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	<title>Exército_e_guerra &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>Irã e Gaza são apenas o começo</title>
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					<comments>https://passapalavra.info/2026/04/158960/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Apr 2026 17:23:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
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					<description><![CDATA[ A identidade judaica e o nacionalismo judaico são as versões sionistas da ideologia nazista de “sangue e solo”. Por Chris Hedges]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Chris Hedges</h3>
<p style="text-align: justify;">O genocídio em Gaza é o começo. Bem-vindo à nova ordem mundial. A era da barbárie tecnologicamente avançada. Não existem regras para os fortes, apenas para os fracos. Oponha-se ao forte, recuse-se a curvar-se às suas exigências caprichosas e você receberá uma chuva de mísseis e bombas. Assistimos a essa loucura diariamente com a guerra contra o Irã, o bombardeio de saturação do sul do Líbano e o sofrimento em Gaza.</p>
<p style="text-align: justify;">Órgãos internacionais como as Nações Unidas foram castrados, transformados em apêndices inúteis de outra época. A santidade dos direitos individuais, as fronteiras abertas e o direito internacional desapareceram. Os governantes mais psicopatas da história humana, aqueles que reduziram cidades a cinzas, que levaram populações aprisionadas a locais de execução e a terras desvastadas que ocuparam com valas e cadáveres em massa, voltaram com uma vingança, abrindo um vasto abismo moral.</p>
<p style="text-align: justify;">A lei, apesar de alguns esforços valentes de um punhado de juízes &#8212; que em breve serão expurgados &#8212;, internamente e em organismos internacionais como o Tribunal Internacional de Justiça, é desprezada e violada. Selvageria no exterior. Selvagem em casa.</p>
<p style="text-align: justify;">Lucy Williamson, da BBC, relata que Israel está destruindo o sul do Líbano “usando Gaza como modelo &#8212; um plano para destruição usado novamente como um caminho para a paz”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais de 1 milhão de pessoas já foram deslocadas no Líbano &#8212; um quinto de toda a população de um país que já abriga o maior número mundial de refugiados per capita &#8212; em apenas algumas semanas. Some-se a isso 2 milhões de deslocados em Gaza e 3 milhões de deslocados no Irã. 6 milhões de pessoas ficaram desabrigadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Por quatro décadas, o Primeiro-Ministro israelense, Benjamin Netanyahu, tem pressionado para que os EUA entrem em guerra com o Irã. As administrações anteriores, Republicanas e Democratas, recusaram, em grande parte por causa da oposição feroz dentro do Pentágono, que não via o Irã como uma ameaça existencial e não projetava um resultado positivo para os EUA ou seus aliados regionais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas Donald Trump, encorajado por sua equipe de negociação inepta de seu genro Jared Kushner e seu colega empresário imobiliário e parceiro de golfe Steve Witkoff, ambos fervorosos sionistas, mordeu a isca de Israel. O conselheiro de segurança nacional da Grã-Bretanha, Jonathan Powell, que participou das negociações finais entre os EUA e o Irã, considerou Kushner e Witkoff como “ativos israelenses”.</p>
<p style="text-align: justify;">Joseph Kent, que renunciou ao cargo de diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo para protestar contra a guerra, escreveu em sua carta de renúncia que “o Irã não representava ameaça iminente para nossa nação, e é claro que começamos essa guerra devido à pressão de Israel e seu poderoso lobby americano”.</p>
<p style="text-align: justify;">A lógica pública para a guerra contra o Irã desde que começou em 28 de fevereiro tem sido proteana. É para encerrar o programa nuclear do Irã? É para frustrar o programa de mísseis balísticos do Irã? É porque os EUA realizaram ataques preventivos contra o Irã, como disse Marco Rubio, para garantir a segurança dos ativos dos EUA uma vez que Israel decidiu atacar? É porque o governo iraniano realizou uma repressão letal, matando centenas de manifestantes antigoverno durante protestos de rua massivos? É mudança de regime? É uma tentativa de encerrar o chamado terrorismo patrocinado pelo Estado do Irã? Ou esses subterfúgios servem a outro propósito?</p>
<p style="text-align: justify;">Certamente, Israel e os EUA buscam mudança de regime. Mas aqui parece que os EUA e Israel divergem. Israel também aparentemente procura, como no Iraque, Síria, Líbia e Líbano, a desintegração física do Irã, a quebra do país em enclaves étnicos e religiosos em guerra, a transformação do Irã em um Estado falido.</p>
<p style="text-align: justify;">Os persas no Irã constituem cerca de 61% da população com vários grupos minoritários, que muitas vezes sofrem repressão estatal, representando os 39% restantes. Esses grupos étnicos incluem azerbaijanos, curdos, amantes, balochs, árabes e turcomanos, juntamente com minorias religiosas como sunitas, cristãos, bahá&#8217;ís, zoroastristas e judeus. A quebra do Irã em enclaves étnicos e religiosos antagônicos deixaria Israel como a potência dominante na região, dando-lhe a capacidade de, se não ocupar seus vizinhos diretamente, controlá-los e subjugá-los através de proxies, parte de um desejo de longa data de uma Grande Israel. Também tornaria possível que os Estados estrangeiros controlassem as reservas de gás iranianas, a segunda maior do mundo, e suas reservas de petróleo, 12% do total global.</p>
<p style="text-align: justify;">A cruzada de Israel contra os palestinos, os libaneses e agora os iranianos é justificada pelo extermínio de 6 milhões de judeus durante o Holocausto. Mas não passa despercebido no Sul Global, especialmente entre palestinos, que quase todos os estudiosos do Holocausto se recusaram a condenar o genocídio em Gaza. Nenhuma das instituições dedicadas a pesquisar e rememorar o Holocausto traçou os óbvios paralelos históricos ou criticou o massacre em massa.</p>
<p style="text-align: justify;">Estudiosos do Holocausto, com um punhado de exceções, expuseram seu verdadeiro propósito, que não é examinar o lado sombrio da natureza humana e a propensão assustadora que todos nós temos a cometer o mal, mas santificar os judeus como vítimas eternas e absolver o estado etnonacionalista de Israel de seus crimes de colonialismo de assentamento, apartheid e genocídio.</p>
<p style="text-align: justify;">O sequestro do Holocausto, o fracasso em defender as vítimas palestinas porque elas são palestinas, implodiu a autoridade moral dos estudos do Holocausto e dos memoriais do Holocausto. Eles foram expostos como veículos não para evitar o genocídio, mas para perpetrá-lo, não para explorar o passado, mas para manipular o presente.</p>
<p style="text-align: justify;">Qualquer reconhecimento tépido de que o Holocausto pode não ser propriedade exclusiva de Israel e seus partidários sionistas é rapidamente encerrado. O Museu do Holocausto em Los Angeles excluiu, depois de uma reação, um post no Instagram que dizia: “NUNCA MAIS NÃO PODE APENAS SIGNIFICAR NUNCA MAIS PARA <abbr title="Operating System">OS</abbr> JUDEUS”. Nas mãos dos sionistas, “nunca mais” significa precisamente isso, nunca mais, <em>apenas</em> <em>para os judeus</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158963" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi.jpg" alt="" width="752" height="597" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi.jpg 752w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-300x238.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-529x420.jpg 529w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-640x508.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-681x541.jpg 681w" sizes="(max-width: 752px) 100vw, 752px" />Aimé Césaire, em <em>Discurso sobre o Colonialismo</em>, escreve que Hitler parecia excepcionalmente cruel apenas porque presidia “a humilhação do homem branco”, aplicando à Europa os “procedimentos colonialistas que até então haviam sido reservados exclusivamente para os árabes da Argélia, as &#8216;coolies&#8217; da Índia e os negros da África”.</p>
<p style="text-align: justify;">A quase aniquilação da população aborígene da Tasmânia, o massacre alemão do Herero e Namaqua, o genocídio armênio, a fome de Bengala de 1943 &#8212; então o Primeiro-Ministro britânico Winston Churchill se referiu aos hindus como “um povo animalesco com uma religião animalesca” &#8212; juntamente com o lançamento de bombas nucleares em alvos civis em Hiroshima e Nagasaki, ilustra algo fundamental sobre “a civilização ocidental”.</p>
<p style="text-align: justify;">O genocídio não é uma anomalia, é codificado no DNA da “civilização” ocidental.</p>
<p style="text-align: justify;">“Na América”, disse o poeta Langston Hughes, “não é preciso dizer aos negros o que é o fascismo em ação. Nós sabemos. Suas teorias da supremacia nórdica e da supressão econômica há muito tempo são realidades para nós”.</p>
<p style="text-align: justify;">Os nazistas, quando formularam as leis de Nuremberg, usaram como modelo as leis destinadas a oprimir os negros. A recusa dos Estados Unidos em conceder cidadania a nativos americanos e filipinos &#8212; embora vivessem nos EUA e nos territórios dos EUA &#8212; foi imitada pelos fascistas alemães que retiraram a cidadania dos judeus. As leis antimiscigenação americanas, que criminalizavam o casamento inter-racial, foram a influência para proibir casamentos entre judeus alemães e arianos. A jurisprudência americana classificou qualquer pessoa com um por cento da ascendência negra &#8212; a chamada “regra de uma gota” &#8212; como negra. Os nazistas, ironicamente mostrando mais flexibilidade, classificaram qualquer pessoa com três ou mais avós judeus como judeus.</p>
<p style="text-align: justify;">Os milhões de vítimas indígenas de projetos coloniais em países como México, China, Índia, Austrália, Congo e Vietnã, por essa razão, são surdas para as afirmações dos judeus de que sua vitimização é única. Eles também sofreram holocaustos, mas esses holocaustos permanecem minimizados ou não reconhecidos por seus perpetradores ocidentais.</p>
<p style="text-align: justify;">Israel encarna o Estado etnonacionalista que nossos fascistas cristãos e a extrema-direita sonham em criar para si mesmos, que rejeita o pluralismo político e cultural, bem como as normas legais, diplomáticas e éticas. Israel é admirado pela extrema-direita porque virou as costas para o direito humanitário e usa força letal indiscriminada para “limpar” sua sociedade daqueles condenados como contaminadores humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi essa distorção do Holocausto como único que incomodou Primo Levi, preso em Auschwitz de 1944 a 1945 e que escreveu livros sobre a sobrevivência em Auschwitz. Levi foi um crítico feroz do Estado de apartheid de Israel e seu tratamento aos palestinos. Ele viu a Shoah [Holocausto] como “uma fonte inesgotável do mal” que “é perpetuada como ódio nos sobreviventes, e brota de mil maneiras, contra a própria vontade de todos, como uma sede de vingança, como colapso moral, como negação, como cansaço, como resignação”.</p>
<p style="text-align: justify;">Levi deplorou o maniqueísmo daqueles que “evitam nuances e complexidade”. Ele condenou aqueles que “reduzem o rio dos acontecimentos humanos a conflitos, e conflitos a duelos, nós e eles”. Ele alertou que a “rede de relações humanas dentro dos campos de concentração não era simples: não poderia ser reduzida a dois blocos, vítimas e perseguidores”. O inimigo, ele sabia, “estava do lado de fora, mas também dentro”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mordechai Chaim Rumkowski, conhecido como “Rei Chaim”, governou o gueto de Łódź na Polônia em nome dos ocupantes nazistas. O gueto tornou-se um campo de trabalho escravo que enriqueceu Rumkowski e seus senhores nazistas. Rumkowski deportou opositores para campos de extermínio. Estuprou e molestou meninas e mulheres. Exigiu obediência inquestionável. Incorporou o mal de seus opressores. Para Levi, ele foi um exemplo do que muitos de nós, em circunstâncias semelhantes, somos capazes de se tornar.</p>
<p style="text-align: justify;">“Estamos todos refletidos em Rumkowski, sua ambiguidade é nossa, é a nossa segunda natureza, nós híbridos moldados a partir de argila e espírito”, escreveu Levi <em>em Os Afogados e os Sobreviventes.</em> “Sua febre é nossa, a febre de nossa civilização ocidental que &#8216;desce no inferno com trombetas e tambores&#8217;, e seus adornos miseráveis são a imagem distorcida de nossos símbolos de prestígio social”.</p>
<p style="text-align: justify;">“Como Rumkowski, nós também estamos tão deslumbrados com o poder e o prestígio a ponto de esquecer nossa fragilidade essencial”, continuou Levi. “De bom grado ou não chegamos a um acordo com o poder, esquecendo que estamos todos no gueto, que o gueto está murado, que fora do gueto reinam os senhores da morte, que espera próxima ao trem.”</p>
<p style="text-align: justify;">Levi entendeu que a linha entre a vítima e o vitimizador é fina. Todos nós podemos nos tornar carrascos dispostos. Não há nada intrinsecamente moral sobre ser judeu ou um sobrevivente do Holocausto. Levi, por essa razão, era <em>persona non grata</em> em Israel.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158964" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg" alt="" width="1079" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg 1079w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-629x420.jpg 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 1079px) 100vw, 1079px" />Os sionistas encontram no Holocausto e no Estado judeu um senso de propósito e significado, bem como uma superioridade moral nauseante. Após a guerra de 1967, quando Israel tomou Gaza, a Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, as Colinas de Golã da Síria e a Península do Sinai do Egito, Israel, como observou o sociólogo americano Nathan Glazer de forma aprovadora, tornou-se “a religião dos judeus americanos”. O Holocausto tornou-se o seu “capital moral”.</p>
<p style="text-align: justify;">“O sofrimento judaico é retratado como inefável, incomunicável e, no entanto, algo sempre a ser proclamado”, escreve o historiador europeu Charles S. Maier, em <em>The Unmasterable Past: History, Holocaust, and German National Identity</em>:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">É intensamente privado, não para ser diluído, mas simultaneamente público para que a sociedade gentil confirme os crimes. Um sofrimento muito peculiar deve ser consagrado em locais públicos: museus do Holocausto, jardins de memória, locais de deportação, dedicados não como memoriais judeus, mas cívicos. Mas qual é o papel de um museu em um país, como os Estados Unidos, longe do local do Holocausto? É para reunir as pessoas que sofreram ou para instruir não-judeus? É suposto servir como um lembrete de que “pode acontecer aqui?” Ou é uma afirmação de que alguma consideração especial é merecida? Sob que circunstâncias uma tristeza privada pode servir simultaneamente como uma dor pública? E se o genocídio é certificado como uma tristeza pública, então não devemos aceitar as credenciais de outras tristezas particulares também? Um historiador americano de ascendência polonesa argumenta que, com a invasão alemã de 1939, os poloneses se tornaram os primeiros povos da Europa a experimentar o Holocausto e que os historiadores até agora “escolheram interpretar a tragédia em termos exclusivistas &#8212; ou seja, como o período mais trágico da história da Diáspora judaica”. Se os poloneses americanos reivindicam seu próprio “Holocausto esquecido”, que reconhecimento eles devem desfrutar? Os armênios e os cambojanos também têm o direito de financiar publicamente museus de holocausto? E precisamos de memoriais para adventistas do sétimo dia e homossexuais por sua perseguição nas mãos do Terceiro Reich?</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">O sofrimento único confere um direito único.</p>
<p style="text-align: justify;">Qualquer crime que Israel realize em nome de sua sobrevivência &#8212; seu “direito de existir” &#8212; é justificado em nome dessa singularidade. Não há limites. O mundo é preto e branco, uma batalha interminável contra o nazismo, que é proteano, dependendo de quem Israel visa. Desafiar essa sede de sangue é ser um antissemita, facilitando outro genocídio de judeus.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa fórmula simplista não serve apenas os interesses de Israel, mas também os interesses das potências coloniais que realizaram seus próprios genocídios, aqueles que eles também procuram obscurecer.</p>
<p style="text-align: justify;">A sacralização do Holocausto nazista oferece um <em>quid pro quo</em> bizarro. Armar e financiar o Estado de Israel, bloqueando resoluções e sanções da ONU que condenariam seus crimes e demonizar os palestinos e seus apoiadores se tornam prova de expiação e apoio aos judeus. Israel, em troca, absolve o Ocidente de sua indiferença à situação dos judeus durante o Holocausto, e a Alemanha por perpetrá-lo. A Alemanha usa essa aliança profana para separar o nazismo do resto da história alemã, incluindo o genocídio que os colonos alemães realizaram contra os Nama e Herero no sudoeste alemão da África, agora na Namíbia.</p>
<p style="text-align: justify;">“Tal magia”, escreve o israelense historiador e estudioso do genocídio, Raz Segal, “legitima o racismo contra os palestinos no exato momento em que Israel perpetra o genocídio contra eles. A ideia de singularidade do Holocausto reproduz-se assim em vez de desafiar o nacionalismo excludente e o colonialismo de assentamento que levaram ao Holocausto.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Segal, diretor do programa de Estudos do Holocausto e Genocídio da Universidade de Stockton, em Nova Jersey, escreveu um artigo sobre a guerra em Gaza em 13 de outubro de 2023, intitulado: “Um caso de genocídio”.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa denúncia de um estudioso israelense do Holocausto, cujos familiares morreram no Holocausto, foi uma postura muito solitária.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Segal viu na exigência imediata do governo israelense que os palestinos evacuassem o norte de Gaza e a demonização dos palestinos por autoridades israelenses &#8212; o Ministro da Defesa disse que Israel estava “combatendo animais humanos” &#8212; o cheiro de genocídio.</p>
<p style="text-align: justify;">“Toda a ideia sobre prevenção e &#8216;nunca mais&#8217; é que &#8212; como ensinamos nossos alunos &#8212; há alertas vermelhos, e que uma vez que os notamos, devemos trabalhar para interromper o processo que pode se transformar em genocídio”, disse-me o professor Segal, “mesmo que ainda não seja genocida”.</p>
<p style="text-align: justify;">O professor Segal pagou pela sua honestidade. O convite para liderar o Centro de Estudos do Holocausto e Genocídio da Universidade de Minnesota, que não emitiu nenhuma condenação do genocídio, foi revogado.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o professor Segal e eu testemunhamos na capital do estado em Trenton, em oposição à adoção do projeto de lei da Aliança Internacional de Memória do Holocausto (IHRA), que equipara as críticas ao Estado de Israel a antissemitismo, fomos vaiados por sionistas e nossos microfones foram cortados pelo presidente da comissão. Lá estávamos nós, argumentando que esse projeto de lei iria reduzir a liberdade de expressão enquanto ao mesmo tempo nos negavam a liberdade de expressão.</p>
<p style="text-align: justify;">O genocídio é a próxima etapa no que o antropólogo, Arjun Appadurai, chama de “uma vasta correção malthusiana mundial” que é “voltada para preparar o mundo para os vencedores da globalização, sem o ruído inconveniente de seus perdedores”.</p>
<p style="text-align: justify;">O financiamento e o armamento de Israel pelos Estados Unidos e pelas nações europeias, enquanto realiza o genocídio, implodiu efetivamente a ordem jurídica internacional pós-Segunda Guerra Mundial. Ela não tem mais credibilidade. O Ocidente não pode mais ensinar ninguém sobre democracia, direitos humanos ou as supostas virtudes da civilização ocidental. O ardil, que de alguma forma nós, como nação, promovemos a democracia, a igualdade e os direitos humanos, está terminado.</p>
<p style="text-align: justify;">“Ao mesmo tempo em que Gaza induz vertigem, um sentimento de caos e vazio, torna-se para inúmeras pessoas impotentes a condição essencial da consciência política e ética no século XXI &#8211; assim como a Primeira Guerra Mundial foi por uma geração no Ocidente”, escreve Pankaj Mishra.</p>
<p style="text-align: justify;">Nenhum de nós que reportou de Israel e Palestina, onde trabalhei como repórter por sete anos, previu esse genocídio. E, no entanto, estávamos cientes do impulso genocida que estava no coração do projeto sionista &#8212; o desejo de grandes segmentos da sociedade israelense de erradicar e expulsar todos os palestinos. Esse impulso genocida estava lá desde o início do sionismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Victor Klemperer, professor de linguística e filho de um rabino de Berlim que viveu sob o domínio nazista, observou em seu diário: “Para mim, os sionistas, que querem voltar para o estado judeu de 70 d.C. (destruição de Jerusalém por Tito), são tão ofensivos quanto os nazistas. Com sua sede de sangue, suas antigas “raízes culturais”, sua visão de mundo ora hipócrita, ora obtusa, eles são páreo para os nacional-socialistas”.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158964" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg" alt="" width="1079" height="720" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina.jpg 1079w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-1024x683.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-629x420.jpg 629w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Abed-Abdi-Massacre-at-Lidd-1981-from-the-series-Wa-Ma-Nasaina-681x454.jpg 681w" sizes="(max-width: 1079px) 100vw, 1079px" />Cobri o rabino extremista Meir Kahane, que afirmava que a violência era uma virtude judaica, e a vingança, um mandamento divino. Quando eu estava baseado em Israel, ele foi impedido pelo governo israelense de se candidatar a cargos públicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Kahane foi assassinado em 5 de novembro de 1990, na cidade de Nova York. Seu partido, o Kach, foi declarado ilegal em Israel quatro anos depois, após Baruch Goldstein, um médico nascido no Brooklyn e membro do Kach, entrar na Mesquita de Ibrahimi, em Hebron, e abrir fogo contra os fiéis, matando 29 palestinos. Goldstein, vestido com seu uniforme de capitão do exército, foi dominado pelos fiéis e espancado até a morte. Fui enviado pelos meus editores em Nova York para entrevistar os sobreviventes. Quando receberam o material, insistiram para que eu fizesse mais entrevistas com colonos judeus que justificassem as queixas de Goldstein contra os palestinos, parte do jogo de equilíbrio, mas na verdade parte do esforço para obscurecer a verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">O Kach, após suas declarações de apoio ao massacre, foi declarado uma organização terrorista pelos Estados Unidos. Mas o kahanismo não morreu. Foi nutrido por extremistas judeus e colonizadores.</p>
<p style="text-align: justify;">A intolerância racial de Kahane e seus apelos à violência em massa contra os palestinos contaminaram segmentos cada vez maiores da sociedade israelense. Encontrou aceitação quase universal após os ataques de 7 de outubro.</p>
<p style="text-align: justify;">Testemunhei essa intolerância em comícios políticos realizados por Netanyahu, que recebeu financiamento generoso de americanos de direita associados ao AIPAC, quando concorreu contra Yitzhak Rabin, que negociava um acordo de paz com os palestinos. Os apoiadores de Netanyahu entoavam slogans inspirados por Kahane, como “Morte aos árabes” e “Morte a Rabin”. Queimaram uma efígie de Rabin vestida com um uniforme nazista. Netanyahu marchou em frente a um funeral simulado para Rabin.</p>
<p style="text-align: justify;">Rabin foi assassinado por um fanático judeu em 4 de novembro de 1995.</p>
<p style="text-align: justify;">Netanyahu, que se tornou Primeiro-Ministro pela primeira vez em 1996, passou sua carreira política cultivando esses extremistas judeus, incluindo Itamar Ben-Gvir, que tinha um retrato de Goldstein na parede de sua sala de estar, Bezalel Smotrich, Avigdor Lieberman, Gideon Sa&#8217;ar e Naftali Bennett.</p>
<p style="text-align: justify;">O pai de Netanyahu, Benzion, que trabalhou como assistente do fundador do sionismo revisionista, Vladimir Jabotinsky, e foi chamado por Benito Mussolini de “um bom fascista”, foi um líder do Partido Herut, que defendia que Israel se apropriasse de todas as terras da Palestina histórica. Muitos dos membros do Partido Herut realizaram ataques terroristas durante a guerra de 1948 que estabeleceu o Estado de Israel. Albert Einstein, Hannah Arendt, Sidney Hook e outros intelectuais judeus descreveram o Partido Herut, em uma declaração publicada no New York Times, como um partido “muito semelhante, em sua organização, métodos, filosofia política e apelo social, aos partidos nazistas e fascistas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Sempre houve uma vertente virulenta de fascismo judaico dentro do projeto sionista, espelhando a vertente do fascismo na sociedade americana. Infelizmente, para nós e para os palestinos, essas vertentes fascistas estão em ascensão.</p>
<p style="text-align: justify;">A decisão de obliterar Gaza tem sido, há muito tempo, o sonho dos sionistas de extrema-direita, herdeiros do movimento de Kahane. A identidade judaica e o nacionalismo judaico são as versões sionistas da ideologia nazista de “sangue e solo”. A supremacia judaica é santificada por Deus, assim como o massacre dos palestinos, que Netanyahu comparou aos amalequitas bíblicos, massacrados pelos israelitas. Europeus e euro-americanos nas colônias americanas usaram a mesma passagem bíblica para justificar o genocídio contra os nativos americanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Os inimigos — geralmente muçulmanos — destinados à extinção são subumanos que personificam o mal. A violência e a ameaça de violência são as únicas formas de comunicação compreendidas por aqueles que estão fora do círculo mágico do nacionalismo judaico.</p>
<p style="text-align: justify;">A redenção messiânica ocorrerá assim que os palestinos forem expulsos. Extremistas judeus exigem a demolição da Mesquita de Al-Aqsa, um dos três locais mais sagrados para os muçulmanos, supostamente construída sobre as ruínas do Segundo Templo Judaico, destruído em 70 d.C. pelo exército romano. Esses extremistas defendem sua substituição por um “Terceiro” Templo Judaico, uma medida que incendiaria o mundo muçulmano. A Cisjordânia, que os fanáticos chamam de “Judeia e Samaria”, está sendo anexada por Israel. Israel, governado por leis religiosas impostas pelos partidos ultraortodoxos Shas e Judaísmo Unido da Torá, em breve espelhará a teocracia despótica do Irã.</p>
<p style="text-align: justify;">James Baldwin previu, de forma profética, essa regressão à nossa barbárie inata. Ele alertou que havia uma “terrível probabilidade” de que “as populações ocidentais, lutando para manter o que roubaram de seus cativos e incapazes de se olhar no espelho, precipitarão um caos em todo o mundo que, se não acabar com a vida neste planeta, provocará uma guerra racial como o mundo jamais viu, e pela qual gerações ainda por nascer amaldiçoarão nossos nomes para sempre”.</p>
<p style="text-align: justify;">A selvageria no Irã, no Líbano e em Gaza é a mesma selvageria que enfrentamos em casa. Aqueles que perpetram o genocídio, o massacre e a guerra não provocada contra o Irã são as mesmas pessoas que desmantelam nossas instituições democráticas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158962" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982.jpg" alt="" width="793" height="1080" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982.jpg 793w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-220x300.jpg 220w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-752x1024.jpg 752w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-768x1046.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-308x420.jpg 308w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-640x872.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/AbedAbdiSiegeofBeirut1982-681x927.jpg 681w" sizes="(max-width: 793px) 100vw, 793px" />Os iranianos, libaneses e palestinos sabem que não há como apaziguar esses monstros. As elites globais não acreditam em nada. Não <em>sentem</em> nada. Não se pode confiar nelas. Eles exibem as características essenciais de todos os psicopatas — charme superficial, grandiosidade e presunção, necessidade de estímulo constante, propensão à mentira, ao engano, à manipulação e incapacidade de sentir remorso ou culpa. Desprezam, considerando fraquezas, as virtudes da empatia, da honestidade, da compaixão e do altruísmo. Vivem segundo o lema “Eu. Eu. Eu.”</p>
<p style="text-align: justify;">“O fato de milhões de pessoas compartilharem os mesmos vícios não os torna virtudes, o fato de compartilharem tantos erros não os torna verdades, e o fato de milhões de pessoas compartilharem as mesmas formas de patologia mental não as torna sãs”, escreveu Erich Fromm em “The Sane Society”.</p>
<p style="text-align: justify;">Testemunhamos o mal por quase três anos em Gaza. Observamos agora no Irã. Observamos no Líbano. Vemos esse mal sendo justificado ou mascarado por líderes políticos e pela mídia.</p>
<p style="text-align: justify;">O The New York Times, num gesto digno de Orwell, enviou um memorando interno instruindo repórteres e editores a evitarem os termos “campos de refugiados”, “território ocupado”, “limpeza étnica” e, claro, “genocídio” ao escreverem sobre Gaza.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqueles que nomeiam e denunciam esse mal, incluindo os estudantes heroicos que montaram acampamentos em campis universitários aqui e no exterior, são difamados, colocados em listas negras e expurgados. São presos e deportados. Um silêncio ensurdecedor se abate sobre nós, o silêncio de todos os Estados autoritários. Sabemos onde isso termina. Deixe de cumprir seu dever, deixe de apoiar a guerra contra o Irã, de se manifestar contra o crime de genocídio e veja sua licença de transmissão revogada, como propôs Brendan Carr, presidente da FCC (Comissão Federal de Comunicações) de Trump.</p>
<p style="text-align: justify;">Temos inimigos. Eles não estão na Palestina. Eles não estão no Líbano. Eles não estão no Irã. Eles estão aqui. Entre nós. Eles ditam nossas vidas. Eles são traidores dos nossos ideais. Eles são traidores do nosso país. Eles vislumbram um mundo de escravos e senhores. Gaza é apenas o começo. Não existem mecanismos internos para a reforma. Podemos obstruir ou nos render.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas são as únicas opções que nos restam.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Chris Hedges é jornalista estadunidense, autor de vários livros, entre os quais, </em>American Fascists<em> e </em>Death of the Liberal Class<em>.</em></strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">Traduzido do original em: <a class="urlextern" title="https://chrishedges.substack.com/p/iran-and-gaza-are-only-the-beginning" href="https://chrishedges.substack.com/p/iran-and-gaza-are-only-the-beginning" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://chrishedges.substack.com/p/iran-and-gaza-are-only-the-beginning</a></p>
</blockquote>
<p><em><img loading="lazy" decoding="async" class="size-thumbnail wp-image-158961 alignnone" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/abed_abdi_haifa-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />As obras que ilustram o artigo são do artista palestino Abed Abdi (1942 &#8212;)</em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O Domo de Ferro está interceptando nossas chances de um futuro normal</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/03/158930/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 31 Mar 2026 09:57:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Israel]]></category>
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					<description><![CDATA[Os sistemas de defesa antimíssil de Israel reduziram drasticamente o custo de entrar em guerra — e uma sociedade que não teme a guerra está condenada a conviver com ela para sempre. Por Guevara Bader]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Guevara Bader</h3>
<p style="text-align: justify;">Nas últimas décadas, a engenharia israelense produziu algo próximo da maravilha tecnológica definitiva: um sistema de defesa antimíssil multicamadas capaz de transformar projéteis em um espetáculo de fogos de artifício no céu noturno. Mas sob essa proteção, uma transformação discreta, porém consequente, se consolidou, sendo mais perigosa que os próprios mísseis: o Domo de Ferro eliminou o medo da guerra entre os israelenses.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma tecnologia projetada para preservar vidas fomentou uma sensação de imunidade quase total, transformando a catástrofe da guerra em uma perturbação tolerável, senão em um produto de consumo estéril — algo absorvido pela vida cotidiana com indiferença, em algum lugar entre o noticiário da noite e a entrega de comida.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o medo da guerra diminui, também diminui a motivação pública para pôr fim a ela. Nesse contexto, a segurança tecnológica não encurta as guerras, mas contribui para sustentá-las como uma condição permanente. Israel, na era do Domo de Ferro, não se apresenta mais como uma sociedade civil vibrante que também mantém um exército; em vez disso, orgulha-se de ser essencialmente uma enorme base militar em torno da qual a vida civil se organiza.</p>
<p style="text-align: justify;">Um raro momento de franqueza do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu deu forma a essa transformação, quando ele alertou, em um discurso a autoridades financeiras em setembro passado, que Israel enfrentava um crescente isolamento internacional e precisaria se tornar uma “super-Esparta” economicamente autossuficiente. Mais tarde, ele minimizou a declaração, classificando-a como um “lapso de língua”, após as ações na bolsa de valores de Tel Aviv sofrerem uma queda. Mas, se de fato foi um lapso, foi revelador.</p>
<p style="text-align: justify;">O que Netanyahu delineou é o híbrido político e cultural em que os israelenses vivem: o dinamismo liberal e criativo de Atenas fundido com a disciplina rígida e o militarismo de Esparta. Na versão rudimentar de 2026, Atenas cria o algoritmo e Esparta aperta o gatilho.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado é uma sociedade que funciona como um complexo militar fortificado, governado por processos democráticos nominais, onde a fronteira entre as esferas civil e militar se tornou completamente indistinta. A indústria israelense transformou-se em uma máquina bem azeitada de inovação militar, convertendo a guerra, antes um fracasso diplomático, em uma característica definidora da existência do Estado. Essa perda interna de dissuasão é o nosso desastre nacional, pois uma sociedade que não teme a guerra é uma sociedade condenada a conviver com ela para sempre.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A guerra como uma assinatura mensal</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para entender a profundidade dessa distorção, é útil recorrer à linguagem que os israelenses usam para se descrever. Em Israel, não existem “cidadãos”, certamente não no sentido tedioso de participação democrática. Existe, em vez disso, uma “frente interna” — um termo que concebe o público como a formação passiva de retaguarda da força militar em combate. Sua função é absorver o impacto da situação e manter a compostura enquanto, simultaneamente, torce pelo exército que realiza operações no céu.</p>
<p style="text-align: justify;">Na prática, a “frente interna” transforma os cidadãos em unidades de apoio logístico, que devem “demonstrar resiliência”, um eufemismo para suportar o sofrimento sem reclamar, para não desviar o olhar fixo do atirador enquanto este realiza o próximo assassinato bem-sucedido.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse princípio organizador veio à tona com uma clareza incomum em junho passado. Após a primeira rodada de combates com o Irã, o analista militar do Haaretz, Amos Harel, apresentou ao público dados que comparavam as mortes israelenses com o número de mísseis que penetraram as defesas aéreas do país. A conclusão — uma morte para cada três mísseis que atingiram áreas povoadas — foi apresentada como prova de que “as baixas na população civil não foram tão catastróficas quanto se temia anteriormente”.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse cálculo, a morte é apenas um registro em um balancete. Um funeral não é visto como uma catástrofe, mas como um custo operacional aceitável, uma estatística fria que permite que o sistema continue funcionando. O preço é baixo o suficiente para que os tomadores de decisão simplesmente peguem uma caneta e perguntem, sem qualquer ironia: “Onde assinamos?”.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando as estatísticas permitem que as pessoas voltem a tomar seu café em Tel Aviv entre as idas a abrigos, a urgência de pôr fim ao ciclo começa a desaparecer. A guerra torna-se uma mensalidade, em vez de um risco existencial, sustentado enquanto o custo puder ser absorvido. Esse custo, é claro, é suportado de forma desproporcional pelos cidadãos palestinos de Israel, que, em comparação com os israelenses judeus, têm muito menos acesso a abrigos adequados e podem viver em áreas classificadas como “áreas abertas”, onde o Domo de Ferro está programado para permitir que mísseis caiam ou detonem interceptores acima deles.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa normalização se traduziu em um modelo econômico sem precedentes, no qual Israel passou de uma autopercepção de fortaleza sitiada para a de uma linha de produção de tecnologias de defesa, com cada conflito funcionando como uma forma de campo de testes contínuo. Cada interceptação gera dados; cada escalada aprimora o sistema.</p>
<p style="text-align: justify;">A “frente interna”, nesse sentido, funciona também como um vasto grupo de testadores beta, cujas interrupções são absorvidas pelos ciclos de pesquisa e desenvolvimento. O sucesso não se mede apenas em vidas poupadas, mas também em métricas de desempenho que impulsionam o valor das ações da indústria de defesa em exposições em Paris e Singapura.</p>
<p style="text-align: justify;">O mundo não está apenas observando com preocupação. Como clientes fiéis da Apple aguardando o próximo iPhone, é um consumidor observando quais tecnologias têm o melhor desempenho em “condições reais”. A própria guerra é a melhor campanha de marketing e, quando a economia nacional depende da superioridade militar global, a aspiração pela tranquilidade é percebida como sabotagem deliberada da linha de produção nacional.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Um estado permanente de adiamento</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-158932" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/3338-1-300x300.jpg" alt="" width="400" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/3338-1-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/3338-1-1024x1024.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/3338-1-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/3338-1-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/3338-1-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/3338-1-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/3338-1-681x681.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/3338-1.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" />Esse desenvolvimento se consolidou gradualmente. Do sistema de defesa antimíssil Arrow, que entrou em operação em 2000, ao Domo de Ferro em 2011 e, posteriormente, ao Estilingue de David em 2017, cada inovação ampliou a sensação de proteção dos israelenses e, com ela, diminuiu a percepção da vulnerabilidade. Porque, quando o teto está hermeticamente fechado, não há necessidade de buscar um caminho político a seguir ou vislumbrar um futuro além do conflito.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, estamos entrando na era dos sistemas a laser. O sistema Iron Beam, recentemente integrado à Força Aérea Israelense, pode interceptar mísseis com precisão, rapidez e “a um custo marginal insignificante”, vangloriou-se o Ministério da Defesa no final do ano passado.</p>
<p style="text-align: justify;">A fronteira entre realidade e representação se desfez ao longo do caminho. Em uma transmissão amplamente assistida, um comentarista militar sênior do Canal 12 analisou imagens de videogame como se fossem a documentação de um ataque americano ao Irã, acreditando ser a prova de um bombardeio contínuo.</p>
<p style="text-align: justify;">“Estas são imagens americanas, estamos apenas nos divertindo com elas”, disse ele, enquanto pixels digitais piscavam na tela. “O B-2 está atacando há dias… O que estamos vendo é toda a força do poder americano.” Mais perturbador do que sua identificação errônea das imagens foi a forma como isso ilustrou a transformação da guerra em uma forma de entretenimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre tudo isso, preside uma liderança política que enfrenta pressões legais e diplomáticas. Netanyahu permanece em sua residência em Cesareia com uma intimação pendente para comparecer a Haia. O ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, também é procurado por crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos em Gaza, enquanto o presidente Isaac Herzog aparece em depoimentos apresentados à Corte Internacional de Justiça por sugerir que toda a população de Gaza é responsável pelos ataques de 7 de outubro.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, quando a liderança de Israel é perseguida pelos agentes do direito internacional, a guerra perpétua acarreta implicações que vão além da estratégia. Ela influencia os incentivos, vinculando a sobrevivência política ainda mais à continuidade da crise.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado final é um ciclo conceitual fechado. Tecnologias defensivas, como interceptores, protegem a população; a estabilidade da população sustenta a ordem política; e, juntas, reduzem a pressão para a resolução do próprio conflito.</p>
<p style="text-align: justify;">A visão da “super-Esparta” condensa essa condição de ansiedade existencial em uma única solução de engenharia estéril, na qual garantir o presente com precisão crescente permite um adiamento indefinido da resolução no futuro. Com uma taxa de sucesso de 97%, o Domo de Ferro está interceptando qualquer chance que possamos ter de um futuro normal.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Guevara Bader é um cidadão palestino de Israel e atualmente cursa mestrado na Universidade Ben-Gurion.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Traduzido de: <a class="urlextern" title="https://www.972mag.com/iron-dome-intercepting-normal-future/" href="https://www.972mag.com/iron-dome-intercepting-normal-future/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.972mag.com/iron-dome-intercepting-normal-future/</a></p>
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		<title>Velha Toupeira (40)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Mar 2026 12:30:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cartoons]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158886" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP.jpg" alt="" width="2362" height="787" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP.jpg 2362w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-2048x682.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-1261x420.jpg 1261w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/VT040-FURIA-BELICA-DE-TRUMP-681x227.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2362px) 100vw, 2362px" /></p>
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		<title>Operários da indústria de armas italiana dizem não à guerra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Mar 2026 14:16:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Israel]]></category>
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		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[ Com base em um histórico de resistência à militarização, os trabalhadores da Leonardo estão se organizando contra a cumplicidade da empresa no genocídio em Gaza. Por Futura D’Aprile]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Futura D’Aprile</h3>
<p style="text-align: justify;">Quando Israel recomeçou os bombardeios a Gaza em outubro de 2023, ativistas da solidariedade à Palestina na Itália imediatamente fizeram a ligação com a empresa nacional de armamentos, a Leonardo, e lançaram uma campanha contra ela. A corporação é uma das maiores produtoras de armas do mundo e desempenha um papel importante na produção de componentes para os aviões F-35, usados ​​por Israel no genocídio em Gaza, além de trabalhar em conjunto com empresas israelenses de armamentos como a Elbit Systems.</p>
<p style="text-align: justify;">Instalações da Leonardo têm sido alvo de protestos, interrompendo a produção e aumentando a conscientização sobre o papel que a Itália e seu setor de defesa desempenham na destruição em curso. Crucialmente, a oposição também está crescendo dentro da empresa, com trabalhadores se manifestando contra a venda de armas para Israel e lutando para impedir que uma fábrica da Leonardo no sul do país seja convertida em produção militar.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Trabalhadores se posicionam</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em outubro, um grupo de trabalhadores de uma unidade de produção da Leonardo em Grottaglie, no sul da Itália, publicou uma petição exigindo que a empresa e suas subsidiárias suspendessem todo o fornecimento de material bélico a Israel. A petição pedia o fim de todos os acordos comerciais e relações de investimento com instituições, startups, universidades e organizações de pesquisa israelenses envolvidas em operações militares contra a população palestina.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais de 23.000 pessoas assinaram a petição, que dizia: “A Itália repudia a guerra como instrumento de agressão contra a liberdade de outros povos e como meio de resolver disputas internacionais”.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de Roberto Cingolan, presidente da Leonardo, ter declarado em setembro que a empresa não havia autorizado novas exportações para Israel “desde o início do conflito”, a declaração dos trabalhadores afirmava que a empresa mantinha uma sólida cooperação comercial e militar com Israel e que as licenças de exportação aprovadas antes de outubro de 2023 nunca foram canceladas.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos peticionários de Grottaglie, que pediu para permanecer anônimo, afirma que essa declaração pública ajudou a abrir um diálogo com trabalhadores de outras fábricas da Leonardo: “Mais do que um aumento imediato na oposição explícita, o resultado mais importante foi trazer o assunto para o centro das discussões, fomentando momentos de debate e análise aprofundada.”</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns meses depois, um grupo de trabalhadores da Divisão de Helicópteros de Turim, no norte da Itália, redigiu um boletim sobre a cumplicidade da Leonardo no genocídio em Gaza, que foi distribuído entre seus colegas. A mobilização contra a empresa os inspirou a investigar as relações da Leonardo com seus parceiros estratégicos, particularmente com Israel. Eles estudaram as leis sobre exportações, importações e o trânsito de produtos de defesa na Itália.</p>
<p style="text-align: justify;">“Os relatos amenizados ou flagrantemente distorcidos oferecidos pela grande mídia sobre os eventos em Gaza estão se enraizando entre nossos colegas”, explica um dos trabalhadores de Turim. “Eles não compreendem a gravidade desses eventos, especialmente no que diz respeito aos usuários finais do produto de seu trabalho.”</p>
<p style="text-align: justify;">“Em relação a Israel, nunca tivemos conhecimento dos contratos assinados e das relações internacionais envolvidas.” Eles continuam explicando que, em parte devido a restrições de sigilo industrial, os trabalhadores não têm uma ideia clara de quem usará os equipamentos que produzem; a empresa usa nomes fictícios para os projetos e dá indicações vagas sobre para onde os equipamentos são enviados.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa falta de transparência deixou os trabalhadores profundamente despreparados diante da indignação pública contra a empresa para a qual trabalham.</p>
<p style="text-align: justify;">O que esses funcionários querem é reafirmar sua integridade, explica o trabalhador de Turim: “Fomos ensinados que é nosso dever denunciar irregularidades, desfalques e violações do código de ética em nosso local de trabalho. Existe algo mais repreensível do ponto de vista ético do que colaborar com um governo criminoso que viola abertamente o direito internacional e cujos crimes contra a humanidade são flagrantes e notórios?”</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158860" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL.png" alt="" width="678" height="455" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL.png 678w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL-300x201.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL-626x420.png 626w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL-537x360.png 537w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Leonardo_Students_SOCIAL-640x429.png 640w" sizes="auto, (max-width: 678px) 100vw, 678px" />Não aos aviões de guerra</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores de Grottaglie também enfrentam outra luta, enquanto fazem campanha para impedir que sua fábrica se torne uma engrenagem ativa na máquina de guerra. A fábrica faz parte da Divisão de Aeronáutica do Grupo Leonardo e produz as seções da fuselagem da aeronave Boeing 787, empregando aproximadamente 1.200 pessoas diretamente e 300 em indústrias relacionadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde 2020, quando a pandemia de Covid-19 atingiu duramente a indústria aeronáutica, a produção despencou e a unidade corre o risco de fechar. Em julho de 2024, os sindicatos conseguiram evitar uma paralisação temporária, mas a produção ainda diminuiu. Para evitar o fechamento, a Leonardo quer redirecionar a produção para o setor militar.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um documento compartilhado “offline” entre os trabalhadores, juntamente com a petição sobre ligações com a violência de Israel, os trabalhadores denunciam essa mudança de prioridades. Para os trabalhadores que assinaram a petição, a Leonardo está fazendo uma escolha política.</p>
<p style="text-align: justify;">“O setor civil sempre foi mais estável e resiliente do que o militar, que tem encomendas mais limitadas e é muito mais influenciado por flutuações geopolíticas e decisões governamentais”, explica um dos peticionários, que pediu para permanecer anônimo. “A aviação civil, por outro lado, responde a uma demanda estrutural por mobilidade global, que estagnou durante a pandemia, mas agora retornou a níveis recordes, com previsão de crescimento ainda maior nas próximas décadas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para os trabalhadores de Turim e Grottaglie, o objetivo tem sido promover o diálogo e a conscientização sobre a cumplicidade das empresas com a violência israelense, visando construir uma massa crítica de trabalhadores motivados e bem informados, capazes de se engajar e se mobilizar para mudar a empresa. Eles também buscaram apoio dos principais sindicatos, mas receberam uma resposta morna.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Turim, os sindicatos estão focados na renovação dos contratos metalúrgicos e não estão dando atenção à petição, enquanto em Grottaglie os sindicalistas criticaram abertamente a oposição dos trabalhadores à empresa, pois temem que isso coloque ainda mais em risco o futuro da unidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda assim, os trabalhadores se organizaram fora dessas estruturas tradicionais, compartilhando suas petições com outras unidades de produção da Leonardo na Itália. E estão recebendo uma resposta positiva. A campanha também encontrou eco nos movimentos mais amplos de solidariedade à Palestina e pela paz.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Aprendendo com o passado</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Os trabalhadores da Leonardo estão construindo sobre um legado de oposição dentro da indústria de defesa italiana. Na década de 1980, Elio Pagani, um funcionário da Aermacchi (agora Leonardo), documentou como a empresa forneceu aeronaves à Força Aérea Sul-Africana em janeiro de 1980, durante o apartheid, em violação ao embargo da ONU ratificado pela Itália em 1977. A denúncia de Pagani desencadeou um movimento popular que, em 1990, levou à aprovação pelo parlamento da primeira legislação italiana sobre controle de exportação e importação de armas: a Lei 185/90.</p>
<p style="text-align: justify;">Na década de 1980, a Valsella Meccanotecnica &#8211; empresa conhecida por vender minas antitanque ao Iraque durante a guerra com o Irã &#8211; foi abalada por 18 meses de greves. As trabalhadoras, lideradas por Franca Faita, finalmente venceram: a empresa perdeu importantes parceiros de produção e foi forçada a se dedicar à fabricação para o setor civil devido a uma moratória governamental de 1994 sobre a produção de minas terrestres. A empresa foi liquidada e, em 2005, fundiu-se com uma fabricante de caminhões.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, alguns fatores contextuais fizeram das décadas de 1980 e 1990 um contexto muito diferente para os trabalhadores rebeldes. O sentimento antiguerra na sociedade civil italiana era mais forte nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, e os sindicatos também eram mais independentes e mais antagônicos à política.</p>
<p style="text-align: justify;">“O que favoreceu essas iniciativas foi a presença de fortes movimentos de desarmamento e a existência de conselhos de fábrica abertos à discussão interna entre os trabalhadores e eleitos diretamente por eles”, explica Pagani.</p>
<p style="text-align: justify;">“Delegados, trabalhadores e conselhos de fábrica foram incentivados a questionar o verdadeiro significado do trabalho nas instalações militares e os efeitos das exportações de armamentos. Agora, estamos vivenciando mais de 30 anos de desertificação cultural que afetou tanto as pessoas &#8211; tornando-as mais individualistas &#8211; quanto os sindicatos, cuja atuação enfraqueceu o ímpeto dos trabalhadores.”</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda assim, as conquistas das décadas de 1980 e 1990 foram fruto de muitos anos de trabalho, afirma Pagani. “Os trabalhadores da Leonardo em Grottaglie e Turim devem persistir e buscar apoio em outras unidades de produção da empresa e em outras empresas de defesa. Sua iniciativa deve estar ligada à luta contra a logística bélica travada por estivadores, trabalhadores aeroportuários, ferroviários e de terminais intermodais na Itália.”</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, à medida que os Estados continuam a aumentar os gastos militares em meio a novas e devastadoras guerras, os trabalhadores de fábricas de armamentos em todo o mundo fariam bem em seguir as táticas italianas para desmantelar a militarização a partir de dentro.</p>
<p style="text-align: justify;">Com a guerra sempre à espreita e os Estados aumentando os gastos militares, os trabalhadores do negócio de armas podem ter um papel fundamental a desempenhar, conforme o movimento global contra a militarização grita: Não em nosso nome.</p>
<p style="text-align: center;"><em>Traduzido do original que pode ser acessado aqui: <a class="urlextern" title="https://newint.org/arms/2026/italian-arms-factory-workers-say-no-war" href="https://newint.org/arms/2026/italian-arms-factory-workers-say-no-war" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://newint.org/arms/2026/italian-arms-factory-workers-say-no-war</a></em></p>
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		<title>Geração gamer</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 22:20:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
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					<description><![CDATA[O exército americano acaba de expor seu novo tanque de guerra de última geração, feito sob medida para a geração gamer, como forma de economizar com treinamento. Um coronel declarou: “um adolescente de 13 anos provavelmente seria capaz de dirigir essa coisa mais rápido do que eu”. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O exército americano acaba de expor seu novo tanque de guerra de última geração, feito sob medida para a geração gamer, como forma de economizar com treinamento. Um coronel declarou: “um adolescente de 13 anos provavelmente seria capaz de dirigir essa coisa mais rápido do que eu”. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>As liberdades curdas devem ser sacrificadas em nome da centralização da Síria?</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/01/158572/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Jan 2026 12:40:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
		<category><![CDATA[Nacionalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Síria]]></category>
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					<description><![CDATA[Uma prioridade central para as forças progressistas e democráticas na Síria é interromper o banho de sangue, permitir o retorno seguro dos civis deslocados e lutar contra o discurso de ódio e as práticas sectárias no país. Por Joseph Daher]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joseph Daher</h3>
<p style="text-align: justify;">Apesar de o governo de Ahmed al-Sharaa e as Forças Democráticas Sírias (FDS) terem concordado, na terça-feira, com mais um cessar-fogo, as disputas internas e as tensões no país continuam.</p>
<p style="text-align: justify;">As FDS convocaram uma mobilização geral dos curdos para defender seus territórios em meio às ofensivas militares do governo, que buscam consolidar seu poder na Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">Semanas de confrontos viram as forças armadas governamentais avançarem para os bairros de maioria curda de Sheikh Maqsoud e Ashrafiyeh, em Aleppo, o que resultou no deslocamento forçado de mais de 100 mil civis. Isso culminou com a captura, pelas forças do governo, de grandes partes das províncias de Deir Ezzor e Raqqa, após a retirada das FDS.</p>
<p style="text-align: justify;">A ofensiva militar de Damasco em Aleppo, assim como em outras áreas controladas pelas FDS, ocorreu após o término do prazo de 31 de dezembro de 2025, estipulado no acordo de 10 de março de 2025. Mediado por Washington entre o presidente sírio interino Ahmed al-Sharaa e Mazloum Abdi, chefe das FDS, o acordo buscava integrar os braços civil e militar das FDS ao Estado. No entanto, o impasse político permaneceu.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, a escalada militar ocorreu apenas dois dias após uma reunião em Damasco entre as autoridades sírias e as FDS, com a presença de militares dos EUA.</p>
<p style="text-align: justify;">É evidente que, durante as negociações em curso, as autoridades sírias estavam elaborando um plano para lançar primeiro uma operação militar em Aleppo e, em seguida, estendê-la a outras áreas controladas pelas FDS. Elas mobilizaram diversas tribos árabes — que já mantêm contato com al-Sharaa há algum tempo — em Deir Ezzor e Raqqa, a fim de preparar uma ofensiva geral contra as FDS.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso foi feito com o apoio da Turquia, além de um sinal verde de Washington.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Incerteza</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O cessar-fogo inicial de 18 de janeiro e o acordo de 14 pontos previam a entrada das forças armadas sírias no nordeste do país e a integração das FDS ao exército nacional. Ainda assim, isso não impediu a escalada militar do governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Um novo acordo foi firmado na terça-feira, 20 de janeiro. A Agência Árabe Síria de Notícias (SANA) anunciou que as forças armadas do governo sírio não entrarão nos centros das cidades de al-Hasakah e Qamishli, permanecendo em suas periferias. Damasco também declarou que as forças militares sírias não entrarão em vilarejos curdos e que não haverá forças armadas nesses vilarejos além de forças de segurança locais formadas por residentes da região.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, segundo a SANA, espera-se que Abdi “proponha um candidato das FDS para o cargo de vice-ministro da Defesa, bem como um candidato ao governo de Hasaka, nomes para representação parlamentar e uma lista de indivíduos para emprego em instituições do Estado sírio”. No entanto, muitas incertezas permanecem quanto à viabilidade desses acordos e à sua implementação.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a situação no notório campo de al-Hol, em Hasaka — que abriga famílias e afiliados do Estado Islâmico (ISIS) — está gerando temor real, com relatos alarmantes sobre a fuga de centenas de membros do ISIS.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158573" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women.avif" alt="" width="2500" height="1875" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women.avif 2500w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-300x225.avif 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-1024x768.avif 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-768x576.avif 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-1536x1152.avif 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-2048x1536.avif 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-560x420.avif 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-80x60.avif 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-100x75.avif 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-180x135.avif 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-238x178.avif 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-640x480.avif 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/sdf-women-681x511.avif 681w" sizes="auto, (max-width: 2500px) 100vw, 2500px" />Apoio externo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Embora os EUA (junto com a França) estivessem oficialmente trabalhando para reduzir as tensões entre os dois atores e, apesar de serem parceiros de longa data das FDS no combate ao Estado Islâmico (ISIS), Washington não impôs nenhuma pressão significativa para interromper as ações militares do governo sírio.</p>
<p style="text-align: justify;">Na prática, os EUA tornaram-se um importante apoiador das novas autoridades governantes, como evidenciado pelas múltiplas reuniões entre Trump e al-Sharaa, bem como pela retirada das sanções Caesar em dezembro de 2025.</p>
<p style="text-align: justify;">Após a queda do regime de Assad, a Turquia tornou-se um dos atores regionais mais importantes na Síria, especialmente no norte do país. Ao apoiar as autoridades sírias dominadas pelo Hay&#8217;at Tahrir al-Sham (HTS), Ancara consolidou sua influência sobre o país.</p>
<p style="text-align: justify;">Além de pressionar pelo retorno de refugiados sírios e buscar lucrar com as oportunidades econômicas oferecidas pela reconstrução, o principal objetivo da Turquia é negar as aspirações curdas por autonomia — percebidas como uma ameaça à segurança nacional — e desmantelar a Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria (AANES).</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Fragilidades</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em poucos dias, as autoridades governantes sírias capturaram dois terços dos territórios controlados pelas FDS. Para além dos aspectos geoestratégicos imediatos, esse avanço rápido também demonstra as limitações do projeto político da AANES entre populações não curdas, especialmente árabes. Ao longo dos anos, setores da população árabe protestaram contra discriminação, práticas de “segurança” direcionadas, prisão de ativistas e a falta de representação real nas instituições da AANES.</p>
<p style="text-align: justify;">Em vez de desenvolver estratégias para conquistar o consentimento das classes populares árabes nas áreas sob seu controle, as lideranças das FDS optaram por colaborar com líderes tribais para administrar as populações locais. No entanto, esses líderes tribais são conhecidos por mudar de lealdade conforme os atores políticos mais poderosos do momento e por focar na defesa de seus próprios interesses materiais. À medida que o equilíbrio de forças se deslocou progressivamente em favor de Damasco, os líderes tribais seguiram o mesmo caminho.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, a confiança equivocada da liderança das FDS na continuidade do apoio dos EUA, bem como a falta de interesse em construir alianças políticas mais amplas e profundas com forças democráticas e progressistas do país, enfraqueceram a sustentabilidade do projeto político das FDS.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158575" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747.jpg" alt="" width="1024" height="682" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-631x420.jpg 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-640x426.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/Syria-Qamishli-Turkey-Kurds-resolution-12-19-2024-Delil-Souleiman-AFP.jpg-2081158747-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />Centralização do poder</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em última instância, a recente ofensiva militar das forças armadas do governo deve ser entendida como parte da tentativa contínua das atuais elites governantes sírias de centralizar o poder e rejeitar um caminho mais inclusivo para o futuro da Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse tem sido o caso desde a queda de Assad. Nos meses seguintes, violações significativas de direitos humanos foram cometidas sob a liderança de al-Sharaa, notadamente os massacres de populações alauítas e drusas no litoral e em Sweida. Paralelamente a esses ataques, as autoridades governantes também buscaram restringir direitos e liberdades democráticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, as autoridades governantes e seus apoiadores são acusados de promover um discurso agressivo contra os curdos e as FDS, com alegações de racismo significativo e de violações de direitos humanos cometidas por forças governamentais e grupos armados aliados.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, o ministro sírio dos Assuntos Religiosos, Mohammad Abu al-Khair Shukri, emitiu uma diretriz religiosa conclamando mesquitas em todo o país a celebrar o que descreveu como “conquistas e vitórias” das forças alinhadas a Damasco no leste da Síria, e a rezar pelo sucesso dos soldados do Exército Árabe Sírio.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, ao incentivar especificamente a menção ao versículo seis da Surata al-Anfal do Alcorão, sugere-se que ele pretendia fazer referência à campanha militar Anfal de 1988, conduzida por Saddam Hussein contra os curdos no atual Curdistão iraquiano, marcada por ataques químicos, assassinatos em massa e destruição generalizada.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar desse contexto preocupante, governantes regionais e internacionais continuaram a apoiar as autoridades sírias, legitimando e fortalecendo seu poder sobre o país.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, embora al-Sharaa tenha concedido direitos linguísticos, culturais e de cidadania à população curda na Síria, bem como cargos oficiais no Estado, permanecem temores legítimos.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma prioridade central agora para as forças progressistas e democráticas na Síria é interromper o banho de sangue, permitir o retorno seguro dos civis deslocados e lutar contra o discurso de ódio e as práticas sectárias no país. O futuro da Síria está em jogo. De fato, as novas autoridades governantes demonstraram que seus planos não representam uma ruptura radical com as práticas autoritárias do antigo regime.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, Damasco não oferece planos para uma representação política democrática e inclusiva nem para o compartilhamento de poder. Todos os sírios que buscam democracia, justiça social e igualdade deveriam se preocupar com essas dinâmicas e combatê-las com todas as suas forças.</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Joseph Daher é acadêmico e autor de Syria after the Uprisings*, The Political Economy of State Resilience; Hezbollah: the Political Economy of Lebanon&#8217;s Party of God; Marxism and Palestine.</strong></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>*Publicado no Brasil pela <a href="https://contrabando.xyz/product/siria-depois-do-levante/?srsltid=AfmBOoqMmJGS3uEx-QIaV5PpPp_I517ylfZTObMC4bqjQVY4J5RQc4Zr" target="_blank" rel="noopener">Contrabando Editorial</a>, com o título </em><strong>Síria depois do Levante</strong><em>. Publicamos um capítulo intitulado &#8220;A questão curda na Síria&#8221; <a href="https://passapalavra.info/2023/09/150055/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Traduzido do original em inglês, publicado em </em><a class="urlextern" title="https://www.newarab.com/opinion/should-kurdish-freedoms-be-sacrificed-syrias-centralisation" href="https://www.newarab.com/opinion/should-kurdish-freedoms-be-sacrificed-syrias-centralisation" rel="ugc nofollow">The New Arab</a></p>
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		<title>Do Jacarezinho à Penha: o narcoestado em sua maturidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 21 Jan 2026 16:51:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Bairros_e_cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[A favela, reduzida à condição de campo de guerra, é também a expressão mais radical do fracasso — ou melhor, do sucesso — da ordem capitalista. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Em 5 de maio de 2021, o massacre do Jacarezinho marcou uma ruptura simbólica: pela primeira vez em décadas, o Estado brasileiro agiu sem qualquer pudor em exibir a face nua da sua função repressiva. Naquele episódio, vinte e oito pessoas foram executadas sob o pretexto de uma operação “contra o tráfico”, mas o que se viu foi o ensaio geral de uma nova forma de governar — um governo pela morte. O texto que escrevi então, intitulado <em>Jacarezinho e o Narcoestado</em>, já apontava esse caminho: o Estado não “falha” ao matar, ele cumpre sua função estrutural de defesa dos interesses das classes dominantes, transformando o controle social em fonte de lucro e poder. Aquele massacre foi o laboratório da doutrina que amadureceria quatro anos depois, nas favelas da Penha e do Alemão. O que mudou entre 2021 e 2025 não foi a natureza da violência, mas sua administração: a morte tornou-se um dado de gestão, planejada, mensurada, legitimada como política pública. O que era “excesso” virou método; o que era “ilegal” virou norma. Do Jacarezinho à Penha, percorremos o itinerário completo de um Estado que, em meio à crise estrutural do capitalismo dependente, já não disfarça sua fusão com as forças do crime, da milícia e do capital. A repressão não é resposta à desordem — é o próprio modo de produzir ordem. E essa ordem se ergue sobre o extermínio cotidiano de uma população negra e periférica, herdeira dos quilombos e das senzalas, hoje confinada em territórios de abandono onde o Estado se ausenta como direito e reaparece como bala. Se o Jacarezinho foi o ensaio, a Penha é a maturidade do narcoestado: o momento em que a barbárie deixa de ser exceção e se torna a linguagem administrativa do poder.</p>
<p style="text-align: justify;">A operação intitulada “Contenção”, deflagrada em 28 de outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha no Rio de Janeiro, responde a uma dinâmica que há décadas vem se reproduzindo. A novidade reside apenas na escala — o aparato mobilizado, os mortos contabilizados, a cobertura midiática — mas o núcleo da ação permanece intacto: a velha guerra contra o tráfico de drogas, as facções, o “poder paralelo”. O que muda, e com intensidade, é que essa guerra se converteu em política de Estado. Logo, para compreendê-la, devemos deslocar o foco da contenda imediata para o fundamento estrutural: por que essa guerra é vital ao Estado? Por que ela se realiza exatamente nos territórios periféricos? Quem são seus agentes reais — não apenas visíveis à luz da mídia, mas aqueles que continuam invisíveis porque se inserem no funcionamento do sistema?</p>
<p style="text-align: justify;">O Estado burguês, forma política do capital, tem por pressuposto a defesa dos interesses das classes dominantes e de suas classes auxiliares. O aparato repressivo, portanto, é componente ordinário. A Operação Contenção evidencia menos a “naturalização” abstrata da força letal e mais um regime de legalidade gerencial: dispositivos jurídicos, métricas operacionais e rotinas administrativas que <strong>convertem a </strong>morte e a coerção em indicadores de desempenho. As falas do secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, não apenas justificam a letalidade; elas a integram a um desenho de governo em que apreensões, autos de resistência arquivados, “neutralizações”, narrativas de “narcoterrorismo” e cooperação interagências funcionam como chaves de autorização para orçamento, compras públicas, blindagem política e expansão tecnológica. Ao declarar que o Rio “vive um estado de guerra”, Curi enuncia uma doutrina de gestão territorial: ausência social estruturada (sem escola de tempo integral, creche, saúde, renda, cultura) e hiperpresença policial como tecnologia de controle. Esse arranjo produz inimigos substituíveis (a mão de obra juvenil negra) e <strong>soberanias sobrepostas</strong> (Polícia Civil, PM, PRF, Forças Armadas, MP e Judiciário) que <strong>distribuem a exceção</strong>, mantendo-a lícita e repetível. Em termos materiais, isso <strong>reordena o espaço urbano</strong> (valorização fundiária seletiva, expulsões lentas, captura de serviços informais) e <strong>fornece fluxo de renda</strong> para a economia da segurança. A favela — <strong>quilombo contemporâneo de sobrevivência negra</strong> — é alvo preferencial porque <strong>o próprio Estado se retirou como garantidor de direitos</strong> e reaparece como <strong>gestor do risco e da punição</strong>, impondo à juventude negra — majoritariamente criada por <strong>mães solo</strong>, com pais mortos ou encarcerados — <strong>um cardápio de explorações equivalentes</strong>: o subemprego degradado ou o recrutamento por organizações armadas que <strong>disputam, com o Estado, a extração de valor</strong> dos mesmos corpos. A letalidade não é erro; <strong>é método contábil da ordem</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O uso da expressão <strong>“estado de guerra”</strong> também é revelador. Ela legitima a militarização total da vida civil, a suspensão prática das garantias constitucionais e a instauração de um regime de exceção permanente nos territórios periféricos. Ao afirmar que “a alta letalidade era previsível, mas não desejada”, ele naturaliza o massacre. A previsibilidade da morte é, para ele, um dado operacional — uma espécie de efeito colateral aceitável dentro da lógica da segurança. Essa frase contém toda a essência da racionalidade instrumental que domina o Estado capitalista em crise: a morte não é um erro, mas um custo calculado, inscrito na contabilidade da gestão social. A afirmação de que “as vítimas dessa operação foram os militares mortos ou feridos” é um gesto de desumanização total. Reduzir dezenas de civis executados a “criminosos que optaram por não se render” é uma forma moderna de eugenia política. A palavra “opção” desloca a responsabilidade: os mortos tornaram-se culpados de sua própria execução. A necropolítica de Estado transforma o poder de matar em ato administrativo. O secretário também reforça o velho argumento de que o governo estadual age “sozinho” contra o crime, reclamando da falta de apoio federal. Essa retórica é estratégica: produz a imagem de um Estado heroico e abandonado, lutando contra forças maiores. Mas, na prática, serve para esconder o verdadeiro abandono — o do povo pobre, o das favelas, o dos trabalhadores precarizados que vivem sob cerco. A disputa entre governo estadual e governo federal é apenas disputa de gestão da barbárie. Nenhum dos lados questiona o princípio fundamental da política de segurança: o de que a vida periférica é descartável e o território popular é zona militarizada.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158561" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146.jpg" alt="" width="1392" height="835" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146.jpg 1392w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-300x180.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-1024x614.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-768x461.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-700x420.jpg 700w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-640x384.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/112853072-ri-rio-de-janeiro-rj-29-10-2025-operacao-policial-mais-letal-do-rio-de-janeiro-com-corpo-3920183146-681x409.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1392px) 100vw, 1392px" />Quando Curi afirma que a operação foi “planejada” e que “cumpriu as normas legais”, temos a normalização do absurdo. Cumprir a lei enquanto se assassinam dezenas de pessoas é o sinal inequívoco de que a legalidade foi totalmente absorvida pela lógica da exceção. O problema não é o descumprimento da lei — é a lei que já incorporou o crime como sua função. A modernidade jurídica burguesa sempre conviveu com a violência como fundamento; mas agora, sob a decomposição do Estado burguês, essa violência emerge à luz do dia como princípio organizador. A lei e o fuzil são instrumentos complementares da mesma racionalidade de controle. O discurso de Felipe Curi não difere, em essência, das doutrinas contrainsurgentes elaboradas durante a ditadura militar. A ideia de “territórios hostis”, “guerra interna”, “poder paralelo” e “eliminação do inimigo” são as mesmas. Apenas mudaram o cenário e a semântica. O inimigo, antes identificado como “subversivo”, é hoje o “traficante”, o “criminoso”, o “narcoterrorista”. A função política é idêntica: manter a população aterrorizada, justificar o orçamento bélico, garantir a disciplina da força de trabalho e impedir a organização autônoma das classes subalternas. A favela é tratada como colônia interna — espaço de ocupação e saque, laboratório da política de exceção.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o secretário diz que “o Rio vive um estado de guerra”, ele não mente — apenas não diz quem declarou essa guerra. Não foram os moradores que invadiram as instituições; foi o Estado que invadiu os lares dos trabalhadores. A guerra não é entre “o bem e o mal”, como repete a imprensa, mas entre o capital e a vida. As forças de repressão são o braço armado da acumulação, necessárias para conter o excedente humano que o capital não absorve. Por isso, essa guerra não termina. Ela é vital ao funcionamento do sistema. Ela renova a legitimidade de governos que se sustentam pelo medo e pela promessa de ordem, e movimenta toda uma economia paralela de segurança, armas, blindados, vigilância, contratos e corrupção. A fala de Curi é exemplar de uma classe dirigente que governa pela violência e pela mentira. Seu discurso combina tecnocracia e brutalidade, moralismo e cinismo. Ao justificar o massacre em nome da legalidade, ele reafirma o dogma central do Estado burguês: a preservação da propriedade e da hierarquia social acima da vida. No fundo, o que Santos chama de “contenção” é a gestão da miséria. É a administração do excesso humano produzido pela crise estrutural do capitalismo dependente. É o modo pelo qual o Estado regula o fluxo da barbárie que ele mesmo produz.</p>
<p style="text-align: justify;">A guerra urbana é o instrumento de contenção da superpopulação relativa — uma massa de trabalhadores precarizados, racializados e confinados nos territórios periféricos, cuja existência excede as necessidades de valorização do capital, mas cuja disciplina é vital à estabilidade da ordem. O que se chama de “combate ao tráfico” é a máscara ideológica dessa contenção: um dispositivo que converte a pobreza em ameaça e a miséria em inimigo. A guerra contra o Comando Vermelho é o álibi que legitima o reordenamento social e territorial exigido pelo capital — reorganiza a cidade, valoriza o solo, desloca populações, reconfigura poderes locais e renova o pacto entre Estado, milícia e mercado. Desde meados da década de 1980, como mostram estudos de Loïc Wacquant, entre outros, o aparato estatal trata as favelas como zonas de exceção: territórios coloniais internos onde se exercita a soberania do extermínio. O que estamos diante, portanto, é de um Estado que internalizou a necropolítica; a chamada “guerra às drogas” é método de governo — uma política de morte administrada em nome da ordem. Por que esse confronto se realiza, e mais ainda, por que se concentra nos territórios como o Morro do Alemão/Penha? Esses espaços são exemplos paradigmáticos: densos assentamentos periféricos, população majoritariamente negra, renda per capita inferior à média da cidade, infra-estrutura pública deficiente — e historicamente sob o controle, parcial ou total, de facções armadas (como Comando Vermelho) ou de milícias que surgiram no vazio estatal. Esse entrelaçamento entre informalidade econômica, ausência estatal e violência organizada é largamente documentado. Ali se instaurou uma governança paralela — criminal, política, econômica — e o Estado, longe de erradicá-la de modo frontal, passa a disputá-la ou a se fundir com ela. O território da favela constitui, então, um laboratório de acumulação de exceção: nela a população é alvo de policiamento militarizado, desaparecimento de garantias, letalidade elevada e lucro mediante extração (direta ou indireta) das suas vidas. Vejamos a dinâmica concreta da operação: milhares de agentes (2.500 segundo fontes) mobilizados em blindados, drones, armas automáticas; a reivindicação governamental de “narcoterrorismo”; múltiplos corpos deixados nas ruas; escolas fechadas; transporte interrompido. Isso revela que a operação não se dirigia apenas a líderes do tráfico, mas visava um território como conjunto. Em tal operação, a morte é parte do desenho. A continuidade do projeto de Estado-guerra torna-se visível. O que ocorrera em 5 de maio de 2021 no Jacarezinho foi, portanto, ensaio: a maturidade se verifica agora. O que ocorre é uma política de contenção ativa, não um remendo de segurança pública. O aparato repressivo coincide com o “arranjo” do narcoestado: Estado, milícia/facção, capital imobiliário e burocracia de segurança rendem-se à lógica da excepção permanente.</p>
<p style="text-align: justify;">O que o Estado chama de “território conflagrado” são, na verdade, territórios de sobrevivência negra — verdadeiros quilombos modernos, erguidos sobre as ruínas da cidadania negada. A favela, historicamente, foi o refúgio dos descendentes da escravidão, empurrados para os morros e para as franjas urbanas por um projeto sistemático de exclusão. Ao longo das décadas, o poder público se retirou desses espaços, abandonando gerações inteiras à sobrevivência e à violência cotidiana. Onde o Estado não constrói escolas de tempo integral, não garante creches, não oferece alternativas de renda ou de lazer, instala-se a lei do desespero. Os jovens negros, crescem entre duas únicas possibilidades: a exploração direta pelo capital, em trabalhos degradantes e sem futuro, ou a exploração pelas organizações criminosas que disputam o controle territorial com o próprio Estado. Ambas operam segundo a mesma lógica: a de extrair vida e energia de corpos negros descartáveis. A ausência de políticas públicas não é omissão; é método. O abandono é forma de dominação. A favela, reduzida à condição de campo de guerra, é também a expressão mais radical do fracasso — ou melhor, do sucesso — da ordem capitalista em manter um povo sob controle pela carência.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158565" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581.jpg" alt="" width="2560" height="1440" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-300x169.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-1024x576.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-768x432.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-1536x864.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-2048x1152.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-747x420.jpg 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-640x360.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/2025-10-29t120243z-1265718824-rc2klhagnwwd-rtrmadp-3-brazil-violence-3050661581-681x383.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" />Mas por que existe esse confronto, além da cobertura ideológica “combate ao tráfico”? Porque o território periférico habita duas funções para o capital: função de reserva de vida e função de acumulação através da precarização. O estado-capital, em crise estrutural, precisa disciplinar o excedente humano que o sistema econômico não absorveu: jovens negros descartados, desempregados, subempregados. A favela, então, deixa de ser apenas cenário de “crime” e passa a ser palco de uma reorganização da força de trabalho, da valorização fundiária das suas encostas, e da extração direta de renda — via transporte informal, gás, eletricidade paralela — gerida por milícias ou traficantes. A repressão violenta serve à contenção desse excedente e à reorganização disciplinar da periferia. Assim, esse confronto é componente estrutural da governança neoliberal tardia em contextos dependentes como o Brasil. A ideologia da “guerra às drogas” opera como mecanismo de racialização das periferias, legitimando o abate de corpos como política de Estado. Nessas condições, a guerra não “combate o crime”, ela produz o crime como vetor de disciplina. O que se chama “crime organizado” é ao mesmo tempo agente econômico e instrumento de governança.</p>
<p style="text-align: justify;">E mais: esse confronto se concentra em territórios como Alemão/Penha porque ali a resistência institucional é débito — presença estatal fragilizada, burocracia limitada, infraestrutura deficiente. A facção domina, sim, mas justamente porque o Estado permitiu o vácuo. Projetos como as Unidade de Polícia Pacificadora (UPPs) foram tentativas de ocupação pacificadora, sobretudo em função de mega-eventos, mas não alteraram profundamente os mecanismos estruturais — com retorno da violência e da repressão militarizada. O confronto cresce justamente quando o Estado decide que não tolera mais a autonomia paralela da facção — não para “libertar” o território, mas para assumir ou cooptar esse domínio e inseri-lo no arranjo da acumulação capitalista dependente. A facção é parte da engrenagem: tráfico, milícia, mercado imobiliário, transporte informal — tudo isso absorve a favela no ciclo. O ataque, portanto, não é contra a “criminalidade” puramente, mas contra um rival que precisa ser disciplinado para que a ordem funcional prossiga. Essa contenção, contudo, não se dá num lúdico vazio: ela se dá pela normalização da exceção. A operação reafirma que o Estado opera segundo nova lógica: a exceção não é suspensa, é internalizada. O direito democrático, a jurisdição civil, tornam-se acessórios. Como analisa a teoria crítica da necropolítica, o Estado define quem “pode viver” e quem “deve morrer”. Isso é visível nas favelas onde jovens negros são mortos por operações policiais com quase nenhuma responsabilização. O sistema de garantias tampouco opera com intensidade. A impunidade é parte integrante: a letalidade elevada se legitima pela ausência de consequências reais. É certo como o nascer do dia que as forças responsáveis sairão incólumes. A operação de 2025 confirma: seletividade letal + impunidade = regime de guerra permanente.</p>
<p style="text-align: justify;">E nesse ponto se impõe: nem a esquerda institucional nem a direita resolverão o problema — porque ambas são parte da lógica da barbárie criminosa promovida pelo Estado. A direita homenageia o exterminador, a esquerda pede “menos letalidade”, “reforma policial”, “mais direitos humanos” — mas mantém intacta a compreensão de que o Estado-segurança pode curar o mal social. Essa crença é falsa. O que temos é o próprio Estado-segurança agindo como gestor da violência e da disciplina social. A esquerda institucional replica a confiança no Estado e na fórmula de policiamento, apenas com cor diferente. A direita replica com maior virulência. Em ambos os casos, reproduz-se o narcoestado. Quando examinamos a gestão de Cláudio Castro no Rio de Janeiro, percebemos que ele não inaugura o modelo — ele o aprofunda. Não é a causa, mas o operador consciente de uma maturidade do modelo. Ele governa por meio da guerra, faz da operação letal sua marca, contabiliza mortos como troféus de poder. E mais importante: institucionaliza a lógica da exceção. A mídia anuncia “a maior operação em 15 anos”, os jornais festejam o aparato, os analistas falam em “choque de ordem”. Mas a verdade é que esta operação diz menos sobre um governo, e mais sobre o funcionamento avançado do regime capitalista dependente brasileiro — em que a periferia é zona de sacrifício, de extração, de experimentação da governança de exceção. A letalidade não é falha da democracia — é parte da sua fibra repressiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda mais: esse modelo de controle e exceção está intrinsecamente ligado à acumulação de capital — imobiliário, transporte, serviços informais, gás, eletricidade clandestina. As facções e milícias operam com o apoio tácito do Estado ou sob sua tolerância. Elas fornecem canais de lucro, controlam territórios, garantem “serviços” e absorvem o excedente. O Estado, quando entra com a operação, não entra para “erradicar” esse sistema — entra para reorganizá-lo sob sua tutela ou sob nova hegemonia. A Operação Contenção é momento em que o Estado reivindica esse território como seu e anuncia que a lógica é “ou o Estado ou o criminoso”, mas o criminoso já é parte do Estado. Logo, o que se anuncia é: “Nós tomamos o comando”. E o comando exige espetáculo, letalidade, vigilância e medo. Para os moradores da favela, essa guerra não traz segurança — traz terror. Para o capital, traz oportunidade: valores fundiários das encostas sob risco caem; investidores especulam; transporte informal é controlado; violência gera terceirização de segurança privada; o aparato repressivo justifica verbas, contratações e negócios de guerra urbana. No final, a favela torna-se duplamente explorada: pela facção/mercado e pelo Estado repressivo. A cura prometida jamais vem, porque o caminho escolhido foi o da guerra, não da inclusão.</p>
<p style="text-align: justify;">O que está em jogo não é “menos letalidade” ou “melhor polícia”: é a superação do regime de segurança como política social. A solução não está no Estado, mas contra o Estado da segurança. A tarefa para a vanguarda política não é reformar a polícia, mas superar o regime de acumulação e disciplina que justifica sua letalidade. O inimigo não é apenas o traficante nem apenas o policial: é o arranjo que transforma corpos (principalmente corpos negros e periféricos) em território de guerra, lucro e impunidade. A Operação Contenção mostra que o tempo do narcoestado já alcançou sua maturidade: não é mais fratura ou exceção — é forma de governo. É essencial que reconheçamos isso para que possamos pensar uma saída que rompe com a lógica da contenção, que substitui a guerra por democracia substancial, reparação, transformação estrutural e protagonismo da classe trabalhadora periférica. Sem isso, estaremos sempre dizendo “menos letalidade” enquanto a guerra avança, e estaremos sempre constatando os corpos mortos sem investigar o sistema que os produz.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há como combater essa lógica com reformas. A esquerda institucional, ao clamar por “aperfeiçoamento da polícia”, “respeito aos direitos humanos” ou “nova política de segurança”, apenas reforça o edifício da dominação. Querem humanizar a barbárie, sem abolir sua causa. A direita, por outro lado, faz da barbárie sua bandeira, exigindo mais armas, mais fuzis, mais sangue. Ambas são faces do mesmo projeto: a manutenção da ordem capitalista e a perpetuação da miséria. A saída não está entre essas alternativas. A saída está na recusa radical dessa estrutura — na organização autônoma dos trabalhadores e dos povos periféricos, na construção de uma política de libertação que não dependa do Estado, mas o confronte. A história cobrará caro por essa normalização do horror. Quando o Estado chama de “guerra” o que é massacre, quando chama de “contenção” o que é extermínio, quando chama de “planejamento” o que é barbárie, já não restam dúvidas sobre o caminho percorrido. O Rio de Janeiro, sob Cláudio Castro e Felipe Curi, tornou-se o espelho mais límpido da degradação do Estado burguês brasileiro: um regime de segurança que não protege, uma democracia que mata, uma lei que justifica a exceção. E enquanto não rompermos esse círculo infernal, o país inteiro seguirá sendo governado pela morte.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158560" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879.jpg" alt="" width="900" height="613" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-300x204.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-768x523.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-617x420.jpg 617w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-640x436.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/AA1QiUgA-1089320879-681x464.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />As forças armadas, inseridas nesse processo, cumprem o papel de guardiãs da propriedade e da estabilidade social, não o de defensores do povo. Sua função é assegurar que a guerra interna permaneça confinada às fronteiras invisíveis que separam o mundo legal do mundo descartável. São elas que definem onde o sangue pode ser derramado e onde deve haver silêncio. Essa estrutura vem se sofisticando. Desde as campanhas coloniais, a força armada do Estado se orienta menos pela defesa da soberania nacional e mais pela repressão das insurreições internas. É um exército voltado para dentro, para o controle de sua própria população. A operação de 2025 é apenas a face atualizada dessa função histórica. A verdadeira função das forças armadas nessa guerra é, portanto, política. Elas não combatem drogas, nem defendem vidas: asseguram a permanência de um regime de dominação. Funcionam como mediadoras entre as elites econômicas, o capital financeiro e os aparelhos policiais. Sua presença é a garantia de que a violência não transborde, de que a revolta popular não encontre brecha, de que a guerra permaneça controlada e produtiva. A militarização da vida cotidiana é a resposta preventiva à ameaça latente de desobediência social. É uma forma de neutralizar qualquer possibilidade de ruptura. O terror é método. É necessário compreender que a economia do tráfico e a economia formal não são mundos separados. O dinheiro do tráfico circula por bancos, financia campanhas, compra imóveis, sustenta empresas de fachada. A fronteira entre o legal e o ilegal é apenas uma convenção ideológica. O que existe, de fato, é uma divisão funcional do trabalho violento. O Estado regula quem pode matar, quem pode lucrar e quem deve morrer. Essa regulação é o coração da política de segurança. Por isso as operações nunca atingem os circuitos superiores do narcotráfico. A guerra é travada contra o elo mais fraco, contra a mão de obra precarizada, contra o corpo que serve de escudo para a economia da morte.</p>
<p style="text-align: justify;">A reorganização promovida pelo Estado por meio da Operação Contenção é um ajuste na topografia do poder. Não se trata de restaurar a ordem, mas de redistribuir o caos. A cada massacre, as linhas de comando se redesenham, as alianças se refazem, o equilíbrio se recompõe. O que se vende como vitória é, na verdade, a manutenção do mesmo sistema em novas bases. A operação funciona como ritual de purificação: o Estado demonstra força, a mídia celebra, a classe média sente-se protegida, e o capital respira aliviado. A violência cumpre sua função simbólica de renovar a fé na autoridade, ao mesmo tempo em que reconfigura as relações de poder dentro da própria máquina estatal. O combate ao tráfico é uma ficção necessária. Ele alimenta o mito da autoridade moral e a crença na neutralidade das instituições. Mas o que se esconde sob esse discurso é o velho funcionamento da dominação de classe: o uso da violência seletiva como instrumento de governo. A operação não combate o crime; combate a possibilidade de emancipação. A cada corpo abatido, a cada casa invadida, o Estado reafirma que não há saída fora da sua tutela. A guerra é o modo de impedir que o povo perceba que o verdadeiro inimigo é o sistema que o extermina em nome da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">A contenção, portanto, é mais do que uma política de segurança: é uma política de classe. Seu objetivo não é proteger, mas preservar. Preservar o lucro, preservar o medo, preservar o silêncio. O Estado se reorganiza quando as contradições sociais ameaçam escapar ao seu controle. Ele recalibra suas engrenagens, desloca o foco da crise econômica para o inimigo interno, e oferece à sociedade o espetáculo da guerra como catarse. Cada operação é uma pedagogia de submissão: ensina que a paz é privilégio, que a vida é concessão e que a morte é merecida. Ao fim, o que a Operação Contenção revela é o rosto nu do poder: o Estado como administrador do crime, o exército como tutor da ordem, a polícia como mediadora entre o legal e o ilegal. E enquanto a sociedade continuar acreditando que o problema é o “tráfico”, e não o sistema que o produz e o regula, a barbárie continuará sendo a linguagem oficial da política. A verdadeira contenção é a do povo: contido pelo medo, pela miséria e pela morte. É essa a vitória silenciosa do Estado sobre a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">A guerra interna brasileira é um projeto de Estado, não de governo. Sua permanência através das décadas revela que a repressão é uma necessidade funcional. O capital precisa de ordem para continuar existindo; e o Estado, sua forma política, se encarrega de garantir que essa ordem seja mantida pela violência legalizada. Mudam-se os governos, alternam-se os discursos, mas a estrutura permanece. Quando se fala em “forças de segurança”, fala-se na coluna vertebral da dominação burguesa. Ela é o verdadeiro partido permanente do Estado. O governo federal, em qualquer de suas versões, não se limitou a reproduzir essa estrutura — ele a expandiu. A crença de que o fortalecimento das instituições republicanas implicaria uma democracia mais robusta serviu de justificativa para a ampliação inédita dos aparatos repressivos. Durante os anos de euforia desenvolvimentista, a aposta era clara: blindar o Estado contra qualquer ameaça de ruptura social. Quando Dilma Rousseff inaugurou a chamada “Cidade da Polícia”, não estava promovendo modernização técnica ou eficiência administrativa; estava consolidando a centralização do controle policial e militar sobre o território urbano. Aquele complexo de delegacias especializadas, laboratórios e forças táticas sintetizava o projeto do Estado brasileiro pós-2003: sofisticar a repressão sob a estética da gestão.</p>
<p style="text-align: justify;">A construção da “Cidade da Polícia” foi apresentada como símbolo de racionalidade e de combate à corrupção dentro das corporações. Mas o que ela de fato instituiu foi um modelo de integração entre inteligência policial, poder judiciário e tecnologia militar — um salto qualitativo na coordenação das forças repressivas. Sob o pretexto de combater o crime organizado, o Estado organizou a sua própria estrutura de guerra permanente. A esquerda institucional chamou isso de “segurança cidadã”; a direita, de “ordem e progresso”. Na realidade, tratava-se de consolidar a vigilância sobre os corpos e as vozes que ameaçavam a estabilidade da acumulação. O projeto político de “pacificação” dos territórios periféricos, as UPPs, e o investimento em infraestrutura policial foram faces da mesma moeda. A suposta integração social das favelas serviu de laboratório para a gestão militar da pobreza.</p>
<p style="text-align: justify;">O compromisso do governo federal com as Forças Armadas jamais foi de confronto, mas de conciliação e recompensa. O orçamento da defesa, ao longo de duas décadas, cresceu exponencialmente. Nenhum governo ousou reduzir a influência política dos militares; ao contrário, todos procuraram reconvertê-la em força estabilizadora. As Forças Armadas foram mantidas como poder tutelar da república. Receberam verbas, cargos, homenagens e um papel central na legitimação moral do Estado. A velha casta fardada foi incorporada à máquina administrativa como símbolo de eficiência e patriotismo, ocultando sua função real: garantir que o povo permaneça no seu lugar. O fortalecimento das estruturas repressivas, nesse contexto, não é uma falha dos governos populares, mas sua contradição interna. Ao buscar governar para todos, mantiveram intactas as bases da dominação de classe. A conciliação com os militares e com a polícia foram o preço pago para assegurar a estabilidade institucional. Mas o preço cobrado foi alto: a militarização da vida. A retórica da “cidadania armada” e da “guerra ao crime” substituiu o horizonte de emancipação pela promessa de ordem. Assim, o Estado ampliou seus instrumentos de controle sobre as massas ao mesmo tempo em que se apresentava como seu protetor. A repressão deixou de ser atributo da direita e tornou-se política de Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">O governo federal atua como fiador moral e financeiro dessa estrutura. É quem garante o fluxo de recursos, os programas de modernização, os convênios de tecnologia e a retaguarda política para as operações de guerra interna. Mesmo quando critica as chacinas, o faz dentro dos limites da legalidade que ele próprio sustenta. Os governos progressistas e conservadores divergem no discurso, mas convergem na prática: nenhum rompeu com o pacto armado. O exército segue controlando a Amazônia sob a lógica da segurança nacional, as polícias seguem militarizadas e os territórios urbanos seguem vigiados por câmeras, drones e bases móveis. O Estado democrático de direito é, na prática, um Estado de exceção administrado. Nesse quadro, o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, é apenas a personificação regional dessa engrenagem. Advogado, católico militante e aliado orgânico da extrema-direita, Castro é a expressão mais nítida do consenso repressivo. Herdou o cargo após o impeachment de Witzel e foi reeleito com o apoio das milícias políticas, dos empresários da segurança e do clero fundamentalista. Seu governo se sustenta sobre três pilares: a repressão armada, o moralismo religioso e a aliança com o capital imobiliário. Ele governa pela guerra e através da fé. Cada operação policial é um sermão sobre a necessidade da morte para garantir a paz.</p>
<p style="text-align: justify;">Castro governa como um síndico do narcoestado. Administra o pacto entre o Estado formal e as forças ilegais que realmente controlam o território. Sua função é coordenar a convivência entre polícia, milícia e facções, equilibrando interesses e redistribuindo lucros. Quando um desses elementos se torna disfuncional — quando a violência escapa do script, quando o tráfico desafia a hierarquia ou quando a opinião pública exige espetáculo — o governador autoriza a chacina. A Operação Contenção é parte desse mecanismo de ajuste. Sob o pretexto de combater o “narcoterrorismo”, o Estado redefine as fronteiras da sua soberania e reestabelece a hierarquia do medo. A figura de Cláudio Castro representa a síntese perfeita do Estado burguês em sua fase de decomposição moral. Um homem de fé que abençoa o fuzil, um gestor que transforma o massacre em estatística, um político que governa com o evangelho numa mão e o decreto de morte na outra. Sua retórica de “guerra justa” legitima o genocídio e confere aparência de virtude à barbárie. Ele se apresenta como defensor da ordem, mas sua ordem é o caos administrado. É a mesma lógica que permeia todo o sistema: o poder não quer eliminar a violência, quer monopolizá-la.</p>
<p style="text-align: justify;">As forças do Estado, do governo federal e do governo estadual estão articuladas por uma divisão de tarefas. O governo central fornece o enquadramento legal, o financiamento e o discurso de modernização. O governo estadual executa, com brutalidade, a política de contenção. As Forças Armadas garantem o pano de fundo moral e o respaldo simbólico da autoridade. Essa divisão mantém o equilíbrio entre as classes dominantes, ao mesmo tempo em que reprime qualquer movimento de ruptura. A violência se distribui de modo racional: o centro formula, a periferia morre. Essa estrutura revela o verdadeiro compromisso do Estado com as Forças Armadas. O pacto é simples: estabilidade em troca de autonomia. O exército preserva sua influência, sua estrutura corporativa, seus privilégios e seu papel de árbitro; em troca, garante que a república não seja atravessada por forças populares incontroláveis. Esse pacto, firmado na transição democrática e reafirmado por todos os governos subsequentes, é a espinha dorsal do regime. Ele explica por que a militarização da política é tão profunda e por que as chacinas se repetem com regularidade burocrática. O Estado aprendeu a governar pela exceção.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meio a essa engrenagem, o povo é o material de sacrifício. Cada operação policial é um ato litúrgico: celebra a união da nação em torno da violência e renova a fé nas instituições. A imagem de soldados patrulhando favelas, de helicópteros cruzando os céus e de blindados nas ruas serve como espetáculo de poder. O medo torna-se a cola ideológica da sociedade. O trabalhador, o morador, o corpo negro e pobre, são o preço da estabilidade. O Estado, ao matar, reafirma sua legitimidade. Enquanto a sociedade continuar acreditando que a mudança virá de dentro dessa estrutura, a guerra continuará sendo a política oficial. O compromisso do governo federal com as forças armadas é o compromisso do capital com sua própria guarda. O papel do governador é o de gestor local da violência. E o papel do povo, imposto pela força, é o de espectador e vítima. O verdadeiro combate não se trava entre Estado e tráfico, mas entre dominação e emancipação, entre vida e morte. E, nesse campo, o Estado escolheu seu lado há muito tempo.</p>
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		<title>[Síria] Informativo: Resistência de Sheikh Maqsoud y Ashrafieh</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Jan 2026 12:29:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Síria]]></category>
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					<description><![CDATA[Com tanques, ataques aéreos e outras armas pesadas, o exército sírio iniciou uma forte ofensiva contra a minoria kurda em Alepo no dia 6 de janeiro. Por Centro de Informação Kongra Star]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Centro de Informação Kongra Star</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>Resumo:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Diante do aumento das tensões e ataques realizados nos últimos meses, o Governo de Transição Sírio (HTS), junto com o Exército Nacional Sírio (ENS), soldados vestidos com uniformes do ISIS e conhecidos nacionalistas turcos, lideraram um ataque conjunto contra os bairros de maioria kurda de Sheikh Maqsoud e Ashrafiyeh, que formam parte da Administração Autônoma Democrática.</p>
<p style="text-align: justify;">Com tanques, ataques aéreos e outras armas pesadas, o exército sírio iniciou uma forte ofensiva no dia 6 de janeiro. No dia 9 de janeiro, os conselhos populares de Sheikh Maqsoud e Ashrafieh fizeram uma declaração conjunta na qual afirmavam que iriam permanecer e defender seus bairros. As forças de segurança interna e o povo continuaram sua resistência contra a ideologia islamista fascista e os ataques físicos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>História:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Alepo é a segunda maior cidade da Síria.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Está situada no norte da Síria e tem uma população de mais de 2 milhões de habitantes. Sheikh Maqsoud e Ashrafieh são bairros de Alepo com maioria kurda e uma população entre 100.000 e 200.000 habitantes.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Em 2011, Alepo se converteu em um dos centros da revolução e foi cenário de intensos combates durante a guerra civil síria. Os bairros de Sheikh Maqsoud e Ashrafieh expulsaram o regime de Assad com resistência armada e declararam autonomia. Em seguida, os bairros ficaram sob proteção das YPG (Unidades de Proteção Popular). Foram as primeiras zonas que se levantaram contra o regime de Assad e, posteriormente, enfrentaram embargos, assédios e ataques tanto das forças pró-Assad quanto das islamistas. Em 2016, após bombardeios indiscriminados e uso de armas químicas proibidas, a Anistia Internacional declarou que estavam cometendo crimes de guerra nos bairros de Sheikh Maqsoud e Ashrafieh. Também em 2016, as forças de Assad recuperaram o controle de toda a cidade, exceto dos bairros de maioria kurda, que defenderam com êxito sua autonomia.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Muitas pessoas que foram removidas forçadamente de Afrin em 2018 e muitas outras que precisaram fugir de Shahba no fim de 2024 se refugiaram em Sheikh Maqsoud.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; O Governo de Transição Sírio, apoiado pela Turquia, Grã-Bretanha, Estados Unidos, União Europeia e Israel, tem uma ideologia jihadista e pretende estender seu poder por toda a Síria.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Acordos:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No dia 29 de novembro de 2024, o HTS e o ENS, respaldados pela Turquia, avançaram contra Alepo em uma ofensiva para derrotar o regime de Assad e se converter no Governo de Transição Sírio. Isto levou as SDF e o HTS a firmar dois acordos:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; O “Acordo do dia 10 de março” criou uma via para a integração do norte e leste da Síria em um novo sistema político e militar sírio. Isso deveria ocorrer antes do final de 2025.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; O “Acordo do 1º de abril” tinha como objetivo pôr fim aos enfrentamentos que ocorriam nos bairros de Sheikh Maqsoud e Ashrafieh. Com esse acordo, as SDF retiraram seus combatentes e armas pesadas e somente restaram as Asayish (Forças de Segurança Interna) com armamentos leves.</p>
<p style="text-align: justify;">Os ataques contra os bairros se deram após o suposto fracasso dos diálogos destinados a aplicar as negociações do dia 10 de março e após a pressão do Estado turco para que essas negociações fossem interrompidas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O que ocorreu e os números:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Os meios de comunicação informaram que, até o momento, mais de 23 civis foram mortos. No entanto, não existem cifras oficiais de vítimas mortais e é de se esperar que esse número aumente na medida em que mais informação seja disponibilizada. Os feridos que abandonaram recentemente os bairros informaram que as ruas estão cheias de cadáveres.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Há mais de 100 pessoas feridas, uma grande quantidade delas são mulheres e crianças. Muitos dos feridos foram retirados de Alepo e se encontram agora na Administração Autônoma de Raqqa e Heseke.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Muitos civis foram sequestrados e se encontram em mãos dos jihadistas, incluindo profissionais da saúde. O Governo de Transição Sírio afirma que detém 300 cidadãos detidos. Seu paradeiro é desconhecido e há um temor pela iminência de um massacre.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; A população não tem acesso a água, petróleo, gás, alimentos, tratamento médico e instalações humanitárias. O resultado de tudo isso é uma enorme catástrofe humanitária.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; O hospital Khaled Fajr, em Sheikh Maqsoud, carece de eletricidade desde o dia 8 de janeiro, após ter sido atacado mais de cinco vezes com recorrentes bombardeios, o que constitui um crime de guerra.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; O Governo de Transição Sírio utilizou 80 tanques e 42.000 soldados procedentes de toda a Síria. A população dos bairros, em virtude do acordo do 1º de abril, não dispunha de armas pesadas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Vínculos internacionais:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Como vimos no último ano, o reconhecimento e o apoio externos frequentemente conduzem diretamente à violência contra as minorias a nível interno.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; 6 de janeiro (dia em que começaram os ataques): o Governo de Transição Sírio e Israel chegaram a um acordo mediante conversas mediadas pelos Estados Unidos. Segundo o primeiro-ministro israelense, “os diálogos continuariam para avançar nos objetivos comuns”.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; 8 de janeiro: Turquia declarou seu apoio ao Governo de Transição Sírio em seus contínuos ataques.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; 9 de janeiro: enquanto ocorriam ataques em Alepo, a presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, realizou sua primeira visita oficial a Damasco e elogiou o novo regime por seus “avanços” neste processo de transição e falou sobre um possível “novo começo” nas relações. A União Europeia se comprometeu a prestar apoio financeiro e político ao Governo de Transição.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; 10 de janeiro: Estados Unidos concordou em retirar as sanções da Síria e “ampliar seu apoio ao governo sírio do presidente Ahmed al-Sharaa em seu trabalho para estabilizar o país”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Provas do envolvimento da Turquia:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; O ENS conta com o respaldo e financiamento da Turquia. Os soldados do ENS recebem salários do Estado turco, e por isso os chamamos de mercenários turcos. O ENS se uniu recentemente de maneira formal ao HTS como parte do Exército sírio e os ataques em Alepo são um esforço conjunto.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Informes de civis atacados em Alepo que afirmam que muitos soldados falavam turco, fotos de supostos combatentes sírios fazendo o signo do Lobo Cinzento (nacionalismo turco) e cidadãos turcos conhecidos registrados em vídeo lutando em Alepo.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; No dia 8 de janeiro, o Ministério da Defesa turco declarou que “a Turquia proporcionará o apoio necessário (ao HTS)” e que apoiam essa luta. No dia 10 de janeiro, a Turquia lançou um ataque militar direto contra uma posição das SDF em Tabqa e ameaçou ampliar o conflito. A partir do dia 11, a represa de Tushrin também está sendo atacada com drones e artilharia, e foram visualizados aviões de combate pertencentes ao exército turco.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Tom Barack, enviado especial para a Síria e muito ativo nas negociações e acordos entre o HTS e as SDF, é também embaixador dos Estados Unidos na Turquia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Resistência e apoio:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; A resistência em Sheikh Maqsoud e Ashrafiyah é um poderoso ato de vontade e força popular. A comuna e os conselhos de bairro lideraram o caminho, sendo a voz democrática da resistência popular. As mulheres estiveram entre as primeiras a declarar que não iriam embora, com a comuna de mulheres desempenhando um papel importante nos debates do conselho.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211; Em todo o mundo foram feitos chamados para deter os ataques e construir uma Síria democrática. Especialmente na região kurda da Turquia, onde milhares de pessoas se manifestaram em Amed [Diyarbakir] contra os ataques.</p>
<p style="text-align: justify;">-Durante a resistência, quatro membros das ISF (Forças de Segurança Interna) cometeram um ato de sacrifício, três deles eram mulheres. Suas ações heroicas deram esperança para continuar a resistência e as YPJ afirmaram: “Enquanto existirem sacrifícios de pessoas como Farashin, Deniz, Rojbin e Hawar, a vitória sempre será do nosso povo”</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Centro de Informação Kongra Star</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>13.01.2026</em></p>
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		<title>Carta Aberta em Solidariedade ao Povo Sudanês</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Jan 2026 17:03:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Exército_e_guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
		<category><![CDATA[Sudão]]></category>
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					<description><![CDATA[Por um Boicote Cultural e Acadêmico aos Emirados Árabes Unidos. Por TAGATU3]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por TAGATU3</h3>
<p style="text-align: justify;">2 de Dezembro de 2025</p>
<p style="text-align: justify;">Nós, os trabalhadores e membros de instituições acadêmicas e culturais abaixo assinados, condenamos o papel desempenhado pelos Emirados Árabes Unidos de criar, financiar e prolongar a guerra contra-revolucionária no Sudão entre as Forças Armadas do Sudão (<em>SAF</em>) e as <em>Rapid Support Forces</em> (RSF) desde sua irrupção em 15 de Abril de 2023.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa campanha é organizada por TAGATU3: Campanha Sudanesa pelo Boicote Acadêmico e Cultural dos EAU, um grupo de sudaneses em diáspora e aliados trabalhado para encerrar o apoio dos EAU à milícia RSF e sua cumplicidade política em munir a pior crise humanitária do século 21.</p>
<p style="text-align: justify;">A estratégia intervencionista emirati no Sudão, ainda que não seja a única desse tipo, tem uma natureza distinta. Seus significativos esforços contra-revolucionários durante a processo de transição política impediram os horizontes de libertação do Sudão em favor de atores militares, criando condições para rivalidades militares que eventualmente levaram o país à guerra. Como principal benfeitor da notória e brutal milícia RSF, os EAU providenciaram um interminável influxo de dinheiro, armas e cobertura política, permitindo os genocídios e massacres da milícia em Darfur e Kordofan. Os Emirados também cumpriram um papel decisivo em prolongar o combate através do comércio ilícito de ouro com a SAF e a RSF, fornecendo a seus empreendimentos de guerra linhas de financiamento vitais pelo futuro próximo. Permitir que o subimperialismo implacável dos Emirados Árabes Unidos no Sudão continue sem controle impedirá um cessar-fogo permanente e tornará cada vez mais distante a possibilidade de um retorno à principal reivindicação da revolução: um governo liderado por civis, com “os militares (SAF) de volta aos quartéis e os Janjaweed (RSF) dissolvidos”.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto sistematicamente destroem universidades, escolas, sítios arqueológicos, instituições e heranças culturais no Sudão, os EAU continuam a crescer globalmente como uma potência cultural e acadêmica. Suas parcerias com instituições acadêmicas e culturais existem para normalizar sua violência imperialista no Sudão, lavar sua imagem e reputação de autocracia repressiva, e escapar da responsabilidade por seus sistemas globais de violência e extrativismo. Neste documento, enquanto coletivo, convocamos todos os acadêmicos e trabalhadores da cultura de consciência a se organizarem para um boicote às instituições emirati cúmplices no encobrimento das violações dos direitos humanos nos EAU, até que as reivindicações da campanha sejam atendidas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A campanha dos EAU de encobrimento cultural e acadêmico</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os investimentos dos EAU em instituições acadêmicas ocidentais são antigos e apontam para uma tendência de encobrimento acadêmico e captura intelectual. Entre Fevereiro de 2001 e Abril de 2024, os EAU presentearam US$402.330.743 a universidades nos Estados Unidos, com as maiores recebedoras desses presentes monetários sendo a <em>New York University</em>, <em>Harvard University</em>, <em>Boston University</em>, <em>Johns Hopkins University</em>, <em>Columbia University</em>, <em>UC Berkeley</em>, e <em>Stanford University</em>. Conforme os relatórios financeiros dessas universidades para o governo federal, esses prêmios foram recebidos por razões não declaradas, permitindo influência descconhecida dos doadores e comprometendo a liberdade acadêmica.</p>
<p style="text-align: justify;">A expansão acelerada das universidades ocidentais nos Emirados, particularmente por meio de campi afiliados e satélites, desde a década de 2010, conferiu aos Emirados Árabes Unidos maior legitimidade e poder de influência nas economias de produção do conhecimento. Isso se manifestou recentemente na tentativa dos Emirados Árabes Unidos de controlar e disseminar a produção de conhecimento sobre a África e o Sudão de maneiras que reforcem e consolidem sua matriz de relações de poder no continente por meio de instituições como a Universidade de Estudos Globais em Sharjah e a NYU Abu Dhabi. Similarmente, não é coincidência que ao mesmo tempo em que o projeto de expansão colonial dos EAU se intensifica, nós vejamos uma rápida proliferação de acordos culturais globais desse país. O projeto cultural dos EAU é tão central para suas ambições geopolíticas que o país institucionalizou essa estratégia de diplomacia cultural em uma política de governo, criando um <em>Soft Power Council</em>. Estabelecido pelo Sheikh Mohammed bin Rashid Al Maktoum em 2017, um dos principais objetivos do conselho é “fortalecer a política externa dos EAU e adicionar novas ferramentas para consolidar seu papel… na arena internacional”. Desde a inauguração do conselho, o governo emirati fez contribuições significativas, avaliadas em mais de 35 bilhões de dólares, para as áreas de arte, design, museus, destinos turísticos, editoração e mídia. Cultura e política trabalham em sinergia aqui, com a primeira provendo a cobertura discursiva para a segunda, assim protegendo os EAU de quaisquer medidas de responsabilidade para sua aliança destrutiva com as RSF no Sudão. As condições favoráveis e atrativas criadas por essa estratégia de <em>soft power</em> orquestram a adesão de artistas e trabalhadores da cultura em todo o mundo, ao mesmo tempo que garantem o silêncio sobre as suas violações no Sudão. Nós enxergamos esses orçamentos culturais inflados como consequência direta da riqueza violentamente acumulada na região do Sudão e do Chifre da África, posicionando os EAU como um farol de modernidade, oportunidade, inovação e alta cultura.</p>
<p style="text-align: justify;">Trabalhar com instituições cúmplices dos EAU contribui diretamente para a fachada dos Emirados Árabes Unidos e ajuda a fabricar consenso para seu projeto subimperialista no Sudão. Inspirados pelos legados dos boicotes contra o apartheid sul-africano, e a ocupação israelense, e o papel desempenhado pelo boicote em lutas decoloniais ao redor do mundo, nós vemos essa estratégia como a mais forte e mais estratégica arma que temoss para perfurar essa ilusão mórbida, pôr fim à sistemática violência emirati contra o povo sudanês, e recuperar o futuro político da região das mãos dos arquitetos de sua ruína.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Demandas e chamado à ação</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A hora de praticar a solidariedade com o povo sudanês é agora, e de firmemente opôr as agendas imperialistas dos EAU no Sudão. Nós definimos cumplicidade com instituições emirati como:</p>
<ol>
<li class="li">Cumplicidade financeira ao receber-se financiamento do estado emirati, ou riqueza da nobreza para parcial ou completamente financiar instituições ou atividades e produtos institucionais.</li>
<li class="li">Cumplicidade ideológica através de atividades acadêmicas e culturais que acobertam ou desinformam/produzem campanhas de propaganda, silêncio ou censura ativa sobre o papel dos EAU em criar, financiar e perpetuar a guerra contra-revolucionária no Sudão.</li>
</ol>
<div></div>
<p style="text-align: justify;">Nós, os abaixo assinados trabalhadores e membros de instituições acadêmicas e culturais, demandamos o seguinte:</p>
<ol>
<li class="li">Urgimos aos nossos colegas que chamem atenção e reconheçam os genocídios no Sudão, as fomes provocadas pelo homem que assolam populações em todo o país e os facilitadores globais da violência perpetrada pelas SAF e pelas RSF, sendo os Emirados Árabes Unidos os mais proeminentes entre eles.</li>
<li class="li">Convocamos as instituições acadêmicas e culturais para que investiguem cuidadosamente seus laços com o governo emirati e as famílias reais. Demandamos o desinvestimento de quaisquer projetos feitos com o estado emirati, as famílias reais e instituições cúmplices.</li>
<li class="li">Convocamos acadêmicos, trabalhadores da cultura, e suas instituições afiliadas a rejeitar financiamento, colaboração, parcerias e patrocínios do governo emirati, das famílias reais, e suas instituições cúmplices (incluindo grupos de lobby e corporações) ou aqueles envolvidos com em atividades ideológicas que visam encobrir as violações dos EAU no Sudão.</li>
<li class="li">Convocamos nossos colegas a boicotarem os EAU, recusando-se a lecionar, frequentar ou colaborar com quaisquer instituições emirati cúmplices, até que tais instituições: (i) reconheçam publicamente e suspendam a censura sobre o papel dos EAU na criação, financiamento e perpetuação da guerra no Sudão; (ii) pratiquem a transparência financeira, auditando independentemente as demonstrações financeiras em conformidade com as normas internacionais de relatórios financeiros e investigando quaisquer vínculos financeiros ligados ao lucro de guerra e ao comércio ilícito no Sudão, incluindo a extração de ouro de conflito e a fabricação/venda de armas; (iii) cessem toda a cumplicidade financeira e ideológica na guerra contra-revolucionária dos EAU no Sudão.</li>
</ol>
<blockquote><p><em>convocamos todos os acadêmicos e trabalhadores da cultura de consciência a se organizarem para um boicote às instituições emirati cúmplices no encobrimento das violações dos direitos humanos nos EAU, até que as reivindicações da campanha sejam atendidas.</em></p>
<p>Esse boicote é uma recusa à cumplicidade que é ao mesmo tempo simbólica e material; seu poder repousa não somente em declarar oposição, mas em romper nossos laços materiais com o genocídio, o extrativismo e as aspirações geopolíticas coloniais dos EAU no Sudão.</p>
<p><em>Para uma visão mais detalhada do crescente império dos Emirados Árabes Unidos e da campanha de branqueamento nas artes e na academia, leia a carta completa e <a href="https://docs.google.com/document/d/1ZbjASNGZn-M3R1qPhk2Rri0RTUH3io95l90Immzl918/edit?tab=t.0#heading=h.gz4mbqkwlogx" target="_blank" rel="noopener">encontre a lista completa de signatários aqui</a></em>. <strong>Assine a carta aqui</strong>.</p></blockquote>
<ol>
<li class="li">Alexander Weheliye, Professor of Modern Culture and Media, Brown University</li>
<li class="li">Angela Davis, Distinguished Professor Emerita, University of California, Santa Cruz</li>
<li class="li">Eve Troutt Powell, Professor, University of Pennsylvania</li>
<li class="li">Fatin Abbas, Lecturer, Massachusetts Institute of Technology</li>
<li class="li">Françoise Vergès, Senior Fellow Researcher, Sarah Parker Remond Centre, UCL</li>
<li class="li">Gail Lewis, Professor, Yale University</li>
<li class="li">Hatem Bazian, Lecturer, UC Berkeley</li>
<li class="li">Houria Bouteldja, Decolonial Activist</li>
<li class="li">M’hamed Oualdi, Professor, Sciences Po-Paris</li>
<li class="li">Mohammed Elnaiem, The Decolonial Centre</li>
<li class="li">Nisrin Elamin, Assistant Professor, University of Toronto</li>
<li class="li">Mona Chalabi, Guest lecturer</li>
<li class="li">Paula Chakravartty, Professor, New York University</li>
<li class="li">Robin D.G. Kelley, Professor, University of California, Los Angeles</li>
<li class="li" style="text-align: justify;">Ruth Wilson Gilmore, Professor, Graduate Center of the City University of New York</li>
</ol>
<div></div>
<blockquote><p>A foto em destaque foi publicada originalmente <a href="https://www.nytimes.com/2014/05/09/world/africa/south-sudan-war.html" target="_blank" rel="noopener">num artigo</a> do New York Times.</p></blockquote>
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		<title>Velha Toupeira (37)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Dec 2025 08:50:20 +0000</pubDate>
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