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	<title>Desporto/esporte &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>A cara do Brasil</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 31 Aug 2026 14:58:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
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					<description><![CDATA[Por Jan Cenek Como sacaram os criadores de memes: o Brasil é hexa. Foi eliminado da sexta Copa do Mundo consecutivamente. Entre as eliminações consta a surra de 7 x 1 para a Alemanha, na Copa de 2014, disputada no Brasil. Mas, como o que é ruim sempre pode piorar, a eliminação para a Noruega [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Jan Cenek</h3>
<div class="level1">
<p style="text-align: justify;">Como sacaram os criadores de memes: o Brasil é hexa. Foi eliminado da sexta Copa do Mundo consecutivamente. Entre as eliminações consta a surra de 7 x 1 para a Alemanha, na Copa de 2014, disputada no Brasil. Mas, como o que é ruim sempre pode piorar, a eliminação para a Noruega por 2 x 1, na Copa de 2026, foi, em muitos aspectos, ainda mais vexatória. É a pior colocação brasileira em 60 anos. Igualou a 11ª posição de 1966. O grande símbolo do vexame é o sujeito apelidado pejorativamente como menino Ney, apesar de ser um veterano em franca decadência. Neymar é um ex-jogador em atividade que foi convocado e atrapalhou a seleção brasileira. O menino Ney jogou como se fosse o dono do time e da bola, e não por mérito esportivo. Deu no que deu. Foi ridículo ver Neymar brigando com os noruegueses por absoluta incapacidade de competir esportivamente. Como se não bastasse, transformou uma cobrança de pênalti em disputa particular com o goleiro adversário, como se a seleção brasileira não estivesse a poucos minutos da eliminação. Qualquer jogador que anotasse um gol e diminuísse a diferença de 2 para 1 no final de uma partida pegaria a bola e reiniciaria o jogo rapidamente, para buscar o empate. O que fez o menino Ney? Resolveu discutir com o goleiro desperdiçando tempo. Atitude típica de um rematado narcisista, que está mais preocupado com a própria imagem do que com o resultado esportivo. Sobretudo, foi ridícula a discussão que precedeu a convocação de Neymar, com muita gente &#8211; quiçá a maioria, entre os quais diversos ex-jogadores &#8211; defendendo a convocação do sujeito que não fazia uma boa partida há anos. Na canção <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=XJp24DoZ1A0&amp;list=RDXJp24DoZ1A0&amp;start_radio=1" href="https://www.youtube.com/watch?v=XJp24DoZ1A0&amp;list=RDXJp24DoZ1A0&amp;start_radio=1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">A cara do Brasil</a>, os compositores Celso Viáfora e Vicente Barreto perguntam: “qual a cara da cara da nação?” Fiquei pensando e me ocorreu uma ideia incômoda: e se a cara do Brasil for o menino Ney?</p>
<p style="text-align: justify;">Neymar surgiu quase genial: leve, rápido, habilidoso, quase completo. Dominava quase todos os fundamentos do jogo, exceto o mais importante: nunca soube atuar coletivamente, faltou-lhe inteligência esportiva, debilidade que cresceu com o tempo. Por isso encerrou sua participação em Copas &#8211; oxalá tenha realmente encerrado &#8211; batendo boca com um goleiro, em vez de pegar a bola e reiniciar a partida o mais rápido possível. O advérbio “quase” é uma boa definição para o menino Ney. Quase foi um gênio. Na prática, tornou-se um grande desperdício, provavelmente o maior do esporte brasileiro. Eis outra boa definição para o sujeito: desperdício. Foi bisonho ver Neymar nas duas últimas Copas: superado pelo tempo, ele insistia em jogadas individuais que não era mais capaz de executar. A mania burra de prender excessivamente a bola o tornou alvo de faltas e pancadas e pode ter contribuído para as muitas contusões que teve durante a carreira. Jogadores com inteligência esportiva, como Ronaldo Fenômeno, sempre alertaram que o lugar para as jogadas individuais é perto da área, porque ali os marcadores evitam penalidades e faltas. Como o futebol é um esporte essencialmente coletivo, é na adaptação das potencialidades individuais às coletivas que se forjam os gênios e as grandes equipes. O melhor exemplo é Messi jogando no mais alto nível aos 39 anos. Perdeu as arrancadas longas, mas soube se adaptar, poupando energias para empregá-las no momento exato. Assim foi campeão mundial com a seleção argentina em 2022 e vice em 2026. Já Neymar, que é absolutamente incapaz de atuar coletivamente, atrapalhou a seleção brasileira. Foi assim nas duas últimas Copas. Em 2022, já sem a velocidade que tinha, insistiu na individualidade desperdiçando, assim, a maioria das jogadas. A eliminação contra a Croácia, nas quartas de final, foi exemplar. Após desperdiçar dezenas de jogadas insistindo em dribles que não funcionaram, o menino Ney marcou um belo gol na prorrogação. Só que, minutos depois, veio o empate croata numa falha coletiva da seleção brasileira e, na sequência, a derrota nas penalidades. Os brasileiros resolveram pressionar a saída de bola adversária quando estavam à frente no placar e bastava controlar a partida. O menino Ney, que já tinha 30 anos, participou da falha coletiva, também avançou; mas quando o movimento se mostrou errado e a equipe sofreu o gol, ele simplesmente culpou os companheiros de equipe, como se não tivesse participado do erro coletivo. Fosse um jogador genial, tivesse a inteligência esportiva de um craque, teria orientado os companheiros em campo e evitado o empate croata. É onde um craque genial se distancia de um rematado narcisista: nas vitórias, mérito dele; nas derrotas, culpa dos outros. E assim as derrotas vão se impondo sobre as vitórias. Em 2026, a seleção brasileira começou a perder para a Noruega justamente quando Neymar entrou em campo. Foi como se a equipe estivesse com um jogador a menos, porque ele não conseguia acompanhar o ritmo dos demais. Os jogadores mais rápidos e perigosos do Brasil, naquele momento da partida, Vini Jr e Endrick, tiveram que ser recuados para recompor a marcação. Como a especialidade de ambos não é marcar, a equipe perdeu qualidade no ataque e na defesa. O jogo brasileiro ficou lento e previsível porque todas as bolas tinham que passar pelos pés do menino Ney, como se ele fosse o dono da bola e do time. Estava desenhada a derrota. Não é coincidência: a seleção argentina cresceu e se encontrou quando encaixou e potencializou coletivamente o talento de Messi, que já era um veterano; já o último título da seleção brasileira veio com a Copa América de 2019, que Neymar não disputou porque estava contundido. É que o futebol é essencialmente coletivo e exige inteligência. Há cada vez menos espaço &#8211; em todos os sentidos &#8211; para narcisistas como Neymar.</p>
<p style="text-align: justify;">Muito se discute sobre a decadência do futebol brasileiro. Uma das hipóteses levantadas é que os jogadores são vendidos para o exterior muito jovens. Aos 18 anos já não atuam mais no Brasil. Endrick e Estevão, ambos negociados pelo Palmeiras, são dois exemplos. Como os melhores jogadores vão embora muito cedo, não criam vínculos com os clubes brasileiros e com a própria seleção, além de se formarem como atletas no exterior. Assim estaria se perdendo a “essência” do futebol brasileiro. Mas não foi exatamente esse o movimento de Lionel Messi, que foi para o Barcelona aos 13 anos, se formou como atleta na Espanha e só brilhou realmente na seleção argentina depois dos 30 anos? Messi foi campeão olímpico com <em>la albiceleste</em> aos 21 anos, em 2008. Mas o primeiro título com a seleção principal veio apenas na Copa América de 2021, quando tinha 34 anos. A consagração definitiva chegou um ano depois, na Copa de 2022, vencida pelos argentinos. Messi tinha 35 anos. Já o movimento do menino Ney foi diferente: seguiu para o Barcelona aos 21 anos, quase formado. Se digo quase, é porque lhe faltava o mais importante: nunca soube atuar coletivamente, nunca teve inteligência esportiva. Se é assim, a pergunta é incômoda, mas possível: como teria sido a carreira esportiva do menino Ney se ele tivesse se formado no Barcelona? Impossível saber ao certo. Mas se soubesse jogar coletivamente, com um mínimo de formação humanista, se fosse menos narcisista… São muitos “ses”, mas é razoável pensar que Neymar seria melhor como ser humano e, também, como atleta, se tivesse outra formação. Como ser humano: Neymar “é a bet encarnada, a expectativa do milagre que nunca se realiza”. A sacada é de <a class="urlextern" title="https://jacobin.com.br/2026/07/o-salvador-messianico-que-virou-vilao/" href="https://jacobin.com.br/2026/07/o-salvador-messianico-que-virou-vilao/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Fabio Luis Barbosa dos Santos</a>. Como atleta: Neymar foi quase. O advérbio fica por minha conta. E fica também por minha conta uma outra impressão: Neymar é o brasileiro com muito orgulho, com muito amor, a personificação do refrão ufanista que a torcida repete exaustivamente. Impossível imaginar alguém com mais amor (próprio) que o quase craque. O menino Ney não explica a decadência do futebol brasileiro, mas, por outro lado, não é exagero dizer que ele é a maior expressão dela.</p>
<p style="text-align: justify;">A canção <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=6yiQg47H5W8&amp;list=RD6yiQg47H5W8&amp;start_radio=1" href="https://www.youtube.com/watch?v=6yiQg47H5W8&amp;list=RD6yiQg47H5W8&amp;start_radio=1" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">A cara do Brasil</a> foi lançada por Ney Matogrosso em 1997. A seleção brasileira havia sido campeã mundial três anos antes, de forma pragmática: uma defesa bem postada atrás, Romário e Bebeto decidindo na frente. <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=L7fnV_5k9CM" href="https://www.youtube.com/watch?v=L7fnV_5k9CM" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">A cara do Brasil</a> foi regravada pelo próprio Celso Viáfora em 1999. A seleção brasileira havia sido derrotada na final pela França, um ano antes, apesar de contar com Ronaldo, Rivaldo e Roberto Carlos. Lançada entre as Copas de 1994 e 1998, a canção pergunta o que é o Brasil passando pelo futebol e a encantadora equipe de 1982:</p>
<p style="text-align: center;"><em>O Brasil é o lixo que consome</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Ou tem nele o maná da criação?</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Brasil Mauro Silva, Dunga e Zinho</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Que é Brasil zero a zero e campeão</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Ou o Brasil que parou pelo caminho</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Zico, Sócrates, Júnior e Falcão?</em></p>
<p style="text-align: justify;">A seleção brasileira derrotada pela Itália em 1982 continua sendo lembrada justamente pelo futebol encantador. O “maná da criação”, como no verso acima. O “futebol arte”, como se costuma dizer. Desconfio que parte da confusão relacionada à decadência futebolística brasileira passa pela expressão “futebol arte”. É que a arte pode ser individual, ainda que inserida numa tradição, como ocorre com o romance; já o futebol é essencialmente coletivo. Por isso o menino Ney foi um quase craque e é, ao mesmo tempo, a personificação da decadência do futebol brasileiro, que ainda forma bons jogadores, mas não consegue potencializá-los coletivamente. A seleção de 1982 encantou porque o coletivo potencializou o talento individual e o refinamento estético. Todos os gols, especialmente os mais belos, foram construídos em jogadas coletivas. É o que pouco se viu na seleção brasileira depois, inclusive em 2002, com Ronaldo e Rivaldo. Daí a nostalgia pela equipe de Zico, Sócrates e Falcão. É verdade que a equipe de 1982 reuniu, provavelmente, o melhor meio-campo brasileiro, assim como é sabido que o futebol se ganha na meiúca, Espanha e Argentina comprovaram a tese na Copa de 2026. Tinham as melhores meiúcas. Não basta reunir craques, o coletivo precisa potencializar o talento individual, especialmente no meio-campo. A força do conjunto deve ser maior que a soma das capacidades individuais. Esse milagre do encontro aconteceu algumas vezes na seleção brasileira: 1970 com Pelé, Gerson, Rivelino e Tostão; 1982 com Zico, Sócrates, Júnior e Falcão. Outra sacada de Fabio Luis Barbosa dos Santos <strong>[1]</strong>: o Brasil derrotou a Itália em 1970 jogando o fino da bola; perdeu em 1982 para o mesmo adversário, apesar do futebol encantador; para vencer os italianos em 1994, o Brasil jogou como se fosse a Itália. A diferença é que a seleção brasileira ainda contava com craques decisivos, como Romário e Bebeto, que se potencializavam. Trinta e dois anos depois, em 2026, um técnico italiano dirigiu a seleção brasileira, e a equipe perdeu como se fosse a Itália. Não superou a Noruega nem na posse de bola. Não tinha nem talentos individuais nem um coletivo forte, sequer uma dupla de ataque genial, como em 1994.</p>
<p style="text-align: justify;">Na canção <em>A cara do Brasil</em>, a pergunta sobre o que é o Brasil surge “meio a esmo” para o compositor “esparramado na rede”, que vai desenhando a cara do país a partir das contradições nacionais, inclusive as futebolísticas. Brasil encantador de 1982? Ou Brasil precavido de 1994? Mais que isso, Celso Viáfora e Vicente Barreto cutucam um furúnculo nacional:</p>
<p style="text-align: center;"><em>A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Ninguém precisa consertar</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Se não der certo a gente se vira sozinho</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>De certo então nada vai dar</em></p>
<p style="text-align: justify;">A referência a Garrincha e Aleijadinho é forte. Foram gênios tortos. Penso nos Profetas e nos Passos da Paixão, do Aleijadinho, expostos no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG). Estão entre as obras mais impactantes que conheço. Imagino Garrincha parafusando algum João, na lateral, como no verso de <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=qcdOtuVjaxc" href="https://www.youtube.com/watch?v=qcdOtuVjaxc" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Chico Buarque</a>. Só que, no futebol, o talento individual separado do coletivo é cada vez menos decisivo. Aleijadinho tinha uma equipe de trabalho que quase não é lembrada. Garrincha era genial, mas jogou em equipes fortes, e não faria em 2026 o que fez em 1958 e em 1962. Isso porque o espaço é muito menor, o coletivo conta ainda mais e a capacidade física dos atletas é muito maior. Digo de passagem: uma obviedade como essa ser uma heresia no Brasil diz muito sobre a cara do país, que morre de amor e de orgulho por si próprio, e sempre precisa de reis e <a class="urlextern" title="https://jacobin.com.br/2026/07/o-salvador-messianico-que-virou-vilao/" href="https://jacobin.com.br/2026/07/o-salvador-messianico-que-virou-vilao/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">salvadores messiânicos</a>. <em>Messi-ânicos</em>… A discussão absurda sobre levar ou não Neymar para a Copa de 2026 passou pela crença estúpida em salvadores messiânicos. Deu no que deu: um vexame quiçá pior do que o 7 x 1. Na canção <em>A cara do Brasil</em>, a referência a Garrincha e Aleijadinho é tão forte, a ideia de que “a gente se vira sozinho” é tão entranhada, que eu não prestava atenção no verso seguinte &#8211; <em>de certo então nada vai dar</em> &#8211; que desmente a ilusão, que é um tapa na cara da nação. O vexame na Copa de 2026 me fez perceber o verso final da canção, que refuta o pachequismo ufanista.</p>
<p style="text-align: justify;">“O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível” &#8211; escreveu Drummond <strong>[2]</strong>. Acrescento: não há nenhum Garrincha, nenhum Aleijadinho, nenhum Drummond disponíveis. Mas há o menino Ney e um país que é quase a cara dele: que confunde enriquecimento pessoal com capacidade esportiva, que tem uma absurda necessidade de salvadores messiânicos e uma estúpida ilusão de que cada um deve se virar sozinho. Como cravou o poeta <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2021/10/140383/" href="https://passapalavra.info/2021/10/140383/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Souzalopes</a>, um craque das palavras que tive o prazer de conhecer:</p>
<p style="text-align: center;"><em>contra o tédio</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>contra o bódi</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>ou nóis si uni</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>ou nóis si fódi</em></p>
<p style="text-align: justify;">Vale para o futebol e para a vida, inclusive porque um não está separado da outra. Só que é o inverso do que tem acontecido no Brasil. A discussão que precedeu a convocação do menino Ney foi ridícula porque não passou pela capacidade esportiva do sujeito para disputar uma Copa do Mundo. Estava em jogo outra questão, ainda que não declarada. Neymar é milionário, portanto, é bom e deve jogar. Eis o raciocínio curto da maioria dos defensores do menino Ney. Por isso qualquer crítica ao sujeito costuma ser associada à inveja. É que as pessoas querem enriquecer, como Neymar. Todo o resto é detalhe menor, inclusive os meios e as consequências. Nudez pornográfica da meritocracia: quem enriquece é bom, os demais são fracassados. Pior ainda: na cabeça dos defensores do menino Ney, ele não tem nenhuma responsabilidade pelas derrotas brasileiras nem é a principal expressão delas, porque a culpa é sempre dos outros. Neymar é a cara do Brasil <em>com muito orgulho e muito amor</em>: em que cada um se acha capaz de se virar sozinho, enquanto todos se lascam coletivamente.</p>
<p style="text-align: justify;">O futebol brasileiro encantava não apenas pelas conquistas, estava em jogo uma possibilidade civilizatória: como criação concreta, estética, proletária e coletiva; contra o pragmatismo, as simplificações, o tédio e o trabalho estranhado. Ao que tudo indica, o encantamento relacionado ao futebol brasileiro é passado. O que foi atestado pelo vexame na Copa de 2026, ao escalar um ex-jogador em atividade, que, além disso, é a grande expressão da decadência do futebol brasileiro: com sua falta de inteligência esportiva e, consequentemente, sua incapacidade de se potencializar e se fortalecer coletivamente. Vale para o menino Ney e para o futebol brasileiro, por isso o primeiro personifica a decadência do segundo. Se o vexame servir, pelo menos, para encerrar a participação de Neymar na seleção brasileira e, quem sabe, sepultar o refrão ufanista repetido pela torcida, já será um avanço significativo. O menino Ney e o brasileiro <em>com muito orgulho e muito amor</em> são, antes de tudo, insuportáveis.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1] </strong>Fabio Luis Barbosa dos Santos. <em>Saudade do que nunca fomos: brasileiros e o futebol</em>. São Paulo: Elefante, 2026.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2] </strong>Carlos Drummond de Andrade. <em>Mané e o sonho</em>. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://www.blogletras.com/2014/07/mane-e-o-sonho.html" href="https://www.blogletras.com/2014/07/mane-e-o-sonho.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.blogletras.com/2014/07/mane-e-o-sonho.html</a></p>
</div>
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		<title>Velha Toupeira (43)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Jun 2026 14:38:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cartoons]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
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					<description><![CDATA[]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159341" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA.jpg" alt="" width="2560" height="853" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA-2048x682.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA-1260x420.jpg 1260w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/VT043-O-DONO-DA-BOLA-681x227.jpg 681w" sizes="(max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></p>
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		<title>O futebol, a memória e o cemitério</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Edinilson]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Apr 2026 08:55:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ponto com nós]]></category>
		<category><![CDATA[Artes_plásticas]]></category>
		<category><![CDATA[Desporto/esporte]]></category>
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					<description><![CDATA[O leitor deve estar se perguntando sobre o futebol e o cemitério, presentes no título da coluna. Então, vamos lá. Por Jan Cenek]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Jan Cenek</h3>
<p style="text-align: justify;">Filme bom fica passando na cabeça da gente. O mesmo vale para a fotografia e as artes em geral. A exposição <a href="https://caixanoticias.caixa.gov.br/Paginas/Not%C3%ADcias/2026/02-FEVEREIRO/CAIXA-Cultural-Sao-Paulo-apresenta-exposicao-Leonardo-Finotti-%E2%80%93-Sao-Paulo-Multiplicidade.aspx">São Paulo, Multiplicidade</a> – do arquiteto e fotógrafo Leonardo Finotti – é um exemplo. São dez séries produzidas pelo artista: <em>são paulo vertical, habitar mendes da rocha, marketscapes, necropoli[s]tics, pelada, re:favela, latinitudes, diálogos tropicais, veracidade </em>e<em> brutiful. </em>Agrupadas e exibidas em conjunto, as séries criam uma interessante leitura visual da capital paulista. A exposição <a href="https://caixanoticias.caixa.gov.br/Paginas/Not%C3%ADcias/2026/02-FEVEREIRO/CAIXA-Cultural-Sao-Paulo-apresenta-exposicao-Leonardo-Finotti-%E2%80%93-Sao-Paulo-Multiplicidade.aspx"><em>São Paulo, Multiplicidade</em></a>, fica em cartaz na Caixa Cultural de SP até 26 de abril de 2026. A curadoria é de Agnaldo Farias.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">A <a href="https://revistaprojeto.com.br/noticias/leonardo-finotti-sao-paulo-multiplicidade-caixa-cultural/">crítica especializada</a> destacou que a mostra é um “panorama consistente sobre as relações entre arquitetura, cidade e modos de habitar na capital paulista”; que “o artista constrói narrativas sobre permanência, transformação e tensão urbana”; que Finotti “tenciona a relação entre forma construída e uso cotidiano, entre monumentalidade e precariedade”; que não se “busca a imagem definitiva da cidade, mas múltiplas aproximações que revelam sobreposições de escalas e temporalidades”; que a cidade é um “conjunto de narrativas simultâneas”. É por aí. “São Paulo é como o mundo todo” – cravou Caetano Veloso na canção <a href="https://www.youtube.com/watch?v=MjCkYMVrGxU&amp;list=RDMjCkYMVrGxU&amp;start_radio=1">Vaca Profana</a>, com a precisão poética que lhe é peculiar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Na primeira visita que fiz à exposição de Leonardo Finotti, foi uma foto da série <em>latinitudes</em> que mais me chamou a atenção. Trata-se de um registro aéreo de <a href="https://www.leonardofinotti.com/projects/torres-del-parque/image/76302-140629-024d">Bogotá</a>, e não de São Paulo. No primeiro plano, a antiga arena de touradas (<em>Plaza de Toros de Santamaría</em>), ao fundo modernas torres residenciais e as montanhas dos Andes. A cor das construções é semelhante, mas o contraste entre elas é perceptível. Algumas décadas separam as construções da arena e das torres. O registro aéreo da <em>Plaza de Toros de Santamaría</em>, em Bogotá, sintetiza as principais características que a <a href="https://revistaprojeto.com.br/noticias/leonardo-finotti-sao-paulo-multiplicidade-caixa-cultural/">crítica especializada</a> identificou no trabalho de Leonardo Finotti: a relação entre arquitetura e modo de habitar, a permanência e a transformação, a sobreposição de temporalidades. São características que aproximam Bogotá de São Paulo, estabelecendo um diálogo possível. Mas não foi a qualidade estética do registro aéreo <em>Plaza de Toros de Santamaría, </em>em Bogotá, que me atraiu. Ocorre que aquele ângulo de visão é um dos possíveis para quem visita o mirante da Torre Colpatria, no centro da cidade, perto da antiga arena de touradas, do planetário e da Ca<em>rrera Séptima</em>. A foto me remeteu a imagens conhecidas e a boas lembranças. Curiosos labirintos da memória.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O leitor deve estar se perguntando sobre o futebol e o cemitério, presentes no título da coluna. Então, vamos lá. É que na série <a href="https://www.leonardofinotti.com/projects/pelada/image/5511-130911-889d"><em>pelada</em></a>, Finotti fez fotos áreas dos terrões (campos de futebol de várzea) nas periferias de São Paulo. Já na série <a href="https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/1694954035122703-fotografo-registra-um-ano-de-pandemia-no-cemiterio-vila-formosa"><em>necropoli[s]tics</em></a><em>, </em>o artista registrou, com drone, a abertura de covas no maior cemitério da América Latina, Vila Formosa, no bairro homônimo, durante vários dias, no início da pandemia de Covid-19. Vista com alguns anos de distância, a abertura de covas faz lembrar a escalada de mortes, que a mídia noticiava diariamente, nos primeiros e mortíferos meses da pandemia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Curiosos labirintos da memória. À primeira vista, a foto de Bogotá me chamou mais a atenção do que os terrões da periferia e o cemitério. Apesar do amor que sinto pelo futebol de várzea e dos funerais que acompanhei no cemitério Vila Formosa, inclusive para me despedir grandes amigos, naqueles dias em que ficamos sem chão. Como se uma visita a uma torre em Bogotá fosse mais marcante que o enterro de um amigo. No segundo contato, quando voltei à exposição <a href="https://caixanoticias.caixa.gov.br/Paginas/Not%C3%ADcias/2026/02-FEVEREIRO/CAIXA-Cultural-Sao-Paulo-apresenta-exposicao-Leonardo-Finotti-%E2%80%93-Sao-Paulo-Multiplicidade.aspx"><em>São Paulo, Multiplicidade</em></a>, foi a incômoda semelhança entre as fotos aéreas do cemitério e dos campos de futebol de várzea que me deixou intrigado: como se o crescimento da cidade tivesse algo de mórbido, estando relacionado, inclusive, com a agonia do futebol.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Vistos por cima nas fotos de Leonardo Finotti, o cemitério Vila Formosa e os campos de futebol de várzea são incomodamente semelhantes. O solo exposto tem o mesmo tom avermelhado. São as entranhas abertas da megalópole. Que cresce e avança sobre os terrões, o mesmo ocorrendo com o cemitério Vila Formosa: como se a cidade fosse abrir covas nos campos de futebol de várzea, ou organizar peladas entre as sepulturas.</p>
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		<title>Canguru</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Jul 2025 14:13:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Dois colegas de trabalho assistiam às Olimpíadas na TV da copa. Ao ver os atletas africanos um deles comenta: &#8220;esses africanos correm tanto assim porque ficam correndo de canguru na África!&#8220;. O outro não perdoa: &#8220;Canguru na África?? Canguru é na Áustria, seu burro!&#8220;. Passa Palavra &#160; &#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Dois colegas de trabalho assistiam às Olimpíadas na TV da copa. Ao ver os atletas africanos um deles comenta: &#8220;<em>esses africanos correm tanto assim porque ficam correndo de canguru na África!</em>&#8220;. O outro não perdoa: &#8220;<em>Canguru na África?? Canguru é na Áustria, seu burro!</em>&#8220;. <strong>Passa Palavra</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Torcidas, identidades e o fascismo nosso de cada dia</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Feb 2025 12:12:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Até quando ignoraremos todas essas questões sobre o fascismo nosso de cada dia? Por Davi]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3><strong>Por Davi</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">Dados os acontecimentos do sábado dia 1 de fevereiro em Recife, Pernambuco, senti que alguma reflexão deveria ser feita e publicada. Lembrei de várias discussões que ocorreram no Passa Palavra e sobre o quão acertada é a visão que João Bernardo propõe das torcidas organizadas enquanto <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2023/03/147232/" href="https://passapalavra.info/2023/03/147232/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">milícias fascistas sem ideologia fascista</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Num <a class="urlextern" title="https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/nordeste/pe/o-que-se-sabe-sobre-briga-envolvendo-torcedores-do-santa-cruz-e-sport/" href="https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/nordeste/pe/o-que-se-sabe-sobre-briga-envolvendo-torcedores-do-santa-cruz-e-sport/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">resumo dos acontecimentos</a>, algumas torcidas organizadas dos clubes Sport Recife e Santa Cruz se enfrentaram nas ruas de Recife antes da disputa do clássico entre dois clubes. Os grupos de torcedores iniciaram o confronto usando muitas granadas de estilhaço e fogos de artifícios, acabando com dezenas de feridos, hospitalizações e casos de tortura sexual em público e à luz do dia. Pessoas sozinhas foram perseguidas por bandos com armas brancas, encurraladas e espancadas sem conseguir fugir. O presidente de uma das torcidas foi capturado isolado e, depois de espancado e de ficar desacordado, foi despido e estuprado com uma barra de ferro. São cenas que parecem ter sido inspiradas por um grupo como o Estado Islâmico.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-155902" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/1_giuymbgwsaam8fv_easy_resize_com__610x400-45711974.jpg" alt="" width="675" height="450" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/1_giuymbgwsaam8fv_easy_resize_com__610x400-45711974.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/1_giuymbgwsaam8fv_easy_resize_com__610x400-45711974-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/1_giuymbgwsaam8fv_easy_resize_com__610x400-45711974-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/1_giuymbgwsaam8fv_easy_resize_com__610x400-45711974-640x427.jpg 640w" sizes="(max-width: 675px) 100vw, 675px" />Não há como esquecer também o <a class="urlextern" title="https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/confronto-entre-torcedores-do-cruzeiro-e-palmeiras-deixa-feridos-e-morto-em-sp/" href="https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/confronto-entre-torcedores-do-cruzeiro-e-palmeiras-deixa-feridos-e-morto-em-sp/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">recente caso</a> envolvendo membros da Mancha Verde, torcida organizada do clube Palmeiras. No dia 27 de outubro de 2024, numa ação de milícia, eles interceptaram em São Paulo um ônibus que levava integrantes da Máfia Azul, torcida organizada do Cruzeiro, espancando todos os presentes e ateando fogo no veículo com pessoas dentro. O resultado: 17 feridos, sete destes com traumatismo craniano, um baleado e um homem morreu carbonizado vivo dentro do ônibus. Mais uma vez, a lembrança que vem é de uma <a class="urlextern" title="https://oglobo.globo.com/mundo/estado-islamico-divulga-video-que-mostra-piloto-sendo-queimado-vivo-2-15231392" href="https://oglobo.globo.com/mundo/estado-islamico-divulga-video-que-mostra-piloto-sendo-queimado-vivo-2-15231392" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">produção do Estado Islâmico</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas acontece que não são o Estado Islâmico, essas ações partiram de elementos bem localizados na sociedade brasileira. Foi daí que me veio a lembrança de passagens do ensaio de João Bernardo “Três percursos no labirinto”. Creio que algumas delas nunca foram discutidas como deveriam, com alguns leitores confortavelmente ignorando seu sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">Citando trechos do artigo inicialmente mencionado:</p>
<blockquote><p>“Naquela tese [de doutorado], após a análise do Rock in Rio apresentada por Marcelo Coelho, dediquei três páginas e meia ao futebol, e concluí dizendo: «Na sua violência desprovida de qualquer outro objectivo ou pretexto, no seu racismo resumido a uma manifestação elementar de ódio, no seu nacionalismo sustentado por uma economia transnacional, em tudo isto o futebol é uma expressão cabal das ambiguidades contemporâneas. É um campo fértil do fascismo sem nome e um dos lugares predilectos onde recomeça a nomear-se». Estas foram as últimas palavras da tese e com elas encerrei a secção dedicada ao estudo do fascismo pós-fascista.<br />
[…] Se os actuais shows de rock, na sua encenação da autoridade, são o fascismo sem a ideologia fascista, por seu lado as claques, na sua encenação da violência, são milícias fascistas sem ideologia fascista.<br />
[…] A «hebdomadária violência» das claques, escrevi na tese de doutoramento, «reduz-se frequentemente a uma acção e a uma sensação — sem ideologia. E não se define assim mesmo a fruição estética?». As claques são milícias de um fascismo sem ideologia, e uma vez mais constatamos que o fascismo se assume fundamentalmente no plano estético.<br />
E os aficionados que, sem pertencerem a nenhuma claque, assistem aos jogos de futebol na televisão e gritam quando há golos ou insultam o árbitro (juiz)? Sempre me lembrei daqueles pacatos cidadãos que, à janela de casa, viam desfilar as milícias ou sabiam que um pouco mais longe havia uma prisão com presos políticos ou um campo de concentração. Ou daqueles que, quando íamos levados num carro prisional, viravam a cara para não nos verem. Teriam medo ou sentir-se-iam seguros? Talvez ambas as coisas ao mesmo tempo.”</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Após esses eventos de sábado em Recife, os tais “torcedores pacatos” gritavam gol e comemoravam normalmente a vitória do seu time, como se nada tivesse acontecido – ou pior, com alguns deles felizes pelo ocorrido. A reação dos clubes após os incidentes, os quais causaram uma ordem de proibição de torcidas por cinco jogos, enfatizou mais as perdas econômicas derivadas da proibição do que qualquer reflexão acerca da barbárie.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-155903" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/briga-entre-torcidas-10538.jpg" alt="" width="1296" height="729" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/briga-entre-torcidas-10538.jpg 1296w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/briga-entre-torcidas-10538-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/briga-entre-torcidas-10538-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/briga-entre-torcidas-10538-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/briga-entre-torcidas-10538-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/briga-entre-torcidas-10538-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/briga-entre-torcidas-10538-681x383.jpg 681w" sizes="(max-width: 1296px) 100vw, 1296px" />O futebol hoje estimula a fanatização, o ódio ao diferente, a superficialidade, a idolatria sem sentido de jogadores e clubes (também um reforço da figura de autoridade). As torcidas organizadas e sua violência partem desses princípios básicos, que a maioria dos aficionados compartilha de forma &#8216;light&#8217; e que acabam se tornando uma maneira para essas pessoas se verem e se colocarem no mundo (por ser um fenômeno estético). Nesse sentido, as torcidas de futebol convergem com o espírito do tempo: as identidades e a competição entre identidades. Por esse grande apelo às paixões, muitos da esquerda também são “fanáticos” e não conseguem problematizar estas questões. Pelo contrário, romantizam o esporte dado sua “identidade proletária”. Há até alguns que se autodenominam “antifa hooligans” tentando “disputar” as torcidas organizadas com uma simbologia de esquerda, procurando “nazistas” (alvos legítimos) para poderem expressar violência em bandos, quase sempre gravando vídeos para se vangloriarem em suas redes.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro ocorrido que relaciona esses fenômenos e os ilustra é a recente campanha feita por brasileiros pelas premiações do filme recém lançado “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Moreira Salles. Sob o apelo do “orgulho nacional”, bandos de “fãs” estão invadindo as redes de filmes concorrentes para depreciar e difamar atores, como no caso do filme <a class="urlextern" title="https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2025/01/24/atriz-de-emilia-perez-pede-ajuda-e-fernanda-torres-diz-a-fas-para-nao-alimentarem-odio-nas-redes.ghtml" href="https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2025/01/24/atriz-de-emilia-perez-pede-ajuda-e-fernanda-torres-diz-a-fas-para-nao-alimentarem-odio-nas-redes.ghtml" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Emília Perez</a>. Não bastasse o alto engajamento na superficialidade desses concursos de filmes, também o ódio gratuito é promovido em nome da “vitória da nação”, num clima análogo ao das torcidas organizadas. Isso mostra como a falta de senso crítico sobre a arte e a estética causa danos e diluiu qualquer sentido relevante que um filme como “Ainda Estou Aqui” poderia despertar.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-155901" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/transferir.png" alt="" width="1000" height="681" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/transferir.png 1000w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/transferir-300x204.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/transferir-768x523.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/transferir-617x420.png 617w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/transferir-640x436.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/02/transferir-681x464.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" />Diante desse cenário, é difícil entender que alguém fique confuso com a atual ascensão do fascismo clássico. Citando <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2009/11/15523/" href="https://passapalavra.info/2009/11/15523/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">outro texto</a>: “Parece tão fácil chegar ao fascismo, que em vez de explicar o fascismo talvez o que devesse ser explicado fosse o não-fascismo”. Até quando ignoraremos todas essas questões sobre o fascismo nosso de cada dia?</p>
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		<title>Lance normal (2)</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Jul 2024 05:07:20 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O presidente da Argentina, Javier Milei, demitiu o subsecretário de Esportes do país, Julio Garro, após este haver cobrado um pedido de desculpas da seleção pelos cânticos racistas entoados pelos jogadores após a vitória da Copa América. “Nenhum governo pode dizer o que comentar, o que pensar ou o que fazer à Seleção Argentina, Campeã [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O presidente da Argentina, Javier Milei, demitiu o subsecretário de Esportes do país, Julio Garro, após este haver cobrado um pedido de desculpas da seleção pelos cânticos racistas entoados pelos jogadores após a vitória da Copa América. “Nenhum governo pode dizer o que comentar, o que pensar ou o que fazer à Seleção Argentina, Campeã Mundial e Bicampeã da América”, diz a nota do governo argentino. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Lance normal (1)</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Jul 2024 05:00:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Diante da repercussão do vídeo da seleção argentina entoando cânticos racistas contra a seleção francesa, após a vitória na Copa América, a vice-presidente do país, Victoria Villarruel, defendeu os jogadores: “nenhum país colonialista vai nos intimidar por um cântico de torcida ou por dizermos verdades que não querem admitir. Parem de fingir indignação, hipócritas”. Passa [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Diante da repercussão do vídeo da seleção argentina entoando cânticos racistas contra a seleção francesa, após a vitória na Copa América, a vice-presidente do país, Victoria Villarruel, defendeu os jogadores: “nenhum país colonialista vai nos intimidar por um cântico de torcida ou por dizermos verdades que não querem admitir. Parem de fingir indignação, hipócritas”. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Cague no Sena</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Jun 2024 03:10:49 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Desporto/esporte]]></category>
		<category><![CDATA[França]]></category>
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					<description><![CDATA[Após o presidente francês, Emanuel Macron, e a prefeita da capital, Anne Hidalgo, prometerem que mergulhariam no rio Sena após a sua despoluição para as provas de natação das Olimpíadas de Paris, franceses lançaram a campanha “Cague no Sena”. No site da campanha, informando a distância que você mora de Paris, é possível calcular qual [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Após o presidente francês, Emanuel Macron, e a prefeita da capital, Anne Hidalgo, prometerem que mergulhariam no rio Sena após a sua despoluição para as provas de natação das Olimpíadas de Paris, franceses lançaram a campanha “Cague no Sena”. No site da campanha, informando a distância que você mora de Paris, é possível calcular qual o melhor horário para você “deixar o seu presente” no rio. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Três percursos no labirinto. 3</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Mar 2023 08:14:23 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Música]]></category>
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					<description><![CDATA[Usar a trivialidade como arte é salvá-la da trivialidade. Por João Bernardo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por João Bernardo</h3>
<p style="text-align: justify;">Contrariamente aos outros dois percursos, esboçados só agora e de forma hesitante, este não é um itinerário novo, mas conta-se entre os mais antigos, interrompido pouco depois de iniciado. Com efeito, nas páginas finais da minha tese de doutoramento (doutorado) citei um texto de Marcelo Coelho que deveria ter servido de tema a uma longa digressão.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, antes de prosseguir, quero explicar o motivo por que me doutorei. Em 1965, quando frequentava o primeiro ano do curso de História, eu fui expulso por oito anos de todas as universidades portuguesas, a maior expulsão decretada em meio século de regime fascista, até que em 1984 recebi o inesperado convite para leccionar no Brasil. Os anos foram passando, e um dia uma professora da Unicamp queixou-se das trabalhosas justificativas que deviam ser feitas aos organismos que concedem as autorizações e as verbas para aceitarem que uma pessoa como eu, sem títulos académicos nem sequer licenciatura, pudesse ministrar cursos de pós-graduação, e disse-me que, se eu apresentasse um memorial e o conjunto dos meus livros publicados, podia candidatar-me a uma prova de doutoramento sem necessitar de orientador. Mas para isso precisava, evidentemente, de apresentar uma tese. Naquela época eu dedicava-me a duas pesquisas. Uma, sobre a obra de Balzac, seria mais tarde publicada pela editora da Universidade do Estado de Minas Gerais com o título <em>A Sociedade Burguesa de Um e Outro Lado do Espelho</em>, mas estava ainda numa forma incipiente e necessitaria de bastantes anos de trabalho. Ao mesmo tempo eu estava a preparar um estudo do fascismo que se encontrava já numa fase adiantada. Apressei a investigação nalguns aspectos, desenvolvi várias passagens, arredondei uns ângulos e foi essa a tese que apresentei em Agosto de 1998, ao abrigo do artigo 62 do Regimento Geral da Unicamp, com o título <em>Labirintos do Fascismo</em>. No que me diz respeito, o meu doutoramento nada mudou. Continuei a ministrar cursos e a proferir palestras como fazia desde 1984, mas poupei trabalho a quem me convidava. Em suma, e bem vistas as coisas, o meu doutoramento foi um gesto de altruísmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Nessa tese, que constitui a primeira versão do <em>Labirintos</em>, a quatro páginas do fim, transcrevi excertos de um artigo que Marcelo Coelho publicou em Janeiro de 1991 e que reproduzo aqui com a ortografia original brasileira. «Vê-se um sujeitinho fantasiado, afetando o mais profundo mau humor, que vocifera para a massa. Mais de cem mil jovens, em acesso histérico, respondem em coro a gritos que não entenderam direito. Agitam os braços. Vivem o prazer obscuro de estar em multidão: sentem-se, ao mesmo tempo, fortes e submissos». Vociferações coléricas perante uma assistência histérica, que se sente forte e também submissa, a referência parece evidente — quantas descrições lemos já, quantos filmes vimos já do chefe fascista em transe, agitando a multidão! Mas não nos enganemos, porque era de outra coisa que Marcelo Coelho falava, do Rock in Rio. Porém, seria realmente outra coisa? «Vociferação, gritos, cara feia, dureza (o ritmo da bateria é selvagem, implacável, monótono), agressividade, delírio de massas: só me ocorre uma comparação. É com o fascismo. Pouco importa se os cantores de rock falam contra a guerra, se Woodstock e os hippies etc. etc. Os milhares de jovens que estavam no Rock in Rio detestam a guerra, gostam do verde, querem “liberdade” e “amor”, tudo isso é conhecido e exaltado. Não é o fundamental. […] esses shows de rock gigantescos oferecem à massa um fascismo sem problemas e maiores consequências. É o fascismo intransitivo, é a manifestação fascista sem ideologia fascista, é o fascismo da paz e do amor, mas é fascismo, é a quintessência juvenil, “alegre”, “energética” do fascismo». Ao sublinhar o prevalecimento da forma sobre o aparente conteúdo, Marcelo Coelho chegou ao cerne do que eu considero o fascismo pós-fascista — a forma fascista sem a ideologia fascista. Se quisermos usar a tradicional dicotomia forma / conteúdo, então devemos dizer que na arte a forma é o conteúdo da forma. E se for exacto que, como pretendo, o fascismo só atinge a coerência no plano estético, ou seja, que o fascismo é a estetização da política, então podemos resumi-lo à encenação e ao ritual, e aquele fascismo sem ideologia corresponderá exactamente à essência do fascismo, porque consiste numa modalidade de fascismo depurada. O que leio neste texto seminal de Marcelo Coelho é que basta a forma para definir a existência de fascismo. «Desrecalque, liberação de energias agressivas, gosto pela uniformidade […], fascínio pela figura, pelos gritos, pela dureza antipática do líder: sem dúvida, foi isto que atraiu muita gente para o fascismo nas décadas de 20 e 30. O perfil psicológico da massa e os problemas políticos e sociais da época podem ter mudado. Mas as necessidades mais “puras”, não obrigatoriamente criminosas, do fascismo persistem. O rock as atende».</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, a conclusão última a que chego é minha, não de Marcelo Coelho, porque ele acabou por pretender que «o “rock” é o menor dos males», e justificou. «Quando a platéia delira diante de um tipo antipático e mal-encarado, está cultuando também a autoridade; digamos, antes a estética da autoridade que a autoridade em si. […] Mas, se tudo isso é verdade, só se pode concluir que o “rock” é o menor dos males. Libera de modo inócuo uma selvageria que, no fascismo, encontrou formas incomparavelmente mais violentas e diabólicas de manifestação. […] Tornando-se inócuo, “estético”, abstrato, todo um potencial de energia bárbara, de monstruosidade grotesca, de agressão dionisíaca se libera sem que ninguém morra devido a isso». Todavia, se o fascismo só no plano estético é coerente, então o carácter estético do rock não o torna inócuo e, pelo contrário, remete-o para o âmago de todo o fascismo. Por isso, na minha tese de doutoramento eu concluí a análise do texto de Marcelo Coelho escrevendo: «Se se trata de “um fascismo sem problemas e maiores consequências”, isso não se pode saber apreciando só a plateia do rock, mas definindo a sua função na sociedade em geral. A “estética da autoridade” não reforça menos o poder do que o fez a autoridade explícita. E a estética apolítica da violência não se mostra menos violenta do que o fascismo enquanto doutrina de estética política».</p>
<p style="text-align: justify;">E foi tudo. Terminei ali abruptamente o percurso, quando devia tê-lo continuado porque esse fascismo resumido à sua essência estética abre uma perspectiva ampla para a compreensão do fascismo pós-fascista, um fascismo desprovido de ideologia fascista. Ora, se recomeçasse agora o caminho no ponto em que o interrompi, seria necessário recuar no tempo, porque aquele rock que Marcelo Coelho descreveu há mais de trinta anos, e só tem piorado desde então, no início era outra coisa muito diferente ou até oposta. Era libertador, anárquico, individual e individualista, o contrário de uma encenação de autoridade e de uma coreografia de massas.</p>
<p style="text-align: justify;">Querem um exemplo? Ouçam e vejam, em 1957, Jerry Lee Lewis em <em>Great Balls of Fire</em>.</p>
<p><iframe loading="lazy" title="Jerry Lee Lewis - Great Balls of Fire (1957) 4K" src="https://www.youtube.com/embed/lgCNOsSYP4I" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p style="text-align: justify;">Ou talvez mais elucidativo ainda, porque mais entusiástico, também em 1957.</p>
<p><iframe loading="lazy" title="JERRY LEE LEWIS on THE STEVE ALLEN SHOW 1957 Great Balls Of Fire" src="https://www.youtube.com/embed/i7grEaOtKG4" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p style="text-align: justify;">Como é que este rock originário resultou naquilo que Marcelo Coelho tão argutamente dissecou, ou pior, muito pior? Mas a questão é mais ampla e profunda. Como é que, seguindo uma ilusória linha de continuidade, a geração dos anos sessenta — libertina, amoral, universalista — resultou na geração actual — em que o universalismo se fragmentou nos identitarismos, em que cada identidade exige uma forma própria de puritanismo e em que a amoralidade se desfez no politicamente correcto? Como é que cada coisa, sem aparentemente sair dela mesma, deu lugar ao seu contrário? A questão é esta, e este seria o percurso que eu teria de deslindar.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas precisamente porque esta é a questão que estamos a viver, ela não tem agora resposta. Só a terá mais tarde, quando estivermos defuntos. E seremos nós, com tudo o que fizermos hoje, vistos pelos outros que virão depois, seremos nós, já mortos, a resolver essa questão. A história escreve-se <em>a posteriori</em>, mas vive-se <em>a priori</em>. Por isso o fascismo pós-fascista é uma realidade em suspenso e o labirinto é inesgotável.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegado a este impasse, como continuaria eu o percurso? A maneira óbvia consistiria em reformular a questão num âmbito mais modesto, concentrando-me na passagem de um rock que surgira na continuidade de uma expressão musical verdadeiramente popular, quero dizer, feita pelo povo para ser ouvida pelo povo, e se converteu num dos produtos que melhor simbolizam a indústria cultural. A mudança de carácter do rock, a sua transformação de música intrinsecamente anárquica numa manifestação fascista desprovida de ideologia fascista, corresponde a essa mudança no seu modo de produção, deixando de ser um produto individual para ser um produto industrial de massas.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, a indústria cultural de massas é de massas apenas no consumo, não na produção — e é este o seu traço decisivo. Até ao início da indústria cultural a plebe usufruíra de uma música que ela mesma produzia, e isto sucedia não só na vida rural, mas nas cidades também. Todavia, essa expressão musical foi extinta e, nos raros casos em que se manteve, como sucede com o jazz, o fado, o flamenco e o <em>cante jondo</em> ou não sei se o tango, ela — quando não degenerou — confinou-se a uma audiência restrita, que praticamente se confunde com a da música erudita. Por seu lado, a indústria cultural fabrica produtos que os grandes capitalistas do ramo pretendem que sejam consumidos pela generalidade da população. Por trás de cada <em>show</em> musical há um enorme aparelho económico, multiplicado exponencialmente no que diz respeito aos discos e a outras formas de música gravada. Quanto às artes visuais destinadas ao consumo de massas, elas inserem-se nos padrões estéticos da indústria da publicidade, que constitui outro colossal aparelho económico. E note-se que a partir do final da segunda guerra mundial a publicidade não é fundamentalmente, ou por vezes nem sequer é, um expediente para vender produtos, mas um instrumento para promover valores e atitudes. Os jogos de realidade virtual tornaram esta situação ainda mais drástica, envolvendo cada pessoa num universo visual estritamente controlado e determinando-lhe rigorosamente as opções de comportamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, no que vêem e no que ouvem — embora só parcialmente no que pensam, apesar da acção nefasta do <em>lobby</em> dos psicólogos e da literatura de auto-ajuda — os trabalhadores de hoje são formatados pelos capitalistas da indústria cultural, que não se limitam a produzir obras musicais e objectos visuais, mas assumem um papel muito importante na produção dos próprios trabalhadores enquanto seres sociais. Não foi por acaso que nos Estados Unidos o mccarthismo escolheu Hollywood como um dos alvos preferenciais, numa época em que o cinema era a principal indústria visual de massas e não fora ainda, como actualmente, subsumido pela estética dos vídeos publicitários. Antes de serem produtores os trabalhadores são um produto, produzido em boa medida pela indústria cultural.</p>
<figure id="attachment_147292" aria-describedby="caption-attachment-147292" style="width: 620px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-147292" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Richard-Hamilton-290x300.jpg" alt="" width="620" height="642" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Richard-Hamilton-290x300.jpg 290w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Richard-Hamilton-405x420.jpg 405w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Richard-Hamilton-640x663.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Richard-Hamilton-681x705.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Richard-Hamilton.jpg 695w" sizes="auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px" /><figcaption id="caption-attachment-147292" class="wp-caption-text">Richard Hamilton, O que é que torna as casas de hoje tão diferentes, tão cativantes?</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Aqui, neste percurso pelo que sucede hoje e verosimilmente sucederá amanhã, eu depararia com uma brusca inflexão. A internet e a difusão dos computadores pessoais, sobretudo dos minicomputadores de bolso a que os portugueses dão ainda o nome arcaico de telemóveis (celulares), não teriam descentralizado a produção cultural e, portanto, não lhe teriam alterado o fundamento? Qualquer pessoa escreve agora o que quiser, canta e toca o que quiser, dança como quiser e divulga os resultados pela internet. São muitos milhões de pessoas a usar essas plataformas, e não estarão assim criadas condições para que a indústria cultural decline e se desenvolva uma nova produção, tão individual como o antigo artesanato?</p>
<p style="text-align: justify;">À primeira vista, a resposta seria afirmativa e, no entanto, não parece que os resultados a confirmem, porque a criação artística gerada nas plataformas descentralizadas é tão padronizada como quaisquer produtos da indústria cultural. Sucede a este respeito o mesmo que tem ocorrido desde o aparecimento da internet e dos computadores pessoais — são criadas e disponibilizadas livremente condições técnicas de conhecimento que, no entanto, são massivamente desaproveitadas. O contraste é flagrante entre as possibilidades de conhecer e a generalização da ignorância. Neste emaranhado de contradições, talvez uma digressão ajudasse a esclarecer o problema, a menos que o tornasse ainda mais confuso.</p>
<p style="text-align: justify;">Toda a criação artística supõe quadros de referência. Nada se cria a partir do nada. É certo que cada vanguarda se define pela rebelião contra os padrões estabelecidos, mas estes são padrões já deteriorados pela rotina do academismo, e na sua revolta as vanguardas inspiram-se nas vanguardas de épocas anteriores. Lembro-me de ter ouvido há muitos anos, transmitida por France Musique, uma entrevista com o compositor André Boucourechliev em que ele afirmou que toda a criação musical de vanguarda requer o conhecimento da história da música. Mas a presença de quadros de referência é mais pesada ainda, porque em cada época se cruzam influências e se criam estilos, estabelecendo-se depois padrões. Uma criação artística alheia à indústria cultural é sempre individual, mas nunca é isolada, porque dialoga positiva ou negativamente com as restantes criações. Nestes termos, como explicar a monótona uniformização que impera na utilização artística das plataformas descentralizadas? Teria o meu percurso caído num atoleiro ou mesmo num pântano?</p>
<p style="text-align: justify;">Quando se hesita num caminho, tem de se olhar para um lado e para o outro. Talvez seja cedo para proferir afirmações taxativas acerca de um processo em curso. Mas é possível que a indústria cultural seja tão poderosa que tenha formatado até as criações artísticas que lhe são exteriores. Uma coisa é o cruzamento de influências, o diálogo entre criadores, a definição de estilos, mas outra coisa muito diferente é a acção das <em>influencers</em> enquanto divulgadoras de padrões estéticos, porque esses padrões são invariavelmente os ditados pela indústria cultural, que sustenta as <em>influencers</em> e lhes confere uma razão de ser. Basta observar que nos <em>selfies</em>, apesar de parecerem a mais individual das iniciativas, as pessoas adoptam posições e expressões de rosto que correspondem a um modelo generalizado. É um curioso paradoxo que naquela obsessão narcisista de se fotografarem a si mesmos a imagem reflectida não seja a do próprio, mas a de uma máscara que se assume, ditada pelo padrão reinante. Este processo é acelerado pela Inteligência Artificial, que está a desenvolver-se exponencialmente e permite a centralização das plataformas descentralizadas, tendo, assim, um fortíssimo efeito de padronização. O triunfo do TikTok, por exemplo, deve-se em boa medida à Inteligência Artificial.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesta encruzilhada não me lembro de outro teste que não passe pelo <em>kitsch</em>. No percurso imaginário anterior defini uma regra de sucessão de degradações estéticas, em que uma vanguarda se deteriora num academismo <em>pompier</em> que, por sua vez, é banalizado no <em>kitsch</em>. A cauda deste processo ocorre na criação artística suportada pelas plataformas descentralizadas, sendo as <em>influencers</em> o veículo indispensável ao estabelecimento dos padrões do <em>kitsch</em>. Então, neste percurso hesitante em que os caminhos estão ainda mal sinalizados no terreno, eu tomaria como ponto de referência o indubitável <em>kitsch</em> reinante na internet para, a partir daí, concluir que se trata da degradação de padrões por sua vez já degradados. Stephen Bayley resumiu a questão em quatro palavras quando chamou ao <em>kitsch</em> «uma versão <em>ersatz</em> da <em>high culture</em>», um sucedâneo da cultura erudita. O <em>kitsch</em> confunde-se hoje a tal ponto com a cultura de massas que é difícil atribuir-lhe especificidade. Ele passou a ser a característica mais genérica da estética corrente e expandiu-se até para produtos visuais exteriores à indústria cultural propriamente dita e que são geralmente integrados na estrita tradição das artes plásticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Nem esta bússola serve para me indicar o Norte, porque a arte não reside no objecto, mas emana da maneira como o vemos. A arte é um espelho em que nos reflectimos. Então, o <em>kitsch</em> pode ser visto de modo não <em>kitsch</em> e a pressão formatadora da indústria cultural e das <em>influencers</em> pode fracassar. Na arte nada é decisivo nem absolutamente determinante. Além disso, o excesso cria a habituação, e os produtos da cultura de massas tornaram-se a tal ponto o nosso <em>habitat</em> que talvez isto lhes anestesie os efeitos e a partir deles seja possível extrair outras ilações estéticas. A questão é mais complexa ainda, porque a indústria cultural globalizou os gostos e as <em>influencers</em> ultrapassam fronteiras, e não será o cosmopolitismo um dos valores mais positivos numa época em que à divisão entre nações se acrescentou o fraccionamento entre identidades? E também não serão as modas, musicais e outras, por definição ou pressão comercial, cosmopolitas? Este percurso correria então o risco de se converter num vaivém.</p>
<p style="text-align: justify;">Reflectindo sobre essa oscilação, que estudaram minuciosamente, Kirk Varnedoe e Adam Gopnik consideraram que «a história da interacção entre a arte moderna e a cultura popular é um dos aspectos mais importantes da história da arte na nossa época». Aliás, pelo menos no Ocidente, essa interacção não é específica da arte moderna, porque já a música erudita desde o barroco até ao romantismo se inspirara frequentemente em temas da música popular, ou seja, naquelas épocas, camponesa. Mas o mundo rural foi ultrapassado e marginalizado pela revolução industrial, e na nossa sociedade, em que <em>popular</em> significa industrial e urbano, Edgard Varèse deu talvez o passo decisivo ao tornar obsoleta a distinção entre som musical e ruído, já que nada podia ser mais popular do que o ruído, comummente considerado anti-artístico. E as artes plásticas, desde o cubismo, o futurismo e o Dada até Rauschenberg e os <em>affichistes</em>, à <em>pop art</em> e à <em>arte povera</em>, mesclaram elementos ou formas decorrentes da tradição erudita com referências ou elementos comerciais e publicitários e objectos industriais e de massas. Um passo importante nesta evolução, não no que diz respeito às formas e aos elementos, mas ao próprio processo de produção ocorreu em 1922, quando László Moholy-Nagy pela primeira vez criou quadros mediante um processo industrial.</p>
<figure id="attachment_147284" aria-describedby="caption-attachment-147284" style="width: 620px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-147284" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Claes-Oldenburg-Dois-Cheeseburgers-com-Tudo-300x200.png" alt="" width="620" height="412" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Claes-Oldenburg-Dois-Cheeseburgers-com-Tudo-300x200.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Claes-Oldenburg-Dois-Cheeseburgers-com-Tudo-768x511.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Claes-Oldenburg-Dois-Cheeseburgers-com-Tudo-632x420.png 632w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Claes-Oldenburg-Dois-Cheeseburgers-com-Tudo-640x426.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Claes-Oldenburg-Dois-Cheeseburgers-com-Tudo-681x453.png 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Claes-Oldenburg-Dois-Cheeseburgers-com-Tudo.png 1024w" sizes="auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px" /><figcaption id="caption-attachment-147284" class="wp-caption-text">Claes Oldenburg, Dois cheeseburgers com tudo</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A assimilação da trivialidade pela arte tem, no entanto, um reverso, pois também a indústria cultural assimila e divulga formas estéticas nascidas na arte erudita. Será então inevitável a degenerescência das vanguardas no academismo e daí no <em>kitsch</em>? Ou haverá uma circularidade ou, talvez mais exactamente, uma dinamização recíproca? «Trata-se de uma história», escreveram Varnedoe e Gopnik, «em que a arte moderna não foi simplesmente uma inimiga da cultura comercial moderna nem se limitou a ir ocasionalmente ao seu território como caçadora furtiva, mas foi uma parceira num <em>pas de deux</em> complexo de toma-lá dá-cá: cada uma tirava da outra, e inversamente». Ora, usar a trivialidade como arte é, evidentemente, salvá-la da trivialidade. Podemos seguir a acção desse círculo ao vermos os produtos da indústria cultural serem recuperados pela arte, como sucede, por exemplo, nas obras de Claes Oldenburg, para em seguida a arte ser recuperada pela estética da indústria cultural, como mostra o caso de Jeff Koons. E se Koons é um <em>pompier</em> da <em>pop art</em>, as bonecas Barbie são o <em>kitsch</em> de Koons.</p>
<figure id="attachment_147285" aria-describedby="caption-attachment-147285" style="width: 400px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-147285" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Jeff-Koons-Pink-Panther-249x300.jpg" alt="" width="400" height="482" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Jeff-Koons-Pink-Panther-249x300.jpg 249w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Jeff-Koons-Pink-Panther-850x1024.jpg 850w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Jeff-Koons-Pink-Panther-768x925.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Jeff-Koons-Pink-Panther-349x420.jpg 349w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Jeff-Koons-Pink-Panther-640x771.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Jeff-Koons-Pink-Panther-681x820.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Jeff-Koons-Pink-Panther.jpg 1196w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /><figcaption id="caption-attachment-147285" class="wp-caption-text">Jeff Koons, Pantera cor-de-rosa</figcaption></figure>
<figure id="attachment_147288" aria-describedby="caption-attachment-147288" style="width: 400px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-147288" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Boneca-Barbie-1-243x300.jpg" alt="" width="400" height="493" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Boneca-Barbie-1-243x300.jpg 243w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Boneca-Barbie-1-830x1024.jpg 830w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Boneca-Barbie-1-768x947.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Boneca-Barbie-1-340x420.jpg 340w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Boneca-Barbie-1-640x789.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Boneca-Barbie-1-681x840.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2023/01/Percurso-3-Boneca-Barbie-1.jpg 1216w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /><figcaption id="caption-attachment-147288" class="wp-caption-text">Boneca Barbie</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Varnedoe e Gopnik insistiram no «movimento circular que tem caracterizado a arte moderna, do <em>high</em> [arte erudita] para o <em>low</em> [arte de massas] e novamente de volta […]», uma lição repetida incessantemente ao longo de uma obra extensa e muitíssimo bem documentada. É uma história que «gira em círculos», resumiram eles numa das últimas páginas, «ciclos no virar de uma roda». Contudo, é sempre possível discorrer sobre o <em>kitsch</em> como se fosse arte, ou mesmo arte de vanguarda, e aliás é uma das formas mais <em>in</em> da crítica pedante. Boris Vian ironizou este tipo de sofisticação em <em>J’suis snob</em>, em que o cúmulo do snobismo é a adopção de um comportamento <em>kitsch</em> como se fosse uma máscara ou um figurino. Mas o equilíbrio é precário e a linha de demarcação muito ténue. Recordemos Göring tal como vimos Albert Speer retratá-lo no percurso anterior, ou as damas da corte de Marcus Garvey e o próprio Garvey com o chapéu emplumado — e o que os distancia do <em>snob</em> de Boris Vian? É que nenhum deles é <em>snob</em>, são francamente <em>kitsch</em>. O snobismo implica um segundo grau e o <em>kitsch</em> é sempre em primeiro grau. É a ironia que impede de cair no <em>kitsch</em> e, adoptando a forma inversa desta definição, concluo que o <em>kitsch</em> nunca pode ser irónico. Ora, Joseph Billig observou que os SS eram totalmente desprovidos de ironia, o que contribui para situar esteticamente os fascistas, porque a ironia não faltava só aos SS, mas a todos os fascistas. Quando Isaac Babel, no alvor da Rússia soviética, afirmou que «a banalidade é a contra-revolução», ele estava a antecipar o que seria o lugar do <em>kitsch</em> na política.</p>
<p style="text-align: justify;">E chego aqui para constatar que, afinal, este percurso seria feito de ziguezagues e vaivéns, como não poderia deixar de acontecer numa tentativa quimérica de delinear a história de um tempo que estamos ainda a viver. Apesar disso, eu deveria prosseguir, porque o trajecto iniciado na tese de doutoramento não foi só interrompido, mas ficou em suspenso. Naquela tese, após a análise do Rock in Rio apresentada por Marcelo Coelho, dediquei três páginas e meia ao futebol, e concluí dizendo: «Na sua violência desprovida de qualquer outro objectivo ou pretexto, no seu racismo resumido a uma manifestação elementar de ódio, no seu nacionalismo sustentado por uma economia transnacional, em tudo isto o futebol é uma expressão cabal das ambiguidades contemporâneas. É um campo fértil do fascismo sem nome e um dos lugares predilectos onde recomeça a nomear-se». Estas foram as últimas palavras da tese e com elas encerrei a secção dedicada ao estudo do fascismo pós-fascista.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas para continuar o percurso onde o suspendera eu deveria relacionar a evolução do rock com as claques (torcidas) de futebol. Se os actuais <em>shows</em> de rock, na sua encenação da autoridade, são o fascismo sem a ideologia fascista, por seu lado as claques, na sua encenação da violência, são milícias fascistas sem ideologia fascista.</p>
<p style="text-align: justify;">A situação das claques, porém, é mais complicada do que a dos grupos de rock porque, se ambos dependem do poder económico, a própria existência das claques depende também de outra instituição — os clubes (times) de futebol. Ora, estes clubes são empresas que movimentam fortunas colossais e, aliás, basta olhar para as blusas dos jogadores, transformadas em painéis publicitários. Mas a lógica desses investimentos e das despesas fabulosas que implicam só se entende quando se verifica que os clubes de futebol são, ao mesmo tempo, canais da economia paralela, servindo para lavagem de dinheiro e outras operações do mesmo género. As claques, por seu lado, além de se relacionarem economicamente com os clubes, são também extensões da economia ilegal, ligadas ao comércio de drogas.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, as digressões exigidas por esta parte do percurso, obrigando-me a estudar as múltiplas facetas da economia informal, seriam demasiado longas e trabalhosas. Apesar disso, seriam indispensáveis, porque o futebol é cindido por uma contradição fundamental, que tem nas claques a sua expressão mais estridente. Enquanto empresas que fazem circular muitos milhões de dólares, os clubes inserem-se plenamente nos movimentos transnacionais do capital e, aliás, adquirem os jogadores no mercado mundial, sem que as fronteiras sejam um obstáculo. Mesmo as selecções nacionais, embora distintas dos clubes privados, agem do mesmo modo e recorrem ao expediente legal da naturalização para converter jogadores estrangeiros em jogadores nacionais. Porém, ao mesmo tempo que são economicamente transnacionais, os clubes e as selecções cercam-se de uma aura bairrista ou nacionalista, com frequência ambas simultaneamente, quando se trata de clubes privados jogando no estrangeiro. Ora, as claques são a extensão truculenta dessa aura, em franca contradição com o carácter supranacional da economia que sustenta o futebol, tanto no que diz respeito aos clubes como ao comércio de drogas acobertado pelas claques.</p>
<p style="text-align: justify;">É nessa contradição entre uma economia transnacional e um apelo afectivo nacional ou local que eu deveria analisar a função das claques enquanto milícias fascistas desprovidas de ideologia fascista. Decerto não faltam casos em que grupos neonazis se infiltram nas claques, mas sem que elas, globalmente consideradas, adoptem uma ideologia fascista ou sequer ascendam a qualquer plano ideológico. Tal como sucede nos <em>shows</em> de rock, também nas claques a ideologia é subliminar e elas dedicam-se exclusivamente a uma coreografia de massas que facilmente se converte numa encenação da violência física. A «hebdomadária violência» das claques, escrevi na tese de doutoramento, «reduz-se frequentemente a uma acção e a uma sensação — sem ideologia. E não se define assim mesmo a fruição estética?». As claques são milícias de um fascismo sem ideologia, e uma vez mais constatamos que o fascismo se assume fundamentalmente no plano estético.</p>
<p style="text-align: justify;">E os aficionados que, sem pertencerem a nenhuma claque, assistem aos jogos de futebol na televisão e gritam quando há golos ou insultam o árbitro (juiz)? Sempre me lembrei daqueles pacatos cidadãos que, à janela de casa, viam desfilar as milícias ou sabiam que um pouco mais longe havia uma prisão com presos políticos ou um campo de concentração. Ou daqueles que, quando íamos levados num carro prisional, viravam a cara para não nos verem. Teriam medo ou sentir-se-iam seguros? Talvez ambas as coisas ao mesmo tempo. A dialéctica do terror é complexa e no <em>Labirintos</em> eu lastimei que não tivesse surgido um Elias Canetti para a analisar.</p>
<p style="text-align: justify;">Chegado a este ponto, reconheci que o itinerário seria demasiado longo e imbricado nos seus meandros. Uma centena de páginas não bastaria, nem duas centenas, nem três. Para mais, seria um percurso em aberto, como são obrigatoriamente todos os do fascismo pós-fascista, mapa hesitante de uma realidade que estamos ainda a viver. E assim, foi outro percurso que tive de deixar de lado.</p>
<p><strong>Referências</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As passagens de Marcelo Coelho são extraídas de Marcelo Coelho, «O Rock in Rio Mostra o Fascismo Sublimado», <em>Folha de S. Paulo</em>, 23 de Janeiro de 1991, pág. E-16. A definição de <em>kitsch</em> proposta por Stephen Bayley encontra-se em Stephen Bayley, <em>Taste. The Secret Meaning of Things</em>, Londres e Boston: Faber and Faber, 1991, pág. 65. As citações de Varnedoe e Gopnik provêm de Kirk Varnedoe e Adam Gopnik, <em>High &amp; Low. Modern Art, Popular Culture</em>, Nova Iorque: The Museum of Modern Art, 1990, págs. 19, 61, 112 e 406. A opinião de Billig acerca da ironia está em Joseph Billig, <em>L’Hitlérisme et le Système Concentrationnaire</em>, Paris: Presses Universitaires de France, 2000, pág. 232. A frase de Isaac Babel encontra-se referida em Anton Kaes, Martin Jay e Edward Dimenberg, <em>The Weimar Republic Sourcebook</em>, Berkeley, Los Angeles e Londres: University of California Press, 1995, pág. 149.</p>
<p style="text-align: center;">A imagem de destaque reproduz uma obra de Roy Lichtenstein (1923-1997).</p>
<p style="text-align: center;"><em>Pode ler o primeiro percurso </em><a href="https://passapalavra.info/2023/03/147227/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> <em>e </em><a href="https://passapalavra.info/2023/03/147230/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> <em>o segundo percurso</em>.</p>
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		<title>Dedico este prêmio&#8230;</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Apr 2022 03:23:22 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Era um passo adiante na breve carreira do russo Artem Severiukhin, piloto mirim de <em>karting</em> que disputava o Campeonato Europeu da modalidade. Ao subir no pódio ao som de “Il Canto degli Italiani”, hino italiano, não se deteve e estendeu o braço para fazer a saudação fascista antes de cair na gargalhada, sendo em seguida demitido pela própria equipe enquanto é investigado pela Federação Internacional de Automobilismo. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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