforma sujeitos em categorias administrativas, em alvos legítimos da violência institucional. A linguagem do controle é apropriada e devolvida como crítica, evidenciando que o problema não é o “desvio” juvenil, mas o modo como a sociedade organiza juridicamente a morte. Essa operação formal se articula com a crítica à cidade como espetáculo. A letra contrapõe a imagem da cidade que “brilha” à realidade do arrastão, da execução sumária, da juventude caçada. O Rio turístico, vitrine do capital, só se sustenta porque existe um outro Rio, onde a polícia atua como força de contenção racial e de classe. A violência, portanto, é método. Essa leitura está plenamente alinhada com uma análise marxista da cidade, na qual o espaço urbano é organizado para garantir a reprodução do capital, mesmo que isso implique a produção sistemática da morte. O rap, nesse contexto, deixa de ser apenas voz da periferia e se torna forma de conhecimento social, capaz de revelar aquilo que a ideologia urbana tenta ocultar.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a letra recusa qualquer pedagogia da vítima, sem sentimentalismo, nem pedido de reconhecimento. O tom é seco, irônico. Isso é central: a recusa da comoção é também recusa da captura ideológica. A juventude negra assassinada aparece como prova de um sistema que funciona exatamente assim. Ao integrar essa constatação numa linguagem fragmentada, agressiva e de difícil assimilação, Black impede que o conteúdo seja consumido como denúncia domesticada. A forma impede o consumo fácil da indignação. É aí que a guerra estética se revela mais perigosa do que a simbólica, pois não oferece ao ouvinte o conforto de saber “de que lado está”, mas o força a lidar com uma língua que desorganiza sua percepção. Essa dimensão se amplia quando a letra atravessa Rio e São Paulo, sugerindo que a violência não é localizada, mas estrutural, nacional, própria do capitalismo dependente brasileiro. A menção às cidades constrói um circuito de repressão e circulação integrado. A juventude negra é alvo em qualquer lugar; a lógica policial se repete com variações locais. O Planet Hemp, com Black Alien, deixa claro que a questão não é regional, mas histórica, tratando-se da forma como o Estado brasileiro, em sua fase neoliberal, reorganiza a repressão sob o discurso da ordem, da segurança e do progresso.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, a letra articula tudo isso numa linguagem que se assume como perigosa. Não perigosa porque incita a violência, mas porque desestabiliza a gramática dominante. A alienação não é apenas denunciada como condição social, ela é combatida no nível da forma, por meio de uma língua que se recusa a ser mercadoria dócil. Ao fazer da estética um campo de confronto, Black Alien transforma o rap em instrumento de análise social de alta intensidade. A violência contra a juventude negra, o racismo estrutural e a repressão estatal deixam de ser apenas temas do discurso e passam a ser elementos constitutivos de uma forma artística que expõe, sem mediação moral, o funcionamento real da sociedade brasileira. É nesse sentido que essa letra não é apenas música, mas crítica histórica em estado bruto.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159229 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/blackalien-602652203.jpg" alt="" width="984" height="984" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/blackalien-602652203.jpg 984w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/blackalien-602652203-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/blackalien-602652203-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/blackalien-602652203-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/blackalien-602652203-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/blackalien-602652203-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/blackalien-602652203-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 984px) 100vw, 984px" />Black traz ao Planet um tipo de invenção formal que não pode ser assimilada pelo Estado ou pela mídia da mesma maneira que a provocação explícita: rimas sincopadas, dicção veloz, referências múltiplas que atravessam cultura pop, literatura, religião, cinema, crítica social e humor corrosivo; alternância entre inglês e português sem hierarquia; uso da metáfora como arma e da velocidade como método. Ao reorganizar a forma, ele reorganiza também as condições de recepção: a banda deixa de ser apenas um corpo que afronta a moral dominante e passa a ser uma força estética que agride a própria estrutura perceptiva da sociedade. A polícia, a Justiça, a mídia burguesa e até setores liberais que toleravam a “irreverência” do Planet não sabiam o que fazer com essa combinação de rigor formal e revolta política. Porque uma guerra simbólica ainda é negociável, o Estado pode demonizar, a imprensa pode caricaturar, a moralidade pode reagir. Mas a guerra estética é corrosiva, já que ela altera a língua, desloca o eixo da representação, inventa subjetividades, produz novas sensibilidades. Com Black Alien, o Planet Hemp torna-se perigoso não apenas porque diz o que o Estado não quer ouvir, mas porque diz de um modo que o Estado não consegue controlar. A forma passa a ser o escândalo. E é justamente aí que a entrada dele assume seu peso histórico: Black adiciona ao Planet uma camada de sofisticação, velocidade e precisão poética que transforma desobediência civil em gesto estético e gesto estético em crítica política de alta intensidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa transformação interna do Planet Hemp (de guerra simbólica para guerra estética) se manifesta de maneira ainda mais intensa nos palcos, e é ali que se revela o impacto concreto da entrada de Black Alien. As turnês entre 1996 e 2000 tornam-se verdadeiros campos de prova: o grupo passa a enfrentar não apenas a hostilidade da grande imprensa e a perseguição policial, mas também um novo tipo de recepção do público, que reage à presença de Black como quem reconhece uma linguagem antes inexistente. A performance dele intensifica o enfrentamento político porque reorganiza a energia da plateia: seu flow rápido e preciso não apenas empolga, mas movimenta cognitivamente o público, criando um estado de atenção mais agudo, mais crítico, mais mobilizado. Enquanto Marcelo D2, BNegão e os demais membros do Planet sustentam a postura contestatória e a dramaturgia da banda (teatralidade, ironia, comicidade, confronto), Black acrescenta um elemento de verticalidade poética que altera o ritmo emocional do show. Os versos ganham densidade; a rima adquire a função de comentário político imediato; o humor funciona como violência simbólica; e a música passa a operar como pensamento. Isso produz, nos shows, uma tensão inédita: o público não apenas dança ou protesta, mas escuta e reflete, impondo novas práticas sociais. E essa escuta, carregada de forma e velocidade, incomoda muito mais do que a mera defesa da maconha. Por isso as turnês do Planet nesse período se tornam espaços de conflito direto com o Estado. A polícia invade shows, interrompe apresentações, prende integrantes, ameaça produtores. Não se trata apenas do conteúdo “proibido”: é o efeito social da forma. Shows do Planet com Black Alien são momentos em que milhares de jovens experimentam simultaneamente insubordinação e sofisticação estética, combinação que o Estado brasileiro historicamente teme. A polícia reage com brutalidade porque vê ali não um entretenimento, mas uma massa organizada por linguagem, e essa é a forma mais avançada de potência política nas artes. A repressão que o Planet sofre (especialmente entre 1997 e 1999) apresenta isso com clareza: quanto mais o grupo aprimora sua forma, quanto mais Black Alien amplia a agudeza do discurso, mais a estrutura repressiva responde com encarceramento, censura e violência. Os shows se tornam espaços-limite de disputa entre Estado e juventude, entre autoridade moral e imaginação crítica, entre institucionalidade e experimentação artística. E Black, no centro dessa engrenagem, atua como o MC que não só segura o palco, mas reorganiza a percepção coletiva, produzindo algo que nenhum aparato repressivo consegue neutralizar: uma estética que não cabe nas categorias usuais da ordem ou da desordem.</p>
<p style="text-align: justify;">A presença de Black Alien no Planet Hemp altera radicalmente a gramática interna da banda, o sentido político externo das suas performances e a recepção social que a juventude brasileira passa a ter da dissidência naquele final de século. Sua inserção se dá num momento de alta fricção, quando o grupo já havia se consolidado como antagonista político da grande imprensa e do Estado, mas ainda buscava uma forma mais articulada de intervenção. Os primeiros passos do Planet (especialmente o disco <em>Usuário</em>) possuíam enorme energia de enfrentamento, mas não tinham ainda o rigor formal e a densidade poética que seriam alcançados a partir de 1997. A linguagem organizada é força histórica. É por isso que, entre 1996 e 2000, o Planet se torna a banda mais politicamente perigosa do país. A função de Black Alien dentro do grupo é dupla: técnica e estrutural. Técnica, porque ele introduz uma forma de rima que o rap brasileiro ainda não conhecia. Estrutural, porque sua presença tensiona e desloca a banda inteira, tanto estética quanto simbolicamente, já que a presença de Black tende a mover o eixo. Suas qualidades elevam o padrão interno do Planet. Ele empurra o grupo para fora da zona de conforto, obriga os outros a reorganizarem seus papéis e reconfigura a própria expectativa do público a cada show. Essa dinâmica interna tem impacto direto nos discos.</p>
<p style="text-align: justify;">No álbum <em>Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Para</em> (1997), Black aparece como força de articulação. Ele ancora o verso, estabiliza o ritmo e introduz camadas poéticas que direcionam a banda para uma zona de invenção. Seu timbre preciso e sua velocidade dão aos refrões e às passagens intermediárias uma solidez rítmica que, sem ele, seria impossível, sendo uma de suas funções orientar o sentido da música. Black introduz uma organicidade formal que faz o disco soar mais coeso, mais agressivo e, ao mesmo tempo, mais inteligente. Ele captura a agitação caótica do grupo e a transforma em clareza poética. Sua presença reorganiza a energia do álbum, tornando-o uma síntese muito mais afiada do que seria se dependesse apenas da dramaturgia e da potência cênica dos outros membros. Essa reorganização se intensifica em <em>A Invasão do Sagaz Homem Fumaça</em> (2000), quando o Planet Hemp já opera sob uma conjuntura de cerco: moralismo midiático, criminalização agressiva do debate sobre drogas e repressão policial como espetáculo disciplinar. O disco responde com mais tensão urbana e maior complexidade interna, e Black Alien atua aí como força de densificação formal. Ele aparece creditado nos vocais do álbum e, especificamente, assina composição em faixas-chave como &#8216;Ex-Quadrilha da Fumaça&#8217;, &#8216;Test Drive de Freio de Camburão&#8217; e &#8216;Contexto&#8217;, pontos em que o grupo não apenas reage à repressão, mas estrutura crítica social em forma, ritmo, montagem de referências, ironia e ataque direto ao dispositivo policial como método de governo. Sua presença intensifica a repressão porque sua forma de dizer produz maior capacidade de articulação política entre os ouvintes. Essa transformação é nítida nas turnês. A recepção do público se modifica. A plateia começa a prestar atenção na forma, não apenas no gesto contestatório. Os shows se tornam atos políticos completos com gente cantando refrões sobre criminalização, jovens exercitando dissidência estética, multidões reagindo a versos como se fossem instruções de combate. A presença de Black reorganiza a plateia e essa função é crucial num país em que a estética é uma das poucas vias disponíveis para elaborar politicamente o que a institucionalidade bloqueia.</p>
<p style="text-align: justify;">A saída dele, por volta de 2001, portanto, não é apenas um acontecimento interno à banda, mas uma reorganização do campo cultural. Sem Black, o Planet perde parte da sua força estética. Continua relevante, claro, mas já não possui a mesma capacidade de produzir forma insurgente. Politicamente, é uma perda significativa: a combinação entre D2 e Black era rara, porque articulava combate e elaboração, confronto e reflexão, agressividade e precisão. A saída de Black também marca o início de sua própria travessia artística rumo a <em>Babylon By Gus &#8211; Vol. I</em>, em que ele leva ao limite tudo aquilo que vinha experimentando no Planet, velocidade, multiplicidade, humor ácido, crítica social, criação formal. Sua obra solo nasce da tensão acumulada durante aqueles anos de palco, estúdio, repressão, rua e invenção.</p>
<p style="text-align: justify;">Em síntese, o período Planet Hemp (1996-2000) é definitivo para compreender a formação artística de Black Alien. É ali que ele aprende a segurar multidões, a enfrentar o Estado, a lidar com o caos, a organizar a linguagem, a criar forma sob pressão. É ali que ele se torna o MC capaz de produzir um dos discos mais importantes da música brasileira contemporânea. E é ali que o Planet Hemp, com ele, se torna não apenas símbolo de resistência, mas uma máquina estética de dissidência, algo que, no Brasil, é sempre mais perigoso do que qualquer discurso explícito. Ele leva ao grupo algo que até então não existia naquela escala: rigor poético. A rima deixa de ser apenas ferramenta de agitação e passa a ser também instrumento de elaboração. Black traz densidade, não só energia. Ele insere na banda um tipo de inteligência formal que, até então, circulava de modo mais difuso na cena underground. O Planet passa a ter um MC com formação híbrida, trânsito social complexo e domínio técnico que permite ao grupo dialogar com públicos antes inalcançáveis como estudantes, leitores, jovens de classe média, críticos de música, setores da imprensa cultural. Ao mesmo tempo, Black reforça a potência do grupo nas periferias, por trazer consigo a dicção da rua, o humor ácido, a velocidade agressiva e a metáfora como ataque. O discurso que era lido como afronta juvenil passa a ser articulado com outra camada de sentido e isso altera o modo como o Judiciário reage à banda. O histórico de perseguição policial ao Planet Hemp não pode ser desligado de duas coisas: do avanço da direita nos anos 90 e da crescente sofisticação das letras que Black começa a entregar. A repressão sempre teme dois tipos de artistas: os que mobilizam massas e os que pensam com precisão. Black traz as duas dimensões. Além disso, a presença dele reorganiza a política interna da banda. O Planet Hemp sempre foi um coletivo plural, mas também uma máquina caótica com múltiplas vozes, disputas internas, improviso permanente, tensões criativas. A entrada de Black demora pouco para alterar a equação. Ele rapidamente se torna um “núcleo técnico”, o MC que segura a barra lírica nas performances mais difíceis, que sustenta a energia dos shows longos, que injeta ironia em momentos de dispersão, que amarra canções com fluidez dramática. Se o Planet tinha energia de levante, Black fornece arquitetura formal para que essa energia não se disperse.</p>
<p style="text-align: justify;">Politicamente, isso significa algo essencial: Black Alien é o MC que transforma a rebeldia do Planet em linguagem de combate, linguagem estruturada, linguagem ofensiva. Ele formula pensamento crítico em forma de verso e isso tem consequência histórica, pois muitos jovens que viam o Planet como símbolo de transgressão passam, com Black, a enxergar o grupo como espaço de elaboração política. Ele tensiona o discurso e cria uma camada analítica que amplia o alcance da banda. Em outras palavras: com Black Alien, o Planet deixa de ser apenas uma banda “rebelde” para se tornar um coletivo estético-político no sentido forte do termo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O processo artístico até 2004 &#8211; técnica, estúdio, laboratório</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Entre 2001 e 2003, após o afastamento do Planet Hemp, Black Alien inicia o processo de gravação de seu primeiro álbum solo. O percurso é intenso, concentrado e guiado por uma obsessão formal rara no rap brasileiro daquele período. <em>Babylon By Gus &#8211; Vol. I: O Ano do Macaco</em> é produzido por Alexandre A-Basa, em sessões diárias realizadas no estúdio da Deckdisc, no Rio de Janeiro, ao longo de 48 dias de trabalho contínuo. O método de criação é dialógico: Black e Basa desenvolvem suas partes separadamente e, em seguida, entram em debate sobre letras, filosofia, timbres e estrutura sonora, construindo a obra por fricção e escolha consciente. Influenciado por experiências que iam do rap político norte-americano ao soul e ao funk, o disco se organiza como laboratório estético no qual a voz é tratada como instrumento central, exigindo precisão de flow, interpretação e respiração. Black participa ativamente das decisões formais, interferindo na arquitetura do álbum e consolidando ali uma linguagem que rompe com a rigidez métrica e temática do rap nacional da época. O resultado é uma obra singular, que condensa as aprendizagens do Planet Hemp e da experiência com Speed, mas as reorganiza num patamar autoral pleno, marcando uma inflexão na história do rap brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">O lançamento, feito pela Deckdisc, é modesto. Sem orçamento gigantesco, sem publicidade massiva, mas o boca a boca explode. Blogs, comunidades do Orkut, fóruns, zines, boca de bar, o disco se espalha pelo subterrâneo com uma velocidade impressionante. <em>O Ano do Macaco</em> se torna clássico instantâneo não porque é empurrado pela indústria, mas porque o público reconhece na hora que ali está algo diferente de tudo. A crítica especializada (ainda tímida na época) reconhece o disco como marco. Alguns jornalistas o comparam a um “Faroeste Caboclo do rap”, outros dizem que é “uma obra-prima neurofuturista”, “um delírio técnico”, “um tratado de sobrevivência urbana”. Mas a verdadeira canonização não vem do jornalismo; vem da rua. DJs o tocam em todas as festas. MCs o estudam. Leitores decoram versos inteiros. O álbum se torna referência para toda uma geração.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159227 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/128c75adc5e18d94f85a516c01e3359f-1697156499.jpg" alt="" width="939" height="939" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/128c75adc5e18d94f85a516c01e3359f-1697156499.jpg 939w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/128c75adc5e18d94f85a516c01e3359f-1697156499-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/128c75adc5e18d94f85a516c01e3359f-1697156499-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/128c75adc5e18d94f85a516c01e3359f-1697156499-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/128c75adc5e18d94f85a516c01e3359f-1697156499-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/128c75adc5e18d94f85a516c01e3359f-1697156499-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/128c75adc5e18d94f85a516c01e3359f-1697156499-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 939px) 100vw, 939px" />O disco é fundador, um ponto de inflexão, é a prova de que o rap brasileiro pode ser lírico, filosófico, literário, rápido, técnico, poético e brutal ao mesmo tempo. Ainda que Speed não esteja presente fisicamente, sua presença estética está por toda parte. <em>O Ano do Macaco</em> soa como um diálogo com ele, ou melhor, como continuidade de um laboratório conjunto. É como se Black carregasse consigo a parte luminosa e a parte sombria da dupla, mantendo vivo o impulso criativo que Speed simbolizava. Quando o Brasil olha para trás, duas décadas depois, percebe que <em>Babylon By Gus &#8211; Vol. I</em> é um dos discos mais importantes da música brasileira pós-2000. Não só do rap — da música brasileira. A crítica o põe ao lado de obras como <em>Sobrevivendo no Inferno</em>, <em>Nada Como um Dia Após o Outro Dia</em> e <em>A Procura da Batida Perfeita</em>. Mas o que importa é que o disco não nasce da queda — nasce da vida artística plena.</p>
<p style="text-align: justify;">“From Hell do Céu” se abre como um campo de tensões com a metáfora da corrida (com seu grid, largada, promessa de ultrapassagem) introduz uma percepção crítica da concorrência como forma social, na qual o movimento incessante convive com a fixidez das posições, sendo que acelerar, disputar, performar não altera o lugar ocupado, apenas intensifica a experiência de estar preso dentro de um circuito previamente delimitado. O verso inicial, portanto, estabelece o regime em que o mundo será lido ao longo da música. Quando a letra convoca o “sobrevoo”, há uma operação cognitiva que exige distanciamento para que a ordem das coisas se revele como construção e não como natureza dada. A cidade, nomeada como zoológico, aparece como descrição de uma racionalidade que administra corpos, organiza fluxos e transforma sujeitos em espécimes observáveis, controláveis, classificáveis. A vida reduzida à sobrevivência indica um ponto de saturação em que a reprodução social se mantém no limite, sem excedente simbólico capaz de sustentar a ideia de plenitude. Olhar de cima, nesse contexto, significa apreender a forma dessa organização, perceber o declive como tendência histórica e não como acidente.</p>
<p style="text-align: justify;">A presença dos “mestres das marionetes” apresenta o poder como função, distribuído em operações que produzem conduta, modulam percepção e regulam acesso. Orquestrar, adestrar, abrir e fechar são momentos de um mesmo processo que atravessa mídia, Estado, mercado e cultura. A dilatação da pupila e a aniquilação dos corpos surgem lado a lado, sem hierarquia, como técnicas distintas que incidem sobre o mesmo material biológico e social, expandindo a experiência ou interrompendo-a definitivamente. A fórmula “from hell do céu” condensa essa duplicidade sem resolvê-la, mantendo em tensão a experiência concreta da violência e um resto de transcendência que não se estabiliza nem como fé nem como ironia. A linguagem da música varia continuamente entre referências (bíblico, urbano, técnico, pop) e nesse trânsito constrói uma tentativa de inteligibilidade em um espaço marcado pela fragmentação comunicativa. A referência à Torre de Babel afirma a necessidade de forjar uma língua que atravesse essas fraturas. Nesse ponto, a ideia de acordar primeiro adquire densidade crítica, pois o problema não está na falta de sonho, mas na forma social que produz o sonho como mercadoria e horizonte ilusório, exigindo, em resposta, uma vigília que desfaça o encantamento e restitua alguma capacidade de apreensão do real.</p>
<p style="text-align: justify;">O refrão organiza a dinâmica da música como uma sequência de impulsos e suspensões que dizem respeito tanto ao corpo quanto ao trabalho de criação: disparar, parar no infinito, reabastecer, seguir. Essa cadência remete a um regime de produção em que intensidade e esgotamento se alternam, exigindo recomposição constante. A escrita aparece como fixação desse movimento, como tentativa de registrar aquilo que se vê no interior desse ciclo, enquanto o veredicto é posto para fora do sujeito, recusando a posição de juiz e preservando uma espécie de abertura ética que impede a redução da experiência a julgamento moral. Na segunda parte, a letra se aproxima diretamente das formas de existência sob o capital, e a distinção entre quem desiste, quem permanece e quem desiste permanecendo descreve posições dentro de um mesmo campo, não tipos psicológicos isolados. A figura daquele que ocupa espaço sem conduzir a própria vida traduz um processo de esvaziamento em que a presença física não corresponde a uma participação efetiva na determinação do próprio destino. A imagem dos “cérebros de férias” aponta para uma suspensão socialmente produzida da atividade crítica, um desligamento que não decorre de incapacidade, mas de condições que tornam o pensamento um luxo ou um risco. O trabalhador que percorre portas com currículo nas mãos aparece como expressão de uma economia que exige mobilidade constante sem garantir inserção estável, produzindo uma circulação vazia, marcada pela repetição de tentativas fracassadas. A compressão da família no cubículo evidencia a reorganização do espaço urbano sob a lógica da contenção, enquanto a ausência de paz no versículo sugere o esgotamento de formas tradicionais de mediação diante da dureza material da vida cotidiana. A articulação entre Ecad e Green Card conecta duas estratégias de sobrevivência (a inserção no circuito cultural e a fuga geográfica) que, embora distintas, respondem a uma mesma estrutura de bloqueio. A metáfora do garimpo em terra indígena intensifica a dimensão histórica da violência, ao associar trabalho, ilegalidade e risco de morte em um cenário marcado por expropriação e conflito. Cantar a vida amarga se apresenta como registro sistemático de uma condição compartilhada, enquanto a recusa em aceitar a mão que afaga delimita uma posição diante das instâncias que oferecem reconhecimento em troca de domesticação. Há, nesse gesto, uma recusa de integração que preserva a possibilidade de crítica.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a letra se volta para o próprio fazer, a imagem da “poesia de aço” direciona a compreensão da escrita, que passa a ser pensada como processo produtivo, técnico, repetitivo, submetido a uma disciplina específica. A siderúrgica evoca calor, pressão, transformação de matéria bruta em forma trabalhada, indicando que a linguagem não emerge espontaneamente, sendo resultado de um trabalho insistente. A referência a Saturno introduz uma temporalidade marcada pela lentidão e pelo peso, sugerindo uma elaboração que se dá na duração, repetição, insistência, que não se resolve em síntese rápida. O “verbo cru” indica uma recusa de mediações suavizantes, uma escolha por expor a experiência sem revestimentos conciliadores, enquanto a verdade situada entre parto e infarto aponta para formas de irrupção que implicam dor e risco, seja na criação que gera algo novo, seja na ruptura que ameaça a própria continuidade da vida. A recusa da mediação televisiva pensa a expectativa de transformação para fora dos circuitos institucionalizados, afirmando que aquilo que efetivamente altera a realidade não se apresenta necessariamente sob forma espetacular.</p>
<p style="text-align: justify;">O fechamento com a terra improdutiva reconecta a elaboração simbólica ao plano material, indicando que a questão fundamental permanece ancorada na forma como a produção e a reprodução da vida são organizadas. A improdutividade, longe de ser atributo natural, aparece como resultado de uma estrutura que impede que a riqueza potencial se converta em condições efetivas de existência para a maioria. A música, ao percorrer diferentes escalas (do corpo à cidade, da linguagem à economia) constrói uma visão em que esses níveis não se dissociam, se articulam em uma totalidade tensa. A força de “From Hell do Céu” se concentra justamente nessa capacidade de sustentar essa articulação sem reduzir a experiência a um eixo único, permitindo que a linguagem opere como meio de apreensão de um mundo em que violência, trabalho, desejo e forma se entrelaçam de maneira indissociável.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Mr. Niterói &#8211; A Lírica Bereta</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Com uma trajetória tão profícua, Black ganha um filme biográfico. Ao ser interpelado sobre a possibilidade de produzir um material sobre sua carreira ele coloca para o diretor se se quer mostrar tudo ou só uma parte da sua realidade. Sabendo das tensões existentes, o diretor Ton Gadioli foi cuidadoso. Logo no início, Black dispara: “É só tubarão, tarântula, piranha, vagabundo e filho da puta”, se referindo ao mercado da música, essa máquina que devora talento e entrega ruína, que seduz para, depois, descartar. A fala condensa a antipatia que Black sempre demonstrou pelo ambiente que tenta transformar arte em produto padronizado. O ódio reflete a percepção de alguém que viu por dentro a mecânica do espetáculo e entendeu que, para quem não se adapta ao jogo, o destino é ser moído. “Eu já quis matar um monte de gente…” reflete a expressão crua de uma mente pressionada, de alguém que viveu em estado de tensão constante, cercado por expectativas, fracassos, traições, vícios, ilusões. E logo depois, num contraste que só confirma a profundidade desse sujeito, ele solta: “Seus amigos não te dão drogas. Eles te dão livros e te apresentam a célebres.” É outra chave fundamental. Black Alien sempre esteve cercado por cabeças que não o trataram como mascote da cena, mas como intelectual da rua, como alguém de quem se cobra densidade, leitura, reflexão. Ele não é apenas o MC rápido e técnico, mas um leitor que transforma angústia em sintaxe, ansiedade em fluxo, desordem mental em métrica. Essa frase (livro no lugar da droga) é a confissão de que a cultura, para ele, sempre foi ferramenta de reparo mental. A droga o derruba, o livro o reestrutura; o vício o desorganiza, a linguagem o recompõe e isso atravessa a estética dele de ponta a ponta.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme então abre o plano para a Lapa, a noite pulsa como organismo vivo, artistas de rua, jovens bêbados, trabalhadores exaustos, policiais espalhados como espectros, luzes que piscam. <em>A Lírica Bereta</em> capta a Lapa como um território da contradição, uma zona onde miséria e festa se encostam, onde o brilho barato esconde a ruína social, onde tudo parece possível e, ao mesmo tempo, nada se sustenta. É o cenário perfeito para um artista cuja obra nasce justamente desse encontro entre precariedade e grandeza. No filme, quando Black aparece no meio desse fluxo, existe um magnetismo imediato. Ele circula como alguém que pertence não à indústria, mas à noite, ao subterrâneo, ao caldo cultural da rua. Tudo ali (as pessoas, os ruídos, as conversas soltas, os becos, os ambulantes, a sensação de insegurança) aparece como matéria-prima da poética que ele carrega. Esse início de <em>A Lírica Bereta</em> traz à tona o contraste entre a agressividade e o afeto, a violência e a lucidez, o ódio e a intelectualidade. Black Alien sempre foi esse amálgama paradoxal que pensa, lê, observa, mas transborda raiva, cansaço, vício, desesperança e essa soma de forças opostas é o que faz dele um autor no sentido forte, alguém que organiza o caos, que exprime o indizível, que transforma sobrevivência em poética.</p>
<p style="text-align: justify;">A presença de Black Alien no palco é um capítulo à parte na compreensão da sua obra, o público participa ativamente. Tive a oportunidade de vivenciar isso diretamente quando participei das gravações de <em>A Lírica Bereta</em>, a convite do meu amigo Ton Gadioli. Uma das tomadas aconteceu na Fundição Progresso, e ali ficou ainda mais evidente que Black arrasta todos com uma espécie de afeto coletivo, uma vibração compartilhada, algo que só emerge quando um artista que carrega no corpo as marcas de sua própria guerra aparece diante de centenas de pessoas sem disfarçar essas marcas. Talvez por isso a sensação seja tão difícil de verbalizar. Quando Black está no palco, algo da ordem do sensível se irradia e o público responde como se reconhecesse, naquele homem, uma experiência que cada um carrega, mas raramente assume. Walter Benjamin chamaria isso de aura, não como a aura aristocrática da arte distanciada, mas como aquele brilho singular que surge quando a obra nasce de um processo irreproduzível, quando carrega consigo a marca do tempo, das cicatrizes, perdas, lapsos, de tudo o que não se pode repetir mecanicamente. O que a câmera registra na Fundição Progresso é justamente a luta invisível que sustenta esse magnetismo. E é por isso que seus shows têm essa força que quase nenhuma imagem dá conta, porque ali a verdade não é ensinada, é compartilhada. Esse reconhecimento é político, estético, existencial.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Conclusão…</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O que permanece, ao final desse percurso, não é a imagem de um artista atravessado por contradições (isso seria pouco), mas a de um produtor de forma num país que historicamente dificulta o reconhecimento desse tipo de trabalho quando ele emerge fora dos circuitos autorizados. Black Alien não se deixa apreender por categorias prontas porque sua obra não responde a uma demanda prévia, pois cria as condições de sua própria inteligibilidade, força o campo cultural a se reorganizar para dar conta dela. E é justamente por isso que, tantas vezes, se tenta reduzi-lo à biografia, ao episódio, à queda, como se fosse necessário rebaixar a complexidade da forma para torná-la consumível. Mas a obra insiste. Ela permanece nos versos que continuam circulando, nas métricas que se tornaram referência sem que muitos saibam nomear sua origem, nos deslocamentos que passaram a parecer naturais depois que ele os realizou pela primeira vez. Permanece também no modo como diferentes gerações se aproximam dela e, ainda hoje, encontram dificuldade em estabilizá-la, como se cada escuta revelasse um excesso que não se deixa capturar completamente. Isso não é efeito de mistificação, mas de elaboração: trata-se de uma obra que opera acima do nível médio de formalização do campo em que surgiu.</p>
<p style="text-align: justify;">Black Alien não resolve as contradições que o atravessam, ele as organiza e é nessa organização que reside sua força. Sua trajetória não aponta para uma superação individual nem para uma narrativa exemplar de redenção, mas para algo mais difícil de sustentar: a persistência da criação em meio a um conjunto de determinações que tendem ao esgotamento. Se há algo que sua obra demonstra, é que a linguagem ainda pode funcionar como instrumento de apreensão do mundo mesmo quando o mundo se apresenta fragmentado, violento e opaco. Por isso, ao final, talvez não seja o caso de perguntar o que aconteceu com Black Alien, mas o que sua obra fez com o rap brasileiro e, em alguma medida, com a própria possibilidade de pensar a experiência urbana contemporânea a partir da linguagem. A resposta não se encontra numa frase, nem numa síntese confortável. Ela está dispersa, em circulação, atravessando vozes, cenas, textos, escutas. E isso basta para situá-lo onde de fato está: não na margem, não no desvio, mas no ponto em que a forma se reorganiza e obriga a história a se mover.</p>
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