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	<title>Burkina_Faso &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>A revolta popular em Burkina Faso</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Nov 2014 15:29:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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					<description><![CDATA[Indignados contra a pobreza, corrupção e concentração de poder, milhares de jovens enfrentaram  o aparato repressor do Estado em protestos que tomaram as principais cidades do país durante a última semana de outubro. Por Vavá Oliveira e Janis Corda]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Vavá Oliveira e Janis Corda</h3>
<p style="text-align: justify;">“Blaise Campaoré é como o ébola!” Foi o que se ouviu nas ruas de Ouagadougou, capital de Burkina Faso, enquanto manifestantes incendiavam o Parlamento, tomavam emissoras de TV e depunham o presidente que estava há 27 anos no poder. Indignados contra a pobreza, corrupção e concentração de poder, milhares de jovens enfrentaram  o aparato repressor do Estado em protestos que tomaram as principais cidades do país durante a última semana de outubro. No dia 31, o presidente anunciou a sua renúncia, mas as estruturas do regime mais antigo da África Ocidental continuam de pé.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>27 anos em quatro dias </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Como aconteceu na Guiné-Conacri (2009) e no Senegal (2012), a revolta teve início após o presidente submeter ao parlamento uma lei que autorizaria a sua candidatura à reeleição nas eleições de 2015. Em oposição ao projeto que alteraria a Constituição, o Fronte Progressista Sankarista (FPS)<a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a> e os jovens do movimento Balai Citoyen convocaram manifestações de rua. Quatro dias de protestos (28 a 31 de outubro) pacíficos reprimidos com violência pelo Estado levaram à morte de oito manifestantes, prisão de dezenas de ativistas e à desestabilização do regime liderado por Blaise.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos dois primeiros dias da revolta, manifestações contra a lei foram reprimidas com bombas de gás lacrimogêneo, bastonadas e prisões arbitrárias. Manifestantes ficaram feridos pela ação policial na capital e em Bobo-Dioulasso, segunda maior cidade do país.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 30, os protestos adquiriram características de insurreição. Era a data prevista para a votação no parlamento do polêmico projeto de lei, e partidos de oposição junto a movimentos sociais convocaram a população a protestar em frente ao Parlamento. Mas os anseios das massas superaram o roteiro preestabelecido.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class=" wp-image-133063 alignright" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/07/BN-FH340_1030bu_M_20141030094801.jpg" alt="" width="425" height="395" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/07/BN-FH340_1030bu_M_20141030094801.jpg 916w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/07/BN-FH340_1030bu_M_20141030094801-300x279.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/07/BN-FH340_1030bu_M_20141030094801-768x714.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/07/BN-FH340_1030bu_M_20141030094801-452x420.jpg 452w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/07/BN-FH340_1030bu_M_20141030094801-640x595.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/07/BN-FH340_1030bu_M_20141030094801-681x633.jpg 681w" sizes="(max-width: 425px) 100vw, 425px" />Na manhã do dia trinta, sem qualquer aviso prévio, jovens tomaram as ruas de Bobo-Dioulasso e enfrentaram a polícia pedindo a libertação de todos os ativistas presos na noite anterior. Nem mesmo o exército conseguiu conter os manifestantes e todos os detidos foram libertados. Em Ouagadougou, as barricadas criadas pelos militares e policiais não surtiram efeito frente à decisão das massas de chegar a qualquer custo ao Parlamento. Rebelando-se contra decisões dos seus superiores, a maioria dos soldados se recusou a abrir fogo contra os manifestantes.</p>
<p style="text-align: justify;">No caminho rumo ao parlamento, os revoltosos incendiaram o hotel onde deputados estavam alojados, com recursos doados pelo presidente, para escapar à pressão popular. Ao se depararem com o Parlamento esvaziado, os manifestantes incendiaram setores do edifício antes de se dirigirem ao Palácio presidencial &#8211; onde chegaram a tempo de ver Campaoré evadir-se de helicóptero enquanto a sua guarda pessoal lançava bombas de gás lacrimogêneo. Ao menos quatro parlamentares tiveram suas casas saqueadas na capital.</p>
<p style="text-align: justify;">No mesmo dia, 30 de outubro, seguindo o <em>script</em> ditado pela comunidade internacional para diminuir o ímpeto popular, o presidente destituiu o governo, fechou o parlamento e declarou estado de emergência, com toque de recolher entre às 19h e 6h. O chefe do Estado Maior das Forças Armadas e aliado do regime, General H. Traoré, foi encarregado de repor a “ordem” no país. Contudo, a medida não surtiu efeito e as manifestações tornaram-se ainda mais intensas.</p>
<p style="text-align: justify;">Outros movimentos e partidos sankaristas aderem aos protestos e apesar das diferenças ideológicas entre eles, as organizações conseguem definir dois objetivos prioritários em comum: a destituição do presidente e a instauração de um governo de transição encarregado de realizar eleições presidenciais.</p>
<p style="text-align: justify;">Na manhã do dia 31, as manifestações tomam mais uma vez as ruas da capital e, no interior, minas de ouro<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a> exploradas por uma empresa russa com participação do estado burkinabê são pilhadas. As casas da família Campaoré são também depredadas e saqueadas pela população. As manifestações já não seguem qualquer roteiro e as organizações declaram que a população passou a agir por conta própria. Os manifestantes exigem a imediata renúncia do presidente. Saques a casas de parlamentares do regime se alastram pela capital Ouagadougou, mas os pedidos de serenidade feito pela oposição já não surtem efeito. O movimento Balai Citoyen declara em nota que “o poder caiu nas ruas” e que só a renúncia do presidente traria o país de volta à “normalidade”.</p>
<p style="text-align: justify;">No início da tarde, o presidente Blaise Campaoré declara em comunicado a sua renúncia, a vacância do poder e a convocação de eleições presidenciais em 90 dias.  Conforme prevê a Constituição, assume a liderança do Estado o porta-voz das Forças Armadas, o Tenente-Coronel Isaac Zida, militar apoiador do regime de Blaise e sub-comandante da guarda presidencial. De imediato, a sede do Estado Maior das forças Armadas foi cercada por integrantes do Balai Citoyen e simpatizantes que exigiam a nomeação do General Lougué – antigo Ministro da Defesa exonerado por Campaoré em 2004 por suspeita de complô contra o regime.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a frente partidária sankarista se opõe à nomeação de um militar e defende a indicação de um presidente de transição civil; o coletivo de Organizações da Sociedade Civil Burkinabê (OSC) defende a mesma posição em comunicado. No dia 3 de novembro, a plataforma dos partidos políticos de oposição comunicou em coletiva de imprensa que em breve enviará ao Tenente-Coronel Zida um plano político que permita uma “transição civil e democrática”.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, 3 de novembro, a situação é a seguinte: o ex-Presidente Blaise Caampaoré saiu do país e encontra-se refugiado na Costa do Marfim.</p>
<p style="text-align: justify;">Relatos indicam que a situação em Ouagadougou é tranquila e os saques cessaram. Carros incendiados por manifestantes foram removidos e as ruas foram limpas. No interior, também não houve registro de incidentes nas últimas 24 horas. A população demonstra sinais de contentamento e não há manifestações previstas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Quem é Blaise Campaoré?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Blaise Compaoré foi capitão do exército e ministro da justiça no governo do presidente Thomas Sankara. Liderou o golpe de estado que culminou no assassinato de Sankara em 1987 e presidiu um governo militar até 1991, quando foi eleito presidente da República nas primeiras eleições depois o golpe. Em 2008, M. Prince Johnson, antigo chefe militar liberiano, confirmou diante ao Tribunal Especial para a Serra Leoa que “Foi Compoaré quem mandou matar Sankara, com o auxílio do presidente ivoriano Houphouët-Boigny”. Esta versão também foi confirmada por outros testemunhos liberianos que chamam em causa também os serviços secretos franceses e a CIA. Depois de assumir o poder em 1987, Compaoré lança uma campanha de “retificação” da economia, visando reajustar a política econômica do país e restabelecer a cooperação com a França.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class=" wp-image-133064 alignleft" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/07/gaddafi-426-131529391283773800.jpg" alt="" width="355" height="200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/07/gaddafi-426-131529391283773800.jpg 440w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/07/gaddafi-426-131529391283773800-300x169.jpg 300w" sizes="(max-width: 355px) 100vw, 355px" />A constituição de 1991 instaura o multipartidarismo, mas o cenário político nacional continua dominado pelo partido do presidente, que é reeleito em 1998, 2005 e 2010. Altera a constituição duas vezes, em 1997 e em 2000, para poder estender o seu mandato. Apesar do suspeito envolvimento no tráfico de drogas e da proximidade com Charles Taylor e Muammar Gaddafi, ele goza de uma boa reputação no estrangeiro, sobretudo na França.</p>
<p style="text-align: justify;">A consagração internacional chega em 2008: em visita oficial aos Estados Unidos, os dirigentes do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional felicitam Compaoré “pelo engajamento na boa governação econômica e pela luta contra a pobreza”. No mesmo ano, a ONU classifica Burkina Faso como o país com o maior índice de analfabetismo do mundo (75%). Em 2014, 25% da população ativa encontra-se desempregada e mais da metade da população vive com cerca de um dólar por dia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>“Os filhos de Sankara cresceram”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Apesar das diferentes origens, princípios e objetivos, a maioria das organizações de oposição ao regime Campaoré reivindicam os ideais de Thomas Sankara (1950-1987). Militar de formação marxista-leninista, Sankara chegou ao poder através de um golpe de Estado civil-militar em 4 de agosto de 1983.</p>
<p style="text-align: justify;">Dotado de uma enorme popularidade, o jovem Capitão, em poucos anos, implementou programas que levaram o Alto Volta (antigo nome do país) a melhorar significativamente índices sociais e de saúde, além de superar problemas estruturais como a insegurança alimentar. Para isso, o “Che Guevara africano”, como é lembrado Sankara, criou comitês de base nas vilas do interior,  nacionalizou a produção, expulsou o Banco Mundial e o FMI e determinou que o desenvolvimento nacional seria alcançado com os recursos naturais do país, a agricultura e o comércio interno de produtos nacionais. As práticas culturais nefastas, como a mutilação genital feminina e o casamento forçado, foram combatidas sem concessão a relativismos culturais. A educação foi assumida como prioridade e a “emancipação da mulher” estava na ordem do dia.</p>
<p style="text-align: justify;">Thomas se inspirou no também militar Jonh Rawllings, presidente do Ghana à época, e no cubano Fidel Castro, para estabelecer as bases ideológicas e as instituições do seu regime. Tributário do pan-africanismo de Kuame N’Krumah, ele ainda encontrou espaço para inserir em seu discurso um forte clamor retórico de união supranacional contra o neocolonialismo e o imperialismo. Sankara foi um dos primeiros em África a proclamar a cooperação técnica sul-sul.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ele soube construir uma imagem de “chefe de Estado honesto e popular” ao ir morar com a família numa humilde casa em Ouagadougou, diminuir drasticamente o salário dos altos funcionários públicos (inclusive o seu próprio), trocar as Mercedes Benz dos ministros por carros populares e usar uma motocicleta para se locomover da sua casa ao trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">As conquistas sociais e a sua imagem mítica mobilizam hoje os jovens que eram crianças ou sequer tinham nascido quando Sankara foi executado. Ainda que sem recordação clara, eles têm consciência de que o “herói nacional” foi assassinado durante um golpe de Estado apoiado pela França e liderado pelo seu grande amigo e aliado político, Blaise Campaoré.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, a imagem do herói assassinado se sobrepõe à sua ideologia. O povo que se revoltou contra Campaoré e reivindica o legado de Sankara não fala em comunismo nem demonstra preocupação com a igualdade de gênero. “Bom governo e verdadeira democracia partidária” são as metas daqueles que se autoproclamam filhos do mito.</p>
<p style="text-align: justify;">Os jovens herdeiros de Sankara saciaram o desejo de vingança pelo “pai” assassinado, mas veem-se ainda presos a familiares problemas africanos. A começar pelo julgo militar, pela exclusão da mulher da política e, finalmente, pela atribuição a terceiros do exercício do poder conquistado pelo povo.</p>
<p><img decoding="async" class=" wp-image-133062 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/07/WO-AU287_BURKIN_P_20141031173538.jpg" alt="" width="533" height="355" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/07/WO-AU287_BURKIN_P_20141031173538.jpg 749w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/07/WO-AU287_BURKIN_P_20141031173538-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/07/WO-AU287_BURKIN_P_20141031173538-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/07/WO-AU287_BURKIN_P_20141031173538-640x426.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/07/WO-AU287_BURKIN_P_20141031173538-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 533px) 100vw, 533px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong>:</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> Trata-se do <em>Front Progressiste Sankariste</em>, uma plataforma de partidos políticos que reivindica o legado do ex-presidente Thomas Sankara (1950-1987) e faz oposição ao regime de Blaise Campaoré.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> Burkina Faso é o quarto maior produtor de ouro em África (54 países).</p>
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