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	<title>Chile &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Chile: da &#8220;Plaza de la Dignidad&#8221; à &#8220;Colonia Dignidad&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Jan 2026 12:30:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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					<description><![CDATA[ Eventos como o estallido social podem interromper por um momento a lógica individualista dominante; mas, sem a capacidade de se enraizar e de durar no tempo, essa lógica tende inevitavelmente a se reafirmar. Por Alessandro Peregalli ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Alessandro Peregalli</h3>
<p style="text-align: justify;">No último dia 14 de dezembro, minutos após o triunfo eleitoral do candidato da extrema direita chilena, José Antonio Kast, com contundentes 58,2% dos votos, um dos memes que apareceram repetidamente nos meus grupos de WhatsApp ou no meu <em>feed</em> do Instagram dizia a seguinte frase: <em>2019 Dignidad, 2025 Colonia Dignidad</em>. Em outubro de 2019, de fato, o conceito de “dignidade” havia sido colocado no centro de uma série de reivindicações, materiais e simbólicas, durante o <em>estallido social</em> que fez tremer os alicerces do modelo neoliberal chileno — a ponto de os manifestantes terem rebatizado como “Plaza de la Dignidad” a Plaza Italia de Santiago, que por meses havia sido seu principal ponto de encontro. Apenas seis anos depois, aquela “dignidade” que o Chile prometia recuperar transformou-se tragicamente no seu oposto.</p>
<p style="text-align: justify;">“Colônia Dignidade” foi uma comunidade agrícola isolada e autossuficiente fundada em 1961 pelo ex-militar nazista Paul Schäfer, que funcionava como uma seita religiosa e ideológica na qual os membros eram submetidos a trabalho escravo, separação forçada de crianças de suas famílias e abusos sexuais constantes. Durante a ditadura de Pinochet, a colônia serviu também como centro clandestino de detenção, tortura e extermínio de opositores políticos. Embora não provenha exatamente dessa experiência, o pai do recém-eleito presidente Kast, Michael Martin Kast Schindele, era um ex-nazista que fugiu clandestinamente para o Chile em 1950, onde fundou uma empresa de embutidos chamada Bavaria. Seu irmão mais velho, Miguel, foi um influente <em>Chicago Boy</em>, como eram chamados os economistas que ditavam a linha econômica do regime militar, inspirados pela escola neoliberal de Chicago. No referendo de 1988, José Antonio Kast votou a favor da continuação da ditadura e posteriormente sempre reivindicou a herança da experiência de Pinochet. Após uma longa militância no partido da direita pós-pinochetista UDI (União Democrata Independente), Kast fundou em 2019 o mais radical Partido Republicano, com o qual foi eleito presidente, depois de ter sido derrotado nas duas eleições anteriores.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158452 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/unnamed.jpg" alt="" width="512" height="284" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/unnamed.jpg 512w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/unnamed-300x166.jpg 300w" sizes="(max-width: 512px) 100vw, 512px" />Não é fácil, hoje, compreender as razões de uma reviravolta política tão radical ocorrida no Chile em tão pouco tempo. Meu propósito, nestas linhas, é tentar reconstruir os acontecimentos mais importantes dos últimos seis anos, para depois traçar algumas pistas de interpretação, articuladas em torno de três nós fundamentais: a capacidade de resiliência do neoliberalismo chileno, sobretudo no plano subjetivo do corpo social chileno; a natureza fundamentalmente contrarrevolucionária daquela “nova esquerda” chilena que chegou ao governo com Gabriel Boric em 2021, não tanto como “produto” mas sobretudo como “reação” ao <em>estallido social</em>; e o impasse vivido hoje, em nível global, pelo pensamento e pela estratégia revolucionários, bem como pela própria ideia de revolução, que o caso chileno evidenciou de maneira paradigmática.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O Pacto de 15 de novembro e o processo constitucional</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O <em>estallido social</em> chileno eclodiu em 18 de outubro de 2019, quando, após a repressão a um protesto de secundaristas contra o aumento da tarifa do metrô de Santiago, várias estações foram incendiadas. A revolta se espalhou rapidamente por todo o país, com ocupações de praças e destruição de agências bancárias, estabelecimentos comerciais, prédios públicos, igrejas e monumentos associados à longa história de colonialismo. O então presidente de direita Sebastián Piñera reagiu decretando o Estado de Emergência, que causou — segundo o Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH) — 45 mortes e quase 500 traumas oculares (com 82 pessoas que perderam completamente a visão), além de 1.082 casos de tortura e tratamentos cruéis, desumanos e degradantes, e 282 agressões sexuais.</p>
<p style="text-align: justify;">Em resposta à repressão, no dia 25 de outubro realizou-se a maior manifestação da história do Chile, com a participação de 3 milhões de pessoas em todo o país, em uma população total de 19 milhões. Apesar do toque de recolher decretado pelo governo, a mobilização continuou por semanas, com confrontos diários com os <em>C</em><em>arabineros</em> e a participação extraordinária de jovens provenientes das periferias urbanas que constituíram a chamada <em>primera línea</em>, um cordão dedicado a manter a polícia ocupada para permitir a participação das famílias nas manifestações.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, multiplicaram-se as greves, sobretudo de trabalhadores portuários que, considerando a extensão marítima do país, representam um setor extremamente estratégico para a economia nacional. No dia 12 de novembro, a plataforma Unidade Social, uma coalizão de sindicatos e organizações sociais, convocou uma greve geral por tempo indeterminado, com forte participação no serviço público (especialmente educação e saúde), além dos setores bancário, comercial, mineiro, da construção civil e, justamente, portuário.</p>
<p style="text-align: justify;">As duas principais reivindicações que emergiram nessa conjuntura — e que articularam todas as demais, desde o fim do sistema de privatização das aposentadorias, da água e dos recursos naturais até a luta contra o extrativismo; da defesa dos direitos sindicais à legalização do aborto; do acesso universal e gratuito à universidade à defesa dos direitos territoriais dos povos originários — foram a renúncia de Piñera e a convocação de uma nova Assembleia Constituinte, que permitisse superar a Constituição imposta por Pinochet em 1980 e todo o seu correlato de políticas neoliberais. A resposta do poder político articulou-se então em torno desses dois eixos, buscando por um lado garantir a continuidade institucional do governo e, por outro, conceder às ruas o início de um processo de reforma constitucional que pudesse ser limitado, canalizado e controlado pelo marco institucional vigente.</p>
<p style="text-align: justify;">Para que isso funcionasse, contudo, era necessária a colaboração da oposição política. Na noite entre 14 e 15 de novembro, a grande maioria dos partidos representados no Congresso assinou o Acordo pela Paz Social e a Nova Constituição, após muitas horas de negociações transmitidas ao vivo pela televisão. Endossaram a decisão a ex-Concertação de Partidos pela Democracia — uma coalizão da esquerda neoliberal chilena, com protagonismo dos partidos Socialista (PS) e Democrata-Cristão (PDC) — e, à sua esquerda, uma parte da Frente Ampla (FA), entre eles o jovem deputado Gabriel Boric, enquanto outra parte da FA e o Partido Comunista (PC) rejeitaram o acordo. Já a partir do próprio nome, este evidenciava, em primeiro lugar, a necessidade de restabelecer a paz social no Chile, em troca da promessa de um processo constituinte a ser realizado segundo regras extremamente restritivas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-135392" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/12/Chile-Ivan-Alvarado-2.jpg" alt="" width="1230" height="819" />Embora os protestos tenham continuado de forma constante nas semanas seguintes, o acordo atingiu o objetivo de superar a fase mais dura das mobilizações, encerrando a greve geral, salvaguardando a presidência da República e a impunidade dos <em>C</em><em>arabineros</em>, e deslocando a atenção de parte dos movimentos sociais para o processo constituinte. As assembleias territoriais que haviam se constituído ao longo da revolta começaram a se dividir quanto à adesão ou não a esse caminho, enquanto a chegada do verão passou a esvaziar as ruas. Em 8 de março de 2020, uma enorme manifestação feminista prometia reabrir o ciclo de mobilizações, mas o governo foi salvo pela eclosão da pandemia da Covid-19, que permitiu restabelecer — desta vez com maior legitimidade social, dada a ameaça sanitária — o estado de exceção e o toque de recolher. O longo período de confinamento doméstico, além de evidenciar o agravamento da crise social e psicológica da sociedade, teve evidentemente um efeito de desagregação daqueles vínculos que haviam se formado de maneira intensa, porém breve, no calor da insurreição popular. Ao mesmo tempo, a pandemia permitiu adiar de abril a outubro o início do processo constituinte.</p>
<p style="text-align: justify;">Este último, na forma prevista pelo acordo de 15 de novembro, apresentava enormes limitações. Em primeiro lugar, porque se baseava em uma Convenção Constitucional convocada pelo Parlamento e coexistente com a plena continuidade institucional dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário vigentes. Não se tratava, portanto, de uma Assembleia Constituinte plenamente soberana, cujo poder emanasse diretamente do povo. Em segundo lugar, o cronograma estabelecido — agravado pela pandemia — abria o risco de um desgaste institucional, canalizando grande parte das energias populares para eventos eleitorais contínuos, como os plebiscitos de início e de encerramento do processo e, entre eles, um ciclo de eleições municipais, regionais, parlamentares e presidenciais. Em terceiro lugar, a Convenção estava limitada por um altíssimo quórum de dois terços para a aprovação de cada artigo, o que garantia à direita e à ex-Concertação um poder de veto permanente. Por fim, todos os tratados internacionais — entre eles cerca de trinta acordos de livre comércio assinados pelo Chile nas últimas décadas — eram considerados intocáveis e não passíveis de revisão.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar desses obstáculos, após a fase mais dura do primeiro ano da pandemia — durante o qual, em todo caso, a iniciativa política popular não cessou totalmente, dando origem a experiências de cozinhas comunitárias nos bairros, greves de trabalhadores da saúde, protestos pela libertação dos presos políticos da revolta, a greve de fome de um grupo de detentos mapuches e diversas insubordinações nas prisões — o início do processo constituinte parecia sancionar uma mudança radical nos equilíbrios políticos do país. No plebiscito de 25 de outubro de 2020, um ano após o <em>estallido</em>, 78,3% da população votou a favor da abertura do processo constituinte, e 78,9% a favor de uma Convenção escolhida integralmente pela cidadania, e não por uma assembleia mista, eleita metade por sufrágio universal e metade pelo Parlamento. Nas eleições seguintes, em 11 de abril de 2021, para a composição dessa Convenção, as forças progressistas e independentes obtiveram uma ampla maioria. A Lista do Povo e a lista Independentes por uma Nova Constituição, promovidas por movimentos organizados fora dos partidos políticos, conquistaram respectivamente 26 e 11 dos 155 assentos; a lista Aprovo Dignidade, composta por uma aliança entre a FA e o PC, elegeu 28; 17 cadeiras foram reservadas a representantes dos povos indígenas e 11 foram conquistadas por candidatos independentes eleitos fora das listas eleitorais. Os partidos tradicionais saíram duramente derrotados, com 26 cadeiras para os partidos da ex-Concertação e 37 para a coalizão das direitas. No mesmo dia, candidatos comunistas e da FA venceram as eleições municipais nas principais cidades do país. A nota dissonante, contudo, foi a participação eleitoral de apenas 43% da população, um dado por muito tempo subestimado, mas que já prenunciava os limites do processo constituinte em curso.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses limites emergiram com força ao longo de todo o período de trabalhos da Convenção. Apesar das intenções iniciais dos movimentos sociais de exercer uma pressão constante sobre a assembleia, esta rapidamente passou a funcionar segundo lógicas semelhantes às do Congresso Nacional, atuando como um espaço separado do clamor popular que, apesar de tudo, a havia instaurado. Ao mesmo tempo, seu prestígio foi rapidamente abalado por alguns escândalos — o mais emblemático envolvendo o membro da Lista do Povo, Rodrigo Rojas Vade, que durante a campanha eleitoral havia se apresentado falsamente como doente terminal, o que lançou um enorme descrédito justamente sobre os setores mais radicais da Convenção —, pela campanha contrária dos grandes meios de comunicação e pela guerrilha digital de uma série de <em>bots</em> nas redes sociais, que exploraram polêmicas geradas pelo uso de linguagem inclusiva nos trabalhos parlamentares, como o emprego do termo “pessoa menstruante” em vez de “mulher”. Paralelamente, um acordo entre eleitos da FA, do PS e do PDC freou a iniciativa dos setores mais radicais de forçar os limites previamente impostos à Convenção — como a exigência de maioria simples em vez de dois terços, o questionamento da legitimidade das instituições vigentes e a inviolabilidade dos tratados internacionais — e deslocou o eixo das discussões dos temas econômicos para questões culturais e identitárias.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A eleição de Boric e a vitória do “</strong><em><strong>Rechazo</strong></em><strong>“</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O desgaste da Convenção Constitucional — com a desintegração da Lista do Povo após o escândalo Vade e uma série de conflitos internos — e o refluxo progressivo das mobilizações de rua conduziram o cenário político-eleitoral chileno a uma estabilização institucional, recolocando os partidos políticos tradicionais no centro da iniciativa política. Nas primárias para escolher o candidato da aliança Aprovo Dignidade, em julho de 2021, Gabriel Boric &#8211; que havia sido um dos responsáveis pelo acordo de pacificação de 15 de novembro de 2019 e, por isso, era duramente rejeitado pelos setores sociais protagonistas do <em>estallido social &#8211;</em> derrotou de forma surpreendente o candidato comunista Daniel Jadue, considerado mais próximo das demandas da revolta. Para a vitória de Boric contribuíram numerosos eleitores dos partidos da ex Concertação. Nas eleições de 21 de novembro de 2021, Boric ficou em segundo lugar, com 25,8% dos votos, sendo superado pelo candidato de extrema direita José Antonio Kast, que obteve 27,9%. Em terceiro lugar, a grande surpresa foi Franco Parisi, fundador do Partido da Gente, uma força “antipolítica” e tecno-populista, cujas principais propostas econômicas apontavam para um liberalismo radical e para a redução da burocracia pública (Estado mínimo). Parisi era uma figura ambígua, consultor econômico residente nos Estados Unidos, que acumulava uma dívida milionária por se recusar a pagar pensão alimentícia aos filhos. No segundo turno, em 19 de dezembro, Boric venceu com 55,87% dos votos, graças ao aumento da participação eleitoral de 47% para 56%, impulsionado sobretudo pelo voto dos setores populares.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-128743" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/10/Pinera-chile.jpg" alt="" width="980" height="551" />A figura de Boric havia emergido no movimento pela gratuidade do acesso ao sistema universitário em 2011. Junto à comunista Camila Vallejo e a Giorgio Jackson, da Frente Ampla, Boric fazia parte de uma geração política de elite no Chile, cujos membros se destacaram como figuras responsáveis e pacifistas, em oposição às práticas de ação direta dos coletivos anarquistas e insurrecionalistas, que no Chile têm uma forte presença especialmente entre estudantes do ensino médio das escolas das periferias urbanas.</p>
<p style="text-align: justify;">A trajetória política de Boric, assim como o seu governo, passou por um deslocamento constante à direita. Para vencer o segundo turno das eleições presidenciais, Boric moderou suas posições, e uma vez eleito nomeou o neoliberal Mario Marcel para o Ministério da Economia e vinculou o debate sobre reformas à negociação parlamentar, descartando qualquer apelo à mobilização social. Dado que sua base parlamentar original — a aliança entre a Frente Ampla e o Partido Comunista — havia obtido pouco mais de um quarto dos assentos, Boric passou a depender do apoio dos partidos da esquerda neoliberal, como o Partido Socialista (PS), a Democracia Cristã (DC) e o Partido pela Democracia (PPD), cujo peso se tornou cada vez mais central também dentro do próprio governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de se apresentar como defensor da aprovação da nova Constituição que estava sendo elaborada naquele período pela Convenção, desde o início do mandato, em março de 2022, o governo Boric não fez senão obstaculizar o processo constituinte, que já se encontrava em crise por dinâmicas próprias. Isso ocorreu tanto por escolhas políticas estruturais que iam na direção oposta às reivindicações expressas no <em>estallido social</em>, quanto por erros grosseiros decorrentes da total inexperiência política da classe dirigente que chegou ao governo com ele. A soma desses fatores — frequentemente entrelaçados — acabou não apenas comprometendo a nova Constituição, mas também facilitando, quatro anos depois, a chegada da direita neo-pinochetista ao Palácio da Moneda.</p>
<p style="text-align: justify;">Apenas quatro dias após a posse do governo, a nova ministra do Interior, Izkia Sassen — que, como presidenta do Colégio Médico, havia se destacado pelo bom trabalho no enfrentamento da pandemia e havia feito campanha por Boric — decidiu entrar no território mapuche de Temucuicui, na região da Araucania, sem diálogo prévio com as autoridades locais. Sua delegação foi recebida com barricadas, um veículo incendiado e disparos de armas de fogo, sendo forçada a evacuar a área. No entanto, o erro mais grave cometido pelo governo foi, sem dúvida, a recusa em permitir o quinto saque dos fundos das AFP. As AFP (Administrações de Fundos de Pensão) são entidades financeiras encarregadas de gerir integralmente as aposentadorias dos chilenos, em um sistema previdenciário totalmente privatizado desde o governo Pinochet. Durante a pandemia, sob pressão da oposição, o governo Piñera havia aceitado permitir quatro retiradas dos valores mensalmente confiscados dos salários pelas AFP. Uma vez no governo, Boric recuou e bloqueou novos saques, justificando a decisão com a necessidade de proteger a economia de pressões inflacionárias. Essa decisão contribuiu para reduzir rapidamente o apoio popular ao governo, que se manteve em torno de 38% durante os meses que antecederam o plebiscito final da Constituição — um resultado idêntico ao percentual obtido pelo voto favorável à nova Carta no plebiscito de 4 de setembro (38,1% para o <em>Apruebo</em> contra 61,9% para o <em>Rechazo</em>). Durante toda a campanha eleitoral do referendo constitucional, além disso, Boric contribuiu para deslegitimar os trabalhos da Convenção ao assegurar que, após a eventual aprovação do texto, seria aberta uma discussão sobre correções a serem feitas na Carta.</p>
<p style="text-align: justify;">Considerada por muitos como estrondosa, a derrota no referendo de 4 de setembro foi objeto de inúmeras interpretações. Segundo <a class="urlextern" title="https://lalineadefuego.info/sergio-grez-tras-la-victoria-del-rechazo-chile-seguira-viviendo-una-especie-de-reforma-constitucional-permanente/" href="https://lalineadefuego.info/sergio-grez-tras-la-victoria-del-rechazo-chile-seguira-viviendo-una-especie-de-reforma-constitucional-permanente/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">o historiador Sergio Grez</a>, as causas da vitória do <em>Rechazo</em> são certamente complexas, sobretudo “porque não houve um único <em>Rechazo</em>, mas múltiplos <em>rechazos</em>, ou seja, diversas razões que, somadas, constituíram uma esmagadora maioria de rejeição ao texto proposto”. Entre os motivos apontados, destaca-se o voto de castigo contra o governo Boric e suas políticas de continuidade neoliberal, a rejeição do desempenho da Convenção Constitucional — e de alguns convencionais em particular — e uma reação conservadora de amplos setores da população, sobretudo das classes populares, diante de propostas como o Estado plurinacional, o direito ao aborto aparentemente sem limites, além das já mencionadas polêmicas em torno da chamada “linguagem inclusiva”. A questão da plurinacionalidade, em especial, proposta pelos convencionais com o objetivo de imitar as constituições equatoriana de 2008 e boliviana de 2009, deu margem a uma série de alertas sobre o risco de “desintegração” da unidade nacional (habilmente explorados pela campanha da direita); não levou em conta a especificidade da presença indígena no Chile, muito menor em termos absolutos e muito mais concentrada geograficamente em algumas regiões; e foi contestada também por amplos setores do próprio movimento mapuche, como a histórica Coordinadora Arauco Malleco (CAM), que boicotou os trabalhos da Convenção ao reivindicar uma independência política plena em relação ao Estado chileno.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-140958" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1.jpg" alt="Kast e a bolsonarização da política chilena" width="900" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />De modo geral — argumenta Grez — todos os temas baseados em questões identitárias (ambientalismo, feminismo, plurinacionalidade, regionalismo e “territórios”) não geraram adesão para além dos respectivos “nichos” que haviam possibilitado a eleição de alguns convencionais. Em contraste com a hiperabundância de temas identitários, as questões relacionadas aos trabalhadores e à sua relação com o capital ocuparam um papel marginal: dos 388 artigos, apenas seis eram dedicados a esses temas. Isso refletia também a própria composição da Convenção, formada majoritariamente por advogados e jovens profissionais, com ausência quase total de dirigentes sindicais ou pessoas oriundas dos setores populares. Tudo isso foi habilmente explorado pela propaganda do <em>Rechazo</em>, a partir da qual se construiu uma campanha de <em>fake news</em> que muitos apoiadores do governo apontam como causa principal da derrota. No entanto, para Grez, o fator decisivo do fracasso do projeto de nova Constituição foi o fato de que ela não representava uma ruptura com a ordem neoliberal, nem garantia as reivindicações mais sentidas que emergiram na rebelião de outubro. Com efeito, “embora o texto redigido pela Convenção Constitucional proclamasse direitos como saúde, educação, moradia e seguridade social, entre muitos outros, ele não os assegurava, pois não incluía nenhuma norma que permitisse seu financiamento (como a nacionalização dos recursos naturais, expressamente descartada pelos convencionais)”. Por fim, um motivo frequentemente apresentado para explicar o amplo voto no <em>Rechazo</em> foi a decisão do governo — iludido pelo aumento da participação eleitoral no segundo turno presidencial que lhe garantiu a vitória contra Kast — de introduzir o voto obrigatório no Chile, com a previsão de multas elevadas para quem não comparecesse às urnas, levando muitos eleitores a votar pelo “não” como forma de reagir a essa imposição, punindo o governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Logo após o plebiscito, os partidos acordaram um novo processo constitucional, com um Conselho Constitucional eleito pela cidadania, porém sem possibilidade de candidaturas independentes, e acompanhado por um comitê de especialistas. Nas eleições para definir esse Conselho, a extrema direita saiu vitoriosa, com o Partido Republicano conquistando 22 das 50 cadeiras em disputa. Como consequência, o texto constitucional produzido por essa nova assembleia era ainda mais à direita do que a própria Constituição pinochetista vigente. No entanto, em um segundo plebiscito, realizado em dezembro de 2023, os chilenos rejeitaram novamente (55,7%) essa segunda proposta, encerrando — ao menos por ora — as tentativas de mudança constitucional e mantendo em vigor a Constituição de 1980.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O longo crepúsculo do governo Boric</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Com a derrota no referendo, o governo Boric entrou precocemente em uma longa fase crepuscular, renunciando explicitamente a qualquer tentativa — ainda que mínima — de transformação social, e concentrando-se na estabilização e na normalização do país. Ao longo dos quatro anos de mandato, o Executivo não apresentou nenhuma iniciativa de relevo que o diferenciasse dos governos anteriores. Além disso, os setores da ex-Concertación conquistaram, no dia seguinte ao plebiscito, cada vez mais espaço dentro do governo, a começar pela nomeação, em setembro de 2022, de Carolina Tohá (PPD) para o Ministério do Interior, em substituição a Izkia Siches.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez o que mais revele esse deslocamento à direita seja a mudança de postura em relação aos <em>Carabineros</em>. Se antes de ser eleito Boric afirmava que era urgente uma “refundação” dessa corporação — que no Chile goza, aliás, de enormes privilégios econômicos e políticos desde a ditadura —, após a eleição passou a falar de “reforma” e, uma vez empossado, a manteve totalmente inalterada. A ponto de que, enquanto o próprio Piñera havia afastado 29 generais por atos de corrupção, Boric não substituiu sequer um. Como argumenta <a class="urlextern" title="https://outraspalavras.net/estadoemdisputa/o-chile-e-a-pedagogia-das-derrotas/" href="https://outraspalavras.net/estadoemdisputa/o-chile-e-a-pedagogia-das-derrotas/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Gabriel Teles</a>, durante o governo Boric foram aprovadas dezenas de leis voltadas à segurança pública, leis que aumentaram penas, limitaram ocupações, reforçaram as atribuições policiais e endureceram o tratamento penal dos protestos. Ao mesmo tempo, nos territórios mapuche, o estado de exceção e a militarização foram mantidos e renovados repetidas vezes, com operações policiais letais, detenções preventivas prolongadas e continuidade da criminalização da luta territorial. Segundo Grez, Boric chegou inclusive a tentar algo que nem mesmo o governo Piñera havia ousado fazer: promover um projeto de lei para que as forças armadas pudessem vigiar a chamada “infraestrutura crítica” sem necessidade de solicitar ao Parlamento a autorização do Estado de Emergência.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158451" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/unnamed.png" alt="" width="512" height="325" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/unnamed.png 512w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/unnamed-300x190.png 300w" sizes="auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px" />Essa posição do governo contribuiu para criar uma verdadeira fissura entre o Executivo e os setores sociais que haviam sido protagonistas do <em>estallido</em>. Um episódio menor, e até ridículo, é demonstrativo dessa distância afetiva e simbólica: em maio de 2024, entrevistado sobre a figura do <em>perro matapacos</em> (“cão mata-policiais”) — um cachorro preto que estava na linha de frente de todas as manifestações, com um lenço vermelho no pescoço, e que se tornou um símbolo contra a repressão durante a revolta —, Boric o qualificou como uma figura <a class="urlextern" title="https://www.elmostrador.cl/noticias/pais/2024/05/02/presidente-boric-sobre-imagen-del-perro-matapacos-es-burda-ofensiva-y-denigrante/" href="https://www.elmostrador.cl/noticias/pais/2024/05/02/presidente-boric-sobre-imagen-del-perro-matapacos-es-burda-ofensiva-y-denigrante/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“ofensiva e denegrinte”</a>. Essa distância entre o governo e as ruas tornou-se totalmente evidente em 11 de setembro de 2023, durante a manifestação pelos 50 anos do golpe de Estado de Pinochet, quando, para que os membros do governo pudessem marchar sem sofrer contestações, o centro de Santiago foi completamente militarizado, proibindo-se o acesso de quase todos os manifestantes à Alameda central, reservada apenas a militantes de partidos e organizações de direitos humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">No plano das reformas que, segundo as promessas iniciais do governo, deveriam contribuir para superar o modelo neoliberal, os resultados efetivos foram extremamente limitados. No início de 2023, o projeto de uma reforma tributária progressiva — uma das principais promessas econômicas do governo — foi rejeitado pela Câmara dos Deputados e rapidamente arquivado. O principal êxito do governo foi a aprovação de uma reforma trabalhista limitada, que permite introduzir, até 2028, a jornada semanal de 40 horas, em substituição às atuais 45, mas que não altera em nada os (escassos) direitos e as (precárias) condições de trabalho. A outra reforma que avançou foi a do sistema previdenciário, que não altera a gestão privada das aposentadorias pelas AFP, mas busca introduzir alguns benefícios solidários, com atenção à compensação de gênero e aos anos de contribuição. Ambas as reformas tiveram como principal articuladora a ministra do Trabalho, Jeannette Jara, do Partido Comunista, que depois foi escolhida nas primárias do centro-esquerda como candidata presidencial, sendo derrotada por Kast. Em sentido oposto a esses tímidos avanços, o governo ratificou, no final de 2022, o tratado de livre comércio transpacífico TPP-11, duramente criticado pelo próprio Boric quando ainda era deputado.</p>
<p style="text-align: justify;">Abundantes, por outro lado, foram os <a class="urlextern" title="https://www.theclinic.cl/2025/12/14/la-serie-de-errores-que-cometio-el-gobierno-de-gabriel-boric-que-pavimento-el-camino-para-la-holgada-victoria-de-su-antiguo-rival-republicano/" href="https://www.theclinic.cl/2025/12/14/la-serie-de-errores-que-cometio-el-gobierno-de-gabriel-boric-que-pavimento-el-camino-para-la-holgada-victoria-de-su-antiguo-rival-republicano/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">escândalos que envolveram a administração Boric</a> ao longo do mandato e contribuíram para desgastar sua imagem. Em junho de 2023, foi aberta uma investigação sobre mais de 50 fundações ligadas a políticos do campo governista por desvio de recursos públicos da ordem de 100 milhões de dólares, enquanto uma interceptação telefônica revelava o envolvimento do próprio presidente no caso. Em julho de 2023, veio à tona um furto no Ministério do Desenvolvimento Social, no qual os ladrões se fizeram passar pelo ministro Giorgio Jackson, braço direito de Boric. O escândalo foi enorme e levou à renúncia do ministro. Em janeiro de 2024, foram reveladas uma série de reuniões — não registradas na plataforma de lobby — realizadas na casa do político de direita Pablo Zalaquett, entre os ministros do Trabalho, do Meio Ambiente e da Economia com empresários das AFP e da indústria do salmão. Em fevereiro de 2024, um incêndio devastador destruiu milhares de moradias na Região de Valparaíso e causou centenas de mortes e, embora o desastre não tenha sido responsabilidade direta da administração, quase dois anos depois registra-se apenas cerca de 50% de avanço na reconstrução habitacional, com mais de 2.500 moradias em construção ou ainda por iniciar as obras.</p>
<p style="text-align: justify;">No final de 2024, dois verdadeiros terremotos atingiram o governo, sobretudo no plano simbólico. O primeiro envolveu uma de suas principais bandeiras de luta: o feminismo. Em 17 de outubro, o jornal <em>La Segunda</em> publicou que o subsecretário do Interior, Manuel Monsalve, enfrentava uma denúncia por abuso sexual. Tanto Carolina Tohá quanto o próprio Boric tinham conhecimento do caso há dois dias, mas não tinham tomado providências, enquanto a ministra da Mulher, Antonia Orellana, e a porta-voz do governo, Camila Vallejo, foram mantidas à margem da situação. O segundo escândalo envolveu nada menos que o nome de Salvador Allende. No fim de 2024, o Estado decidiu comprar a casa de Allende para transformá-la em um museu, mas estourou um escândalo porque entre os proprietários havia uma ministra (Maya Fernández Allende, neta do ex-presidente socialista), algo proibido pela Constituição chilena. Isso levou à renúncia da ministra dos Bens Nacionais, Marcela Sandoval, à perda do mandato da senadora Isabel Allende, filha de Salvador Allende e envolvida na operação, e ao depoimento do próprio Boric perante a Justiça.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto de desgaste do governo e de refluxo das mobilizações sociais, o crescimento da extrema direita — já visível desde a derrota do primeiro plebiscito constitucional e das eleições para o segundo projeto de nova Constituição — consolidou-se, apoiando-se em um deslocamento da atenção midiática das questões relativas ao modelo econômico-social para temas como segurança e imigração. De fato, a imigração no Chile, que nos anos 2010 havia registrado um aumento de haitianos, colombianos e peruanos, facilitado por uma série de leis permissivas do Estado chileno, cresceu de forma significativa a partir de 2017-2018 com o forte fluxo de venezuelanos após o início da crise econômica no país caribenho. Esse fluxo aumentou ainda mais depois da pandemia, levando a uma crise humanitária em 2023 na fronteira com o Peru e a um aumento da percepção de insegurança nas principais cidades chilenas, amplamente explorado pela propaganda da extrema direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Como analisou Andrés Kogan Valderrama no <a class="urlextern" title="https://avispa.org/triunfo-de-kast-del-cambio-de-epoca-al-retorno-conservador-en-chile/" href="https://avispa.org/triunfo-de-kast-del-cambio-de-epoca-al-retorno-conservador-en-chile/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Avispa Midia</a>, “essas eleições se desenvolveram em um clima político fortemente orientado para a ultradireita, no qual discursos repressivos em matéria de segurança — ao estilo Bukele —, a criminalização da migração — ao estilo Trump — e a ideia de que o setor público é intrinsecamente corrupto — ao estilo Milei — penetraram profundamente na sociedade chilena; por isso, a ideia de um governo de emergência liderado por José Antonio Kast ganhou força”. Os resultados das eleições presidenciais de 2025 são representativos desse novo clima político: no primeiro turno, em 16 de novembro, atrás de Jeannette Jara — candidata de todo o campo governista, que obteve apenas 26,8% dos votos — ficaram, em sequência, Kast com 23,9%, Parisi com 19,7%, Johannes Kaiser (autoproclamado “reacionário” e “paleolibertário”, protagonista em 2024 de uma cisão ainda mais à direita do Partido Republicano, com a fundação do Partido Nacional Libertário) com 13,9%, e a candidata da direita tradicional, Evelyn Matthei, com 12,5%. No segundo turno, em 14 de dezembro, os votos dos três últimos se transferiram majoritariamente para Kast, permitindo-lhe uma vitória histórica de 58,8%.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2019-25: resiliência neoliberal</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se agora afastarmos o olhar da rígida cronologia dos fatos que levaram à transformação de um símbolo — a dignidade — no seu oposto — Colônia Dignidade —, podemos tentar elaborar algumas hipóteses sobre as razões de uma tão clamorosa reviravolta. Me limito a considerar três questões fundamentais: a resiliência neoliberal dentro e para além do <em>estallido</em> chileno, a função reacionária desempenhada pelo reformismo da Frente Ampla e do governo Boric, e o fechamento dramático do horizonte revolucionário nas práticas e nos conteúdos da revolta de 2019. Todos esses elementos, a meu ver, não são de forma alguma exclusivos do Chile, mas representam, talvez neste caso de maneira mais paradigmática do que em outros, o cenário atual — o “espírito do tempo”? — em várias partes do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um artigo publicado em 2019, logo após a vitória eleitoral de Bolsonaro, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2019/01/125118/" href="https://passapalavra.info/2019/01/125118/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">um grupo de militantes brasileiros</a> perguntava-se como era possível que, cinco anos após a maior revolta social da história do Brasil, com reivindicações populares como a redução do custo do transporte público, a defesa dos territórios e a exigência de melhorias na educação e na saúde, quem tivesse colhido politicamente os frutos desse movimento fosse um <em>outsider</em> de extrema direita nostálgico da ditadura militar. Segundo esses militantes, “Jair Bolsonaro é um nome impreciso, mas potente, porque foi capaz de combinar a escalada repressiva com a rebeldia social liberada em 2013”. Nesse sentido, Bolsonaro — mas aqui podemos traçar um paralelismo com Kast —, após o refluxo da revolta, soube interpretar ao mesmo tempo uma frustração popular difusa, que havia sido um elemento importante do <em>estallido</em>, e uma demanda igualmente difundida por ordem, segurança e “normalidade”, que estava na base das exigências de repressão dessa mesma revolta. Nesse sentido, Kast conseguiu, desde 2019, apresentar-se como o candidato mais intransigente contra a rebelião popular, mas ao mesmo tempo manter seu perfil radical, de outsider, que foi capaz de captar, não necessariamente de maneira entusiasmada, mas às vezes como “mal menor”, uma parte do descontentamento social que não havia sido convencida por uma proposta ideológica de esquerda e que acabou frustrada em relação ao governo de Gabriel Boric.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-128740 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/10/191024000948-01-chile-protests-1022-large-169.jpg" alt="" width="460" height="259" /></p>
<p style="text-align: justify;">Um dos slogans mais comuns surgidos durante o período do <em>estallido</em> foi a ideia de que ”<em>Chile despertó</em>”. Seria fácil dizer que o Chile parecera ter logo voltado a adormecer. Talvez uma chave para essa sonolência esteja no profundo enraizamento da racionalidade neoliberal na sociedade chilena, um enraizamento que, no calor da revolta de 2019, talvez tenha sido subestimado. Em um artigo publicado após as eleições, <a class="urlextern" title="https://www.turno.live/el-chile-que-no-voto-por-la-izquierda" href="https://www.turno.live/el-chile-que-no-voto-por-la-izquierda" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Nelson Alvear</a> relativiza o consenso antineoliberal que emergiu no Chile após o <em>estallido</em> social. Para ele, fora do núcleo duro de movimentos, coletivos e comitês militantes formados na década anterior — do movimento estudantil dos “pinguins” em 2006 à luta pela gratuidade universitária em 2011, passando mais recentemente pelas grandes manifestações feministas e pelo movimento No+AFP —, “existe um outro Chile, ainda mais amplo: um país que não foi politizado pelas mobilizações estudantis nem pelo discurso antineoliberal, mas que acreditou sinceramente no relato do progresso individual. Para esses setores, o problema não é o mercado como princípio, mas o seu fracasso prático: salários insuficientes, serviços públicos deficientes, insegurança cotidiana. Daí o apoio a candidaturas &#8216;antissistema&#8217;, como a de Franco Parisi: expressões difusas de mal-estar que não oferecem um projeto, mas que marcam uma distância radical em relação à política tradicional”. Segundo Alvear, a rejeição da nova Constituição e o posterior deslocamento eleitoral para a direita “não expressam uma adesão entusiasmada ao conservadorismo, mas sim uma punição. Uma mensagem clara: a esquerda não soube falar com esse Chile majoritário. O problema não foi apenas político, mas também cultural. Uma parte da esquerda falou a partir de uma posição de incômoda superioridade moral, colocando em questão aspirações materiais elementares — ordem, estabilidade, segurança — como se fossem valores menores ou reacionários”.</p>
<p style="text-align: justify;">A resiliência do neoliberalismo tem a ver com o caráter de “racionalidade” deste último, que — como argumenta a teoria foucaultiana — o torna algo muito mais profundo do que uma simples ideologia ou um conjunto de dogmas e políticas específicas. A profundidade dessa racionalidade foi evidenciada pelo livro <em>Realismo Capitalista</em>, de Mark Fisher, que analisa a percepção difundida segundo a qual o capitalismo não é apenas o sistema dominante, mas é percebido como o único possível. Para Fisher, o capitalismo apresenta-se como natural e inevitável, produzindo, por meio de um complexo sistema de dispositivos de medo, avaliação constante e precariedade, uma subjetividade individualista que tende a se opor e a neutralizar visões alternativas que busquem enfrentar os problemas sociais e psíquicos que ele provoca a partir de uma perspectiva sistêmica e não individual. O resultado é que, embora o sistema econômico — baseado em um constante processo de destruição criativa — não possa deixar de produzir crises sociais contínuas, torna-se cada vez mais provável que essas crises sejam enfrentadas com uma demanda por mais neoliberalismo, competitividade e mérito. Nesse contexto, eventos como o <em>estallido</em> social podem, de fato, interromper por um momento a lógica individualista dominante e — na ruptura radical com a ordem política e com o fetiche da mercadoria, assim como na constituição de embriões de formas organizativas coletivas — criar prefigurações de uma possível sociedade alternativa; mas, sem a capacidade de se enraizar e de durar no tempo, para além do momento explosivo e efêmero da revolta, essa lógica tende inevitavelmente a se reafirmar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Progressismo como reação</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mas a que se deve a incapacidade desse “outro mundo possível”, surgido no <em>estallido</em>, de se enraizar, de se tornar uma nova hegemonia? Provavelmente as razões são muitas, mas gostaria de me concentrar aqui na função reacionária desempenhada pelo reformismo, tanto antes quanto durante o governo de Gabriel Boric. Em oposição à vulgata comum, no marxismo tradicional, de um fascismo entendido como instrumento da burguesia para esmagar uma revolução nascente, João Bernardo argumenta que o sucesso do fascismo sempre ocorreu não diretamente “contra”, mas “depois” da liquidação das forças revolucionárias pela ordem política existente, afirmando-se como alternativa “antissistema” (uma “revolta na ordem”) no contexto de desilusão e refluxo gerado pelo fracasso da revolução.</p>
<p style="text-align: justify;">Se pensarmos na história do fascismo — se de fato aceitarmos mobilizar esse paralelo discutível para descrever hoje a plataforma política de Kast no Chile — e, mais recentemente, em algumas experiências da extrema direita contemporânea, podemos identificar a sucessão cronológica proposta por Bernardo. Tanto o fascismo quanto o nazismo emergiram — de maneira mais ou menos rápida — no refluxo do Biênio Vermelho de 1919-20, na Itália, e da revolução espartaquista e da breve experiência da República Soviética da Baviera, na Alemanha — sendo que, neste segundo caso, a repressão foi inclusive orquestrada pelo governo social-democrata de Friedrich Ebert com o apoio das tropas paramilitares <em>freikorps</em>. Mais recentemente, são bastante emblemáticos o caso, já citado, do Brasil, e o dos Estados Unidos, onde Trump se afirmou, em 2016, no refluxo de um período de contestação social inaugurado em 2011 pelo Occupy Wall Street e prolongado em 2014 com o movimento Black Lives Matter. Em todos esses casos, antes da ascensão do fascismo, o levante social já tinha sido liquidado, seja pelo esgotamento da sua dinâmica interna como pelo trabalho sujo da elite liberal ou progressista no poder.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-128742 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/10/Chile-688x400.jpg" alt="" width="688" height="400" /></p>
<p style="text-align: justify;">Retomando o exemplo chileno, é possível argumentar que o <em>estallido</em> social de 2019 não foi derrotado pela extrema direita de Kast, mas pela ação do governo de Gabriel Boric — aclamado por muitos, de forma equivocada, como um aliado, senão um produto direto, da revolta social — à qual se somam uma série de fracassos estratégicos internos e uma boa dose de acaso e imprevisibilidade. Essa função “reacionária” do progressismo chileno manifestou-se tanto antes da chegada ao governo quanto durante os quatro anos de exercício do poder executivo, como podemos observar na sucessão de acontecimentos apresentada neste texto. <em>Antes</em>, o progressismo de Boric e da Frente Ampla salvou o sistema político (a queda iminente do governo Piñera era considerada altamente provável em novembro de 2019), freando a articulação entre motins urbanos e greve geral e permitindo canalizar as energias liberadas pela revolta para um percurso — tortuoso, desgastante e institucionalmente dirigido e limitado — de reforma constitucional. Nesse sentido, o início da hegemonia da extrema direita chilena não começou em 14 de dezembro de 2025, com a vitória eleitoral de Kast, nem em 4 de setembro de 2022, com a derrota do plebiscito constitucional, mas em 15 de novembro de 2019, quando Boric, setores da Frente Ampla, partidos da ex-Concertación e o governo Piñera assinaram o Acordo pela Paz e a Nova Constituição. Como argumenta Teles, com o processo constituinte e eleitoral, o conflito foi retirado do terreno em que produzia efeitos imediatos — a rua — e transferido para espaços onde tudo precisa ser convertido em linguagem jurídica, calendário político e negociação permanente.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Durante</em> seu período de governo, por sua vez, Boric criou as condições para o retorno da extrema direita. Realizando reformas de fachada que, em vez de atacar o modelo econômico, o modernizaram; defendendo instituições chilenas em crise de legitimidade, em primeiro lugar o Exército e os <em>Carabineros</em>; cooptando uma parte dos movimentos sociais e reprimindo com força os setores não alinhados, militarizando a Araucania contra a insurgência mapuche e garantindo um novo marco legal para a proteção das infraestruturas estratégicas; e mostrando constantemente, por meio de uma série interminável de escândalos, o profundo nível de corrupção e de cumplicidade com a classe empresarial da nova geração progressista no poder. Segundo Teles, a experiência chilena deixa uma lição desconfortável: “o progressismo não é uma etapa intermediária rumo à ruptura. Ele é, muito frequentemente, o mecanismo que impede que a ruptura avance. Governar uma crise estrutural sem enfrentá-la significa estabilizá-la em favor da ordem existente”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Revoltas sem revoluções</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se o progressismo representou uma barreira fundamental ao <em>estallido</em> social, se conseguiu deslocar as energias da rua para um caminho controlado e desgastante como o processo constituinte, chegando inclusive a cooptar muitas assembleias territoriais para reprimir com maior facilidade os setores mais radicais, isso não significa, contudo, que a revolta expressa em 2019 não tivesse limites próprios que a impediram de superar essas barreiras: de evitar a cooptação, o isolamento, a repressão e, em última instância, de não permitir que a raiva social fosse canalizada para propostas populistas e de direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Se aceitarmos a ideia de que as revoltas tendem a proliferar no capitalismo global a partir de ciclos, influenciando-se mutuamente nas práticas, nos símbolos e nos objetivos, é fácil enquadrar o <em>estallido</em> social chileno em um segundo ciclo de tumultos globais que se seguiu à grande crise de 2008. Após uma primeira fase de insurreições e proliferação de lutas anti-austeridade, que viu a rápida sucessão, em 2011, das primaveras árabes, dos <em>indignados</em> espanhóis, do Occupy Wall Street, das insurgências sociais na Grécia e, depois, em 2013, na Turquia e no Brasil, um novo ciclo parece ter se aberto em 2018 com o movimento dos coletes amarelos na França, a insurreição no Sudão e a luta pela independência de Hong Kong, para no ano seguinte deslocar seu epicentro para a América Latina com as revoltas no Equador, na Colômbia e, justamente, no Chile. A essa lista poderíamos acrescentar uma série de outros casos, além de considerar que, em 2025, com a chamada Geração Z, já se fala em um novo ciclo de revoltas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um artigo recente, <a class="urlextern" title="https://illwill.com/revolts-without-revolution" href="https://illwill.com/revolts-without-revolution" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Adrian Wohlleben</a> sustentou que o que mais caracteriza a nossa época é o fato de se tratar de um período rico em tumultos e insurreições globais que foram incapazes de encontrar uma bússola estratégica que conduzisse à revolução. Em um contexto de crise estrutural do capitalismo neoliberal, no qual a violência e as relações de força substituem cada vez mais o crescimento econômico como principal motor das dinâmicas globais, as revoltas contemporâneas, embora difundidas e por vezes espetaculares, também geraram novas formas de auto-organização e autonomia, mas permaneceram incompletas, detendo-se muitas vezes na simples denúncia da corrupção ou da austeridade, sem enfrentar a própria estrutura do capitalismo, e acabando por deixar espaço para um retorno negociado ao <em>status quo</em>. De fato, não é difícil imaginar que, se essas revoltas tivessem ocorrido — com o mesmo grau de participação, violência e capacidade de bloqueio dos fluxos produtivos — em um período anterior aos anos 1970, ou ao menos antes de 1989, provavelmente teriam desembocado em revoluções políticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez pela potência simbólica de ter sido o laboratório das políticas neoliberais em escala global, o Chile entusiasmou muitas pessoas no final de 2019 quanto à possibilidade de também ser o país capaz de reinventar um caminho para a revolução. Provavelmente, o bloqueio do pensamento estratégico revolucionário revelou-se, ao contrário, como outra face da resiliência do neoliberalismo, aquela síndrome do realismo capitalista que nos torna mais fácil, como dizia Mark Fisher, imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Por outro lado, não é surpreendente constatar que o amplo movimento anarquista e radical chileno — crescido no proletariado juvenil durante os trinta anos de frustração com os governos do período pós-democratização — pratique uma prática política fortemente niilista e estética, resumível no conceito, proposto pelo coletivo Vitrina Dystópica, de “subjetividade ACAB (<em>All Cops Are Bastards</em>)”. Trata-se de um movimento que produziu uma enorme capacidade de ruptura do consenso, mas também um impasse estratégico quando foi chamado a dar uma resposta à altura do desafio revolucionário. Um exemplo disso foi a total incapacidade daqueles setores que se opunham ao Acordo de 15 de novembro de 2019 de propor um caminho de luta sério que fosse alternativo ao processo constituinte em curso. O Chile que, no início dos anos 1970, havia sido tomado como modelo de um experimento revolucionário de tipo novo — que ao mesmo tempo em que recusava o modelo da ditadura do proletariado ou do totalitarismo burocrático dos socialismos reais, era dinamizado por processos inovadores de construção de poder popular — representa hoje, de maneira exemplar, o curto-circuito histórico de um capitalismo cada vez mais destrutivo, que alterna continuamente progressismos cada vez mais limitados e fascismos cada vez mais audazes, e uma incapacidade constante de transformar a revolta em revolução.</p>
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		<title>29 de março no Chile: um limite absoluto à calma do capital</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Apr 2025 06:55:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Não pedimos lugar para eles nos aparelhos e consensos que os assassinaram. Por Patricio Azócar Donoso]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Patricio Azócar Donoso[1]</strong></h3>
<p style="text-align: justify;"><em>Para César Pérez, para meu pai, e para todes aqueles que pegaram a própria vida.</em> <em>Nem um minuto de silêncio e toda uma vida de combate.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>“O que conquistamos como povo?</em> <em>Temos que perder o medo.</em> <em>Eles nos odeiam… nós também os odiemos.</em> <em>Que medo há em odiar?</em> <em>Temos que ter a força do ódio</em> <em>para poder estar contra eles,</em> <em>para poder lutar contra eles.”</em> Luisa Toledo</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-156203" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10.jpeg" alt="" width="720" height="491" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10.jpeg 720w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10-300x205.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10-616x420.jpeg 616w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10-640x436.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10-681x464.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px" />Desde 1985, todos os 29 de março, comemora-se em todo o Chile o Dia do Jovem Combatente. Uma jornada de memória que recorda o assassinato de Rafael e Eduardo Vergara Toledo durante a ditadura militar de Pinochet e a luta de seus pais, Luisa e Manuel, e de toda Villa Francia, sua comunidade, por justiça. Com o mesmo empenho, durante todo esse tempo, os meios de comunicação e as elites não pouparam esforços para diminuí-lo, limitá-lo, manchá-lo, boicotá-lo. Campanhas midiáticas como a do “dia do jovem delinquente” são disseminadas entre os setores populares, buscando agravar as condições de precariedade e cansaço, incitando conflitos entre comunidades e vizinhos. No entanto, a potência de cada 29 de março persiste e insiste. Pequenas reuniões, confabulações, atos públicos e íntimos, com maior ou menor radicalidade nas ruas, não param de se multiplicar. As derrotas, os mortos, os assassinados, os suicidados, são nomeados, velados, abraçados, vingados. O 29 de março é o que sustenta a palavra dignidade e a faz persistir ante o esquecimento coroado da democracia neoliberal.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando eu tinha uns 12 anos, foi minha primeira “velatón”. Sempre vivemos muito perto de Villa Francia. Não lembro bem como chegamos, eu e minha mãe de mãos dadas, até a esquina das grades com a rua 5 de abril, onde todos os anos Eduardo e Rafael são lembrados. Essa também foi a primeira vez que ouvi Luisa. Mãe insubmissa de todes que dedicaram suas vidas à luta contra o capital. Mãe de todes que perderam alguém querido pela violência da democracia capitalista. Com a mesma sensibilidade e ressonância com que lembro de Luisa, consigo escutar minha mãe dizer: “Que força têm as palavras dessa senhora”. Pouco antes, meu pai havia se suicidado. Não há dúvida de que nas palavras de Luisa pudemos abrigar parte importante de nossa incerteza e perder o medo de dizer a palavra ódio. Ódio ao consenso do capital e condolência com outres desconhecides que, de uma forma ou outra, mais direta ou indireta, perderam alguém ou algo devido à fé desmedida na democracia capitalista e sua violência organizada.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-156202" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10-4.jpeg" alt="" width="840" height="560" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10-4.jpeg 840w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10-4-300x200.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10-4-768x512.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10-4-630x420.jpeg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10-4-640x427.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10-4-681x454.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 840px) 100vw, 840px" />O 29 de março é a condolência no ódio ante a cumplicidade na impunidade. A con-dolência, o exercício de sentir com e através de outrx desconhecidx, é o que nos permite reposicionar o corpo e sua presença diante da violência organizada, da impunidade, da injustiça e do silêncio com que tentaram selar o infame retorno à democracia no Chile. Enquanto todes clamavam pela “alegria que viria” — e que todes sabemos que nunca veio —, Luisa nos acolhia no ódio. No calor de uma maternidade que jamais esquecerá quem matou seus filhos, e em torno desse clamor por justiça infinita e ilimitada, ser capaz de cultivar uma comunidade. O 29 de março é a continuidade transgeracional com que milhares de mães, cuidadorxs, legam às gerações futuras uma pergunta infinita por justiça por aqueles que já não estão. Uma pergunta que, no entanto, não espera. Uma pergunta e uma demanda que cria, que reúne, que vincula, que afeta e, portanto, dá lugar e abriga o sentimento de vingança e ódio como parte fundamental da vida política. Com Luisa, sabemos que não há vida reprodutiva, cuidados, carinhos, amores sem um direito legítimo à guerra, ao ódio, contra aqueles que conspiram contra os despossuídos e impedem uma comunidade política de cuidados. Ou seja, sustentada na memória e no direito absoluto ao desacordo e à dissidência. Em nome de Luisa, no 29 de março chileno, ressoa a mesma potência política que impõe um limite absoluto à insensibilidade descarnada e institucionalizada na Argentina ou no México. A mesma potência que convoca o povo argentino por seus aposentados ou todas as organizações sociais latino-americanas em torno das mães buscadoras de desaparecidos no México.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando no Chile dizemos 29 de março, nomeamos todes nossos mortos e herdamos suas intensas biografias. Mas não pedimos lugar para eles nos aparelhos e consensos que os assassinaram. Em vez disso, os abrigamos, lembramos, acariciamos no pleno exercício de ocupação absoluta das ruas, da calma e da tranquilidade. No enfrentamento direto contra as forças repressivas que, diferentemente de nós, herdam a responsabilidade ética, moral e política dos algozes. O 29 de março no Chile é a imposição de um limite absoluto ao silêncio sobre o qual se fundou a distribuição desigual da riqueza, mas também da tranquilidade. E diante dessa afirmação radical e crua, o Dia do Jovem Combatente segue sendo um gesto de honra, de memória, de vingança contra as mais diversas figuras responsáveis por preservar esse princípio de injustiça e esquecimento.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-156201" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10-3.jpeg" alt="" width="847" height="554" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10-3.jpeg 847w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10-3-300x196.jpeg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10-3-768x502.jpeg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10-3-642x420.jpeg 642w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10-3-640x419.jpeg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/03/WhatsApp-Image-2025-03-31-at-20.07.10-3-681x445.jpeg 681w" sizes="auto, (max-width: 847px) 100vw, 847px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O 29 de março não precisa se justificar, nem ser entendido, nem institucionalizado — exige implicação, atenção, acolhimento. Luisa Toledo e Manuel Vergara, Rafael, Eduardo, Pablo, Aracely… seus nomes não esperam nada mais que serem atendidos e lembrados. Suas memórias, biografias, histórias, coragens, paradoxos, contradições precisam ser velados como o que foram e ainda são até hoje: um grito encarnado e absoluto por justiça. O 29 de março é a afirmação afetiva de uma coragem maternal que se herda e se cultiva na luta: no enfrentamento direto, mas também na construção cooperativa de novas infraestruturas para uma vida digna. O 29 de março é a educação afetiva do porvir. É o carinho afetivo e a intimidade revolucionária que justifica o ódio e queimar tudo diante da violência organizada e da distribuição desigual do direito à tranquilidade. Que o nome de Luisa Toledo nunca seja esquecido, assim como o de Mariano Puga e todes aquelxs que sentiram a exigência de lutar por quem não teve nome nem lugar na história dos vencedores. Por um 29 de março intransigente, de cuidados mútuos e uma responsabilidade ética selvagem. Por quem já não está, mas também por aqueles que virão!</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Integrante da Cooperativa Espaço .terra (e-tierra.org) e do Coletivo de Pesquisa Política Vitrina Distópica</p>
<p>As fotografias com o logo FF são do <a href="https://www.instagram.com/frentefotografico/" target="_blank" rel="noopener">coletivo fotografia e protesta.</a></p>
<p>Texto publicado em espanhol <a href="https://carcaj.cl/29-de-marzo-en-chile-un-limite-absoluto-a-la-calma-del-capital/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> e <a href="https://colapsoydesvio.noblogs.org/post/2025/03/29/29-de-marzo-en-chile-un-limite-absoluto-a-la-calma-del-capital-patricio-azocar-donoso/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</p>
<p><a href="https://youtu.be/3L6zQKmqUsY" target="_blank" rel="noopener">Está disponível uma entrevista em espanhol com Luisa e Manuel.</a></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Lucha de clases y represión en el gobierno izquierdista de Boric</title>
		<link>https://passapalavra.info/2024/04/152473/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 06 Apr 2024 22:54:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Traduções]]></category>
		<category><![CDATA[Chile]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[La administración Boric no tardó mucho en mostrar una brutal continuidad con el gobierno anterior. Por Por Colectivo Vamos Hacia la Vida]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Colectivo Vamos Hacia la Vida</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>La Revuelta del 18 de octubre</strong></p>
<p style="text-align: justify;">La revuelta de octubre de 2019 en la región chilena no es un episodio aislado de la lucha de clases, se enmarca en un ciclo internacional de levantamientos proletarios que se estaban produciendo en diversos lugares del mundo: Hong Kong, el Líbano, Ecuador, Sudán, etc. La actual crisis de valorización del capital que padece la humanidad a escala global y que profundiza la precarización de la vida, amenazando a la propia especie humana y que provoca daños ecológicos catastróficos bajo la lógica de producir más dinero a partir del dinero, en Chile se manifiesta en diversos conflictos medioambientales en las regiones y pueblos -zonas de sacrificio, en donde el extractivismo devasta todo a su paso-, un sistema de pensiones privado (AFP) que entrega jubilaciones que en su mayoría no superaban los 1.300 reales -el salario mínimo era de 1.700 reales, y hoy de 2.500 reales-, destrucción de empleo (el 30% de las personas trabaja ya en el sector informal), endeudamiento generalizado de la población, salud privatizada, etc.: esto hace que Chile sea uno de los países más desiguales del mundo producto de la contrarrevolución neoliberal implementada en Dictadura.</p>
<p style="text-align: justify;">En este contexto un sector del “proletariado juvenil” proveniente de las escuelas secundarias de la ciudad de Santiago, que ya llevaba varios años enfrentándose al Estado de manera violenta, por fuera y contra las estructuras y los partidos de izquierda, concentrando sus ataques contra la policía y contra la implementación de la ley “Aula segura” que los expulsaba sin derecho a defensa y permitía que la policía antidisturbios entrará a sus salas de clases con total impunidad. Fue el fenómeno denominado por la prensa como “los overoles blancos” y l@s encapuchad@s de negro, que salían con cocteles molotovs a enfrentarse cotidianamente a las fuerzas del orden, sin pedir ni reivindicar nada al Estado y negando en actos este mundo. Con el paso del tiempo la represión aisló a estos “antiestudiantes”, pero el alza del pasaje del metro en $30, les dio la oportunidad de cambiar la táctica, la que se tradujo en las evasiones colectivas del pago del boleto del metro, lo que generó simpatía en el proletariado y que, sumado a la violenta represión que sufrieron -que incluyó disparos de escopetas antimotines al interior de las estaciones y trenes, y lanzamiento de granadas lacrimógenas-, el cierre del metro en Santiago y el retiro de todos los buses el día viernes 18 de octubre generó el clima propicio para que estallará la rabia generalizada por toda la ciudad, al quedar millones de personas que volvían de sus lugares de explotación sin ninguna posibilidad de llegar a sus hogares.</p>
<p style="text-align: justify;">El día sábado 19 la revuelta se había extendido espontáneamente a todo el país, a pesar del toque de queda, estado de excepción y la salida de los milicos a la calle. La rabia se materializó en la destrucción y ataques a infraestructura estatal y privada (buses, estaciones de metro, bancos, locales de AFP, grandes cadenas de farmacias, cajeros automáticos, etc.), el saqueo de grandes multitiendas y cadenas de supermercados, en donde en general, se distribuyeron colectivamente los alimentos y víveres, se quemó lo demás (televisores, electrodomésticos, mercancías de lujo, etc.), se hostigó por horas, de manera masiva y difusa a las fuerzas del orden -carabineros y militares- y comisarías. En síntesis, se suspendió el tiempo histórico afectando el normal funcionamiento de la sociedad capitalista, generando una grieta difícil de olvidar, al menos para 4.000.000 de personas que participaron de la revuelta -según datos policiales-: la fiesta se tomó la calle, y la gente se reconoció en el otr@ por primera vez en mucho tiempo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-152466 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/1.jpg" alt="" width="1500" height="1001" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/1.jpg 1500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/1-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/1-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/1-768x513.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/1-629x420.jpg 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/1-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/1-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Rápidamente en los barrios del centro y de la periferia proletaria (“poblaciones”) se levantaron “Asambleas Territoriales” de vecinas y vecinos, que autoorganizamente, intentaron llevar adelante la revuelta fuera del centro de las ciudades y dotarla además de un contenido positivo. Llegaron a ser más de 1000 en todo el país, pero fueron incapaces de coordinarse efectiva y duraderamente a nivel nacional, aunque hubo algunos esfuerzos en lograr este objetivo: la canalización democrática de la revuelta y las elecciones, el activismo de los partidos de izquierda y de extrema izquierda, dividieron finalmente al movimiento. Otro punto importante fue la creación de brigadas autónomas de primeros auxilios que atendían herid@s en todas las ciudades y las coordinadoras de personas solidarias, amig@s y familiares que apoyaban la lucha por la libertad de l@s pres@s que iban siendo secuestrad@s por el Estado día tras día.</p>
<p style="text-align: justify;">La revuelta duró con diversos niveles de intensidad, cerca de 6 meses, siendo debilitada por dos factores combinados: la firma del “Acuerdo por la Paz Social y la Nueva Constitución” (que contó con la aprobación de todo el sistema de partidos para salvar la democracia, a excepción del Partido Comunista, que astutamente se abstuvo) y la llegada del Covid-19, con la resultante administración terrorista de la pandemia por parte del Estado. Durante la propagación del Covid-19 el Estado impuso duras medidas de cuarentena, prohibió las manifestaciones y el desempleo oficial llegó al 20%, que sumado al 30% de personas que ejercen el comercio informal minorista, que estaban impedidas de trabajar, llegaba a cerca del 50%, en un Estado como el chileno en donde no existe prácticamente ningún derecho social o ayuda estatal. Esto fue derechamente criminal, ya que el Estado abandonó a su suerte a la mayoría de las personas. Estallaron “revueltas del hambre” con saqueos de alimentos y mercancías de primera necesidad. Gracias a la autoorganización de base en los barrios, las asambleas, las cooperativas y las ollas comunes se frenó el hambre que amenazaba con expandirse peligrosamente. Además, hubo movilizaciones por la exigencia del retiro del 10% de los fondos de pensiones para poder hacer frente a la falta de empleo -se llegaron a realizar finalmente 3 retiros- y también disturbios y enfrentamientos en las jornadas de conmemoración tradicionales de la extrema izquierda -11 de septiembre, día del golpe de Estado, 29 de marzo, día del joven combatiente, etc.-. Con la pandemia si bien la conflictividad social bajó, la autoorganización continuó en base a la satisfacción de las necesidades más urgentes de la gente y de manera más subterránea. Además, gracias a la amenaza de un nuevo “estallido social”, el Estado finalmente desembolsó dinero y creó a fines de 2020 el Ingreso Familiar de Emergencia-IFE, un bono, especie de renta básica universal, que se pagaba el tiempo que duraban las cuarentenas totales.</p>
<p style="text-align: justify;">Sin duda, la revuelta tuvo límites, el más claro, es que no se constituyó una alternativa al Estado y la democracia, ya que es muy difícil en los tiempos actuales ver una salida fuera de los márgenes del sistema existente. Con mucha dificultad, finalmente el partido del orden logró canalizar la potencia revolucionaria del movimiento encauzándolo en la ilusoria refundación del Estado mediante la “Convención Constituyente” y las elecciones, sobre todo, apelando al miedo al “fascismo” y a la ultraderechización de la derecha tradicional. Aún existe en el horizonte la idea de que el problema es la falta de democracia en el país. Por otra parte, la violencia callejera se mistificó en la “primera línea”, que empezó a especializarse en el ejercicio de la autodefensa y la violencia ofensiva contra los aparatos represivos, cayendo en el terreno que conoce el enemigo. Se perdió la generalización de la violencia, que en un principio fue difusa y descentralizada, y logro efectivamente neutralizar a los aparatos represivos en las primeras semanas. Esto había generado un pánico en la clase dominante, que explica la brutalidad con que actuó: más de 300 personas con daños oculares, 3.000 denuncias por torturas, violencia sexual y violaciones a los derechos humanos, 30.000 detenid@s (en su clímax cerca de 2.500 de ell@s tras las rejas en “prisión preventiva”), y cerca de 40 personas asesinadas.</p>
<p style="text-align: justify;">A pesar de lo anterior, la experiencia vivida, demostró que la vida sí puede ser diferente, y sin dudas, para muchas y muchos de nosotros fueron los mejores momentos que hemos vivido de manera colectiva. Paulatinamente se ha ido rearticulando y creciendo un movimiento de carácter autónomo, que se encontraba fragmentando y descoordinado, en donde destacamos, el crecimiento exponencial del movimiento mapuche autónomo cuya influencia social se ha vuelto hegemónica en las comunidades -y cuyas expresiones orgánicas se han multiplicado-, y que ha ido expropiando mediante la acción directa de masas territorio a los grandes latifundistas, empresas forestales, y realizado innumerables sabotajes a proyectos capitalistas en el Wallmapu con el accionar de sus órganos de combate. Aquí, la defensa de su forma de vida choca frontalmente con la lógica de acumulación capitalista y el Estado, lo que produce que el conflicto sea irrecuperable institucionalmente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>El gobierno de Boric</strong></p>
<p style="text-align: justify;">El 19 de diciembre de 2021 el presidente electo, Gabriel Boric (quien proviene del movimiento estudiantil del 2011 en donde cumplió un rol de agente desmovilizador) se impuso con una gran diferencia sobre su adversario José Antonio Kast (figura de extrema derecha, anticomunista y pinochetista). Este logro fue celebrado como “el triunfo al fascismo en las urnas”, tanto por demócratas e izquierdistas, y también como un proceso de continuidad con el 18 de octubre y la Convención Constitucional. Esto fue muy diferente a lo experimentado en primera vuelta, en donde el ánimo de estos mismos sectores fue: una lluvia de lamentos, insultos al universo no votante, con frases como “le hacen el juego a la derecha” y “Chile no despertó”, frente al terror de la posibilidad de que Kast fuera electo como presidente. La reacción a este miedo fue lo que le permitió a Boric imponerse en segunda vuelta, para eso ambos tuvieron que volcar su discurso hacia el centro: Boric recurriendo a la vieja Concertación (Democracia Cristiana, Partido Socialista, etc.) mientras que Kast se enfocaba en la cuestión de la mujer para desprenderse de los elementos misóginos y reaccionarios extremos que generaban anticuerpos en su campaña. Esta “pseudo pugna” entre la izquierda y la derecha del Capital se resuelve incluyendo en la Campaña de Boric el “apoyo crítico” de comunidades LGTBIQ+, feministas institucionales, izquierdistas antifascistas y el voto antiKast. Es decir, este candidato logro movilizar a sus adversarios bajo la caricatura del fascismo sabiendo que su elección podría cerrar un ciclo y proyección revolucionaria de la experiencia de octubre o aplazarla por un periodo de tiempo considerable.</p>
<p style="text-align: justify;">Lo primero que hay que señalar, es que los grupos de izquierda fueron agentes protagónicos en la desmovilización callejera -con la excusa de que no había que ensuciar la gestión estatal de Boric, el proceso constituyente, ni “hacerle el juego a la derecha”- y en la desaparición de los organismos autónomos de la clase, eliminando cualquier discusión que se escapase de la agenda electoral o del debate constitucional.</p>
<p style="text-align: justify;">En general, la izquierda, incluso la que se define como revolucionaria, y un amplio espectro del anarquismo, sucumbió sin resistencia y de buena gana al entrampamiento democrático, que se mostraba transparentemente como lo que realmente era. En este sentido, la izquierda del capital sintetizó y aclaró su rol histórico como agente de conservación de las relaciones capitalistas. Se hizo evidente una pobreza teórica y la incapacidad de asimilar las lecciones históricas en un vasto sector de compañer@s.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-152468 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2.jpg" alt="" width="1720" height="1290" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2.jpg 1720w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-1024x768.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-1536x1152.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-681x511.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1720px) 100vw, 1720px" /></p>
<p style="text-align: justify;">La revuelta abrió un ciclo de luchas que hoy enfrenta una oleada contrarrevolucionaria pero que no ha sido totalmente cerrado, menos aun considerando el contexto de crisis generalizada y mundial, una de cuyas manifestaciones precisamente fue la imponente revuelta social de la región chilena.</p>
<p style="text-align: justify;">Por su parte, el movimiento mapuche autónomo (Coordinadora Arauco Malleco-CAM, Resistencia Mapuche Lafkenche-RML, Weichan Auka Mapu-WAM, entre otras expresiones) continúa expropiando territorio y realizando sabotajes a maquinarias e infraestructuras capitalistas casi cotidianamente, a pesar del estado de excepción que se ha vuelto permanente en la denominada “macrozona sur”, lo que se traduce en la presencia militar que patrulla y realiza controles en carreteras y caminos, y protege “infraestructuras estratégicas”. La represión mantiene a un centenar de pres@s polític@s tras las rejas.</p>
<p style="text-align: justify;">La administración Boric no tardó mucho en mostrar una brutal continuidad con el gobierno anterior tanto en términos represivos, como en la implementación de políticas que favorecen una reestructuración capitalista en desmedro de nuestras ya precarias condiciones de vida. Y no puede ser de otra manera, ya que no hay que olvidar que Boric fue un actor clave en la gestión del contrarrevolucionario “Acuerdo por la Paz Social y la Nueva Constitución” firmado el 15 de noviembre de 2019 para canalizar la potencia de la revuelta en el marco de la institucionalidad e iniciar un proceso de restauración capitalista cuyo eje central era crear una nueva Constitución. La entrada en vigencia de la Ley Nain-Retamal que protege y refuerza aún más la función policial (carabineros, PDI y gendarmería) ha significado en la práctica la legalización del “gatillo fácil” el cual ya se ha cobrado varias víctimas fatales. La reciente aprobación a fines de noviembre de 2023 de la “Ley Antitomas” que modifica con penas de cárcel efectiva la “usurpación y la ocupación ilegal de inmuebles”, criminaliza la pobreza y el nulo acceso a viviendas en Chile, poniéndose del lado de la especulación inmobiliaria, la gentrificación y sacrosanto derecho de la propiedad privada: ya han sido desalojadas viviendas okupadas, centros sociales, campamentos de poblador@s y tierras recuperadas por el pueblo mapuche. Y, por si fuera poco, todo esto se suma a la defensa incondicional del General de Carabineros Ricardo Yáñez, respecto a la querella que tiene en su contra por su implicación en la violación de derechos humanos durante la revuelta.</p>
<p style="text-align: justify;">Además, no se han derogado las medidas represivas como la “Ley antisaqueos y antibarricadas” (Ley 21.208) y se continúa aplicando selectivamente la Ley de Seguridad del Estado, tal y como ocurrió con el vocero de la Coordinadora de Comunidades en Conflicto Arauco Malleco-CAM, Héctor Llaitul, así como muchos otros weichafe (guerreros) de la CAM y de otras organizaciones, que han sido detenidos durante el 2022-2023. La represión selectiva se ha llevado adelante también contra compañer@s del entorno anarquista; “Caso ataque explosivo a Dirección General de Gendarmería” y “Caso ataque incendiario a frigorífico de Carnes Susaron”, así como también, a manifestantes detenidos en contexto de lucha callejera. Un caso paradigmático que expresa el clima represivo que estamos viviendo, fueron las largas y ejemplificadoras condenas de cárcel que, en primera instancia, recibieron los anarquistas Francisco Solar (86 años) y Mónica Caballero (12 años), por ataques explosivos en que nadie resultó muerto.</p>
<p style="text-align: justify;">Por otra parte, el discurso de “mano dura” contra el crimen y la migración “ilegal”, no tienen nada que envidiar a la ultraderecha más reaccionaria. ”<em>O se regularizan o se van</em>“, fue el ultimátum de Boric hacia las y los extranjeros que se encuentran en situación irregular en la región chilena, lo que se suma a la construcción de zanjas en la frontera con Bolivia para “contener la crisis migratoria”. ”<em>Vamos a ser unos perros en la persecución de la delincuencia</em>“, vociferó Boric, mientras el gobierno ya se encuentra estudiando la implementación de “estrategias mexicanas” -con todo lo que ello implica- para combatir la creciente criminalidad. A todo esto, se le agrega la irrisoria reforma de Carabineros, que se reduce al cambio del uniforme, y a una disminución en los requisitos de reclutamiento: ahora podrán ser policías personas de menor estatura, con tatuajes, pie plano o con caries. El apoyo a Carabineros por parte del gobierno ha sido incondicional, y en este sentido, cientos de casos de violencia policial ocurridos durante la revuelta, que incluyen torturas, abusos sexuales y asesinatos, han quedado totalmente impunes.</p>
<p style="text-align: justify;">Las promesas de campaña, muchas de ellas reformas de carácter estructural, escasamente han sido implementadas y tampoco existe ningún indicio de que se hagan realidad en el futuro cercano, sobre todo, cuando su coalición apostó todo a “realizar las grandes transformaciones que Chile necesita” luego de una supuesta victoria electoral en el plebiscito del 4 de septiembre de 2022 (primer proceso), lo que como ya sabemos no solo no ocurrió, sino que fue un rotundo fracaso; los factores que determinaron este fracaso fueron muchos y muy complejos de sintetizar, pero destacan: lo poco concreto y abstracto del borrador, la gran inflación que existía en ese momento (12.8%), la imposición del voto obligatorio con la amenaza de una multa altísima (casi medio salario mínimo), la implementación de políticas de austeridad, negar los retiros de fondos de AFP, lo que en la práctica fue un voto de castigo en desaprobación a la gestión del gobierno. Quizás la única excepción fue el insuficiente indulto presidencial de finales del 2022 que benefició a 12 presos de la revuelta y a 1 ex militante del FPMR acusado sin pruebas de un asalto bancario.</p>
<p style="text-align: justify;">La aprobación del Acuerdo Transpacífico-TPP11, al que se oponen diversas organizaciones sociales -y al que el mismo Boric se oponía hace algunos años- debido a que profundiza el devastador modelo de acumulación extractivista, privatiza el uso de semillas, y deja en suspenso la legislación laboral -entre otras nefastas consecuencias-; y el proyecto de “reforma previsional”, que no cuestiona en nada los fundamentos del agotado sistema de pensiones representado por las AFP, que entrega pensiones de hambre, mantiene el financiamiento por medio de las cotizaciones de l@s trabajador@s a los grandes grupos económicos, y que ni siquiera se acerca a algo parecido a un “sistema de seguridad social” existente en los países centrales, son solo dos ejemplos más de la línea que se ha trazado el gobierno de Boric.</p>
<p style="text-align: justify;">En marzo de 2023 el Gobierno de Boric presentó al congreso su proyecto de creación de la Empresa Nacional del Litio (“ENL”), que buscaría ”<em>aportar al proceso de producción de productos y desarrollar métodos de extracción más sustentables</em>“. Sin embargo, el proyecto original de una explotación y beneficio estatal del mineral dio un paso a su privatización encubierta al incorporar un acuerdo entre CODELCO (51%) y la empresa privada SQM (cuyo dueño es Julio Ponce Lerou, ex yerno de Pinochet y quien estuvo involucrado en casos de corrupción, escándalos financieros y financiamiento ilegal de la política). La incorporación de privados constituye una privatización encubierta de un recurso que en la actual constitución está nacionalizado, lo que se contradice con la promesa de campaña de crear una empresa 100% estatal.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-152469 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/3.jpg" alt="" width="1000" height="562" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/3.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/3-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/3-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/3-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/3-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/3-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente, en el último plebiscito, el proceso constituyente cerró su ciclo; sigue vigente la Constitución de Pinochet-Guzmán, la izquierda en la práctica llamó a votar por conservarla, frente al último proyecto de borrador presentado que fue hegemonizado por los Republicanos y la derecha más dura. Todo esto implica un fracaso rotundo del reformismo, aún no capitalizado del todo por la derecha, ya que su propuesta también fracasó y se encuentra dividida internamente. En síntesis, hoy existe una deslegitimación aún mayor de la política, hastío de los eventos electorales y del voto obligatorio.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Proyecciones</strong></p>
<p style="text-align: justify;">En medio de este panorama, creemos que las minorías revolucionarias tienen varias tareas urgentes que realizar. La primera, y más obvia, es promover la necesidad de profundizar teóricamente el tiempo que nos ha tocado vivir, fomentando la discusión y el debate fraterno entre diversos grupos y colectivos del entorno radical, pero también llevando esas discusiones hacia fuera. Por otra parte, y ligado a lo anterior, resulta vital dotarse de un espíritu de movimiento, que incentive la creación de iniciativas de asociatividad y redes proletarias que interactúen permanentemente entre sí, que paulatinamente comiencen a superar la fragmentación y el sectarismo al que estamos lamentablemente habituados.</p>
<p style="text-align: justify;">Por otra parte, las minorías activas deben funcionar como vasos comunicantes entre las distintas luchas que emergerán, manteniendo férreamente posiciones antagónicas en los espacios que ayuden a ir superando las separaciones propias de las relaciones capitalistas y que sean capaces de ir promoviendo el horizonte comunista como única posibilidad realista de futuro. También consideramos que, en medio de un escenario de crisis multidimensional, se debe fomentar y participar en aquellas instancias de autoorganización proletaria vinculadas a la subsistencia y la supervivencia (ollas comunes, huertos comunitarios, organizaciones de salud, cuidado comunitario, etc.), que ligadas a la reproducción social, pueden convertirse en embriones de potencialidad comunista.</p>
<p style="text-align: justify;">Por último, pensamos que se ha vuelto necesario retomar el debate sobre la “toma de los medios de producción” y su comunización, en el seno de nuestra clase. Tomando en cuenta en que vivimos en un mundo con una división del trabajo complejo, creemos que aún existen posibilidades de sostener procesos de comunización en aquellos sectores estratégicos imprescindibles para mantener la reproducción social (alimentación, energía, telecomunicaciones, salud y vivienda) que puedan ir desarrollándose a nivel local/regional durante un proceso más largo de lucha internacional.</p>
<blockquote><p>Traducido del original en español por Passa Palavra (véase <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152462/" target="_blank" rel="noopener">aquí</a> la traducción al portugués). Las obras que ilustran el texto son de Alfredo Jaar (1956-).</p></blockquote>
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		<title>Luta de classes e repressão sob o governo de esquerda de Boric</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 06 Apr 2024 22:47:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Chile]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Ocupações]]></category>
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					<description><![CDATA[A administração Boric não tardou muito em exibir uma brutal continuidade com o governo anterior. Por Colectivo Vamos Hacia la Vida]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Colectivo Vamos Hacia la Vida</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>A Revolta de 18 de outubro</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A revolta de outubro de 2019 no Chile não é um episódio à parte da luta de classes, ela é parte de um ciclo internacional de levantes proletários que estava se dando em diversos lugares do mundo: Hong Kong, Líbano, Equador, Sudão, etc. A atual crise de valorização do capital que acomete a humanidade em escala global e que aprofunda a precarização da vida, ameaçando a própria espécie humana e que provoca danos ecológicos catastróficos sob a lógica de produzir mais dinheiro a partir do dinheiro, se manifesta no Chile em diversos conflitos ambientais nas comunidades e povoados — zonas de sacrifício, onde o extrativismo devasta tudo ao seu redor —; um sistema de previdência privado (AFP) que paga aposentadorias que em sua maioria não superavam R$ 1.300 — o salário mínimo era R$ 1.700 à época, e atualmente é R$ 2.500 —; destruição do emprego (30% das pessoas trabalham na informalidade); endividamento generalizado da população; saúde privatizada, etc. Isto faz do Chile um dos páises mais desiguais do mundo, produto da contrarrevolução neoliberal implementada durante a ditadura.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste contexto, um setor do “proletariado juvenil” proveniente das escolas secundárias da cidade de Santiago, que já vinha há anos se enfrentando com o Estado de maneira violenta, por fora e contra os aparatos e os partidos de esquerda, concentrando seus ataques contra a polícia e contra a implementação da lei “Aula Segura”, que permitia que eles fossem expulsos sem direito de defesa e que a polícia antidistúrbios entrasse nas salas de aula impunemente. Este fenômeno foi denominado pela imprensa como “os uniformes brancos” e @s encapuzad@s de preto, que saíam com coquetéis molotov enfrentando cotidianamente às forças da ordem, sem pedir nem reivindicar nada ao Estado e negando na prática o mundo vigente. Com o passar do tempo a repressão isolou estes “anti-estudantes”, porém o aumento da passagem do metrô em $ 30 pesos deu a eles a oportunidade de mudar de tática, que acabou se traduzindo nas burlas massivas contra o pagamento dos bilhetes de metrô, o que angariou a simpatia do proletariado e que, somados à violenta repressão que sofreram — que incluiu disparos de balas de borracha e o lançamento de bombas de gás lacrimogêneo no interior das estações e trens —, o fechamento do metrô em Santiago e a interrupção da circulação de ônibus no dia 18 de outubro criou o clima propício para que explodisse a raiva generalizada por toda a cidade, ao deixar milhões de pessoas que voltavam de seus locais de exploração sem nenhuma possibilidade de chegarem em casa.</p>
<p style="text-align: justify;">No sábado, 19, a revolta havia se espalhado espontaneamente por todo o país, apesar do toque de recolher, do estado de exceção e da presença dos milicos nas ruas. A Raiva se materializou na destruição e ataques à infraestrutura estatal e privada (ônibus, estações de metrô, agências da AFP, grandes cadeias de farmácias, caixas eletrônicos, etc.), o saque de grandes lojas varejistas e redes de supermercado, onde em geral se distribuíam coletivamente os alimentos e víveres e queimavam todo o resto (televisores, eltrodomésticos, artigos de luxo, etc.), se hostilizou por horas, de maneira massiva e difusa, às forças de segurança <em>— carabineros</em> e militares — e delegacias. Em resumo, suspendeu-se o tempo histórico, afetando o funcionamento normal da sociedade capitalista, produzindo uma brecha difícil de esquecer, pelo menos para as 4.000.000 de pessoas que participaram da revolta — segundo dados da polícia —: a festa tomou as ruas, e as pessoas se reconheceram umas nas outras pela primeira vez em muito tempo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-152466 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/1.jpg" alt="" width="1500" height="1001" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/1.jpg 1500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/1-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/1-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/1-768x513.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/1-629x420.jpg 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/1-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/1-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Rapidamente, nos bairros do centro e da periferia (favelas) se ergueram “Assembléias Territoriais” de vizinhas e vizinhos, que de forma auto-organizada tentaram levar adiante a revolta para além dos centros das cidades e dotá-la de um conteúdo positivo. Chegaram a ser mais de 1000 em todo o país, mas foram incapazes de se coordernarem de maneira efetiva e duradoura a nível nacional, apesar de alguns esforços neste sentido: a canalização democrática da revolta e as eleições, o ativismo dos patidos de esquerda e de extrema-esquerda, dividiram por fim o movimento. Outro ponto importante foi a criação de brigadas autônomas de primeiros socorros, que atendiam ferid@s em todas as cidades e as coordenadoras de pessoas solidárias, amig@s e familiares que apoiavam a luta pela liberdade d@s pres@s que estavam sendo sequestrad@s pelo Estado dia após dia.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolta durou, com diferentes níveis de intensidade, cerca de 6 meses, sendo debilitada por dois fatores combinados: a assinatura do “Acordo pela Paz Social e a Nova Constituição” (que contou com a aprovação de todo o sistema partidário para salvar a democracia, com exceção do Partido Comunista, que astutamente se absteve) e a chegada da Covid-19, com a consequente administração terrorista da pandemia por parte do Estado. Durante a propagação da Covid-19 o Estado impôs duras medidas de quarentena, proibiu as manifestações e o desemprego oficial chegou a 20%, o que somado aos 30% de pessoas que trabalham no mercado informal, que estavam impedidas de trabalhar, totalizava cerca de 50%, em um Estado como o chileno onde não existe praticamente nenhum direito social ou ajuda estatal. Isto foi abertamente criminoso, visto que o Estado abandonou a maioria das pessoas à própria sorte. Eclodiram “revoltas da fome” com saques de alimentos e mercadorias de primeira necessidade. Graças à auto-organização de base nos bairros, às assembleias, às cooperativas e às cozinhas populares, impediu-se a fome que ameaçava se disseminar perigosamente. Além disso, houve mobilizações pela exigência de saque de 10% dos fundos de pensão para fazer frente à falta de emprego — ao final foi possível fazer 3 saques — e também distúrbios e enfrentamentos nas jornadas de comemoração tradicionais da extrema-esquerda — 11 de setembro, dia do golpe de Estado; 29 de março, dia do jovem combatente, etc. Com a pandemia, ainda que a conflituosidade social tivesse baixado, a auto-organização prosseguiu tomando por base a satisfação das necessidades mais urgentes das pessoas e de maneira mais subterrânea. Por fim, graças à ameaça de um novo “<em>estalido social</em>”, o Estado desembolsou dinheiro e criou em fins de 2020 o Salário Familiar de Emergência (IFE), um abono, espécie de renda básica universal, que foi pago enquanto durou a quarentena total.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem dúvida, a revolta teve limites, o mais óbvio é que que ela não se contituiu uma alternativa ao Estado e à democracia, já que é muito difícil nos tempos atuais ver uma saída fora dos limites do sistema vigente. Com muita dificuldade, o partido da ordem conseguiu finalmente canalizar a potência revolucionária do movimento, envolvendo-o na ilosória refundação do Estado através da “Convenção Constituinte” e as eleições, sobretudo apelando ao medo do “fascismo” e da ultradireitização da direita tradicional. Ainda existe no horizonte a ideia de que o problema do país é a falta de democracia. Por outro lado, a violência de rua mistificou-se na “<em>primera línea</em>”, que começou a especializar-se na garantia da autodefesa e na violência ofensiva contra os aparatos repressivos, caindo num terreno que o inimigo domina. Perdeu-se a generalização da violência, que a princípio foi difusa e descentralizada, e logrou efetivamente neutralizar o aparato repressivos nas primeiras semanas. Isto havia deixado a classe dominante em pânico, o que explica a brutalidade com que reagiu: mais de 300 pessoas com traumas oculares, 3.000 denúncias por torturas, violência sexual e violações aos direitos humanos,  mais de 30.000 pessoas detid@s (no auge cerca de 2.500 atrás das grades em “prisão preventiva”), e cerca de 40 pessoas assassinadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar disso, a experiência vivida demonstrou que a vida pode ser diferente e, sem dúvidas, para muitas e muitos de nós foram os melhores momentos que já vivemos de maneira coletiva. Paulatinamente tem se rearticulado e crescido um movimento de caráter autônomo, que se encontrava fragmentado e descoordenado, onde destacamos o crescimento exponencial do movimento mapuche autônomo, cuja influência social se tornou hegemônica nas comunidades — e cujas expressões orgânicas têm se multiplicado —, e que tem expropriado por meio da ação direta grandes porções de terra aos grandes latifundiários, empresas florestais, e realizado inúmera sabotagens a projetos capitalistas no Wallmapu, com o apoio de seus órgãos de combate. Aqui, a defesa de suas formas de vida se choca frontalmente com a lógica da acumulação capitalista e o Estado, o que faz com que o conflito seja irrecuperável institucionalmente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O governo de Boric</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Em 19 de dezembro de 2021 o presidente eleito, Gabriel Boric (que tem sua origem no movimento estudantil de 2011, onde cumpriu um papel de agente desmobilizador), se impôs com uma grande diferença sobre seu adversário José Antonio Kast (figura de extrema-direita, anticomunista e pinochetista). Essa vitória foi celebrada como “o triunfo sobre o facismo nas urnas”, tanto por democratas e esquerdistas, e também como um processo de continuidade com a revolta do 18 de outubro e a Convenção Constituinte. Algo muito diferente do que havia sido visto no primeiro turno das eleições, quando o ânimo destes mesmos setores foi uma chuva de lamentos, insultos aos não-votantes, com frases como “estão fazendo o jogo da direita” e “o Chile não despertou”, frente ao terror da possibilidade de que Kast fosse eleito como presidente. A reação a este medo foi o que permitiu a Boric vencer o segundo turno; para isso ambos tiveram que voltar seu discurso para o centro: Boric recorrendo à velha <em>Concertación</em> (Democracia Cristã, Partido Socialista, etc.) enquanto Kast focava na questão da mulher para se afastar dos elementos misóginos e reacionários extremistas que produziam anticorpos em sua campanha. Esta “pseudodisputa” entre a esquerda e a direita do Capital se resolve incluindo na campanha de Boric o “apoio crítico” de comunidades LGBTQI+, feministas institucionais, esquerdistas antifascistas e o voto anti-Kast. Isto é, este candidato conseguiu moblizar seus adversários sob a caricatura do fascismo, sabendo que sua eleição podia fechar um ciclo de projeção revolucionária da experiência de outubro ou retardá-la por um período de tempo considerável.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira coisa a assinalar é que os grupos de esquerda foram agentes protagonistas na desmobilização das manifestações de rua — com a desculpa de que não se devia manchar a gestão estatal de Boric, o processo contituinte, nem “fazer o jogo da direita&#8217; — e no desaparecimento dos organismo autônomos da classe, eliminando qualquer discussão que escapasse da agenda eleitoral ou do debate constitucional.</p>
<p style="text-align: justify;">Em geral, a esquerda, inclusive aquela que se diz revolucionária, e um amplo espectro do anarquismo, sucumbiu sem resistência e de boa vontade ao embuste democrático, que se mostrava transparentemente como o que realmente era. Nesse sentido, a esquerda do capital sintetizou e esclareceu seu papel histórico como agente de conservação das relações capitalistas. Fez-se evidente uma pobreza teórica e a incapacidade de assimilar as lições históricas de um vasto setor de companheir@s.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-152468 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2.jpg" alt="" width="1720" height="1290" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2.jpg 1720w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-1024x768.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-1536x1152.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/2-681x511.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1720px) 100vw, 1720px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A revolta abriu um ciclo de lutas que hoje enfrenta uma onda contrarrevolucionária mas que não se encerrou totalmente, sobretudo se considerarmos o contexto de crise generalizada e mundial, da qual uma de suas manifestações foi precisamente a imponente revolta social chilena.</p>
<p style="text-align: justify;">Por sua vez, o movimento mapuche autônomo (<em>Coordinadora Arauco Malleco</em>-CAM, <em>Resistencia Mapuche Lafkenche</em>-RML, <em>Weichan Auka Mapu</em>-WAM, entre outros) continua expropriando território e realizando sabotagens a equipamentos e infraestruturas capitalistas quase cotidianamente, apesar do estado de exceção que se tornou permanente na denominada “macro-região sul”, o que se traduz na presença militar que patrulha e realiza inspeções em rodovias e estradas, e protege “infraestruturas estratégicas”. A repressão ainda mantém uma centena de pres@s polític@s atrás das grades.</p>
<p style="text-align: justify;">A administração Boric não tardou muito em exibir uma brutal continuidade com o governo anterior tanto em termos repressivos quanto na implementação de políticas que favorecem uma reestruturação capitalista em prejuízo de nossas já precárias condições de vida. E não pode ser de outra maneira, já que não podemos esquecer que Boric foi um ator chave na gestação do contrarrevolucionário “Acordo pela Paz Social e a Nova Constituição”, firmado em 15 de novembro de 2019 para canalizar a potência da revolta para dentro dos marcos da institucionalidade e iniciar um processo de restauração capitalista cujo eixo central era criar uma nova Constituição. A entrada em vigência da Lei Nain-Retamal, que protege e reforça ainda mais a função policial (<em>carabineros</em>, PDI e gendarmeria) significam na prática a legalização do “gatilho fácil”, que já tem feito várias vítimas fatais. A recente aprovação, em fins de novembro de 2023, da “Lei Anti-Invasão”, que modifica com penas de prisão a “usurpação e a ocupação ilegal de imóveis”, criminaliza a pobreza e a luta por moradia, colocando-se ao lado da especulação imobiliária, a gentrificação e o sacrossanto direito à propriedade privada: já foram desalojadas moradias ocupadas, centros sociais, acampamentos de sem-tetos e terras recuperadas pelo povo mapuche. E se não bastasse isso, acrescente-se a defesa incondicional do General dos <em>Carabineros</em> Ricardo Yáñez, que tem contra si a participação na violação de direitos humanos durante a revolta.</p>
<p style="text-align: justify;">Outrossim, não se revogaram as medidas repressivas como a “Lei anti-saques e anti-barricadas” (Lei 21.208) e continua se aplicando seletivamente a Lei de Defesa do Estado, como ocorreu com o porta-voz da <em>Coordinadora de Comunidades en Conflicto Arauco Malleco</em>-CAM, Héctor Llaitul, assim como a muitos outros <em>weichafe</em> (guerreiros) da CAM e de outras organizações, que foram detidos entre 2022-2023. A repressão seletiva tem atingido também companheir@s do meio anarquista; assim como manifestantes detidos no contexto de luta de rua. Um caso paradigmático que expressa o clima repressivo que estamos vivendo, foram as longas e exemplares condenações de prisão que receberam os companheiros anarquistas Francisco Solar (86 anos) e Mónica Caballero (12 anos), por ataques explosivos que não mataram ninguém.</p>
<p style="text-align: justify;">De outro lado, o discurso de “mão dura” contra o crime e a imigração “ilegal”, não fica devendo em nada à ultradireita mais reacionária. <em>&#8220;Ou se regularizam ou vão embora&#8221;</em>, foi o últimato de Boric contra as e os estrangeiros que se encontram em situação irregular em território chileno, o que se soma à escavação de valas na fronteira com a Bolívia para “conter a crise migratória”. ”<em>Seremos como cães na perseguição à delinquência</em>“, vociferou Boric, enquanto o governo já se encontra estudando a implementação de “estratégias mexicanas” — com tudo o que isto implica — para combater a crescente criminalidade. A tudo isto, se acrescenta a irrisória reforma dos <em>Carabineros</em>, que se reduz à troca do uniforme, e a uma redução nos requisitos de recrutamento: agora podem ser policiais pessoas de menor estatura, com tatuagens, pés chatos ou com cáries. O apoio aos <em>Carabineros</em> por parte do governo tem sido incondicional, e neste sentido centenas de casos de violência policial ocorridos durante a revolta, que inclui torturas, abusos sexuais e assassinatos, ficaram completamente impunes.</p>
<p style="text-align: justify;">As promessas de campanha, muitas delas reformas de caráter estrutural, têm sido escassamente implementadas e não existe nenhum indício de que se tornem realidade no futuro próximo, sobretudo quando sua coalização apostou todas as fichas em “realizar as grandes transformações de que o Chile precisa”, logo após uma suposta vitória eleitoral no plebiscito de 4 de setembro de 2022 (primeiro processo), o que, como já sabemos, não somente não aconteceu, como foi um imenso fracasso; os fatores que determinaram este fracasso foram muitos e complexos demais, mas se destacam: o caráter pouco concreto e abstrato do esboço; a grande inflação que existia àquela altura (12,8%); a imposição do voto obrigatório com a ameaça de uma multa altíssima (quase meio salário mínimo); a implementação de políticas de austeridade; a não liberação dos resgates dos fundos de pensão da AFP; o que na prática se tornou um voto de castigo em desaprovação à gestão do governo. Talvez a única exceção tenha sido o limitado indulto presidencial de fins de 2022 que beneficiou 12 presos da revolta e 1 ex-militante da FPMR acusado sem provas de assalto a banco.</p>
<p style="text-align: justify;">A aprovação do Acordo Transpacífico-TPP11, que várias organizações sociais se opuseram — e que o mesmo Boric se opunha há alguns anos — porque aprofunda o devastador modelo de acumulação extrativista, privatiza o uso de sementes, e que suspende a legislação trabalhista — entre outras consequências nefastas —; e o projeto de “reforma previdenciária”, que não toca nos fundamentos do esgotado sistema de pensões representado pelas AFP, que entrega aposentadorias de fome, mantém o financiamento por meio de cotizações d@s trabalhador@s aos grandes grupos econômicos, e que sequer lembra algo parecido com um “sistema de seguridade social” existente nos países centrais; são apenas alguns exemplos da linha que tem seguido o governo de Boric.</p>
<p style="text-align: justify;">Em março de 2023 o governo de Boric apresentou no Congresso seu projeto de criação da Empresa Nacional de Lítio (“ENL”), que buscaria <em>&#8220;investir no processo de produção de produtos e desenvolver métodos de extração mais sustentávei&#8221;</em>. No entanto, o projeto original de exploração e beneficiamento estatal do minério deu lugar à sua privatização, ao incorporar um acordo entre a CODELCO (51%) e a empresa privada SQM (cujo proprietário é Julio Ponce Lerou, ex-genro de Pinochet que esteve envolvido em casos de corrupção, escândalos financeiros e financiamento ilegal de campanhas políticas). A incorporação da inciativa privada constitui uma privatização disfarçada de um recurso que na atual constituição está nacionalizado, o que contradiz a promessa de campanha de criar uma empresa 100% estatal.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-152469 aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/3.jpg" alt="" width="1000" height="562" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/3.jpg 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/3-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/3-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/3-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/3-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2024/04/3-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, no último plebiscito, o processo constituinte encerrou seu ciclo; segue vigente a Constituição de Pinochet-Guzmán. A esquerda na prática chamou voto para conservá-la, contra o último projeto de esboço apresentado que foi hegemonizado pelos Republicanos e pela direita mais dura. Tudo isso implica em um imenso fracasso do reformismo, ainda não capitalizado de todo pela direita, pois sua proposta também fracassou e porque ela se encontra dividida internamente. Em resumo, existe hoje uma deslegitimação ainda maior da política, fastio dos eventos eleitorais e do voto obrigatório.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Projeções</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Em meio a este panorama, acreditamos que as minorias revolucionárias têm várias tarefas urgentes a realizar. A primeira, e mais óbvia, é promover a necessidade de aprofundamento teórico do tempo que vivemos, fomentando a discussão e o debate fraterno entre diversos grupos e coletivos do meio radical, mas também levando essas discussão para fora. De outro lado, e em ligação com isto, é vital dotar-se de um espírito de movimento, que incentive a criação de iniciaticas associativas e rede proletárias que interajam permanentemente entre si, que paulatinamente comecem a superar a fragmentação e o sectarismo a que estamos lamentavelmente habituados.</p>
<p style="text-align: justify;">As minorias revolucionárias devem, ainda, funcionar como vasos comunicantes entre as distintas lutas que emergirão, mantendo firmemente posições antagônicas nos espaços, que ajudem a superar as separações próprias das relações capitalistas e que sejam capazes de promover o horizonte comunista como única possibilidade realista de futuro. Também consideramos que, em meio a um cenário de crise multidimensional, deve-se fomentar e participar nas instâncias de auto-organização proletária vinculadas à subsistência e à sobrevivência (cozinhas e hortas comunitárias, organizaçoes de saúde e de cuidado, etc.), que ligadas à reprodução da vida social podem converter-se em embriões de potencialidade comunista.</p>
<p style="text-align: justify;">Por último, pensamos que se faz necessário retomar o debate sobre a “tomada dos meios de produção” e sua comunização no interior da nossa classe. Levando em conta que vivemos em um mundo com uma divisão do trabalho complexa, acreditamos que ainda existem possibilidades de levar adiante processos de comunização naqueles setores estratégicos imprescindíveis para manter a reprodução social (alimentação, energia, telecomunicações, saúde e habitação) que podem ir se desenvolvendo a nível local/regional durante um processo mais amplo de luta internacional.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>Traduzido do original em espanhol pelo Passa Palavra (disponibilizamos também a versão em espanhol, <a href="https://passapalavra.info/2024/04/152473/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>). As obras que ilustram o texto são da autoria de Alfredo Jaar (1956-).</em></p>
</blockquote>
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		<title>50 Anos do Golpe Civil-Militar no Chile e a Educação Popular</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 Dec 2023 10:11:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Chile]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Carlos Acevedo G. Nesse ano de 2023 se comemoraram os 50 anos do fatídico 11 de setembro de 1973, que não só significou uma profunda quebra de uma democracia chilena que se viu interrompida abruptamente, o que não acontecia desde a constituição de 1925, mas também foi um ponto de inflexão para os partidos [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Carlos Acevedo G.</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">Nesse ano de 2023 se comemoraram os 50 anos do fatídico 11 de setembro de 1973, que não só significou uma profunda quebra de uma democracia chilena que se viu interrompida abruptamente, o que não acontecia desde a constituição de 1925, mas também foi um ponto de inflexão para os partidos políticos de esquerda que foram marcados por sofrerem perseguição política, exílio, desaparição forçada de seus quadros políticos, tortura e assassinatos ao longo dos 17 anos nos quais governou Augusto Pinochet, acompanhado pelo poder civil dos antecessores da direita que hoje está representada pela UDI (Unión Demócrata Independiente) e pela RN (Renovación Nacional), junto a uma extrema direta fanática que parece renascer dos quarteis secretos da DINA &#8211; CNI, a polícia política da ditadura.</p>
<p style="text-align: justify;">Existe um longo trabalho histórico sobre os acontecimentos ocorridos durante estes 50 anos: memórias como a do General Carlos Prats, as reportagens jornalísticas e os livros de testemunhos que têm dado conta dos feitos desse período. Talvez a mais completa investigação jornalística publicada recentemente foi a do jornalista americano John Dinges, “Os Anos do Condor”, publicada no Brasil no ano de 2019 e que atualiza sobre a brutalidade destes 50 anos e suas tramas judiciais.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto a ditadura e seu apoio civil dilaceravam o país com morte e tortura, as organizações populares se reorganizaram primeiro para sobreviver e também para buscar seus mortos e desaparecidos nos bairros populares, chamados aqui no Chile de <em>poblaciones</em>, das principais cidades &#8211; como Santiago, Valparaíso e Concepción &#8211; assim como em tantos outros lugares da louca geografia chilena. Na sombra da noite mais longa e escura da ditadura começaram a nascer práticas de autoeducação popular: nascem as práticas autogestionadas por <em>pobladoras </em>e <em>pobladores</em>, como as <em>ollas comunes</em> (“panelas comuns”, práticas solidárias, organizadas e comunitárias de providenciar alimentação) e os <em>comprando juntos</em> (ações comunitárias com a finalidade de baratear os custos das compras), além dos comitês de autodefesa, os coletivos de saúde popular e com eles as práticas pedagógicas da Educação Popular. A longa noite ditatorial também foi o refúgio de um novo mundo comunitário e social que começava a nascer.</p>
<p style="text-align: justify;">Distintas organizações e coletivos surgem na defesa dos Direitos Humanos e nas práticas da Educação Popular: o Comité Pro-Paz nos primeiros anos da ditadura e, posteriormente, a Vicaria de la Solidariedade, a Comisión de Derechos Humanos, o Comité de Defensa de los Derechos del Pueblo (CODEPU), Sevicio de Paz y Justicia (SERPAJ), Servicio para el Desarrollo Evangélico (SEPADE), Fundación de Ayuda Social de Iglesias Cristianas (FASIC), talvez o mais importante sendo o programa de Educação Popular do Centro De Investigacion y Desarrollo de la Educacion (CIDE), entre tantas outras. Todas, sem distinção, fundaram suas práticas desde a Educação Popular.</p>
<p style="text-align: justify;">Um exemplo gráfico é o registro que nosso companheiro Guillermo Correa Camiroaga, integrante do CODEPU da Região de Valparaíso, recompilou com sua câmera fotográfica durante os anos 80:</p>
<p style="text-align: justify;">Uma das linhas de trabalho desenvolvidas pelo CODEPU V REGIÓN foi a implementação da Educação Popular como um instrumento destinado à criação, fortalecimento e capacitação das organizações populares. Essa linha de ação foi levada a cabo pelas diferentes Equipes Técnicas que, nos setores e territórios da V Região, principalmente em estreita coordenação com a ODEPO (Organización de Defensa de los Derechos Poblacionales), levaram adiante este que-fazer.</p>
<figure id="attachment_151021" aria-describedby="caption-attachment-151021" style="width: 400px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-151021 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/1.jpg" alt="" width="400" height="292" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/1.jpg 400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/1-300x219.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /><figcaption id="caption-attachment-151021" class="wp-caption-text">Foto de Guillermo Correa, anos 1980. Integrantes do Comitê de Saúde “Sol y Esperanza”, de Rinconada de Los Andes, interior da Região de Valparaíso (V Región).</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">As distintas Equipes Técnicas que formavam parte do CODEPU V Región desenvolviam, em maior ou menor medida, o trabalho de Educação Popular, se ajustando criativamente às distintas situações, contextos, territórios e locais onde se implementou, dentro do conceito geral de defesa e conquista dos direitos do povo, incluindo ali, claro, a defesa, denúncia e a luta contra a impunidade em matéria de direitos humanos, como além disso a resistência e a luta contra a ditadura“.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra instância muito importante, durante a longa noite da ditadura, e onde se fez verbo a Educação Popular foram as Comunidades Eclesiais de Base, sob as beiras da Igreja Católica.</p>
<p style="text-align: justify;">Um primeiro ponto que nos convoca a revisar o papel da Educação Popular durante a ditadura civil-militar e os 50 anos do golpe tem relação com as práticas e teorias sobre Paulo Freire e a Educação Popular: nessa linha, a teoria e prática propostas por Freire vem sendo estudadas e executadas desde a década de 1960, em particular com o processo de Alfabetização que acompanhou a reforma agrária chilena e o emblemático livro “A Pedagogia do Oprimido”.</p>
<figure id="attachment_151020" aria-describedby="caption-attachment-151020" style="width: 400px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-151020" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/2.jpg" alt="" width="400" height="272" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/2.jpg 400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/2-300x204.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /><figcaption id="caption-attachment-151020" class="wp-caption-text">Foto de Guillermo Correa, anos 1980. Integrantes do Comitê de Saúde “Sol y Esperanza”, de Rinconada de Los Andes, interior da Região de Valparaíso.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Posteriormente, as práticas de Educação Popular se aprofundaram como parte da resistência à ditadura civil-militar, em um trabalho com <em>pobladores </em>e <em>pobladoras </em>dos bairros populares da grande Santiago e outras grandes cidades. O trabalho comunitário convidava ao desenvolvimento das práticas da Educação Popular como uma forma de resistência e enfrentamento educativo cultural contra a maquinaria comunicacional da ditadura, isso sob as beiradas das paróquias populares e com os padres operários no movimento das comunidades eclesiais de base. Foi aí onde se reuniram os educadores populares, sob a pressão da fome generalizada fortemente presente nos anos 1970 e 1980, junto aos <em>pobladores </em>de La Victoria, La Legua, La Castrina, Huamachuco e outras tantas <em>poblaciones </em>de Santiago, assim como nos morros de Valparaíso. Nesses locais vão surgindo os comitês de ”<em>comprando juntas</em>“, ”<em>ollas comunes</em>“, “comitês de autodefesa” e outras organizações populares que em sua grande maioria eram dirigidas por mulheres e jovens populares. Apenas para nomear e não esquecer cabe mencionar a educadora popular Aida Moreno em Huamachuco, fundadora da Casa da Mulher.</p>
<figure id="attachment_151019" aria-describedby="caption-attachment-151019" style="width: 400px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-151019" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/3.jpg" alt="" width="400" height="268" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/3.jpg 400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/3-300x201.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /><figcaption id="caption-attachment-151019" class="wp-caption-text">Foto de Guillermo Correa, anos 1980.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">As práticas da Educação Popular implicavam no trabalho participativo e no uso das metodologias participativas, assim como também no desenho de material educativo.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos anos 1980, o trabalho da Educação Popular e suas práticas estiveram centradas na preparação dos setores populares para enfrentar e lutar contra a ditadura civil-militar. Beber da fonte da Educação Popular, da Teologia da Libertação e do Marxismo permitiu pouco a pouco ir conhecendo os postulados de Paulo Freire &#8211; sua experiência nos anos 60 no Chile no contexto da reforma agrária e as suas andanças na luta de libertação na África &#8211; e foram se constituindo em uma motivação intelectual profunda que os jovens desses anos se nutriam das fontes teóricas e práticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Um marco de referência no aprofundamento das práticas da Educação Popular foi o triunfo da Revolução Sandinista no ano de 1979, cheia de cristianismo, alegria e esperança para toda a América Latina. A derrota de Anastasio Somoza levou ao triunfo da revolução e o início de programas de alfabetização de uma Nicarágua livre, que foi sem dúvida uma grande esperança para os povos da América Latina submersos às ditaduras mais selvagens, em particular no Chile e na Argentina. A tarefa alfabetizadora na Nicarágua implicava em conhecer a palavra para libertar-se da opressão que cada um carregava. Foram tempos cheios de esperança em meio às atrocidades das ditaduras.</p>
<figure id="attachment_151018" aria-describedby="caption-attachment-151018" style="width: 400px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-151018" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/4.jpg" alt="" width="400" height="300" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/4.jpg 400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/4-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/4-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/4-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/4-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/4-238x178.jpg 238w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /><figcaption id="caption-attachment-151018" class="wp-caption-text">Foto de Guillermo Correa, anos 1980. Integrantes do Comitê de Saúde “Sol y Esperanza”, de Rinconada de Los Andes, interior da Região de Valparaíso.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Se considerarmos a Igreja Católica como um grande guarda-chuva para o desenvolvimento das práticas da Educação Popular, nele houve personagens muito importantes, que hoje, na noite mais escura da Igreja Católica, é preciso recordar. No Chile, me refiro a alguns bispos e sacerdotes (padres operários) como Monsenhor Enrique Alvear, o Bispo Carlos Camus, o Bispo Carlos Gonzalez, Don Jorge Houston, sacerdotes como Cristian Llona, José Aldunate, Mariano Puga, Ignacio Gutiérrez, Ronaldo Muñoz, o padre Guido Lebret em Talca, entre tantos outros.</p>
<p style="text-align: justify;">Na América Latina estão sempre presentes Ernesto Cardenal e seu irmão Fernando Cardenal, Frei Betto, os bispos Helder Câmara e Pedro Casaldáliga, Leonardo Boff, Jon Sobrino, Gustavo Gutiérrez e muitos outros mais.</p>
<p style="text-align: justify;">A leitura da “Pedagogia do Oprimido” foi um ponto de partida para a formação teórica da Educação Popular, as experiências de Paulo Freire na África se converteram em um grande nutriente para as práticas de Educação Popular, mas o mais importante da Educação Popular chilena durante esses anos foi o trabalho comunitário e de autodefesa contra a ditadura.</p>
<p style="text-align: justify;">Paulo Freire era conhecido no Chile pelo seu aporte à reforma agrária que havia começado com Monsenhor Manuel Larraín no início dos anos 1960 em Talca e que, posteriormente, ficou em cargo de Jacques Chonchol durante os governos de Eduardo Frei e de Salvador Allende. A chegada de Freire ao Chile durante o governo de Eduardo Frei Montalva e sua incorporação ao ICIRA (Instituto de Capacitación e Investigación en Reforma Agraria) para o trabalho de Alfabetização foi um ponto de partida para ser conhecido, o aporte aos camponeses da região do Maule e de Choapa, com a alfabetização e seu método psicossocial. Como não lembrar também da jovem educadora popular e alfabetizadora Olga Cruzat.</p>
<p style="text-align: justify;">Do parágrafo anterior eu gostaria de destacar o grande conhecimento dessa época que têm os professores Rolando Pinto, Jorge Osorio, Francisco Vio Grossi e Juan José Silva: recomendo seus conhecimentos e análises sobre Paulo Freire e esse período.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos anos 1980 o trabalho da Educação Popular focou principalmente no programa de Educação Popular do CIDE. Educadores como Luis Bustos Titus, Juan José Silva, Jorge Zuleta e Carmen Colomer marcaram história, em particular com as jornadas de Educação Popular na Casa de Exercícios do arcebispado em Punta de Tralca.</p>
<p style="text-align: justify;">Por sua parte, a equipe de Educação Popular do SEPADE promoveu os Centros de Recreação Infantil (CRI) na <em>población </em>de La Legua e na zona norte de Santiago. Na <em>población </em>La Victoria a casa do SEPADE, que estava na esquina de Galo Gonzalez com 30 de Outubro, nutriu os <em>pobladores </em>e <em>pobladoras </em>para fortalecer os comitês e organizações que se multiplicavam às centenas em La Victoria, que os próprios <em>pobladores </em>denominavam como o “primeiro território livre do Chile”. Eram os tempos do padres Pierre Dubois e Andrés Jarlan, sacerdote assassinado enquanto lia a bíblia e os <em>pobladores </em>se defendiam da repressão.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas oficinas de Educação Popular participavam <em>pobladores</em>, mulheres e jovens, durante dois ou três dias de jornadas. Se realizavam nas capelas, colégios religiosos, sindicatos, clubes esportivos e em associações de moradores.</p>
<figure id="attachment_151017" aria-describedby="caption-attachment-151017" style="width: 400px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-151017" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/5.jpg" alt="" width="400" height="278" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/5.jpg 400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/12/5-300x209.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /><figcaption id="caption-attachment-151017" class="wp-caption-text">Foto de Guillermo Correa, anos 1980.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A grande esperança da Educação Popular era um caminho de libertação, alegria e irmandade entre os participantes: a solidariedade, o sonho da liberdade frente à ditadura e a construção de um país melhor, quase ansiando os anos do governo do presidente Allende, ao mesmo tempo que se vivia a repressão, tortura e morte de muitos companheiros e companheiras.</p>
<p style="text-align: justify;">Paulo Freire e a Educação Popular se mantêm vigentes até os dias de hoje, apesar das tentativas de fazê-la desaparecer, como aconteceu nos anos 1990 quando o CIDE fecha o programa de Educação Popular e demite os principais expoentes do campo no Chile.</p>
<p style="text-align: justify;">A Educação Popular se faz verbo em sua metodologia. As metodologias participativas eram e são a forma de trabalhar com as comunidades, mas também é a forma de construir democracia desde as bases populares.</p>
<p style="text-align: justify;">A teoria e a filosofia da Educação Popular, da Educação Libertadora são substanciais no momento de sua prática, estas vão se recriando acompanhando os novos tempos.</p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente, a Educação Popular e Paulo Freire seguem estando vigentes, pois as abordagens de Freire nascem desde a América Latina. Desde cada canto onde exista um empobrecido, aí deverá estar a Educação Popular.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Tradução de Ian Gabriel Couto Schlindwein</em></p>
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		<title>O Chile não foi o laboratório do neoliberalismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Nov 2022 03:06:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Chile]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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					<description><![CDATA[Não podemos chamar de laboratório quando, o que está em questão, não é uma experimentação, mas a urgência do capital em apagar aquele que era o maior incêndio em seus domínios ocidentais, cuja combustão se realizava na perigosa fusão da ideia de autonomia e igualdade. Por Flávio Higuchi Hirao]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Flávio Higuchi Hirao</h3>
<p style="text-align: right;">Palavras podem ser como minúsculas doses de arsênico: são engolidas de maneira despercebida e parecem ser inofensivas; passado um tempo, o efeito do veneno se faz notar. Klemperer, 2009<strong>[1]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Neste texto pretendo problematizar uma das expressões mais corriqueiras quando falamos do Chile: a de que o país teria sido o “laboratório do neoliberalismo”.</p>
<p style="text-align: justify;">Trago a hipótese de que por trás do uso da palavra laboratório reside uma perspectiva norte centrada e reducionista politicamente (em prol de um determinismo econômico). Quando falamos em laboratório costumamos nos referir a um lugar onde experimentamos, testamos, simulamos, em condições muitas vezes controladas, alguma ideia que, uma vez comprovada sua eficácia, poderá ser aplicada na realidade. Neste sentido, o Chile de Pinochet se reduziria a um lugar de experimentação de um modelo econômico que, após testado, se expandirá ao mundo que verdadeiramente importa: a Inglaterra de Margaret Thatcher e os EUA de Ronald Reagan.</p>
<p style="text-align: justify;">As interpretações do neoliberalismo que privilegiam a chave macroeconômica tendem a privilegiar os acontecimentos ocorridos no “centro” do capitalismo, posicionando o Chile numa “periferia” onde teria ocorrido uma espécie de pré-história do modelo. Em diversos textos fundamentais sobre o neoliberalismo encontramos expressões que parecem se referir a um laboratório científico: para David Harvey, por exemplo, o Chile teria “oferecido úteis dados”  que suportariam a “subsequente adoção do neoliberalismo na Grã Bretanha (sob Thatcher) e nos Estados Unidos (sob Reagan) nos anos 1980” (Harvey, 2005)<em>. </em></p>
<p style="text-align: justify;">A história então não teria começado em 1973 com Pinochet, mas entre 1979 (Thatcher) e 1980 (Reagan). Este ocultamento do Chile nos fornece a impressão de que os acontecimentos no país latinoamericano seriam uma espécie de pré-história, experimentações laboratoriais fora da história a serem posteriormente implementadas na história (equivalente a centro do capital). Diferentemente, Perry Anderson (1995) cita 1973 como um ano fundamental. Porém, não em razão de um fato político de extrema importância, o golpe contra Allende, mas pelo tema econômico: a crise mundial desencadeada em outubro daquele ano quando os países da OPEP proclamaram um embargo petrolífero que abalaria a economia mundial. Ocorre que meses antes daquele mês de outubro, e também anterior ao 11 de setembro daquele mesmo ano, um grupo de economistas chilenos já havia finalizado a elaboração de um documento com um conjunto completo de ideias para a reestruturação total do Estado e da sociedade chilena sob os princípios do neoliberalismo. Apelidado de <em>El Ladrillo</em>, o documento chegaria às mãos de alguns militares da alta cúpula que, meses mais tarde, estariam à frente da derrubada do presidente socialista eleito em 1970.</p>
<p style="text-align: justify;">El Ladrillo não propunha apenas diretrizes macroeconômicas: o documento trazia ideias que alterariam integralmente a vida dos chilenos em todas as suas dimensões. Por este motivo é fundamental que busquemos uma interpretação da gênese do neoliberalismo no Chile a partir de um enquadramento mais amplo para além da economia.</p>
<p style="text-align: justify;">É neste sentido que cabe questionarmos a nossa noção de centralidade. Pois talvez seja este o motivo pelo qual tratamos o Chile como laboratório: ao fazer parte da periferia do capitalismo, o que lá ocorreu teria um impacto menor em termos econômicos globais. Mas, do ponto de vista <em>político</em>, situar o Chile do início da década de 1970 como periferia seria um equívoco histórico: o país latino-americano era um centro de importância global na luta por novas possibilidades revolucionárias, como nos lembra Peter Winn (2010): <em>A via chilena de Allende era encarada na época como tão notável e importante que o Chile estava repleto de observadores estrangeiros, a maior parte deles esquerdistas europeus e latino-americanos que esperavam seguir seu exemplo em seus países de origem </em>(Winn, 2010: 19)<em>. </em></p>
<p style="text-align: justify;">Tal era a centralidade da revolução chilena que, para Claudia Gilman (2003), sua derrota em 1973 encerra um ciclo histórico do que seriam, nas palavras da autora, os “14 anos prodigiosos” iniciados em 1959 com a Revolução Cubana. Cabe portanto a seguinte linha de raciocínio lógica: o neoliberalismo nasceu no Chile não como um teste, não como uma experiência que por mero acaso encontrara condições ideais naquela ditadura da “periferia”; lá nasceu justamente para contrapor, ao avanço do<em> poder popular</em>, tanto uma economia quanto uma política neoliberal. É a história deste conflito <em>central</em> da década de 1970 que a palavra “laboratório” acaba por silenciar.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas este &#8220;reposicionamento” epistemológico da ideia de centro traz outras consequências: necessariamente nos leva a questionarmos a comum contraposição dualista formada pelo neoliberalismo de um lado e keynesianismo de outro. Afinal, o que a história chilena demonstra é que na década de 1970 o pensamento de autores como Hayek e Friedman se contrapunha sim ao Estado-providência mas também e sobretudo aos avanços das lutas por um socialismo democrático.</p>
<p style="text-align: justify;">Com este enquadramento triplo, a interpretação de Grégoire Chamayou nos fornece melhores pistas para compreender o big bang neoliberal no Chile:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">O antiestatismo das correntes de autogestão, seu pensamento sobre imanência, a autonomia e a auto-organização, exerciam sobre os neoliberais inegável atração. (&#8230;) Tal era o principal inimigo no terreno teórico. Daí podia vir o perigo para o futuro, muito mais do que um keynesianismo moribundo. A grande reação que se preparou nos anos 1970 não foi concebida como alternativa ao Estado de bem-estar, mas como alternativa à sua contestação. Foi uma alternativa à alternativa. (Chamayou, 2020: 393)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Ao analisar a história do neoliberalismo do ponto de vista do pensamento econômico e gerencial dominante, Chamayou conclui que, para os poderosos de então, a mais perigosa alternativa ao “keynesianismo morinbundo” eram as tendências de democracia radical. O Chile assim se desloca da periferia para o centro da preocupação: o lugar mais avançado na construção de um socialismo que impulsionava práticas autogestionárias sob o princípio do poder popular e com um presidente eleito pelo voto em eleições abertas e livres. <strong>[2]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A combinação das perspectivas políticas à econômica pode nos permitir retirar o Chile de dentro de um laboratório imaginário e reposicioná-lo no centro de conflito fundamental das décadas de 1960 e 1970, ou seja, aquele travado entre o capitalismo e o socialismo com tendências autogestionárias. Do contrário, estaremos assumindo que o neoliberalismo assumiu importância de fato apenas quando contestou o keynesianismo europeu ou estadunidense, ou seja, apenas quando contestou o próprio capitalismo!</p>
<p style="text-align: justify;">Nascimento e morte se fundem num único ato em 11 de setembro de 1973: a gênese daquela vanguarda da forma mercadoria só se realizou quando assassinou sua contemporânea vanguarda socialista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A guerra social no Chile</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se é certo que a ruptura violenta do golpe militar derrubou a esquerda, também é certo que este vazio produzido pela repressão foi ocupado por um novo universo de valores, normas e crenças impostos pela ditadura, processo dentro do qual o mundo popular cumpria um papel protagonista, no que seria, para além de uma guerra militar, uma &#8220;guerra social&#8221; (Verónica Valdivia et. al., 2012). Assim, a expressão de um dos generais golpistas, “extirpar o cáncer marxista hasta las últimas consecuencias”, não se referia apenas à eliminação física de milhares de chilenos, mas também a “ressocialização do povo do Chile sob novos parâmetros” (Verónica Valdivia et. al., 2012).</p>
<p style="text-align: justify;">Voltemos a <em>El Ladrillo</em>. Nas palavras de Luis Daniel Santana, encontramos no documento um “planteamiento utópico del programa neoliberal a partir de metáforas naturalizadoras, neutralizadoras y universalizantes” (Santana, 2017: 194). Santana faz questão de chamar de utópico, uma vez que não havia ainda um lugar nem condições históricas para sua implementação: se tratava de um conjunto de ideias. Mas ideias que contribuíram no fortalecimento de um ato real: um golpe de Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que queremos chamar atenção é que, em <em>El Ladrillo</em>, ao lado das soluções macro-econômicas, as questões políticas já estavam muito claras. Segundo os autores, a descentralização (outra forma de dizer privatização), levaria à “despolitización de numerosas actividades y colocará los conflictos ideológicos y políticos en el plano que les corresponde, evitando su interferencia en la vida cotidiana”. É esclarecedor verificar a clareza com que os ideólogos do sistema falavam das consequências políticas das ações econômicas:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Un sistema previsional basado en “Fondos” de ahorro efectivo de los participantes no sólo es una solución eficiente al problema previsional, sino que además creará un mecanismo de acumulación de riqueza en manos de los trabajadores. Ellos pasarían a ser, con el tiempo, una de las principales fuentes de ahorro para financiar inversiones, pudiendo alcanzar un papel prominente como poseedores de capital. Si esta posibilidad se materializa, podrían desaparecer o aminorarse las tensiones entre el capital y el trabajo, ya que este último seria a su vez poseedor de importantes recursos de capital […] Un proceso de esta naturaleza, mantenido por un número largo de años, conduciría a una socialización de la riqueza, sin que por ello se cayera en fórmulas de socialismo estatista, a la vez que se podría contar con todas las ventajas que ofrece una economía descentralizada y sustentada en mercados competitivos. (CEP, [1973] 1992: 134 in Santana, 2017).</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Vejamos como isso se deu na questão habitacional e urbana. Em primeiro lugar, para compreender a proposta neoliberal, é necessário verificar, antes, à qual situação política ela vinha se contrapor.</p>
<p style="text-align: justify;">Em período revolucionário e pré-revolucionário, as ocupações organizadas de terrenos se tornaram território fundamental na conjuntura política. Durante as décadas de 1950 e 1960 foram realizadas enormes ocupações, que obtiveram progressiva importância política ao longo dessas décadas. Uma das ocupações primeiras e mais importantes ficou conhecida como La Victoria, resultado da ocupação de um terreno por 1.200 famílias em Santiago em 1957. Para Alex Cortés (2014),</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">“Los pobladores de La Victoria fueron sus propios urbanistas. Para ello, organizaron planes de emulación entre los distintos bloques de la población, premiando y estimulando a aquellos pobladores que más destacaran por su sacrificio en los procesos de colocación de postes eléctricos y de cañerías. También se conformaron comités vigilancia, encargados de controlar la delincuencia y dar seguridad a la población; se premiaba a aquellos vecinos que tuvieran el jardín mejor cuidado, etcétera”.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">As ocupações cresceriam e ampliariam sua importância ao longo da década de 1960 sob o governo democrata cristão. Com a eleição de Salvador Allende e a vitória da Unidad Popular em 1970, as comunidades organizadas nas ocupações se tornaram um dos principais agentes de mobilização e defesa do regime. Segundo Nathalie Drumond (2015), o movimento de pobladores praticamente “refundou a cidade de Santiago” e, por meio da luta pela moradia, construíram os bairros e “vivenciaram uma intensa experiência de controle e gestão de seus territórios”. Em artigo de 1973, Manuel Castells (1973) analisava que, talvez, um dos “aspectos más específicos de la lucha de clases en Chile sea la importancia que ha tomado en ella, en particular en los últimos años, el llamado movimiento de pobladores”. Segundo Mario Garces Durán (2014), pode-se estimar que em Santiago ocorreram 256 ocupações de terrenos, a partir de dados de Castells (1973) e Cofré (2011).</p>
<p style="text-align: justify;">A importância das ocupações de terras aumentava à medida que se formavam os <em>cordões industriais</em>: áreas liberadas da cidade compostas pela integração de ocupações de terras e fábricas recuperadas pelos trabalhadores. Determinados espaços tanto de produção quanto de reprodução se desvencilhavam do capital (Borges, 2015; Gaudichaud, 2004).</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira ação do regime militar era, portanto, erradicar os radicais e, também, os pobres das regiões centrais: segundo Palacios y Layton (2017), “La erradicación, cortar de raíz, fue más allá de los supuestos subversivos: El espacio urbano/social y político debía estar libre de marginalidad, una asepsia territorial que se tradujo en crear nuevos territorios, townships de pobres, localizados en los extramuros de la ciudad. La dictadura preparó así el terreno para que después las empresas inmobiliarias modelaran una ciudad de segregación”.</p>
<p style="text-align: justify;">As remoções no centro das cidades chilenas respondiam ao mesmo tempo à valorização do solo urbano central e à desarticulação das organizações coletivas. Entre 1979 e 1984, 28 mil famílias haviam sido removidas de Santiago, o que correspondia a 20% dos domicílios pobres da cidade. Se tratava, afinal, da erradicação da auto-construção localizada em áreas centrais da cidade, por meio da aplicação do seu oposto: a produção privada de habitação por empresas construtoras centralizadas na política do governo federal em áreas afastadas da cidade. Segundo Rodrígues e Sugranyes (2015), “el programa de erradicación fue una medida radical, única en el continente, propiciada por los intereses de plusvalía del suelo, impuesta por las Fuerzas Armadas y legitimada por un marco normativo ad hoc”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas nenhum regime avança e impõe sua hegemonia apenas pela repressão. À política negativa repressora, o novo regime desenvolveria um sistema baseado no princípio da subsidiariedade e da meritocracia. Em seu primeiro ano uma das ações mais importantes do regime foi a Declaração de Princípios da Junta Militar, de 1974, que estabelecia o princípio de subsidiariedade que “supone la acecptación del derecho de propriedad privada y de la libre iniciativa en el campo económico”, assim como “la creación de una moral de mérito y del esfuerzo personal”. (Junta Militar, 1974). Se definia a relação Estado e indivíduos como uma complementariedade eventual, cujo fundamento seria o indivíduo, não as coletividades, seja classe, povo, coletivo ou &#8220;población&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">O Estado deixava de ser um promotor direto, preocupado com projetos, tecnologia, materiais, terrenos, etc., tendo se reduzido a atuar em três pilares fundamentais: poupança, subsídio e crédito, que seria &#8220;la fórmula mágica propuesta por los Chicago Boys&#8221; para reduzir o déficit habitacional (Vergara, 2014).</p>
<p style="text-align: justify;">Quantitativamente, a política habitacional neoliberal chilena é considerada exitosa, dado que permitiu a construção de unidades habitacionais na escala do próprio déficit inicial. Tornou-se assim modelo incorporado pelas agências de cooperação bilaterais ou multilaterais, com destaque para o BID.  Segundo Raquel Rolnik (2015), &#8220;de 1988 &#8211; quando um dos inventores do modelo chileno passa a integrar o staff do banco &#8211; em diante, praticamente todos os empréstimos envolvendo o setor habitacional passaram a incluir o modelo chileno de subsídio&#8221;. Na América Latina passaram a implementar esse modelo México, Guatemala, Bolívia, Equador, Brasil, El Salvador, Colômbia e Venezuela (Rolnik, 2015). No caso brasileiro, o modelo teve forte influência sobre a formatação do programa Minha Casa Minha Vida.</p>
<p style="text-align: justify;">O chamado &#8220;lado escuro de uma política exitosa&#8221;, conforme título de trabalho de Maria Elena Ducci (1997), é a questão urbana, que levaram a uma situação inusitada na América Latina: a redução do problema dos &#8220;sem-teto&#8221; que lograram o acesso à habitação, e o aparecimento do problema dos &#8220;con-techo&#8221;, sem cidade (Rodríguez e Sugranyes, 2015). O artigo de Ducci, de 1997, demonstrava que a redução do tamanho das casas e dos terrenos estavam impactando diretamente as formas de vida familiar, ao impedirem reuniões familiares, encontros e demais atividades fundamentais nas vidas familiares e comunitárias. Além da intensa segregação territorial, a política habitacional estava provocando a ruptura de laços familiares. Um fator agravante é a forma de seleção das famílias: a informatização do sistema de cadastro familiar permite a digitalização de todas as informações dos postulantes, como poupança acumulada, condições sócio-econômicas, etc., com base nas quais se hierarquizam as famílias e se permite uma grande imparcialidade na seleção dos beneficiários. Ocorre que a localização da nova moradia é definida automaticamente de acordo com a disponibilidade dos projetos executados pela ministério ou empresas executoras, &#8220;lejos del lugar de origen, lejos de la familia y antiguas amistades&#8221; (Ducci, 1997). A fragmentação de comunidades enfim se efetiva não mais pela repressão mas pelo próprio funcionamento do mecanismo tecnocrático “igualitário”, “transparente”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para Santana (2017), nos primeiros anos da ditadura a política chilena delineou uma “utopía socio-espacial basada en la producción privada de la urbanización, abordando en detalle las trabas y las soluciones potenciales al problema del mercado del suelo”, uma utopia que sería possível posteriormente em um contexto generalizado de financeirização. De fato, ao contrário do período pré 1973, quando prevalecia a auto-construção comunitária como alternativa, agora temos a promoção do auto-endividamento da família isolada. Quando falamos de dívida, falamos de títulos financeiros. Se auto-construção <em>sobrecarregava </em>os ombros de trabalhadores e trabalhadoras que erguiam suas próprias casas, por outro essa sobrecarga (trabalho) estava <em>imobilizada</em> no lugar onde a casa era construída, no terreno que, vale lembrar, muitas vezes sequer era um <em>título</em> dada sua informalidade (fato bem percebido pelo peruano Hernando de Soto). A política neoliberal traz a novidade de tirar as amarras e <em>mobilizar</em> essa <em>sobrecarga </em>do trabalho futuro chamada <em>dívida</em>, ou da sobrecarga dos trabalhos passado e presente, chamado <em>poupança-prévia</em>, conectando a família que conquista a casa via política pública estatal ao sistema financeiro global.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Laboratório ou ponta de lança </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para Dardot et. al. (2021), “a noção de ´laboratório´ que se usou e abusou a respeito da experiência chilena, deve ser visto com circunspecção”. Mas a crítica dos autores vai no sentido de relativizar a noção de que o Chile seria um modelo a ser transposto a outros lugares &#8211; dado que os países não são iguais. Nossa crítica vai em outra direção: não podemos chamar o Chile de laboratório quando, o que está em questão, não é um teste ou uma experimentação, mas a urgência do capital em apagar aquele que era o  maior incêndio em seus domínios ocidentais, cuja combustão se realizava na perigosa fusão da ideia de autonomia com a de igualdade.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Nós nos esquecemos, mas os defensores da “livre-iniciativa”, em uma situação &#8211; pelo menos no início do período &#8211; próxima à falência intelectual, também se interessavam pelas teorias da autogestão.</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia de que a “a individualidade na cooperação” pode se revelar social e historicamente superior à “competição no individualismo”, tal como repetia nesses mesmos anos Colette Magny, parecia aos neoliberais uma hipótese bastante plausível para que gastassem tanta tinta e papel com o intuito de refutá-la. E com razão. (Chamayou, 2020: 393)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Para ser eficiente, a contra-combustão não poderia ser contrária à autonomia: era o caso de esvaziá-la de seu sentido coletivo e anti-sistêmico, novamente cindindo-a da ideia de igualdade &#8211; palavra que precisava retornar ao seu devido par diabólico, o totalitarismo. A corda da autonomia, disputada em cabo de guerra ao longo da década de 1960, mas fundamental aos movimentos políticos radicais da época, é então definitivamente invertida e enquadrada no ideal de liberdade econômica. É assim que Hayek verá o Chile de Allende como o único regime totalitário da América Latina enquanto elogia a contra-revolução pinochetista como um exemplo de liberdade:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A filosofia política de Hayek revisa as categorias estabelecidas e redistribui as oposições pertinentes. A favor dessa operação de redistribuição conceitual, enunciados paradoxais se tornam formuláveis: a democracia poderá ser denunciada como totalitária, mas a ditadura também poderá ser perfeitamente louvada como liberal. (Chamayou, 2020: 330)</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Retirar os acontecimentos no Chile do lugar de laboratório pode também nos ajudar a retomar a preocupação da igualdade e da autonomia não como um fato conjuntural resumido àquela circunstância histórico-geográfica, ainda sob guerra-fria, mas, ao contrário, enquadrá-la como uma característica genético-estrutural do neoliberalismo, que avançará nas décadas seguintes criando estratégias propositivas de autonomia em prol da competição e do mercado (“autogestão” empresarial, empreendedorismo…) e reprimindo autonomias coletivas e anti-sistêmicas &#8211; estas sempre presentes e em enfrentamento. No Chile contemporâneo, o estallido de 2019, com fundamental protagonismo dos movimentos feministas, indígenas (mapuches) e ambientalistas (contra privatização da água), muitos deles organizados sob o princípio da autonomia, seguido da vitória de Gabriel Boric e pela posterior derrota da constituinte (Tinta Limón, 2021; Salém, 2021), mostram uma história aberta e em disputa na qual não se luta apenas por políticas próprias de um Estado-providência, mas se contesta integralmente a estrutura social chilena construída nas últimas décadas.</p>
<p><strong>Notas</strong></p>
<p><strong>[1]</strong> Emprestado de Assis, 2020.</p>
<p><strong>[2]</strong> É evidente que a chamada “via chilena” é complexa e cheia de matizes, com tendências internas conflitantes e contraditórias. Porém, é indubitável a importância do fato de Allende ter sido eleito pelo voto popular ao mesmo tempo em que vertentes fundamentais construíam diversos níveis de auto-organização na base.</p>
<p><strong>BIBLIOGRAFIA</strong></p>
<p>Anderson, Perry. Balanço do Neoliberalismo. In: Sader, Emir; Gentili, Pablo. Pós neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado Democrático. 8a. edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.</p>
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<p>Drummond, Nathalie Illa Longhi. O CONFLITO ENTRE MOVIMENTO DOS POBLADORES E ESTADO NO CHILE: quem gere, planeja e controla o território?. Revista Políticas Públicas &amp; Cidades &#8211; 2359-1552, [S.l.], v. 2, 2015.</p>
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<p>Palacios, C., Leyton, C. Las olvidadas erradicaciones de la ditadura. Entrevista em El Ciudadano, 2017.</p>
<p>Klemperer, V. A linguagem do Terceiro Reich. Tradução Miriam Bettina e Paulina Oelsner. Rio de Janeiro: Contraponto, 2009.</p>
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<p>Rolnik, Raquel. Guerra dos Lugares. A colonização da terra e da moradia na era das finanças. São Paulo: Editora Boitempo, 2015.</p>
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<p>Salém, Joana. O que esperar do governo Gabriel Boric. Entrevista a Opera Mundo, 2021. disponivel em <a href="https://www.youtube.com/watch?v=adc1ZOWMUs4" target="_blank" rel="noopener">https://www.youtube.com/watch?v=adc1ZOWMUs4</a>.</p>
<p>Salém, Joana. A encruzilhada chilena rumo à nova constituição. Em Viomundo, 2022. disponível em <a href="https://www.viomundo.com.br/politica/joana-salem-a-encruzilhada-chilena-rumo-a-nova-constituicao.html" target="_blank" rel="noopener">https://www.viomundo.com.br/politica/joana-salem-a-encruzilhada-chilena-rumo-a-nova-constituicao.html</a></p>
<p>Santana, Luis. Geografías de la acumulación por urbanización en Chile (1975-2015) ¿Utopías de la vivienda o distopías urbanas?. Tese de doutorado. Santiago, Chile, Pontifícia Universidad Católica de Chile, 2017.</p>
<p>Valdivia, V., Vallejos R, e Karen, F. La alcaldización de la política: Los municipios en la dictadura pinochetista. Santiago, Chile: LOM Ediciones, 2012.</p>
<p>Vergara, Luis. El Estado subsidiario y sus politicas urbanas: la expulsión de los estratos bajos de la ciudad. Revista Geographos, Vol. 5. Nº 62, 2014.</p>
<p>Winn, Peter. A revolução chilena. São Paulo: Editora Unesp, 2010.</p>
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		<title>Chile después de la Constituyente: Cuando se vacían las grandes alamedas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Oct 2022 03:27:49 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[É possível, e desejável, que do atual recuo surjam novas aprendizagens, se fortaleçam as autonomias e se aprofunde a resistência ao extrativismo e à classe política progressista. Por Raúl Zibechi]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Raúl Zibechi</h3>
<p style="text-align: justify;">“Finalmente nada ha cambiado”, tuitea Daniel Jadue, alcalde de Recoleta y miembro del oficialista Partido Comunista de Chile, al comentar las imágenes de la represión del 18 de octubre, cuando los manifestantes conmemoraban los tres años de la revuelta en Plaza Dignidad. “¿Cómo se explica ministra Carolina Toha que usen las mismas prácticas de Piñera?”, concluye el tuit <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">El gobierno desplegó ese día más de 25.000 efectivos en las calles para “controlar el orden público”. Las movilizaciones terminaron con 195 detenidos, 42 heridos y el saqueo a 15 locales comerciales. Boirc elogió la labor de Carabineros: “Quiero ser muy claro y explícito, tienen no solamente todo nuestro respeto, sino todo nuestro respaldo para el resguardo del orden público y para el combate frontal a la delincuencia”.</p>
<p style="text-align: justify;">Rodrigo Bustos, director ejecutivo de Amnistía Internacional Chile denunció que en el tercer aniversario de la revuelta “tan solo el 0,1% de las denuncias por violación a los derechos humanos han terminado en sentencia condenatoria”. De las más de 10 mil denuncias desde el comienzo de la revuelta, tan solo 16 de esas causas penales han terminado en sentencia condenatoria <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">El indulto a las personas que fueron privadas de libertad por la represión policial había sido una de las prioridades de Boric antes de alcanzar la Presidencia. Sin embargo, a tres años, muchos de ellos siguen detenidos. Según Radio Universidad de Chile, al 11 de marzo de 2022, día de la asunción de Boric, eran 211 las personas presas por causas relacionadas con las manifestaciones ocurridas entre el 18 de octubre de 2019 y el 30 de marzo de 2021. De ellas, 144 se encuentran en prisión preventiva y otras 67 tienen sentencias firmes.</p>
<p style="text-align: justify;">Las preguntas se amontonan cuando aliados muy cercanos del gobierno de Boric presentan críticas tan contundentes, nada menos que en un aspecto tan delicado como la represión y los presos políticos. La observación de Jadue podría extenderse al mundo mapuche, donde el gobierno Boric ha incrementado la militarización, con mayor presencia de uniformados que la que hubo bajo el gobierno de Piñera. No fueron liberados los presos de la revuelta y se restableció el estado de excepción en Wall Mapu, mostrando una clara continuidad con gobiernos anteriores.</p>
<p style="text-align: justify;">Ante la detención de su vocero, Héctor Llaitul, la Coordinadora Aruco Malleco (CAM) aseguró que no va dialogar con el gobierno “si no es por territorio y autonomía”, que seguirán recuperando tierras y que seguirán luchando contra el Estado colonial y su política de integración forzada. “O luchamos de verdad por la reconstrucción nacional mapuche o sólo es discurso y presión para recibir migajas que ofrece el Estado” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">La CAM denuncia lo que considera un gobierno de continuidad con lo que fue la Concertación neoliberal, que “pone una vez más su administración al servicio de las oligarquías y conglomerados económicos que tienen sus intereses puestos en nuestro territorio ancestral mapuche”. Por ese motivo, rechaza “el diálogo integracionista y plurinacional que requiere, para ser posible, dejar intactos los intereses del gran capital en nuestro territorio” y destacan que trabajan en la profundización de su proyecto histórico que gira en torno a la recuperación de territorios.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>¿Derrota o repliegue?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Desde la contundente derrota en el referendo constitucional del 4 de setiembre, los movimientos sociales parecen desconcertados, casi tanto como la conservadora clase política de izquierdas. El Rechazo obtuvo el 62%, ganó en todas las regiones, con una diferencia de 3 a 1 en la Araucanía y por sólo diez puntos en la Región Metropolitana de Santiago y en Valparaíso.</p>
<p style="text-align: justify;">El historiador Sergio Grez, que siempre fue muy critico del proceso constituyente, analizó entre las causas de la derrota del Apruebo, “el voto de castigo al gobierno Boric y sus políticas de continuismo neoliberal; el repudio al desempeño de la Convención Constitucional y de algunos convencionales en particular; una reacción de tipo conservadora (mas no necesariamente de “derecha”) de vastas franjas de la población, especialmente de los sectores populares, ante propuestas del proyecto de Constitución como la plurinacionalidad, el derecho al aborto aparentemente sin límite alguno (…) y el lenguaje inclusivo´ empleado, ajeno al de la inmensa mayoría de la población” <strong>[4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Considera que los temas “identitarios” (ambientalismo, feminismo, plurinacionalidad, regionalismo y territorios) “no generaron adhesión más allá de los nichos respectivos” y le parece probable que “la forma como se tradujeron las reivindicaciones de estos movimientos en el proyecto constitucional haya generado más rechazo que adhesión”.</p>
<p style="text-align: justify;">En los hechos, el Rechazo ganó por amplio margen en los distritos populares, en las llamadas “zonas de sacrificio” medioambiental, entre la población indígena, en las regiones mineras y en las cárceles, puesto que “las normas constitucionales propuestas y presentadas como las más avanzadas del planeta, que se suponía los beneficiarían, no cambiaban absolutamente en nada las condiciones reales de vida de estos y otros sectores de la población”, insiste Grez.</p>
<p style="text-align: justify;">Habría que agregar dos cuestiones: el voto obligatorio y la abrupta caída en la aprobación de Boric. En efecto, el instituto Cadem de opinión pública detectó una rápida erosión del presidente, al punto que en dos meses tenia más desaprobación que aprobación. En setiembre, mes del referendo, “promedia 37% de aprobación y 57% de desaprobación, siendo éste su peor mes desde que asumiera el 11 de marzo” <strong>[5]</strong>. Ya en octubre, sólo el 27% aprueba a Boric y el 65% lo rechaza.</p>
<p style="text-align: justify;">El voto obligatorio, una obsesión de las izquierdas en varios países, jugó claramente en contra. La participación aumentó de menos del 50% en varias elecciones anteriores, al 86% en el referendo. Pero de los 5,4 millones de nuevos votos emitidos, el 96% optó por el rechazo. Es cierto que la derecha política y mediática jugaron un papel importante mintiendo sobre el “extremismo” de la nueva Constitución, que crearon un clima de confusión entre amplios sectores de a población <strong>[6]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Sin embargo, lo más grave es la evaluación de la población acerca de la represión y de los aparatos armados, a tres años de la revuelta: “En relación al uso de la fuerza de parte de Carabineros y las fuerzas armadas durante el estallido, 58% considera hoy que ésta fue proporcional dada la violencia que había en las calles, 31puntos más que en 2019 cuando 69% pensaba que había sido excesiva” <strong>[7]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Buena parte de los analistas considera que la Convención Constituyente se aisló de los movimientos y que éstos tampoco ejercieron presión y vigilancia sobre los convencionales. En consecuencia, sigue Grez, “en un clima de desmovilización y reflujo, el organismo encargado de redactar el proyecto de nueva Constitución se parlamentarizó, funcionó en base a lógicas parecidas a las del Congreso Nacional y se distanció de la base social, facilitando las campañas de desprestigio de los sectores conservadores”.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-146238" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/l-odyssee-belle-kLO5bAqC9Y-unsplash.jpg" alt="" width="640" height="418" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/l-odyssee-belle-kLO5bAqC9Y-unsplash.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/l-odyssee-belle-kLO5bAqC9Y-unsplash-300x196.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Interminable giro a la derecha</strong></p>
<p style="text-align: justify;">La reacción inicial de Boric fue remodelar parte de su gabinete. Cayeron loa ministra de Interior y Seguridad Pública, a Izkia Siches, y el Secretario General de la Presidencia, Giorgio Jackson, que eran parte del núcleo duro del presidente y fueron sustituidos por figuras de la Concertación. Interior pasó a Carolina Tohá, exministra de la Concentración, aumentando la ya significativa presencia de exponentes de la “vieja política”, contra la que se había iniciado la revuelta.</p>
<p style="text-align: justify;">El giro derechista amenaza barrer la resistencia de los movimientos sociales que masivamente exigieron la no aprobación del tratado de libre comercio TPP11 (Tratado Integral y Progresista de Asociación Transpacífico) integrado por Australia, Brunei, Canadá, Chile, Malasia, México, Japón, Nueva Zelanda, Perú, Singapur y Vietnam. Al respecto Boric cambió de opinión: “Contradiciendo sus propios dichos acerca de los riesgos y perjuicios implicados en que Chile adscriba al acuerdo político y comercial TPP-11, el gobierno de Gabriel Boric ha resucitado el interés por ello, que parecía haber sido desahuciado con el fin del período de Sebastián Piñera” <strong>[8]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">El Observatorio Latinoamericano de Conflictos Ambientales (OLCA), sostiene que el tratado “es prioridad de los grandes grupos empresariales y corporaciones transnacionales” y denuncia los costos que tendrá para “para los territorios y sectores más vulnerables como l@s trabajadores, mujeres, jóvenes y pueblos indígenas”. Agrega que “pondrá en riesgo conquistas laborales fundamentales, como el posnatal, o las vacaciones pagadas”, que los megaproyectos que incluye “nos aseguran más sequía y saqueo; agotando y contaminando las escasas fuentes de agua” y finaliza asegurando que “la crisis de democracia y de participación no se resuelve entre cuatro paredes cediendo ante la presión de los poderes fácticos y económicos” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">La creciente militarización de Chile es uno de los aspectos más problemáticos del actual gobierno, que va mucho más allá que los anteriores presientes neoliberales. Grez estima que “Boric intentó algo que ni siquiera el gobierno de derecha de Piñera se atrevió a hacer: impulsar un proyecto de ley para que las fuerzas armadas puedan vigilar la llamada “infraestructura crítica”, sin necesidad de pedir la autorización del Estado de Emergencia por parte del Parlamento; esto es un nivel de militarización soñado pero no logrado por la derecha clásica”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Se apagan las llamaradas</strong></p>
<p style="text-align: justify;">El papel de Boric durante la revuelta consistió en aniquilarla, empeño que le rindió frutos ya que la derecha permitió que se convirtiera en presidente y los movimientos no pudieron apreciar en su momento la hondura de su propósito. En noviembre de 2019, semanas después de comenzada la mayor revuelta en la historia del país, decidió dar los pasos necesarios para debilitar la protesta que recién comenzaba.</p>
<p style="text-align: justify;">En vez de alentar que la movilización popular enterrara el régimen pos-pinochetista y terminara por deslegitimar a sus representantes, Boric decidió salvarlos y aislar a quienes seguían movilizados. Para eso firmó un acuerdo con la derecha y el progresismo por una “nueva Constitución”, sin consultar a su partido que consideró expulsarlo <strong>[10]</strong>. De ahí en más, la suerte de la revuelta estaba echada. La agenda política mutó radicalmente: de la demanda por la renuncia del presidente derechista Sebastián Piñera, se pasó a debatir la convocatoria de la asamblea constituyente.</p>
<p style="text-align: justify;">La pregunta que nos hacemos es porqué el amplio movimiento social chileno aceptó integrarse al proceso constituyente, diluyendo sus poderes y capacidades de acción colectiva que tan buenos resultados le venía dando. En efecto, la con excepción notable de los colectivos mapuche autonomistas y de la ACES (Asamblea Coordinadora de Estudiantes Secundarios), el grueso del movimiento aceptó trasladar la disputa al terreno legal y electoral, aceptando de hecho el organigrama ideado por las instituciones y la derecha.</p>
<p style="text-align: justify;">“El proceso constituyente nace a raíz de un acuerdo de partidos políticos para intentar restablecer el orden durante la revuelta”, explica Antonia Rolland de la ACES <strong>[11]</strong>. La organización estudiantil nunca aceptó el camino constitucional como sustituto de la lucha callejera, aunque apoyó los nuevos derechos contemplados en el texto y llamaron al Apruebo, sabiendo que con ellos no se modifica el modelo neoliberal.</p>
<p style="text-align: justify;">Esto nos indica que quienes no confiaron en el proceso constituyente y seguirán en la lucha, son básicamente los dos sectores que venían luchando intensamente desde antes de la revuelta de 2019: el sector autonomista del pueblo mapuche y los secundarios organizados que siguieron en la calle desde el <em>Mochilazo</em> de 2001. Hay muchos más por ciento: infinidad de grupos a lo largo d Chile que vienen organizándose en sus barrios contra el saqueo de las mineras, la defensa del medio ambiente, contra el patriarcado y la violencia policial, por derechos en salud y educación, por rescatar las pensiones secuestradas por el mercado financiero. Y más.</p>
<p style="text-align: justify;">Pero han sido esos dos colectivos (mapuche y secundarios) los que han encarnado desafíos de larga duración al Estado y al capital. Durante la revuelta se incorporaron cientos de miles, quizá millones, a las marchas y manifestaciones durante mucho más tiempo del esperado y del esperable. Pero cuando a esos millones se les abrieron caminos menos costosos (miles de heridos y detenidos, más de 30 muertos, 400 ojos estallados), optaron por tomar el atajo que era lo que les indicaba el sentido común a quienes recién se incorporaban a la pelea.</p>
<p style="text-align: justify;">La segunda cuestión, complementaria con la anterior, es la que apunta el historiador Eric Hobsbawm cuando compara el sindicalismo británico y el francés: “Los movimientos sindicales débiles suelen volcarse hacia el activismo político en busca de fuerza adicional; mientras que los fuertes no tienen que preocuparse en tal sentido” <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Es probable que la revuelta haya encontrado límites, como lucha callejera de acción directa, al resistirse Piñera a renunciar y lanzar al aparato represivo contra la población. Lo cierto es que en muy poco tiempo la demanda central del movimiento pasó de la renuncia del presidente a encaminarse a la redacción de una nueva Constitución que sustituyera a la heredada de la dictadura de Pinochet. Como tantos atajos, no condujo a ningún lugar interesante, sino que terminó por reforzar al régimen contra el que se habían levantado.</p>
<p style="text-align: justify;">Lejos de apostar a un nuevo proceso constituyente, los mapuche están empeñados en seguir recuperando tierras para convertirlas en territorios en resistencia; y los estudiantes enfocan sus energías en el trabajo organizativo en los barrios periféricos. Es posible, y deseable, que del actual repliegue surjan aprendizajes nuevos, se fortalezcan las autonomías y se profundice la resistencia al extractivismo y ala clase política progresista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> “Chile: aliados cuestionan a Boric por reprimir manifestaciones en el aniversario del estallido social” en <a class="urlextern" title="https://www.tvpublica.com.ar/post/chile-aliados-cuestionan-a-boric-por-reprimir-manifestaciones-en-el-aniversario-del-estallido-social" href="https://www.tvpublica.com.ar/post/chile-aliados-cuestionan-a-boric-por-reprimir-manifestaciones-en-el-aniversario-del-estallido-social" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.tvpublica.com.ar/post/chile-aliados-cuestionan-a-boric-por-reprimir-manifestaciones-en-el-aniversario-del-estallido-social</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> El Mostrador, 17 de octubre en <a class="urlextern" title="https://www.elmostrador.cl/destacado/2022/10/17/rodrigo-bustos-director-ejecutivo-de-amnistia-internacional-chile-y-tercer-aniversario-del-estallido-social-tan-solo-el-001-de-las-denuncias-por-violacion-a-derechos-humanos-ha-terminado-en-sente/" href="https://www.elmostrador.cl/destacado/2022/10/17/rodrigo-bustos-director-ejecutivo-de-amnistia-internacional-chile-y-tercer-aniversario-del-estallido-social-tan-solo-el-001-de-las-denuncias-por-violacion-a-derechos-humanos-ha-terminado-en-sente/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.elmostrador.cl/destacado/2022/10/17/rodrigo-bustos-director-ejecutivo-de-amnistia-internacional-chile-y-tercer-aniversario-del-estallido-social-tan-solo-el-001-de-las-denuncias-por-violacion-a-derechos-humanos-ha-terminado-en-sente/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> CAM responde, 9 de agosto de 2022 en <a class="urlextern" title="https://cctt.cl/2022/08/09/46236/" href="https://cctt.cl/2022/08/09/46236/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://cctt.cl/2022/08/09/46236/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Entrevista a Sergio Grez, <em>El Ciudadano</em>, 18 de octubre de 2022 en <a class="urlextern" title="https://www.elciudadano.com/chile/el-adn-del-acuerdo-del-15-de-noviembre-de-2019-sigue-mas-presente-que-nunca-en-el-proceso-permanente-de-reforma-constitucional-que-vive-chile/10/18/" href="https://www.elciudadano.com/chile/el-adn-del-acuerdo-del-15-de-noviembre-de-2019-sigue-mas-presente-que-nunca-en-el-proceso-permanente-de-reforma-constitucional-que-vive-chile/10/18/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.elciudadano.com/chile/el-adn-del-acuerdo-del-15-de-noviembre-de-2019-sigue-mas-presente-que-nunca-en-el-proceso-permanente-de-reforma-constitucional-que-vive-chile/10/18/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Cadem.cl, 2 de octubre de 2022.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Camila Vergara, “El rechazo de Chile”, <em>El Salto</em>, 11 de setiembre de 2022, en <a class="urlextern" title="https://www.elsaltodiario.com/chile/new-left-review-rechazo-constitucion-boric" href="https://www.elsaltodiario.com/chile/new-left-review-rechazo-constitucion-boric" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.elsaltodiario.com/chile/new-left-review-rechazo-constitucion-boric</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Cadem.cl, 16 de octubre de 2022.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Manuel Acuña, “Obituario para un gobierno que no pudo ser”, <em>Rebelion</em>, 11 de octubre de 2022 en <a class="urlextern" title="https://rebelion.org/obituario-para-un-gobierno-que-no-pudo-ser/#_edn3" href="https://rebelion.org/obituario-para-un-gobierno-que-no-pudo-ser/#_edn3" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://rebelion.org/obituario-para-un-gobierno-que-no-pudo-ser/#_edn3</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> OLCA, 13 de setiembre de 2022 en <a class="urlextern" title="https://olca.cl/articulo/nota.php?id=109640" href="https://olca.cl/articulo/nota.php?id=109640" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://olca.cl/articulo/nota.php?id=109640</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> CNN, 15 de noviembre de 2019, en <a class="urlextern" title="https://www.cnnchile.com/pais/boric-firmo-acuerdo-nueva-constitucion-sin-venia-partido_20191115/" href="https://www.cnnchile.com/pais/boric-firmo-acuerdo-nueva-constitucion-sin-venia-partido_20191115/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.cnnchile.com/pais/boric-firmo-acuerdo-nueva-constitucion-sin-venia-partido_20191115/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Entrevista con Antonia Rollando, en <a class="urlextern" title="https://desinformemonos.org/caminos-de-abya-yala-antonia-rolland/" href="https://desinformemonos.org/caminos-de-abya-yala-antonia-rolland/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://desinformemonos.org/caminos-de-abya-yala-antonia-rolland/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Eric Hobsbawm, “Tradiciones obreras” en <em>Gente poco corriente</em>, Barcelona, Crítica, 1999, p. 66.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Chile depois da Constituinte: quando se esvaziam as grandes avenidas</title>
		<link>https://passapalavra.info/2022/10/146236/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Oct 2022 03:18:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Chile]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[ É possível, e desejável, que do atual recuo surjam novas aprendizagens, se fortaleçam as autonomias e se aprofunde a resistência ao extrativismo e à classe política progressista. Por Raúl Zibechi ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Raúl Zibechi</h3>
<p style="text-align: justify;">“No fim das contas, nada mudou”, tuíta Daniel Jadue, prefeito de Recoleta e membro do governista Partido Comunista do Chile, ao comentar as imagens da repressão do dia 18 de outubro, quando os manifestantes comemoravam os três anos da revolta na Praça da Dignidade, “Como se explica, ministra Carolina Toha, que usem as mesmas práticas de Piñera?”, conclui o tuíte <strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo mobilizou nesse dia mais de 25.000 funcionários nas ruas para “controlar a ordem pública”. As mobilizações terminaram com 195 detidos, 42 feridos e o saque a 15 espaços comerciais. Boric elogiou o trabalho dos <em>Carabineros</em>: “Quero ser muito claro e explícito, têm não somente todo nosso respeito, mas também todo nosso respaldo para a defesa da ordem pública e para o combate frontal à delinquência”.</p>
<p style="text-align: justify;">Rodrigo Bustos, diretor executivo de Anistia Internacional Chile denunciou que, no terceiro aniversário da revolta, “apenas 0,1% das denúncias por violação aos direitos humanos foram concluídos com sentenças condenatórias”. Das mais de 10 mil denúncias desde o começo da revolta, somente 16 das causas penais terminaram com sentenças condenatórias <strong>[2]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O indulto às pessoas que foram presas pela repressão policial havia sido uma das prioridades de Boric antes de alcançar a presidência. No entanto, após três anos, muitos deles seguem detidos. Segundo a <em>Radio Universidad de Chile</em>, em 11 de março de 2022, dia que Boric assumiu, eram 211 as pessoas presas por causas relacionadas com as manifestações ocorridas entre o 18 de outubro de 2019 e o 30 de março de 2021. Delas, 144 estão em prisão preventiva e outras 67 têm sentenças definitivas.</p>
<p style="text-align: justify;">As perguntas se amontoam quando aliados muito próximos do governo Boric apresentam críticas tão contundentes, ainda mais sobre um aspecto tão sensível quanto a repressão e os presos políticos. A observação de Jadue poderia estender-se ao mundo mapuche, onde o governo Boric tem incrementado a militarização, com maior presença de tropas militares que sob o governo Piñera. Não foram liberados os presos da revolta e se restabeleceu o estado de exceção em <em>Wall Mapu</em>, mostrando uma clara continuidade com governos anteriores.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante a detenção de seu porta-voz, Héctor Llaitul, a Coordenação Aruco Malleco (CAM) assegurou que não vai dialogar com o governo “se não for por território e autonomia”, que seguirão recuperando terras, e que seguirão lutando contra o Estado colonial e sua política de integração forçada. “Ou lutamos de verdade pela reconstrução nacional mapuche, ou é somente discurso e pressão para receber as migalhas que o Estado” <strong>[3]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A CAM denuncia o que considera um governo de continuidade com o que foi a <em>Concertación</em> neoliberal, que “coloca uma vez mais sua administração ao serviço das oligarquias e conglomerados econômicos que têm seus interesses postos no nosso território ancestral mapuche”. Por esse motivo, rechaça “o diálogo integracionista e plurinacional que requer, para ser possível, deixar intactos os interesses do grande capital em nosso território”, e destacam que trabalham com o aprofundamento de seu projeto histórico que gira em torno da recuperação de territórios.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Derrota ou recuo?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Desde a contundente derrota no referendo constitucional de 4 de setembro, os movimentos sociais parecem desconcertados, quase tanto como a conservadora classe política de esquerda. A rejeição à nova Constituição obteve 62%, ganhou em todas as regiões, com uma diferença de 3 a 1 em Araucanía e por apenas 10 pontos na Região Metropolitana de Santiago e em Valparaíso.</p>
<p style="text-align: justify;">O historiador Sergio Grez, que sempre foi muito crítico do processo constituinte, analisou entre as causas da derrota da aprovação “o voto de castigo ao governo Boric e suas políticas de continuísmo neoliberal; o repúdio ao desempenho da Convenção Constitucional e de alguns constituintes em particular; uma reação de tipo conservadora (mas não necessariamente de “direita”) de vastas franjas da população, especialmente dos setores populares, ante propostas do projeto de Constituição como a plurinacionalidade, o direito ao aborto aparentemente sem nenhum limite (…) e a linguagem inclusiva empregada, alheia a imensa maioria da população” <strong>[4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Considera que os temas “identitários” (ambientalismo, feminismo, plurinacionalidade, regionalismo e territórios) “não geraram adesão para além dos nichos respectivos” e lhe parece provável que “a forma como se traduziram as reivindicações destes movimentos no projeto constitucional gerou mais rechaço que adesão”.</p>
<p style="text-align: justify;">De fato, a rejeição à nova Constituição ganhou por ampla margem nos distritos populares, nas chamadas “zonas de sacríficio” ambiental, entre a população indígena, nas regiões mineradoras e nas penitenciárias, posto que “as normas constitucionais propostas e apresentadas como as mais avançadas do planeta, que se supunha que os beneficiariam, não mudaram em absolutamente nada as condições reais de vida destes e de outros setores da população”, insiste Grez.</p>
<p style="text-align: justify;">Há que se agregar duas questões: o voto obrigatório e a queda abrupta na aprovação de Boric. Como efeito, o instituto Cadem de opinião pública detectou uma rápida erosão do presidente, ao ponto de que, em dois meses, tinha uma desaprovação maior que sua aprovação. Em setembro, mês do referendo, “pontuava 37% de aprovação e 57% de desaprovação, sendo este o seu pior mês desde que assumiu em 11 de março” <strong>[5]</strong>. Já em outubro, somente 27% aprova Boric, e 65% o rechaça.</p>
<p style="text-align: justify;">O voto obrigatório, uma obsessão das esquerdas em vários países, jogou claramente contra. A participação aumentou de menos de 50% em várias eleições anteriores para 86% no referendo. Porém, dos 5,4 milhões de novos votos, 96% optou pela rejeição à nova Constituição. É certo que a direita política e midiática desempenhou um papel importante, mentindo sobre o “extremismo” da nova Constituição e criando um clima de confusão entre amplos setores da população.<strong>[6]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, o mais grave é a avaliação da população sobre a repressão e os aparatos armados três anos depois da revolta: “Em relação ao uso da força por parte dos <em>Carabineros</em> e das forças armadas durante o <em>estallido</em>, 58% considera hoje que esta foi proporcional, devido à violência que existia nas ruas, 31 pontos a mais que em 2019, quando 69% pensava que havia sido excessiva ” <strong>[7]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Boa parte dos analistas considera que a Convenção Constituinte se isolou dos movimentos, e que estes tampouco exerceram pressão e vigilância sobre os constituintes. Por conta disso, segue Grez, “em um clima de desmobilização e refluxo, o organismo encarregado de redigir o projeto de uma nova Constituição se parlamentarizou, funcionou com pressupostos lógicos parecidos com os do Congresso Nacional e se distanciou da base social, facilitando as campanhas de desprestígio dos setores conservadores”.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-146238" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/l-odyssee-belle-kLO5bAqC9Y-unsplash.jpg" alt="" width="640" height="418" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/l-odyssee-belle-kLO5bAqC9Y-unsplash.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/10/l-odyssee-belle-kLO5bAqC9Y-unsplash-300x196.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Interminável giro à direita</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A reação inicial de Boric foi remodelar parte de seu gabinete. Caíram a ministra do Interior e da Segurança Pública, Izkia Siches, e o Secretário Geral da Presidência, Giorgio Jackson, que eram parte do núcleo duro do presidente e foram substituído por figuras da <em>Concertación</em>. O ministério do Interior passou para Carolina Tohá, ex-ministra da <em>Concerntación</em>, aumentando a já significativa presença de expoentes da “velha política”, contra a qual se havia iniciado a revolta.</p>
<p style="text-align: justify;">O giro direitista ameaça varrer a resistência dos movimentos sociais que exigiram, massivamente, a não aprovação do tratado de livre comércio TPP-11 (Tratado Integral e Progressista de Associação Transpacífica), integrado por Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Malásia, México, Japão, Nova Zelândia, Peru, Singapura e Vietnã. Sobre o tratado, Boric mudou de opinião: “Contradizendo suas próprias palavras acerca dos riscos e prejuízos implicados na assinatura, pelo Chile, do acordo político e comercial TPP-11, o governo de Gabriel Boric ressuscitou o interesse por ele, que parecia ter sido descartado com o fim do período de Sebastián Piñera” <strong>[8]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O Observatório Latino-americano de Conflitos Ambientais (OLCA) sustenta que o tratado “é prioridade dos grandes grupos empresariais e corporações transnacionais”, e denuncia os custos que terá para “os territórios e setores mais vulneráveis como @s trabalhadores, mulheres, jovens e povos indígenas”. Agrega que “colocará em risco as conquistas fundamentais dos trabalhadores, como as licenças parentais ou as férias pagas”; que os megaprojetos que inclui “nos asseguram mais seca e saque, esgotando e contaminando as escassas fontes de água”; e finaliza assegurando que “a crise de democracia e de participação não se resolve entre quatro paredes, cedendo ante a pressão dos poderes estabelecidos e econômicos” <strong>[9]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">A crescente militarização do Chile é um dos aspectos mais problemáticos do atual governo, que vai muito além dos anteriores presidentes neoliberais. Grez estima que “Boric tentou algo que sequer o governo de direita de Piñera se atreveu a fazer: dar impulso a um projeto de lei para que as forças armadas possam vigiar a chamada &#8216;infraestrutura crítica&#8217; sem necessidade de pedir autorização do Estado de Emergência por parte do Parlamento; isto é um nível de militarização sonhado, mas nunca alcançado pela direita clássica”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Se apagam as labaredas </strong></p>
<p style="text-align: justify;">O papel de Boric durante a revolta consistiu em aniquilá-la; empenho que lhe rendeu frutos, já que a direita permitiu que se convertesse em presidente e os movimentos não puderam apreciar, neste momento, a profundidade de seus objetivos. Em novembro de 2019, semanas depois de começada a maior revolta na história do país, decidiu dar os passos necessários para debilitar os protestos que haviam começado recentemente.</p>
<p style="text-align: justify;">Em vez de estimular a mobilização popular que enterraria de vez o regime pós-pinochetista e terminaria de deslegitimar seus representantes, Boric decidiu salvá-los e isolar aqueles que continuavam mobilizados. Para isso, firmou um acordo com a direita e o progressismo por “nova Constituição”, sem consultar seu partido, que pensou em expulsá-lo <strong>[10]</strong>. Dali em diante, a sorte da revolta estava dada. A agenda política mudou radicalmente: da demanda por renúncia do presidente direitista Sebastián Piñera, se passou a debater a convocatória da assembleia constituinte.</p>
<p style="text-align: justify;">A pergunta que nos fazemos é: porque o amplo movimento social chileno aceitou integrar-se ao processo constituinte, diluindo seus poderes e capacidades de ação coletiva que tão bons resultados vinha dando? Com efeito, e com a notável exceção dos coletivos autonomistas mapuches e da ACES (Assembleia Coordenadora de Estudantes Secundaristas), o grosso do movimento aceitou transportar a disputa para o terreno legal e eleitoral, aceitando de fato o organograma idealizado pelas instituições e pela direita.</p>
<p style="text-align: justify;">“O processo constituinte nasce a partir de um acordo de partidos políticos para tentar restabelecer a ordem durante a revolta”, explica Antonia Rolland, da ACES <strong>[11]</strong>. A organização estudantil nunca aceitou o caminho constitucional como substituto da luta das ruas, ainda que tenha apoiado os novos direitos contemplados no texto e defendido a aprovação da nova Constituição, sabendo que com eles não se modificaria o modelo neoliberal.</p>
<p style="text-align: justify;">Isto nos indica que quem não confiou no processo constituinte e seguiu na luta são basicamente os dois setores que vinham lutando intensamente desde antes da revolta de 2019: o setor autonomista do povo mapuche e os secundaristas organizados que seguiram na rua desde o <em>Mochilazo</em> de 2001. Há centenas mais, certamente: uma infinidade de grupos ao longo do Chile que vêm organizando-se em seus bairros contra o saque das mineradoras, pela defesa do meio ambiente, contra o patriarcado e a violência policial, por direitos à saúde e à educação, para resgatar as aposentadorias sequestradas pelo mercado financeiro. E mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Porém, são estes dois coletivos (mapuches e secundaristas) os que têm encarnado os desafios de longa duração ao Estado e ao capital. Durante a revolta se incorporaram centenas de milhares, quiçá milhões, às marchas e manifestações durante muito mais tempo que o esperado, e que o esperável. No entanto, quando a estes milhões foram abertos caminhos menos custosos (milhares de feridos e presos, mais de 30 mortes, 400 cegados), optaram por tomar o atalho que lhes indicava como sentido comum para quem estava recém-incorporado à luta.</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda questão, complementar em relação à anterior, é a que aponta o historiador Eric Hobsbawm quando compara o sindicalismo britânico e o francês: “Os movimentos sindicais débeis costumam lançar-se para o ativismo político em busca de força adicional, enquanto os fortes não precisam se preocupar com isso” <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">É provável que a revolta tenha encontrado limites, como luta de rua de ação direta, quando Piñera resistiu a renunciar e lançou o aparato repressivo contra a população. O certo é que, em pouquíssimo tempo, a demanda principal do movimento passou da renúncia do presidente a se encaminhar a redação de uma nova Constituição, que substituiria a herdada da ditadura de Pinochet. Como tantos atalhos, não conduziu a nenhum lugar interessante, mas também terminou por reforçar o regime contra o qual havia se levantado.</p>
<p style="text-align: justify;">Longe de apostar em um novo processo constituinte, os mapuches estão empenhados em seguir recuperando terras para convertê-las em territórios de resistência; e os estudantes focam suas energias no trabalho organizativo nos bairros periféricos. É possível, e desejável, que do atual recuo surjam novas aprendizagens, se fortaleçam as autonomias e se aprofunde a resistência ao extrativismo e à classe política progressista.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;"><em>Traduzido pelo Passa Palavra, a partir da versão original em espanhol, que pode ser lida <a href="https://passapalavra.info/2022/10/146240/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>. As imagens que ilustram este artigo são de <span class="MssrA"><span class="yayNa"><a class="N2odk RZQOk Vk1a0 AsGGe pgmwB KHq0c" href="https://unsplash.com/@lodyssee_belle" target="_blank" rel="noopener">L&#8217;odyssée Belle</a></span></span>.<br />
</em></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> “Chile: aliados cuestionan a Boric por reprimir manifestaciones en el aniversario del estallido social” en <a class="urlextern" title="https://www.tvpublica.com.ar/post/chile-aliados-cuestionan-a-boric-por-reprimir-manifestaciones-en-el-aniversario-del-estallido-social" href="https://www.tvpublica.com.ar/post/chile-aliados-cuestionan-a-boric-por-reprimir-manifestaciones-en-el-aniversario-del-estallido-social" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.tvpublica.com.ar/post/chile-aliados-cuestionan-a-boric-por-reprimir-manifestaciones-en-el-aniversario-del-estallido-social</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> <em>El Mostrador</em>, 17 de outubro em <a class="urlextern" title="https://www.elmostrador.cl/destacado/2022/10/17/rodrigo-bustos-director-ejecutivo-de-amnistia-internacional-chile-y-tercer-aniversario-del-estallido-social-tan-solo-el-001-de-las-denuncias-por-violacion-a-derechos-humanos-ha-terminado-en-sente/" href="https://www.elmostrador.cl/destacado/2022/10/17/rodrigo-bustos-director-ejecutivo-de-amnistia-internacional-chile-y-tercer-aniversario-del-estallido-social-tan-solo-el-001-de-las-denuncias-por-violacion-a-derechos-humanos-ha-terminado-en-sente/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.elmostrador.cl/destacado/2022/10/17/rodrigo-bustos-director-ejecutivo-de-amnistia-internacional-chile-y-tercer-aniversario-del-estallido-social-tan-solo-el-001-de-las-denuncias-por-violacion-a-derechos-humanos-ha-terminado-en-sente/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> CAM responde, 9 de agosto de 2022 em <a class="urlextern" title="https://cctt.cl/2022/08/09/46236/" href="https://cctt.cl/2022/08/09/46236/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://cctt.cl/2022/08/09/46236/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> Entrevista com Sergio Grez, <em>El Ciudadano</em>, 18 de outubro de 2022 em <a class="urlextern" title="https://www.elciudadano.com/chile/el-adn-del-acuerdo-del-15-de-noviembre-de-2019-sigue-mas-presente-que-nunca-en-el-proceso-permanente-de-reforma-constitucional-que-vive-chile/10/18/" href="https://www.elciudadano.com/chile/el-adn-del-acuerdo-del-15-de-noviembre-de-2019-sigue-mas-presente-que-nunca-en-el-proceso-permanente-de-reforma-constitucional-que-vive-chile/10/18/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.elciudadano.com/chile/el-adn-del-acuerdo-del-15-de-noviembre-de-2019-sigue-mas-presente-que-nunca-en-el-proceso-permanente-de-reforma-constitucional-que-vive-chile/10/18/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong> Cadem.cl, 2 de outubro de 2022.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Camila Vergara, “El rechazo de Chile”, <em>El Salto</em>, 11 de setiembre de 2022, en <a class="urlextern" title="https://www.elsaltodiario.com/chile/new-left-review-rechazo-constitucion-boric" href="https://www.elsaltodiario.com/chile/new-left-review-rechazo-constitucion-boric" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.elsaltodiario.com/chile/new-left-review-rechazo-constitucion-boric</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[7]</strong> Cadem.cl, 16 de outubro de 2022.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[8]</strong> Manuel Acuña, “Obituario para un gobierno que no pudo ser”, <em>Rebelion</em>, 11 de octubre de 2022 en <a class="urlextern" title="https://rebelion.org/obituario-para-un-gobierno-que-no-pudo-ser/#_edn3" href="https://rebelion.org/obituario-para-un-gobierno-que-no-pudo-ser/#_edn3" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://rebelion.org/obituario-para-un-gobierno-que-no-pudo-ser/#_edn3</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[9]</strong> OLCA, 13 de setembro de 2022 em <a class="urlextern" title="https://olca.cl/articulo/nota.php?id=109640" href="https://olca.cl/articulo/nota.php?id=109640" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://olca.cl/articulo/nota.php?id=109640</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[10]</strong> CNN, 15 de novembro de 2019, em <a class="urlextern" title="https://www.cnnchile.com/pais/boric-firmo-acuerdo-nueva-constitucion-sin-venia-partido_20191115/" href="https://www.cnnchile.com/pais/boric-firmo-acuerdo-nueva-constitucion-sin-venia-partido_20191115/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.cnnchile.com/pais/boric-firmo-acuerdo-nueva-constitucion-sin-venia-partido_20191115/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[11]</strong> Entrevista com Antonia Rollando, em <a class="urlextern" title="https://desinformemonos.org/caminos-de-abya-yala-antonia-rolland/" href="https://desinformemonos.org/caminos-de-abya-yala-antonia-rolland/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://desinformemonos.org/caminos-de-abya-yala-antonia-rolland/</a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[12]</strong> Eric Hobsbawm, “Tradiciones obreras” en <em>Gente poco corriente</em>, Barcelona, Crítica, 1999, p. 66.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Crise, violência policial e processo constitucional no Chile, 2019-2020</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 09 Dec 2020 07:55:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Chile]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Um rápido panorama da situação política no Chile mostra a confluência de muitas crises, agravadas pela pandemia de COVID-19, que desencadearam mudanças profundas na política chilena. Por Boris Cofré Schmeisser]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Boris Cofré Schmeisser</h3>
<p style="text-align: justify;">Em 18 de outubro de 2019, o Chile entrou na mais profunda crise social e política dos últimos 50 anos, da qual ainda não saiu. A eclosão social ou revolta popular expressa profundo descontentamento social com o exercício autoritário e abusivo do poder político e econômico, ou seja, os sintomas mais agudos do modelo neoliberal e de sua democracia sem cidadania. Nas jornadas de protesto de 2019, foram registradas concentrações históricas, por exemplo, a chamada “Maior marcha da história” (25 de outubro), da qual participaram mais de um milhão de pessoas em Santiago, cidade onde vivem cerca de 6 milhões.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo dados do <em>Instituto Nacional de Direitos Humanos</em>, a resposta violenta do governo a essas manifestações deixou mais de dois mil cidadãos presos (até hoje), dezenas de mortos, mais de três mil feridos, a maioria deles por disparos de chumbo (1.681), gás lacrimogêneo (271), balins de pressão (190) e balas (51). Entre eles, 445 foram lesões oculares, 34 com perda parcial ou total da visão. Por mais expressivos que tenham sido o descontentamento e o protesto social, a autoridade optou por responder com repressão e aprofundamento do modelo, que só abriu, contra sua vontade, no quadro de uma greve geral — 12 a 14 de novembro —, a um processo de mudança constitucional (acordo de 15 de novembro de 2019). Concordou-se em realizar um plebiscito para apurar se o público aprovava ou rejeitava a substituição da atual Constituição Política, elaborada em 1980, durante a ditadura de Pinochet (1973-1988), pilar do “modelo chileno”. A data original era 26 de abril, mas, devido à pandemia de COVID-19, foi adiada para 25 de outubro de 2020.</p>
<p style="text-align: justify;">Em março de 2020, no momento em que as manifestações recuperavam maciçamente com o 8M (8 de março, Dia da Mulher) após as férias de fevereiro, o governo se preparava para um novo ciclo repressivo, e as forças políticas se preparavam para o plebiscito de 26 de abril. Desencadeou-se uma nova crise: o  coronavírus havia chegado ao Chile. A crise da saúde custou a vida de mais de 15 mil pessoas; adoeceram mais de 500 mil em um país de 17 milhões; e ameaçou em seu ponto mais alto, em junho deste ano, o colapso do sistema de saúde (várias áreas do país ficaram com cerca de 90% de sua capacidade utilizada). Embora esta nova crise tenha modificado o cenário político, ao permitir ao governo retomar a iniciativa política ao impossibilitar a manifestação pública e imobilizar a oposição, revelou a profunda desigualdade nas condições de trabalho e no acesso à saúde, que aprofundou o processo destituinte e desencadeou uma profunda crise econômica.</p>
<p style="text-align: justify;">De acordo com o FMI, a economia chilena entrará em recessão em 2020. O PIB cairá cerca de 4,5% neste ano, elevando a pobreza para 14% e o desemprego para 18% (cerca de 2 milhões de pessoas). Atualmente, já são cerca de 2 milhões de pessoas sem trabalho e prontas para ficar sem renda. Mas essas médias escondem o impacto que as crises têm no segmento de baixa renda da classe trabalhadora; por exemplo, enquanto o desemprego é de 10% em geral, neste grupo social ultrapassa os 30%. O mesmo ocorre com os indicadores de saúde, previdência e habitação.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas três crises são as mais marcantes, mas não são as únicas. Existem crises silenciosas que afetam a sociedade da mesma forma. A crise da água (10 anos de seca e privatização), a crise da habitação (o déficit atinge cerca de 2 milhões de pessoas) e a crise das pensões (as pensões em média não ultrapassam a linha da pobreza ou um salário mínimo), para nomear algumas.</p>
<p style="text-align: justify;">Graças à redução do número de casos de COVID-19, em outubro deste ano teve início a flexibilização das normas de confinamento da população, o que permitiu que os protestos recomeçassem todas as sextas-feiras no centro da capital, e com eles a repressão. Por exemplo, na sexta-feira, 2 de outubro, um policial jogou um manifestante de 16 anos da Ponte Pio Nono no leito do rio Mapocho, causando-lhe ferimentos graves. A ponte tem cerca de dez metros de altura. Após o ataque criminoso, o piquete da polícia retirou-se do local sem prestar assistência. Embora o uso de espingardas tenha sido limitado, e com isso também tenha sido reduzido o número de feridos, os fatos pouco claros em que manifestantes são atacados ou mortos no centro da cidade ou em bairros populares continuam. Práticas como o uso de produtos químicos na água jogada pela polícia nos manifestantes se naturalizaram, causando queimaduras leves na pele.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-135392" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/12/Chile-Ivan-Alvarado-2.jpg" alt="" width="640" height="426" />Apesar do permanente estado de repressão, no dia 18 de outubro, no quadro da comemoração de um ano da revolta social, as manifestações recuperaram a sua massividade. Dias depois, em 25 de outubro, mais de 7,5 milhões de cidadãos votaram 78% pela aprovação da mudança constitucional e pela escolha do órgão constituinte mais democrático (Convenção Constitucional).</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos agora com cinco meses (abril de 2021) para a eleição de Governadores Regionais, Prefeitos, Vereadores e membros da Convenção Constitucional, e um ano (novembro de 2021) para a eleição de Presidente, Senadores, Deputados e Conselheiros Regionais. Desta forma, 2021 será marcado por esses processos eleitorais que estabelecerão um novo governo e uma nova Constituição que entrará em vigor a partir de 2022 e definirá o quadro sobre o qual as lutas se desenvolverão nos próximos anos e décadas.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Boris Cofré Schmeisser, chileno, é Doutor em história e Membro do Movimento Ukamau.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A tradução deve-se a Marcia Cury.</em></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-135394" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/12/Chile-Ivan-Alvarado-1.jpg" alt="" width="106" height="100" /><em>As fotografias são de Ivan Alvarado</em>.</p>
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		<title>Prende la mecha por Chile</title>
		<link>https://passapalavra.info/2019/10/128768/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Oct 2019 13:05:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Noticiar]]></category>
		<category><![CDATA[Anarquismo]]></category>
		<category><![CDATA[Chile]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Socialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[“O Chile é o futuro”, dizíamos com risadas tristes, eu e um companheiro chileno. Por Primo Jonas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Primo Jonas</h3>
<h6 style="text-align: right;"><em>¡Todas las balas se van a devolver!<br />
“Prende la mecha” [&#8220;Acenda o Pavio&#8221;]<br />
Anarkia Tropical</em></h6>
<p style="text-align: justify;">Não há grandes segredos sobre o que está ocorrendo nestes dias convulsionados no Chile. Nos sites brasileiros que estão noticiando algo do que lá ocorre, já aparecem os especialistas e acadêmicos que explicam as “profundezas” dos distúrbios: o aumento das passagens, a aposentadoria de miséria, as dívidas estudantis, etc., etc. Sobre estes temas se encontrará muito nos meios de comunicação progressistas, e não o digo de forma depreciativa, pois certamente estão corretos em indicar grandes questões estruturais da atual miséria proletária vivida pelos irmãos e irmãs que vivem no território hoje ocupado pelo Estado chileno.</p>
<p style="text-align: justify;">O que estes dados não esclarecem é a dinâmica peculiar dos conflitos sociais naquele território. Um aspecto muito relevante para entender a sua atual composição de classe é o fato de a ditadura pinochetista ter aplicado reformas capitalistas “neoliberais” desde muito cedo em comparação com outros territórios da região. De fato, muitas das reformas que estão sendo realizadas em diferentes países da região já foram realidade no Chile há décadas. “O Chile é o futuro”, dizíamos com risadas tristes, eu e um companheiro chileno. Obviamente que este processo de modernização acelerada em um território com uma economia tão pequena resultou num aprofundamento da proletarização por diversas vias. A desigualdade social e uma cultura yankee nas formas de trabalhar, de consumir e de pensar, gerou um terreno fértil propenso à recusa e à ruptura. Quais são as perspectivas de vida de uma juventude que estará endividada por 10, 15 anos só para poder estudar? Os estudantes que constantemente ocupam seus colégios, que botam fogo nas ruas quando a polícia assassina um deles, não são os “mais politizados”, os que fazem campanha eleitoral ou os que debatem programas políticos. Não, o ódio à polícia está presente nos otakus, nos freaks, isso pode inclusive ser visto na produção gráfica espontânea criada para a campanha # evasionmasiva, isto é, os “catracaços” nos metrôs de Santiago.</p>
<p style="text-align: justify;">Qualquer pessoa que tenha ido ao Chile e que tenha um pouco de atenção ao que dizem as paredes pode notar quão disseminado é o sentimento antipolicial, antipaco. Não é apenas o ambiente anarcopunk de cidades como Valparaíso. São todos e todas com alguma memória histórica do papel que o exército cumpriu no golpe de Estado de 73, são muitas das comunidades mapuches no sul que lutam contra a proletarização ou ao menos contra o aprofundamento da despossessão. O mesmo ocorre em cidades minúsculas, como Cobquecura, que visitei há um par de anos: ao redor de 5.000 habitantes, segundo um mapa impresso antigo, cidade costeira. Não era uma questão contra a polícia, mas sim a capacidade destas pequenas comunidades de se organizarem em sua própria defesa. Aproximadamente uma de cada três casas ostentava uma bandeira negra com a logo da campanha antissalmoneira (as salmoneiras são cultivos intensivos de salmão em zonas da costa, estando entre os seus piores efeitos a contaminação das águas devido às quantidades enormes de hormônios aplicados aos peixes).</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-128784" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/10/PUNO_NUEVO1.jpg" alt="" width="500" height="333" /></p>
<p style="text-align: justify;">A ditadura pinochetista massacrou boa parte dos e das militantes de extrema-esquerda no Chile, assim como setores populares combativos. Existem muitos registros de história oral, riquíssimos em detalhes, acessíveis por meio de livros publicados recentemente. O último que li, <em>Sangre de Baguales</em>, é narrado por um ex-militante do MIR, que deixou sua Valdívia natal para fazer trabalho político na cordilheira, entre os trabalhadores mapuches das madeireiras da região de Panguipulli, Neltume, Liquiñe e Chihuío. Entre as muitas histórias impressionantes da vida difícil destes homens e mulheres, que chegaram a autogestionar a madeireira onde trabalhavam cerca de 3.000 pessoas, o autor Pedro Cardyn conta como participou de um dos pouquíssimos focos de guerrilha que ensaiaram resistir ao golpe. Mas também nos comenta das outras experiências de luta armada no país, apoiadas por ele, nos anos 80. De fato, o território sob controle do Estado chileno foi e continua sendo pródigo em experiencias radicais. Para além de toda a influência guevarista na América Latina, do outro lado da cordilheira certas tradições anarquistas e niilistas do começo do século XX parecem se renovar e são também combustível para todo tipo de radicalização baseada no ódio à miséria proletária e às forças repressivas. É o impressionante caso da VOP, Vanguardia Organizada del Pueblo, grupo revolucionário criado no ano 1968 a partir de militantes expulsos do MIR. Este grupo, conduzido pelos irmãos Rivera Calderón, realizou roubos a bancos e o justiçamento de um ex-ministro do Interior responsável pelo massacre de Puerto Montt, em 1969, quando os carabineiros mataram um grupo de pessoas que estavam ocupando um terreno ilegalmente. A VOP foi perseguida e desmantelada pelo governo Allende pois era um dos poucos grupos que se mantinha crítico à Unión Popular, defendendo a linha da via inssurreicional ao socialismo e sendo integrada por uma estranha mistura de comunistas, anarquistas, delinquentes, conspiradores, etc. Os irmãos Rivera Calderón e outros integrantes foram cercados e assassinados pela polícia em 1971. Poucos dias depois, com quase todo o grupo exterminado, um dos militantes que restava vivo se encaminhou para um quartel da polícia armado com um fuzil e dinamites, e se explodiu levando consigo três policiais.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria um erro tipicamente sectário dizer que todo esse espírito indomável se resume à forte presença da ideologia anarquista naqueles territórios, particularmente do “insurrecionalismo”. Mais inteligente seria pensar que neste terreno fértil é que o anarquismo parece ter facilidade de florecer. Por um lado, os laços entre anarquistas e lutas indígenas mostram uma atividade real e séria de ao menos parte deste campo militante. O melhor exemplo disso é na verdade argentino, Santiago Maldonado, quem com frequência viajava para as comunidades mapuches tanto no território argentino como no chileno. O fato de ter sido assassinado ao integrar um bloqueio de estrada realizado por uma comunidade mapuche mostra o grau de confiança que essa comunidade tinha em Santiago. A Cordilheira dos Andes, com seus caminhos secretos, foi tradicionalmente utilizada como rota de fuga para grupos ou indivíduos perseguidos no território chileno, especialmente no caso mapuche, dado que seu território tradicional incluía ambos os lados da cordilheira. Por outro lado, a radicalidade e algumas posições que podem rapidamente ser associadas ao anarquismo em outros ambientes sociais e políticos, no Chile podem corresponder simplesmente à mobilização popular e suas tradições, sem que haja uma identidade política com o anarquismo. De fato, apesar de toda a potência libertária e dos feitos espontâneos da classe trabalhadora chilena na época prévia ao golpe de Pinochet, o anarquismo parece ter influenciado muito pouco as lutas proletárias daquele momento, e nos relatos que conheço não me lembro de ter visto uma menção sequer a um grupo que se reivindicasse anarquista.</p>
<p style="text-align: justify;">E se falamos de via insurrecional ao socialismo, termino esse relato pensando nas muitas insurreições que estamos acompanhando nos últimos meses. Têm sido via a quê? Existe aí algo de socialista — no sentido mais antigo da palavra —, como talvez diria um trotskista, um “conteúdo socialista” sem a sua forma? Para onde será que aponta tudo isso? Bem, acho que nesse verão seremos muitos e muitas pelo mundo inteiro pensando sobre isso…</p>
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<h6 style="text-align: center;"><em>Ilustram este artigo obras do artista chileno Camilo Yáñez.</em></h6>
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