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	<title>Pensar &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (7)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Jul 2026 03:17:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
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					<description><![CDATA[Devemos estar abertos a uma revisão fundamental, baseada nas transformações da realidade social. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong style="font-family: Verdana, Geneva, sans-serif; font-size: 14px;">CAPÍTULO 5</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Greve Geral</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Essa ideologia de ação coletiva, com sua oposição estática entre revolta e greve, seria, por sua vez, elidida com uma oposição correspondente em um estrato conceitual mais elevado, o do anarquismo e do socialismo. Pode parecer, dentro das convenções do presente, que táticas específicas e seus repertórios surgem de, e são portanto próprios de, posições políticas e analíticas particulares <strong>[1]</strong>. Historicamente, a oposição ideológica das táticas ajudou a produzir a oposição política e isso, por sua vez, consolidaria ainda mais a antítese das formas de ação.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, a greve, e com ela a categoria mais ampla de ações trabalhistas organizadas e a organização em grande escala como tal, é entendida como a tática político-econômica associada ao campo complexo do socialismo e do comunismo como horizontes políticos, conjugando-se com o pensamento materialista histórico. A revolta, e com ela o conjunto de táticas “insurrecionais” antes e além da organização trabalhista tradicional, é entendida em oposição a isso. É um ataque espontâneo à vida cotidiana, mas também a rejeição de um programa político supostamente determinista, autoritário e implicitamente, se não explicitamente, estatista. Uma das questões básicas deste livro é se esse conjunto de oposições dicotômicas, uma fórmula com motivos históricos reais, ainda faz sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">A divisão na Primeira Internacional certamente não precisa ser repetida aqui, e um desdobramento completo da divergência entre anarquistas, de um lado, e socialistas e comunistas do outro, está além do escopo deste estudo <strong>[2]</strong>. Vale a pena lembrar até que ponto essas posições eram, a princípio, muito mais contínuas do que parecem agora; em paralelo com a das revoltas e greves, sua polarização é um procedimento a-histórico. Na época da Primeira Internacional, a retórica da emancipação do trabalho como projeto fundamental era compartilhada, juntamente com a centralidade do proletariado e o pressuposto da luta de classes como base para a revolução. Os debates da época são ilustrativos. Pode-se considerar a disputa entre o anarquismo coletivista e o comunismo anarquista na década de 1870. A primeira facção desejava acabar com todas as trocas comerciais e o salário, enquanto na visão da segunda, “uma economia de troca ainda opera dentro de uma rede de &#8216;coletividades&#8217; autogerenciadas e pertencentes aos trabalhadores, que detêm a propriedade legal dos instrumentos e recursos de produção”. O trabalho assalariado e seu status assumiram uma importância decisiva. Kristin Ross escreve: “Além disso — e esse foi o ponto de maior ruptura entre os dois grupos —, o anarquismo coletivista manteve o sistema salarial, fazendo a distinção entre alimentos e outros bens dependentes da contribuição de trabalho de cada indivíduo” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Tais posições e debates sobre o conteúdo de uma sociedade revolucionária deixam claro que a antítese rígida das posições políticas decorrentes dessa oposição seria moldada ao longo do tempo. A divisão de táticas em posições políticas e analíticas não acontece simplesmente ao longo do caminho, mas faz parte dessa moldagem. Em nenhum lugar o processo é encenado de forma mais explícita do que no caso da greve geral. Os debates sobre a greve geral apresentam dificuldades, sobretudo pelas várias distinções feitas (e não feitas) entre greves gerais “proletárias” e “políticas”, entre a greve “geral” e a greve “de massa”. Felizmente para nós, analisar essas distinções é menos importante do que um momento específico dentro dos debates e as possibilidades que ele oferece para considerar a relação entre táticas e posições políticas.<img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159534" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1.jpg" alt="" width="638" height="886" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1.jpg 638w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1-216x300.jpg 216w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1920_Ca-15_Verhaeren_Funf-Erzahlungen_28-Holzschnitte_1-302x420.jpg 302w" sizes="(max-width: 638px) 100vw, 638px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A vitória dentro da Internacional da posição socialista, no que diz respeito aos modelos de luta política, já havia sido ratificada antes da cisão de 1872. A Resolução nº 9 do ano anterior afirmava que “essa constituição da classe trabalhadora em um partido político é indispensável para garantir o triunfo da revolução social e seu objetivo final — a abolição das classes”. O compromisso com um processo parlamentar implica tanto um certo tipo de organização quanto, pelo menos, alguma observância de um padrão legalista. A estratégia parlamentar terá idas e vindas, mas a lógica organizacional do partido, que a acompanha, terá grande constância. Como expressão de sua base organizacional, supostamente ordeira em sua execução e entrando em confronto com o capital em vez do Estado, a greve restrita não pode deixar de aderir a tal horizonte político, mesmo que qualquer greve específica provavelmente tenha ambições mais locais.</p>
<p style="text-align: justify;">Em contrapartida, a aparente desordem dos modos anarquistas de luta torna-se objeto de antipatia. <em>Espontaneidade</em> é a palavra-chave que codifica essa antipatia. É um termo ambíguo, politicamente. Muitas vezes, indica uma ação que surge “naturalmente”, uma resposta momentânea. Nesse sentido, um ato espontâneo é escravo do estímulo. No entanto, de acordo com outra definição, “no século XVIII, quando Kant descreveu a unidade transcendental da apercepção — o fato de eu estar ciente de mim mesmo como tendo minhas próprias experiências —, ele chamou isso de ato espontâneo. Kant queria dizer o oposto de algo natural. Um ato espontâneo é aquele que é realizado livremente” <strong>[4]</strong>. Assim, o termo preserva tanto o sentido de afloramento autônomo (lembrando a visão espasmódica da revolta) quanto o de ato voluntário, livremente escolhido, que, no entanto, carece do desenvolvimento paciente de uma contra-organização que se movimenta paralelamente aos desenvolvimentos do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">O termo assume uma complexidade ainda mais controversa com a revolução Soviética. Lenin o utilizará, notoriamente, para deplorar as massas desorganizadas. A palavra russa <em>stikhiinost</em> significa tanto espontaneidade quanto o caos da natureza: aquilo que tem o menor grau de organização. Alexander Bogdanov, um filósofo polímata russo, especificará que essa desordem da natureza é uma resistência à organização que é o trabalho humano, e que os dois se opõem: “Consequentemente, o mundo é um campo de batalha do trabalho coletivo, no qual a atividade humana luta contra a resistência espontânea da natureza” <strong>[5]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">É o colapso não declarado desses sentidos — caótico, natural, contra o trabalho humano — que permite que o termo assuma suas dimensões mais pejorativas. A partir da ortodoxia leninista, o espontaneísmo torna-se não apenas falta de organização em algum sentido, mas também antagonismo ao trabalho e, portanto, implicitamente ao proletariado. Além disso, uma discordância com estratégias organizacionais pode ser transcodificada como irracionalidade, contrária não apenas ao trabalho, mas também ao ser humano como tal.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um momento anterior desse debate encenado à luz da Comuna de Paris, Marx inicialmente argumenta seriamente contra tal abordagem, contra a revolução impaciente. Em meio às esmagadoras derrotas francesas de 1870, ele adverte: “Os trabalhadores franceses […] não devem se deixar influenciar pelos souvenirs nacionais de 1792 […]”. Em vez disso, eles devem “construir o futuro. Deixem-nos incrementar calma e resolutamente as oportunidades da liberdade republicana, para o trabalho de sua própria organização de classe” <strong>[6]</strong>. Como é bem sabido, ele mais tarde mudará sua posição e fará uma avaliação surpreendente sobre a Comuna.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><em><strong>Engels e Sorel</strong></em></h5>
<p style="text-align: justify;">As dúvidas iniciais de Marx retornam na avaliação de Engels sobre a greve geral desencadeada pelos bakuninistas em 1873, com a Espanha à beira da guerra civil. As conclusões de Engels certamente assombram a vacilação posterior de Hobsbawm, sua identificação da greve geral com a revolta — dois avatares de espontaneidade excessiva e organização inadequada, a identidade do excesso e da insuficiência. “A greve geral, no programa dos bakuninistas, é o mecanismo que será usado para introduzir a revolução social”, escreve ele, elevando o tom de escárnio. Ele continua:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Em uma bela manhã, todos os trabalhadores de todas as indústrias de um país, ou talvez de todos os países, cessarão o trabalho e, assim, obrigarão a classe dominante a se submeter em cerca de quatro semanas ou a lançar um ataque contra os trabalhadores, para que estes tenham o direito de se defender e possam usar a oportunidade para derrubar a velha sociedade.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Voltando a 1842 e suas limitações, suas falhas de coordenação e preparação, ele então chega ao “ponto crucial da questão”:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por um lado, os governos, especialmente se encorajados pela abstenção da ação política por parte dos trabalhadores, nunca permitirão que os fundos dos trabalhadores se tornem grandes o suficiente e, por outro lado, eventos políticos e as intervenções da classe dominante levarão à libertação dos trabalhadores muito antes que o proletariado consiga formar essa organização ideal e esse colossal fundo de reserva. Mas se eles tivessem isso, não precisariam recorrer ao caminho indireto da greve geral para atingir seu objetivo <strong>[7]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os anarquistas, nessa narrativa, carecem tanto de razão quanto de recursos. Não tendo desenvolvido adequadamente suas associações trabalhistas, os trabalhadores não terão acumulado capacidade organizacional adequada nem recursos financeiros suficientes para encenar o que acreditam ser uma batalha pela emancipação total. Rosa Luxemburg encontra nisso o que se tornará o senso comum da social-democracia, derivado de seu oposto, a “teoria anarquista da greve geral — ou seja, a teoria da greve geral como meio de inaugurar a revolução social, em contraposição à luta política cotidiana da classe trabalhadora”. Qualquer defesa da greve geral anarquista “se esgota no seguinte dilema simples: ou o proletariado como um todo ainda não possui a poderosa organização e os recursos financeiros necessários, caso em que não pode levar adiante a greve geral, ou está suficientemente bem organizado, caso em que não precisa da greve geral” <strong>[8]</strong>.<img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159535" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32.jpg" alt="" width="642" height="886" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32.jpg 642w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32-217x300.jpg 217w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32-304x420.jpg 304w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1925_Ba-17_La-Ville-_100-Holzschnitte_Nr.32-640x883.jpg 640w" sizes="(max-width: 642px) 100vw, 642px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Georges Sorel oferecerá, no entanto, uma defesa notável. Antes de passar a isso, podemos observar em Engels uma suposição interessante sobre o desenvolvimento de um fundo de greve, a artilharia pesada no arsenal do proletariado. O limite para sua expansão é o Estado, que “nunca permitirá que os fundos dos trabalhadores se tornem grandes o suficiente”. Este é o mundo visto da perspectiva da acumulação, em que se pressupõe um excedente social crescente, e a disputa para apropriar-se da maior parte possível desse excedente é o preâmbulo plausível e necessário para uma luta ampliada. A concepção de Engels sobre os fundamentos da luta é produtivista, não apenas no sentido abstrato de assumir a centralidade do trabalho produtivo para a luta revolucionária, mas também em sua pressuposição de um aumento concreto e contínuo da riqueza social decorrente do capital produtivo; ela se encaixa com a observação de Rule sobre a dependência da greve bem-sucedida da “expansão da produção”. Essa é a particularidade histórica implícita a partir da qual Engels universaliza sua crítica.</p>
<p style="text-align: justify;">Sorel será o opositor de Engels mais de trinta anos depois. Sua defesa da greve geral não é menos ardente do que a denúncia de Engels, embora compartilhe a tendência universalizante dessa denúncia. Para Sorel, o poder da greve geral não é sua capacidade de subjugar instantaneamente o capital, mas sua provisão ao proletariado de uma orientação total, uma totalização política.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele distingue entre uma greve geral “proletária” e uma greve geral “política”. Esta última é entendida como um mecanismo convocado por atores políticos no controle de sindicatos centralizados com o objetivo de transferir o poder de um governo para outro já preparado e organizado. É a “organização ideal” que Engels considera impossível. O gesto de Sorel não é insistir, contra Engels, na possibilidade dessa organização. Em vez disso, ele a rejeita por preservar a dominação política, por projetar sobre a greve geral esse caráter “político” cujo horizonte é a tomada do poder estatal e o controle estatal centralizado. A greve geral proletária, por outro lado, é a pré-condição para a luta de classes emancipatória.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, Sorel opõe a greve geral proletária à greve limitada ou restrita, sugerindo que esta última oferece satisfações e ganhos parciais que servem para diminuir o fervor revolucionário. Além disso, ela revela, mas não resolve, os interesses divergentes entre os trabalhadores comuns e a aristocracia operária dos “encarregados, escriturários, engenheiros, etc.”, bem como os interesses aparentemente opostos do campesinato e do proletariado industrial. A noção de Marx do capital como uma totalidade e sua concepção da existência social em duas classes antagônicas não podem ser compreendidas a partir dessa perspectiva, nem podem ser construída a partir de fragmentos.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve geral unifica a experiência das misérias cotidianas e os vislumbres fragmentários de algo além delas, permitindo ao trabalhador individual uma intuição do mundo para o qual a revolução tende, obtida “como um todo, percebida instantaneamente” <strong>[9]</strong>. Esse “conhecimento total” bergsoniano supera, ao mesmo tempo, o problema prático da desunião da classe. Sorel imagina resolver o chamado problema da composição desta forma: “Mas todas as oposições se tornam extraordinariamente claras quando os conflitos são ampliados para o tamanho da greve geral… a sociedade está claramente dividida em dois campos, e apenas em dois, em um campo de batalha” <strong>[10]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A ação espontânea, portanto, é corolário do conhecimento espontâneo no sentido kantiano. Isso fornece a única passagem possível para a consciência de classe atualizada e a possibilidade revolucionária que não está entravada desde o princípio por estruturas organizacionais reificadas: “<em>a greve geral deve ser tomada como uma totalidade indivisível, e a passagem do capitalismo ao socialismo concebida como uma catástrofe, cujo desenvolvimento escapa a qualquer descrição</em>” <strong>[11]</strong>. Embora Sorel fosse um socialista e sindicalista herético, é essa contraposição à organização estatal e partidária que se torna a posição anarquista familiar sobre a greve geral.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><em><strong>A Inversão de Rosa Luxemburg</strong></em></h5>
<p style="text-align: justify;">A reelaboração dessa questão por Luxemburg em “<em>A greve de massas</em>”, um dos maiores panfletos políticos jamais escritos, tanto por seu método quanto por sua conclusão, não está isenta de ambiguidades. Aqui, ela parece distinguir a greve geral e a greve de massa como fenômenos dos séculos XIX e XX, respectivamente, para depois tratá-los como iguais: “o anarquismo, ao qual a ideia da greve de massa está indissoluvelmente associada”. Ela admite que a crítica de Engels a essa greve “à primeira vista é tão simples e irrefutável que, por um quarto de século, prestou um excelente serviço ao movimento operário moderno contra o fantasma anarquista e como meio de levar a ideia da luta política ao mais vasto círculo de trabalhadores” <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua retórica aqui é sofisticada, mas enviesada e potencialmente enganosa. Ela sugere que qualquer refutação do veredito de Engels deve, portanto, tomar o lado do “fantasma anarquista”. Isso provou ser uma interpretação errônea duradoura de Luxemburg, cuja posição é frequentemente atribuída a uma espontaneidade soreliana. “Rosa Luxemburg deu grande ênfase à espontaneidade das massas”, começa um resumo da sabedoria recebida; ele cita comentários representativos no sentido de que Luxemburg tinha “uma fé fanática, mas utópica, quase anarquista, nas massas” <strong>[13]</strong>. O próprio Sorel relata que a “nova escola que se autodenomina marxista, sindicalista e revolucionária” — ele se refere a Luxemburg, talvez Anton Pannekoek —“declarou-se a favor da greve geral assim que tomou consciência do verdadeiro sentido da sua própria doutrina” <strong>[14]</strong>.<img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159536" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22.jpg" alt="" width="755" height="900" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22.jpg 755w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-252x300.jpg 252w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-352x420.jpg 352w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-640x763.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Los_czlowieka_XIX-4255-22-681x812.jpg 681w" sizes="(max-width: 755px) 100vw, 755px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas, para Luxemburg, não foi a consciência doutrinária que mudou. Foram as circunstâncias materiais. Não se pode culpar Engels pelo seu raciocínio em 1873; são aqueles que permanecem presos nessa posição contra os novos desenvolvimentos históricos que merecem desprezo. Pannekoek apresentará um argumento semelhante pouco tempo depois. Diante da polêmica de Kautsky contra a greve de massa, que Kautsky temia que prejudicasse o Partido Social-Democrata e seus sindicatos, Pannekoek sustenta que “várias formas de ação… não são opostas, mas parte de uma gama gradualmente diferenciada”, formas que assumem sua relevância mutável a partir do desenvolvimento das forças econômicas <strong>[15]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Luxemburg escreve seu panfleto na esteira de uma série de greves de massa em expansão, primeiro na Bélgica e na Suécia, depois na Holanda, Rússia e Itália; em seguida, a onda insurrecional de greves que constitui a Revolução Russa incompleta de 1905. Ela encara a greve, portanto, não como um erro, mas como uma eventualidade:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Se, portanto, a Revolução Russa nos ensina alguma coisa, ela nos ensina acima de tudo que a greve de massa não é artificialmente “criada”, não é “decidida” aleatoriamente, não é “propagada”, mas que é um fenômeno histórico que, em um determinado momento, resulta de condições sociais com inevitabilidade histórica. Não é, portanto, por meio de especulações abstratas sobre a possibilidade ou impossibilidade, a utilidade ou a nocividade da greve de massa, mas apenas por meio de um exame dos fatores e condições sociais a partir dos quais a greve de massa cresce na fase atual da luta de classes — em outras palavras, não é pela crítica subjetiva da greve de massa do ponto de vista do que é desejável, mas apenas pela investigação objetiva das fontes da greve de massa do ponto de vista do que é historicamente inevitável, que o problema pode ser compreendido ou mesmo discutido <strong>[16]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sua investigação revela uma situação profundamente complexa na Rússia. Ela descreve os preparativos para a greve de massa de janeiro em São Petersburgo:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Aqui se lutava pela jornada de oito horas, ali se resistia ao trabalho por peça, aqui se “expulsavam” capatazes brutais em um saco sobre um carrinho de mão, em outro lugar se lutava contra sistemas infames de multas, em todos os lugares se lutava por melhores salários e aqui e ali pela abolição do trabalho em casa <strong>[17]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nessa circunstância de múltiplas queixas, nenhuma coordenação política vinda de cima é possível. No entanto, a disseminação interna da greve dentro do proletariado torna-se possível. O que dá consistência a essas várias particularidades russas é a transição de um absolutismo quase feudal para um capital industrializante. Embora a mão de obra urbana e o campesinato possam se encontrar em posições bastante diferentes, ambas as posições flutuam dentro dessa transformação singular, e a conexão entre lutas políticas e econômicas está aberta, desafiando a separação que Anthony Giddens chama de base fundamental do Estado capitalista <strong>[18]</strong>. Assim, torna-se possível uma mudança no equilíbrio, da frente do absolutismo para a das lutas econômicas que se seguem à greve de janeiro. Para Luxemburg, isso abre uma perspectiva revolucionária:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas, ao mesmo tempo, o período das lutas econômicas da primavera e do verão de 1905 tornou possível ao proletariado urbano, por meio da agitação e da direção social-democrata ativa, assimilar posteriormente todas as lições do prólogo de janeiro e compreender claramente todas as tarefas futuras da revolução <strong>[19]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A espontaneidade, então, pode se desdobrar em coordenação em determinadas condições, as de transição. Essa é a sequência revolucionária que Luxemburg vê diante de si, e a greve de massa é a forma que essa sequência assume. Para ela, isso não valida a posição anarquista. Sua conclusão, apresentada no início, é de fato brutal a esse respeito. O caráter revolucionário e o sucesso da greve de massa “não apenas não justificam o anarquismo, mas significam, na verdade, a liquidação histórica do anarquismo” <strong>[20]</strong>. Devido aos desenvolvimentos político-econômicos, a greve de massas, por assim dizer, mudou de lado; em um movimento objetivo, entrou no repertório da luta comunista.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode-se agora ler Luxemburg como um golpe desferido pelo socialismo e pelo marxismo contra as fantasias anarquistas. Em alguns momentos, o panfleto assume tons triunfalistas, o que não é louvável. Pode-se lê-lo como uma recomendação de como proceder, da importância da arma da greve de massa; sem dúvida, isso é fundamental.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, talvez seja mais significativo para o presente ler o panfleto por sua clareza dialética. Quando as condições materiais mudam, quando a estrutura político-econômica muda, a importância política e as possibilidades práticas de uma tática de ação coletiva também podem mudar. A associação congelada da greve e das formas de organização política que a acompanham com o que agora passaremos a chamar de teoria comunista deve ser abandonada. Da mesma forma, a associação congelada da ação coletiva supostamente espontânea com o anarquismo. Os pensadores que defendem essas identificações, apesar de toda a sua astúcia intelectual ou rejeição por princípio das tendências teóricas, só podem ser nossos Kautskys, ou, nesse caso, Bömelburgs, presos no âmbar do “que é desejável”. Devemos estar abertos a “uma revisão fundamental do antigo ponto de vista do marxismo”, baseada nas transformações da realidade social <strong>[21]</strong>. Não se declara que um comunista faz isso ou um anarquista faz aquilo. Vai-se ao “ponto de vista do que é historicamente inevitável” — somente a partir desse ponto de vista “o problema pode ser compreendido ou mesmo discutido”.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159533" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A.jpg" alt="" width="886" height="836" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A.jpg 886w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-300x283.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-768x725.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-445x420.jpg 445w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-640x604.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1917_Ca-4_Verhaeren_Quinze-Poemes_57-Holzschnitte_A-681x643.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 886px) 100vw, 886px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> O marxismo não é uma crença política (muito menos um programa), mas sim um modo de análise.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> É uma espécie de petição de princípio distinguir entre socialismo e comunismo. A intenção, que será relevante mais adiante, é muito semelhante à do termo “marxismo tradicional” de Moishe Postone, que consideramos ser o socialismo — referindo-se a um horizonte político de socialização dos meios de produção sob o controle dos trabalhadores por meio da tomada do Estado, enquanto “comunismo” se refere ao horizonte político de abolir o modo de produção por completo. Sobre a questão de se o primeiro pode levar ao segundo, como proposto na <em>Crítica ao Programa de Gotha</em>, de Marx, algumas breves reflexões são apresentadas no capítulo final.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Kristin Ross, <em>Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune</em>, Londres: Verso, 2015, 107.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> “Spontaneity, Mediation, Rupture”, <em>Endnotes</em> 3, 2013, 232. Os autores coletivos citam Robert Pippin, Hegel&#8217;s Idealism, Cambridge: Cambridge University Press, 1989, 16-24.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Maria Chehonadskih, “The Anthropocene in 90 Minutes”, mute.com.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Karl Marx e V. I. Lenin, <em>The Civil War in France: The Paris Commune</em>, Nova York: International Publishers, 1968, 34.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Friedrich Engels, ““The Bakuninists at Work: An Account of the Spanish Revolt in the Summer of 1873,” cited in Rosa Luxemburg, <em>The Essential Rosa Luxemburg</em>, ed. Helen Scott, Chicago: Haymarket Books, 2008, 111-12.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 112.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Georges Sorel, <em>Reflections on Violence</em>, ed. Jeremy Jennings, Cambridge: Cambridge University Press, 1999, 128. Ver nota de rodapé 17 nessa página sobre Bergson.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Sorel, <em>Reflections</em>, 132.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Ibid., 148 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 114, 112.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Norman Geras, <em>The Legacy of Rosa Luxemburg</em>, Londres: Verso, 1976, 111-12. A segunda passagem cita E. H. Carr.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Sorel, <em>Reflections</em>, 120.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Anton Pannekoek, <em>Pannekoek and Gorter&#8217;s Marxism</em>, ed. D. A. Smart, London: Pluto, 1978, 65.Em retrospecto, como era fácil derrotar Kautsky em um debate!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 117-8 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Ibid., 129.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Anthony Giddens, <em>The Class Structure of the Advanced Societies</em>, Londres: Hutchinson, 1973, 206.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Luxemburg, <em>Essential</em>, 131.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Ibid., 113 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Ibid., 114.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este capítulo são da autoria de Frans Masereel (1889-1972).</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (6)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Jul 2026 17:21:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
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					<description><![CDATA[A greve é exatamente o que a revolta não é. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>PARTE 2: GREVE</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 4</strong></h5>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Greve Contra a Revolta</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Que tipo de contraponto é a greve em relação à revolta? O século XIX se propõe a medir isso, a calcular essa relação. Ele o faz de forma desigual na Europa Ocidental, na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos — de forma insistente, incerta, mas com resultados consequentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Este livro não é uma história da greve ou do movimento operário, da era em que a proletarização denota a desapropriação agrária, a expansão industrial, o incremento, em termos absolutos e relativos, da população global no trabalho assalariado, e o indivíduo soberano como forma de integração aos circuitos de acumulação. No entanto, estas são as coordenadas do período em que a era dourada das revoltas se dissolve e de onde surge a nova era das revoltas: a longa segunda-feira do mundo em que era sempre hora de trabalhar e o capitalismo produtivo dominava em escala global, com a sua volatilidade típica.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve, a tática dominante da ação coletiva nesse período, exigirá alguma reflexão &#8211; até porque o status da greve, uma vez que se torna a figura principal do antagonismo social, oferece uma posição a partir da qual se pode refletir sobre a revolta. Cada ação esclarece a estrutura e a dinâmica da outra, cada uma revela mudanças nas metamorfoses subterrâneas e instáveis do capital. Isso é verdade não apenas de uma forma absoluta, segundo a qual a verdade de cada uma pode ser contrastada, mas também de acordo com as conceções políticas do par e do emparelhamento — o que poderíamos chamar de ideologias da revolta e da greve.</p>
<p style="text-align: justify;">No capítulo anterior, propusemos a compreensão mais ampla possível de uma greve: uma luta pelo preço da força de trabalho e pelo próprio emprego, conduzida pelos trabalhadores como trabalhadores na esfera da produção. Essas características podem ser abstraídas e estendidas a qualquer ação orientada por elas. Essa greve chega cedo, coexistindo com a revolta à medida que ela reúne as suas forças.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso é obviamente exagerado. Um experimento mental, digamos. Certamente está em desacordo com as compreensões convencionais desenvolvidas desde o século XIX, que oferecem uma porta muito mais estreita pela qual uma tática deve passar para ganhar esse nome. A greve restrita é geralmente definida de acordo com uma autodenominação ou autorreconhecimento, que deve ser acompanhado por um comportamento físico e político específico: ordeiro, ancorado no lugar, disciplinado, legalista, caracterizado pela recusa. Formas de aparência, em suma, que podem ser discernidas por um observador casual. Se um episódio falhar ou exceder esses padrões, ele não é considerado uma greve (podemos pensar nas greves dos campos de carvão de 1913-1914, que em algum momento da série concertada de greves se tornaram a Guerra dos Campos de Carvão do Colorado e depois o Massacre de Ludlow). Ou, como acontece repetidamente, os eventos que não correspondem a esse modelo de greve são apagados para que o nome greve possa preservar suas reivindicações. Quem se lembra agora como greves as revoltas dos trabalhadores têxteis de Lyon em 1831 e 1834, que exigiram salários, trabalho e justiça para os líderes presos por meio de barricadas e guerrilha? Esta greve chega tarde. O período de transição é muito mais longo. Exceto que, como veremos, não há transição alguma.</p>
<p style="text-align: justify;">O próprio Marx observa que 1830 marca a mudança na França de um estado de proprietários de terras para um de capitalistas. Hobsbawm generaliza a data como um ponto de viragem para a “consciência da classe trabalhadora” nos países de origem das duas revoluções burguesas e industriais, uma nova situação que “certamente surgiu entre 1815 e 1848”. Para ele, “na Grã-Bretanha e na Europa Ocidental em geral [1830] marca o início dessas décadas de crise no desenvolvimento da nova sociedade, que terminam com a derrota das revoluções de 1848 e o gigantesco salto económico após 1851” <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A temporalidade é complexa, mas aponta para o atraso da greve no seu sentido estrito. Por consenso geral, a greve não tem existência real até 1830 ou, na verdade, por um bom tempo depois disso. Shorter e Tilly são a exceção parcial. A <em>greve</em> não aparece no índice de <em>The Making of the English Working Class</em>. O estudo cuidadoso de John Rule sobre o trabalho inglês de 1750 a 1850 raramente menciona a greve e, dentro desse período, a greve em sua narrativa ainda não está esclarecida, ainda em relação ambígua com intimidação, destruição de máquinas e outras atividades não relacionadas à greve &#8211; o conjunto predestinado de elisões que caracteriza a época. Esses fatos nos dizem tanto sobre as autoidentificações da época quanto sobre seus historiadores. A famosa pesquisa de Rudé sobre o período de 1730 a 1848 tem, na entrada <em>Greve</em>, um redirecionamento: “Veja disputas trabalhistas, ludismo, Londres, Paris”<strong>[2]</strong>. Sem dúvida, todas essas são coisas que se deve ver. A força da substituição é sugerir que devemos localizar a greve como um desenvolvimento tardio dentro do gênero mais amplo da disputa trabalhista, um desenvolvimento que, em 1848, ainda não havia surgido.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159504" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1.jpg" alt="" width="1190" height="1536" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1.jpg 1190w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-232x300.jpg 232w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-793x1024.jpg 793w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-768x991.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-325x420.jpg 325w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-640x826.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/bread-kathe-kollwitz-1924-1190x1536-1-681x879.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1190px) 100vw, 1190px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Seria tolice contestar tal conclusão. Certamente essa é a posição apresentada de forma persuasiva por Shorter e Tilly:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ao concentrarmo-nos na greve, excluímos várias outras formas de conflito e de ação coletiva (as duas não são de forma alguma sinónimas)… Isso é conveniente, uma vez que a greve é uma das formas de ação mais fáceis de identificar, rastrear e descrever. As outras formas de conflito, protesto e autoexpressão que poderiam ser usadas para se ter uma ideia das mudanças nas orientações dos trabalhadores incluem a destruição de máquinas, sabotagem, brigas, manifestações, redação de panfletos e, talvez, rotatividade e absenteísmo; todas elas são muito mais difíceis de identificar do que as greves. Outras formas de ação coletiva que os trabalhadores têm empregado para alcançar objetivos comuns incluem a organização de partidos políticos, sociedades de ajuda mútua, grupos conspiratórios, sindicatos, planos de seguro e muitos outros empreendimentos cooperativos <strong>[3]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A preservação dos muitos modos de ação coletiva, da criatividade do antagonismo, é uma tarefa vital. Mas também há dificuldades aqui, enigmas qualitativos que vão além do âmbito da pesquisa quantitativa. Uma primeira sugestão da dificuldade é a tendência de localizar o surgimento da greve no ponto de inflexão em que ela se torna a tática principal, no lugar do momento de sua entrada no teatro da luta. Isso tem o efeito de sugerir uma ruptura histórica excessivamente clara entre revolta e greve. Além disso, a narrativa genérica em que a greve surge como uma espécie de condensação da disputa trabalhista esconde, certamente contra as intenções dos nossos historiadores mais hábeis, o surgimento da greve a partir da revolta, das lutas de circulação. Em vez de serem complementares e genealogicamente conjuntas, as duas táticas são rigidamente demarcadas tanto na sua natureza como na sua história, e colocadas em oposição. Isso mais tarde se revelará um problema para aqueles que tentam compreender o retorno da revolta.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Espectáculo e Disciplina</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A oposição entre revolta e greve é um projeto declarado do século XIX que persiste em vários setores desde então. A dicotomia é produzida com sucesso por volta de meados do século. Considere a distância entre as revoltas de Bull Ring em 1839 e a greve dos fabricantes de vidro de Flint duas décadas depois. Cada um deve ser reconhecido como exemplar do seu género. A primeira começou com uma série de reuniões políticas realizadas no distrito comercial de Bull Ring, em Birmingham. A 4 de julho, o presidente da câmara e os magistrados chegaram e leram a Lei das Revoltas, momento em que a polícia chamada de Londres atacou a multidão de uma forma que suscitaria comparações amplas e inevitáveis como Peterloo. Consequentemente, seguiu-se uma revolta. “Janelas foram quebradas com tijolos e torrôes de açúcar foram saqueados da mercearia de Bourne antes de ser incendiada, e janelas fechadas foram atacadas com barras de ferro arrancadas da cerca”, deixando destroços suficientes para que “o Duque de Wellington chegasse ao ponto de comparar Birmingham às cidades que ele tinha visto saqueadas no continente durante as suas campanhas militares” <strong>[4]</strong>. Mais revoltas se seguiram, em Birmingham e em outros lugares.</p>
<p style="text-align: justify;">Em paralelo com o surgimento da arquitetura de vidro, a quebra de janelas passou a definir, no século XIX, o que Ian Hayward chama de “revolta espetacular”. Numa comparação perspicaz, Isobel Armstrong contrapõe as revoltas de 1839 à greve bem-sucedida dos vidreiros de Flint, iniciada em fábricas de várias cidades em dezembro de 1858 e que se prolongou até ao ano novo. A greve, muito debatida tanto dentro como fora do sindicato, define-se precisamente contra os hábitos revoltosos de 1839 e outros. Isto não é de admirar, dada a sua constituição: “A prática de quebrar vidros não tinha influência sobre os vidreiros e a sua greve disciplinada” <strong>[5]</strong>. Nisto, a sua autoconceção é paradigmática da ação laboral moderna. A greve é exatamente o que a revolta não é.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há dúvida de que esses dois eventos foram corretamente nomeados. O primeiro não é a forma <em>autêntica</em> da revolta por comida, que já havia passado do seu auge e entrado em declínio décadas antes. Mas é bastante semelhante — sobretudo por ter começado no mercado, com saques incluindo a apreensão de alimentos, batalhas sangrentas com o Estado e assim por diante. A ação posterior segue o formato da greve em todos os aspectos. Não é nenhum mistério por que ela deseja tão insistentemente se distinguir da revolta, dada a sua necessidade de reivindicar legitimidade tanto contra a repressão estatal quanto para obter apoio de outros sindicatos. Nesta conjuntura, a clara demarcação entre — e, de fato, a contraposição entre — greve e revolta <em>tornou-se</em> verdadeira.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso pode ser entendido como a <em>ideologia da ação coletiva</em> cimentada no período, em que revolta e greve assumem uma oposição política e até mesmo um antagonismo. O argumento aqui é que essa oposição é possível precisamente porque as duas ações foram definidas inteiramente de acordo com suas formas de aparência, que são consideradas como fornecendo um conhecimento claro de sua política, seu conteúdo social. Walter Benjamin observa: “É peculiaridade das formas <em>tecnológicas</em> de produção (em oposição às formas artísticas) que seu progresso e seu sucesso sejam proporcionais à <em>transparência</em> de seu conteúdo social. (Daí a arquitetura de vidro)” <strong>[6]</strong>. Produção industrial, progresso, arquitetura de vidro. Este é o mundo da greve. A ideologia da ação coletiva mantém essa ideia de transparência — que, ao olhar para a superfície, é possível ver diretamente as profundezas, ter acesso imediato ao conteúdo social. A greve torna-se greve ao ser <em>formalizada</em> contra a revolta. É a própria ordem, a janela intacta. A revolta, agora definida igualmente como o oposto da greve, deve igualmente encontrar o seu conteúdo na sua forma. Mas isso tem consequências paradoxais. A sua forma é desordenada; a desordem torna-se o seu conteúdo. Ninguém sabe o que a revolta quer. Ela não quer nada além da sua própria desordem, da sua opacidade brilhante. Brilhos e cacos de vidro estilhaçados.</p>
<p style="text-align: justify;">O objetivo não é sugerir que por baixo desta ideologia existe uma verdade contrária; não é assim que a ideologia funciona. Não devemos sugerir que a revolta e a greve são uma só, ou mesmo semelhantes. A divisão entre revolta e greve é necessária e até óbvia, e baseia-se nas mudanças mais substanciais na economia política da época. Em vez disso, a esperança é estar atento aos riscos do que pode ser perdido ao colocá-los em oposição rígida e estática. Ao perder a história em que a greve surge da revolta, perdemos o próprio processo de transformação e ficamos com os seus resultados diante de nós como dados adquiridos. Isso apresenta limites para uma periodização adequada dentro da história do capital. O “capitalismo” não é uma coisa homogénea. Nem é um fenômeno polidamente serial, uma situação sincrônica sucedendo discretamente outra. Fredric Jameson, na sua metodologia literária épica, insiste (em uma escala diferente): “O que é sincrónico é o &#8216;conceito&#8217; do modo de produção; o momento da coexistência histórica de vários modos de produção não é sincrônico neste sentido, mas aberto à história de forma dialética” <strong>[7]</strong>. É precisamente a sincronização — a revolta com uma fase do desenvolvimento do capital, a greve com outra, uma ruptura entre elas — que obscurece esta situação. Se a nossa datação sugere que a era das revoltas termina antes do início da era das greves, isso não pode oferecer um testemunho completo sobre o equilíbrio instável dentro do próprio capital, as mudanças continuamente provocadas pela dinâmica autodestrutiva do valor.</p>
<p style="text-align: justify;">Armstrong esforça-se por superar este limite, por transpor o espaço morto aberto entre a revolta e a greve. A partir de revoltas anteriores, ela deduz o que chama de “os três princípios cardinais da gramática da quebra de vidros — ação coletiva, o corpo como propriedade e a recusa da abstração”; ela encontra estes princípios ressurgindo na greve posterior <strong>[8]</strong>. Esta é uma leitura sutil e perspicaz sobre questões cruciais, sobretudo a rejeição do que ela chama de código patrício de quebra de janelas, no qual “quebrar janelas é um ato informal de violência, um certo <em>estilo</em> de crime sem conteúdo” <strong>[9]</strong>.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159505" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825.jpg" alt="" width="1000" height="815" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-300x245.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-768x626.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-515x420.jpg 515w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-640x522.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/H0132-L71826825-681x555.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, a gramática de Armstrong mantém um certo formalismo, um certo foco discursivo — assim como a ideia de Hayward de revolta espetacular, que, em primeiro lugar, pode ser entendida como uma resposta ao novo espetáculo da modernidade urbana e industrial. O conteúdo social tanto da revolta quanto da greve, não pode ser limitado aos princípios dos participantes, seus afetos e crenças. Qual é, então, o conteúdo social da greve? Ele é duplo. Como observado, é o confronto do trabalho com o capital na tentativa de definir o preço da força de trabalho (contra o preço zero do desemprego). Mas o conteúdo social da greve é também a <em>própria produtividade</em>, e isso é extremamente importante. Não é o “capitalismo” em algum sentido abstrato ou geral do qual a greve depende. Também não pode ser reduzido às misérias particulares da vida mecanizada da industrialização, embora ninguém possa duvidar que estas são um estímulo brutal. É antes o conjunto de mudanças que acompanham a transição do capital comercial para o capital industrial que leva muitos para os novos setores produtivos e que leva o capital a concentrar-se também aí — tal como muitos foram anteriormente levados para o mercado de subsistência num processo global desigual.</p>
<p style="text-align: justify;">Um fato evidente, embora muitas vezes negligenciado, é que a eficácia limitada da greve baseada na procura coincide, em geral, não com a fragilidade do capital, mas com a sua vitalidade, quando o circuito salário-mercadoria está produzindo mais-valia e acumulação. Quando a produção não está em expansão, um capitalista tem menos interesse em preservar a sua continuidade e pode tentar resistir aos grevistas. “Mas argumentar que um empregador poderia resistir aos seus trabalhadores em greve”, observa John Rule sobre as primeiras greves inglesas, “não significa que fosse sempre do seu interesse fazê-lo. Ele não iria querer renunciar aos elevados lucros disponíveis com a expansão da produção num mercado em ascensão. Em tais condições, era mais racional ceder do que resistir às exigências” <strong>[10]</strong>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Muito e Muito Poucos</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Assim surge a categoria das lutas de produção, para as quais a greve é o arquétipo. A greve é a forma de ação coletiva própria da fase produtiva do capital. Ela surge antes disso, testa-se contra o mundo, mas só consegue realizar-se com o período de acumulação do capital. Esta fase não chega pontualmente ou autonomamente quando o capital comercial ou centrado na circulação se esgota, mas surge a partir dele e permanece entrelaçada com ele. A produção e a circulação mantêm uma relação dialética clássica: opostas e mutuamente constitutivas, a sua contradição (a contradição entre valor e preço) mantém-nas em movimento conjunto. A origem da greve é a transformação que move corpos e capital para a esfera da produção. Nem todos eles, nem tudo, continuaremos a insistir. Mas depois de um certo limiar. A greve emerge da circulação, mas torna-se a tática principal quando o limiar é ultrapassado, quando uma mudança quantitativa na estrutura da economia torna-se qualitativa. No final, as questões podem ser formuladas da seguinte forma: a greve ascende quando o local de reprodução proletária se desloca para o salário, que deve, ao mesmo tempo, tornar-se o ponto crucial do próprio circuito de reprodução do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">A purificação e a autonomização da greve no século XIX são, portanto, unilaterais; elas mantêm apenas a oposição entre produção e circulação, sem a sua unidade. Ou seja, na dialética da continuidade e da ruptura, o cenário de greve contra a revolta é necessário, mas insuficiente, inclinando-se demais para a ruptura, para a descontinuidade e a oposição formal. Será importante reconhecer os momentos em que essa continuidade, agora oculta por trás do véu da mudança histórica, se torna visível.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos voltar a 1839 simplesmente para recuperar a heterogeneidade do momento. As reuniões políticas que inspiram a violência são, naturalmente, as reuniões cartistas. Porta-estandartes dos muitos de Shelley, eles são a organização trabalhista mais avançada da Grã-Bretanha. O seu jornal, <em>The North Star</em>, publica “To The People” — a passagem de “Masque of Anarchy” que inclui o famoso verso — em abril de 1839. Em maio, publica um poema de “E.H. (Uma Operária de Stalybridge)” e, em junho, um poema anónimo, “Versos de um Operário”. Esta é a edição atual quando começam as revoltas de Bull Ring <strong>[11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O movimento sindical organizado já está bem avançado. Como diz Eric Hobsbawm,</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na Grã-Bretanha, as tentativas de unir todos os trabalhadores em “sindicatos gerais”, ou seja, de romper o isolamento setorial e local de grupos específicos de trabalhadores para alcançar a solidariedade nacional, talvez até universal, da classe trabalhadora, começaram em 1818 e foram perseguidas com intensidade febril entre 1829 e 1834 <strong>[12]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Portanto, não é tão fácil definir a política do Bull Ring. Essa incerteza empalidece diante dos acontecimentos de três anos depois, talvez os mais indecisos do século XIX na Grã-Bretanha. O mistério está todo numa única frase: “O ponto de combustão social espontânea na Grã-Bretanha foi atingido na greve geral não planejada dos cartistas no verão de 1842 (as chamadas &#8216;revoltas dos plugues&#8217;)” <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">“Espontânea”, “não planejada”. Queremos destacar estas palavras; sabemos muito bem que significam revolta. O episódio salta dos mineiros de Staffordshire para fábricas, moinhos e minas em toda a Grã-Bretanha, reunindo finalmente mais de um milhão de trabalhadores em seu entorno. Apresenta as características básicas da greve laboral de forma bastante perfeita: assume a forma de recusa de trabalho. Após três anos de colapso industrial, as suas principais reivindicações, aprovadas como resoluções ao longo da ação, dizem respeito à duração da jornada de trabalho e à restauração dos salários aos níveis de 1820, bem como à redução dos aluguéis. Hobsbawm continua a insistir, no entanto, que é tanto uma greve excessiva quanto insuficiente: “A greve geral provou ser inaplicável sob o Cartismo, exceto (em 1842) como uma revolta espontânea contra a fome” <strong>[14]</strong>. Em tudo isso, ele parece ansioso por reconhecer que a greve e a revolta podem ser contínuas, enquanto ainda tenta preservar a ideia da greve pura como algo diferente. É uma confusão. Mas essa confusão é a verdade das coisas.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses deslizes são o resultado inevitável de deixar a forma representar o conteúdo com demasiada facilidade. São também sinais da coexistência de Jameson, da presença de tensões dentro da espiral diacrónica do capital. Como tal, tornam pensáveis outros momentos de coexistência, outros momentos de metamorfose dentro do capital e, portanto, nas suas formas de ação coletiva. Uma vez que o peso deste livro se inclina para pensar uma metamorfose complementar no presente, isto é realmente sugestivo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159503" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962.jpg" alt="" width="1224" height="962" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962.jpg 1224w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-300x236.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-1024x805.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-768x604.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-534x420.jpg 534w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-640x503.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/68839d0b-c4be-41ed-b75e-2ec565f79283_1224x962-681x535.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1224px) 100vw, 1224px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Eric Hobsbawm, <em>The Age of Revolution: Europe 178-1848</em>, Londres: Abacus, 2007, 255, 141.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> George Rudé, <em>The Crowd in History: A Study of Popular Disturbances in France and England, 1730-1848</em>, Londres: Lawrence and Wishart, 1984, 278.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Shorter e Tilly, <em>Strikes in France</em>, 4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Michael Weaver, “Os motins de Birmingham Bull Ring de 1839: variações sobre um tema de conflito de classes”, <em>Social Science Quarterly</em> 78: 1, março de 1997, 146, 137.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Isobel Armstrong, <em>Victorian Glassworlds: Glass Culture and the Imagination 1830-1880</em>, Oxford: Oxford University Press, 2008, 69. Armstrong também conecta os dois eventos por meio da estranha coincidência de que um dos magistrados de Birmingham de 1839, William Chance, era sócio de uma das maiores empresas de fabricação de vidro da Inglaterra.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Walter Benjamin, <em>The Arcades Project</em>, trad. Howard Eiland e Kevin McLaughlin, Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2002, 465 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Fredric Jameson, <em>The Political Unconscious: Narrative as Socially Symbolic Act</em>, Ithaca: Cornell University, 2014, 95.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Armstrong, <em>Victorian Glassworlds</em>, 73.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ibid., 65 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> John Rule, <em>The Labouring Classes in Early Industrial England 1750-1850</em>, Londres: Addison Wesley Longman, 1986, 261 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Mike Sanders, <em>The Poetry of Chartism: Aesthetic, Politics, History</em>, Cambridge: Cambridge University Press, 2009, 233.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Hobsbawm, <em>Age of Revolution</em>, 255.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Ibid., 208.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Ibid., 256-7.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram o capítulo são da autoria de Käthe Kollwitz.</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (5)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jul 2026 19:18:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
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					<description><![CDATA[É a transição do mercado para o local de trabalho, do preço dos bens para o preço da força de trabalho que dita a transição da revolta para a greve no repertório da ação coletiva. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>CAPÍTULO 3</strong></h4>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Mudança, Ou, da Revolta à Greve</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">É impossível, certamente, descobrir o momento exato em que a greve supera a revolta no repertório. Qualquer determinação desse tipo seria excessivamente confiante quanto à clareza e pontualidade com que as formas de luta se desenvolvem, divergem e reformam. Pior ainda seria sugerir que uma desaparece, para ser substituída pela outra. As táticas, uma vez adotadas, estão sempre à mão, mais próximas ou mais distantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ao buscar a transição, temos a dificuldade já exposta. A mudança da revolta para a greve é imanente a uma mudança mais completa e complexa na estrutura da ascensão do capital. A greve emerge da revolta — de um modo centrado na obtenção de lucros no mercado para um centrado na extração de mais-valia. Ou seja, a greve emerge no novo mundo da produção capitalista, como deve ser, a partir do espaço da circulação. Ela se afasta do mar, deixando um rastro de espuma, embora ainda não totalmente formada. Marinheiros britânicos, americanos e franceses estavam consistentemente entre os trabalhadores mais militantes do século XVIII, rivalizando com os sapateiros (os comerciantes eram encontrados mais consistentemente entre os líderes de distúrbios políticos do século XVII até a Comuna de Paris). A própria palavra inglesa <em>strike</em> parece datar de 1768, quando marinheiros se juntaram a “artesãos e comerciantes da cidade — tecelões, chapeleiros, serradores, moedores de vidro e carregadores de carvão — na luta por melhores salários, [e] arriaram suas velas e paralisaram o comércio da cidade. Eles &#8216;não tinham tripulação ou, de outro modo, eram impedidos de navegar todos os navios no Tâmisa&#8217;” <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A derivação do termo francês para greve, <em>gréve</em>, é ainda mais sugestiva — uma etimologia com o alcance de um épico, começando na margem de um rio e terminando no Hôtel de Ville alguns séculos depois e a oitenta passos de distância. É uma palavra antiga. Originalmente, significava uma área plana de areia e cascalho próxima à água, uma praia e, portanto, um local onde os barcos descarregavam cargas. A <em>gréve</em> mais trabalhável do Sena tornou-se, portanto, o principal porto de Paris <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ficava na margem direita, uma vez que a cidade se expandiu a partir das ilhas do rio. A área aberta próxima à praia serviria como mercado central da cidade na Alta Idade Média, antes que os feirantes se mudassem para Les Halles. Trabalhadores não qualificados se reuniam ali em busca de trabalho, carregando e descarregando madeira e trigo, barris de vinho e fardos de feno: a Praça da Gréve. O nome duraria mais de 500 anos. Em 1802, a praça tornou-se a Place de l&#8217;Hôtel de Ville, renomeada em homenagem ao seu edifício principal, a residência do prefeito, o golpe termidoriano e, por um breve período, a Comuna. Fotografias antigas mostram que os c<em>ommunards</em> ergueram barricadas ali, em parte por causa de grandes barris de vinho. Uma rima medieval. Onde estava o mercado, estará a comuna.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159484" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1.jpg" alt="" width="800" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1.jpg 800w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-300x150.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-768x384.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-640x320.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/paris-commune-hotel-de-ville-afire-painting-800-2x1-1-681x341.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mas estamos nos precipitando. Estamos no porto mais uma vez, o lugar que fornece a principal coordenada para esta primeira seção, para a era de ouro das revoltas. É inevitável, porque é prática e logicamente necessário, que o porto e o mercado parem a greve. É igualmente inevitável, então, que retornaremos ao porto mais adiante neste livro, à medida que as coisas oscilam de greve para revolta. É um ponto de captação de mão de obra não utilizada em meio à grande máquina do mercado. Um lugar de miséria e possibilidade. É apropriado, talvez, que a Place de Gréve também sediará uma guilhotina; o dicionário de 1835 associa a palavra <em>gréve</em> a execuções. Ele ainda não menciona ações dos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a mudança já está em andamento. A ascensão do capital refina algumas frases. Chateaubriand, ultradireitista e inveterado criador de termos, usa <em>gréviste</em> em 1821; por enquanto, não significa exatamente um grevista, mas sim alguém que se opõe aos monarquistas. Seu faro para política está afiado como sempre. À medida que os corpos se reúnem na Praça, os desempregados que serão o primeiro exército das Jornadas de Junho, “<em>étre en gréve”</em> passa a significar “procurando trabalho”. Em 1848, após um colapso econômico em toda a Europa, “<em>mettre un patron en gréve</em>” significa “recusar-se a trabalhar para o patrão”. O sentido moderno e a greve moderna chegaram. A transição está completa.</p>
<p style="text-align: justify;">A França chega lá um pouco mais tarde do que a Inglaterra ou os Estados Unidos, por razões já discutidas. Os anos 1848-1851 são o grande pivô, apesar de toda a sua natureza farsesca. A industrialização agora remodelará a sociedade francesa em um nível profundo. Diante desta passagem, as perplexidades abundam, como em outros lugares. Em 1830, encontramos “uma revolta de trabalhadores têxteis ocorreu em Roubaix; eles queriam um aumento de salário”. O promotor de Douai relata: “Eles quebraram as vidraças nas lojas principais, onde foram em massa para solicitar acordos por escrito sobre o aumento”. Roubaix era um centro têxtil desde o final da Idade Média, com uma organização trabalhista bem desenvolvida. Shorter e Tilly registram isso corretamente (embora de forma ambígua) como um prelúdio para a greve na França, observando que “às vezes, os trabalhadores de uma loja paravam por um tempo e, às vezes, tentavam obter paralisações em outras lojas do mesmo setor”, mas, mais comumente, “o cerne de sua ação era uma demonstração de força aliada à apresentação de reivindicações coletivas relativas às condições de emprego em um conjunto específico de lojas. A lei da época proibia quase qualquer tipo de ação coletiva dos trabalhadores” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O promotor claramente não tem palavras para isso. O conteúdo da própria estrutura social em que está enredado ainda não lhe é conhecido: a chegada ao palco das classes trabalhadoras. Ele está preso à forma. É uma multidão enfurecida afinal, mesmo que sejam trabalhadores se mobilizando como trabalhadores em seus locais de trabalho, reivindicando melhores salários. A consequência desse formalismo é evidente. “A revolta, de acordo com o relatório do deputado, não parece ter nenhuma conotação política”, conclui nosso cronista. Podemos suspeitar que ele queria dizer que os eventos não estão diretamente relacionados à Revolução de Julho, duas semanas antes. Ao mesmo tempo, reconhecemos um senso comum a caminho de se tornar um truque de retórica. Ele realiza um certo tipo de trabalho, essa confusão, esse hábito peculiar de nomenclatura. Porque podemos chamá-lo da revolta, podemos proceder como se seu manifesto significado político não existisse. Mais um espasmo na história sem história dos miseráveis.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><em><strong>Quebra-Máquinas</strong></em></h4>
<p style="text-align: justify;">“ÀS CLASSES TRABALHADORAS”, como começavam os panfletos:</p>
<blockquote><p><em>Os Cavalheiros, a Agricultora, os Fazendeiros e outros, tendo comunicado a vocês sua intenção de aumentar seus Salários de forma satisfatória; e tendo sido bom sentirem que será mais benéfico para seus próprios interesses permanentes retornar às suas ocupações honestas habituais e se afastarem de práticas que tendem a destruir a Propriedade, de onde os próprios meios para seus Salários adicionais devem ser fornecidos</em><strong>[4]</strong>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta publicação em particular vem dos magistrados de Berkshire; apenas dois condados ingleses proferiram mais sentenças de morte a participantes da “revolta de Swing”, e nenhum prendeu tantos. O objetivo é acalmar os verdadeiros seguidores do mítico “Captain Swing” durante a onda de quebra-máquinas iniciada no outono de 1830. Caso isso acontecesse, as revoltas de Swing durariam até o ano seguinte. As classes trabalhadoras, neste ponto, ainda são plurais, as frações libertadas pelos destroços do feudalismo, ainda em processo de se transformarem na classe trabalhadora. Thompson considera 1790-1832 como o período crucial, onde encontramos também aquele episódio mais duradouro de destruição de máquinas, as revoltas luditas de 1811-1813.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159482" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing.png" alt="" width="701" height="891" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing.png 701w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-236x300.png 236w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-330x420.png 330w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-640x813.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Swing-Riots-Captain-Swing-681x866.png 681w" sizes="auto, (max-width: 701px) 100vw, 701px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Repetidamente, Swing trata de máquinas debulhadoras. Da mesma forma, “os ataques luditas se limitavam a objetivos industriais específicos: a destruição de teares mecânicos (Lancashire), máquinas de tosquia (Yorkshire) e resistência ao colapso do costume na indústria de tricô de Midland” <strong>[5]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Já encontramos o mecanismo que, acionado pelos avanços agrários, fará girar as rodas da Revolução Industrial. A corrida pela produtividade, a própria base do desenvolvimento capitalista, significa a substituição da força de trabalho por meios de produção, do trabalho vivo por morto, do capital variável por constante. O aumento da produtividade tende a aumentar os salários, o que, por sua vez, força novos avanços que economizam mão de obra. Paralelamente, massas de empregados domésticos são lançadas ao mercado de trabalho: o aumento dos custos dos produtos agrícolas persuade os empregadores a abandonar arranjos residuais de trabalho em espécie em troca de salários, repassando a inflação aos trabalhadores. O trabalho agrário perdido pelo cercamento deprime esses mesmos salários, mesmo enquanto a indústria caminha pela paisagem com botas de sete léguas.</p>
<p style="text-align: justify;">À medida que o salário se generaliza, o mercado começa a renunciar à sua centralidade social. O espaço físico sujeito em parte ao controle comunitário, dá lugar a “mistérios de um mercado &#8216;autorregulador&#8217;, o mecanismo de preços e a subordinação de todos os valores comunitários ao imperativo do lucro” <strong>[6]</strong>. Em pouco tempo, “o membro característico dos pobres rurais era agora um proletário sem terra, dependendo quase exclusivamente do trabalho assalariado ou da Lei dos Pobres para sua vida” <strong>[7]</strong>. A Lei dos Pobres é um lembrete, à luz de discussões anteriores, de que zero também é um salário, embora um salário que precisará de suplemento para que seus beneficiários sejam mantidos em reserva disponível.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meio a isso, surgem o General Ludd e o Captain Swing, um liderando ataques contra as indústrias têxteis, o outro no teatro de combate agrário. Ambos os movimentos descreveram a si mesmo em termos militares, nunca melhor do que em uma carta “Assinada pelo General do Exército de Reparadores/Reformadores Ned Ludd Clerk”. Fizeram juramentos, muniram-se de armas. Contínuos e populares, dificilmente se pode discutir que foram revoltas reais. Seus períodos foram variados. Não tiveram uma única atividade. Somente nas revoltas de Swing, “incêndios criminosos, cartas ameaçadoras, panfletos e cartazes &#8216;inflamáveis&#8217;, &#8216;roubos&#8217;, reuniões salariais, agressões a feitores, párocos e proprietários, e a destruição de diferentes tipos de máquinas, todos desempenharam seu papel”. Apesar de toda essa variabilidade de forma, o conteúdo é constante. “Por trás dessas atividades multiformes, os objetivos básicos dos trabalhadores eram singularmente consistentes: alcançar um salário mínimo vital e acabar com o desemprego rural” <strong>[8]</strong>. Não menos claros eram os luditas, cujas “reivindicações incluíam um salário mínimo legal; o controle da &#8216;exaustão&#8217; de mulheres ou menores; arbitragem; o engajamento dos patrões para encontrar trabalho para homens qualificados despedidos por maquinário; a proibição de trabalho de má qualidade; o direito à associação sindical aberta” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Não devemos sugerir que os dois grandes episódios de quebra de máquinas sejam idênticos. Seus fundamentos são diferentes. Apesar de toda a sua ligação, os mundos agrícola e industrial na Grã- Bretanha estão em desacordo; as batalhas obstinadas sobre as Leis dos Cereais ressaltam os interesses contrários do campo e da cidade. Kirkpatrick Sale intitula seu estudo “Rebeldes Contra o Futuro: Os Luditas e Sua Guerra contra a Revolução Industrial”; poderíamos dizer o mesmo dos manifestantes do Swing? <strong>[10]</strong> Mas é enganoso, ainda que esteja de acordo com parte do espírito de Thompson, considerar as revoltas como defesas retrógradas do costume. Novamente nos deparamos com a questão do prático, da necessidade. Frequentemente, os luditas colocam as coisas de maneiras difíceis de confundir, afirmando seu direito e intenção de “quebrar e destruir todo tipo de estrutura que não pague o preço regular previamente acordado”. Uma lista está anexada a este comunicado; máquinas que não desloquem trabalhadores serão deixadas intactas <strong>[11]</strong>. Ludd e Swing, sem dúvida, compartilham a sensação de um terreno perigosamente instável, de um mundo da vida sob coação. No entanto, eles estão unidos, na fórmula mínima, pela pressão para baixo nos salários e pela ameaça de desemprego tecnológico. E é aqui que o quebra-cabeça da classificação se afirma.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159483" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1.jpg" alt="" width="700" height="924" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1.jpg 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-227x300.jpg 227w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-318x420.jpg 318w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-640x845.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/ned-ludd-700x924-1-681x899.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px" /></p>
<p style="text-align: justify;">As autoridades, previsivelmente, desejam conceder-lhes força insurrecional apenas quando necessário para aplicar penalidades mais severas. Em sua maioria, os grandes episódios de quebra de máquinas serão registrados como revoltas por observadores, na época e posteriormente. Afinal, as leis dão nomes, e muitas vezes é o crime de revolta pelo qual os exércitos de Ludd e Swing são processados (embora um projeto de lei específico que torne a invasão de domicílio um crime capital seja aprovado logo no início). Magistrados de Nottingham relatam “um espírito ultrajante de tumulto e revolta” nos primeiros dias de Ludd, estabelecendo os termos da arte para condenações da Lei da Revolta.</p>
<p style="text-align: justify;">Ocasionalmente, o nome parece adequado, por exemplo, aplicado à extorsão de dinheiro e provisões. Os episódios reais, apesar de toda a sua variedade, muitas vezes assemelham-se formalmente à revolta — em seu tom, ímpeto, selvageria. E, no entanto, deveria ser impossível olhar para essas reivindicações e não reconhecer a greve em formação. Elas dizem respeito apenas a emprego, melhores salários, melhores condições de trabalho, proteções legais. Se estamos buscando a fonte da grande confusão entre a natureza subjacente da luta coletiva e sua aparência, não precisamos ir além desses eventos.</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos apresentar o argumento com clareza, principalmente porque se trata de um argumento sobre confusão. É somente neste período de transição histórica que os contornos da revolta e da greve podem finalmente ficar claros em seus delineamentos, exatamente porque é somente nesses períodos que os dois podem ser colocados em tão estreita proximidade, misturados e, no final, esclarecidos. Ou, para colocar de outra forma, a quebra de máquinas é como se dá a transição da revolta para a greve. Sem dúvida, parece retrospectiva, “o último capítulo de uma história que começa nos séculos XIV e XV” <strong>[12]</strong>. Mas essa insistência no costume, na luta contra o futuro, ignora aquela parte da quebra de máquinas que é a invenção, que antecipa. Não é menos um primeiro capítulo de políticas de confronto no local de trabalho que não terminaram. É somente em um período de transição que um híbrido tão chocante e inovador, com um pé no confinamento e nas revoltas por comida, um pé na legislação fabril e nas lutas pela jornada de trabalho, pode surgir. “Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal emergiu”, escreve Thompson <strong>[13]</strong>. Em tal circunstância, é inevitável que as táticas proliferem à medida que as pessoas tentam soluções para um novo conjunto de problemas, tomando emprestadas suas formas do antigo repertório — assim como o capital extrai suas formas do comércio até que o novo conteúdo esteja pronto para ser divulgado no dia a dia.</p>
<p style="text-align: justify;">É precisamente a transição do mercado para o local de trabalho, do preço dos bens para o preço da força de trabalho como fulcro da reprodução, que dita a transição da revolta para a greve no repertório da ação coletiva. Na verdade, são a mesma coisa: contexto e conflito. Eles se movem juntos. O ritmo próximo dessa dupla mudança fornece a base histórica para um argumento político-econômico que define revolta e greve adequadamente em sua plenitude histórica — define-os não de acordo com atividades específicas, mas antes pelas maneiras como o problema da reprodução confronta a massa de pessoas, suas posições dentro das relações sociais dadas, os lugares para onde foram empurradas, os espaços onde seus antagonistas devem ser visíveis, podem ser vulneráveis.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><em><strong>Os Muitos</strong></em></h5>
<p style="text-align: right;"><em>Levantem-se, como leões após o sono,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Em número invencível,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Sacudam suas correntes para a terra como orvalho</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Que durante o sono caíram sobre vocês —</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Vocês são muitos — eles são poucos —</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>— Percy Bysshe Shelley,</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>“A Máscara da Anarquia”</em></p>
<p style="text-align: justify;">Se alguém fosse em busca de um fio condutor que atravessasse a sequência revolta-greve-revolta “linha”, faria pior do que seguir o destino do poema de Shelley, composto para “um pequeno volume de <strong>canções populares</strong> totalmente políticas”<strong>[14]</strong>. O poema narra o Massacre de Peterloo de 1819, nomeado com alguma ironia em homenagem a Waterloo, travado quatro anos antes. Estamos no meio do caldeirão de Thompson, então. A Inglaterra está em meio à fome e à depressão. A revolta por comida, tendo atingido o pico segundo todos os relatos em 1800-1, está em recuo. O fim das guerras napoleônicas lançou uma grande massa de corpos em um mercado de trabalho incapaz de absorvê-los. A indigência na Inglaterra está em 15% e a emigração em níveis históricos.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159485" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819.jpg" alt="" width="1053" height="1053" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819.jpg 1053w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-1024x1024.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/The-Peterloo-Massacre-1819-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1053px) 100vw, 1053px" /></p>
<p style="text-align: justify;">É nesse contexto que 64.000 pessoas se reúnem no Campo de São Pedro, em Manchester, buscando reformas parlamentares, principalmente em relação ao sufrágio. A Lei da Revolta é lida. Na carga de cavalaria imediatamente seguinte, mais de uma dúzia de manifestantes são mortos e centenas ficam feridos. A indignação moral toma conta da nação. Na Itália, Shelley constrói seu poema a partir de notícias de jornais.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria difícil chamar Peterloo de revolta no sentido que a palavra havia se desenvolvido ao longo dos séculos anteriores. É próximo em certos aspectos. A grande assembleia se reúne na ágora. O termo e o código legal são usados em qualquer caso; é a categoria representativa que as pessoas têm em mãos. Certamente houve reuniões que podem ser mais apropriadamente chamadas de revoltas nos dias seguintes em cidades vizinhas. Mas a revolta do século XVIII atingiu, em geral, seu limite e explodiu. A multidão reunida na praça tenderá para a revolução ou nada, pressionada contra a impossibilidade da demanda prática quando até mesmo os apelos por reforma são recebidos com violência mortal. É aqui que o poema começa. O afastamento da revolta já começou. James Chandler escreve:</p>
<blockquote><p>Tudo isso quer dizer que, à semelhança de Peterloo, a “Revolução Francesa” em uma escala maior, ou talvez até mesmo o próprio “Romantismo” em uma escala ainda maior — nomeia um evento de duração indeterminada que marca uma grande transformação nas práticas da representação literária e política moderna, entendida em seu momento como tendo potencial revolucionário <strong>[15]</strong>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas o poema só é publicado em 1832, no final a nossa primeira tentativa. A estrofe final do longo poema irá tornar-se uma espécie de canção de marcha para luta após luta. É logo retomada pelos cartistas, que em 1842 se aproximam da primeira greve geral. O tempo do trabalho começou. Em 1911, Pauline Newman orientará seus discursos de organização para o Sindicato Internacional das Trabalhadoras do Vestuário Feminino com as frases de Shelley. Mas haverá outras oscilações. Em 2010, o poema é repatriado quando estudantes e outros que lutam contra cortes fatais no salário social atacam e ocupam o número 30 de Millbank, a sede do Partido Conservador em Londres. A estrofe final de Shelley é citada repetidamente nos dias seguintes, o fio condutor retornando na longa temporada que inclui o movimento das praças, o movimento <em>Occupy</em>, a Primavera Árabe — o retorno da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;">A estrofe final acrescenta um último verso a uma quadra que aparece anteriormente, desviando o olhar do pacifismo fundamental do poema: “Vós sois muitos — eles são poucos.” <strong>[16]</strong> Pode ser possível persuadir você de que os sons do primeiro verso, levantem-se/leões/depois, querem que você ouça a palavra revolta. É difícil não ouvir. É difícil não ouvir na associação do poema de “Anarquia” com o Estado corrupto, em vez de com os antagonistas do Estado, um precursor da inversão dialética com a qual iniciamos este livro: “Uma ordem violenta é uma desordem; e uma grande desordem é uma ordem. Essas duas coisas são uma só.” Mas o último verso de Shelley levanta uma questão mais simples ou talvez muito mais intratavelmente complexa, a dos muitos.</p>
<p style="text-align: justify;">O popular e o político, como ele insistia. Multidões e poder, na fórmula concisa de Canetti. Massas, classes, turba, multidão. Súditos, cidadãos, o povo. O sentido de antagonismo e metamorfose social, o sentido (para arriscar essa substancialização portentosa) do político: isso não pode ser desvinculado do sentido da multidão e daquilo que poderia lhes dar uma unidade, seja ela autodeclarada ou espectral. Isso dificilmente seria o lugar para uma revisão da literatura. Em vez disso, uma proposição simples: que revolta e greve serviram como, entre outras coisas, metonímias para este assunto em um determinado momento.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é outra maneira de delinear o que é apreendido na ideia de um repertório de ação coletiva e de identificar uma tática principal dentro dele. Essas táticas, e as mudanças entre elas, são expressões da massa social e suas recomposições, que por sua vez se formam e se transformam a partir de dadas bases materiais. Em outras palavras, a revolta não é um evento isolado e singular; é tanto uma fração real de quanto uma figura para os muitos aos quais está sempre adjacente. É a relação interna dos muitos externalizada sob certas condições. Isso também se aplica à greve. Compreender as transformações na sequência revolta-greve-<em>revolta “linha” </em>é enxergar as mudanças dos muitos, ver o que pode ser compreendido nelas.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Greg Grandin, <em>The Empire of Necessity: Slavery, Freedom, and Deception in the New World</em>, Nova York: MetropolitanBooks, 2014, n. 146. A citação sem atribuição é de The Economic Review, Vol. 5, Londres: Rivington, Percival &amp; Co., 1895, 216.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Eric Hobsbawm faz uma observação fascinante em <em>The Age of Revolution: Europe 1789-1848</em>, Londres: Abacus, 2007, 265, nota de rodapé 31. Ele escreve: “A greve é uma consequência tão espontânea e lógica da existência da classe trabalhadora que a maioria das línguas europeias tem palavras nativas independentes para designá-la (por exemplo, grève, huelga, sciopero, zabastovka), enquanto que as palavras para outras instituições são frequentemente emprestadas.” No entanto, isso é, em última análise, enganoso de maneiras que serão exploradas no capítulo seguinte, notadamente pela forma como declara a autonomia da greve em relação a uma tradição mais antiga, como se ela tivesse surgido de forma autóctone a partir da nova dispensação proletária.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Todos os trechos são de Edward Shorter e Charles Tilly, <em>Strikes in France 1830-1968</em>, Londres: Cambridge University Press, 1984, 1.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Eric Hobsbawm e George Rude, <em>Captain Swing: A Social History of the Great English Agricultural Uprising of 1830</em>, Nova York: W. W. Norton, 1968, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Thompson, <em>Working Class</em>, 484.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Wood, <em>Origin of Capitalism</em>, 69.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Hobsbawm e Rude, <em>Capitão Swing</em>, 35.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ibid., 195.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Thompson, “Working Class ”, 551.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Kirkpatrick Sale, <em>Rebels Against the Future: The Luddites and Their War on the Industrial Revolution: Lessons for the Computer Age</em>, Boston: Addison-Wesley, 1995.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Conant e Darval, citados em Thompson, “Working Class”, 535.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Thompson, “Working Class”, 543.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Thompson, “Moral Economy”, 128-9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Carta a Leigh Hunt, 1º de maio de 1820, <em>The Letters of Percy Bysshe Shelley: In Two Vols</em>., vol. 2, ed. Frederick L. Jones, Oxford: Clarendon Press, 1964, 191 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> James Chandler, England in 1819: <em>The Politics of Literary Culture and the Case of Romantic Historicism</em>, Chicago: University of Chicago Press, 1998, 18.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Diferentes impressões do poema variam em sua ortografia; esta citação segue a primeira edição, Londres: Edward Moxon, 1832.</p>
<p style="text-align: center;"><em>Ilustram o texto &#8220;O Hôtel de Ville incendiado, atacado pelas tropas de Versalhes&#8221;, de Gustave Clarence Rodolphe Boulanger (1871), &#8220;O Líder dos Ludditas&#8221;, de autoria anônima (1812), &#8220;Um Retrato Original do Capitão Swing&#8221;, de autoria anônima (1830), &#8220;O Massacre de Peterloo&#8221;, de George Cruikshank (1819).</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Velha Toupeira (44)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Jul 2026 13:29:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cartoons]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159464 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/VT044-BISPOS-ULTRACONSERVADORES-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="853" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/VT044-BISPOS-ULTRACONSERVADORES-scaled.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/VT044-BISPOS-ULTRACONSERVADORES-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/VT044-BISPOS-ULTRACONSERVADORES-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/VT044-BISPOS-ULTRACONSERVADORES-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/VT044-BISPOS-ULTRACONSERVADORES-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/VT044-BISPOS-ULTRACONSERVADORES-2048x683.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/VT044-BISPOS-ULTRACONSERVADORES-1260x420.jpg 1260w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/VT044-BISPOS-ULTRACONSERVADORES-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/VT044-BISPOS-ULTRACONSERVADORES-681x227.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></p>
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		<title>Factos etc. 1) «João Bernardo defendendo este método positivista»</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jul 2026 06:51:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Os factos são sempre prévios à metodologia, sem resultarem dela. São o objecto da metodologia, não uma consequência. João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: justify;">Tenho sido várias vezes classificado como empirista ou, mais frequentemente, como positivista ou adepto do positivismo lógico — e o curioso é que esses termos são empregues como censura e não como elogio. Eu sou um admirador de São Tomé, patrono dos empiristas. «Porque me viste, acreditaste?», repreendeu-o o ressuscitado, e acrescentou: «Felizes os que, sem terem visto, acreditam!» Ora, eu pertenço também ao número dos que querem ver para crer, e só posso estranhar que os meus críticos, que tantas vezes acreditam sem ter visto nada, se considerem materialistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas ver o quê?</p>
<p style="text-align: justify;">Os factos só começam a aparecer-nos verdadeiramente como factos quando são incómodos. É então que os sentimos, porque tudo aquilo que se limite a prolongar o existente passa-nos de imediato despercebido.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem não gosta de deparar com a incomodidade dos factos ou volta os olhos para outro lado ou, se for um pouco mais sofisticado e prefira envolver-se num escudo protector mais espesso, põe em causa o método que estabeleceu aqueles factos ou que os apresenta, sem sequer reflectir que o mesmo método apresentou ou estabeleceu os factos de que ele gosta ou de nem sequer se apercebe. É assim que, por exemplo, as estatísticas inconvenientes são recusadas pela generalidade dos esquerdistas com o argumento de que não resultam de uma perspectiva marxista mas se devem a métodos de pesquisa capitalistas, os mesmos métodos que estabelecem as estatísticas a que essas pessoas recorrem quando acham que elas validam as suas teses. Porém, a questão é hoje mais ampla, porque consideram-se válidos apenas os factos que forem apresentados por uma dada identidade étnica ou cultural ou sexual. Assim, os factos são despojados de qualquer realidade própria e atribui-se aos preconceitos metodológicos ou identitários a garantia exclusiva da realidade. De evidência factual, a realidade converte-se em emanação intelectual.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, a escolha ou aceitação do ponto de vista com que encaramos a realidade não implica uma criação de factos, mas apenas a atenção prioritária prestada a certos factos, porque são mais incómodos ou mais cómodos do que outros, e implica igualmente a metodologia com que alinhamos os factos e os observamos nas suas contradições. Os factos são sempre prévios à metodologia, sem resultarem dela. São o objecto da metodologia, não uma consequência. Em vez de se argumentar contra os factos dizendo que eles são impossíveis à luz de um certo modelo, deve-se substituir o modelo porque ele se revela incapaz de verificar os factos. Aquela visão selectiva que aceita os factos convenientes e rejeita os indóceis sustenta as múltiplas críticas ao que denominam <em>empirismo</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas devemos ir ainda mais longe, porque não basta ver os factos. É necessário procurá-los, e garantir que sejam factos e não simples projecções de um desejo. O desejo, que resulta do ponto de vista adoptado, não substitui os factos nem os invalida.</p>
<p style="text-align: justify;">Não pretendo aqui convencer as pessoas que não precisam de ver para crer, nem isto seria possível, porque se os factos não as convencem, quem sou eu para as persuadir! Não quero dar orientações, apenas esclarecer o método que uso na historiografia e na análise económica.</p>
<p style="text-align: justify;">No meu trabalho começo por considerar os factos isoladamente e, à medida que os vou acumulando, reúno-os pela localização no espaço ou na função ou pela concomitância no tempo. Depois reúno outros factos similares para outros espaços ou outros tempos. A partir daqui estabeleço sistemas de convergências e de oposições, e aquilo que inicialmente era apenas um amontoado de fichas começa a converter-se em estruturas que permitem detectar regras próprias. Com o avanço da pesquisa para novos espaços e outros tempos, as comparações multiplicam-se e a definição dos sistemas vai-se tornando mais precisa. Já não são só regras internas que se estabelecem, mas começa igualmente a definir-se a regra das comparações entre sistemas. É então que posso passar à definição de campos. Um campo delimita um sistema, com a sua estrutura e as suas regras. Se surgirem factos novos e se inserirem nesse campo sem lhe trazerem qualquer alteração, então fica comprovada a definição do sistema. Mas a descoberta de factos que coloquem novos problemas, irresolúveis no sistema tal como ele estava definido, obriga a desenhar um outro perímetro para o campo, a adequar-lhe a estrutura e a modificar-lhe as regras. O confronto com novos factos é, para um campo, o teste decisivo. Esta longa e trabalhosa passagem do enunciado de factos ao estabelecimento de campos constitui para mim a base fundamental da história comparada.</p>
<p style="text-align: justify;">Em seguida, e só em seguida, posso reflectir sobre o método que me permitirá explicar aquelas convergências e oposições e, mais amplamente, o estabelecimento de campos. E explicar significa, para mim, <em>estabelecer a regra de</em>. Ora, essa explicação tem por sua vez de ser testada. Na escolha de um método influi o ponto de vista resultante da situação que se ocupa e das escolhas que se fazem, mas um método é muito mais do que um ponto de vista, porque se desenvolve na sua aplicação aos factos. Para isso verifico se a regra se adequa, ou não, a outros sistemas e aos vários campos e, consoante a conclusão, estabeleço as continuidades ou rupturas entre espaços e entre tempos. O mais importante nesta fase do trabalho são as contradições e as excepções, em suma, tudo o que parece fugir à norma, porque aí se podem encontrar as fissuras por onde o sistema se transformará ou entrará em crise. Passo assim do estático para o dinâmico, e são os pontos de ruptura detectados na sincronia que me tornam perceptíveis os rumos da diacronia.</p>
<p style="text-align: justify;">Para mim, enquanto historiador ou analista da economia, a história comparada e o teste dos factos funcionam como o laboratório para o cientista. As pretensões científicas dos estudos sociais são fortemente limitadas pela impossibilidade de proceder a experiências concebidas previamente, e não se pode ir mais longe do que organizar factos, sistemas e campos, e compará-los. A história comparada é o único laboratório possível. Foi assim que elaborei duas das minhas três obras de historiografia. O leitor desprevenido talvez pense que no <em>Poder e Dinheiro</em> e no <em>Labirintos do Fascismo</em> as inúmeras descrições de variantes tenham como objectivo ilustrar as normas gerais que estabeleci, mas o processo foi o inverso. Primeiro fui comparando séries de factos e casos e reunindo-os por semelhanças e compatibilidades, e pude assim definir campos e delimitá-los. As descrições de variantes, em vez de serem exemplos de normas elaboradas previamente, são o alicerce de toda a obra. Foi por aí que comecei.</p>
<p style="text-align: justify;">E assim, pouco a pouco e desta maneira sempre pedestre, fui elaborando um método teórico. Vocacionados para os factos e construídos a partir dos factos, os modelos teóricos têm para mim uma utilidade estritamente instrumental, operacional. Por isso devem — ou podem — mudar consoante os factos que se destinam a estudar, ou seja, a enquadrar e organizar. Não se trata de dogmas nem de princípios, mas de instrumentos, no sentido literal da palavra, e os instrumentos mudam consoante o material sobre que operam e as funções a que se destinam. É certo que, tal como quaisquer outras pessoas, um historiador ou um economista têm pressupostos que decorrem da situação social que ocupam e das suas opções ideológicas, pontos de vista que apontam um objectivo para as suas análises. Mas se escolhem ou elaboram um instrumento que lhes sirva para esse objectivo, precisamente por isso ele deve então adequar-se ao material empírico em que operam. Para ser eficaz, a razão crítica requer uma concepção instrumental da metodologia, senão transforma-se num mero irracionalismo de desejos ou ambições.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-159405" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5-195x300.jpg" alt="" width="560" height="861" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5-195x300.jpg 195w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5-666x1024.jpg 666w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5-273x420.jpg 273w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5-640x983.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5-681x1046.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-5.jpg 736w" sizes="auto, (max-width: 560px) 100vw, 560px" />Na minúcia com que os exijo, os exercícios de história comparada deparam com os limites das forças humanas. Vários anos depois de ter terminado o <em>Poder e Dinheiro</em> publiquei um ensaio em duas partes intitulado <em>Economia de Troca de Presentes. Para uma Teoria do Modo de Produção Pré-Capitalista</em>, onde procurei apresentar um panorama que ampliasse no tempo e universalizasse no espaço os problemas que enunciara a propósito do regime senhorial. Mas tratou-se apenas de um roteiro, uma proposta de trabalho, porque para levá-la a cabo precisaria de pelo menos mais uma existência. Seria conveniente, porém, que a história comparada tivesse só este tipo de limites e mais nenhuns. Ora, hoje ela depara com dois obstáculos de muito peso. De um lado, a comparação entre factos, sem restrições de espaço e de tempo, pressupõe uma ambição de universalismo e corrobora-o, o que é contrário a todos os identitarismos, incluída a sua forma arcaica de nacionalismos. O pós-modernismo e os identitarismos que se lhe seguiram dedicam-se a isolar conceptualmente — e tanto quanto possível materialmente — sociedades e civilizações que a história comparada procura organizar em áreas de estudo comuns e cada vez mais amplas. De outro lado, a forma como a estrutura universitária evoluiu, com uma subdivisão crescente dos campos de conhecimento e uma concorrência curricular que transforma cada especialidade em coutada exclusiva, compromete qualquer possibilidade de história comparada no interior da academia.</p>
<p style="text-align: justify;">Para agravar a situação, em algumas capelas marxistas a história comparada depara com o opróbrio da heresia. No dia 26 de Abril de 2024 um leitor escreveu num comentário (<a href="https://passapalavra.info/2024/04/152054/#comments" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>): «O método comparativo sob a forma das variações concomitantes foi defendido por Durkheim em seu livro “As Regras do Método Sociológico”. Este método é, por sua vez, a adequação do método de investigação das relações sociais ao método das ciências naturais que é a da experimentação direta (por isso, o método comparativo seria chamado por Durkheim também de “método da experimentação indireta”). Hoje em dia já não me surpreendo com João Bernardo defendendo este método positivista que foi criticado até mesmo pela limitada consciência burguesa, mas continuo, infelizmente, me surpreendendo com o seu contínuo combate ao marxismo ao atacar os supostos “marxistas”». Eis-me assim excluído do paraíso, ou sertão, dos ilustres iluminados.</p>
<p style="text-align: justify;">Com efeito, tal como eu a entendo e pratico a história comparada requer uma concepção instrumental da metodologia, em que esta surge por exigência dos factos e em que, portanto, se vai elaborando progressivamente, em vez de ser tomada como o prévio mecanismo motor. Mas não falta entre os marxistas quem prefira deduzir os factos a partir do método, a tal ponto que os factos se apresentam como simples ilustrações do método. Temos então divagações, mais perto da teologia do que da historiografia. Este tipo de lucubrações recorre à dialéctica, um método lógico que possui no misticismo um curioso <em>pedigree</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">O misticismo pretende estabelecer uma relação íntima e directa do indivíduo com a divindade, prescindindo dos intermediadores oficiais, que são os sacerdotes. E assim, sem colocar uma categoria social acima das restantes, o misticismo constituiu um terreno fértil para as heresias, já que cabia ao clero, e só a ele, a definição da ortodoxia. Ora, uma relação directa entre termos sistematicamente contraditórios, entre o finito e o infinito, entre o imperfeito e o perfeito, em suma, entre um indivíduo que padece de todas as limitações e uma divindade que não tem nenhuma, não pode operar-se sem transição e exige um contínuo desdobramento em que os termos contraditórios geram um termo intermédio, que por sua vez se desdobra, sem que esta série de contradições internas tenha qualquer razão intrínseca para se encerrar. É isto a dialéctica, e os problemas inerentes à célebre cláusula <em>filioque</em> são um bom exemplo desta lógica em acção.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi essa a dialéctica que os gnósticos se esmeraram a desenvolver e que Mestre Eckhart herdou, assimilando-a a outras heresias, até que Jakob Bœhme a codificou numa doutrina que ultrapassou muito a área da cultura germânica. E como o romantismo se definiu pela recusa do iluminismo e uma idealização do medievalismo, não devemos estranhar que a filosofia romântica tivesse assimilado a lição de Bœhme. Aliás, graças à sua amizade com Franz Xaver von Baader, Hegel remontou mais longe do que Bœhme e interessou-se muito pela obra de Mestre Eckhart. Aqueles marxistas que se espantarem com esta genealogia — e decerto não faltarão entre os leitores do Passa Palavra — deveriam saber que Georges Gurvitch mencionou como uma evidência que «a terminologia hegeliana» «é também a do misticismo alemão tradicional desde Jacob Bœhme». Para me exprimir numa fórmula concisa, a dialéctica, enquanto instrumento lógico do misticismo, tornou-se o eixo do pensamento de Hegel.</p>
<p style="text-align: justify;">A dialéctica só deixa de ser mística quando esbarra com os factos. Se a vetusta expressão <em>materialismo dialéctico</em> conserva algum sentido hoje, numa época em que a concepção de matéria tanto se alterou que acabou por se desmaterializar, é no choque com os factos. Foi esta a operação a que Marx se referiu quando disse que havia virado ao contrário a dialéctica de Hegel. Pretender colocar em primeiro plano a dialéctica, como se os factos se deduzissem dela, e julgar que a dialéctica superou o empírico, é regressar à teologia, e do modo mais absurdo, uma espécie de teologia laica. É o empirismo que transforma a dialéctica, de um infindável exercício teológico de desdobramentos contraditórios, num instrumento lógico, quero dizer, numa lógica que pode ser usada como instrumento na história comparada e na análise macroeconómica comparativa. As contradições internas, em vez de serem o mecanismo do ilimitado desdobramento das séries místicas, passam a ser o instrumento com que definimos os factos por oposição a outros factos e pelas suas rupturas internas, que permitem a passagem do estático ao dinâmico. E assim a superação do enunciado de factos pelo estabelecimento de campos, que há pouco defini como a base fundamental da história comparada, tal como eu a entendo e pratico, tem por instrumento essa dialéctica que Marx virou do avesso.</p>
<p style="text-align: justify;">Se eu sou marxista? Sim, sou. Marxista deste marxismo.</p>
<p><strong>Nota</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A censura de Cristo a São Tomé está no <em>Evangelho segundo São João</em>, 20: 29.<br />
A citação de Georges Gurvitch encontra-se na sua obra <em>Déterminismes sociaux et liberté humaine. Vers l’Étude sociologique des cheminements de la liberte</em>, Paris: Presses Universitaires de France, 1963, pág. 22.</p>
<p style="text-align: center;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-159412" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b-300x209.jpg" alt="" width="100" height="70" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b-300x209.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b-768x534.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b-604x420.jpg 604w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b-640x445.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b-681x473.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Escher-b.jpg 1000w" sizes="auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px" /><em>As ilustrações reproduzem obras de M. C. Escher (1898-1972)</em>.</p>
<p>Pode ler <a href="https://passapalavra.info/2026/07/159399/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> a segunda parte deste ensaio.</p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (4)</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/07/159433/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Jul 2026 19:51:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
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					<description><![CDATA[Desde os seus primórdios, a revolta tem sido uma luta de circulação por excelência. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<p><strong>CAPÍTULO 2</strong></p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>A Era de Ouro da Revolta</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Entre os muitos locais onde se poderia começar a história, cada um deles atormentado pela impossibilidade de chegar a um verdadeiro início, poderíamos olhar para Brístol e King&#8217;s Lynn em 1347. É demasiado cedo, claro. Estes acontecimentos são anómalos no gráfico de dispersão dos acontecimentos que entraram nos contos. Na melhor das hipóteses, são precursores. Talvez seja melhor começar no século XVI, onde “as revoltas por comida não seguiram uma tradição antiga: os primeiros foram como pequenos mamíferos peludos ofuscados pelos grandes dinossauros destruidores, que foram as rebeliões dinásticas e camponesas e as batalhas de cercamento” <strong>[1]</strong>. Ou o século XVIII de Thompson, <em>locus classicus </em>indiscutível. Tilly, em sua maior amplitude, propõe o período de 1650-1850. John Bohstedt vê um intervalo de três séculos em que “o nosso terceiro século, de 1740 a 1820, foi a era de ouro dos revoltas por comida” <strong>[2]</strong>. Thompson observa que estes são frequentemente identificados como “insurreições” ou “levantes dos pobres”. Outros, seguindo Thompson, advertem contra a imposição de distinções demasiado rígidas entre os tipos, optando por recomendar, em vez disso, a abordagem de “afastar-se da compartimentação de protestos. Embora a divisão dos protestos em diferentes &#8216;tipos&#8217; &#8211; alimentares, industriais, políticos, convencionais e assim por diante &#8211; possa ser mais organizada, ela obscurece a nossa compreensão dos próprios vínculos que os perpassam” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A ligação é a própria ligação: a troca como síntese social. Marx observa que “a categoria econômica mais simples, por exemplo, o valor de troca, pressupõe uma população. Além disso, uma população que produz em relações específicas”. É com isto que “a colocação do produto no mercado… pode ser considerada mais exatamente como a transformação do produto <em>numa</em> <em>mercadoria</em>. Só no mercado é que ele é uma <em>mercadoria</em>” <strong>[4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A ascensão dos mercados, no sentido abstrato, é inevitavelmente desigual no espaço e no tempo, e muitas vezes difícil de ver. No entanto, as revoltas alimentares acompanham o mercado no seu percurso para se tornarem a forma paradigmática de conflito social. “À medida que uma massa crescente de trabalhadores passou a depender dos mercados para obter os seus alimentos, a Inglaterra tornou-se cada vez mais vulnerável ao fracasso das colheitas e às revoltas por comida”, Bohstedt nota <strong>[5]</strong>. Tilly diz o seguinte sobre a França: “Notamos o aumento duradouro das revoltas alimentares no final do século XVII, à medida que a pressão sobre as comunidades para cederem as reservas locais de cereais às exigências do mercado nacional aumentou” <strong>[6]</strong>. Richard Price, retomando o quadro de Thompson: “As revoltas dos preços e as lutas por conta da utilização racionalizada da terra foram formas características deste choque entre as inovações das forças de mercado e a afirmação de uma &#8216;economia moral&#8217; de obrigações recíprocas e responsabilidades” <strong>[7]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão da “economia moral” apoia-se fortemente no significado de auto- reconhecimentos particulares por parte dos antagonistas. Neste aspecto, é exemplar de muita reflexão sobre a revolta, um dispositivo explicativo que se baseia na intenção e na <em>razão </em>como baluarte contra análises despolitizantes, contrapondo a autorreflexão ao mero reflexo. É Thompson no seu momento mais justificatório, quando a justificação não é necessariamente a tarefa em causa. Um historiador contrapõe uma “economia pragmática”, argumentando: “Se as revoltas alimentares e as crenças paternalistas e da economia moral estavam tão enraizados na defesa da tradição como Thompson argumentava, essas tradições e crenças deveriam ter-se manifestado nas primeiras ondas nacionais de revoltas, 1740, 1756-57 e 1766” <strong>[8]</strong>. No entanto, “já deve ter ficado claro que os desordeiros de 1740 estavam mais interessados em confiscar alimentos do que em regular os mercados” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A apreensão de alimentos e a regulação dos mercados opõem-se apenas no domínio da ideologia. Como ambos os lados parecem não perceber, o sentido moral da multidão (caso exista) é um instrumento de necessidades pragmáticas, não a sua transgressão. A causa do acontecimento está noutro lado, na transformação social. Quando o mercado se generaliza e a troca se torna, nos termos de Alfred Sohn-Rethel, uma “segunda natureza puramente social” ao lado da primeira natureza do uso &#8211; quando a própria reprodução é cercada por todos os lados &#8211; o preço não pode deixar de se tornar um local de antagonismo imediato.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159440" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project.jpg" alt="" width="1280" height="885" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-300x207.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-1024x708.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-768x531.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-607x420.jpg 607w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-640x443.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Peasant_Wedding_-_Google_Art_Project-681x471.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />Mas não devemos apoiar-nos demasiado na magia do “preço”. Insistir na distinção é negligenciar o facto de que o zero da apreensão também é um preço; está em relação com o total de fundos disponíveis para satisfazer as necessidades básicas. No contexto do mercado, a expropriação direta encontra-se no mesmo continuum de uma luta redistributiva pela sobrevivência que a exigência de um custo mais baixo dos cereais. O próprio Tilly faz esta observação com respeito à Inglaterra, França e, eventualmente, Estados Unidos:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Durante o período de 1650 a 1850, as pessoas, na maioria das vezes, impediam que os cereais saíssem da cidade, confiscando o carregamento, ou forçavam os alimentos locais a entrar no mercado a um preço inferior ao que o proprietário preferia. As autoridades chamavam a estas ações revoltas alimentares, mas na realidade consistiam em pessoas comuns que faziam quase exatamente o que as próprias autoridades faziam em tempo de escassez &#8211; proibir que os cereais saíssem da cidade, confiscar os abastecimentos locais, regular o preço <strong>[10]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A apreensão de alimentos <em>é</em> uma regulação do mercado, tal como a exportação de alimentos em caso de escassez é uma regulação do mercado.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O</strong></em> <em><strong>Mercado</strong></em> <em><strong>Mundial</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">É por esta razão que começamos nas docas. Em 1347, ocorrem duas revoltas notáveis na Inglaterra, nos portos da Liga Hanseática de Brístol e King&#8217;s Lynn:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Uma vez a bordo, a multidão, assumindo o poder real, descarregou os navios “contra a vontade dos proprietários” e pôs os cereais à venda “ao seu próprio preço”. Os manifestantes também apreenderam e venderam outros carregamentos de milho que estavam a ser trazidos para Lynn para serem comercializados e depois, “sob a sua autoridade”, condenaram os proprietários ou transportadores à chacota pública, “sem processo legal”. Por último, a multidão foi acusada de prender o presidente da câmara e outros habitantes e de emitir proclamações quase reais <strong>[11]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta assunção carnavalesca do poder assombra a revolta; mais de quatro séculos depois, as Revoltas de Gordon assinarão no muro quebrado da prisão de Newgate, “Sua Majestade, Rei Mob”. A partir de um certo ponto, o comando sobre o preço não é tão fácil de distinguir da soberania. Mas é um fato diferente que é mais revelador aqui. No porto de Bristol, os navios dirigem-se para a Gasconha, os que partem de King&#8217;s Lynn para Bordeaux.</p>
<p style="text-align: justify;">O mercado mundial está em formação, um projeto de comerciantes, militares e bancos. Os acontecimentos de Bristol e de King&#8217;s Lynn ocorrem pouco depois de a Inglaterra não ter pago os empréstimos maciços de Florença com os quais financiou a invasão de França; tanto a Gasconha como Bordeaux são os eixos da Guerra dos Cem Anos. A rede comercial do Mediterrâneo propaga esta volatilidade, o “grande crash” da década de 1340 (onde se regista o primeiro colapso bancário, que derrubou as Casas de Bardi e Peruzzi). Contra este drama no sistema mundial nascente, as revoltas de exportação de 1347 não desempenham senão um papel secundário <strong>[12]</strong>. Contudo, estão costurados nesse tecido, urdume e trama.</p>
<p style="text-align: justify;">O porto, o entreposto, mesmo numa escala limitada (pois o que é King&#8217;s Lynn comparada com Veneza na Alta Idade Média, ou com Amsterdã do século XVII?) é o mais próximo que o mundo feito chegará da intersecção da teoria da produção e da circulação. Se é a azáfama do mercado local em grande escala, é ao mesmo tempo a condensação de todas as abstrações do espaço mundial, dos acordos comerciais, dos portulanos, do direito do almirantado. É a paisagem construída onde se manifesta a relação entre o local e o global. Fora do porto, é difícil conciliar as duas coisas, se a pessoa não tiver viajado muito: o quotidiano cívico da ágora e o sublime fictício do comércio oceânico. É a distância entre o livro contábil e a ficção de aventuras. Franco Moretti observa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">As aventuras tornam os romances longos porque os tornam amplos; são os grandes exploradores do mundo ficcional: campos de batalha, oceanos, castelos, esgotos, pradarias, ilhas, bairros de lata, selvas, galáxias… Margaret Cohen, com quem aprendi muito sobre este assunto, vê-as como uma metáfora de expansão: o capitalismo na ofensiva, planetário, atravessando os oceanos. Penso que tem razão, e acrescentaria apenas que a razão pela qual a aventura funciona tão bem neste contexto é o facto de ser tão boa a imaginar <em>a guerra</em> <strong>[13]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nesta perspetiva, o feito de <em>Robinson Crusoé </em>é sintetizar o livro de contábil e a aventura &#8211; descobrir entre as verdades que a modernidade oferecerá, a unidade dos dois. Como diz Marx, “assim como a troca privada cria o comércio mundial, a independência privada cria completa dependência do chamado mercado mundial” <strong>[14]</strong>. O aforismo de Walter Raleigh precede-o: “Todo o comércio é comércio mundial; todo o comércio mundial é comércio marítimo”. Uma dialética da banca do comerciante e do mercado mundial, portanto, o emaranhado dos fenómenos mais locais e mais longínquos. E, juntamente com isso, a dialética da revolta e da guerra, King&#8217;s Lynn e Calais, cada um no extremo de uma meada partilhada.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159439" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit.jpg" alt="" width="1280" height="971" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-300x228.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-1024x777.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-768x583.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-554x420.jpg 554w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-640x486.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Pieter_Bruegel_de_Oude_-_De_bruiloft_dans_Detroit-681x517.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />Pouco importa, para voltar a um tema anterior, se os desordeiros possuem pensamentos sobre os mercados mundiais, conflitos distantes, a malha apertada do espaço global. Têm uma tarefa prática que surge dentro destes, a partir destes, e que participa neles independentemente disso. Os participantes não conseguem parar de se virar para estas coisas que assombram todos os horizontes. Thompson, ao falar do planejamento e paciência negligenciados da revolta no mercado em toda a sua particularidade local, é atraído pela atração magnética da exportação:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Além disso, exigiam mais preparação e organização do que parece à primeira vista; por vezes, a “multidão” controlava o mercado durante vários dias, à espera de que os preços baixassem; por vezes, as ações eram precedidas de panfletos escritos à mão (e, na década de 1790, impressos); por vezes, as mulheres controlavam o mercado, enquanto grupos de homens interceptavam os cereais nas estradas, nas docas, nos rios; muito frequentemente, o sinal de ação era dado por um homem ou uma mulher que transportava um pão no alto, decorado com uma fita preta e com a inscrição com um slogan qualquer” <strong>[15]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Aqui, o senso comum da história da revolta torna-se uma narração, na qual a revolta de exportação é uma espécie de digressão, uma sub-história. Finalmente, é de grande importância, ao traçar o longo arco histórico da revolta, compreender que isso inverteu as coisas. Consideremos o século das ondas de revoltas nacionais. Em 1740, a grande maioria são “ações de multidão para impedir o transporte de alimentos”. As revoltas concentram-se em torno das costas e dos cursos de água: as fozes do Tamisa e do Severn, King&#8217;s Lynn, ao longo do Ouse e até o Union Canal. As revoltas mais generalizados de 1756-1757 registam um aumento tanto na fixação explícita de preços como nos ataques a comerciantes, mas continuam a orientar-se para os transportes; agrupam-se novamente em torno das vias navegáveis e em direção às Midlands. Por volta de 1795, o “ano culminante” de Thompson para as revoltas, apoiado pela fome e pelo jacobinismo canalizado, as revoltas encontram-se em todo o lado abaixo de Northumberland; a fixação de preços é agora igual aos transportes. Não há falta de nenhum dos dois. Em 1800-1801, as revoltas somam-se uns aos outros, espalhando-se pelas Midlands e atravessando a costa ao sul, no último pico antes das revoltas começarem a declinar na Inglaterra <strong>[16]</strong>. E não é só na Inglaterra; o rumo é muito semelhante nas colônias norte-americanas, onde os amotinados exemplares de 1709 a 1713 atacaram navios, tendo num caso partido um leme contra a partida de um carregamento de trigo; estes acontecimentos estão intimamente ligados ao comércio emergente das Índias Ocidentais.</p>
<p style="text-align: justify;">O padrão é perfeitamente claro. A revolta das exportações, a intervenção física direta nos transportes, dificilmente é uma divergência ou improvisação na trajetória da revolta, mas antes a sua base. Está lá na origem, é uma invenção dos mercados nacionais e internacionais emergentes, do financiamento da bolsa nacional, da mercantilização da agricultura e da correspondente destruição da autossuficiência comunitária. Desde os seus primórdios, a revolta tem sido uma luta de circulação por excelência. Mesmo as sedições mais discretas e rústicas partilharam este contexto amplo. Depois de 1521, teve início uma expansão ainda mais dramática e sangrenta, a catástrofe da colonização, escravidão, das rotas das especiarias &#8211; aquilo a que alguns historiadores chamarão de “a primeira globalização”, a era mercantilista que integra a economia mundial no intervalo entre as viagens de Colombo e Da Gama num extremo, e a Revolução Industrial por outro. O fato de esta época mercantilista coincidir mais ou menos com a primeira época de revoltas não é uma correlação reveladora, mas sim a base histórica e teórica da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Revolta e</strong></em> <em><strong>Luta</strong></em> <em><strong>de</strong></em> <em><strong>Classes</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">No primeiro florescimento da revolta estão as sementes do seu declínio. A Inglaterra é o centro da parte inicial deste estudo, não por ser a primeira casa da revolta, mas por ser a casa da primeira transição, <em>revolta</em><em>-greve</em>. A lógica da revolta destaca-se de forma mais acentuada, em contraste. O próximo capítulo é dedicado a esta transição. No entanto, as dinâmicas subjacentes a essa transição já estão a emergir durante a era de ouro da revolta. Num movimento de auto-cancelamento e auto-propulsão que já nos deve ser familiar, esta emergência é tanto a condição para essa era de ouro como para o que a levará ao fim.</p>
<p style="text-align: justify;">O desenvolvimento do mercado coincide com o aumento da pressão sobre a população em toda a Europa, a partir de finais do século XV, e com o concomitante aumento dos preços dos cereais. Nestas condições, de acordo com o relato persuasivo de Brenner sobre a ascensão do capitalismo em Inglaterra, “encontramos os proprietários a consolidar as posses e a arrendá-las a grandes arrendatários capitalistas que, por sua vez, as cultivariam com base no trabalho assalariado e melhoramento agrícola” <strong>[17]</strong>. Na França, este processo é inibido pela tendência do Estado para proteger a propriedade dos camponeses. Daí resultam duas vias de desenvolvimento, eloquentemente avaliadas por Ellen Meiksins Wood:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">a dinâmica do crescimento auto-sustentado e a necessidade constante de melhorar a produtividade do trabalho pressupunham transformações nas relações de propriedade que criavam a necessidade de tais melhorias simplesmente para permitir que os principais atores econômicos &#8211; proprietários e camponeses &#8211; se reproduzissem. As divergências entre a Inglaterra e a França, por exemplo, pouco tinham a ver, em primeira instância, com as respectivas capacidades tecnológicas. Distinguiam-se pela natureza das relações entre proprietários e camponeses: um caso exigia o aumento da produtividade do trabalho, o outro não, e, de certa forma, até impedia o desenvolvimento das forças produtivas. O impulso sistemático para revolucionar as forças de produção foi mais o resultado do que a causa <strong>[18]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A pequena produção camponesa podia ser intensificada, e muitas vezes foi. No entanto, isso era geralmente feito através do aumento da mão de obra. Não se tratava de uma fuga à armadilha malthusiana e, como Brenner observa, dependia de uma maior produção de cereais de base noutros locais:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O desenvolvimento econômico inglês dependia assim de uma relação simbiótica quase única entre a agricultura e a indústria. Tratou-se, de fato, em última análise, de uma revolução agrícola, baseada na emergência de relações de classes capitalistas no campo que tornou possível que a Inglaterra se tornasse a primeira nação a experimentar a industrialização <strong>[19]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Estes diferentes caminhos ditam diferentes lutas:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na Inglaterra, é claro, a revolta camponesa era dirigida contra os senhorios, numa vã última tentativa para defender a propriedade camponesa em desintegração contra a invasão capitalista que avançava. Na França, o alvo da revolta camponesa era, tipicamente, a tributação esmagadora do Estado absolutista <strong>[20]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Neste caso, Brenner refere-se a revoltas camponesas como a Rebelião de Kett, em 1549, a maior das revoltas de cercamento do período. Como já foi referido, estas revoltas estão relacionadas com as revoltas por comida pela questão da subsistência, mas tratam-se de uma rede ampla. Podemos aperfeiçoar esta ideia sugerindo que a revolta camponesa é como um tio daquilo que acabaremos por reconhecer como a revolta, uma posição feudal contra a reestruturação que lentamente perde a sua força à medida que o seu mundo se desvanece de forma desigual. A revolta sobrevive depois de o seu parente mais velho ter ficado na memória. Mas durante algum tempo desenvolve-se paralelamente.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159441" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder.jpg" alt="" width="1280" height="913" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder.jpg 1280w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-300x214.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-1024x730.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-768x548.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-589x420.jpg 589w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-640x457.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/1280px-The_Triumph_of_Death_by_Pieter_Bruegel_the_Elder-681x486.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px" />É de esperar que assim seja. O mercado, o mundo das trocas e do consumo, tem uma longa história. Foi este fato que levou Fernand Braudel a afirmar que a economia tem três camadas. A vida quotidiana constitui a camada de base, com o mercado por cima. “Depois, ao lado, ou melhor, acima desta camada, vem a zona do anti-mercado, onde vagueiam os grandes predadores e onde a lei da selva entra em ação” <strong>[21]</strong>. O que isto deixa escapar é a forma como o capitalismo não é simplesmente uma camada acrescentada, mas também uma relação social que transforma o conteúdo do mercado que encontra ante si, preservando inicialmente a sua forma (e fazendo cada vez mais o mesmo com a vida quotidiana). Agora será onde o valor se realiza, por detrás da cortina de comprar barato e vender caro. O capitalismo é a internalização do comércio, não o seu contrário: um capitalismo inicialmente mercantil, circulatório. E o período em que este processo de internalização estiver em plena atividade &#8211; depois de iniciada a revolução agrícola, antes da revolução industrial &#8211; será a era de ouro da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> John Bohstedt, <em>The Politics of Provisions: Food Riots, Moral Economy, and Market Transition in England</em>, c. 1550-1850, Surrey, Reino Unido: Ashgate, 2013, 27.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> John Bohstedt, “The Pragmatic Economy, the Politics of Provisions and the &#8216;Invention&#8217; of the Food Riot Tradition in 1740”, in<em> Moral Economy and Popular Protest: Crowds, Conflicts and Authority</em>, eds. Adrian Randall e Charles Molesworth, Nova York: St. Martin&#8217;s Press, 2000, 57-59.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Adrian Randall e Charles Molesworth, “The Moral Economy: Riots, Markets, and Social Conflict,” in <em>Moral Economy and Popular Protest: Crowds, Conflicts and Authority</em>, 12.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Marx, <em>Grundrisse</em>, 101, 534 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Bohstedt, “Pragmatic Economy”, 57.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Tilly, “Burgundy”, 503.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Richard Price, <em>Labour in British Society: An Interpretive History</em>, Londres: Croom Helm, 1968, 29.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Bohstedt, “Pragmatic Economy”, 75.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ibid., 67.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Tilly, “Speaking Your Mind”, 470.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Buchanan Sharp, “The Food Riots of 1347 and the Medieval Moral Economy,” in <em>Moral Economy and Popular Protest: Crowds, Conflicts and Authority</em>, eds. Adrian Randall and Charles Molesworth, New York: St. Martin&#8217;s Press, 2000, 35-35.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Vale a pena notar aqui que “sistema mundial” não pretende designar a totalidade do globo e, então, tratar a Europa Ocidental como se ela pudesse desempenhar esse papel na análise, como tantas vezes acontece na imaginação ocidental. Como Immanuel Wallerstein esclarece, “A inclusão do hífen teve como objetivo sublinhar que não estamos falando de sistemas, economias, impérios do (todo) mundo, mas de sistemas, economias, impérios que são um mundo (mas muito possivelmente, e de fato geralmente, não abrangendo todo o globo)”. Immanuel Wallerstein, <em>World-Systems Analysis: An Introduction</em>, Durham: Duke University Press, 2004, 16-17.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Franco Moretti, “The Novel: History and Theory”, <em>New Left Review</em>, n.º 52, julho-agosto de 2008, 115, 124.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Marx, <em>Grundrisse</em>, 159.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> E. P. Thompson, <em>The Making of the English Working Class</em>, Vintage Books, 1966, 65. Ele continua com uma nota de rodapé de J. F. Sutton, The Date-Book of Nottingham, Nottingham, ed. de 1880, p. 286: “Uma ação em Nottingham, em setembro de 1812, começou com várias mulheres colocando um pão de meio centavo no topo de uma vara de pescar, depois de pintá-lo com ocre vermelho e amarrar nele um pedaço de crepe preto, emblemático… da &#8216;fome sangrenta vestida com saco de cilício&#8217;”. A bandeira vermelha e preta começa no pão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Andrew Charlesworth, ed., <em>An Atlas of Rural Protest in Britain 1548-1900</em>, Londres: Croom Helm, 1983, 81, 84, 98, 102.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Robert Brenner, “Agrarian Class Structure and Economic Development in Pre-Industrial Europe”, <em>Past and Present</em>, n.º 70, fevereiro de 1976, 61.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Ellen Meiksins Wood, <em>The Origin of Capitalism: A Longer View</em>, Londres: Verso, 2002, 66-7.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Brenner, “Agrarian Class Structure” (Estrutura de classes agrárias), 68.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Ibid., 70.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> Fernand Braudel, <em>The Wheels of Commerce: Civilization and Capitalism, Fifteenth-Eighteenth Century</em>, vol. 2, Berkeley: University of California Press, 1982, 230.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são de Pieter Bruegel (1526–1569)</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (3)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jul 2026 14:42:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
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					<description><![CDATA[A greve e a revolta são lutas práticas pela reprodução dentro da produção e da circulação respectivamente. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>PARTE 1: REVOLTA</strong></h4>
<p><strong>CAPÍTULO 1</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O Que é Uma Revolta?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O que está em jogo na definição de revolta não é simplesmente a possibilidade de fazer distinções históricas úteis, mas também a decifração do significado e do potencial político da revolta. Esse também é um problema para a pesquisa. Certamente, as revoltas frequentemente apresentam violência, direta, indireta ou como ameaça. Os problemas surgem quando os dois [revolta e violência] são atrelados um ao outro. Se alguém estiver, por exemplo, analisando registros públicos e selecionar <em>violência</em> e palavras relacionadas como termos de pesquisa, essa correlação terá um profundo efeito nos resultados. Da mesma forma, o pressuposto de que a violência indica uma revolta apresentará instantaneamente desafios para qualquer conceituação útil da atividade em questão.</p>
<p style="text-align: justify;">Considere as confusões que se proliferam quando se faz a fusão, neste exemplo do texto de abertura de <em>“Rioting in America”</em> de Gilje:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mesmo nos primeiros anos do século XIX, à medida que os trabalhadores refinavam suas táticas de greve, a coerção era necessária para impor a unidade e persuadir os proprietários quanto à legitimidade das exigências dos trabalhadores. Essa coerção frequentemente assumia a forma de revoltas &#8211; seja cobrindo de piche e penas um sapateiro recalcitrante em Baltimore ou brigando com os fura-greves nas docas de Nova York. A força era frequentemente usada para enfrentar a força, e as revoltas e a violência representam os sinais da história trabalhista americana desde a década de 1830 até o século XX. Antes de 1865, a maioria das greves violentas se limitava a cabeças rachadas e eram assuntos locais. Depois de 1865, as revoltas passaram a ter alcance nacional. Na grande greve ferroviária de 1877, os trabalhadores lutaram contra os militares de Baltimore a São Francisco. As dimensões dessas guerras trabalhistas continuaram a ganhar as manchetes nacionais com as batalhas em Homestead em 1892, Pullman em 1894, Ludlow em 1914 e Blair Mountain, West Virginia, em 1921. Acrescente a esses grandes cataclismos inúmeras escaramuças nas cidades, vilas e no campo, e veremos que grande parte da história do trabalho americano está escrita com sangue, como revoltas <strong>[1]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ficamos um pouco surpresos ao saber que a revolta é um aspecto marcante da história do trabalho. É um complemento da greve, seu braço armado. Ou talvez a revolta seja simplesmente uma subcategoria, a <em>greve violenta</em>; às vezes, elas se elevam ao status de “guerras trabalhistas”, chegando enfim ao último floreio gramaticalmente desajeitado, determinado a aproximar o máximo possível as palavras “revoltas” e “sangue”.</p>
<p style="text-align: justify;">Como costuma acontecer até mesmo com as concatenações mais arbitrárias, uma verdade é, no entanto, capturada. O eco de “escrito em letras de sangue e fogo” é sugestivo. A famosa descrição de Marx da acumulação primitiva insiste na violência das expropriações que produzem as condições para o capitalismo. À medida que os cavaleiros da indústria substituírem os cavaleiros da espada, parecerá que a apropriação do excedente sob o capital, diferentemente de todos os modos anteriores de produção, é garantida por meio de consentimento livre. Mas essa dupla liberdade do trabalho — <em>dos</em> meios de subsistência e <em>para</em> dispor de suas capacidades à vontade — é precisamente o que foi assegurado por essa violência originária, que não é dissolvida, mas sim sublinhada e preservada dentro da dominação impessoal da relação de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de se admirar, portanto, que a violência ronde o mundo do trabalho. Esse é o núcleo da verdade no relato de Gilje e o momento em que a violência poderia ter sido reconhecida como analiticamente independente da constituição da revolta. Com essa separação esclarecedora, a força ideológica dessa associação exclusiva poderia ser inspecionada. Mas é exatamente o que não acontece. É do caráter do pensamento burguês preservar uma compreensão mais moral do que prática do antagonismo social. Assim, em vez disso, encontramos a notável insistência de que a violência é sempre e em todos os casos um sinal da revolta — mesmo quando envolve “brigas com fura-greves”, um absurdo evidente. Citando “alguns precedentes legais”, Gilje acabará chegando à sua definição completa de revolta como “qualquer grupo de doze ou mais pessoas tentando fazer valer sua vontade imediatamente por meio do uso da força fora dos limites normais da lei” <strong>[2]</strong>. Uma revolta, não podemos deixar de notar, é o anverso perfeito de um júri.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta é, nesse sentido, sempre e em toda parte ilegítima, o que pode não nos surpreender, a não ser pela alegação inicial de que ela serviu “para persuadir os proprietários da legitimidade das demandas dos trabalhadores”. A partir daí, os problemas categoriais só se proliferam. A consequência desse relato em particular é reduzir a greve em sua totalidade ao aspecto mais mínimo e ascético, a inação encontrada ao abandonar as ferramentas. Ela é sempre pacífica e sempre dentro da lei — apesar dos longos períodos da história durante os quais até mesmo a greve ou “reunião” mais moderadas eram ilegais, e apesar dos inúmeros exemplos de lutas com piquetes e outras formas de violência.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159420" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430.jpg" alt="" width="1504" height="1157" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430.jpg 1504w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-300x231.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-1024x788.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-768x591.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-546x420.jpg 546w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-640x492.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Homestead_Strike_-_18th_Regiment_arrives_cph.3b03430-681x524.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1504px) 100vw, 1504px" /> Por meio de tais construções contrafactuais, obtemos um modelo de greve severamente limitado, tanto em termos de quais ações ela pode incluir, quanto em relação a seu escopo histórico e geográfico. De fato, a greve contemplada aqui quase não existe. Essa definição também tem o efeito contrário de ampliar e desfigurar nosso conceito de revolta para além de qualquer particularidade; ele pode ser encontrado em todos os tempos e lugares como algo que beira a essência trans-histórica. Uma definição mais persuasiva, mas ainda limitada, é oferecida por David Halle e Kevin Rafter:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[A revolta] envolve publicamente pelo menos um grupo, que com pouca ou nenhuma tentativa de ocultação, agride ilegalmente pelo menos um outro grupo ou ataca ou invade ilegalmente uma propriedade… de forma que se indique que as autoridades perderam o controle… os ataques a outro grupo ou à propriedade devem atingir um determinado limite de intensidade <strong>[3]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso pode ser útil em comparação com a avaliação de William Sewell, um dos principais historiadores da ação coletiva. Embora se baseie em Tilly, Sewell também dá à violência um lugar de destaque em sua estrutura analítica em todos os períodos históricos, concluindo que “o argumento essencial de Tilly ainda pode ser explicado de forma mais econômica com o uso de sua tipologia de violência competitiva, reativa e proativa” <strong>[4]</strong>. O que diferencia Sewell de Gilje é que, ao deslocar os termos revolta/greve para os registros de violência em vez de sobrepor as duas estruturas à força, ele é capaz de avaliar a mudança de uma orientação dominante para outra dentro de um repertório de ações aberto à transformação histórica. Ou seja, ele mantém a possibilidade de periodização como tal. Isso é exatamente o que Gilje efetivamente abandona ao obscurecer totalmente metade do trabalho da história. Tilly observa,</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O repertório de ações coletivas evolui de duas maneiras diferentes: o conjunto de meios disponíveis para as pessoas muda em função de transformações sociais, econômicas e políticas, enquanto cada meio de ação individual se adapta a novos interesses e oportunidades de ação. Rastrear essa dupla evolução do repertório é uma tarefa fundamental para a história social <strong>[5]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A descrição da revolta como expressão multifacetada da violência social geral que muda de forma a torto e a direito, conforme ditam as circunstâncias, ressalta a segunda enquanto apaga a primeira — e, com ela, qualquer chance de compreender a importância sistemática do retorno da revolta.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Econômico e o Político</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">O confusão entre revolta e violência tem sido uma ferramenta essencial para a redução política da revolta, seu isolamento da política propriamente dita, cuja medida se baseia implicitamente em um modelo de auto-consciência ou em sua ausência. Foi isso que Thompson começou a criticar, chamando-a de “visão espasmódica da história popular:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">De acordo com essa visão, as pessoas comuns dificilmente podem ser consideradas agentes históricos antes da Revolução Francesa. Antes desse período, elas se intrometem ocasionalmente em momentos de súbita perturbação social. Essas irrupções são compulsivas, em vez de autoconscientes ou autoativadas: são simples respostas a estímulos econômicos <strong>[6]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essas conceitualizações são renovadas na ciência positivista e quantitativa, por exemplo, do New England Complex Systems Institute. Seu estudo de 2011, focado em nações com baixos salários, traça uma correlação de explicação única [single-bullet] em que os autores “identificam um limite específico de preço dos alimentos acima do qual os protestos se tornam prováveis” <strong>[7]</strong>. Há desvios mais matizados dessas suposições subjacentes, articulando aumentos insuportáveis nos preços das mercaorias com mudanças econômicas mais amplas, como a reestruturação do FMI, programas e relações comerciais forçadas, que fornecem as condições para regimes alimentares precários. Enfatizando a construção da fome e da escassez, esses relatos, no entanto, assumem um verdadeiro mecanismo autonômico [autonomic] de encadeamento entre estímulo e resposta. A definição efetiva de revolta aqui é condicional. É simplesmente o que acontece quando os preços dos alimentos atingem um certo apogeu, uma versão da abordagem dos “historiadores do crescimento”, rejeitada por Thompson por “obliterar as complexidades do motivo, do comportamento e da função, que, se fossem notados pelo estudo de seus análogos marxistas, os fariam protestar” <strong>[8]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa abordagem encontra seu contraponto de forma um tanto perversa em Alain Badiou. Ele oferece um sentido qualitativo e abstrato do momento político. Em muitos aspectos, seu relato transcende os limites de seus contemporâneos, intelectuais de esquerda que, confrontados com as revoltas de Tottenham em 2011, aprenderam pouco. Na melhor das hipóteses, fomos levados a pensar que as revoltas alcançaram um espontaneísmo lamentável, aquela acusação que é a reanimação do pensamento socialista da tropa “espasmódico”. Foi um espetáculo estranho ver uma teoria política outrora moderna ser apresentada como um truísmo, como se o debate entre Lênin e Luxemburg tivesse sido resolvido e suas conclusões fossem válidas para sempre, sem necessidade de análise real. Em geral, os relatórios foram ainda menos generosos. Os participantes eram farsantes da sociedade antes deles, movidos pelas compulsões de autocancelamento da época, avatares do individualismo materialista momentaneamente liberados, talvez aptos a escapar de explosões sem sentido se lhes fosse fornecido um programa político. Como Slavoj Žižek perguntou, queixoso, do recinto de papel da <em>London Review of Books</em>: “Quem conseguirá direcionar a raiva dos pobres?” Era difícil não temer que um filósofo quisesse se encarregar dessa tarefa.</p>
<p style="text-align: justify;">Badiou, no entanto, deixa claro que as revoltas para as quais ele volta sua atenção não estão em busca de uma direção de vanguarda, sem a qual só podem afirmar a sociedade da qual surgiram. Ele as identifica como um fato periodizante em meio à sua própria realização:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">[…] vários povos e situações estão nos dizendo, em uma linguagem ainda indistinta, que esse período acabou; que há um renascimento da História. Devemos então nos lembrar da Ideia revolucionária, inventando sua nova forma ao aprender com o que está acontecendo <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A Ideia surge do evento da revolta, que então fornece uma força e duração organizacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse esquema, há uma certa alternância entre períodos em que “a concepção revolucionária de ação política foi suficientemente esclarecida (…) e, com base nisso, garantiu apoio maciço e disciplinado” e “períodos intervalares [quando], em contraste, a ideia revolucionária do período anterior (…) está dormente” <strong>[10]</strong>. Na falta de uma ideia ordenadora (muitas vezes aparecendo como a Ideia majestosa), esses últimos períodos dão origem à expressão dessa desordem no modo protopolítico da revolta. Badiou vê uma “estranha semelhança” entre nosso passado recente e a Restauração Francesa após a derrota final do espírito republicano: “desde o início da década de 1830, foi um grande período de revoltas, que muitas vezes foram momentânea ou aparentemente vitoriosas… Essas foram precisamente as revoltas, às vezes imediatas, às vezes mais históricas, características de um período intervalar” <strong>[11]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159422" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars.jpg" alt="" width="1920" height="1552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-300x243.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-1024x828.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-768x621.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-1536x1242.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-520x420.jpg 520w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-640x517.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/harpersgraphic21july1894burningcars-681x550.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />O puramente econômico e o puramente político, como era de se esperar, mostram os limites um do outro em negativo. O conto indexical do New England Complex Systems Institute não pode fazer muito além de atender certas quantidades à medida que elas se aproximam de determinados níveis e aguardar a revolta que inevitavelmente seguirá. O método deles parece ser relativamente preciso, depois de dados concretos, mas dificilmente é explicativo em relação à revolta como fenômeno social.</p>
<p style="text-align: justify;">O relato de Badiou, ao contrário, é admiravelmente explicativo, mas impreciso. Ou seja, ele fornece um contexto social reconhecível para a revolta em oposição a outras formas de ação, uma demanda por periodização, e está preparado para aceitar a revolta como um testemunho sério sobre a transformação histórica. No entanto, há imprecisões em sua pesquisa histórica, o que deriva de periodizações um tanto arbitrárias da história francesa a partir de desejos políticos imputados, em direção a uma trajetória global de revolta, à qual essa distribuição histórica não corresponde. O movimento oscilante que ele deduz para a França, com fases que duram décadas, tem pouca força de periodização; provavelmente preciso para seu país natal, ele combina pouco ou nada com as tendências da história em outros lugares. Além disso, qualquer revolta de importância política (uma “revolta histórica”, em sua tipologia) aparece como um evento praticamente sem determinação, fora do tempo. Os analistas quantitativos nos dão causalidade demais; Badiou, de menos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas duas abordagens estão diante de nós como Scylla e Charybdis, os duros bancos de areia do economicismo vulgar e o redemoinho da abstração política. Como navegar entre elas, entre a revolta como jogo de fome e a revolta como emanação de uma estrutura diáfana de sentimento político? Sem dúvida, cada um deles é, de certa forma, informativo, mas ainda insuficiente. Se enfatizamos a periodização, é primeiro porque mudanças fundamentais e duradouras no repertório da ação coletiva sugerem que a periodização é possível em formas mais completas do que espasmos ou oscilações, tanto em escalas infranacionais quanto supranacionais. Se a revolta olha para a periodização, o período, por sua vez, olha de volta para a revolta pelo buraco da fechadura dialética. É difícil, talvez impossível, estabelecer o que é uma revolta sem a periodização; com ela, a revolta (e também a greve) pode ser entendida como um conjunto de práticas diante de circunstâncias práticas, com ou sem um imaginário sobre a autoconsciência reflexiva dos participantes em que se baseiam tantos relatos.</p>
<p style="text-align: justify;">É na prática que Thompson baseia sua análise. Sua conclusão agrega um conjunto de outras práticas, incluindo bloqueio, confisco, revenda, ameaça e violência real contra comerciantes e transportadores. É a partir dessas práticas, em relação a um senso personalizado do custo de se manter vivo, que ele deduz a prática de fixação de preços como a atividade unificadora. Thompson, por sua vez, foi criticado pelo peso que ele dá ao costume e ao direito presumido de transformar o costume em uma arma, que é aproveitada pela multidão. No entanto, o caso mais básico que ele constrói se aproxima do indiscutível: o caso de reconhecer que a situação de revolta não é nem a simples fome nem a “emoção” política (como a revolta já foi chamada), mas sim o domínio do mercado. Se o mercado era “o ponto em que os trabalhadores mais frequentemente sentiam sua exposição à exploração, era também o ponto &#8211; especialmente em distritos manufatureiros rurais ou dispersos &#8211; em que eles podiam se organizar mais facilmente” e, portanto, era “tanto na arena da guerra de classes quanto na fábrica e na mina que se deu a revolução industrial” <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Falar de guerra de classes não pode deixar de tender a um certo reducionismo. Não parece, pelo menos no sentido ortodoxo que adquiriu, totalmente adequado ao mundo protoindustrial em questão, nem ao presente quando o pertencimento de classe fornece não tanto um limite, mas uma lógica para a mobilização política. Apenas assim, como nossa introdução observa, a “fixação de preços de mercadorias no mercado” descreve apenas uma fração da revolta contemporânea. Thompson, e ele não está sozinho, aponta uma saída em um momento de atenção ao tema da revolta. Ele faz uma pausa em sua pesquisa para observar: “Os iniciadores das revoltas eram, com muita frequência, as mulheres”, pela razão evidente de que “elas também eram, é claro, as mais envolvidas no comércio cara a cara, mais sensíveis aos significados dos preços, mais experientes em detectar baixo peso ou qualidade inferior” <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso é apenas razoável, no caso das excluídas antecipadamente do “patriarcado do salário” <strong>[14]</strong> encontrarem mais intensamente a luta no mercado, uma vez que a agricultura de subsistência é minada e a questão básica da sobrevivência é forçada a entrar em uma esfera de troca em expansão. E isso nos oferece, mais do que uma lógica de circulação, a esfera do consumo e da troca. Além disso, gera uma lógica de reprodução como tal.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Dilema da Reprodução</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A reprodução social tem sempre dois lados. Do lado dos despossuídos do capital, ela é tanto a venda da força de trabalho quanto a compra do que é necessário para reproduzir essa força de trabalho. Do lado do próprio capital, é a valorização das mercadorias na produção e a realização desse valor na troca. Essas são as mesmas atividades, evidentemente, vistas de posições diferentes. A ilustração mais clara do caráter duplo da reprodução, sua unidade contraditória, é a chamada <em>double moulinet</em> ou, em alemão, <em>zwickmühle</em>, uma palavra que o inglês traduz como “dilema”.</p>
<p style="text-align: justify;">Na narrativa tradicional desse dilema, trata-se de uma história do trabalho: da força de trabalho refeita e revendida pelo salário, e do trabalho reprodutivo infinitamente apropriado para esse processo, mais comumente referido como “trabalho feminino” não remunerado. O que Thompson vislumbra é que esse trabalho reprodutivo acontece não apenas em casa &#8211; cozinha, quarto, berçário &#8211; mas também, no período pesquisado por ele, é encaminhado pelo mercado. Quando o mercado parece ser a principal condição para a reprodução, as lutas pela reprodução inevitavelmente se situarão nele. Ao mesmo tempo, não podemos deixar de notar que essa situação não se aplica a todos os sujeitos igualmente &#8211; que aqueles que são os últimos a entrar e os primeiros a sair do assalariamento, aqueles que nunca foram incluídos, aqueles que, na melhor das hipóteses, conseguem acesso secundário, estarão na vanguarda daqueles que se encontram lutando pela reprodução de maneiras que vão além do salário. Nessa divisão dos participantes, encontramos outra maneira de ver a conjuntura das épocas marcadas como “revolta” e “revolta linha”.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159419 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-06-30-185922.png" alt="" width="198" height="340" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-06-30-185922.png 198w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-06-30-185922-175x300.png 175w" sizes="auto, (max-width: 198px) 100vw, 198px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Na introdução, estabelecemos uma definição tripartite de greve como a forma de ação coletiva que luta para definir o preço da força de trabalho, é unificada pela identidade do trabalhador e se desenvolve no contexto da produção; a revolta luta para definir os preços no mercado, é unificada pela desapropriação compartilhada e se desenvolve no contexto do consumo. A greve e a revolta são distinguidas mais ainda como táticas principais dentro das categorias genéricas de lutas pela produção e circulação. Podemos agora reafirmar e elaborar essas táticas como sendo cada uma delas um conjunto de práticas usadas pelas pessoas quando sua reprodução é ameaçada. A greve e a revolta são lutas práticas pela reprodução dentro da produção e da circulação respectivamente. Seus pontos fortes são igualmente seus pontos fracos. Eles fazem usos estruturados e improvisados do terreno dado, mas esse é um terreno que eles não criaram nem escolheram. A revolta é uma luta pela circulação porque tanto o capital quanto os seus despossuídos foram levados a buscar a reprodução nesse terreno.</p>
<p style="text-align: justify;">Se essa parece ser uma linguagem um tanto técnica para uma experiência sensorialmente carregada &#8211; um antagonismo social dramático carregado de perigo, fúria, desespero e certo prazer social -, isso é apenas uma resposta às rejeições convencionais da revolta já encontradas, por meio da apresentação de um argumento que não deveria ter sido necessário. A revolta, que compreende práticas organizadas contra ameaças à reprodução social, não pode ser nada além de política. Isso não quer dizer que a contradição da reprodução possa ser resolvida na circulação mais do que na produção. Na verdade, é a existência dessas duas esferas, em sua unidade e contradição, que garante a existência e dá forma às lutas pela reprodução. Se as vastas expansões da revolução industrial fornecem os excedentes para o desenvolvimento de aparatos militares e policiais modernos, elas também fornecem excedentes que podem ser usados para comprar a paz social. À medida que esses excedentes derretem e parcelas cada vez maiores da população se tornam excedentes para a economia, o Estado se volta cada vez mais para a coerção como estilo de gestão: o salário social do compromisso keynesiano é retirado em favor da ocupação policial das comunidades excluídas.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a polícia e a revolta passam a se pressupor mutuamente. A revolta passa a se reconhecer por meio dessa imbricação. Caminhando por Hackney durante as revoltas de 2011, passando por cenas de angústia e excitação, passando por latas de lixo em chamas e os detritos de saques, alguns observadores concluíram que “uma luta coerente estava sendo travada aqui … para insistir no respeito dos policiais, forçar o reconhecimento de um assunto em que a rotina diária vê apenas um abjeto”. <strong>[15]</strong> A passagem aponta para a revolta como uma relação necessária com a estrutura atual do Estado e do capital, travada pelos abjetos &#8211; pelos excluídos da produtividade. Mas também aponta para a dependência da revolta em relação ao seu antagonista. No momento, a polícia aparece como necessidade e limite.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse é o tema dialético, esse dilema de necessidade e limite. O mercado, a polícia, circulação. Essas não são situações em que qualquer superação final é possível; é onde as lutas começam e florescem, desesperadamente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Gilje, <em>Rioting in America</em>, 3.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Ibid., 4.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> David Halle e Kevin Rafter, “Riots in New York and Los Angeles: 1935-2002”, em <em>New York and Los Angeles: Politics, Society, and Culture—A Comparative View</em>, ed. David Halle, Chicago: University of Chicago Press, 2003, 347.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> William Sewell, “Violência coletiva e lealdades coletivas na França: por que a Revolução Francesa fez a diferença”, <em>Política e Sociedade,</em> n.º 18, 1990, 529.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Charles Tilly, “Getting It Together in Burgundy, 1675-1975” (Unindo forças na Borgonha, 1675-1975), Teoria e Sociedade, 4: 4, 1977, 493.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Thompson, “Economia moral”, 76.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Marco Lagi, Karla Z. Bertrand e Yaneer Bar-Yam, “As crises alimentares e a instabilidade política no Norte da África e no Oriente Médio”, Cambridge, MA: Instituto de Sistemas Complexos da Nova Inglaterra, 10 de agosto de 2011, 1.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Thompson, “Moral Economy”, 78.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Badiou, <em>The Rebirth of History</em>, 87.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> Ibid., 38-39.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Ibid., 41.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Thompson, “Moral Economy”, 134, 120.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Ibid., 115; 116</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> Silvia Federici, <em>Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation</em>, Nova York: Autonomedia, 2004, 68,97-100.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> “A Rising Tide Lifts All Boats”, <em>Endnotes</em> 3 2011, 102.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As gravuras que ilustram este artigo são, respectivamente, das greves de Baltimore (1877), Homestead (1892) e Pullman (1894).</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>George Orwell e a revolução</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Jun 2026 11:25:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
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		<category><![CDATA[Revolução Russa]]></category>
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					<description><![CDATA[Orwell descreveu sua visão pessoal e extremamente rancorosa sobre o stalinismo, facilitando a vida da burguesia quando buscar sustentar essa obra como um livro sagrado do anticomunismo. Michel Goulart da Silva]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Michel Goulart da Silva</h3>
<p style="text-align: justify;">George Orwell possivelmente é um dos escritores mais controversos na esquerda. Em sua trajetória desenvolveu críticas e fez denúncias ao stalinismo, à burocracia governante na União Soviética e mesmo à atuação de partidos comunistas em diferentes países. Mas a divulgação de que teria colaborado no final de sua vida com a CIA fez com que justamente os órfãos contemporâneos do stalinismo criticassem sua trajetória política e tentassem desqualificar sua obra na totalidade. Da parte da direita, muitos se apropriam das obras de Orwell para mostrar um exemplo do seria uma estapafúrdia “ditadura de esquerda”. Essas perspectivas, tanto as que fazem parte da tentativa de reabilitar a figura criminosa de Stálin como as da direita procurando reivindicar Orwell como um anticomunista, são simplórias e ignoram vários elementos que precisam ser considerados nesse debate.</p>
<p style="text-align: justify;">Os elementos controversos de sua trajetória podem ser exemplificados de forma mais evidente a partir do caso envolvendo um de seus livros mais famosos, conhecido como <em>A revolução dos bichos</em> (no original, <em>Animal Farm</em>), publicado em agosto de 1945. O livro mostra uma fazenda onde os animais são explorados e oprimidos por seus donos humanos. Essa opressão termina quando os animais se reúnem e perseguem seu opressor, o senhor Jones, assumindo o controle da fazenda, que passou a ser chamada de Granja dos Bichos. Contudo, a despeito do otimismo inicial, a revolução toma outros rumos. Está uma curiosa interpretação de Orwell sobre o que seria a transição ao socialismo e os problemas enfrentados pelos trabalhadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa obra expressa uma visão bastante crítica e mesmo pessimista de Orwell em relação às alternativas socialistas e às posições da esquerda que lhe foram contemporâneas. Na obra, mostra uma revolução traída, tendo à frente um porco chamado Napoleão, que estabelece uma ditadura sobre os outros animais. Orwell constrói alegorias bastante explícitas, onde os animais são o proletariado e os humanos são os burgueses. Nessa obra,</p>
<p style="text-align: justify;">“[…] os homens (os antigos donos) eram ruins, mas os animais, entregues a si próprios, dividem-se em porcos (os políticos hipócritas e odiosos que Orwell sempre atacou) e os outros. Esses outros têm muitas virtudes &#8211; força, lealdade silenciosa, bondade natural, e lá estão eles: o cavalo simplório, o asno cínico, as galinhas cacarejantes, as ovelhas balindo, as vacas tolas”.(WILLIAMS, Raymond. Cultura e sociedade. Petrópolis: Vozes, 2011, p. 318.)</p>
<p style="text-align: justify;">Na fábula escrita por Orwell, a revolta dos animais representa a Revolução de Outubro, com todas as ilusões criadas em torno da promessa de um mundo melhor, e, depois de sua degeneração, o governo dos porcos é uma metáfora para o stalinismo. Contudo, a despeito de apresentar elementos coerentes e corretos em sua crítica, há alguns graves erros nessas representações, que deram margem para que pudesse ser apropriado pelos anticomunistas.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159387" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/2.jpg" alt="" width="870" height="623" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/2.jpg 870w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/2-300x215.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/2-768x550.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/2-587x420.jpg 587w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/2-640x458.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/2-681x488.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 870px) 100vw, 870px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Em sua obra, Orwell explicou a degeneração stalinista de forma individualista, abrindo a possibilidade para associar a revolução a percepções idealistas dentro da ordem burguesa e reforçando a perspectiva de que as revoluções levam a ditaduras. Esses problemas da obra original acabaram sendo apropriados pelo imperialismo, por meio da adaptação do livro, lançado como uma animação em dezembro de 1954. Contudo, a própria CIA modificou parte da história para sua finalidade de propaganda antissoviética. No livro, a camarilha que tomou conta do poder depois da revolução é associada à corrupção dos humanos que antes oprimiam os animais. Contudo, no filme, os espectadores</p>
<p style="text-align: justify;">“[…] assistiram a um desenlace completamente diferente, no qual é a visão dos porcos que impele os outros animais que observam a preparar uma contrarrevolução bem-sucedida, invadindo a fazenda. Depois de se haver tirado de cena os fazendeiros humanos e deixado apenas os porcos, a se refestelarem nos frutos da exploração, a fusão da corrupção comunista com a decadência capitalista foi desfeita”.(SAUNDERS, Frances Stonor. Quem pagou a conta? Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 320.)</p>
<p style="text-align: justify;">Essa apropriação pelo governo dos Estados Unidos não tem relação com a trajetória política de Orwell, ainda que suas ambiguidades possam ter facilitado essa apropriação. Orwell nunca se dedicou a uma tendência política ao longo de sua vida, ainda que tenha se aproximado do Partido Operário de Unificação Marxista (POUM) quando participou das brigadas republicanas na Guerra Civil da Espanha. O POUM, cabe destacar, reuniu dissidentes do partido comunista e do grupo trotskista, cuja principal figura era Andreu Nin, que rompeu com a direção de Leon Trotsky.</p>
<p style="text-align: justify;">O vínculo com o POUM foi possivelmente a experiência mais marcante da trajetória de Orwell, em especial por conta das ações do stalinismo. Em 1947, no prefácio a uma tradução do livro, escreveu:</p>
<p style="text-align: justify;">“Desde 1930, eu vira poucos indícios de que a URSS estivesse avançando na direção de algo que se pudesse chamar de socialismo. Pelo contrário, ficava chocado diante dos sinais claros de sua transformação numa sociedade hierarquizada, em que os governantes não têm mais razão de desistir do poder do que qualquer outra classe dominante”.(ORWELL, George. Prefácio do autor à edição ucraniana [1947]. In: A revolução dos bichos: um conto de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 144.)</p>
<p style="text-align: justify;">Orwell com frequência criticava a postura da imprensa e da intelectualidade de evitar fazer críticas ao stalinismo. O tema foi recorrente em diversos textos, em especial durante a Segunda Guerra, como em seu conhecido escrito sobre a liberdade de imprensa, de 1945:</p>
<p style="text-align: justify;">“Stálin é sacrossanto, e certos aspectos de suas diretrizes não podem ser seriamente discutidos. Esta regra vem sendo quase universalmente observada desde 1941, mas já operava, em medida bem mais ampla do que às vezes se percebe, dez anos antes. Já naquela época, a crítica do regime soviético a partir da esquerda só conseguia se fazer ouvir com muita dificuldade”.(ORWELL, George. A liberdade de imprensa [1945]. In: A revolução dos bichos: um conto de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 131.)</p>
<p style="text-align: justify;">Contudo, diante do que viu na Espanha e das notícias que chegavam da União Soviética, Orwell via a necessidade de “denunciar o mito soviético numa história que fosse fácil de compreender por qualquer pessoa e fácil de traduzir para outras línguas”.(ORWELL, George. Prefácio do autor à edição ucraniana [1947]. In: A revolução dos bichos: um conto de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 145.) Segundo afirma no prefácio de 1947, essa é a ideia que levou, anos depois, a concluir o livro sobre a revolução na fazenda dos bichos.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora tivesse uma postura de crítica coerente contra o stalinismo, Orwell não deixava de mostrar limites em sua visão política. Em <em>A revolução dos bichos</em>, essas limitações ficam bastante evidenciados, a partir de uma versão estereotipada dos porcos. O livro apresenta cinco porcos, entre os quais o Major, que deveria representar uma mistura de Marx e Lênin; Bola-de-Neve, que representaria Trotsky; Napoleão, na figura de Stálin. Entre os porcos havia também Garganta e Minimus, que parecem representar personagens coletivos, em particular, respectivamente, a mídia estatal e os artistas e intelectuais apoiadores de Stálin. No livro, os porcos retratavam os bolcheviques, mostrados como corruptos, gananciosos e oportunistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Os porcos são apresentados como os animais mais inteligentes, e, por isso, deveriam assumir o papel dos organizadores da Granja dos Bichos. Um exemplo dessa representação é mostrado na colheita do feno, não muito tempo depois da revolução: “Os porcos não trabalhavam, propriamente, mas dirigiam e supervisionavam o trabalho dos outros. Donos de um conhecimento maior, era natural que assumissem a liderança”.(ORWELL, George. A revolução dos bichos: um conto de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 27.) Portanto, desde o começo, os porcos, assim como os bolcheviques, são representados como uma espécie de casta de burocratas privilegiados.</p>
<p style="text-align: justify;">Em contraste, outros animais faziam o trabalho pesado. Um deles era o cavalo Sansão, que “já era trabalhador no tempo de Jones; agora, como que valia por três. Dias houve em que todo o trabalho da granja parecia cair em seu lombo”.(ORWELL, George. A revolução dos bichos: um conto de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 28.) Em contrastes, a égua Mimosa “não gostava de levantar cedo e costumava abandonar o trabalho antes dos demais, alegando estar com uma pedra encravada no casco”.(ORWELL, George. A revolução dos bichos: um conto de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 29.)</p>
<p style="text-align: justify;">Outro personagem a se destacar é Benjamin, o velho burro, talvez o animal mais inteligentes da fazenda. Benjamin não se mostrava um entusiasta da revolução, não vendo grande diferença entre a fazenda sob os porcos e sob o senhor Jones. Benjamin “afirmava lembrar-se de cada detalhe de sua longa vida e saber que as coisas nunca haviam estado e nunca haveriam de ficar nem muito melhor nem muito pior”.(ORWELL, George. A revolução dos bichos: um conto de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 103.) Benjamin é retratado como uma espécie de cínico sábio que prevê os rumos do governo de Napoleão. Pode-se entender ele como um retrato da intelectualidade, que não participa ativamente da derrubada revolucionária, mas que, depois, fazia comentários cínicos.</p>
<p style="text-align: justify;">O caso de Bola-de-Neve, seguindo os passos do processo que levou à perseguição contra Trotsky, é mostrado de forma bastante detalhada. Embora tenha sido um dos principais dirigentes da revolução, em determinado momento foram construídas as mentiras contra Bola-de-Neve, contadas como se fossem verdades: “Sempre que algo errado aparecia, o culpado era Bola-de-Neve. Uma janela quebrada, um dreno entupido, e alguém com certeza diria que Bola-de-Neve viera à noite e fizera aquilo”.(ORWELL, George. A revolução dos bichos: um conto de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 65-6.) Essa campanha não demorou a ganhar os tons políticos, com os animais acreditando “que Bola-de-Neve era agente do Jones desde o início… sim, desde o instante mesmo em que imaginamos a Rebelião”.(ORWELL, George. A revolução dos bichos: um conto de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 68.)</p>
<p style="text-align: justify;">Contudo, a expulsão de Bola-de-Neve se mostra diferente da realidade em pelo menos um aspecto, considerando que houve um intenso embate político da oposição liderada por Trotsky contra Stálin. Quando Bola-de-Neve é expulso, há apenas uma ação violenta dos cachorros a mando de Napoleão, numa referência à polícia política stalinista. Os membros desse grupo, junto a Napoleão, “sacudiam a cauda para ele da mesma maneira como os outros cachorros outrora faziam para Jones”.(ORWELL, George. A revolução dos bichos: um conto de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 47.) Bola-de-Neve apenas foge correndo.</p>
<p style="text-align: justify;">Na visão de Orwell, o problema da revolução passava pelas escolhas e ações individuais dos personagens. Os porcos e seus aliados, em especial Napoleão e seus apoiadores mais próximos, se corromperam pelo poder, deixando de lado, entre outras coisas, o princípio de não confiar em quem caminha sobre duas pernas. Essa degeneração é mostrada em uma cena bastante ilustrativa, quando Orwell descreve o momento em que simbolicamente Napoleão de certa forma assume o poder total:</p>
<p style="text-align: justify;">“[…] saiu pela porta da casa uma comprida coluna de porcos, todos caminhando sobre as patas de trás. Uns melhor que outros, um ou dois até meio desequilibrados e dando a impressão de que apreciariam o apoio de uma bengala, mas todos deram a volta no pátio muito bem. Finalmente houve um alarido dos cachorros, ouviu-se o cocoricó esganiçado do garnisé, e surgiu Napoleão, majestoso, desempenado, lançando olhares arrogantes para os lados, com os cachorros brincando em volta”.(ORWELL, George. A revolução dos bichos: um conto de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 105.)</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159388" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/3.jpg" alt="" width="768" height="976" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/3.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/3-236x300.jpg 236w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/3-330x420.jpg 330w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/3-640x813.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/3-681x865.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Esse ponto da narrativa mostra que, em definitivo, a revolução estava morta e o novo mundo não viria. Como palavra de ordem, passava-se a afirmar: “Todos os bichos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”.(ORWELL, George. A revolução dos bichos: um conto de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 106.) Então se faz a descrição daquele novo regime, em referência à realidade do que foi o stalinismo: “Depois disso, não foi de estranhar que, no dia seguinte, os porcos que supervisionavam o trabalho da granja andassem com chicotes nas patas”.(ORWELL, George. A revolução dos bichos: um conto de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 107.)</p>
<p style="text-align: justify;">Não se estranha também que os granjeiros se tornem aliados e os porcos se consolidem como os novos senhores. Orwell assim termina sua fábula política. “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”.(ORWELL, George. A revolução dos bichos: um conto de fadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 112.) Os bolcheviques, como em muitas interpretações, se tornavam, portanto, os novos burgueses.</p>
<p style="text-align: justify;">Se alguém tivesse tomado contato com a compreensão do stalinismo apenas lendo <em>A revolução dos bichos</em>, teria que assumir que a única razão para a degeneração da União Soviética seria a vontade de personagens isolados. Contudo, essa explicação está errada, afinal o stalinismo surgiu das circunstâncias materiais em que a União Soviética teve que se desenvolver. Os fatores subjetivos são consequência das condições materiais. Na narrativa de Orwell, não foram as dificuldades materiais ou mesmo as batalhas para manter a granja sob o controle dos animais o que deu a base para a degeneração daquele sistema, mas a natureza autoritária de seus líderes e sua personalidade traiçoeira — que não deixam de ser verdade, mas que não explicam o conjunto do processo.</p>
<p style="text-align: justify;">Orwell descreveu sua visão pessoal e extremamente rancorosa sobre o stalinismo, facilitando a vida da burguesia quando buscar sustentar essa obra como um livro sagrado do anticomunismo. Embora possa ser uma leitura agradável e mesmo divertida, por sem bem escrita e mesmo criativa, o livro, ao ser vago em suas ideias, termina por se prestar a ao desserviço de ganhar simpatia da burguesia, não esclarecendo os acontecimentos, mas apenas criando mais confusão não apenas sobre a Revolução Russa como sobre a própria revolução.</p>
<blockquote><p>As obras que ilustram o artigo são da autoria de Ralph Steadman (1936-).</p></blockquote>
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		<title>Revolta. Greve. Revolta: A nova era de levantes (2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jun 2026 16:51:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Greves]]></category>
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					<description><![CDATA[O que, dentro do movimento objetivo do capital, une a revolta à circulação, a greve à produção, e nos leva de um para o outro? Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>INTRODUÇÃO (continuação)</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>O Mercado e o Chão da Fábrica</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">A principal dificuldade em definir a revolta advém de sua profunda associação com a violência; para muitos, esta associação é tão carregada afetivamente para um lado ou para outro que é difícil de dissipar e, por sua vez, dificulta perceber outras coisas. Sem dúvida, muitas revoltas envolvem violência — talvez a grande maioria, se incluirmos danos materiais à propriedade, bem como ameaças explícitas ou <em>sub voce</em> [indiretas]. Não está totalmente claro se tal inclusão é natural ou razoável. Que dano material seja igual a violência não é uma verdade, mas a adesão a um conjunto particular de ideias sobre propriedade, relativamente recente, que envolve identificações específicas entre humanos e riqueza abstrata do tipo que culmina, por exemplo, no entendimento jurídico de que corporações são pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, essa insistência na violência da revolta obscurece a violência cotidiana, sistemática e onipresente que persegue a vida cotidiana na maior parte do mundo. A visão de uma sociabilidade geralmente pacífica que só excepcionalmente irrompe em violência é um imaginário acessível apenas a alguns. Para os demais — a maioria — a violência social é a norma. A retórica contra a revolta violenta torna-se um dispositivo de exclusão, voltado não tanto contra a “violência”, mas contra grupos sociais específicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ao longo de mais de dois séculos, as greves frequentemente também envolveram violência: batalhas campais entre trabalhadores de um lado e policiais, fura-greves e mercenários do outro, que em seu auge assemelhavam-se a combates militares. Se estendermos a categoria como acima, a violência é onipresente na greve, mesmo como uma espécie de contraviolência defensiva. Reportando da França em 1968, o poeta italiano Angelo Quattrocchi observou:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores podem ameaçar destruir as máquinas, e a ameaça por si só pode impedir uma intervenção armada. Senhores da fábrica, a despossessão é sua maior força. As máquinas, o Capital, propriedade de outros e usufruído por outros, estão agora em suas mãos <strong>[6]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta passagem pretende distinguir a greve limitada, para Quattrochi um evento covarde e coreografado, da ocupação de fábrica. É sugestivo que ele tenha escolhido fazer a distinção naquele momento, observando uma Paris onde revolta e greve entraram em intensa colaboração e competição, cada uma tentando transcender não apenas os seus próprios limites, mas também os da outra. Dito isso, o servilismo cinzento da greve limitada é, em si, um desenvolvimento histórico particular. A situação real que ele descreve, o potencial dos trabalhadores para disporem das engrenagens da produção como bem entenderem, está no cerne da greve.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas isso pressupõe que já sabemos a diferença entre revolta e greve. Se não é a violência, o que é então? E. P. Thompson, cujo pensamento é a pedra angular deste livro, fornece a base para uma resposta em seu memorável “A Economia Moral da Multidão Inglesa no Século XVIII”. Se essa resposta foi curiosamente ignorada, é quase certamente porque o ensaio nunca formaliza completamente a lógica que apresenta. Criticando as reduções e a força despolitizadora contidas no termo “bread riot” (revolta do pão), ele produz uma visão mais sistemática da economia política da revolta:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Tem-se sugerido que o termo “revolta” é uma ferramenta de análise pouco afiada para tantas queixas e motivos particulares. É igualmente um termo impreciso para descrever a ação popular. Se procuramos a forma característica da ação popular, não devemos considerar bate-bocas junto às padarias de Londres, nem mesmo as grandes contendas provocadas pelo descontentamento com os grandes moleiros, mas as “rebeliões do povo” (especialmente em 1740, 1756, 1766, 1795 e 1800) nas quais se destacaram os mineiros de carvão, os mineiros de estanho, os tecelões e os trabalhadores das malharias. O notável sobre essas “insurreições” é, primeiro, a sua disciplina, e, segundo, o fato de mostrarem um padrão de comportamento cuja origem devemos buscar centenas de anos antes; um padrão que se torna mais, e não menos, sofisticado no século XVIII; que se repete, aparentemente de forma espontânea, em diferentes partes do país e depois da passagem de muitos anos tranquilos. A ação central nesse padrão não é o saque dos celeiros, nem o furto de grãos e farinha, mas “fixar o preço” <strong>[7]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">É precisamente esta a situação que se inverterá com a virada do século:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O conflito econômico das classes na Inglaterra do século XIX encontrou a expressão característica na questão dos salários: no século XVII os trabadores mobilizavam-se rapidamente e partiam para a ação por causa do aumento dos preços <strong>[8]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Thompson capta a textura da transformação profunda em curso, de forma tão elusiva quanto imanente:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal começou. Nesses anos, a forma alternativa de pressão econômica — a pressão sobre os salários — está se tornando mais vigorosa; existe algo mais que retórica por trás da linguagem da sedição — organização de ligas clandestinas, juramentos, o obscuro “Ingleses Unidos”. Em 1812, os tradicionais motins da fome coincidem em parte com o luddismo. Em 1816, os trabalhados de East Anglia não só determinavam os preços, mas também exigiam um salário mínimo e o fim do sistema <em>speenhamland</em> de assistência aos pobres. Eles antecediam a revolta muito diferente dos trabalhadores de 1830. A forma antiga de ação continua a existir na década de 1840 e até mais tarde: estava profundamente arraigada no Sudoeste. Mas nos novos territórios da Revolução Industrial, ela passou gradativamente a outras formas de ação <strong>[9]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Preços e salários, eis a combinação. Um é a medida do mercado, o outro do chão de fábrica e da mina, e do trabalho agrícola desde que a agricultura de subsistência e as terras que outrora eram propriedade comum ruíram em meio a sangue e fogo. R. H. Tawney aborda o mesmo ponto, em termos um tanto diferentes:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A economia do bairro medieval era aquela em que o consumo tinha, de certa forma, a mesma primazia na mente do público, como árbitro indiscutível do esforço económico, tal como o século XIX atribuía aos lucros <strong>[10]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mas os salários são, em si, um tipo especial de preço. Lembrando-nos disso, a fórmula se torna clara: em primeira instância, <em>a revolta é a fixação de preços para as mercadorias, enquanto a greve é a fixação de preços para a força de trabalho</em>. Este é o primeiro nível ou perspectiva de análise necessário para compreender a história da revolta, que poderíamos chamar de nível prático. A prática política em sua dimensão mais completa é a da reprodução — da família e do indivíduo, da comunidade local. Na virada do século XVIII para o XIX, a questão da reprodução desloca seu centro de gravidade de um lugar para o outro, de uma luta para a seguinte.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159375" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1.jpg" alt="" width="1920" height="1511" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-300x236.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-1024x806.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-768x604.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-1536x1209.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-534x420.jpg 534w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-640x504.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_1bb34211f0ff6014632bdbc35ac67ec1-681x536.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />É evidente que consumidor e trabalhador não são duas classes opostas, muito menos consecutivas. Em vez disso, são dois papéis momentâneos dentro da atividade coletiva necessária para reproduzir uma única classe: o emergente proletariado moderno, que precisam se virar dentro da relação salário-mercadoria. Se um momento prevalece sobre o outro, isso indica o grau de desenvolvimento técnico e social dentro dessa relação e a posição que o proletário ocupa nela. Na cena da revolta, aqueles que definem os preços no mercado podem ser trabalhadores (como no caso dos “mineiros de carvão, os mineiros de estanho, os tecelões e os trabalhadores das malharias” de Thompson), mas este não é o fato imediato que os levou até lá. Esse reconhecimento permite um refinamento de nossas definições.</p>
<p style="text-align: justify;">A greve é a forma de ação coletiva que:</p>
<p style="text-align: justify;">1. luta para definir o preço da força de trabalho (ou as condições de trabalho, que são praticamente a mesma coisa: a quantidade de miséria que pode ser comprada por libra);</p>
<p style="text-align: justify;">2. apresenta trabalhadores aparecendo <em>enquanto trabalhadores</em>;</p>
<p style="text-align: justify;">3. se desenrola no contexto da produção capitalista, caracterizando-se pela sua interrupção na fonte por meio da suspensão do trabalho, do bloqueio do chão de fábrica, etc.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta é a forma de ação coletiva que:</p>
<p style="text-align: justify;">1. luta para definir o preço das mercadorias (ou sua disponibilidade, o que é praticamente a mesma coisa, pois a questão é igualmente de acesso);</p>
<p style="text-align: justify;">2. apresenta participantes sem nenhum outro laço em comum além de sua despossessão;</p>
<p style="text-align: justify;">3. se desenrola no contexto do consumo, caracterizando-se pela interrupção da circulação comercial.</p>
<p style="text-align: justify;">Este aparato conceitual é simples, mas poderoso, e é suficiente para o período inicialmente analisado por nossos estudiosos, isto é, estendendo-se até o século XX. No entanto, ele apresenta problemas para o presente. As lutas características da <em>revolta-linha</em>, o período que se inicia na década de 1960, juntamente com o último florescimento da greve, e que continua até o presente, não podem ser compreendidas adequadamente dentro da estrutura da fixação de preços, mesmo no sentido ampliado de Thompson. Mas também não podem ser compreendidas sem ela. É aqui que precisaremos de um segundo nível ou hotizonte: o da periodização, preocupado precisamente com o grau de desenvolvimento técnico e social do capital acima mencionado, em todas as suas eloquentes e ambíguas flutuações.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Circulação-Produção-Circulação Linha</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Já observamos que a primeira transição, revolta-greve, corresponde histórica e logicamente à Revolução Industrial e sua extensão e intensificação da relação salarial no início do longo século XIX britânico. A segunda transição, greve-revolta linha, corresponde, por sua vez, ao período de “desintegração da hegemonia” dos Estados Unidos no final do longo século XX. Uma ascensão e uma queda. Um certo padrão em meio à confusão e ao ruído da história, levando-nos agora ao outono do império, conhecido pelos termos de capitalismo tardio, financeirização, pós-fordismo e assim por diante — aquela ladainha dilatada que corre para acompanhar o ritmo do nosso desastre proteico.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas datações são extraídas do esquema de Giovanni Arrighi, que descreve quatro “longos séculos e ciclos sistêmicos de acumulação”.</p>
<p style="text-align: justify;">“A principal característica do perfil temporal do capitalismo histórico esboçado aqui é a estrutura semelhante de todos os longos séculos”, observa Arrighi <strong>[11]</strong>. A estrutura recorrente é uma sequência tripartite que começa com uma expansão financeira originalmente liderada pelo capital mercantil; seguida de uma expansão material “de toda a economia mundial” liderada pela manufatura ou, mais amplamente, pelo capital industrial, na qual o capital se acumula sistematicamente; e quando isso atinge seus limites, uma expansão financeira final. Durante essa fase, nenhuma recuperação real da acumulação é possível, mas apenas estratégias mais ou menos desesperadas de adiamento. Historicamente, o setor financeiro da economia líder, em tal situação, encontrou uma potência industrial em ascensão para absorver seu excesso de capital, financiando assim sua própria substituição. Essa nova hegemonia se formará em bases necessariamente expandidas, capaz de restaurar a acumulação em escala global, mas, ao mesmo tempo, partindo de uma posição mais próxima de seus próprios limites de expansão — daí os ciclos sobrepostos de Arrighi, ampliando-se e acelerando-se à medida que avançam, a série de transferências antes conhecida como <em>translatio imperii</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159371" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322.png" alt="" width="809" height="533" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322.png 809w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-300x198.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-768x506.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-637x420.png 637w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-640x422.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/captura_de_tela_2026-02-03_164322-681x449.png 681w" sizes="auto, (max-width: 809px) 100vw, 809px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa esquematização tem sido motivo de várias pesquisas sobre a transição para o capitalismo, frequentemente encontradas sob o título “Comércio ou Capitalismo?”. Robert Brenner, Ellen Meiksins Woods e outros argumentaram que o desenvolvimento de extensas redes comerciais e a consequente reorganização social não deve ser confundido com o capitalismo propriamente dito, e particularmente com o “desenvolvimento implacável e sistemático das forças produtivas” do capital, que não se pode dizer que tenha começado muito antes do ciclo britânico e da decolagem industrial <strong>[12]</strong>. É precisamente essa distinção que anima o argumento aqui apresentado. Os mercados são indiscutivelmente anteriores ao capitalismo e continuam nele; tornam-se parte da constituição do capitalismo somente quando são transformados pela elaboração do nexo salário-mercadoria e submetidos às disciplinas da produção de mais-valia. Isso acompanha a primeira transição, <em>revolta-greve</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">E, no entanto, é difícil contestar a descoberta de Arrighi de que os impérios comerciais protocapitalistas seguiram praticamente a mesma parábola de desenvolvimento de suas versões mais realizadas. Os dois grandes impérios capitalistas, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, preservam e transmutam as formas de desenvolvimento, preenchendo-as com novos conteúdos. Dentro do alcance espiralado do capital, cada ciclo apresenta uma fase dominada pela lógica da produção, aqui significando a valorização das mercadorias, que Arrighi generaliza como D-M. Ao interromper estas, estão as fases dominadas pela circulação, pois tal é o caráter do capital mercantil ou financeiro, que Arrighi define como a realização de valores, ou M-D. Nunca é uma questão de ou/ou. Ambos os processos devem estar em vôo conjunto, ou o capital cessaria completamente de se mover (e capital imóvel não é capital de forma alguma). A descrição aqui diz respeito ao equilíbrio de forças dentro do circuito expandido do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos, portanto, uma periodização que corresponde às nossas práticas: <em>revolta-greve-revolta linha</em> mapeia as fases de <em>circulação-produção-circulação</em>. É verdade que o período que abrange o início do século XX foi para a Grã-Bretanha, na época ainda a principal economia capitalista, um período financeiro ou centrado na circulação. Aqui, o raciocínio do esquema de Arrighi baseado na sobreposição de ciclos fica claro. Embora os Estados Unidos tenham experimentado sua própria “Longa Depressão”, correspondente à inflexão econômica da Grã-Bretanha no final do século XIX, ainda assim eles supervisionaram, nesse período, uma notável expansão da produção, impulsionada por uma segunda Revolução Industrial capaz de contrabalançar o declínio britânico. Nossa fase atual de circulação, no entanto, carece de muitas evidências desse contrapeso sistêmico; apesar de toda a atenção dada ao papel da China como a nova oficina do mundo, por exemplo, ela já está perdendo mão de obra industrial <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">De fato, isso aponta para o que é único, pelo menos provisoriamente, sobre o nosso momento dentro de uma estrutura de sistemas mundiais. O alcance em espiral de longos séculos pode ter ficado sem espaço para se expandir; a retomada em uma escala maior não parece estar nos planos (embora não devamos descartar facilmente a capacidade do capital de se salvar de uma crise aparentemente total). O capital produtivo dominou, digamos, de 1784 a 1973. É possível que volte a dominar. No momento, isso parece incerto. Longe de sustentar uma hegemonia ascendente, os Estados Unidos, em seu declínio, estão — apesar de seu setor financeiro hipertrofiado — encerrando sua trajetória como nação devedora maciça. Agora é possível argumentar que, mesmo em nível global ou sistêmico, o capital se encontra em uma fase de circulação que não está sendo atendida pelo aumento da produção em outros lugares — uma fase distinta que inevitavelmente teremos de chamar de <em>circulação-linha</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Dessa forma, os regimes britânico e americano podem ser fundidos em um único metaciclo, que segue a sequência <em>circulação-produção-circulação linha</em>. Novamente, isso requer uma certa suavização heurística da trajetória volátil do sistema-mundo capitalista. Trata-se de um argumento, não de uma verdade absoluta. Ainda assim, achamos que é um argumento sugestivo: é possível mapear as três fases de Arrighi na periodização do capital de Brenner no que pode ser visto como um “arco de acumulação”, pelo menos no Ocidente, emergindo do comércio com a Revolução Industrial e descendo para as finanças com a desindustrialização generalizada, sem nenhuma reversão em vista. A sequência coeva de <em>revolta-greve-revolta linha</em> torna-se, portanto, uma história do capitalismo e uma exposição de sua forma atual, das contradições do presente.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Revolta e Crise</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Para que o retorno da revolta sirva de testemunho sobre o <em>status</em> do capitalismo como tal, deve haver mais do que uma coincidência entre as duas sequências. Deve haver um encadeamento teórico. Esse é o terceiro e último nível do horizonte analítico, o da própria história, pelo qual nos referimos ao entrelaçamento dialético das lutas vividas com as compulsões do movimento autônomo do capital, entendido como um movimento real da existência social. O que, dentro do movimento objetivo do capital, une a revolta à circulação, a greve à produção, e nos leva de um para o outro?</p>
<p style="text-align: justify;">Essa pergunta já recebeu uma resposta preliminar. As fases lideradas pela produção material gerarão lutas dentro da produção, sobre o preço da força de trabalho; as fases lideradas pela circulação verão lutas no mercado, sobre o preço das mercadorias. Esse é um relato sincrônico, sem uma dinâmica que nos leve de uma fase a outra; além disso, ele ainda não aborda as peculiaridades da <em>revolta linha</em> e da <em>circulação linha</em>. Isso requer uma rápida passagem pela teoria marxiana da crise <strong>[14]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159374" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8.jpg" alt="" width="1920" height="1552" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-300x243.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-1024x828.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-768x621.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-1536x1242.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-520x420.jpg 520w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-640x517.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1920px-1968_Civil_Disorder_ee1fd56d6f55c756d82981683647f7d8-681x550.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />O valor, para Marx, tem tanto uma existência qualitativa como relação social como uma existência quantitativa no valor de troca <strong>[15]</strong>. O valor de troca de uma mercadoria viabiliza a mais-valia, a “essência invisível do capital”, valorizada na produção e realizada como lucro na circulação. A circulação, Marx se esforça por decifrar, nunca pode ser, por si só, a fonte de novo valor para o capital como um todo. A ideia de que isso poderia acontecer recebe um tratamento extenso e desdenhoso n&#8217;<em>O Capital</em>, que termina:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Por mais que nos viremos, a conclusão final permanece a mesma. Se forem trocados equivalentes, não haverá mais-valia, e se forem trocados não equivalentes, ainda não teremos mais-valia. A circulação, ou a troca de mercadorias, não cria valor <strong>[16]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essas categorias são infinitamente problemáticas, principalmente pelos limites da “circulação”. O extraordinário desenvolvimento do transporte, uma das principais marcas de nosso tempo, parece, a princípio, se encaixar nessa descrição, circulando produtos para realizar como lucro a mais-valia valorizada em outro lugar. Alguns argumentam que a mudança de local, ao contrário, aumenta o valor de uma mercadoria. Em seu sentido mais restrito, os “custos puros de circulação” podem ser limitados a atividades que não fazem nada além da troca em si, a transferência abstrata de título: vendas, contabilidade e coisas do gênero. Além disso, a financeirização e a “globalização” (ou seja, a extensão em direção aos limites planetários das redes e processos logísticos, coordenados pelos avanços nas tecnologias da informação) também devem ser entendidas como estratégias temporais e espaciais, respectivamente, para internalizar novas entradas de valor de outro lugar e de outro momento. Mas isso só pode afirmar a proposição de que a fase atual de nosso ciclo de acumulação é definida pelo colapso da produção de valor no centro do sistema-mundo; é por essa razão que o centro de gravidade do capital se desloca para a circulação, carregado pelo tripé da toyotização, da tecnologia da informação e das finanças.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, os fatos práticos são esclarecedores. Como Brenner observa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Entre 1973 e o presente, o desempenho econômico nos EUA, na Europa Ocidental e no Japão, segundo todos os indicadores macroeconômicos padrão, deteriorou-se, ciclo econômico após ciclo econômico, década após década (com exceção da segunda metade da década de 1990) <strong>[17]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O crescimento do PIB global dos anos 50 até os anos 70 permaneceu acima de 4%; desde então, tem se mantido em 3% ou menos, às vezes muito menos <strong>[18]</strong>. Mesmo os melhores momentos durante a Longa Crise foram, em geral, piores do que os piores momentos do longo <em>boom</em> anterior. Se estipulássemos que o transporte pode fazer parte da valorização tanto como da realização, ainda assim nos confrontaríamos com o fato de que as grandes expansões do transporte global e a aceleração do tempo de rotatividade desde os anos 70 são concomitantes ao recuo da produção industrial nas principais nações capitalistas. Essa marcha a passos largos, por sua vez, é concomitante exatamente com o que a teoria do valor projeta de uma mudança em direção à circulação: menos produção de valor, menos lucros sistêmicos. De qualquer forma, a navegação e as finanças não parecem ter detido a estagnação e o declínio da lucratividade global. Tomando emprestado um termo de Gilles Chatelet, poderíamos chamar sua colaboração de “cibermercantilismo”, análogo ao modo pré-industrial no qual nenhuma quantidade de compras baratas e vendas caras ou vendas cada vez maiores pode levar à expansão.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, isso não quer dizer que não tenham aumentado os lucros de empresas individuais, que podem obter vantagem competitiva diminuindo seus próprios custos de circulação em um jogo de “empobreça-seu-vizinho” para a era da tecnologia da informação. Da mesma forma, as empresas podem participar de esquemas que recirculam e redistribuem o valor já existente, retirando uma parte à medida que ele passa. Sem ir muito longe no labirinto marxológico, podemos afirmar de forma bastante incontroversa sobre o período em questão que o capital, diante de retornos muito reduzidos nos setores tradicionalmente produtivos, vai em busca de lucro além dos limites da fábrica — no setor FIRE (<em>Finance, Insurance, and Real Estate</em>: isto é, Finanças, Seguros e Imóveis), ao longo das rotas traçadas pelas redes logísticas globais —, mas não encontra nenhuma solução contínua para a crise que o afastou da produção em primeiro lugar. Em vez disso, há uma agitação cada vez mais frenética, esquemas mais elaborados, bolhas e colapsos cada vez maiores. Em um movimento de desespero dialético, aquilo que levou o capital à esfera fratricida da circulação de soma zero faz praticamente o mesmo com uma parcela crescente da humanidade. Crise e desemprego, os dois grandes temas d&#8217;<em>O Capital</em>, são expressões da falha trágica do capital: ao buscar o lucro, ele precisa destruir a fonte do lucro, esbarrando em limites objetivos em seu impulso incessante de acumulação e produtividade. Os <em>Grundrisse</em> oferecem a formulação mais concisa:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O próprio capital é a contradição em processo, [pelo fato] de que procura reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, ao mesmo tempo que, por outro lado, põe o tempo de trabalho como única medida e fonte da riqueza. Portanto, ele diminui o tempo de trabalho na forma necessária para aumentá-lo na forma supérflua; portanto, coloca o supérfluo em medida crescente como uma condição — questão de vida ou morte — para o necessário <strong>[19]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">A “contradição em processo” nada mais é do que a própria lei do valor em movimento, apresentando-se de várias formas. Podemos vê-la como a contradição entre o valor e o preço, as medidas de produção e circulação, respectivamente — o que se revelará também como a contradição entre o capital como um todo e os capitais individuais. Esses últimos não se preocupam com a saúde geral do sistema capitalista, nem são obrigados a fazê-lo. Ao contrário, são obrigados a competir com outros capitais em seu setor. Portanto, embora a necessidade de expansão, de gerar novo valor que leve à acumulação sistêmica, seja um absoluto existencial do ponto de vista de todo o capital, os capitalistas individuais não pensam em termos de valor e acumulação. Eles medem sua existência em preço e riqueza e são compelidos a buscar lucro onde quer que ele seja encontrado, independentemente das consequências para o todo.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse fenômeno unitário também é uma contradição entre a mais-valia absoluta e a relativa. As lutas intercapitalistas para economizar todos os processos substituem reiteradamente a força de trabalho por máquinas e formas organizacionais mais eficientes e, assim, com o tempo, aumentam a proporção entre capital constante e variável, entre trabalho morto e trabalho vivo, expulsando a fonte de mais-valia absoluta na luta por sua forma relativa.</p>
<p style="text-align: justify;">A crise é o desenvolvimento dessas contradições até o ponto de ruptura. Isso caracteriza não uma escassez de dinheiro, mas seu excesso. Os lucros acumulados ficam ociosos, incapazes de se converter em capital, pois não há mais nenhuma razão sedutora para investir em mais produção. As fábricas ficam em silêncio. Buscando salários em outros lugares, os trabalhadores deslocados descobrem que a automação que economiza mão de obra se generalizou em vários setores. Agora, a mão de obra não utilizada se acumula lado a lado com a capacidade não utilizada. Essa é a produção da não-produção.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, voltamos, sob um disfarce um pouco diferente, à questão de classe, na forma do que Marx chama de “população excedente, cuja miséria está na razão inversa da quantidade de tortura que ela tem à disposição na forma de trabalho. Por fim, quanto mais extensas forem as seções pauperizadas da classe trabalhadora e o exército industrial de reserva, maior será o pauperismo oficial. <em>Essa é a lei geral absoluta da acumulação capitalista</em>” <strong>[20]</strong>. Como aponta o <em>Endnotes</em> no tratamento mais incisivo dessa questão: “Essa população excedente não precisa se encontrar completamente &#8216;fora&#8217; das relações sociais capitalistas. O capital pode não precisar desses trabalhadores, mas eles ainda precisam trabalhar. Assim, eles são forçados a se oferecer para as formas mais abjetas de escravidão assalariada na forma de produção e serviços insignificantes — identificados com mercados informais e, muitas vezes, ilegais de troca direta que surgem junto com as falhas da produção capitalista” <strong>[21]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é de surpreender que essa população excedente seja racializada em todo o Ocidente. A capacidade de lucro do capital sempre exigiu a produção e a reprodução da diferença social; em mercados de trabalho com excesso de oferta, o mecanismo das diferenças salariais dá um salto do quantitativo para o qualitativo. Junto com as “recuperações sem emprego” desde 1980, que dão suporte às teorias subjacentes de aumento do excedente, a taxa de desemprego, por exemplo, entre os negros estadunideneses tem se aproximado consistentemente do dobro da média atual, se não for mais alta, o que tem provocado, entre outras coisas, uma vasta expansão do complexo industrial-prisional para gerenciar esse excedente humano. O próprio processo de racialização está intimamente ligado à produção de populações excedentes, cada uma funcionando para constituir a outra de acordo com lógicas variadas de profunda exclusão. Como argumenta Chris Chen:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O surgimento do estado carcerário anti-negros nos EUA a partir da década de 1970 exemplifica os rituais de violência estatal e civil que reforçam a racialização da vida sem salário e a marcação racial da vagabundagem. Do ponto de vista do capital, a “raça” é renovada não apenas por meio de diferenças salariais racializadas persistentes ou do tipo de segregação ocupacional postulada pelas teorias raciais anteriores de “mercado de trabalho dividido”, mas também por meio da racialização de populações excedentes ou supérfluas não assalariadas, de Cartum às favelas do Cairo <strong>[22]</strong>.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Isso opera, por sua vez, no nível da revolta contemporânea, uma rebelião excedente que é marcada pela raça e, por sua vez, a marca. Daí uma distinção final em relação à greve, que, na forma moderna, existe dentro de uma estrutura legal (mesmo que isso seja frequentemente ultrapassado). Aqui, começamos a entender o tipo de trabalho ideológico que está sendo feito pela insistência na ilegitimidade peculiar da revolta. A ilegalidade da revolta é, entre outras coisas, a ilegalidade do corpo racializado.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Lutas na Circulação</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;">Uma população, portanto, cuja própria existência — sua possibilidade de reprodução — é redirecionada pela reorganização econômica da esfera da produção para a da circulação. Essa não é a “sociedade de consumo” no sentido popular, “a vitória definitiva do materialismo em uma adoração universal do fetiche da mercadoria” <strong>[23]</strong>. Mas é uma sociedade de consumo mesmo assim: população excedente confrontada com o velho problema do consumo sem acesso direto ao salário. Não de forma absoluta, não de forma homogênea em todo o mundo, mas suficientemente. Falamos de mudanças de tendência. Quando a base para a sobrevivência do capital muda substancialmente para a circulação, e a base para a sobrevivência dos empobrecidos muda da mesma forma, aí encontraremos a <em>revolta linha</em>. Assim, ela nomeia a reorganização social, o período em que ela domina e a principal forma de ação coletiva que corresponde a essa situação.</p>
<p style="text-align: justify;">É uma maneira um tanto técnica de falar sobre exclusão e empobrecimento, sem dúvida, esse uso de categorias da economia política clássica e sua crítica. A virtude dessa linguagem está em seu poder de explicar a ligação entre <em>revolta</em> e <em>revolta linha</em> para revelar que a revolta do pão e a revolta racial, esses nomes imprecisos emparelhados, mantêm uma unidade profunda. Em uma formulação resumida, a crise sinaliza um deslocamento do centro de gravidade do capital para a circulação, tanto teórica quanto praticamente, e a revolta deve ser entendida, em última instância, como uma luta pela circulação, da qual a fixação de preços e a rebelião dos excedentes são formas distintas, embora relacionadas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159377" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original.jpg" alt="" width="1500" height="991" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original.jpg 1500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-300x198.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-1024x677.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-768x507.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-636x420.jpg 636w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-640x423.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/original-681x450.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px" />O novo proletariado, que deve agora (de acordo com o sentido original da palavra) expandir-se para incluir as populações excedentes entre os “sem reservas”, encontra-se em um mundo transformado. Já detalhamos algumas dessas transformações. A situação pode ser definida como um quiasmo de épocas. Em 1700, a polícia, tal como a reconhecemos, não existia; o mercado era vigiado ocasionalmente pelo oficial de justiça ou o funcionário parroquial. Ao mesmo tempo, a maioria das necessidades diárias da vida era produzida localmente. Em suma, o Estado estava longe e a economia, perto. Em 2015, o Estado está próximo e a economia, distante. A produção é aerossolizada; as mercadorias são montadas e entregues por meio de cadeias logísticas globais. Muitas vezes até mesmo os gêneros alimentícios básicos têm origem em um continente distante. Enquanto isso, o exército interno permanente do Estado está sempre à mão — progressivamente militarizado, sob o pretexto de fazer guerra às drogas e ao terror. A <em>revolta linha</em> não pode deixar de se voltar contra o Estado; não há como não fazê-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">O encontro espetacular com o Estado não deve, no entanto, sugerir que não exista uma forma diretamente econômica na revolta contemporânea, além de seu conteúdo político-econômico subjacente. As duas formas mais visíveis são a destruição econômica e o saque, uma frequentemente seguindo a outra em uma negação conjunta da troca e da lógica do mercado. Apesar da aparência universal desse aspecto da revolta, ela é sempre tratada como um desvio da e um comprometimento com a queixa inicial que poderia ter dado legitimidade a revolta. Que reivindicação ética poderia ser feita em relação ao roubo total? O fato de isso parecer misterioso aponta para um momento de fechamento ideológico e suprema ignorância histórica. O saque não é o momento da falsidade, mas da verdade que ecoa por séculos de revolta: uma versão da fixação de preços no mercado, embora a preço zero. É uma volta desesperada à questão da reprodução, embora dramaticamente limitada pela estrutura do capital em que inicialmente opera.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a revolta levanta a questão da reprodução, ela o faz como negação. Ele representa a reversão do destino dos trabalhadores na modernidade tardia. O poder histórico dos trabalhadores tem se apoiado em um setor produtivo em crescimento e em sua capacidade de se apoderar de uma parte do excedente em expansão. Desde a virada dos anos 70, o trabalho foi reduzido a negociações defensivas, compelido a preservar as empresas capazes de fornecer salários, afirmando o domínio do capital em troca de sua própria preservação. O trabalhador que aparece <em>como trabalhador</em> no período de crise enfrenta uma situação em que “o próprio fato de agir como classe aparece como uma restrição externa” <strong>[24]</strong>. Essa dinâmica, que poderíamos chamar de armadilha da afirmação, tornou-se uma forma social generalizada e uma estrutura conceitual, a irracionalidade racional do nosso tempo. A própria desordem da revolta pode ser entendida como a negação imediata disso.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas lutas, por sua vez, não podem deixar de confrontar o capital onde ele é mais vulnerável. Não há necessidade de imputar um tipo de consciência a essa forma latente de conflito com o capital. Compelido ao espaço de circulação, a revolta se encontra onde o capital tem deslocado cada vez mais seus recursos. A mais ou menos simultânea explosão de revoltas em Louis, Los Angeles, Nashville e mais de uma dúzia de outras cidades é um veredicto tão decisivo quanto se poderia imaginar sobre a tese da circulação. É fácil dizer que essa interrupção é amplamente simbólica: quanto do capital está em outro lugar, globalmente distribuído, resiliente, desmaterializado? As tomadas de rodovias no final de novembro de 2014 são, no entanto, um índice da situação real em que a luta ocorrerá. Além disso, elas demonstram os limites das várias categorias de revoltas. Elas são, evidentemente, descendentes das revoltas pré-modernas de exportação. Não são menos irmãos do que a paralisação do porto de Oakland em 2011 e o longo bloqueio do túnel planejado para o Vale de Susa pelo movimento No-TAV. Reconhecer isso é reconhecer que a revolta é uma tática privilegiada na medida em que é um exemplo da categoria mais ampla que designamos como “lutas na circulação”: a revolta, o bloqueio, a ocupação e, no horizonte mais distante, a comuna.</p>
<p style="text-align: justify;">“Estamos chegando ao fim de uma tradição, e a nova tradição mal surgiu”, escreveu Thompson sobre a transição de dois séculos atrás <strong>[25]</strong>. Até mesmo a imprensa burguesa tem um vislumbre disso: Em 2011, a <em>Newsweek</em> exibiu um revoltoso de Tottenham em sua capa, com roupa de treino e máscara, e as chamas no fundo, com a manchete “O DECLÍNIO E A QUEDA DA EUROPA (E TALVEZ DO OCIDENTE)” <strong>[26]</strong>. Algo acabou, ou deveria ter acabado; todos podem sentir isso. É uma espécie de interregno. Uma calmaria miserável, iluminada em todos os lugares pela sensação de declínio e incêndios acesos ao longo do terreno planetário da luta. As músicas no rádio são as mesmas — horríveis, surpreendentes. Elas prometem que nada mudou, mas nunca cumprem suas promessas, não é mesmo? As fissuras na organização da sociedade aumentam a cada semana. E, no entanto, essa persistência ansiosa, essa suspensão incômoda. Haverá uma recuperação? Uma catástrofe maior? O que devemos preferir? Essa é a tônica da época das revoltas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>NOTAS</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Angelo Quattrochi, “What Happened,” em The Beginning of the End: France, May 1968, eds. Angelo Quattrochi e Tom Nairn, Nova York: Verso, 1998, 49.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> E. P. Thompson, “The Moral Economy of the English Crowd in the Eighteenth Century,” <em>Past and Present</em>, n.º 50, fevereiro de 1971, 107-8. (<em>Edição brasileira In: Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo. Companhia das Letras, 1998</em>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Ibid., 79.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> Ibid., 128-9.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> R. H. Tawney, <em>Religion and the Rise of Capitalism</em>, Londres: Harcourt Brace, 1926, 33.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Giovanni Arrighi, <em>The Long Twentieth Century: Money, Power, and the Origins of Our Times</em>, Londres: Verso, 1996, 219-20.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Robert Brenner, <em>The Economics of Global Turbulence</em>, Londres: Verso, 2009, 13.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[13]</strong> Alan Freeman, “Investing in Civilisation: What the State Can Do in a Crisis” em <em>Bailouts and Bankruptcies</em>, eds., Julie Guardand Wayne Antony, eds., Winnipeg: Fernwood, 2009.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[14]</strong> É frequentemente observado que Marx não deixou uma teoria completa sobre a crise. Sua teoria do valor em geral, no entanto, fornece a base lógica para uma teoria elaborada. Para o melhor resumo disso, ver Anwar Shaikh, “Introduction to the History of Crisis Theories” [Introdução à história das teorias da crise], <em>US Capitalism in Crisis</em> [O capitalismo americano em crise], Nova York: URPE, 1978.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[15]</strong> Para a explicação mais eloquente desta parte da teoria de Marx, ver I. I. Rubin, <em>Essays on Marx&#8217;s Theory of Value</em>, trad. Fredy Perlman e Milos Samardzija, Nova Iorque: Black Rose, 1990, 120-21.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[16]</strong> Karl Marx, Capital: <em>A Critique of Political Economy</em>, vol. 1, Londres: Penguin, 1992, 226.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[17]</strong> Robert Brenner, “What&#8217;s Good for Goldman Sachs”, prólogo da edição espanhola de <em>The Economics of Global Turbulence</em>, Madri: Akal, 2009. Disponibilizado ao autor em manuscrito, 6.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[18]</strong> Ibid., 8.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[19]</strong> Karl Marx, <em>Grundrisse</em>, Londres: Penguin Books, 1993, 706.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[20]</strong> Karl Marx, <em>Capital</em>, vol. 1, 798 (ênfase no original).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[21]</strong> “Misery and Debt” [Miséria e dívida], <em>Endnotes</em> 2, 2010, 30, nota de rodapé 15.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[22]</strong> Chris Chen, “The Limit Point of Capitalist Equality” [O ponto limite da igualdade capitalista], <em>Endnotes</em> 3, 2013, 217.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[23]</strong> Tom Nairn, “Why It Happened” [Por que aconteceu], em <em>The Beginning of the End: France, May 1968</em> [O começo do fim: França, maio de 1968], eds. Angelo Quattrochi e Tom Nairn, Nova York: Verso, 1998, 136.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[24]</strong> Théorie Communiste, “Communization in the Present Tense” [Comunização no tempo presente], em Communization and its Discontents: Contestation, Critique, and Contemporary Struggles [Comunização e seus descontentamentos: contestação, crítica e lutas contemporâneas], ed. Benjamin Noys, Nova York: Minor Compositions, 2011, 41.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[25]</strong> Thompson, “Moral Economy” [Economia moral], 128.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[26]</strong> <em>Newsweek</em>, 22 de agosto de 2011.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As fotografias que ilustram este artigo são da revolta de que se seguiu ao assassinato de Martin Luther King Jr. em 1968.</em></p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><em>Este livro será publicado em 11 partes, um capítulo por semana:</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/158115/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução: Uma Teoria da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/06/159370/" target="_blank" rel="noopener"><em>Introdução (continuação)</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159417/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 1: O Que é Uma Revolta?</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159433/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 2: A Era de Ouro da Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159475/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 3: A Mudança, Ou, Revolta à Greve</em></a></p>
<p style="text-align: justify;">GREVE</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159497/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 4: Greve Contra a Revolta</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://passapalavra.info/2026/07/159527/" target="_blank" rel="noopener"><em>Capítulo 5: A Greve Geral</em></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 6: Fios Cruzados, Ou, Greve para a Revolta</em></p>
<p style="text-align: justify;">REVOLTA LINHA</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 7: A Longa Crise</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 8: Rebeliões Excedentes</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Capítulo 9: Revolta Agora: Praça, Rua, Comuna</em></p>
<p style="text-align: center;">First published by Verso 2016 © Joshua Clover 2016</p>
<p style="text-align: center;">The partial or total reproduction of this publication, in electronic form or otherwise, is consented to for noncommercial purposes, provided that the original copyright notice and this notice are included and the publisher and the source are clearly acknowledged. Any reproduction or use of all or a portion of this publication in exchange for financial consideration of any kind is prohibited without permission in writing from the publisher.</p>
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		<title>Thiagson e UOL: quais os limites?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Jun 2026 21:32:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Contribuindo para a valorização do funk, Thiagson deixa de fazer uma crítica à contradição em que ele próprio está envolto: um intelectual orgânico do funk, numa tentativa de conquistar mercado e surfar na onda de empresas cool, “SPLASH” e “conscientes”. Por Luís]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Luís</h3>
<p style="text-align: justify;">No início de junho de 2026, a página do Toca UOL publicou um vídeo em sua página do Instagram onde Thiagson entrevista MC Hariel, divulgando o novo trabalho do funkeiro no Red Bull Symphonic — uma mistura inédita ou no mínimo rara entre o funk e a música clássica em um evento de grandes proporções. A ocasião abre espaço para que Thiagson, que é consagrado como um intelectual no meio do funk e da música periférica, principalmente através da sua crítica ao etnocentrismo, o desvelamento da arbitrariedade e do racismo no estigma colocado na música periférica por parte da mídia e outras instâncias; o que, de fato, é uma contribuição importantíssima. O problema não é a reflexão proposta a partir da situação: é a função de legitimador irrefletido do funk; Thiagson é, na sua atuação, a anti-autocrítica.</p>
<p style="text-align: justify;">A tônica do vídeo se dá com a reflexão sobre o julgamento social do valor das expressões artísticas e como Hariel, sendo oriundo de um meio estigmatizado no campo cultural, “bagunça” a ordem e consegue atrair a admiração e julgamentos positivos de setores socialmente distanciados do seu. Explicita, também, a teoria de Pierre Bourdieu sobre como as correlações de força e lutas na sociedade influenciam o julgamento e o universo simbólico a partir do exemplo que dá sobre a recepção e abordagem que recebe dos mesmos setores, no seu elogio que, enquanto exalta o MC, “desmerece” e rebaixa o campo no qual ele está inserido.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ah, mano… Tipo, esses Cavalo de Tróia, eu lido com isso diariamente. Quando as pessoas às vezes tentam me elogiar, aí […] desmerecem todo mundo. Tipo: “ah, eu curto seu som… mas o resto eu não gosto, não!”. É uma parada que a gente vê a ignorância da pessoa no elogio. A pessoa é tão ignorante que ela não consegue elogiar uma pessoa ou olhar pra uma parada assim sem querer legitimar outra. Sei que vai vim vários assim com esse ponto de vista, mas eu tô mais preocupado com o rapaziada do funk mesmo que pode olhar pro lado da orquestra e conhecer alguns números, conhecer mais sobre esse universo, tá ligado?… Não tô preocupado com esses que vão vim nesse embalo assim. Pode chegar com pensamentos diferentes, mas se for ficar pra acompanhar mesmo, vai ter que pegar a visão, vai ter que ter o respeito.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Tal atitude ajuda a desvelar os <em>princípios de percepção e apreciação</em> dos agentes: quando se está inserido num campo periférico, refletindo valores periféricos, uma estética periférica, enfim, um <em>ethos</em> típico da periferia, o valor é negativo; a partir do momento em que começa a haver uma aproximação com os valores “bons”, no sentido de mais valorizados socialmente, na hierarquia social — o que até mesmo a cor de pele mais clara pode significar para alguns —, começa-se a valorar positivamente. No caso, Hariel sendo um dos poucos que fazem esse último movimento, é enxergado por muitos como “o único bom”, um funkeiro de valor entre outros rebaixados.</p>
<p style="text-align: justify;">No movimento (novamente, acertado) de fazer (novamente) a crítica ao etnocentrismo, entra a contradição central: o problema não é o que Thiagson diz, <em>é o que ele deixa de dizer. </em>Enquanto usa Bourdieu para dar legitimidade — e, no fim das contas, jogar com esse mesmo movimento que Hariel fez, talvez de forma menos pensada, de brincar com a economia simbólica — ao seu ponto e atrair esse novo mercado (pode-se falar de mercado?) de pessoas das frações mais cultas da classe-média que tentam se aproximar dos guetos através de objetos culturais advindos deles, contribuindo para a valorização do funk, deixa de fazer uma crítica à contradição que, nesse caso, se torna até mesmo inconveniente, já que o próprio está envolto nela: um intelectual orgânico do funk, dentro dos maiores portais online do país, anunciando o contrato de um funcionário da Warner e CEO da Xaolin Records com uma gigante capitalista como a Red Bull numa tentativa de conquistar mercado e surfar na onda de empresas <em>cool, “SPLASH” </em>e “conscientes”.</p>
<p style="text-align: justify;">Longe de ser um caso isolado, é uma constante em sua atuação pública: caso notório é sua entrevista — também mediada pelo Toca UOL — com Criolo. Ao ser perguntado sobre a ascensão do chamado “rap de direita”, o artista responde conciliando: diz que isso sempre existiu, fala da pluralidade de visões na periferia, no movimento hip-hop etc. Diante disso, não há contraponto ou ao menos instigação por parte de Thiagson, o que revela seu limite: por mais que, de fato, seja impossível dizer que, hoje, a cultura hip-hop ou o rap é “de esquerda” ou “de direita”, o que vai definir a quem a cultura serve, nas suas tendências dominantes — pois sempre podem existir “guetos” dentro de um campo com visões diferentes das dominantes, mas com atuação quase sempre limitada — são justamente as lutas, as disputas, os debates. Quando deixa a afirmação de Criolo passar sem sequer uma constatação (o que, vale lembrar, muitos outros não deixaram de fazer, questionando a fala do rapper), Thiagson deixa de ter compromisso com a própria posição de esquerda que assume, abre alas às tendências direitistas dentro da cultura e ainda por cima as legitima para um público potencialmente crítico, emprestando sua legitimidade acadêmica, cultural e própria do universo da música periférica para uma posição conciliadora, que esvazia o potencial crítico e emancipatório do rap e do funk.</p>
<p style="text-align: justify;">Com isso, é importante salientar algumas coisas: primeiramente, quando falamos nos “limites” da atuação de Thiagson, não queremos dizer que o sujeito em questão é alguém preso eternamente a esses limites, desonesto ou mesmo que o indivíduo tenha planejado cinicamente os efeitos das suas ações. Não é um ataque, como existem aos montes pela internet, que questiona o próprio valor do funk, das expressões periféricas, seja como “não-música” ou cultura inferior — argumento que o próprio ajuda a desmontar, por exemplo, na sua tese de doutoramento e por diversas outras vezes. É uma crítica que quer disputar os rumos da cultura e abrir espaço à discussão justamente porque acredita no potencial emancipatório da mesma e porque tem apreço por ela.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159361 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1.webp" alt="" width="883" height="1170" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1.webp 883w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-226x300.webp 226w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-773x1024.webp 773w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-768x1018.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-317x420.webp 317w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-640x848.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/download-1-681x902.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 883px) 100vw, 883px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Falando em limites, é fundamental perguntar: o que pode ser dito dentro da UOL? Thiagson, enquanto funcionário (e não enquanto indivíduo, ressaltamos novamente) da UOL se encaixa muito bem na categoria de <em>fast thinker</em> descrita pelo próprio Bourdieu em <em>Sobre a Televisão:</em></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Sobre a televisão, o índice de audiência exerce um efeito inteiramente particular: ele se retraduz na pressão da urgência. A concorrência entre os jornais, a concorrência entre os jornais e a televisão, a concorrência entre as televisões toma a forma de uma concorrência pelo furo, para ser o primeiro. Por exemplo, em um livro em que apresenta certo número de entrevistas com jornalistas, Alain Accardo mostra como os jornalistas de televisão são levados, porque tal televisão concorrente “cobriu” uma inundação, a ir “cobrir” essa inundação tentando obter algo que o outro não obteve. Em suma, há objetos que são impostos aos telespectadores porque se impõem aos produtores; e se impõem aos produtores porque são impostos pela concorrência com outros produtores. Essa espécie de pressão cruzada que os jornalistas exercem uns sobre os outros é geradora de toda uma série de conseqüências que se retraduzem por escolhas, por ausências e presenças. Eu dizia ao começar que a televisão não é muito propícia à expressão do pensamento. […] E um dos problemas maiores levantados pela televisão é a questão das relações entre o pensamento e a velocidade. Pode-se pensar com velocidade? Será que a televisão, ao dar a palavra a pensadores que supostamente pensam em velocidade acelerada, não está condenada a ter apenas <em>fast-thinkers</em>, pensadores que pensam mais rápido que sua sombra…? Com efeito, é preciso perguntar por que eles são capazes de responder a essas condições inteiramente particulares, por que conseguem pensar em condições nas quais ninguém mais pensa. A resposta é, ao que me parece, que eles pensam por “idéias feitas”. As “idéias feitas” de que fala Flaubert são idéias aceitas por todo mundo, banais, convencionais, comuns; mas são também idéias que, quando as aceitamos, já estão aceitas, de sorte que o problema da recepção não se coloca. Ora, trate-se de um discurso, de um livro ou de uma mensagem televisual, o problema maior da comunicação é de saber se as condições de recepção são preenchidas; aquele que escuta tem o código para decodificar o que estou dizendo? Quando emitimos uma “idéia feita” é como se isso estivesse dado; o problema está resolvido. A comunicação é instantânea porque, em certo sentido, ela não existe. Ou é apenas aparente. A troca de lugares-comuns é uma comunicação sem outro conteúdo que não o fato mesmo da comunicação. Os “lugares-comuns” que desempenham um papel enorme na conversação cotidiana têm a virtude de que todo mundo pode admiti-los e admiti-los instantaneamente: por sua banalidade, são comuns ao emissor e ao receptor. Ao contrário, o pensamento é, por definição, subversivo: deve começar por desmontar as “idéias feitas” e deve em seguida demonstrar. […] Se a televisão privilegia certo número de fast-thinkers que propõem fast-food cultural, alimento cultural pré-digerido, pré-pensado, não é apenas porque (e isso faz parte também da submissão à urgência) eles têm uma caderneta de endereços, aliás sempre a mesma (sobre a Rússia, são o sr. ou a sra. X, sobre a Alemanha, é o sr. Y)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Cumpre a mesma função descrita, estando sempre pronto a intervir nas oportunidades que aparecem, nas polêmicas e no que viraliza, no que o canal de mídia precisa <em>cobrir</em> com as chamadas “ideias feitas”: argumentos rápidos, reciclagem de parte de suas teses sem um aprofundamento na questão em si e nem desdobramentos que se coloquem além da crítica ao etnocentrismo que já é esperada da sua parte. Além de, por parte desse novo público, citado anteriormente, com capital cultural relativamente alto e potencial consumidor de obras com “caráter popular”, serem ideias, geralmente, já superficialmente pré-aceitas, ainda que com ressalvas ou a um certo contragosto, como a fala de MC Hariel explicita. Além do que se encaixa com mais precisão ao que foi descrito por Bourdieu há algumas décadas, observamos as práticas e roteiros que expressam adaptação à dinâmica atual da internet e às estratégias impostas para o sucesso — já que, pelo menos pelo que nós deduzimos, o Toca UOL tem como orientação a rentabilidade, o lucro — dentro deste contexto: vídeos relativamente curtos, facilmente polemizáveis e que servem de propaganda e ao mesmo tempo exploram a imagem tanto de um artista consagrado quanto a de um influencer.</p>
<p style="text-align: justify;">Encerrando, gostaria de perguntar a quem por acaso tenha concordado com o que foi colocado aqui: o seu acordo se dá pelo compromisso ou pelo ressentimento?</p>
<blockquote><p>As imagens que ilustram o artigo são da autoria de Ron English (1959-).</p></blockquote>
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