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	<title>Egito &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Dentro das prisões de Sisi: Alaa Abd el-Fattah luta por liberdade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Dec 2022 12:45:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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					<description><![CDATA[Há dezenas de prisioneiros políticos no Egito, não é apenas sobre Alaa. Mas se ele for libertado, isso significa uma vitória e uma mudança significativa. Por Shireen Akram-Boshar ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Shireen Akram-Boshar entrevista Sharif Abdel Kouddous</strong></h3>
<blockquote><p>Enquanto gestores dos mais variados matizes se reuniam na COP27 no Egito, o revolucionário Alaa Abd el-Fattah, intensificava sua greve de fome, que teve fim no dia 17 de novembro quando ele precisou ser reanimado. O Passa Palavra traduziu <a href="https://spectrejournal.com/inside-sisis-prisons-alaa-abd-el-fattahs-fight-for-freedom/" target="_blank" rel="noopener">esta entrevista, publicada em 18 de outubro,</a> feita com um apoiador e publicada em outubro pelo jornal <em>Spectre</em>.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Desde 2013 o Egito contra-revolucionário ficou conhecido por suas prisões em massa, que tornaram os ativistas da revolução de 2011 a “geração da cadeia”. Grupos de direitos humanos estimam que o Egito tem 60.000 prisioneiros políticos, muitos deles encarcerados sem julgamento. Esse número pode ser, na realidade, muito maior. Entre eles está Alaa Abd el-Fattah, um dos organizadores dos protestos e escritor esquerdista preso repetidas vezes por seu ativismo e seus escritos políticos. Alaa está atualmente em uma greve de fome na prisão que já dura seis meses, sua condição é crítica. De muitas maneiras seu caso reflete a realidade do Egito desde a contra-revolução de Sisi em 2013. A jornalista do <em>Spectre</em> Shireen Akram-Boshar entrevistou Sharif Abdel Kouddous, um jornalista que trabalhou no caso de Alaa, sobre a campanha pela liberdade de Alaa, a repressão da contra-revolução, e a esperança para este caso, assim como sobre o fim do regime de Sisi.</p>
<p style="text-align: justify;">Sharif Abdel Kouddous é um jornalista independente no Cairo. Ele trabalha como editor e repórter no <em>Mada Masr</em>, e cobriu de perto o caso de Alaa e a campanha pela sua libertação.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-146667" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/Fe0S4QgWIAI1bIf-pw4ti7ob6dx942tsbn1ez8blrwlt8dtcnb7q4zih5k.jpg" alt="" width="1820" height="700" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/Fe0S4QgWIAI1bIf-pw4ti7ob6dx942tsbn1ez8blrwlt8dtcnb7q4zih5k.jpg 1820w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/Fe0S4QgWIAI1bIf-pw4ti7ob6dx942tsbn1ez8blrwlt8dtcnb7q4zih5k-300x115.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/Fe0S4QgWIAI1bIf-pw4ti7ob6dx942tsbn1ez8blrwlt8dtcnb7q4zih5k-1024x394.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/Fe0S4QgWIAI1bIf-pw4ti7ob6dx942tsbn1ez8blrwlt8dtcnb7q4zih5k-768x295.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/Fe0S4QgWIAI1bIf-pw4ti7ob6dx942tsbn1ez8blrwlt8dtcnb7q4zih5k-1536x591.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/Fe0S4QgWIAI1bIf-pw4ti7ob6dx942tsbn1ez8blrwlt8dtcnb7q4zih5k-1092x420.jpg 1092w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/Fe0S4QgWIAI1bIf-pw4ti7ob6dx942tsbn1ez8blrwlt8dtcnb7q4zih5k-640x246.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/Fe0S4QgWIAI1bIf-pw4ti7ob6dx942tsbn1ez8blrwlt8dtcnb7q4zih5k-681x262.jpg 681w" sizes="(max-width: 1820px) 100vw, 1820px" />Shireen Akram-Boshar:</strong> <em>Alaa Abd el-Fattah é possivelmente o mais conhecido prisioneiro político do Egito, ao mesmo tempo, por ser escritor e dissidente político. Ele esteve preso a maior parte dos últimos dez anos, desde a revolução egípcia de 2011, e sua atual greve de fome dura seis meses. Por que ele foi preso tantas vezes pelo regime? Como o sofrimento dele coincide com a trajetória da contra-revolução egípcia?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sharif Abdel Kouddous</strong>: Hoje, 29 de setembro de 2022, é o terceiro aniversário da última prisão de Alaa, quando ele foi pego da delegacia de polícia onde ele era forçado a passar 12 horas por dia depois da sentença anterior a qual ele foi condenado. Então, se passaram três anos desde o dia de sua última prisão.</p>
<p style="text-align: justify;">Alaa é um escritor, um tecnólogo e um ativista político. Ele começou inicialmente no começo dos anos 2000 como um programador e blogueiro, e trabalhava com tecnologia de localização, com arabização da terminologia e traduzindo a interface do usuário para o árabe. Ele e sua esposa fizeram um dos primeiros agregadores de blogs árabes, com a criação de uma plataforma que foi o eixo inicial do ativismo online no Egito.</p>
<p style="text-align: justify;">Alaa foi preso ou processado, a vida toda, por todos os regimes políticos que já existiram no Egito. Sua primeira detenção e prisão ocorreu em 2006 durante o regime de Mubarak. Ele participou dos protestos que reivindicavam a independência do Judiciário. Porém, foi durante a revolução que irrompeu em janeiro de 2011, quando Alaa voltou da África do Sul — onde vivia com sua esposa — para o Egito com o intuito de participar do levante, que ele apareceu como um ativista incrivelmente engajado e eficiente. Ele esteve entre os mais eloquentes revolucionários e pensadores políticos, e ele estava sempre olhando para as margens e para os marginalizados em busca de inspiração. Por conta disso, ele pagou um preço muito alto.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo de Mohamad Morsi emitiu um mandado de prisão contra ele, porém não o prendeu. Foi mesmo quando Abdel Fattah el-Sisi deu um golpe substituindo Morsi, marcando o início do regime Sisi, que nós vimos esse massivo movimento contra-revolucionário aparecer e bloquear toda forma de dissenso, quebrar toda oposição política, e fechar todas as vias para a organização política. Parte disso incluiu mirar nos ícones de 2011, e, provavelmente, não existe um ícone do período maior que Alaa. Depois do golpe em 2013, ele foi preso pelo Conselho Supremo das Forças Armadas por conta da agitação em torno do assassinato de 27 manifestantes, de maioria cristã copta, em outubro de 2011, conhecido como massacre de Maspero, e ele passou cinquenta e poucos dias na prisão.</p>
<p style="text-align: justify;">Alaa entrou e saiu da prisão, porém em 2013 ele foi preso por um protesto contra uma lei draconiana sobre manifestações, que ele, de fato, não foi um dos organizadores, mas ainda assim foi condenado e sentenciado a 5 anos de prisão. Ele cumpriu estes cinco anos, foi libertado no início de 2019, mas ainda precisava cumprir mais cinco anos de liberdade condicional. As estritas medidas da condicional obrigavam ele a se apresentar a uma delegacia de polícia por 12 horas diárias, das 6 da noite às 6 da manhã. Ele estava vivendo uma espécie de meia liberdade. Ele falava sobre como era difícil se entregar. Não era como quando ele era levado de sua casa, ou pego na rua como tinha acontecido antes, ele devia espontaneamente entregar-se às autoridades diariamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Em setembro de 2019, pequenos, mas relevantes, <a class="urlextern" title="https://www.aljazeera.com/news/2019/9/21/in-rare-protests-egyptians-demand-president-el-sisis-removal" href="https://www.aljazeera.com/news/2019/9/21/in-rare-protests-egyptians-demand-president-el-sisis-removal" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">protestos</a> contra o regime de Sisi foram provocados em parte por um ex-empregado militar. Esse agentes publicou vídeos dando nomes de generais e os acusando de corrupção. Os protestos se depararam com o <a class="urlextern" title="https://www.nytimes.com/2019/10/04/world/middleeast/egypt-protest-sisi-arrests.html" href="https://www.nytimes.com/2019/10/04/world/middleeast/egypt-protest-sisi-arrests.html" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">maior número de prisões em massa</a> desde que Sisi chegou ao poder. Mais de 4.000 pessoas foram presas: pessoas comuns na rua, ativistas proeminentes, assim como pessoas que nunca antes foram alvos de detenções, como professores universitários, advogados, jornalistas — todos foram arrastados em prisões em massa. Alaa foi um deles.</p>
<p style="text-align: justify;">As forças de segurança do Estado, também chamadas de Segurança Nacional, vieram e prenderam ele na delegacia de polícia perto das seis da manhã, no exato momento em que ele foi liberado. Ele foi levado para a prisão de Tora, onde, pela primeira vez, foi submetido ao que se chama, em árabe, de “al Tashreefa,” pobremente traduzido como “festa de boas-vindas” [corredor polonês], na qual você apanha e é torturado na entrada da prisão por duas fileiras de guardas e você é obrigado a andar no meio desse corredor de violência. Por causa de sua altura, sua classe, e seu destaque político, ele, no passado, foi poupado desse tipo de coisa que é regularmente aplicado em outros prisioneiros. Porém, desta vez, um oficial da Segurança Nacional, de acordo com ele, falou: “Nós odiamos a revolução. Você nunca irá sair dessa vez.” E ele foi, então, submetido às piores condições prisionais que encarou até o momento. Ele foi colocado na ala de segurança máxima da prisão de Tora, ali, foi privado da luz do Sol e do ar fresco, assim como qualquer tempo fora da cela. Ele foi proibido de ler qualquer tipo de material, escutar o rádio, usar papel e caneta, até mesmo de ter um colchão para dormir. E ele ficou nessa prisão, nesse estado, até abril deste ano.</p>
<p style="text-align: justify;">Alaa foi mantido, assim como milhares de prisioneiros políticos no Egito, em prisão preventiva. A prisão preventiva tem sido usada por este regime, em vez de como uma ferramenta legal para investigar crimes, como uma ferramenta para a repressão em massas. A vasta, vasta maioria de presos políticos no Egito está sendo mantida em prisões preventivas sem nunca ter sido condenada por um crime. De acordo com Código Penal egípcio, você pode ser mantido em prisão preventiva por dois anos. E o que usualmente acontece é, se eles querem manter você dentro, quando os dois anos estão se aproximando do fim, eles fazem algo chamado “tadweer”, que significa rotação ou reciclagem, e eles acrescentam novas acusações contra você, então sua contagem da prisão preventiva é reiniciada e você é mantido na prisão. Há muitos casos de pessoas que são mantidas por anos nesta situação. No caso de Alaa, eles finalmente o encaminharam para o julgamento, ele e Mohamed Baker — seu advogado que foi preso junto com ele — e o blogueiro Mohamed Oxygen. Eles foram julgados em uma corte emergencial de segurança do Estado, que é uma corte de exceção, na qual não se pode apelar das sentenças.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi um procedimento absurdo, eu acompanhei isso. Os advogados de defesa não eram autorizados a ver o arquivo do caso. Eles não sabiam realmente quais acusações enfrentariam e quais eram as evidências para elas. Dentro das três sessões da corte ele foi condenado a cinco anos de prisão, essencialmente por um <em>retweet</em> sobre a tortura de um preso pelo mesmo tipo de oficial da Segurança Nacional que supervisiona ele na prisão agora. Esse é o absurdo disso. Os mais de dois anos que ele passou preso até aquele momento, não contaram como pena para a sentença, então a primeira vez que ele poderá sair de lá será em 2027. Eles claramente querem manter ele na prisão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-146666" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/FreeAlaa-campaign-social.jpg" alt="" width="1024" height="512" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/FreeAlaa-campaign-social.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/FreeAlaa-campaign-social-300x150.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/FreeAlaa-campaign-social-768x384.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/FreeAlaa-campaign-social-840x420.jpg 840w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/FreeAlaa-campaign-social-640x320.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/FreeAlaa-campaign-social-681x341.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/FreeAlaa-campaign-social-1021x512.jpg 1021w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />Shireen Akram-Boshar:</strong> <em>Quando e por que Alaa decidiu começar uma greve de fome?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sharif Abdel Kouddous</strong>: Alaa decidiu no dia 2 de abril deste ano começar uma greve de fome. Foi um ato não de desespero, mas de resiliência. Naquele momento ele estava na ala de segurança máxima da prisão de Tora, e ele meio que tinha chegado ao seu limite, pela primeira vez expressava pensamentos suicidas. Sua greve de fome foi uma maneira dele usar seu o próprio corpo como forma de resistência, tomando a agência sobre si próprio da única maneira que um prisioneiro pode fazê-lo. E então ele começou uma greve de fome ainda em aberto, clamando por acesso consular e por alguns outros direitos, e por fim, por sua libertação. Ele iniciou essa greve de fome primeiramente com uma técnica que os prisioneiros egípcios aprenderam com os prisioneiros palestinos, que é usar apenas sal e água — o sal mantém sua pressão sanguínea e ajuda a sustentar a greve de fome.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de alguns ganhos em seu caso, melhorias nas suas condições, e alguma pressão do Reino Unido, Alaa decidiu trocar a greve de fome pela ingestão de 100 calorias por dia, o que é mais como uma greve de fome do estilo Gandhi. Alaa estuda essas coisas muito de perto. Então ele toma algo como uma colher cheia de mel em seu chá, e faz isso há muitos meses agora. Hoje é o 181º dia. Porém, um homem adulto de tamanho médio precisa de em torno de 2,000-2,500 calorias por dia, então 100 calorias por dia é realmente nada, apesar de ajudar a sustentar a greve de fome. A última vez que sua irmã, Mona, o viu em uma visita, ela ficou surpresa e chocada com sua aparência física. Seus olhos estão afundados para dentro da cabeça, ela disse que os braços dele estão extremamente finos, ele está muito frágil, e mal consegue parar em pé. Mas ela disse que sua mente continua rápida e ativa. Então, isso está cobrando um preço alto para ele. Porém, ele jurou que não irá terminar a greve de fome. Eu acho que ele está determinado a não cumprir cinco anos de pena. Ou ele será libertado, ou ele irá morrer.</p>
<p style="text-align: justify;">Alaa está preso e pagando um preço muito alto porque o regime quer fazê-lo de exemplo; ele é um símbolo que eles estão tentando quebrar. Ele é um símbolo de 2011, e isto é um elemento para o modo vingativo que o regime o está tratando. Ironicamente, por meio da repressão do regime a Alaa e sua família, eles também reforçaram o <em>status</em> dele e de sua família. O regime transformou-os em símbolos de resistência também.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Shireen Akram-Boshar:</strong> <em>Como está sendo a campanha pela libertação de Alaa? Eu entendi que a irmã dele, Sanaa, foi detida e presa também durante a campanha, e que a família deles lutou muito para garantir sua libertação.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Sharif Abdel Kouddous</em>: A família de Alaa tem sido defendida por ele durante todo o processo. A irmã dele, Sanaa, foi presa três vezes ao longo de três anos e três meses. Ela foi presa por tentar entregar uma carta para Alaa. O regime cortou toda a comunicação, então ela e sua mãe fizeram um <em>sit-in</em> em frente à prisão para exigir a entrega de uma carta. Por causa disso elas foram agredidas pelos capangas do regime, e Sanaa foi detida e presa por um ano e meio.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso está acontecendo, a família trabalhou para garantir a cidadania britânica para Alaa. Alaa e seus irmãos têm o direito à cidadania britânica porque a mãe deles nasceu em Londres e tem cidadania. Por isso, quando eles perceberam que o regime não ia deixar Alaa sair, e provavelmente nunca iria libertá-lo, a família solicitou a cidadania como forma de outro governo colocar pressão no regime em defesa desse caso. Alaa conseguiu a cidadania britânica em algum momento do final de 2021. No entanto, até o momento, Alaa não teve garantido o acesso consular pela embaixada britânica, que é seu direito legal. As autoridades egípcias se recusaram a conceder isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Porém, uma coisa que mudou com a maior cobertura internacional da campanha por Alaa, e alguma pressão do governo britânico, foi que ele foi transferido da ala de segurança máxima da prisão de Tora para um estabelecimento prisional em Wadi Natrun, que fica cerca de cem quilômetros ao norte do Cairo. Esse estabelecimento prisional não é oficialmente chamado de prisão, mas de “centro de reabilitação”. Em setembro de 2021, Sisi disse que o Egito iria construir oito ou nove “prisões de estilo americano”, e essa prisão foi lançada com um vídeo chique no <a class="wikilink2" title="youtube" href="https://wiki.passapalavra.info/doku.php?id=youtube" rel="nofollow" data-wiki-id="youtube">YouTube</a>, mostrando prisioneiros recebendo formação e aulas, trabalhando em uma fazenda, mostrando aparentemente boas condições.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, as condições de Alaa mudaram agora; ele está com dois outros presos, e é autorizado a ler e utilizar papel e caneta. Ele pode sair da cela vinte minutos por dia, não pode ir para o pátio tomar Sol, mas não não está totalmente enclausurado. A visitação continua restrita a uma por mês, por vinte minutos de trás de uma barreira de vidro. É assim que nós podemos saber de Alaa, de acordo com os relatos de sua família, o que ele fala nessas visitas, ou por meio das cartas que ele escreve, que podem ser enviadas uma vez por semana. Em algumas das cartas mais recentes, ele falou que não pode continuar dessa maneira, que ele não tem certeza se tem forças para afastar o sentimento de desespero. E ele começa a crer firmemente que eles nunca o deixarão sair com vida da prisão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Shireen Akram-Boshar:</strong> <em>Você pode falar sobre outros elementos da campanha de libertação de Alaa? Como esse caso repercute globalmente? O que você acha que será necessário para libertar Alaa e as dezenas de milhares de presos políticos nas prisões do regime?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sharif Abdel Kouddous</strong>: Houve diferentes ondas da campanha por Alaa ao longo de suas várias prisões.</p>
<p style="text-align: justify;">No último estágio da campanha por ele, seus amigos e familiares, junto com outros ativistas, compilaram uma seleção dos escritos dele, discursos, suas publicações nas redes sociais, e publicaram o livro <a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/watch?v=QdUpDKJ7tKg&amp;t=24s" href="https://www.youtube.com/watch?v=QdUpDKJ7tKg&amp;t=24s" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">You Have Not Yet Been Defeated</a> [Você ainda não foi derrotado]. Isso levou a voz de Alaa para um público que não fala árabe. Sanaa disse que, se Alaa foi encarcerado por conta de sua voz, então publicar este livro foi uma forma romper com a prisão dele, fazendo sua voz ser ouvida. A maior parte dos escritos já foi impressa em árabe, mas também está compilada em um livro chamado <em>The Ghost of Spring</em> [O Fantasma da Primavera]. Isto marca o começo de um novo impulso para a libertação de Alaa, e também coincide com sua sentença, onde ficou claro que o regime não o deixará sair.</p>
<p style="text-align: justify;">Sanaa e eu fizemos uma turnê do livro, e falamos em diferentes universidades enquanto construímos a campanha de solidariedade no exterior, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Há muito da campanha sendo feito pela família em relação ao Parlamento Britânico, por conta da cidadania britânica de Alaa. Dezenas de deputados assinaram cartas pedindo que Alaa seja liberado ou que tenha a visita consular garantida. Tem havido uma campanha no Egito, na medida do possível. Existe algo chamado Conselho Nacional de Direitos Humanos, que tem seus membros indicados pelo Estado, que é bastante ineficaz como órgão de direitos humanos, mas o chefe do Conselho levou em conta o caso de Alaa, e eu acho que isso ajudou a conseguir a transferência da prisão.</p>
<p style="text-align: justify;">Penso ser importante perceber que o Egito, pelo menos nos últimos quarenta anos, depende de seus aliados ocidentais para existir, e isso não é diferente no regime de Sisi. O Egito é o segundo maior destinatário de verbas militares dos EUA no mundo, tem no Reino Unido seu maior parceiro comercial, o país depende de apoio econômico, militar e diplomático do Ocidente para sobreviver. Por isso, pressionar os EUA e o Reino Unido para agir e solicitar a libertação de Alaa é uma campanha tática. É um esforço multi-facetado.</p>
<p style="text-align: justify;">E há dezenas de prisioneiros políticos no Egito, não é apenas sobre Alaa. Mas se Alaa for libertado, isso significa uma vitória e uma mudança significativa. Se o regime sucumbir e tiver de libertá-lo, quando eles absolutamente não querem fazê-lo, isto pode potencialmente marcar uma espécie de virada sobre como o regime lida com presos políticos, e o que ele acha que pode fazer.</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, esse regime é muito suscetível à pressão. Ele parece muito forte e repressivo, mas embora seja repressivo, não é forte. É governado por um minúsculo círculo interno, pelos serviços de inteligência e pela polícia. A insatisfação e inquietação popular surgem em diferentes momentos, e eles não podem conter isso por completo, apesar da repressão massiva. Um sistema instável pode durar bastante tempo, mas é instável e necessariamente surgirão oportunidades de mudar isso. Agora mesmo a situação econômica é absolutamente terrível. Existe uma combinação da tomada de empréstimos em massa ao longo dos últimos anos, e uma crise de moeda estrangeira precipitada e agravada pela pandemia e pela guerra na Ucrânia, além de uma série de outros fatores. Mas o governo se colocou em uma situação tão precária que o Egito pode ser obrigado a pagar esses empréstimos. A libra egípcia já atingiu um recorde de desvalorização perante o dólar. Por isso, eles estão muito desesperados de diferentes maneiras. O Egito também irá sediar a Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas, COP27, em novembro em Sharm el-Sheikh.</p>
<p style="text-align: justify;">Os últimos esforços na campanha por Alaa estão focados em encorajar os movimentos de justiça climática a integrar as preocupações com os direitos humanos em seus discursos e demandas ao longo da COP27. Ativistas estão determinados a não deixar a conferência do clima ser uma oportunidade de fazer um <em>greenwash</em> em todas as formas de repressão utilizadas pelo Egito. O Egito está tentando posicionar-se como um país relevante na campanha do Sul Global por reparações climáticas e financiamento para a transição para a energia verde. Eles contrataram duas firmas de relações públicas nos EUA para ajudá-los a mandar essa mensagem. Eles têm trabalhado muito duro nisso, e têm sido eficazes em alguns aspectos. Então, esse também é um espaço que temos uma oportunidade para pressionar, pois o Egito está recebendo esse evento, abriu portas para muitos grupos diferentes virem, e se as pessoas conseguirem amarrar essas demandas umas com as outras, pode ser uma fonte de pressão ao governo também.</p>
<p style="text-align: justify;">Todas essas coisas levaram as autoridades a se comportarem um pouco melhor, pois elas precisam do apoio do Ocidente para conseguir sobreviver econômica e politicamente. Então, nós vimos no último ano elas anunciarem o lançamento do que chamaram de Estratégia Nacional de Direitos Humanos, que foi divulgada com muita pompa e circunstância, abordando a situação dos direitos humanos no Egito, e elas também criaram um comitê presidencial de anistia, para avaliar o caso de prisioneiros.</p>
<p style="text-align: justify;">A respeito da Estratégia Nacional de Direitos Humanos, tanto a Human Rights Watch quanto a Anistia Internacional, e quase todas as organizações locais de direitos humanos no Egito denunciaram isto como nada mais que um documento cosmético, que realmente não aborda nenhuma das violações de direitos humanos no Egito. O Egito acabou no ano passado com a Lei de Emergência, que durou quase toda a existência moderna do país. Porém, muito rapidamente depois disso, Sisi consagrou em lei muitos dos poderes extra-judiciais que a Lei de Emergência lhe outorgava. Nós temos visto muitos presos políticos de alto perfil e outros presos de perfil mais baixo serem libertados nos últimos meses por causa desse comitê presidencial de anistia. A maioria desses ativistas foram detidos na onda de prisões de 2019, e a maioria estava em prisão preventiva. Então, o Departamento de Estado dos EUA e pessoas no Congresso aplaudiram isso, mas ao mesmo tempo eles continuam prendendo dezenas de pessoas por atos menores que eles percebam como dissidência, alguns deles sequer isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-146669" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X.jpg" alt="" width="1800" height="1800" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X.jpg 1800w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X-1024x1024.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X-1536x1536.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/17egypt-activist-1-mediumSquareAt3X-681x681.jpg 681w" sizes="(max-width: 1800px) 100vw, 1800px" />Shireen Akram-Boshar:</strong> <em>[O site de notícias] Mada Masr, onde você trabalha, também foi participante ativo de toda a campanha de Alaa. Como a repressão de Sisi afetou o Mada, e qual a conexão com Alaa?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sharif Abdel Kouddous:</strong> Em relação ao Mada Masr, a repressão não aconteceu somente por conta da campanha por Alaa. O Mada cobre uma variedade de assuntos, e sofreu diferentes formas de repressão. O Mada foi um dos primeiros sites a serem bloqueados no Egito, está bloqueado desde maço de 2017. Desde então, mais de 600 sites de organização de direitos humanos e meios de comunicação foram bloqueados no país. Então, em novembro de 2019, depois de nós publicarmos um artigo sobre o filho de Sisi e seu envolvimento com serviços de inteligência, e algumas tensões com o regime, eles prenderam um de nossos editores na sua própria casa, essencialmente sequestraram ele, e no dia seguinte invadiram o nosso escritório, nos seguraram lá por muitas horas, e então detiveram o nosso chefe de redação, nossa chefe de redação e outro jornalista. Eles foram rapidamente libertados, após uma pressão massiva, tanto nacional quanto internacionalmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde então, Lina Atallah, chefe de redação, foi presa novamente quando ela tentou entrevistar a mãe de Alaa do lado de fora da cadeia de Tora. Ela passou a noite na prisão, mas conseguiu sair. E recentemente, depois de um artigo falando das tensões entre o principal partido no parlamento, que é um partido fantoche dos serviços de inteligência, eles apresentaram acusações contra três dos jornalistas, e conta Lina Atallah também. Eles não foram detidos, mas foram interrogados e liberados sob fiança.</p>
<p style="text-align: justify;">O Mada é um dos últimos veículos de mídia independentes funcionando no Egito, e funciona em um espaço muito, muito restrito. Provavelmente, o mais fechado desde o Egito de Gamal Abdel Nasser. Os serviços de inteligência, por meio da censura e da aquisição, tomaram o completo controle do restante da mídia. Os serviços de inteligência são, agora, o maior dono de veículos de comunicação do Egito. Eles compraram jornais e emissora de TV através de uma empresa de capital privado, e isso foi algo que o Mada expôs. Nós sempre atuamos em um espaço muito restrito. E nós não sabemos quando estas ondas repressivas irão acontecer.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Shireen Akram-Boshar:</strong> <em>Anteriormente você descreveu brevemente a instabilidade do regime. Você pode falar mais especificamente sobre a fraqueza política, econômica, ou militar, ou sobre lutas sociais causando tensões no regime neste momento? Há caminhos abertos por aí, ou razões para ter esperança de que o regime de Sisi caminha para o fim?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sharif Abdel Kouddous:</strong> O regime parece muito vulnerável agora e assustado por conta da situação econômica. A desigualdade econômica foi muito aprofundada através de uma série de medidas de austeridade e políticas econômicas neoliberais, muitas das quais foram contrapartidas do empréstimo do FMI em 2016. Esses 12 bilhões de dólares de empréstimo vieram com um pacote de reforma que envolveram as exigências usuais do FMI de aumento de impostos, cortes de subsídios e privatizações. Subsídios aos combustíveis e à eletricidade foram suspensos, as taxas aumentaram, a moeda perdeu mais da metade do seu valor. E ao mesmo tempo o governo gastou bilhões de libras nestes luxuosos megaprojetos como construir uma nova capital administrativa, construir cidades, construir milhares de quilômetros de pontes e estradas por todo o país. Muitas dessas novas cidades estão majoritariamente desabitadas, por que elas estão no meio do deserto e longe das redes de comércio local e de onde as pessoas cresceram. As pessoas não querem se mudar. Eles demoliram casas de bairros, e destruíram áreas inteiras para começar este novo projeto. Então, as pessoas estão muito irritadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente o Egito é o segundo maior devedor do FMI, atrás apenas da Argentina, e está negociando seriamente mais um empréstimo por conta da crise cambial. Ele tem tentado retirar o último subsídio, que é sobre o pão. A última vez que alguém tentou fazer isso foi Sadat em 1977, e isso causou três dias de revolta e quase derrubou seu governo, forçando-o a voltar com o subsídio. Temos de ver se essa vulnerabilidade se traduz em mais abertura política, porque eles precisam ganhar aliados e afastar as críticas muito silenciosas que vêm dos governos ocidentais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o Egito solidificou todas essas relações ao se tornar, também, o terceiro maior importador de armas do mundo. À frente do Egito na compra de armas estão apenas a Índia e a Arábia Saudita. Nós nos tornamos o maior comprador de armas da Alemanha, o maior comprador de armas da França e um dos maiores parceiros comerciais da Grã-Bretanha. Compramos algumas dezenas de caças Rafale da França, que ninguém quer. Compramos submarinos e satélites de comunicação e tudo mais. Então, isso realmente solidifica os relacionamentos porque, por falta de um termo melhor, estamos comprando a merda deles. E é lucrativo para governos estrangeiros, então eles olham para o outro lado. Angela Merkel, pouco antes de deixar o cargo, assinou um acordo de 5 bilhões de euros com o Egito para contratos de armas. Então esse é o outro lado da moeda, uma fonte da força do regime.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Shireen Akram-Boshar:</strong> <em>E muitos desses governos estão marchando para a direita de qualquer maneira.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sharif Abdel Kouddous:</strong> Sim. Eles falam sobre certas coisas e podem ser úteis, mas acho que todos nós temos de perceber onde está o relacionamento real. O Egito também recebe centenas de milhões de euros para vigiar suas fronteiras e impedir que os egípcios atravessem o Mediterrâneo e cheguem às costas da Europa, que é o grande medo dos políticos europeus. A migração do Egito, do mar e da costa do Egito parou em grande parte. Eles têm sido muito eficazes em pará-la. O que vimos são centenas, senão milhares de jovens atravessando a Líbia, que tem uma fronteira muito mais porosa, e tentando chegar à Europa de lá. A agência de migração da ONU, a Organização Internacional para Migração (OIM), disse recentemente que o segundo maior número de migrantes sem documentos que chegam à costa da Europa, depois dos afegãos, são egípcios. Isso aconteceu nos últimos dois anos. Portanto, estamos vendo esse êxodo massivo de homens, principalmente jovens, que não têm oportunidade econômica, enfrentam uma repressão política muito severa e não têm esperança. Eles estão apenas fugindo do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, você sabe onde o país está. Não é uma situação muito boa, mas acho que sempre há espaço para esperança. A primeira coisa em que todos trabalham é em tirar as pessoas da prisão. Isso em primeiro lugar. Mas não temos sequer o número exato de presos políticos. O número de 60.000 presos políticos foi estimado ao longo dos anos. O New York Times fez uma investigação muito louvável sobre a prisão preventiva, tentando também chegar a números.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-146670" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/221106181656-alaa-abd-el-fattah-110622-medium-plus-169.jpg" alt="" width="307" height="173" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/221106181656-alaa-abd-el-fattah-110622-medium-plus-169.jpg 307w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2022/11/221106181656-alaa-abd-el-fattah-110622-medium-plus-169-300x169.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 307px) 100vw, 307px" />Shireen Akram-Boshar:</strong> <em>Você poderia dizer mais sobre o livro de Alaa, </em>You Have Not Yet Been Defeated<em>, e o significado do título do livro? O que Alaa pode nos ensinar sobre a revolução e o processo revolucionário?</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sharif Abdel Kouddous:</strong> Acho que o livro é um texto importante para um público que lê inglês, por vários motivos. Em primeiro lugar, Alaa é um pensador muito versátil e aborda muitas ideias e questões políticas diferentes. Seu livro entra no cânone da literatura prisional de uma forma muito real. Ele lida com a vida na prisão, seus efeitos no corpo e na psique, bem como ideias sobre cura e regeneração.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas ele é um tecnólogo em primeiro lugar e, de alguma forma, de sua cela na prisão, ele meio que previu o mundo em que vivemos agora ou o que aconteceu durante a pandemia, onde tudo está a um clique de distância e um trabalhador traz algo à sua porta e desaparece e estamos todos presos na frente de nossas telas e o que significa esse tipo de capitalismo. Depois de sair de sua primeira passagem de cinco anos na prisão, ele ficou chocado com a forma como nos comunicamos, como escrevemos uns aos outros em emojis e abreviações em vez de um discurso completo. Embora ele seja um tecnólogo e muito experiente em tecnologia, é claro, tudo isso foi um choque para ele. Acho que é uma mudança com a qual todos estamos acostumados porque aconteceu devagar. Mas, para ele que não teve acesso a um telefone celular por cinco anos, saiu dizendo que isso é problemático, que não estamos nos falando, e que não há mais espaço para um discurso adequado.</p>
<p style="text-align: justify;">A mensagem central do livro, no entanto, diz respeito ao título. Em “você ainda não foi derrotado”, o “você” é o leitor, o leitor de língua inglesa no exterior. Alaa foi uma das poucas pessoas a enfrentar a derrota da Revolução Egípcia de uma forma muito honesta e real. A maioria dos ativistas envolvidos ou está traumatizada e não quer enfrentar, não quer discutir, ou afirma que a revolução não foi derrotada e que estamos apenas em alguma fase difícil e assim por diante. Mas Alaa o confronta com muita coragem e diz: “fomos derrotados, vamos examinar por que fomos derrotados, quais foram nossos erros, o que podemos aprender com essa derrota e como podemos seguir em frente”. E acho que a mensagem para um público ocidental maior, de língua inglesa, é: “você ainda não foi derrotado e, portanto, essas são algumas das lições que você pode aprender conosco, antes que sua derrota chegue”. Na verdade, uma de suas mensagens é que a maneira de ajudar o Egito é consertar sua própria democracia. Como o Egito depende de suas relações com as potências ocidentais, se as pessoas nesses países tornassem seus governos genuinamente democráticos, essas relações seriam, forçosamente, totalmente diferentes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[*]</strong> <a class="urlextern" title="https://spectrejournal.com/author/shireen/" href="https://spectrejournal.com/author/shireen/" rel="ugc nofollow">Shireen Akram-Boshar</a> é uma ativista e escritora socialista que mora em Boston e faz parte do conselho editorial do <em>Spectre</em>.</p>
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		<title>16 SETEMBRO 2014 (Egito) Greve de fome em Solidariedade aos Corajosos</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Sep 2014 02:54:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Egito]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[A campanha Liberdade aos Corajosos convoca as pessoas de todo o mundo a se unirem em solidariedade àqueles que estão em greve de fome dentro das prisões egípcias. Esses presos estão enfrentando grave injustiça e vêm sofrendo tratamento cruel por terem pacificamente expressado suas opiniões. Alguns prisioneiros foram condenados à prisão perpétua e outros estão [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span id="more-99625"></span></p>
<p style="text-align: justify;">A campanha <a href="https://www.facebook.com/events/1509530762623847/?ref=notif&amp;source=1&amp;notif_t=plan_user_joined">Liberdade aos Corajosos</a> convoca as pessoas de todo o mundo a se unirem em solidariedade àqueles que estão em greve de fome dentro das prisões egípcias. Esses presos estão enfrentando grave injustiça e vêm sofrendo tratamento cruel por terem pacificamente expressado suas opiniões. Alguns prisioneiros foram condenados à prisão perpétua e outros estão em detenção provisória há mais de um ano por conta de uma lei que proíbe a organização de protestos não-regulamentados.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas últimas semanas vários ativistas e cidadãos egípcios de diferentes cidades entraram em greve de fome em solidariedade aos presos, reivindicando o cancelamento da detenção provisória, o fim da lei do protesto, a melhoria das condições das prisões, novos julgamentos e a libertação dos presos políticos.</p>
<p style="text-align: justify;">Liberdade aos Corajosos está convocando todos os defensores e partidários da liberdade de expressão, dos direitos humanos, da democracia e da liberdade em geral a apoiarem e se solidarizarem com a nossa greve de fome.</p>
<p style="text-align: justify;">Pedimos que vocês entrem em greve de fome por apenas um ou dois dias. Escrevam nas redes sociais sobre a sua greve de fome em solidariedade aos prisioneiros egípcios contra as condições desumanas e injustas que enfrentam. Você pode simplesmente escrever: “Eu (escreva seu nome e nacionalidade) estou entrando em greve de fome em solidariedade às reivindicações dos presos e detidos egípcios que estão em greve de fome”.</p>
<p style="text-align: justify;">Por favor use a hashtag: #<a title="playground:egyhungerstrike" href="http://wiki.passapalavra.info/doku.php?id=playground:egyhungerstrike" rel="nofollow">EgyHungerStrike</a> nos dias 21 e 22 de Setembro de 2014.</p>
<p style="text-align: justify;">Para saber mais sobre ativistas e presos egípcios em greve de fome dentro e fora das prisões, vejam:</p>
<p style="text-align: justify;"><a title="https://docs.google.com/spreadsheets/d/11xn5MWgDZfYP0Bq-qAi9SlLOxfcKvjAWiXW134WVOEA/edit?pli=1#gid=53614631" href="https://docs.google.com/spreadsheets/d/11xn5MWgDZfYP0Bq-qAi9SlLOxfcKvjAWiXW134WVOEA/edit?pli=1#gid=53614631" rel="nofollow">https://docs.google.com/spreadsheets/d/11xn5MWgDZfYP0Bq-qAi9SlLOxfcKvjAWiXW134WVOEA/edit?pli=1#gid=53614631</a> <a title="https://www.facebook.com/334400540070211/photos/pb.334400540070211.-2207520000.1410374169./350556558454609/?type=3&amp;theater" href="https://www.facebook.com/334400540070211/photos/pb.334400540070211.-2207520000.1410374169./350556558454609/?type=3&amp;theater" rel="nofollow">https://www.facebook.com/334400540070211/photos/pb.334400540070211.-2207520000.1410374169./350556558454609/?type=3&amp;theater</a> <a title="https://www.facebook.com/334400540070211/photos/pb.334400540070211.-2207520000.1410374169./350556535121278/?type=3&amp;theater" href="https://www.facebook.com/334400540070211/photos/pb.334400540070211.-2207520000.1410374169./350556535121278/?type=3&amp;theater" rel="nofollow">https://www.facebook.com/334400540070211/photos/pb.334400540070211.-2207520000.1410374169./350556535121278/?type=3&amp;theater</a> <a title="https://www.facebook.com/334400540070211/photos/pb.334400540070211.-2207520000.1410374169./350556491787949/?type=3&amp;theater" href="https://www.facebook.com/334400540070211/photos/pb.334400540070211.-2207520000.1410374169./350556491787949/?type=3&amp;theater" rel="nofollow">https://www.facebook.com/334400540070211/photos/pb.334400540070211.-2207520000.1410374169./350556491787949/?type=3&amp;theater</a> <a title="https://www.facebook.com/334400540070211/photos/pb.334400540070211.-2207520000.1410374169./350556461787952/?type=3&amp;theater" href="https://www.facebook.com/334400540070211/photos/pb.334400540070211.-2207520000.1410374169./350556461787952/?type=3&amp;theater" rel="nofollow">https://www.facebook.com/334400540070211/photos/pb.334400540070211.-2207520000.1410374169./350556461787952/?type=3&amp;theater</a></p>
<p style="text-align: justify;">Para ler sobre alguns desses prisioneiros e detidos e suas histórias vejam os seguintes links:</p>
<p>Mohamed Soltan <a title="https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/569807926464404/?type=1&amp;theater" href="https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/569807926464404/?type=1&amp;theater" rel="nofollow">https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/569807926464404/?type=1&amp;theater</a></p>
<p>Ibrahim El-yamany, MD <a title="https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/569899986455198/?type=1" href="https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/569899986455198/?type=1" rel="nofollow">https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/569899986455198/?type=1</a></p>
<p>Hend and <a title="playground:rashamounir" href="http://wiki.passapalavra.info/doku.php?id=playground:rashamounir" rel="nofollow">RashaMounir</a> <a title="https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/569923809786149/?type=1" href="https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/569923809786149/?type=1" rel="nofollow">https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/569923809786149/?type=1</a></p>
<p>Sanaa Seif <a title="https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/569922689786261/?type=1" href="https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/569922689786261/?type=1" rel="nofollow">https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/569922689786261/?type=1</a></p>
<p>Ahmed Douma <a title="https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/569925313119332/?type=1" href="https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/569925313119332/?type=1" rel="nofollow">https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/569925313119332/?type=1</a></p>
<p>Ahmed Gamal Ziadah <a title="https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/570357016409495/?type=1" href="https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/570357016409495/?type=1" rel="nofollow">https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/570357016409495/?type=1</a></p>
<p>Mohamed Ahmed Youssef ( Miza) <a title="https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/570356893076174/?type=1" href="https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/570356893076174/?type=1" rel="nofollow">https://www.facebook.com/Al7oriallgd3an/photos/a.110216819090186.15443.110174469094421/570356893076174/?type=1</a></p>
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		<title>Egito: réquiem para uma revolução que nunca existiu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Aug 2013 13:48:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Egito]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Revoluções]]></category>
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					<description><![CDATA[Não ocorreu qualquer processo revolucionário no Egito, no sentido de uma transferência do poder concentrado nas classes dominantes da sociedade egípcia.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"> <strong>Por Ajamu Baraka</strong></h3>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em>“Por vezes, as pessoas detêm uma crença basilar muito forte. Perante provas que colocam em causa esse princípio, essas novas provas não podem ser aceites. Tal criaria um sentimento extremamente desconfortável, designado de dissonância cognitiva. E, uma vez que a proteção desse princípio assume uma enorme relevância, eles irão racionalizar, ignorar e até negar qualquer coisa que não caiba nessa crença”. Frantz Fanon, “Os condenados da Terra”</em></p>
<p style="text-align: justify;">À medida que as forças armadas egípcias consolidam o seu golpe de estado contra os dirigentes e a estrutura política da Irmandade Muçulmana, torna-se evidente o quão o argumento inicial a legitimar a intervenção militar, racionalizando-a como a solução necessária a um «processo revolucionário», perdeu toda a credibilidade. Porém, muitos liberais e radicais parecem partilhar uma leitura fantasiosa dos acontecimentos no Egito, a qual não só legitima o golpe militar, como define o pequeno e mesquinho grupo de capitalistas de estado à cabeça das forças armadas como sendo parte do povo e do processo revolucionário.</p>
<p style="text-align: justify;">De intelectuais burgueses, como <a title="http://edition.cnn.com/2013/07/04/opinion/coleman-muslim-brotherhood" href="http://edition.cnn.com/2013/07/04/opinion/coleman-muslim-brotherhood">Isabel Coleman</a>, a respeitáveis marxistas como Samir Amin, o qual insinuou uma <a title="http://www.pambazuka.org/en/category/features/88189" href="http://www.pambazuka.org/en/category/features/88189">neutralidade de classe por parte das forças armadas</a> egípcias, a resposta emocional à imagem de centenas de milhares de pessoas nas ruas pareceu ter criado um estado de insanidade temporária ou, como refere Frantz Fanon, uma dissonância cognitiva. Esta é a única explicação para a acrobacia teórica e retórica que muitos utilizam na reconciliação das crenças nos direitos democráticos e na transformação revolucionária com os acontecimentos que, nos dias de hoje, se atravessam sob os seus olhares.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Uma revolução apenas de nome</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O uso e a aceitação popular do termo revolução na descrição dos acontecimentos ocorridos ao longo dos últimos dois anos demonstram a eficácia do discurso global liberal, em conluio com alguns radicais, no processo de «desradicalização», até do termo revolução.</p>
<p style="text-align: justify;">Evitando o romantismo associado à revolução e ao sentimentalismo provocado pelas imagens das «massas em movimento», devemos concluir que entre fevereiro de 2011, altura do derrube de Mubarak, e 3 de Julho de 2012, data do regresso dos militares ao poder, não ocorreu qualquer processo revolucionário, uma vez que não se verificou qualquer transferência do poder concentrado nas classes dominantes da sociedade egípcia. Não se constatou qualquer reestruturação do Estado, quaisquer novas instituições e estruturas democráticas criadas com o objetivo de representar a vontade e os interesses dos novos blocos sociais progressivos (os estudantes, trabalhadores, agricultores, as organizações femininas, etc), qualquer transformação social profunda. Na verdade, as violações e os ataques sexuais ocorridos durante as recentes mobilizações não deixaram de transparecer o domínio efetivo do ideário sexista e patriarcal, intangível pelo suposto processo revolucionário.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-149771" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/08/egito1-300x185-1.jpeg" alt="" width="300" height="185" />A revolução é um processo no qual as estruturas de poder são criadas por uma ampla massa de pessoas, as quais se permitem, eventualmente, transformar o mais ínfimo aspecto da sociedade – da estrutura e do papel do estado e da organização económica às relações interpessoais – com vista à eliminação de todas as formas de opressão. Não é que não tenham ocorrido alguns importantes avanços organizacionais, efetuados por alguns elementos do movimento operário no Egito (inclusive a criação de sindicatos independentes). No entanto, o imperativo organizacional para a mudança revolucionária – a construção de estruturas populares necessárias à sustentação da luta de massas e à representação do poder dual – não foi tão forte quanto teria que ser.</p>
<p style="text-align: justify;">No início de 2011, o Egito assistiu a uma rebelião em massa contra uma ditadura e a favor de uma mudança social, que galvanizou classes e forças sociais dispares: liberais seculares ocidentais, ativistas pelos direitos sindicais, estudantes radicalizados, ativistas pelos direitos das mulheres e fundamentalistas islâmicos – todos num bloco social de oposição. A reivindicação inicial foi a do fim da ditadura de Mubarak e a criação de um sistema democrático que respeitasse os direitos democráticos – a componente essencial de um autêntico processo revolucionário democrático e nacional. Contudo, a maturação deste processo foi impedida por três fatores: (i) a tomada do poder pelo Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA) a 11 de fevereiro; (ii) a primordial canalização da dissidência em massa para o processo eleitoral; e (iii) a incapacidade de organização de estruturas de massas sustentáveis, essenciais à salvaguarda e consolidação da situação revolucionária, por parte das forças de oposição.</p>
<p style="text-align: justify;">A preocupação com a análise do cariz das lutas de massas no Egito e na Tunísia, rotuladas de «Primavera Árabe», não é motivada pelo desejo de uma espécie de categorização pura, que abstrai fenómenos sociais complexos dos seus contextos históricos. Ao invés, a preocupação reside na necessidade de uma distinção em termos quer políticos, quer programáticos, dos desafios políticos específicos e das tarefas a empreender entre uma fase insurrecional da luta e uma fase pré-revolucionária ou mesmo revolucionária.</p>
<p style="text-align: justify;">Tal assume uma enorme importância perante a apropriação do termo «revolução» na descrição de todo e qualquer evento, dos acontecimentos na Líbia e na Síria ao Movimento Verde no Irão. Tal adequação não só distorce a realidade social, como também dinamiza uma narrativa perigosa. Esta sugere que a mudança revolucionária surge como o resultado de um espetáculo, desvalorizando-se a organização e a construção de estruturas desde baixo. O importante é o teatro, o show episódico, a exibição que refuta o aviso de Gil Scott Heron: «A revolução não será televisionada!».</p>
<p style="text-align: justify;">A lógica perversa desta aproximação reflete-se tanto na incapacidade de auto-organização da oposição, para lá das mobilizações espontâneas de 2011, como na crença por parte da oposição a Morsi, a Tamarod (incentivada por sinais dados pelos seus patronos norte-americanos), de que as manifestações de rua contra o Presidente Morsi conduziriam ao apoio norte-americano à intervenção militar.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O ataque preventivo dos militares contra a revolução</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">De forma a obter-se uma visão mais clara da atual situação no Egito, há que desmascarar os disparates a-históricos e sem sentido que identificam nos militares um imponente mediador neutral de forças sociais e políticas em conflito. Na sua entrada em cena em Janeiro de 2011 e, mais uma vez, em 2 de Julho, assume-se como uma força patriótica, alinhada com os interesses do «povo».</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-149770" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/08/egito2-300x205-1.jpg" alt="" width="300" height="205" />Na realidade, aquilo a que assistimos foi a uma transferência lateral de poder, em termos de classe, das forças civis presentes no governo de Mubarak, representantes de interesses capitalistas ligados ao estado, para os militares, com interesses económicos um tanto ou quanto semelhantes (com as suas empresas e com os seus reformados a encher as empresas ligadas ao setor público). Durante a presidência de Morsi, os militares nunca se retiraram de cena, mantendo o seu espaço no Estado e na economia egípcia. <a title="http://www.globalresearch.ca/americas-plan-b-in-egypt-bring-back-the-old-regime/5341826" href="http://www.globalresearch.ca/americas-plan-b-in-egypt-bring-back-the-old-regime/5341826">Posições governativas importantes</a>, como o de ministro do interior e da defesa ou a Autoridade do Canal de Suez, foram concedidas a indivíduos associados ao regime de Mubarak, aliados dos militares. O Supremo Tribunal Constitucional, povoado por nomeados da era Mubarak, foi o principal instrumento usado pelos militares na limitação e controlo dos esforços na restruturação do Estado ou na expansão do poder de Morsi.</p>
<p style="text-align: justify;">Os Estados Unidos nunca encararam a Irmandade Muçulmana e o governo Morsi como uma alternativa a Hosni Mubarak. Apesar da repressão dispensada aos membros da Irmandade Muçulmana, estes eram reconhecidos como parte da elite económica egípcia, aberta à possibilidade de negócios com o Ocidente. Por conseguinte, Morsi era encarado como a substituição segura e aceitável de Mubarak, enquanto os Estados Unidos perpetuavam a sua influência nos bastidores através dos militares.</p>
<p style="text-align: justify;">Tanto o governo norte-americano como as Forças Armadas egípcias partilhavam interesses objetivos ao garantirem a manutenção do poder de Morsi numa base mais simbólica do que real. Os militares, juntamente com o Tribunal Constitucional e a burocracia estatal, asseguraram o controlo meramente nominal do estado por parte da presidência e da Irmandade Muçulmana. Morsi não controlava as secretas, o aparelho de segurança, a polícia, o corpo diplomático ou a burocracia, ainda composta por remanescentes do regime anterior.</p>
<p style="text-align: justify;">De facto, uma das maiores fontes de tensão entre os militares e a Irmandade Muçulmana era a ameaça – e jogadas reais – da parte do governo de Morsi do uso dos seus poderes nominais na limitação da atividade económica exercida pelos militares (cerca de 15 a 40% da economia nacional) a favor dos interesses da Irmandade Muçulmana, a qual por sua vez representa alguns setores competitivos da classe capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos modos de se encarar o ataque à Irmandade Muçulmana é analisá-lo, nada mais, nada menos, como a solução militarizada para um conflito interno à classe burguesa no contexto da sociedade egípcia, ou seja, pouco relacionada com os interesses da fragmentada e institucionalmente débil oposição.</p>
<p style="text-align: justify;">Como tal, a ideia que os militares, essa força neutral, se aliaram ao «povo» e apenas entraram em cena para resolver a crise política não é nada mais que uma fantasia pequeno-burguesa.</p>
<p style="text-align: justify;">Os interesses socioeconómicos de classe dos militares colocam-nos na oposição a qualquer transformação fundamental da economia e da sociedade egípcias, o objetivo ostensivo da «revolução». Tal significa, de forma expressiva, que o poder dos militares será quebrado perante a perspectiva de mudança revolucionária no país.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Uma revolução democrática nacional: um passo em frente, três passos atrás</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Esta análise não deve, contudo, ser interpretada como sugerindo que as pessoas se limitaram a constituir o papel de figurante num teatro encenado por poderes sob os quais não detinham qualquer controlo. A rebelião em massa originou a crise de governação da elite corrupta no poder e do seu patrono norte-americano. A exigência do fim da ditadura correspondeu a uma extraordinária demonstração de poder popular e, com ela, de potencialidade revolucionária. O problema residiu na incapacidade das forças populares alternativas no desenvolvimento e aquisição da experiência política e das fundações institucionais, um legado da ditadura. Tal colocá-las-ia numa posição de vantagem, permitindo-lhes esforços mais eficazes na luta por mudanças progressistas e na limitação do poder dos militares. Infelizmente, a força que possuía a maior experiência no desenvolvimento da organização e na oposição política era a Irmandade Muçulmana.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-149769" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/08/egito3-300x168-1.jpg" alt="" width="300" height="168" />O apelo à demissão de Morsi constituiu uma reivindicação legítima, exprimindo a posição de parte da população, insatisfeita com as políticas e a administração do Egito. Porém, quando os militares ameaçaram entrar em cena – um setor que não demonstrou qualquer propensão de apoio a reformas democráticas – a posição geral deveria ter sido a de «recusa da intervenção militar, mudança apenas por meios democráticos», uma posição que um movimento mais maduro e realmente independente poderia ter assumido, caso não estivesse sob <a title="http://www.globalresearch.ca/us-bankrolled-anti-morsi-activists-us-money-trail-to-egyptian-groups-that-pressed-for-presidents-removal/5342377" href="http://www.globalresearch.ca/us-bankrolled-anti-morsi-activists-us-money-trail-to-egyptian-groups-that-pressed-for-presidents-removal/5342377">manipulação de poderosas elites internas e externas</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Só o otimismo explica a crença das psicóticas forças liberais e radicais do Egito e dos seus aliados de fora na possibilidade de desenvolvimento de um processo democrático que refletisse os interesses de largas camadas da sociedade egípcia, ao mesmo tempo que se retiravam os direitos Irmandade Muçulmana, uma força social que muitos, de forma conservadora, admitem contar com o apoio de um terço da população, e que constitui a maior organização política do Egito. Os liberais e alguns dos radicais que apoiaram o golpe não compreenderam que a construção de um «povo» resulta de um processo histórico e social que requer luta e empenho. A incompreensão deste princípio básico provocou a morte da revolução democrática nacional, ainda em gestação.</p>
<p style="text-align: justify;">As poderosas elites nacionais que financiaram a campanha contra Morsi e os seus aliados, grupo no qual se inclui a Arábia Saudita e os Estados Unidos, conseguiram avançar com o processo contrarrevolucionário que irá fragmentar a oposição e marginalizar quaisquer elementos radicais. A elite egípcia compreendeu de forma mais clara que a Tamarod ou a Frente de Salvação Nacional que um processo revolucionário implicaria o desenvolvimento de um programa político destinado à subordinação dos militares ao povo, à apropriação pública do setor capitalista estatal e à rejeição do desenvolvimento capitalista neoliberal. Tal reconhecimento levou-os a agir com extrema precisão na proteção dos seus interesses ao longo do último ano e meio.</p>
<p style="text-align: justify;">Infelizmente, a coligação de liberais e radicais com as forças antidemocráticas da elite militar e económica veio conceder legitimidade às mesmas forças retrógradas que dominaram a sociedade egípcia sob Mubarak para perpetuar esse domínio: desta vez, em nome da «revolução».</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Ajamu Baraka</strong> é um ativista de direitos humanos e um veterano do Movimento para a Libertação Negra. Atualmente, é investigador do Institute for Policy Studies.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Original (em inglês) deste artigo <a title="http://www.pambazuka.org/en/category/features/88470" href="http://www.pambazuka.org/en/category/features/88470" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>. Tradução do Passa Palavra.</em></p>
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		<title>A revolução egípcia está morta?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Jul 2013 19:49:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
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					<description><![CDATA[A resposta curta é "não". Uma resposta comprida vem a seguir. O que aconteceu no Egito entre 30 de junho e 3 de julho não foi um golpe contra um governo eleito. ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3><strong>Por Philip Rizk</strong></h3>
<p>Autor: Philip Rizk (<a href="http://www.jadaliyya.com/pages/index/12895/is-the-egyptian-revolution-dead" target="_blank" rel="noopener">Veja o original</a>)<br />
Tradução: Sara Santedicola</p>
<p style="text-align: justify;">A resposta curta é &#8220;não&#8221;. Uma resposta comprida vem a seguir. O que aconteceu no Egito entre 30 de junho e 3 de julho não foi um golpe contra um governo eleito. Foi outra tentativa por parte dos generais para cooptar a Revolução de 25 de janeiro do Egito. A complexidade da situação e sua natureza global e ideologicamente carregada faz com que seja difícil ter uma perspectiva abrangente, e esta é a minha visão sobre porquê a revolução está longe de acabar.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-149525" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/07/7h_50931601.jpg" alt="" width="400" height="233" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/07/7h_50931601.jpg 400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/07/7h_50931601-300x175.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">No espaço de poucos dias, Mohamed Morsi deixou de ser um governante que implementou leis e alienou a oposição de maneira a monopolizar o poder, e passou a ser um governante sem nenhum poder porque o povo foi às ruas. Dizer que a Irmandade Muçulmana cometeu erros no último ano é pôr panos quentes. Eles não apenas replicaram o regime de Hosni Mubarak que nós expulsamos do poder. Eles levaram as coisas mais adiante. Eles permitiram que a polícia mantivesse o uso da violência contra cidadãos comuns e revolucionários, prendendo-nos, mutilando-nos, torturando-nos e matando-nos. Em <a href="http://mideast.foreignpolicy.com/posts/2012/08/15/monopolizing_power_in_egypt" target="_blank" rel="noopener">resposta aos protestos contra a monopolização de poder da Irmandade</a>, tanto seus <a href="http://www.youtube.com/watch?v=wqEHxHaUXpA" target="_blank" rel="noopener">membros</a> quanto as forças de segurança para as quais eles fizeram vistas grossas <a href="http://www.egyptindependent.com/news/al-masry-al-youm-goes-inside-brotherhood-s-torture-chambers" target="_blank" rel="noopener">reagiram com incrível brutalidade</a>. Tudo isto aconteceu sem nenhuma responsabilização legal dos membros da polícia ou do exército. O promotor geral da Irmandade se recusou a reabrir o caso contra a polícia que matou ou foi cúmplice na matança de protestantes durante a revolução apesar de ter prometido fazer isso em nome da revolução. A brutalidade policial nem uma vez diminuiu sob o governo da Irmandade. Ao invés disso, a polícia manteve sua impunidade para infligir destruição em uma sociedade ainda em momentum revolucionário.</p>
<p style="text-align: justify;">No fronte econômico, a Irmandade ganhou popularidade durante a era Mubarak, ao prover educação gratuita e distribuir esmolas em vizinhanças pobres. Estes tipos de atividade ajudaram a solidificar a base de suporte deles em uma área com preços em ascensão e oportunidades decrescendo para a obtenção de padrões de vida decentes. Entretanto, uma vez no poder, o comprometimento deles com a caridade não se traduziu em políticas que beneficiariam os pobres em longo termo. Pelo contrário, os Irmãos aprofundaram a neoliberalização da era Mubarak. A fim de satisfazer as condições das infinitas negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI), eles já haviam começado a remover subsídios de bens básicos de consumo como combustível. Eles também anunciaram aumentos de impostos sobre bens básicos de consumo, os quais eles rescindiram devido à oposição nas ruas.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante o período que passou no poder, a Irmandade tomou incontáveis empréstimos tanto de governos quanto de bancos regionais. Eles fizeram isso na ausência de um Parlamento. Eles fizeram isso sem publicizar as condições que os egípcios terão que suportar nos anos que virão. Uma dessas condições estava ligada a um empréstimo pendente junto ao FMI que exigia a desvalorização regimental da libra egípcia, fadada a causar um aumento insuportável nos preços da comida no Egito, a qual em grande parte é importada e adquirida em moeda estrangeira. O governo da Irmandade também manteve a oposição da era Mubarak à sindicalização independente dos trabalhadores, ao permitir que a elite dos negócios despedisse membros de sindicato sem consequências. Eles não tentaram identificar ou recuperar patrimônios roubados de Mubarak e seus coleguinhas. Ao invés disso, eles tentaram <a href="http://www.bloomberg.com/news/2013-02-13/egypt-islamist-elite-woos-mubarak-tycoons-as-mursi-seeks-funds.html" target="_blank" rel="noopener">processos de reconciliação com membros de antigos regimes</a> citando a necessidade de impulsionar a economia do Egito.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-149527" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/07/anti-morsy_protesters-300x203-2.jpg" alt="" width="300" height="203" /></p>
<p style="text-align: justify;">A principal chamada da revolução era &#8220;pão, liberadade e justiça social&#8221;. Em termos de responsabilização judicial, violência policial e redistribuição financeira, a Irmandade Muçulmana não apenas falhou. Eles levaram o Egito à beira do abismo, onde as condições era ainda piores do que quando estavam sob o reinado de Mubarak. E tudo isto eles fizeram com completa arrogância, alienando toda a paisagem dos movimentos e partidos políticos no processo.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta realidade levou as pessoas de volta às ruas.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta realidade descredita aquela coisa chamada democracia.</p>
<p style="text-align: justify;">No contexto do regime autoritário da Irmandade, o qual os parceiros comerciais ocidentais apoiavam com seus próprios interesses políticos e econômicos em mente, as necessidades diárias do povo não são uma prioridade no processo político de tomada de decisão. Isto significa que aqueles que chegam ao poder no Egito por meio do processo eleitoral devem receber primeiro a aprovação das elites locais como os <a href="http://english.al-akhbar.com/node/15194" target="_blank" rel="noopener">generais militares e seus apoiadores estrangeiros</a>. Então, um processo eleitoral cheio de falhas permite a emergência deles ao poder. É simples assim. No Egito nós nunca tivemos eleições &#8220;justas&#8221; e nunca teremos enquanto esta constelação de poder persistir.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta <a href="http://www.jadaliyya.com/pages/index/11073/the-necessity-of-revolutionary-violence-in-egypt" target="_blank" rel="noopener">realidade neo-colonial</a> torna a própria ideia de democracia redundante.</p>
<p style="text-align: justify;">O povo foi às ruas expressar a sua rejeição a tudo isto. Mas há um lado mais feio desta mobilização de massa. A raiva crescente nas ruas contra a Irmandade Muçulmana fez com que os seus parceiros locais &#8211; os generais &#8211; recuassem das suas relações de compartilhamento de poder e fizessem pressão pela expulsão da Irmandade. Entra o exército egípcio. Nos dias que levaram ao 30 de junho, as estações de televisão liberais espalharam quantidades colossais de propaganda anti-Irmandade. Ao passo que muitas das informações eram verdadeiras, a sincronia e o envio de mensagens diretas revelaram que se tratava de parte de uma campanha maior contra o governo da Irmandade. Junto a isto ocorreu uma falta de combustível que a polícia secreta e militar acentuaram. Ao fazer isto, eles permitiram que a campanha de Tamarod ganhasse um suporte que ela não teria de outra maneira, se as mesmas forças de estado houvessem intervindo a fim de impedi-los como eles sempre fazem uma vez que o poder estatal é ameaçado. Em uma declaração anterior a 30 de junho, a liderança do Tamarod convenceu protestantes a unificar a rebelião deles contra um alvo: a Irmandade Muçulmana. Todas as outras batalhas deveriam ser deixadas para uma fase posterior. Esta lógica de &#8220;o inimigo do meu inimigo é meu amigo&#8221; significou que, apesar do papel deles na supressão da revolução, os militares e de maneira ainda mais alarmante a polícia foram celebrados em palco público na última semana como heróis absolutos deste momento revolucionário.</p>
<p style="text-align: justify;">A esta altura, precisamos avaliar o papel dos militares.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-149524" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/07/bilde.jpg" alt="" width="400" height="252" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/07/bilde.jpg 400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/07/bilde-300x189.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O exército, que agora desfila por nossas ruas como heroico, é controlado pelos mesmos generais que ordenaram que nossos protestantes fossem esmagados durante <a href="http://www.youtube.com/watch?v=g7QFE0AXvys" target="_blank" rel="noopener">um protesto no edifício Maspero</a>. Eles são os mesmos generais que fizeram vista grossa ao assassinato de setenta e dois fãs de futebol porque eles participaram na revolução. Eles são os mesmos generais que conduziram <a href="http://en.nomiltrials.com" target="_blank" rel="noopener">tribunais militares</a> contra mais de doze mil civis egípcios a fim de reinstalar o medo. Eles são os mesmos generais que tomaram gananciosamente uma grande parte da nossa economia <a href="http://www.jadaliyya.com/pages/index/3732" target="_blank" rel="noopener">para os seus próprios interesses</a>. Eles são os mesmos generais que ordenaram os ataques aos nossos protestos que mataram Mina Danial, Emad Effat, Alaa Abd El Hady e centenas mais, além de ferir, torturar e prender dezenas de milhares. Eles são os mesmos generais que <a href="http://www.jadaliyya.com/pages/index/10188/the-maspero-massacre_adding-injustice-to-insult-an" target="_blank" rel="noopener">incitaram o sectarismo</a>, e conduziram testes de virgindade a fim de dividir a sociedade e esmagar qualquer forma de protesto público.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesta atmosfera política polarizada, os egípcios esquecem o passado rápido demais. Nós sofremos de <a href="http://www.madamasr.com/content/selective-memories" target="_blank" rel="noopener">amnésia coletiva</a> a fim de suprimir nossos medos e pôr nossa fé na fada madrinha das promessas de mudança. O discurso da democracia e a ilusão de uma vida melhor, mais livre e mais rica são as fantasias que tentam muitos egípcios a colocar uma fé cega naqueles que dizem que trarão isto para nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos dar uma olhada no papel dos generais nos principais momentos da revolução de 25 de janeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">28 de janeiro de 2011: Embora os protestos estivessem crescendo, o dia 28 de janeiro, sexta-feira, o Dia da Raiva, pegou todo mundo de surpresa. Entretanto, a constelação neo-colonial dos generais militares e seus apoiadores internacionais, que tinham sido parceiros vitalícios de Mubarak, jogaram com esperteza. Eles removeram Mubarak do poder duas semanas depois, alegando estar realizando demandas da revolução. A maioria do povo egípcio celebrou-os como heróis; eles viram os fracassos da era Mubarak como concentrados em um homem ao invés de no sistema que ele simbolizava. Seguindo um período de governo direto, a junta militar entregou a maior parte do poder a um governo &#8220;civil, democraticamente eleito&#8221; após acordar os termos da soberania dividida. Eles decididamente se removeram da responsabilidade direta por quaisquer falhas do governo, ao mesmo tempo mantendo o pedaço deles na torta da economia. O seu vasto império econômico não podia ser ameaçado.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-149523" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/07/21-year-old-american-killed-during-violent-clashes-in-egypt-300x203-1.jpg" alt="" width="300" height="203" />3 de julho de 2013: Os militares repetem uma tática similar àquela adotada após a expulsão de Mubarak. Dessa vez eles estavam mais preparados. Eles alegaram implementar a vontade do povo. Eles ficaram com todos os créditos por uma &#8220;Revolução de 30 de junho&#8221;. Estes foram passos para conter a ira da revolução: o verdadeiro golpe é a não deposição de Morsi e outros oficiais eleitos. É a tentativa de abolir uma mobilização revolucionária de massa. A nossa revolução derrubou Morsi, mas o golpe do exército quer receber o crédito pela sua expulsão e consequente absorção do poder do povo que fez com que isso acontecesse. Dessa vez foi diferente, dessa vez os generais viram que o navio estava afundando e quiseram sair. A governança da Irmandade não apenas falhou miseravelmente, eles também começaram a acreditar que podiam impor a sua autoridade ao Ministério do Interior e até mesmo às patentes militares. Estes passos ameaçaram diminuir o pedaço que os generais tinham da torta do poder. No dia 3 de julho, os líderes militares foram bem sucedidos em se livrar de uma parceria que tinha dado errado e ao mesmo tempo receberam louvores sem precedentes da população como um todo. Para os seus apoiadores internacionais o jogo não tem sido tão fácil. As nações do primeiro mundo, especialmente os americanos que se consideram os guardiões da democracia legítima, fizeram tudo que podiam para defender a legitimidade da manutenção do poder pela Irmandade Muçulmana. O que está em risco é o que eles consideram ser um discurso atemporal: democracia. Este discurso facilita o papel das nações da hegemonia global pela qual eles podem alternadamente condenar, suprimir e financiar líderes do terceiro mundo. A democracia é a chave de ouro para brincar de juiz global do bem e do mal.</p>
<p style="text-align: justify;">Para resumir, vamos dar um passo atrás.</p>
<p style="text-align: justify;">Não existe nada parecido com uma democracia dentro de um contexto neo-colonial. Este é o caso do Egito.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, a lógica de um golpe contra o governo se desmonta completamente sem a possibilidade de uma ordem democrática.</p>
<p style="text-align: justify;">O poder de milhões de egípcios indo às ruas no dia 30 de junho estilhaça a ilusão da necessidade de uma representação eleita e tem o potencial de revelar esta realidade neo-colonial.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-149522" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/07/nushi20130717203846600.jpg" alt="" width="400" height="225" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/07/nushi20130717203846600.jpg 400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2013/07/nushi20130717203846600-300x169.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" />O medo é que as forças que mantêm a hegemonia sobre nossa sociedade estejam usando todos os meios possíveis para impedir qualquer fruição adicional da nossa revolução. Isto inclui um jogo sujo de explorar estes eventos recentes aprofundando propositadamente divisões dentro da sociedade egípcia para tornar o seu controle inevitável, mais violento e ainda menos justificável para a população como um todo. Desde 30 de junho isto tem significado um fluxo sem fim de derramamento de sangue entre os apoiadores da Irmandade e civis protestando contra eles ou pegos no fogo cruzado ou ainda dentro de batalhas sectárias. Nós estamos presos em uma situação onde a população está sendo mantida como refém e sua morte está sendo incitada e capitalizada por quase todas as elites políticas rivalizando pelo poder: os generais militares, a Irmandade e os liberais.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje nós ainda estamos no meio da Revolução de 25 de Janeiro. Nós enfrentamos sérias ameaças de cooptação mas até agora o poder ainda está com o povo. A fim de seguir lutando, nós devemos tanto lembrar do passado quanto enxergar nossa imediata situação à luz da constelação de poder global.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós não estamos sozinhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar dos diferentes contextos no Brasil, Turquia e Chile, assim como na Grécia, Espanha, Portugal e Estados Unidos, as pessoas estão indo às ruas para se colocar no caminho do controle das elites locais pela lógica da longevidade de seu poder e do aumento da riqueza de uma minoria. Enxergar todos esses momentos revolucionários dentro de uma moldura significa que com ou sem democracia, com ou sem eleições, o poder popular está se movendo para as ruas e saindo dos escritórios das instituições e dos governos. Como Max Weber escreveu, representação é uma &#8220;estrutura de dominação&#8221;, e assim nós mantemos o grito da revolução, &#8220;o povo quer a queda do sistema&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos em um ponto de inflexão global.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós devemos continuar lutando.</p>
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		<title>Golpe ou a continuidade da Revolução? &#8211; Egito</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Jul 2013 15:21:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[PassaPalavraTV]]></category>
		<category><![CDATA[Egito]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Dia 30 de junho foi um Golpe de Estado ou a continuação da Revolução Egípcia? Qual é o papel da esquerda nesse momento? E o papel dos militares?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Dia 30 de junho foi um Golpe de Estado ou a continuação da Revolução Egípcia? Qual é o papel da esquerda nesse momento? E o papel dos militares?<br />
<iframe loading="lazy" src="//www.youtube.com/embed/xrmhe5JuuNc?rel=0" width="560" height="315" frameborder="0"></iframe></p>
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		<title>Egito: a vitória eleitoral do Islão Político</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Jul 2012 12:25:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
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		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
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					<description><![CDATA[Os Estados do Golfo, os Estados Unidos e Israel estão empenhados no fracasso da revolução egípcia. E os resultados eleitorais são disto prova.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Samir Amin</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">A vitória eleitoral da Irmandade Muçulmana e dos Salafistas no Egito (Janeiro de 2012) não constitui qualquer surpresa. O declínio provocado pela atual globalização capitalista produziu o extraordinário desenvolvimento de supostas atividades «informais», as quais sustentam mais de metade da população egípcia (as estatísticas apontam para 60%). Este declínio coloca a Irmandade Muçulmana numa excelente posição, permitindo-lhe não só obter daí vantagens como perpetuar a sua reprodução. O seu simplismo ideológico confere legitimidade a uma miserável economia de bazar, completamente hostil às exigências de qualquer desenvolvimento digno desse nome. Os meios financeiros que lhes são concedidos pelos Estados do Golfo permitem-lhes traduzir tal ideologia numa ação eficaz: ajuda financeira à economia informal e serviços caritativos (clínicas, etc).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-144840" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/07/egypt-490_640-300x225-1.jpg" alt="" width="300" height="225" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/07/egypt-490_640-300x225-1.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/07/egypt-490_640-300x225-1-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/07/egypt-490_640-300x225-1-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/07/egypt-490_640-300x225-1-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/07/egypt-490_640-300x225-1-238x178.jpg 238w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" />Desta forma, a Irmandade Muçulmana coloca-se no centro da sociedade, fazendo-a de si depender. Os países do Golfo nunca tencionaram apoiar o desenvolvimento dos países árabes, por exemplo, através do investimento industrial. Eles apoiam uma espécie de «lumpen-desenvolvimento» &#8211; recorrendo ao termo originalmente cunhado por André Gunder Frank – que aprisiona as respetivas sociedades numa espiral de pauperização e exclusão. Algo que, por sua vez, reforça o estrangulamento da sociedade por parte do Islão reacionário.</p>
<p style="text-align: justify;">Tal não aconteceria tão facilmente não fosse a perfeita consonância com os objetivos delineados pelos Estados do Golfo, Washington e Israel. Os três aliados partilham da mesma meta: impedir a recuperação do Egito. Um Egito forte e assertivo significaria o fim da tripla hegemonia do Golfo (submissão a um discurso de islamização social), dos Estados Unidos (um Egito vassalo e pobre permanece sob a sua influência direta) e de Israel (um Egito sem poder não intervém na questão palestiniana).</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-144839" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/07/Gobal_Caliphate-300x214-1.jpg" alt="" width="300" height="214" />A corrida dos regimes ao neoliberalismo e à submissão a Washington foi imediata e total, tanto no Egito de Sadat, como (de forma mais gradual e moderada) na Argélia e na Síria. Parte do sistema de poder, a Irmandade Muçulmana não deve ser encarada apenas como mais um «partido islâmico», mas como um partido ultrarreacionário que, mais do que tudo, é islâmico. Não se trata apenas dos denominados «assuntos sociais» (o véu, a sharia, a discriminação anticóptica), mas igualmente, num mesmo grau, das áreas fundamentais da vida económica e social: a Irmandade é contra as greves, as reivindicações dos trabalhadores, os sindicatos independentes, o movimento de resistência às expropriações de terras, etc.</p>
<p style="text-align: justify;">O planeado fracasso da «revolução egípcia» garantiria, então, a perpetuação do sistema, vigente desde Sadat e fundado sob a aliança entre altos comandos militares e o Islão político. Seguramente, a vitória eleitoral permitirá à Irmandade exigir um poder superior ao que lhe foi concedido pelos militares. No entanto, uma revisão da distribuição dos benefícios a favor da Irmandade poderá ser difícil.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-144837" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/07/REU-EGYPT-ELECTION1-300x237-1.jpg" alt="" width="300" height="237" />A primeira volta das eleições presidenciais de 24 de Maio foi organizada de forma a alcançar a meta perseguida pelo sistema no poder e por Washington: o reforço da aliança entre os dois pilares (altos comandos militares e a Irmandade Muçulmana) e a resolução do seu desacordo; no fundo, a qual dos dois pertenceriam as rédeas. Os dois candidatos «aceitáveis» &#8211; Morsi, da Irmandade (24%) e Chafiq, candidato dos militares (23%) – foram os únicos a receber os meios adequados à organização de campanhas partidárias. O candidato do movimento, H. Sabbahi, não auferiu dos meios geralmente concedidos aos candidatos, conseguindo alegadamente apenas 21% dos votos (o valor é questionável).</p>
<p style="text-align: justify;">No fim das prolongadas negociações, concluiu-se que Morsi era o «vencedor» da segunda volta. A Assembleia, à semelhança do presidente, foi eleita graças à massiva distribuição de víveres (carne, petróleo e açúcar) por aqueles que votaram nos Islâmicos. E, contudo, os «observadores internacionais» foram incapazes de apontar tal situação, abertamente ridicularizada. A dissolução da Assembleia foi retardada pelos militares, os quais permitiram que a Irmandade auferisse do tempo necessário para se desacreditar, devido à sua recusa em lidar com assuntos de cariz social (emprego, salários, educação e saúde!).</p>
<p style="text-align: justify;">O sistema vigente, «presidido» por Morsi, é a melhor garantia de um lumpen-desenvolvimento e da destruição das instituições do Estado. Tais objetivos, perseguidos por Washington, certamente decorrerão. Veremos como o movimento revolucionário, fortemente comprometido com a luta pela democracia, o progresso social e independência nacional, evoluirá após a farsa eleitoral.</p>
<p style="text-align: justify;">Traduzido por <strong><em>Passa Palavra</em></strong> a partir daqui (<a title="http://www.pambazuka.org/en/category/features/83202" href="http://www.pambazuka.org/en/category/features/83202" target="_blank" rel="noopener">http://www.pambazuka.org/en/category/features/83202</a>).</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Torcidas e política no Egito: um massacre</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Feb 2012 21:28:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Desporto/esporte]]></category>
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					<description><![CDATA[Muitos companheiros estão dizendo que isto é uma punição coletiva, organizada pela polícia, para se vingar dos torcedores do Ahly, que estiveram nas linhas de frente dos confrontos com a polícia]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"> <strong>Por Aldo Cordeiro Sauda</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">
<img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-52093" title="phpupuves-300x" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/02/phpupuves-300x.jpg" alt="phpupuves-300x" width="300" height="200" />Hoje, 1º de fevereiro, morreram 73 companheiros da torcida do Ultras Ahly, a maior torcida organizada do Egito. Foram assassinados pelos torcedores do Massry, um time de Port Said. Antes do jogo começar foram espalhados boatos em Port Said de que os torcedores do Ahly estavam armados e iriam atacar e destruir a cidade. De acordo com alguns jornalistas, estes boatos fizeram com que os torcedores do Massry, com medo de serem massacrados pelos torcedores do Ahly, se armassem para enfrentar seus inimigos. O Massry é um time relativamente pequeno quando comparado com o Ahly (o maior) e o Zamalak (o segundo maior).</p>
<p style="text-align: justify;">Já fui a jogos com a torcida organizada do Ahly. Eles são extremamente pacíficos em relação às outras torcidas e muito politizados. Esta torcida está presente desde o início das mobilizaçõe na Praça Tahir e, ao lado da torcida Ultras Zamalak, promoveram uma fusão entre as torcidas organizadas e agora se apresentam como ”<em>Ultras Freedom</em>”, ou seja “Ultras Liberdade”. No início do jogo de hoje começaram a ofender o Marechal Tantawi, chefe da Junta Militar egípcia que preside o país.</p>
<p style="text-align: justify;">O ataque aos torcedores do Ahly provocou uma reação da torcida do Zamalak. Alguns relatos contam que, em solidariedade aos que caíram, eles atearam fogo no Estádio do Cairo. Outros relatos informam que a torcida do Zamalak, principal rival do Ahly, falou que irá marchar até à cidade de Port Said para defender seus companheiros do Ultras Ahly que estão sendo massacrados pela polícia e pelos torcedores do Massry. É mais ou menos o equivalente à Mancha Verde [Torcida do Palmeiras] atear fogo no Pacaembu [estádio municipal de São Paulo] em solidariedade a um massacre da Gaviões da Fiel [torcida do Cortinthians] em um jogo contra o Sport Recife.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-full wp-image-52092" title="php7l29xx-300x" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/02/php7l29xx-300x.jpg" alt="php7l29xx-300x" width="300" height="225" />Muitos companheiros estão dizendo que isto é uma punição coletiva, organizada pela polícia, para se vingar dos torcedores do Ahly, que estiveram nas linhas de frente dos confrontos com a polícia. O fato é que em todas a imagens podemos ver a polícia apenas assistindo ao massacre, o que é confirmado pelo relato de todas as testemunhas.</p>
<p style="text-align: justify;">É provável que este episódio desencadeie um processo de vingança, porque, pela tradição familiar egípcia, é uma questão de honra vingar seus primos mortos. O massacre gera então um processo de destabilização das Ultras, importante grupo na Revolução Egípcia.</p>
<figure id="attachment_52102" aria-describedby="caption-attachment-52102" style="width: 400px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-52102 " title="phpn9eip7-400x" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/02/phpn9eip7-400x.jpg" alt="'Os torcedores do Ultras Ahly saudam os mártires de Suez, a mãe da revolução" width="400" height="300" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/02/phpn9eip7-400x.jpg 400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2012/02/phpn9eip7-400x-300x225.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" /><figcaption id="caption-attachment-52102" class="wp-caption-text">Os torcedores do Ultras Ahly saudam os mártires de Suez, a mãe da revolução</figcaption></figure>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Neste momento ocorre um ato em solidariedade aos mortos. Concentraram-se em frente à sede do clube, inicialmente com 300 pessoas, e foram caminhando até à estação de trem. Os relatos indicam que o ato não para de crescer e não sabemos ao certo quantas pessoas estão lá neste momento. Agora o ato se dirige a uma delegacia de Polícia. Entre os manifestantes existe a certeza de que o massacre foi obra de agentes provocadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de alguns gritos contra Massry, a grande maioria dos cantos exige a execução dos generais que comandam a junta militar.</p>
<p style="text-align: justify;">
</blockquote>
<h1 style="text-align: justify;">Ouça <a href="http://passapalavra.tv/?p=43564" target="_blank" rel="noopener"><em><span style="color: #ff0000;">aqui</span></em></a> as entrevistas com o autor do artigo acerca da situação geral no Egito</h1>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Os mártires de Maspiro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Oct 2011 14:11:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Egito]]></category>
		<category><![CDATA[Outras_lutas]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
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					<description><![CDATA[Seria um erro afirmar que não existem tensões religiosas no país; porém, a forma com que elas se desencadearam no domingo foi de inteira e exclusiva responsabilidade da junta militar. Por Aldo Cordeiro Sauda Os mártires de Maspiro Eram 17 caixões. Todos enfileirados em meio à rua. Inteiramente fechados, alguns possuíam sobre si antigas fotos [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Seria um erro afirmar que não existem tensões religiosas no país; porém, a forma com que elas se desencadearam no domingo foi de inteira e exclusiva responsabilidade da junta militar.</em> <strong>Por Aldo Cordeiro Sauda </strong></p>
<p><span id="more-47442"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Os mártires de Maspiro</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-medium wp-image-47446" title="maspiro-17" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2018/08/maspiro-17-300x225.jpg" alt="maspiro-17" width="300" height="225" />Eram 17 caixões. Todos enfileirados em meio à rua. Inteiramente fechados, alguns possuíam sobre si antigas fotos dos mortos. Os corpos das vítimas, levados para o hospital cristão copta ao longo da noite do domingo, continham configurações físicas chocantes de mais para serem expostos ao público. Em meio à ausência de espaço no necrotério, milhares de egípcios, cristãos e muçulmanos, prestavam suas homenagens às mais novas vítimas da junta militar. Nas calçadas em frente ao hospital, rodeados por cenas de comoção e lamento, a maior comunidade cristã do Oriente Médio chorava a morte de seus pares. Não foram poucos os que se emocionaram ao se aproximar do conglomerado de caixões. Sob o sol escaldante da África, mulheres, inteiramente vestidas de preto, com o cabelo coberto por um fino véu, gritavam, choravam e gesticulavam em total demonstração de desespero. Apenas a alguns metros de distância, um grupo composto primordialmente por homens, cantava em baixo de cruzes improvisadas pela derrubada do regime.</p>
<p style="text-align: justify;">Ninguém sabe ao certo o número de mortos no “Massacre de Maspiro”, como diversos egípcios tem descrito os eventos do domingo passado. O número oficial se encontra em 25, porém diversas pessoas afirmam terem testemunhado o exército egípcio atirar corpos de manifestantes no Rio Nilo. Uma prática, à luz dos eventos de domingo, nem um pouco improvável.</p>
<p style="text-align: justify;">O massacre, perpetrado pelo exército, possuía resquícios de crueldade típicos das juntas militares latino-americanas. “Os tanques passaram por cima da cabeça dos nossos meninos, eu vi a cabeça deles explodir”, afirmava George Daut, um dos presentes na manifestação de domingo. “Elas pareciam bexigas d&#8217;água”. Entre choros e suspiros, George afirmava não manter nenhum ressentimento contra os muçulmanos egípcios. “Nossos filhos não foram assassinados pelos muçulmanos, ele foram assassinados pelo exército do Marechal Hussein Tantawi”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O bloco islâmico-militar</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No início da tarde de domingo, quando milhares de manifestantes marcharam em direção à sede da televisão estatal egípcia, local tradicional das manifestações da minoria copta, ninguém imaginava que o dia terminaria em uma tragédia de tamanhas proporções. O ato, um protesto contra a destruição de uma igreja na província de Aswan, no interior do Egito, não era algo inteiramente novo. Há anos radicais islâmicos, sob alguma proteção do Estado, têm atacado os templos da minoria, que desde a queda do regime Mubarak vêm manifestado seu descontentamento publicamente.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-47448" title="maspiro-16" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2018/08/maspiro-16-300x225.jpg" alt="maspiro-16" width="300" height="225" />Baseadas em um conjunto de leis originárias do Império Otomano, redigidas em 1856, a legislação egípcia na prática impede a execução de obras nos templos coptas do país. Segundo a regulamentação, qualquer construção ou reforma de um templo não islâmico requer uma série de documentos específicos e a aprovação do governo local, algo quase que sempre impossível. Não são raros os casos em que, sob argumentos da ausência de documentação correta, radicais islâmicos assumem para si a responsabilidade de impor a lei, vandalizando templos cristãos. Quase sempre os agressores são inocentados pelo Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">A tensão social entre cristãos coptas, que compõem apenas 10% da população egípcia, e a maioria muçulmana, não é inteiramente nova na história do país. Mesmo assim, o processo de islamização da sociedade, capitaneada pelo Estado há 30 anos, tem sido o principal combustível para explosões de ódio sectário.</p>
<p style="text-align: justify;">Após os acordos de paz firmados entre Israel e Egito, em 1979, e a consequente expulsão dos conselheiros soviéticos do país pelo então presidente Anwar Saddat, o Estado egípcio passou por um longo processo de alteração de seu paradigma político central. O nacionalismo pan-arabista, defendido e institucionalizado ao longo dos anos 60 pelo presidente Gamal Abdel Nasser, não se fazia mais útil à nova configuração do Estado. Aliado de Israel e do Ocidente e iniciando um processo de liberalização econômica, o Egito de Saddat buscou no Islã um novo ponto de apoio para sua legitimidade política. Também conhecido como “O presidente Fiel”, Awnar Saddat, e futuramente seu herdeiro político Hosni Mubarak, consolidaram, por meio do Estado, a inserção da identidade religiosa no espaço público. Trabalhando ostensivamente para expurgar os resquícios do pan-arabismo de Nasser, a islamização da sociedade eliminou os principais opositores à nova aliança politica e econômica com os Estados Unidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é por acaso que o início do processo revolucionário, que derrubou o governo Mubarak, encontrou resistência entre os dirigentes da Irmandade Muçulmana. Banidos da política institucional, mas fortalecidos no espectro social, o “acordo de cavalheiros” que fundamentava a relação da Irmandade com o Estado entrou em risco com a erupção da revolução de 25 de Janeiro. O acordo tácito, no qual os militares induziriam a islamização da sociedade em troca da pacificação política da Irmandade, permitiu ao braço social da entidade uma expansão sem precedentes. Apenas após ampla pressão realizada pela base mais jovem da organização, somada à necessidade de não isolamento do processo político, é que a irmandade aderiu às mobilizações contra Mubarak.</p>
<p style="text-align: justify;">A queda do ditador, que contou em seus últimos dias com a participação ativa da Irmandade, de forma alguma implicou no fim da cooperação entre o exército e os islamistas. O processo revolucionário enfraqueceu profundamente os elementos de sustentabilidade social do exército, tornando a Irmandade Islâmica potencialmente um dos mais viáveis instrumentos de sustento do regime. O fim do partido de Mubarak, somado ao enfraquecimento moral dos intelectuais ligados ao exército e o desmantelamento da central sindical oficial, empurram os militares para a necessidade de formar novas alianças sociais. Os islamistas, que, ao que tudo indica, em nada pretendem alterar o controle do exército e da burguesia sobre os meios de produção, têm se mostrado candidatos perfeitos ao Partido da Ordem.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Guardiões da estabilidade</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-47466 alignright" title="maspiro-19" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2018/08/maspiro-19-300x199.jpg" alt="maspiro-19" width="300" height="199" />O contexto da consolidação do bloco militar islâmico se encontra no plano de fundo do massacre de Maspiro. Como era de se esperar, a minoria cristã está sendo utilizada pelo regime como bode expiatório na construção de uma nova composição política e social. Soma-se a isto a utilização constante da carta da estabilidade política pelo exército. A idéia de uma prolongada crise política, em conjunto com a consolidação do caos social no caso da junta militar deixar o poder, tem sido o principal instrumento de legitimação do regime até agora. Não por acaso, os conflitos entre o exército e os coptas têm sido apresentados pelo Estado como um conflito entre cristãos e muçulmanos. Dentro deste cenário, o exército egípcio se apresenta como único mediador possível das tensões étnicas, se colocando acima dos conflitos sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria um erro afirmar que não existem tensões religiosas no país; porém, a forma com que elas se desencadearam no domingo foi de inteira e exclusiva responsabilidade da junta militar. A caminhada do ato, que saiu do bairro cristão de Shubra em direção à região de Maspiro, era inteiramente pacífica. Ela era composta de homens, mulheres e crianças, carregando algumas cruzes, velas e imagens da Virgem Maria.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim como tem sido comum em quase todas as manifestações críticas ao governo, em certo momento, um grupo de rapazes, partindo por de trás das linhas policiais, atacou os manifestantes com paus e pedras. O ataque à manifestação por parte dos agentes provocadores, conhecidos no Egito como “Baltajiyyah”, ocorreu em clara coordenação com a polícia e o exército.</p>
<p style="text-align: justify;">Um pouco após os ataques dos “Baltajiyyah” (ou lumpesinato, se quisermos utilizar uma terminologia clássica marxiana), o exército, pela primeira vez de forma clara e direta desde o início da revolução, começou a atacar os manifestantes. Entre bombas de gás lacrimogênio e rajadas de fuzil direcionadas ao público, os militares utilizaram-se de brutal repressão contra a minoria copta. Em meio aos ataques, blindados do exército foram atirados contra os civis, esmagando até à morte no mínimo 10 manifestantes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Mensagem aos “cidadãos de bem”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo do dia, a TV Estatal, canal mais assistido do país, iniciou uma ampla campanha de agitação e propaganda contra a minoria copta. Imagens de soldados supostamente feridos no “confronto” começaram a ser veiculadas pela TV, dando a impressão de que uma verdadeira guerra estava se desdobrando entre ambos os lados. Em conjunto com a imagem de militares feridos, a televisão do governo, no melhor dos estilos “Rádio Ruanda”, exibiu uma entrevista ao vivo com um militar descrevendo os coptas como “cães”.</p>
<p style="text-align: justify;">O canal estatal, que opera sobre firme controle do Ministério da Informação, anunciou que havia três soldados feitos “mártires” pela “batalha” contra a turba. Logo em seguida, começaram a circular na cidade rumores de que os coptas portavam metralhadoras, que estavam sendo utilizadas contra o exército. Em meio a um tom apocalíptico, a apresentadora responsável por conduzir o noticiário convocou os “cidadãos de bem” para proteger o seu exército do ataque cristão.</p>
<figure id="attachment_47454" aria-describedby="caption-attachment-47454" style="width: 300px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-47454" title="maspiro-03" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2018/08/maspiro-03-300x178.jpg" alt="maspiro-03" width="300" height="178" /><figcaption id="caption-attachment-47454" class="wp-caption-text">Sede da TV Estatal</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Obviamente, para além do <em>show</em> televisivo, não havia nenhum soldado morto. Os manifestantes coptas, que carregavam apenas artefatos religiosos, foram massacrados pelo exército. No dia seguinte, o canal estatal anunciou que a âncora havia ficado “nervosa” e se confundido na hora de transmitir a notícia da morte dos soldados. Quanto à convocatória aos “cidadãos de bem”, nenhuma explicação oficial foi dada, para além da afirmação do Ministro da Informação de que o canal estatal é “imparcial” e “objetivo”.</p>
<p style="text-align: justify;">É difícil medir as dimensões e efeitos do ódio religioso propagado pelo canal do governo. O que se sabe é que as manifestações em Maspiro, que começaram no início da tarde de domingo, transformaram-se em uma grande batalha na praça Tahir, estendida até a madrugada. Com a divulgação das notícias dos confrontos, centenas de manifestantes aderiram a ambos os lados, alterando o caráter originalmente confessional da manifestação. Não que a marcha contra o ataque à igreja em Aswan fosse composta originalmente apenas por cristãos; mas, durante a noite, o conflito tornou-se um ato tipicamente anti-junta militar, composto igualmente por coptas e muçulmanos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>As minorias e o partido da ordem</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se para a ampla gama do povo egípcio o exército tem se colocado como guardião da estabilidade, tal fato é ainda mais verdadeiro frente à comunidade cristã. Como qualquer minoria, a principal preocupação dos coptas no Egito é a sua sobrevivência diante de um ambiente hostil, e o exército, suposto mantenedor da “paz social”, se coloca como seu aliado nato.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-47463" title="maspiro-14" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2018/08/maspiro-14-300x168.jpg" alt="maspiro-14" width="300" height="168" />Inevitavelmente, momentos de revolução tendem a empurrar as minorias a terem de fazer duras escolhas; de um lado, a antiga “ordem social”, na qual certamente serão oprimidos como anteriormente, porém dentro de limites preestabelecidos que não colocam em risco a sua existência física; de outro, a possibilidade de liberdade e emancipação, permeada sempre pela possível reversão das relações sociais, na qual a antiga ordem opressora pode ser substituída por um estado de coisas ainda pior, em que sua eliminação física se dará como certa.</p>
<p style="text-align: justify;">Não por acaso, diversas lideranças coptas se colocaram contrárias à revolução. O temor de um fortalecimento do campo radical islamista, que potencialmente implicaria em uma total destruição da comunidade, fazem de muitos coptas conservadores por natureza. No Egito revolucionário pós-Mubarak, com o aumento dos ataques aos templos cristãos, muitos da comunidade enxergavam o exército como único agente social capaz de os proteger. Não que os coptas não saibam da pouca simpatia que existe por eles nas forças armadas; mas, ao mesmo tempo, muitos acreditam que as mesmas sejam a única força capaz de impedir o avanço dos islamistas, islamistas estes que compõem o bloco político-social de apoio aos militares. A contradição é evidente.</p>
<p style="text-align: justify;">O massacre de Maspiro, porém, pode ter contribuído para alterar esta equação. Se a relação entre os radicais islâmicos e o exército antes não se fazia clara aos coptas, agora certamente se faz. Provavelmente serão poucos os da comunidade que procurarão refúgio entre os militares. Não que os coptas não se oponham em algum grau à junta, muito pelo contrário, sempre fora comum ouvir nos atos políticos da minoria chamados pela a derrubada do governo, porém agora os mesmos chamados tomam uma nova dimensão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Para onde vai o Egito?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os eventos do domingo, inevitavelmente, contribuem para a radicalização da comunidade copta e sua consolidação no bloco social contrário à junta militar. Apesar de tal fato, é difícil captar o sentimento da maioria islâmica, alimentada pela imprensa com contínuo ódio religioso. Em uma região com pouca tradição de imprensa livre e um déficit histórico de participação popular, teorias da conspiração, na qual coptas subversivos em conjunto com estrangeiros estão tentando assumir o controle do país, tendem a encontrar solo fértil.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo do domingo, boatos circularam na mídia de que os Estados Unidos pretendiam mandar tropas ao Egito para proteger os templos cristãos, independente da vontade do governo local. Suposição esta inteiramente descolada da realidade, principalmente dado os fortes vínculos entre Washington e a Junta Militar. Mesmo assim, tais argumentos tendem a seduzir muitos egípcios, os levando a se unir por detrás de seu governo contra o suposto inimigo externo.</p>
<p style="text-align: justify;">A investida por parte das forças da contra-revolução em um conflito sectário entre cristãos e muçulmanos, porém, pode muito bem fracassar. Por mais que existam tensões históricas no Egito entre as comunidades, a sectarização da sociedade e a elevação desta a níveis de violência como os do domingo parecem impossíveis sem uma forte instigação estatal.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-medium wp-image-47459" title="maspiro-18" src="http://passapalavra.info/wp-content/uploads/2018/08/maspiro-18-300x225.jpg" alt="maspiro-18" width="300" height="225" />Em meio aos funerais das vítimas, Nagiba Shenouda, uma jovem estudante copta, fazia questão de enfatizar a especificidade das relações entre cristãos em muçulmanos no Egito. “Isto aqui não é o Líbano” afirmava. “Por mais que ao longo dos últimos 30 anos cristãos e muçulmanos tenham se afastado uns dos outros, nossas vidas continuam entrelaçadas. Aqui no Cairo, ao contrário de cidades libanesas como Beirute, existe uma constante interação social entre as comunidades. Cristãos e muçulmanos muitas vezes residem nos mesmos bairros, estudam nas mesmas escolas e trabalham nos mesmos empregos”, dizia a jovem. “Existem problemas entre as comunidades, um cristão médio sofre mais dificuldades sociais do que um muçulmano médio, mas daí para um conflito sectário é uma distância muito grande”, concluía Nagiba.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>As greves continuam</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O massacre realizado pelo exército à manifestação copta é também um aviso a toda oposição. No Egito, as regras do jogo podem estar mudando. O descontentamento cada vez maior com a junta militar, expresso abertamente nas recentes críticas vindas dos partidos liberal-burgueses ao processo de transição, somado à onda de greves vitoriosas que têm se desencadeado nos últimos dois meses, revelam um acirramento das tensões sociais no país. A tentativa orquestrada pelo regime de instituir o divisionismo entre as massas pode muito bem ser o indicador de um junta que precisará aumentar o grau de coerção frente à clara redução do consentimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Na cidade de Mahallah, coração industrial do Egito, uma nova onda de greves na indústria têxtil pode mais uma vez eclodir em meio à crise de Maspiro. Enquanto o sindicato independente cresce a cada dia, a contradição central da sociedade, aquela que coloca os proprietários dos meios de produção no campo oposto aos produtores, parece estar longe de ser esquecida pela classe trabalhadora. Por mais que a junta do Mareshal Tantawi insista na tecla religiosa, nada garante a estabilidade de seu emprego. Mesmo após o tenebroso massacre do domingo, como diz a velha expressão militante, a luta continua. Que os mártires de Maspiro não tenham caído em vão.</p>
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		<title>Revolução condicionada</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Aug 2011 11:51:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Egito]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[A activista egípcia Asmaa Mahfouz foi libertada no domigo passado, 14 de Agosto, sob uma fiança de 20.000 libras egípcias [2.375 €, R$ 5.490], depois de o Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA) a ter interrogado durante horas. O CSFA acusa Mahfouz de incitar o povo contra as forças armadas e de apelar a assassinatos [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A activista egípcia Asmaa Mahfouz foi libertada no domigo passado, 14 de Agosto, sob uma fiança de 20.000 libras egípcias [2.375 €, R$ 5.490], depois de o Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA) a ter interrogado durante horas. O CSFA acusa Mahfouz de incitar o povo contra as forças armadas e de apelar a assassinatos políticos através das suas contas de Twitter e Facebook. Mahfouz será agora julgada em tribunal militar onde enfrenta uma longa pena de prisão. Os activistas de direitos humanos no Egipto dizem que pelo menos 1.000 civis estão atrás das grades às ordens desses tribunais. <em>(do site noticioso egípcio <a title="http://bikyamasr.com/39446/egypt-rights-activist-sent-to-military-court-over-twitter-statement/" rel="nofollow" href="http://bikyamasr.com/39446/egypt-rights-activist-sent-to-military-court-over-twitter-statement/" target="_blank">BikyaMasr.com</a>) </em><strong><em>Passa Palavra</em></strong></p>
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		<title>Egipto: Brechas no edifício sindical da era Mubarak</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Apr 2011 00:59:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Egito]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[A federação sindical estatal, que durante meio século foi usada pelos senhores do Egipto para suprimir os protestos dos trabalhadores e mobilizar votantes para falsas eleições, parece em vias de ruir após o derrube do presidente Hosni Mubarak. Por Cam McGrath, para a IPS]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Cam McGrath, para a IPS</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">“Há um movimento contra o controlo dos sindicatos pelo Estado”, diz Mohamed Trabelsi, especialista do sindicalismo da região na OIT (Organização Internacional do Trabalho). “Agora temos muitas greves e protestos laborais no Egipto, e em muitos sectores os trabalhadores começaram a organizar-se e a formar sindicatos livres e independentes”.</p>
<p style="text-align: center;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-full wp-image-137851" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/04/egipto_fes_1-300x210-1.jpg" alt="" width="300" height="210" /></p>
<p style="text-align: justify;">Até há pouco tempo, todas as actividades e finanças dos sindicatos no Egipto estavam sob a égide da Federação Egípcia de Sindicatos (FES). A filiação nessa estrutura controlada pelo Estado era obrigatória para a maior parte dos empregados do sector público e as cotizações eram deduzidas automaticamente dos seus salários.</p>
<p style="text-align: justify;">Os activistas sindicais acusam Mubarak de ter orquestrado cuidadosamente as eleições da federação durante o seu reino de 30 anos, para assegurar a sua lealdade ao regime. Por seu turno, a FES mobilizava os seus 4 milhões de membros para as manifestações a favor do governo e arrebanhava os trabalhadores para os levar a votar nas eleições gerais a favor do partido no poder.</p>
<p style="text-align: justify;">Também tratou de suprimir as greves, como forma de garantir ao Estado mão-de-obra barata e estável.</p>
<p style="text-align: justify;">“As greves só eram permitidas com o acordo da FES, que só uma vez foi conseguido”, explica Tamer Fathy, um porta-voz do Centro de Apoio aos Sindicatos e aos Serviços Laborais (CASSL). “A lei laboral de 2003 veio melhorar um pouco as coisas, permitindo que os trabalhadores fizessem greve em certas circunstâncias, mas na prática (o critério era) quase impossível de preencher”.</p>
<p style="text-align: justify;">As fissuras no edifício da FES começaram a aparecer ainda no tempo de Mubarak. Agora que ele se foi embora e que o seu partido está desagregado, os trabalhadores descontentes pressionam para que a federação seja dissolvida e os seus quadros dirigentes sejam responsabilizados.</p>
<p style="text-align: center;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-full wp-image-137850" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/04/egipto_fes_2-300x200-1.jpg" alt="" width="300" height="200" /></p>
<p style="text-align: justify;">Os magistrados do Ministério Público [acusadores judiciais por parte do Estado] estão a investigar alegações de corrupção contra o presidente da FES, Hussein Megawer. Os activistas acusam-no de apropriação indevida de fundos e de abuso da representação laboral. Também é alvo de outra investigação separada pelo seu alegado papel na organização de bandos de arruaceiros para atacarem os protestatários pró-democracia na Praça Tahrir, no Cairo, em 2 de Fevereiro.</p>
<p style="text-align: justify;">O poder da federação sindical oficial tem vindo a declinar desde os finais de 2006, quando trabalhadores têxteis da cidade industrial nortenha de Mahalla El-Kubra ocuparam uma fábrica em protesto contra o não-pagamento de prémios devidos. Desde então, mais de 3.000 protestos laborais foram organizados por todo o Egipto, com a participação de cerca de 2 milhões de trabalhadores de quase todos os sectores.</p>
<p style="text-align: justify;">Na maior parte dos casos, os trabalhadores exigiam melhores salários e condições de trabalho, assim como a expulsão de gestores corruptos das empresas.</p>
<p style="text-align: center;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-full wp-image-137849" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/04/egipto_fes_3-300x199-1.jpg" alt="" width="300" height="199" /></p>
<p style="text-align: justify;">Muitos trabalhadores também acusam os dirigentes da FES – muitos dos quais são figuras de proa do Partido Democrático Nacional (PDN) de Mubarak – de se colocarem ao lado do governo e dos donos das fábricas contra eles durante os protestos laborais, e apelaram ao seu afastamento. A sua insatisfação com a federação apoiada no Estado levou-os a exigir sindicatos independentes e responsáveis perante os seus filiados.</p>
<p style="text-align: justify;">Os cobradores do imposto de propriedade foram os primeiros a afastar-se da esfera de influência da FES, criando o Sindicato da Autoridade do Imposto sobre Imóveis no começo de 2009, o primeiro sindicato autónomo egípcio desde 1957. Este acto histórico, e a consequente luta contra as represálias e intimidações da FES, encorajou os trabalhadores de outros sectores a seguirem o exemplo.</p>
<p style="text-align: justify;">“Os trabalhadores rejeitaram a federação sindical oficial porque não tinha credibilidade”, disse Fathy à IPS. “A sua liderança corrupta serviu o regime (e não os trabalhadores) e as suas decisões foram tomadas de cima para baixo, e não o inverso”.</p>
<p style="text-align: justify;">Líderes sindicais anunciaram recentemente a formação da Federação Egípcia Independente de Sindicatos (FEIS), uma rival agressiva da FES que agrupa os sindicatos independentes dos cobradores de imposto imobiliário, dos professores, dos técnicos de saúde e dos pensionistas. Esta novel organização laboral diz representar cerca de 200.000 trabalhadores e recebeu milhares de pedidos de inscrição de trabalhadores de vários sectores.</p>
<p style="text-align: justify;">“É tempo de organizarmos sindicatos fortes e independentes que se demarquem da influência do governo e sejam plenamente democráticos”, diz Fathy. “Os trabalhadores querem uma representação forte para conseguirem sentar-se à mesa com os patrões e negociar melhores salários e regalias”.</p>
<p style="text-align: justify;">O novo ministro egípcio do Trabalho, Ahmed El-Borai, é um jurista especializado na organização do trabalho e um apoiante convicto do sindicalismo independente. A sua nomeação, que ocorreu depois de os protestatários terem recusado liminarmente a anterior designação, no governo anterior, do tesoureiro da FES Ismail Fahmy, deixou dúvidas quanto ao futuro da FES.</p>
<p style="text-align: justify;">Numa conferência sindical em Março, El-Borai declarou o direito inalienável dos trabalhadores a criarem sindicatos e federações independentes em concordância com as convenções internacionais do trabalho, que o Egipto ratificou mas sempre ignorou. Afirmou que o governo não iria interferir na criação de sindicatos nem iria tentar mandar nas suas eleições, finanças e actividades.</p>
<p style="text-align: justify;">O ministro também acabou com todos os subsídios à FES, calculados em quase 15 milhões de dólares por ano. Disse que os trabalhadores teriam a liberdade de escolher os seus representantes, e anunciou o fim da dedução obrigatória das cotizações para a FES nos salários dos empregados.</p>
<p style="text-align: justify;">De facto, esse dinossáurico organismo sindical terá, agora, de se remeter à sua capacidade para convencer os trabalhadores de que os seus contributos para o sindicato serão bem aplicados na defesa dos seus direitos económicos – o que é, historicamente, um ponto fraco da organização.</p>
<p style="text-align: center;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-full wp-image-137848" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2011/04/egipto_fes_4-300x200-1.jpg" alt="" width="300" height="200" /></p>
<p style="text-align: justify;">Os dirigentes da FES esperam que a federação venha a conseguir vencer a batalha contra a tempestade pós-Mubarak, mas parece inevitável que venha a dar-se uma grande varridela na sua orientação e na sua liderança.</p>
<p style="text-align: justify;">“O ministro do Trabalho não está em guerra contra a federação (sindical) oficial”, diz Shendy Abdallah, formador de orientação profissional da Associação de Formação dos Trabalhadores, subsidiária da FES.</p>
<p style="text-align: justify;">“Mas ele tem insistido em que deve haver múltiplas federações, o que resultará em conflitos entre elas. A longo prazo, a FES terá de modificar as suas orientações públicas, se quiser sobreviver neste clima”, acrescenta Abdallah.</p>
<p style="text-align: justify;">Perante a pressão reformadora, não parece plausível que a liderança da FES se venha a manter no poder até às eleições directivas marcadas para Novembro. Os activistas sindicais dizem que não se poderá avançar sem que os leais servidores do regime sejam afastados e uma nova direcção livremente eleita tome o seu lugar.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Artigo original (em inglês) na <a title="http://ipsnews.net/news.asp?idnews=55126" href="http://ipsnews.net/news.asp?idnews=55126" target="_blank" rel="nofollow noopener">IPS</a>, conhecido via Pambazuka.org. Tradução Passa Palavra.</em></p>
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