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	<title>Pensar &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Aug 2026 18:24:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Séries]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Joshua Clover Este livro foi publicado originalmente em inglês pela editora Verso (2016). Esta é uma tradução coletiva feita por alguns camaradas no âmbito de um grupo de estudos. A revisão da tradução é do Passa Palavra. Introdução: Uma Teoria da Revolta Introdução: Uma Teoria da Revolta Esta é, portanto, a necessidade mais básica: [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Joshua Clover</h3>
<blockquote><p>Este livro foi publicado originalmente em inglês pela editora Verso (2016). Esta é uma tradução coletiva feita por alguns camaradas no âmbito de um grupo de estudos. A revisão da tradução é do Passa Palavra.</p></blockquote>
<h4><strong>Introdução: Uma Teoria da Revolta</strong></h4>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em><img decoding="async" class="size-thumbnail wp-image-158120 alignleft" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/11/18riots-superJumbo-1297480207-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /></em></a><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p>Esta é, portanto, a necessidade mais básica: uma teorização propriamente materialista da revolta.</p>
<p><img decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159379" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Leffler_-_1968_Washington_D.C._Martin_Luther_King_Jr._riots-1-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /></p>
<p class="td-post-sub-title"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>O que, dentro do movimento objetivo do capital, une a revolta à circulação, a greve à produção, e nos leva de um para o outro?</p>
<h4><strong>Revolta</strong></h4>
<p><img decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159421" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Sixth_Maryland_Regiment_firing_on_the_rioters_in_Baltimore-70x70.png" alt="" width="70" height="70" /><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p>A greve e a revolta são lutas práticas pela reprodução dentro da produção e da circulação respectivamente.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159438" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Brueghel_The_Wine_Of_Saint_Martins_Day_Private_Collection_Madrid-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p>Desde os seus primórdios, a revolta tem sido uma luta de circulação por excelência.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159486" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/battle-of-peterloo-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>É a transição do mercado para o local de trabalho, do preço dos bens para o preço da força de trabalho que dita a transição da revolta para a greve no repertório da ação coletiva.</p>
<h4><strong>Greve</strong></h4>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159502" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/kathe_kollwitz-peasant_war_print_5-_outbreak-1903-obelisk-art-history-70x70.webp" alt="" width="70" height="70" /><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p>A greve é exatamente o que a revolta não é.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159533" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p>Devemos estar abertos a uma revisão fundamental, baseada nas transformações da realidade social.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159565" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/ppdesc-70x70.jpg" alt="Revolta, greve, revolta (8)" width="70" height="70" /><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>É difícil enfatizar a importância do esforço para unir não apenas diferentes agendas ou objetivos, mas diferentes procedimentos políticos — para aproveitar as revoltas e as greves juntos, não apenas como táticas, mas como modalidades.</p>
<h4><strong>Revolta Linha</strong></h4>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159613" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Paesaggio-urbano-1922-3568134321-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p>A mudança nas formas de ação coletiva é uma habilidade dialética.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159654" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks6-70x70.webp" alt="" width="70" height="70" /><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p>As classes perigosas globais estão unidas não por seu papel como produtoras, mas por sua relação com a violência estatal.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-thumbnail wp-image-159707" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Occupy-Wall-Street-Protest-New-York-City-2011-Demonstrators-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" /><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p>Para além da greve e da revolta, a comuna é uma tática que também é uma forma de vida.</p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (10)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 18 Aug 2026 21:42:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[As classes perigosas globais estão unidas não por seu papel como produtoras, mas por sua relação com a violência estatal. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 8</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Rebeliões Excedentes</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Há muitas conjecturas, algumas delas financiadas pelo governo, sobre como as revoltas se espalham <strong>[1]</strong>. Isso é verdade em grande parte porque os casos individuais estão sujeitos a contingências reais e determinações locais; as explicações mecanicistas geram suas próprias exceções tão rapidamente quanto suas confirmações. A linguagem mais comum é a do contágio, sendo os vetores agentes individuais ou a mídia de massa. Em 1793, William Godwin escreveu:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A convivialidade da festa pode levar à depredação da revolta. A simpatia da opinião se espalha de pessoa para pessoa, especialmente em reuniões numerosas e entre pessoas cujas paixões não estão acostumadas a ser refreadas pelo julgamento […] Não há nada mais bárbaro, sanguinário e insensível do que o triunfo de uma multidão <strong>[2]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Dois séculos depois, os autores de <em>A Insurreição que Vem</em> propõem que “os movimentos revolucionários não se espalham por contaminação, mas por ressonância” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O romance de Sam Greenlee de 1969, <em>The Spook Who Sat by the Door</em>, contém uma visão da revolta racial transcendendo suas barreiras espaciais e se tornando uma guerra de guerrilha racial que ameaça o Estado-nação. Oakland explodiu primeiro, depois Los Angeles, depois, saltando pelo continente, Harlem e South Philadelphia… Todas as cidades com guetos se perguntaram se seriam as próximas. A nação mais poderosa da história estava à beira do pânico e do caos“ <strong>[4]</strong>. Saltos, saltos, saltos. É uma ficção, é claro. Além disso, na história de Greenlee, a generalização é orquestrada pelos “Freedom Fighters” (Combatentes pela Liberdade) dos Panteras Negras. Isso é muito característico de 1969, da ideia do partido vanguardista que ainda persistia naquele momento. Mas a lógica implícita é menos metafórica do que contagiosa, menos idealista do que ressonante. Acima ou abaixo da ficção, o relato de Greenlee está de acordo com a propagação das revoltas na França em 2005, na Inglaterra em 2011 e nos Estados Unidos em 2014 e 2015. As revoltas vão à procura de populações excedentes, e estas são a sua base para a expansão. Isto não é para negar a agência dos manifestantes, dos saqueadores, das pessoas que disparam contra os polícias. Tampouco é sugerir que tais rebeliões em expansão não tenham base em vários tipos de visão consciente e coletiva. É simplesmente o mesmo movimento visto pelo outro lado do telescópio, da perspectiva da própria revolta. A partir dessa perspectiva, pode-se começar a sintetizar as categorias de crise, população excedente e raça, que parecem aspectos duradouros da <em>revolta linha</em> no Ocidente.</p>
<p style="text-align: justify;">Todos os três aspectos são compreendidos no resumo conciso de Ruth Wilson Gimore:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A crise não é objetivamente ruim ou boa, mas sinaliza uma mudança sistemática cujo resultado é determinado pela luta. A luta, que é uma palavra politicamente neutra, ocorre em todos os níveis da sociedade, à medida que as pessoas tentam descobrir, por meio de tentativa e erro, o que fazer com as capacidades ociosas <strong>[5]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">É essa mudança na luta que temos acompanhado. A revolta é precisamente esse acerto de contas com as capacidades ociosas, com os excedentes gerados pela produção da não produção que caracteriza a descida ao longo do arco da acumulação.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre esses excedentes, o mais dramático em seu desenvolvimento histórico, e aquele que mais convida a uma reconsideração da classe social, é a parte da população mais sujeita à revolta: a população excedente relativa. O argumento lógico sobre a “produção progressiva” dessa camada empobrecida da sociedade, grande parte da qual já foi abordada, se desenrola ao longo de todo o primeiro volume de <em>O Capital</em>, até o capítulo 25. É aqui que chegamos ao resumo da contradição comovente que floresce tanto na crise quanto no excedente populacional, aspectos diferentes do mesmo processo que impõe o domínio crescente do capital constante sobre o capital variável, minando a acumulação ao expulsar a mão de obra do processo de produção: “a população trabalhadora reproduz, portanto, tanto a acumulação de capital quanto os meios pelos quais ela própria se torna relativamente supérflua; e faz isso em uma extensão que está sempre aumentando” <strong>[6]</strong>. O fato de isso completar o argumento teórico do livro é sinalizado pela maneira como Marx então muda completamente os modos, recuando para uma reconstrução histórica da chamada acumulação primitiva e da origem do capital.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159652" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks4.webp" alt="" width="1760" height="1172" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks4.webp 1760w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks4-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks4-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks4-768x511.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks4-1536x1023.webp 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks4-631x420.webp 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks4-640x426.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks4-681x453.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1760px) 100vw, 1760px" />A população excedente tem múltiplas camadas dentro dela. Talvez a membrana mais significativa esteja entre o exército de reserva de força de trabalho (que permanece conceitualmente dentro da lógica do mercado de trabalho, reduzindo os salários, entrando e saindo do salário com mudanças na oferta e na demanda de força de trabalho) e a população excedente estagnada cronicamente fora do salário formal, ou “estruturalmente desempregada”, na linguagem convencional. Para essa parcela, o problema da reprodução ainda se apresenta. As pessoas que se encontram nessa circunstância não entram em animação suspensa nem sobrevivem do ar. Em vez disso, são empurradas para economias informais, muitas vezes semilegais ou extralegais, dando-lhes apenas acesso derivado ao salário formal. É essa parte da humanidade que ganha menos do que o mínimo necessário para a subsistência. A informalização pode ser entendida como “formas de organizar a atividade econômica com alto retorno para o capital e retorno excessivamente baixo para os trabalhadores” <strong>[7]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui podemos observar a relação entre o aumento da população excedente global e o rápido aumento do endividamento ao longo da Longa Crise. É sobre esse período que Gilles Deleuze declara dramaticamente: “o homem não é mais o homem enclausurado, mas o homem endividado”. Isso foi aproveitado recursivamente por aqueles ansiosos por supor uma nova ontologia econômica da dívida. Geralmente esquecido é o que Deleuze escreve imediatamente depois:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">É verdade que o capitalismo manteve como constante a extrema pobreza de três quartos da humanidade, pobre demais para se endividar, numerosa demais para ser confinada: o controle não terá apenas que lidar com a erosão das fronteiras, mas também com as explosões dentro das favelas ou guetos <strong>[8]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso efetivamente mina a forte distinção da afirmação inicial de Deleuze. Mas deixa em seu lugar um reconhecimento mais incisivo, a respito <em>da unidade dos excluídos e dos endividados</em>. Eles são o mesmo excedente global. O crescimento explosivo do setor endividado é outra face da informalização, na qual a necessidade do capital financeiro de encontrar devedores se encaixa com a explosão das populações levadas a salários abaixo da subsistência. O microcrédito, o empréstimo estudantil e o empréstimo consignado são instrumentos paralelos, igualmente insustentáveis, no projeto de estabilizar esse excedente crescente e, de alguma forma, preservá-los dentro dos circuitos do lucro.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas são expressões da população excedente dentro de uma tendência estrutural de superfluidade real. Mesmo com a expansão da população, a capacidade relativa do capital de absorver contratos de trabalho gera um aumento relativo e absoluto nas populações “libertadas” pelo que gostamos de chamar de progresso, liberadas do fardo do trabalho e, eventualmente, do fardo da própria vida. Alguns estudiosos têm notado recentemente que o aumento da luta global tira sua força dessas populações. Pesquisadores do Global Social Protest Research Group, trabalhando na tradição de Arrighi e Beverly Silver, detectaram, na esteira da onda de revoltas de 2011, uma fonte que não poderia ser localizada nem nas lutas do tipo “marxista” nem nas lutas do tipo “polanyista” — baseadas, respectivamente, na recente subsunção à classe trabalhadora e na perda de privilégios de classe —, mas que exigia uma nova classificação: “Protesto da População Excedente Relativa Estagnada” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora a atenção às lutas de classes tradicionais possa ter obscurecido tais desenvolvimentos para alguns até recentemente, eles têm sido centrais e evidentes na Longa Crise. Bremen escreve:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nos anos 1960 e 1970, os formuladores de políticas ocidentais viam a economia informal como uma sala de espera ou zona de trânsito temporária: os recém-chegados podiam se estabelecer lá e aprender os meandros do mercado de trabalho urbano… Na verdade, a tendência foi na direção oposta <strong>[10]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A absorção de mão de obra em escala global, concomitante com uma ascensão renovada ao longo do arco de acumulação, não parece estar nos planos <strong>[11]</strong>. Nos Estados Unidos, o aumento da superfluidade tem sido uma característica básica da Longa Crise. O historiador Aaron Benanav observa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esse é especialmente o caso daqueles que antes trabalhavam no setor manufatureiro, que eliminou milhões de empregos. Isso também se aplica aos jovens que entraram recentemente no mercado de trabalho pela primeira vez e, acima de tudo, aos trabalhadores negros.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Entre 1947 e 1973, a taxa de desemprego foi de 4,8% em média; após 1973, subiu para 6,5%. Desde 1973, houve um período excepcional, 1995-2001, quando a taxa de desemprego voltou ao nível anterior a 1973. Excluindo esses anos, a taxa de desemprego pós-1973 sobe para 6,9%, ou 43% acima da média anterior. Esse aumento não se deve apenas ao fato de que os níveis de desemprego têm sido mais altos durante as recessões. As recuperações econômicas são cada vez mais <em>recuperações sem criação de empregos</em>. As reduções no desemprego têm levado mais tempo a cada década. Após a recessão de 1981, levou 27 meses para o emprego atingir seu nível pré-recessão; após a recessão de 1990, 30 meses; após a recessão de 2000, 46 meses. Após a recessão de 2007, a recuperação do mercado de trabalho levou 6,3 anos <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, é impossível supor que esses fenômenos sejam simplesmente equilíbrios cíclicos de um mercado de trabalho que tende ao “pleno emprego” (mesmo que essa meta tenha sido revisada para cima). As tendências de longo prazo são evidentes, e os sinais que poderíamos esperar para indicar uma reversão secular não são visíveis. Não há velas no horizonte. Nesse contexto, a classe pode ser repensada de maneiras que excedam o modelo tradicional encontrado no capítulo anterior, com sua “classe trabalhadora” relativamente estática e sociologicamente positivista e as formas de luta que a acompanham. Dado o relativo declínio dessa forma de trabalho, Marx deve querer dizer outra coisa quando, chegando a essa conclusão sobre as populações excedentes, propõe que “a acumulação de capital é, portanto, a multiplicação do proletariado”.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Proletarização e Racialização</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A fraqueza do modelo estático da “classe trabalhadora” não está simplesmente em alguma falha abstrata em acompanhar as reestruturações do capital, mas em uma desatenção prática às mudanças no sujeito da luta. Como podemos pensar na revolta como uma forma não apenas de ação coletiva, mas de luta de classes, quando a racialização parece ser uma característica central da <em>revolta linha</em> nos Estados Unidos e, de forma mais ampla, no Ocidente em desindustrialização? É aqui que a população excedente desempenha um papel mediador e profundamente explicativo. Dado o aumento relativo e absoluto contínuo daqueles que estão fora dos setores produtivos e da economia formal em geral, talvez não seja mais útil conceituar as populações excedentes como adjuntas, casos especiais ou excluídas de uma força de trabalho cuja imagem herdamos da era da forte acumulação. Em vez disso, poderíamos entender o <em>proletariado</em> não como designando aqueles que trabalham diretamente para o capital, mas em seu sentido original, uma distinção aqui marcada por Gilles Dauvé:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Se alguém identifica o proletário com o operário fabril (ou com o trabalhador manual), ou com os pobres, perde-se o que há de subversivo na condição proletária. O proletariado é a negação desta sociedade. Não é o conjunto dos pobres, mas daqueles que estão “sem reservas”, que não são nada, não têm nada a perder além de suas correntes e não podem se libertar sem destruir toda a ordem social <strong>[13]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Dauvé apresenta isso como uma verdade que foi mal reconhecida, em vez de uma revisão da categoria imposta pelas metamorfoses históricas. São essas metamorfoses que importam. Quanto mais a classe trabalhadora histórica é obrigada a afirmar o capital para sua própria existência e quanto maior o desenvolvimento das “capacidades ociosas”, mais nos deparamos com o significado político do proletariado expandido e, em particular, com o papel da proletarização passiva, a “dissolução das formas tradicionais de (re)produção” <strong>[14]</strong>. Essa expansão, porém, não é neutra quantitativamente.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159653 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks5.webp" alt="" width="640" height="454" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks5.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks5-300x213.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks5-592x420.webp 592w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" />Aqui, podemos voltar à formulação clara de Stuart Hall: “A raça é a modalidade na qual a classe é vivida” <strong>[15]</strong>. Isso se mostra ainda mais persuasivo e descritivo quando se imagina um proletariado que inclui populações excedentes e, portanto, que deve abandonar o modelo sociológico de “identidade operária” como componente essencial da pertença de classe. Já encontramos a divergência nas taxas de ausência de salários em Detroit; infelizmente, e sem surpresa, é um fenômeno generalizado. No entanto, não é orgânico. Assim como a própria escravidão, é socialmente produzida. No período de 1880 a 1910, durante um período de oferta insuficiente de força de trabalho, as taxas de desemprego entre negros e brancos estavam em paridade. A diferença se abre no período entre guerras com “o movimento dos negros entre indústrias, especialmente fora da agricultura, e a mudança na demanda das indústrias nas quais os negros eram empregados” <strong>[16]</strong>. Ou seja, a mudança para uma economia industrial e depois desindustrializada teve um componente racializado; desde os anos 1960, o desemprego entre os negros tem sido pelo menos o dobro do dos brancos, e em tempos de crise isso só se intensifica. Nos últimos anos, o desemprego entre os jovens negros nas cidades mencionadas no romance de Greenlee oscilou em torno de 50%; o perfil geral de emprego dessas cidades é comparável ao desastre em curso na Grécia, uma crise sem fim.</p>
<p style="text-align: justify;">Gilmore sugere que entendamos as transformações do aparato estatal como formas de gerenciar esse excedente irremediável, com foco particular na encarceramento:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na minha opinião, as prisões são soluções geográficas parciais para crises econômico-políticas, organizadas pelo Estado, que está ele próprio em crise. Crise significa instabilidade que só pode ser resolvida por meio de medidas radicais, que incluem o desenvolvimento de novas relações e instituições novas ou renovadas a partir do que já existe. A instabilidade que caracterizou o fim da era de ouro do capitalismo americano fornece uma chave, como veremos. Nas páginas a seguir, investigaremos como certos tipos de pessoas, terras, capital e capacidade do Estado ficaram ociosos — o que é excedente — o que aconteceu e por que os resultados são logicamente explicáveis, mas não eram de forma alguma inevitáveis <strong>[17]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A partir desse alinhamento entre crise e excedente, ela considera as populações sujeitas a esse novo regime de violência estatal, refletindo “sobre a demografia prisional, em particular, seu domínio exclusivo dos pobres que trabalham ou estão desempregados, a maioria dos quais não é branca”. Por fim, ela conclui:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A correspondência entre regiões que sofrem profunda reestruturação econômica, altas taxas de desemprego e subemprego entre os homens e vigilância intensiva dos jovens pelo aparato de justiça criminal do Estado apresenta a população excedente relativa como o problema para o qual a prisão se tornou a solução do Estado <strong>[18]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A revolta, podemos observar, é o outro lado da encarceramento. Ou seja, é uma consequência e resposta a regimes inexoráveis e intensificados de exclusão, superfluidez, falta de acesso a bens e vigilância e violência do Estado, juntamente com a incapacidade do Estado de distribuir recursos para a paz social. Na verdade, essas são as condições específicas e locais de quase todas as grandes rebeliões da história recente. Se a solução do Estado para o problema da crise e do excedente é a prisão — a gestão carcerária —, a revolta é uma contestação direta a essa solução — uma contraproposta de incontrolabilidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Uma Agenda para a Desordem Total</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A relação entre revolta e racialização é, entre outras coisas, um elemento do debate sobre quem poderia ser o sujeito revolucionário da Longa Crise. A importância das populações excedentes para esse debate surge, no entanto, não nas nações em início de industrialização, mas sim no mundo em descolonização, descrito de forma mais famosa em <em>Os Condenados da Terra</em>, de Frantz Fanon. Ele observa que “a formação de um lumpenproletariado é um fenômeno que é governado por sua própria lógica, e nem o excesso de zelo dos missionários nem os decretos das autoridades centrais podem conter seu crescimento”. As populações são empurradas pela demografia e pela expropriação das terras familiares para a cidade, onde descobrem que não haverá entrada na economia formal, e “é entre essas massas, nas pessoas das favelas e no lumpenproletariado, que a insurreição encontrará sua ponta de lança urbana”, pois essa coorte “constitui uma das forças revolucionárias mais espontâneas e radicais de um povo colonizado” <strong>[19]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159655" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks3.webp" alt="" width="978" height="1440" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks3.webp 978w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks3-204x300.webp 204w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks3-695x1024.webp 695w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks3-768x1131.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks3-285x420.webp 285w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks3-640x942.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks3-681x1003.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 978px) 100vw, 978px" />Essa condição compartilhada de superfluidade, baseada em populações dominadas e sujeitas à violência estatal racializada incessante, torna-se a estrutura através da qual os movimentos do Black Power alcançam o reconhecimento mútuo com as lutas anticoloniais internacionais. O amadurecimento desse sujeito despossuído e colonizado como agente político nos Estados Unidos será narrado através de antagonismos globais em uma espécie de romance de Bandung. Grupos como o Revolutionary Action Movement e os Black Panthers fariam estudos cuidadosos de Fanon, entre outros. É a lógica dos lumpen, dos excluídos, que sustenta a compreensão da colonização como um processo global cujo terreno de disputa não é o da classe trabalhadora clássica. Isso é fundamental para Newton ao desenvolver sua teoria da luta. Em consonância com a ambiguidade da situação durante as transições dos anos 1960, Newton oscila entre ver a população negra guetizada dos EUA como a mais explorada de uma classe trabalhadora tradicional, gerando superlucros que permitem a projeção global do projeto colonial, e como a lumpen excluída de Fanon. “Encerrados nos guetos da América, cercados por todas as suas fábricas e todos os componentes físicos de seu sistema econômico, fomos transformados nos &#8216;miseráveis da terra&#8217;, relegados à posição de espectadores”, escreve ele. Essa situação é garantida pelo “exército de ocupação, personificado pelo departamento de polícia”, a gestão doméstica das populações negras como colonização interna <strong>[20]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, seu argumento começa a se triangular com o colapso da estrutura dos direitos civis, com seus ganhos progressivos que pareciam conquistáveis durante um período de expansão, e com pensadores como Gilmore, que consideram a ascensão do estado carcerário como uma gestão do excedente. O capital sustenta e impulsiona o colonialismo, ao mesmo tempo em que garante a proliferação de populações excedentes, em uma dinâmica combinada que poderíamos chamar de divisão global do não trabalho. Mas não é o capital em sentido direto que disciplina ou expropria as populações excedentes. Nem o capital é capaz, no final das contas, de comprar a paz social. As <em>classes perigosas globais</em> estão unidas não por seu papel como produtoras, mas por sua relação com a violência estatal. É nisso que se encontra a base da rebelião excedente e de sua forma, que deve exceder a lógica do reconhecimento e da negociação. “A descolonização, que se propõe a mudar a ordem do mundo”, declara Fanon, “é claramente uma agenda para a desordem total” <strong>[21]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">À luz disso, devemos observar que a origem da <em>revolta linha</em> não está no mercado da Europa moderna, mas nas rebeliões de escravos e nos levantes anticoloniais dos séculos XVIII e XIX, entre aqueles para quem a servidão já era imposta por meio de violência direta e sancionada. Ranajit Guha insiste tanto no aspecto organizacional dessas lutas quanto nas consequências de ignorá-lo. “A insurgência”, observa ele, “foi uma iniciativa motivada e consciente por parte das massas rurais”. Ele continua:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">No entanto, essa consciência parece ter recebido pouca atenção na literatura sobre o assunto. A historiografia se contentou em tratar o camponês rebelde apenas como uma pessoa empírica ou membro de uma classe, mas não como uma entidade cuja vontade e razão constituíram uma práxis chamada rebelião. A omissão está presente na maioria das narrativas por meio de metáforas que assimilam as revoltas camponesas a fenômenos naturais: elas eclodem como tempestades, agitam-se como terremotos, contaminam como epidemias <strong>[22]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essa percepção entra no debate familiar entre agência e determinação. Se ela se limita a um lado do par dialético, é certamente em um esforço para revelar os efeitos retóricos perniciosos da unilateralidade oposta e sua suposta objetividade. Guha captura eloquentemente um efeito observado anteriormente, no qual a suposta espontaneidade de tais rebeliões se torna uma oportunidade ideológica para tratar os rebeldes como reflexivos e naturais, carentes de racionalidade, não soberanos, socialmente determinados, mas não determinantes, não totalmente humanos — o que, por sua vez, permite a racialização contínua dos participantes das revoltas e a justificativa implícita para a dominação racializada. Rebelar-se é não atingir a medida do humano. É falhar em ser o sujeito.</p>
<p style="text-align: justify;">É possível ver exemplos desse debate antagônico sobre os sujeitos adequados logo no início da Longa Crise. Em 1972, Alain Badiou rejeita com não pouco sarcasmo “a brilhante novidade das massas marginais dissidentes”, uma rejeição conquistada por sua associação com a desordem (sob as rubricas teóricas usuais de fluxo e jogo livre e assim por diante), em favor da “sistematização finalmente coerente das práticas revolucionárias de seu tempo” de Marx e Engels <strong>[23]</strong>. Entre os muitos defensores dessa visão, Badiou é particularmente sugestivo por suas mudanças posteriores de simpatia para o lado da “ralé”, em seu <em>Renascimento da História</em> (no qual ele adota com simpatia o termo racialmente codificado ”<em>racaille</em>“ para seus protagonistas, a palavra para “ralé” usada como arma pelo então ministro do Interior Sarkozy contra os manifestantes franceses de 2005). Trata-se, porém, de uma mudança incompleta: para o “comunismo genérico” de Badiou, a ordem ainda está na ordem do dia, embora agora sob a rubrica da Ideia, em vez do Partido. No entanto, sua travessia registra uma mudança mais profunda na base material para a compreensão desses atores, que dissolve qualquer antinomia entre as “massas marginais dissidentes” e uma visão de como as possibilidades revolucionárias podem se desenrolar.</p>
<p style="text-align: justify;">Este é o conteúdo vital da recomposição de classe em nível global. A insistência de Guha no aspecto consciente e racional, na subjetividade revolucionária, de levantes aparentemente espontâneos no que às vezes é chamado de “periferia” exemplifica uma réplica àqueles que descartariam tais lutas. Por si só, ela permanece parcial. O relato de Fanon sobre a chegada implacável das populações excedentes ao cenário político e sua relação intransigente com certas formas de ação coletiva é seu complemento necessário. A trajetória que ele traça só se intensificou à medida que “as cidades se tornaram um depósito de lixo para uma população excedente que trabalha em indústrias de serviços e comércio informais, sem qualificação, sem proteção e com baixos salários” <strong>[24]</strong>. O alcance desse desenvolvimento é abordado em <em>Planeta Favela</em>, de Mike Davis, um resumo impressionante das populações excedentes globais. Um aspecto dessa dinâmica é a certeza de que esses desenvolvimentos chegarão de forma ainda mais dramática ao núcleo em desindustrialização, à medida que a superfluidade racializada progride.</p>
<p style="text-align: justify;">Houve, então, uma espécie de dupla chegada de revoltas ao Ocidente em processo de desindustrialização. Ou, melhor dizendo, das condições nas quais as lutas que serão chamadas de revoltas são inevitáveis. Isso veio das revoltas relacionadas com a exportação e o mercado dos séculos XVII e XVIII, e vêm de dentro para fora, da periferia para o centro. O duplo movimento é uma convergência das lógicas colonialista e capitalista, cujas desordens acabam por se voltar contra elas próprias.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>A Revolta Pública</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Logo no início, deparámo-nos com a primeira fraqueza da categoria “revolta racial”: a ambiguidade do próprio conceito de “raça”. Gilmore, juntamente com muitos outros estudiosos, argumenta que a raça não tem existência autônoma. Mas também não é uma invenção. Em vez disso, é produzida por meio de um processo que ela chama de “racismo” e que temos chamado de “racialização”, que ela define como “a produção e exploração sancionadas pelo Estado ou extralegais da vulnerabilidade diferenciada por grupo à morte prematura” <strong>[25]</strong>. Chris Chen defende que não devemos nos concentrar na “raça”, mas na atribuição racial, os processos estruturais através dos quais a raça é produzida, como distinta “dos atos voluntários de identificação cultural — e de uma série de respostas à regra racial, desde a fuga até a revolta armada”<strong> [26]</strong>. Concordando com o argumento mais amplo, sugerimos, no entanto, que atribuições ideológicas pré-existentes de significado (e não significado) a revoltas e levantes participam dessa atribuição. A revolta, apesar de sua inevitabilidade sistematicamente produzida, é um dos momentos de vulnerabilidade de que fala Gilmore; é a forma de luta dada às populações excedentes, já racializadas. Entrar em uma revolta é estar na categoria de pessoas cuja localização na estrutura social as obriga a algumas formas de ação coletiva em vez de outras. Assim, podemos finalmente argumentar que o termo “revolta racial” tem um sentido invertido: não o de raça como causa da revolta, mas o da revolta como parte do processo contínuo de racialização. Não é a raça que causa as revoltas, mas as revoltas que criam a raça.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159651" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks.webp" alt="" width="1440" height="960" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks.webp 1440w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks-1024x683.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Gordon-Parks-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1440px) 100vw, 1440px" />Essa formulação deve nos levar mais uma vez à descoberta de que “raça é a modalidade na qual a classe é vivida”. A frase se tornou tão conhecida que escapou de seu contexto. Acaba sendo uma afirmação sobre, entre outras coisas, revoltas. Em uma passagem anterior geralmente ignorada do mesmo texto coautorado, encontramos uma formulação mais ampla que fundamenta a frase em lutas concretas. “É na modalidade da raça que aqueles que as estruturas sistematicamente exploram, excluem e subordinam se descobrem como uma classe explorada, excluída e subordinada. Assim, é principalmente na e através da modalidade da raça que a resistência, a oposição e a rebelião se expressam <em>pela primeira vez</em>” <strong>[27]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O ”<em>primeiro</em>“ é significativo. Isso implica que os encontros confrontacionais acabam por se abrir para outras modalidades — para a classe, concluímos, dada a formulação epigramática posterior. Ao mesmo tempo, “modalidade” busca superar a hierarquia da aparência e da essência, em que o que pode parecer uma experiência de raça é posteriormente revelado como a verdade da classe. Em vez disso, há uma continuidade e uma mistura. Aqui, devemos lembrar que a fórmula de Hall se centra originalmente na negritude, e as dificuldades surgem quando isso é casualmente atribuído à raça de forma mais ampla. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, de maneiras diferentes, uma histórica antinegritude constituiu hierarquias de racialização, de modo que as populações negras pobres se aproximam da exposição absoluta à superfluidade e à violência estatal. Ao longo dessa hierarquia, encontramos uma interação mutável de exploração e exclusão, dominações impessoais e gestão diretamente violenta. A lógica de um excedente estruturalmente racializado que informa um novo proletariado atravessa a aparente antinomia de raça e classe para revelar a racialização como característica e motor da recomposição de classe.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a categoria de excedente permite um meio flexível e até mesmo amplo de avaliar as transformações em curso. Excedente não é sinônimo de raça; nem é facilmente separável dela. Estamos no meio de um êxodo contínuo para o mundo superdesenvolvido, impulsionado pela volatilidade geopolítica e pela incapacidade do capital de absorver força de trabalho adequada nas regiões emergentes do sistema mundial — uma diáspora inseparável da expansão da superfluidade. Isso não pode deixar de exercer pressão também sobre os protocolos de racialização, sobre as formas e os enquadramentos da exclusão. À luz desse surgimento contemporâneo de populações excedentes e da política do excedente, podemos agora avançar da sugestão anterior de revolta como uma modalidade de raça para uma proposição ampliada: <em>revolta é a modalidade através da qual o excedente é vivido</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Dizer isso é dizer que a <em>circulação linha</em> é a era da <em>revolta linha</em>, e não simplesmente no sentido de que apresenta um aumento nos eventos de revolta, tanto em termos absolutos quanto relativos às greves. A <em>revolta linha</em> é a condição em que a vida excedente <em>é</em> revolta, é o sujeito da política e o objeto da violência estatal contínua. Dentro da reorganização social da Longa Crise, o público do excedente é tratado como revolta em todos os momentos — incipiente, em andamento, em exaustão — não por erro, mas por reconhecimento. Como escreve a filósofa Nina Power em seu inventário contraditório “Trinta e uma teses sobre o problema do público”, “O público nunca existiu” — mas também, “o público nem sempre coincide com o nada que deveria ser”. O excedente é nada e deve ser tudo. Assim, Tese 31: “O público é uma lenta revolta” <strong>[28]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Power também observa que “a polícia é o público e o público é a polícia”. A ambiguidade surge, sem dúvida, da origem da frase com Robert Peel, fundador da polícia moderna no Reino Unido, e com sua visão da polícia como expressão de uma vontade social mais geral, em vez de ser uma força imposta de fora. Um pensamento nobre, sem dúvida. A verdade esporádica desse sentido reside na maneira como o público, como uma população cívica, assume uma espécie de autopoliciamento liberal, que está sempre passivamente presente e muitas vezes se manifesta durante revoltas ativas, quando cidadãos amantes da liberdade se apressam em disciplinar seus pares com apelos por um pacifismo ético que, se inicialmente ignorados, são repetidos com a ameaça de que um policial uniformizado será chamado para ajudar na emancipação do agitador. A revolta, nesse sentido, carrega sua polícia dentro de si.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso é duplamente verdadeiro, pois outro sentido possível, encontrado anteriormente, reside na integração da função policial do Estado com a <em>revolta linha</em>. Dadas as formas como a violência estatal existe agora no lugar da economia, o público do excedente existe em uma economia de violência estatal. Mas isso funciona como um limite. Essa exposição contínua proporciona uma unidade e um autorreconhecimento e, portanto, não pode ser facilmente eliminada. Esse é um enigma para o público do excedente, para a <em>revolta linha</em>, que se torna aparente quando a revolta aberta irrompe:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A polícia, nesse sentido, não é uma força externa de ordem aplicada pelo Estado a uma massa já em revolta, mas parte integrante da revolta: não apenas seu componente padrão, agindo por meio da morte habitual, pelas mãos da polícia, de algum jovem negro, mas também o parceiro necessário e contínuo da multidão em revolta, da qual o espaço deve ser liberado para que essa libertação tenha algum significado; que deve ser atacado como inimigo para que a multidão se una em alguma coisa; que deve ser forçado a reconhecer a agência de um grupo habitualmente subjugado <strong>[29]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Não se pode deixar de encontrar nessa relação a cena hegeliana do reconhecimento, a dialética polícia-revolta tão característica do auge da revolta. Imediatamente nos lembramos da transposição de Fanon da mesma cena para a situação colonial — bem como da afirmação de Susan Buck-Morss de que Hegel se baseou na luta anticolonial do Haiti para sua formulação original, de modo que a interpretação de Fanon é menos uma transposição do que a conclusão de um circuito <strong>[30]</strong>. A luta pela descolonização, na narrativa de Fanon, deve transcender o reconhecimento, dado que os colonizados não podem ser absorvidos nem pelo Estado como cidadãos livres nem pela economia como força de trabalho livre. Assim, ela deve se resumir a “simplesmente a substituição de uma &#8216;espécie&#8217; da humanidade por outra. A substituição é incondicional, absoluta, total e perfeita” <strong>[31]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Devemos ter claro que a situação da Longa Crise nas nações em desindustrialização não é comparável ao cenário da luta anticolonial. Nem, como observado acima, é alheia a ela. As separações conceituais entre centro e periferia, primeiro e terceiro mundos, etc., têm menos valor do que nunca. A conjuntura, como foi sugerido, está na presença crescente de uma população cujo trabalho nunca pode ser objetivado. A redistribuição está fora de questão, pois os que têm se agarram cada vez mais implacavelmente à riqueza cada vez menor do sistema mundial, concentrando-a ainda mais. Os estruturalmente excluídos se reúnem nas ruas e praças, nas áreas de espera e nos anéis externos das cidades reluzentes e moribundas. <em>Nós somos a crise</em>. Historicamente, os regimes de acumulação no Reino Unido e nos Estados Unidos encontraram maneiras de absorver essas populações, de fornecer uma rota para sua autorreprodução, que é também a reprodução do capital. Agora, a questão da reprodução proletária olha cada vez mais além do salário. No entanto, os sujeitos da <em>revolta linha</em> não podem imaginar uma subsistência significativa no mercado, à maneira da era anterior da revolta. A separação entre produção e troca e a presença da polícia são a ausência dessa possibilidade. A grande recomposição de classes e a abstração da economia são uma e a mesma coisa. A fixação de preços, mesmo em sua forma contemporânea, prova ser o mais transitório dos paliativos. O público cuja modalidade é a revolta deve eventualmente enfrentar a necessidade de buscar a reprodução não apenas além do salário, mas além do mercado.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse sentido que a revolta é o sinal de uma situação que deve, no final, se absolutizar. Não por causa de alguma natureza selvagem e afetiva da revolta, embora aqueles que tiveram tais experiências saibam que essa é uma força surpreendente, mas por causa da situação ainda em desenvolvimento e ainda em deterioração em que ela se encontra. A <em>revolta linha</em> não é uma demanda, mas uma guerra civil.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos, então, algo como uma última contradição. Por um lado, a revolta deve se absolutizar, avançar em direção a uma autorreprodução além do salário e do mercado, em direção ao arranjo social que definimos como comuna, sempre uma guerra civil. Por outro lado, a revolta está envolvida interna e externamente com a função policial, que parece um bloqueio a qualquer absolutização desse tipo. Essa contradição oferece algumas maneiras de pensar sobre as revoltas, rebeliões e levantes dos anos desde o colapso do mercado global em 2008 — os detalhes históricos que elas incorporam, os fracassos que carregam, o futuro que sugerem.</p>
<p style="text-align: justify;">Na falta de pesquisas abrangentes, teremos que nos contentar com modelos. Dois exemplos serão particularmente sugestivos ao considerar a situação atual da <em>revolta linha</em> no mundo superdesenvolvido. Duas paisagens, então: a praça e a rua. Assim como o porto e a fábrica eram os locais de revoltas e greves, respectivamente, esses são os locais naturais da <em>revolta linha</em>. São locais de circulação, de circulação de corpos e mercadorias. Eles valorizam a lógica das lutas de circulação e mostram o desenvolvimento histórico incompleto dessa dinâmica. Um cenário é a série de ocupações de praças de 2011 conhecida como Occupy, a versão americana do movimento internacional das praças. A outra é a onda de revoltas de 2014, primeiro locais e depois nacionais, que se seguiram, respectivamente, ao assassinato de Michael Brown em Ferguson, Missouri, e à decisão de não indiciar seu assassino, o policial Darren Wilson. Quando essas revoltas escapam do subúrbio, eles se espalham por vinte cidades, incluindo cada uma das cidades mencionadas na passagem de <em>The Spook Who Sat by the Door</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Por exemplo, o Instituto Minerva, financiado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Ver “História e visão geral do programa”, minerva.dtic.mil.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> William Godwin, <em>Enquiry Concerning Political Justice and its Influence on Morals and Happiness</em>, vol. I, Londres: G.G.J.and J. Robinson, 1793, 208.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Comitê Invisível, <em>Coming Insurrection,</em> 12 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Sam Greenlee, <em>The Spook Who Sat by the Door</em>, Detroit: Wayne State University Press, 1969, 236.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Gilmore, <em>Golden Gulag</em>, 54.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Marx, <em>O Capital</em>, vol. 1, 783.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Jan Breman, <em>Outcast Labour in Asia: Circulation and the Informalization of the Workforce at the Bottom of the Economy</em>, Nova Délhi: Oxford India Press, 2010, 24. Para outra abordagem sistemática da população excedente, ver Aaron Benanav, <em>A Global History of Unemployment since 1949</em>, Londres: Verso, no prelo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Gilles Deleuze, “Postscript on the Societies of Control,” <em>October </em>59, inverno de 1992, 6-7.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Sahan Savas Karatasli, Sefika Kumal, Ben Scully e Smriti Upadhyay, “Class, Crisis, and the 2011 Protest Wave: Cyclical and Secular Trends in Global Labor Unrest” (Classe, crise e a onda de protestos de 2011: tendências cíclicas e seculares na agitação trabalhista global), em <em>Overcoming Global Inequities</em>, eds. Immanuel Wallerstein, Christopher Chase-Dunn e Christian Suter, Londres: Paradigm Publishers, 2015, 192.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Breman, <em>Outcast Labour</em>, 366.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Para uma avaliação completa do aumento da população excedente e da informalização, ver Ibid., 361-8; e Jacques Charmes, “The Informal Economy Worldwide: Trends and Characteristics,”<em> Margin: The Journal of Applied Economic Research</em> 6: 2, 2012, 103-32.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Aaron Benanav, “Precarity Rising”, <em>Viewpoint Magazine</em>, 15 de junho de 2015.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Gilles Dauvé, <em>Eclipse and Re-emergence of the Communist Movement</em>, Oakland: PM Press, 2015, 47.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Thomas Mitschein, Henrique Miranda e Mariceli Paraense, Urbanização, selvagem e proletarização passiva na Amazônia: o caso de Belém, Belém, 1989, citado em Mike Davis, <em>Planet of the Slums</em>, Londres: Verso, 2006, 175.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Stuart Hall et al., <em>Policing the Crisis: Mugging, the State, and Law and Order</em>, Londres: Macmillan, 1978, 394. Embora a fonte citada seja de autoria coletiva, essa formulação é geralmente atribuída a Hall, em parte porque aparece em obras posteriores de autoria única sob seu nome.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Robert W. Fairlie e William A. Sundstrom, “The Racial Unemployment Gap in Long-Run Perspective,” <em>The American Economic Review</em>, 87: 2, maio de 1997, 307, 309. Observe que a maioria dos dados deste estudo se refere ao emprego masculino.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Gilmore, <em>Golden Gulag</em>, 26-7.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Ibid., 15, 113.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Frantz Fanon, <em>The Wretched of the Earth</em>, Nova York: Grove Atlantic Press, 2005, 207, 81.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Newton, <em>Newton Reader</em>, 135, 149.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Fanon, <em>Wretched</em>, 3.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> Ranajit Guha, “The Prose of Counter-Insurgency”, em <em>Selected Subaltern Studies</em>, eds. Ranajit Guha e Gayatri ChakravortySpivak, Oxford: Oxford University Press, 1988, 46.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Alain Badiou, <em>Théorie de la contradiction</em>, Paris: Librairie François Maspero, 1972, 72. Traduzido por Eleanor Kaufman em “The Desire Called Mao: Badiou and the Legacy of Libidinal Economy”, <em>Postmodern Culture</em> 18: 1, setembro de 2007.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos, <em>The Challenge of Slums: Global Reports on Human Settlements</em>, 2003, Londres: Routledge, 2003, 40.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Gilmore, <em>Golden Gulag</em>, 28.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> Chen, “Limit Point”, 205.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[27]</strong> Hall et al., <em>Crisis</em>, 347 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[28]</strong> Nina Power, “Thirty-One Theses on the Problem of the Public”, <em>Objective Considerations of Contemporary Phenomena</em>, MOTINTERNATIONAL, 2014.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[29]</strong> “A Rising Tide Lifts All Boats”, <em>Endnotes</em> 3, 2013, 98.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[30]</strong> Susan Buck-Morss, “Hegel and Haiti”, <em>Critical Inquiry</em> 26: 4, verão de 2000, 821-65.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[31]</strong> Fanon, <em>Wretched</em>, 1.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram este artigo são de Gordon Parks (1912–2006)</em></p>
</blockquote>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>A emergência, a centralidade e o fim do trabalho (2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 15 Aug 2026 11:57:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Hoje, como no passado, é impossível dar uma definição substantiva ao trabalho, ou seja, defini-lo pela natureza das atividades que se supõe que ele reúne ou por seu uso. Por Michel Freyssenet]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Michel Freyssenet</strong></h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As relações capital-trabalho e o trabalho que essa relação historicamente engendrou não estão ligadas conceitualmente à produção material</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em suas pesquisas sobre o trabalho produtivo e improdutivo, Marx mostrou que essa distinção só tem significado em relação a uma forma de acumulação social. Retomando a tese de Adam Smith e defendendo-a contra J. B. Say e os pós-clássicos, ele mostra que a definição de trabalhador produtivo como produtor de valores de uso não tem interesse científico, qualquer pessoa o sendo a partir do momento em que o produto material ou imaterial de sua atividade encontra algum uso, mesmo que seja fantasioso. O objetivo da produção capitalista não sendo a produção de valores de uso ou mercadorias por si mesmas, mas a reprodução do valor antigo e a criação de mais-valia, o trabalho produtivo é, portanto, aquele que é trocado por capital, enquanto o trabalho improdutivo é aquele que é trocado por renda, qualquer que seja sua forma (salário, lucro, anuidade, imposto e assim por diante).</p>
<p style="text-align: justify;">Marx diferencia-se de Smith em um ponto importante. Para Smith, o trabalho produtivo de capital corresponde à produção de bens materiais na forma de mercadorias, e o trabalho improdutivo na forma de &#8216;serviços&#8217;, definidos como trocas de pessoa para pessoa. Ele estabelece, portanto, a distinção produtivo-improdutivo não apenas na relação do trabalho com o capital, mas também em uma diferença na natureza da atividade. Ele introduz uma segunda determinação: a da materialidade do produto. Ao contrário, Marx mostra que, se é verdade que o trabalho produtivo de capital produz bens materiais na maioria das vezes, sua definição não tem nada a ver com seu conteúdo concreto, mas designa exclusivamente uma relação social. Uma pessoa exercendo a mesma atividade &#8211; cozinhar, por exemplo &#8211; será produtiva ou improdutiva do ponto de vista do capital, dependendo se vende sua capacidade de trabalho para um dono de restaurante ou para um indivíduo: isto é, dependendo se sua capacidade de trabalho é trocada por capital para valorizá-lo ou por renda para satisfazer as necessidades do detentor dessa renda. Um professor será produtivo (do ponto de vista do capital) se for empregado por uma instituição escolar com fins lucrativos, mas improdutivo de capital se der aulas particulares em uma família ou no sistema educacional nacional. Quando Marx diz que a característica dos “trabalhadores produtivos, o que significa trabalhadores que produzem capital, é que seu trabalho se manifesta em mercadorias ou riqueza material”, ele fala de mercadorias no sentido de valor de troca, ele designa “uma existência social fictícia e puramente social das mercadorias, absolutamente distinta de sua realidade física; … a ilusão decorre aqui de como uma relação social se manifesta na forma de um objeto” (Marx, 1932: 33-4).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159638" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749.jpg" alt="" width="1473" height="1600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749.jpg 1473w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-276x300.jpg 276w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-943x1024.jpg 943w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-768x834.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-1414x1536.jpg 1414w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-387x420.jpg 387w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-640x695.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/896ad9fc598ff4af8d946e3c1a1517f3-1656250749-681x740.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1473px) 100vw, 1473px" />Ao considerar o conceito de relação capital-trabalho como uma relação puramente social, ao mostrar que ela não está ligada à produção material, Marx transforma, portanto, essa &#8216;relação social de produção&#8217;, historicamente datada, em uma relação cuja preeminência sobre outras relações não pode mais advir de atividades que servem à reprodução material de uma sociedade. Ele nunca parece ter tirado tal conclusão. Ainda assim, ela decorre logicamente de sua análise do trabalho produtivo do capital. Ela está, como foi visto, em contradição com o naturalismo materialista de <em>A Ideologia Alemã</em> <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, hoje, como no passado, é impossível dar uma definição substantiva ao trabalho, ou seja, defini-lo pela natureza das atividades que se supõe que ele reúne ou por seu uso.oje, como no passado, é impossível dar uma definição substantiva ao trabalho, ou seja, defini-lo pela natureza das atividades que se supõe que ele reúne ou por seu uso.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas sociedades capitalistas, a mesma atividade pode ser trabalho ou não-trabalho. Sua natureza não faz diferença. Depende se a atividade é realizada ou não em uma das três relações sociais: a relação de emprego, a relação mercantil (nem em todos os casos) e a relação doméstica (que está começando a ser, mas não é admitida por todos). Deve-se finalmente notar que um número crescente de atividades, tidas como não fazendo parte da economia e não sendo trabalho, tornam-se trabalho com a difusão da relação de emprego e, particularmente, da relação capital-trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma dada atividade pode ser trabalho ou não-trabalho de acordo com o momento ou a pessoa que a realiza: jardinagem, dirigir, cozinhar, construir, cantar etc. A mesma atividade pode ser trabalho e não-trabalho ao mesmo tempo. Assim, uma pessoa com seus próprios filhos cuida simultaneamente dos filhos de outros em troca de remuneração. Portanto, só se pode dizer que uma atividade é trabalho se a relação social na qual é realizada for especificada. E hoje, há apenas três relações sociais que estimulam a reflexão sobre o trabalho: as relações de emprego, mercantil e doméstica.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159637" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288.jpg" alt="" width="474" height="474" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/OIP-3801622288-420x420.jpg 420w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" />As relações sociais que transformam atividades em trabalho não estão mais ligadas a uma área social particular. Elas são suscetíveis de organizar atividades muito diversas, muitas das quais não fazem parte do que é comumente acordado como produção, ou do campo econômico.</p>
<p style="text-align: justify;">A relação capital-trabalho, por exemplo, expandiu-se e continua a se expandir cada vez mais para atividades consideradas no passado como fora da esfera econômica: lazer, esportes, política, religião, símbolos, ciência, arte, filosofia, polícia etc. Ela não dizia respeito, originalmente, às atividades essenciais da vida material. Ela tardou em incluir as atividades agrícolas em alguns países. Seus limites variáveis no tempo e no espaço, as tentativas muitas vezes vãs de conter o expansionismo, mostram que é uma relação indiferente à natureza das atividades que organiza. Por exemplo, hoje, começam as discussões para descobrir sob qual relação social (doação, compensação, compra ou salário) toda ou parte da reprodução humana será realizada no futuro, ou mesmo o ato de &#8216;acompanhar&#8217; os moribundos. A relação capital-trabalho é, portanto, uma relação social capaz de se espalhar para todos os tipos de atividades. Nenhuma delas, <em>a priori</em>, pode escapar a essa relação por sua natureza. Mesmo essa expansão, ultrapassando todas as fronteiras atualmente estabelecidas nas sociedades ocidentais entre os tipos de atividades humanas, confirma o caráter puramente social e histórico da economia e do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Desse ponto de vista, pode-se dizer que o trabalho se torna sempre central: tanto porque é, para o maior número, a forma indispensável de atividade para acessar os recursos materiais e imateriais necessários para viver em nossas sociedades, quanto porque está se tornando cada vez mais a manifestação das atividades humanas. Hoje, cabe à sociedade descobrir se limites não deveriam ser impostos à mercantilização das relações humanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim que uma das relações sociais conhecidas como de produção &#8211; neste caso, a relação capital-trabalho &#8211; não está ligada conceitualmente à reprodução material da vida em sociedade, torna-se impossível fazer deste último o critério de definição e insistir na preeminência das relações sociais de produção em geral sobre outras relações sociais. Esse fato invalida a possibilidade de construir um conceito universal de relações sociais de produção e leva a considerar a relação capital-trabalho como uma relação &#8216;totalmente social&#8217; &#8211; ou seja, como uma relação que não pertence a uma área particular de atividade que existiria fora dela mesma; que não pertence a uma categoria particular de relações sociais; que é única como todas as relações sociais o são; que é capaz de organizar a quase-totalidade da vida social, como outras relações sociais na história parecem ter sido capazes de fazer; e, finalmente, que não apresenta uma dimensão que prevalece sobre as outras, como a própria análise da relação capital-trabalho mostra, sendo essa relação tão política e simbólica quanto econômica.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalho seria então uma pura construção social sem nenhum vínculo com as exigências naturais? Como é possível compreender que uma relação social possa historicamente prevalecer sobre outras, e às vezes hegemonizar e homogeneizar todo o social, se ela não obtém controle sobre as atividades &#8216;vitais&#8217; das sociedades consideradas? É difícil acreditar que não existem condições necessárias para a reprodução de qualquer sociedade na espécie humana, e que as condições específicas de cada sociedade são as únicas que contam.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas essas condições gerais são múltiplas: comer e beber, claro, possivelmente vestir-se e abrigar-se, mas também procriar, respirar, comunicar-se, ser reconhecido, mover-se, não ser morto e muitas outras condições conhecidas ou desconhecidas. Essas condições &#8216;vitais&#8217; só se tornam vitais e são percebidas como tais a partir do momento em que não são mais dadas natural ou socialmente a todos ou ao maior número. É por isso que algumas (como respirar) são risíveis, porque até agora o ar, embora de qualidade variável, permanece diretamente acessível a todos. Esse exemplo, no entanto, tem o mérito de lembrar o caráter social e histórico das condições de reprodução da vida em sociedade. Elas só adquirem o status de condições se forem objetos de rarefação natural, de apropriação social ou de restrição coletiva. Nesse ponto, pode-se pensar que a reprodução material e o trabalho como uma atividade que lhe seria dedicada não puderam ser socialmente importantes ou fundantes, se outras condições igualmente essenciais para a vida em sociedade ou para tal ou qual sociedade fossem o objeto preferencial de apropriação privada ou de controle político por uma minoria.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159639" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893.jpg" alt="" width="900" height="700" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-300x233.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-768x597.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-540x420.jpg 540w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-640x498.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/helio-oiticica-mam-rio-1220817893-681x530.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />Dessa perspectiva, cada relação social teria seu valor, sua economia, sua racionalidade, sua forma de repartição e divisão das atividades que governa, seus princípios técnicos, e assim por diante, podendo tornar-se os de uma sociedade, se essa relação social acabar prevalecendo sobre as outras historicamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, pode-se levantar a hipótese de que uma relação social se torna importante quando transforma alguns dados naturais ou culturais em questões sociais em jogo, em condições não garantidas de vida em sociedade e nos meios de diferenciação e controle. Essa relação social se torna fundamental quando é capaz de ser o caminho indispensável para aceder ao que se tornaram os recursos materiais e imateriais (de qualquer tipo) necessários à vida na sociedade considerada.</p>
<p style="text-align: justify;">O que se entende por economia e por trabalho não existiria e, portanto, só seria importante nas sociedades capitalistas. Eles herdariam suas características centrais do que são a manifestação e designação naturalizadas de uma relação social que se tornou hegemônica ao governar certas condições gerais necessárias à vida em sociedade e as condições particulares pertencentes às nossas próprias sociedades.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Pode ser necessário hoje reter esse esforço dos trabalhos científicos de Marx &#8211; que pode ser visto em sua escrita e ainda mais à medida que ele coloca suas próprias análises em questão, particularmente aquelas da desnaturalização e historicização de noções e realidades comuns &#8211; um esforço que está longe de ter sido perseguido, inclusive por aqueles que denunciaram o materialismo de Marx, como visto na convicção amplamente difundida em todos os tipos de correntes filosóficas e políticas de que o trabalho é inerente à condição humana.</p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são de obras de Hélio Oiticia(1937-1980).</em></p>
<blockquote><p>Este artigo será publicado em três partes, a <a href="https://passapalavra.info/2026/07/159546/" target="_blank" rel="noopener">parte 1</a> está aqui, e a parte 3 será publicada em uma semana.</p></blockquote>
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			</item>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (9)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/08/159606/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 Aug 2026 19:54:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[A mudança nas formas de ação coletiva é uma habilidade dialética. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>PARTE 3: REVOLTA LINHA</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 7</strong></h5>
<h6 style="text-align: justify;"><strong>A Longa Crise</strong></h6>
<p style="text-align: justify;">A revolta e a crise chegam juntas, cada uma anunciando a outra. A nova era de revoltas surge não apenas com a intensificação das rebeliões urbanas e suburbanas, mas também com o eclipse dos movimentos operários, as linhas de tendência das revoltas e greves primeiro se cruzando e depois divergindo, em sincronia com o auge e o declínio do “longo século XX” da hegemonia americana. O que a crise tem a ver com as revoltas, além dessa coincidência e de uma sensação ansiosa e difusa de que as coisas estão desmoronando?</p>
<p style="text-align: justify;">A profunda relação entre revoltas e crises é o tema do restante deste livro, principalmente por causa de nosso argumento central: <em>a crise sinaliza uma mudança do centro de gravidade do capital para a circulação, tanto teórica quanto praticamente, e as revoltas devem ser entendidas, em última instância, como uma luta pela circulação, da qual a luta pela fixação de preços e a rebelião do excedente são formas distintas, embora relacionadas</em>. Nos capítulos anteriores, isso foi aventado de forma fragmentada e agora merece um desdobramento sistemático. Isso é particularmente necessário, dado que a crise aparece na maioria das vezes como um evento pontual, mesmo que expresse um processo subjacente e contínuo no qual o capital encontra seus limites internos e luta violentamente para superá-los. A crise é o ponto de exclamação de uma profunda reorganização social. As revoltas expressam essa organização social alterada, dirigem-se a ela e procuram aboli-la e, assim, a si próprias.</p>
<p style="text-align: justify;">A Longa Recessão, para usar a linguagem de Brenner, é semelhante a declínios anteriores. Este livro argumenta, no entanto, que as últimas quatro décadas podem ser entendidas de forma um pouco diferente, como uma Longa Crise. O período atual distingue-se de passagens semelhantes em ciclos anteriores na medida em que as recuperações do tipo visto anteriormente permanecem invisíveis do nosso ponto de vista. Historicamente, o capital resolveu sua contradição em desenvolvimento realocando-se para outro lugar, buscando uma circunstância em que a produção ainda não tivesse se prejudicado e o processo de acumulação pudesse recomeçar em uma base nova e ampliada. Isso tem o efeito de restabilizar o sistema mundial capitalista volatilizado pela crise secular. Não está claro se isso aconteceu ou está em andamento nos anos desde a recessão econômica global do final dos anos 1960 e início dos anos 1970. As tentativas de uma nova hegemonia pelas economias do Leste Asiático e da zona do euro fracassaram no caminho; as “economias emergentes” parecem já estar muito avançadas em sua produtividade para impulsionar a acumulação em escala global, internalizando massas de nova mão de obra na indústria ou na categoria mais ampla da manufatura <strong>[1]</strong>. O mal-estar planetário persiste, e com ele a volatilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso não significa que as realocações e restaurações da acumulação de capital sejam impossíveis. Só por sua conta e risco se faz afirmações contundentes sobre um período histórico enquanto ainda se vive nele. Portanto, essas observações devem ser um tanto provisórias, uma tentativa de desenvolver um relato razoavelmente unificado da época. Há, pelo menos, algum consenso sobre por onde começar.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159614" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935.jpg" alt="" width="653" height="881" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935.jpg 653w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935-222x300.jpg 222w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935-311x420.jpg 311w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mario-Sironi-Uomo-nuovo-1918-472476935-640x863.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 653px) 100vw, 653px" />“E quanto a 1973-1974, então?”, questionou Fernand Braudel, grande historiador da <em>longue durée</em>. O ano de 1973 vê o primeiro de uma série de choques do petróleo, a retirada formal dos EUA de sua aventura no Sudeste Asiático e o colapso final do sistema monetário de Bretton Woods, preparando o terreno para o aumento dos desequilíbrios comerciais e da conta corrente; concomitantemente, há uma desaceleração global dos mercados. Este é apenas o começo do história. “Trata-se de uma crise conjuntural de curto prazo, como a maioria dos economistas parecem pensar assim? Ou tivemos o privilégio raro e nada invejável de ver com nossos próprios olhos o início da virada do século?” <strong>[2]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As perguntas são retóricas. Braudel está avaliando os “ciclos seculares”, os períodos econômicos mais longos — o que Arrighi esclareceria como ciclos de acumulação liderados por um Estado capaz de impulsionar a expansão material de uma economia mundial, sobre a qual a nação líder alcança hegemonia na medida em que seus ganhos fazem parte dos lucros sistêmicos (e na medida em que é capaz de garantir estabilidade ao sistema interestadual). Ambos os escritores remontam aos impérios comerciais protocapitalistas para uma consideração de quatro ciclos cada vez maiores e mais rápidos, mas com padrões semelhantes. Para Braudel, um ciclo começa quando outro termina, à maneira dos reinados monárquicos. Na versão revisada de Arrighi, eles se sobrepõem, com uma hegemonia entrando em sua fase crepuscular de financeirização, descendo para a escuridão com crédito prolongado, mesmo enquanto financia a aceleração de uma hegemonia emergente em direção à decolagem industrial.</p>
<p style="text-align: justify;">Inevitavelmente, “1973” é uma metonímia para mudanças demasiado amplas para serem contidas num único ano. No entanto, esta datação do “ponto em que a tendência secular começa a entrar em declínio, ou seja, o momento da crise” tornou-se um assunto de amplo consenso entre historiadores e teóricos da <em>longue durée</em>, apesar de diferenças relativamente pequenas <strong>[3]</strong>. Já encontramos o fato mais dramático, da perspectiva da acumulação e da hegemonia: o colapso secular da lucratividade e do crescimento, liderado pelo declínio da indústria manufatureira dos EUA, de tal forma que os melhores anos da recessão são piores do que os melhores anos do <em>boom</em> (com apenas uma ou duas pequenas exceções). Podemos, portanto, datar a ascensão cíclica das finanças a partir desse momento, embora não porque as finanças tenham “expulsado” o capital industrial — um modelo conceitual que abre caminho para a ideia catastrófica de capitalismo bom e ruim, ou capitalismo saudável e doentio. O capital é um espaço unitário de fluxos que buscam oportunidades de investimento que retornem a taxa média de lucro. Quando essa exigência não pode mais ser satisfeita por um setor industrial em crescimento, os lucros são armazenados em refúgios seguros ou reinvestidos em outros lugares em empreendimentos comerciais e/ou instrumentos financeiros. Financeirização é simplesmente o nome dado a essa mudança nos fluxos de capital. Quando observamos a publicação da obra mais célebre da engenharia financeira, o modelo de precificação de opções de Black-Scholes, ou a abertura do primeiro grande mercado de derivativos, a Chicago Board Options Exchange, ambos em 1973, devemos ter claro que essas não são novas armas que permitem às forças financeiras derrubar as paredes da indústria. Elas são consequências da necessidade do capital de espaço para ir além do setor industrial.</p>
<h6 style="text-align: justify;"><em><strong>O Arco da Acumulação</strong></em></h6>
<p style="text-align: justify;">A teoria da crise aborda a questão de por que a expansão industrial deve terminar e dar lugar às longas especulações financeiras em um grande redirecionamento dos fluxos de capital pontuado por uma desvalorização maciça. Arrighi e Brenner, possivelmente os dois historiadores econômicos mais convincentes do período que atingiu seu auge em 1973, oferecem explicações divergentes para esse declínio específico da acumulação, com base em suas diferentes percepções do que é o capitalismo; ambos também divergem em alguns detalhes da teoria abstrata da crise de Marx.</p>
<p style="text-align: justify;">O modelo de Arrighi é pouco teorizado, em consonância com sua abordagem mais descritiva das economias mundiais. Ele sugere uma causalidade um tanto eclética, baseada em uma teoria da crise amplamente smithiana, que pressupõe que a concorrência de mercado corrói constantemente a margem de lucro. As lutas trabalhistas (entendidas à maneira de Karl Polanyi) oferecem outra pressão sobre os lucros, assim como o custo das funções hegemônicas de guarda global. Isso motiva o investimento a se afastar do nexo Estado-Indústria, que se encontra em dificuldades, em direção aos mercados financeiros internacionais.</p>
<p style="text-align: justify;">A teorização mais sistemática de Brenner baseia-se em um modelo de superprodução no qual a capacidade industrial incontestável dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial acaba enfrentando a concorrência de produtores internacionais mais eficientes, notadamente Alemanha e Japão. Com altos níveis de investimento já imobilizados em capital fixo, cujo valor só pode ser recuperado por meio da fabricação de mais commodities, as empresas americanas são incapazes de reduzir a produção e, portanto, ficam presas em uma concorrência fratricida por participação no mercado. As empresas que deveriam ser eliminadas de um setor em uma onda de destruição criativa destinada a abrir canais para um novo crescimento, em vez disso, cambaleiam para frente, muitas vezes apoiadas pelo Estado, que precisa de sua riqueza e gestão de mão de obra para sua estabilidade. Isso leva ao “que foi efetivamente um processo de superinvestimento, levando ao excesso de capacidade e à superprodução na manufatura em escala internacional”, iniciando uma turbulência sistêmica que ainda não diminuiu <strong>[4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ambas as análises permanecem no nível dos preços, o nível quantitativo que descreve a manifestação efetiva da crise. Para a análise do valor de Marx, os movimentos dos lucros são fenômenos superficiais que correspondem a uma mudança subjacente no equilíbrio entre capital constante e variável: meios de produção e trabalho assalariado, ou trabalho morto e vivo. Apesar das forças contrárias, essa chamada composição orgânica do capital tende a aumentar com o tempo, à medida que a concorrência obriga a aumentar a produtividade, substituindo iterativamente o trabalho por máquinas e processos de trabalho mais eficientes (o que o século XX conheceu como fordismo e taylorismo, respectivamente).</p>
<p style="text-align: justify;">Esse domínio crescente do trabalho morto sobre o vivo é uma expressão em toda a sociedade da lei do valor, à medida que o aumento da produtividade diminui a quantidade média de tempo de trabalho socialmente necessário para produzir mercadorias. As consequências econômicas ocorrem de forma desigual. Inicialmente, os aumentos na produtividade geram lucros elevados que atraem mais investimentos e mais mão de obra para a produção. Isso, em combinação, produz uma expansão ainda maior. Com o tempo, porém, o aumento na proporção entre trabalho morto e vivo prejudica a capacidade de produção de valor, sendo o trabalho vivo no processo de produção a única fonte de mais-valia. A mesma dinâmica que originalmente impulsiona a acumulação — o aumento da produtividade no nexo entre salário e mercadoria — também a prejudica, até que a capacidade de produção e a capacidade de trabalho não possam mais ser reunidas e, em vez disso, fábricas vazias e populações desempregadas se acumulem lado a lado. Esse processo ampliado é o que chamamos de <em>produção da não produção</em>. A crise e o declínio não vêm de choques extrínsecos, mas dos limites internos do capital. Podemos chamar isso de “arco de acumulação”, que traça as contradições do capital ao longo do eixo do tempo histórico. Chamá-lo de arco sem dúvida suaviza uma trajetória irregular <strong>[5]</strong>. Além disso, o enredo não expressa algum fato simplesmente quantitativo sobre taxas de crescimento ou similares. Os dois lados do arco, embora ainda sejam arranjos do capitalismo e expressões da dinâmica do valor, são qualitativamente diferentes em sua organização social em uma dialética de continuidade e ruptura.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159611" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/sironi20160819_4-2625409155.jpg" alt="" width="640" height="448" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/sironi20160819_4-2625409155.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/sironi20160819_4-2625409155-300x210.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/sironi20160819_4-2625409155-600x420.jpg 600w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" />No longo século XX, o arco de acumulação viu primeiro a “transferência sem precedentes da população da agricultura para a indústria” e, em seguida, em uma grande reversão, a desindustrialização, afastando a população da indústria e do processo de produção de maneira mais geral, levando-a para o trabalho no setor de serviços ou para o subemprego e o desemprego <strong>[6]</strong>. Essas são reorganizações sociais em escala global.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de suas diferentes análises de causalidade, tanto Brenner quanto Arrighi conseguem escavar a forte relação entre a explicação <em>lógica</em> da acumulação autodestrutiva e a explicação <em>histórica</em> dos ciclos capitalistas, particularmente do ciclo atual em que se concentram. Ou seja, apesar de todas as suas sutilezas metafísicas, o debate sobre a chamada Lei da Tendência da Queda da Taxa de Lucro tem uma correspondência suficiente com as ascensões e quedas que Arrighi apresentou de forma tão abrangente. A explicação de Arrighi começa com a fórmula de Marx para a reprodução ampliada do capital, D-M-D&#8217; (dinheiro-mercadoria-dinheiro&#8217;): o itinerário obrigatório do dinheiro da perspectiva do capitalista, passando para a produção de mercadorias se, e somente se, as mercadorias resultantes puderem ser vendidas a um preço mais alto — pois o capitalista só continua sendo capitalista se isso for possível. A novidade de Arrighi é, então, transferir esse processo lógico para a história empírica de seus “longos séculos”. Ele identifica “a alternância de épocas de expansão material (fases D-M de acumulação de capital) com fases de renascimento e expansão financeira (fases M-D&#8217;)”. Ele narra essa mudança de fase por meio de sua oposição temporal dos períodos D-M e M-D&#8217;:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nas fases de expansão material, o capital monetário “coloca em movimento” uma massa crescente de mercadorias (incluindo a força de trabalho mercantilizada e os dons da natureza); e nas fases de expansão financeira, uma massa crescente de capital monetário “se liberta” de sua forma mercantil, e a acumulação prossegue por meio de transações financeiras (como na fórmula resumida de Marx, D-D´). Juntas, as duas épocas ou fases constituem um ciclo sistêmico completo de acumulação (D-M-D&#8217;) <strong>[7]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na era do capitalismo moderno, essa fase de expansão material é cognata com o crescimento industrial. Nessa fase, a ação principal é a compra de força de trabalho e de meios de produção para a fabricação de mercadorias — ou seja, a valorização dentro do processo de produção. No período de expansão financeira, a principal ação é a venda dessas mercadorias para a realização do valor que elas carregam — ou seja, o capital se recentra no mercado, na troca e no consumo. Esse é o sentido de uma era de circulação da perspectiva do capital: à medida que a capacidade da produção de gerar altos lucros diminui, o capital muda seus investimentos para a realização no presente imediato tanto do valor existente quanto do valor que supostamente está por ser gerado no futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso pode ser formulado de outra maneira. A crise irrompe no momento em que o lucro e a expectativa de lucro deixam de fluir da manufatura. Nesse momento, os credores procuram cobrar suas dívidas antes que os devedores fiquem sem recursos; as empresas devedoras, por sua vez, são obrigadas a deixar de reinvestir na produção, enquanto vendem freneticamente seus produtos no mercado para cumprir suas obrigações. Ou podemos narrar os fatos como mencionado anteriormente: o dinheiro disponível para reinvestimento deixa de circular quando os lucros da produção caem abaixo de um certo limite e fica cada vez mais parado nos bancos, marcando passo enquanto aguarda oportunidades de investimento suficientemente tentadoras. Esse momento de imobilidade é o momento da crise; quando o capital começa a circular novamente, ele busca tanto o comércio quanto os créditos sobre o valor futuro, o que Marx chama de capital fictício. Um exemplo sugestivo do presente é a medida em que as montadoras americanas sobreviventes obtêm cada vez mais lucros não da produção, mas do financiamento de compras de consumidores por meio de braços de crédito internos. Mais uma vez, vemos que a expansão financeira é a contração industrial vista de uma posição diferente. E, mais uma vez, narramos em termos indiferentes a mesma mudança da valorização para a realização, da produção para a circulação.</p>
<p style="text-align: justify;">O capitalismo moderno passou por dois arcos, centrados na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, com o segundo surgindo à medida que o primeiro declinava. Cada um tem suas particularidades. Ao mesmo tempo, eles podem ser sintetizados em um arco mais longo. Desde a primeira decolagem até o recente declínio, sempre houve um motor de acumulação global em funcionamento. De aproximadamente 1830 a 1973, houve um núcleo de capital produtivo no Ocidente com sua expansão sistêmica crescente. É de acordo com isso que anteriormente chamamos o período do século XVIII até o presente de metaciclo, um grande arco de acumulação no sistema mundial capitalista seguindo o curso de <em>circulação-produção-circulação linha</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159612" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881.jpg" alt="" width="1152" height="1352" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881.jpg 1152w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-256x300.jpg 256w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-873x1024.jpg 873w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-768x901.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-358x420.jpg 358w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-640x751.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-681x799.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/the-cyclist-1916-1777897881-341x400.jpg 341w" sizes="auto, (max-width: 1152px) 100vw, 1152px" />O período de <em>circulação linha</em>, a reorganização social da Longa Crise, condiciona o declínio da greve e a nova era de revoltas de duas maneiras distintas, embora inevitavelmente relacionadas: a espacialização da economia e a recomposição da relação capital/classe. Vamos analisá-las uma de cada vez, antes de reuni-las no final.</p>
<h6 style="text-align: justify;"><em><strong>A Espacialização da Luta</strong></em></h6>
<p style="text-align: justify;">As revoltas são, originalmente, lutas pelo preço dos bens, ou seja, lutas pela reprodução fora do salário, mas ainda suspensas no mercado. São “lutas para controlar o espaço” e a passagem por ele; há uma rima inclinada entre a revolta paradigmática de exportação em King&#8217;s Lynn em 1347 e o bloqueio maciço no porto de Oakland em 2011 <strong>[8]</strong>. O controle sobre o espaço assume muitas formas, muitas vezes envolvendo esforços para expulsar a polícia dos distritos comerciais que ela defende. As revoltas são obcecadas por edifícios, praças e passagens, com aglomerações na praça e nas ruas. Hobsbawm dedica um capítulo de seu livro <em>Revolutionaries</em> ao papel do urbanismo na insurreição. Há algo de arquitetônico em uma revolta, ou seja, algo espacial. A barricada, esse grande instrumento da revolta, tem suas origens no isolamento de bairros contra incursões; o surgimento da barricada nada mais é do que o surgimento da primeira era de revoltas, que recuou após a Primavera das Nações em 1848 <strong>[9]</strong>. As novas avenidas largas do século XIX são, em relatos sucessivos, projetadas para pôr fim às barricadas e as revoltas; o crescimento industrial acabará por fazer um trabalho melhor nisso.</p>
<p style="text-align: justify;">A espacialidade prática da revolta corresponde a uma distinção teórica. A lógica abstrata da produção é temporal, a lógica abstrata da circulação é espacial. A produção é organizada pelo valor, pela valorização das mercadorias, e esse valor é regulado pelo tempo de trabalho socialmente necessário. É através desse tempo que ambos os lados se reproduzem. Na produção, tanto o capital quanto seus antagonistas lutam por esse tempo — sua duração, seu preço. A greve é uma luta temporal.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez que o valor temporal do trabalho vivo repousa na mercadoria, ele se torna objetivado, espacializado. A circulação é organizada pelo preço, pela realização da mais-valia como lucro quando as mercadorias trocam de lugar. Esta é uma formulação conceitualmente espinhosa, como fica evidente na exposição de Marx:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O dinheiro é agora trabalho <em>objetivado</em>, quer possua a forma de dinheiro ou de uma mercadoria particular. Nenhum modo objetivo de ser do trabalho se opõe ao capital, mas todos eles aparecem como modos possíveis de existência para ele, que ele pode assumir através de uma simples mudança de forma, passando da forma monetária para a forma mercadoria. A única antítese do trabalho <em>objetivado</em> é o trabalho <em>não objetivado</em>; em antítese ao trabalho <em>objetivado</em>, o trabalho subjetivado. Ou aquele trabalho que está presente no tempo, vivo, em antítese ao trabalho passado no tempo, mas existente no espaço. Como trabalho presente no tempo, não objetivado (e, portanto, também ainda não objetivado), ele só pode estar presente como <em>capacidade</em>, possibilidade, habilidade, como <em>capacidade de trabalho</em> do sujeito vivo <strong>[10]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ao refletir sobre a relação lógica entre trabalho e mercadorias, Marx chega à antítese entre trabalho não objetivado e trabalho objetivado. De um lado, a força de trabalho que ainda não foi transferida para uma mercadoria no processo de produção; do outro, o valor objetivado nas mercadorias que agora entram no espaço de circulação, elas próprias objetos espaciais. O aumento da proporção entre capital constante e variável, entre trabalho morto e vivo, é o próprio processo de espacialização e, portanto, a transformação das lutas temporais em espaciais. Essa distinção existe também no nível prático, no que diz respeito à circulação no sentido concreto: transporte, comunicações, finanças. Marx fala da famosa “aniquilação do espaço pelo tempo”. Isso tem sido frequentemente entendido como uma afirmação da crescente irrelevância das relações espaciais para o capital. O oposto é verdadeiro. Marx argumenta que o espaço se apresenta como o problema fundamental para a troca, e quanto mais o capital depende da troca, mais o espaço apresenta problemas a serem superados:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O capital, por sua natureza, ultrapassa todas as barreiras espaciais. Assim, a criação das condições físicas de troca — dos meios de comunicação e transporte — a aniquilação do espaço pelo tempo — torna-se uma necessidade extraordinária para ele. Somente na medida em que o produto direto possa ser realizado em mercados distantes em quantidades massivas, proporcionalmente à redução dos custos de transporte, e somente na medida em que, ao mesmo tempo, os meios de comunicação e transporte possam produzir esferas de realização para o trabalho, impulsionado pelo capital; somente na medida em que o tráfego comercial ocorra em volume massivo — no qual mais do que o trabalho necessário é substituída — apenas nessa medida a produção de meios baratos de comunicação e transporte é uma condição para a produção baseada no capital e, por essa razão, promovida por ele <strong>[11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os leitores provavelmente conhecem os debates muitas vezes tediosos sobre se essa passagem sugere que a circulação é internalizada à produção, ou se isso é apenas uma aparência e as obras e mercadorias da circulação são, como Marx continua, “uma <em>condição</em> para o processo de produção” — uma afirmação bastante diferente <strong>[12]</strong>. Para nossos propósitos, o significado é o mesmo. Esse é particularmente o caso, pois não estamos afirmando que as lutas na circulação têm uma relação privilegiada com a produção de valor. Na mudança que se segue à crise, o capital, incapaz de gerar mais-valia ou crescimento adequados por meio da produção industrial convencional, é compelido a entrar no espaço da circulação para competir por lucros, diminuindo seus custos e aumentando o tempo de rotatividade para um volume cada vez maior de mercadorias. As lutas nesse espaço são, portanto, centrais para a existência contínua de cada capital. Há poucas indicações de que isso gere acumulação da mesma forma que a produção industrial.</p>
<p style="text-align: justify;">E, no entanto, esse é o destino inconfundível do capital pós-1973, tornando “nosso presente fundamentalmente um <em>tempo de espaço logístico</em>” <strong>[13]</strong>. Essa reorganização sistêmica, observa Jasper Bernes, “indexa a subordinação da produção às condições de circulação, o tornar-se hegemônico dos aspectos do processo de produção que envolvem a circulação”. Haverá implicações nesse desenvolvimento para as lutas contemporâneas. “A logística é a arte da guerra do capital, uma série de técnicas para a competição intercapitalista e interestatal” <strong>[14]</strong>. Será necessária uma contra-arte que se adapte a esse terreno transformado, mas que também reconheça o espaço logístico como peculiarmente estruturado pelas necessidades do capital, o tipo de maquinaria que o proletariado não pode simplesmente apreender e utilizar para seus próprios fins.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159609" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573.jpg" alt="" width="1000" height="1000" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/Mostra-Mario-Sironi-Pordenone-News-BOTTEGA-S-1000x1000-79864573-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A construção maciça, impulsionada pelas finanças, do transporte marítimo global e da conteinerização, possivelmente o projeto mais fundamental para o capital nessa época, sinaliza a mudança radical. Ela é prenunciada pela regularização dos contêineres de transporte intermodal (aperfeiçoados para resolver os problemas logísticos da Guerra do Vietnã) por meio de uma série de acordos de 1968 a 1970 e pela desregulamentação do transporte na década seguinte <strong>[15]</strong>. O Centro de Transporte e Logística é criado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts em 1973: “líder mundial em educação e pesquisa em gestão da cadeia de suprimentos” <strong>[16]</strong>. A fabricação Just-In-Time, que se generalizou na década de 1970, é o aspecto metodológico da mesma mudança. Desenvolvida na indústria automobilística japonesa, ela é o oposto do paradigma fordista da indústria automobilística dos Estados Unidos, descobrindo eficiências menos na organização da produção do que na circulação, no estoque e na troca: um conjunto interligado de práticas cujo núcleo constitui uma espécie de taylorismo da cadeia de suprimentos.</p>
<p style="text-align: justify;">A correspondência desses desenvolvimentos com a crise industrial é quase absoluta. As expressões desse movimento interligado são numerosas. Em abril de 1973, a Federal Express entrega seu primeiro pacote; quarenta anos após o início da Longa Crise, a FedEx terá a quarta maior frota e será a maior companhia aérea de carga do mundo <strong>[17]</strong>.</p>
<h6 style="text-align: justify;"><em><strong>O Fim do Programa</strong></em></h6>
<p style="text-align: justify;">A mudança na circulação é uma reestruturação econômica que impulsiona e se baseia em uma reorganização social maciça, uma recomposição do capital e da classe. Isso transforma profundamente os horizontes políticos e, com eles, as formas de luta. As mudanças subjacentes se mostraram opacas para alguns observadores. Um deles, escrevendo na revista socialista democrática <em>Jacobin</em>, descobre em 2015 que “a economia dos EUA gira em torno da expansiva indústria de logística” e só consegue concluir que, “após três décadas de mudanças dolorosas na economia industrial, acredito que os socialistas podem, mais uma vez, ter uma estratégia industrial nos Estados Unidos” <strong>[18]</strong>. Outra proposta do mesmo local observa a mesma transformação “particularmente na produção enxuta e nos estoques <em>just-in-time</em>” e reconhece a importância resultante de “focar nesses pontos de distribuição” para “bloquear a distribuição”. O autor recomenda, para esse fim, a organização de “grupos de trabalhadores estrategicamente posicionados”.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses exemplos reconhecem corretamente a vasta transferência de força de trabalho da produção industrial para o espaço de circulação, distribuição e troca. No entanto, a importância disso como um aspecto de uma reestruturação social profunda é negligenciada. É compreensível que o leitor fique perplexo quanto ao motivo pelo qual o esvaziamento do setor industrial, base histórica da organização socialista, exigiria mais uma vez uma “estratégia industrial”. Por sua vez, pode-se perguntar por que o “bloqueio da distribuição”, precisamente a tática dos não trabalhadores tanto lógica quanto historicamente, exige “grupos de trabalhadores”. Dessa perspectiva, não importa o problema, a solução é sempre a mesma: organização do trabalho industrial. É sempre tempo de greve.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode-se argumentar que os trabalhadores da circulação são de alguma forma mais difíceis de organizar, que algo peculiar ao novo local de trabalho exclui essa possibilidade. Há razões para acreditar nisso. Além da desagregação e da desqualificação como barreiras à organização, a tradicional paralisação do trabalho pressupõe um senso de posse moral dos trabalhadores sobre seus equipamentos, um resquício das culturas artesanais e manuais que fornece uma função legitimadora estranha ao âmbito da circulação. Dito isso, não há aqui nenhum argumento contra tal organização. A greve da UPS em 1997 mostra que tais coisas são possíveis. É inevitável que uma porcentagem crescente das poucas greves que estão desaparecendo seja na circulação e que as ações trabalhistas mudem para lutas de circulação, como uma questão prática. Considere a mudança tática ilustrativa por parte dos sindicatos franceses, por exemplo, quando as refinarias de petróleo e os depósitos de petróleo franceses foram bloqueados por duas semanas em 2010 <strong>[19]</strong>. De forma mais ampla, os argumentos normativos sobre o que as pessoas que lutam devem fazer ignoram a verdade mais básica. As pessoas lutarão onde estiverem.</p>
<p style="text-align: justify;">Nosso argumento é que as pessoas estão em outro lugar. E, além disso, que a explosão desses locais de trabalho é sintomática de uma reestruturação maior que augura mal para o potencial dessa organização. O trabalho no mundo superdesenvolvido não mudou simplesmente seu centro de gravidade em algum sentido neutro. Sua relação com a acumulação mudou profundamente e, diante dessa mudança, a exigência de formas inalteradas de ação parece, na melhor das hipóteses, uma falha de compreensão. Mesmo a política de classe mais recôndita ou reducionista é agora obrigada a se reconfigurar de acordo com essas grandes transformações político-econômicas ou se condenar ao interminável papel de um romance ultrapassado ao qual o perfume de 1917 sempre se apega.</p>
<p style="text-align: justify;">O editor da Jacobin, Bhaskar Sunkara, resume essa política ritualística. Ele reconhece que “pode ser útil considerar as maneiras pelas quais a situação atual se assemelha a um retorno ao pré-fordismo”; dada a semelhança, a política oferecida então certamente ainda deve prevalecer, e “às vezes novas crises precisam ser enfrentadas com o vocabulário antigo” <strong>[20]</strong>. Mas qual é esse vocabulário antigo e por que exigiria o mesmo conjunto de estratégias que esses pensadores vêm propondo há mais de um século, sem variações? Podemos notar aqui um erro simples na compreensão do caráter do arco de acumulação. Ele supõe que um ponto na descida seria historicamente idêntico a um ponto na ascensão simplesmente porque estavam na mesma altura (de lucro ou taxa de desemprego, etc.). Esse equívoco não leva em conta o vetor: a diferença entre ascensão e queda, entre mercados de trabalho restritos e flexíveis, entre a capacidade de dinamismo e expansão e o curso da estagnação e contração. As condições que historicamente possibilitaram o vocabulário socialista —acumulação real, um mercado de trabalho tenso, a possibilidade de ganhar poder apropriando-se de uma parte dessa acumulação, um proletariado industrial em expansão — não existem mais. Os ganhos progressivos que poderiam fortalecer e encorajar o partido de massa dependente da organização sindical não estão mais ao alcance, como estavam durante o crescimento econômico, a expansão e o boom. Isso faz parte de uma mudança mais ampla: “O ano de 1978”, como observou sucintamente um historiador de negócios, foi o “Waterloo para sindicatos, reguladores e reformadores tributários keynesianos” <strong>[21]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159615" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605.jpg" alt="" width="2000" height="1363" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605.jpg 2000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-300x204.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-1024x698.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-768x523.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-1536x1047.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-616x420.jpg 616w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-640x436.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/107sironi-3823533605-681x464.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px" />Talvez possamos admitir que Sunkara está parcialmente certo. É inevitável que compreendamos novos momentos primeiro através de vocabulários antigos. Mas estamos mais adiantados no arco do que ele pode supor e, portanto, talvez precisemos recorrer a um léxico bastante mais antigo e renová-lo. É mais cedo do que pensamos. Ou seja, é bem mais tarde.</p>
<p style="text-align: justify;">O declínio do movimento trabalhista no Ocidente dispensa explicações. As narrativas contrárias, especialmente aquelas que sugerem que o declínio é resultado de combates ideológicos, falhas de vontade ou erros estratégicos, já foram submetidas ao que Marx chamou de crítica prática do real. Os dados básicos são bem conhecidos. Provavelmente, o mais claro é o colapso para zero das greves envolvendo mais de 1.000 trabalhadores a partir do final dos anos 1970. Para aqueles que duvidam dessa medida (que tem pouca correlação com a sindicalização), a situação pode ser resumida assim: nos Estados Unidos, após 1981, apenas três anos excederam 10 milhões de dias acumulados de paralisação por greves, com vários anos abaixo de 1 milhão. De 1947 a 1981, o número excedeu 10 milhões todos os anos, com uma média de mais do dobro disso <strong>[22]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos encontrar um momento decisivo voltando mais uma vez a Detroit e a 1973, onde “pela primeira vez na história do UAW, o sindicato se mobilizou para manter uma fábrica aberta” <strong>[23]</strong>. Isso se tornará rapidamente o paradigma para a organização trabalhista, quer se queira ou não. Com o esvaziamento do setor industrial e a perda de lucratividade, a principal ameaça tanto para o capital quanto para o trabalho é que uma determinada empresa deixe de existir. E, em uma escala maior, a própria capacidade de autorreprodução do capital entrará em colapso. A partir desse ponto, as lutas contra o capital só podem ser <em>contra</em> a existência do capital, em vez de <em>pelo</em> empoderamento do trabalho. Capital e trabalho se encontram agora em colaboração para preservar a autorreprodução do capital, para preservar a relação de trabalho juntamente com a viabilidade da empresa. Isso impõe limites quase absolutos à negociação.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos chamá-la de “armadilha da afirmação”, na qual o trabalho fica preso à posição de afirmar sua própria exploração sob o pretexto da sobrevivência. É uma versão do que Lauren Berlant chama de “otimismo cruel”. O otimismo é cruel em uma situação cada vez mais comum:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O objeto/cena que desperta uma sensação de possibilidade na verdade torna impossível alcançar a transformação expansiva pela qual uma pessoa ou um povo se arrisca a lutar; e, duplamente, é cruel na medida em que os próprios prazeres de estar dentro de uma relação se tornaram sustentáveis, independentemente do conteúdo da relação <strong>[24]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Certamente isso descreve com exatidão não apenas qualquer relação, mas as exigências da relação de trabalho na Longa Crise. A armadilha da afirmação é o otimismo cruel em seu estrato mais obstinado, existindo independentemente de apegos libidinosos, suas compulsões não envolvendo nenhum reconhecimento errôneo. Os prazeres sustentadores são comida e abrigo.</p>
<p style="text-align: justify;">Preso na armadilha da afirmação, o trabalho deixa de ser a antítese do capital. Isso pode ser visto como o final irônico da própria afirmação que define o horizonte socialista da luta, em que “a revolução é, portanto, a afirmação do proletariado, seja como ditadura do proletariado, conselhos operários, libertação do trabalho, período de transição, definhamento do Estado, autogestão generalizada ou uma &#8216;sociedade de produtores associados&#8217;” <strong>[25]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses são os termos em que o grupo Théorie Communiste define o “programatismo”, o modelo central da luta revolucionária de classe no século XX. Moishe Postone identifica o programatismo (ele não usa o termo) com o “marxismo tradicional” que, segundo ele, reconhece erroneamente a base do capitalismo como a propriedade dos meios de produção, enquanto trata o trabalho produtivo como “a fonte transhistórica da riqueza e a base da constituição social”. A apropriação dos meios de produção, portanto, preserva <em>a forma capitalista de riqueza</em> enquanto a redistribui socialmente, e assim “o marxismo tradicional substitui a crítica de Marx ao modo de produção e distribuição por uma crítica apenas ao modo de distribuição” <strong>[26]</strong>. Daí a distinção usada aqui entre socialismo e comunismo: o primeiro indicando esse modelo distributivo, o segundo indicando a abolição da economia e o fim da relação indexical entre o trabalho de cada um e qualquer relação ou acesso à riqueza social.</p>
<p style="text-align: justify;">Este “marxismo tradicional” deve ser entendido historicamente. O horizonte socialista do programatismo não deve ser entendido como uma falha analítica ou moral, nem como uma espécie de paralisação; haveria uma passagem do socialismo para o comunismo (ou de uma fase inferior para uma fase superior do comunismo, como Marx afirma em <em>Crítica ao Programa de Gotha</em>). Em vez disso, ele reflete com precisão as condições reais do mundo em que surge. É uma luta contra o capital “vista do ponto de vista do trabalhador, ou seja, do ponto de vista do ciclo do capitalismo produtivo”, nas palavras de Gilles Dauvé <strong>[27]</strong>. Ou seja, surge com o aumento do poder do trabalho industrial, razão pela qual os trabalhadores desse setor são capazes de se posicionar como a fração revolucionária da classe. Seu crescimento é a expansão do capital. Isso, no entanto, não implica um ponto de vista ou forma de luta imutável: “a centralidade do trabalho proletário na análise de Marx sobre o capitalismo não deve ser tomada como uma avaliação afirmativa de sua parte sobre sua primazia ontológica na vida social, ou como parte de um argumento de que os trabalhadores são o grupo mais oprimido da sociedade” <strong>[28]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">É do outro lado do arco-íris da acumulação que os limites históricos do programatismo se tornam evidentes. Quando a fração de classe que centralizou a era do programa não exerce mais um poder peculiar sobre o capital, tal curso de luta é excluído. Esse resultado não é consequência de artimanhas políticas, de alguma política nefasta sob o título de “neoliberalismo”. É a própria autotransformação do capital da perspectiva do trabalho — trabalho agora forçado a afirmar o capital no mesmo gesto pelo qual afirma seu próprio ser. É precisamente essa luta pela autopreservação, o que a Théorie Communiste chama de “pertencimento de classe como uma restrição externa”, que é o limite das lutas trabalhistas como motor revolucionário <strong>[29]</strong>. As reivindicações salariais, outrora imaginadas como uma vantagem ou mesmo uma alavanca para a abolição da classe, devem agora ser adaptadas às necessidades de autorreprodução do capital, à medida que essa autorreprodução entra em crise. Em sua lassidão crepuscular, a classe trabalhadora é reduzida a reproduzir pouco além das condições de sua própria miséria. A luta salarial mantém sua legitimidade como reivindicação de sobrevivência — salário, salário contra a morte da luz —, mas ao mesmo tempo legitima o capital. Não há além.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159610" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959.jpg" alt="" width="1214" height="850" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959.jpg 1214w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-300x210.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-1024x717.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-768x538.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-600x420.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-640x448.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/urban-landscape-with-chimneys-1921-2765275959-681x477.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1214px) 100vw, 1214px" /></p>
<h6 style="text-align: justify;"><em><strong>Sobredeterminação</strong></em></h6>
<p style="text-align: justify;">A revolta não busca preservar nada, não afirma nada, exceto talvez um antagonista comum, uma miséria comum, uma negação comum. Ela carece de um programa. Sob o título “Isso não foi um movimento”, um comentarista sobre as revoltas de Londres em 2011 escreve:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nos distúrbios de agosto, nada na situação de seus protagonistas valia a pena ser defendido: vizinhança, residência, comunidade, etnia e raça, todos se revelaram aspectos da reprodução do capital, que produz esses proletários como verdadeiros indigentes. […] A linguagem da revolta não era a linguagem positiva do “movimento”, da mudança social, das reivindicações ou da política, mas sim a linguagem negativa do vandalismo. O que aconteceu foi muita destruição, nada foi construído, não houve planos, nem estratégias <strong>[30]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Para muitos observadores, essa é a característica mais perturbadora das revoltas. Diante disso, a exigência de um programa, a exigência de exigências, é em si uma exigência familiar, o estertor da política prescritiva. Ela não será atendida. Mas isso não quer dizer que as revoltas careçam de determinações. Na verdade, as revoltas são surpreendentemente sobredeterminadas pela série de transformações históricas que tornam inevitável o gênero particular de antagonismo que chamamos de lutas de circulação.</p>
<p style="text-align: justify;">Um resumo será útil. O excedente social que acompanha a acumulação diminuiu e, com ele, a capacidade do capital e do Estado de atender às demandas por salários diretos e sociais, apesar de exceções ocasionais. A demanda salarial é excluída como nada mais do que uma ação de retaguarda inseparável da afirmação da existência do capital. O capital transferiu suas esperanças de lucro para o espaço da circulação e, assim, transferiu sua vulnerabilidade para lá. O trabalho mudou para a circulação com ele. O mesmo aconteceu com o não trabalho: os subempregados e desempregados, aqueles deixados para as economias informais, aqueles deixados para apodrecer. Essa desindustrialização foi dramaticamente racializada.</p>
<p style="text-align: justify;">A morte da demanda salarial significa o desaparecimento das lutas de produção unificadas pelo papel comum dos participantes como trabalhadores assalariados. Ao mesmo tempo, a luta pela circulação não tem nenhuma exigência lógica de que seus participantes sejam trabalhadores. Se o trabalho tem acesso imediato e legitimidade para interromper a produção na fábrica, qualquer pessoa pode liberar um mercado, fechar uma estrada, fechar um porto. Como no século XVIII, os manifestantes podem ser trabalhadores, mas não aparecem <em>como</em> trabalhadores; os participantes não estão unificados pela posse de empregos, mas por sua desapropriação mais geral. Eles entram no espaço do mercado, lutando pela reprodução além do salário. Esta é a definição que oferecemos na introdução, repetida novamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez, então, a “sobredeterminação” esteja errada. Uma nova situação para a disputa social foi gerada. Um novo arranjo da população por meio do mesmo movimento gera trabalhadores e não trabalhadores circulantes, que por acaso compartilham uma relação com essa situação de disputa. Essa mudança nas formas de ação coletiva é uma habilidade dialética. Mas a dialética precisa do proletariado, e não acabamos de declarar a morte da classe trabalhadora?</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Ver Joshua Clover e Aaron Benanav, “Can Dialectics Break BRICS?” <em>The South Atlantic Quarterly</em> 113: 4, outono de 2014, 743-59.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Fernand Braudel, <em>The Perspective of the World: Civilisation and Capitalism</em>, vol. 3, Berkeley: University of California Press, 1982, 80.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Ibid., 77.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Brenner, <em>Turbulence</em>, 38.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Para uma imagem do movimento crescente de acumulação e crise, ver Henryk Grossman, <em>Law of Accumulation and Breakdown of the Capitalist System</em>, Londres: Pluto Press, 1992, 84.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Aaron Benanav e John Clegg, “Misery and Debt: On the Logic and History of Surplus Populations and Surplus Capital,” <em>Contemporary Marxist Theory</em>, eds. Andrew Pendakis et al., New York: Bloomsbury, 2014, 585.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Arrighi, <em>Long Twentieth Century</em>, 87.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Abu-Lughod, <em>Race, Space</em>, 41.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Mark Traugott, <em>The Insurgent Barricade</em>, Berkeley: University of California Press, 2010, 81-82.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Karl Marx, “Fragment des Urtexts von &#8216;Zur Kritik der politischen Ökonomie,&#8217;” Grundrisse der Kritik der PolitischenÖkonomie, Berlim: Dietz Verlag, 1858/1953, 942 (ênfase no original). Citado em Jacques Camatte, <em>Capital and Community: The Results of the Immediate Process of Production and the Economic Work of Marx</em>, trad. David Brown, Londres: Unpopular Books, 1988, 20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Marx, <em>Grundrisse</em>, 524-5 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Ibid., 525 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Deborah Cowen, <em>The Deadly Life of Logistics: Mapping Violence in Global Trade</em>, Minneapolis: University of Minnesota Press, 2014, 5 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Jasper Bernes, “Logistics, Counterlogistics and the Communist Prospect,” <em>Endnotes</em> 3, 2013, 185.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Marc Levinson, <em>The Box: How the Shipping Container Made the World Smaller and the World Economy Bigger</em>, Princeton: Princeton University Press, 2006, 147-9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Consulte o site do MIT Center for Transportation &amp; Logistics MIT, ctl.mit.edu.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Consulte a página da FedEx, “Nossa história: história e cronologia”, about.van.fedex.com; e a página da IATA Publicações e ferramentas interativas, <a href="https://web.archive.org/web/20120427115854/http://www.iata.org/ps/publications/pages/wats-freight-km.aspx." target="_blank" rel="noopener">https://web.archive.org/web/20120427115854/http://www.iata.org/ps/publications/pages/wats-freight-km.aspx.</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Joe Allen, “Studying Logistics”,<em> Jacobin</em>, 12 de fevereiro de 2015, jacobinmag.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Para um estudo abrangente desse fenômeno em relação aos distúrbios, consulte Blaumachen, “The Transitional Phase of the Crisis: The Era of Riots” (A fase de transição da crise: a era dos distúrbios), blaumachen.gr.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Bhaskar Sunkara, “Precarious Thought”, <em>Jacobin</em>, 13 de janeiro de 2012, jacobinmag.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Jefferson Cowie, <em>Stayin&#8217; Alive: The 1970s and the Last Days of the Working Class</em>, Nova York: New Press, 2010, 292. A fonte citada é Kim McQuaid, <em>Uneasy Partners: Big Business in American Politics, 1945-1990</em>, Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1994, 156.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> Consulte o banco de dados online do Bureau of Labor Statistics, “Economic News Release: Table 1. Work stoppages involving 1,000 or more workers, 1947-2014” (versão atualizada em 11 de fevereiro de 2015), bls.gov.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Bill Bonds, WXYZ-TV News, falando sobre os eventos na fábrica de estampagem Mack, 16 de agosto de 1973. Citado em Georgakas e Sunkin, Detroit, 189.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Lauren Berlant, <em>Cruel Optimism</em> Durham: Duke University Press, 2011, 2.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Théorie Communiste, “Much Ado About Nothing,”<em> Endnotes</em> 1, 2008, 155.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> Moishe Postone, <em>Time, Labor, and Social Domination</em>, Cambridge: Cambridge University Press, 1993, 69 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[27]</strong> Gilles Dauvé, <em>Ni Parlement ni syndicats: les Conseils ouvriers</em>, Paris: Editions Les Nuits rouges, 2008, 6.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[28]</strong> Postone, <em>Social Domination</em>, 356 n.120.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[29]</strong> Théorie Communiste, “Communization in the Present Tense,” <em>Communization and Its Discontents: Contestation, Critique, and Contemporary Struggles</em>, ed. Benjamin Noys, Wivenhoe: Minor Compositions, 2011, 53.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[30]</strong> Rocamadur/Blaumachen, “The Feral Underclass Hits the Streets: On the English Riots and Other Ordeals,” SIC, n.º 2, janeiro de 2014, 113-4.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são de Mario Sironi.</em></p>
</blockquote>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</em></p>
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		<title>Velha Toupeira (45)</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Aug 2026 12:02:07 +0000</pubDate>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (8)</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Aug 2026 11:17:18 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[ É difícil enfatizar a importância do esforço para unir não apenas diferentes agendas ou objetivos, mas diferentes procedimentos políticos — para aproveitar as revoltas e as greves juntos, não apenas como táticas, mas como modalidades.  Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h3 style="text-align: justify;">CAPÍTULO 6</h3>
<h3 style="text-align: justify;">Fios cruzados, Ou da Greve para a Revolta</h3>
<p style="text-align: justify;">Em 1963, a revista socialista <em>Monthly Review</em> dedicou uma edição dupla a um trabalhador da indústria automobilística de Detroit: uma descrição precisa que ressalta a qualidade comum da trajetória de James Boggs, inseparável de sua vida notável. Em 1937, seguindo o caminho da primeira Grande Migração de negros americanos do sul rural para o norte e o meio-oeste industrial, Boggs mudou-se do Alabama para Detroit, onde viveria o resto de sua vida. Ele acabaria se casando com Grace Lee, a terceira líder e teórica da Tendência Johnson-Forrest, juntamente com C. L. R. James e Raya Dunayevskaya. A tendência teve origem no Partido dos Trabalhadores e no Partido Socialista dos Trabalhadores, dois grupos trotskistas; ela preservava uma perspectiva obreirista e dava atenção especial às greves selvagens militantes entre mineiros e trabalhadores automotivos.</p>
<p style="text-align: justify;">Dado esse conjunto de circunstâncias, afiliações e compromissos, o breve prefácio de Boggs para seu livro <em>The American Revolution: Pages From a Negro Worker&#8217;s Notebook</em> (<em>A Revolução Americana: Páginas do Caderno de um Trabalhador Negro</em>) é surpreendente. Ele conclui:</p>
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<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sou um operário de fábrica, mas sei mais do que apenas o trabalho na fábrica. Sei a diferença entre o que soaria certo se vivêssemos em uma sociedade de pessoas lógicas e o que é certo quando se vive em uma sociedade de pessoas reais com diferenças reais. Pode parecer perfeitamente natural para uma pessoa altamente educada e lógica, mesmo quando ouve as pessoas dizerem que haverá uma grande revolta, supor que não haverá uma grande revolta porque as autoridades têm tudo sob controle. Mas se eu continuasse ouvindo as pessoas dizerem que haveria uma grande revolta e visse uma dessas pessoas lógicas parada no meio, <em>eu </em>diria a ela que era melhor sair do caminho, porque com certeza seria morta.</p>
<p style="text-align: justify;">Reformas e revoluções são criadas pelas ações ilógicas das pessoas. Muito poucas pessoas lógicas fazem reformas e nenhuma faz revoluções. Direitos são o que você faz e o que você toma <strong>[1]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">É uma passagem curiosa, e não apenas por seu gesto final do que poderíamos chamar de <em>instrumental irracionalidade</em>. Por um lado, é um pouco opaca; o surgimento repentino da revolta é, no mínimo, sem motivo, ou desorientadoramente presciente. 1963 é quatro anos antes da Grande Rebelião de Detroit, na época a revolta de maior escala na história nacional. E é um ano antes das rebeliões no Harlem e em outros lugares inaugurarem o período em que a “revolta racial” ascende como uma característica central do cenário político dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, o raciocínio que permeia a passagem é familiar, se você já passou alguns momentos com a história implícita do debate. Ele associa tacitamente a organização operária à “lógica”, a um tipo de ordem que não pode deixar de refletir a racionalidade congelada da linha de montagem da fábrica. A revolta vem acompanhada de desordem, ilógica, o espaço social ambiente do boato. Não menos significativo, o texto recupera a superação da política prescritiva por Luxemburg. Sua distinção entre “o que soaria certo se vivêssemos em uma sociedade de pessoas lógicas” e “o real” do que realmente acontece em determinadas condições sociais é uma versão da oposição de Luxemburg entre o politicamente “desejável” e o “historicamente inevitável”.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada um deles encontra a particularidade de seu momento, de sua abertura, incerteza, possibilidade. Os anos 1960 dão origem a uma situação única de revoltas e greves, que se concentra principalmente em Detroit. A situação lá tem duas características distintas. Uma é a racialização da revolta, ou melhor, a relação entre revolta e racialização. Esse é o tema de um capítulo posterior. A outra, que difícilmente pode ser dissociável da questão racial, é a proximidade entre as duas formas de ação coletiva — sua coexistência, adjacência, confronto. Esse é um enigma revelador da década, um emaranhado que, à medida que se desenvolve e se esclarece, começa a revelar como a revolta não apenas expressará, mas explicará seu momento histórico.</p>
<p style="text-align: justify;">As associações mais reveladoras e preditivas entre revolta e greve são aquelas com determinadas condições político-econômicas que orientam o capital como um todo e mudam ao longo do tempo, permitindo que as formas de ação mudem em seu significado e seu poder. Essa indexação não é absoluta; as condições político-econômicas não são absolutamente determinantes. Em vez disso, elas sugerem possibilidades e limites. O campo da disputa social é mantido em tensão, por um lado, pela capacidade dos seres humanos de “fazer sua própria história” e, por outro, pelas “circunstâncias já existentes, dadas e transmitidas do passado”. É por causa da tensão entre essas forças, entre agência e determinação, que encontramos múltiplas formas de ação coletiva dentro de uma determinada conjuntura. Ao mesmo tempo, como um determinado conjunto de condições se inclina para um lado e não para outro, uma das formas de ação tenderá a se tornar a tática dominante.</p>
<p style="text-align: justify;">Em períodos de transformação sistêmica, haverá necessariamente mudanças nas táticas dominantes e competições entre táticas, à medida que diferentes frações da sociedade, posicionadas de maneira diferente, empreendem lutas emancipatórias. Os anos 1960 e 1970 nos Estados Unidos oferecem um estudo extraordinário desse fenômeno de transformação, equivalente ao que vimos no início do século XIX na Grã-Bretanha — embora aqui o vento da mudança sopre na direção oposta, da fábrica de volta para o porto, o mercado, a praça pública. Apesar de todas as diferenças manifestas, há ressonâncias da destruição de máquinas do século XIX, à medida que mudanças radicais na produção social se manifestam como indecisão e transformação dentro do repertório de táticas. Com a greve agora uma tática distinta e popular, o retorno da revolta aparece a princípio como um esforço estranho e heróico de unir as duas formas de ação em um processo revolucionário no qual a luta operária e a revolta parecem duas frentes de um único antagonismo. “Sou um operário de fábrica, mas sei mais do que apenas o trabalho na fábrica”, diz Boggs; poderia ser a década falando. A luta e a invenção incessantes da década, em grande parte centradas entre a população negra que suportava o peso inicial da desindustrialização, só são possíveis dentro de uma janela muito estreita. É um esforço perseguido de lado, desesperadamente, talvez às escondidas da consciência, e que, em última análise, é incapaz de se realizar.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159561 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1.jpg" alt="Revolta, greve, revolta" width="734" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1.jpg 734w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-300x245.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-514x420.jpg 514w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-640x523.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp1-681x557.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 734px) 100vw, 734px" /></p>
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<h3 style="text-align: justify;"><em>Luta e Lucro</em></h3>
<p style="text-align: justify;">A greve sobrevive como tática principal no ocidente industrializado ao longo dos anos 1960. Tal como Engels sugeriu, está ligada à expansão económica. Ao longo do século XX, a greve não acompanha a catástrofe econômica, mas sim o crescimento, um fato que não é menos verdadeiro nos anos 1930 da Depressão e da Frente Popular do que durante o boom do pós-guerra, como observou o sociólogo Roberto Franzosi:</p>
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<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Pesquisas quantitativas mostraram, sem sombra de dúvida, em diferentes contextos institucionais (períodos de amostragem e países), que a frequência das greves acompanha o ciclo econômico e, em particular, o movimento do desemprego — quanto maior o nível de desemprego, menor o nível de greves <strong>[2]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">Apesar da clareza dessa correlação, a associação tradicional da greve com o baixo desemprego faz parte de uma dinâmica mais ampla de acumulação sistêmica e industrialização em expansão, inexoravelmente ligada a altas taxas de lucro. A acumulação, deve-se observar, não é um processo fluido e sem complicações, mesmo quando vista à distância. O longo metaciclo do capital produtivo no Ocidente, de cerca de 1830 a 1973, é repleto de volatilidade, crises, recessões e uma transferência entre potências hegemônicas. No entanto, dentro desse cenário histórico variado, a correlação entre greves, mercados de trabalho tensos, expansão industrial e altas taxas de lucro é impressionante; a causalidade é logicamente necessária. Ela se baseia nas dificuldades relativas em substituir a mão de obra, na relutância do capital em interromper atividades altamente lucrativas, na capacidade do Estado de comprar a paz interna com salários sociais e na capacidade da força de trabalho de aumentar sua posição e seu poder de compra, na medida em que há excedente social a ser apropriado.</p>
<p style="text-align: justify;">Os anos 1960, nesse aspecto, são um período incomum. As taxas de lucro permanecem historicamente altas. O crescimento real do PIB mundial na década é superior a 5%, mais de um ponto percentual acima das décadas anteriores e posteriores, impulsionado pela Anglosfera e pelo norte da Europa, com o Japão crescendo ainda mais rapidamente em sua recuperação acelerada. As taxas de lucro líquido da indústria nos EUA apresentam picos iguais e médias superiores a qualquer outro período de expansão <strong>[3]</strong>. Consequentemente, o “desaparecimento das greves” no norte da Europa, no Reino Unido, nos EUA e no Canadá, previsto por alguns economistas — apostando que, dentro de um “movimento trabalhista maduro… os membros não estão tão predispostos a greves como antes” — não se concretizou <strong>[4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, começa a aparecer a fraqueza macroeconômica, com a expansão desacelerando à medida que os lucros acumulados buscam, cada vez mais em vão, uma saída produtiva, iniciando “a crise sinalizadora do regime de acumulação dos EUA no final da década de 1960 e início da década de 1970” <strong>[5]</strong>. As tentativas correspondentes de aumentar o poder de compra não levam à renovação da produção, mas à inflação e à fuga de capitais, no caminho para a crise de 1973 que sinalizaria o declínio do ciclo de acumulação liderado pelos EUA. Brenner acompanha o declínio do setor industrial dos EUA, e da manufatura em geral, diante da concorrência internacional, um fenômeno do qual as montadoras são, como sempre, os principais exemplos. O efeito desse declínio, “especialmente dada a enorme fração do total das economias capitalistas avançadas representada pela produção dos EUA, foi uma grande queda na lucratividade agregada das economias capitalistas avançadas, localizadas principalmente na manufatura, nos anos entre 1965 e 1973” <strong>[6]</strong>. O fato de a desaceleração global ter sua base no motor industrial dos EUA sugere que pode ser possível generalizar, pelo menos de forma limitada, a partir da experiência dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma economia paradoxal, com alta produtividade ofuscada pela desindustrialização incipiente. As greves persistem: no Reino Unido, a década de 1960 veria um aumento notável tanto nas paralisações quanto no total de dias de trabalho perdidos. Nos Estados Unidos, as greves experimentariam um surto no outono, começando por volta de 1964 e durando até os anos 1970 — não se sabia que esse seria o último brilho dourado antes do inverno chegar para o movimento operário no coração do sistema capitalista mundial <strong>[7]</strong>. Ao mesmo tempo, há uma visibilidade rapidamente crescente de revoltas em todas as escalas, mais notavelmente na série de “Long Hot Summers” (Longos Verões Quentes). A nova era de revoltas ainda não chegou de fato, mas a transição desigual já começou.</p>
<p style="text-align: justify;">Em seu estudo sobre o estado carcerário na Califórnia, Ruth Wilson Gilmore descreve a maneira como uma população racializada se mobiliza entre opressões locais e colapso sistemático:</p>
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<p style="text-align: justify;">A Rebelião de Watts de 1965 foi uma encenação consciente de oposição (mesmo que “espontânea” no sentido leninista) à desigualdade em Los Angeles, onde o apartheid cotidiano era renovado à força pela polícia sob a direção do chefe William Parker, um supremacista branco assumido. Em Oakland, o Partido dos Panteras Negras foi concebido como um desafio dramático, altamente disciplinado e fácil de imitar à brutalidade policial local. A organização militante urbana antirracista negra, que se concentrava em atacar as formas concretas pelas quais “a raça… é a modalidade através da qual a classe é vivida”, surgiu de muitas décadas de luta no caldeirão sangrento da revolução contra o apartheid do sul <em>e seu</em> sósia nas cidades do norte…</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1967, o sistema começou a desmoronar simbolicamente e materialmente. Durante o Verão do Amor, enquanto milhares de hippies se reuniam em São Francisco para repudiar o establishment, a Califórnia alinhou suas forças coercivas antirracistas por trás <em>da vanguardista Panther Gun Bill</em> (Lei dos Panteras Armados) — tudo isso ao mesmo tempo em que a taxa de lucro começou seu espetacular declínio <strong>[8]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">Mesmo o famoso e anódino Relatório Kerner, encomendado por Lyndon Johnson após os distúrbios de Newark e a Grande Rebelião de 1967, registra “uma mudança gradual tanto nas táticas quanto nos objetivos” dos protestos negros, “de ações legais para ações diretas, da classe média e alta para ações em massa… de apelar para o senso de justiça dos americanos brancos para demandas baseadas no poder do gueto negro” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Os contornos da revolta moderna, a <em>revolta linha</em>, começam aqui a ficar claros. Embora compartilhe certas características e lógicas com revoltas mais antigas, ela entra em uma situação histórica muito diferente e enfrenta um cenário estranho. Portanto, é crucial observar que a sequência <em>revota-greve-revolta linha</em> não sugere uma simples oscilação histórica, mas um desenvolvimento longo e abrangente que esgota e recupera formas à medida que o conteúdo e o contexto da luta mudam. Como essa trajetória traça mudanças sociais mais amplas que ocorrem em diferentes graus em todo o mundo superdesenvolvido, certas semelhanças podem ser observadas apesar das diferenças nacionais ou regionais, por exemplo, entre as revoltas no Reino Unido e na França.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta nos Estados Unidos é uma nova fase da luta racializada que emerge da e contra a história do movimento pelos direitos civis, mais orientado para as reformas, que em 1965 já havia conquistado grande parte das vitórias que conquistaria. A racialização da nova revolta se destaca ainda mais claramente no contexto do trabalho organizado, sobretudo pela branquitude codificada desse contexto. Rotineiramente precipitado pela violência dos atores estatais e sua consequente impunidade, o auge das revoltas deve ser pensado não apenas no contexto da violência racial do Estado, mas também, por exemplo, no do racismo agressivo dos sindicatos da AFL, que conseguiram adiar a formação de qualquer sindicato liderado por negros até a carta de 1925 da Brotherhood of Sleeping Car Porters. Ou seja, a negritude da revolta aparece não apenas como uma continuidade conturbada do movimento pelos direitos civis contra a anti-negritude do Estado, mas também contra a branquitude da greve. Isso acaba por estruturar o próprio senso comum — apesar da longa história de exemplos contrários em ambos os lados da suposta dicotomia, desde as revoltas “nativistas” de brancos contra brancos no século XIX e a onda de ataques anti-asiáticos após a Lei de Exclusão Chinesa até a Greve dos Viticultores de Delano.</p>
<p style="text-align: justify;">Há um paradoxo evidente. Por um lado, o tema das revoltas contemporâneas no Ocidente é consistentemente racializado, e os padrões de longa data de violência racializada, contenção e abjeção são inseparáveis do desenvolvimento das revoltas modernas. Por outro lado, a identificação absoluta e eventualmente naturalizada da tática com a raça acabará sendo um erro destrutivo, uma confusão entre correlação e causa — como se a própria negritude fosse a origem das revoltas. Janet Abu-Lughod ressalta os limites do termo “revolta racial”, observando a construção da <em>raça</em> e, além disso, a inadequação do termo <em>revolta</em> em relação aos sentidos mais abertamente políticos disponíveis para a linguagem de revolta e rebelião. No final, ela o mantém “porque tem uma referência aparentemente clara na literatura à violência inter-racial, seja iniciada por coletividades de brancos contra negros ou por coletividades de negros contra brancos” <strong>[10]</strong>. Significativamente, a história das revoltas raciais nos Estados Unidos começa com os brancos disciplinando outras populações insubordinadas. O “Verão Vermelho” de 1919, que ajudaria a forjar laços profundos, mas agora amplamente esquecidos, entre os negros dos EUA e as organizações socialistas e comunistas, é o exemplo mais conhecido, mas dificilmente o único, inserido em “uma onda extraordinária de violência em massa dirigida aos negros entre 1919 e 1923” <strong>[11]</strong>. Na segunda metade do século XX, <em>as revoltas raciais</em> evocam imagens de violência espontânea dos negros. É só então que o termo passa a significar revoltas como tal. A convergência retórica é grosseira e eficaz. O caráter supostamente irracional e natural das revoltas, sem razão, organização e mediação política, está alinhado com a tradição racista em que os sujeitos racializados são considerados naturais, animalescos, irracionais e imediatos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159562 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2.jpg" alt="Revolta, greve, revolta (8)" width="486" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2.jpg 486w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-243x300.jpg 243w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp2-340x420.jpg 340w" sizes="auto, (max-width: 486px) 100vw, 486px" /></p>
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<h3 style="text-align: justify;"><em><strong>Revoluções Por Minuto</strong></em></h3>
<p style="text-align: justify;">Em 1968, o Partido Socialista Italiano da Unidade Proletária ficou em um impasse sobre um convite para sua conferência internacional em 1968: um membro dos Panteras Negras ou alguém do movimento operário radical de Detroit? Sua grande sorte foi descobrir que John Watson era um membro central tanto do Movimento Revolucionário da União Dodge (DRUM) quanto do principal grupo do Black Power. Essa situação não duraria muito. “A filiação de Watson a duas organizações revolucionárias distintas, o DRUM e os Panteras Negras, representou um compromisso de curta duração entre as forças revolucionárias em Detroit e na Califórnia”, que entraria em colapso logo em seguida <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse momento é o ponto crucial de uma sequência política volátil. Mesmo o relato mais resumido oferece uma noção da rápida mudança das formações revolucionárias. A pré-história deve incluir a ascensão da industrialização dos EUA em Detroit, bem como a fundação da Nação do Islã, liderada pelo trabalhador automotivo desempregado Elijah Muhammad. Entre 1920 e 1970, a população negra de Detroit aumentou de 4% para 45%; este é o local mais dramático de uma internalização mais ampla da mão de obra negra no proletariado industrial, ele próprio uma força motriz nos sucessos do movimento pelos direitos civis e no desgaste da lei formal de Jim Crow <strong>[13]</strong>. O início dos anos 1960 vê o desenvolvimento da UHURU, uma filial ativa do Movimento de Ação Revolucionária (RAM) nacional, e em 1966 a fundação da filial de Detroit do Partido dos Panteras Negras para Autodefesa. Em seguida, a Grande Rebelião no verão de 1967, caracterizada, entre outras coisas, por vários atiradores nos telhados repelindo a polícia. No outono do descontentamento de Detroit, o Inner City Voice, um jornal militante negro liderado por Watson nos escritórios da Wayne State University, torna-se um nexo para várias lutas militantes; sua equipe inclui figuras centrais em todos os grupos do período. No ano seguinte, forma-se o DRUM e, em seguida, vários outros RUMs; em 1969, eles se unem como Liga dos Trabalhadores Negros Revolucionários (LRBW). Em 1970, a seção de Detroit dos Panteras é fechada, talvez por ordem da poderosa seção de Chicago; bem antes disso, “as tensões ideológicas entre os Panteras e a Liga haviam se tornado de conhecimento público” <strong>[14]</strong>. Em 1970, a LRBW inicia uma longa e dolorosa cisão, dividida entre tendências que apoiam a luta na frente cultural, o engajamento parlamentar, a formação de conselhos operários e um partido vanguardista negro. Em 1972, o que restava da LRBW se afilia à Liga Comunista e deixa de existir como entidade autônoma. Na medida em que é possível fazer afirmações pontuais, a sequência terminou e, com ela, os longos anos 1960 <strong>[15]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Muito se escreveu sobre essa ascensão e queda. Menos atenção foi dada à característica mais notável da sequência, que é justamente o que a torna uma sequência, em vez de um agregado caótico de grupos, partidos, interesses e contrainstituições, cada um sincronicamente relacionado a fenômenos díspares em outros lugares. Trata-se da tênue mistura entre o trabalho militante organizado e o Black Power.</p>
<p style="text-align: justify;">As condições que possibilitaram a sequência, em primeiro lugar, incluem a entrada simultânea da mão de obra negra no núcleo do setor industrial e sua marginalização dentro dele. Por um lado, “a revolução negra da década de 1960 finalmente chegou a um dos elos mais vulneráveis do sistema econômico americano — o ponto da produção em massa, a linha de montagem” <strong>[16]</strong>. Por outro lado, a força dessa chegada foi atenuada pelos sindicatos tradicionais, cujo sistema de antiguidade efetivamente deu “força legal ao monopólio dos homens brancos dos melhores empregos”, nas palavras de um autor anônimo, que continua:</p>
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<p style="text-align: justify;">Neste deserto de esperanças distorcidas dos trabalhadores, de onde mais poderia vir a redenção senão daqueles cujos interesses eram sacrificados a cada passo para que outro grupo mais favorecido pudesse fazer as pazes com os patrões? De onde mais, senão dos trabalhadores negros das fábricas infernais de automóveis da cidade de Detroit? <strong>[17]</strong></p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">Tudo isso contribui para contextualizar o que poderíamos chamar de “greve militante negra”. Trata-se de uma versão da greve selvagem que vai além dos sindicatos tradicionais centrados nos brancos. Sua autoridade deriva, em grande parte, das revoltas urbanas em Detroit e em outros lugares — ou seja, de lutas que não se baseiam em condições de trabalho comuns, mas sim na distância do mercado de trabalho, na luta confrontadora pela reprodução social fora da esfera da produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Na mesma linha, os distúrbios tiram lições da tradição da greve. Escrevendo na primavera de 1967, o teórico do Black Panther Huey P. Newton mostra-se cético em relação às revoltas:</p>
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<p style="text-align: justify;">Ainda estamos no estágio elementar de jogar pedras, paus, garrafas de vinho vazias e latas de cerveja em policiais racistas que esperam uma chance de assassinar negros desarmados… Não podemos mais nos dar ao luxo duvidoso das terríveis baixas infligidas arbitrariamente a nós pelos policiais durante essas rebeliões <strong>[18]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">Ele não é, porém, um defensor das lutas trabalhistas. Sua questão é como <em>passar</em> da revolta para um combate mais eficaz e, para isso, ele convoca o “Partido de Vanguarda” — ou seja, por tipos de ordem e disciplina herdados da organização do trabalho proletário e do campesinato agrícola. É característico do período que tanto a revolta quanto a greve, buscando ultrapassar seus próprios limites, ocorram simultaneamente. Cada uma parece precisar da outra para parecer revolucionária.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa coincidência não pode ser reconhecida como tal pelos observadores oficiais. O <em>Relatório Kerner</em>, usando a rubrica “desordens”, oferece esta descrição da Grande Rebelião: “Um espírito de niilismo despreocupado estava se instalando. Revoltas e destruição pareciam cada vez mais se tornar fins em si mesmos. No final da tarde de domingo, pareceu a um observador que os jovens estavam &#8216;dançando em meio às chamas&#8217;” <strong>[19]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso não pode deixar de harmonizar-se com os “infernos” do trabalho descritos acima. Tudo está a arder. A par do aumento em grande escala da força de trabalho negra, o desemprego entre os negros após a Segunda Guerra Mundial oscila entre 150 e 400 por cento acima do dos brancos e significativamente acima do dos hispânicos não brancos também <strong>[20]</strong>. A população total de Detroit atinge o seu pico em 1950 e começa um declínio bastante acentuado; a cidade deixa de crescer economicamente por volta de 1960, mesmo com a continuação da mudança demográfica <strong>[21]</strong>. O fardo racial da desindustrialização é ainda mais agravado pelas políticas sindicais de “último contratado, primeiro demitido”, que revertem a segunda Grande Migração em uma Grande Exclusão contínua. Assim, vemos duas tendências: uma economia manufatureira ainda dominante que internaliza a força de trabalho negra, mas que começa seu declínio e é incapaz de absorver totalmente o influxo demográfico. Isso implica um aumento tanto da população negra empregada quanto da excedente, sujeita a desapropriações diferenciadas. Mas essas tendências estão se movendo em direções opostas. No período de 1965 a 1973, as linhas de tendência se cruzam como fios elétricos, e Detroit testemunha <em>a intensificação das condições para revoltas e greves</em>, centradas na comunidade negra. Essa é a situação à medida que os anos 1960 se aceleram e a base para a sequência política que se desenrola, mesmo que não possa durar.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1970, o início da sequência já havia começado a se encerrar:</p>
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<p style="text-align: justify;">[A Liga] acreditava que o Partido dos Panteras Negras, com sede em Oakland, estava indo na direção errada ao se concentrar em organizar elementos lumpen da comunidade negra. A Liga não acreditava que um movimento bem-sucedido pudesse se basear nos lumpen, pois eles carecem de uma fonte potencial de poder. A Liga acreditava que os trabalhadores negros eram a base mais promissora para um movimento negro bem-sucedido devido ao poder potencial derivado da capacidade de interromper a produção industrial <strong>[22]</strong>.</p>
</blockquote>
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<p style="text-align: justify;">O debate ideológico sobre o sujeito revolucionário adequado (ao qual voltaremos), com suas aparentes diferenças regionais, repousa sobre o destino dos próprios sujeitos. Já em 1963, Boggs havia diagnosticado a produção da não produção e o excedente populacional, e até que ponto isso estava fadado a desmantelar a organização trabalhista. Suas observações marcam a distância desde 1919, quando a Irmandade de Sangue Africana (a primeira liga de comunistas negros nos EUA) pôde incluir como parte de seu programa básico uma reivindicação por “Desenvolvimento Industrial” <strong>[23]</strong> Ele escreve:</p>
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<p style="text-align: justify;">A automação substitui os homens. É claro que isso não é novidade. O que é novo é que agora, ao contrário da maioria dos períodos anteriores, os homens deslocados não têm para onde ir. Os agricultores deslocados pela mecanização das fazendas na década de 1920 podiam ir para as cidades e trabalhar na linha de montagem […] nos Estados Unidos, com a automação chegando quando a indústria já atingiu o ponto em que pode suprir a demanda do consumidor, a questão do que fazer com o excedente de pessoas que são dispensáveis pela automação se torna cada vez mais crítica a cada dia <strong>[24]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Os editores da edição especial se esforçam para discordar, insistindo que “à medida que o trabalho produtivo se torna cada vez mais frutífero e menos necessário”, o capital desenvolverá outros setores, criará “direta e indiretamente, outras áreas de emprego — em vendas, entretenimento, especulação (legal e ilegal), serviços pessoais e assim por diante. Alguns dos empregos assim criados também sucumbem à automação, mas o processo de proliferação não é interrompido” <strong>[25]</strong>. Isso tem alguma verdade; esses setores, em geral, passam por períodos de crescimento à medida que a desindustrialização avança. No entanto, não o suficiente para gerar os mercados de trabalho tensos que as greves exigem — muito menos para restaurar a acumulação de capital em níveis suficientes, sendo esse trabalho, em primeiro lugar, amplamente improdutivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Detroit é única neste período, não pela medida em que é uma exceção na trajetória histórica das condições para motins e greves, mas pela forma como é uma clarificação laboratorial de um processo dinâmico que ocorre de forma desigual em todo o mundo superdesenvolvido, uma dinâmica baseada na grande transformação do capitalismo que será conhecida como desindustrialização, acompanhada pelo declínio da acumulação e por mudanças na divisão global do trabalho e do não trabalho. Se a organização militante dos trabalhadores parece prevalecer em Detroit por volta de 1970, ela é minada a longo prazo. Em 2005, os afro-americanos representarão mais de 80% da população de Detroit, e pelo menos um quarto deles estará desempregado <strong>[26]</strong>. A previsão de Boggs acabará captando a realidade da situação.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de tudo isso, é difícil enfatizar adequadamente a importância do esforço nesse período para unir não apenas diferentes agendas ou objetivos, mas diferentes procedimentos políticos — para aproveitar as revoltas e as greves juntos, não apenas como táticas, mas como modalidades.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159563 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3.jpg" alt="Revolta, greve, revolta (8)" width="750" height="457" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-300x183.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-689x420.jpg 689w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-640x390.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp3-681x415.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3 style="text-align: justify;"><em>A Revolta como Modalidade</em></h3>
<p style="text-align: justify;">O que pode significar, depois de ter trabalhado para rearticular o significado da revolta como uma forma de ação coletiva, sugerir agora que ela é uma modalidade política? Por exemplo, o que pode significar sugerir que os Panteras estão do lado da revolta, mesmo que Huey Newton tivesse pouca fé em tais atividades? Essa ambiguidade permeia as páginas do jornal <em>The Black Panther</em>. Um mês após o assassinato de Martin Luther King Jr. (e o assassinato separado do Pantera Lil&#8217; Bobby Hutton pela polícia) e a cascata imediata de revoltas, Eldridge Cleaver intitula sua coluna “Dig This” de “Credo para revoltosos e saqueadores” e oferece uma narrativa entusiasticamente apocalíptica; a página oposta apresenta um grande desenho de Matilaba em que dois policiais prendem ou possivelmente lincham um jovem negro, enquanto três militantes com boinas, jaquetas e rifles se preparam em uma esquina. Letras em negrito na parte superior da ilustração dizem “NO MORE RIOTS” (NÃO MAIS REVOLTAS); ao lado, “TWO&#8217;S AND THREE&#8217;S” (DOIS E TRÊS) <strong>[27]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Um primeiro passo pode ser observar que as revoltas já têm uma base em tipos alternativos de cooperação social. Robin D. G. Kelley observa sobre a revolta de Watts em 1965 que “a rebelião não surgiu do caos, mas de uma comunidade mobilizada” que abrigava uma ampla variedade de grupos, clubes e organizações mais ou menos formais; como observado acima, o mesmo aconteceu em Detroit (e certamente em outros lugares). Em Watts, as revoltas sinalizaram uma mudança em que “a orientação anterior pelos direitos civis deu lugar a uma cultura política do Black Power e alternativas culturais à assimilação da classe média”. As revoltas foram contínuas, acompanhando um desenvolvimento político mais amplo. Assim, em um caso, “logo após a revolta, gangues de rua radicalizadas formaram os Sons of Watts (Filhos de Watts) e mais tarde se juntaram ao Partido dos Panteras Negras” <strong>[28]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa continuidade entre o Black Power e os distúrbios permanece sob a superfície das políticas e dos planos. Eles compartilham uma circunstância e um propósito: “Os distúrbios que estão acontecendo são uma festa de autodefesa”, nas palavras de Fred Moten, ele próprio um teórico da negritude como excedente <strong>[29]</strong>. O sentido de ligação talvez fique mais claro se voltarmos à formulação básica das revoltas e greves como lutas de circulação e produção, respectivamente. É isso que os dados deste capítulo têm narrado: o declínio inicial e velado da produção nos Estados Unidos e no mundo, a mudança germinativa de corpos e capital para o mundo da circulação. A sequência política narra isso com igual clareza; o status da dinâmica revolta/greve nesse período serve como uma janela clara para a economia política da época. De fato, as revoltas e as greves têm todo o seu poder social porque carregam — junto com os desejos de seus participantes, suas misérias e negações — a lógica dessas categorias mais amplas. Pode-se dizer que, no limite, as revoltas e as greves são personificações coletivas da circulação e da produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a passagem central do poema “Riot”, de Gwendolyn Brooks, em que John Cabot, de nome brâmane e pertences luxuosos, “todo branco e azul sob seus cabelos dourados”, enfrenta seu fim:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Porque os negros estavam descendo a rua.</p>
<p style="text-align: justify;">Porque os pobres estavam suados e feios</p>
<p style="text-align: justify;">(não como os dois negros delicados em Winnetka)</p>
<p style="text-align: justify;">e vinham em direção a ele em fileiras desordenadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em mares. Em ventos fortes. Eles eram negros e barulhentos.</p>
<p style="text-align: justify;">E não podiam ser detidos. E não eram discretos <strong>[30]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O poema segue as revoltas de Chicago de 1968. Não há trabalho, apenas negritude; é o futuro de Boggs, não o de seus editores. Há o consumo conspícuo de John Cabot e o movimento incontrolável dos “negros” pelas passagens urbanas. Mercado e via pública. Dificilmente se poderia pedir uma figura melhor de corpos movidos à circulação, da circulação como tal. A rima diferida carrega isso, <em>descendo a rua sem poder ser detida e sem discrição</em>. Nem são discretos. Ao mesmo tempo ordenados e não, “fileiras desordenadas”, eles se tornam negritude ambiente, negritude preenchendo e transbordando o espaço da existência social. Cabot reza para que “a negritude” não o toque, mas “Ela o impulsionou / e soprou sobre ele: e o tocou”.</p>
<p style="text-align: justify;">É difícil discernir se essa série de transferências existe no nível da consciência de Cabot ou do poema. Ambos, no final. Cabot não está, de fato, enganado sobre seu destino. Os negros são a negritude que é a revolta. Pelo menos em 1968. Na medida em que a revolta é uma categoria reconhecida pelo Estado, pela lei e pelo mercado, os negros descendo a rua sempre serão uma revolta, ou o momento antes, ou o momento depois. Tanto social quanto economicamente, a negritude aqui é excedente — para o Estado, para a lei, para o mercado. Ela promete sempre exceder a ordem, a regulamentação. A revolta é um exemplo da vida negra em suas exclusões e, ao mesmo tempo, em seu caráter de excedente, isolada na esfera barulhenta da circulação, forçada a se defender contra a morte social e corporal que lhe é oferecida. Uma rebelião excedente.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de se admirar que ela forneça a base para um imaginário de luta. Essa visão circula na ficção da época, que apresentou “uma notável proliferação de romances de autores afro-americanos projetando a possibilidade de uma guerra racial catastrófica em grande escala, de meados da década de 1960 ao início da década de 1970” <strong>[31]</strong>. Esse salto especulativo pode esclarecer de forma útil a posição de Newton. Ele é cético em relação aos limites da revolta, mas por razões bastante contrárias às razões daqueles que insistem no curso da organização trabalhista. Newton, assim como Boggs em sua análise, reconhece que o terreno de disputa marcado pela revolta é inevitável &#8211; que a revolta não é um desvio de algum caminho verdadeiro, mas existe no curso ao longo do qual a luta se desenvolverá. Ela não pode ser recusada. A revolta só pode fazer uma coisa: expandir-se.</p>
<p style="text-align: justify;">Dizer que se está alojado em um mundo no qual a revolta é a forma de ação coletiva pela qual a luta deve passar &#8211; que é uma <em>instância</em> de uma coletividade social completa e complexa &#8211; é encontrar a revolta como modalidade social. Quando o substrato material da vida cotidiana é a concentração de populações na circulação, em economias informais &#8211; uma população coletiva tornada excedente e forçada a enfrentar o problema da reprodução no mercado em vez de no salário formal &#8211; nessa situação, qualquer reunião na esquina, na rua, na praça pode ser entendida como uma revolta. Ao contrário da greve, é difícil dizer quando e onde a revolta começa e termina. Isso é parte do que permite que a revolta funcione tanto como um evento específico quanto como uma espécie de miniatura holográfica de toda uma situação, uma imagem do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Se esse relato parece aerossolizar a revolta, isso está de acordo com a circunstância com a qual a revolta se confronta. A revolta pré-industrial encontra o mercado imediatamente à sua frente, um fenômeno concreto; encontra a própria economia. Ao mesmo tempo, não encontra a polícia, o estado armado, exceto nas formas mais atenuadas. Essas tecnologias de controle permanecem incompletas e distantes em 1740. Por outro lado, a revolta pós-industrial encontra apenas uma amostra de mercadorias nas lojas locais. Os saques se aproveitam disso como devem: a verdade da antiga revolta, a fixação de preços em zero. Como Tom Hayden reconheceu no primeiro tratamento extenso da rebelião de 1967 em Newark:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A revolta foi mais eficaz contra os comerciantes que praticavam preços abusivos do que os protestos organizados jamais haviam sido. No ano anterior, foi iniciada uma pesquisa para verificar os comerciantes que pesavam suas balanças. A pesquisa fracassou devido ao desinteresse: as pessoas precisavam de poder, não de provas <strong>[32]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Ela continua sendo uma atividade central, claramente contínua com as intervenções do século XVIII. No entanto, a nova revolta descobre, ao definir o preço das mercadorias, que a economia como tal regrediu para a logística planetária e a divisão global do trabalho para o éter das finanças. A polícia, no entanto, pode ser encontrada em cada esquina.</p>
<p style="text-align: justify;">A distância entre a revolta e a <em>revolta linha</em>, os dois emissários das lutas pela circulação, parece, a princípio, ser a diferença entre a fixação de preços e a não fixação, ou entre a luta no mercado e a luta com o Estado. Esses aspectos, como sugerimos, não são tão facilmente separados, seja na prática ou teoricamente. Ao analisar a nova revolta, Georgakas e Surkin concluem que</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A violência de 1967 foi significativamente diferente daquela das explosões anteriores de Detroit. As revoltas de 1833, 1863 e 1943 foram conflitos entre raças. A rebelião de 1967 foi um conflito entre os negros e o poder do Estado. Em 1943, os brancos estavam na ofensiva e andavam pela cidade em carros à procura de alvos negros fáceis. Em 1967, os negros estavam na ofensiva e seu principal alvo era a propriedade. Em alguns bairros, os Apalaches, estudantes e outros brancos participavam da ação ao lado dos negros como seus parceiros. Diversas fotos mostram saques sistemáticos e integrados, que os rebeldes chamavam de “compras de graça” <strong>[33]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Janet Abu-Lughod observa que essa mudança no objeto da revolta também descreve as rebeliões no Harlem e em Watts, embora insista que essas rebeliões “não se tratavam apenas de brutalidade policial. Ambas ocorreram no contexto de uma recessão econômica cujo efeito apareceu primeiro nas áreas negras, mas depois se espalhou para a economia mais ampla dos EUA”, assim como em Detroit <strong>[34]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Em suma, a distinção conceitual entre violência estatal e econômica é elusiva. Guy Debord, avaliando a rebelião de Watts, teoriza o duplo confronto com o Estado e a propriedade e suas posições mutáveis. “A sociedade encontra no saque sua resposta<em> natural</em> à abundância antinatural e desumana de mercadorias”, escreve ele. Isso tem sido constantemente mal interpretado como uma sugestão de que o saque é uma realização hiperbólica da ideologia do consumo (um refrão comum dos comentaristas liberais), apesar do que Debord diz logo em seguida: “Ele [o saque] instantaneamente mina a mercadoria como tal e também expõe sua lógica última: o exército, a polícia e as outras forças especializadas que detêm o monopólio estatal da violência armada” <strong>[35]</strong>. Talvez essa exposição seja o propósito do saque, como argumentou Bruno Bosteels, caso se busque na teoria francesa a importância discursiva da revolta <strong>[36]</strong>. Ao mesmo tempo, o saque é certamente contínuo com a história prática da fixação de preços. De qualquer forma, Debord capta algo sobre o mundo superdesenvolvido e sua aparente abstração. A polícia agora ocupa <em>o lugar</em> da economia, a violência da mercadoria encarnada. No mundo em chamas da última instância, eles são fungíveis:</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O que é um policial? Ele é o servo ativo da mercadoria, o homem totalmente subjugado pela mercadoria, por cujos esforços um determinado produto do trabalho humano continua sendo uma mercadoria com a propriedade mágica de ser paga, e não apenas uma geladeira ou um rifle &#8211; algo cego, passivo, insensível, sujeito à primeira pessoa pronta para fazer uso dele. Por trás da humilhação de serem submetidos à polícia, os negros rejeitam a humilhação de serem submetidos a mercadorias <strong>[37]</strong>.</p>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">A fórmula mais simples é a seguinte. Para a revolta, a economia está próxima, o Estado está distante. Para a <em>revolta linha</em>, a economia está longe, o Estado está perto. De qualquer forma, é o mercado e a rua. <em>Hic Rhodus, hic salta!</em></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159564 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4.jpg" alt="Revolta, greve, revolta (8)" width="750" height="573" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4.jpg 750w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-300x229.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-550x420.jpg 550w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-640x489.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/pp4-681x520.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Notas:</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> James Boggs, <em>Pages from a Black Radical&#8217;s Notebook: A James Boggs Reader</em>, Detroit: Wayne State University Press, 2011,84-5.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Roberto Franzosi, “One Hundred Years of Strike Statistics: Data, Methodology, and Theoretical Issues in Quantitative Strike Research”, CRSO Working Paper No. 257, Ann Arbor: Center for Research on Social Organization, 1982, 15, 17.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Robert Brenner, “What&#8217;s Good for Goldman Sachs,” prologue to T<em>he Economics of Global Turbulence</em>, Madrid: Akal, 2009, page numbers taken from typescript provided by author, 8, 11.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Arthur M. Ross e Paul T. Hartman, <em>Changing Patterns of Industrial Conflict</em>, Nova York: Wiley, 1960, 71, 43.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Giovanni Arrighi, <em>The Long Twentieth Century</em>, 315.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Brenner, <em>Turbulence</em>, 38.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Dados do Reino Unido do Office for National Statistics, “Labour Disputes Annual Estimates; United Kingdom; 1891-2014” (versão atualizada em 16 de julho de 2015), ons.gov.uk; Dados dos EUA do Bureau of Labor Statistics, “Comunicado de Notícias Econômicas: Tabela 1. Paralisação de trabalho envolvendo 1.000 ou mais trabalhadores, 1947-2014” (versão atualizada em 11 de fevereiro de 2015), bls.gov.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ruth Wilson Gilmore, <em>Golden Gulag: Prisons, Surplus, Crisis, and Opposition in Globalizing California</em>, Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 2007, 39-40 (emphases in original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Otto Kerner et al., <em>Report of the National Advisory Commission on Civil Disorders</em>, Nova York: Bantam, 1968, 227.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Janet Abu-Lughod, <em>Race, Space, and Riots in Chicago, New York, and Los Angeles</em>, Oxford: Oxford University Press, 2007,7, 11.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Michael C. Dawson, <em>Blacks In and Out of the Left</em>, Cambridge: Harvard University Press, 2013, 20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Dan Georgakas e Marvin Surkin, <em>Detroit: I Do Mind Dying: A Study in Urban Revolution</em>, Chicago: Haymarket Books,2012, 50.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Dados disponíveis na página da web Detroit History, “Population of Various Ethnic Groups” (População de vários grupos étnicos), historydetroit.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>, 119.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> A narrativa foi compilada a partir de Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>; Joshua Bloom e Waldo E. Martin, Black Against Empire: <em>The History and Politics of the Black Panther Party</em>, Berkeley: University of California Press, 2013; e A. Muhammad Ahmad, “The League of Revolutionary Black Workers: A Historical Study”, historyisa weapon.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>, 20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Trabalhador anônimo escrevendo no <em>Inner City Voice</em>, outubro de 1970, citado em Georgakas e Surkin, Detroit, 37.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Huey P. Newton, <em>The Huey P. Newton Reader</em>, eds. David Hilliard e Donald Weise, Nova York: Seven Stories Press, 2011, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Otto Kerner et al., <em>National Advisory Commission</em>, 4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Joe T. Darden, Richard C. Hill e June M. Thomas, <em>Detroit: Race and Uneven Development</em>, Filadélfia: Temple University Press, 1990, 107.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Campbell Gibson e Kay Jung, “Tabela 23. Michigan — Raça e Origem Hispânica para Grandes Cidades Selecionadas e Outros Locais: Censo Mais Antigo até 1990”, PDF, Departamento do Censo dos Estados Unidos, fevereiro de 2005, census.gov.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> James A. Geschwender, “The League of Revolutionary Black Workers,” <em>The Journal of Ethnic Studies</em>, 2: 3, outono de 1974, 9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Dawson, <em>Blacks In and Out</em>, 50.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Boggs, <em>Boggs Reader</em>, 102.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Leo Huberman e Paul Sweezy, “Editor&#8217;s Forward” (Prefácio do editor), history isaweapon.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> Joe T. Darden e Richard W. Thomas, <em>Detroit: Race Riots, Racial Conflicts, and Efforts to Bridge the Racial Divide</em>, East Lansing: Michigan State University Press, 2013, sem paginação, Tabela 15. Observe que todos os dados sobre desemprego neste capítulo são baseados na categoria U3 do Bureau of Labor Statistics, que não inclui os subempregados, os desanimados em procurar trabalho, os encarcerados e assim por diante. O número total U6 de Detroit em 2005 provavelmente está mais próximo de 45%.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[27]</strong> <em>The Black Panther</em>, 2: 2, 4 de maio de 1968: 4-5.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[28]</strong> Robin D. G. Kelley, “Watts: Remember What They Built, not What They Burned” (Watts: Lembre-se do que eles construíram, não do que queimaram), Los Angeles Times, 11 de agosto de 2015, latimes.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[29]</strong> Fred Moten, “Necessity, Immensity, and Crisis (Many Edges/Seeing Things)” (Necessidade, imensidão e crise (muitas facetas/vendo as coisas)), Floor, 2011. floorjournal.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[30]</strong> Gwendolyn Brooks,<em> Riot</em>, Detroit: Broadside Press, 1969, 9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[31]</strong> Julie A. Fiorelli, “Imagination Run Riot: Apocalyptic Race-War Novels of the Late 1960s”, <em>Mediations</em>, 28: 1, outono de 2014, 127.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[32]</strong> Tom Hayden, <em>Rebellion in Newark: Official Violence and Ghetto Response</em>, Nova York: Random House, 1967, 30.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[33]</strong> Georgakas e Surkin, <em>Detroit</em>, 155.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[34]</strong> Abu-Lughod, <em>Race, Space</em>, 25.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[35]</strong> Guy Debord, “Le déclin et la chute de l&#8217;économie spectaculaire-marchande”, <em>Internationale Situationiste</em> 1958-69: Éditionaugementée, Paris: Librarie Arthème Fayard, 2004, 418. Tradução minha. Este ensaio não estava assinado no original, mas mais tarde foi atribuído a Guy Debord.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[36]</strong> Bruno Bosteels, <em>Marx and Freud in Latin America: Politics, Psychoanalysis, and Religion in Times of Terror</em>, Londres: Verso, 2012, 292.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[37]</strong> Debord, “<em>Déclin</em>”, 418.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>As artes que ilustram o texto são da autoria de Edvard Munch (1863-1944).</em></p>
</blockquote>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</em></p>
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		<title>A emergência, a centralidade e o fim do trabalho (1)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jul 2026 11:24:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Essa representação do trabalho como uma atividade universal coloca um problema, por várias razões. Por Michel Freyssenet]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Michel Freyssenet</h3>
<p style="text-align: justify;">Há algum tempo, nas ciências sociais, recorre-se prontamente à expressão &#8216;a invenção de…&#8217; para significar o caráter histórico e localizado da noção em discussão, como, por exemplo, o mercado ou o desemprego. Pode parecer mais arriscado usar o termo para o trabalho, na medida em que o trabalho aparece como uma necessidade óbvia da condição humana.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalho poderia ser definido e delimitado, após eliminar as particularidades que apresenta em todas as sociedades conhecidas, como atividades que contribuem para as necessidades da vida humana e social. Ele pode, de alguma forma, existir independentemente de qualquer relação social para organizá-lo. As necessidades são percebidas &#8211; por nosso senso comum e pelo pensamento econômico &#8211; como o mínimo necessário para a existência humana. Por causa disso, atribui-se ao trabalho uma preeminência sobre todas as outras atividades.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa representação do trabalho como uma atividade universal coloca um problema, por várias razões <strong>[1]</strong>.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O Trabalho Nem Sempre Existiu. Ele Foi Inventado</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Dois argumentos provocam reflexão: a ausência do termo ou noção de trabalho em inúmeras sociedades, e a obrigação de admitir a hipótese do <em>homo faber</em> como fundamento da universalidade do trabalho na natureza.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Apenas Nossas Sociedades Distinguem o Trabalho de Outras Atividades</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">O estudo realizado por Marie-Noëlle Chamoux (1994) sobre os termos usados para se referir ao &#8216;trabalho&#8217; em muitas sociedades é bastante perturbador para a visão universalista do trabalho. Ou o termo e a noção estão ausentes; ou estão divididos em várias palavras e realidades; ou seus antônimos não são nem &#8216;repouso&#8217; nem &#8216;lazer&#8217;; ou são invariavelmente e explicitamente ligados a atos mágicos ou religiosos; ou ainda, não incluem atividades necessárias à vida material, como a caça etc. Tampouco a noção de esforço, encontrada em muitas sociedades, apresenta qualquer homogeneidade na definição ou nas atividades assim mencionadas. A categoria trabalho revelou-se, portanto, difícil de compreender empiricamente. Chamoux então faz a pergunta: pode-se dizer que o trabalho existe quando ele não é pensado nem vivido como tal?</p>
<p style="text-align: justify;">Historiadores e antropólogos parecem quase todos concordar que hoje, economia, produção, trabalho e assim por diante, como são entendidos na sociedade ocidental, são noções e áreas que surgiram claramente no século XVIII na Europa, com a diferenciação de um mercado capitalista dentro do mercado que o precedeu. Antes, economia, produção e trabalho estavam, por assim dizer, imersos &#8211; misturados com a política e a religião ou fundidos com elas. Pode-se tentar representar essa imersão da economia e do trabalho considerando, por exemplo, a esfera familiar como é pensada hoje. Muitas atividades ainda provêm indissoluvelmente da educação, afeição, necessidades, submissão, reconhecimento e assim por diante. A partir dessa constatação comum, as orientações de pesquisa divergem.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159550" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2.jpg" alt="" width="387" height="516" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2.jpg 387w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images2-315x420.jpg 315w" sizes="auto, (max-width: 387px) 100vw, 387px" />Karl Polanyi (1983), citando e desenvolvendo observações feitas anteriormente por Karl Marx e Max Weber, notadamente sobre o caráter &#8216;não segregado&#8217; dos aspectos econômicos em relação a outros aspectos da vida em todas as sociedades, exceto no Ocidente, conclui que não há definição &#8216;conceitual&#8217; universal possível para a economia. Cada época experimenta formas econômicas distintas. Por outro lado, ele acredita que é possível dar definições &#8216;substantivas&#8217; de economia, produção e trabalho que sejam válidas para todas as sociedades conhecidas: ou seja, a atividade necessária à vida material das pessoas e da sociedade. Mas essa atividade, distinguida em algumas ou firmemente imersa em outras, não é necessariamente determinante por sua natureza sobre as outras atividades. Dependendo da época, pode ter importância variável na vida social em geral. Karl Polanyi aproveita essa ocasião para denunciar o economicismo que, em sua opinião, estava invadindo as ciências históricas e sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Maurice Godelier, em sua obra <em>The Mental and the Material</em> (Godelier, 1984), cita a tese polanyiana, mas sem compartilhar as conclusões. Ele escreve que, ao contrário, isso permite reexaminar a noção marxista de relação social de produção e separar dela qualquer referência a uma sociedade particular, notadamente a sociedade ocidental, que autonomizou a economia. Acima de tudo, permite compreender &#8211; em oposição ao que o próprio Polanyi afirma &#8211; por que as relações sociais chamadas &#8216;superestruturais&#8217; (como as relações de parentesco ou políticas) podem fundar e organizar conjuntamente toda uma sociedade. A produção está inserida nessas relações e, consequentemente, elas funcionam como relações de produção. É até mesmo graças à exceção que a sociedade capitalista ocidental tem sido desde o final do século XVIII, que revelou e designou a economia como tal, que se tornou possível “compreender a importância das atividades materiais e das relações econômicas no movimento de produção e reprodução das sociedades” (Godelier, 1984: 32). O fato de as relações econômicas, uma vez autonomizadas, aparecerem como determinantes na vida social seria a prova de que as relações políticas e simbólicas que reinaram sobre certas sociedades só puderam fazê-lo porque integram as relações sociais de produção. Esse raciocínio, então conduzido por Godelier <strong>[2]</strong>, restabeleceu, portanto, estas últimas como fundamento de todas as sociedades, diferentemente do afirmado por Polanyi.</p>
<p style="text-align: justify;">Louis Dumont propõe desenvolver a tese polanyiana até o que lhe parecia ser sua conclusão lógica: ou seja, renunciar definitivamente a qualquer economicismo, inclusive, nas sociedades capitalistas, para:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[…] recusar o compartimentalismo que nossa sociedade sozinha oferece obstinadamente e, em vez de buscar o significado da totalidade social na economia &#8211; ao que Polanyi é certamente contrário -, procurar antes na totalidade social o significado do que a economia é dentro de nossa sociedade e para nós <strong>[3].</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, muitos antropólogos consideram que a cultura já está presente no ponto em que a história começa. A produção é simbólica desde o início. A sociedade burguesa é, antes de tudo, uma cultura antes de ser uma economia: &#8216;Considerar o comércio como vantajoso para ambas as partes representou uma mudança fundamental e sinalizou a ascensão à categoria econômica&#8217; (Dumont, 1985: 45).</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Duas grandes orientações podem, portanto, ser distinguidas. Para a primeira, a relação capital-trabalho autonomizou atividades que fazem uso da reprodução material e, assim, permitiu a definição da economia em geral, para além de sua forma capitalista. Então, o trabalho teria sempre sido essa atividade que consistia em usar, dominar e controlar a natureza para produzir a partir dela as utilidades necessárias à humanidade. Consequentemente, haveria uma definição substantiva possível para o trabalho, permitindo analisar essa forma de atividade em toda sociedade com critérios comuns e determinar o lugar que ela foi capaz de ocupar na estruturação das relações sociais. Enquanto para Polanyi a economia e o trabalho seriam estruturantes apenas nas sociedades capitalistas, para Marx e Godelier (1984) as relações capital-trabalho também teriam revelado que elas são estruturantes em todas as sociedades.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159553" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark.jpg" alt="" width="2000" height="1234" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark.jpg 2000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-300x185.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-1024x632.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-768x474.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-1536x948.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-681x420.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/O_Bicho_Linear_-_Lygia_Clark-640x395.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px" />De acordo com a segunda orientação, uma cultura &#8211; e até agora uma única cultura, a burguesa &#8211; inventou uma área chamada econômica. Uma definição universal do econômico é, portanto, impossível tanto conceitual quanto substantivamente. O trabalho, como é entendido hoje, corresponde, nessa perspectiva, ao surgimento da relação de trabalho e do &#8216;trabalhador livre&#8217; que vende sua capacidade de trabalho. A progressiva difusão e hegemonia dessa relação social tornaram-se a referência para perceber, pensar e organizar uma série de atividades. A consequência teria sido uma extensão do termo trabalho a atividades que não eram designadas como tal e que não decorrem da relação de trabalho, como o &#8216;trabalho doméstico&#8217; e o &#8216;trabalho autônomo&#8217;. Uma naturalização do trabalho teria, assim, resultado. Desse ponto de vista, o trabalho é percebido como uma realidade universal e como tendo sempre existido. Ele teria sido projetado no passado e em outras sociedades, em vez de ter se realizado por meio das condições históricas que o fizeram emergir há três séculos.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma boa maneira de avançar em tal debate é buscar os pressupostos de ambas as posições.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Hipótese do Desvelamento do Trabalho e da Economia Através da Relação Capital-Trabalho e, Portanto, de sua Universalidade, Supõe Concordância com um Materialismo Naturalista Inaceitável Hoje</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Um jornalista americano já havia objetado a Karl Marx, após ler o prefácio da <em>Contribuição à Crítica da Economia Política</em>, no qual Marx expunha sua distinção entre relações que fundam uma sociedade (infraestruturas) e aquelas que a governam (superestruturas), que a determinação da vida social por meio das relações sociais de produção não pode ser considerada universal. As sociedades antiga e feudal, ele lembrou, eram fundadas em relações essencialmente políticas. Marx responde, em uma nota em <em>O Capital</em>, que, durante o colapso das relações feudais, Dom Quixote ainda precisava encontrar por si mesmo algo para comer e beber. Em outras palavras, privados das relações que em algumas sociedades tanto abrangem quanto mascaram as relações pelas quais a reprodução material de uma sociedade é garantida, as pessoas se veem confrontadas com sua obrigação física primária: a alimentação. A determinação pelo econômico teria, portanto, claramente se originado de necessidades vitais inevitáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria útil lembrar de onde vem essa posição natural-materialista. Ela se enraizou nos primeiros trabalhos filosóficos de Karl Marx. Reagindo contra o idealismo e o universalismo hegeliano, Marx e Engels escreveram em <em>A Ideologia Alemã</em> que o humano em geral não existe e que os humanos só existem como indivíduos históricos reais.</p>
<p style="text-align: justify;">São os homens que produzem suas representações, suas ideias, etc., mas [eles são] homens reais, ativos, tais como são condicionados por um desenvolvimento determinado de suas forças produtivas e do modo de relações que a elas correspondem, incluindo as formas mais amplas que estas podem assumir. A consciência nunca pode ser outra coisa senão o ser consciente, e o ser dos homens é seu processo de vida real. (Engels e Marx, 1968: 50)</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, para “dissipar as fantasmagorias universalistas do pensamento e libertar-se delas”, eles propõem um programa de trabalho que visa estudar os seres humanos históricos concretos, as relações que mantinham entre si, suas condições de vida e o processo de vida real. Para justificar esse programa, apresentam três argumentos. Primeiro, um argumento metodológico: a vida material dos seres humanos reais pode ser verificada por meios puramente empíricos. É um argumento importante se tenta denunciar a omissão das condições de vida reais e suas relações com as diferenças comuns e formas de reflexão no pensamento universalista. É também um argumento, no entanto, insuficiente para justificar a primazia concedida à vida material para compreender outras manifestações humanas. Nesse ponto, entra em jogo um segundo argumento: pode-se provar que há um elo na história humana entre os diferentes estágios de desenvolvimento na divisão do trabalho e as formas de propriedade, ou seja, as relações dos indivíduos entre si. Mas essa correlação perceptível não implica, logicamente, que a produção material seja, por isso, mais determinante. Finalmente, intervém um terceiro argumento, claramente naturalista:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[…]somos levados a começar pela primeira observação de qualquer existência humana, em qualquer história; isto é, que os homens devem viver para poderem &#8216;fazer história&#8217;. Mas, para viver, o homem deve antes de mais nada beber, comer, habitar e vestir-se, entre outras coisas. O primeiro fato histórico é, portanto, a produção dos meios que lhe permitem satisfazer essas necessidades, a produção da própria vida material, e mesmo isso é um fato histórico, uma condição prévia fundamental de qualquer história que hoje deve ser preenchida dia após dia, hora após hora, assim como há milhares de anos, simplesmente para manter o homem vivo.</p>
<p style="text-align: justify;">[…] Pode-se distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião ou por qualquer outra coisa que se deseje. Eles próprios começam a se distinguir dos animais assim que começam a produzir seus meios de existência, um passo adiante que é a própria consequência de sua organização corporal. (Engels e Marx, 1968: 57, 45)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Engels e Marx acrescentam que muito rapidamente outras necessidades e, de fato, todo um estilo de vida se desenvolve. No entanto, eles fundam a preeminência da atividade produtiva nas necessidades vitais, uma evidência que não é realmente uma prova, e através de um discurso sobre as origens da humanidade, que na verdade é um discurso sobre o que os humanos eram em sua origem.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159552" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images.jpg" alt="" width="655" height="468" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images.jpg 655w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images-300x214.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images-588x420.jpg 588w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/images-640x457.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 655px) 100vw, 655px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Os pressupostos da tese do &#8216;primeiro fato histórico&#8217;, em outras palavras, a produção dos meios que permitem a satisfação das necessidades de alimento, são numerosos e incertos demais para serem mantidos hoje. Seria necessário que, na espécie animal, o proto-humano não encontrasse nada para comer ou beber em seu ecossistema. Teria sido essa necessidade vital &#8211; sendo uma restrição absoluta &#8211; e não qualquer outra que teria desencadeado a invenção e a reflexão humana, bem como as primeiras relações sociais. Seria necessário buscar recurso em um meio &#8216;artificial&#8217; para a aquisição de alimentos, sendo essa a peculiaridade dos humanos, o que sabidamente não é o caso.</p>
<p style="text-align: justify;">Em outras palavras, não parece mais possível estabelecer uma tese tão carregada de consequências teóricas e práticas como a das relações sociais de produção estar na base de qualquer sociedade sobre a frágil hipótese do <em>homo faber</em>. Podemos razoavelmente postular que existia um ser social &#8216;completo&#8217;, livre de qualquer primitivismo. As condições de existência são uma sociedade, uma linguagem, a transmissão de conhecimento, razões para viver e morrer etc., assim como comer e beber, sem entrar em outras condições naturais ou culturais, igualmente essenciais, mas que são simplesmente ignoradas por serem dadas como certas.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se de um retrocesso à posição de Dumont? É-se obrigado a buscar as razões para a divisão e a designação de atividades em cada sociedade? Seria necessário representar a sociedade como um organismo, dotado de um princípio único de existência, ordem e regulação, que daria sentido a cada uma de suas partes; em vez de tentar construir tal &#8216;totalidade&#8217;, pareceria mais prudente e heuristicamente mais frutífero partir do reconhecimento primário da existência de relações sociais, tendo sua própria lógica &#8211; atualizada, acionada e modificável pelos atores sociais que cada uma dessas relações institui, coexistindo ou articulando-se entre elas, criando campos sociais, cuja designação e fronteiras se deslocam em relação ao lugar e ao tamanho que essas relações sociais adquirem, cada uma em relação à outra.</p>
<p style="text-align: justify;">Curiosamente, Marx oferece a oportunidade e a possibilidade de se comprometer com esse caminho e pensar que o conceito de relação social se desvincula de qualquer determinação &#8216;substantiva&#8217;.</p>
<p><em>Artigo publicado no volume 47 (2) da revista Current Sociology em abril de 1999 e foi traduzido por Leo Vinicius. Acesse aqui a parte <a href="https://passapalavra.info/2026/08/159635/" target="_blank" rel="noopener">2</a>.</em></p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são da série Bichos de Lygia Clark</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Este artigo cita e expande uma série de textos publicados desde 1987: &#8216;Le concept de rapport social peut-il fonder une autre conception de l&#8217;objectivité et une autre conception du social?&#8217; (O Conceito de Relações Sociais Pode Fundar Outra Concepção de Objetividade e Outra Concepção do Social?) (Freyssenet e Magri, 1989: 9-23) e &#8216;Le rapport capital-travail et l&#8217;économique&#8217; (A Relação Capital-Trabalho e a Economia) (Freyssenet e Magri, 1990: 5-16); &#8216;L&#8217;invention du travail&#8217; (A Invenção do Trabalho), (Futur Antérieur, 1993-2: 17-26); &#8216;Historicité et centralité du travail&#8217; (Historicidade e Centralidade do Trabalho) (Bidet e Texier, 1995: 227-44).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> A posição de Godelier mudou desde então, como ele explicou em seu prefácio a &#8216;La Transformation dans la nature et rapports sociaux&#8217; (A Transformação na Natureza e Relações Sociais) (Freyssenet e Magri, 1990: 19-20). Citando um texto intitulado &#8216;L&#8217;Oeuvre de Marx&#8217; (A Obra de Marx) publicado em &#8216;Le Marxisme analytique anglosaxon&#8217; (O Marxismo Analítico Anglo-Saxão), ele escreve:</p>
<p style="text-align: justify;">Quando, por exemplo, as relações de parentesco em uma sociedade tribal também funcionam internamente como relações de produção &#8211; portanto, tanto como infraestrutura quanto como superestrutura &#8211; deve-se explicar por quê. … [Agora], a antropologia social nunca descobriu até hoje a relação causal direta entre um modo de produção e um modo de filiação e aliança. Na verdade, se as relações de parentesco não dependem diretamente, por suas outras aparências, de um modo de produção, é porque elas têm suas próprias funções distintas e possuem &#8211; o único paradoxo aqui é na aparência &#8211; uma base material independente: relações biológicas entre sexos e gerações, condições materiais de produção de novos indivíduos às quais as regras de filiação e aliança dos diversos sistemas de parentesco dão um sentido e usos sociais etc. Assim, a hipótese central de Marx, que faz dos meios de produção materiais e sociais a base geral da vida social, não foi confirmada. Ela mantém uma capacidade mais restrita — embora ainda impressionante — de explicar o funcionamento e a evolução das sociedades. (Godelier, 1990: ???)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Prefácio de Louis Dumont à obra de Karl Polanyi <em>A Grande Transformação</em> (Polanyi, 1983: xxvi).</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (7)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Jul 2026 03:17:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
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					<description><![CDATA[Devemos estar abertos a uma revisão fundamental, baseada nas transformações da realidade social. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong style="font-family: Verdana, Geneva, sans-serif; font-size: 14px;">CAPÍTULO 5</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Greve Geral</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Essa ideologia de ação coletiva, com sua oposição estática entre revolta e greve, seria, por sua vez, elidida com uma oposição correspondente em um estrato conceitual mais elevado, o do anarquismo e do socialismo. Pode parecer, dentro das convenções do presente, que táticas específicas e seus repertórios surgem de, e são portanto próprios de, posições políticas e analíticas particulares <strong>[1]</strong>. Historicamente, a oposição ideológica das táticas ajudou a produzir a oposição política e isso, por sua vez, consolidaria ainda mais a antítese das formas de ação.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, a greve, e com ela a categoria mais ampla de ações trabalhistas organizadas e a organização em grande escala como tal, é entendida como a tática político-econômica associada ao campo complexo do socialismo e do comunismo como horizontes políticos, conjugando-se com o pensamento materialista histórico. A revolta, e com ela o conjunto de táticas “insurrecionais” antes e além da organização trabalhista tradicional, é entendida em oposição a isso. É um ataque espontâneo à vida cotidiana, mas também a rejeição de um programa político supostamente determinista, autoritário e implicitamente, se não explicitamente, estatista. Uma das questões básicas deste livro é se esse conjunto de oposições dicotômicas, uma fórmula com motivos históricos reais, ainda faz sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">A divisão na Primeira Internacional certamente não precisa ser repetida aqui, e um desdobramento completo da divergência entre anarquistas, de um lado, e socialistas e comunistas do outro, está além do escopo deste estudo <strong>[2]</strong>. Vale a pena lembrar até que ponto essas posições eram, a princípio, muito mais contínuas do que parecem agora; em paralelo com a das revoltas e greves, sua polarização é um procedimento a-histórico. Na época da Primeira Internacional, a retórica da emancipação do trabalho como projeto fundamental era compartilhada, juntamente com a centralidade do proletariado e o pressuposto da luta de classes como base para a revolução. Os debates da época são ilustrativos. Pode-se considerar a disputa entre o anarquismo coletivista e o comunismo anarquista na década de 1870. A primeira facção desejava acabar com todas as trocas comerciais e o salário, enquanto na visão da segunda, “uma economia de troca ainda opera dentro de uma rede de &#8216;coletividades&#8217; autogerenciadas e pertencentes aos trabalhadores, que detêm a propriedade legal dos instrumentos e recursos de produção”. O trabalho assalariado e seu status assumiram uma importância decisiva. Kristin Ross escreve: “Além disso — e esse foi o ponto de maior ruptura entre os dois grupos —, o anarquismo coletivista manteve o sistema salarial, fazendo a distinção entre alimentos e outros bens dependentes da contribuição de trabalho de cada indivíduo” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Tais posições e debates sobre o conteúdo de uma sociedade revolucionária deixam claro que a antítese rígida das posições políticas decorrentes dessa oposição seria moldada ao longo do tempo. A divisão de táticas em posições políticas e analíticas não acontece simplesmente ao longo do caminho, mas faz parte dessa moldagem. Em nenhum lugar o processo é encenado de forma mais explícita do que no caso da greve geral. Os debates sobre a greve geral apresentam dificuldades, sobretudo pelas várias distinções feitas (e não feitas) entre greves gerais “proletárias” e “políticas”, entre a greve “geral” e a greve “de massa”. Felizmente para nós, analisar essas distinções é menos importante do que um momento específico dentro dos debates e as possibilidades que ele oferece para considerar a relação entre táticas e posições políticas.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159534" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1.jpg" alt="" width="638" height="886" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1.jpg 638w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1-216x300.jpg 216w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1-302x420.jpg 302w" sizes="auto, (max-width: 638px) 100vw, 638px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A vitória dentro da Internacional da posição socialista, no que diz respeito aos modelos de luta política, já havia sido ratificada antes da cisão de 1872. A Resolução nº 9 do ano anterior afirmava que “essa constituição da classe trabalhadora em um partido político é indispensável para garantir o triunfo da revolução social e seu objetivo final — a abolição das classes”. O compromisso com um processo parlamentar implica tanto um certo tipo de organização quanto, pelo menos, alguma observância de um padrão legalista. A estratégia parlamentar terá idas e vindas, mas a lógica organizacional do partido, que a acompanha, terá grande constância. Como expressão de sua base organizacional, supostamente ordeira em sua execução e entrando em confronto com o capital em vez do Estado, a greve restrita não pode deixar de aderir a tal horizonte político, mesmo que qualquer greve específica provavelmente tenha ambições mais locais.</p>
<p style="text-align: justify;">Em contrapartida, a aparente desordem dos modos anarquistas de luta torna-se objeto de antipatia. <em>Espontaneidade</em> é a palavra-chave que codifica essa antipatia. É um termo ambíguo, politicamente. Muitas vezes, indica uma ação que surge “naturalmente”, uma resposta momentânea. Nesse sentido, um ato espontâneo é escravo do estímulo. No entanto, de acordo com outra definição, “no século XVIII, quando Kant descreveu a unidade transcendental da apercepção — o fato de eu estar ciente de mim mesmo como tendo minhas próprias experiências —, ele chamou isso de ato espontâneo. Kant queria dizer o oposto de algo natural. Um ato espontâneo é aquele que é realizado livremente” <strong>[4]</strong>. Assim, o termo preserva tanto o sentido de afloramento autônomo (lembrando a visão espasmódica da revolta) quanto o de ato voluntário, livremente escolhido, que, no entanto, carece do desenvolvimento paciente de uma contra-organização que se movimenta paralelamente aos desenvolvimentos do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">O termo assume uma complexidade ainda mais controversa com a revolução Soviética. Lenin o utilizará, notoriamente, para deplorar as massas desorganizadas. A palavra russa <em>stikhiinost</em> significa tanto espontaneidade quanto o caos da natureza: aquilo que tem o menor grau de organização. Alexander Bogdanov, um filósofo polímata russo, especificará que essa desordem da natureza é uma resistência à organização que é o trabalho humano, e que os dois se opõem: “Consequentemente, o mundo é um campo de batalha do trabalho coletivo, no qual a atividade humana luta contra a resistência espontânea da natureza” <strong>[5]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">É o colapso não declarado desses sentidos — caótico, natural, contra o trabalho humano — que permite que o termo assuma suas dimensões mais pejorativas. A partir da ortodoxia leninista, o espontaneísmo torna-se não apenas falta de organização em algum sentido, mas também antagonismo ao trabalho e, portanto, implicitamente ao proletariado. Além disso, uma discordância com estratégias organizacionais pode ser transcodificada como irracionalidade, contrária não apenas ao trabalho, mas também ao ser humano como tal.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um momento anterior desse debate encenado à luz da Comuna de Paris, Marx inicialmente argumenta seriamente contra tal abordagem, contra a revolução impaciente. Em meio às esmagadoras derrotas francesas de 1870, ele adverte: “Os trabalhadores franceses […] não devem se deixar influenciar pelos souvenirs nacionais de 1792 […]”. Em vez disso, eles devem “construir o futuro. Deixem-nos incrementar calma e resolutamente as oportunidades da liberdade republicana, para o trabalho de sua própria organização de classe” <strong>[6]</strong>. Como é bem sabido, ele mais tarde mudará sua posição e fará uma avaliação surpreendente sobre a Comuna.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><em><strong>Engels e Sorel</strong></em></h5>
<p style="text-align: justify;">As dúvidas iniciais de Marx retornam na avaliação de Engels sobre a greve geral desencadeada pelos bakuninistas em 1873, com a Espanha à beira da guerra civil. As conclusões de Engels certamente assombram a vacilação posterior de Hobsbawm, sua identificação da greve geral com a revolta — dois avatares de espontaneidade excessiva e organização inadequada, a identidade do excesso e da insuficiência. “A greve geral, no programa dos bakuninistas, é o mecanismo que será usado para introduzir a revolução social”, escreve ele, elevando o tom de escárnio. Ele continua:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em uma bela manhã, todos os trabalhadores de todas as indústrias de um país, ou talvez de todos os países, cessarão o trabalho e, assim, obrigarão a classe dominante a se submeter em cerca de quatro semanas ou a lançar um ataque contra os trabalhadores, para que estes tenham o direito de se defender e possam usar a oportunidade para derrubar a velha sociedade.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Voltando a 1842 e suas limitações, suas falhas de coordenação e preparação, ele então chega ao “ponto crucial da questão”:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por um lado, os governos, especialmente se encorajados pela abstenção da ação política por parte dos trabalhadores, nunca permitirão que os fundos dos trabalhadores se tornem grandes o suficiente e, por outro lado, eventos políticos e as intervenções da classe dominante levarão à libertação dos trabalhadores muito antes que o proletariado consiga formar essa organização ideal e esse colossal fundo de reserva. Mas se eles tivessem isso, não precisariam recorrer ao caminho indireto da greve geral para atingir seu objetivo <strong>[7]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os anarquistas, nessa narrativa, carecem tanto de razão quanto de recursos. Não tendo desenvolvido adequadamente suas associações trabalhistas, os trabalhadores não terão acumulado capacidade organizacional adequada nem recursos financeiros suficientes para encenar o que acreditam ser uma batalha pela emancipação total. Rosa Luxemburg encontra nisso o que se tornará o senso comum da social-democracia, derivado de seu oposto, a “teoria anarquista da greve geral — ou seja, a teoria da greve geral como meio de inaugurar a revolução social, em contraposição à luta política cotidiana da classe trabalhadora”. Qualquer defesa da greve geral anarquista “se esgota no seguinte dilema simples: ou o proletariado como um todo ainda não possui a poderosa organização e os recursos financeiros necessários, caso em que não pode levar adiante a greve geral, ou está suficientemente bem organizado, caso em que não precisa da greve geral” <strong>[8]</strong>.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159535" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32.jpg" alt="" width="642" height="886" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32.jpg 642w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32-217x300.jpg 217w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32-304x420.jpg 304w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32-640x883.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 642px) 100vw, 642px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Georges Sorel oferecerá, no entanto, uma defesa notável. Antes de passar a isso, podemos observar em Engels uma suposição interessante sobre o desenvolvimento de um fundo de greve, a artilharia pesada no arsenal do proletariado. O limite para sua expansão é o Estado, que “nunca permitirá que os fundos dos trabalhadores se tornem grandes o suficiente”. Este é o mundo visto da perspectiva da acumulação, em que se pressupõe um excedente social crescente, e a disputa para apropriar-se da maior parte possível desse excedente é o preâmbulo plausível e necessário para uma luta ampliada. A concepção de Engels sobre os fundamentos da luta é produtivista, não apenas no sentido abstrato de assumir a centralidade do trabalho produtivo para a luta revolucionária, mas também em sua pressuposição de um aumento concreto e contínuo da riqueza social decorrente do capital produtivo; ela se encaixa com a observação de Rule sobre a dependência da greve bem-sucedida da “expansão da produção”. Essa é a particularidade histórica implícita a partir da qual Engels universaliza sua crítica.</p>
<p style="text-align: justify;">Sorel será o opositor de Engels mais de trinta anos depois. Sua defesa da greve geral não é menos ardente do que a denúncia de Engels, embora compartilhe a tendência universalizante dessa denúncia. Para Sorel, o poder da greve geral não é sua capacidade de subjugar instantaneamente o capital, mas sua provisão ao proletariado de uma orientação total, uma totalização política.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele distingue entre uma greve geral “proletária” e uma greve geral “política”. Esta última é entendida como um mecanismo convocado por atores políticos no controle de sindicatos centralizados com o objetivo de transferir o poder de um governo para outro já preparado e organizado. É a “organização ideal” que Engels considera impossível. O gesto de Sorel não é insistir, contra Engels, na possibilidade dessa organização. Em vez disso, ele a rejeita por preservar a dominação política, por projetar sobre a greve geral esse caráter “político” cujo horizonte é a tomada do poder estatal e o controle estatal centralizado. A greve geral proletária, por outro lado, é a pré-condição para a luta de classes emancipatória.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, Sorel opõe a greve geral proletária à greve limitada ou restrita, sugerindo que esta última oferece satisfações e ganhos parciais que servem para diminuir o fervor revolucionário. Além disso, ela revela, mas não resolve, os interesses divergentes entre os trabalhadores comuns e a aristocracia operária dos “encarregados, escriturários, engenheiros, etc.”, bem como os interesses aparentemente opostos do campesinato e do proletariado industrial. A noção de Marx do capital como uma totalidade e sua concepção da existência social em duas classes antagônicas não podem ser compreendidas a partir dessa perspectiva, nem podem ser construída a partir de fragmentos.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve geral unifica a experiência das misérias cotidianas e os vislumbres fragmentários de algo além delas, permitindo ao trabalhador individual uma intuição do mundo para o qual a revolução tende, obtida “como um todo, percebida instantaneamente” <strong>[9]</strong>. Esse “conhecimento total” bergsoniano supera, ao mesmo tempo, o problema prático da desunião da classe. Sorel imagina resolver o chamado problema da composição desta forma: “Mas todas as oposições se tornam extraordinariamente claras quando os conflitos são ampliados para o tamanho da greve geral… a sociedade está claramente dividida em dois campos, e apenas em dois, em um campo de batalha” <strong>[10]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A ação espontânea, portanto, é corolário do conhecimento espontâneo no sentido kantiano. Isso fornece a única passagem possível para a consciência de classe atualizada e a possibilidade revolucionária que não está entravada desde o princípio por estruturas organizacionais reificadas: “<em>a greve geral deve ser tomada como uma totalidade indivisível, e a passagem do capitalismo ao socialismo concebida como uma catástrofe, cujo desenvolvimento escapa a qualquer descrição</em>” <strong>[11]</strong>. Embora Sorel fosse um socialista e sindicalista herético, é essa contraposição à organização estatal e partidária que se torna a posição anarquista familiar sobre a greve geral.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><em><strong>A Inversão de Rosa Luxemburg</strong></em></h5>
<p style="text-align: justify;">A reelaboração dessa questão por Luxemburg em “<em>A greve de massas</em>”, um dos maiores panfletos políticos jamais escritos, tanto por seu método quanto por sua conclusão, não está isenta de ambiguidades. Aqui, ela parece distinguir a greve geral e a greve de massa como fenômenos dos séculos XIX e XX, respectivamente, para depois tratá-los como iguais: “o anarquismo, ao qual a ideia da greve de massa está indissoluvelmente associada”. Ela admite que a crítica de Engels a essa greve “à primeira vista é tão simples e irrefutável que, por um quarto de século, prestou um excelente serviço ao movimento operário moderno contra o fantasma anarquista e como meio de levar a ideia da luta política ao mais vasto círculo de trabalhadores” <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua retórica aqui é sofisticada, mas enviesada e potencialmente enganosa. Ela sugere que qualquer refutação do veredito de Engels deve, portanto, tomar o lado do “fantasma anarquista”. Isso provou ser uma interpretação errônea duradoura de Luxemburg, cuja posição é frequentemente atribuída a uma espontaneidade soreliana. “Rosa Luxemburg deu grande ênfase à espontaneidade das massas”, começa um resumo da sabedoria recebida; ele cita comentários representativos no sentido de que Luxemburg tinha “uma fé fanática, mas utópica, quase anarquista, nas massas” <strong>[13]</strong>. O próprio Sorel relata que a “nova escola que se autodenomina marxista, sindicalista e revolucionária” — ele se refere a Luxemburg, talvez Anton Pannekoek —“declarou-se a favor da greve geral assim que tomou consciência do verdadeiro sentido da sua própria doutrina” <strong>[14]</strong>.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159536" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22.jpg" alt="" width="755" height="900" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22.jpg 755w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-252x300.jpg 252w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-352x420.jpg 352w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-640x763.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-681x812.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 755px) 100vw, 755px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas, para Luxemburg, não foi a consciência doutrinária que mudou. Foram as circunstâncias materiais. Não se pode culpar Engels pelo seu raciocínio em 1873; são aqueles que permanecem presos nessa posição contra os novos desenvolvimentos históricos que merecem desprezo. Pannekoek apresentará um argumento semelhante pouco tempo depois. Diante da polêmica de Kautsky contra a greve de massa, que Kautsky temia que prejudicasse o Partido Social-Democrata e seus sindicatos, Pannekoek sustenta que “várias formas de ação… não são opostas, mas parte de uma gama gradualmente diferenciada”, formas que assumem sua relevância mutável a partir do desenvolvimento das forças econômicas <strong>[15]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Luxemburg escreve seu panfleto na esteira de uma série de greves de massa em expansão, primeiro na Bélgica e na Suécia, depois na Holanda, Rússia e Itália; em seguida, a onda insurrecional de greves que constitui a Revolução Russa incompleta de 1905. Ela encara a greve, portanto, não como um erro, mas como uma eventualidade:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Se, portanto, a Revolução Russa nos ensina alguma coisa, ela nos ensina acima de tudo que a greve de massa não é artificialmente “criada”, não é “decidida” aleatoriamente, não é “propagada”, mas que é um fenômeno histórico que, em um determinado momento, resulta de condições sociais com inevitabilidade histórica. Não é, portanto, por meio de especulações abstratas sobre a possibilidade ou impossibilidade, a utilidade ou a nocividade da greve de massa, mas apenas por meio de um exame dos fatores e condições sociais a partir dos quais a greve de massa cresce na fase atual da luta de classes — em outras palavras, não é pela crítica subjetiva da greve de massa do ponto de vista do que é desejável, mas apenas pela investigação objetiva das fontes da greve de massa do ponto de vista do que é historicamente inevitável, que o problema pode ser compreendido ou mesmo discutido <strong>[16]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sua investigação revela uma situação profundamente complexa na Rússia. Ela descreve os preparativos para a greve de massa de janeiro em São Petersburgo:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Aqui se lutava pela jornada de oito horas, ali se resistia ao trabalho por peça, aqui se “expulsavam” capatazes brutais em um saco sobre um carrinho de mão, em outro lugar se lutava contra sistemas infames de multas, em todos os lugares se lutava por melhores salários e aqui e ali pela abolição do trabalho em casa <strong>[17]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nessa circunstância de múltiplas queixas, nenhuma coordenação política vinda de cima é possível. No entanto, a disseminação interna da greve dentro do proletariado torna-se possível. O que dá consistência a essas várias particularidades russas é a transição de um absolutismo quase feudal para um capital industrializante. Embora a mão de obra urbana e o campesinato possam se encontrar em posições bastante diferentes, ambas as posições flutuam dentro dessa transformação singular, e a conexão entre lutas políticas e econômicas está aberta, desafiando a separação que Anthony Giddens chama de base fundamental do Estado capitalista <strong>[18]</strong>. Assim, torna-se possível uma mudança no equilíbrio, da frente do absolutismo para a das lutas econômicas que se seguem à greve de janeiro. Para Luxemburg, isso abre uma perspectiva revolucionária:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas, ao mesmo tempo, o período das lutas econômicas da primavera e do verão de 1905 tornou possível ao proletariado urbano, por meio da agitação e da direção social-democrata ativa, assimilar posteriormente todas as lições do prólogo de janeiro e compreender claramente todas as tarefas futuras da revolução <strong>[19]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A espontaneidade, então, pode se desdobrar em coordenação em determinadas condições, as de transição. Essa é a sequência revolucionária que Luxemburg vê diante de si, e a greve de massa é a forma que essa sequência assume. Para ela, isso não valida a posição anarquista. Sua conclusão, apresentada no início, é de fato brutal a esse respeito. O caráter revolucionário e o sucesso da greve de massa “não apenas não justificam o anarquismo, mas significam, na verdade, a liquidação histórica do anarquismo” <strong>[20]</strong>. Devido aos desenvolvimentos político-econômicos, a greve de massas, por assim dizer, mudou de lado; em um movimento objetivo, entrou no repertório da luta comunista.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode-se agora ler Luxemburg como um golpe desferido pelo socialismo e pelo marxismo contra as fantasias anarquistas. Em alguns momentos, o panfleto assume tons triunfalistas, o que não é louvável. Pode-se lê-lo como uma recomendação de como proceder, da importância da arma da greve de massa; sem dúvida, isso é fundamental.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, talvez seja mais significativo para o presente ler o panfleto por sua clareza dialética. Quando as condições materiais mudam, quando a estrutura político-econômica muda, a importância política e as possibilidades práticas de uma tática de ação coletiva também podem mudar. A associação congelada da greve e das formas de organização política que a acompanham com o que agora passaremos a chamar de teoria comunista deve ser abandonada. Da mesma forma, a associação congelada da ação coletiva supostamente espontânea com o anarquismo. Os pensadores que defendem essas identificações, apesar de toda a sua astúcia intelectual ou rejeição por princípio das tendências teóricas, só podem ser nossos Kautskys, ou, nesse caso, Bömelburgs, presos no âmbar do “que é desejável”. Devemos estar abertos a “uma revisão fundamental do antigo ponto de vista do marxismo”, baseada nas transformações da realidade social <strong>[21]</strong>. Não se declara que um comunista faz isso ou um anarquista faz aquilo. Vai-se ao “ponto de vista do que é historicamente inevitável” — somente a partir desse ponto de vista “o problema pode ser compreendido ou mesmo discutido”.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159533" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A.jpg" alt="" width="886" height="836" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A.jpg 886w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-300x283.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-768x725.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-445x420.jpg 445w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-640x604.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-681x643.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 886px) 100vw, 886px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> O marxismo não é uma crença política (muito menos um programa), mas sim um modo de análise.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> É uma espécie de petição de princípio distinguir entre socialismo e comunismo. A intenção, que será relevante mais adiante, é muito semelhante à do termo “marxismo tradicional” de Moishe Postone, que consideramos ser o socialismo — referindo-se a um horizonte político de socialização dos meios de produção sob o controle dos trabalhadores por meio da tomada do Estado, enquanto “comunismo” se refere ao horizonte político de abolir o modo de produção por completo. Sobre a questão de se o primeiro pode levar ao segundo, como proposto na <em>Crítica ao Programa de Gotha</em>, de Marx, algumas breves reflexões são apresentadas no capítulo final.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Kristin Ross, <em>Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune</em>, Londres: Verso, 2015, 107.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> “Spontaneity, Mediation, Rupture”, <em>Endnotes</em> 3, 2013, 232. Os autores coletivos citam Robert Pippin, Hegel&#8217;s Idealism, Cambridge: Cambridge University Press, 1989, 16-24.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Maria Chehonadskih, “The Anthropocene in 90 Minutes”, mute.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Karl Marx e V. I. Lenin, <em>The Civil War in France: The Paris Commune</em>, Nova York: International Publishers, 1968, 34.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Friedrich Engels, ““The Bakuninists at Work: An Account of the Spanish Revolt in the Summer of 1873,” cited in Rosa Luxemburg, <em>The Essential Rosa Luxemburg</em>, ed. Helen Scott, Chicago: Haymarket Books, 2008, 111-12.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 112.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Georges Sorel, <em>Reflections on Violence</em>, ed. Jeremy Jennings, Cambridge: Cambridge University Press, 1999, 128. Ver nota de rodapé 17 nessa página sobre Bergson.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Sorel, <em>Reflections</em>, 132.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Ibid., 148 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 114, 112.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Norman Geras, <em>The Legacy of Rosa Luxemburg</em>, Londres: Verso, 1976, 111-12. A segunda passagem cita E. H. Carr.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Sorel, <em>Reflections</em>, 120.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Anton Pannekoek, <em>Pannekoek and Gorter&#8217;s Marxism</em>, ed. D. A. Smart, London: Pluto, 1978, 65.Em retrospecto, como era fácil derrotar Kautsky em um debate!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 117-8 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Ibid., 129.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Anthony Giddens, <em>The Class Structure of the Advanced Societies</em>, Londres: Hutchinson, 1973, 206.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 131.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Ibid., 113 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Ibid., 114.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este capítulo são da autoria de Frans Masereel (1889-1972).</em></p>
</blockquote>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</em></p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (6)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Jul 2026 17:21:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
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					<description><![CDATA[A greve é exatamente o que a revolta não é. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>PARTE 2: GREVE</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 4</strong></h5>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Greve Contra a Revolta</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Que tipo de contraponto é a greve em relação à revolta? O século XIX se propõe a medir isso, a calcular essa relação. Ele o faz de forma desigual na Europa Ocidental, na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos — de forma insistente, incerta, mas com resultados consequentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Este livro não é uma história da greve ou do movimento operário, da era em que a proletarização denota a desapropriação agrária, a expansão industrial, o incremento, em termos absolutos e relativos, da população global no trabalho assalariado, e o indivíduo soberano como forma de integração aos circuitos de acumulação. No entanto, estas são as coordenadas do período em que a era dourada das revoltas se dissolve e de onde surge a nova era das revoltas: a longa segunda-feira do mundo em que era sempre hora de trabalhar e o capitalismo produtivo dominava em escala global, com a sua volatilidade típica.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve, a tática dominante da ação coletiva nesse período, exigirá alguma reflexão &#8211; até porque o status da greve, uma vez que se torna a figura principal do antagonismo social, oferece uma posição a partir da qual se pode refletir sobre a revolta. Cada ação esclarece a estrutura e a dinâmica da outra, cada uma revela mudanças nas metamorfoses subterrâneas e instáveis do capital. Isso é verdade não apenas de uma forma absoluta, segundo a qual a verdade de cada uma pode ser contrastada, mas também de acordo com as conceções políticas do par e do emparelhamento — o que poderíamos chamar de ideologias da revolta e da greve.</p>
<p style="text-align: justify;">No capítulo anterior, propusemos a compreensão mais ampla possível de uma greve: uma luta pelo preço da força de trabalho e pelo próprio emprego, conduzida pelos trabalhadores como trabalhadores na esfera da produção. Essas características podem ser abstraídas e estendidas a qualquer ação orientada por elas. Essa greve chega cedo, coexistindo com a revolta à medida que ela reúne as suas forças.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso é obviamente exagerado. Um experimento mental, digamos. Certamente está em desacordo com as compreensões convencionais desenvolvidas desde o século XIX, que oferecem uma porta muito mais estreita pela qual uma tática deve passar para ganhar esse nome. A greve restrita é geralmente definida de acordo com uma autodenominação ou autorreconhecimento, que deve ser acompanhado por um comportamento físico e político específico: ordeiro, ancorado no lugar, disciplinado, legalista, caracterizado pela recusa. Formas de aparência, em suma, que podem ser discernidas por um observador casual. Se um episódio falhar ou exceder esses padrões, ele não é considerado uma greve (podemos pensar nas greves dos campos de carvão de 1913-1914, que em algum momento da série concertada de greves se tornaram a Guerra dos Campos de Carvão do Colorado e depois o Massacre de Ludlow). Ou, como acontece repetidamente, os eventos que não correspondem a esse modelo de greve são apagados para que o nome greve possa preservar suas reivindicações. Quem se lembra agora como greves as revoltas dos trabalhadores têxteis de Lyon em 1831 e 1834, que exigiram salários, trabalho e justiça para os líderes presos por meio de barricadas e guerrilha? Esta greve chega tarde. O período de transição é muito mais longo. Exceto que, como veremos, não há transição alguma.</p>
<p style="text-align: justify;">O próprio Marx observa que 1830 marca a mudança na França de um estado de proprietários de terras para um de capitalistas. Hobsbawm generaliza a data como um ponto de viragem para a “consciência da classe trabalhadora” nos países de origem das duas revoluções burguesas e industriais, uma nova situação que “certamente surgiu entre 1815 e 1848”. Para ele, “na Grã-Bretanha e na Europa Ocidental em geral [1830] marca o início dessas décadas de crise no desenvolvimento da nova sociedade, que terminam com a derrota das revoluções de 1848 e o gigantesco salto económico após 1851” <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A temporalidade é complexa, mas aponta para o atraso da greve no seu sentido estrito. Por consenso geral, a greve não tem existência real até 1830 ou, na verdade, por um bom tempo depois disso. Shorter e Tilly são a exceção parcial. A <em>greve</em> não aparece no índice de <em>The Making of the English Working Class</em>. O estudo cuidadoso de John Rule sobre o trabalho inglês de 1750 a 1850 raramente menciona a greve e, dentro desse período, a greve em sua narrativa ainda não está esclarecida, ainda em relação ambígua com intimidação, destruição de máquinas e outras atividades não relacionadas à greve &#8211; o conjunto predestinado de elisões que caracteriza a época. Esses fatos nos dizem tanto sobre as autoidentificações da época quanto sobre seus historiadores. A famosa pesquisa de Rudé sobre o período de 1730 a 1848 tem, na entrada <em>Greve</em>, um redirecionamento: “Veja disputas trabalhistas, ludismo, Londres, Paris”<strong>[2]</strong>. Sem dúvida, todas essas são coisas que se deve ver. A força da substituição é sugerir que devemos localizar a greve como um desenvolvimento tardio dentro do gênero mais amplo da disputa trabalhista, um desenvolvimento que, em 1848, ainda não havia surgido.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159504" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1.jpg" alt="" width="1190" height="1536" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1.jpg 1190w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-232x300.jpg 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-793x1024.jpg 793w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-768x991.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-325x420.jpg 325w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-640x826.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-681x879.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1190px) 100vw, 1190px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Seria tolice contestar tal conclusão. Certamente essa é a posição apresentada de forma persuasiva por Shorter e Tilly:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ao concentrarmo-nos na greve, excluímos várias outras formas de conflito e de ação coletiva (as duas não são de forma alguma sinónimas)… Isso é conveniente, uma vez que a greve é uma das formas de ação mais fáceis de identificar, rastrear e descrever. As outras formas de conflito, protesto e autoexpressão que poderiam ser usadas para se ter uma ideia das mudanças nas orientações dos trabalhadores incluem a destruição de máquinas, sabotagem, brigas, manifestações, redação de panfletos e, talvez, rotatividade e absenteísmo; todas elas são muito mais difíceis de identificar do que as greves. Outras formas de ação coletiva que os trabalhadores têm empregado para alcançar objetivos comuns incluem a organização de partidos políticos, sociedades de ajuda mútua, grupos conspiratórios, sindicatos, planos de seguro e muitos outros empreendimentos cooperativos <strong>[3]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A preservação dos muitos modos de ação coletiva, da criatividade do antagonismo, é uma tarefa vital. Mas também há dificuldades aqui, enigmas qualitativos que vão além do âmbito da pesquisa quantitativa. Uma primeira sugestão da dificuldade é a tendência de localizar o surgimento da greve no ponto de inflexão em que ela se torna a tática principal, no lugar do momento de sua entrada no teatro da luta. Isso tem o efeito de sugerir uma ruptura histórica excessivamente clara entre revolta e greve. Além disso, a narrativa genérica em que a greve surge como uma espécie de condensação da disputa trabalhista esconde, certamente contra as intenções dos nossos historiadores mais hábeis, o surgimento da greve a partir da revolta, das lutas de circulação. Em vez de serem complementares e genealogicamente conjuntas, as duas táticas são rigidamente demarcadas tanto na sua natureza como na sua história, e colocadas em oposição. Isso mais tarde se revelará um problema para aqueles que tentam compreender o retorno da revolta.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Espectáculo e Disciplina</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A oposição entre revolta e greve é um projeto declarado do século XIX que persiste em vários setores desde então. A dicotomia é produzida com sucesso por volta de meados do século. Considere a distância entre as revoltas de Bull Ring em 1839 e a greve dos fabricantes de vidro de Flint duas décadas depois. Cada um deve ser reconhecido como exemplar do seu género. A primeira começou com uma série de reuniões políticas realizadas no distrito comercial de Bull Ring, em Birmingham. A 4 de julho, o presidente da câmara e os magistrados chegaram e leram a Lei das Revoltas, momento em que a polícia chamada de Londres atacou a multidão de uma forma que suscitaria comparações amplas e inevitáveis como Peterloo. Consequentemente, seguiu-se uma revolta. “Janelas foram quebradas com tijolos e torrôes de açúcar foram saqueados da mercearia de Bourne antes de ser incendiada, e janelas fechadas foram atacadas com barras de ferro arrancadas da cerca”, deixando destroços suficientes para que “o Duque de Wellington chegasse ao ponto de comparar Birmingham às cidades que ele tinha visto saqueadas no continente durante as suas campanhas militares” <strong>[4]</strong>. Mais revoltas se seguiram, em Birmingham e em outros lugares.</p>
<p style="text-align: justify;">Em paralelo com o surgimento da arquitetura de vidro, a quebra de janelas passou a definir, no século XIX, o que Ian Hayward chama de “revolta espetacular”. Numa comparação perspicaz, Isobel Armstrong contrapõe as revoltas de 1839 à greve bem-sucedida dos vidreiros de Flint, iniciada em fábricas de várias cidades em dezembro de 1858 e que se prolongou até ao ano novo. A greve, muito debatida tanto dentro como fora do sindicato, define-se precisamente contra os hábitos revoltosos de 1839 e outros. Isto não é de admirar, dada a sua constituição: “A prática de quebrar vidros não tinha influência sobre os vidreiros e a sua greve disciplinada” <strong>[5]</strong>. Nisto, a sua autoconceção é paradigmática da ação laboral moderna. A greve é exatamente o que a revolta não é.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há dúvida de que esses dois eventos foram corretamente nomeados. O primeiro não é a forma <em>autêntica</em> da revolta por comida, que já havia passado do seu auge e entrado em declínio décadas antes. Mas é bastante semelhante — sobretudo por ter começado no mercado, com saques incluindo a apreensão de alimentos, batalhas sangrentas com o Estado e assim por diante. A ação posterior segue o formato da greve em todos os aspectos. Não é nenhum mistério por que ela deseja tão insistentemente se distinguir da revolta, dada a sua necessidade de reivindicar legitimidade tanto contra a repressão estatal quanto para obter apoio de outros sindicatos. Nesta conjuntura, a clara demarcação entre — e, de fato, a contraposição entre — greve e revolta <em>tornou-se</em> verdadeira.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso pode ser entendido como a <em>ideologia da ação coletiva</em> cimentada no período, em que revolta e greve assumem uma oposição política e até mesmo um antagonismo. O argumento aqui é que essa oposição é possível precisamente porque as duas ações foram definidas inteiramente de acordo com suas formas de aparência, que são consideradas como fornecendo um conhecimento claro de sua política, seu conteúdo social. Walter Benjamin observa: “É peculiaridade das formas <em>tecnológicas</em> de produção (em oposição às formas artísticas) que seu progresso e seu sucesso sejam proporcionais à <em>transparência</em> de seu conteúdo social. (Daí a arquitetura de vidro)” <strong>[6]</strong>. Produção industrial, progresso, arquitetura de vidro. Este é o mundo da greve. A ideologia da ação coletiva mantém essa ideia de transparência — que, ao olhar para a superfície, é possível ver diretamente as profundezas, ter acesso imediato ao conteúdo social. A greve torna-se greve ao ser <em>formalizada</em> contra a revolta. É a própria ordem, a janela intacta. A revolta, agora definida igualmente como o oposto da greve, deve igualmente encontrar o seu conteúdo na sua forma. Mas isso tem consequências paradoxais. A sua forma é desordenada; a desordem torna-se o seu conteúdo. Ninguém sabe o que a revolta quer. Ela não quer nada além da sua própria desordem, da sua opacidade brilhante. Brilhos e cacos de vidro estilhaçados.</p>
<p style="text-align: justify;">O objetivo não é sugerir que por baixo desta ideologia existe uma verdade contrária; não é assim que a ideologia funciona. Não devemos sugerir que a revolta e a greve são uma só, ou mesmo semelhantes. A divisão entre revolta e greve é necessária e até óbvia, e baseia-se nas mudanças mais substanciais na economia política da época. Em vez disso, a esperança é estar atento aos riscos do que pode ser perdido ao colocá-los em oposição rígida e estática. Ao perder a história em que a greve surge da revolta, perdemos o próprio processo de transformação e ficamos com os seus resultados diante de nós como dados adquiridos. Isso apresenta limites para uma periodização adequada dentro da história do capital. O “capitalismo” não é uma coisa homogénea. Nem é um fenômeno polidamente serial, uma situação sincrônica sucedendo discretamente outra. Fredric Jameson, na sua metodologia literária épica, insiste (em uma escala diferente): “O que é sincrónico é o &#8216;conceito&#8217; do modo de produção; o momento da coexistência histórica de vários modos de produção não é sincrônico neste sentido, mas aberto à história de forma dialética” <strong>[7]</strong>. É precisamente a sincronização — a revolta com uma fase do desenvolvimento do capital, a greve com outra, uma ruptura entre elas — que obscurece esta situação. Se a nossa datação sugere que a era das revoltas termina antes do início da era das greves, isso não pode oferecer um testemunho completo sobre o equilíbrio instável dentro do próprio capital, as mudanças continuamente provocadas pela dinâmica autodestrutiva do valor.</p>
<p style="text-align: justify;">Armstrong esforça-se por superar este limite, por transpor o espaço morto aberto entre a revolta e a greve. A partir de revoltas anteriores, ela deduz o que chama de “os três princípios cardinais da gramática da quebra de vidros — ação coletiva, o corpo como propriedade e a recusa da abstração”; ela encontra estes princípios ressurgindo na greve posterior <strong>[8]</strong>. Esta é uma leitura sutil e perspicaz sobre questões cruciais, sobretudo a rejeição do que ela chama de código patrício de quebra de janelas, no qual “quebrar janelas é um ato informal de violência, um certo <em>estilo</em> de crime sem conteúdo” <strong>[9]</strong>.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159505" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825.jpg" alt="" width="1000" height="815" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-300x245.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-768x626.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-515x420.jpg 515w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-640x522.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-681x555.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, a gramática de Armstrong mantém um certo formalismo, um certo foco discursivo — assim como a ideia de Hayward de revolta espetacular, que, em primeiro lugar, pode ser entendida como uma resposta ao novo espetáculo da modernidade urbana e industrial. O conteúdo social tanto da revolta quanto da greve, não pode ser limitado aos princípios dos participantes, seus afetos e crenças. Qual é, então, o conteúdo social da greve? Ele é duplo. Como observado, é o confronto do trabalho com o capital na tentativa de definir o preço da força de trabalho (contra o preço zero do desemprego). Mas o conteúdo social da greve é também a <em>própria produtividade</em>, e isso é extremamente importante. Não é o “capitalismo” em algum sentido abstrato ou geral do qual a greve depende. Também não pode ser reduzido às misérias particulares da vida mecanizada da industrialização, embora ninguém possa duvidar que estas são um estímulo brutal. É antes o conjunto de mudanças que acompanham a transição do capital comercial para o capital industrial que leva muitos para os novos setores produtivos e que leva o capital a concentrar-se também aí — tal como muitos foram anteriormente levados para o mercado de subsistência num processo global desigual.</p>
<p style="text-align: justify;">Um fato evidente, embora muitas vezes negligenciado, é que a eficácia limitada da greve baseada na procura coincide, em geral, não com a fragilidade do capital, mas com a sua vitalidade, quando o circuito salário-mercadoria está produzindo mais-valia e acumulação. Quando a produção não está em expansão, um capitalista tem menos interesse em preservar a sua continuidade e pode tentar resistir aos grevistas. “Mas argumentar que um empregador poderia resistir aos seus trabalhadores em greve”, observa John Rule sobre as primeiras greves inglesas, “não significa que fosse sempre do seu interesse fazê-lo. Ele não iria querer renunciar aos elevados lucros disponíveis com a expansão da produção num mercado em ascensão. Em tais condições, era mais racional ceder do que resistir às exigências” <strong>[10]</strong>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Muito e Muito Poucos</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Assim surge a categoria das lutas de produção, para as quais a greve é o arquétipo. A greve é a forma de ação coletiva própria da fase produtiva do capital. Ela surge antes disso, testa-se contra o mundo, mas só consegue realizar-se com o período de acumulação do capital. Esta fase não chega pontualmente ou autonomamente quando o capital comercial ou centrado na circulação se esgota, mas surge a partir dele e permanece entrelaçada com ele. A produção e a circulação mantêm uma relação dialética clássica: opostas e mutuamente constitutivas, a sua contradição (a contradição entre valor e preço) mantém-nas em movimento conjunto. A origem da greve é a transformação que move corpos e capital para a esfera da produção. Nem todos eles, nem tudo, continuaremos a insistir. Mas depois de um certo limiar. A greve emerge da circulação, mas torna-se a tática principal quando o limiar é ultrapassado, quando uma mudança quantitativa na estrutura da economia torna-se qualitativa. No final, as questões podem ser formuladas da seguinte forma: a greve ascende quando o local de reprodução proletária se desloca para o salário, que deve, ao mesmo tempo, tornar-se o ponto crucial do próprio circuito de reprodução do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">A purificação e a autonomização da greve no século XIX são, portanto, unilaterais; elas mantêm apenas a oposição entre produção e circulação, sem a sua unidade. Ou seja, na dialética da continuidade e da ruptura, o cenário de greve contra a revolta é necessário, mas insuficiente, inclinando-se demais para a ruptura, para a descontinuidade e a oposição formal. Será importante reconhecer os momentos em que essa continuidade, agora oculta por trás do véu da mudança histórica, se torna visível.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos voltar a 1839 simplesmente para recuperar a heterogeneidade do momento. As reuniões políticas que inspiram a violência são, naturalmente, as reuniões cartistas. Porta-estandartes dos muitos de Shelley, eles são a organização trabalhista mais avançada da Grã-Bretanha. O seu jornal, <em>The North Star</em>, publica “To The People” — a passagem de “Masque of Anarchy” que inclui o famoso verso — em abril de 1839. Em maio, publica um poema de “E.H. (Uma Operária de Stalybridge)” e, em junho, um poema anónimo, “Versos de um Operário”. Esta é a edição atual quando começam as revoltas de Bull Ring <strong>[11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O movimento sindical organizado já está bem avançado. Como diz Eric Hobsbawm,</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na Grã-Bretanha, as tentativas de unir todos os trabalhadores em “sindicatos gerais”, ou seja, de romper o isolamento setorial e local de grupos específicos de trabalhadores para alcançar a solidariedade nacional, talvez até universal, da classe trabalhadora, começaram em 1818 e foram perseguidas com intensidade febril entre 1829 e 1834 <strong>[12]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Portanto, não é tão fácil definir a política do Bull Ring. Essa incerteza empalidece diante dos acontecimentos de três anos depois, talvez os mais indecisos do século XIX na Grã-Bretanha. O mistério está todo numa única frase: “O ponto de combustão social espontânea na Grã-Bretanha foi atingido na greve geral não planejada dos cartistas no verão de 1842 (as chamadas &#8216;revoltas dos plugues&#8217;)” <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">“Espontânea”, “não planejada”. Queremos destacar estas palavras; sabemos muito bem que significam revolta. O episódio salta dos mineiros de Staffordshire para fábricas, moinhos e minas em toda a Grã-Bretanha, reunindo finalmente mais de um milhão de trabalhadores em seu entorno. Apresenta as características básicas da greve laboral de forma bastante perfeita: assume a forma de recusa de trabalho. Após três anos de colapso industrial, as suas principais reivindicações, aprovadas como resoluções ao longo da ação, dizem respeito à duração da jornada de trabalho e à restauração dos salários aos níveis de 1820, bem como à redução dos aluguéis. Hobsbawm continua a insistir, no entanto, que é tanto uma greve excessiva quanto insuficiente: “A greve geral provou ser inaplicável sob o Cartismo, exceto (em 1842) como uma revolta espontânea contra a fome” <strong>[14]</strong>. Em tudo isso, ele parece ansioso por reconhecer que a greve e a revolta podem ser contínuas, enquanto ainda tenta preservar a ideia da greve pura como algo diferente. É uma confusão. Mas essa confusão é a verdade das coisas.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses deslizes são o resultado inevitável de deixar a forma representar o conteúdo com demasiada facilidade. São também sinais da coexistência de Jameson, da presença de tensões dentro da espiral diacrónica do capital. Como tal, tornam pensáveis outros momentos de coexistência, outros momentos de metamorfose dentro do capital e, portanto, nas suas formas de ação coletiva. Uma vez que o peso deste livro se inclina para pensar uma metamorfose complementar no presente, isto é realmente sugestivo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159503" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962.jpg" alt="" width="1224" height="962" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962.jpg 1224w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-300x236.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-1024x805.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-768x604.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-534x420.jpg 534w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-640x503.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-681x535.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1224px) 100vw, 1224px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Eric Hobsbawm, <em>The Age of Revolution: Europe 178-1848</em>, Londres: Abacus, 2007, 255, 141.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> George Rudé, <em>The Crowd in History: A Study of Popular Disturbances in France and England, 1730-1848</em>, Londres: Lawrence and Wishart, 1984, 278.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Shorter e Tilly, <em>Strikes in France</em>, 4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Michael Weaver, “Os motins de Birmingham Bull Ring de 1839: variações sobre um tema de conflito de classes”, <em>Social Science Quarterly</em> 78: 1, março de 1997, 146, 137.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Isobel Armstrong, <em>Victorian Glassworlds: Glass Culture and the Imagination 1830-1880</em>, Oxford: Oxford University Press, 2008, 69. Armstrong também conecta os dois eventos por meio da estranha coincidência de que um dos magistrados de Birmingham de 1839, William Chance, era sócio de uma das maiores empresas de fabricação de vidro da Inglaterra.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Walter Benjamin, <em>The Arcades Project</em>, trad. Howard Eiland e Kevin McLaughlin, Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2002, 465 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Fredric Jameson, <em>The Political Unconscious: Narrative as Socially Symbolic Act</em>, Ithaca: Cornell University, 2014, 95.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Armstrong, <em>Victorian Glassworlds</em>, 73.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ibid., 65 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> John Rule, <em>The Labouring Classes in Early Industrial England 1750-1850</em>, Londres: Addison Wesley Longman, 1986, 261 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Mike Sanders, <em>The Poetry of Chartism: Aesthetic, Politics, History</em>, Cambridge: Cambridge University Press, 2009, 233.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Hobsbawm, <em>Age of Revolution</em>, 255.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Ibid., 208.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Ibid., 256-7.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram o capítulo são da autoria de Käthe Kollwitz.</em></p>
</blockquote>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</em></p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (5)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jul 2026 19:18:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
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					<description><![CDATA[É a transição do mercado para o local de trabalho, do preço dos bens para o preço da força de trabalho que dita a transição da revolta para a greve no repertório da ação coletiva. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 3</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Mudança, Ou, da Revolta à Greve</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">É impossível, certamente, descobrir o momento exato em que a greve supera a revolta no repertório. Qualquer determinação desse tipo seria excessivamente confiante quanto à clareza e pontualidade com que as formas de luta se desenvolvem, divergem e reformam. Pior ainda seria sugerir que uma desaparece, para ser substituída pela outra. As táticas, uma vez adotadas, estão sempre à mão, mais próximas ou mais distantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ao buscar a transição, temos a dificuldade já exposta. A mudança da revolta para a greve é imanente a uma mudança mais completa e complexa na estrutura da ascensão do capital. A greve emerge da revolta — de um modo centrado na obtenção de lucros no mercado para um centrado na extração de mais-valia. Ou seja, a greve emerge no novo mundo da produção capitalista, como deve ser, a partir do espaço da circulação. Ela se afasta do mar, deixando um rastro de espuma, embora ainda não totalmente formada. Marinheiros britânicos, americanos e franceses estavam consistentemente entre os trabalhadores mais militantes do século XVIII, rivalizando com os sapateiros (os comerciantes eram encontrados mais consistentemente entre os líderes de distúrbios políticos do século XVII até a Comuna de Paris). A própria palavra inglesa <em>strike</em> parece datar de 1768, quando marinheiros se juntaram a “artesãos e comerciantes da cidade — tecelões, chapeleiros, serradores, moedores de vidro e carregadores de carvão — na luta por melhores salários, [e] arriaram suas velas e paralisaram o comércio da cidade. Eles &#8216;não tinham tripulação ou, de outro modo, eram impedidos de navegar todos os navios no Tâmisa&#8217;” <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A derivação do termo francês para greve, <em>gréve</em>, é ainda mais sugestiva — uma etimologia com o alcance de um épico, começando na margem de um rio e terminando no Hôtel de Ville alguns séculos depois e a oitenta passos de distância. É uma palavra antiga. Originalmente, significava uma área plana de areia e cascalho próxima à água, uma praia e, portanto, um local onde os barcos descarregavam cargas. A <em>gréve</em> mais trabalhável do Sena tornou-se, portanto, o principal porto de Paris <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ficava na margem direita, uma vez que a cidade se expandiu a partir das ilhas do rio. A área aberta próxima à praia serviria como mercado central da cidade na Alta Idade Média, antes que os feirantes se mudassem para Les Halles. Trabalhadores não qualificados se reuniam ali em busca de trabalho, carregando e descarregando madeira e trigo, barris de vinho e fardos de feno: a Praça da Gréve. O nome duraria mais de 500 anos. Em 1802, a praça tornou-se a Place de l&#8217;Hôtel de Ville, renomeada em homenagem ao seu edifício principal, a residência do prefeito, o golpe termidoriano e, por um breve período, a Comuna. Fotografias antigas mostram que os c<em>ommunards</em> ergueram barricadas ali, em parte por causa de grandes barris de vinho. Uma rima medieval. Onde estava o mercado, estará a comuna.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159484" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1.jpg" alt="" width="800" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1.jpg 800w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-300x150.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-768x384.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-640x320.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-681x341.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas estamos nos precipitando. Estamos no porto mais uma vez, o lugar que fornece a principal coordenada para esta primeira seção, para a era de ouro das revoltas. É inevitável, porque é prática e logicamente necessário, que o porto e o mercado parem a greve. É igualmente inevitável, então, que retornaremos ao porto mais adiante neste livro, à medida que as coisas oscilam de greve para revolta. É um ponto de captação de mão de obra não utilizada em meio à grande máquina do mercado. Um lugar de miséria e possibilidade. É apropriado, talvez, que a Place de Gréve também sediará uma guilhotina; o dicionário de 1835 associa a palavra <em>gréve</em> a execuções. Ele ainda não menciona ações dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a mudança já está em andamento. A ascensão do capital refina algumas frases. Chateaubriand, ultradireitista e inveterado criador de termos, usa <em>gréviste</em> em 1821; por enquanto, não significa exatamente um grevista, mas sim alguém que se opõe aos monarquistas. Seu faro para política está afiado como sempre. À medida que os corpos se reúnem na Praça, os desempregados que serão o primeiro exército das Jornadas de Junho, “<em>étre en gréve”</em> passa a significar “procurando trabalho”. Em 1848, após um colapso econômico em toda a Europa, “<em>mettre un patron en gréve</em>” significa “recusar-se a trabalhar para o patrão”. O sentido moderno e a greve moderna chegaram. A transição está completa.</p>
<p style="text-align: justify;">A França chega lá um pouco mais tarde do que a Inglaterra ou os Estados Unidos, por razões já discutidas. Os anos 1848-1851 são o grande pivô, apesar de toda a sua natureza farsesca. A industrialização agora remodelará a sociedade francesa em um nível profundo. Diante desta passagem, as perplexidades abundam, como em outros lugares. Em 1830, encontramos “uma revolta de trabalhadores têxteis ocorreu em Roubaix; eles queriam um aumento de salário”. O promotor de Douai relata: “Eles quebraram as vidraças nas lojas principais, onde foram em massa para solicitar acordos por escrito sobre o aumento”. Roubaix era um centro têxtil desde o final da Idade Média, com uma organização trabalhista bem desenvolvida. Shorter e Tilly registram isso corretamente (embora de forma ambígua) como um prelúdio para a greve na França, observando que “às vezes, os trabalhadores de uma loja paravam por um tempo e, às vezes, tentavam obter paralisações em outras lojas do mesmo setor”, mas, mais comumente, “o cerne de sua ação era uma demonstração de força aliada à apresentação de reivindicações coletivas relativas às condições de emprego em um conjunto específico de lojas. A lei da época proibia quase qualquer tipo de ação coletiva dos trabalhadores” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O promotor claramente não tem palavras para isso. O conteúdo da própria estrutura social em que está enredado ainda não lhe é conhecido: a chegada ao palco das classes trabalhadoras. Ele está preso à forma. É uma multidão enfurecida afinal, mesmo que sejam trabalhadores se mobilizando como trabalhadores em seus locais de trabalho, reivindicando melhores salários. A consequência desse formalismo é evidente. “A revolta, de acordo com o relatório do deputado, não parece ter nenhuma conotação política”, conclui nosso cronista. Podemos suspeitar que ele queria dizer que os eventos não estão diretamente relacionados à Revolução de Julho, duas semanas antes. Ao mesmo tempo, reconhecemos um senso comum a caminho de se tornar um truque de retórica. Ele realiza um certo tipo de trabalho, essa confusão, esse hábito peculiar de nomenclatura. Porque podemos chamá-lo da revolta, podemos proceder como se seu manifesto significado político não existisse. Mais um espasmo na história sem história dos miseráveis.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><em><strong>Quebra-Máquinas</strong></em></h4>
<p style="text-align: justify;">“ÀS CLASSES TRABALHADORAS”, como começavam os panfletos:</p>
<blockquote><p><em>Os Cavalheiros, a Agricultora, os Fazendeiros e outros, tendo comunicado a vocês sua intenção de aumentar seus Salários de forma satisfatória; e tendo sido bom sentirem que será mais benéfico para seus próprios interesses permanentes retornar às suas ocupações honestas habituais e se afastarem de práticas que tendem a destruir a Propriedade, de onde os próprios meios para seus Salários adicionais devem ser fornecidos</em><strong>[4]</strong>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta publicação em particular vem dos magistrados de Berkshire; apenas dois condados ingleses proferiram mais sentenças de morte a participantes da “revolta de Swing”, e nenhum prendeu tantos. O objetivo é acalmar os verdadeiros seguidores do mítico “Captain Swing” durante a onda de quebra-máquinas iniciada no outono de 1830. Caso isso acontecesse, as revoltas de Swing durariam até o ano seguinte. As classes trabalhadoras, neste ponto, ainda são plurais, as frações libertadas pelos destroços do feudalismo, ainda em processo de se transformarem na classe trabalhadora. Thompson considera 1790-1832 como o período crucial, onde encontramos também aquele episódio mais duradouro de destruição de máquinas, as revoltas luditas de 1811-1813.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159482" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing.png" alt="" width="701" height="891" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing.png 701w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-236x300.png 236w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-330x420.png 330w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-640x813.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-681x866.png 681w" sizes="auto, (max-width: 701px) 100vw, 701px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Repetidamente, Swing trata de máquinas debulhadoras. Da mesma forma, “os ataques luditas se limitavam a objetivos industriais específicos: a destruição de teares mecânicos (Lancashire), máquinas de tosquia (Yorkshire) e resistência ao colapso do costume na indústria de tricô de Midland” <strong>[5]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Já encontramos o mecanismo que, acionado pelos avanços agrários, fará girar as rodas da Revolução Industrial. A corrida pela produtividade, a própria base do desenvolvimento capitalista, significa a substituição da força de trabalho por meios de produção, do trabalho vivo por morto, do capital variável por constante. O aumento da produtividade tende a aumentar os salários, o que, por sua vez, força novos avanços que economizam mão de obra. Paralelamente, massas de empregados domésticos são lançadas ao mercado de trabalho: o aumento dos custos dos produtos agrícolas persuade os empregadores a abandonar arranjos residuais de trabalho em espécie em troca de salários, repassando a inflação aos trabalhadores. O trabalho agrário perdido pelo cercamento deprime esses mesmos salários, mesmo enquanto a indústria caminha pela paisagem com botas de sete léguas.</p>
<p style="text-align: justify;">À medida que o salário se generaliza, o mercado começa a renunciar à sua centralidade social. O espaço físico sujeito em parte ao controle comunitário, dá lugar a “mistérios de um mercado &#8216;autorregulador&#8217;, o mecanismo de preços e a subordinação de todos os valores comunitários ao imperativo do lucro” <strong>[6]</strong>. Em pouco tempo, “o membro característico dos pobres rurais era agora um proletário sem terra, dependendo quase exclusivamente do trabalho assalariado ou da Lei dos Pobres para sua vida” <strong>[7]</strong>. A Lei dos Pobres é um lembrete, à luz de discussões anteriores, de que zero também é um salário, embora um salário que precisará de suplemento para que seus beneficiários sejam mantidos em reserva disponível.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meio a isso, surgem o General Ludd e o Captain Swing, um liderando ataques contra as indústrias têxteis, o outro no teatro de combate agrário. Ambos os movimentos descreveram a si mesmo em termos militares, nunca melhor do que em uma carta “Assinada pelo General do Exército de Reparadores/Reformadores Ned Ludd Clerk”. Fizeram juramentos, muniram-se de armas. Contínuos e populares, dificilmente se pode discutir que foram revoltas reais. Seus períodos foram variados. Não tiveram uma única atividade. Somente nas revoltas de Swing, “incêndios criminosos, cartas ameaçadoras, panfletos e cartazes &#8216;inflamáveis&#8217;, &#8216;roubos&#8217;, reuniões salariais, agressões a feitores, párocos e proprietários, e a destruição de diferentes tipos de máquinas, todos desempenharam seu papel”. Apesar de toda essa variabilidade de forma, o conteúdo é constante. “Por trás dessas atividades multiformes, os objetivos básicos dos trabalhadores eram singularmente consistentes: alcançar um salário mínimo vital e acabar com o desemprego rural” <strong>[8]</strong>. Não menos claros eram os luditas, cujas “reivindicações incluíam um salário mínimo legal; o controle da &#8216;exaustão&#8217; de mulheres ou menores; arbitragem; o engajamento dos patrões para encontrar trabalho para homens qualificados despedidos por maquinário; a proibição de trabalho de má qualidade; o direito à associação sindical aberta” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Não devemos sugerir que os dois grandes episódios de quebra de máquinas sejam idênticos. Seus fundamentos são diferentes. Apesar de toda a sua ligação, os mundos agrícola e industrial na Grã- Bretanha estão em desacordo; as batalhas obstinadas sobre as Leis dos Cereais ressaltam os interesses contrários do campo e da cidade. Kirkpatrick Sale intitula seu estudo “Rebeldes Contra o Futuro: Os Luditas e Sua Guerra contra a Revolução Industrial”; poderíamos dizer o mesmo dos manifestantes do Swing? <strong>[10]</strong> Mas é enganoso, ainda que esteja de acordo com parte do espírito de Thompson, considerar as revoltas como defesas retrógradas do costume. Novamente nos deparamos com a questão do prático, da necessidade. Frequentemente, os luditas colocam as coisas de maneiras difíceis de confundir, afirmando seu direito e intenção de “quebrar e destruir todo tipo de estrutura que não pague o preço regular previamente acordado”. Uma lista está anexada a este comunicado; máquinas que não desloquem trabalhadores serão deixadas intactas <strong>[11]</strong>. Ludd e Swing, sem dúvida, compartilham a sensação de um terreno perigosamente instável, de um mundo da vida sob coação. No entanto, eles estão unidos, na fórmula mínima, pela pressão para baixo nos salários e pela ameaça de desemprego tecnológico. E é aqui que o quebra-cabeça da classificação se afirma.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159483" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1.jpg" alt="" width="700" height="924" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1.jpg 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-227x300.jpg 227w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-318x420.jpg 318w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-640x845.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-681x899.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px" /></p>
<p style="text-align: justify;">As autoridades, previsivelmente, desejam conceder-lhes força insurrecional apenas quando necessário para aplicar penalidades mais severas. Em sua maioria, os grandes episódios de quebra de máquinas serão registrados como revoltas por observadores, na época e posteriormente. Afinal, as leis dão nomes, e muitas vezes é o crime de revolta pelo qual os exércitos de Ludd e Swing são processados (embora um projeto de lei específico que torne a invasão de domicílio um crime capital seja aprovado logo no início). Magistrados de Nottingham relatam “um espírito ultrajante de tumulto e revolta” nos primeiros dias de Ludd, estabelecendo os termos da arte para condenações da Lei da Revolta.</p>
<p style="text-align: justify;">Ocasionalmente, o nome parece adequado, por exemplo, aplicado à extorsão de dinheiro e provisões. Os episódios reais, apesar de toda a sua variedade, muitas vezes assemelham-se formalmente à revolta — em seu tom, ímpeto, selvageria. E, no entanto, deveria ser impossível olhar para essas reivindicações e não reconhecer a greve em formação. Elas dizem respeito apenas a emprego, melhores salários, melhores condições de trabalho, proteções legais. Se estamos buscando a fonte da grande confusão entre a natureza subjacente da luta coletiva e sua aparência, não precisamos ir além desses eventos.</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos apresentar o argumento com clareza, principalmente porque se trata de um argumento sobre confusão. É somente neste período de transição histórica que os contornos da revolta e da greve podem finalmente ficar claros em seus delineamentos, exatamente porque é somente nesses períodos que os dois podem ser colocados em tão estreita proximidade, misturados e, no final, esclarecidos. Ou, para colocar de outra forma, a quebra de máquinas é como se dá a transição da revolta para a greve. Sem dúvida, parece retrospectiva, “o último capítulo de uma história que começa nos séculos XIV e XV” <strong>[12]</strong>. Mas essa insistência no costume, na luta contra o futuro, ignora aquela parte da quebra de máquinas que é a invenção, que antecipa. Não é menos um primeiro capítulo de políticas de confronto no local de trabalho que não terminaram. É somente em um período de transição que um híbrido tão chocante e inovador, com um pé no confinamento e nas revoltas por comida, um pé na legislação fabril e nas lutas pela jornada de trabalho, pode surgir. “Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal emergiu”, escreve Thompson <strong>[13]</strong>. Em tal circunstância, é inevitável que as táticas proliferem à medida que as pessoas tentam soluções para um novo conjunto de problemas, tomando emprestadas suas formas do antigo repertório — assim como o capital extrai suas formas do comércio até que o novo conteúdo esteja pronto para ser divulgado no dia a dia.</p>
<p style="text-align: justify;">É precisamente a transição do mercado para o local de trabalho, do preço dos bens para o preço da força de trabalho como fulcro da reprodução, que dita a transição da revolta para a greve no repertório da ação coletiva. Na verdade, são a mesma coisa: contexto e conflito. Eles se movem juntos. O ritmo próximo dessa dupla mudança fornece a base histórica para um argumento político-econômico que define revolta e greve adequadamente em sua plenitude histórica — define-os não de acordo com atividades específicas, mas antes pelas maneiras como o problema da reprodução confronta a massa de pessoas, suas posições dentro das relações sociais dadas, os lugares para onde foram empurradas, os espaços onde seus antagonistas devem ser visíveis, podem ser vulneráveis.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><em><strong>Os Muitos</strong></em></h5>
<p style="text-align: right;"><em>Levantem-se, como leões após o sono,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Em número invencível,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Sacudam suas correntes para a terra como orvalho</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Que durante o sono caíram sobre vocês —</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Vocês são muitos — eles são poucos —</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>— Percy Bysshe Shelley,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>“A Máscara da Anarquia”</em></p>
<p style="text-align: justify;">Se alguém fosse em busca de um fio condutor que atravessasse a sequência revolta-greve-revolta “linha”, faria pior do que seguir o destino do poema de Shelley, composto para “um pequeno volume de <strong>canções populares</strong> totalmente políticas”<strong>[14]</strong>. O poema narra o Massacre de Peterloo de 1819, nomeado com alguma ironia em homenagem a Waterloo, travado quatro anos antes. Estamos no meio do caldeirão de Thompson, então. A Inglaterra está em meio à fome e à depressão. A revolta por comida, tendo atingido o pico segundo todos os relatos em 1800-1, está em recuo. O fim das guerras napoleônicas lançou uma grande massa de corpos em um mercado de trabalho incapaz de absorvê-los. A indigência na Inglaterra está em 15% e a emigração em níveis históricos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159485" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819.jpg" alt="" width="1053" height="1053" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819.jpg 1053w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-1024x1024.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1053px) 100vw, 1053px" /></p>
<p style="text-align: justify;">É nesse contexto que 64.000 pessoas se reúnem no Campo de São Pedro, em Manchester, buscando reformas parlamentares, principalmente em relação ao sufrágio. A Lei da Revolta é lida. Na carga de cavalaria imediatamente seguinte, mais de uma dúzia de manifestantes são mortos e centenas ficam feridos. A indignação moral toma conta da nação. Na Itália, Shelley constrói seu poema a partir de notícias de jornais.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria difícil chamar Peterloo de revolta no sentido que a palavra havia se desenvolvido ao longo dos séculos anteriores. É próximo em certos aspectos. A grande assembleia se reúne na ágora. O termo e o código legal são usados em qualquer caso; é a categoria representativa que as pessoas têm em mãos. Certamente houve reuniões que podem ser mais apropriadamente chamadas de revoltas nos dias seguintes em cidades vizinhas. Mas a revolta do século XVIII atingiu, em geral, seu limite e explodiu. A multidão reunida na praça tenderá para a revolução ou nada, pressionada contra a impossibilidade da demanda prática quando até mesmo os apelos por reforma são recebidos com violência mortal. É aqui que o poema começa. O afastamento da revolta já começou. James Chandler escreve:</p>
<blockquote><p>Tudo isso quer dizer que, à semelhança de Peterloo, a “Revolução Francesa” em uma escala maior, ou talvez até mesmo o próprio “Romantismo” em uma escala ainda maior — nomeia um evento de duração indeterminada que marca uma grande transformação nas práticas da representação literária e política moderna, entendida em seu momento como tendo potencial revolucionário <strong>[15]</strong>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas o poema só é publicado em 1832, no final a nossa primeira tentativa. A estrofe final do longo poema irá tornar-se uma espécie de canção de marcha para luta após luta. É logo retomada pelos cartistas, que em 1842 se aproximam da primeira greve geral. O tempo do trabalho começou. Em 1911, Pauline Newman orientará seus discursos de organização para o Sindicato Internacional das Trabalhadoras do Vestuário Feminino com as frases de Shelley. Mas haverá outras oscilações. Em 2010, o poema é repatriado quando estudantes e outros que lutam contra cortes fatais no salário social atacam e ocupam o número 30 de Millbank, a sede do Partido Conservador em Londres. A estrofe final de Shelley é citada repetidamente nos dias seguintes, o fio condutor retornando na longa temporada que inclui o movimento das praças, o movimento <em>Occupy</em>, a Primavera Árabe — o retorno da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;">A estrofe final acrescenta um último verso a uma quadra que aparece anteriormente, desviando o olhar do pacifismo fundamental do poema: “Vós sois muitos — eles são poucos.” <strong>[16]</strong> Pode ser possível persuadir você de que os sons do primeiro verso, levantem-se/leões/depois, querem que você ouça a palavra revolta. É difícil não ouvir. É difícil não ouvir na associação do poema de “Anarquia” com o Estado corrupto, em vez de com os antagonistas do Estado, um precursor da inversão dialética com a qual iniciamos este livro: “Uma ordem violenta é uma desordem; e uma grande desordem é uma ordem. Essas duas coisas são uma só.” Mas o último verso de Shelley levanta uma questão mais simples ou talvez muito mais intratavelmente complexa, a dos muitos.</p>
<p style="text-align: justify;">O popular e o político, como ele insistia. Multidões e poder, na fórmula concisa de Canetti. Massas, classes, turba, multidão. Súditos, cidadãos, o povo. O sentido de antagonismo e metamorfose social, o sentido (para arriscar essa substancialização portentosa) do político: isso não pode ser desvinculado do sentido da multidão e daquilo que poderia lhes dar uma unidade, seja ela autodeclarada ou espectral. Isso dificilmente seria o lugar para uma revisão da literatura. Em vez disso, uma proposição simples: que revolta e greve serviram como, entre outras coisas, metonímias para este assunto em um determinado momento.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é outra maneira de delinear o que é apreendido na ideia de um repertório de ação coletiva e de identificar uma tática principal dentro dele. Essas táticas, e as mudanças entre elas, são expressões da massa social e suas recomposições, que por sua vez se formam e se transformam a partir de dadas bases materiais. Em outras palavras, a revolta não é um evento isolado e singular; é tanto uma fração real de quanto uma figura para os muitos aos quais está sempre adjacente. É a relação interna dos muitos externalizada sob certas condições. Isso também se aplica à greve. Compreender as transformações na sequência revolta-greve-<em>revolta “linha” </em>é enxergar as mudanças dos muitos, ver o que pode ser compreendido nelas.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Greg Grandin, <em>The Empire of Necessity: Slavery, Freedom, and Deception in the New World</em>, Nova York: MetropolitanBooks, 2014, n. 146. A citação sem atribuição é de The Economic Review, Vol. 5, Londres: Rivington, Percival &amp; Co., 1895, 216.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Eric Hobsbawm faz uma observação fascinante em <em>The Age of Revolution: Europe 1789-1848</em>, Londres: Abacus, 2007, 265, nota de rodapé 31. Ele escreve: “A greve é uma consequência tão espontânea e lógica da existência da classe trabalhadora que a maioria das línguas europeias tem palavras nativas independentes para designá-la (por exemplo, grève, huelga, sciopero, zabastovka), enquanto que as palavras para outras instituições são frequentemente emprestadas.” No entanto, isso é, em última análise, enganoso de maneiras que serão exploradas no capítulo seguinte, notadamente pela forma como declara a autonomia da greve em relação a uma tradição mais antiga, como se ela tivesse surgido de forma autóctone a partir da nova dispensação proletária.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Todos os trechos são de Edward Shorter e Charles Tilly, <em>Strikes in France 1830-1968</em>, Londres: Cambridge University Press, 1984, 1.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Eric Hobsbawm e George Rude, <em>Captain Swing: A Social History of the Great English Agricultural Uprising of 1830</em>, Nova York: W. W. Norton, 1968, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Thompson, <em>Working Class</em>, 484.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Wood, <em>Origin of Capitalism</em>, 69.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Hobsbawm e Rude, <em>Capitão Swing</em>, 35.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ibid., 195.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Thompson, “Working Class ”, 551.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Kirkpatrick Sale, <em>Rebels Against the Future: The Luddites and Their War on the Industrial Revolution: Lessons for the Computer Age</em>, Boston: Addison-Wesley, 1995.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Conant e Darval, citados em Thompson, “Working Class”, 535.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Thompson, “Working Class”, 543.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Thompson, “Moral Economy”, 128-9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Carta a Leigh Hunt, 1º de maio de 1820, <em>The Letters of Percy Bysshe Shelley: In Two Vols</em>., vol. 2, ed. Frederick L. Jones, Oxford: Clarendon Press, 1964, 191 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> James Chandler, England in 1819: <em>The Politics of Literary Culture and the Case of Romantic Historicism</em>, Chicago: University of Chicago Press, 1998, 18.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Diferentes impressões do poema variam em sua ortografia; esta citação segue a primeira edição, Londres: Edward Moxon, 1832.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>Ilustram o texto &#8220;O Hôtel de Ville incendiado, atacado pelas tropas de Versalhes&#8221;, de Gustave Clarence Rodolphe Boulanger (1871), &#8220;O Líder dos Ludditas&#8221;, de autoria anônima (1812), &#8220;Um Retrato Original do Capitão Swing&#8221;, de autoria anônima (1830), &#8220;O Massacre de Peterloo&#8221;, de George Cruikshank (1819).</em></p>
</blockquote>
<hr />
<p><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p>REVOLTA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p>GREVE</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159560/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></a></p>
<p>REVOLTA LINHA</p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159606/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159650/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></a></p>
<p><a href="https://passapalavra.info/2026/08/159704/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</em></p>
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