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	<title>Resultados da pesquisa por &#8220;&quot;paulo schwartzman&quot;&#8221; &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>A alfafa e o jumento</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Feb 2021 04:39:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Sem cair no argumento neoliberal de que todo gasto é torra de dinheiro do povo com inutilidades, façamos uma análise simbólica arquetípica dos gastos do governo. Por Paulo Schwartzman]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Paulo Schwartzman</h3>
<p style="text-align: justify;">No domingo, dia 24/01/2021, o jornal <em>Metrópoles</em> publicou uma matéria que vem sendo muito comentada. A referida notícia (que pode ser lida <a class="urlextern" title="https://www.metropoles.com/brasil/mais-de-r-18-bilhao-em-compras-carrinho-do-governo-federal-tem-de-sagu-a-chicletes" href="https://www.metropoles.com/brasil/mais-de-r-18-bilhao-em-compras-carrinho-do-governo-federal-tem-de-sagu-a-chicletes" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc noreferrer">aqui</a>) refere-se a um levantamento dos gastos feitos pelo governo federal no ano de 2020 no que tange à alimentação.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos gastos que chamou muito a atenção daqueles que leram a notícia, sem dúvida, foi aquele relacionado ao leite condensado, que, segundo a matéria supra, chegou à incrível quantia de R$ 15.641.777,49. Sem cair na tentação de retornar ao argumento caro dos economistas neoliberais de que todo gasto público é torra de dinheiro do povo com inutilidades, como bem alertado por Franck Tavares (<a class="urlextern" title="https://twitter.com/FranckTavares1/status/1354090514560249858" href="https://twitter.com/FranckTavares1/status/1354090514560249858" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc noreferrer">aqui</a>), é de rigor que façamos, pelo menos, uma análise simbólica arquetípica de um dos gastos encontrados na lista divulgada, este que acredito poderá levar a curiosas reflexões.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas antes da análise propriamente dita, de rigor que frisemos o fato ao qual foi dado pouco destaque na maioria das notícias, qual seja, que os gastos superaram em 20% os do ano passado. Ou seja, se os gastos desse ano somaram 1,8 bilhão, ano passado estariam no patamar de 1,5 bilhão — e por que, então, nada foi falado àquela época? — mais uma questão que denota a importância de um olhar acurado. Não podemos nos esquecer de que a maior parte dos veículos de informação da atualidade são comprometidos com anunciantes e patrocinadores em geral, que não permitiriam uma notícia que viesse bater de frente com um governo que estes validassem, ou seja, mais uma vez a mídia mostra-se vencida pelos interesses mercadológicos.</p>
<p style="text-align: justify;">O mercado de fato começa a dar sinais de que está a se virar contra os Bolsonaros, creio eu mais pelo fato de que, dada a incapacidade patente do presidente em vacinar os cidadãos, a força de trabalho terá que esperar mais até poder ser escravizada novamente (ver esse artigo <a class="urlextern" title="https://outraspalavras.net/trabalhoeprecariado/salario-emocional-nova-tatica-para-precarizar/" href="https://outraspalavras.net/trabalhoeprecariado/salario-emocional-nova-tatica-para-precarizar/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc noreferrer">aqui</a> sobre uma das técnicas de violência do mercado). Repise-se, a ideia das empresas, pela própria disciplina legal societária, é o fato de que a atividade empresarial visa ao lucro — ou seja, por mais que estas digam que buscam o bem de seus “colaboradores” no papel mesmo e na teleologia jurídica, o elemento essencial que as caracteriza é a procura do lucro por meio da circulação de bens ou serviços. Logo, não há que se falar em <em>players</em> ingênuos ou em mera vitória da transparência com a torrente de dados constrangedores do governo que vieram à tona, mas sim uma jogada que na mágica é conhecida como <em>misdirection</em>, na qual a mão que faz a movimentação chamativa não serve propriamente para a “mágica”, mas tão somente como distração para onde realmente ocorre aquilo que importa.</p>
<p style="text-align: justify;">Estabelecidas as premissas acima, que não poderiam deixar de aparecer no presente texto, sob pena de padecer da triste superficialidade contemporânea, podemos mergulhar em um dos itens curiosos da lista mencionada: a alfafa. Esta teve como valor total de gasto a soma de R$ 1.042.974,22, o que a coloca como um dos itens de menor monta do rol, mas não deixa de causar espanto, na medida em que é usualmente associada ao consumo por equinos.</p>
<p style="text-align: justify;">Comecemos das primícias, na medida em que o encontro da etimologia das palavras, além de dar um sabor diferenciado ao entendimento de seu significado, pode nos ajudar a interessantes <em>insights</em>. A palavra “alfafa” vem do árabe falado na Península Ibérica “al fasfasah”, por sua vez derivada do pérsico “ispist” — remetendo à ideia de luminosidade, por suas sementes serem claras.</p>
<p style="text-align: justify;">Diferentemente da origem da palavra alfafa, que decorre, como vimos, de suas sementes claras, o governo atual pauta seu “plano de governo” (se é que podemos fazer esse eufemismo) em diretrizes que não são nada transparentes ou claras. Um exemplo de tal obnubilação é o sigilo imposto à carteira de vacinação de Bolsonaro, assim como noticiado em diversos veículos midiáticos (ver <a class="urlextern" title="https://istoe.com.br/planalto-decreta-sigilo-de-cem-anos-em-cartao-de-vacinacao-de-bolsonaro/" href="https://istoe.com.br/planalto-decreta-sigilo-de-cem-anos-em-cartao-de-vacinacao-de-bolsonaro/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc noreferrer">aqui</a>). Tal ponto afronta, fatalmente, um princípio muito caro à Administração Pública, qual seja, a transparência. Mas, como já dito em outro artigo de minha autoria (ver <a class="urlextern" title="https://outraspalavras.net/crise-brasileira/nova-lei-de-transito-e-o-punitivismo-tosco/" href="https://outraspalavras.net/crise-brasileira/nova-lei-de-transito-e-o-punitivismo-tosco/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc noreferrer">aqui</a>), Bolsonaro não se preocupa com a técnica, esta que curiosamente era parte integrante dos discursos eleitorais da campanha em que saiu vitorioso. Não, o presidente tenta diuturnamente transpor os limites legais impostos pela nossa Constituição e legislação, todavia existem certas barreiras que não podem ser transpassadas por déspotas obscurantistas, por mais que teimem em tentar destruir as instituições democráticas já estabelecidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Seguindo em nossa análise arquetípica dos gastos com a alfafa, bom dizer que esta leguminosa da família do feijão, como toda boa fonte de fibras, facilita o trânsito alimentar no organismo, o que talvez explique a verborragia fecal do governante brasileiro, que parece cada vez menos se importar em deixar escancarada sua pauta alicerçada na necropolítica. Não que o brasileiro médio não tenha dentro de si uma parte escatológica, herança do escravagismo, patriarcado e patrimonialismo, como, por exemplo, o bacharelismo (ver esse artigo <a class="urlextern" title="https://outraspalavras.net/direita-assanhada/o-diploma-de-engenharia-como-excludente-de-ilicitude/" href="https://outraspalavras.net/direita-assanhada/o-diploma-de-engenharia-como-excludente-de-ilicitude/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc noreferrer">aqui</a>), mas jogar com a vida das pessoas passa qualquer dos limites plausíveis dentro de uma sociedade. Nesse ponto, a despeito de não podermos fazer muito, pois dependemos daquele que se senta na cadeira mais alta no Planalto, podemos, como sociedade, exercer o papel de fiscalizá-lo e tentar utilizar as instâncias formais para fazer mais que apenas ratificar as opiniões do chefe do Executivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Enfim e, por fim, voltando para a alfafa, e como sugestão nutricional, vale pontuar que, a despeito de rica em nutrientes, a alfafa não é, todavia, recomendada a jumentos (nome popular dado ao asno macho), na medida em que estes têm tendência à obesidade (superalimentação ou sobrenutrição). Nesse sentido, basta, para a alimentação do jumento médio, um capim de pasto de baixa qualidade, como bem ressaltam os especialistas da área, valendo o conselho de que é desnecessário um gasto tão elevado com esta leguminosa, considerando-se que nem mesmo servirá de alimento útil ao seu destinatário-mor.</p>
<p><em><img decoding="async" class="alignleft wp-image-136072" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/02/Vicente_Lopez_Portana_-_el_pintor_Francisco_de_Goya-min1.jpg" alt="" width="98" height="110" />Em destaque, um detalhe de uma das gravuras da série </em>Los Caprichos<em>, de Francisco de Goya (1746-1828).</em></p>
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		<title>A falácia do “relógio” biológico e a quem ela serve</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Dec 2020 08:12:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[O relógio como parâmetro de vida é um projeto que, desde os primórdios, atendeu aos interesses do projeto capitalista. Por Paulo Schwartzman]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Paulo Schwartzman</h3>
<p style="text-align: justify;">Em tempos de pandemia de covid-19, um fator que tem mexido com a cabeça e com os corpos de muitas pessoas é a passagem do tempo. Não que o tempo não passasse antes do momento pandêmico atual, mas sim que a maneira como percebíamos sua passagem era deveras diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, desde o advento do relógio de pulso (ou “relógio de punho”, como preconizam alguns especialistas na área da cronobiologia, por todos, cito o professor da USP Luiz Silveira Menna Barreto — “Menna”) as nossas vidas são reguladas pela falsa sensação de precisão conferida por esse dispositivo. Digo falsa sensação não por razões de atrasos ocorridos no mecanismo do relógio em si, mas tão somente pelo fato de que nós estamos submetidos a diversos ciclos e ritmos (exemplo de ciclo: claro-escuro; exemplos de ritmos: circaceptanos, circanuais e circadianos), esses que não seguem a mesma lógica de exatidão difundida pelo relógio mecânico ou digital.</p>
<p style="text-align: justify;">Note-se que não quero aqui tirar os créditos que o controle do tempo por meio de um instrumento atrelado à ideia de certeza e previsibilidade possui, mas tão somente apontar que, mais do que uma invenção neutra, o relógio como parâmetro de vida é um projeto que, desde os primórdios, atendeu aos interesses de um projeto de sociedade, neste caso, o projeto capitalista. Com efeito, isso já era narrado há tempos, sendo esclarecedora a análise feita por E. P. Thompson em seu livro <em>Costumes em Comum</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, o tempo e sua dominação servem a uma função específica dentro da ótica capitalista e, para que essa lógica não seja rompida, o ideal é espraiar a “dinâmica do relógio” para além de seus razoáveis limites. É nesse sentido que introduzo minha crítica à expressão <em>relógio biológico</em>, e não digo que é minha porque fui o primeiro a criá-la, longe disso, mas tão somente porque fui convencido de suas razões. Nesse diapasão que aponto a posição do supracitado professor “Menna”, na senda de que o uso da palavra relógio para se referir a ciclos biológicos seria um reducionismo inconveniente, uma metáfora que mais serve para turvar a compreensão dos ciclos internos do que propriamente para ajudar a compreendê-los.</p>
<p style="text-align: justify;">Não obstante o professor seguir apontando diversas nuances que invalidam a alcunha de relógio biológico, o apelido realmente “pegou”, na medida em que até mesmo entre os cronobiólogos (cientistas que estudam a relação dos fenômenos de passagem do tempo cotejando-o com os ciclos do organismo) o termo relógio biológico acaba sendo muito utilizado. A pergunta que fica é: por quê? A resposta a esta questão não é clara, mas pode passar inclusive por uma submissão mercadológica do ramo de estudo a fim de se “adequar” à lógica capitalista vigente — e não seria algo de espantar, na medida em que o sistema capitalista decota qualquer tipo de conhecimento que não atenda ao que os ditames de mercado pedem.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse sentido, a própria ideia de um relógio biológico indica, de maneira ínsita, a noção de estabilidade, submetida essa a um padrão de precisão (ou <em>standard</em>, para os americanófilos). Tal ideia se presta a maquiar a real lógica a que o corpo humano está submetido, a oscilação.</p>
<p style="text-align: justify;">Como exemplo do narrado no parágrafo acima temos a própria temperatura corporal. Se perguntarmos às pessoas na rua qual a temperatura normal de uma pessoa é muito provável que encontremos as respostas tendendo para o patamar de 36,5 ºC. A resposta, como bem ensina o professor Menna, não poderia estar mais incorreta, na medida em que a temperatura corporal de uma pessoa segue um ciclo circadiano em que há uma variação que pode chegar a até mais de 1ºC, usualmente batendo o pico de temperatura (próximo aos 37ºC) ao anoitecer, e o valor mínimo (próximo de 36ºC) no meio da madrugada.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-135479" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/12/Delaunay-1.jpg" alt="" width="640" height="405" />Outro exemplo interessante sobre como o nosso corpo difere de um relógio, seguindo uma lógica própria, é a Curva de Resposta Dependente de Fase, que nada mais significa do que a diferença na assimilação de um estímulo externo por nosso corpo a depender do momento em que este é introduzido dentro de um ciclo analisado. Explico. Um estímulo de luz pode tanto interferir ou não na sonolência de uma pessoa, tudo a depender do momento do ciclo de vigília/sono em que este estímulo ocorre — se próximo do momento de acordar, muito provavelmente o estímulo gerará o encurtamento da fase de sono; ao passo que um estímulo luminoso durante a manhã pouco ou nada interfere no ciclo de vigília/sono.</p>
<p style="text-align: justify;">Toda a explicação acima exarada serve para tentar instigar o leitor a questionar: a quem serve essa ideia, que nos é vendida com tanta facilidade, de que tenhamos um “relógio biológico”? Podemos realmente nos dar ao luxo de um reducionismo mecanicista do corpo humano, esse que tem características próprias e únicas, muito dificilmente comparáveis a um mero medidor de tempo? Será que não há alguém lucrando com tal posição científica?</p>
<p style="text-align: justify;"><em><img decoding="async" class="alignleft wp-image-135481" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/12/Delaunay.jpg" alt="" width="78" height="100" />Este artigo está ilustrado com reproduções de obras de Robert Delaunay (1885-1941)</em>.</p>
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		<title>Bauman, a música brasileira e o consumo desenfreado</title>
		<link>https://passapalavra.info/2020/11/135161/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Nov 2020 09:07:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
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					<description><![CDATA[A inserção do indivíduo na roda do consumo, para preencher o vazio interior; mas, assim que se consome, o vazio volta a se manifestar, em um trágico exemplo de ciclo vicioso. Por Paulo Schwartzman]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Paulo Schwartzman</h3>
<p style="text-align: justify;">Em tempos de pandemia, nos quais cada dia é uma luta para sobreviver entre o medo do desconhecido, a saudade dos conhecidos e o estado irreconhecível da política nacional, uma boa notícia. Ao escutar uma música da banda nacional <em>Dingo Bells</em>, percebo uma relação forte com a ideia de modernidade líquida presente em Bauman.</p>
<p style="text-align: justify;">A música em questão chama-se “Mistério dos 30”, indicando fase na vida das pessoas em que altos questionamentos digladiam-se entre si. Mais especificamente naquilo que refere-se ao ponto de contato com Bauman, temos o seguinte trecho:</p>
<p style="text-align: center;">« <em>Não tenha medo</em><br />
<em>Largue o emprego</em><br />
<em>Vivendo à vista</em><br />
<em>Pagando em prestação </em>»</p>
<p><iframe loading="lazy" title="DINGO - Mistério dos 30 / ao vivo no Centro Cultural São Paulo" width="640" height="360" src="https://www.youtube.com/embed/B8Q3VkrNGBY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p>
<p style="text-align: justify;">Ora, tal trecho evoca quase que na essência a ideia de liquidez, tão cara a Bauman em diversas de suas obras. Vive-se à vista, aproveitando o momento, num eterno <em>carpe diem</em>, e paga-se o preço aos poucos, em prestação.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é justamente a lógica que tenta ser incutida pelo capitalismo neoliberal atual, no qual a dinâmica temporal da espera é liquefeita pela oferta fácil de crédito. Aliás, valores como aqueles que envolvem espacialidade e temporalidade estão em completo desuso, como bem assinala o sul-coreano Byung-Chul Han.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse sentido que se vê a inserção do indivíduo dentro da roda do consumo, no qual se deve consumir para preencher o vazio interior; mas, assim que se consome, o vazio volta a se manifestar, dessa vez maior, e com mais urgência para ser preenchido, em um trágico exemplo de ciclo vicioso. Não por outra razão percebe-se o aumento cada vez maior de doenças neuronais, sejam decorrentes do consumo como vício, sejam decorrentes dos meios necessários para bancar esse consumismo, outro fato também pontuado por Han, primordialmente explorado na obra “Sociedade do Cansaço”, com edição brasileira pela editora Vozes e tradução acurada de Enio Paulo Giachini.</p>
<figure id="attachment_135171" aria-describedby="caption-attachment-135171" style="width: 640px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-135171 size-large" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Barbara-Kruger-1024x983.jpg" alt="" width="640" height="614" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Barbara-Kruger-1024x983.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Barbara-Kruger-300x288.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Barbara-Kruger-768x737.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Barbara-Kruger-438x420.jpg 438w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Barbara-Kruger-640x614.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Barbara-Kruger-681x654.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Barbara-Kruger.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /><figcaption id="caption-attachment-135171" class="wp-caption-text">«Compro, logo existo»</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Voltando à música da banda porto-alegrense <em>Dingo Bells</em>, na mesma toada, e um pouco antes de soltar a máxima relativa a Bauman, percebe-se, somada à tensão consumista, uma necessidade de escapar do <em>locus</em> que causa dor e impede o desfrute do prazer, nesse caso, o emprego. Não só isso. A banda foi feliz também em cravar a relação que permeia o vínculo laboral, uma relação que antes de tudo é calcada no medo.</p>
<p style="text-align: justify;">A canção tem os méritos de trazer à baila questões que estão abaixo da superficialidade com que o atual governo vem tratando a relação laboral nessa pandemia, o que não chega a ser uma surpresa se considerando o nível de despreparo dos integrantes da trupe do Executivo. Ora, em uma dinâmica em que os serviços estatais são sucateados para pôr em prática maligno, mas não tão velado, plano de venda do patrimônio público, acrescida de um contexto de falta de solidariedade incentivada pelos chefes da nação, que a todo momento exortam os cidadãos a portarem-se diante das restrições de locomoção advindas da pandemia como um adolescente inconformado com o castigo imposto pelos pais, o empregado fica mesmo com medo de não poder contar com seu salário.</p>
<p style="text-align: justify;">E é justamente nesse sentido que a música, como manifestação da cultura e catalisadora de catarse, pode nos ajudar a lidar com a situação em que vivemos, abordando as mazelas de forma leve e sedutora. Aliás, para aqueles que defendem uma segregação cultural entre “alta cultura” e “cultura popular”, um aviso: Bauman pode estar mais próximo dos ouvidos do povo do que vocês imaginam.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-135179" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Barbara-Kruger-1-238x300.jpg" alt="" width="79" height="100" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Barbara-Kruger-1-238x300.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Barbara-Kruger-1-814x1024.jpg 814w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Barbara-Kruger-1-768x966.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Barbara-Kruger-1-334x420.jpg 334w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Barbara-Kruger-1-640x805.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Barbara-Kruger-1-681x857.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Barbara-Kruger-1.jpg 946w" sizes="auto, (max-width: 79px) 100vw, 79px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-135186" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Peter-Phillips-287x300.jpg" alt="" width="96" height="100" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Peter-Phillips-287x300.jpg 287w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Peter-Phillips-402x420.jpg 402w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/11/Peter-Phillips.jpg 479w" sizes="auto, (max-width: 96px) 100vw, 96px" />A ilustração de destaque reproduz uma obra de Peter Phillips (1939-      ). A outra ilustração é de Barbara Kruger (1945-      )</em>.</p>
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