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	<title>África &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Muito melhor</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Feb 2026 12:51:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Uganda]]></category>
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					<description><![CDATA[Durante as eleições presidenciais em Uganda, o eterno presidente do país, Yoweri Museveni, que acaba de ser reeleito, alegou ter advertido as forças policiais contra o espancamento de opositores. Em vez disso, disse ter instruído a polícia a usar gás lacrimogêneo e canhões de água. “É muito melhor do que usar munição letal”, declarou. Passa [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Durante as eleições presidenciais em Uganda, o eterno presidente do país, Yoweri Museveni, que acaba de ser reeleito, alegou ter advertido as forças policiais contra o espancamento de opositores. Em vez disso, disse ter instruído a polícia a usar gás lacrimogêneo e canhões de água. “É muito melhor do que usar munição letal”, declarou. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Carta Aberta em Solidariedade ao Povo Sudanês</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Jan 2026 17:03:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Sudão]]></category>
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					<description><![CDATA[Por um Boicote Cultural e Acadêmico aos Emirados Árabes Unidos. Por TAGATU3]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por TAGATU3</h3>
<p style="text-align: justify;">2 de Dezembro de 2025</p>
<p style="text-align: justify;">Nós, os trabalhadores e membros de instituições acadêmicas e culturais abaixo assinados, condenamos o papel desempenhado pelos Emirados Árabes Unidos de criar, financiar e prolongar a guerra contra-revolucionária no Sudão entre as Forças Armadas do Sudão (<em>SAF</em>) e as <em>Rapid Support Forces</em> (RSF) desde sua irrupção em 15 de Abril de 2023.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa campanha é organizada por TAGATU3: Campanha Sudanesa pelo Boicote Acadêmico e Cultural dos EAU, um grupo de sudaneses em diáspora e aliados trabalhado para encerrar o apoio dos EAU à milícia RSF e sua cumplicidade política em munir a pior crise humanitária do século 21.</p>
<p style="text-align: justify;">A estratégia intervencionista emirati no Sudão, ainda que não seja a única desse tipo, tem uma natureza distinta. Seus significativos esforços contra-revolucionários durante a processo de transição política impediram os horizontes de libertação do Sudão em favor de atores militares, criando condições para rivalidades militares que eventualmente levaram o país à guerra. Como principal benfeitor da notória e brutal milícia RSF, os EAU providenciaram um interminável influxo de dinheiro, armas e cobertura política, permitindo os genocídios e massacres da milícia em Darfur e Kordofan. Os Emirados também cumpriram um papel decisivo em prolongar o combate através do comércio ilícito de ouro com a SAF e a RSF, fornecendo a seus empreendimentos de guerra linhas de financiamento vitais pelo futuro próximo. Permitir que o subimperialismo implacável dos Emirados Árabes Unidos no Sudão continue sem controle impedirá um cessar-fogo permanente e tornará cada vez mais distante a possibilidade de um retorno à principal reivindicação da revolução: um governo liderado por civis, com “os militares (SAF) de volta aos quartéis e os Janjaweed (RSF) dissolvidos”.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto sistematicamente destroem universidades, escolas, sítios arqueológicos, instituições e heranças culturais no Sudão, os EAU continuam a crescer globalmente como uma potência cultural e acadêmica. Suas parcerias com instituições acadêmicas e culturais existem para normalizar sua violência imperialista no Sudão, lavar sua imagem e reputação de autocracia repressiva, e escapar da responsabilidade por seus sistemas globais de violência e extrativismo. Neste documento, enquanto coletivo, convocamos todos os acadêmicos e trabalhadores da cultura de consciência a se organizarem para um boicote às instituições emirati cúmplices no encobrimento das violações dos direitos humanos nos EAU, até que as reivindicações da campanha sejam atendidas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A campanha dos EAU de encobrimento cultural e acadêmico</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os investimentos dos EAU em instituições acadêmicas ocidentais são antigos e apontam para uma tendência de encobrimento acadêmico e captura intelectual. Entre Fevereiro de 2001 e Abril de 2024, os EAU presentearam US$402.330.743 a universidades nos Estados Unidos, com as maiores recebedoras desses presentes monetários sendo a <em>New York University</em>, <em>Harvard University</em>, <em>Boston University</em>, <em>Johns Hopkins University</em>, <em>Columbia University</em>, <em>UC Berkeley</em>, e <em>Stanford University</em>. Conforme os relatórios financeiros dessas universidades para o governo federal, esses prêmios foram recebidos por razões não declaradas, permitindo influência descconhecida dos doadores e comprometendo a liberdade acadêmica.</p>
<p style="text-align: justify;">A expansão acelerada das universidades ocidentais nos Emirados, particularmente por meio de campi afiliados e satélites, desde a década de 2010, conferiu aos Emirados Árabes Unidos maior legitimidade e poder de influência nas economias de produção do conhecimento. Isso se manifestou recentemente na tentativa dos Emirados Árabes Unidos de controlar e disseminar a produção de conhecimento sobre a África e o Sudão de maneiras que reforcem e consolidem sua matriz de relações de poder no continente por meio de instituições como a Universidade de Estudos Globais em Sharjah e a NYU Abu Dhabi. Similarmente, não é coincidência que ao mesmo tempo em que o projeto de expansão colonial dos EAU se intensifica, nós vejamos uma rápida proliferação de acordos culturais globais desse país. O projeto cultural dos EAU é tão central para suas ambições geopolíticas que o país institucionalizou essa estratégia de diplomacia cultural em uma política de governo, criando um <em>Soft Power Council</em>. Estabelecido pelo Sheikh Mohammed bin Rashid Al Maktoum em 2017, um dos principais objetivos do conselho é “fortalecer a política externa dos EAU e adicionar novas ferramentas para consolidar seu papel… na arena internacional”. Desde a inauguração do conselho, o governo emirati fez contribuições significativas, avaliadas em mais de 35 bilhões de dólares, para as áreas de arte, design, museus, destinos turísticos, editoração e mídia. Cultura e política trabalham em sinergia aqui, com a primeira provendo a cobertura discursiva para a segunda, assim protegendo os EAU de quaisquer medidas de responsabilidade para sua aliança destrutiva com as RSF no Sudão. As condições favoráveis e atrativas criadas por essa estratégia de <em>soft power</em> orquestram a adesão de artistas e trabalhadores da cultura em todo o mundo, ao mesmo tempo que garantem o silêncio sobre as suas violações no Sudão. Nós enxergamos esses orçamentos culturais inflados como consequência direta da riqueza violentamente acumulada na região do Sudão e do Chifre da África, posicionando os EAU como um farol de modernidade, oportunidade, inovação e alta cultura.</p>
<p style="text-align: justify;">Trabalhar com instituições cúmplices dos EAU contribui diretamente para a fachada dos Emirados Árabes Unidos e ajuda a fabricar consenso para seu projeto subimperialista no Sudão. Inspirados pelos legados dos boicotes contra o apartheid sul-africano, e a ocupação israelense, e o papel desempenhado pelo boicote em lutas decoloniais ao redor do mundo, nós vemos essa estratégia como a mais forte e mais estratégica arma que temoss para perfurar essa ilusão mórbida, pôr fim à sistemática violência emirati contra o povo sudanês, e recuperar o futuro político da região das mãos dos arquitetos de sua ruína.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Demandas e chamado à ação</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A hora de praticar a solidariedade com o povo sudanês é agora, e de firmemente opôr as agendas imperialistas dos EAU no Sudão. Nós definimos cumplicidade com instituições emirati como:</p>
<ol>
<li class="li">Cumplicidade financeira ao receber-se financiamento do estado emirati, ou riqueza da nobreza para parcial ou completamente financiar instituições ou atividades e produtos institucionais.</li>
<li class="li">Cumplicidade ideológica através de atividades acadêmicas e culturais que acobertam ou desinformam/produzem campanhas de propaganda, silêncio ou censura ativa sobre o papel dos EAU em criar, financiar e perpetuar a guerra contra-revolucionária no Sudão.</li>
</ol>
<div></div>
<p style="text-align: justify;">Nós, os abaixo assinados trabalhadores e membros de instituições acadêmicas e culturais, demandamos o seguinte:</p>
<ol>
<li class="li">Urgimos aos nossos colegas que chamem atenção e reconheçam os genocídios no Sudão, as fomes provocadas pelo homem que assolam populações em todo o país e os facilitadores globais da violência perpetrada pelas SAF e pelas RSF, sendo os Emirados Árabes Unidos os mais proeminentes entre eles.</li>
<li class="li">Convocamos as instituições acadêmicas e culturais para que investiguem cuidadosamente seus laços com o governo emirati e as famílias reais. Demandamos o desinvestimento de quaisquer projetos feitos com o estado emirati, as famílias reais e instituições cúmplices.</li>
<li class="li">Convocamos acadêmicos, trabalhadores da cultura, e suas instituições afiliadas a rejeitar financiamento, colaboração, parcerias e patrocínios do governo emirati, das famílias reais, e suas instituições cúmplices (incluindo grupos de lobby e corporações) ou aqueles envolvidos com em atividades ideológicas que visam encobrir as violações dos EAU no Sudão.</li>
<li class="li">Convocamos nossos colegas a boicotarem os EAU, recusando-se a lecionar, frequentar ou colaborar com quaisquer instituições emirati cúmplices, até que tais instituições: (i) reconheçam publicamente e suspendam a censura sobre o papel dos EAU na criação, financiamento e perpetuação da guerra no Sudão; (ii) pratiquem a transparência financeira, auditando independentemente as demonstrações financeiras em conformidade com as normas internacionais de relatórios financeiros e investigando quaisquer vínculos financeiros ligados ao lucro de guerra e ao comércio ilícito no Sudão, incluindo a extração de ouro de conflito e a fabricação/venda de armas; (iii) cessem toda a cumplicidade financeira e ideológica na guerra contra-revolucionária dos EAU no Sudão.</li>
</ol>
<blockquote><p><em>convocamos todos os acadêmicos e trabalhadores da cultura de consciência a se organizarem para um boicote às instituições emirati cúmplices no encobrimento das violações dos direitos humanos nos EAU, até que as reivindicações da campanha sejam atendidas.</em></p>
<p>Esse boicote é uma recusa à cumplicidade que é ao mesmo tempo simbólica e material; seu poder repousa não somente em declarar oposição, mas em romper nossos laços materiais com o genocídio, o extrativismo e as aspirações geopolíticas coloniais dos EAU no Sudão.</p>
<p><em>Para uma visão mais detalhada do crescente império dos Emirados Árabes Unidos e da campanha de branqueamento nas artes e na academia, leia a carta completa e <a href="https://docs.google.com/document/d/1ZbjASNGZn-M3R1qPhk2Rri0RTUH3io95l90Immzl918/edit?tab=t.0#heading=h.gz4mbqkwlogx" target="_blank" rel="noopener">encontre a lista completa de signatários aqui</a></em>. <strong>Assine a carta aqui</strong>.</p></blockquote>
<ol>
<li class="li">Alexander Weheliye, Professor of Modern Culture and Media, Brown University</li>
<li class="li">Angela Davis, Distinguished Professor Emerita, University of California, Santa Cruz</li>
<li class="li">Eve Troutt Powell, Professor, University of Pennsylvania</li>
<li class="li">Fatin Abbas, Lecturer, Massachusetts Institute of Technology</li>
<li class="li">Françoise Vergès, Senior Fellow Researcher, Sarah Parker Remond Centre, UCL</li>
<li class="li">Gail Lewis, Professor, Yale University</li>
<li class="li">Hatem Bazian, Lecturer, UC Berkeley</li>
<li class="li">Houria Bouteldja, Decolonial Activist</li>
<li class="li">M’hamed Oualdi, Professor, Sciences Po-Paris</li>
<li class="li">Mohammed Elnaiem, The Decolonial Centre</li>
<li class="li">Nisrin Elamin, Assistant Professor, University of Toronto</li>
<li class="li">Mona Chalabi, Guest lecturer</li>
<li class="li">Paula Chakravartty, Professor, New York University</li>
<li class="li">Robin D.G. Kelley, Professor, University of California, Los Angeles</li>
<li class="li" style="text-align: justify;">Ruth Wilson Gilmore, Professor, Graduate Center of the City University of New York</li>
</ol>
<div></div>
<blockquote><p>A foto em destaque foi publicada originalmente <a href="https://www.nytimes.com/2014/05/09/world/africa/south-sudan-war.html" target="_blank" rel="noopener">num artigo</a> do New York Times.</p></blockquote>
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		<title>A ultradireita evangélica faz o seu ensaio em Moçambique</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Jan 2025 03:24:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Moçambique]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
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					<description><![CDATA[ O problema da ameaça de líderes populistas esconde um problema maior e mais profundo que diz respeito à incapacidade das elites políticas e dos partidos tradicionais de satisfazer as demandas da sociedade, abrindo espaço para que discursos e atitudes populistas ganhem saliência. Por José de Sousa Miguel Lopes ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por José de Sousa Miguel Lopes</h3>
<p style="text-align: justify;">Tirando a primeira década de independência, assistiu-se em Moçambique, nas últimas quatro décadas, a um progressivo aumento da pobreza (ver <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/01/155613/" href="https://passapalavra.info/2025/01/155613/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">aqui</a>). O país enquadra-se, certamente, na previsão feita recentemente pela revista <em>The Economist</em> que aponta para o aumento da lacuna econômica entre a África e o resto do mundo. Segundo a <em>The Economist</em>, até 2030 estima-se que os africanos representarão mais de 80% dos pobres do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Tentar sair desse empobrecimento, desse caminho perigoso, exige políticas radicalmente diferentes das adotadas até ao momento. Torna-se imperativa uma verdadeira mudança e a implementação de justiça social. Para o efeito, em momentos de crise tão profunda como a que está ocorrendo, Moçambique precisa estar atento e tentar se resguardar da onda ultradireitista que se está ampliando pelo globo. Com efeito, líderes populistas proliferam como cogumelos após forte chuvada, apresentando-se como Salvadores da Pátria. Alimentados por falsas narrativas, anunciam, com a maior desfaçatez, a eliminação rápida de todas as mazelas. No entendimento de Ferrajoli (2025):</p>
<blockquote><p>Estamos assistindo a uma mutação do próprio capitalismo neoliberal, que até agora devastou a esfera pública e submeteu a política à economia, mantendo, contudo, a separação formal entre as duas esferas. O fenômeno Musk sinaliza uma involução adicional: uma espécie de regressão pré-moderna ao estado patrimonial da época feudal, quando a política não tinha se separado da economia como esfera pública acima dela. Hoje estamos diante do direto governo privado e, ao mesmo tempo, global de setores fundamentais da vida civil e pública. Como se trata de um governo privado, ele também consiste em um poder absoluto. Esfera pública, separação de poderes e direitos fundamentais são conceitos estranhos a ele e incompatíveis com ele.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">A nova direita global, que tem uma visão imperialista, mas tem como líder não uma nação, mas um homem fabulosamente rico: <strong>Elon Musk</strong>. Trump será imperador por quatro anos. Mas o império de Musk está apenas começando, e durará muito mais. Se os liberais não souberem se unir, a Internacional reacionária poderá fazer da democracia uma curiosa recordação.</p>
<p style="text-align: justify;">Em várias partes do mundo, governos progressistas assumiram o poder, mas sem possuírem uma estratégia clara para reconstruir suas sociedades a partir dos restos do neoliberalismo. Muitas vezes, não têm um programa político concreto capaz de superar tal regime de forma contundente. Incapazes de desenvolver uma política que rompa totalmente com o neoliberalismo, muitos desses governos progressistas voltam à imobilidade neoliberal.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos últimos cinquenta anos, durante o auge do Consenso de Washington, a maioria das nações mais pobres, como Moçambique, caiu em ciclos de dívida e austeridade, altas taxas de pobreza e profundo desespero.</p>
<p style="text-align: justify;">É neste quadro que a extrema-direita se encontra em ascensão eleitoral no mundo. Sua máxima expressão, Donald Trump, ocupa o cargo mais poderoso do planeta. A direita passou a fazer intensa (des)educação política do povo. As forças progressistas perderam a capacidade de promover grandes mobilizações populares diante da falta de educação política do povo, da excessiva burocratização dos partidos progressistas, da perda de referências históricas. Essa extrema direita fala em nome do povo, mas não constrói políticas que ajudem o povo.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando esses partidos políticos chegaram ao poder, não romperam fundamentalmente com o consenso neoliberal, já que a maioria deles continuou a adotar as políticas de desregulamentação empresarial, austeridade social e compromisso com o mercado. Esses partidos não adotaram políticas fortes de protecionismo econômico e bem-estar social.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa extrema direita rompeu com o liberalismo social e com formas de libertarianismo convencional com sua religiosidade fortemente conservadora (antiaborto, antifeminismo, homofobia e transfobia) e tradicionalismo geral (seu enraizamento na família nuclear patriarcal e na Igreja, que se transpôs para uma crença no forte líder masculino na sociedade).</p>
<p style="text-align: justify;">Essa extrema-direita, com muita frequência, assume carácter fascizante. Saliente-se que a palavra “fascista” assumiu uma carga moral, que é útil para fins eleitorais, mas não para entender adequadamente a extrema direita. Essa extrema direita não apareceu, como o fascismo fez cem anos atrás, para derrotar as lutas da classe trabalhadora e o movimento comunista, nem tem qualquer problema com as instituições formais da democracia. Tanto os fascistas italianos quanto os alemães queriam suspender os sistemas democráticos e eleitorais e usar todo o aparato repressivo do estado para dizimar o movimento dos trabalhadores e as instituições comunistas. Nenhuma ameaça desse tipo enfrenta atualmente o capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso específico dos Estados Unidos, a eleição de Trump, um protofascista egomaníaco, como dirigente no país mais poderoso do mundo não pode deixar de ser um alento à ultradireita de todo o mundo, como se viu, por exemplo, no primeiro mandato quanto às relações entre Trump e Bolsonaro.</p>
<figure id="attachment_155769" aria-describedby="caption-attachment-155769" style="width: 225px" class="wp-caption alignright"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-155769 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-1.jpg" alt="" width="225" height="225" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-1.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-1-70x70.jpg 70w" sizes="(max-width: 225px) 100vw, 225px" /><figcaption id="caption-attachment-155769" class="wp-caption-text">Daniel Chapo e Venâncio Mondlane | Fonte: Instagram</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">As débeis forças progressistas, acuadas pelo fundamentalismo religioso, sobretudo, de Venâncio Mondlane, dotado de inegável poder eleitoral, ainda não sabem como enfrentar esse desafio. Um governo que, a partir de agora, pretendesse seguir uma política progressista precisaria encontrar uma estratégia que se pudesse contrapor ao fenômeno do conservadorismo religioso, cujo impacto cultural e político é significativo. O eventual fracasso da extrema direita forneceria uma tremenda oportunidade para os progressistas — contanto que estivessem preparados para assumir a responsabilidade. Infelizmente, parecem ser poucas as esperanças para que os progressistas tenham condições de aproveitar essa oportunidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Moçambique estamos agora em presença de um conflito entre duas direitas: a frelimista, de Daniel Chapo e a personificada por Venâncio Mondlane, embora esta última seja uma clara extrema-direita</p>
<p style="text-align: justify;">
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A juventude moçambicana e seus desafios</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Vemos hoje adolescentes e jovens perdidos, que adotam ideologias que os fazem sentir que têm um lugar no mundo. Os poderes mais miseráveis manipulam-nos em relação às suas necessidades, à solidão e àquela falta de identidade, de saber quem é, de se sentir acompanhado, de pertencer a alguma coisa.</p>
<p style="text-align: justify;">O eleitor em geral e os jovens em particular, desprovidos de consciência de classe, de relações corporativas (como as sindicais) e imunizados pelos impactos da grande mídia graças às suas bolhas digitais, buscam eleger quem lhes possa garantir um lugar ao sol na praia das oportunidades. Na falta de referências revolucionárias eles votam pensando, primeiro, na prosperidade individual, e não na coletiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses eleitores pobres manifestam seu inconformismo ao dar apoio aos que ostentam a bandeira da “antipolítica”. Decepcionados com os políticos tradicionais, preferem os arrivistas, os messiânicos, os que ousam contrariar o perfil da institucionalidade política e se glamourizam pelo histrionismo.</p>
<p style="text-align: justify;">A juventude, que tem participado massivamente nas revoltas contra as políticas da Frelimo, está demonstrando seu justo e profundo descontentamento. Como silenciar a alta de desemprego, a fome, a ausência de perspectivas entre muitos outros problemas? Num quadro desta natureza, em que tudo se faz urgente, um perigo pode rondar a genuína vontade de mudança. A juventude moçambicana, com justa razão, apresenta-se bastante agressiva e impaciente. No entanto, como aponta o Editorial do <em>Savana</em>, um dos principais jornais moçambicanos:</p>
<blockquote><p>A volatilidade da sociedade moçambicana é simplesmente impressionante: a obediência quase que canina com que cidadãos acatam ordens para a desobediência civil, resultando numa revolta de carácter violento de saque, mortes em massa e destruição de propriedade, é típica de um ambiente em que de tão descomandadas e desesperadas, as pessoas já não têm tempo nem espaço para pensar que o que estão a destruir hoje, lhes fará imensa falta no dia seguinte. A intensidade da violência contra seus semelhantes mostra um nível de desumanidade de pessoas que de tanto terem sido desumanizadas elas próprias, perderam qualquer grão de respeito pela vida humana. A manipulação pública, inerente a regimes de inspiração autocrática, só contribui para adensar ainda mais os níveis de violência. (<em>Savana</em>, 03/01/2025).</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Neste cenário, será a juventude tão conhecedora das questões políticas, ideológicas, históricas e dos nebulosos meandros da situação que neste momento perpassa o tecido social moçambicano? Será que ela tem um mínimo de conhecimento sobre questões geopolíticas e como elas interferem ou podem vir a interferir no processo moçambicano? Será que ela sabe quem é Trump e Bolsonaro, ambos cultuados por Mondlane? Se não sabem é grave, mas se sabem é mais grave ainda. Conhecem o líder da extrema direita André Ventura, único dirigente partidário português com quem Mondlane se encontrou na sua campanha? E o argentino Javier Millei, o mais feroz defensor de Israel na América Latina? Ou então, ignorando tudo isso, entra de cabeça no anúncio que lhe fazem de que agora tudo vai mudar para melhor, sustentada no argumento de que “pior não pode ficar”.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Venâncio Mondlane e Daniel Chapo: os perigos do evangelismo conservador e da teoria do domínio</strong></h4>
<figure id="attachment_155771" aria-describedby="caption-attachment-155771" style="width: 199px" class="wp-caption alignleft"><img decoding="async" class="size-full wp-image-155771" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-2.jpg" alt="" width="199" height="253" /><figcaption id="caption-attachment-155771" class="wp-caption-text">Presidente moçambicano Daniel Chapo | Fonte: Facebook</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Os dois principais opositores na recente disputa eleitoral são evangélicos. Venâncio Mondlane é pastor e na sua campanha difundiu aberta e fortemente suas posições religiosas fundamentalistas (para mais informações sobre estas suas posições veja <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2025/01/155681/" href="https://passapalavra.info/2025/01/155681/" rel="ugc nofollow">aqui</a>). Daniel Chapo, que foi empossado no dia 15/01/2025 “escondeu”, durante sua campanha, seu lado evangélico. Ele pertence à IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), a famosa congregação do bispo brasileiro Edir Macedo. Só agora, na tomada de posse e nos dias subsequentes, decidiu revelar esse seu lado evangélico difundindo fotos onde aparece ajoelhado e orando e também participando em entrevistas onde manifesta sua filiação e suas crenças.</p>
<p style="text-align: justify;">Sentindo-se acossado pela forte religiosidade do seu opositor Venâncio Mondlane e das multidões de apaniguados que o seguem, Daniel Chapo tenta mostrar que também segue os preceitos de Deus, afim de ganhar simpatizantes. Começou timidamente se ajoelhando entre muros, mas deve ter percebido que precisa de escancarar em público seu lado evangélico. Só que é uma luta desigual neste campo. Daniel Chapo está a lutar contra um pastor e seu vasto rebanho já consolidado e ele só agora descobriu que deveria copiar o pastor para tentar trazer para seu lado, alguns indecisos. Repito, no campo religioso, parece-me que para Daniel Chapo é uma batalha perdida.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o que parece estar a emergir em Moçambique é o evangelismo conservador, uma versão reacionária do cristianismo. O horizonte político moçambicano parece estar a dar os primeiros passos para mergulhar mais fortemente numa visão de mundo que se está espalhando por todo o planeta através das missões que as organizações evangélicas estadunidenses exportam para muitas partes do mundo. São mensagens populares apoiadas em agressivas campanhas de penetração em comunidades locais, através de redes sociais, rádios, televisões e publicações por onde difundem seu credo para dominar o mercado religioso.</p>
<figure id="attachment_155770" aria-describedby="caption-attachment-155770" style="width: 1440px" class="wp-caption alignright"><img decoding="async" class="size-full wp-image-155770" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3.jpg" alt="" width="1440" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3.jpg 1440w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3-300x150.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3-1024x512.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3-768x384.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3-840x420.jpg 840w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3-640x320.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-3-681x341.jpg 681w" sizes="(max-width: 1440px) 100vw, 1440px" /><figcaption id="caption-attachment-155770" class="wp-caption-text">Venâncio Mondlane | Fonte: Observador.pt</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">E agem com astúcia, combinando as tradições patriarcais com as agendas nacionalistas locais mais retrógradas. Querem restaurar um país e ordenar a sociedade segundo as leis de Deus. Isto se traduz em uma ênfase hierárquica da autoridade masculina e uma política baseada “na lei e na ordem”.</p>
<p style="text-align: justify;">São pessoas que se opõem aos direitos de gays, lésbicas, bissexuais e transexuais, ao aborto, à imigração, à redistribuição de renda e a qualquer tentativa de abordar as desigualdades sociais, pois apoiam sem rodeios o capitalismo de livre mercado. Também são muito propensos a negar a existência do racismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, enquanto muitos defendem a democracia liberal, o evangelismo conservador está cada vez mais inclinado a tendências autoritárias. Apoiam as lideranças fortes, mostram muito pouca preocupação com a supressão de direitos civis e acreditam que a violência política pode ser justificada se é para proteger sua visão do que deve ser um país. Venâncio Mondlane expressa, com clareza, sua posição quanto ao uso da violência política:</p>
<blockquote><p>No dia 18/01/2025, uma das 25 medidas propostas pelo líder opositor Venâncio Mondlane para os primeiros cem dias de governação em Moçambique é mandar matar um polícia por cada manifestante morto. Recorre, assim, à Lei de Talião do Antigo Testamento: “Chamem-me agitador: o povo está sendo morto!”, afirma ele. (RODRIGUES. 17/01/2025)</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Dominam com habilidade a tecnologia moderna para disseminarem mensagens e são incrivelmente acolhedores quando as pessoas entram pela porta de sua igreja desencantadas com um Estado que não lhes oferece qualquer resposta.</p>
<p style="text-align: justify;">Os evangélicos oferecem um senso de comunidade e identidade a seus fiéis, em uma época caracterizada pela incerteza econômica e de mudanças culturais. São formados na crença divina da prosperidade, que promete sucesso aos seus adeptos, tanto neste mundo como no próximo.</p>
<p style="text-align: justify;">Transmitem a ideia de que se alguém é “obediente” e busca a bênção de Deus, receberá sua recompensa na forma de felicidade pessoal e sucesso financeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Misturam habilmente a caridade com a evangelização. Distribuem refeições gratuitas, elaboram programas extraescolares e oferecem ajuda individual à margem das políticas estatais contra a pobreza e a desigualdade. Venâncio Mondlane já participou nesse tipo de atividade.</p>
<p style="text-align: justify;">Aproveitam-se da devoção de seus seguidores para se apresentarem como a única opção política realmente cristã.</p>
<p style="text-align: justify;">Há uma grande quantidade de dinheiro por trás dessas igrejas, suas redes e organizações, que reúne destacados pastores que se aliam a bilionários para obterem elevadas doações privadas. Por outro lado, milhares de evangélicos em vários lugares do mundo, doam 10% de sua renda mensal para suas congregações.</p>
<p style="text-align: justify;">E esse dinheiro é usado para pagar os pastores (que enriquecem de forma desmedida) e a toda a sua equipe de assessores, para construir edifícios, financiar missionários, comprar recursos educacionais e alimentar a divulgação. Além disso, as editoras evangélicas são um grande negócio. Os <em>best-sellers</em> evangélicos costumam vender milhões de cópias, apesar de serem bastante simples e de qualidade questionável. Os circuitos de conferências que organizam também são extremamente lucrativos, e a música e suas rádios se transformaram em indústrias com um gigantesco alcance.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O evangelismo faz emergir um sinal de alerta na defesa da democracia</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">No país mais poderoso do mundo, na tomada de posse de Donald Trump no dia 20/01/2015, podemos constatar como ele está rodeado de inúmeras lideranças religiosas. Com efeito:</p>
<blockquote><p>“A bênção será dada pelo rabino Ari Berman, reitor da Universidade Yeshiva; pelo imã Husham Al-Husainy, do Centro Islâmico Karbalaa em Dearborn, Michigan; pelo pastor Lorenzo Sewell, da Igreja 180 em Detroit; e pelo reverendo Frank Mann, padre da Diocese de NovaYork”, observa a José Lorenzo (15/01/2025). O comitê inaugural de Trump também informou que o presidente eleito participará novamente dos cultos inaugurais na Igreja Episcopal de St. John, no centro de Washington, bem como de um culto de oração na Catedral Nacional de Washington. (IDEM).</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Até mesmo em meio à guerra na Ucrânia se pode constatar como a força da religião evangélica consegue que promover alianças entre os inimigos que se digladiam no campo de batalha. Com efeito, após a invasão russa à Ucrânia, os Estados Unidos e a Europa encontraram-se na linha da frente da batalha contra a Rússia quando, até nessa guerra, existia uma forte aliança de interesses entre evangélicos estadunidenses e empresários russos ortodoxos. Algo similar acontece com a religião: a Internacional reacionária produziu alianças inesperadas entre religiões, não só dentro do próprio cristianismo — católico, ortodoxo ou neopentecostal — mas até estabelecendo acordos contingentes com o Islã, contornando na ponta dos pés a contradição de que muitos dos partidos europeus de extrema direita têm propostas claramente islamofóbicas.</p>
<blockquote><p>Desde 2010, as instituições europeias registaram um aumento muito significativo na atividade de grupos de pressão religiosos. Igrejas e organizações confessionais realizaram mais reuniões políticas em Bruxelas do que grandes empresas como a Google ou a gigante do tabaco Phillip Morris. Os dados refletem a preponderância do cristianismo — que inclui católicos e protestantes — cuja capacidade de influência é apoiada por um sólido apoio econômico. O <em>lobby</em> da Comissão das Conferências Episcopais da Comunidade Europeia (Comece) contava um orçamento de mais de um milhão de euros em 2019, segundo dados do Registo da Transparência da EU. (ALABAO, 2025).</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Constata-se, pois, um espantoso crescimento das Igrejas evangélicas, cuja maioria de fiéis faz uma leitura salvacionista da Bíblia (pauta de costumes) e não libertária o que faz perigar as democracias. Os pobres estão optando pelas Igrejas evangélicas, nas quais encontram acolhimento e suporte social, inexistentes na maioria das paróquias católicas.</p>
<p style="text-align: justify;">Os dois principais políticos de Moçambique, Daniel Chapo e Venâncio Mondlane, são ambos evangélicos, sendo o último pastor. No início do atual governo verificam-se sinais de que estes opositores começaram a dialogar. Nas questões religiosas, certamente, a sintonia será perfeita.</p>
<p style="text-align: justify;">Face a essa sintonia, uma pergunta perturbadora não pode deixar de ser feita: estará se desenhando, a curto ou médio prazo, a edificação de um Estado Teocrático em Moçambique, à boa maneira iraniana?</p>
<p style="text-align: justify;">Um Estado Teocrático ajuda a imposição ilegítima do controle político, diminui o espaço de liberdade que resta aos cidadãos. Com ele a Bíblia se sobrepõe à Constituição. Contra os mitos e a crença nos milagres ou aparições sobrenaturais, temos a ciência e a democracia. Saibamos usá-las em prol do pacífico convívio, sem perseguições e mentiras, santas ou seculares. Se a democracia ostenta defeitos, suas mazelas confessadamente têm origem em seres humanos que erram e podem corrigir seus equívocos. Com a teocracia nenhum limite obriga o governante, pois seus decretos são divinos. No fundo de todo teocrata dormita um totalitário. É tempo de aprender tal lição da história religiosa e política.</p>
<p style="text-align: justify;">As forças progressistas, acuadas pelo fundamentalismo religioso dotado de inegável poder eleitoral, ainda não sabem como enfrentar esse fator que constitui o substrato cultural.</p>
<p style="text-align: justify;">É preciso que se reaja a essa escalada bíblica, antes que tenhamos todo poder político tomado por pessoas terrivelmente evangélicas! Como reagir é a questão. Tendo em conta a aceitação que se deve ter pelo diálogo inter-religioso, pode parecer uma quebra de respeito à diversidade o combate a uma vertente religiosa específica. O caso reside no conhecido paradoxo: só não podemos ser tolerantes com os que desejam abolir a tolerância. Só não podemos abrir diálogo com os que pretendem abolir o diálogo, a diversidade, a liberdade. Faz-se necessário pensar estratégias de libertar a consciência do povo enganado e cooptado e denunciar e combater os falsos líderes que o exploram e oprimem.</p>
<p style="text-align: justify;">Não menos importante é o crescente alastramento da chamada “teologia do domínio” que defende a subordinação das esferas pública e privada aos preceitos religiosos. É uma doutrina que prega a necessidade de os cristãos assumirem o controle sobre todas as áreas da sociedade, incluindo governo, educação e cultura, para implementar uma nação sob “princípios bíblicos”. Essa ideologia ameaça diretamente a laicidade do Estado e a diversidade religiosa, fundamentais em uma sociedade democrática. A adoção dessa teologia por líderes religiosos e políticos em Moçambique gera preocupações sobre os riscos de uma agenda que busca impor valores religiosos específicos a toda a população.</p>
<p style="text-align: justify;">O papel da família, a essência da educação e o significado da liberdade, tudo é defendido numa perspectiva cristã. Apoiar candidaturas fundamentalistas que defendam pautas moralistas e antiestatais é algo fora do ordenamento democrático.</p>
<p style="text-align: justify;">No Brasil, por exemplo, muitas igrejas incentivam os jovens a ingressar em cursos-chaves para ocupar posições de influência. O objetivo é contrapor o criacionismo “bíblico” àquilo que designam como “ensino ateu”. Pretende-se que os alunos que se envolvem nestes cursos se tornem palestrantes equilibrados, pesquisadores curiosos e defensores resilientes de uma cosmovisão bíblica.</p>
<figure id="attachment_155772" aria-describedby="caption-attachment-155772" style="width: 320px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-155772" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-4.jpg" alt="" width="320" height="213" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-4.jpg 320w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-4-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px" /><figcaption id="caption-attachment-155772" class="wp-caption-text">Foto: Publico.pt</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Os promotores do “legado cristão” defendem um Estado mínimo e o “autogoverno”, principalmente no que se refere à educação e à cultura (o que favorece o domínio da manipulação e doutrinação para as quais são treinados incansavelmente). Em sua maioria, são inimigos das políticas públicas, principalmente as que buscam o acolhimento e dignidade das minorias e a “diversidade”.</p>
<p style="text-align: justify;">A “teoria do domínio” prega que os cristãos têm a missão de governar todas as esferas da sociedade — incluindo política, educação, mídia e economia — para estabelecer os valores cristãos como padrão universal. A execução dessa teologia ameaça o princípio do Estado laico e pode retirar os direitos de minorias religiosas e sociais.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O Salvador da Pátria como elemento central do Populismo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Entramos no século XXI como uma era sinistra, em que paixões de um escuro passado estão sendo mobilizadas novamente contra as forças da democracia de um modo diferente de tudo que vimos desde os anos 1930.</p>
<p style="text-align: justify;">Os moçambicanos não estão imunes aos atentados conta a democracia e parecem sentir um quase vazio de poder, que possibilita o surgimento de líderes populistas que se apresentam como Salvadores da Pátria.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma coisa é dizer, com toda a justiça, que o “prazo de validade” da Frelimo terminou há muito tempo, outra coisa é receber de braços abertos qualquer aventureiro que aparece prometendo este mundo e o outro. Que Venâncio Mondlane fala muito bem, como muitos dizem, é evidente. Aliás, se o modelo de comparação for o último presidente do país, Filipe Nyusi, então Venâncio Mondlane é um génio da oratória. Mas não basta falar bem e fazer belas promessas. É fundamental fazer uma espécie de Raio X daqueles que se propõem ser os Salvadores da Pátria. Basta analisar um pouco a geopolítica mundial, sobretudo após a I Guerra Mundial nas últimas décadas, para encontrarmos dezenas de Salvadores da Pátria e populistas. Dois exemplos, entre muitos outros, de “salvadores da pátria” foram Benito Mussolini na Itália e de Adolf Hitler na Alemanha, nas décadas de 1920 e 1930.</p>
<p style="text-align: justify;">Como sabemos, Salvadores da Pátria não existem. São como o Homem Aranha ou a Mulher Maravilha, maravilhosos nos filmes e desenhos animados, mas não fazem parte do mundo real. Neste ninguém colocou em risco a humanidade mais do que esses salvadores da pátria, cheios de verdadeiras ou supostas boas intenções.</p>
<p style="text-align: justify;">Os que acreditam nesses facínoras, por ignorância e fé, são os maiores prejudicados. Os que realmente criam valor e oportunidades são transformados em bodes expiatórios e acabam sacrificados após serem difamados, demonizados e humilhados. Os salvadores da pátria querem mesmo é enriquecer e manter o poder. Esses aventureiros nada produzem, nada criam, não conseguem nem exercer suas funções mais básicas, porque estão preocupados em controlar o povo para espoliá-lo. Infelizmente, o povo não percebe como o sistema é perverso e ele é a vítima. Somente quando a situação chega num ponto ultrajante, alguns se revoltam e recomeça o ciclo.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o <em>establishment</em> hoje é o centro neoliberal, então certamente qualquer desafio a ele será populista.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, o termo populismo precisa ser ampliado para incluir alguns aspectos-chave, como a necessidade de aceitar o capitalismo como eterno, encolher os aspectos do Estado que fornecem bem-estar social e regulam os negócios, expandir o aparato repressivo do Estado para evitar qualquer desafio ao status quo e reconhecer a centralidade dos Estados Unidos como líder do sistema mundial.</p>
<p style="text-align: justify;">Presenciamos o suporte crescente direcionado a um populismo de direita que vê a democracia liberal como um anacronismo. Os sinais são claros. Ao redor do mundo, indivíduos, grupos e políticos vomitam desordenadas incitações de ódio e intolerância, legitimando e apoiando abertamente o racismo, a homofobia e outras selvagens formas de nacionalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">O que tem surgido desse abismo do poder autoritário é uma atualizada versão da política demagógica e a normalização de uma maré de ignorância com naturalização da crueldade. Um resultado direto é o crescente apoio de um populismo de direita, que trata com ódio e desdém tanto os indivíduos privados de necessidades básicas para sua subsistência &#8211; incluindo moradia, alimentação e água limpa — como as populações imigrantes deslocadas de sua terra natal por conflitos e expropriações das forças globais do capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">O populismo de direita oferece uma noção pseudodemocrática de política, em que as decisões não são informadas por evidências e a ação coletiva desaparece diante do simbólico mito de um líder totalitário e poderoso. Nesse discurso, a política torna-se personalizada na imagem de um demagogo, sustentada graças à suposta ignorância das massas, tratadas como um verdadeiro “rebanho”. A emergência desses líderes da extrema direita pode ser exemplificada com a ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos e de Jair Bolsonaro no Brasil. Mas também já podemos notar a capilarização desse fenômeno, com versões regionais e locais dessas figuras na política. Constata-se que se articulam perfeitamente com os evangélicos quase como se fossem irmãos siameses. Aí estão Daniel Chapo, mas, sobretudo, Venâncio Mondlane conduzindo os seus rebanhos em terras moçambicanas.</p>
<p style="text-align: justify;">Promessas de benefícios e privilégios são a chave que denuncia o populista demagogo. Quando chegam ao governo, grande parte dessas lideranças se limita a propor mudanças do <em>status quo</em> centradas em políticas públicas. É o caso, por exemplo, das regras mais restritivas sobre imigração — como nas normas sobre pedidos de asilo, visto de permanência para trabalho, e a expulsão nas fronteiras. Ou seja, populistas usualmente são reformistas, não querem subverter o regime vigente.</p>
<p style="text-align: justify;">Vejam-se algumas das promessas que Venâncio Mondlane já anunciou:</p>
<blockquote><p>Imensa gente em Moçambique vê Venâncio Mondlane como o salvador da pátria. Ele acha-se um novo messias que, como Moisés a conduzir os hebreus através das águas apartadas do Mar Vermelho, fugindo do exército do faraó, vem libertar os moçambicanos do jugo da Frelimo para transformar o país na terra que mana leite e mel, em que ele vai construir três milhões de casas em cinco anos, uma linha férrea da Ponta do Ouro até Mocímboa da Praia, e criar uma linha de crédito de 600 milhões de dólares para os empresários e investidores que viram os seus armazéns e infraestruturas destruídos pelos “manifestantes” nos dias de Natal (VAZ. <em>NPCTB</em>, 13/01/2025).</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Portanto, o problema das falsas promessas e da ameaça de líderes populistas esconde um problema maior e mais profundo que diz respeito à incapacidade das elites políticas e dos partidos tradicionais de satisfazer as demandas da sociedade, abrindo espaço para que discursos e atitudes populistas ganhem saliência. É o que está acontecendo agora em Moçambique. Segundo Costa (2025):</p>
<blockquote><p>Mas o que vejo dele [Venâncio Mondlane] é um discurso populista primário, de instrumentalização do justo descontentamento em relação ao poder estabelecido, mas sem fornecer qualquer alternativa programática ou propostas objetivas. É um discurso comum a todas as variantes do fascismo dos tempos atuais que vemos eclodirem por todo o mundo.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Mesmo no interior do Podemos, partido com o qual Mondlane firmou um Acordo, os conflitos internos não demoraram a surgir e se apresentam de forma contínua. Nesses conflitos, a imagem de Mondlane revela um personagem pouco confiável. Para Albino Forquilha, líder do Partido Podemos que aceitou o ingresso de Mondlane no seu Partido: “Venâncio Mondlane violou reiteradamente, e de forma grave, os termos do referido acordo, em múltiplas ocasiões, desde o período da campanha” (MUSSANHANE, (06/01/2025, p. 2).</p>
<p style="text-align: justify;">O problema está na decisão do Podemos de tomar posse no dia 15/01/2025 e Mondlane afirmar que o Podemos não pode aceitar tomar posse, porque ainda se está a lutar pela verdade eleitoral. Conforme o investigador do Centro de Integridade Pública (CIP), Lázaro Mabunda:</p>
<blockquote><p>O Podemos diz que essa luta já se esgotou, porque os acordos do Conselho Constitucional são irrecorríveis, mas Mondlane está a dizer que não. Ele não está contra a tomada de posse, mas está contra a tomada de posse neste momento em que ainda se está a lutar pela verdade eleitoral. (MABUNDA, <em>apud</em> NÁDIA, 2025).</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, o que Mondlane deseja mesmo é ser Presidente da República de imediato. No entendimento de Vaz (18/01/2025):</p>
<blockquote><p>E para atingir esse objetivo, vale tudo — se necessário, destruir infra-estruturas públicas e privadas, promover o caos nas cidades e vilas, apunhalar a economia, incendiar o país. Desde meados de outubro, já lá vão três meses, Venâncio, o messias moçambicano, o iluminado, tem conseguido provocar sucessivas paralisações em Maputo e em algumas outras cidades moçambicanas, causando muito mais do que incómodos pessoais passageiros, ele tem causado danos sérios à nossa economia.</p></blockquote>
<figure id="attachment_155773" aria-describedby="caption-attachment-155773" style="width: 686px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-155773 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-5.jpg" alt="" width="686" height="386" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-5.jpg 686w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-5-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-5-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/01/wiki-5-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 686px) 100vw, 686px" /><figcaption id="caption-attachment-155773" class="wp-caption-text">Fonte da imagem: Youtube</figcaption></figure>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Um possível e urgente caminho para a resolução dos problemas que Moçambique enfrenta</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Para provocar aquilo que se designa por Transformação do Conflito é preciso que uns percebam o problema dos outros. Perceber — um exercício básico — não significa concordar. Significa, tão somente, recolher informação para ajudar as partes a resolverem os seus diferendos. É sempre bom lembrar que a paz se faz com o inimigo. Na opinião de Vaz (13/01/2025):</p>
<blockquote><p>Sejamos, porém, optimistas, iremos ultrapassar esta tormenta que estamos a viver no nosso país, como já superámos outras. Apesar de salteadores mafiosos no poder, apesar de messias fascizantes a quererem substituí-los. Iremos curar as feridas e voltar a viver unidos. Com visões diferentes, mas com o mesmo amor pelo país.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">O revolucionário africano Amílcar Cabral nos ensinou que o objetivo da libertação nacional é “a libertação do processo de desenvolvimento das forças produtivas nacionais”. Portanto, a formulação de uma nova teoria do desenvolvimento para o Sul Global, em geral, e para Moçambique, em particular, também é um retorno à origem de nossas lutas pela libertação do imperialismo e do neocolonialismo. É a partir do resgate dessas lutas que urge traçar o caminho para as aspirações de justiça social de Moçambique.</p>
<p style="text-align: justify;">Como diz o ditado, <em>“a arrogância precede a queda”</em>. Quando se juntam apoiadores de salvadores diferentes, o resultado só pode ser catastrófico, mesmo. Quando a arrogância de apoiadores são reflexos do candidato, então, este só tem a perder. Não se desejam deuses inatingíveis no poder. Respeite-se o slogan “Não somos servos, somos povo”. Deseja-se na governança quem olhe para o povo como uma entidade merecedora de respeito e não como servidores fiéis.</p>
<p style="text-align: justify;">São ainda milhões os que preferem a sensatez, o diálogo, a busca por soluções realistas, não fantasiosas. São eles os que rechaçam a política da vingança, que acaba arrastando a situação para o pior.</p>
<p style="text-align: justify;">É compreensível a revolta dos jovens moçambicanos. A frustração tinha que ter uma válvula de escape, mas agora é preciso ir em busca de serenidade. É preciso um intenso e genuíno diálogo entre as principais forças em disputa.</p>
<p style="text-align: justify;">É fundamental reforçar a educação cívica e a conscientização sobre os valores democráticos para impedir que visões teocráticas comprometam os direitos fundamentais de todos os cidadãos. Para muitos, o desafio está em equilibrar a liberdade religiosa com a necessidade de preservar um Estado laico e inclusivo, garantindo que nenhum grupo imponha suas crenças sobre toda a sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">O vocábulo “sensatez”, oposto de insensatez, deve começar a aparecer, ainda que temeroso, na boca de quem prefere pensar numa solução viável da crise, que implique limar arestas, juntar ideias distintas, dialogar até à exaustão.</p>
<p style="text-align: justify;">A célebre frase do pensador italiano, Giuseppe Tomasi di Lampedusa fez-me soar um alerta. Diz ele que <em>“Algo deve mudar para que tudo continue como está”</em>. Mesmo com esse alerta, eu desejo fortemente ser contrariado pela frase de Lampedusa. O povo moçambicano merece dias melhores.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando uma crise ocorre, as ações tomadas dependem das ideias circulando no seu entorno. Então, talvez a função básica seja desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne o politicamente inevitável.</p>
<p style="text-align: justify;">Um aspecto da maior relevância que deve ser observado numa democracia é a transparência. Se não fizermos um esforço para uma renovação, reinvenção e reinstalação dos valores democráticos, o que vencerá serão as trevas. Às vezes, as sociedades optam por cometer suicídio por ignorância. Há cinquenta anos ninguém dizia que a Terra era plana, o que aconteceu para que nos dias de hoje haja tanta falta de cérebro, tanto desespero?</p>
<p style="text-align: justify;">E o que fazer com o desespero, com a sensação física do desespero? O que fazer quando parece não haver mais saída, que nada vai mudar substancialmente a situação em que nos encontramos, que nada pode ser feito? Segundo Franco Berardi, esta é a principal questão da política hoje. Mas uma política que vá além da política. Porque o desespero não vai desaparecer por decreto-lei, argumentos ou explicações. É algo do corpo, está ligado ao corpo, que contamina toda a alma, e a possui. Um desespero que se traduz em todos os lugares em agressão. A prepotência dos fortes — “nada é como antes” — transforma-se em guerra contra os mais fracos. E o desespero dos fracos procura retribuir, vingar-se.</p>
<p style="text-align: justify;">Como é possível interromper uma psicose (um delírio) em massa? Ou seja, como escapar do contágio do desespero agressivo ou vingativo?</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é uma questão central de uma política que vai além da política, uma política que sabe ouvir e dialogar com os corpos, com o que acontece nos corpos e através de suas necessidades básicas, chegar ao espírito! Todos os que enlouqueceram fascinados pela linguagem do triunfo sobre o próximo, se farão a pergunta: Ganhar o quê? O mundo é controlado, manipulado pelo 1% de milionários e estes, teleguiados por 0,1% dos mesmos! Somente eles podem ganhar! A ilusão, como sempre, termina em decepção. Grandes expectativas levam a novas frustrações. A Esperança recaiu no Desespero. Um desespero que hoje, como no passado, dá um giro para a direita. É sabido que desesperados votaram massivamente em Trump, em Bolsonaro, em Milei: os humilhados, os quebrados, os arruinados, material e mentalmente. Não estaremos vendo em Moçambique um quadro semelhante?</p>
<p style="text-align: justify;">Nossos tempos estão doentes com o “sim, é possível”. Diante do “querer é poder” como mandato da época que nos estressa e esgota, assumir a impotência como alavanca, comparar-se com o impossível e o trágico é algo perturbador.</p>
<p style="text-align: justify;">Resignação? Radicalização do desespero, isso sim. A descrença em todas as consolações, nas ilusões voluntárias, nas promessas políticas. É possível imaginar um político que não peça a nossa ilusão, a nossa fé? Um político que diga “não é possível”, decepcionando crenças e libertando-se assim dos deveres?</p>
<p style="text-align: justify;">Destruir a Esperança como expectativa e crença, para que as esperanças possam talvez ressurgir em letras minúsculas, como atividade e a partir do vazio. Somente no extremo do desespero, uma vez destruídas todas as ilusões, é possível reencontrar a esperança novamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Para finalizar, o grande desafio, para enfrentar a pobreza e a miséria visando um Moçambique verdadeiramente soberano, é unir as forças progressistas capazes de imaginar e lutar por um Moçambique no qual o fascismo neoliberal não mais exista e onde a promessa de uma genuína democracia se torne mais que um sonho utópico ou um discurso oportunista.</p>
<p style="text-align: justify;">A situação do país apresenta tal complexidade que falar em forças progressistas parece algo fora do lugar. Claro que tem gente progressista, mas que, no momento atual está acuada, pois a onda da extrema-direita incute medo. Mas quando a situação se acalmar, quem sabe não vão começar a ouvir-se essas vozes?</p>
<p style="text-align: justify;">Não haverá justiça social sem mobilização popular nem futuro em que valha a pena viver sem luta coletiva. É preciso tratar a questão da democratização do poder a sério, com esforços contínuos para desenvolver uma forte aliança republicana e democrática contra a aliança evangélico-populista.</p>
<p style="text-align: justify;">Toda gente pretende saber, de imediato, quais os rumos que o país vai tomar. O que atrás apresentamos são apenas meras sugestões sobre o que deveria ser feito de acordo com nossos valores e nossa visão de mundo. Assegurar certezas num momento político tão complexo é algo que pode acabar no “reino das frustrações”.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Referências</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">ALABAO, Nuria. Internacional Antifeminista, uma radiografia In: <em>Outras Palavras</em>. <a class="urlextern" title="https://outraspalavras.net/direita-assanhada/internacional-antifeminista-uma-radiografia/" href="https://outraspalavras.net/direita-assanhada/internacional-antifeminista-uma-radiografia/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://outraspalavras.net/direita-assanhada/internacional-antifeminista-uma-radiografia/</a> (17/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">COSTA, João Vasconcelos. #15 &#8211; No Moleskine, “Europa 2025” e “Depois de Moçambique, Angola?”, mais as secções habituais. <em>Por baixo da espuma</em>. <a class="urlextern" title="https://joovasconceloscosta.substack.com/p/15-no-moleskine-europa-2025-e-depois" href="https://joovasconceloscosta.substack.com/p/15-no-moleskine-europa-2025-e-depois" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://joovasconceloscosta.substack.com/p/15-no-moleskine-europa-2025-e-depois</a> (04/01/2025)</p>
<p style="text-align: justify;">FERRAJOLI, Luigi. Fascismo-liberal, também o espaço é privatizado. In: <em>IHU &#8211; UNISINOS</em> <a class="urlextern" title="https://www.ihu.unisinos.br/647771-fascismo-liberal-tambem-o-espaco-e-privatizado-artigo-de-luigi-ferrajoli?utm_campaign=newsletter_ihu__13-01-2025&amp;utm_medium=email&amp;utm_source=RD+Station" href="https://www.ihu.unisinos.br/647771-fascismo-liberal-tambem-o-espaco-e-privatizado-artigo-de-luigi-ferrajoli?utm_campaign=newsletter_ihu__13-01-2025&amp;utm_medium=email&amp;utm_source=RD+Station" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.ihu.unisinos.br/647771-fascismo-liberal-tambem-o-espaco-e-privatizado-artigo-de-luigi-ferrajoli?</a> (13/01/2025)</p>
<p style="text-align: justify;">LORENZO, José. In: <em>Religion Digital</em> <a class="urlextern" title="https://www.religiondigital.org/jose_lorenzo/" href="https://www.religiondigital.org/jose_lorenzo/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.religiondigital.org/jose_lorenzo/</a> (15-01-2025).</p>
<p style="text-align: justify;">LORY, Gregoire. Interferência de Elon Musk nos debates nacionais irrita a Europa. <em>Euronews</em>. In: <a class="urlextern" title="https://pt.euronews.com/my-europe/2025/01/08/interferencia-de-elon-musk-nos-debates-nacionais-irrita-a-europa" href="https://pt.euronews.com/my-europe/2025/01/08/interferencia-de-elon-musk-nos-debates-nacionais-irrita-a-europa" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://pt.euronews.com/my-europe/2025/01/08/interferencia-de-elon-musk-nos-debates-nacionais-irrita-a-europa</a> (08/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">MUSSANHANE, Sebastião. Comunicado de Imprensa. (06/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">NÁDIA, Issufo. Acordo entre VM e PODEMOS: “Não houve transparência”. In: <em>DW África</em>, 2025. <a class="urlextern" title="https://www.dw.com/pt-002/n%C3%A3o-houve-transpar%C3%AAncia-nem-do-ven%C3%A2ncio-nem-do-podemos/a-71267996" href="https://www.dw.com/pt-002/n%C3%A3o-houve-transpar%C3%AAncia-nem-do-ven%C3%A2ncio-nem-do-podemos/a-71267996" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.dw.com/pt-002/n%C3%A3o-houve-transpar%C3%AAncia-nem-do-ven%C3%A2ncio-nem-do-podemos/a-71267996</a> (10/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">RODRIGUES, António. <em>O Público</em>, (17/01/2025) <a class="urlextern" title="https://www.publico.pt/2025/01/17/mundo/noticia/venancio-mondlane-manda-matar-policia-manifestante-morto-2119194" href="https://www.publico.pt/2025/01/17/mundo/noticia/venancio-mondlane-manda-matar-policia-manifestante-morto-2119194" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.publico.pt/2025/01/17/mundo/noticia/venancio-mondlane-manda-matar-policia-manifestante-morto-2119194</a></p>
<p style="text-align: justify;">SAVANA. <em>Editorial.</em> Maputo, (03/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">ST.CLAIR Jeffrey. In: Counter Punch. <a class="urlextern" title="https://www.counterpunch.org/2025/01/10/roaming-charges-hurricane-of-fire/" href="https://www.counterpunch.org/2025/01/10/roaming-charges-hurricane-of-fire/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.counterpunch.org/2025/01/10/roaming-charges-hurricane-of-fire/</a> (11/01/2025)</p>
<p style="text-align: justify;">VAZ. Álvaro Carmo. <em>NPCTB</em>, 1/25, (13/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">_____________<em>NPCTB</em>, 2/25, (18/01/2025).</p>
<p style="text-align: justify;">VIRISSIMO, Vivian. Cinco mais ricos do mundo dobram patrimônio em 3 anos enquanto 60% ficam mais pobres. <em>Brasil de Fato. </em><a class="urlextern" title="https://www.brasildefato.com.br/2024/01/15/cinco-mais-ricos-do-mundo-dobram-patrimonio-em-3-anos-enquanto-60-ficam-mais-pobres" href="https://www.brasildefato.com.br/2024/01/15/cinco-mais-ricos-do-mundo-dobram-patrimonio-em-3-anos-enquanto-60-ficam-mais-pobres" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.brasildefato.com.br/2024/01/15/cinco-mais-ricos-do-mundo-dobram-patrimonio-em-3-anos-enquanto-60-ficam-mais-pobres</a> (15/01/2024).</p>
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		<title>Ninguém escapa (10)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 26 Aug 2023 16:47:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
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					<description><![CDATA[João Melo, escritor de Angola, estava com uma coletânea para ser publicada no Reino Unido. Deparou então com a recusa de incluir o conto “O perigo amarelo”, afinal era um título ofensivo à comunidade chinesa. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">João Melo, escritor de Angola, estava com uma coletânea para ser publicada no Reino Unido. Deparou então com a recusa de incluir o conto “O perigo amarelo”, afinal era um título ofensivo à comunidade chinesa. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Ninguém escapa (9)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Aug 2023 11:29:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[O escritor moçambicano Mia Couto conta que ao ter seu livro traduzido para o alemão se deparou com uma contestação séria: o personagem chamava o outro de preto de forma depreciativa, não era politicamente correto traduzir dessa maneira. Sugeriram como solução usar “excessivamente pigmentado”. O personagem em questão era um general português que pretendia insultar [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O escritor moçambicano Mia Couto conta que ao ter seu livro traduzido para o alemão se deparou com uma contestação séria: o personagem chamava o outro de preto de forma depreciativa, não era politicamente correto traduzir dessa maneira. Sugeriram como solução usar “excessivamente pigmentado”. O personagem em questão era um general português que pretendia insultar um moçambicano. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Terceiro-mundismo africano</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 Sep 2022 13:43:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[Enquanto a Rússia, em julho deste ano, colecionava crimes de guerra na Ucrânia e provocava uma crise mundial no abastecimento de grãos, agravando a fome na África, o ministro russo das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, era recebido por quatro chefes de Estado africanos num tour diplomático e seu país beneficiava da neutralidade de outros 17 [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Enquanto a Rússia, em julho deste ano, colecionava crimes de guerra na Ucrânia e provocava uma crise mundial no abastecimento de grãos, agravando a fome na África, o ministro russo das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, era recebido por quatro chefes de Estado africanos num <em>tour</em> diplomático e seu país beneficiava da neutralidade de outros 17 países. Mais uma faceta do terceiro-mundismo africano. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Milenarismo africano</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Jul 2022 03:57:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Na mesma região onde, em junho, jihadistas mataram pelo menos 50 pessoas numa igreja católica, um pastor pentecostal e seu assistente mantiveram reféns, por meses, 77 pessoas, 26 delas crianças, à espera da segunda vinda de Cristo. É a Nigéria, em julho de 2022. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Na mesma região onde, em junho, jihadistas mataram pelo menos 50 pessoas numa igreja católica, um pastor pentecostal e seu assistente mantiveram reféns, por meses, 77 pessoas, 26 delas crianças, à espera da segunda vinda de Cristo. É a Nigéria, em julho de 2022. <strong>Passa Palavra</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Velho oeste africano (2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Jun 2022 09:00:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Depois do banho de sangue causado pela repressão contra mineiros no Chade, chama a atenção o protesto de uma milícia operante na região, ligada ao exército líbio e aos mercenários do Grupo Wagner, e responsável pela morte do ex-ditador do país, sucedido pelo filho à frente de uma junta militar. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Depois do banho de sangue causado pela repressão contra mineiros no Chade, chama a atenção o protesto de uma milícia operante na região, ligada ao exército líbio e aos mercenários do Grupo Wagner, e responsável pela morte do ex-ditador do país, sucedido pelo filho à frente de uma junta militar. <strong>Passa Palavra</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Outra Face Do Racismo [livro]</title>
		<link>https://passapalavra.info/2022/04/143377/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Apr 2022 12:48:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Edições]]></category>
		<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Artes_plásticas]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[O movimento negro actual cerca de muros as propriedades universais da humanidade.  Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3><strong>Por João Bernardo</strong></h3>
<div id=":y69" class="Ar Au Ao">
<div id=":y65" class="Am Al editable LW-avf tS-tW tS-tY" tabindex="1" role="textbox" contenteditable="true" spellcheck="false" aria-label="Corpo da mensagem" aria-multiline="true">
<div style="text-align: justify;">Este ensaio, em cinco partes, critica a perspectiva racista subjacente ao identitarismo étnico.</div>
<div style="text-align: justify;">Nele demonstra-se a perplexidade com o desinteresse do movimento negro perante o racismo negro antinegro tão frequentemente perpetrado em África. Seria tal desinteresse fruto do actual processo de renovação das elites capitalistas, cujo critério é o de que quem estava em último lugar tem direito a ascender primeiro? Será possível aprendermos a partir do racismo do Terceiro Reich, que todos os raciocínios prosseguidos em termos raciais são delirantes e todas as formas práticas de racismo têm como único resultado a barbárie?</div>
<div style="text-align: justify;">É neste quadro que é necessario analisar a propensão dos identitarismos, incluindo o movimento negro, à biologização da cultura.</div>
</div>
</div>
<p>Leia ou baixe o livro <a href="https://archive.org/details/outra-face-do-racismo" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>:</p>
<p><iframe loading="lazy" src="https://archive.org/embed/outra-face-do-racismo" width="560" height="384" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Ouvrez les yeux sur l&#8217;Afrique!</title>
		<link>https://passapalavra.info/2020/11/135242/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Nov 2020 22:11:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Traduções]]></category>
		<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[L'internationalisation des luttes et la méthode d'analyse de celles-ci n'ont jamais été aussi urgentes et nécessaires. Par Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Il se passe actuellement beaucoup de choses en Afrique qui exigent notre attention et un positionnement de toute la gauche, mais surtout du mouvements noir. Il est toutefois surprenant de constater comment ce dernier -dans les blogs, les sites web et les profils collectifs sur les réseaux sociaux -est resté silencieux ou, au mieux, a timidement rapporté ces faits, sans procéder à des analyses plus approfondies ou même superficielles.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Commençons par la lutte sociale la plus évidente en Afrique actuellement, dans l&#8217;ancienne colonie britannique du Nigeria.</p>
<p style="text-align: justify;">Contrairement à ce que laisse croire le récit qui circule dans ces milieux -beaucoup moins éloquent que leur silence, d&#8217;ailleurs -la lutte au Nigeria qui remonte à 2017 mais a redémarré en octobre de cette année (2020) ne peut être définie de manière générale comme une lutte desNoirs contre la violence policière. Elle ne peut être comparée avec la lutte contre les violences policières dans les pays où les Blancs sont majoritaires aux postes de pouvoir, dans les espaces publics et privés, comme aux États-Unis ou au Brésil. Car ces positions, au Nigeria, sont occupées par des Noirs, qui exploitent et oppriment violemment la classe ouvrière locale, soumise à l&#8217;exclusion sociale et à une pauvreté colossales. Il ne s&#8217;agit donc pas d&#8217;une violence policière générique, qui unirait les Noirs dans une lutte contre le racisme générique, mais d&#8217;une violence policière et d&#8217;un racisme qui profitent spécifiquement à une élite noire.</p>
<p style="text-align: justify;">Contre cette lutte, l&#8217;État nigérian réagit violemment, non seulement en tirant sur des manifestants pacifiques et en faisant plusieurs morts, mais aussi en tirant sur des personnes étrangères à ces manifestations et en envahissant leurs maisons pour les tuer, en emprisonnant des centaines de personnes, en imposant des couvre-feux et en envisageant de bloquer l&#8217;internet et de censurer les réseaux sociaux.</p>
<p style="text-align: justify;">Le climat de révolte et les difficultés matérielles ont amené la population nigériane à envahir et à piller des entrepôts contenant des denrées qui, dans un contexte d&#8217;inflation et de chômage élevé, auraient déjà dû être distribuées. Le gouvernement se défend en prétendant qu&#8217;il s&#8217;agissait de locaux abritant des réserves pour la deuxième vague de la Covid-19, mais les manifestants affirment que le gouvernement avait l&#8217;intention de les revendre.</p>
<p style="text-align: justify;">Des manifestations ont également lieu dans un autre pays, l&#8217;Angola, l&#8217;un des plus grands exportateurs de pétrole au monde, dont la population très pauvre est soumise à la violence policière, au chômage, à l&#8217;inflation et à une véritable kleptocratie. La Covid-19 a aggravé ces problèmes. En conséquence, plusieurs manifestations ont éclaté ces derniers mois -maintenant interdites par le gouvernement qui prétend ainsi contenir la propagation du nouveau coronavirus -avec de nombreuses arrestations et personnes blessées. Mercredi dernier, qui correspondait ironiquement à la date du 45eanniversaire de l&#8217;indépendance, a eu lieu une nouvelle manifestation, avec une nouvelle répression violente et l&#8217;assassinat d&#8217;un manifestant. Pour l&#8217;un des militants impliqués dans les manifestations, <em>«alors que certains veulent parler et </em><em>dialoguer, d&#8217;autres se mettent à tirer […]Le principal responsable moral est le président de la République […]On ne peut pas tourner autour du pot.»</em></p>
<p style="text-align: center;"><strong>*</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Comme si les difficultés actuelles ne suffisaient pas, les habitants des zones rurales septentrionales du Nigeria sont également victimes de la violence de personnes -noires comme elles -qui sont favorables à l&#8217;établissement d&#8217;un régime encore plus oppressif, les membres de Boko Haram. Une récente dépêche d&#8217;une agence de presse rapporte ce que de nombreux Nigérians sont contraints d&#8217;endurer dans cette région : <em> «ils </em>[les gens de Boko Haram] <em>ont attaqué le village de Kumari […]tuant quatre villageois pendant leur sommeil […]; ils n&#8217;ont pas utilisé d&#8217;armesà feu pour éviter d&#8217;alerter les soldatsd&#8217;une ville voisine […]. La région a également été la cible de tirs répétés et d&#8217;attentats-suicides […]; des sources affirment que les djihadistes ont brûlé vif trois personnes et enont découpé en morceauxunequatrième dans un autre village, alors qu&#8217;elle était encore en vie ;[…]deux paysans ont également été tués alors qu&#8217;ils travaillaient dans les champs et plusieurs autres ont été pris en otage».</em></p>
<p style="text-align: justify;">Cette situation n&#8217;existe cependant pas seulement au Nigeria. Les nouvelles récentes sur le Mozambique nous donnent une idée de ce que cela représente d&#8217;être pris en tenailles entre une élite autochtone oppressive et exploiteuse et une insurrection djihadiste encore pire. Plus de cinquante personnes ont été décapitées dans le nord du Mozambique par des militants djihadistes. Les militants ont installé une estrade sur le terrain de football d&#8217;un village, où ils ont décapité et découpé en morceaux les corps. Plusieurs personnes ont également été décapitées dans un autre village. Ces décapitations sont les dernières d&#8217;une série d&#8217;agressions que les militants mènent depuis 2017, à Cabo Delgado, province riche en gaz naturel.</p>
<p style="text-align: justify;">Plus de 2 000 personnes ont été tuées et environ 430 000 ont été déplacées par le conflit dans la région à majorité musulmane. Les militants sont liés à l&#8217;État islamique, ce qui lui donne un point d&#8217;appui en Afrique australe. Le groupe a exploité la pauvreté et le chômage pour recruter des jeunes dans sa lutte pour établir un État islamique dans la région. De nombreux habitants se plaignent de n&#8217;avoir que peu profité des retombées des industries du rubis et du gaz dans la province.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>*</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mais les Africains ne souffrent pas seulement de l&#8217;exploitation, des gouvernements autoritaires etcorrompus et des groupes paramilitaires : ils souffrent aussi de la xénophobie et du racisme noir contre les Noirs. Si la défense des Africains qui cherchent à se réfugier en Europe -et des immigrés qui y sont victimes de racisme -est très répandue à gauche, la défense des réfugiés ou des immigrés africains victimes de racisme en Afrique même ne suscite pas autant d&#8217;intérêt. Le problème persiste.</p>
<p style="text-align: justify;">Bien que le président sud-africain, Cyril Ramaphosa, ait envoyé une mission dans plusieurs pays africains l&#8217;année dernière pour les rassurer et réaffirmer l&#8217;engagement de l&#8217;Afrique du Sud <em>«envers les idéaux d&#8217;unité et de solidarité panafricaines»</em>, la situation est différente, comme le montre cette information récente :<em> «Les autorités sud-africaines disent avoir commencé à expulser 20 réfugiés et immigrés qui ont participé à un sit-in pendant plusieurs mois pour protester contre la xénophobie. Ils sont pour la plupart originaires de pays africains et ont demandé à être réinstallés en dehors de l&#8217;Afrique du Sud. Cesimmigrés ont expriménotammentle souhait d&#8217;aller </em><em>s&#8217;installer au Canada, a déclaréle ministère sud-africain des Affaires intérieures. Le sit-in a débuté devant le bureau du Haut Commissariat des Nations Unies pour les réfugiés au Cap,en octobre 2019. Des centaines de personnes ont participé à la campagne, qui a duré cinq mois, une église leur servant de refuge. À l&#8217;époque, les immigrés ont déclaré qu&#8217;ils ne se sentaient pas en sécurité à cause des agressionsxénophobes qu&#8217;ils subissaient dans les villes sud-africaines, et qu&#8217;ils étaient maltraités et discriminés. Depuis 2008, plusieurs flambées de violence xénophobe contre les étrangers du reste du continent ont éclaté dans plusieurs villes du pays. Les immigrés sont généralement attaqués dans les communautés où ils vivent, accusés de s&#8217;approprier des emplois et des ressources.»</em></p>
<p style="text-align: justify;">Isolés, persécutés et massacrés chez eux, discriminés et maltraités par d&#8217;autres Africains lorsqu&#8217;ils cherchent asile ou refuge dans d&#8217;autres pays… L&#8217;Afrique produit ses propres naufragés. Seront-ils en sécurité quelque part ? C&#8217;est à la gauche et aux travailleurs du monde entier de créer les conditions pour qu&#8217;ils puissent rester, en luttant avec des actes et des paroles qui se projettent au-delà des frontières, contre toutes lesinstitutions responsables de les transformer en parias et en apatrides. Malheureusement, nous en sommes loin.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>*</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A ces problèmes s&#8217;ajoutent les instabilités politiques et sociales liées aux conflits électoraux, dans lesquels des groupes politiques rivaux stimulent les conflits ethniques pour conquérir le pouvoir ou s&#8217;y maintenir.</p>
<p style="text-align: justify;">Par exemple, la Côte d&#8217;Ivoire est une gérontocratie où les disputes entre de vieux politiciens amènent les jeunes à s&#8217;entretuer. L&#8217;actuel président du pays, Alassane Ouattara, après la mort de l&#8217;homme choisi pour lui succéder en juillet, a décidé de se présenter pour un troisième mandat, prétendant qu&#8217;un changement de la Constitution durant son mandat lui donnait le droit de rester au pouvoir pour deux autres mandats. Le Conseil constitutionnel local a approuvé la manœuvre et a en même temps empêché 40 des 44 candidats de l&#8217;opposition de se présenter, dont un ancien président, Laurent Gbagbo, qui est accusé de crimes contre l&#8217;humanité et doit répondre devant la Cour pénale internationale.</p>
<p style="text-align: justify;">Ouattara a interdit les manifestations; il a participé aux élections boycottées par l&#8217;opposition qui a appelé la population à la désobéissance civile, et il a finalement été réélu. 21% des bureaux de vote sont restés fermés et certainsont été détruits, les manifestants bloquant le vote dans d&#8217;autres, au milieu de conflits ethniques qui ont causé des dizaines de morts et la fuite de 3 600 personnes au Libéria. L&#8217;un des candidats de l&#8217;opposition, l&#8217;ancien président du pays, Henri Konan Bédié, a vu sa maison encerclée par des soldats et plusieurs de ses partisans ont été arrêtés ; Bédié lui-même a été détenu dans une prison privée par la police, qui a également attaqué les journalistes présents.</p>
<p style="text-align: justify;">Le Conseil constitutionnel du pays, la Communauté économique des États de l&#8217;Afrique de l&#8217;Ouest et l&#8217;Union africaine ont validé les élections.</p>
<p style="text-align: justify;">En Tanzanie, le président sortant, John Magufuli -qui nie l&#8217;existence de la pandémie aux côtés de Bolsonaro, Loukachenko, Trump et autres politiciens -, a été réélu lors d&#8217;élections frauduleuses, alors que son parti a obtenu suffisamment de sièges pour abolir la limite des mandats fixée par la Constitution. Après s&#8217;être vu refoulé par l&#8217;ambassade américaine, l&#8217;un des leaders de l&#8217;opposition a été arrêté dans le quartier des ambassades européennes, puis interrogé par la police, tandis que les diplomates allemands l&#8217;attendaient devant leur bâtiment.</p>
<p style="text-align: justify;">Pendant ce temps, Cyril Ramaphosa a félicité Magufuli pour les «élections pacifiques» qui s&#8217;étaient tenues dans sonpays, tandis que la Communauté de l&#8217;Afrique de l&#8217;Est, en tant qu&#8217;observateur, leur donnait son blanc-seing. Parmi les dirigeants africains et dans les organismes multilatéraux du continent la tendance est par conséquent de favoriser les présidents en exercice : l&#8217;autoritarisme local est donc soutenu par la Communauté des États africains elle-même.</p>
<p style="text-align: justify;">Enfin, nous ne pouvons omettre de mentionner le cas de l&#8217;Éthiopie, où un conflit vient d&#8217;éclater et qui pourrait conduire à une guerre de grande ampleur, dont lacause immédiate est le différend entre le Premier ministre, Abiy Ahmed Ali, prix Nobel de la paix, et la province du Tigré, dominée par le Front populaire de libération du Tigré (FLPT), parti qui a dominé le pays jusqu&#8217;à l&#8217;arrivée au pouvoir d&#8217;Abiy à la suite des importantes protestations de l&#8217;ethnie oromo en 2018.</p>
<p style="text-align: justify;">Abiy a dissous la coalition sur laquelle était fondé le gouvernement et a fusionné les partis (qui la composaient et représentaient les différents groupes ethniques du pays) en une seule organisation, le Parti de la Prospérité, auquel le FLPT a refusé de se joindre. Le gouvernement a commencé à exclure les 4membres du FLPT du pouvoir et a reporté les élections en raison de la Covid-19, prolongeant ainsi le mandat d&#8217;Abiy. Pendant ce temps, s&#8217;opposant au report du scrutin, la province du Tigré a organisé des élections locales, considérées comme illégales par Abiy, qui a ensuite bloqué l&#8217;accès du FLPT aux ressources fédérales. Enfin, une attaque contre une base militaire, attribuée par Abiy au FLPT, mais à propos de laquelle le Front nie toute implication, a servi de prétexte au déclenchement de la campagne militaire désormais lancée contre le Tigré, utilisant l&#8217;artillerie lourde et les frappes aériennes.</p>
<p style="text-align: justify;">Ce qui aggrave la situation, c&#8217;est qu&#8217;Abiy est confronté à un conflit contre les séparatistes de l&#8217;Oromia <strong>[1] </strong>, sa propre province, et qu&#8217;il essaie d&#8217;étouffer d&#8217;autres protestations partout ; dans ce scénario, il y a eu des massacres, principalement d&#8217;Amharas, un autre groupe ethnique du pays. Et les forces liées au FLPT, selon des témoins entendus par Amnesty International, qui a également eu accès à des images, ont attaqué des civils &#8211; <em>«des travailleurs n&#8217;ayant aucune implication dans le conflit» </em>-avec des couteaux et des machettes dans le sud-ouest du Tigré, entraînant la mort de nombreuses personnes, peut-être des centaines.</p>
<p style="text-align: justify;">Comme si cela ne suffisait pas, le conflit menace de conduire plusieurs pays de la Corne de l&#8217;Afrique à la guerre : les forces du Tigré, par exemple, ont confirmé le tir de plusieurs missiles sur Asmara, la capitale de l&#8217;Erythrée, qui soutient le gouvernement central éthiopien ; d&#8217;autre part, environ 25 000 réfugiés éthiopiens ont déjà franchi la frontière soudanaise. Enfin, la construction d&#8217;un barrage en Éthiopie, qui menace de réduire le débit du Nil vers le Soudan et l&#8217;Égypte, complique encore la situation.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>*</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Tant que la gauche, et en particulier le mouvement noir, ne combinera pas la lutte contre l&#8217;oppression et l&#8217;exploitation dans un pays avec la lutte contre l&#8217;oppression et l&#8217;exploitation dans tous les autres, il sera impossible d&#8217;internationaliser les luttes anticapitalistes et antiracistes. Rien ne nous séparera davantage de ceux qui mènent ces combats en Afrique que notre refus de tenir compte de leur nature réelle-c&#8217;est-à-dire de les analyser comme des luttes du prolétariat autochtone contre les oppresseurs et les exploiteurs autochtones -ou de les passer sous silence ou de les mentionner de manière vague et générique (en les présentant par exemple comme des luttes contre la violence policière).</p>
<p style="text-align: justify;">Il en va de même lorsque le mouvement noir célèbre le règned&#8217;anciens souverains africains, qui ont poursuivi leurs propres politiques impérialistes et/ou imposé leurs propres formes d&#8217;exploitation du travail, ou lorsqu&#8217;ilrefuse de critiquerdes traditions locales. Decette façon aussi, nous nous éloignons du prolétariat en lutte en Afrique.</p>
<p style="text-align: justify;">C&#8217;est la direction qu&#8217;a prise le mouvement noir. Nous sommes donc confrontés à une énorme contradiction : ceux qui soutiennent que les objectifs spécifiques des Noirs doivent avoir plus de visibilité sont aussi ceux qui accordent le moins de visibilité aux luttes spécifiques du prolétariat africain face à ses propres bourreaux, luttes qui s&#8217;inscrivent dans le cadre global de la lutte dela classe ouvrière contre les capitalistes dans le monde entier. Enfin, l&#8217;articulation entre le particulier et le général, l&#8217;internationalisation des luttes, et la méthode même d&#8217;analyse de ces luttes, n&#8217;ont jamais été plus urgentes et nécessaires, mais beaucoup ont préféré tourner le dos à l&#8217;Afrique.</p>
<p style="text-align: justify;">Une exception mérite d&#8217;être mentionnée : la position du groupe Quilombo Vermelho qui, dans une récente lettre-programme, a écrit: <em>«La lutte antiraciste qui se développe aux États-Unis est menée contre Trump et les républicains, mais elle doit aussi faire face à la tentative de cooptation des démocrates, car nous n&#8217;avons pas oublié que c&#8217;est sous legouvernement d&#8217;Obama que Black Lives 5Matter a émergé; que laviolence policière contre les Noirs n&#8217;a même pas diminué et que des dizainesde pays ont été bombardés par le gouvernementObama. Nous ne luttons pas pour mettre davantage de Noirsau pouvoir, pour gérer la barbarie capitaliste, pour avoir des Noirs parmi les grands milliardaires de cemonde, alors que lagrande majorité de notre peuple est abandonnéedans la misère et la faim. Nous ne combattons pas pour être mieux “représentés” dans lesentreprises capitalistes, pendant que perdurentl&#8217;exploitation et l&#8217;oppression de la grande majorité de l&#8217;humanité.»</em></p>
<p style="text-align: justify;">A l&#8217;exception du groupe que nous venons de citer, les militants de gauche et les activistes du mouvement noir en général ne cherchent pas à analyser ces problèmes et à assumer une position politique sur ce sujet -internationaliste et antiraciste -qui est pourtant indispensable pour la lutte anticapitaliste.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Passa</strong> <strong>Palavra</strong> (17/11/2020, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2020/11/135096/" href="https://passapalavra.info/2020/11/135096/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc noreferrer">https://passapalavra.info/2020/11/135096/</a>)</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Débat:</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Enrique : </strong>Récemment, ce site a publié un texte <strong>[2] </strong>qui abordait, entre autres, la manière dont le régime tchétchène cherche à contrôler les Tchétchènes de la diaspora. Une nouvelle publiée aujourd&#8217;hui brosse un tableau très similaire, non pas en Europe mais en Afrique, au Rwanda.</p>
<p style="text-align: justify;">L&#8217;article ci-dessus analyse brièvement les <em>«luttes du prolétariat indigène contre les oppresseurs et les exploiteurs autochtones» </em>dans certains pays africains, mais c&#8217;est un sujet sans fin qui pourrait occuper de très nombreuses pages, si cela ne dépendait pas des mouvements identitaires, bien sûr.</p>
<p style="text-align: justify;">Les preuves sont là pour qui veut les voir: elles démontrent comment le remplacement des capitalistes blancs par des capitalistes noirs, et des gouvernants blancs par des gouvernants noirs bouleverse tout… pour que tout reste pareil.</p>
<p style="text-align: justify;">Cependant, pour certains, il s&#8217;agit de la «révolution» elle-même. Un chroniqueur de la <em>Folha de Sao Paulo</em>, par exemple, a écrit il y a deux jours, à propos des résultats des élections municipales brésiliennes du week-end dernier, que <em>«la gauche est vivante dansles corps noirs et trans qu&#8217;elle a élus», </em> et que <em>«la révolution commence en étant noire et trans»;</em> il conclue que <em>«les vents que soulève l&#8217;espoir emportent les corps noirs, trans, vers le centre du pouvoir. Ce qui pour les autres est une identité, pour nous est l&#8217;existence même […]Et ce n&#8217;est que le début. Lorsque ces corps se déplacent au centre de la politique, nousavançons tous. Nous avançons en sachant que le bolsonarisme, affaibli, et le centre et la droite traditionnels, renforcés, sont à l&#8217;affût».</em></p>
<p style="text-align: justify;">En fait, ce journaliste n&#8217;a pas tort, dans la mesure où la «révolution» identitaire, le fascisme radical d&#8217;aujourd&#8217;hui, ou l&#8217;aile gauche du fascisme d&#8217;aujourd&#8217;hui, ne pourra s&#8217;affirmer qu&#8217;en procédant à trois opérations simultanées :</p>
<p style="text-align: justify;">1) détruire tout vestige d&#8217;anticapitalisme et d&#8217;internationalisme dans la classe ouvrière ;</p>
<p style="text-align: justify;">2) écarter le fascisme national-populiste conservateur de dirigeants comme Bolsonaro, en prenant sa place ;</p>
<p style="text-align: justify;">et 3) construire comme adversaire une droite traditionnelle contre laquelle se projeter.</p>
<p style="text-align: justify;">Le chroniqueur de la <em>Folha de Sao Paulo </em>a synthétisé, peut-être grâce à un acte manqué, la dynamique même de la montée du fascisme identitaire, qui se développe en ce moment, devant nous, partout. Au moins l&#8217;opération numéro 1 a été menée à bien.</p>
<p style="text-align: justify;">La classe ouvrière peut-elle se débarrasser de cette autre variante du fascisme ? Si cela dépend de la majorité de la gauche et de la conception de la lutte antiraciste qui y prédomine, la réponse est malheureusement non.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>João Bernardo : </strong>Nous-Passa Palavra et ceux qui critiquent ici les identitarismes -, nous n&#8217;inventons rien, nous répondons aux situations existantes. Quand Passa Palavra, dans l&#8217;article sur <em>«Le racisme des Noirs contre les Noirs»</em> en Afrique, montre que <em>«le racisme et la xénophobie n&#8217;ont pas de couleur»</em> ou quand je critique, dans mon essai sur <em>«L&#8217;autre face du racisme </em><em><strong>[</strong></em><em><strong>3</strong></em><em><strong>]</strong></em><em>»</em>), la biologisation de la culture opérée par le mouvement noir, nous n&#8217;inventons rien, parce que ce sont les racistes noirs eux-mêmes, africains ou pas, qui le disent.</p>
<p style="text-align: justify;">Je citerai plus longuement l&#8217;article de Thiago Amparo, que Fagner mentionnait dans son commentaire : «Il y a eu 25 candidatures trans élues en 2020, selon l&#8217;Antra (Association nationale des travestis et transsexuels). Des victoires ont également été observées dans des villes de taille moyenne […].Les Noirs ont brisé le plafond de verre à Curitiba, avec l&#8217;élection de la première conseillèrenoire, Carol Dartora, par le Parti des travailleurs. La veuve de Marielle Franco <strong>[4]</strong>, Monica Benício, a été élue à Rio, avec l&#8217;appui des quartiers noirs de Tainá de Paula et de Thais Ferreira, un quilombo <strong>[5]</strong> de la banlieue de São Paulo, ce qui est vraimentr top. Plusieurs candidates soutenues par l&#8217;Institut Marielle Franco ont été élus en dehors du Brésil. Ce sont les Marielleet les Dandara <strong>[6]</strong> présentes, élues qui incarnent les voix des foules pour une politique radicale, parce qu&#8217;elle est authentique. La révolution commence en étant noire et trans.»</p>
<p style="text-align: justify;">Mais Thiago Amparo omet la situation des homosexuels en Afrique et lapratique des mutilations génitales féminines. Il y a deux jours, la Cour européenne des droits de l&#8217;homme a condamné la Suisse pour avoir extradé vers la Gambie un citoyen de ce pays qui avait demandé l&#8217;asile en 2008 parce qu&#8217;il était homosexuel ; les autorités suisses avaient rejeté sa demande au motif que la situation des homosexuels s&#8217;était améliorée en Gambie. Le problème ne se pose pas seulement en Gambie, il concerne pratiquement tous les pays africains. Dire que <em>«la révolution commence en étantnoire et trans»</em> est un mensonge, car le fait que l&#8217;Afrique soit noire n&#8217;empêche pas ces sociétés de persécuter les homosexuels et les transgenres.</p>
<p style="text-align: justify;">Pourquoi, alors, une telle hypocrisie ? Parce qu&#8217;elle sert d&#8217;outil à ceux qui -quelle que soit la couleur de leur peau et leurs préférences sexuelles -veulent convaincre leurs semblables que cela suffit pour défendre tout le monde. Non, ce n&#8217;est pas suffisant, comme le montre l&#8217;Afrique.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainsi, le silence du mouvement noir face à ce qui se passe en Afrique montre qu&#8217;il est du côté des dirigeants africains et non du côté de leurs victimes. A la suite de mon article «Classe / Identités <strong>[</strong><strong>7</strong><strong>]</strong>», un commentateur a ironiquement écrit : <em>«Félicitations à l&#8217;auteur, et à Passa Palavra pour avoir mis en lumière ce processus si mauvais qui aboutit à ce que des Noirs intègrent les élites !»</em> Dans certains cas, il s&#8217;agit d&#8217;un dialogue de sourds, mais ce n&#8217;est pas le cas ici. Nous avons affaire à une syntonie, nous sommes en quelque sorte sur la même longueur d&#8217;onde. Nous les accusons de prétendre être de nouvelles élites. Et ils prétendent être de nouvelles élites. La confrontation politique ne peut pas être plus claire.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Enrique :</strong> Ces deux camps, ou plutôt, ces deux visages d&#8217;un même camp, ont su fragmenter politiquement la classe ouvrière et même les capitalistes, en profitant et en approfondissant la grave crise que traversent leurs institutions les plus traditionnelles, et en essayant de faire converger la pratique politique des deux classes, soumise à cette fragmentation, vers un projet de pouvoir nettement raciste et sexiste et quasi totalitaire. Bien sûr, cette fragmentation a aussi d&#8217;autres racines : l&#8217;expansion de la souveraineté des entreprises transnationales; la fragmentation des chaînes de production; la démoralisation et l&#8217;épuisement des principaux partis de gauche et de droite; la diminution de la pertinence des syndicats en tant que mécanismes pour contenir les luttes et les convertir en de véritables entreprises; la conversion rapide des mouvements sociaux en mécanismes servant à l&#8217;ascension des nouveaux gestionnaires; la diffusion de l&#8217;économie informelle et de la sous-traitance; le fractionnement des processus de travail en modalités matérielles et immatérielles, etc. L&#8217;important est que ces deux visages du fascisme ont contribué à cette fragmentation et à ce goulet d&#8217;étranglement, en se faisant bien sûr concurrence. Et au lieu de chercher des solutions à ces problèmes et d&#8217;essayer de refonder une politique qui articule anticapitalisme, internationalisme, antiracisme, anti-machisme et anti-impérialisme, les personnes qui ont été à l&#8217;avant-garde des luttes anticapitalistes ont contribué à la formation d&#8217;un populisme identitaire raciste et sexiste.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Autres articles du site Passa Palavraen français <a class="urlextern" title="http://npnf.eu/spip.php?rubrique149" href="http://npnf.eu/spip.php?rubrique149" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc noreferrer">http://npnf.eu/spip.php?rubrique149</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notes</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>Cette région compte 26,5 millions d&#8217;habitants(soit un peu plus d&#8217;un quart de la population éthiopienne),44,3% de musulmans et 41,3% de chrétiens. Les Oromos représentent 85% de la population de cette province et les Amharas 9,1% (<em>NdT</em>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong>«Persister dans l&#8217;erreur?» <a class="urlextern" title="http://npnf.eu/spip.php?article796" href="http://npnf.eu/spip.php?article796" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc noreferrer">http://npnf.eu/spip.php?article796</a> (<em>NdT</em>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3] </strong><a class="urlextern" title="http://npnf.eu/spip.php?article783" href="http://npnf.eu/spip.php?article783" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc noreferrer">http://npnf.eu/spip.php?article783</a> (<em>NdT</em>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4] </strong>Marielle Franco (1979-2018), femme politique, militante du PSOL (trotskyste), sociologue, défendant les droits humains et LGBT, assasinée par d&#8217;ex-militaires sous l&#8217;ordre de trois députés du MDB, le parti du président Terner (<em>NdT</em>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5] </strong><em>Quilombo</em>: communauté d&#8217;esclaves en fuite (<em>NdT</em>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6] </strong>Dandara, guerrière et stratège, compagne de Zumbi das Palmares, dirigeant d&#8217;une république dissidente regroupant environ 20 000 esclaves évadés, Amérindiens, mulâtres et Blancs libres à la fin du XVIIesiècle, au nord-est du Brésil. Son mari fut décapité et elle se jeta dans le vide du haut d&#8217;une falaise plutôt que d&#8217;être arrêtée (<em>NdT</em>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7] </strong><a class="urlextern" title="http://npnf.eu/spip.php?article634" href="http://npnf.eu/spip.php?article634" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc noreferrer">http://npnf.eu/spip.php?article634</a> (<em>NdT</em>).</p>
<p style="text-align: center;"><em>Traduit en français par Yves Coleman et publié sur </em><a href="http://npnf.eu/spip.php?article807" target="_blank" rel="noopener noreferrer">http://npnf.eu/spip.php?article807</a></p>
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