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	<title>Extrema_direita &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>[São Paulo] Carta em resposta aos ataques à EMEI Pagu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Apr 2026 22:52:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Movimentos em Luta]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
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					<description><![CDATA[Educadores respondem à perseguição feita pelo Brasil Paralelo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Sandra</h3>
<p style="text-align: justify;">Os espaços da EMEI Patrícia Galvão foram solicitados via processo SEI pela PMSP para uma obra audiovisual referente à Educação Infantil. No processo havia a determinação de que a não aceitação só poderia estar associada ao que previa o artigo 14,<br />
§3º, do Decreto Municipal nº 56.905/2016 que, em linhas gerais, referia-se à impossibilidade comprovada das condições para filmagens e gravações ou, se por incompatibilidade de agenda, deveríamos propor outra data.</p>
<p style="text-align: justify;">A informação que recebemos era a de que a rotina não seria alterada e como não tínhamos impossibilidade comprovada, não cabia margem para deliberação. Ironicamente, caso a EMEI PAGU estivesse nas condições em que se encontrava há um ano, teríamos impossibilidade comprovada, afinal, tínhamos um esgoto a céu aberto no interior da escola.</p>
<p style="text-align: justify;">Até aqui, nenhuma novidade: não problematizamos porque, genuinamente, o nosso entendimento era de que se tratava de uma demanda institucional e pedagógica da SME encaminhada pela DRE.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, em nenhum momento nos foi informado o teor do material a ser produzido, mesmo quando da visita técnica realizada pelos responsáveis, juntamente com a representante do SPCine, ocasião em que ao serem questionados responderam vagamente, tal qual descrito no relatório de visita técnica em que consta o nome da produção “Educação Infantil”.</p>
<p style="text-align: justify;">Na noite anterior à data marcada para a agravação, fomos surpreendidas por um termo de anuência em nome da Brasil Paralelo&#8230; Sim!!! Era a produtora responsável por vídeos de caráter marcadamente ideológico, em que diversas produções têm por objetivo descaracterizar e objetificar o ensino público pejorativamente.<br />
Imediatamente entramos em contato com a DRE e SPCine, pois enfim entendíamos que esta seria uma razão que justificasse a negativa, ainda mais porque, em pesquisa nas redes sociais da empresa, identificamos o que nos foi confirmado pelos profissionais na ocasião das gravações: as imagens vão compor o documentário &#8220;Pedagogia do Abandono&#8221;<br />
&#8211; Entre ideologia, baixa qualidade e centralização estatal&#8221;, ou seja, trata-se de uma produção onde vão associar as imagens da nossa escola a entrevistas feitas com pessoas aleatórias que sequer são educadoras para exemplificação da péssima qualidade da educação infantil paulistana. (Explicação dada pelos profissionais responsáveis pela gravação).</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159047" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem1.jpg" alt="" width="156" height="220" /><br />
As respostas que obtivemos foram “que nem a DRE poderia recusar, uma vez que se tratava de condução da PMSP”, “que recusar seria censurar a livre expressão e que não havia problemas em falarem mal da educação pública, já que a Rede Globo faz este serviço o tempo todo”. Tentaram nos tranquilizar dizendo que nossos nomes e o nome da escola não seriam expostos e que eu, diretora da escola, ficaria “mal-vista” diante das objeções.</p>
<p style="text-align: justify;">Vejam que o próprio cartaz de divulgação da produção já apresenta o teor e o afastamento com a realidade da educação pública municipal. Há uma criança em uma carteira de sala de aula, de fronte a uma lousa, como se estivesse copiando um texto, em detrimento de brinquedos posicionados atrás da cadeira, cena paradoxal ao Currículo da Cidade &#8211; Educação Infantil, que afirma que a escola de educação infantil deve propiciar contextos de uso social da escrita e da leitura, para que a hierarquização dessas linguagens não silencie as demais.</p>
<p style="text-align: justify;">Os processos específicos de alfabetização da linguagem escrita serão desenvolvidos a partir do Ensino Fundamental. O posicionamento das carteiras no cartaz também denota a ignorância quanto ao tema, uma vez que os espaços na educação infantil paulistana são voltados ao desenvolvimento das diversas linguagens, do brincar e da experimentação de novas possibilidades, posicionando mesas que articulem as crianças de acordo com a proposta das(os) educadoras(es), mas jamais enfileiradas de forma cartesiana voltadas para a lousa.</p>
<p style="text-align: justify;">Informamos ao profissional da produtora que não sabíamos o teor do documentário e ele nos comunicou que o &#8220;briefing&#8221; havia sido enviado à Prefeitura, o que não chegou à escola. Apesar da tensão, das problematizações e da manifestação da nossa profunda decepção ao constatar que um tema tão importante como a qualidade da escola fosse apresentado pela Brasil Paralelo autorizada pela PMSP, as gravações aconteceram como havia sido combinado: “espaços sem a presença das crianças”.</p>
<p style="text-align: justify;">No mesmo dia acessamos mais informações sobre o documentário que pretendem lançar no dia 20/04 e, não mais para a nossa surpresa, identificamos que se trata de um projeto para destruir a educação pública, bem como a imagem de Paulo Freire com identificações muito equivocadas. Será que há, nesta proposição, uma tentativa de contribuir com as ideias de que a terceirização/privatização da Educação Infantil seria a solução para uma educação de qualidade? Será? (A dúvida contém ironia).</p>
<p style="text-align: justify;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159046" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2.png" alt="" width="1297" height="715" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2.png 1297w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-300x165.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-1024x565.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-768x423.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-762x420.png 762w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-640x353.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem2-681x375.png 681w" sizes="(max-width: 1297px) 100vw, 1297px" /><br />
Não satisfeitos, produziram um vídeo para divulgar o documentário se aproveitando do momento em que foram impedidos de gravar em um espaço onde se encontravam as crianças que temos o dever de proteger, tanto a sua integridade quanto os seus direitos. Estava estabelecido que não seriam feitas filmagens em espaços onde as crianças estivessem, o que teria sido descumprido se não tivessem sido impedidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem, este texto serve a duas finalidades: a primeira é a elucidação dos fatos ocorridos à comunidade da EMEI Patrícia Galvão, às escolas parceiras do Território Educativo das Travessias, às escolas todas da Rede e a quem mais possa interessar; a outra finalidade é afirmar com muita convicção que o fechamento da porta não tinha a ver com o fato de querermos esconder que a Pagu se inspira e se apoia na vida e obra de Paulo Freire, pois esta concepção é fruto de muito estudo e motivo de orgulho; aliás, trata-se de uma Rede Municipal inteira que tem Paulo Freire em seus PPPs, seus currículos, planejamentos e sonhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Falta de discernimento ou muita pretensão uma produtora achar que tínhamos preocupação que ela não gravasse Paulo Freire estampado em nossas paredes? Comunico que se estão procurando evidências, acessem os muitos Projetos Políticos Pedagógicos das escolas da cidade, são documentos disponíveis.</p>
<p style="text-align: justify;"><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159045" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem3.jpg" alt="" width="282" height="348" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem3.jpg 282w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Imagem3-243x300.jpg 243w" sizes="(max-width: 282px) 100vw, 282px" />É lamentável que, com tantos sonhos e tanto por fazer, precisemos interromper nossas ações cotidianas para lidar com esses ataques que nos deixam abatidas por uma fração do tempo e nos faz retomar&#8230; Sempre com mais força! Por fim, o recado é este:</p>
<p style="text-align: justify;">“Não haverá nenhuma resposta geral, radical, toda. Apenas sinais, singularidades, pedaços,<br />
Brilhos passageiros, ainda que francamente luminosos.<br />
Vaga-lumes”.<br />
Georges Didi-Huberman</p>
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		<title>MBL: a máquina fascista jovem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Apr 2026 13:21:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
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					<description><![CDATA[O MBL transformou a rebeldia em conformismo, o descontentamento em ódio regressivo, a juventude em tropa de choque da ordem.  Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Arthur Moura</strong></h3>
<p style="text-align: justify;">O Movimento Brasil Livre (MBL) emergiu no cenário político brasileiro como uma das expressões mais acabadas da reorganização da direita em tempos de crise estrutural do capital. Sua aparição pública em meados de 2014, no contexto do desgaste do governo Dilma Rousseff e da crise econômica que atingia o país, não pode ser compreendida como um fenômeno isolado ou meramente espontâneo. O MBL é resultado de um longo processo histórico que combina, de um lado, o avanço do neoliberalismo e de seus aparelhos de difusão ideológica e, de outro, o refluxo das lutas populares e a cooptação progressista que esvaziou as possibilidades de transformação radical. Na aparência, o MBL se apresenta como um movimento juvenil, irreverente, liberal em costumes e crítico da “velha política”. Essa superfície, porém, encobre sua essência: um projeto político reacionário, alinhado internacionalmente a redes de <em>think tanks</em> ultraliberais, financiado por empresários e estrategicamente formatado para ocupar as lacunas deixadas pela falência do progressismo conciliador. A linguagem do meme, a estética pop, o tom debochado e a retórica da eficiência foram armas eficazes para atrair a juventude e setores médios descontentes, convertendo indignação difusa em ódio direcionado contra trabalhadores, movimentos sociais e qualquer crítica à ordem capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se, portanto, de um aparelho de hegemonia de classe. O MBL não é apenas um agrupamento de jovens políticos em busca de visibilidade, mas parte de uma engrenagem ideológica maior, que envolve a burguesia interna, setores do imperialismo, redes de comunicação corporativa e plataformas digitais transnacionais. Sua função é canalizar o ressentimento social contra a esquerda, transformar precariedade em adesão servil ao liberalismo e, em última instância, naturalizar o fascismo como resposta política legítima. O presente texto parte da convicção de que compreender o MBL exige ir além da sua autoimagem publicitária e das análises superficiais que o tratam como mero “grupo de garotos ambiciosos”. Ele deve ser situado na totalidade histórica da luta de classes no Brasil, na dinâmica da dependência latino-americana e no ciclo recente de contrarrevoluções preventivas. Somente assim é possível demonstrar por que o MBL não é um fenômeno democrático, mas sim a expressão juvenil e midiática de uma direita fascistizante que se alimenta da crise e atua como ponta de lança para conter qualquer possibilidade de organização popular.</p>
<p style="text-align: justify;">O texto seguirá a seguinte linha: primeiro, reconstituiremos a gênese do movimento, seus fundadores, influências e contexto imediato. Em seguida, analisaremos seu desenvolvimento, financiamento e aparato comunicacional; depois pensaremos a sua linha teórica e ideológica, revelando como se articula entre liberalismo econômico e conservadorismo moral. Discutiremos também a questão central: por que o MBL é fascista? E, por fim, discutiremos seu papel atual, suas disputas internas, seu reposicionamento no pós-bolsonarismo e os caminhos da luta revolucionária contra esse inimigo de classe. Assim, o objetivo não é apenas produzir uma narrativa histórica sobre o MBL, mas também situá-lo como fenômeno típico da fase atual do capitalismo dependente brasileiro: uma fase em que o neoliberalismo e o fascismo se entrelaçam, e em que a direita busca travestir-se de novidade juvenil enquanto carrega consigo todo o peso reacionário da tradição burguesa. A denúncia teórica e política do MBL é parte indissociável da luta contra o fascismo e contra o capital.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158947" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/images.jpg" alt="" width="244" height="207" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>IPES, IBAD e a tradição anticomunista no Brasil</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Brasil possui uma longa tradição de aparelhos ideológicos e financeiros destinados a conter a mobilização popular e difundir o anticomunismo, especialmente a partir das décadas de 1950 e 1960. O cenário em que se formam os principais aparelhos ideológicos da direita brasileira (como o IPES e o IBAD) deve ser compreendido à luz da ordem internacional do pós-Segunda Guerra Mundial, quando a divisão do planeta em duas grandes esferas de influência, lideradas pelos Estados Unidos e pela União Soviética, impôs uma dinâmica global marcada pela disputa ideológica e geopolítica da Guerra Fria. A derrota do nazifascismo não significou o triunfo da emancipação popular, mas sim a reorganização do capitalismo sob a hegemonia norte-americana, que emergiu da guerra com a maior força militar, econômica e política do mundo. O Plano Marshall, a criação da OTAN e a consolidação do macartismo no interior dos EUA foram expressões dessa nova hegemonia imperialista que buscava conter a expansão do socialismo. Do outro lado, a União Soviética, responsável pelo esmagamento da máquina nazista no front oriental, consolidava sua influência no Leste Europeu e projetava internacionalmente o prestígio da Revolução de Outubro, tornando-se referência para milhões de trabalhadores e movimentos de libertação em todo o mundo. Essa bipolaridade produziu uma onda de antagonismos estruturais: para Washington, era necessário conter qualquer experiência reformista ou revolucionária no Sul global, pois cada avanço do socialismo era lido como ameaça à ordem burguesa mundial. O Brasil, país de capitalismo dependente e estratégico no continente latino-americano, foi incorporado nesse tabuleiro como área de influência norte-americana, recebendo vultosos investimentos financeiros e logísticos destinados a fortalecer o antagonismo anticomunista, neutralizar movimentos populares e organizar elites empresariais e militares para o enfrentamento contra a esquerda. Esse é o contexto em que se deve compreender o nascimento dos aparelhos como IPES e IBAD: expressões locais de uma guerra global, onde o capital internacional se valeu da burguesia interna para implementar sua estratégia de dominação.</p>
<p style="text-align: justify;">A Aliança para o Progresso, lançada por John F. Kennedy em 1961, constituiu-se como um dos mais sofisticados instrumentos da política imperialista norte-americana no continente, articulando “ajuda econômica” e “cooperação técnica” como formas de legitimar a penetração do capital estadunidense e ao mesmo tempo conter a expansão socialista após a Revolução Cubana. Sua função essencial era dupla: de um lado, difundir a propaganda anticomunista apresentando o capitalismo liberal como sinônimo de modernização e desenvolvimento; de outro, articular-se com as elites locais e seus aparelhos privados de hegemonia para estruturar um verdadeiro cinturão de contenção contra a radicalização política das massas. No Brasil, a Aliança encontrou terreno fértil nas articulações empresariais e militares que deram origem ao IPES e ao IBAD, funcionando como fornecedora de recursos, legitimidade e diretrizes estratégicas para uma guerra ideológica que não se limitava à disputa eleitoral, mas visava abertamente criar as condições subjetivas e objetivas para a derrubada do governo João Goulart. Essa engrenagem conjugou investimentos em projetos vitrine, cooptação de lideranças reformistas, financiamento de campanhas conservadoras e uma sistemática propaganda anticomunista difundida pela grande imprensa, compondo um ecossistema contrarrevolucionário que culminou no golpe civil-militar de 1964. Em síntese, a Aliança para o Progresso, em articulação com o IPES e o IBAD, demonstrou que o imperialismo estadunidense não operava apenas pela força bruta, mas pela construção paciente de uma hegemonia ideológica que travestia sua ofensiva de modernização democrática, quando na verdade preparava o terreno para a violência reacionária e a supressão da soberania popular.</p>
<p style="text-align: justify;">O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) constituem dois exemplos fundamentais dessa estrutura de poder. Criados com apoio direto do empresariado nacional e em estreita ligação com interesses norte-americanos, ambos cumpriram papel central na preparação política, cultural e midiática que culminou no golpe de 1964. O IPES, fundado em 1961, organizava cursos, palestras, filmes, cartilhas e eventos para disseminar a ideologia anticomunista. Reunia empresários, banqueiros, militares e intelectuais conservadores que viam nas reformas de base de João Goulart uma ameaça à propriedade privada e à ordem social. Sua função era clara: moldar a opinião pública, formar quadros e infiltrar o discurso liberal-conservador em sindicatos, escolas, universidades e na imprensa. Não se tratava apenas de um “centro de pesquisa”, mas de um verdadeiro think tank avant, antecipando as formas de atuação que, décadas depois, seriam retomadas por instituições como o Instituto Millenium e, mais recentemente, pelo MBL.</p>
<p style="text-align: justify;">Já o IBAD, criado em 1959 por Ivan Hasslocher, cumpria uma função ainda mais explícita: financiar campanhas eleitorais de candidatos conservadores e anticomunistas. Recebia recursos de empresas nacionais e estrangeiras, com forte suspeita de repasses oriundos de organismos ligados aos Estados Unidos, no contexto da Guerra Fria. Em 1962, o IBAD atuou de forma massiva nas eleições, canalizando milhões de cruzeiros para parlamentares comprometidos com o combate às reformas sociais. O escândalo foi tão grande que uma CPI revelou parte do esquema, mas o instituto foi fechado apenas formalmente: suas redes de financiamento e articulação permaneceram ativas e se integraram ao bloco que derrubaria Jango em 1964.</p>
<p style="text-align: justify;">João Goulart, o Jango, deve ser compreendido dentro da tradição do varguismo que moldou a política brasileira no século XX. Herdeiro direto da linha trabalhista, Jango se consolidou como figura de transição entre a herança populista de Vargas e as demandas emergentes de uma classe trabalhadora urbana e, sobretudo, rural, cada vez mais organizada e disposta a reivindicar direitos. Embora fosse, em essência, um liberal reformista que acreditava na conciliação de classes e na possibilidade de modernizar o capitalismo brasileiro sem romper com suas bases estruturais, Jango incorporou pautas que soavam perigosas para a elite agrária e industrial. As Reformas de Base (especialmente a reforma agrária, pensada para redistribuir terras improdutivas e reduzir a secular marginalização do campesinato), representavam um ponto de inflexão em uma sociedade marcada pela concentração fundiária e pela dependência externa. O fato de o Estado se voltar, ainda que de maneira tímida, para os trabalhadores rurais, historicamente abandonados pelo poder público e submetidos a formas quase feudais de exploração, acendeu o alarme nas classes dominantes. Jango, ao tentar mediar os interesses populares com a manutenção da ordem burguesa, terminou por ser acusado de comunista, o que serviu de álibi perfeito para a ofensiva da direita, articulada com o imperialismo estadunidense e financiada por organismos como o IBAD e o IPES. Assim, sua figura revela a contradição do reformismo no Brasil: ao mesmo tempo em que prometia modernização e justiça social, acabou servindo como estopim para a reação golpista que consolidaria o projeto de dominação burguesa e militar a partir de 1964.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158946" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/15501672855c65acf5bbb5f_1550167285_3x2_md.jpg" alt="" width="512" height="768" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/15501672855c65acf5bbb5f_1550167285_3x2_md.jpg 512w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/15501672855c65acf5bbb5f_1550167285_3x2_md-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/15501672855c65acf5bbb5f_1550167285_3x2_md-280x420.jpg 280w" sizes="auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Do ponto de vista ideológico, o IPES e o IBAD buscavam construir uma visão de mundo: o comunismo seria uma ameaça existencial, a luta de classes uma invenção estrangeira, e a defesa da ordem e da família os pilares da nação. Esse discurso foi introjetado no imaginário social através da mídia, da escola e das igrejas, sedimentando um anticomunismo difuso que perdura até hoje. Se o MBL atual mobiliza memes e redes sociais, os institutos dos anos 1960 recorriam a filmes, radionovelas e manuais escolares, mas a função era a mesma: neutralizar a consciência crítica e legitimar a repressão. É preciso destacar também a dimensão de classe dessa ofensiva. O IPES e o IBAD eram sustentados pelos grandes empresários nacionais, ligados ao capital estrangeiro, que temiam as reformas trabalhistas, a reforma agrária e o controle do capital externo. Não se tratava de uma “guerra de ideias” abstrata, mas da defesa intransigente de privilégios materiais. A burguesia brasileira, historicamente associada ao imperialismo, sempre tratou qualquer possibilidade de transformação social como uma ameaça a ser eliminada. Os institutos funcionavam como correias de transmissão dessa estratégia, convertendo a luta econômica em guerra ideológica.</p>
<p style="text-align: justify;">A herança dessa experiência é visível nas décadas seguintes. Durante a ditadura, muitos quadros formados no IPES e no IBAD ocuparam cargos de Estado e seguiram articulando a política econômica em sintonia com o receituário neoliberal que viria a florescer nos anos 1980 e 1990. O desmonte da soberania nacional, as privatizações e a precarização do trabalho são desdobramentos de uma longa preparação intelectual, financeira e política. Quando olhamos para o MBL, percebemos a continuidade dessa tradição. A diferença é o meio: se antes eram cartilhas e palestras, hoje são vídeos virais e podcasts; se antes a palavra de ordem era “anticomunismo” em nome da ordem e da família, agora é “empreendedorismo” em nome da liberdade e do mercado. Mas a função é idêntica: servir como frente ideológica e cultural de uma burguesia em crise, mobilizando setores médios e juventude contra qualquer perspectiva emancipatória.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, o estudo do IPES e do IBAD nos revela que o MBL não é novidade nem exceção. É a versão 2.0 de uma máquina antiga, atualizada para a era digital, mas fiel à mesma lógica: conter a luta de classes, difundir o medo do comunismo, legitimar a repressão e garantir os lucros da burguesia. Entender essa genealogia é essencial para que não nos enganemos com a “espontaneidade” aparente de novos movimentos. Toda vez que a ordem capitalista é ameaçada, surgem aparelhos de propaganda e mobilização financiados pelo grande capital, disfarçados de juventude, de modernidade ou de inovação, mas sempre a serviço da dominação.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A gênese do MBL</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Movimento Brasil Livre (MBL) deve ser entendido como parte de um processo mais amplo de reorganização da direita brasileira em sintonia com o avanço internacional das redes ultraliberais e com a ofensiva do capital contra o trabalho na esteira da crise global de 2008. O MBL surge como o rosto jovem e midiático de um projeto de poder muito mais antigo: a tentativa da burguesia de recompor sua hegemonia diante do desgaste do progressismo, da crise do lulismo e da incapacidade das organizações populares de oferecer uma alternativa revolucionária. A gênese do MBL está diretamente vinculada ao esgotamento do pacto lulista. Durante os anos 2000, o crescimento econômico baseado no boom das commodities, somado a políticas sociais compensatórias, permitiu ao governo petista conciliar interesses de frações da burguesia e das classes trabalhadoras. Mas tal arranjo não poderia durar indefinidamente. A crise de 2008 expôs os limites do modelo, provocando desaceleração econômica, inflação e aumento do desemprego. Ao mesmo tempo, a manutenção de privilégios ao grande capital (isenções fiscais, juros elevados, exportações primarizadas) escancarava o caráter burguês do governo do PT.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, abriu-se um vácuo político. A esquerda institucional, comprometida com a conciliação, não possuía mais credibilidade para mobilizar a base popular. As forças revolucionárias, fragilizadas, não conseguiram apresentar alternativas organizadas. O cenário estava maduro para que a direita reorganizasse seu discurso, mobilizando o ressentimento social em direção a uma agenda regressiva. Foi nesse terreno fértil que o MBL germinou.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158945" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408.jpg" alt="" width="1920" height="1197" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-300x187.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-1024x638.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-768x479.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-1536x958.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-674x420.jpg 674w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-640x399.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/jogos_perigosos_de_1990-24304408-681x425.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As figuras do MBL: biografias como propaganda da burguesia</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Desde o início, o movimento apostou na construção de figuras públicas transformadas em mercadorias políticas, cada qual encarnando uma função específica dentro da engrenagem ideológica da burguesia. O rosto humano do MBL é, na verdade, a manipulação calculada de biografias individuais transformadas em mitos: o jovem prodígio, o estrategista de bastidor, o outsider debochado, o representante das minorias convertido em reacionário. A burguesia, ao longo da história, sempre precisou de personagens que servissem como simulacros de autenticidade para ocultar os interesses do capital. No caso do MBL, essa lógica se repete com precisão cirúrgica.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Kim Kataguiri: o “gênio liberal” de fachada</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Kim Kataguiri foi vendido como um milagre da juventude política brasileira: um rapaz de ascendência japonesa, oriundo de classe média, que supostamente teria se “indignado” contra a corrupção e encontrado no liberalismo econômico a saída para os males do país. A mídia corporativa apressou-se em transformá-lo em celebridade, convidando-o para entrevistas, documentários e reportagens laudatórias. Kim tornou-se um personagem perfeito para a narrativa de que o Brasil precisava de “novos líderes” para além da polarização PT-PSDB. Mas, sob a capa da juventude e do frescor, esconde-se o velho programa da burguesia: destruição de direitos sociais, alinhamento automático ao imperialismo, criminalização da luta de classes. Sua ascensão meteórica é prova de que não se tratava de talento individual, mas de engenharia social financiada por think tanks, empresários e redes internacionais de ultraliberalismo. Kim encarna o fantasma do empreendedorismo político, figura moldada para atrair jovens despolitizados e convencê-los de que o problema do Brasil são os sindicatos, os movimentos sociais e os pobres que “dependem do Estado”. O mito do “jovem prodígio” é, na verdade, o verniz cultural de uma política de ódio de classe.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Renan Santos: o capitalista do bastidor</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Se Kim é o rosto sorridente para as câmeras, Renan Santos é o cérebro cínico do negócio. Empresário, articulador de redes e financiamentos, Renan operou desde o início como cafetão político: explorando a energia juvenil e transformando-a em mercadoria eleitoral e em influência negociável com a direita tradicional. A função de Renan foi estruturar o MBL como máquina de poder e negócio, articulando parcerias com empresários, garantindo a propaganda massiva nas redes e coordenando as ações de rua.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua biografia não é a da “indignação”, mas a da gestão empresarial da política, em sintonia com a lógica neoliberal que transforma tudo (até mesmo a rebeldia) em produto. Renan Santos representa a camada da burguesia que prefere atuar nos bastidores, sem se expor diretamente, mas que colhe os frutos do trabalho de massas de jovens manipulados e instrumentalizados. Sua prática comprova que o MBL nunca foi um movimento popular, mas uma empresa política travestida de movimento social.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Arthur do Val (Mamãe Falei): a caricatura do ódio de classe</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Arthur do Val, o famigerado “Mamãe Falei”, representa o pior lado do fascismo sem uniforme: a grosseria convertida em virtude, a truculência erigida em autenticidade. Oriundo do YouTube, Arthur foi fabricado como personagem debochado, aquele que insulta professores, feministas, militantes de esquerda e trabalhadores em manifestações. Seu papel foi o de traduzir em linguagem vulgar e agressiva aquilo que Renan articulava e Kim revestia de suposta racionalidade. Arthur do Val tornou-se um bufão a serviço da burguesia, especializado em criar polêmicas e arrastar a juventude despolitizada para o campo da direita por meio da estética do escárnio. Sua carreira política acabou em escândalo após a divulgação de áudios misóginos durante viagem à Ucrânia, mas esse episódio não é acidente: é a comprovação de sua essência reacionária. Arthur não foi vítima de si mesmo, foi apenas fiel ao que sempre foi: um misógino, fascista e serviçal da ordem capitalista. Sua queda expõe os limites da política do espetáculo, mas também mostra como o MBL sempre soube explorar figuras descartáveis para manter sua máquina funcionando.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158943" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1.jpg" alt="" width="715" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1.jpg 715w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1-300x168.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1-640x358.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/LEONILSON_instalacaosobre2figuras_CapeladoMorumbi_2023_foto_VicvonPoser-27_baixa-715x400-1-681x381.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 715px) 100vw, 715px" />Fernando Holiday: a farsa da diversidade reacionária</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Fernando Holiday é, talvez, a peça mais cínica do tabuleiro do MBL. Negro, homossexual, jovem, filho de empregada doméstica, Holiday foi erguido como prova viva de que não existe racismo estrutural no Brasil e de que o liberalismo seria o caminho da “superação individual”. Sua trajetória foi convertida em panfleto vivo contra as lutas antirracistas, contra o movimento negro e contra o feminismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Holiday demonstra a crueldade da ideologia burguesa: transformar a exceção em regra, o indivíduo em justificativa para negar a opressão coletiva. Sua função foi legitimar, com sua presença, um projeto estruturalmente racista, elitista e excludente. Nada mais útil ao fascismo de mercado do que colocar um jovem negro para dizer que cotas raciais são um erro, que o movimento negro é vitimismo e que a polícia genocida está apenas cumprindo seu papel. Fernando Holiday é a expressão encarnada da servidão voluntária, alguém que renega suas próprias origens para servir de escudo ideológico à classe dominante.</p>
<h5 style="text-align: justify;"><strong>Guto Zacarias, Ricardo Almeida e Matheus Faustino: os quadros auxiliares</strong></h5>
<p style="text-align: justify;">Ao lado dessas figuras centrais, o MBL abrigou outros militantes e dirigentes como Guto Zacarias, Ricardo Almeida e Matheus Faustino, que tiveram papéis secundários, mas estratégicos. Eles funcionaram como corpo de sustentação, multiplicando a presença do MBL em diferentes regiões, reforçando a narrativa de pluralidade e garantindo a expansão da máquina midiática. Sua função nunca foi individual, mas coletiva: eram peças intercambiáveis de uma engrenagem maior. Ao contrário de Kim, Renan, Arthur e Holiday, que viraram celebridades, esses quadros operaram como soldados políticos na guerra cultural da direita. A burguesia sabe muito bem: para cada rosto público, é preciso uma massa de quadros invisíveis, dispostos a organizar, difundir e reproduzir a ideologia dominante. O MBL provou que, no capitalismo contemporâneo, biografias são armas políticas. Cada um de seus integrantes foi moldado para representar uma faceta do projeto burguês: o prodígio, o empresário, o bufão, a exceção racial e os quadros auxiliares. Nenhum deles existe como sujeito político autêntico; todos são funções de uma engrenagem maior, cujo objetivo é consolidar o fascismo de mercado no Brasil. A crítica marxista deve deixar claro: não se trata de julgar moralmente os indivíduos, mas de revelar como suas vidas foram instrumentalizadas para legitimar o capital, criminalizar a classe trabalhadora e pavimentar o caminho da extrema-direita. A tarefa histórica não é apenas denunciar essas figuras, mas desmascarar a estrutura de poder que as produziu, porque enquanto houver capitalismo, haverá sempre novos “Kims”, “Renans”, “Arthurs” e “Holidays” prontos para assumir o palco do espetáculo burguês.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Financiamento e conexões internacionais da extrema-direita</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Um dos aspectos centrais para compreender a gênese do Movimento Brasil Livre (MBL) é o seu financiamento e a forma como se insere em uma rede internacional de organizações ultraliberais e de extrema-direita. A versão oficial, que apresenta o grupo como fruto de uma juventude “autônoma” e “espontânea” mobilizada por doações individuais ou vaquinhas virtuais, é parte da própria operação ideológica que visa encobrir seus laços com setores empresariais e redes de poder muito mais amplas. Desde sua fundação, o MBL contou com apoio direto e indireto de empresários do agronegócio, do setor financeiro e de grupos industriais, que viam na sua atuação uma frente útil para desgastar o governo petista e conter qualquer tentativa de reformas sociais mais profundas. Mas o núcleo da engrenagem está nas conexões internacionais. O MBL foi moldado por uma teia continental que remete à Atlas Network, rede de think tanks ultraliberais criada nos Estados Unidos e financiada por magnatas como os irmãos Koch. Essa rede funciona como uma espécie de incubadora de organizações da direita em todo o continente, fornecendo recursos, treinamento, suporte jurídico e, sobretudo, know-how em comunicação digital e marketing político. É desse laboratório que emergiram não apenas o MBL no Brasil, mas também grupos semelhantes na Argentina, Chile, Venezuela, Colômbia e outros países, todos com o mesmo perfil: jovens de classe média alta, discurso liberalizante e antiesquerdista, estética “moderna” e capacidade de ocupar o espaço digital com agressividade.</p>
<p style="text-align: justify;">A extrema-direita latino-americana, ao longo do século XX, sempre contou com o apoio de setores empresariais locais e de redes internacionais. No Chile, por exemplo, durante os anos 1960 e início dos 1970, setores católicos conservadores organizados em torno da Democracia Cristã e depois do próprio Pinochet foram financiados por canais ligados aos EUA, via CIA e fundações “educativas”, como parte da preparação para o golpe de 1973. Na Argentina, organizações civis e paramilitares de ultradireita também receberam recursos e treinamento de instâncias norte-americanas, articulando-se ao empresariado local contra qualquer tentativa de redistribuição. No Brasil, desde a criação do IBAD nos anos 1950 e do IPES nos anos 1960, já se verificava a infiltração direta de recursos empresariais e internacionais na organização da ofensiva conservadora que culminaria no golpe de 1964. A novidade do MBL não está, portanto, na dependência de financiamento externo, mas na forma como essa dependência se traduziu numa estética juvenil e numa comunicação digital afinada com a lógica das redes sociais do século XXI. O movimento funcionava como uma franquia de um projeto maior, cuja matriz está na reorganização global da direita diante da crise estrutural do capitalismo e do esgotamento do progressismo latino-americano. Essa ofensiva, que atravessa a década de 2010, visava aproveitar o desgaste de governos como os de Dilma Rousseff, Cristina Kirchner e Rafael Correa para promover uma guinada neoliberal e antipopular.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158944" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml.jpg" alt="" width="735" height="1110" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml.jpg 735w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-199x300.jpg 199w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-678x1024.jpg 678w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-278x420.jpg 278w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-640x967.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/9f187b1794f2c894c654cb09df4fce8c9ad3bbd4_ml-681x1028.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 735px) 100vw, 735px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Assim, desde sua origem, o MBL esteve longe de ser “espontâneo”. Sua existência só se explica ao se compreender a longa tradição de financiamento e articulação internacional da extrema-direita na América Latina. De IBAD e IPES no Brasil aos católicos conservadores chilenos e aos empresários argentinos, sempre houve uma base de classe dominante e um elo externo sustentando a reação. O MBL é apenas a atualização dessa história: um grupo aparentemente jovem e autônomo, mas, na realidade, peça de uma engrenagem continental que busca conter qualquer possibilidade de avanço popular e reorganizar o bloco no poder sob a bandeira do liberalismo de mercado e da repressão às forças sociais insurgentes.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Aparato midiático e linguagem juvenil</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A força inicial do MBL não se deu no parlamento, mas nas ruas e nas redes. Seus fundadores souberam explorar as ferramentas digitais (Facebook, Twitter, YouTube) para difundir uma linguagem acessível, repleta de memes, humor debochado e simplificações ideológicas. Essa estética “irreverente” era fundamental para se diferenciar da velha direita, vista como careta, envelhecida e excessivamente institucional. Ao mesmo tempo, o movimento construiu forte presença nas ruas a partir de 2015, organizando manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff. Tais atos foram estimulados por ampla cobertura midiática (Globo, Veja, Folha, Estadão), que oferecia palco e legitimidade aos jovens liberais. O MBL funcionava como uma ponte entre empresários financiadores, mídia corporativa e massas descontentes, transformando insatisfação difusa em pressão política articulada. O golpe parlamentar de 2016, que resultou no impeachment de Dilma, só pode ser explicado levando em conta o papel do MBL. O movimento foi a vanguarda de mobilização social que deu aparência “popular” a uma articulação burguesa conduzida no Congresso, no Judiciário e no empresariado. O MBL encarnava, no espaço público, o ressentimento das classes médias e a ofensiva do grande capital contra direitos sociais. Sua função histórica, portanto, não foi apenas participar de protestos, mas legitimar a ofensiva neoliberal e preparar o terreno para um projeto ainda mais reacionário que culminaria na eleição de Jair Bolsonaro em 2018. O MBL ajudou a normalizar o discurso de ódio, a desqualificar a esquerda, a corroer a legitimidade das instituições democráticas e a naturalizar a violência como resposta política.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>As Jornadas de Junho de 2013 e a gênese reacionária do MBL</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">As Jornadas de Junho de 2013 constituem um marco incontornável na história recente da luta de classes no Brasil. O estopim, aparentemente localizado no aumento das passagens de ônibus, rapidamente transbordou para uma indignação popular difusa contra a precarização da vida urbana, a corrupção estrutural e a repressão policial. Essa irrupção massiva da juventude e dos trabalhadores nas ruas revelou a insatisfação latente diante de um Estado que, em meio ao crescimento econômico do lulismo, jamais rompeu com os mecanismos de exploração e desigualdade. Sob a lente marxista, Junho expressa a contradição entre a promessa de inclusão capitalista e a realidade da dominação de classe: as demandas por mobilidade, saúde e educação pública escancaravam o caráter burguês de um Estado que só se move em consonância com os imperativos da acumulação.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse primeiro momento, a repressão brutal da polícia militar (balas de borracha, prisões arbitrárias, assassinatos), foi documentada e denunciada por uma miríade de mídias ativistas independentes. Coletivos como a Mídia Ninja e centenas de iniciativas de streaming improvisado ganharam projeção ao transmitir em tempo real a barbárie estatal. Essa comunicação popular representava uma fissura no monopólio da grande imprensa, historicamente alinhada à burguesia. No entanto, ao mesmo tempo em que fortaleciam a denúncia, essas mídias não possuíam uma estratégia de classe capaz de organizar a revolta em direção a uma saída revolucionária. Sem um horizonte político claro, o terreno das ruas permaneceu aberto para a infiltração de tendências reacionárias que se apresentavam como “apartidárias” e “sem bandeiras”. A consigna “sem partido”, que no início expressava a recusa justa à burocracia eleitoral, rapidamente foi apropriada por setores de direita como arma de criminalização da esquerda organizada. Essa manipulação ideológica transformou o descontentamento em hostilidade contra movimentos sociais e organizações de trabalhadores, produzindo verdadeiras guerras campais entre blocos progressistas e reacionários dentro das manifestações. O que estava em disputa era a própria direção política da massa revoltada: de um lado, uma juventude popular que apontava para a radicalização das lutas; de outro, grupos articulados que buscavam canalizar a energia das ruas para uma pauta antipolítica, liberalizante e moralista. Essa batalha refletia a lógica marxista da luta de classes travada também no campo ideológico: quando não há direção proletária organizada, a burguesia ocupa o vazio, reorganizando o ressentimento em prol da conservação da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, germina o Movimento Brasil Livre (MBL). Seu surgimento foi uma reação calculada à insurgência popular de 2013. O MBL apropriou-se da linguagem juvenil e da estética digital para mascarar seu projeto burguês, apresentando-se como alternativa “moderna” diante da falência da esquerda institucional. Mais que isso: o movimento encontrou na tática da infiltração uma de suas principais armas. Arthur do Val, posteriormente alçado a celebridade política, desenvolveu técnicas de se infiltrar em manifestações de esquerda com o objetivo explícito de desestabilizar, ridicularizar e criminalizar militantes. Seus vídeos, editados de forma caricata, eram difundidos no YouTube como entretenimento, convertendo a violência política em espetáculo. Sob a aparência de humor debochado, tratava-se de uma prática criminosa: espionagem, difamação e incitação ao ódio contra trabalhadores organizados. Do ponto de vista marxista, esse método revela a função ideológica do MBL: não dialogar, mas destruir, não disputar, mas sabotar a auto-organização popular. A ofensiva digital de figuras como Arthur do Val corresponde ao que Marx e Engels identificavam como função da ideologia dominante: apresentar a dominação de classe como senso comum, invertendo a realidade. Ao expor militantes como caricaturas, o MBL transformava os explorados em culpados de sua própria miséria, legitimando a repressão estatal e naturalizando o neoliberalismo como única saída. Essa lógica é estruturalmente fascista: ao invés de enfrentar os capitalistas, o ódio é direcionado contra sindicatos, feministas, negros, estudantes e qualquer forma de organização coletiva. O fascismo, dizia Reich, é a psicologia de massas da reação. No Brasil, ele se encarnou na figura midiática de jovens que transformaram a política em mercadoria digital.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158949" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1.jpg" alt="" width="903" height="1024" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1.jpg 903w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-265x300.jpg 265w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-768x871.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-370x420.jpg 370w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-640x726.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Cheio-vazio-1992-903x1024-1-681x772.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 903px) 100vw, 903px" />Assim, o MBL foi não apenas produto desse contexto, mas sua antítese reacionária. Onde a classe trabalhadora ensaiava passos de independência, o MBL interveio para reabsorver a energia insurgente em favor da burguesia. Onde as mídias independentes denunciavam a violência policial, o MBL difundia o escárnio e a legitimação da repressão. Onde os movimentos populares buscavam radicalizar as pautas sociais, o MBL pregava a despolitização total, como se a ausência de partido fosse garantia de liberdade. Na prática, era a abdicação da luta de classes em favor do domínio absoluto do capital. Junho abriu a brecha, mas a ausência de organização revolucionária permitiu que o inimigo a ocupasse. A lição é clara: sem direção proletária consciente, toda revolta corre o risco de ser capturada pelo aparelho ideológico da burguesia.</p>
<p style="text-align: justify;">O ano de 2015 marca a primeira grande aparição pública do MBL como força política. Aproveitando o desgaste do governo Dilma Rousseff após as eleições de 2014 e a Operação Lava Jato, o movimento foi um dos principais articuladores dos protestos de março, abril e agosto, que levaram milhões às ruas sob o lema do combate à corrupção e do impeachment.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui já se observa a função histórica do MBL: transformar ressentimento social em mobilização dirigida contra o governo petista. O descontentamento com a economia, a inflação e o desemprego foram canalizados não contra os capitalistas ou as estruturas do Estado, mas contra um partido específico, apresentado como encarnação de toda a corrupção. A esquerda foi demonizada, e a ideia de que o impeachment era “a saída democrática” foi massificada. O MBL fornecia a estética juvenil, os memes e o discurso moralizante que tornava esse processo palatável para amplos setores médios.</p>
<p style="text-align: justify;">A ascensão do MBL só foi possível porque encontrou amplificação midiática sistemática. Jornais, revistas e canais de televisão abriram espaço generoso para seus líderes, que passaram a ser tratados como porta-vozes legítimos da “nova política”. Kim Kataguiri foi entrevistado inúmeras vezes, Holiday recebeu destaque como “jovem negro contra o vitimismo”, e Renan Santos aparecia como articulador de bastidores. Essa relação era simbiótica: enquanto a mídia oferecia visibilidade, o MBL garantia a ocupação das ruas com pautas que interessavam à burguesia. A narrativa de que o impeachment representava uma “revolta popular” só foi possível porque jornais e TVs transmitiam ao vivo as manifestações convocadas pelo movimento, exaltando sua suposta espontaneidade e minimizando seu caráter empresarial e organizado. Dessa forma, o MBL tornou-se peça-chave na engrenagem de legitimação do golpe de 2016. A mídia corporativa não apenas narrava os protestos; ela os produzia junto com o MBL.</p>
<p style="text-align: justify;">O impeachment de Dilma Rousseff foi o marco da consolidação do MBL. O movimento foi um dos principais articuladores das manifestações que criaram o ambiente político necessário para o golpe parlamentar. Sua atuação demonstrou que a burguesia havia encontrado um novo instrumento: uma direita jovem, agressiva, aparentemente “independente” dos velhos partidos, mas totalmente subordinada ao capital. Com o golpe consumado, o MBL cumpriu sua função histórica imediata: garantir as condições sociais para a ascensão de Michel Temer e a aprovação de medidas impopulares como a PEC do Teto de Gastos e a reforma trabalhista. Ao mobilizar as massas contra a “corrupção do PT”, o movimento abriu caminho para um projeto neoliberal ainda mais agressivo, que não teria sobrevivido sem apoio de rua.</p>
<p style="text-align: justify;">Se nas ruas o MBL já havia demonstrado capacidade de mobilização, foi nas redes sociais que consolidou seu diferencial estratégico. Com páginas que chegavam a milhões de seguidores no Facebook, canais no YouTube e forte presença no Twitter, o movimento tornou-se um dos principais difusores de conteúdo político digital no Brasil. A linguagem era simples, memética, apelando para o humor, a ridicularização do adversário e a simplificação ideológica. Essa estética não era apenas “engraçada”; ela tinha função política clara: desmoralizar a esquerda, criminalizar o pensamento crítico e difundir a ideologia liberal-fascistizante como senso comum.</p>
<p style="text-align: justify;">A internet foi, portanto, o laboratório de subjetivação do MBL. Ali, ele consolidou sua base social e preparou o terreno para disputar corações e mentes de milhões de jovens que não se viam representados pela política tradicional.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158948" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/leonilson-todos-os-rios-c-1989.jpg" alt="" width="330" height="652" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/leonilson-todos-os-rios-c-1989.jpg 330w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/leonilson-todos-os-rios-c-1989-152x300.jpg 152w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/leonilson-todos-os-rios-c-1989-213x420.jpg 213w" sizes="auto, (max-width: 330px) 100vw, 330px" /></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A entrada na política institucional</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Em 2016, alguns membros do MBL se candidataram a cargos públicos, em especial vereadores e deputados. O caso mais emblemático foi a eleição de Fernando Holiday como vereador em São Paulo pelo DEM, com quase 50 mil votos. Holiday tornou-se símbolo da estratégia: um jovem negro, gay, oriundo da periferia, defendendo pautas ultraliberais e conservadoras. Sua figura foi instrumentalizada como prova de que o MBL era “inclusivo” e “plural”, embora sua política fosse frontalmente contrária aos interesses das classes populares e das minorias. A entrada de quadros do MBL na institucionalidade mostrou que o movimento não pretendia ser apenas uma força de pressão externa. Ele buscava disputar poder diretamente, formando uma nova geração de políticos de direita para consolidar sua agenda.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre 2015 e 2018, o MBL também enfrentou contradições. Parte de sua base defendia um liberalismo mais “puro”, enquanto outra parte se aproximava cada vez mais do conservadorismo autoritário. Essa tensão refletia não apenas divergências ideológicas, mas disputas por recursos e visibilidade. Ainda assim, o denominador comum permanecia: a submissão ao grande capital e o combate intransigente à esquerda. As contradições internas nunca colocaram em risco a função central do MBL: ser um braço político da ofensiva burguesa. O período 2015-2018 foi decisivo para preparar o terreno para Jair Bolsonaro. Embora o MBL e Bolsonaro tenham divergido em alguns momentos, sobretudo após 2019, é inegável que o movimento foi incubadora do bolsonarismo.</p>
<p style="text-align: justify;">A naturalização do discurso de ódio, o moralismo anticorrupção, a criminalização da esquerda, a deslegitimação da política institucional e a defesa de medidas autoritárias foram todos elementos difundidos pelo MBL antes mesmo da candidatura de Bolsonaro ganhar força. O MBL forneceu parte da estética bolsonarista, da sua base social e da sua legitimidade. Entre 2015 e 2018, o MBL se consolidou como ator central da política brasileira. Seu desenvolvimento foi marcado por:</p>
<ul>
<li style="text-align: justify;"><strong>Estruturação empresarial e financiamento burguês</strong>;</li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Amplificação midiática sistemática</strong>;</li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Capacidade de mobilização de massas contra a esquerda</strong>;</li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Consolidação como força digital; </strong></li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Inserção institucional no parlamento</strong>;</li>
<li style="text-align: justify;"><strong>Preparação do terreno para o fascismo bolsonarista</strong>.</li>
</ul>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158951" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson.jpg" alt="" width="400" height="640" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson.jpg 400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-188x300.jpg 188w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-263x420.jpg 263w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" />Linha teórica e ideologia do MBL</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">A consolidação do MBL como força política não se explica apenas por sua presença midiática ou pelo apoio empresarial. O movimento possui uma linha teórica e ideológica própria, construída a partir da combinação de três vetores centrais: o liberalismo econômico radical, o conservadorismo moral e o fascismo adaptado ao contexto brasileiro contemporâneo. A análise dessa composição revela a função do MBL na luta de classes e sua relação com a reprodução do capitalismo dependente no Brasil. O discurso oficial do MBL se apresenta como liberal, defendendo a liberdade individual, o livre mercado e a redução do Estado. Inspirado por autores como Friedrich Hayek, Ludwig von Mises e Milton Friedman, o movimento difunde a ideia de que o Estado é um entrave ao desenvolvimento, a corrupção é seu efeito natural e a iniciativa privada é a solução para todos os problemas sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse liberalismo, contudo, é apenas a fachada ideológica de uma prática autoritária. O MBL nunca defendeu verdadeiramente a liberdade em sentido universal, mas apenas a liberdade do capital de explorar sem entraves. Sua concepção de indivíduo é restrita ao consumidor; sua ideia de sociedade é a de um mercado sem limites; e sua noção de democracia é reduzida a procedimentos formais que podem ser suspensos quando o capital exige. Assim, o liberalismo no MBL cumpre a função de revestir políticas violentas com o manto da “liberdade”. Privatizações, cortes de direitos, repressão a greves e perseguição a movimentos sociais são apresentados como expressões da “livre escolha” dos cidadãos, quando na realidade são imposições brutais de classe.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o liberalismo é a face econômica, o conservadorismo moral é a face cultural do MBL. O movimento construiu sua base em torno de pautas como:</p>
<ul>
<li class="li">ataque à educação crítica, sob o lema da “Escola sem Partido”;</li>
<li class="li">combate a políticas de gênero e sexualidade;</li>
<li class="li">defesa da família tradicional como núcleo moral da sociedade;</li>
<li class="li">demonização do feminismo, dos direitos LGBT e das lutas antirracistas.</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">Esse conservadorismo cumpre função clara: desviar a insatisfação social das contradições de classe para “inimigos culturais”. O professor, o artista, o militante feminista ou antirracista são apresentados como ameaças à ordem social, enquanto os verdadeiros inimigos (banqueiros, empresários, latifundiários) permanecem intocados. A guerra cultural é o terreno onde o MBL mais se destacou. Utilizando memes, vídeos curtos e uma linguagem agressiva, o movimento transformou a disputa ideológica em espetáculo midiático. O riso, a zombaria e o deboche passaram a ser armas políticas. A desqualificação substituiu o argumento. O resultado é uma política reduzida a slogans e afetos primários, que reforçam o ódio e a intolerância.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>MBL: Liberalismo de Fachada, Fascismo de Essência</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Movimento Brasil Livre é, em sua essência, a tradução contemporânea de um fenômeno que marcou o século XX: o fascismo. Evidentemente, não se trata da repetição literal da estética de camisas negras ou marchas paramilitares; o MBL é expressão de um fascismo “sem uniforme”, adaptado às condições da sociedade de massas, às redes digitais e à lógica do neoliberalismo periférico. Para compreendê-lo, é necessário retomar as categorias que definem o fascismo como fenômeno histórico e político.</p>
<p style="text-align: justify;">Leandro Konder já afirmava que o fascismo é um fenômeno tipicamente de direita. Sua força não está em criar ideias próprias, mas em saquear o arsenal marxista e distorcê-lo: luta de classes transformada em tragédia eterna a ser disciplinada por uma elite; ideologia esvaziada de seu caráter crítico para virar propaganda; nação reinterpretada como mito orgânico acima das contradições sociais. Mussolini, ex-dirigente socialista, foi o protótipo dessa apropriação perversa, vendendo à burguesia italiana uma caricatura do marxismo que justificava a repressão. O MBL age na mesma chave: repete termos como “liberdade”, “revolução”, “novo movimento social”, mas esvaziando-os de conteúdo emancipatório para reorientá-los em favor da ordem capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158950" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310.jpg" alt="" width="1920" height="1804" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310.jpg 1920w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-300x282.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-1024x962.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-768x722.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-1536x1443.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-447x420.jpg 447w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-640x601.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/Leonilson-Slave-1990-scaled-e1729253035310-681x640.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px" />Wilhelm Reich, em sua teoria da economia libidinal, mostra que o fascismo não se explica apenas pela política de classes, mas pela gestão repressiva das pulsões. O fascismo mobiliza a energia das massas não pela promessa de emancipação, mas pelo reforço da autoridade e da sexualidade reprimida. Vladimir Safatle, retomando Reich, argumenta que o fascismo é “a articulação entre a suspensão da lei e o culto da lei”, funcionando como regressão paranoica de uma sociedade inteira. É o culto da violência, a exaltação da polícia, a defesa da repressão, o ódio ao inimigo interno. O MBL cumpre esse papel: dissemina discursos de ódio contra professores, sindicatos, movimentos sociais e minorias, ao mesmo tempo em que incensa a polícia e naturaliza a brutalidade estatal.</p>
<p style="text-align: justify;">Deleuze e Guattari, no <em>Anti-Édipo</em>, lembram que “as massas desejaram o fascismo”. A servidão voluntária é elemento central: o autoritarismo não se impõe apenas de cima, mas encontra adesão social. É isso que explica a penetração do MBL entre a juventude: muitos jovens aderem ao discurso de “rebeldia liberal”, acreditando que estão lutando contra o sistema quando, na prática, reforçam o domínio do capital. O desejo pelo autoritarismo, pela ordem, pelo “fim dos privilégios” (que nunca são os da burguesia) é manipulado pelo movimento como combustível político. Adorno e Horkheimer, na <em>Dialética do Esclarecimento</em>, definem o fascismo como patologia social, paranoia organizada pela indústria cultural e pela política de massas. Essa patologia está presente no MBL: a simplificação do discurso, a criação de inimigos fictícios (“comunismo”, “ideologia de gênero”), a mobilização constante de afetos de medo e ódio. Tudo isso garante coesão a um projeto que, na realidade, é funcional ao capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, o fascismo deve ser entendido como contrarrevolução preventiva. Quando o capital entra em crise, e as massas ensaiam processos de contestação, surge a necessidade de reorganizar o consenso pela força. O MBL foi um instrumento dessa contrarrevolução no Brasil pós-2013: capturou o mal-estar popular, canalizou-o contra a esquerda e pavimentou o caminho para o golpe de 2016 e a ascensão de Bolsonaro. Não é exagero dizer que o MBL é um braço auxiliar do bolsonarismo, ainda que tente hoje se diferenciar dele para sobreviver.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, chegamos ao ponto central: o MBL representa um fascismo de mercado. Ele combina o ultraliberalismo econômico (privatizações, ataque a direitos, Estado mínimo) com a defesa intransigente da repressão estatal. É a junção entre Hayek e Mussolini, Chicago e Integralismo, Paulo Guedes e o porrete da polícia. Seu projeto é claro: um país onde a juventude seja mobilizada para odiar o inimigo interno, aplaudir a violência, acreditar que a exploração é liberdade e que a destruição dos direitos sociais é modernidade. Portanto, o MBL é parte da engrenagem fascista contemporânea, adaptado às novas formas de comunicação e subjetividade, mas cumprindo a mesma função histórica: salvar o capital em crise pela repressão, pelo ódio e pela destruição de qualquer possibilidade de emancipação. O MBL é peça fundamental do aparelho de hegemonia de classe, atualizado para a era digital, cujo liberalismo é pura fachada. A essência é fascista: culto à ordem, criminalização da esquerda, mobilização do ressentimento social e ataque sistemático à crítica intelectual.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos traços centrais do fascismo é a exaltação da ordem social e a naturalização da violência estatal como instrumento de preservação dessa ordem. O MBL, desde seu surgimento, legitimou a repressão policial contra greves, ocupações estudantis e manifestações populares. Em seus discursos e práticas midiáticas, os militantes do movimento apresentam a polícia como garantidora da “liberdade”, invertendo a realidade concreta em que essa mesma polícia é a guardiã dos interesses burgueses, responsável pelo genocídio da juventude negra e periférica. Essa legitimação da violência corresponde ao núcleo do projeto fascista, que busca transformar a repressão em consenso, convencendo setores médios de que a eliminação do “inimigo interno” é condição para a paz social. Outra marca estrutural do fascismo é a construção de um inimigo absoluto, desumanizado e responsabilizado por todos os males sociais. O MBL opera nesse registro ao equiparar o petismo ao comunismo e tratar qualquer militante de esquerda como ameaça à nação. A retórica contra o “marxismo cultural” e contra a “doutrinação” nas escolas é instrumento para consolidar a imagem do inimigo interno. Essa lógica é profundamente fascista porque não admite mediação: a esquerda é apresentada não como adversária política legítima, mas como inimiga a ser destruída. Assim, cria-se a base ideológica para a violência física, a perseguição judicial e a repressão aberta contra trabalhadores organizados.</p>
<p style="text-align: justify;">Marx já apontava que a pequena-burguesia, em momentos de crise, oscila entre o proletariado e a burguesia. É nesse setor social que o fascismo encontra sua principal base. O MBL mobiliza exatamente esse ressentimento: jovens de classe média precarizados, trabalhadores informais que acreditam no “empreendedorismo”, segmentos médios que veem nos pobres e nos movimentos sociais a causa de sua instabilidade. O movimento transforma a frustração em ódio, convertendo contradições estruturais do capitalismo em ressentimento dirigido contra inimigos fictícios. Como dizia Adorno, a personalidade autoritária encontra satisfação em submeter-se à ordem e, ao mesmo tempo, agredir os mais fracos. O MBL organiza politicamente esse impulso. A apropriação da estética juvenil é outro elemento clássico da estratégia fascista. Nos anos 1920 e 1930, o fascismo europeu soube mobilizar símbolos de vitalidade e modernidade para atrair a juventude. O MBL cumpre a mesma função no século XXI, usando memes, linguagem digital, humor debochado e estética pop. Essa aparência de novidade serve para canalizar a energia juvenil (que poderia se dirigir à transformação radical) para a defesa da ordem do capital. É a transmutação da rebeldia em conformismo ativo: o jovem que poderia lutar contra a exploração é transformado em defensor da exploração, sob o mito da meritocracia e do empreendedorismo. Essa inversão é típica do fascismo, que se alimenta da força vital das massas para submetê-las à lógica da dominação.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158953" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/m_leo-nao-consegue-mudar-o-mundo.jpg" alt="" width="332" height="500" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/m_leo-nao-consegue-mudar-o-mundo.jpg 332w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/m_leo-nao-consegue-mudar-o-mundo-199x300.jpg 199w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/m_leo-nao-consegue-mudar-o-mundo-279x420.jpg 279w" sizes="auto, (max-width: 332px) 100vw, 332px" />Por fim, o anti-intelectualismo é elemento constitutivo do fascismo. O MBL, desde seu início, atacou universidades, professores, cientistas e artistas, acusando-os de “doutrinadores” e “parasitas”. Essa recusa da crítica é funcional: ao deslegitimar o pensamento crítico, o movimento busca cortar pela raiz qualquer possibilidade de contestação consciente à ordem burguesa. O ódio à crítica é parte da necessidade estrutural de um projeto que só sobrevive se transformar a ignorância em virtude. A hostilidade contra a universidade pública e contra a produção cultural crítica demonstra o caráter fascista do MBL, que deseja um povo dócil, desinformado e incapaz de formular alternativas. O MBL, portanto, é mais que um grupo liberal: é a expressão contemporânea de um fascismo de mercado, adaptado às condições do capitalismo dependente brasileiro. Liberal na economia, fascista na política. Essa combinação reflete a necessidade da burguesia de intensificar a exploração em tempos de crise, eliminando direitos, privatizando serviços e precarizando o trabalho, ao mesmo tempo em que reprime com violência qualquer forma de resistência popular. Trata-se de um fascismo sem uniforme, mas com a mesma essência: mobilização de massas contra o proletariado, culto à ordem, ódio à crítica, repressão como consenso. Do ponto de vista histórico, a ascensão do MBL responde à crise do lulismo, ao desgaste do progressismo e ao vazio deixado pela ausência de uma direção revolucionária. Quando as Jornadas de Junho de 2013 expuseram a insatisfação popular, a burguesia tratou de reorganizar suas forças. O MBL foi a resposta: transformar a rebeldia em conformismo, o descontentamento em ódio regressivo, a juventude em tropa de choque da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">A consequência inevitável dessa ofensiva é a intensificação das lutas concretas na sociedade. À medida que o MBL e outros aparelhos fascistizantes avançam, os setores populares são pressionados à autodefesa e à radicalização. O conflito entre interesses antagônicos (burguesia e proletariado) tende a se acirrar. O MBL cumpre a função de ponta de lança ideológica e prática da repressão, criando o ambiente para que a violência de Estado se legitime e para que o ódio contra os trabalhadores se normalize. Mas a luta de classes não se apaga. O avanço fascista provoca, inevitavelmente, a reação popular. Greves, ocupações, protestos e lutas comunitárias emergem como resposta à ofensiva. A sociedade se cinde cada vez mais entre os que defendem os interesses dos dominantes, travestidos de liberalismo, mas sustentados pelo fascismo, e os que lutam por sobrevivência, dignidade e emancipação. Essa cisão reflete a impossibilidade de conciliação entre capital e trabalho em tempos de crise. O fascismo de mercado do MBL, portanto, não é apenas ameaça ideológica. Ele é prenúncio de confrontos concretos, de choques nas ruas, de radicalização da luta política. Cabe aos trabalhadores e às organizações revolucionárias compreender que a disputa não é apenas eleitoral ou institucional, mas vital: trata-se de defender a própria existência contra um projeto que naturaliza a morte, a exploração e a repressão.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O MBL no presente e a tarefa revolucionária</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Após a ascensão meteórica que culminou no golpe de 2016 e na pavimentação do caminho para Bolsonaro, o MBL passou por mudanças profundas. Seu desgaste político foi visível: crises internas, disputas entre figuras, perda de parte da base mais radicalizada. Ainda assim, o movimento não desapareceu. Pelo contrário: manteve-se como força midiática, explorando as redes sociais, adaptando-se ao jogo parlamentar e reposicionando-se no tabuleiro da direita. Hoje, o MBL busca se reciclar como uma direita jovem, “moderna” e supostamente democrática, uma operação de maquiagem que não apaga sua gênese fascista.</p>
<p style="text-align: justify;">Suas candidaturas continuam a ocupar espaço institucional, muitas vezes em aliança com setores do centro liberal e do progressismo domesticado. Nas câmaras municipais, assembleias estaduais e no Congresso, suas figuras seguem articulando projetos de ataque aos direitos trabalhistas, às universidades, aos movimentos sociais. As redes de apoio empresarial e midiático, ainda que menos explícitas, permanecem, garantindo fôlego para a sobrevivência política do grupo. O MBL soube se ajustar: se antes vendia-se como vanguarda do antipetismo, agora tenta aparecer como guardião da democracia contra os “excessos” do bolsonarismo, sem jamais romper com o projeto de fundo que ajudou a consolidar. Esse reposicionamento é perigoso. Quando até setores progressistas tratam o MBL como “interlocutor legítimo”, seja em debates televisivos, seja em mesas de negociação, contribuem para normalizar um agrupamento que nasceu do golpismo e do fascismo de mercado. A normalização é um dos mecanismos mais eficazes do fascismo: ele se traveste de legalidade, de pluralidade, de voz democrática, enquanto avança em sua tarefa histórica de aniquilar a organização popular.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda institucional, com seu antifascismo domesticado, reforça esse processo. Ao recusar a denúncia radical, prefere o jogo parlamentar, o diálogo “civilizado” com os algozes, acreditando que se pode conter a extrema-direita com boa retórica e alianças momentâneas. É a mesma lógica que, no passado, entregou a classe trabalhadora desarmada diante do avanço reacionário. Esse limite precisa ser evidenciado: não há pacto possível com quem nasce do fascismo e continua a operar como tropa de choque da burguesia. O enfrentamento ao MBL exige uma estratégia distinta: crítica sistemática, denúncia cotidiana e construção de organização popular. A batalha não é apenas parlamentar, mas cultural, comunicacional e formativa. A hegemonia do MBL foi construída no terreno da juventude e das redes; é ali que também precisamos intervir, não com o mesmo espetáculo vazio, mas com formação política, cultura crítica, cinema, música, literatura, debate público radical. As trincheiras da cultura e da comunicação são fundamentais para disputar consciências e romper com a manipulação liberal-fascista.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158954" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/3xto9f984r2x3t3olr4dcfyhlwxd.jpg" alt="" width="222" height="400" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/3xto9f984r2x3t3olr4dcfyhlwxd.jpg 222w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/04/3xto9f984r2x3t3olr4dcfyhlwxd-167x300.jpg 167w" sizes="auto, (max-width: 222px) 100vw, 222px" />A tarefa revolucionária que se coloca é clara: combater o MBL é combater o fascismo em sua versão neoliberal. Se o MBL sobrevive mesmo após o desgaste do bolsonarismo, é porque cumpre função estrutural: preparar a juventude para o ódio de classe, treinar quadros políticos submissos à ordem e apresentar o capitalismo como destino inevitável. O combate ao MBL, portanto, é inseparável da luta contra o fascismo e contra o capitalismo. Denunciar, enfrentar e derrotar esse movimento não é apenas tarefa de resistência, mas condição para a emancipação. A história mostrou, da Comuna de Paris ao antifascismo do século XX, que não há conciliação possível: ou se constrói um poder popular capaz de destruir os aparelhos da burguesia, ou estaremos sempre à mercê das novas roupagens da mesma barbárie.</p>
<p><em>As imagens que ilustram este artigo são reproduções de obras de  José Leonilson.</em></p>
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		<title>Contradições entre os oprimidos e o obscurantismo progressista</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Mar 2026 12:20:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
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		<category><![CDATA[Identitarismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Até que ponto setores que se reivindicam de esquerda não participam ativamente da produção desse novo obscurantismo? Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">O obscurantismo não é produto exclusivo da direita, tampouco resulta de uma via de mão única. Ele se manifesta sempre que a realidade social é mistificada, quando relações históricas concretas são reinterpretadas por meio de visões de mundo irracionais, anticientíficas ou pseudocientíficas. O obscurantismo se define pela sua função social: bloquear a compreensão da totalidade, interditar a crítica estrutural e converter a política em dogma moral.</p>
<p style="text-align: justify;">A história do fascismo demonstra com clareza como esse mecanismo opera nos setores reacionários. No entanto, a questão que se impõe hoje é outra, mais incômoda: até que ponto setores que se reivindicam de esquerda não participam ativamente da produção desse novo obscurantismo? Até que ponto determinadas formas de identitarismo, mesmo quando animadas por intenções declaradamente antirracistas, não acabam reproduzindo lógicas ultra-sectárias e reacionárias? Asad Haider aponta que a transformação da identidade em fundamento absoluto da política produz contradições internas devastadoras. Ao deslocar a luta do plano das relações sociais para o terreno da identidade fixa, cria-se um campo propício à irracionalização do conflito, onde divergências políticas passam a ser interpretadas como traições ontológicas. A crítica deixa de ser momento necessário do avanço coletivo e passa a ser tratada como violência simbólica.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158868" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507.jpg" alt="" width="855" height="545" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507.jpg 855w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507-300x191.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507-768x490.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507-659x420.jpg 659w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507-640x408.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507-681x434.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 855px) 100vw, 855px" />É nesse ponto que a reflexão de João Bernardo se torna incontornável — e profundamente incômoda. Ao analisar as raízes históricas do racismo moderno, ele observa que a atribuição de uma cultura a uma biologia (e vice-versa), característica central do fascismo, não é estranha a certos momentos do próprio movimento negro. Trata-se de uma advertência dura, mas necessária: quando a identidade é naturalizada, ela se torna terreno fértil para a biologização da política. A referência a Marcus Garvey é exemplar. Quando Garvey afirmou que “nós fomos os primeiros fascistas” e que Mussolini teria se inspirado nele, não se tratava apenas de bravata pessoal. Seu projeto recusava explicitamente a fusão de culturas e a miscigenação biológica, estabelecendo uma concepção de identidade racial fechada, essencializada e excludente. Esse tipo de formulação, ainda que se apresente como anticolonial, reproduz os mesmos pressupostos estruturais do racismo que afirma combater.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, qualquer crítica aos limites históricos e políticos do movimento negro — ou de seus desdobramentos identitários contemporâneos — é rapidamente rotulada como racismo. A crítica política é interditada em nome de uma moral identitária. Como observa João Bernardo, vivemos um momento em que às nações somaram-se as identidades, todas elas marcadas pelo ressentimento, pela vaidade e por uma lógica obsessiva que interpreta a realidade a partir de um único prisma. No movimento negro contemporâneo, essa lógica se expressa na redução de toda a complexidade social ao “mito da cor”. Esse processo se desenvolve em um contexto histórico de aprofundamento da crise capitalista, de precarização generalizada da vida e de perda de horizonte coletivo. A miséria material avança de forma brutal, enquanto a classe dominante reforça sua autoconfiança e sua capacidade de impor seus interesses mesmo em meio a crises devastadoras. O resultado é uma sociedade marcada pelo adoecimento físico e psíquico, pela fragmentação social e pela busca desesperada por pertencimento e sentido.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158867" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608.jpg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />Nesse cenário, o deslocamento da política para o plano identitário funciona como substituto da organização coletiva. Em vez de enfrentar as estruturas que produzem a miséria, canaliza-se a indignação para disputas simbólicas, para o reconhecimento institucional e para a ocupação de espaços burocráticos. Não por acaso, as lutas identitárias contemporâneas mantêm relação orgânica com partidos políticos e com o Estado burguês, operando muito mais como formas de mediação do conflito do que como forças de ruptura. A história do racismo moderno confirma essa dinâmica. As revoltas de negros escravizados (como a Revolta dos Malês) foram respondidas não apenas com repressão direta, mas com estratégias sofisticadas de controle, deportação e reorganização da força de trabalho. A ideia de “repatriar” negros libertos para a África, apresentada como solução filantrópica, funcionou historicamente como mecanismo de expulsão dos elementos mais combativos e de estabilização da ordem escravista.</p>
<p style="text-align: justify;">A experiência da Libéria é emblemática. Fundada sob inspiração liberal estadunidense, ela rapidamente se converteu em um regime no qual ex-escravizados transformaram-se em classe dominante, reproduzindo relações de exploração brutal sobre a população autóctone. A identidade racial compartilhada não impediu a reprodução da dominação de classe. Pelo contrário: serviu como legitimação ideológica de um novo regime de opressão. Esses exemplos históricos desmontam qualquer ilusão de que a identidade, por si só, possa fundamentar um projeto emancipatório. Sem crítica da totalidade, sem análise das relações de classe e sem organização coletiva, a política identitária tende a oscilar entre o espiritualismo moral e a integração burocrática. Teses, protestos e exigências acabam resvalando — como advertia Emil Ludwig — do plano simbólico para o material sem mediações conscientes, abrindo espaço tanto para o autoritarismo quanto para a instrumentalização reacionária.O desafio que se coloca aos lutadores sociais hoje não é escolher entre identidade e classe, mas superar a falsa oposição entre ambas. Isso exige romper com o obscurantismo progressista, recuperar a crítica histórica e recolocar a organização popular no centro da política. Sem isso, a luta se fragmenta, o irracionalismo avança e o capital segue intacto, administrando tanto a miséria material quanto a miséria política.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158865" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893.jpg" alt="" width="818" height="538" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893.jpg 818w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893-300x197.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893-768x505.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893-639x420.jpg 639w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893-640x421.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893-681x448.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 818px) 100vw, 818px" /></p>
<p><em>As imagens que ilustram esse artigo são obras de Anish Kapoor.</em></p>
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		<title>Mentiras que lhe dirão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Feb 2026 09:23:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[Mas o espírito da história se move de maneiras estranhas. O que está morto nunca morre de verdade. E ouviremos, uma e outra vez, as mesmas mentiras... Por Phil A. Neel]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Phil A. Neel</h3>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote><p><em>Traduzido do <a href="https://illwill.com/lies" target="_blank" rel="noopener">Inglês</a>.</em></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">A cidade glacial está sob cerco. Nos longos e frios invernos no coração do Meio-Oeste, o ar pode ficar tão frio que dói respirar. Mercenários mascarados, em veículos sem identificação, percorrem os bancos de neve, sequestrando pessoas nas ruas e levando-as para centros de detenção por períodos indeterminados. Cada um dos mercenários recebe dezenas de milhares em um “bônus de assinatura” (até 50 mil e 60 mil dólares em perdão de empréstimos estudantis), simplesmente para pegar em armas em nome do regime em batalha. Diante de uma crise econômica em câmera lenta, na qual um boom surreal do mercado de ações, apoiado pelo Estado, é acompanhado por uma estagflação persistente na economia cotidiana, o puxa-saquismo é uma das poucas indústrias que apresentam algum crescimento real. Enquanto as ruas congelam em Minneapolis, a notação do Standard &amp; Poor atinge níveis recordes. Enquanto isso, o crescimento do emprego no ano passado foi tão desanimador que, após a divulgação dos números, o regime agiu rapidamente para demitir o chefe do Departamento de Estatísticas do Trabalho e ameaçar os meios de comunicação que divulgavam os números. <strong>[1]</strong> Além do declínio no emprego, devido ao congelamento da imigração, a profundidade da crise é sinalizada pela queda contínua na Taxa de Participação na Força de Trabalho, que serviu como o maior obstáculo ao crescimento do emprego no primeiro semestre de 2025 – indicando que um montante cada vez maior de pessoas está abandonando completamente a força de trabalho, mas não são contabilizadas nas estatísticas de desemprego. <strong>[2] </strong>O cerco pode, assim, ser entendido como uma espécie de keynesianismo mercenário, destinado a compensar a falta de emprego nos novos setores de defesa movidos a IA, que têm sido o foco da política institucional mais ampla de pilhagem-e-reestruturação.</p>
<p style="text-align: justify;">Enviados de cidades distantes, eles algemam os detidos e os espancam quando mais nenhuma reação é possível. Disparam munições “não letais” com clara intenção de mutilar. Repetidas vezes, atropelam pessoas por veículos. Indivíduos que simplesmente estão voltando do trabalho para casa têm suas janelas quebradas e são arrastados para fora de seus veículos para serem espancados e detidos por horas, às vezes dias. Agora, eles estão atirando em pessoas com munição letal. Invadiram o estacionamento de uma escola de ensino fundamental. Tiraram uma mãe de seu carro, colocaram-na em uma van sem identificação e foram embora, deixando seu bebê em uma cadeirinha, com a porta aberta, em temperaturas negativas (felizmente, resgatado por pessoas da multidão). Lançaram gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral em um carro cheio de crianças, hospitalizando todas elas, incluindo um bebê de seis meses que não conseguia respirar. <strong>[3] </strong>Em represália à resposta da comunidade, eles começaram a invadir as casas de cidadãos também, muitas vezes errando os endereços. O prefeito diz que não há nada a ser feito. O governador convocou a Guarda Nacional – destacada não contra os mercenários, é claro, mas contra aqueles que protestam contra eles. As autoridades judiciais da nação não apenas se recusaram a abrir processos, mas, além disso, foram ordenadas a investigar as vítimas e seus familiares. Todas as noites, o mundo inteiro assiste a vídeos de corpos envoltos em sombras, movendo-se na escuridão gelada da cidade sitiada. Nas lives, as pessoas gritam e choram, os mercenários berram suas ameaças, disparam suas armas e, diante de uma multidão grande o suficiente, recuam. Os hotéis que os hospedam são pichados. Os carros que abandonam são saqueados. Em resposta, mais tropas são enviadas pelo presidente, um rei louco, num corpo em decomposição, berrando ordens incoerentes do seu palácio no pântano. O sol nasce e acordamos com o sabor amargo de novas atrocidades à nossa espera.</p>
<p style="text-align: justify;">Há cinco anos, a poucos quarteirões de onde Renee Good foi assassinada pelo covarde Jonathan Ross, um assassinato semelhante desencadeou a maior revolta popular em mais de uma geração. Logo depois, nos contaram uma série de mentiras sobre essa rebelião. Disseram-nos que era um “movimento social não violento”, mesmo com a imagem de uma delegacia de polícia em chamas piscando ao fundo. Disseram-nos que, embora houvesse alguma violência, ela havia sido iniciada por agitadores externos, talvez policiais, ou até mesmo nacionalistas brancos. Quem quer que fossem, eles não eram membros da “comunidade”, mas sim indivíduos apenas “querendo causar confusão”. Disseram-nos que o plano desde sempre foi processar o assassino, e que foi apenas uma coincidência que as acusações só foram feitas depois que quase todas as grandes cidades do país viram seus centros saqueados e incendiados. Disseram-nos para irmos para casa, que tudo tinha acabado. Disseram-nos que os distúrbios eram apenas a desculpa de que Trump precisava para declarar a lei marcial e cancelar as próximas eleições. Disseram-nos que, se eleito, Biden iria arrumar as coisas. Disseram-nos que as deportações iriam acabar e que as políticas de Trump seriam revertidas. As crianças seriam libertadas das jaulas. Disseram-nos que devíamos voltar ao mais do mesmo da política — que essa era a única maneira de “fazer as coisas acontecerem”. No conjunto, essas mentiras resultaram em uma única grande inverdade: a revolta nunca ocorreu e nunca poderá ocorrer novamente. <strong>[4]</strong> Mas o espírito da história se move de maneiras estranhas. O que está morto nunca morre de verdade. E ouviremos, uma e outra vez, as mesmas mentiras:</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Se você está aqui legalmente, não precisa se preocupar…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Essa é sempre a primeira mentira, que apenas os mais tresloucados ou os mais irracionais acreditam. Mesmo para os defensores ferrenhos do Estado, essa primeira mentira foi destruída no momento em que o tiro foi disparado. Por isso, ela foi reconfigurada: “se você não estiver obstruindo os agentes federais…”. E logo acrescentaram os adendos habituais: “por que você estava em um motim, para começar?” (dito às pessoas que moram no bairro); “por que você trouxe seus filhos para um protesto?” (para as famílias que buscavam os filhos na escola); “esses cidadãos têm ligações com grupos radicais de esquerda” (válido automaticamente para todos os que se opõem à agência). Eventualmente, a ladainha de mentiras proferidas por qualquer força tirânica tende a se normalizar em torno do guia de estilo das Forças de Defesa de Israel (IDF), refinado no solo bombardeado da Palestina, que há muito serve como laboratório para novos horrores. E, claro, como até uma rápida olhada na história demonstraria, os horrores nunca permanecem confinados à terra sagrada. Quando o bumerangue imperial retorna à mão que o lançou, o processo sempre começa com o chamado “elemento criminoso”. E então passa a ser os esquerdistas e os sindicalistas. E depois seus simpatizantes. E depois qualquer inimigo. Eventualmente, eles têm como alvo os inimigos inerentes da nação, figurados em termos de sangue e solo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158686 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="932" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-768x511.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-631x420.webp 631w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-640x426.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_23__use_-681x453.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo completamente alheios aos protestos, cidadãos americanos foram detidos em batidas policiais e tiveram a validade de suas certidões de nascimento negada. Indígenas americanos foram mantidos em cativeiro por dias — usados, em parte, como moeda de troca para forçar as lideranças tribais a abrir seus territórios à agência. Isso não é um exagero: na cidade sitiada, qualquer pessoa que não pareça suficientemente branca (e branca da maneira certa) deve portar sua prova de cidadania o tempo todo, sob pena de ser detida e sequestrada. Este é, quase palavra por palavra, o cenário que foi profetizado pelos “esquerdistas radicais” com o advento de agências como o Departamento de Segurança Interna (DHS) e o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), após a aprovação da Patriot Act por uma coalizão bipartidária durante a Guerra ao Terror. Foi nessa mesma época que a Agência de Segurança Nacional (NSA) ganhou novos e amplos poderes. A primeira operação interagências para combater “gangues transnacionais violentas” foi iniciada em 2005, sob o governo Bush, e antecipa grande parte da linguagem ainda usada hoje. Mas o novo estado de segurança foi um esforço conjunto. Na verdade, embora tenha sido iniciado durante um governo republicano, foram os democratas que transformaram essas agências em órgãos operacionais e expandiram amplamente seus poderes.</p>
<p style="text-align: justify;">Tanto o ICE quanto o DHS foram rapidamente expandidos sob Obama, que supervisionou o maior aumento nas deportações e de campos de deportação, construídos, em parte, por meio de um acordo de US$ 1 bilhão sem licitação com a empreiteira prisional privada Core Civic (na época, Corrections Corporation of America). <strong>[5]</strong> Na verdade, Jonathan Ross, o agente que assassinou Good, foi contratado pela agência no auge dessa onda de deportações da era Obama. Nos mesmos anos, houve uma expansão dos centros de dados da NSA, incluindo a cerimônia de inauguração do Centro de Dados da Iniciativa Nacional Abrangente de Segurança Cibernética em Utah, que é talvez o núcleo da infraestrutura moderna de vigilância em massa. <strong>[6]</strong> Da mesma forma, foi o governo Obama que assinou os primeiros acordos com a Palantir para rastrear crimes transfronteiriços, estabelecendo as bases para a colaboração de longa data da empresa com o ICE. <strong>[7]</strong> Hoje, a empresa foi contratada para construir um aplicativo “que preenche um mapa com alvos potenciais de deportação, traz um dossiê sobre cada pessoa e fornece uma ‘pontuação de confiança’ sobre o endereço atual da pessoa…”. <strong>[8]</strong> Esses foram os mesmos anos em que os apelos para “abolir o ICE” ganharam força, juntamente com os apelos para reverter os programas de vigilância da NSA e desmantelar a Segurança Interna. Não é preciso dizer que essas demandas foram rejeitadas tanto por democratas quanto por republicanos como sendo nada mais do que reclamações estridentes de radicais irrealistas renitentes. Agora, enfrentamos precisamente a “realidade” que nos foi prometida.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“O assassino será processado…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Essa mentira é o bote salva-vidas para os muitos milhões que ainda se agarram a algum resquício de fé em um estado de direito outrora flutuante que, segundo qualquer critério razoável, já submergiu até o fundo do mar escuro e revolto. Vão nos dizer para esperar, para deixar o sistema funcionar, como se a ordem cívica submersa fosse ressurgir. Na realidade, essa ordem sempre foi uma gentileza temporária, possibilitada apenas pelas águas calmas de uma ordem imperial bem estabelecida. Lançado na crise, a probidade do Estado é sempre sacrificada pela efervescência do puro poder subjacente. Aqueles que baseiam sua fé nessa probidade simplesmente não conseguem entender o novo mundo em que se encontram. O que estamos testemunhando, então, é o lento e constrangedor crepúsculo da ingenuidade política bem-educada que definiu toda uma geração de liberais. Os liberais são, em sua essência, uma espécie de adoradores da legalidade. Tire-lhes a legislação e os processos judiciais e você ficará com penitentes confusos, cegos pelos horrores sombrios vislumbrados brevemente por trás de sua fé destruída. No curto prazo, eles continuarão como antes, só que com mais fervor. Confrontados com evidências incontestáveis de sua realidade política, os liberais se agarrarão ainda mais fortemente às ruínas de sua civilidade desmoronada, entrando com ação judicial após ação judicial, escrevendo para os seus deputados, indo de porta em porta para defender candidatos medíocres nas eleições de meio de mandato, tais como fanáticos cheios de feridas se flagelando em penitência pela praga.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem demora, vimos uma série interminável de ações judiciais movidas contra quase todos os aspectos do programa trumpista. Em 20 de janeiro de 2026, havia um total de 253 processos ativos de contestação de ações do governo. Porém, mesmo quando obtêm decisões favoráveis, elas se mostram inexequíveis. Por um lado, com controle decisivo sobre a Suprema Corte, bem como sobre as nomeações federais em todas as agências relevantes, qualquer contestação legal pode ser, em última instância, anulada. A Suprema Corte já anulou as ordens de tribunais inferiores em 17 ocasiões.<strong> [9]</strong> Por outro lado, os poderes executivos podem ser mobilizados para simplesmente anular decisões judiciais por decreto, seja de forma direta (por meio da proliferação de indultos presidenciais, concedidos a licitantes nos bastidores, por exemplo) ou buscando os mesmos fins, por meio de canais diferentes. Por exemplo, quando a deportação de Kilmar Abrego Garcia foi considerada ilegal por um tribunal inferior (e, em um caso raro, a decisão foi mantida pela Suprema Corte), o governo federal procurou indiciá-lo por acusações espúrias, a fim de justificar tentativas subsequentes de deportação. No entanto, precisamente porque esses casos acabam por seguir seu curso nos tribunais e, de fato, geram um certo atrito administrativo, os liberais conseguem manter uma fé mágica de que podem, eventualmente, ter êxito.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158687 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_13__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso deixa pouca esperança para uma resposta judicial aos assassinatos de Renee Good e Alex Pretti. Pouco depois do assassinato de Good, Ross foi evacuado do local, que foi limpo sem registro de provas ou investigação. Da mesma forma, outras agências foram proibidas de proteger o local do assassinato de Pretti. O Departamento de Justiça não apresentou nenhuma acusação, tampouco as autoridades municipais ou estaduais. O regime tem afirmado que Ross e todos os seus outros mercenários têm imunidade total. Eles têm repetido mentiras descaradas sobre o assassinato de Pretti, imediatamente refutadas por inúmeros vídeos. Neste momento, como em qualquer assassinato cometido pela polícia, as denúncias só serão formalizadas em qualquer uma dessas mortes caso houver mobilizações em massa de escala e intensidade suficientes. Passeatas pacíficas, mesmo que enormes ou disfarçadas de “greve geral” (mas que não fecham nenhuma empresa de grande porte da cidade), não têm como alcançar esse objetivo. Neste momento, simplesmente não há nenhum mecanismo imaginável pelo qual passeatas de protesto a fim de ganhar atenção política possam encorajar alguém no poder a levar esses assuntos a julgamento. Ataques à propriedade inimiga, bloqueios totais e greves podem forçar tal resultado, à maneira dos distúrbios no caso de George Floyd, vários anos antes. Nesse caso, porém, mesmo um julgamento e uma condenação poderiam ser facilmente anulados por meio de um indulto presidencial e, se os casos de 6 de janeiro servirem de indício, tudo indica que o executivo iria atrás disso. Não se pode mais confiar que o Estado nem mesmo finja fazer justiça. Os liberais são deixados a chorar, chicoteando suas costas feridas em atos fúteis de penitência, na esperança de reconquistar a atenção de seu deus delinquente. Eventualmente, seus furúnculos estouram e a peste os leva, como aos demais.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“O ICE não é bem-vindo aqui…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Talvez isso seja verdade em algum sentido espiritual — na mente do político progressista convencido de que, no fundo do coração, o ICE não tem influência. No entanto, se você permite que atrocidades sejam cometidas na sua frente e não toma nenhuma medida substantiva para impedi-las, além de um discurso forte e talvez uma ou duas ações judiciais sem efeito, você não está, na verdade, cedendo também em espírito? Essa mentira se tornou um refrão comum entre os políticos locais. O prefeito disse isso. O governador também. E, apesar de claramente “não ser bem-vindo”, o ICE se sentiu bem à vontade. Os mercenários do ICE vagam pelas ruas. Arrombam as portas das pessoas, instruídos por seus superiores de que não precisam de um mandado assinado por um juiz. A ordem é claramente ilegal, mas isso parece não importar mais. <strong>[10]</strong> As únicas forças que minimamente se mobilizam contra essa invasão são pessoas comuns, que arriscam prisão, mutilação e morte para enfrentar os homens armados enviados para levar seus vizinhos para campos de prisioneiros. Redes robustas de defesa comunitária se espalham pela cidade congelada, enraizadas na infraestrutura criada justamente por essa incansável “extrema-esquerda” que tanto incomoda o regime. Por causa dessas redes, os mercenários raramente conseguem se mover sem serem rastreados, raramente param em algum lugar sem serem cercados e raramente tomam qualquer atitude sem serem filmados.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem dúvida, as redes de resposta comunitária desse tipo estão entre as formas mais importantes de organização de classe que os EUA viram nas últimas décadas. Conforme explicado por Adrian Wohlleben:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">Com a construção de eixos de defesa, ou “centros”, combinados com outras práticas autônomas de rastreamento, perseguição e interrupção, a luta atual contra o ICE iniciou uma repolitização da inteligência infraestrutural, juntamente com uma inversão de sua orientação “cinegética” (de presa para predador). Esse fato, combinado com a notável tendência de restituir o político nos espaços da vida cotidiana, aponta para uma superação dos limites de 2020… <strong>[11]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">No entanto, parece improvável que até mesmo essa inteligência infraestrutural distribuída e incorporada ao tecido urbano da vida cotidiana seja suficiente. Embora seja um primeiro passo necessário, o andamento da história muitas vezes ultrapassa nossos esforços. Para acompanhar, é necessário dar um salto para o desconhecido.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Vá lá e vote…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Estamos diante de uma realidade sombria: a invasão está aqui, a santificada “resistência” da classe política nunca chegou e o poder bruto que governa o mundo está escancarado para todos. Os democratas já recusaram, em larga medida, os apelos para pressionar pela abolição do ICE e, em vez disso, defenderam sua fórmula desgastada de câmeras corporais e melhor treinamento. <strong>[12]</strong> Diante de tudo isso, como uma mentira tão simples pode persistir? Como alguém poderia estar legitimamente convencido de que votar, ainda mais nas eleições de meio de mandato, enfraqueceria o poder do regime? No entanto, mesmo para os ex-liberais desiludidos com sua fé nos canais legais, que agora perseguem o ICE em seus Honda Fit, soprando seus pequenos apitos e brandindo seus celulares como um escudo — e, apesar do disparate da imagem, legitimamente arriscando a morte para fazê-lo —, uma fé residual no sistema eleitoral permanecerá, mesmo depois que qualquer crença na ordem judicial tiver sido destruída. As eleições são, para os liberais, precisamente a maneira pela qual os erros sistêmicos são corrigidos. Elas oferecem um caminho de volta aos domínios legislativo e executivo, de onde o poder parece ser exercido. Assim, apoderar-se do legislativo em 2026 e, com sorte, o executivo em 2028, parece ser um meio razoável pelo qual o regime poderia ser deposto e seus erros, corrigidos. No entanto, mesmo para os liberais agora mobilizados, o medo paira no fundo da mente: e se isso for, afinal, uma mentira?</p>
<p style="text-align: justify;">A ilusão do “vá lá e vote” persiste, em parte, porque os EUA agora se transformaram totalmente no que Ernst Fraenkel, um advogado trabalhista que viveu a ascensão dos nazistas, chamou de “estado duplo”, no qual o regime é capaz de “manter uma economia capitalista governada por leis estáveis — e manter uma normalidade cotidiana para muitos de seus cidadãos — ao mesmo tempo em que estabelece um domínio de ilegalidade e violência estatal”, nas palavras do acadêmico Aziz Huq. Nessa modalidade de duas vias, um “Estado normativo”, marcado por um “sistema jurídico comum de regras, procedimentos e precedentes”, continua a operar, enquanto, paralelamente, um “Estado prerrogativo”, definido por “arbitrariedade ilimitada e violência sem controle por garantias legais”, se torna a norma em certas áreas geográficas ou na governança de grupos demográficos específicos. Para Fraenkel, essa zona “sem lei” não nega totalmente a zona legal, mas opera em conjunto com ela, mesmo que os “dois estados coabitem de forma incômoda e instável” porque “pessoas ou casos podem ser arrancados do estado normativo e jogados no estado prerrogativo” por um capricho político. Mas a tendência é clara: com o tempo, o ditatorial “estado prerrogativo distorceria e lentamente desmantelaria os procedimentos legais do estado normativo, deixando um domínio cada vez menor para a lei comum”. <strong>[13]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso é possível, em parte, porque o poder social não opera principalmente por meio do Estado. Na sua raiz, o poder da elite sobre as massas populares é econômico. O Estado e toda a classe política que o dirige são, em última análise, uma emanação dessa forma mais fundamental de poder de classe, definida pelo controle sobre a riqueza social. Essa é a chave para compreender o comportamento aparentemente suicida do regime: o Estado nunca teve a intenção de servir como uma instituição representativa universal que defende os direitos do “povo” de forma abstrata. Ele sempre foi projetado para ser, em última análise, uma máquina para negociar entre segmentos da elite proprietária e defender seus interesses. Em certos períodos de prosperidade imperial, os interesses gerais da população estão vagamente alinhados com os da elite. Mas esses são pactos temporários. Embora Fraenkel, nascido e criado em uma dessas épocas, veja o Estado prerrogativo como uma exceção, esse está, na verdade, mais próximo da norma histórica. O mistério do comportamento bizarro do regime se dissipa quando o vemos como uma luta faccional entre os quadros existentes das elites — em outras palavras, como um mecanismo de poder e pilhagem, empregado por certas facções do capital contra a população em geral, e potencialmente em detrimento de outras facções — e uma tentativa frenética dessas elites, desafiadas por blocos ascendentes de capital em outros lugares, de definir um curso estratégico que permita que seu poder sobreviva em um futuro geopolítico incerto.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158688 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover.webp" alt="Mentiras que irão te contar " width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_34__cover-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Talvez a tendência mais importante por trás do surgimento de um estado dual ditatorial seja esta: mesmo enquanto a inflação dizima os salários e os custos da energia disparam na economia cotidiana, o mercado de ações atingiu níveis sem precedentes. Como resultado, os quinze capitalistas mais ricos do país ganharam quase US$ 1 trilhão em riqueza ao longo de 2025 (de US$ 2,4 trilhões para US$ 3,2 trilhões), enquanto todos os 935 bilionários dos EUA juntos agora controlam o dobro da riqueza (US$ 8,1 trilhões) da metade mais pobre da população (170 milhões de pessoas). <strong>[14]</strong> Tampouco isso é uma exceção trumpista. É, ao contrário, parte de uma tendência que vem se consolidando desde a era Obama, no início da década de 2010 — que, por sua vez, reviveu uma tendência que começou no final da década de 1990 com a primeira bolha da internet, antes de ser interrompida por seu colapso — e que se acelerou em níveis sem precedentes, não sob Trump, mas sob Biden. No total, os 0,01% mais ricos dos americanos (cerca de 16 mil famílias de elite) controlam agora cerca de 12% da riqueza nacional, três vezes mais do que a mesma parcela da população controlava no auge da Era Dourada do século XIX. <strong>[15]</strong> Apesar dos contínuos alertas de que Trump está “destruindo a economia”, a realidade é que a economia está funcionando muito bem. Dada essa realidade sombria, não devemos imaginar que eleger democratas, em distritos eleitorais já grotescamente manipulados pelo gerrymandering, resultaria em um regime substancialmente diferente do atual.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Não dê a Trump um pretexto…”</h3>
<p style="text-align: justify;">Aqui chegamos ao cerne da questão. Uma vez que a ilusão da civilidade desmorona, revelando a força e a fraude do poder como tal, novas mentiras surgem para servir a funções clássicas de contra-insurgência. Seu objetivo é atenuar a resposta imediata ao Estado tirânico, auxiliá-lo em sua repressão expondo militantes e impedir qualquer preparação para o que está por vir. “Não dê a eles um pretexto”, “Não morda a isca”, “Não dê a eles o que querem” — tudo isso acompanhado de novas teorias da conspiração sobre tijolos pré-plantados e agentes provocadores. Como em 2020, essas mentiras giram em torno da alegação de que lutar contra o exército invasor de mercenários acabará por dar ao governo uma desculpa para invocar a Lei de Insurreição e impor a lei marcial. Essa mentira parece ter integridade porque o regime ameaçou repetidas vezes fazer exatamente isso. Mas logo qualquer traço de lógica evapora-se. O que seria um “pretexto” suficiente e por que um regime que não tem absolutamente nenhum escrúpulo em violar a constituição, falsificar provas e perseguir seus oponentes precisaria de tal desculpa? Por que simplesmente não inventar uma? Agentes federais invadiram uma cidade e estão atacando e assassinando civis ativamente — isso já é uma forma de lei marcial, só que não no papel. Mais importante ainda, o objetivo principal da lei marcial é impor a quietude. Recompensar preventivamente o regime com exatamente o que ele quer não evita tanto a lei marcial, mas a torna desnecessária. Se as pessoas continuarem a se recusar a ficar quietas e o regime acabar invocando os poderes normativos adequados para declarar a lei marcial, isso não será culpa de ninguém além do próprio regime, independentemente do que ele escolher como gatilho.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas também temos que perguntar se a lei marcial é, de fato, necessária. Como sugere o modelo de estado duplo de Fraenkel, não há um momento em que um governo eleito se torna repentinamente autoritário. Em vez disso, formas prerrogativas de poder coexistem com as normativas e expandem progressivamente seu domínio de influência ao longo do tempo. O cerco às Cidades Gêmeas é uma evidência clara de que tal processo está bem encaminhado. Manifestar-se pacificamente contra o poder prerrogativo não faz nada para impedir seu progresso. Portanto, nos deparamos com uma escolha: ou não fazer nada além de protestar e registrar o aumento da repressão lentamente nas sombras, ou resistir abertamente e, assim, forçar essa repressão a se revelar para que todos vejam. A primeira opção traz menos riscos imediatos. Ela pode ser justificada como uma pausa estratégica enquanto construímos nossas capacidades. Mas tal afirmação requer então apontar onde essas capacidades estão sendo construídas. Enquanto isso, resistir abertamente acarreta enormes riscos imediatos: prisões em massa, tortura e assassinatos seletivos de ativistas, além de abrir as portas para uma aplicação ainda mais ampla do poder prerrogativo contra uma parcela maior da população. A principal diferença entre as duas opções é que a resistência aberta pelo menos traz consigo a possibilidade de desencadear a mobilização em massa necessária para construir o poder popular e derrubar uma elite tirânica, enquanto a petição por meio de canais normativos restritos não traz essa possibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A história demonstra claramente que tentar esperar que a situação se agrave ainda mais, na esperança de que o estado normativo seja restaurado por meio da intervenção de seus adeptos remanescentes (neste caso, políticos democratas, certos republicanos de centro e tecnocratas do governo, como Jerome Powell), apenas fortalece as elites que se beneficiam da ordem prerrogativa. A questão é, portanto, dupla: primeiro, o que deve ser feito? Segundo, o que será feito conosco independentemente disso? É aqui que surge a questão da guerra civil. A política americana pode ser entendida como sempre existindo em um estado latente de guerra civil. Sob certas condições, essa latência então cai por terra e o espectro de uma guerra civil real torna-se amplamente visível. Já em 2020, esse “espectro sempre presente de uma segunda guerra civil, mais balcanizada” havia entrado na consciência pública. <strong>[16]</strong> A visão da guerra civil tende a acompanhar as mudanças no exercício do poder estatal, particularmente em resposta a revoltas emancipatórias. Conforme explicado por Idris Robinson:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">O funcionamento do Estado se dá, fundamentalmente, afastando a ameaça onipresente de guerra civil. O Estado, como tal, pode ser considerado como aquilo que bloqueia e inibe a guerra civil. O que é único neste país é a nossa tradição emancipatória singular, que está ligada à nossa compreensão da guerra civil. <strong>[17]</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, a reestruturação aparentemente suicida do Estado em duas vias é um meio padrão através do qual as revoltas populares e outros conflitos sociais incendiários são inibidos e a ordem existente, restaurada.</p>
<p style="text-align: justify;">No passado, os poderes prerrogativos foram invocados precisamente para afastar o espectro da guerra civil e da revolução. Desde a sua aprovação em 1807, a Lei da Insurreição foi invocada pelo menos 30 vezes por quinze presidentes, formal e informalmente. Da mesma forma, a lei marcial foi declarada pelo menos 68 vezes. Embora ambos tenham sido usados para conter ameaças da direita (particularmente durante a Reconstrução e o movimento pelos direitos civis do pós-guerra) ou conflitos violentos entre grupos de trabalhadores, os usos mais comuns da força militar federal têm sido, de longe, a repressão de revoltas de escravos, greves e outras revoltas. Uma das primeiras grandes mobilizações internas das forças armadas dos EUA foi realizada pelo genocida Andrew Jackson para reprimir a rebelião de escravos de Nat Turner, em 1831. Da mesma forma, a Lei de Insurreição foi invocada por Rutherford Hayes para encerrar a Grande Greve Ferroviária de 1877, por Warren Harding durante a Batalha de Blair Mountain, em 1921, — a maior revolta armada desde a Guerra Civil —, por Lyndon Johnson, em resposta aos distúrbios que se seguiram ao assassinato de Martin Luther King Jr., em 1968, e por George H.W. Bush, em resposta à revolta em Los Angeles, em 1992. <strong>[18]</strong> Em outras palavras, nem invocar a Lei de Insurreição nem declarar lei marcial sinaliza necessariamente uma guerra civil iminente, ou mesmo a suspensão do poder normativo.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Um agente provocador começou tudo…”</h3>
<p style="text-align: justify;">À medida que o cerco continua, as atrocidades se acumulam e os apelos e protestos dos políticos progressistas provam ser impotentes, algo vai acontecer. Mais e mais pessoas vão começar a destruir propriedades do ICE sempre que puderem. Cada vez mais pessoas verão a necessidade de fechar e destruir a infraestrutura econômica central através da qual o poder da elite opera. Por exemplo, o UnitedHealth Group, com sede nos subúrbios de Minneapolis, foi um dos principais doadores da campanha de Trump (mais de US$ 5 milhões, juntamente com Musk) e é um dos principais beneficiários das políticas do Projeto 2025 de Trump. <strong>[19]</strong> Da mesma forma, a corporação Target, também sediada nos subúrbios das Cidades Gêmeas — e conhecida por operar um dos maiores bancos de dados de reconhecimento facial do mundo, compartilhando esses dados com o governo — doou US$ 1 milhão para o fundo de posse de Trump e tem colaborado ativamente com as forças de ocupação. <strong>[20]</strong> À medida que a polícia e a Guarda Nacional entrarem em cena para apoiar o ICE, as pessoas se insurgirão. As greves se espalharão. Eventualmente, quando ficar claro que o ICE pode e vai matar você sem consequências, alguém revidará. É aí que surge a mentira final, dizendo-nos que a revolta em si não foi iniciada pela população, mas por “agitadores externos”, policiais à paisana ou até mesmo supremacistas brancos.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa mentira tem uma longa história, já bem documentada. <strong>[21]</strong> E, no entanto, a mentira persiste, perpetuada ativamente por ativistas que agem como informantes autoproclamados dentro de qualquer movimento em curso. Ao alegar que qualquer ação agressiva praticada contra o inimigo é cometida por agentes da polícia secreta, esses informantes, de fato, perseguem, vigiam e, às vezes, detêm manifestantes para entregá-los à polícia. Muitas vezes, a própria polícia incentiva esse mito, como durante a Rebelião de George Floyd, em 2020, quando se espalharam rumores de que a primeira janela havia sido quebrada por um policial à paisana ou um supremacista branco, e a polícia então divulgou uma declaração juramentada, fingindo tê-lo identificado como membro dos Hells Angels, para, pouco depois, abandonar discretamente tal alegação — nenhuma acusação foi apresentada, enquanto as evidências dos registros de prisão mostravam claramente que a maioria dos detidos nos distúrbios vinha das imediações. <strong>[22]</strong> Dois outros casos de 2020 mostram as consequências da disseminação de tais rumores.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro ocorreu em Seattle: depois que a polícia abandonou a delegacia leste da cidade, a área foi ocupada por manifestantes. Houve intensos debates sobre se a delegacia seria incendiada, como em Minneapolis. Muitos alegaram que qualquer tentativa de fazê-lo seria uma ação de um agente provocador. Então, em 12 de junho, um homem com roupa colorida decidiu tentar, empilhando detritos contra a lateral do prédio, ateando fogo e indo embora. Ativistas no local apagaram o fogo, enquanto outros perseguiram e filmaram o homem, alegando que ele era um agente provocador. Embora ele tenha escapado, esses ativistas-informantes postaram as imagens online e as divulgaram até que fossem compartilhadas com a polícia, que as usou para identificar Isaiah Thomas Willoughby como suspeito. Willoughby se declarou culpado por incêndio criminoso no ano seguinte e foi condenado a dois anos de prisão e mais alguns anos de liberdade condicional depois disso. Logo, foi revelado que Willoughby não era um agente provocador, mas sim o companheiro de casa enlutado de Manuel Ellis, um homem desarmado assassinado pela polícia na cidade vizinha de Tacoma, no início daquele ano. <strong>[23]</strong></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158689 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar " width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_20__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;">O segundo caso ocorreu em Atlanta: depois que Rayshard Brooks foi morto pela polícia de Atlanta do lado de fora de um Wendy’s local, pessoas do bairro ocuparam o terreno e, posteriormente, incendiaram o prédio. Informantes-ativistas imediatamente alegaram que o incêndio criminoso foi um ato de um agente provocador e vasculharam a internet para encontrar vídeos de uma mulher branca supostamente ateando fogo, que foram então entregues à polícia. A mulher branca, porém, não era uma agente provocadora. Ela era, na verdade, a namorada de Rayshard Brooks e, por causa desses informantes, foi acusada e declarada culpada por incêndio criminoso. <strong>[24]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Isso não quer dizer que policiais à paisana ou informantes não participem dos protestos. Há evidências bem documentadas de que eles o fazem. Da mesma forma, agentes federais se infiltram em grupos ativistas, onde sugerem e ajudam a coordenar ações altamente ilegais como forma de armadilha — isso é algo absolutamente a se prestar atenção dentro de assembleias públicas e espaços fechados para planejamento e preparação. Mas isso não ocorre no meio de um protesto ativo. Como qualquer veterano das lutas políticas nos Estados Unidos pode dizer, os policiais à paisana colocados no meio dos protestos quase sempre têm a tarefa de gravar secretamente, comunicar-se com a polícia do outro lado e, em certos casos, deter participantes que se preparam para atirar objetos ou empunhar armas. Em outras palavras, os policiais à paisana desempenham praticamente a mesma função que os próprios ativistas informantes. O objetivo final do mito do agente provocador é, portanto, fazer com que os ativistas desempenhem o papel de contra-insurgentes.</p>
<h3 style="text-align: justify;">“Estamos em desvantagem…”</h3>
<p style="text-align: justify;">A mentira final afirma que, mesmo que tentássemos, não há como revidar. Essa é a desculpa já mobilizada pelo prefeito, que justificou não mobilizar a polícia para impedir ou investigar os mercenários com alegações de que o ICE superaria em número e armamento as forças policiais locais. <strong>[25]</strong> Da mesma forma, o governador sabe que chamar a Guarda Nacional contra uma agência federal seria um ato criminoso, resultando na federalização das tropas estaduais, o que, se resultar em divisões nas cadeias de comando, é convencionalmente visto como o caminho mais provável para confrontos entre as forças estaduais e federais e, portanto, o início de uma guerra civil — como é explicado em um artigo amplamente compartilhado que documenta simulações de potenciais conflitos civis, realizadas por acadêmicos da Universidade da Pensilvânia. [26] No entanto, todas essas considerações são incapazes de compreender dois fatos cruciais. Primeiro, elas aceitam a suposta oposição entre “democratas” e “republicanos” tal como essa se apresenta e, assim, superestimam a disposição dos políticos locais — muitos financiados por exatamente os mesmos interesses corporativos que Trump — de se comprometerem com qualquer coisa que se assemelhe remotamente a uma resistência significativa a uma invasão federal. Segundo, eles assumem que a resistência deve vir de dentro do próprio estado, talvez apoiada por instituições afiliadas, como sindicatos e organizações sem fins lucrativos. Ao fazer isso, eles ignoram completamente o papel de uma população mobilizada.</p>
<p style="text-align: justify;">A perspectiva de uma guerra civil real surge quando conflitos materiais estabelecidos entre as elites coincidem com a agitação popular, permitindo que esta última sirva de veículo para os primeiros. As guerras civis podem escalar para conflitos revolucionários quando sua dimensão popular é organizada independentemente dessas elites e assume um caráter partisan <strong>[*]</strong> — ou seja, que busca não apenas uma redistribuição de bens ou direitos dentro do sistema existente, mas a transformação social desse próprio sistema, em direção a fins emancipadores. No momento, os conflitos entre grupos de elite não são suficientes para incentivar qualquer rebelião liderada por políticos locais. É muito improvável que o conflito simulado entre as forças estaduais e federais realmente ocorra, a menos que seja desencadeado de fora, ou seja, pela agitação popular vinda de baixo. E é precisamente aí que as previsões existentes falham, recusando-se a levar em conta a perspectiva de um conflito mais geral, em toda a sociedade, com as forças de ocupação. A realidade que os políticos liberais estão tentando desesperadamente disfarçar é que o povo supera em número a força invasora, que o poder das elites econômicas por trás de Trump depende dos trabalhadores e que, mesmo que minimamente organizados, esses trabalhadores têm, portanto, a capacidade de derrotar a invasão por conta própria.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158690 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_.webp" alt="Mentiras que irão te contar" width="1400" height="933" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_.webp 1400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-300x200.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-1024x682.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-768x512.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-630x420.webp 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-640x427.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Dave_Guttenfelder_27__use_-681x454.webp 681w" sizes="auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nota da tradução</strong></p>
<p style="text-align: justify;">[*] Para Phil A. Neel, partisan refere-se ao indivíduo ou grupo que participa ativamente nas lutas que emergem de conflitos de classe cotidianos e localizados. Trata-se, portanto, do projeto comunista que visa intervir diretamente nas lutas, e não teorizar o movimento de forma abstrata. Ver “Teoria do Partido” (disponível em <a href="https://antipoda.comrades.sbs/traducao/2025/09/21/teoriadopartido.html" target="_blank" rel="noopener">Antípoda</a> ).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas do autor</strong></p>
<p style="text-align: justify;">1.Peter Hart, “Trump’s Attacks on Jobs Numbers Are Noise – And Still Dangerous”, Center for Economic and Policy Research, 23 de setembro de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">2. Leila Bengali, Ingrid Chen, Addie New-Schmidt e Nicolas Petrosky-Nadeau, “The Recent Slowdown in Labor Supply in Demand”, Federal Reserve Bank of San Francisco, 12 de janeiro de 2026. Figura 4.</p>
<p style="text-align: justify;">3. Kilat Fitzgerald, “North Minneapolis ICE shooting: Children hospitalized after flash bang, tear gas hits van”, Fox9 KMSP, 15 de janeiro de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">4. Identificando essa resposta desde o início, Idris Robinson afirmou a verdade: “De fato, uma revolta militante ocorreu em todo o país. A ala progressista da contra-insurgência visa negar e desarticular esse acontecimento.” (“How it Might Should be Done”, Ill Will, 16 de janeiro de 2020 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">5. Eric Levitz, “The Obama Administration’s $1 Billion Giveaway to the Private Prison Industry”, New York Magazine Intelligencer, 15 de agosto de 2016 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">6. Ingrid Burrington, “A Visit to the NSA’s Data Center in Utah”, The Atlantic, 19 de novembro de 2015. Disponível online aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">7. Palantir, “Sobre a Palantir”, Palantir, 21 de agosto de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">8. Joseph Cox, “‘ELITE’: The Palantir App ICE Uses to Find Neighborhoods to Raid”, 404 Media, 15 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">9. Lawfare, “Trump Administration Litigation Tracker”, Lawfare, 20 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">10. Luke Barr, “ICE memo allows agents to enter homes without judicial warrant: Whistleblower complaint”, ABC News, 22 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">11. Adrian Wohlleben, “Revolts Without Revolution”, Ill Will, 14 de novembro de 2025 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">12. Mychal Denzel Smith, “‘Abolish ICE’ Is More Popular Than Ever. How Will Democrats Drop the Ball This Time?”, The Intercept, 18 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">13. Aziz Huq, “America is Watching the Rise of a Dual State”, The Atlantic, 23 de março de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">14. Sharon Zhang, “Top 15 US Billionaires Gained Nearly $1 Trillion in Wealth in Trump’s First Year”, Truthout, 7 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">15. Marcus Nunes, “The Great Reconcentration: Why America’s Ultra-Wealthy Now Control 12% of National Wealth”, Money Fetish, 20 de janeiro de 2026. Disponível online aqui. (O número citado por Nunes 2026 usa a metodologia estabelecida em: Emmanuel Saez e Gabriel Zucman, “The Rise of Income and Wealth Inequality in America: Evidence from Distributional Macroeconomic Accounts”, Journal of Economic Perspectives, 34(4), outono de 2020 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">16. Robinson, “How it Might Should be Done”.</p>
<p style="text-align: justify;">17. Robinson, “How it Might Should be Done”.</p>
<p style="text-align: justify;">18. Joseph Nunn, Elizabeth Goitein, “Guide to Invocations of the Insurrection Act”, Brennan Center for Justice, 25 de abril de 2022 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">19. Ian Vandewalker, “Unprecedented Big Money Surge for Super PAC Tied to Trump”, Brennan Center for Justice, 5 de agosto de 2025. Disponível online aqui; People’s Action, “UnitedHealth Will Be a Top Beneficiary of Trump’s Project 2025”, People’s Action, 15 de outubro de 2024 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">20. KPFA, “The Hidden Side of Target: Surveillance, Policing, and a Call for Scrutiny”, KPFA, 20 de fevereiro de 2025. Disponível online aqui; Mike Hughlett, “Target gave $1M to Trump inauguration fund, a first for the company”, The Minnesota Star Tribune, 29 de abril de 2025 (disponível online aqui); Louis Casiano, “Anti-ICE agitators occupy Minnesota Target store, demand retailer stop helping federal agents”, Fox News, 19 de janeiro de 2026 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">21. Dave Zirin, “The Fiction of the ‘Outside Agitator”, The Nation, 3 de maio de 2024 (online aqui); Code Switch, “Unmasking the ‘Outside Agitator’”, NPR, 10 de junho de 2020 (online aqui); Glenn Houlihan, “The ‘Outside Agitator’ Is a Myth Used to Weaken Protest Movements”, In These Times, 3 de junho de 2020 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">22. Logan Anderson, “Who was Umbrella Man, who smashed windows before ‘first fire’ in 2020 Minneapolis protests?”, The Minnesota Star Tribune, 30 de maio de 2025 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">23. Mike Carter, “CHOP protester who pleaded guilty to arson was Manuel Ellis’ housemate, lawyer says”, The Seattle Times, 9 de junho de 2021 (online aqui); Procuradoria dos Estados Unidos, “Tacoma man sentenced to two years in prison for early morning fire in ‘CHOP’ zone”, United States Attorney’s Office Western District of Washington, 5 de outubro de 2021 (online aqui). 24. Para uma visão geral dos protestos em Atlanta, consulte: Anônimo, “At the Wendy’s: Armed Struggle at the End of the World”, Ill Will, 9 de novembro de 2020 (online aqui). Para saber mais sobre as consequências legais, consulte: Kate Brumback, “2 Plea Guilty in Fire at Atlanta Wendy’s During Protest After Rayshard Brooks Killing”, Claims Journal, 7 de dezembro de 2023 (disponível online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">25.Tim Miller e Anne Applebaum, “Anne Applebaum and Jacob Frey: Using Lies to Justify Violence”, The Bulwark, 9 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p style="text-align: justify;">26.Claire Finkelstein, “We ran high-level US civil war simulations. Minnesota is exactly how they start”, The Guardian, 21 de janeiro de 2026 (online aqui).</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Chile: da &#8220;Plaza de la Dignidad&#8221; à &#8220;Colonia Dignidad&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Jan 2026 12:30:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[ Eventos como o estallido social podem interromper por um momento a lógica individualista dominante; mas, sem a capacidade de se enraizar e de durar no tempo, essa lógica tende inevitavelmente a se reafirmar. Por Alessandro Peregalli ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Alessandro Peregalli</h3>
<p style="text-align: justify;">No último dia 14 de dezembro, minutos após o triunfo eleitoral do candidato da extrema direita chilena, José Antonio Kast, com contundentes 58,2% dos votos, um dos memes que apareceram repetidamente nos meus grupos de WhatsApp ou no meu <em>feed</em> do Instagram dizia a seguinte frase: <em>2019 Dignidad, 2025 Colonia Dignidad</em>. Em outubro de 2019, de fato, o conceito de “dignidade” havia sido colocado no centro de uma série de reivindicações, materiais e simbólicas, durante o <em>estallido social</em> que fez tremer os alicerces do modelo neoliberal chileno — a ponto de os manifestantes terem rebatizado como “Plaza de la Dignidad” a Plaza Italia de Santiago, que por meses havia sido seu principal ponto de encontro. Apenas seis anos depois, aquela “dignidade” que o Chile prometia recuperar transformou-se tragicamente no seu oposto.</p>
<p style="text-align: justify;">“Colônia Dignidade” foi uma comunidade agrícola isolada e autossuficiente fundada em 1961 pelo ex-militar nazista Paul Schäfer, que funcionava como uma seita religiosa e ideológica na qual os membros eram submetidos a trabalho escravo, separação forçada de crianças de suas famílias e abusos sexuais constantes. Durante a ditadura de Pinochet, a colônia serviu também como centro clandestino de detenção, tortura e extermínio de opositores políticos. Embora não provenha exatamente dessa experiência, o pai do recém-eleito presidente Kast, Michael Martin Kast Schindele, era um ex-nazista que fugiu clandestinamente para o Chile em 1950, onde fundou uma empresa de embutidos chamada Bavaria. Seu irmão mais velho, Miguel, foi um influente <em>Chicago Boy</em>, como eram chamados os economistas que ditavam a linha econômica do regime militar, inspirados pela escola neoliberal de Chicago. No referendo de 1988, José Antonio Kast votou a favor da continuação da ditadura e posteriormente sempre reivindicou a herança da experiência de Pinochet. Após uma longa militância no partido da direita pós-pinochetista UDI (União Democrata Independente), Kast fundou em 2019 o mais radical Partido Republicano, com o qual foi eleito presidente, depois de ter sido derrotado nas duas eleições anteriores.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158452 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/unnamed.jpg" alt="" width="512" height="284" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/unnamed.jpg 512w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/unnamed-300x166.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px" />Não é fácil, hoje, compreender as razões de uma reviravolta política tão radical ocorrida no Chile em tão pouco tempo. Meu propósito, nestas linhas, é tentar reconstruir os acontecimentos mais importantes dos últimos seis anos, para depois traçar algumas pistas de interpretação, articuladas em torno de três nós fundamentais: a capacidade de resiliência do neoliberalismo chileno, sobretudo no plano subjetivo do corpo social chileno; a natureza fundamentalmente contrarrevolucionária daquela “nova esquerda” chilena que chegou ao governo com Gabriel Boric em 2021, não tanto como “produto” mas sobretudo como “reação” ao <em>estallido social</em>; e o impasse vivido hoje, em nível global, pelo pensamento e pela estratégia revolucionários, bem como pela própria ideia de revolução, que o caso chileno evidenciou de maneira paradigmática.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O Pacto de 15 de novembro e o processo constitucional</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O <em>estallido social</em> chileno eclodiu em 18 de outubro de 2019, quando, após a repressão a um protesto de secundaristas contra o aumento da tarifa do metrô de Santiago, várias estações foram incendiadas. A revolta se espalhou rapidamente por todo o país, com ocupações de praças e destruição de agências bancárias, estabelecimentos comerciais, prédios públicos, igrejas e monumentos associados à longa história de colonialismo. O então presidente de direita Sebastián Piñera reagiu decretando o Estado de Emergência, que causou — segundo o Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH) — 45 mortes e quase 500 traumas oculares (com 82 pessoas que perderam completamente a visão), além de 1.082 casos de tortura e tratamentos cruéis, desumanos e degradantes, e 282 agressões sexuais.</p>
<p style="text-align: justify;">Em resposta à repressão, no dia 25 de outubro realizou-se a maior manifestação da história do Chile, com a participação de 3 milhões de pessoas em todo o país, em uma população total de 19 milhões. Apesar do toque de recolher decretado pelo governo, a mobilização continuou por semanas, com confrontos diários com os <em>C</em><em>arabineros</em> e a participação extraordinária de jovens provenientes das periferias urbanas que constituíram a chamada <em>primera línea</em>, um cordão dedicado a manter a polícia ocupada para permitir a participação das famílias nas manifestações.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto, multiplicaram-se as greves, sobretudo de trabalhadores portuários que, considerando a extensão marítima do país, representam um setor extremamente estratégico para a economia nacional. No dia 12 de novembro, a plataforma Unidade Social, uma coalizão de sindicatos e organizações sociais, convocou uma greve geral por tempo indeterminado, com forte participação no serviço público (especialmente educação e saúde), além dos setores bancário, comercial, mineiro, da construção civil e, justamente, portuário.</p>
<p style="text-align: justify;">As duas principais reivindicações que emergiram nessa conjuntura — e que articularam todas as demais, desde o fim do sistema de privatização das aposentadorias, da água e dos recursos naturais até a luta contra o extrativismo; da defesa dos direitos sindicais à legalização do aborto; do acesso universal e gratuito à universidade à defesa dos direitos territoriais dos povos originários — foram a renúncia de Piñera e a convocação de uma nova Assembleia Constituinte, que permitisse superar a Constituição imposta por Pinochet em 1980 e todo o seu correlato de políticas neoliberais. A resposta do poder político articulou-se então em torno desses dois eixos, buscando por um lado garantir a continuidade institucional do governo e, por outro, conceder às ruas o início de um processo de reforma constitucional que pudesse ser limitado, canalizado e controlado pelo marco institucional vigente.</p>
<p style="text-align: justify;">Para que isso funcionasse, contudo, era necessária a colaboração da oposição política. Na noite entre 14 e 15 de novembro, a grande maioria dos partidos representados no Congresso assinou o Acordo pela Paz Social e a Nova Constituição, após muitas horas de negociações transmitidas ao vivo pela televisão. Endossaram a decisão a ex-Concertação de Partidos pela Democracia — uma coalizão da esquerda neoliberal chilena, com protagonismo dos partidos Socialista (PS) e Democrata-Cristão (PDC) — e, à sua esquerda, uma parte da Frente Ampla (FA), entre eles o jovem deputado Gabriel Boric, enquanto outra parte da FA e o Partido Comunista (PC) rejeitaram o acordo. Já a partir do próprio nome, este evidenciava, em primeiro lugar, a necessidade de restabelecer a paz social no Chile, em troca da promessa de um processo constituinte a ser realizado segundo regras extremamente restritivas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-135392" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2020/12/Chile-Ivan-Alvarado-2.jpg" alt="" width="1230" height="819" />Embora os protestos tenham continuado de forma constante nas semanas seguintes, o acordo atingiu o objetivo de superar a fase mais dura das mobilizações, encerrando a greve geral, salvaguardando a presidência da República e a impunidade dos <em>C</em><em>arabineros</em>, e deslocando a atenção de parte dos movimentos sociais para o processo constituinte. As assembleias territoriais que haviam se constituído ao longo da revolta começaram a se dividir quanto à adesão ou não a esse caminho, enquanto a chegada do verão passou a esvaziar as ruas. Em 8 de março de 2020, uma enorme manifestação feminista prometia reabrir o ciclo de mobilizações, mas o governo foi salvo pela eclosão da pandemia da Covid-19, que permitiu restabelecer — desta vez com maior legitimidade social, dada a ameaça sanitária — o estado de exceção e o toque de recolher. O longo período de confinamento doméstico, além de evidenciar o agravamento da crise social e psicológica da sociedade, teve evidentemente um efeito de desagregação daqueles vínculos que haviam se formado de maneira intensa, porém breve, no calor da insurreição popular. Ao mesmo tempo, a pandemia permitiu adiar de abril a outubro o início do processo constituinte.</p>
<p style="text-align: justify;">Este último, na forma prevista pelo acordo de 15 de novembro, apresentava enormes limitações. Em primeiro lugar, porque se baseava em uma Convenção Constitucional convocada pelo Parlamento e coexistente com a plena continuidade institucional dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário vigentes. Não se tratava, portanto, de uma Assembleia Constituinte plenamente soberana, cujo poder emanasse diretamente do povo. Em segundo lugar, o cronograma estabelecido — agravado pela pandemia — abria o risco de um desgaste institucional, canalizando grande parte das energias populares para eventos eleitorais contínuos, como os plebiscitos de início e de encerramento do processo e, entre eles, um ciclo de eleições municipais, regionais, parlamentares e presidenciais. Em terceiro lugar, a Convenção estava limitada por um altíssimo quórum de dois terços para a aprovação de cada artigo, o que garantia à direita e à ex-Concertação um poder de veto permanente. Por fim, todos os tratados internacionais — entre eles cerca de trinta acordos de livre comércio assinados pelo Chile nas últimas décadas — eram considerados intocáveis e não passíveis de revisão.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar desses obstáculos, após a fase mais dura do primeiro ano da pandemia — durante o qual, em todo caso, a iniciativa política popular não cessou totalmente, dando origem a experiências de cozinhas comunitárias nos bairros, greves de trabalhadores da saúde, protestos pela libertação dos presos políticos da revolta, a greve de fome de um grupo de detentos mapuches e diversas insubordinações nas prisões — o início do processo constituinte parecia sancionar uma mudança radical nos equilíbrios políticos do país. No plebiscito de 25 de outubro de 2020, um ano após o <em>estallido</em>, 78,3% da população votou a favor da abertura do processo constituinte, e 78,9% a favor de uma Convenção escolhida integralmente pela cidadania, e não por uma assembleia mista, eleita metade por sufrágio universal e metade pelo Parlamento. Nas eleições seguintes, em 11 de abril de 2021, para a composição dessa Convenção, as forças progressistas e independentes obtiveram uma ampla maioria. A Lista do Povo e a lista Independentes por uma Nova Constituição, promovidas por movimentos organizados fora dos partidos políticos, conquistaram respectivamente 26 e 11 dos 155 assentos; a lista Aprovo Dignidade, composta por uma aliança entre a FA e o PC, elegeu 28; 17 cadeiras foram reservadas a representantes dos povos indígenas e 11 foram conquistadas por candidatos independentes eleitos fora das listas eleitorais. Os partidos tradicionais saíram duramente derrotados, com 26 cadeiras para os partidos da ex-Concertação e 37 para a coalizão das direitas. No mesmo dia, candidatos comunistas e da FA venceram as eleições municipais nas principais cidades do país. A nota dissonante, contudo, foi a participação eleitoral de apenas 43% da população, um dado por muito tempo subestimado, mas que já prenunciava os limites do processo constituinte em curso.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses limites emergiram com força ao longo de todo o período de trabalhos da Convenção. Apesar das intenções iniciais dos movimentos sociais de exercer uma pressão constante sobre a assembleia, esta rapidamente passou a funcionar segundo lógicas semelhantes às do Congresso Nacional, atuando como um espaço separado do clamor popular que, apesar de tudo, a havia instaurado. Ao mesmo tempo, seu prestígio foi rapidamente abalado por alguns escândalos — o mais emblemático envolvendo o membro da Lista do Povo, Rodrigo Rojas Vade, que durante a campanha eleitoral havia se apresentado falsamente como doente terminal, o que lançou um enorme descrédito justamente sobre os setores mais radicais da Convenção —, pela campanha contrária dos grandes meios de comunicação e pela guerrilha digital de uma série de <em>bots</em> nas redes sociais, que exploraram polêmicas geradas pelo uso de linguagem inclusiva nos trabalhos parlamentares, como o emprego do termo “pessoa menstruante” em vez de “mulher”. Paralelamente, um acordo entre eleitos da FA, do PS e do PDC freou a iniciativa dos setores mais radicais de forçar os limites previamente impostos à Convenção — como a exigência de maioria simples em vez de dois terços, o questionamento da legitimidade das instituições vigentes e a inviolabilidade dos tratados internacionais — e deslocou o eixo das discussões dos temas econômicos para questões culturais e identitárias.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A eleição de Boric e a vitória do “</strong><em><strong>Rechazo</strong></em><strong>“</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O desgaste da Convenção Constitucional — com a desintegração da Lista do Povo após o escândalo Vade e uma série de conflitos internos — e o refluxo progressivo das mobilizações de rua conduziram o cenário político-eleitoral chileno a uma estabilização institucional, recolocando os partidos políticos tradicionais no centro da iniciativa política. Nas primárias para escolher o candidato da aliança Aprovo Dignidade, em julho de 2021, Gabriel Boric &#8211; que havia sido um dos responsáveis pelo acordo de pacificação de 15 de novembro de 2019 e, por isso, era duramente rejeitado pelos setores sociais protagonistas do <em>estallido social &#8211;</em> derrotou de forma surpreendente o candidato comunista Daniel Jadue, considerado mais próximo das demandas da revolta. Para a vitória de Boric contribuíram numerosos eleitores dos partidos da ex Concertação. Nas eleições de 21 de novembro de 2021, Boric ficou em segundo lugar, com 25,8% dos votos, sendo superado pelo candidato de extrema direita José Antonio Kast, que obteve 27,9%. Em terceiro lugar, a grande surpresa foi Franco Parisi, fundador do Partido da Gente, uma força “antipolítica” e tecno-populista, cujas principais propostas econômicas apontavam para um liberalismo radical e para a redução da burocracia pública (Estado mínimo). Parisi era uma figura ambígua, consultor econômico residente nos Estados Unidos, que acumulava uma dívida milionária por se recusar a pagar pensão alimentícia aos filhos. No segundo turno, em 19 de dezembro, Boric venceu com 55,87% dos votos, graças ao aumento da participação eleitoral de 47% para 56%, impulsionado sobretudo pelo voto dos setores populares.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-128743" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/10/Pinera-chile.jpg" alt="" width="980" height="551" />A figura de Boric havia emergido no movimento pela gratuidade do acesso ao sistema universitário em 2011. Junto à comunista Camila Vallejo e a Giorgio Jackson, da Frente Ampla, Boric fazia parte de uma geração política de elite no Chile, cujos membros se destacaram como figuras responsáveis e pacifistas, em oposição às práticas de ação direta dos coletivos anarquistas e insurrecionalistas, que no Chile têm uma forte presença especialmente entre estudantes do ensino médio das escolas das periferias urbanas.</p>
<p style="text-align: justify;">A trajetória política de Boric, assim como o seu governo, passou por um deslocamento constante à direita. Para vencer o segundo turno das eleições presidenciais, Boric moderou suas posições, e uma vez eleito nomeou o neoliberal Mario Marcel para o Ministério da Economia e vinculou o debate sobre reformas à negociação parlamentar, descartando qualquer apelo à mobilização social. Dado que sua base parlamentar original — a aliança entre a Frente Ampla e o Partido Comunista — havia obtido pouco mais de um quarto dos assentos, Boric passou a depender do apoio dos partidos da esquerda neoliberal, como o Partido Socialista (PS), a Democracia Cristã (DC) e o Partido pela Democracia (PPD), cujo peso se tornou cada vez mais central também dentro do próprio governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de se apresentar como defensor da aprovação da nova Constituição que estava sendo elaborada naquele período pela Convenção, desde o início do mandato, em março de 2022, o governo Boric não fez senão obstaculizar o processo constituinte, que já se encontrava em crise por dinâmicas próprias. Isso ocorreu tanto por escolhas políticas estruturais que iam na direção oposta às reivindicações expressas no <em>estallido social</em>, quanto por erros grosseiros decorrentes da total inexperiência política da classe dirigente que chegou ao governo com ele. A soma desses fatores — frequentemente entrelaçados — acabou não apenas comprometendo a nova Constituição, mas também facilitando, quatro anos depois, a chegada da direita neo-pinochetista ao Palácio da Moneda.</p>
<p style="text-align: justify;">Apenas quatro dias após a posse do governo, a nova ministra do Interior, Izkia Sassen — que, como presidenta do Colégio Médico, havia se destacado pelo bom trabalho no enfrentamento da pandemia e havia feito campanha por Boric — decidiu entrar no território mapuche de Temucuicui, na região da Araucania, sem diálogo prévio com as autoridades locais. Sua delegação foi recebida com barricadas, um veículo incendiado e disparos de armas de fogo, sendo forçada a evacuar a área. No entanto, o erro mais grave cometido pelo governo foi, sem dúvida, a recusa em permitir o quinto saque dos fundos das AFP. As AFP (Administrações de Fundos de Pensão) são entidades financeiras encarregadas de gerir integralmente as aposentadorias dos chilenos, em um sistema previdenciário totalmente privatizado desde o governo Pinochet. Durante a pandemia, sob pressão da oposição, o governo Piñera havia aceitado permitir quatro retiradas dos valores mensalmente confiscados dos salários pelas AFP. Uma vez no governo, Boric recuou e bloqueou novos saques, justificando a decisão com a necessidade de proteger a economia de pressões inflacionárias. Essa decisão contribuiu para reduzir rapidamente o apoio popular ao governo, que se manteve em torno de 38% durante os meses que antecederam o plebiscito final da Constituição — um resultado idêntico ao percentual obtido pelo voto favorável à nova Carta no plebiscito de 4 de setembro (38,1% para o <em>Apruebo</em> contra 61,9% para o <em>Rechazo</em>). Durante toda a campanha eleitoral do referendo constitucional, além disso, Boric contribuiu para deslegitimar os trabalhos da Convenção ao assegurar que, após a eventual aprovação do texto, seria aberta uma discussão sobre correções a serem feitas na Carta.</p>
<p style="text-align: justify;">Considerada por muitos como estrondosa, a derrota no referendo de 4 de setembro foi objeto de inúmeras interpretações. Segundo <a class="urlextern" title="https://lalineadefuego.info/sergio-grez-tras-la-victoria-del-rechazo-chile-seguira-viviendo-una-especie-de-reforma-constitucional-permanente/" href="https://lalineadefuego.info/sergio-grez-tras-la-victoria-del-rechazo-chile-seguira-viviendo-una-especie-de-reforma-constitucional-permanente/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">o historiador Sergio Grez</a>, as causas da vitória do <em>Rechazo</em> são certamente complexas, sobretudo “porque não houve um único <em>Rechazo</em>, mas múltiplos <em>rechazos</em>, ou seja, diversas razões que, somadas, constituíram uma esmagadora maioria de rejeição ao texto proposto”. Entre os motivos apontados, destaca-se o voto de castigo contra o governo Boric e suas políticas de continuidade neoliberal, a rejeição do desempenho da Convenção Constitucional — e de alguns convencionais em particular — e uma reação conservadora de amplos setores da população, sobretudo das classes populares, diante de propostas como o Estado plurinacional, o direito ao aborto aparentemente sem limites, além das já mencionadas polêmicas em torno da chamada “linguagem inclusiva”. A questão da plurinacionalidade, em especial, proposta pelos convencionais com o objetivo de imitar as constituições equatoriana de 2008 e boliviana de 2009, deu margem a uma série de alertas sobre o risco de “desintegração” da unidade nacional (habilmente explorados pela campanha da direita); não levou em conta a especificidade da presença indígena no Chile, muito menor em termos absolutos e muito mais concentrada geograficamente em algumas regiões; e foi contestada também por amplos setores do próprio movimento mapuche, como a histórica Coordinadora Arauco Malleco (CAM), que boicotou os trabalhos da Convenção ao reivindicar uma independência política plena em relação ao Estado chileno.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-140958" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1.jpg" alt="Kast e a bolsonarização da política chilena" width="900" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2021/11/CHILE1-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />De modo geral — argumenta Grez — todos os temas baseados em questões identitárias (ambientalismo, feminismo, plurinacionalidade, regionalismo e “territórios”) não geraram adesão para além dos respectivos “nichos” que haviam possibilitado a eleição de alguns convencionais. Em contraste com a hiperabundância de temas identitários, as questões relacionadas aos trabalhadores e à sua relação com o capital ocuparam um papel marginal: dos 388 artigos, apenas seis eram dedicados a esses temas. Isso refletia também a própria composição da Convenção, formada majoritariamente por advogados e jovens profissionais, com ausência quase total de dirigentes sindicais ou pessoas oriundas dos setores populares. Tudo isso foi habilmente explorado pela propaganda do <em>Rechazo</em>, a partir da qual se construiu uma campanha de <em>fake news</em> que muitos apoiadores do governo apontam como causa principal da derrota. No entanto, para Grez, o fator decisivo do fracasso do projeto de nova Constituição foi o fato de que ela não representava uma ruptura com a ordem neoliberal, nem garantia as reivindicações mais sentidas que emergiram na rebelião de outubro. Com efeito, “embora o texto redigido pela Convenção Constitucional proclamasse direitos como saúde, educação, moradia e seguridade social, entre muitos outros, ele não os assegurava, pois não incluía nenhuma norma que permitisse seu financiamento (como a nacionalização dos recursos naturais, expressamente descartada pelos convencionais)”. Por fim, um motivo frequentemente apresentado para explicar o amplo voto no <em>Rechazo</em> foi a decisão do governo — iludido pelo aumento da participação eleitoral no segundo turno presidencial que lhe garantiu a vitória contra Kast — de introduzir o voto obrigatório no Chile, com a previsão de multas elevadas para quem não comparecesse às urnas, levando muitos eleitores a votar pelo “não” como forma de reagir a essa imposição, punindo o governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Logo após o plebiscito, os partidos acordaram um novo processo constitucional, com um Conselho Constitucional eleito pela cidadania, porém sem possibilidade de candidaturas independentes, e acompanhado por um comitê de especialistas. Nas eleições para definir esse Conselho, a extrema direita saiu vitoriosa, com o Partido Republicano conquistando 22 das 50 cadeiras em disputa. Como consequência, o texto constitucional produzido por essa nova assembleia era ainda mais à direita do que a própria Constituição pinochetista vigente. No entanto, em um segundo plebiscito, realizado em dezembro de 2023, os chilenos rejeitaram novamente (55,7%) essa segunda proposta, encerrando — ao menos por ora — as tentativas de mudança constitucional e mantendo em vigor a Constituição de 1980.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O longo crepúsculo do governo Boric</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Com a derrota no referendo, o governo Boric entrou precocemente em uma longa fase crepuscular, renunciando explicitamente a qualquer tentativa — ainda que mínima — de transformação social, e concentrando-se na estabilização e na normalização do país. Ao longo dos quatro anos de mandato, o Executivo não apresentou nenhuma iniciativa de relevo que o diferenciasse dos governos anteriores. Além disso, os setores da ex-Concertación conquistaram, no dia seguinte ao plebiscito, cada vez mais espaço dentro do governo, a começar pela nomeação, em setembro de 2022, de Carolina Tohá (PPD) para o Ministério do Interior, em substituição a Izkia Siches.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez o que mais revele esse deslocamento à direita seja a mudança de postura em relação aos <em>Carabineros</em>. Se antes de ser eleito Boric afirmava que era urgente uma “refundação” dessa corporação — que no Chile goza, aliás, de enormes privilégios econômicos e políticos desde a ditadura —, após a eleição passou a falar de “reforma” e, uma vez empossado, a manteve totalmente inalterada. A ponto de que, enquanto o próprio Piñera havia afastado 29 generais por atos de corrupção, Boric não substituiu sequer um. Como argumenta <a class="urlextern" title="https://outraspalavras.net/estadoemdisputa/o-chile-e-a-pedagogia-das-derrotas/" href="https://outraspalavras.net/estadoemdisputa/o-chile-e-a-pedagogia-das-derrotas/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Gabriel Teles</a>, durante o governo Boric foram aprovadas dezenas de leis voltadas à segurança pública, leis que aumentaram penas, limitaram ocupações, reforçaram as atribuições policiais e endureceram o tratamento penal dos protestos. Ao mesmo tempo, nos territórios mapuche, o estado de exceção e a militarização foram mantidos e renovados repetidas vezes, com operações policiais letais, detenções preventivas prolongadas e continuidade da criminalização da luta territorial. Segundo Grez, Boric chegou inclusive a tentar algo que nem mesmo o governo Piñera havia ousado fazer: promover um projeto de lei para que as forças armadas pudessem vigiar a chamada “infraestrutura crítica” sem necessidade de solicitar ao Parlamento a autorização do Estado de Emergência.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158451" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/unnamed.png" alt="" width="512" height="325" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/unnamed.png 512w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/01/unnamed-300x190.png 300w" sizes="auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px" />Essa posição do governo contribuiu para criar uma verdadeira fissura entre o Executivo e os setores sociais que haviam sido protagonistas do <em>estallido</em>. Um episódio menor, e até ridículo, é demonstrativo dessa distância afetiva e simbólica: em maio de 2024, entrevistado sobre a figura do <em>perro matapacos</em> (“cão mata-policiais”) — um cachorro preto que estava na linha de frente de todas as manifestações, com um lenço vermelho no pescoço, e que se tornou um símbolo contra a repressão durante a revolta —, Boric o qualificou como uma figura <a class="urlextern" title="https://www.elmostrador.cl/noticias/pais/2024/05/02/presidente-boric-sobre-imagen-del-perro-matapacos-es-burda-ofensiva-y-denigrante/" href="https://www.elmostrador.cl/noticias/pais/2024/05/02/presidente-boric-sobre-imagen-del-perro-matapacos-es-burda-ofensiva-y-denigrante/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“ofensiva e denegrinte”</a>. Essa distância entre o governo e as ruas tornou-se totalmente evidente em 11 de setembro de 2023, durante a manifestação pelos 50 anos do golpe de Estado de Pinochet, quando, para que os membros do governo pudessem marchar sem sofrer contestações, o centro de Santiago foi completamente militarizado, proibindo-se o acesso de quase todos os manifestantes à Alameda central, reservada apenas a militantes de partidos e organizações de direitos humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">No plano das reformas que, segundo as promessas iniciais do governo, deveriam contribuir para superar o modelo neoliberal, os resultados efetivos foram extremamente limitados. No início de 2023, o projeto de uma reforma tributária progressiva — uma das principais promessas econômicas do governo — foi rejeitado pela Câmara dos Deputados e rapidamente arquivado. O principal êxito do governo foi a aprovação de uma reforma trabalhista limitada, que permite introduzir, até 2028, a jornada semanal de 40 horas, em substituição às atuais 45, mas que não altera em nada os (escassos) direitos e as (precárias) condições de trabalho. A outra reforma que avançou foi a do sistema previdenciário, que não altera a gestão privada das aposentadorias pelas AFP, mas busca introduzir alguns benefícios solidários, com atenção à compensação de gênero e aos anos de contribuição. Ambas as reformas tiveram como principal articuladora a ministra do Trabalho, Jeannette Jara, do Partido Comunista, que depois foi escolhida nas primárias do centro-esquerda como candidata presidencial, sendo derrotada por Kast. Em sentido oposto a esses tímidos avanços, o governo ratificou, no final de 2022, o tratado de livre comércio transpacífico TPP-11, duramente criticado pelo próprio Boric quando ainda era deputado.</p>
<p style="text-align: justify;">Abundantes, por outro lado, foram os <a class="urlextern" title="https://www.theclinic.cl/2025/12/14/la-serie-de-errores-que-cometio-el-gobierno-de-gabriel-boric-que-pavimento-el-camino-para-la-holgada-victoria-de-su-antiguo-rival-republicano/" href="https://www.theclinic.cl/2025/12/14/la-serie-de-errores-que-cometio-el-gobierno-de-gabriel-boric-que-pavimento-el-camino-para-la-holgada-victoria-de-su-antiguo-rival-republicano/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">escândalos que envolveram a administração Boric</a> ao longo do mandato e contribuíram para desgastar sua imagem. Em junho de 2023, foi aberta uma investigação sobre mais de 50 fundações ligadas a políticos do campo governista por desvio de recursos públicos da ordem de 100 milhões de dólares, enquanto uma interceptação telefônica revelava o envolvimento do próprio presidente no caso. Em julho de 2023, veio à tona um furto no Ministério do Desenvolvimento Social, no qual os ladrões se fizeram passar pelo ministro Giorgio Jackson, braço direito de Boric. O escândalo foi enorme e levou à renúncia do ministro. Em janeiro de 2024, foram reveladas uma série de reuniões — não registradas na plataforma de lobby — realizadas na casa do político de direita Pablo Zalaquett, entre os ministros do Trabalho, do Meio Ambiente e da Economia com empresários das AFP e da indústria do salmão. Em fevereiro de 2024, um incêndio devastador destruiu milhares de moradias na Região de Valparaíso e causou centenas de mortes e, embora o desastre não tenha sido responsabilidade direta da administração, quase dois anos depois registra-se apenas cerca de 50% de avanço na reconstrução habitacional, com mais de 2.500 moradias em construção ou ainda por iniciar as obras.</p>
<p style="text-align: justify;">No final de 2024, dois verdadeiros terremotos atingiram o governo, sobretudo no plano simbólico. O primeiro envolveu uma de suas principais bandeiras de luta: o feminismo. Em 17 de outubro, o jornal <em>La Segunda</em> publicou que o subsecretário do Interior, Manuel Monsalve, enfrentava uma denúncia por abuso sexual. Tanto Carolina Tohá quanto o próprio Boric tinham conhecimento do caso há dois dias, mas não tinham tomado providências, enquanto a ministra da Mulher, Antonia Orellana, e a porta-voz do governo, Camila Vallejo, foram mantidas à margem da situação. O segundo escândalo envolveu nada menos que o nome de Salvador Allende. No fim de 2024, o Estado decidiu comprar a casa de Allende para transformá-la em um museu, mas estourou um escândalo porque entre os proprietários havia uma ministra (Maya Fernández Allende, neta do ex-presidente socialista), algo proibido pela Constituição chilena. Isso levou à renúncia da ministra dos Bens Nacionais, Marcela Sandoval, à perda do mandato da senadora Isabel Allende, filha de Salvador Allende e envolvida na operação, e ao depoimento do próprio Boric perante a Justiça.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse contexto de desgaste do governo e de refluxo das mobilizações sociais, o crescimento da extrema direita — já visível desde a derrota do primeiro plebiscito constitucional e das eleições para o segundo projeto de nova Constituição — consolidou-se, apoiando-se em um deslocamento da atenção midiática das questões relativas ao modelo econômico-social para temas como segurança e imigração. De fato, a imigração no Chile, que nos anos 2010 havia registrado um aumento de haitianos, colombianos e peruanos, facilitado por uma série de leis permissivas do Estado chileno, cresceu de forma significativa a partir de 2017-2018 com o forte fluxo de venezuelanos após o início da crise econômica no país caribenho. Esse fluxo aumentou ainda mais depois da pandemia, levando a uma crise humanitária em 2023 na fronteira com o Peru e a um aumento da percepção de insegurança nas principais cidades chilenas, amplamente explorado pela propaganda da extrema direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Como analisou Andrés Kogan Valderrama no <a class="urlextern" title="https://avispa.org/triunfo-de-kast-del-cambio-de-epoca-al-retorno-conservador-en-chile/" href="https://avispa.org/triunfo-de-kast-del-cambio-de-epoca-al-retorno-conservador-en-chile/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Avispa Midia</a>, “essas eleições se desenvolveram em um clima político fortemente orientado para a ultradireita, no qual discursos repressivos em matéria de segurança — ao estilo Bukele —, a criminalização da migração — ao estilo Trump — e a ideia de que o setor público é intrinsecamente corrupto — ao estilo Milei — penetraram profundamente na sociedade chilena; por isso, a ideia de um governo de emergência liderado por José Antonio Kast ganhou força”. Os resultados das eleições presidenciais de 2025 são representativos desse novo clima político: no primeiro turno, em 16 de novembro, atrás de Jeannette Jara — candidata de todo o campo governista, que obteve apenas 26,8% dos votos — ficaram, em sequência, Kast com 23,9%, Parisi com 19,7%, Johannes Kaiser (autoproclamado “reacionário” e “paleolibertário”, protagonista em 2024 de uma cisão ainda mais à direita do Partido Republicano, com a fundação do Partido Nacional Libertário) com 13,9%, e a candidata da direita tradicional, Evelyn Matthei, com 12,5%. No segundo turno, em 14 de dezembro, os votos dos três últimos se transferiram majoritariamente para Kast, permitindo-lhe uma vitória histórica de 58,8%.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2019-25: resiliência neoliberal</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se agora afastarmos o olhar da rígida cronologia dos fatos que levaram à transformação de um símbolo — a dignidade — no seu oposto — Colônia Dignidade —, podemos tentar elaborar algumas hipóteses sobre as razões de uma tão clamorosa reviravolta. Me limito a considerar três questões fundamentais: a resiliência neoliberal dentro e para além do <em>estallido</em> chileno, a função reacionária desempenhada pelo reformismo da Frente Ampla e do governo Boric, e o fechamento dramático do horizonte revolucionário nas práticas e nos conteúdos da revolta de 2019. Todos esses elementos, a meu ver, não são de forma alguma exclusivos do Chile, mas representam, talvez neste caso de maneira mais paradigmática do que em outros, o cenário atual — o “espírito do tempo”? — em várias partes do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um artigo publicado em 2019, logo após a vitória eleitoral de Bolsonaro, <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2019/01/125118/" href="https://passapalavra.info/2019/01/125118/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">um grupo de militantes brasileiros</a> perguntava-se como era possível que, cinco anos após a maior revolta social da história do Brasil, com reivindicações populares como a redução do custo do transporte público, a defesa dos territórios e a exigência de melhorias na educação e na saúde, quem tivesse colhido politicamente os frutos desse movimento fosse um <em>outsider</em> de extrema direita nostálgico da ditadura militar. Segundo esses militantes, “Jair Bolsonaro é um nome impreciso, mas potente, porque foi capaz de combinar a escalada repressiva com a rebeldia social liberada em 2013”. Nesse sentido, Bolsonaro — mas aqui podemos traçar um paralelismo com Kast —, após o refluxo da revolta, soube interpretar ao mesmo tempo uma frustração popular difusa, que havia sido um elemento importante do <em>estallido</em>, e uma demanda igualmente difundida por ordem, segurança e “normalidade”, que estava na base das exigências de repressão dessa mesma revolta. Nesse sentido, Kast conseguiu, desde 2019, apresentar-se como o candidato mais intransigente contra a rebelião popular, mas ao mesmo tempo manter seu perfil radical, de outsider, que foi capaz de captar, não necessariamente de maneira entusiasmada, mas às vezes como “mal menor”, uma parte do descontentamento social que não havia sido convencida por uma proposta ideológica de esquerda e que acabou frustrada em relação ao governo de Gabriel Boric.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-128740 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/10/191024000948-01-chile-protests-1022-large-169.jpg" alt="" width="460" height="259" /></p>
<p style="text-align: justify;">Um dos slogans mais comuns surgidos durante o período do <em>estallido</em> foi a ideia de que ”<em>Chile despertó</em>”. Seria fácil dizer que o Chile parecera ter logo voltado a adormecer. Talvez uma chave para essa sonolência esteja no profundo enraizamento da racionalidade neoliberal na sociedade chilena, um enraizamento que, no calor da revolta de 2019, talvez tenha sido subestimado. Em um artigo publicado após as eleições, <a class="urlextern" title="https://www.turno.live/el-chile-que-no-voto-por-la-izquierda" href="https://www.turno.live/el-chile-que-no-voto-por-la-izquierda" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Nelson Alvear</a> relativiza o consenso antineoliberal que emergiu no Chile após o <em>estallido</em> social. Para ele, fora do núcleo duro de movimentos, coletivos e comitês militantes formados na década anterior — do movimento estudantil dos “pinguins” em 2006 à luta pela gratuidade universitária em 2011, passando mais recentemente pelas grandes manifestações feministas e pelo movimento No+AFP —, “existe um outro Chile, ainda mais amplo: um país que não foi politizado pelas mobilizações estudantis nem pelo discurso antineoliberal, mas que acreditou sinceramente no relato do progresso individual. Para esses setores, o problema não é o mercado como princípio, mas o seu fracasso prático: salários insuficientes, serviços públicos deficientes, insegurança cotidiana. Daí o apoio a candidaturas &#8216;antissistema&#8217;, como a de Franco Parisi: expressões difusas de mal-estar que não oferecem um projeto, mas que marcam uma distância radical em relação à política tradicional”. Segundo Alvear, a rejeição da nova Constituição e o posterior deslocamento eleitoral para a direita “não expressam uma adesão entusiasmada ao conservadorismo, mas sim uma punição. Uma mensagem clara: a esquerda não soube falar com esse Chile majoritário. O problema não foi apenas político, mas também cultural. Uma parte da esquerda falou a partir de uma posição de incômoda superioridade moral, colocando em questão aspirações materiais elementares — ordem, estabilidade, segurança — como se fossem valores menores ou reacionários”.</p>
<p style="text-align: justify;">A resiliência do neoliberalismo tem a ver com o caráter de “racionalidade” deste último, que — como argumenta a teoria foucaultiana — o torna algo muito mais profundo do que uma simples ideologia ou um conjunto de dogmas e políticas específicas. A profundidade dessa racionalidade foi evidenciada pelo livro <em>Realismo Capitalista</em>, de Mark Fisher, que analisa a percepção difundida segundo a qual o capitalismo não é apenas o sistema dominante, mas é percebido como o único possível. Para Fisher, o capitalismo apresenta-se como natural e inevitável, produzindo, por meio de um complexo sistema de dispositivos de medo, avaliação constante e precariedade, uma subjetividade individualista que tende a se opor e a neutralizar visões alternativas que busquem enfrentar os problemas sociais e psíquicos que ele provoca a partir de uma perspectiva sistêmica e não individual. O resultado é que, embora o sistema econômico — baseado em um constante processo de destruição criativa — não possa deixar de produzir crises sociais contínuas, torna-se cada vez mais provável que essas crises sejam enfrentadas com uma demanda por mais neoliberalismo, competitividade e mérito. Nesse contexto, eventos como o <em>estallido</em> social podem, de fato, interromper por um momento a lógica individualista dominante e — na ruptura radical com a ordem política e com o fetiche da mercadoria, assim como na constituição de embriões de formas organizativas coletivas — criar prefigurações de uma possível sociedade alternativa; mas, sem a capacidade de se enraizar e de durar no tempo, para além do momento explosivo e efêmero da revolta, essa lógica tende inevitavelmente a se reafirmar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Progressismo como reação</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mas a que se deve a incapacidade desse “outro mundo possível”, surgido no <em>estallido</em>, de se enraizar, de se tornar uma nova hegemonia? Provavelmente as razões são muitas, mas gostaria de me concentrar aqui na função reacionária desempenhada pelo reformismo, tanto antes quanto durante o governo de Gabriel Boric. Em oposição à vulgata comum, no marxismo tradicional, de um fascismo entendido como instrumento da burguesia para esmagar uma revolução nascente, João Bernardo argumenta que o sucesso do fascismo sempre ocorreu não diretamente “contra”, mas “depois” da liquidação das forças revolucionárias pela ordem política existente, afirmando-se como alternativa “antissistema” (uma “revolta na ordem”) no contexto de desilusão e refluxo gerado pelo fracasso da revolução.</p>
<p style="text-align: justify;">Se pensarmos na história do fascismo — se de fato aceitarmos mobilizar esse paralelo discutível para descrever hoje a plataforma política de Kast no Chile — e, mais recentemente, em algumas experiências da extrema direita contemporânea, podemos identificar a sucessão cronológica proposta por Bernardo. Tanto o fascismo quanto o nazismo emergiram — de maneira mais ou menos rápida — no refluxo do Biênio Vermelho de 1919-20, na Itália, e da revolução espartaquista e da breve experiência da República Soviética da Baviera, na Alemanha — sendo que, neste segundo caso, a repressão foi inclusive orquestrada pelo governo social-democrata de Friedrich Ebert com o apoio das tropas paramilitares <em>freikorps</em>. Mais recentemente, são bastante emblemáticos o caso, já citado, do Brasil, e o dos Estados Unidos, onde Trump se afirmou, em 2016, no refluxo de um período de contestação social inaugurado em 2011 pelo Occupy Wall Street e prolongado em 2014 com o movimento Black Lives Matter. Em todos esses casos, antes da ascensão do fascismo, o levante social já tinha sido liquidado, seja pelo esgotamento da sua dinâmica interna como pelo trabalho sujo da elite liberal ou progressista no poder.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-128742 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2019/10/Chile-688x400.jpg" alt="" width="688" height="400" /></p>
<p style="text-align: justify;">Retomando o exemplo chileno, é possível argumentar que o <em>estallido</em> social de 2019 não foi derrotado pela extrema direita de Kast, mas pela ação do governo de Gabriel Boric — aclamado por muitos, de forma equivocada, como um aliado, senão um produto direto, da revolta social — à qual se somam uma série de fracassos estratégicos internos e uma boa dose de acaso e imprevisibilidade. Essa função “reacionária” do progressismo chileno manifestou-se tanto antes da chegada ao governo quanto durante os quatro anos de exercício do poder executivo, como podemos observar na sucessão de acontecimentos apresentada neste texto. <em>Antes</em>, o progressismo de Boric e da Frente Ampla salvou o sistema político (a queda iminente do governo Piñera era considerada altamente provável em novembro de 2019), freando a articulação entre motins urbanos e greve geral e permitindo canalizar as energias liberadas pela revolta para um percurso — tortuoso, desgastante e institucionalmente dirigido e limitado — de reforma constitucional. Nesse sentido, o início da hegemonia da extrema direita chilena não começou em 14 de dezembro de 2025, com a vitória eleitoral de Kast, nem em 4 de setembro de 2022, com a derrota do plebiscito constitucional, mas em 15 de novembro de 2019, quando Boric, setores da Frente Ampla, partidos da ex-Concertación e o governo Piñera assinaram o Acordo pela Paz e a Nova Constituição. Como argumenta Teles, com o processo constituinte e eleitoral, o conflito foi retirado do terreno em que produzia efeitos imediatos — a rua — e transferido para espaços onde tudo precisa ser convertido em linguagem jurídica, calendário político e negociação permanente.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Durante</em> seu período de governo, por sua vez, Boric criou as condições para o retorno da extrema direita. Realizando reformas de fachada que, em vez de atacar o modelo econômico, o modernizaram; defendendo instituições chilenas em crise de legitimidade, em primeiro lugar o Exército e os <em>Carabineros</em>; cooptando uma parte dos movimentos sociais e reprimindo com força os setores não alinhados, militarizando a Araucania contra a insurgência mapuche e garantindo um novo marco legal para a proteção das infraestruturas estratégicas; e mostrando constantemente, por meio de uma série interminável de escândalos, o profundo nível de corrupção e de cumplicidade com a classe empresarial da nova geração progressista no poder. Segundo Teles, a experiência chilena deixa uma lição desconfortável: “o progressismo não é uma etapa intermediária rumo à ruptura. Ele é, muito frequentemente, o mecanismo que impede que a ruptura avance. Governar uma crise estrutural sem enfrentá-la significa estabilizá-la em favor da ordem existente”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Revoltas sem revoluções</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se o progressismo representou uma barreira fundamental ao <em>estallido</em> social, se conseguiu deslocar as energias da rua para um caminho controlado e desgastante como o processo constituinte, chegando inclusive a cooptar muitas assembleias territoriais para reprimir com maior facilidade os setores mais radicais, isso não significa, contudo, que a revolta expressa em 2019 não tivesse limites próprios que a impediram de superar essas barreiras: de evitar a cooptação, o isolamento, a repressão e, em última instância, de não permitir que a raiva social fosse canalizada para propostas populistas e de direita.</p>
<p style="text-align: justify;">Se aceitarmos a ideia de que as revoltas tendem a proliferar no capitalismo global a partir de ciclos, influenciando-se mutuamente nas práticas, nos símbolos e nos objetivos, é fácil enquadrar o <em>estallido</em> social chileno em um segundo ciclo de tumultos globais que se seguiu à grande crise de 2008. Após uma primeira fase de insurreições e proliferação de lutas anti-austeridade, que viu a rápida sucessão, em 2011, das primaveras árabes, dos <em>indignados</em> espanhóis, do Occupy Wall Street, das insurgências sociais na Grécia e, depois, em 2013, na Turquia e no Brasil, um novo ciclo parece ter se aberto em 2018 com o movimento dos coletes amarelos na França, a insurreição no Sudão e a luta pela independência de Hong Kong, para no ano seguinte deslocar seu epicentro para a América Latina com as revoltas no Equador, na Colômbia e, justamente, no Chile. A essa lista poderíamos acrescentar uma série de outros casos, além de considerar que, em 2025, com a chamada Geração Z, já se fala em um novo ciclo de revoltas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um artigo recente, <a class="urlextern" title="https://illwill.com/revolts-without-revolution" href="https://illwill.com/revolts-without-revolution" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Adrian Wohlleben</a> sustentou que o que mais caracteriza a nossa época é o fato de se tratar de um período rico em tumultos e insurreições globais que foram incapazes de encontrar uma bússola estratégica que conduzisse à revolução. Em um contexto de crise estrutural do capitalismo neoliberal, no qual a violência e as relações de força substituem cada vez mais o crescimento econômico como principal motor das dinâmicas globais, as revoltas contemporâneas, embora difundidas e por vezes espetaculares, também geraram novas formas de auto-organização e autonomia, mas permaneceram incompletas, detendo-se muitas vezes na simples denúncia da corrupção ou da austeridade, sem enfrentar a própria estrutura do capitalismo, e acabando por deixar espaço para um retorno negociado ao <em>status quo</em>. De fato, não é difícil imaginar que, se essas revoltas tivessem ocorrido — com o mesmo grau de participação, violência e capacidade de bloqueio dos fluxos produtivos — em um período anterior aos anos 1970, ou ao menos antes de 1989, provavelmente teriam desembocado em revoluções políticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez pela potência simbólica de ter sido o laboratório das políticas neoliberais em escala global, o Chile entusiasmou muitas pessoas no final de 2019 quanto à possibilidade de também ser o país capaz de reinventar um caminho para a revolução. Provavelmente, o bloqueio do pensamento estratégico revolucionário revelou-se, ao contrário, como outra face da resiliência do neoliberalismo, aquela síndrome do realismo capitalista que nos torna mais fácil, como dizia Mark Fisher, imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Por outro lado, não é surpreendente constatar que o amplo movimento anarquista e radical chileno — crescido no proletariado juvenil durante os trinta anos de frustração com os governos do período pós-democratização — pratique uma prática política fortemente niilista e estética, resumível no conceito, proposto pelo coletivo Vitrina Dystópica, de “subjetividade ACAB (<em>All Cops Are Bastards</em>)”. Trata-se de um movimento que produziu uma enorme capacidade de ruptura do consenso, mas também um impasse estratégico quando foi chamado a dar uma resposta à altura do desafio revolucionário. Um exemplo disso foi a total incapacidade daqueles setores que se opunham ao Acordo de 15 de novembro de 2019 de propor um caminho de luta sério que fosse alternativo ao processo constituinte em curso. O Chile que, no início dos anos 1970, havia sido tomado como modelo de um experimento revolucionário de tipo novo — que ao mesmo tempo em que recusava o modelo da ditadura do proletariado ou do totalitarismo burocrático dos socialismos reais, era dinamizado por processos inovadores de construção de poder popular — representa hoje, de maneira exemplar, o curto-circuito histórico de um capitalismo cada vez mais destrutivo, que alterna continuamente progressismos cada vez mais limitados e fascismos cada vez mais audazes, e uma incapacidade constante de transformar a revolta em revolução.</p>
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		<title>Do interstício entre bolsonarismo, I.A e estética</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Dec 2025 05:48:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Walter Benjamin, no século passado, descrevera que tais processos levam a apenas um fim. Ao quê caminharemos hoje? Por Juliana Antunes]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Juliana Antunes</h3>
<blockquote><p>Nota da autora:<br />
O texto em questão se trata de uma versão sintética de uma comunicação, outrora apresentada na 10ª Reunião de Antropologia da Ciência e da Tecnologia (ReACT), realizada em Outubro de 2025 no Rio de Janeiro. Devo destacar, além disso, que os pensamentos aqui transcritos se tratam de uma investigação em curso e, justamente no interesse de prosseguir com essa – bem como ‘passar a palavra’ – lanço tais questões ao debate.</p></blockquote>
<p style="text-align: right;"><em>“[…] a técnica liberta o objeto do domínio da tradição. Na medida em que multiplica a reprodução, substitui a sua existência única pela sua existência em massa. E, na medida em que permite à reprodução vir em qualquer situação ao encontro do receptor, atualiza o objeto reproduzido. Esses dois processos vão abalar violentamente os conteúdos da tradição – e esse abalo da tradição é o reverso da atual crise e renovação da humanidade”</em> <strong>(Walter Benjamin, no ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”)</strong></p>
<p style="text-align: justify;">As linhas que se seguem correspondem a uma aposta de discussão, situada na recuperação do debate benjaminiano da estetização da política e da reprodutibilidade técnica. Ademais, são também a representação de inquietações pessoais em relação ao porvir; a inquietação tem sua gênese, por sua vez, a partir de alguns recortes imagéticos, dos quais destaco os dois seguintes:</p>
<figure style="width: 1024px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-158342 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/paraopp.jpg" alt="" width="1024" height="1024" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/paraopp.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/paraopp-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/paraopp-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/paraopp-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/paraopp-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/paraopp-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/paraopp-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-caption-text">Imagem 01: Imagem religiosa utilizada na convocatória dos protestos para libertação dos presos do 08 de Janeiro de 2023.</figcaption></figure>
<p>&nbsp;</p>
<figure id="attachment_158343" aria-describedby="caption-attachment-158343" style="width: 448px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-158343 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/paraopptambem.png" alt="" width="448" height="450" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/paraopptambem.png 448w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/paraopptambem-300x300.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/paraopptambem-70x70.png 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/12/paraopptambem-418x420.png 418w" sizes="auto, (max-width: 448px) 100vw, 448px" /><figcaption id="caption-attachment-158343" class="wp-caption-text">Imagem 02: Suposta convocatória para uma paralisação dos caminhoneiros em 2025.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A Imagem 01 se trata de uma arte veiculada em 2024 nas redes sociais para divulgação dos atos em prol da libertação dos presos pelo 08 de Janeiro. A Imagem 02, por sua vez, se trata do fotograma de uma série de vídeos curtos que expressava a convocatória de caminhoneiros, entregadores e profissionais do agronegócio em prol da defesa de Jair Bolsonaro, já em 2025.</p>
<p style="text-align: justify;">Existem alguns pontos que ligam as imagens em questão. O primeiro deles diz respeito a quem as gera. O outro, o que representam e, por fim, como foram geradas e circuladas.</p>
<p style="text-align: justify;">A resposta ao primeiro aspecto é quase subentendida. As imagens em questão, pequenas amostras dentro de um mar imagético e simbólico, foram geradas no bojo da extrema-direita brasileira, mais especificamente bolsonarista. Essas imagens – e aqui responde-se também ao segundo ponto, correspondente àquilo que representam – emergem no ínterim já descrito por Walter Benjamin em relação ao fim da estetização da política: <em>dar às massas maneiras de se representar, mas sem representar os seus ideais. </em></p>
<p style="text-align: justify;">Isto posto, as imagens detêm diversas camadas simbólicas. A Imagem 01 nos traz a narrativa religiosa, através da imagem dos anjos, a força nacionalista, por meio das bandeiras do Brasil e das camisetas da seleção brasileira de futebol, a construção de um Nós vs eles, pelo atrelamento dos bolsonaristas a uma posição de povo justo e perseguido. Há de se notar, ainda, a reconstituição do mito da nação proletária, situado aqui na construção de boas nações, correspondentes aos elementos que fazem referência ao Brasil e a Israel. A Imagem 02, por sua vez, traz também a evocação de elementos nacionalistas, presentes na escolha do figurino da personagem que protagoniza o vídeo, além da representação populista, ao trazer a criação de uma persona acessível, um trabalhador qualquer que está se mobilizando a favor de Bolsonaro. Por fim, deve-se destacar na imagem, também, a construção da imagem de Bolsonaro enquanto líder, seja no discurso ou na legenda do vídeo, a partir das hashtags escolhidas.</p>
<p style="text-align: justify;">A forma de geração dos materiais imagéticos aqui analisados – e talvez esse seja um dos pontos mais importantes da presente discussão – é o que inquieta.</p>
<p style="text-align: justify;">Se retornamos ao cerne da teoria sobre a <em>reprodutibilidade técnica</em> em Walter Benjamin, temos que, muito embora a possibilidade de reproduzir uma obra de arte sempre estivesse na seara, a mediação de tal processo a partir dos recursos técnicos representaria uma libertação do objeto da tradição, abrindo brechas à implementação múltipla de sentidos ao mesmo. Ademais, ocorre a substituição do valor de culto pelo valor de exposição.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse sentido, e levando em consideração a constatação também de Benjamin de que a reprodução técnica é catalizadora de mudanças na maneira como as massas recebem e consomem o produto a elas direcionado – “Quem se recolhe diante de uma obra de arte mergulha dentro dela e nela se dissolve, como ocorreu com um pintor chinês, segundo a lenda, ao terminar seu quadro. A massa distraída, pelo contrário, faz a obra de arte mergulhar em si, envolve-a com o ritmo de suas vagas, absolve-a em seu fluxo” <strong>[1]</strong> – temos em emergência um processo de identificação dessas com tal conteúdo. Aqui está a abertura à estetização da política: <em>dar às massas a possibilidade de se expressar, mas não de expressar os seus ideais.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Situemo-nos no presente. Ainda que o recurso explicativo aqui esteja atrelado sobretudo à teoria de Walter Benjamin, é vital refletir que o elemento máximo de representatividade da reprodutibilidade técnica, à sua época, correspondia ao cinema. Aposto aqui, em nossa contemporaneidade, que as plataformas digitais e os recursos nelas embutidos, como a própria <em>inteligência artificial</em>, correspondem a novos recursos de reprodutibilidade técnica.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas nos orientemos, apesar da necessidade de romper com a mística que ronda a inteligência artificial, colocando-a muitas vezes em um paralelo em relação ao próprio âmago tecnológico geral, como definir o que é a I.A.? Depreende-se por inteligência artificial o uso maquínico para a simulação de atividades humanas – como o ato de compreender, resolver problemas e criar coisas novas. A ação de maior destaque da inteligência artificial nos últimos dois anos corresponde à sua capacidade de gerar – textos, imagens, vídeos e áudios – em resposta aos <em>prompts</em> (os comandos lançados pelo usuário). Isso, por sua vez, se dá por meio do treinamento da máquina para identificar, processar e relacionar grandes volumes de dados.</p>
<p style="text-align: justify;">Além da capacidade da máquina em gerar conteúdo, há também a sua ação de circular esses conteúdos, pelo processo comumente nomeado algoritmização. Algoritmo se significa, preliminarmente, como o conjunto de instruções que guiam a tomada de decisões da máquina. Algoritmização, por sua vez, diz respeito à agência dominante dos algoritmos para processar dados vinculados ao nosso comportamento, às nossas preferências e às nossas informações; uma vez que esses dados são assimilados, a máquina tem o poder de agir na seleção, rankeamento e distribuição dos conteúdos a cada usuário.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é tarde retornar aos apontamentos de Theodor Adorno e Max Horkheimer na <em>Dialética do Esclarecimento</em>. Os processos digitais aqui descritos são desnudados de neutralidade e, conforme descrito pelos autores referenciados na frase anterior, é inelutável a complementariedade entre “progresso” e barbárie. Mais ainda, como descrevera Herbert Marcuse, &#8220;Diante dos elementos totalitários dessa sociedade, a noção tradicional de &#8216;neutralidade&#8217; não pode mais ser mantida. Tecnologia como tal não pode ser isolada do uso ao qual é submetida; a sociedade tecnológica é um sistema de dominação que já opera no conceito e construção das técnicas.&#8221; <strong>[2]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Uma das grandes problemáticas situadas nos recursos das plataformas digitais, doravante dos próprios recursos aqui descritos nos últimos parágrafos, corresponde à produção de representações simbólicas e fictícias da realidade, com a mínima intervenção humana. Walter Benjamin, no século passado, descrevera que tais processos levam a apenas um fim. Ao quê caminharemos hoje?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas:</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> BENJAMIN, Walter. <strong>Magia e técnica, arte e política:</strong> ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> MARCUSE, Herbert. <strong>O Homem Unidimensional:</strong> a ideologia da sociedade industrial. Rio de Janeiro: Zahar Edições, 1973.</p>
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		<title>A educação da Turning Point USA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 18 Nov 2025 15:04:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Charlie Kirk está vindo ao campus para recrutar em nome de uma organização que é abertamente hostil à universidade. Não há defesa moral para isso. Por Joshua Clover]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Joshua Clover</h3>
<blockquote><p>Esclarecimento: o presente artigo foi <a href="https://theaggie.org/2023/03/08/the-education-of-tpusa/" target="_blank" rel="noopener">publicado em 8 de março de 2025</a>, às vésperas de um evento no qual o ativista de extrema-direita Charlie Kirk discursaria na Universidade de Davis, Califórnia. O autor, Joshua Clover, faleceu logo depois, em 26 de abril de 2025 &#8212; antes, portanto, do atentado que matou Kirk no dia 10 de setembro.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Há sete janeiros, Milo Yiannopoulos, um picareta de extrema-direita com uma animosidade especial contra pessoas trans, foi expulso do campus de Davis antes de uma palestra; algumas semanas depois, ele recebeu o mesmo tratamento na UC Berkeley. Entre esses dois eventos, Richard Spencer, um picareta de extrema-direita e admirador de Hitler, levou o soco que fez com que socar nazistas se tornasse uma coisa importante. Mas foi o bloqueio dos <em>campi</em> à sua presença no final daquele ano que o ajudou a afastar-se do palco. É assim que a resistência se parece.</p>
<p style="text-align: justify;">Charlie Kirk é um picareta de extrema-direita que lidera a Turning Point USA [Ponto de Virada], uma organização de admiradores de Hitler com uma animosidade especial contra pessoas trans. Kirk disse recentemente, <a class="urlextern" title="https://twitter.com/ErinInTheMorn/status/1626747081275715585" href="https://twitter.com/ErinInTheMorn/status/1626747081275715585" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">insistindo em relação às pessoas trans</a>, que “alguém deveria ter tomado conta disso como costumávamos lidar com as coisas na década de 1950”. Ele quer dizer linchamento. As restrições da figura proeminente da TPUSA, Candace Owens, <a class="urlextern" title="https://thehill.com/blogs/blog-briefing-room/news/429180-candace-owens-if-hitler-just-wanted-to-make-germany-great-and/" href="https://thehill.com/blogs/blog-briefing-room/news/429180-candace-owens-if-hitler-just-wanted-to-make-germany-great-and/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">com relação ao Führer</a> dizem respeito, vejam só, ao excesso. Ela acha que o genocídio é aceitável dentro das suas próprias fronteiras. A associação da TPUSA com os Proud Boys, um grupo de ódio oficialmente designado de “chauvinistas ocidentais”, é <a class="urlextern" title="https://www.splcenter.org/hatewatch/2018/02/16/turning-point-usas-blooming-romance-alt-right" href="https://www.splcenter.org/hatewatch/2018/02/16/turning-point-usas-blooming-romance-alt-right" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">bem documentada;</a> o grupo foi visto pela última vez no campus de Davis servindo como braço armado da TPUSA, ou seja, jogando spray de pimenta nos estudantes. <a class="urlextern" title="https://twitter.com/Borwin10/status/1633304471240585223?s=20" href="https://twitter.com/Borwin10/status/1633304471240585223?s=20" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Fotografias tiradas esta semana</a> mostram o orador regular do TPUSA, Stephen Davis, posando com os Proud Boys muito orgulhosos que atacaram estudantes naquela noite.</p>
<p style="text-align: justify;">A TPUSA propaga a crença de que as universidades são “<a class="urlextern" title="https://www.washingtonexaminer.com/news/washington-secrets/charlie-kirk-college-is-a-scam" href="https://www.washingtonexaminer.com/news/washington-secrets/charlie-kirk-college-is-a-scam" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">uma fraude</a>” dedicadas à doutrinação dos estudantes. Eles <a class="urlextern" title="https://www.professorwatchlist.org/" href="https://www.professorwatchlist.org/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">despendem um esforço considerável</a> marcando professores com cuja política eles não concordam, ameaçando-os com perda de emprego e violência mais direta (com uma<a class="urlextern" title="https://www.theguardian.com/education/2021/sep/17/turning-point-usa-professor-watchlist" href="https://www.theguardian.com/education/2021/sep/17/turning-point-usa-professor-watchlist" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc"> especial atenção para os professores não-brancos</a>). Ou seja, são profundamente hostis à educação.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns dias antes do início da primavera, Charlie Kirk está escalado para falar aqui em Davis, a convite da filial da TPUSA da própria universidade. Gary May [reitor da UC Davis], <a class="urlextern" title="https://www.ucdavis.edu/news/chancellor-may-on-freedom-of-expression-video-and-transcript" href="https://www.ucdavis.edu/news/chancellor-may-on-freedom-of-expression-video-and-transcript" rel="ugc nofollow">torcendo as mãos com tanta força</a> que provavelmente vai quebrar o pulso, afirma que a universidade, uma instituição estadual, é obrigada a receber qualquer palestrante convidado por um grupo do <em>campus</em>. Liberdade de expressão, Primeira Emenda, mercado de ideias, você conhece o discurso.</p>
<p style="text-align: justify;">Tal argumento não é especialmente convincente: pessoas admiráveis desafiaram todos os tipos de leis antiéticas em busca da libertação, de Rosa Parks à Atlanta Forest. Gostamos de nomear feriados em sua homenagem. Uma pessoa honrada, uma pessoa humana, uma pessoa que se preocupa com o bem-estar da comunidade, não se esconderia atrás de leis eticamente repugnantes. Será que devemos realmente imaginar que Gary May, por exemplo, liberaria um evento de recrutamento liderado por alguém reivindicando limpeza étnica ou violência abertamente eugenista? Certamente ele não o faria. E se o fez, deveria ser afastado da sua posição.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas vamos seguir com o experimento mental. Suponhamos um orador tão virulento defensor da supremacia branca que defendesse a posição política do atirador do supermercado de Buffalo; do atirador da Igreja Emanuel AME de Charleston; do atirador da Mesquita de Christchurch; ou do fabricante de bombas e atirador dinamarquês que matou 77 e cujo manifesto demandava a deportação de todos os muçulmanos da Europa. Todos assassinos em massa. E, como muitos <a class="urlextern" title="https://www.bostonreview.net/articles/white-supremacists-arent-lone-wolves/" href="https://www.bostonreview.net/articles/white-supremacists-arent-lone-wolves/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">estudiosos da extrema-direita destacaram</a>, estes números não são evidentemente uma coincidência, uma série incessante de lobos solitários. Eles compartilham um projeto vinculado e mortal seguindo o mesmo roteiro. Cada um desses e muitos outros foram postos em movimento por sua própria versão da “Teoria da Grande Substituição”. Esta é a ilusão perversa que atua como princípio de coordenação do nacionalismo branco assassino: que a raça branca está sob ameaça demográfica como parte de alguma conspiração global e que os brancos devem armar-se para lutar contra as imaginárias hordas sombrias que colidem com as fronteiras da nação.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez você esteja pensando: “Mas é apenas Charlie Kirk em sua camisa de botão! Ele não é um nacionalista branco! Ele diz que nem sequer sabe o que é a Teoria da Grande Substituição!” Hmmm. Aqui ele está em seu próprio podcast há um ano, alegando que os EUA estão enfrentando uma “invasão”, e que devemos armar uma milícia cidadã, “colocá-los na fronteira, e acabar com isso”. Ele insiste que existe uma grande conspiração com o objetivo de “diminuir e reduzir a população branca nos Estados Unidos. Vamos dizer isso em voz alta”.</p>
<p style="text-align: justify;">A alegação é&#8230; evidente. É isso que Charlie Kirk é: o <a class="urlextern" title="https://www.mediamatters.org/charlie-kirk/frequent-fox-guest-charlie-kirk-praises-and-endorses-tucker-carlsons-replacement" href="https://www.mediamatters.org/charlie-kirk/frequent-fox-guest-charlie-kirk-praises-and-endorses-tucker-carlsons-replacement" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Amigo da Grande Substituição</a>. E ainda assim, Gary May segue sua narrativa.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão é que essa narrativa é falsa. Perguntei a um amigo da Faculdade de Direito de Harvard se havia alguma jurisprudência estabelecida sobre esse assunto. Ele me indicou uma troca de ideias entre os eminentes juristas Erwin Chemerinsky e Robert Post. O primeiro, um professor de Berkeley, sustenta que <a class="urlextern" title="https://www.vox.com/the-big-idea/2017/10/25/16524832/campus-free-speech-first-amendment-protest" href="https://www.vox.com/the-big-idea/2017/10/25/16524832/campus-free-speech-first-amendment-protest" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">o discurso de ódio é protegido</a> pela Primeira Emenda: não se pode, por conseguinte, impedir que oradores com discursos de ódio falem numa universidade pública. Pode ser que sim.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo, um ilustre professor de direito em Yale, pensa exatamente o contrário. De olho exatamente na situação que temos diante de nós, ele escreve sobre as universidades que “a menos que estejam desperdiçando seus recursos em brincadeiras e desvios, elas só podem apoiar palestrantes convidados por estudantes quando isso serve aos propósitos da universidade. E esses fins devem envolver o propósito da educação.” Charlie Kirk é uma brincadeira e um desvio, minha nova expressão favorita para idiotas fascistinhas. A posição de Post é clara: “<a class="urlextern" title="https://www.vox.com/the-big-idea/2017/10/25/16526442/first-amendment-college-campuses-milo-spencer-protests" href="https://www.vox.com/the-big-idea/2017/10/25/16526442/first-amendment-college-campuses-milo-spencer-protests" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Não existe o direito segundo a Primeira Emenda de falar num campus universitário</a>”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais uma vez, talvez sim. Não sou jurista. Mas essas pessoas são. Especialistas, inclusive, em relação a essa questão específica do Direito Constitucional. E a questão é: discordam. É uma questão controversa. Não existe uma lei estabelecida que determine o que tem de acontecer a seguir. Gary May fingir que existe, e que ele está agindo por alguma imposição legal, em vez de fazer uma escolha específica que ele poderia fazer de outra forma, constitui um ato de pura desonestidade. Autorizar Charlie Kirk não é uma obrigação; Gary May está expressando sua preferência por meio de seus atos, independentemente do que ele ou sua assessoria de imprensa digam.</p>
<p style="text-align: justify;">O Amigo da Grande Substituição está vindo aqui em 14 de março, para recrutar em nome de uma organização que, em sua forma atual, é abertamente hostil à educação e <a class="urlextern" title="https://www.professorwatchlist.org/school/universityofcaliforniadavis" href="https://www.professorwatchlist.org/school/universityofcaliforniadavis" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">hostil especificamente à educação dada na UC Davis</a>. Não há defesa moral para isso. E a exigência legal&#8230; não existe. Vale a pena recordar que confrontar Yiannopoulos e Spencer iria, como foi amplamente dito na época, lhes fazer um favor, concedendo-lhes publicidade gratuita, cliques gratuitos. Sabemos agora que a decisão ética e intransigente de os expulsar do <em>campus</em> foi, em vez disso, parte de uma sequência que efetivamente encerrou as carreiras políticas de ambos. A história é educativa nesse sentido. Afinal, esta é uma universidade. Talvez seja a hora de dar uma lição em Charlie Kirk.</p>
<p style="text-align: center;"><em>Joshua Clover (1962-2025) era professor de Inglês e Literatura Comparada na UC Davis.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Traduzido por Marco Túlio Vieira</em></p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>A fotografia em destaque é de um <a href="https://theaggie.org/2019/04/08/protest-in-favor-of-dismissing-professor-joshua-clover-held/" target="_blank" rel="noopener">protesto convocado por ativistas de direita</a> exigindo a demissão de Joshua Clover da UC Davis</em></p>
</blockquote>
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		<title>Está na hora de recomeçar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Sep 2025 20:02:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autorais]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Repressão_e_liberdades]]></category>
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					<description><![CDATA[Não se trata de pensar que os meios pouco ortodoxos utilizados nos julgamentos atuais abrem um precedente para a repressão à extrema-esquerda; antes, foi a expertise construída ao longo de anos contra mobilizações populares que agora se voltou contra os fascistas. Por Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Passa Palavra</h3>
<p style="text-align: justify;">A condenação de Jair Bolsonaro junto com militares da cúpula das Forças Armadas é algo sem precedentes na história do Brasil, como vem ressaltando a imprensa nacional e internacional. De fato, o tradicional no Brasil é anistiar ou sequer processar criminalmente políticos e militares de direita que tentaram tomar o poder à força, o que sempre encorajou novas conspirações golpistas.</p>
<p style="text-align: justify;">O que nos interessa, no entanto, não é a suposta função pedagógica de condenações decididas pelo aparato estatal de justiça, e sim a maneira como essa decisão impacta a configuração das disputas políticas no interior da extrema-direita no próximo período, bem como as reações da esquerda, seja ela alegadamente anticapitalista ou não.</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos primeiro situar a questão do ponto de vista das disputas internas à extrema-direita e ao fascismo e, em seguida, do ponto de vista da classe trabalhadora.</p>
<p style="text-align: center;">*</p>
<p style="text-align: justify;">Primeiramente cumpre levantar algumas questões sobre o papel do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. Este foi, desde há muito, um agente político relevante, tendo atuado nas secretarias de diferentes administrações da direita paulista. Quando secretário da Segurança Pública em São Paulo, para além das chacinas já normalizadas cometidas pela polícia, com destaque para a ocorrida em Osasco, notabilizou-se pelo enfrentamento às ocupações secundaristas. São de especial relevância os expedientes utilizados para a desocupação do Centro Paula Souza, onde apesar de uma decisão judicial que impediria o despejo dos estudantes, Moraes utilizou-se de um ato administrativo para retirá-los à força. Demonstrou assim a capacidade de encontrar justificativas jurídicas para legitimar a ação repressora do Estado, e foi por essa razão logo alçado à ministro da Justiça pelo então presidente da República Michel Temer. Esse histórico nos ajuda a esclarecer um ponto: não se trata de pensar que os meios pouco ortodoxos utilizados nos julgamentos atuais abrem um precedente para a repressão à extrema-esquerda; antes, foi a <em>expertise</em> construída ao longo de anos como agente da ordem contra mobilizações populares que agora se voltou contra os fascistas.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157627" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/000_336P9NL-320377766.jpg" alt="" width="1024" height="708" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/000_336P9NL-320377766.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/000_336P9NL-320377766-300x207.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/000_336P9NL-320377766-768x531.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/000_336P9NL-320377766-607x420.jpg 607w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/000_336P9NL-320377766-640x443.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/000_336P9NL-320377766-681x471.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />Todavia, não deixa de ser sintomático do atual estado de coisas que Moraes seja alçado a figura a ser mais que defendida, exaltada, com memes, textos, episódios de podcast, publicações em redes sociais variadas. Demonstra-se assim a própria incapacidade de construir meios próprios de combate ao fascismo ou à extrema-direita em geral, precisando depositar em elementos da direita tradicional bem inseridos nas organizações estatais as esperanças de evitar a expansão do fascismo. Tal incapacidade de ação da esquerda tem como caso emblemático a recente prisão de Alessandra Moja, articuladora de anos das lutas da favela do Moinho, que foi humilhada e teve sua reputação destruída por uma ação conjunta da extrema-direita e do Ministério Público de São Paulo e, para além de esforços da comunidade e apoiadores, pouca atenção recebeu do conjunto das esquerdas.</p>
<p style="text-align: center;">*</p>
<p style="text-align: justify;">Não por acaso essa extrema-direita, que ocupa atualmente o governo paulista, vem apostando em construir uma imagem espetacularizada de combate ao crime, afinal sabem que isso se converte em votos e não irão hesitar em fazer afirmações ou armações que resultem em uma associação entre àqueles que lutam e os criminosos comuns. O interesse especial nessa mobilização no Estado de São Paulo se explica por Tarcísio de Freitas apresentar-se como o sucessor mais cotado para herdar a articulação política que deu sustentação a Bolsonaro. Cabe recordar que Tarcísio é produto das ações dos governos petistas. Assim como parte dos generais agora condenados por Golpe de Estado, ele também foi formado nas ações repressivas desempenhadas pelo exército brasileiro na ocupação do Haiti e depois foi funcionário do governo Dilma Rousseff. Hoje em dia, situa-se certamente na extrema-direita e não mede esforços em se colocar como o mais fiel seguidor de Bolsonaro, prometendo-lhe a anistia se chegar à presidência, articulando votos de deputados para projetos no mesmo sentido e participando de manifestações em defesa do ex-presidente.</p>
<p style="text-align: justify;">Ocorre que essa movimentação feita pelo governador indica uma disputa entre as diferentes forças da extrema-direita e os fascistas mais radicais sobre os rumos do que hoje é o campo bolsonarista. É evidente que com a prisão do líder da mobilização fascista, se abre o espaço para quem irá ocupar esse lugar. Qualquer um que já estudou mobilizações fascistas de outras épocas sabe que a existência dessas facções e a disputa violenta entre elas é uma regra e não uma exceção. Parece claro que neste momento o que se pode chamar de eixo conservador está articulado no entorno de Tarcísio. Enquanto Eduardo Bolsonaro encabeça o eixo radical, declarando que não há conciliação possível, articulando sanções econômicas ao país e incentivando em publicações e discursos um levante contra o Supremo Tribunal Federal — no que parece estar cada vez mais isolado. Não parece ser desprezível neste contexto o papel que será desempenhado por Nikolas Ferreira, deputado federal por Minas Gerais que conta com amplo apoio dos setores evangélicos e alta capacidade de mobilização das milícias digitais nas redes sociais. Recentemente ele tem publicado frases como “seja a extrema direita que eles tem medo”, além de ter feito referências às revoltas ocorridas no Nepal como uma inspiração para possíveis mobilizações no Brasil. Ainda parece cedo para saber como se resolverá esta disputa interna e se algum dos pretendentes conseguirá manter e ampliar a mobilização fascista, mas qualquer que seja o desfecho não é crível que a ação dos aparatos jurídicos estatais será uma forma eficaz de realmente derrotar esse movimento.</p>
<p style="text-align: center;">*</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que fazer quando a esquerda abriu mão da revolução? O que fazer quando a esquerda se tornou, na verdade, o paradigma da moderação, sendo o reformismo mais limitado o seu horizonte mais radical? O que fazer quando os movimentos revolucionários de esquerda ruíram e até os movimentos reformistas acabaram enredados na teia de um Estado que consente em sua participação, desde que se mantenham na periferia dos processos decisórios?</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-157629" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/estatua-a-justica-pichada-durante-os-atos-de-8-de-janeiro-de-2023-112013-787231632.png" alt="" width="1200" height="675" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/estatua-a-justica-pichada-durante-os-atos-de-8-de-janeiro-de-2023-112013-787231632.png 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/estatua-a-justica-pichada-durante-os-atos-de-8-de-janeiro-de-2023-112013-787231632-300x169.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/estatua-a-justica-pichada-durante-os-atos-de-8-de-janeiro-de-2023-112013-787231632-1024x576.png 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/estatua-a-justica-pichada-durante-os-atos-de-8-de-janeiro-de-2023-112013-787231632-768x432.png 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/estatua-a-justica-pichada-durante-os-atos-de-8-de-janeiro-de-2023-112013-787231632-747x420.png 747w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/estatua-a-justica-pichada-durante-os-atos-de-8-de-janeiro-de-2023-112013-787231632-640x360.png 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/09/estatua-a-justica-pichada-durante-os-atos-de-8-de-janeiro-de-2023-112013-787231632-681x383.png 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Se 80 anos atrás a derrota do fascismo deu-se apenas no campo militar, permitindo a perpetuação política de suas ideias, nos dias de hoje a possível derrota judicial dos fascistas parece também permitir a perpetuação de seus pressupostos e linguagem. Não nos parece irrelevante o esforço de esquerdistas dos mais variados matizes reivindicarem a necessidade de defender a soberania nacional perante as ações tomadas por Donald Trump. Ou ainda, a ampla aceitação que passou a ter o boné com a xenófoba frase “O Brasil é dos brasileiros”. Podemos somar como exemplo a utilização das cores da bandeira nacional nos chamados de manifestação, além da reivindicação da própria bandeira como símbolo válido das manifestações de esquerda; como se as cores da família Bragança, acrescida do ideal positivista dos militares da República, pudessem de alguma maneira significar algo à esquerda.</p>
<p style="text-align: center;">*</p>
<p style="text-align: justify;">Mas e então, o que fazer? Só há uma — somente uma — providência para o momento: parar de enaltecer o poder estatal desenfreado e a soberania nacional e tentar redescobrir os meios de lutar contra o capitalismo, de maneira independente, por fora do Estado, onde quer que isso seja possível. Mas para isso a esquerda vai precisar, pelo visto, resetar a si mesma e começar tudo de novo.</p>
<p style="text-align: justify;">Já que o momento é histórico, seria bom começar a fazer história novamente.</p>
<p style="text-align: justify;">
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		<title>Velha Toupeira (32)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Aníbal]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Jul 2025 12:21:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cartoons]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-156925 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Vt-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="853" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Vt-scaled.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Vt-300x100.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Vt-1024x341.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Vt-768x256.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Vt-1536x512.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Vt-2048x683.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Vt-1260x420.jpg 1260w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Vt-640x213.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/07/Vt-681x227.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></p>
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		<title>Neoliberais são os outros? Desmistificando o estereótipo do “Uber de extrema direita”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[FP]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 26 Apr 2025 10:35:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo]]></category>
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		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[A generalização de uma caricatura sobre a categoria, que chega praticamente a transferir-lhes a responsabilidade pela situação precária de vida na qual estão inseridos, está no cerne de um pensamento extremamente vantajoso à quebra dos laços de solidariedade. Por Vanessa Monteiro ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>Por Vanessa Monteiro*</h3>
<blockquote><p>Este texto foi escrito em 2024 no contexto das mobilizações dos motoristas de aplicativos contra a tentativa de regulamentação do trabalho por plataforma no Brasil.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Este texto trata sobre como tem repercutido publicamente, no Brasil, o debate sobre a regulamentação do trabalho por plataformas digitais. A construção de um estereótipo dos trabalhadores do ramo de transporte por aplicativos, segundo a qual estes seriam majoritariamente alinhados à extrema direita, tem sido constantemente mobilizada em meio à polarização social como artifício para a interdição do debate crítico às políticas implementadas pelo atual e terceiro governo Lula. Assim, pretendo contribuir de maneira introdutória com três debates de ordem global, a partir do caso brasileiro: a regulamentação do trabalho plataformizado; os conflitos laborais inescapáveis ao neoliberalismo progressista e a subjetividade emergente da classe trabalhadora, em sua nova morfologia.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de entrar no debate sobre a regulamentação propriamente dita é importante uma delimitação sobre como caracterizar estas plataformas digitais. Falo aqui em “empresa-aplicativo” não por um acaso. Um mecanismo central que permite com que a economia digital se apresente como ideal para legitimar mais amplamente o capitalismo contemporâneo é justamente a ideia de que as tecnologias digitais são “naturais, neutras e iguais para todos” <strong>[1]</strong>. O ponto de partida, então, é tomar estas plataformas como empresas-aplicativo, atores dentro do modo capitalista de produção <strong>[2]</strong>. Estas empresas capitalistas têm se expandido em todo o mundo para diversos ramos da economia, inaugurando um novo modelo de administração e controle dos processos produtivos e da força de trabalho.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-156419 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/jerome-arizona-1949.jpgLarge.jpg" alt="" width="448" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/jerome-arizona-1949.jpgLarge.jpg 448w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/jerome-arizona-1949.jpgLarge-224x300.jpg 224w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/jerome-arizona-1949.jpgLarge-314x420.jpg 314w" sizes="auto, (max-width: 448px) 100vw, 448px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Não à toa, diversos países têm discutido a regulação do trabalho via plataformas digitais. Assim, muitas das atuais disputas político-judiciais envolvendo as empresas-aplicativo partiram do reconhecimento do vínculo laboral e aplicação da legislação trabalhista aos motoristas e entregadores que trabalham por meio de plataformas digitais, como ocorreu no estado da Califórnia, e também no Chile, Espanha, França, Holanda, Itália, Reino Unido e Uruguai <strong>[3]</strong>. Contraditoriamente, o Brasil encontra-se na contramão, expressando os limites do neoliberalismo progressivo e sua incapacidade de atender às reivindicações por direitos trabalhistas e proteção social frente às chantagens do mercado. Ao fim e ao cabo, como buscarei demonstrar a seguir, muitos elementos da narrativa das empresa-aplicativo têm sido assimilados por setores que se reivindicam como parte do “progressismo” no Brasil, responsabilizando os trabalhadores por supostamente aderirem à uma subjetividade neoliberal.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sobre a proposta de lei que visa regulamentar o trabalho mediado por plataformas digitais no Brasil</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A votação da proposta de lei complementar que regulamenta o trabalho de motoristas por plataforma no Brasil, o chamado “PL da Uber”, estava indicada para a semana de 12 de junho. A apresentação do substitutivo do PLP 12/2024 ocorre após enorme rejeição da categoria ao projeto em março deste ano, forçando o recuo da votação em regime de urgência por parte do governo federal. O texto foi enviado para a Comissão de Indústria, Comércio e Serviços da Câmara dos Deputados em junho e segue pendente de aprovação, para posterior votação, apesar de a expectativa anunciada em março pelo presidente Lula fosse a de uma aprovação o mais rápido possível <strong>[4]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitos intelectuais, ativistas sindicais e trabalhadores têm argumentado quanto ao caráter reacionário da regulamentação proposta pelo PLP 12/2024, que representa um retrocesso histórico nos direitos trabalhistas do Brasil. Em texto anterior <strong>[5]</strong>, argumentei que este projeto de lei não cria uma organização diferente no mundo do trabalho, tal como propagandeado pelo governo, apenas legitimando a modalidade de superexploração já existente por parte das empresas-aplicativo.</p>
<p style="text-align: justify;">A proposta apresentada não contempla sequer a lista de reivindicações formulada por parte de centrais sindicais e entidade representativas de trabalhadores de aplicativo ao grupo de trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego do atual governo; não corresponde aos parâmetros de trabalho digno na economia digital a exemplo do sistema de pontuação do Fairwork Brasil; é inconstitucional no que tange ao período máximo de regime de trabalho diário e regulamenta o direito de punição ao trabalhador, uma das práticas mais denunciadas pelos trabalhadores de aplicativo, sobretudo devido à falta de transparência e critérios obscuros das plataformas. Estes são apenas alguns exemplos que validam a repercussão negativa do PL 12/2024 sobre a categoria de motoristas de aplicativo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda assim, o debate público sobre o tema foi polarizado a partir da ideia amplamente difundida de que os motoristas de aplicativo se posicionaram contrariamente ao Projeto de Lei em razão da subjetividade neoliberal, segundo a qual estes trabalhadores acreditam serem empreendedores de si. Dessa forma, o que poderia ser um profícuo debate em torno da necessidade de formulação de políticas públicas por direitos trabalhistas na economia digital, se esvai em um debate vulgar sobre a subjetivação dos motoristas de aplicativo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-156418" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/Westport-10-1988-Aaron-Siskind.jpg" alt="" width="420" height="414" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/Westport-10-1988-Aaron-Siskind.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/Westport-10-1988-Aaron-Siskind-70x70.jpg 70w" sizes="auto, (max-width: 420px) 100vw, 420px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A generalização de uma caricatura sobre a categoria, que chega praticamente a transferir-lhes a responsabilidade pela situação precária de vida na qual estão inseridos, está no cerne de um pensamento extremamente vantajoso à quebra dos laços de solidariedade. Ao fim e ao cabo, a incapacidade com que parte dos setores progressistas olham para estes trabalhadores com alteridade não está, ela própria, dissociada da razão neoliberal.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O sujeito neoliberal</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A ordem social que respondeu à crise de austeridade e estagflação dos anos 1970 e ao colapso do bloco soviético no final dos anos 1980 foi o capitalismo neoliberal. Esse conjunto de políticas que privatizam a propriedade e os serviços públicos, reduzindo o Estado social e amordaçando o trabalho foi criado no colóquio Walter Lippmann em 1938, lançando as bases políticas para o que depois se tornaria a Sociedade Mont Pèlerin. Muito já foi escrito sobre a racionalidade neoliberal, interpretando esta ordem para além da dimensão político-econômica, mas talvez poucas formulações sejam tão auto-explicativas como a célebre frase de Margaret Thatcher: “A economia é o método: o objetivo é mudar a alma” <strong>[6]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de expôr nossa crítica à caricatura da subjetividade dos motoristas de aplicativo, que aqui chamamos de arquétipo do “Uber de extrema direita”, julgamos necessária uma breve localização sobre a ideia de sujeito neoliberal. Em “A nova razão do mundo”, Dardot e Laval argumentam que, com a ascensão do neoliberalismo, se constitui também uma nova norma subjetiva, distinta do sujeito produtivo das sociedades industriais. Se o sujeito ocidental moderno na sociedade industrial foi incutido como sujeito produtivo, marcado pela mercantilização das relações humanas, que assumem a forma de contrato; na sociedade neoliberal o indivíduo é o ser competitivo, cuja subjetividade empresarial é moldada para localizar-se no mundo como empresário de si mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">O sujeito empresarial deve governar a si mesmo para realizar seus objetivos em uma sociedade competitiva: “deve maximizar seus resultados, expondo-se a riscos e assumindo inteira responsabilidade por eventuais fracassos” <strong>[7]</strong>. Trata-se de uma racionalidade muito funcional às tendências cada vez mais precárias do trabalho sob o neoliberalismo, com vínculos trabalhistas frágeis, desmoronamento de direitos sociais, empobrecimento e instabilidade financeira, aumentando a situação de medo e insegurança social.</p>
<p style="text-align: justify;">O neo-sujeito não é um ser passivo, impelido a agir de determinada maneira contra a sua vontade. O grande diferencial da razão neoliberal é a incorporação pelo indivíduo da atitude empresarial, o que vale para todos e não apenas empresários ou autônomos. A ética neoliberal está no discurso gerencial, no <em>coaching</em> e quaisquer outras técnicas que prometem formar o indivíduo para ser mais eficaz e produtivo em todas as dimensões da vida; está na autocoerção e na autoculpabilização, como aquele sentimento de fracasso em um dia de <em>homeworking</em> mal sucedido; está na utilização das redes sociais como espaço de ostentação de desempenho e gozo; está nos <em>Big Brothers</em> da vida, em que a sobrevivência se dá por meio da competição, para a qual qualquer arma pode ser útil.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, a racionalização gerencial está presente em múltiplas esferas da nossa vida e é interiorizada por sujeitos das mais diversas camadas sociais, não sendo um mal de origem de trabalhadores inseridos na economia de plataformas. Da mesma forma, como tem afirmado Nancy Fraser sobre o neoliberalismo progressista, a política econômica neoliberal não é um patrimônio da extrema direita ou da direita tradicional. Segundo Fraser, as expectativas frustradas com os neoliberalismos progressistas, inclusive, estão diretamente relacionadas com o crescimento da extrema direita frente à crise de hegemonia global.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-156417" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/Providence-92-1986-Aaron-Siskind.jpg" alt="" width="420" height="424" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/Providence-92-1986-Aaron-Siskind.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/Providence-92-1986-Aaron-Siskind-70x70.jpg 70w" sizes="auto, (max-width: 420px) 100vw, 420px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O estereótipo do “Uber de extrema direita”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A repercussão negativa do PL 12/2024 entre os motoristas de aplicativo se deu tão logo o mesmo foi a público. A postura reativa do governo, reproduzida também na mídia que o orbita, foi imediata. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, sustentou que a proposta deveria ser mantida em regime de urgência e que a repercussão negativa se deu por falhas de comunicação do governo ou por desinformação <strong>[8]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro argumento utilizado por defensores do Projeto de Lei, para justificar a rejeição majoritária entre a categoria, foi o de que estes trabalhadores “negam direitos” devido à sua afinidade ideológica com setores de extrema direita no Brasil. Apenas quatro dias após o governo Lula ter apresentado o PL 12/2024 a Revista Fórum publica o seguinte artigo de opinião: “Retrato do Brasil: 30% de entregadores e motoristas de app são de extrema direita” <strong>[9]</strong>, o que é complementado no subtítulo “Trabalhadores em situação mais precária abraçam setores que negam direitos”.</p>
<p style="text-align: justify;">O artigo parte da perspectiva de que a ideologia neoliberal, segundo a qual estes trabalhadores acreditariam serem empreendedores de si, é a causa para a reprovação da medida: “Os dados mostram um problema para o governo do presidente Lula (PT), que recentemente apresentou uma proposta ao Congresso Nacional para garantir direitos trabalhistas, como renda mínima fixa e previdência social, para os motoristas de aplicativo, já com a intenção de propor uma ação semelhante para os entregadores num futuro próximo. No entanto, os números apresentam uma reprovação, seguindo a lógica do posicionamento ideológicos exposta na pesquisa, já que a maior parte dos próprios entregadores e motoristas, dizendo-se “empreendedores”, não querem formalizar a relação de trabalho com as plataformas que utilizam” <strong>[10]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">No blog do jornalista Esmael Morais também se justificou a rejeição ao PLP 12/2024 por fatores ideológicos. Segundo o jornalista: “o que chama a atenção é que esses motoristas defendem os interesses das empresas proprietárias dos aplicativos em detrimento de suas próprias reivindicações” <strong>[11]</strong>. E assim explica a suposta defesa dos interesses patronais por parte dos trabalhadores: “A <strong>recusa</strong> por parte dos motoristas em aceitar os direitos trabalhistas propostos pelo governo reflete uma <strong>ideologia</strong> que os considera <strong>empreendedores</strong> independentes, e não trabalhadores assalariados. Isso resulta na negação de direitos fundamentais da classe trabalhadora, tais como seguro saúde, férias remuneradas, 13º salário e aposentadoria. Para muitos deles, a autonomia é vista como mais valiosa do que a garantia de direitos trabalhistas básicos” <strong>[12]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo pode ser identificado em entrevista cedida por Carina Trindade, presidente do Sindicato dos Motoristas Privados de Transportes por Aplicativos do Rio Grande do Sul, em que afirma que a categoria é contra qualquer tipo de regulamentação. Segundo a sindicalista: “A categoria é totalmente contra regulamentação, eles não querem ser regulamentados de nada. Eles querem continuar como está, as plataformas explorando e não ter nenhum tipo de regulamentação, não ter representatividade e também não ter a questão de criação de categoria” <strong>[13]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas redes sociais não faltam exemplos de como esse discurso está incutido em setores que se dizem defensores dos direitos trabalhistas, atribuindo ares de paternalismo ao governo que &#8211; segundo esta narrativa &#8211; está tentando “ajudá-los” ou até mesmo “promulgar a nova lei Áurea”. Os prints abaixo foram retirados de comentários no Instagram que divulgava matéria sobre a rejeição dos motoristas de aplicativos ao PLP 12/2024.</p>

<a href='https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT1.png'><img loading="lazy" decoding="async" width="600" height="958" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT1.png" class="attachment-full size-full" alt="" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT1.png 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT1-188x300.png 188w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT1-263x420.png 263w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" /></a>
<a href='https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT2.png'><img loading="lazy" decoding="async" width="598" height="992" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT2.png" class="attachment-full size-full" alt="" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT2.png 598w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT2-181x300.png 181w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT2-253x420.png 253w" sizes="auto, (max-width: 598px) 100vw, 598px" /></a>
<a href='https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT3.png'><img loading="lazy" decoding="async" width="590" height="974" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT3.png" class="attachment-full size-full" alt="" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT3.png 590w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT3-182x300.png 182w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT3-254x420.png 254w" sizes="auto, (max-width: 590px) 100vw, 590px" /></a>
<a href='https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT4.png'><img loading="lazy" decoding="async" width="592" height="880" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT4.png" class="attachment-full size-full" alt="" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT4.png 592w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT4-202x300.png 202w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/PRINT4-283x420.png 283w" sizes="auto, (max-width: 592px) 100vw, 592px" /></a>

<p style="text-align: justify;">Estes comentários são ilustrativos de como as categorias do neoliberalismo progressista funcionam, culpabilizando os trabalhadores e projetando nestes “outros” a ameaça da extrema direita, diante de qualquer crítica. Assim, cria-se uma verdadeira “cortina de fumaça” que dissimula o caráter conservador e subordinado, das políticas econômicas implementadas pelo governo Lula 3, a uma forma extremada de neoliberalismo, tal como tem demonstrado o economista David Deccache <strong>[14]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Ouvir os trabalhadores, aceitar o contraditório</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O “Uber de extrema direita” é uma generalização, uma caricatura que não aceita o caráter contraditório de uma categoria que não é homogênea. Se formos rigorosos, a bem da verdade, a classe trabalhadora como um todo em si é um corpo heterogêneo e o campo subjetivo sempre controverso.\\<br />
A utilização do percentual de motoristas de aplicativo que se consideram de extrema direita, tal como citado anteriormente em matéria da Revista Fórum, para justificar essa generalização é extremamente frágil quando comparado com a afinidade ideológica média da população brasileira. Segundo o Datafolha de março de 2024, 31% da população se define como bolsonarista. Em algumas camadas da população, há uma proporção ainda maior de bolsonaristas, como entre pessoas na faixa dos 35 aos 44 anos (36%), entre quem tem renda familiar de 5 a 10 salários (42%), na região Sul (38%), no conjunto das regiões Norte e Centro-Oeste (41%), entre quem se declara branco (37%), no segmento dos evangélicos (44%) e entre aqueles que reprovam a gestão do presidente Lula (67%).</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright wp-image-156415" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/New-York-2-1948-Aaron-Siskind.jpg" alt="" width="420" height="376" /></p>
<p style="text-align: justify;">Em todos estes segmentos a proporção de pessoas que se consideram bolsonaristas é superior à proporção de entregadores e motoristas de aplicativo (30%), segundo levantamento do Datafolha, citado no artigo acima da Revista Fórum. Ou seja, se formos comparar a proporção de entregadores e motoristas de aplicativos autodeclarados como de extrema direita, com a proporção de pessoas que são mais inclinadas ao bolsonarismo no Brasil, então os entregadores e motoristas de aplicativo refletem não mais do que a média da população <strong>[15]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Se é verdade que há elementos de assimilação do discurso das empresas-aplicativo, segundo o qual os trabalhadores plataformizados são parceiros e empreendedores, é verdade também que desde a paralisação nacional de entregadores de aplicativos em 2020, o <em>Breque dos APPs</em>, se comprovou que estes sujeitos periféricos são também sujeitos políticos capazes de subverter as tendências individualizantes e competitivas em prol de alianças, solidariedade e formas de resistir à superexploração do trabalho. Sendo assim, da mesma forma que seria falso omitir que há no interior da categoria &#8211; assim como no conjunto da classe trabalhadora &#8211; reproduções de ideologias dominantes, é igualmente equivocado omitir as “contracondutas” que colocam os trabalhadores plataformizados como sujeitos ativos na luta política por reconhecimento e condições dignas de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>“Se esse PL passar prefiro mil vezes ser CLT”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No dia 26 de março estive na manifestação de motoristas de aplicativos em frente à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, que reuniu centenas de trabalhadores para manifestar suas reivindicações perante o PLP 12/2024. Este artigo foi motivado pela escuta dos trabalhadores neste dia, revelando que seus discursos entravam em franca contradição com parte da repercussão na opinião pública sobre os motivos da rejeição da categoria ao projeto de lei, sobretudo aquelas que justificavam as críticas ao projeto por cunho ideológico (conservador) dos motoristas de aplicativo.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro elemento que chamou a atenção, foi que muitos afirmaram que não eram contra existir algum tipo de regulamentação, mas sim contra a regulamentação nos termos apresentados pelo governo: “E é o que eu digo, nós não somos contra a regulamentação, nós somos a favor da regulamentação. Porém, essa PL que está aí hoje não atende a nossa demanda, né?”, afirmou Caio <strong>[16]</strong>, de 45 anos, que trabalha há sete anos para a Uber.</p>
<p style="text-align: justify;">Já Ricardo está no aplicativo desde 2015, atuava como síndico profissional, e agora trabalha somente para a Uber. Assim como Caio, defende que haja regulamentação: “Porque eu sou a favor que haja regra sim, tem que ter, mas uma regra justa, bom para os dois lados ou por três lados.”</p>
<p style="text-align: justify;">A queda no rendimento era a principal queixa dos motoristas, que reivindicavam aumento de valor mínimo e valor por quilômetro rodado. Quando questionados sobre o valor da hora trabalhada correspondente ao mínimo proposto no PL do governo, logo apresentavam suas contas, demonstrando que o valor da remuneração, considerando gastos como manutenção ou aluguel de carro, na verdade levaria a uma queda brusca no rendimento mensal.</p>
<p style="text-align: justify;">“É inadmissível você hoje trabalhar por R$ 32,10 a hora. Isso daí você vai fazer no final do mês, aí um total de no máximo… Se for muito bem trabalhado… vai fazer R$ 2.400,00. Hoje não tá dando. Para quem tem um carro na rua, não tem como. Então. Eles têm que pagar, no mínimo, mudar essa PL para, no mínimo, por km e por tempo”, disse Wagner, professor de história.</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia de que, com a regulamentação, o trabalhador deverá na prática gastar para exercer o seu direito ao trabalho &#8211; uma vez que não está incluído no valor da remuneração o tempo de espera por trabalho enquanto o motorista está logado no aplicativo, bem como os custos do trabalho &#8211; está muito presente nos questionamentos dos motoristas de aplicativos ao projeto de lei complementar.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-156416" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/New-York-City-W-1-1947-Aaron-Siskind.jpg" alt="" width="420" height="534" /></p>
<p style="text-align: justify;">“Os custos não podem ser maior do que seus ganhos”, prossegue Ricardo, “porque o seu lucro… a gente tem que ter lucro para poder investir, comprar um carro novo, ter lazer, viajar com a família. Esse sistema é escravagista. Esse sistema sim, se passar, vai escravizar, não vai dar para ninguém. Quem está num país democrático não dá para viver na escravidão, não dá.”</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda sobre o valor insuficiente da remuneração, Caio diz: “(…) o mínimo virou teto! Várias e várias corridas de 30 minutos a R$ 16, corridas de uma hora R$ 38, então assim não passa disso e está ficando muito difícil. Eu mesmo já tenho carro, trabalho com carro alugado da KOVI, já entrei em negociação com eles. Eles me deram desconto porque eu não tô conseguindo fazer a minha meta diária para poder pagar o carro. É tanto que eu ganhei dois descontos de R$ 200 essa semana e a próxima, <strong>porque se for aprovado, infelizmente eu não vou conseguir mais trabalhar e é a minha renda principal hoje</strong>. Hoje eu dependo 100% do transporte de aplicativo para poder sobreviver, pagar aluguel do carro, aluguel da casa, família e tudo mais, né? Então a gente está pensando nisso aí seriamente para ver se consegue mudar, porque a gente por hora não atende. Teria que ser por quilômetro e minuto.”</p>
<p style="text-align: justify;">A afirmação feita por Caio, de que, caso o PLP 12/2024 seja aprovado, nos moldes tal como foi apresentado, deveria a um abandono do trabalho na plataforma, foi reiterada por muitos trabalhadores entrevistados: “Hoje é minha principal renda e aqui no aplicativo. Mas continuar com essa PL… se for adiante, eu vou ter que procurar outra coisa para fazer.”, “Se isso fosse aprovado do jeito que está hoje, eu pararia total nos aplicativos e voltava para minha área de atuação.” disseram os entrevistados.</p>
<p style="text-align: justify;">Questionados sobre a preferência pelo regime celetista de trabalho ou na plataforma seguindo os termos da regulamentação do PL 12/2024, a resposta era contundente: “Sem sombra de dúvida. Se for aprovado essa proposta dessa forma”, “É muito melhor ser CLT, CLT”, “Se regulamentar eu tô fora”, afirmavam os motoristas. Esse ponto opõe-se totalmente ao discurso de que “motoristas de aplicativos são contra o PL 12/2024 porque <em class="u">são contra qualquer forma de regulamentação e rejeitam a CLT</em>”. Apesar de sabermos que há uma posição majoritária contrária a que o trabalho nas plataformas seja regulamentado nos termos da CLT (motivado pela flexibilidade no horário de trabalho, entre outros fatores), o que muitos motoristas entrevistados expressaram é que o PL 1204/2024, como foi apresentado inicialmente, teria efeitos tão negativos sobre a categoria que, neste caso, é preferível o regime celetista de trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia pura e simples de que o trabalhador de aplicativo se considera um “empreendedor de si” não permite enxergar elementos de contradição existentes na experiência destes trabalhadores com as empresas-aplicativo. Nessa fala de Wagner há muitos elementos interessantes, apontando sobre a rejeição ao vínculo motivada pela flexibilidade de horário, ao mesmo tempo que reconhece não haver autonomia com relação ao aplicativo: “Então é assim: somos monitorados, não existe autonomia, porque a autonomia que eu entendo, eu que teria que colocar o meu preço minimamente, não sou eu que coloco o preço na minha corrida. Então, a partir do momento que temos aí o monitoramento… A precificação… É ele que precifica, o aplicativo. Acabou minha autonomia. Não tem, não sou eu. Agora, eu também não sou a favor, mas nem um pouco, de ser e de ter algum tipo de vínculo. Não sou a favor de vínculo empregatício porque acho que a única coisa que eles nos dão é a flexibilidade de horário.”</p>
<p style="text-align: justify;">Ricardo se manifesta no mesmo sentido: “Quando se trata de parceria, eu digo que é parceiro, vamos sentar aqui, vamos conversar, vamos acertar o melhor para nós. (…) Isso não ocorre na Uber. Ela coloca lá o valor de tempo, faz tudo e só empurra pra gente aceitar.” Cristian afirma “não somos autônomos com direitos”, o que é complementado por Bruno “somos terceirizados”, e continua: “de autonomia a gente não tem nenhuma, né… porque a gente não determina o horário, o horário tudo bem que a gente vai entrar e sair mas… pelas nossas metas que a gente tem que bater, a gente tem que ficar 12, 15 horas na rua, né? E a maioria das corridas, 50% das corridas são corridas de R$ 5, R$ 7…”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Trabalhadores plataformizados também resistem</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O neoliberalismo como ordenamento social &#8211; econômico, político e subjetivo &#8211; complexo, inserido no modo de produção capitalista em sua fase financeirizada, não deixa de gestar contradições inerentes à relação capital/trabalho. As formas laborais mais precárias, nas quais se inserem os trabalhadores plataformizados, pertencem ao contexto global de crise e disputa, não podendo estes trabalhadores serem vistos como sujeitos passivos &#8211; seja da ideologia neoliberal, seja da precarização do trabalho.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-156414" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/Gloucester-16A-1944-Aaron-Siskind.jpg" alt="" width="420" height="564" /></p>
<p style="text-align: justify;">Quando descemos do céu &#8211; seja o céu da burocracia sindical, do governo e de suas instituições, ou de certo academicismo &#8211; à terra, e partimos para uma escuta radical dos trabalhadores, é perceptível que há resistência à política neoliberal, que outras formas de associação coletiva estão sendo criadas para driblar a fragmentação no mundo do trabalho e que há elementos de uma racionalidade pautada pela coletividade. Se vivemos sob um neoliberalismo em crise, significa que é possível ““contracondutas” como prática de subjetivação”, nos termos de Dardot e Laval. É possível desde já resistir à racionalidade dominante e os caminhos dessa desobediência coletiva podem estar mais presentes entre os motoristas de aplicativos, do que imaginam alguns.</p>
<p style="text-align: justify;">Identificar que há espaço para a radicalização em prol de uma agenda de defesa de direitos trabalhistas, reconhecimento e dignidade para pessoas inseridas na economia de plataformas parece, porém, inadmissível para parte da base aliada ao governo. Assim, é mais fácil criar uma caricatura do motorista de aplicativos como o sujeito de extrema direita, do que reconhecer a política neoliberal expressa no PL 12/2024, pautada por um governo apoiado, em grande parte, pela expectativa por parte de seus eleitores na defesa dos interesses trabalhistas. Para não jogar água no moinho da extrema direita, permitindo que o bolsonarismo dispute uma categoria para a qual nenhuma medida foi tomada quando governava o país, é necessário que movimentos sociais, intelectuais e entidades defensoras dos direitos trabalhistas incorporem a agenda mínima que os motoristas de aplicativo estão reivindicando, como o aumento do valor da taxa por quilômetro rodado e o fim dos bloqueios injustos. Diante da crise multidimensional em que vivemos e a falência do pacto conciliatório vigente no início dos anos 2000, a firmeza na defesa dos direitos trabalhistas e das maiorias será decisiva na permanente e longa disputa de hegemonia em curso no Brasil e no mundo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-156432 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/nova.jpg" alt="" width="602" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/nova.jpg 602w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/nova-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/nova-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/nova-421x420.jpg 421w" sizes="auto, (max-width: 602px) 100vw, 602px" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em>*Vanessa Monteiro é doutoranda em Sociologia pela Unicamp</em></p>
<p><strong style="text-align: right;">Notas:</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> AMRUTE, S. Raça como Algoritmo: trabalhadores de tecnologia entediados sendo casualmente racistas. Revista Fronteiras, v. 23 n. 1 (2021): Janeiro/Abril, 11-28. <a class="urlextern" title="https://doi.org/10.4013/fem.2021.231.02" href="https://doi.org/10.4013/fem.2021.231.02" rel="ugc nofollow">https://doi.org/10.4013/fem.2021.231.02</a>, p. 70.<br />
<strong>[2]</strong> SRNICEK, N. Capitalismo de plataformas. Buenos Aires: Caja Negra, 2018.<br />
<strong>[3]</strong> As especificidades da legislação em cada país em comparação com o modelo apresentado pelo Projeto de Lei Provisório no Brasil podem ser encontrados neste texto: <a class="urlextern" title="https://outraspalavras.net/trabalhoeprecariado/empresas-plataforma-brasil-na-retaguarda/#sdfootnote13sym" href="https://outraspalavras.net/trabalhoeprecariado/empresas-plataforma-brasil-na-retaguarda/#sdfootnote13sym" rel="ugc nofollow">https://outraspalavras.net/trabalhoeprecariado/empresas-plataforma-brasil-na-retaguarda/#sdfootnote13sym</a><br />
<strong>[4]</strong><a class="urlextern" title="https://www.moneytimes.com.br/projeto-para-motoristas-de-apps-ainda-deve-ser-votado-este-ano-no-congresso-diz-ministro-kda/" href="https://www.moneytimes.com.br/projeto-para-motoristas-de-apps-ainda-deve-ser-votado-este-ano-no-congresso-diz-ministro-kda/" rel="ugc nofollow">https://www.moneytimes.com.br/projeto-para-motoristas-de-apps-ainda-deve-ser-votado-este-ano-no-congresso-diz-ministro-kda/</a><br />
<strong>[5]</strong><a class="urlextern" title="https://www.cismacritica.com.br/o-projeto-de-lei-que-consolida-escravidao-digital/" href="https://www.cismacritica.com.br/o-projeto-de-lei-que-consolida-escravidao-digital/" rel="ugc nofollow">https://www.cismacritica.com.br/o-projeto-de-lei-que-consolida-escravidao-digital/</a><br />
<strong>[6]</strong> Margaret Thatcher em Sunday Times, 3 de maio de 1981. Disponível em: &lt;<a class="urlextern" title="https://www.margaretthatcher.org/document/104475" href="https://www.margaretthatcher.org/document/104475" rel="ugc nofollow">https://www.margaretthatcher.org/document/104475</a>&gt;. Acesso em 17 de junho de 2024.<br />
<strong>[7]</strong> Dardot e Laval (data, p. 328).<br />
<strong>[8]</strong> ESTADÃO. ‘Vamos enfrentar a gritaria’, diz Luiz Marinho sobre o PL dos motoristas de aplicativo. Disponível em: &lt;<a class="urlextern" title="https://www.estadao.com.br/economia/entrevista-luiz-marinho-ministro-do-trabalho-motorista-por-aplicativo/" href="https://www.estadao.com.br/economia/entrevista-luiz-marinho-ministro-do-trabalho-motorista-por-aplicativo/" rel="ugc nofollow">https://www.estadao.com.br/economia/entrevista-luiz-marinho-ministro-do-trabalho-motorista-por-aplicativo/</a>&gt;. Acesso em 21/06/2024.<br />
<strong>[9]</strong><a class="urlextern" title="https://revistaforum.com.br/politica/2024/3/8/retrato-do-brasil-30-de-entregadores-motoristas-de-app-so-de-extrema-direita-155370.html" href="https://revistaforum.com.br/politica/2024/3/8/retrato-do-brasil-30-de-entregadores-motoristas-de-app-so-de-extrema-direita-155370.html" rel="ugc nofollow">https://revistaforum.com.br/politica/2024/3/8/retrato-do-brasil-30-de-entregadores-motoristas-de-app-so-de-extrema-direita-155370.html</a><br />
<strong>[10]</strong> Idem.<br />
<strong>[11]</strong> Blog do Esmael. Motoristas de Uber rejeitam direitos e proteção propostos pelo governo Lula. 27/03/2024. Disponível em:&lt;<a href="https://www.esmaelmorais.com.br/motoristas-de-uber-rejeitam-direitos-e-protecao-propostos-pelo-governo-lula/">https://www.esmaelmorais.com.br/motoristas-de-uber-rejeitam-direitos-e-protecao-propostos-pelo-governo-lula/</a>&gt;. Acesso em 18/06/2024.<br />
<strong>[12]</strong> Idem.<br />
<strong>[13]</strong> Sul21. Todo motorista é contra regulamentação dos aplicativos, até ser bloqueado, avalia sindicato. 7/03/2024. Disponível em: &lt;<a class="urlextern" title="https://sul21.com.br/noticias/geral/2024/03/todo-motorista-e-contra-regulamentacao-dos-aplicativos-ate-ser-bloqueado-avalia-sindicato/" href="https://sul21.com.br/noticias/geral/2024/03/todo-motorista-e-contra-regulamentacao-dos-aplicativos-ate-ser-bloqueado-avalia-sindicato/" rel="ugc nofollow">https://sul21.com.br/noticias/geral/2024/03/todo-motorista-e-contra-regulamentacao-dos-aplicativos-ate-ser-bloqueado-avalia-sindicato/</a>&gt;. Acesso em 18/06/2024.<br />
<strong>[14]</strong> Em artigo recente, Deccache analisa detalhadamente as medidas abordadas neste primeiro ano de gestão do governo Lula 3, tais como a PEC de transição, o Novo Arcabouço Fiscal; o aprimoramento dos mecanismos de desestatização no âmbito do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), entre outras. O artigo completo encontra-se em: <a class="urlextern" title="https://movimentorevista.com.br/2024/11/governo-lula-3-continuidade-ou-ruptura/" href="https://movimentorevista.com.br/2024/11/governo-lula-3-continuidade-ou-ruptura/" rel="ugc nofollow">https://movimentorevista.com.br/2024/11/governo-lula-3-continuidade-ou-ruptura/</a>.<br />
<strong>[15]</strong><a class="urlextern" title="https://media.folha.uol.com.br/datafolha/2024/03/25/hxnnvpz2mvs5msosj0is3osfvijyflucqhw7mtjnjswq2pszj2h8pheveugt49u-qbzd6uncy5idru2kwegu1a.pdf" href="https://media.folha.uol.com.br/datafolha/2024/03/25/hxnnvpz2mvs5msosj0is3osfvijyflucqhw7mtjnjswq2pszj2h8pheveugt49u-qbzd6uncy5idru2kwegu1a.pdf" rel="ugc nofollow">https://media.folha.uol.com.br/datafolha/2024/03/25/hxnnvpz2mvs5msosj0is3osfvijyflucqhw7mtjnjswq2pszj2h8pheveugt49u-qbzd6uncy5idru2kwegu1a.pdf</a><br />
<strong>[16]</strong> O nome dos interlocutores foram alterados para manter seu anonimato.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><em><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-156428 size-thumbnail aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2025/04/9c164189-da5d-4448-9a26-233cffde82b7.jpgPortrait-70x70.jpg" alt="" width="70" height="70" />Este artigo está ilustrado com fotografias de Aaron Siskind (1903-1991).</em><span class="info-icon-circle-wrapper"><em> </em> </span></p>
<p>&nbsp;</p>
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