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	<title>Extrema_esquerda &#8211; Passa Palavra</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>O “terceiro campo” revisitado: O internacionalismo proletário em meio à guerra e a “liberação” nacional</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/10/160140/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 Oct 2026 15:49:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Govs_nacionais_e_internacionais]]></category>
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					<description><![CDATA[Há um ressurgimento preocupante da tendência de subordinar a crítica aos Estados, à guerra e à dominação capitalista a um campo nacional. Por Antithesi]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Antithesi</h3>
<p style="text-align: right;">Agosto de 2026</p>
<p style="text-align: justify;">O texto a seguir surgiu de uma série de encontros e trocas de ideias ao longo do último ano em torno da história e relevância atual do internacionalismo proletário. O que conferiu a esses debates uma urgência particular foi o ressurgimento preocupante do “campismo” nos meios radicais — e, cada vez mais, nos não tão radicais —: a tendência renovada de subordinar a crítica aos Estados, à guerra e à dominação capitalista ao apoio ao “mal menor”, a um campo nacional com base na opressão real da população que pretende representar, ou a forças identificadas com a “resistência ao imperialismo”. Da Ucrânia à Ásia Ocidental e Sudeste Asiático, a pressão para escolher entre campos imperialistas ou nacionais concorrentes tornou-se, mais uma vez, um problema político central.</p>
<p style="text-align: justify;">Várias conversas ocorridas em Paris na primavera de 2026 ajudaram a dar forma mais concreta a essas preocupações. Uma delas dizia respeito à tradução em andamento dos textos de Marie-Louise Berneri, extraídos de <em>War Commentary for Anarchism</em> e <em>Freedom</em>, que haviam sido reunidos em <em>Neither East Nor West</em>.<strong>[1]</strong> Outra tratava de Henri Simon — o comunista conselhista centenário e ex-membro de <em>Socialisme ou Barbarie</em>, falecido recentemente — e de sua relação com Henry Chazé, figura-chave tanto na <em>Union Communiste</em> quanto na Fração Francesa da Esquerda Comunista Internacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses encontros apontavam, para além de qualquer organização ou tradição política isolada, a uma história mais ampla do internacionalismo proletário, desenvolvida tanto nas correntes comunistas, como nas anarquistas em oposição à guerra capitalista e às formas políticas através das quais os proletários têm sido repetidamente subordinados: a colaboração de classes antifascista, a “libertação” nacional, as “guerras nacionais justas” e o alinhamento com um campo imperialista apresentado como “anti-imperialista”. Porém, recuperar essa história também levanta uma questão mais complexa do que simplesmente reafirmar uma posição internacionalista, ou do “terceiro campo”: <strong>por que essa posição permaneceu, em quase todos os casos a partir de 1920, uma posição minoritária dentro da classe?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O problema não era apenas debilidade numérica. Os grupos que mantiveram uma posição internacionalista raramente se conectavam, exceto de forma breve e parcial, com os movimentos de massa da classe à qual eles se dirigiam. Eles eram pequenos, clandestinos, perseguidos, teoricamente sólidos e organizativamente frágeis. Eles escreviam para a classe que, na esmagadora maioria dos casos, marchava na direção oposta — sob bandeiras nacionais, frentes antifascistas ou exércitos de liberação.</p>
<p style="text-align: justify;">A onda revolucionária de 1917-20 é a exceção óbvia: o momento em que se produziu, efetivamente, uma reversão do ponto de vista no nível das massas. Entre 1917 e 1920 — na Rússia, Alemanha, Hungria, partes da Itália, e os motins que abalaram os exércitos da Entente ao final da guerra — a recusa internacionalista da guerra converteu-se brevemente em uma força material. Os soldados confraternizaram-se através das trincheiras e se recusaram a lutar; as e os trabalhadores recusaram-se a produzir e formaram conselhos. A fórmula de Lenin “transformar a guerra imperialista em guerra civil” não era apenas um slogan; descrevia algo que realmente estava ocorrendo, impulsionado não primariamente pela organização bolchevique, mas pela exaustão, a raiva e a radicalização política de milhões de pessoas enviadas à morte em nome de interesses que, visivelmente, não correspondiam aos seus. O que tornou essa conexão possível não foi, primariamente, a correção de sua linha política. Foi a exaustão material de anos nas trincheiras, combinados com uma densidade organizativa preexistente na classe trabalhadora que pôde ser reativada em outro sentido. Até 1921 ou 1922, a onda revolucionária já havia sido derrotada em quase toda parte, e quando o ciclo de maior alcance de guerras seguinte chegou, nos anos 1930 e 1940, a posição internacionalista voltou a ser circunscrita, em larga medida, a pequenas minorias. Por que se produziu, então, essa conexão entre fatiga de guerra, organização de classe e internacionalismo revolucionário e por que não ocorreu novamente da mesma forma é a questão mais importante levantada por essa experiência — e que nós gostaríamos de manter aberta ao longo do debate.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">O ponto de partida do internacionalismo proletário é o rechaço à pressão permanente exercida sobre os proletários e proletárias para escolher entre os campos estatais — um rechaço baseado no reconhecimento de que a guerra não é uma aberração do funcionamento normal do capitalismo, mas sua condensação: a competição entre Estados por mercados, territórios e mão de obra, a reorganização da produção por meio da destruição e a imposição de uma disciplina que os tempos de paz nem sempre puderam impor. Essa pressão não aparece apenas como patriotismo ou nacionalismo suprematista. Ela toma a forma de antifascismo, liberação nacional, defesa da democracia, anti-imperialismo, resistência à ocupação ou apoio ao mal menor. Em todos os casos, abandona-se a autonomia proletária em nome de uma tarefa política supostamente mais urgente.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa tendência, frequentemente chamada de “terceiro campo” proletário ou “terceira opção”, recusa a lógica do “mal menor” entre as máquinas estatais. Um capitalismo mais débil em conflito com um mais forte segue sendo capitalismo. Um Estado dominado ou atacado não deixa de organizar a exploração, a disciplina laboral, o controle policial de populações e de unir as classes sob a forma da nação. A nação é uma das formas políticas por meio das quais o antagonismo de classe é deslocado: uma sociedade dividida pela exploração se apresenta como uma comunidade comum de cidadãs e cidadãos, associados por um interesse compartilhado, um destino comum e, em tempos de guerra, por um inimigo comum. A derrota de um bloco imperialista se limita a alterar o equilíbrio das forças nos marcos da competição global; não é a vitória da classe trabalhadora, nem um passo em direção à sua autoabolição. Nem sequer desafia o imperialismo <em>per se</em>. As máquinas de guerra democráticas, os movimentos de liberação nacional e os oponentes autoritários ou teocráticos do ocidente exigem, em diferentes linguagens, a mesma renúncia: a suspensão da luta de classes autônoma em nome de uma necessidade política maior.</p>
<p style="text-align: justify;">A clareza política da corrente internacionalista não advém do sectarismo, nem do isolamento enquanto tal. Advém do fato de que essas e esses militantes foram obrigados, por conta do desenvolvimento reacionário do próprio movimento operário, a quebrar com as formas através das quais o movimento estava sendo incorporado ao Estado, à nação e ao esforço de guerra. Sua clareza foi forjada, portanto, por meio de sucessivas rupturas: com o patriotismo social em 1914, com o stalinismo, com a defesa da URSS, com a colaboração de classe anti-fascista, com a liberação nacional enquanto modernização e construção do Estado, e com qualquer ideia segundo a qual a emancipação proletária passaria pela vitória de um Estado ou de um campo imperialista.</p>
<p style="text-align: justify;">A condição dos minoritária dos grupos explicitamente internacionalistas não deve ser interpretada como ausência de resistência à guerra. A mobilização bélica nunca é puramente ideológica ou voluntária. Requer disciplina, coerção, medo, propaganda, a coação legal e controle policial da população. A evasão do recrutamento, a deserção, a desobediência militar, a recusa em participar da produção bélica, a exaustão social, as greves e a hostilidade ao Estado, tudo isso pode enfraquecer o esforço de guerra sem implicar, de forma consciente e explícita, uma postura internacionalista. A questão política premente é em que medida tais recusas podem ser transformadas em um repúdio de classe da guerra capitalista e de todos os Estados nacionais, ao invés de serem absorvidas pelo pacifismo, o humanismo democrático, o nacionalismo ou o campo rival.<img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160146" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web.jpg" alt="" width="1030" height="685" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web.jpg 1030w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web-1024x681.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web-768x511.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web-632x420.jpg 632w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web-640x426.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/Myriam-Thyes-Ausstellung-2009-kunstverein-rheinsieg-pumpwerk-siegburg-migration-flags-016-1030px-web-681x453.jpg 681w" sizes="(max-width: 1030px) 100vw, 1030px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Os textos reunidos em nossa publicação<strong>[2]</strong> devem ser lidos não como uma doutrina imutável, mas como tentativas situadas de formular uma resposta de classe em momentos em que o proletariado se viu pressionado a tomar parte de mobilizações nacionais, antifascistas, democráticas ou anti-imperialistas. Cada caso aborda o mesmo problema a partir de um ângulo histórico diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira formulação aparece com particular clareza na resposta do anarquismo japonês à invasão da Manchúria, em 1931. A Federação Libertária Japonesa escreveu de dentro de um país imperialista agressor. Seu alvo prioritário era o Estado japonês, seu exército, sua classe capitalista e o discurso patriótico mediante o qual se justificava a invasão. Nesse texto, a pátria não é uma comunidade formada por explorados e seus exploradores. É a forma política por meio da qual se pede aos pobres que suportem a fome, o frio e a morte, enquanto a classe dominante obtém lucro e poder.</p>
<p style="text-align: justify;">O que principal aqui é que a denúncia do imperialismo japonês não se transmuta em apoio ao campo nacional oposto. A Federação Libertária Japonesa indaga quem se beneficiaria caso a influência japonesa fosse anulada na China em virtude da vitória do movimento de liberação nacional. Sua resposta é: não os trabalhadores os campesinos chineses enquanto força social autônoma, mas a burguesia chinesa ascendente e os capitais estrangeiros em competição com o Japão. Essa foi uma das primeiras formas da dupla recusa, desenvolvida de modo mais claro nos textos posteriores da nossa publicação.</p>
<p style="text-align: justify;">O texto se refere especificamente à posição tomada por Kropotkin, em 1914 — apoiando a Entente por considerar o militarismo alemão o perigo maior. Os anarquistas japoneses consideraram isso um erro fatal. Assim que um imperialismo é considerado suficientemente pior para justificar o apoio ao outro, o internacionalismo já foi dissolvido na lógica da guerra entre Estados. O problema é aceitar que se peça aos proletários e às proletárias que avaliem qual classe dominante deveria derrotar a outra.</p>
<p style="text-align: justify;">A <em>Union Communiste</em> desenvolveu a mesma questão de uma comunista mais sistemática durante a Guerra Sino-Japonesa de 1937. A experiência espanhola já havia estabelecido suas bases: A Frente Popular havia mostrado que o apoio “crítico” à burguesa democrática equivalia a reforçar o aparato que havia esmagado as trabalhadoras e trabalhadores de Barcelona em maio de 1937 e eliminado as forças que não podiam ser subordinadas à linha nacional-democrática &#8211; o POUM e as correntes anarquistas mais radicais. Sua polêmica contra Trotski é central. Trotski argumentava que a China, um país semicolonial atacado pelo Japão, liderava uma guerra nacional progressista a ser apoiada pelos revolucionários, de modo a manter, ao mesmo tempo, uma independência política de Chiang Kai-shek.</p>
<p style="text-align: justify;">A <em>Union Communiste </em>rechaçou essa distinção entre apoio militar e independência política. A questão não era qual lado havia sido atacado. A defesa nacional é organizada por intermédio do Estado burguês, seu exército e sua liderança política; apoiá-la significa, portanto, reforçar o aparato mediante o qual se subordina a classe trabalhadora. Na China, isso supunha fortalecer o poder militar e burocrático de Kuomintang — a mesma força burguesa que havia esmagado a revolução operária de 1926-27. Um aparato estatal construído em nome da guerra anti-imperialista não se torna inócuo porque o apoio a ele é qualificado de “crítico”. A disciplina da guerra nacional transforma o “apoio crítico” em participação prática no esforço nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante a Segunda Guerra Mundial, a mesma questão reapareceu na forma de antifascismo e de defesa da União Soviética. Esse alinhamento em massa foi a culminação do desarmamento político do proletariado durante o período entreguerras, em que a integração institucional da classe trabalhadora ao Estado democrático pela social-democracia e a política stalinista das Frentes Populares, a qual transformou a luta de classes na defesa antifascista da democracia burguesa, já havia minado qualquer base para a autonomia da classe. Para a maior parte da esquerda, a guerra se apresentava como a luta entre o fascismo e a democracia ou como uma guerra em que a URSS tinha que ser defendida, apesar do stalinismo. Nesse momento, os grupos internacionalistas haviam rompido não apenas com o stalinismo, mas com a posição trotskista de que a Rússia, enquanto um Estado degenerado operário, devia ser defendida contra o imperialismo — uma lógica que, em última instância, contribuiu para a subordinação das massas proletárias em todo o mundo ao campo imperialista Aliado.</p>
<p style="text-align: justify;">As minorias internacionalistas na Europa ocupada tentaram manter outra posição. Os <em>Revolutionären Kommunisten Deutschlands</em> (RKD), o <em>Groupe Révolutionnaire Prolétarien/Union des Communistes Internationalistes</em> (GRP/UCI), frações da esquerda comunista e a rede anarquista em torno de André Arru, que operava desde Marseille e Toulouse, opuseram-se ao nazismo e à ocupação alemã, mas também ao imperialismo Aliado, ao stalinismo, às frentes de resistência nacional baseadas na colaboração de classe e a restauração da ordem capitalista sob o nome de “Liberação”. Esses grupos produziram panfletos em alemão e francês, dirigindo-se aos soldados alemães enquanto proletários uniformizados, em vez de meros instrumentos do Estado nazista, e chamaram à confraternização, deserção, recusa à disciplina e à luta contra todos os Estados. Tentaram romper a coesão nacional imposta por meio da guerra, intervindo politicamente nas próprias fileiras do próprio exército. E, certamente, isso não supunha a negação da realidade da ocupação alemã, nem do terror nazista; tratava-se da recusa de traduzir essa realidade em apoio ao campo Aliado, à resistência patriótica ou ao Estado soviético. Alguns militantes foram presos, deportados ou mortos. Karl Fischer da RKÖ apenas sobreviveu à repressão nazista para ser sequestrado após a guerra pelo aparato soviético e enviado ao Gulag.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa tendência não estava ausente no contexto grego. A corrente em torno de Aghis Stinas — através de suas formas sucessivas de organização durante a Ocupação — manteve uma posição internacionalista dentro da Grécia ocupada, tanto frente ao Eixo como ao campo Aliado, e contra a linha da unidade nacional do EAM/ELAS, a qual identificava como uma subordinação da classe trabalhadora ao imperialismo Aliado. A posição internacionalista se manteve não apenas nos centros metropolitanos da Europa ocidental, mas também em um país submetido a condições de extrema repressão, onde a pressão no sentido da unidade nacional foi uma das mais intensas.<strong>[3]</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No contexto da Itália, as greves de março de 1943 em Turim, Milão e os centros industriais do norte mostraram que poderia surgir uma verdadeira ruptura da classe operária no seio do Estado agressor, impulsionada pela fome, a exaustão e o ódio à disciplina fascista. Mas essa ruptura foi absorvida mais tarde no quadro da liberação nacional antifascista, sobretudo por intermédio do PCI e CLN, a coalizão transclassista de Liberação Nacional que unia comunistas, democrata-cristãos e até monarquistas. Os textos de nossa compilação, escritos em torno da conjuntura italiana por grupos da Grã-Bretanha e da França ocupada — sem que houvesse qualquer comunicação entre eles —, registram essa situação de forma quase idêntica. Os textos de Berneri recusam a identificar os bombardeamentos dos Aliados com a liberação e os justapõem com as greves dos trabalhadores e a sabotagem na Itália para desmascará-los como um meio de impor a “ordem” capitalista; os textos da esquerda comunista atacam esse mesmo processo como uma contrarrevolução preventiva encaminhada à restauração da ordem capitalista por meio do antifascismo e nacionalismo. O que o quadro da liberação nacional suprimiu foi a possibilidade de que a revolta operária contra o fascismo e a guerra excedessem os limites da reconstrução do Estado antifascista e se transformassem em guerra de classes.</p>
<p style="text-align: justify;">Na França, a “liberação” de Paris em 1944 colocou brevemente a questão se acaso essas minorias internacionalistas poderiam se ligar com um movimento operário mais amplo. Militantes do GRP/UCI e do RKD participaram no comitê de greve na Renault. Por um instante, a expectativa de uma onda revolucionária não era absurda. Mas essa abertura foi logo fechada. A influência stalinista nos locais de trabalho, o retorno da ordem estatal e a estabilização trazidas pelos exércitos Aliados limitaram as possibilidades. Os grupos que haviam preservado uma posição internacionalista ao longo dos anos de repressão careciam das bases e envergadura necessárias para influenciar a situação quando a oportunidade surgiu brevemente. Somente a clareza intelectual não pode produzir, sozinha, uma força mais ampla; isso depende do nível da organização de classe, da desintegração da disciplina militar, do enfraquecimento da legitimidade do Estado e a possibilidade de conectar recusas isoladas em um movimento comum.</p>
<p style="text-align: justify;">A revista <em>War Commentary</em>, na Grã-Bretanha, não funcionou sob a ocupação alemã, mas dentro de um dos Estados imperialistas democráticos vencedores. O internacionalismo não é colocado à prova unicamente sob a ditadura ou a ocupação; também se põe à prova dentro da democracia, quando o Estado democrático exige disciplina laboral, censura, obediência militar e silêncio em nome do esforço de guerra antifascista. Os anarquistas ligados à <em>War Commentary</em> defendiam que a Grã-Bretanha não estava lutando por liberdade contra o fascismo. Tratava-se, antes, de um Estado imperial defendendo suas colônias, mercados, rotas mercantis, bem como sua posição global. A guerra antifascista era uma guerra capitalista. A exigência de que os trabalhadores apoiassem o esforço de guerra significava a incorporação à disciplina do Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso eram importantes suas tentativas de chegar aos soldados. <em>War Commentary</em> dirigia-se às tropas não como partes de uma instituição nacional supostamente neutra, mas como a massa de trabalhadores uniformizados, sujeitos à disciplina, porém capazes de discutir, rebelar-se e revoltar-se. Por meio da seção de correspondência com soldados, a <em>Forces Newsletter </em>e as referências a antigos motins e conselhos de soldados, a publicação pretendia abrir um canal de comunicação dentro das próprias forças armadas. O processo judicial movido em 1945, acusando-os de conspiração com o objetivo de causar descontentamento nas forças armadas, revelou os limites da tolerância democrática, mesmo no momento em que a guerra chegava ao fim e a desmobilização ameaçava converter novamente os soldados em uma força social volátil. O perigo não era uma iminente revolta militar, mas a possibilidade de que os soldados que voltavam para casa — trabalhadores uniformizados, logo retornando às lutas nos locais de trabalho, nas ruas e nas lutas por moradia<strong>[4]</strong> — poderiam trazer a rebeldia de volta à vida civil. A tentativa do <em>War Commentary</em> de se dirigir a eles como proletários pensantes, em vez de súditos militares obedientes, atingiu, portanto, uma verdadeira linha de fratura na transição da guerra para a ordem do pós-guerra.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão colonial, no entanto, expôs o limite desse grupo. O texto de Albert Meltzer de 1942 sobre a independência nacional ainda admitia que as lutas de independência nacional poderiam, em determinadas condições, adquirir um conteúdo progressista. Isso aponta para uma dificuldade persistente: como opor ao seu próprio Estado imperial e apoiar as lutas do povo colonizado, sem politicamente endossar movimentos nacionalistas que, simplesmente, não farão do que reproduzir a dominação de classe sob uma outra bandeira.</p>
<p style="text-align: justify;">No contexto colonial propriamente dito, o relato de Ngo Van sobre o Vietnã no período imediatamente após a Segunda Guerra Mundial é de grande importância, na medida em que torna essa dificuldade brutalmente concreta. Sua perspectiva veio da experiência imediata do colonialismo francês, a ocupação japonesa, o colapso da autoridade japonesa, a intervenção britânica, o retorno da intervenção francesa e a ascensão de Viet Minh. Em 1945, houve um breve momento, durante o vácuo de poder que foi criado com a retirada dos japoneses, em que os operários e camponeses pobres atuaram de forma indepentente. Nas minas de Hongay-Campha, os trabalhadores tomaram o controle da produção e formaram conselhos. Em Saigon, comitês independentes e militantes internacionalistas da oposição de esquerda reivindicaram armas, controle operário e terra para os camponeses e formaram comitês populares. Esses movimentos foram esmagados não somente pelas forças coloniais, mas também pelo Viet Minh. O assassinato de militantes da oposição de esquerda não foi um excesso acidental. Refletia a lógica da liberação nacional como construção do Estado: as forças que não podiam ser subordinadas à nova autoridade nacional deviam ser eliminadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Escrevendo posteriormente, em 1968, durante a Guerra do Vietnã, Ngo Van não minimizou a violência do imperialismo americano, mas recusou que essa violência se tornasse uma razão para apoiar o Estado de Ho Chi Minh. Sua posição era que os trabalhadores vietnamitas e os camponeses não tinham nada a ganhar nem com o capitalismo americano, nem com o capitalismo de Estado do Vietnã do Norte. A liberação nacional correspondia a uma mudança de patrões. A administração colonial podia até se retirar, mas a exploração se reorganizava em mãos de uma burocracia nacional, pelo partido-Estado e pela emergente classe dominante nacional. Sua percepção mostrou-se totalmente correta.</p>
<p style="text-align: justify;">No Vietnã, o risco de que o apoio a uma guerra nacional levaria ao estabelecimento de um regime capitalista de Estado não era mais uma antecipação teórica: havia se convertido em experiência histórica. O movimento nacional havia mostrado que, para monopolizar o poder estatal, destruiria as iniciativas autônomas do proletariado e do campesinato. A crítica da liberação nacional de Ngo Van não advinha, por conseguinte, da indiferença ante à dominação colonial, mas da experiência de uma luta em que a guerra anticolonial se havia transformado na formação de um novo poder estatal contra as mesmas forças sociais que dizia representar.</p>
<p style="text-align: justify;">A Guerra do Vietnã nos anos 1960 lança uma luz diferente à análise das mobilizações contra a guerra e a insubordinação dos soldados. O fracasso do exército americano não foi simplesmente uma derrota no campo de batalha, mas o resultado de uma insubordinação de classe generalizada. A resistência dentro do exército e da sociedade civil — deserção, imprensa clandestina dos soldados, recusas em ir a combate, assassinatos de oficiais por parte dos próprios subordinados, <strong>[5]</strong> quebras de disciplina, e exaustão de uma classe operária recrutada — minou a capacidade do Estado americano de continuar a guerra. Essa resistência não se cristalizou em um movimento proletário internacionalista; manteve-se em larga medida pacifista, democrática e, em termos gerais, anti-imperialista. Ainda assim, mostra que a recusa mais ampla à guerra pode adquirir importância material até mesmo quando o internacionalismo explícito do “terceiro campo” permanece minoritário. O problema é como explicar e conectar tais recusas sem que sejam absorvidas pelo pacifismo liberal, o apoio ao campo rival ou um anti-imperialismo que não atenta para o conteúdo de classe das forças em oposição.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse sentido, é relevante, e contrário às posições acríticas sobre a liberação nacional prevalentes hoje, o manifesto de Paris de 1976 dos comunistas árabes e israelenses, publicado na revista <em>Khamsin</em>, que desenvolve a crítica simultânea do sionismo, o Estado israelense, os regimes árabes, as organizações nacionais palestinas e as forças imperialistas ativas na região. O Estado israelense é analisado como capitalismo de Estado sionista, baseado no deslocamento em massa, dominação militar e violência brutal contra a população palestina, bem como na incorporação das trabalhadoras e trabalhadores judeus à defesa nacional e ao projeto sionista nacionalista e expansionista, que implica a limpeza nacional e, recentemente, o genocídio. Ao mesmo tempo, as trabalhadoras e trabalhadores judeus não são reduzidos a uma mera extensão do Estado. O conflito de classes, as greves selvagens, as hierarquias internas e a revolta social daquela época ainda eram uma realidade no interior da sociedade israelense e permaneceram politicamente relevantes. Hoje, a correlação de forças de classe é distinta e as ideologias nacionalistas reacionárias têm muito mais peso — não apenas em Israel, mas em toda a região e a nível internacional.</p>
<p style="text-align: justify;">A crítica do “Manifesto” ao nacionalismo palestino não é secundária em relação à crítica ao sionismo. Esta rechaça tanto a estratégia orientada ao Estado da OLP, como a alternativa negacionista que se opunha a qualquer compromisso em nome da liberação nacional total e a destruição do Estado de Israel. Essas posições diferiam em termos táticos, mas compartilhavam o mesmo horizonte: a organização das proletárias e proletários palestinos como um povo nacional representado pelas lideranças políticas e militares. A emancipação não pode ser igualada à construção de um Estado, à vitória de um exército nacional ou um reconhecimento diplomático de uma liderança nacional. A posição defendida por essas e esses camaradas era clara: um Estado palestino pode eliminar o álibi do nacionalismo árabe e colocar as trabalhadoras e os trabalhadores palestinos frente a frente com sua própria classe dominante; porém não constituiria sua emancipação.</p>
<p style="text-align: justify;">A paz entre os Estados, ou entre atores estatais e quase estatais, não é o oposto à guerra. É uma nova organização da mesma realidade: fronteiras, acordos securitários, medidas policiais, reconhecimento diplomático, gestão de populações, reconstrução e novas formas de incorporação a economias nacionais. Nesse sentido, a paz dá continuidade ao conteúdo de classe por outros meios. Não elimina as forças que organizaram o conflito, mas estabiliza potencialmente sua relação e redistribui seus papéis.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa dinâmica se aplica ao presente sem anacronismos. Acordos temporários, cessar-fogos, trocas de prisioneiros ou reféns, mecanismos de reconstrução e garantias securitárias tornam-se potencialmente aceitáveis para atores como Hamas, Irã, Catar, Israel e Estados Unidos, cada qual de acordo com suas próprias razões e estratégias. Porém, tais acordos não podem ser igualados aos interesses das proletárias e proletários palestinos. Regulam as condições sob as quais os palestinos seguem sendo governados, vigiados, expulsos, contidos, empregados, desempregados, dependentes de auxílio ou mesmo assassinados em massa.</p>
<p style="text-align: justify;">O último de nossa compilação, de Arya Zahedi sobre o Irã, traz para o presente a crítica do “campismo” anti-imperialista. O conflito entre o Estado iraniano com os Estados Unidos, Israel e com o Ocidente é novamente tratado por tais “anti-imperialistas” como razão suficiente para deixar de lado seu caráter de classe, sua brutal repressão de classe e das lutas sociais, bem como sua função na dominação capitalista na Ásia ocidental. A República Islâmica utiliza o conflito externo para impor violentamente a disciplina interna: para reprimir greves, esmagar o movimento das mulheres, impor a austeridade, a polícia moral, reprimir as minorias e apresentar a luta social como traição em um momento de estado de emergência nacional. Isso não é exclusividade do Irã. Todos os Estados utilizam o perigo externo para exigir a unidade interna. O que é específico hoje é que setores da esquerda internacional aceitam essa lógica quando o Estado em questão confronta os Estados Unidos, Israel ou o Ocidente, sem o pretexto do caráter socialista do Estado, nem de uma “terceira via” rumo ao socialismo, como no passado.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado é previsível: trabalhadores, mulheres, migrantes, minorias e prisioneiros que combatem o regime desaparecem de vista quando caem as bombas. O esforço de guerra do Estado é requalificado de “resistência”; aqueles que são explorados e reprimidos pelo Estado passam para o plano secundário. O conflito com um imperialismo mais forte não transforma um Estado em um agente da emancipação. Simplesmente faz com que o Estado seja mais efetivo internamente, já que a dissidência pode ser criminalizada como traição.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse problema vai além da velha esquerda: stalinismo, democracia social, antifascismo patriótico ou o clássico campismo anti-imperialista. Afeta correntes que se apresentam como uma crítica radical do marxismo tradicional. Não obstante, essas correntes não devem ser equiparadas entre si. A teoria da comunização, a crítica do valor, o marxismo influenciado por Postone, a herança da Escola de Frankfurt e a política antialemã têm histórias diferentes e levam frequentemente a conclusões políticas opostas. No entanto, algumas versões dessas correntes compartilham uma tendência comum: o proletariado aparece tão completamente integrado ao capital que não pode mais ser pensado como o sujeito contraditório da transformação comunista.</p>
<p style="text-align: justify;">A abordagem da <em>Théorie Communiste</em> é mais sutil. TC não se limita a reproduzir a teoria da total subsunção do proletariado ao capital. Porém se recusa, igualmente, a localizar a superação comunista na possível constituição da classe trabalhadora como a classe para si: qualquer autonomia positiva ou autoafirmação do proletariado permanece, para TC, uma afirmação de um dos polos da relação de capital e, portanto, um limite a ser superado. O problema é que, uma vez que a atividade autônoma da classe fica reduzida a tal limite, a passagem para além da relação de capital não pode emergir através do desenvolvimento e generalização daquela mesma atividade. Antes, é localizada estruturalmente na transformação da relação de classe: a superfluidade crescente do trabalho para a valorização e na separação cada vez maior entre a reprodução do proletariado e a valorização de sua força de trabalho. A abolição do proletariado tende, assim, a aparecer menos como o desfecho possível de sua própria atividade autônoma e contraditória do que como o resultado de uma contradição produzida pelo próprio capital, que acaba convertendo o pertencimento de classe em uma restrição externa que é logo abolida pelas medidas de comunização de uma população cuja afirmação como classe se tornou impossível.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossa crítica a essas posições não consiste em apegar-se a um culto nostálgico e “trabalhista” ao trabalho e da fábrica. O horizonte comunista não é a auto-afirmação do proletariado enquanto uma classe no interior do capitalismo, mas a abolição do capital enquanto relação social e, portanto, do proletariado enquanto tal. O problema surge quando a crítica necessária da auto-afirmação do proletariado se converte em uma negação teórica da capacidade da classe de transformar a si mesma por meio de suas próprias lutas. Caso o proletariado seja entendido apenas como inteiramente subsumido ao capital, integrado em uma “sociedade totalmente administrada” ou, ainda, nada mais do que um polo da relação de capital, então a possibilidade de ruptura tende a ser deslocada para outro lugar. Às vezes, é transferida para as populações excedente, migrante, racializada, absolutamente excluída ou indefinidamente nomeada de “os bárbaros”. Por vezes, é transferida aos movimentos de liberação nacional, cujo conteúdo de classe permanece sem análise. Em outros casos, especialmente em meios antialemães, o deslocamento se move na direção oposta: em direção à defesa de um Estado existente, ou seja, Israel, como uma suposta barreira contra a barbárie antissemita.</p>
<p style="text-align: justify;">A trajetória dos antialemães é um caso em que a ideia inicial já continha o germe de seu desenvolvimento posterior. É bem verdade que em setores da esquerda alemã havia uma tendência a tratar o antissemitismo e o Holocausto como o mero fato de mencionar o fascismo, o capitalismo ou o imperialismo em geral bastasse para compreender sua forma histórica determinada. Mas os antialemães responderam a isso separando essa forma histórica da relação de classe, do Estado capitalista e da história material da violência imperialista. O resultado não foi uma análise dialética do antissemitismo como um momento específico no interior da totalidade capitalista, mas sim a elevação dessa particularidade ao estatuto de excepcionalidade política. O antissemitismo não é simplesmente um racismo entre outros, nem o Holocausto é um massacre de Estado entre outros; porém, nenhum dos dois pode ser entendido como uma singularidade não derivada, separada da totalidade social capitalista que produziu o Estado moderno, a racialização, a concorrência imperial e o nacionalismo exterminador. O erro dos antialemães não foi, portanto, apenas apoiar mais tarde Israel, os Estados Unidos ou a OTAN. Já estava presente na própria forma da correção: em vez de derivar a particularidade da totalidade, terminaram por contrapor cada vez mais a particularidade à totalidade.<img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-160147" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d.webp" alt="" width="1200" height="628" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d.webp 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d-300x157.webp 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d-1024x536.webp 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d-768x402.webp 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d-803x420.webp 803w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d-640x335.webp 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/10/655cc99d5b2f3607b70eff7d-681x356.webp 681w" sizes="(max-width: 1200px) 100vw, 1200px" /></p>
<p style="text-align: justify;">A partir daí, Israel foi despojado da sua realidade como Estado capitalista com as suas próprias relações de classe, sua violência nacionalista e sua função geopolítica, e foi elevado à condição de portador privilegiado da memória histórica e da razão antifascista. A defesa de Israel derivou de forma imperceptível em uma apologia do poder dos EUA e da OTAN, recodificada em defesa da civilização contra a barbárie antissemita. Não se trata de um desvio menor em relação à crítica original. É, antes, a sua <em>reductio ad absurdum</em>: a teoria crítica da integração total, levada ao seu extremo, que gera um apoio acrítico ao poder existente. Essa trajetória merece ser nomeada e descrita precisamente porque mostra até que ponto o deslocamento da emancipação para fora das relações de classe pode inverter a intenção política original.</p>
<p style="text-align: justify;">As consequências políticas da concepção da TC tornam-se mais evidentes em seu debate com Minassian sobre Gaza.<strong>[6]</strong> Na sua análise de Gaza, TC reconhece corretamente a fragmentação do proletariado palestino e a sua produção em “população excedente”. O problema reside no que se entende por atividade de classe autônoma. Para TC, a auto-organização proletária continua a ser uma afirmação da classe no âmbito da relação de capital e, por conseguinte, um limite a ser superado. Dado que a auto-organização implica que a classe atue estritamente como tal, ela pode adotar em si mesma formas nacionais ou outras formas de incorporação. A distinção entre auto-organização e autonomia de classe fica, assim, difusa. A autonomia já não designa uma tendência no interior da luta através da qual os proletários entram em conflito com as formas que os organizam como classe do capital, mas é tratada como a busca de uma atividade de classe supostamente pura, separada dessas determinações. Daí a acusação de “pureza conceitual” contra as tentativas de identificar tendências autônomas no interior das lutas da população palestina. O resultado é paradoxal: uma vez que a auto-organização nacionalista pode ser aceita como a forma efetiva de luta proletária, enquanto que distinguir os antagonismos que a atravessam é considerado suspeito de impor uma pureza abstrata, as “bandeiras disponíveis” dos proto-Estados nacionais ou religiosos tendem a tornar-se as formas de luta praticamente ineludíveis. O que fica assim privado de significado político independente são, precisamente, as lutas reais e os atritos materiais dirigidos contra o Hamas enquanto burocracia governante.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso tem consequências para além da própria análise de TC. Converge politicamente com uma esquerda “anti-imperialista” mais ampla que vigia violentamente essa fronteira nacional, difamando de forma preventiva a própria perspectiva de uma solidariedade para além das fronteiras nacionais — ou qualquer tentativa de enquadrar o conflito em termos de classe em vez de nação — como expressão de uma “mentalidade colonialista” ou de um “sionismo liberal”. Em última instância, esse enfoque trata o aparelho capitalista da liberação nacional como um limite insuperável da luta, rendendo a posição internacionalista à lógica do mal menor.</p>
<p style="text-align: justify;">O apoio à resistência nacional palestina e o apoio ao Estado israelense são, obviamente, resultados políticos distintos. No entanto, subjacente a essas diferenças políticas evidentes, reside um deslocamento teórico familiar: a emancipação já não se situa nas lutas contraditórias do proletariado contra a sua própria constituição capitalista. Em vez disso, a atividade transformadora tende a ser buscada seja nas determinações sob as quais a classe está atualmente organizada, seja em outras figuras privilegiadas de negatividade, seja, ainda, totalmente fora da autoatividade proletária — na nação oprimida, no sujeito excluído, na identidade vitimizada, na negatividade abstrata ou num Estado que afirma defender a civilização contra a barbárie.</p>
<p style="text-align: justify;">O nosso ponto de partida é diferente. Não exige uma crença ingênua num sujeito revolucionário já constuído. O proletariado não é revolucionário por ser puro, externo ao capital ou já consciente da sua tarefa. É importante porque é produzido pelo capital, disciplinado pelo capital e, ainda assim, capaz, em meio à luta, de interromper a reprodução da relação que o constitui. O problema não pode ser resolvido pela redução do significado político das lutas do proletariado à sua integração no capital. Não se trata de substituir o antigo sujeito-trabalhador afirmativo por outra figura purificada de negatividade — o chamado “abjeto”, as populações excedentes ou um mecanismo estrutural que se supõe produzir a ruptura por si mesmo —, mas sim trabalhar através das recusas contraditórias que emergem dentro das próprias relações sociais capitalistas.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso nos leva de volta ao Vietnã. A história da Guerra do Vietnã é importante não porque oferece um modelo replicável, mas porque localiza o terreno onde a intervenção internacionalista deve operar. A recusa da guerra começa quase sempre sob formas confusas, parciais e não programáticas. Não obstante, é precisamente esse espaço de resistência espontânea que fornece a base material para uma ruptura internacionalista proletária com a máquina de guerra nacional.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso também nos leva de volta à questão com que começamos: por que essa resistência espontânea raramente se cristalizou numa ruptura de massas comparável à que ocorreu entre 1917 e 1920? Para responder a isso, temos que olhar para além da derrota ideológica. A ausência de uma onda internacionalista comparável nas décadas seguintes resultou de uma profunda mudança estrutural. A “densidade organizativa” material que possibilitou motins, a confraternização e o surgimento da forma conselho foi sistematicamente desmantelada. Por um lado, as formas autônomas de organização de classe foram fisicamente esmagadas ou institucionalmente integradas ao aparelho de Estado através da burocratização sindical, da social-democracia e do stalinismo. Por outro lado, a própria composição da classe sofreu uma transformação radical: sucessivas ondas de reestruturação capitalista, desindustrialização e fragmentação de comunidades operárias compactas dissolveram a antiga base material da ação coletiva. Por conseguinte, o problema hoje não é simplesmente como reviver os modelos organizativos de 1917, mas como a recusa contemporânea à guerra pode adquirir um conteúdo de classe e tornar-se uma força material no interior da realidade estruturalmente fragmentada do proletariado atual.</p>
<p style="text-align: justify;">O rearmamento europeu coloca este problema com urgência nos dias de hoje. Os governos falam a linguagem da preparação militar e da defesa nacional, mas a disposição de lutar não é algo de que o Estado dispõe por si mesmo. Deve ser produzida mediante o medo, a disciplina, a propaganda, as fronteiras, as leis de recrutamento e a punição. A vontade política de lutar — no sentido de uma identificação voluntária em massa com os projetos militares nacionais — é notavelmente débil em toda a Europa hoje. A Ucrânia é o indicador mais nítido disso: o recrutamento forçado, a evasão generalizada do serviço militar e a fricção social interna gerada pelo custo da guerra contradizem por completo o mito de uma população uniformemente unida por trás da bandeira. Isso não significa que os trabalhadores e soldados ucranianos tenham adotado uma posição proletária internacionalista, pelo menos não num sentido organizado. Contudo, a defasagem entre o que o Estado necessita e o que as pessoas estão dispostas a aguentar é uma fratura real — o tipo de fratura em que temos que trabalhar.</p>
<p style="text-align: justify;">Em última análise, a história que estamos analizando nos leva mais a um problema prático do que a uma conclusão definitiva: em que condições pode a posição internacionalista intervir nas fraturas reais da mobilização de guerra e ajudar a transformá-las numa ruptura de classe com o Estado, a nação e a organização capitalista da vida? Estas fraturas não são imediatamente revolucionárias e podem ser absorvidas pelo pacifismo ou pelo “campismo” — uma tendência visível, por exemplo, no significado político contestado das mobilizações dos trabalhadores portuários contra os carregamentos de armas. Mas sem elas, o “terceiro campo” continua a ser uma fórmula abstrata.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Antithesi, (21 de junho &#8211; 11 de agosto de 2026) Traduzido por Yasmin</em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Marie Louise Berneri, Neither East Nor West: Selected Writings, Freedom Press, Londres, 1952. Agradecemos especialmente aos nossos companheiros em Paris pelas conversas que ajudaram a dar início a este projeto: por trazerem os escritos de Berneri para nossas discussões e por chamarem nossa atenção para a relação entre Henry Chazé e Henri Simon. Agradecemos particularmente pelo trabalho que está sendo realizado sobre a correspondência entre eles, o que despertou nossa curiosidade e nos incentivou a explorar mais a fundo essas conexões.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> Referência à publicação recente do grupo na Grécia: 100 anos contra todos os campos: internacionalismo proletário, guerra e revolução [100 χρόνια ενάντια σε κάθε στρατόπεδο: Προλεταριακός διεθνισμός, πόλεμος και επανάσταση], uma coletânea de textos escritos em contextos de guerra, ocupação, domínio colonial e repressão, por anarquistas antimilitaristas, comunistas de esquerda e conselhistas, internacionalistas da Europa ocupada e combatentes das colônias, que compartilham uma postura comum: a emancipação do proletariado não passa pela vitória de nenhuma pátria ou governo, nem pela burguesia nacional ou “anti-imperialista”. (N. T.)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[3]</strong> Essa corrente política, no entanto, não deve ser analisada isoladamente do contexto social mais amplo da Grécia ocupada. As primeiras ondas de greves, manifestações e ações coletivas em Atenas não surgiram de um aparelho do EAM já consolidado. No início da Ocupação, o mecanismo organizacional do Partido Comunista tinha sido gravemente abalado pela ditadura, pelas prisões, pelo exílio e pela infiltração policial. Muitas das lutas iniciais surgiram, em vez disso, das pressões materiais imediatas da fome, da queda dos salários, das cozinhas de caridade, do trabalho forçado, das condições hospitalares e da questão da sobrevivência física. Em vários casos, operários, funcionários, inválidos da frente albanesa, doentes de tuberculose e comités locais agiram antes ou mesmo contra as hesitações iniciais da liderança do EAM/EEAM, que, no entanto, acabou por apoiar, coordenar e absorver politicamente estas iniciativas. (N. A.) A questão, portanto, não é opor uma espontaneidade pura à organização. Pelo contrário, o caso grego mostra como a hegemonia do EAM se formou através de um processo de intervenção em lutas que inicialmente a precederam. O que mais tarde surgiu como um movimento unificado de libertação nacional continha em si uma história mais desigual de autoatividade social: iniciativas nos locais de trabalho, comitês hospitalares, protestos contra a fome e greves que tiveram início a partir da reprodução concreta da vida da classe trabalhadora sob a ocupação. A crítica internacionalista de Stinas ganha parte do seu significado neste contexto. Insistiu que estas rupturas sociais não deveriam ser subordinadas à reconstrução de uma frente nacional, quer sob os auspícios dos Aliados, quer sob a liderança política do EAM. (N. A.)</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[4]</strong> No verão e no outono de 1946, num contexto de grave escassez de moradia, desmobilização e austeridade do pós-guerra, dezenas de milhares de pessoas — muitas delas ex-militares e as suas famílias — ocuparam acampamentos militares vazios e, mais tarde, hotéis e apartamentos por toda a Grã-Bretanha. O movimento não constituiu um desafio revolucionário ao Estado, mas mostra como o retorno dos soldados à vida civil podia tornar-se uma fonte de atrito social e de ação direta na transição da guerra para a ordem social do pós-guerra.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[5]</strong>No texto original em inglês, utiliza-se a palavra fragging, que se refere às granadas de fragmentação (frag grenades) que os soldados americanos costumavam usar para assassinar seus superiores, simulando acidentes de combate. [N. T.]</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[6]</strong> Ver « Gaza 2024 », Théorie Communiste 28, p. 101-138</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Textos da coleção publicada</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Federação Libertária Japonesa, “What To Do About War?”, Jiyu Rengo Shinbun, no. 64, November 1931; originalmente publicado em Esperanto; trad. John Crump, reimpresso em Anarchist Opposition to War, Seattle: Charlatan Stew, 1995. (<a class="urlextern" title="https://theanarchistlibrary.org/library/japanese-libertarian-federation-what-to-do-about-war" href="https://theanarchistlibrary.org/library/japanese-libertarian-federation-what-to-do-about-war" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://theanarchistlibrary.org/library/japanese-libertarian-federation-what-to-do-about-war</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Union Communiste, “En face le conflit sino-japonais”, L&#8217;Internationale, no. 31, 3 October 1937. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article5995" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article5995" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article5995</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">War Commentary editorial group, “War and Resistance”, War Commentary, vol. 1, no. 1, November 1939. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6258" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6258" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article6258</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">War Commentary editorial group, “The Third Choice”, War Commentary, vol. 1, no. 10, August 1940. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6289" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6289" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article6289</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Les Communistes Révolutionnaires / Die Revolutionären Kommunisten, “Ouvriers! Soldats! / Arbeiter! Soldaten!”, bilingual leaflet in French and German, July 1942. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article5300" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article5300" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article5300</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Die Revolutionären Kommunisten, “Deutsche Soldaten! Kameraden!”, leaflet in German, occupied France, September 1942; Alemão original reimpresso em Philippe Bourrinet, The &#8216;Bordigist&#8217; Current (1912-1952), Editoriale Fondazione Amadeo Bordiga, 2013.</p>
<p style="text-align: justify;">Groupe Révolutionnaire Prolétarien, “Quelques Thèses”, bulletin of the Groupe Révolutionnaire Prolétarien, March 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" href="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Groupe Révolutionnaire Prolétarien, “La situation politique en France”, bulletin of the Groupe Révolutionnaire Prolétarien, March 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" href="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Groupe Révolutionnaire Prolétarien, “Position du prolétariat révolutionnaire à l&#8217;égard de l&#8217;Allemagne”, bulletin of the Groupe Révolutionnaire Prolétarien, March 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" href="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Groupe Révolutionnaire Prolétarien, “Position du prolétariat révolutionnaire à l&#8217;égard de la Russie”, bulletin of the Groupe Révolutionnaire Prolétarien, March 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" href="https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://www.archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/grp-uci/mars1943</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Communistes Révolutionnaires, “Appel aux ouvriers juifs”, Fraternisation Prolétarienne, no. 3, April 1943. (<a class="urlextern" title="http://archivesautonomies.org/spip.php?article1545" href="http://archivesautonomies.org/spip.php?article1545" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">http://archivesautonomies.org/spip.php?article1545</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Fédération Internationale Syndicaliste Révolutionnaire, “À tous les travailleurs intellectuels et manuels”, leaflet printed in Toulouse, 1943; rascunho feito em Marseille por Jean Solier, pseudônimo André Arru, Voline and comrades. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/anarchismes/2eguerre/anarchistes-resistance-tome1.pdf" href="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/anarchismes/2eguerre/anarchistes-resistance-tome1.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/anarchismes/2eguerre/anarchistes-resistance-tome1.pdf</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Marie-Louise Berneri, “The &#8216;Liberation&#8217; of Italy: Bombs will do the Job”, War Commentary, vol. 4, no. 16, mid-June 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/warcommentary/war-commentary-volume4-cira-n16.pdf" href="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/warcommentary/war-commentary-volume4-cira-n16.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/warcommentary/war-commentary-volume4-cira-n16.pdf</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Albert Meltzer, “Patriotism”, War Commentary, vol. 4, no. 15, June 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/warcommentary/war-commentary-volume4-cira-n15.pdf" href="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/warcommentary/war-commentary-volume4-cira-n15.pdf" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/warcommentary/war-commentary-volume4-cira-n15.pdf</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Fédération Internationale Syndicaliste Révolutionnaire, “Mort Aux Vaches”, poster, Toulouse, August 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://placard.ficedl.info/article9268.html?lang=fr" href="https://placard.ficedl.info/article9268.html?lang=fr" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://placard.ficedl.info/article9268.html?lang=fr</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Marie-Louise Berneri, “British Bombing”, War Commentary, vol. 4, no. 21, September 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article5557" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article5557" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article5557</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Union des Communistes Internationalistes, “Contre la guerre impérialiste, révolution socialiste!”, Le Réveil Prolétarien, no. 1, October 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1488" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1488" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article1488</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Marie-Louise Berneri, “War and Fascism”, War Commentary, vol. 5, no. 4, mid-December 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6416" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6416" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article6416</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Anarchist Federation, “Manifesto of the Anarchist Federation on War”, War Commentary, vol. 5, no. 4, mid-December 1943.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6417" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article6417" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article6417</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">GRP-UCI / Union des Communistes Internationalistes, “Pourquoi des Conseils d&#8217;usine?”, Le Réveil Prolétarien, no. 6, March 1944. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1497" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1497" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article1497</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">GRP-UCI / Union des Communistes Internationalistes, “L&#8217;armée &#8216;rouge&#8217; et la classe ouvrière”, Le Réveil Prolétarien, no. 7, April 1944. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1498" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1498" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article1498</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">“Manifeste aux prolétaires d&#8217;Europe”, Bulletin International de Discussion de la Gauche communiste italienne, June 1944. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article2086" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article2086" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article2086</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Fraction Française de la Gauche Communiste, “Éditorial”, L&#8217;Étincelle, no. 0, August 1944.</p>
<p style="text-align: justify;">(<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/gcf/etincelle/etincelle-n00" href="https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/gcf/etincelle/etincelle-n00" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/internationaliste3ecamp/gcf/etincelle/etincelle-n00</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Fraction Française de la Gauche Communiste, “Résolution sur les mouvements nationalistes”, Internationalisme, no. 1, January 1945. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1690" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article1690" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article1690</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Antithesi, “Ngo Van: The Imperialist Slaughterhouse and Class Autonomy in Vietnam in 1945”, in <em>100 Years Against Every Camp: Proletarian Internationalism, War and Revolution</em>, Antithesi, junho de 2026. (baseado principalmente em: <a class="urlextern" title="https://theanarchistlibrary.org/library/ngo-van-in-the-crossfire" href="https://theanarchistlibrary.org/library/ngo-van-in-the-crossfire" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://theanarchistlibrary.org/library/ngo-van-in-the-crossfire</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Solidarity, “News from Zengakuren”, Solidarity. For Workers&#8217; Power, vol. 2, no. 5, July 1962; inclui o excerto an excerpt from Zengakuren Newsletter, no. 3. (<a class="urlextern" title="https://libcom.org/article/solidarity-workers-power-205" href="https://libcom.org/article/solidarity-workers-power-205" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://libcom.org/article/solidarity-workers-power-205</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Ngo Van, “Sur la réforme agraire”, Cahiers de discussion pour le socialisme de conseils, no. 8, April 1968. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article4728" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article4728" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article4728</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Ngo Van, “Réflexions préliminaires sur la guerre du Vietnam”, Cahiers de discussion pour le socialisme de conseils, no. 8, April 1968. (<a class="urlextern" title="https://archivesautonomies.org/spip.php?article4613" href="https://archivesautonomies.org/spip.php?article4613" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://archivesautonomies.org/spip.php?article4613</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Mustapha Khayati, Lafif Lakhdar et al., “Adresse aux prolétaires et aux jeunes révolutionnaires arabes et israéliens contre la guerre et pour la révolution prolétarienne”, maio de 1976; insert in Khamsin, no. 3; parcialmente reimpresso em Jeune Taupe, no. 10, June 1976. Signatários incluem Hakima Berada, Mustapha Khayati, Maroine Dib, Kamal Lahbadi, Dany Diner, Lafif Lakhdar, Avishai Ehrlich, Eli Lobel, Abdul-Kader El-Janaby, Moshé Machover, Mikhal Marouane, Emir Harbi, Moshe Speier, Lea Horowitz, Khalil Toama and Abdallah Zannan; signatários posteriores: Ayed Nagib, Mohamed Cheret and Khaldoun Abou El-Wafa. (<a class="urlextern" title="https://situationnisteblog.com/2020/05/25/5368/" href="https://situationnisteblog.com/2020/05/25/5368/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://situationnisteblog.com/2020/05/25/5368/</a>)</p>
<p style="text-align: justify;">Arya Zahedi, “The Anti-Imperialist Imperialism Club: On Left Internationalism and Iran”, Heatwave, no. 2, Fall 2025, PM Press. (<a class="urlextern" title="https://libcom.org/article/anti-imperialist-imperialism-club-left-internationalism-and-iran-arya-zahedi-2025" href="https://libcom.org/article/anti-imperialist-imperialism-club-left-internationalism-and-iran-arya-zahedi-2025" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://libcom.org/article/anti-imperialist-imperialism-club-left-internationalism-and-iran-arya-zahedi-2025</a>)</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A obra em destaque e a primeira obra no corpo do texto é de autoria de Myriam Thyes. A segunda obra no corpo de texto é da autoria de Pierre Bismuth.</p>
</blockquote>
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		<title>Santo Trotsky</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/09/159927/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Sep 2026 00:17:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Flagrantes Delitos]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
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					<description><![CDATA[Os seis homens do partido jogavam conversa fora, eram dois dirigentes e quatro da base; estavam na casa de um dos dirigentes. Um da base fez uma brincadeira que envolvia o nome de Trotsky e o título do livro “A moral deles e a nossa”. Cinco deles riram. Um dirigente não só não riu como repreendeu, na frente dos outros, o militante da base que fez a troça dizendo que com o nome de Trotsky não se brinca. Passa Palavra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os seis homens do partido jogavam conversa fora, eram dois dirigentes e quatro da base; estavam na casa de um dos dirigentes. Um da base fez uma brincadeira que envolvia o nome de Trotsky e o título do livro “A moral deles e a nossa”. Cinco deles riram. Um dirigente não só não riu como repreendeu, na frente dos outros, o militante da base que fez a troça dizendo que com o nome de Trotsky não se brinca. <strong>Passa Palavra</strong></p>
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		<title>Jones Manoel e a atualização do neo-stalinismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Sep 2026 17:35:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Estética]]></category>
		<category><![CDATA[Burocratização]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
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					<description><![CDATA[ Não se trata de convencer o capital a ser menos capitalista, nem o Estado a ser menos Estado. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Dependência, Nacionalismo e a Neutralização do Protagonismo dos Trabalhadores</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">No primeiro texto que escrevi sobre Jones Manoel (“A Ilusão da Radicalidade: Jones Manoel e o Teatro da Revolução”, <a href="https://passapalavra.info/2025/10/157738/" target="_blank" rel="noopener">disponível aqui</a>), o foco recaiu sobre a engrenagem político-comunicacional que sustenta sua ascensão, o circuito entre indústria cultural, militância progressista e a estetização pop da radicalidade consumível, assim como os caminhos percorridos para se alçar o lugar de youtuber com visibilidade na internet. Agora, o movimento é outro. Neste novo texto, o objetivo é dissecar a arquitetura teórica que dá suporte a esse projeto, o modo como Jones ancora sua intervenção na centralidade do Estado, na apologia do nacionalismo e na categoria de “nação dependente” tomada como eixo absoluto de análise. Em vez de discutir apenas o fenômeno da sua visibilidade, interessa-nos destrinchar ponto por ponto o solo doutrinário em que ele pisa, confrontando os limites e as implicações políticas desse enquadramento. Só assim é possível nomear qual é a natureza efetiva do projeto que Jones Manoel oferece à juventude precarizada e aos setores médios desiludidos com o liberalismo, que se manifesta num marxismo estatal, nacional-desenvolvimentista e burocrático, que, longe de apontar para a auto-organização revolucionária da classe trabalhadora, recoloca o Estado-nação como protagonista da história e devolve o velho reformismo sob a máscara de uma radicalidade geopolítica de fachada.</p>
<p style="text-align: justify;">A discussão sobre dependência, nacionalismo e stalinismo é cheia de armadilhas porque mistura um nível descritivo, em que se tenta entender o lugar concreto do capitalismo brasileiro no sistema mundial; um nível estratégico, em que se formulam programas para enfrentar essa inserção subordinada; e um nível ideológico, em que certas respostas vão se cristalizando em crenças, afetos, identidades políticas que começam a operar quase de modo automático. Penso que devemos separar esses três planos: de que maneira a teoria da dependência ajuda a compreender a realidade, onde ela foi torcida para alimentar programas nacional-desenvolvimentistas e como essa torção reaparece hoje em formas neoestalinistas como o projeto de Jones Manoel.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro ponto é reconhecer que o capitalismo brasileiro não é uma versão “tardia” do capitalismo europeu, nem uma simples cópia malfeita do padrão norte-americano; ele se constitui, desde a origem, por uma articulação estreita entre a dominação de classe interna e determinações externas. Tráfico de escravizados, plantation, monocultura, subordinação comercial, dependência tecnológica, capitalismo tardio com industrialização subordinada, endividamento crônico, vulnerabilidade cambial, tudo isso compõe o tecido da dependência. Florestan percebe isso com clareza quando fala da “revolução burguesa pelo alto”, conduzida por uma burguesia que nunca precisou romper com o passado escravocrata para se afirmar; Marini, de outro ângulo, tenta mostrar como a superexploração da força de trabalho funciona como mecanismo de compensação da posição subordinada no mercado mundial. A dependência é um dado estrutural, uma determinação histórica concreta da reprodução do capital na periferia.</p>
<p style="text-align: justify;">O problema começa quando esse dado desliza da análise para a normatividade política. No plano teórico, é perfeitamente legítimo dizer que há um “capitalismo dependente”; no plano político, a coisa muda de figura quando se afirma que existe uma “nação dependente” que deve ser “libertada”. A passagem da categoria de modo de produção para a categoria de nação tende a uma mudança de sujeito; em vez da classe trabalhadora contra o capital, tem-se a “nação oprimida” contra a “nação opressora”, o “povo brasileiro” contra o “imperialismo”. Isso tem consequências graves, porque a nação não é um bloco homogêneo e a burguesia brasileira lucra precisamente com a dependência, ela não é vítima passiva da dominação externa, mas parceira ativa na forma que essa dominação assume. A dependência, portanto, não é uma desgraça nacional a ser superada por “todas as classes unidas”, mas o meio pelo qual a burguesia local intensifica a exploração.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a teoria da dependência é lida a partir da luta de classes, ela mostra que o trabalhador brasileiro é espremido por dois movimentos articulados, tendo por um lado a concorrência entre capitais em escala mundial, em que capitais mais produtivos se apropriam de parte da mais-valia gerada em economias menos produtivas e de outro, a necessidade da burguesia local de compensar essa desvantagem aumentando a taxa de exploração, comprimindo salários, ampliando jornadas, flexibilizando direitos, usando o Estado como aparelho repressivo. Dependência, nessa chave, significa que o trabalhador é violentado por sua própria burguesia e por capitais externos integrados a ela. Quanto maior a dependência, maior a violência e, portanto, maior a necessidade de uma ruptura radical que ataque simultaneamente o capital interno e o capital externo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ruy Mauro Marini desenvolve a teoria da dependência como uma abordagem que analisa as relações econômicas desiguais entre as economias do Centro (países desenvolvidos) e da Periferia (países subdesenvolvidos). Marini, ao contrário de outros teóricos, não limita a dependência a uma simples explicação de exploração externa observando as dinâmicas internas dos países periféricos, como a (já mencionada) superexploração da força de trabalho, como elementos estruturais fundamentais para entender a dependência e suas implicações. Para Marini, a dependência designa uma relação estrutural, na qual o capitalismo da periferia se integra ao sistema mundial em condições desiguais e, ao mesmo tempo, reproduz internamente os mecanismos que garantem essa subordinação. É uma relação em que o capitalismo periférico está integrado ao sistema mundial de uma maneira desigual, com as economias periféricas sendo usadas para sustentar e expandir a riqueza das economias centrais, mas ao mesmo tempo criando seus próprios mecanismos de reprodução do capital. Este conceito está ligado à ideia de “superexploração”, onde a classe trabalhadora nas economias periféricas é sujeita a exploração extrema, com longas jornadas de trabalho, baixos salários e condições de trabalho precárias, que aumentam a acumulação de capital nas regiões centrais. Essa superexploração é uma das características centrais do capitalismo dependente, pois ela gera uma intensificação da exploração do trabalho sem que haja uma correspondente melhoria nas condições de vida das massas trabalhadoras.</p>
<p style="text-align: justify;">Em termos concretos, a dependência não é uma questão de falta de desenvolvimento ou de recursos, mas de como as economias periféricas são estruturadas de maneira a servir às necessidades do capitalismo global. O papel dos países periféricos é de manter uma divisão internacional do trabalho que lhes impõe a especialização em setores de baixo valor agregado, enquanto as economias centrais dominam os setores de maior complexidade e valor agregado. Marini também aborda a questão do “subimperialismo”, que descreve o comportamento de certas classes dominantes em países periféricos que, em vez de se oporem ao imperialismo, se associando a ele, ampliando a exploração e consolidando a subordinação. Esse conceito descreve uma forma específica de dependência, onde as classes dominantes locais são ativas e participam do processo de exploração com o objetivo de reforçar sua posição no sistema global.</p>
<p style="text-align: justify;">A abordagem de Marini oferece uma crítica profunda da ideia de que os países periféricos poderiam alcançar o desenvolvimento de forma autônoma, sem romper com as estruturas do capitalismo global. Ela implica que as políticas desenvolvimentistas convencionais, que tentam fortalecer a burguesia nacional e promover a industrialização sem enfrentar as contradições do capitalismo global, estão condenadas a reproduzir a dependência e a exploração, sem conseguir atingir uma verdadeira transformação social. Para Marini, a dependência é, portanto, uma categoria fundamental para compreender a dinâmica do capitalismo na periferia, não apenas como uma consequência da exploração externa, mas como um sistema de relações econômicas e sociais profundamente enraizadas, que afeta as condições de vida da classe trabalhadora e limita qualquer possibilidade de desenvolvimento autêntico sem uma ruptura com o capitalismo global. A luta contra a dependência, portanto, não pode se limitar a discursos nacionalistas ou a uma simples crítica aos “imperialismos” externos; ela deve ser uma luta contra a própria estrutura do capitalismo, que não pode ser resolvida sem transformar as relações de classe internas e externas. Esse entendimento da dependência, com o foco na superexploração e na integração desigual das periferias no capitalismo global, é central para as críticas contemporâneas à abordagem nacional-desenvolvimentista que propõe uma resposta à dependência sem desafiar o sistema de dominação global.</p>
<p style="text-align: justify;">Como sabemos, Ruy Mauro Marini não foi apenas um intelectual da teoria da dependência, mas também um militante e dirigente do MIR chileno, organização que, apesar de sua retórica revolucionária e de sua crítica à via institucional da esquerda tradicional, não conseguiu ultrapassar o horizonte da forma-Estado. O MIR rompeu com o reformismo, mas manteve como pressuposto estratégico a conquista do poder estatal, reproduzindo a ideia de que a emancipação passaria, em última instância, pela reorganização do Estado sob nova direção. É a partir dessa tensão, entre uma crítica econômica radical e um horizonte político ainda estatizado, que se torna necessário interrogar os limites da teoria da dependência quando confrontada com a crítica marxiana do Estado. Essa polêmica só ganha densidade se for colocada não da coerência biográfica de Ruy Mauro Marini nem da pureza política de suas escolhas militantes, mas da forma Estado enquanto categoria central da crítica marxiana. A questão central não é se Marini foi “mais” ou “menos” estatista por ter integrado o MIR chileno, mas em que medida sua elaboração teórica, mesmo quando rompe com o desenvolvimentismo e com a ilusão da burguesia nacional, permanece presa a uma concepção política que não rompe estruturalmente com o Estado como forma de dominação social. Do ponto de vista marxiano, o Estado não é um instrumento neutro que pode ser apropriado por esta ou aquela classe conforme a correlação de forças. O Estado é a forma política específica da sociedade fundada na separação entre produtores diretos e meios de produção. Em Marx, sobretudo a partir da Crítica do Programa de Gotha e dos escritos sobre a Comuna de Paris, o Estado é analisado como síntese da dominação de classe, como poder separado que se autonomiza em relação à sociedade e se coloca acima dela. Mesmo quando controlado por forças que se reivindicam proletárias, o Estado carrega consigo a lógica da separação, da representação, hierarquia e administração da vida social por um corpo especializado, sendo tudo isso uma determinação estrutural e histórica.</p>
<p style="text-align: justify;">A crítica de Marini a dependência é contundente no plano da economia política. Ao demonstrar que o capitalismo periférico se reproduz por meio da superexploração da força de trabalho, ele destrói qualquer ilusão de desenvolvimento autônomo dentro da ordem capitalista. A burguesia nacional é lida como classe historicamente comprometida com a intensificação da exploração, e não como aliada potencial da emancipação. No entanto, quando a análise muda do plano econômico para o estratégico-político, o Estado reaparece como mediação necessária da ruptura. A revolução é pensada, ainda, como processo que culmina na conquista do poder estatal, mesmo que por vias insurrecionais e anti-imperialistas. Isso expressa um limite compartilhado por boa parte do marxismo do século XX, especialmente aquele moldado pela experiência da Revolução Russa e pela tradição leninista que substitui a identificação da emancipação com a tomada do poder político centralizado. A crítica marxiana do Estado, nessa perspectiva, é parcialmente suspensa em nome da urgência histórica. O Estado deixa de ser pensado como forma social a ser abolida para ser concebido como ferramenta de transição, instância provisória que conduziria a sociedade rumo ao socialismo. O problema é que essa “provisoriedade” nunca se realiza como tal. A forma Estado tende a se autonomizar, a se reproduzir, a gerar burocracias próprias e a reorganizar a dominação sob novas justificativas ideológicas.</p>
<p style="text-align: justify;">A experiência histórica do século XX confirmou esse diagnóstico. Estados que se reivindicaram socialistas aprofundaram a separação entre dirigentes e dirigidos. A planificação centralizada, repressão política, neutralização da autoatividade operária e a cristalização de elites burocráticas mostraram que o problema não era apenas “quem” controlava o Estado, mas o fato de que o Estado continuava existindo como instância separada da sociedade produzindo alienação e exploração. O conselhismo, de Pannekoek a Rühle, passando por Tragtenberg e chegando a Nildo Viana, recoloca no centro a questão de que não há emancipação possível enquanto a classe trabalhadora delegar seu poder a um aparelho estatal, ainda que pintado de vermelho. Lida a partir dessa intepretação, a posição de Marini é historicamente situada e teoricamente insuficiente. Sua crítica da dependência avança até o limite em que a luta de classes é reabsorvida pela estratégia de Estado. A ideia de revolução perde seu conteúdo de ruptura material com as formas históricas de dominação (Estado, partido, burocracia, mercado) e passa a ser elaborada como rearranjo dessas mesmas estruturas, agora conduzidas por outra direção política, sem que sua lógica fundamental seja efetivamente superada. É justamente esse limite que será explorado e radicalizado pelo neo-estalinismo contemporâneo, que abandona até mesmo as tensões presentes em Marini e transforma o Estado em sujeito absoluto da história.</p>
<p style="text-align: justify;">A polêmica, portanto, não é um ajuste de contas com Marini, mas uma necessidade teórica. Se levamos a sério a crítica marxiana do Estado, não basta denunciar a dependência externa nem a superexploração interna, é preciso recusar a ideia de que a emancipação possa ser mediada por uma forma política que nasce e se reproduz como expressão da dominação de classe. Como diria uma importante revolucionária, os fins estão nos meios. Sem essa ruptura, o anti-imperialismo se converte em razão de Estado, a revolução em gestão, e a classe trabalhadora em massa administrada, exatamente o terreno no qual projetos neo-estalinistas prosperam hoje sob a aparência de radicalidade. Mas existe a outra leitura que foca a dependência entendida como drama nacional. Nessa versão, o foco sai das relações de classe para as relações entre Estados, sendo que o Brasil ocupa o lugar de “nação oprimida”, “semicolônia”, “elo fraco”, “país saqueado” enquanto os trabalhadores são dissolvidos nesse “nós” nacional. A burguesia interna é descrita como “compradora”, “entreguista”, “associada” e, exatamente por isso, é reconstruída a figura da “burguesia nacional” que teria interesse objetivo em romper com a dependência. A partir daí, o programa se organiza em etapas: numa primeira fase, seria necessário fortalecer o Estado nacional, desenvolver forças produtivas, conquistar soberania, industrializar, eventualmente construir um “capitalismo nacional” relativamente autônomo e só posteriormente a luta de classes poderia se colocar abertamente contra essa burguesia, construindo a ideia de “projeto de nação” fazendo com que a classe trabalhadora adie sua própria agenda; a exploração se intensifica, agora revestida de discurso patriótico; o Estado se fortalece como forma da dominação burguesa e a promessa socialista se transforma em horizonte cada vez mais distante.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa distorção não é imputável diretamente a Florestan ou Marini, que foram, cada um a seu modo, muito mais sofisticados do que a caricatura nacional-desenvolvimentista que a esquerda petista, brizolista e stalinista construiu em torno deles. Florestan foi um crítico implacável da burguesia nacional e duvidou sempre de sua capacidade de conduzir uma revolução democrática profunda; Marini, por sua vez, não pintou a burguesia local como vítima, mas como parte de uma engrenagem perversa em que a superexploração é instrumento de reprodução. A perversão vem depois, quando outros setores da esquerda utilizam a retórica da dependência para renovar a velha ilusão da “unidade nacional” contra o imperialismo. É nesse ponto que estalinismo e teorias da dependência convergem, porque ambos anulam o conflito de classes para o terreno da nação, convertendo o antagonismo social em projeto de desenvolvimento nacional. A forma como Jones Manoel se apropria da teoria da dependência se inscreve perfeitamente nesse desvio.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse neo-estalinismo nasce do colapso histórico da esquerda. Diante da esclerose do progressismo liberal, da crise profunda de representação, dissolução das organizações de base, precarização brutal das universidades e os empregos informais, milhares de jovens procuraram uma linguagem forte, algo que recomponha sentido diante da impotência. O liberalismo não oferece nada; o progressismo oferece pouco; o lulismo oferece estabilidade limitada; a extrema-direita oferece ódio e identidade. Nesse vácuo, o neo-estalinismo é o pacote mais completo, duro, anti-liberal, anti-ocidental, anti-imperialista, com estética forte, narrativa moral absoluta, disciplina, ordem, rigor e promessa de grandeza nacional. Ele reconstrói a sensação de totalidade perdida. O marxismo, tomado assim, é vendido como identidade emocional. Isso legitima a “frente ampla nacional”, que une trabalhadores, burocracia e setores da burguesia em nome de um projeto desenvolvimentista. É exatamente o programa do estalinismo dos anos 1930 aplicado ao Brasil de 2026.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa configuração é a reatualização de uma forma política já conhecida. Nos anos 1930, diante da crise do capitalismo mundial e do avanço do fascismo, o stalinismo reorganiza sua estratégia em torno das frentes populares, abandonando a perspectiva de autonomia da classe trabalhadora em favor de alianças com frações da burguesia nacional sob a direção do Estado. A luta se orientada pela defesa de um projeto nacional, no qual o desenvolvimento das forças produtivas, a soberania econômica e a estabilidade política assumem centralidade e não qualquer ruptura com a ordem burocrático-burguesa. A classe trabalhadora é integrada como base de sustentação desse projeto, não como sujeito autônomo de transformação. O que se observa no Brasil contemporâneo é a recomposição dessa mesma lógica em novas condições históricas. Diante da crise prolongada, da desorganização social e fragilidade das organizações coletivas de ação, a resposta oferecida retoma a centralidade do Estado como instância de reorganização da sociedade, articula alianças com setores da burguesia sob a bandeira do desenvolvimento nacional e reinscreve a luta política nos limites da governabilidade. A linguagem é atualizada, os mediadores são outros, a circulação se dá pelas plataformas digitais, mas a estrutura permanece, ou seja, a radicalidade é transferida para o plano discursivo, enquanto a prática se organiza em torno da administração da ordem existente. Falar em aplicação do programa dos anos 1930 ao Brasil de 2026 não implica repetição mecânica, mas permanência de um mesmo princípio organizador, da subordinação da autonomia da classe trabalhadora a um projeto nacional-estatal que se apresenta como etapa necessária, enquanto adia indefinidamente a possibilidade de ruptura.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso se conecta diretamente à questão do anti-imperialismo. Nenhuma esquerda séria pode relativizar a violência imperialista, que orbita entre golpes, ocupações, guerras, sanções, pilhagem, política de dívida, tutela militar. A história da periferia capitalista é atravessada por essa violência. Só que o anti-imperialismo pode ser pensado de duas maneiras radicalmente diferentes. Num caso, ele é desdobramento do internacionalismo proletário; os trabalhadores de diferentes países se reconhecem como parte de uma mesma classe explorada, lutam contra as suas próprias burguesias e contra as ingerências externas, estabelecem redes de solidariedade, constroem instâncias comuns de luta. O anti-imperialismo é inseparável da ruptura com o capitalismo e com a forma-Estado. É a linha que vai, com todas as contradições, de algumas experiências do movimento operário europeu nos anos 1910-1920 às lutas coloniais em que o protagonismo plebeu tentou romper com as burocracias nacionais. No outro campo, o anti-imperialismo é capturado pela lógica do Estado. Não são as classes subalternas que se afirmam como sujeito, mas o Estado nacional que aparece como protagonista. Em nome de enfrentar o imperialismo, a burguesia local é reabilitada como aliada, a máquina de repressão interna é fortalecida, o nacionalismo é inflado, as oposições internas são silenciadas. O mantra primeiro a pátria, depois as reivindicações sociais é velho; primeiro a soberania, depois as liberdades; primeiro o desenvolvimento nacional, depois a democratização. Esse tipo de anti-imperialismo estatal se alimenta do ressentimento contra o centro, mas não toca na raiz da exploração interna. Ele é funcional ao capital local, que encontra na retórica anti-imperialista uma justificativa para continuar extraindo mais-valia em condições brutais. A superexploração se torna “sacrifício necessário”, o autoritarismo se converte em “dureza revolucionária”; a censura é rebatizada de “defesa da nação”.</p>
<p style="text-align: justify;">É esse segundo anti-imperialismo que o neo-estalinismo digital contemporâneo tende a difundir. Não se trata de relativizar a violência imperialista (que é real, histórica e estrutural), mas de observar como ela é enquadrada. Quando Jones Manoel publica, na Boitempo, o texto intitulado “Sim, eu apoio a Coreia do Norte!”, afirmando que “abraça sem reservas envergonhadas” a experiência da República Popular Democrática da Coreia e que sua prioridade política, diante das contradições internas do regime, é defendê-lo do cerco imperialista, o que se explicita é uma hierarquização onde a crítica à forma estatal é suspensa em nome da defesa do Estado sitiado. A experiência concreta (marcada por burocratização, centralização extrema e ausência de autonomia operária) é secundarizada diante da necessidade de preservar a soberania nacional. A autoridade estatal, para Jones, é a trincheira histórica a ser protegida. A recepção pública desse texto, visível nos comentários da postagem original, majoritariamente celebratória, confirma que o gesto foi lido como afirmação identitária e não como análise contraditória.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso chinês, a formulação é mais sofisticada, mas segue o mesmo eixo. Em entrevistas e textos recentes, Jones apresenta “o caminho da China” como alternativa estratégica para países dependentes, enfatizando soberania tecnológica, cerco militar e a necessidade de um Estado forte capaz de planificar o desenvolvimento. A tensão entre defesa da revolução e democracia proletária é colocada como dilema administrável sob pressão externa. O problema da burocratização, da repressão a dissidências e ausência de auto-organização operária é uma questão secundária diante da necessidade de enfrentar o imperialismo. A centralidade concentra-se na capacidade estatal de coordenar desenvolvimento e garantir posição geopolítica.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso russo, a questão exige maior precisão. Jones não elogia Putin, reconhece explicitamente seu caráter conservador e burguês. O ponto, porém, está na estrutura explicativa adotada que define a “contradição principal” do conflito na Ucrânia como o embate entre OTAN/EUA e Rússia, o que tende a reorganizar o campo político em termos interestatais com foco no cerco geopolítico, expansão militar ocidental, disputa entre blocos. A classe trabalhadora russa, ucraniana ou europeia aparece como variável subordinada a essa disputa. Ainda que não haja exaltação direta do governo russo, há uma forma de enquadramento que privilegia o reposicionamento estatal como eixo do conflito histórico.</p>
<p style="text-align: justify;">O que une esses três casos é a tendência a pensar o mundo a partir de Estados em confronto e a tratar a autoridade estatal como mediação privilegiada da história. A classe trabalhadora é convocada a defender governos, soberanias, projetos nacionais e a crítica às formas internas de dominação é suspensa sob o argumento de que há uma ameaça maior no plano externo. A hierarquia entre “contradição principal” e “contradições secundárias” é um mecanismo de neutralização da autonomia. Essa operação produz efeitos políticos concretos. Parte significativa do público que acompanha Jones responde a esse enquadramento de maneira afirmativa, a defesa da Coreia Popular é celebrada como posição corajosa; a China é tratada como modelo de soberania bem-sucedida; a Rússia é lida como polo de contenção do imperialismo ocidental. A recepção não se organiza em torno da pergunta “como os trabalhadores desses países se auto-organizam?”, mas em torno da pergunta “qual Estado resiste melhor ao hegemon?”.</p>
<p style="text-align: justify;">O termo “neo-stalinismo”, tal como vem sendo mobilizado ao longo deste texto, não pode ser reduzido a uma simples repetição caricatural do stalinismo clássico nem a uma acusação moral dirigida a indivíduos ou correntes específicas. Aqui, me refiro a uma forma histórica determinada que reaparece em novas condições, conservando um núcleo estrutural e atualizando seus mecanismos de legitimação. Para compreendê-lo, é necessário retornar ao processo que o engendrou como chave de leitura do presente.</p>
<p style="text-align: justify;">A Revolução Russa abriu uma possibilidade inédita ao colocar em movimento a auto-organização proletária que escapavam à lógica estatal, sendo os sovietes, em sua emergência inicial, expressões concretas de um poder social direto, enraizado na atividade dos trabalhadores. No entanto, esse processo se desenvolveu sob condições extremas, guerra civil, isolamento internacional, atraso econômico, devastação produtiva, que favoreceram a centralização progressiva das decisões e a concentração de poder no partido. O que se apresentou como medida emergencial foi se cristalizando como forma permanente. A mediação partidária, inicialmente concebida como instrumento de organização se autonomizou, reorganizando o processo revolucionário sob a lógica da representação e da direção separada. Para autores como Pannekoek e Rühle, o problema não residia apenas em desvios conjunturais ou erros de liderança, mas na direção da revolução ao se estruturar a partir do partido e do Estado. A substituição da autoatividade da classe por uma instância dirigente produziu uma inversão fundamental em que o proletariado deixava de ser sujeito do processo para se tornar objeto de administração política. O partido não apenas coordenava a revolução, a representava, falava em seu nome e, progressivamente, decidia por ela. A ditadura do proletariado se convertia, na prática, em ditadura sobre o proletariado.</p>
<p style="text-align: justify;">O leninismo ocupa, nesse percurso, um lugar ambivalente. Por um lado, representou uma tentativa rigorosa de enfrentar problemas reais de organização, estratégia e poder em condições históricas concretas, formulando respostas que não podem ser descartadas sem análise. A questão da disciplina, da centralização e da intervenção consciente na luta de classes em Lenin é resposta à fragmentação do movimento operário e à repressão do Estado czarista. Por outro lado, ao conceber o partido como portador privilegiado da consciência e ao identificar a tomada do poder com a conquista do aparato estatal, o leninismo introduz uma mediação que tende a se autonomizar. A consciência é progressivamente externalizada em relação à prática viva da classe, assumindo a forma de um saber que se apresenta como anterior e superior à experiência concreta dos trabalhadores; a organização nesse caso não é o prolongamento da autoatividade coletiva, mas se configura como instância hierarquizada que se interpõe entre a classe e sua ação de modo a hierarquizar a esfera política, que se concentra em estruturas que se arrogam o direito de decidir pela totalidade social. O stalinismo é a radicalização desse processo sob condições específicas. A consolidação do poder estatal, a eliminação das oposições internas, a planificação centralizada e a constituição de uma burocracia permanente transformam o que ainda guardava tensões em um sistema estabilizado de dominação onde o Estado é o sujeito histórico absoluto. A sociedade é reorganizada de cima para baixo, a classe trabalhadora é disciplinada como força produtiva e política, e o partido se converte em aparato de gestão da totalidade social. A linguagem do socialismo é preservada, mas sua forma material se distancia cada vez mais da auto-emancipação proletária.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo do século XX, essa orientação se torna hegemônica em amplos setores da esquerda mundial, inclusive no Brasil, através de organizações como o PCB, que seguiram a lógica da estratégia etapista, da centralidade do Estado e subordinação da classe trabalhadora a projetos nacionais. Entre as décadas de 1950 e 1970, o stalinismo, em suas diversas variações, forneceu o horizonte dominante de ação política, organizando tanto a leitura da realidade quanto as práticas militantes. Mesmo quando criticado, seus pressupostos fundamentais (a centralidade do partido, a mediação estatal, a ideia de etapas históricas conduzidas por alianças amplas) permaneceram como gramática implícita. O que se denomina de neo-stalinismo é a reconfiguração nas condições do capitalismo contemporâneo, marcado pela financeirização, crise da organização da classe e centralidade da mediação digital. Seu núcleo permanece sendo a reafirmação do Estado como sujeito estratégico, a subordinação da autonomia proletária a projetos nacionais, a centralidade de uma instância dirigente que organiza, educa e conduz, e a transformação da política em processo de administração da sociedade a partir de cima. O que muda são os meios de difusão, as linguagens e os modos de legitimação.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse novo contexto, o neo-stalinismo não necessita mais de um partido de massas fortemente enraizado, podendo se estruturar como pedagogia política mediada por plataformas digitais como produção contínua de sentido que organiza percepções, define inimigos e estabelece horizontes de ação. A autoridade não se constrói apenas na organização material, mas na circulação simbólica; a disciplina não depende exclusivamente de estruturas formais, mas de processos de identificação e adesão. Ainda assim, a lógica permanece a mesma, da política sendo conduzida por instâncias separadas, a classe é interpelada como base de apoio, e a emancipação é concebida como reorganização do poder estatal sob nova direção. É nesse sentido preciso que o neo-stalinismo deve ser entendido. Não como insulto, mas como categoria que permite identificar a persistência de uma forma de dominação que se apresenta como crítica da ordem existente enquanto reproduz seus fundamentos. Ele opera como solução imaginária para uma crise real, oferecendo coerência, identidade e horizonte num momento de fragmentação, mas o faz ao custo de reinstalar a separação entre dirigentes e dirigidos, entre política e vida social, entre Estado e sociedade. O que se apresenta como radicalidade é, na verdade, a reiteração de uma contradição histórica que já demonstrou seus limites, agora revestida de novas linguagens e adaptada às condições de um capitalismo em crise.</p>
<p style="text-align: justify;">O neo-stalinismo digital combina denúncia contundente da dominação externa com silenciamento progressivo dos mecanismos internos de dominação estatal, apresenta a defesa da soberania como tarefa prioritária e transforma a crítica ao Estado em questão secundária, a ser resolvida “depois” e esse “depois” tende a nunca chegar. A juventude que chega a esses conteúdos não é convidada a se organizar como classe trabalhadora internacionalmente articulada, mas a aderir a uma narrativa geopolítica onde os “bons” são os Estados que enfrentam Washington. A análise sai da fábrica para a chanceleria, do chão de escola para a sala de reunião de partido-Estado, da vida concreta para o tabuleiro dos blocos nacionais.<img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159791" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1.jpg" alt="" width="964" height="723" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1.jpg 964w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/webhemis_2ygm1gt-964x723-1-681x511.jpg 681w" sizes="(max-width: 964px) 100vw, 964px" /></p>
<p style="text-align: justify;">Essa operação, por sua vez, tem um efeito específico sobre a subjetividade política, pois reorganiza o imaginário da militância em torno da nação e do Estado. O jovem precarizado que procura uma teoria contra o capitalismo é encaminhado a amar bandeiras, hinos, símbolos nacionais, relatos épicos de “projetos de desenvolvimento nacional”, imagens de fábricas estatais modernas, desfiles militares, celebrações de líderes duros e supostamente incorruptíveis. Essa combinação ainda produz um efeito mais silencioso e profundamente corrosivo, pois abre uma zona de indistinção em que frações da esquerda e correntes reacionárias podem atuar com um vocabulário comum, estruturado em torno do anti-liberalismo, do nacionalismo e centralidade do Estado; de um lado, reaparecem formulações que reivindicam o “socialismo de Estado” como horizonte histórico, de outro, proliferam discursos que rejeitam o cosmopolitismo, exaltam a tradição, tratam o indivíduo como elemento dissolvente e reorganizam a história como conflito entre civilizações e blocos geopolíticos.</p>
<p style="text-align: justify;">O capitalismo é, desde o início, uma forma mundial de sociabilidade em expansão, em que a concorrência entre capitais empurra constantemente pela centralização, hierarquização de regiões, criação de zonas de superexploração. Não existe capitalismo “puro” sem imperialismo; não existe “estágio pré-imperialista” de normalidade. A periferia é resultado da expansão do capital. A dependência é, ao mesmo tempo, desigualdade entre regiões e mecanismo de intensificação da exploração interna. O alvo do combate segue sendo o capital como relação social, não “países”. A ação política consequente será internacionalista de fato, não de discurso, e terá que lidar ao mesmo tempo com o capital local e global. O uso ideológico, ao contrário, introduz uma época de ouro implícita: um passado ou um ideal hipotético em que o país teria sido ou poderia ser “soberano”, “autônomo”, “desenvolvido” se não fosse a intervenção externa. Isso abre espaço para uma nostalgia impossível, ou de um passado nacional mitificado e um futuro nacional grandioso.</p>
<p style="text-align: justify;">A complexidade dessa questão passa, portanto, por reconhecer que o capitalismo periférico depende, sim, de uma articulação desvantajosa no sistema mundial e, ao mesmo tempo, recusar o uso dessa constatação como argumento para programas nacionalistas que pedem lealdade ao Estado. A dependência não é desculpa para segurar a classe trabalhadora pela coleira, mas justamente o motivo pelo qual essa classe não pode confiar em nenhum projeto que a subordine a bandeiras nacionais. O anti-imperialismo que não seja simultaneamente uma crítica à forma Estado e uma prática de solidariedade de classe transnacional cai, cedo ou tarde, no colo do nacionalismo e o nacionalismo, historicamente, nunca foi motor da emancipação dos trabalhadores; foi, quando muito, combustível para transições entre formas de dominação capitalista.</p>
<p style="text-align: justify;">Vista assim, a figura de Jones Manoel (e o neo-stalinismo digital que o cerca) é como uma recomposição organizada dessa confusão. Ele se apropria de fragmentos da teoria da dependência, simplifica a leitura do imperialismo, converte a análise em narrativa épica sobre “povos oprimidos” e “nações resistentes”, reabilita o Estado como sujeito histórico, oferece à juventude uma identidade política clara onde ser comunista é torcer por certos Estados, defender certas bandeiras, repetir certos slogans, aceitar a lógica de frentes nacionais e acreditar na possibilidade de um desenvolvimento soberano que, misteriosamente, levaria ao socialismo. Nesse percurso, o trabalhador não é convidado a organizar conselhos, a construir redes de autogestão, a experimentar o poder de base, somente a consumir conteúdos, a votar em candidaturas “radicais”, a apoiar “projetos nacionais”, a defender regimes autoritários no debate público. A complexidade está em sustentar que a teoria da dependência, enquanto crítica de como o capitalismo se mundializa, segue indispensável e que o uso nacionalista e estatolátrico dessa teoria, hoje reforçado por neo-stalinistas digitais, é um obstáculo frontal a qualquer perspectiva revolucionária. É possível e necessário ler Florestan e Marini contra aqueles que os transformam em patronos de um novo nacionalismo vermelho. É possível e necessário construir um anti-imperialismo que não desemboca na defesa acrítica de Estados “anti-Otan”, mas na organização concreta da classe trabalhadora (no Brasil e fora dele) contra todos os complexos de poder, internos e externos, que a exploram. Quando se recoloca o protagonismo dos trabalhadores no centro, a figura da dependência perde o seu brilho místico e recupera o seu valor analítico. Não se trata de negar a subalternidade do capitalismo brasileiro, mas de recusar que a resposta a essa subalternidade seja entregar a classe trabalhadora, mais uma vez, ao sacrifício em nome da pátria.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo da produção deste texto, fui publicando trechos em meu canal do youtube e um dos comentários chama atenção:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A classe trabalhadora mundial nunca libertou sequer uma colônia sem utilizar o estado pra isso, esse texto é um chororô que se recusa a reconhecer isso. O anarquismo na era da descolonização mundial foi inútil pra classe trabalhadora enquanto estados nacionais e grupos aspirantes a se tornarem moldaram a história e fizeram do mundo um lugar menos pobre e até mesmo com menos tirania estatal (<a class="urlextern" title="https://www.youtube.com/@bernardoblanco4286" href="https://www.youtube.com/@bernardoblanco4286" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">@BERNARDOBLANCO4286</a>).</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Minha resposta literal foi a seguinte:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">A afirmação de que a classe trabalhadora jamais libertou colônias sem o uso do Estado parte de uma confusão histórica fundamental entre processos de descolonização<strong> </strong>e emancipação social. É verdade que, ao longo do século XX, a maior parte das independências ocorreu sob a forma de Estados nacionais, muitas vezes dirigidos por partidos, frentes ou grupos armados que aspiravam a ocupar o aparelho estatal. O erro está em transformar essa constatação empírica em prova de que o Estado seja condição necessária da libertação da classe trabalhadora, ou de que esses processos tenham efetivamente representado sua emancipação. É um salto lógico ilegítimo, que confunde mudança na organização da política com superação das relações sociais de dominação. A descolonização estatal foi incapaz de abolir o capital, tendo como função reorganizar sua reprodução. Em praticamente todos os casos históricos (da África à Ásia, da América Latina ao Oriente Médio), a independência nacional significou a substituição da dominação colonial direta por formas internas de dominação de classe mediadas por Estados recém-formados. As estruturas fundamentais da exploração, trabalho assalariado, hierarquia produtiva, disciplina fabril, repressão policial, acumulação de capital, permaneceram intactas. A pobreza diminuiu em alguns contextos, aumentou em outros; a tirania mudou de mãos, mas não desapareceu. Em muitos casos, o Estado nacional se tornou ainda mais intrusivo e violento do que o poder colonial anterior, justamente porque precisava disciplinar “seu próprio povo” em nome do desenvolvimento, da unidade nacional e soberania.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Dizer que esses processos “fizeram do mundo um lugar menos pobre e menos tirânico” é uma generalização ideológica que apaga a experiência concreta da classe trabalhadora nas periferias do capitalismo. A industrialização dependente, conduzida por Estados nacionais fortes, foi acompanhada por superexploração do trabalho, repressão sistemática a greves, criminalização de movimentos camponeses e urbanos, ditaduras militares e partidos únicos. A miséria nem de longe foi superada, sendo no máximo readministrada e a tirania foi nacionalizada ao invés de ser abolida enquanto o trabalhador deixou de ser explorado por um império estrangeiro para ser explorado por sua própria burguesia, agora investida de legitimidade patriótica. Quanto à acusação de que o anarquismo (ou, mais amplamente, as correntes anti-estatistas e conselhistas) teria sido “inútil” no século XX, ela revela uma leitura estreita da história, centrada apenas nos vencedores institucionais. As organizações mais radicais de auto-organização da classe trabalhadora (conselhos, comunas, sovietes antes de sua burocratização, coletivizações autogeridas, greves selvagens, insurreições urbanas e rurais) foram sistematicamente esmagadas não apenas pelo imperialismo, mas também pelos Estados nacionais “libertadores”. A inutilidade não estava na auto-organização, mas no fato de que ela ameaçava tanto o capital externo quanto o interno. Justamente por isso, foi derrotada.</p>
<p style="text-align: justify;">O argumento estatista transforma a derrota histórica dessas experiências em prova de sua inviabilidade, quando, na verdade, elas foram derrotadas porque colocavam em risco a própria lógica da dominação. Ao afirmar que “sem Estado não há libertação”, o comentário apenas naturaliza o resultado de uma correlação de forças desfavorável e o converte em lei histórica. Isso equivale a dizer que, porque o capital venceu, ele era necessário; porque o Estado triunfou, ele era emancipador. Isso é um raciocínio tautológico que confunde fato consumado com horizonte possível. Por fim, a ideia de que a classe trabalhadora só pode agir como força histórica por meio do Estado reduz sua potência política à condição de instrumento, como massa de apoio para projetos definidos de cima, nunca como sujeito capaz de criar suas próprias formas de poder se apresentando como uma visão profundamente conservadora que toma o Estado (produto histórico da dominação de classe) como limite insuperável da ação humana. Contra isso, a crítica antistatista lembra que enquanto a libertação for pensada como tarefa do Estado, a classe trabalhadora continuará sendo governada, ainda que em nome de si mesma.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a torção nacionalista da teoria da dependência transfere o sujeito histórico da classe para a nação, a centralidade do Estado e do partido completa o movimento de neutralização da política proletária. O contraponto conselhista, expõe o caráter contrarrevolucionário do marxismo estatal que Jones Manoel atualiza. Não se trata de uma divergência tática ou de estilo organizativo, mas de uma incompatibilidade entre duas concepções de emancipação que tem de um lado, a auto-organização direta da classe trabalhadora contra o capital e de outro, a administração da sociedade por meio do Estado e de um partido que se coloca como tutor da classe. O Estado organiza a reprodução do capital ao garantir juridicamente a propriedade, disciplinar o trabalho, monopolizar a violência legítima e converter conflitos sociais em problemas administrativos e mesmo quando se apresenta sob bandeiras socialistas, o Estado preserva sua função fundamental de governar a sociedade de cima para baixo, por meio de uma burocracia especializada que decide em nome de outros. Pannekoek insistiu nisso ao dizer que enquanto existir Estado, existe uma instância separada da sociedade que governa sobre ela; enquanto existir essa separação, não há emancipação, apenas mudança de gestores.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa crítica nasce da experiência histórica do movimento operário. Pannekoek e Rühle escreveram à sombra da Revolução Russa, observando como a energia criadora dos conselhos operários foi progressivamente sufocada pela ascensão do partido-Estado. O que inicialmente surgiu como uma mediação provisória tornou-se rapidamente uma estrutura permanente de dominação. Os sovietes, que haviam surgido como formas espontâneas de auto-organização do proletariado, foram esvaziados, subordinados e, por fim, transformados em correias de transmissão das decisões do partido. Para os conselhistas, isso foi a consequência lógica da aposta no Estado e no partido como o centro da revolução. Otto Rühle radicalizou essa crítica ao afirmar que o partido, longe de ser instrumento de emancipação, tende a se tornar uma nova camada dominante. Toda organização que se autonomiza da classe, que fala em seu nome, que a representa, desenvolve interesses próprios, preserva sua existência, expande sua influência, controla o processo político. O partido, nesse processo, substitui a classe, seguindo a mesma lógica da alienação reproduzindo no interior do campo revolucionário a mesma lógica hierárquica do capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse é o ponto cego do leninismo e correntes derivadas que concebe a emancipação como algo a ser feito para a classe, não pela classe. A consciência é trazida de fora, a organização vem de cima, a estratégia é definida por especialistas, a política é conduzida por quadros. Mesmo quando o discurso é aparentemente radical, a orientação é conservadora. Mesmo quando se fala em socialismo, a prática reproduz a divisão entre governantes e governados e isso reaparece no neo-estalinismo contemporâneo, agora adaptado às condições do capitalismo digital, precarização generalizada e da política como espetáculo. Jones Manoel é um operador exemplar dessa atualização. Sua defesa da centralidade do Estado e do partido estrutura todo o seu modo de pensar e intervir. Quando Jones fala em “tomar o poder”, “reconstruir o Estado”, “usar o Estado para desenvolver as forças produtivas”, “defender a soberania nacional”, ele está partindo do pressuposto de que a emancipação social passa necessariamente pela captura e pelo fortalecimento do aparato estatal. A classe trabalhadora, nesse esquema, é apenas a base de apoio, como massa a ser organizada, educada, conduzida, nunca como instância autônoma de decisão e ação direta.</p>
<p style="text-align: justify;">A pedagogia política de Jones se coloca como explicador do mundo, tradutor autorizado do marxismo, mediador entre a teoria e as massas. O público não é chamado a experimentar sua própria organização, a construir espaços de poder de base, a romper com as mediações existentes. É chamado a aprender, concordar, repetir. Essa pedagogia verticalizada é a expressão cultural da mesma lógica que, no plano organizativo, se traduz na defesa do partido-Estado que traduz uma relação de tutela onde alguém sabe, alguém explica, alguém dirige; os demais acompanham. Nildo Viana ajuda a compreender por que essa forma é conservadora. Ao analisar a esquerda como parte integrante da reprodução do capital (em diversos textos disponíveis em seu blog), ele mostra como grande parte das organizações que se reivindicam socialistas atua, na prática, como administradora dos conflitos sociais. Em vez de fomentar a auto-organização e o antagonismo, essas organizações canalizam a revolta para dentro de instituições existentes, normalizam a contestação e reforçam a legitimidade do Estado. O marxismo estatal, nesse quadro, é uma ideologia funcional à gestão da sociedade capitalista em crise, pois oferece uma crítica controlada, uma radicalidade discursiva que não ameaça a dominação de classe.</p>
<p style="text-align: justify;">No caso de Jones Manoel, essa função é ainda mais clara porque sua atuação se dá no interior da indústria cultural digital. O partido não é apenas a organização formal, mas a centralidade mental, liderança, disciplina, linha correta, inimigos definidos, aliados estratégicos seguindo uma lógica campista (dividir o mundo em blocos estatais progressistas e reacionários). A revolução não é um ato inaugural decidido por decreto nem como a aplicação técnica de um programa previamente traçado. A revolução se constitui ao longo do tempo, no movimento pelo qual a classe trabalhadora desenvolve suas capacidades de ação, reflexão e organização, transformando a si mesma enquanto transforma as relações sociais que a oprimem. Os conselhos são a organização política correspondente à superação da separação entre economia e política, entre trabalho e poder. Neles, os produtores associados decidem diretamente sobre a produção e sobre a vida social, sem mediações externas, sem representantes profissionais, sem burocracias permanentes integrando a política à prática cotidiana.</p>
<p style="text-align: justify;">Comparado a isso, o projeto de Jones Manoel mostra a sua pobreza histórica. Não há, em sua formulação, espaço para conselhos, para autogestão, democracia direta e, principalmente, dissolução do Estado. Há, sim, uma revalorização explícita do comando centralizado, da autoridade, disciplina e planificação estatal. A experiência histórica do stalinismo, longe de ser tratada como advertência, é frequentemente relativizada ou justificada em nome da luta contra o imperialismo. O sofrimento real da classe trabalhadora sob regimes de capitalismo de Estado é apagado em favor de uma narrativa geopolítica abstrata. Ao defender o Estado como sujeito da transformação, Jones contribui para a reprodução da passividade política. A classe é educada a esperar soluções de cima em rituais como eleições, governos fortes, líderes firmes, projetos nacionais enquanto a iniciativa própria é desestimulada. Visto desse ângulo, a crítica a Jones Manoel não é uma querela interna da esquerda, nem uma disputa de narrativas. O caminho que ele propõe conduz a um beco histórico já conhecido de integração da classe trabalhadora a projetos estatais que falam em seu nome enquanto a mantêm subordinada. Contra isso, o conselhismo oferece uma orientação prática de recolocar a auto-organização, a ação direta e o internacionalismo no centro da política não como slogans, mas como organização real do poder social. Tudo o que se afasta disso, por mais radical que pareça no discurso, opera, no fundo, como força de contenção da revolução.</p>
<p style="text-align: justify;">Modificar a realidade não passa pela inflação da palavra. Há um limite da linguagem quando ela se autonomiza da prática social e se converte em performance discursiva. Parte expressiva dos debates contemporâneos circulam, reiteram-se, acumulam ruído, mas não produzem mudança alguma na correlação de forças. Não porque faltem argumentos, mas porque o problema não é cognitivo. É material. No plano individual, a disputa de consciências tornou-se progressivamente mais restrita. A formação subjetiva é atravessada por história social, posição de classe, experiências acumuladas, derrotas, expectativas, medos, desejos e dispositivos permanentes de captura simbólica. Cada indivíduo chega ao mundo social moldado por uma série de determinações que escapam à vontade, tanto dele quanto de quem pretende “convencê-lo”. Apostar que a transformação social virá da conversão paciente de indivíduos isolados é ignorar o modo real como a sociedade se reproduz. Esse diagnóstico costuma gerar angústia. A sensação de falar para paredes, de repetir análises corretas que não encontram ressonância, de observar a proliferação de discursos críticos que não alteram nada de essencial. Essa angústia nasce de uma premissa equivocada de que a ideia de mudança social se decide no plano da adesão individual, como se a sociedade fosse a simples soma de consciências persuadidas. Historicamente, nunca foi assim. As grandes transformações sociais não resultam de transformações morais ou de ajustes comportamentais graduais. Elas irrompem quando se altera a base material que sustenta uma determinada forma de poder. Não se trata de convencer o capital a ser menos capitalista, nem o Estado a ser menos Estado, mas de produzir força social organizada capaz de tensionar, bloquear, romper e reorganizar as estruturas que garantem a reprodução da dominação.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, o eixo central não é o convencimento, mas a constituição de poder material, enraizado em práticas coletivas, em organizações que não dependem da adesão subjetiva plena de todos, mas da capacidade de agir em comum. Contra-poder é uma relação social concreta que se constrói quando setores subalternos passam a controlar parcelas da vida social, do trabalho, território, produção e circulação. A hegemonia se consolida quando uma classe ou fração de classe consegue apresentar seus interesses como interesse geral porque controla os meios materiais que organizam a vida cotidiana. A contra-hegemonia, por sua vez, não nasce de slogans mais radicais ou de diagnósticos mais sofisticados, mas da criação de práticas sociais alternativas que desestabilizam essa ordem, mesmo antes de serem plenamente compreendidas ou legitimadas. A organização popular, portanto, é inevitável para um processo emancipatório, exige coordenação, disciplina consciente, objetivos comuns e capacidade de sustentar conflitos prolongados. Ela produz subjetividade, mas o faz a partir da prática, não da pedagogia moral. A autogestão, então, é como ensaio material de outra forma de sociabilidade, sempre parcial, tensionada, ameaçada pela lógica dominante, mas fundamental enquanto experiência concreta de reorganização da vida social fora dos parâmetros do capital e do Estado. Onde há autogestão real, ainda que limitada, há aprendizagem coletiva, redefinição de necessidades e ruptura prática com a passividade política. Nesse sentido, muitos debates são de fato inúteis. Não porque o pensamento crítico seja irrelevante, mas porque ele se torna estéril quando se desconecta da produção de força social material. A tarefa histórica não é falar mais alto nem melhor, mas criar condições materiais para que outras formas de vida possam emergir em confronto direto com a ordem existente. Isso exige menos verborragia e mais enraizamento; menos ilusão pedagógica e mais estratégia; menos fé no convencimento individual e mais aposta na potência coletiva. É nesse terreno áspero, conflitivo e desigual que a história efetivamente se move.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-159792" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/show-photo-70x70.jpg" alt="" width="157" height="200" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/show-photo-235x300.jpg 235w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/show-photo-801x1024.jpg 801w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/show-photo-768x981.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/show-photo-329x420.jpg 329w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/show-photo-640x818.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/show-photo-681x870.jpg 681w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/09/show-photo.jpg 835w" sizes="auto, (max-width: 157px) 100vw, 157px" /><em>As obras que ilustram o artigo são da autoria de Erik Bulatov (1933-2025).</em></p>
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		<title>A Gramática sem Dono &#8211; Parte II</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Enzo Silva]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Aug 2026 17:42:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
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					<description><![CDATA[A gramática de classe não exige aparatos burocráticos, exige enraizamento no chão do bairro, da fábrica, do escritório, precisamente o chão que a esquerda evacuou.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Phintener</h3>
<p style="text-align: justify;"><strong>O sintoma tomado como explicação</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A <a href="https://passapalavra.info/2026/07/159515/">Parte I</a> desta série demonstrou a emergência de uma gramática totalitária que atravessa o bolsonarismo e atinge, por homologia formal, as vertentes identitárias que se pretendem sua antítese. Resta enfrentar a questão central: por que o trabalhador precarizado adere à gramática que o subjuga? Recorrer aos clichês da “alienação” ou do “pobre de direita” é apenas a recusa da esquerda em olhar para a própria omissão. Esta Parte II toma a reação do eleitorado periférico não como um desvio moral, mas como um fato social a ser explicado.</p>
<p style="text-align: justify;">A análise cruza três fontes de dados: os registros eleitorais por zona do TSE (2024), os microdados de mobilidade da Pesquisa Origem-Destino (2023) e os setores censitários do Censo 2022. A cartografia que emerge desse mapeamento desmorona as ficções confortáveis da esquerda de Estado sobre o território que julgava dominar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>I. A disputa — três candidatos, 57 zonas, nenhuma vitória fácil</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A eleição municipal de São Paulo em 2024 produziu, no primeiro turno, um resultado que contrariou as expectativas de todos os campos. Ricardo Nunes (MDB), Guilherme Boulos (PSOL) e Pablo Marçal (PRTB) chegaram ao resultado final separados por menos de dois pontos percentuais entre si — uma diferença estatisticamente estreita para uma cidade com mais de seis milhões de eleitores.</p>
<figure id="attachment_159575" aria-describedby="caption-attachment-159575" style="width: 346px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159575 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagen1.png" alt="" width="346" height="176" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagen1.png 346w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagen1-300x153.png 300w" sizes="auto, (max-width: 346px) 100vw, 346px" /><figcaption id="caption-attachment-159575" class="wp-caption-text">Gráfico 1 — Participação dos três principais candidatos no total de votos válidos (1º turno). Fonte: TSE, Votação nominal por município e zona, 2024.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O equilíbrio agregado, no entanto, oculta uma geografia interna profundamente assimétrica. Das 57 zonas eleitorais da capital, Boulos e Marçal venceram 20 cada; Nunes venceu apenas 17 — apesar de ter obtido a maior votação nominal total. A distribuição territorial, e não os números brutos, é onde o argumento da Parte II começa.</p>
<figure id="attachment_159576" aria-describedby="caption-attachment-159576" style="width: 265px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159576 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem2.png" alt="" width="265" height="180" /><figcaption id="caption-attachment-159576" class="wp-caption-text">Gráfico 2 — Zonas eleitorais vencidas por cada candidato. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong> II. O paradoxo da Zona Leste: espoliação material e captura gramatical</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mais do que os totais agregados, é a cartografia do voto de Marçal que revela o nó analítico deste trabalho. Das 20 zonas eleitorais que conquistou, a esmagadora maioria concentra-se na Zona Leste histórica: Vila Formosa, Vila Matilde, Tatuapé, Sapopemba, Penha de França, Cangaíba, São Miguel Paulista, Itaquera, Ermelino Matarazzo e Vila Prudente. Falamos do tradicional cinturão produtivo paulistano — uma geografia ligada por contiguidade física e social ao ABC Paulista, matriz do sindicalismo combativo que gestou o PT e a CUT entre o fim dos anos 1970 e o início dos 1980. Com uma média de 31,2% de votos no quadrante leste — superando seu índice geral na capital —, a campanha de Marçal penetrou na medula desse território de trabalhadores. A escolha da Zona Leste como laboratório analítico central justifica-se precisamente por isso: ela condensa em estado puro o curto-circuito em tela — o mesmo tecido operário que Kowarick (1994) consagrou como epicentro das lutas urbanas da metrópole agora sob o domínio da teologia do empreendedor individual.</p>
<figure id="attachment_159577" aria-describedby="caption-attachment-159577" style="width: 398px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159577 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem3.png" alt="" width="398" height="229" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem3.png 398w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem3-300x173.png 300w" sizes="auto, (max-width: 398px) 100vw, 398px" /><figcaption id="caption-attachment-159577" class="wp-caption-text">Gráfico 3 — Percentual médio de votos em Marçal por perfil territorial. A Zona Leste e a Zona Norte apresentam os maiores índices. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O Censo 2022 permite dimensionar o peso demográfico desse território. A Zona Leste concentra 3,57 milhões de habitantes — o segundo maior contingente entre as regiões da cidade, atrás apenas da Zona Sul — e registra a maior média de moradores por domicílio: 2,42 pessoas, contra 1,75 no Centro Expandido e 1,90 na Zona Oeste. Famílias maiores em domicílios menores, com renda familiar mediana de R$ 4.600 mensais: é a combinação que amplifica o impacto de qualquer confisco do rendimento real — cada real a menos no salário divide-se por 2,42 pessoas.</p>
<figure id="attachment_159578" aria-describedby="caption-attachment-159578" style="width: 420px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159578" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem4.png" alt="" width="420" height="203" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem4.png 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem4-300x145.png 300w" sizes="auto, (max-width: 420px) 100vw, 420px" /><figcaption id="caption-attachment-159578" class="wp-caption-text">Gráfico 4 — Perfil territorial de São Paulo: população e moradores por domicílio por região. Fonte: Censo IBGE 2022. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">A Pesquisa Origem-Destino do Metrô de São Paulo (2023) confirma e detalha esse quadro. Com renda familiar mediana de apenas 3,5 salários mínimos por família, a Zona Leste fica muito abaixo da Zona Oeste (R$ 9.433) e do Centro Expandido (R$ 7.646) — e 42,7% de seus domicílios vivem com menos de R$ 4.000 mensais. Para uma família mediana de 2,42 pessoas, o valor per capita é de R$ 1.901 — um rendimento de subsistência frente ao estrangulamento do custo de vida paulistano. O dado mais revelador não reside nas médias agregadas por região, mas no estrangulamento por faixa de renda: trabalhadores com renda per capita de até 1 salário mínimo despendem em média de 85 a 88 minutos por deslocamento, contra 61 minutos gastos por aqueles posicionados acima de 3 salários mínimos — uma assimetria do tempo de 40%. A distância percorrida expõe a mesma fratura territorial: são 17,1 km de percurso para a fração de menor rendimento contra 10,1 km para as faixas de maior renda, uma disparidade de 70%. Na Zona Leste, essa desigualdade materializa-se no fato de que mais de 83% das viagens de trabalho dependem exclusivamente do transporte coletivo, sem qualquer flexibilidade modal. A dependência estrita do ônibus não é apenas uma métrica de tempo — é a expressão territorial da ausência de margem: não há automóvel próprio, não há orçamento para transporte por aplicativo, tampouco folga na renda que autorize outra escolha.</p>
<figure id="attachment_159579" aria-describedby="caption-attachment-159579" style="width: 403px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159579" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem5.png" alt="" width="403" height="187" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem5.png 403w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem5-300x139.png 300w" sizes="auto, (max-width: 403px) 100vw, 403px" /><figcaption id="caption-attachment-159579" class="wp-caption-text">Gráfico 5 — Tempo e distância de deslocamento ao trabalho por faixa de renda per capita. Trabalhadores com renda de até 1 SM percorrem trajetos 70% mais longos e despendem 40% mais tempo do que trabalhadores com renda acima de 3 SM. Fonte: Pesquisa Origem-Destino Metrô SP 2023. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">O gráfico abaixo sintetiza as quatro dimensões do território cruzadas nesta análise: população, renda, voto em Marçal e composição domiciliar. O padrão é inequívoco — as regiões de maior votação em Marçal são exatamente as de menor renda e maior densidade familiar.</p>
<figure id="attachment_159580" aria-describedby="caption-attachment-159580" style="width: 420px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-159580 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6.png" alt="" width="420" height="315" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6.png 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-300x225.png 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-100x75.png 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-180x135.png 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem6-238x178.png 238w" sizes="auto, (max-width: 420px) 100vw, 420px" /><figcaption id="caption-attachment-159580" class="wp-caption-text">Gráfico 6 — Síntese: quatro dimensões do território e do voto por região (renda: mediana familiar). Fontes: Censo IBGE 2022, Pesquisa OD Metrô SP 2023 e TSE 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Os dados da RAIS 2024 esmiúçam a natureza do vínculo de trabalho que serviu de alicerce histórico à região. Na capital paulista, o setor industrial lidera o índice de formalização com 95,3% de empregos celetistas. Contudo, essa cobertura contratual traduz-se em um salário mediano de escassos R$ 2.950 (2,09 salários mínimos), sendo que 48,3% dos operários não atingem a faixa de 2 mínimos.</p>
<p style="text-align: justify;">Estrutura análoga verifica-se no setor de transportes, engrenagem vital da Zona Leste: com 94,4% de vínculos formais sob a CLT, o setor registra remuneração mediana de R$ 3.350 (2,37 SM), acumulando 41,4% de seus profissionais situados abaixo de 2 salários mínimos. O quadro expõe o drama do trabalhador de carteira assinada cuja remuneração sequer cobre os custos de reprodução da sua própria força de trabalho frente ao encarecimento da habitação e da mobilidade metropolitana. Longe de mitigar a espoliação material, a formalidade do contrato apenas a quantifica com precisão matemática no contracheque<strong>[1]</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">É precisamente nesse chão material que a gramática do coaching encontra seu solo mais fértil. Sob a lógica da economia narrativa, prevalecem as linguagens capazes de oferecer a estrutura mais eficaz para processar as angústias da experiência vivida. O coach entrega ao trabalhador da Zona Leste a arquitetura clássica da gramática autoritária: o arco de decadência e redenção, a identificação nítida do inimigo (o &#8216;sistema&#8217;, o Estado, a burocracia), a promessa de um protagonismo individual imediato e a completa dispensa de mediações corporativas. Trata-se de uma sintaxe que opera abaixo da consciência reflexiva do sujeito — não é necessário dominar suas regras formais para reproduzi-la no cotidiano da sobrevivência.</p>
<figure id="attachment_159581" aria-describedby="caption-attachment-159581" style="width: 340px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159581" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem7.png" alt="" width="340" height="191" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem7.png 340w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem7-300x169.png 300w" sizes="auto, (max-width: 340px) 100vw, 340px" /><figcaption id="caption-attachment-159581" class="wp-caption-text">Gráfico 7 — Top 10 zonas de Marçal: comparativo com Boulos e Nunes. Destacam-se as zonas da Zona Leste histórica. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>III. Do chão batido aos gabinetes: a retração da esquerda ao Centro e a tutela na periferia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A distribuição territorial do eleitorado de Guilherme Boulos projeta o espelho inverso daquilo que a narrativa progressista tradicional esperava. O candidato do PSOL não fincou suas maiores estacas na Zona Leste histórica, mas em dois polos sociologicamente antagônicos: o Centro Expandido (Pinheiros, Vila Mariana, Perdizes, Bela Vista) e a franja periférica de formação mais recente (Capão Redondo, Guaianases, Cidade Tiradentes, São Mateus e Campo Limpo).</p>
<figure id="attachment_159582" aria-describedby="caption-attachment-159582" style="width: 323px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159582" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem8.png" alt="" width="323" height="186" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem8.png 323w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem8-300x173.png 300w" sizes="auto, (max-width: 323px) 100vw, 323px" /><figcaption id="caption-attachment-159582" class="wp-caption-text">Gráfico 8 — Percentual médio de votos em Boulos por perfil territorial. Desempenho mais forte no Centro Expandido e na periferia distante. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;">Essa periferia distante — onde Boulos registrou seu melhor desempenho popular — caracteriza-se pela urbanização recente, pela baixa densidade de postos de trabalho e pela ausência de uma tradição fabril territorializada. <strong>[2]</strong> Ocorre que esse isolamento não constitui um mero detalhe geográfico, mas o resultado direto da metamorfose da esquerda combativa em esquerda de Estado: encerradas no formalismo corporativo dos setores organizados, as estruturas sindicais deram as costas aos trabalhadores informais, enquanto os quadros partidários de esquerda, convertidos em técnicos e gestores do Estado, desativaram a presença no território por considerarem a mobilização popular incompatível com a sua nova função de administradores da ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante desse duplo deslocamento — corporativo e partidário —, a presença da esquerda nesses territórios deu-se quase exclusivamente pela via das lutas por moradia, das redes de solidariedade comunitária e da cobertura da assistência social, e não pelo enfrentamento direto do conflito entre patrão e trabalhador no local de produção ou de moradia. Nesses bairros, portanto, a atuação da esquerda governista estruturou-se na chave da tutela institucional, substituindo a solidariedade autônoma de classe pela intermediação burocrática junto às próprias instâncias do aparato público. Em contrapartida, a força de Boulos no Centro Expandido — cujo ápice registrou-se na Bela Vista, com 43,65% dos votos válidos — revela que seu núcleo eleitoral mais denso advém das zonas de alta renda e elevada escolaridade. Trata-se da geografia de reprodução das novas elites intelectuais e tecnocráticas, onde o discurso identitário e a pauta da gestão progressista da cidade encontram ressonância imediata — operando em um plano abstrato, blindado das agruras materiais e do confisco do tempo que martirizam o cotidiano do trabalhador no trecho metropolitano.</p>
<figure id="attachment_159583" aria-describedby="caption-attachment-159583" style="width: 292px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-159583" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9.png" alt="" width="292" height="222" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9.png 292w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9-80x60.png 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/08/imagem9-100x75.png 100w" sizes="auto, (max-width: 292px) 100vw, 292px" /><figcaption id="caption-attachment-159583" class="wp-caption-text">Gráfico 9 — Dispersão por zona eleitoral: Marçal × Boulos. Zonas acima da linha diagonal = Boulos à frente; abaixo = Marçal à frente. Fonte: TSE, 2024. Elaboração do autor.</figcaption></figure>
<p style="text-align: justify;"><strong>IV. O voto como escolha gramatical racional</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A reação habitual da esquerda a estes números insiste no diagnóstico que a Parte I caracterizou como sintoma: o recurso preguiçoso à ideia de que o trabalhador periférico &#8216;não sabe votar&#8217; ou é refém de &#8216;alienação&#8217;. Trata-se de uma manobra típica da moralidade identitária — transmutar o estrangulamento material do sujeito em defeito de sua consciência. Se Faye explica a circulação da gramática do coaching, falta decifrar por que a linguagem de classe atrofiou. A gramática totalitária reproduz-se sem necessidade de regência central: ganha escala porque cada indivíduo, ao utilizá-la, a ratifica no espaço social. O inverso é verdadeiro: a gramática de classe não exige aparatos burocráticos para pulsar — exige enraizamento no chão do bairro, da fábrica, do escritório – das relações sociais de trabalho. E foi precisamente esse chão que a esquerda evacuou.</p>
<p style="text-align: justify;">O nó do problema é claro: a gramática totalitária não triunfou por superioridade teórica na Zona Leste, mas por ter herdado o vazio deixado pela retirada das lutas sociais. O operário da Vila Matilde não se tornou um convertido; ficou desprovido de linguagem de classe. Esse deserto gramatical constitui o desfecho inescapável do acoplamento do sindicalismo e dos partidos de esquerda às engrenagens do Estado Amplo. Trata-se de um longo processo de assimilação no qual os órgãos de combate, ao se converterem em burocracias, abandonaram a organização autônoma do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a entidade sindical assume o controle de fundos de investimento, o trabalhador que a rejeita não está alienado: está formulando um diagnóstico lúcido sobre uma estrutura que se virou contra ele. O problema é que essa recusa justa é tragada por uma narrativa que perpetua a sua espoliação.</p>
<p style="text-align: justify;">A derrocada do sindicalismo tradicional não gerou um vácuo inerte, mas uma zona gramatical desprotegida. A gramática totalitária — leve, descentralizada e viral — move-se com desenvoltura nesses espaços abandonados. O coach não derrotou a burocracia sindical na arena das ideias; simplesmente ocupou o espaço que esta desocupou ao se metamorfosear em capital.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalhador que reage contra esse ecossistema exerce uma leitura precisa da sua estagnação — ainda que o seu voto acabe prisioneiro de uma gramática autoritária. O rótulo de &#8216;pobre de direita&#8217; serve apenas para blindar a esquerda governista de sua própria falência territorial, recusando-se a enxergar a razão material do protesto. Com isso, cumpre-se rigorosamente a máxima de Faye: quando a linguagem de libertação deixa de habitar o cotidiano, a gramática totalitária não precisa vencer o debate de ideias — basta-lhe a posse do terreno vago.</p>
<p style="text-align: justify;">A narrativa do coach-empreendedor converteu-se na única gramática de agência que o sistema manteve aberta para quem vive sob o confisco do rendimento real, a expulsão do mercado formal e a desregulamentação absoluta. Diante do cinismo das linguagens institucionais herdeiras do iluminismo gerencial, a teologia do empreendedorismo de si performa uma falsa liberdade — mas entrega o único simulacro de protagonismo disponível no ecossistema criado pela própria gramática totalitária.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>V. A acusação moral como escudo da burocracia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O insulto revela a estrutura. Ao rotular o espoliado periférico de “alienado” ou “pobre de direita”, a esquerda identitária reproduz o exato dispositivo que a Parte I identificou como marca do pós-fascismo: a essencialização do sujeito, a substituição da análise materialista pelo veredicto moral, a recusa da mediação em favor da condenação. O que torna esse dispositivo particularmente revelador é que ele opera nos dois polos do campo de esquerda — e de formas simétricas. A esquerda governista, assimilada pelo Estado Amplo, converte a crítica de classe em gestão identitária de conflitos: administra as diferenças sem tocar nas relações de exploração que as produzem. A extrema-esquerda, encastelada em sua pureza doutrinária, recusa o contato com a classe real porque a classe real não corresponde ao sujeito histórico que seus textos prescrevem. Ambas produzem o mesmo resultado prático: o terreno vago. Uma o produz por integração ao capital; a outra, por horror ao chão.</p>
<p style="text-align: justify;">Reed Jr. e Michaels dissecaram o mecanismo nos Estados Unidos: a centralidade identitária desloca o conflito de classe para um terreno perfeitamente palatável às elites corporativas. No caso brasileiro, o deslocamento tem uma especificidade: foi operado em parte pelas mesmas estruturas que deveriam ser seu antídoto. A burocracia sindical que gere fundos de pensão e senta em conselhos de administração não apenas deixou de representar o trabalhador — tornou-se parte do sistema que o explora. O rótulo de “pobre de direita” é a última linha de defesa dessa burocracia: enquanto o trabalhador da Zona Leste for visto como problema cognitivo, não será necessário enfrentar a ruptura estrutural que a própria esquerda produziu.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>VI. A gramática e o território</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A eleição de 2024 em São Paulo traduz no território o que a análise teórica demonstrou no plano discursivo: a gramática totalitária encontrou no antigo cinturão operário o seu solo mais fértil precisamente porque as instâncias de mediação de classe se retiraram do chão da fábrica e do bairro.</p>
<p style="text-align: justify;">O que a evidência empírica confirma não é uma mera correlação estatística entre espoliação e voto — isso qualquer regressão linear produziria. O que os dados escancaram é um paradoxo histórico: a Zona Leste, berço da maior densidade de organização trabalhadora desta metrópole, tornou-se o epicentro de adesão a uma narrativa que dissolve a consciência de classe no empreendedorismo de si. Não se trata de coincidência, mas de causalidade funcional: a gramática totalitária não penetrou apesar da tradição operária, mas através da casca em que essa tradição se converteu ao integrar-se às funções gerenciais do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">O contradiscurso possível não virá da tutela moral de uma burocracia partidária. Virá da reconstrução de uma linguagem enraizada no chão da vida cotidiana — no tempo espoliado no transporte, na conta que não fecha, no rendimento real confiscado pela metrópole. Somente uma gramática que coloque a exploração material no centro, oferecendo pertencimento sem exigir submissão à etiqueta gerencial, poderá romper os labirintos digitais do capital. A disputa decisiva não é pela conversão moral do indivíduo, mas pela posse das palavras que dão sentido à dor do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">E aqui está o verdadeiro paradoxo que os dados revelam: a Zona Leste não foi capturada pela gramática do coach apesar de ter sido o berço do sindicalismo combativo. Foi capturada por causa do que esse sindicalismo se tornou. O fascismo pós-fascista não precisou vencer a tradição operária da Vila Matilde — bastou-lhe aguardar que ela se desintegrasse por dentro. O triunfo da gramática totalitária no antigo cinturão operário de São Paulo não é uma vitória ideológica: é o resultado de uma vacância. Enquanto essa vacância não for preenchida por uma gramática que nomeie a exploração com a precisão com que os dados a revelam, o ônibus das cinco da manhã continuará sendo o veículo em que a gramática sem dono faz seus recrutamentos. Até quando os gabinetes continuarão culpando os trabalhadores pelo deserto que eles próprios produziram?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Notas</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong> Nota metodológica: Os dados setoriais da RAIS referem-se ao município de São Paulo como um todo. O geocruzamento RAIS × distrito — que estabelece a densidade de postos de trabalho por unidade territorial e sua correlação com o resultado eleitoral por zona.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>[2]</strong> A assimetria entre distritos-polo e distritos-dormitório constitui o dado estrutural que ancora empiricamente o argumento desta seção. Enquanto Itaim Bibi registra densidade de emprego formal equivalente a 420% de sua PEA residente — absorvendo, portanto, força de trabalho de outros territórios —, Itaim Paulista e Cidade Tiradentes, distritos nucleares da Zona Leste, operam com densidades de 15% e 16%, respectivamente. O trabalhador residente nesses distritos não apenas recebe menos: trabalha em outro território, percorrendo diariamente a distância entre o dormitório periférico e o polo atrator, o que explica de forma estrutural, e não apenas estatística, os 83% de dependência exclusiva do transporte coletivo registrados pela OD 2023.</p>
<p><em><strong>*</strong> A publicação deste artigo foi dividida em duas partes, com publicação semanal:<br />
<a href="https://passapalavra.info/2026/07/159515/">Parte 1</a></em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Referências</strong></p>
<p style="text-align: justify;">BERNARDO, João. Capital, gestores, sindicato. São Paulo: Vértice, 1987.<br />
BERNARDO, João. Labirintos do Fascismo. Porto: Afrontamento, 2015.<br />
BERNARDO, João. Do sindicalismo de negócios ao negócio sindical. Passa Palavra, 3 jul. 2019. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2019/07/127156" href="https://passapalavra.info/2019/07/127156" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://passapalavra.info/2019/07/127156</a>.<br />
BERNARDO, João; PEREIRA, Luciano. Capitalismo Sindical. São Paulo: Xamã, 2008.<br />
COMPANHIA DO METROPOLITANO DE SÃO PAULO. Pesquisa Origem e Destino 2023. São Paulo: Metrô, 2025.<br />
FAYE, Jean-Pierre. Langages Totalitaires: critique de la raison, l&#8217;économie narrative. Paris: Hermann, 1972.<br />
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico 2022: Agregados por Setores Censitários. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.<br />
KOWARICK, Lúcio (org.). As lutas sociais e a cidade: São Paulo, passado e presente. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1994.<br />
REED JR., Adolph; MICHAELS, Walter Benn. No Politics but Class Politics. Londres: ERIS, 2023.<br />
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Votação nominal por município e zona — Eleições 2024. Disponível em: &lt;<a class="urlextern" title="https://dadosabertos.tse.jus.br" href="https://dadosabertos.tse.jus.br" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://dadosabertos.tse.jus.br</a>&gt;. Acesso em: jul. 2026.</p>
<p style="text-align: center;"><em>A obra que ilustra o artigo é da autoria de Paulo Ito (1978-).</em></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A gramática sem dono &#8211; Parte I</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jul 2026 15:46:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Fascismo]]></category>
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					<description><![CDATA[Quando ambos os polos passam a falar rigorosamente a mesma língua, a gramática totalitária se consuma. Por Marcelo Phintener]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Marcelo Phintener</h3>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Coerência sem coordenação: a gramática totalitária do Partido Digital Bolsonarista</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Há um enigma no centro de qualquer análise do bolsonarismo: como um movimento sem estrutura formal, sem programa unificado e sem disciplina institucional clássica produz uma coerência discursiva que partidos tradicionais raramente conseguem manter?</p>
<p style="text-align: justify;">A resposta a esse enigma encontra um marco fundamental na pesquisa do CCI/Cebrap publicada em <em>O Partido Digital Bolsonarista</em>. O livro demonstra que o movimento possui uma arquitetura organizativa real: hierarquias informais, cadeias de lealdade consolidadas e uma coordenação capilarizada pelas redes. É o mapeamento indispensável da engrenagem do ecossistema.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas há uma coerência que se manifesta mesmo onde a coordenação direta não alcança. Um pastor no Maranhão, um general em Brasília, um influenciador em São Paulo e um vereador no interior do Paraná podem nunca ter operado na mesma cadeia de comando e, ainda assim, produzem variações precisas do mesmo texto profundo.</p>
<p style="text-align: justify;">É nesse horizonte que Jean-Pierre Faye, em <em>Langages Totalitaires: critique de la raison, l&#8217;économie narrative</em> (1972), oferece o instrumental para nomear o que cimenta esse ecossistema: não apenas a coordenação, mas a existência de uma gramática que opera num nível anterior a qualquer articulação consciente.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O que é uma gramática política</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Faye usa o termo “gramática” num sentido estrito: não como as regras formais da língua, mas como a estrutura subterrânea que determina o que pode ser dito, como pode ser dito e quais combinações de imagens e narrativas são possíveis dentro de um campo. Uma gramática política é o conjunto de regras implícitas que organiza a produção e a circulação do discurso: define quem é o inimigo, quais emoções são legítimas, que narrativas fazem sentido e quais imagens mobilizam.</p>
<p style="text-align: justify;">O crucial é que essa gramática opera abaixo da consciência política dos falantes. Ninguém precisa conhecer suas regras para aplicá-las. Ela circula — de meme em meme, de sermão em sermão — e se reproduz porque cada falante, ao usá-la, a confirma para os demais. Produz coerência por si mesma, prescindindo de um centro distribuidor ou de uma hierarquia que a imponha.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A gramática bolsonarista: elementos estruturais</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O ecossistema bolsonarista possui uma gramática identificável. Seus elementos têm precedentes históricos — Faye os rastreou na República de Weimar —, mas se manifestam em roupagens novas, adaptadas ao cenário brasileiro e à arquitetura digital.</p>
<p style="text-align: justify;">A gramática bolsonarista é estruturada em torno do inimigo que opera por dentro, não por fora: o infiltrado, o corrompido, o traidor que ocupa posições de poder para destruir a nação. Comunismo, globalismo, “marxismo cultural” e “ideologia de gênero” compartilham a mesma estrutura: forças que contaminam o tecido social a partir de dentro. Disso decorre a necessidade de vigilância, denúncia e expurgo permanentes.</p>
<p style="text-align: justify;">Em oposição ao infiltrado, constrói-se a imagem de uma comunidade idílica pré-contaminação — o Brasil cristão, patriota, trabalhador e de família. Não se trata de uma construção política ou de uma aliança de interesses: é essência. E essências não negociam, restauram-se.</p>
<p style="text-align: justify;">O tempo é organizado em três momentos: um passado de ordem, um presente de decadência e um futuro de purificação — o mito de queda e redenção que Faye identifica nas linguagens totalitárias. Essa temporalidade possui uma eficácia mobilizadora que o reformismo progressista não consegue igualar: cria urgência absoluta, personifica os culpados e oferece salvação pela ação direta.</p>
<p style="text-align: justify;">A violência raramente é celebrada de forma explícita, mas é pressuposta como necessidade lógica: se a restauração exige o expurgo do elemento corruptor, o horizonte final é a eliminação simbólica ou física do inimigo. O líder, por sua vez, não representa a comunidade no sentido político-formal; ele a encarna, sem mediações. Daí a impossibilidade da crítica: contestar o líder não é exercer um direito democrático, é atacar a comunidade — e o crítico automaticamente se torna inimigo interno.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159519" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1022569960.jpg" alt="" width="410" height="615" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1022569960.jpg 410w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1022569960-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1022569960-280x420.jpg 280w" sizes="auto, (max-width: 410px) 100vw, 410px" />Como a gramática circula: a simbiose digital</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Embora os elementos dessa gramática remontem ao início do século XX, seu ambiente de circulação é inédito. As plataformas digitais funcionam como máquinas de replicação: não distribuem programas políticos complexos, mas fragmentos discursivos de alta velocidade — memes, cortes de vídeo, frases de efeito e reações.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada fragmento é pequeno demais para carregar uma posição ideológica completa, mas transporta os genes da gramática. É essa circulação molecular acumulada que satura o debate público. O algoritmo não possui ideologia partidária, mas sua lógica de engajamento favorece reações emocionais intensas, polarização e pânico moral. A gramática totalitária se ajusta a esse ecossistema não por coordenação prévia, mas por afinidade estrutural com a arquitetura das redes.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>A antropofagia reacionária: a captura do identitarismo</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O avanço desse ecossistema revela uma das operações mais sofisticadas do fascismo pós-fascista: ele não combate as pautas identitárias da esquerda, ele as deglute, mimetiza sua estrutura discursiva e as devolve como um espelho invertido. Essa captura opera por dispositivos gramaticais precisos.</p>
<p style="text-align: justify;">Primeiro, ocorre a inversão do lugar de fala. A extrema-direita se apropria da gramática que estrutura o debate em torno de opressão e vulnerabilidade para posicionar sua própria base — o homem comum, trabalhador, heterossexual, cristão — como a verdadeira minoria perseguida. As pautas de inclusão passam a ser lidas como privilégios outorgados por elites burocráticas (o consórcio entre imprensa, judiciário e academia). O ressentimento é assim legitimado: o cidadão comum reivindica o estatuto de vítima de um sistema que confisca seu rendimento e seu tempo em nome do politicamente correto.</p>
<p style="text-align: justify;">A gramática totalitária não se esquiva da fragmentação promovida pela esquerda; instrumentaliza-a como contraexemplo para erigir um identitarismo de sinal invertido — o hiperidentitarismo nacional-cristão. Em vez de atomizar o sujeito político, oferece uma essência unificada e excludente: o “verdadeiro patriota”. É uma matriz de pertencimento de consumo imediato, projetada para purificar o indivíduo de suas contradições materiais.</p>
<p style="text-align: justify;">O trabalhador precarizado — submetido diariamente a longos deslocamentos e à espoliação de seu rendimento — sofre, ao absorver esse código, uma mutação perceptiva: deixa de interpretar sua condição pelo prisma da exploração e passa a se ver como célula de uma comunidade orgânica ameaçada. É um curto-circuito analítico que sequestra o ressentimento material legítimo e o canaliza para a defesa metafísica da ordem que o explora.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Coordenação e gramática</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O mapeamento de Nobre e Teixeira evidencia com rigor as cadeias de lealdade, a engenharia do financiamento e os mecanismos de disciplina informal que dão corpo ao PDB. São achados fundamentais para desmistificar a tese de um movimento caótico ou espontâneo. Mas, sob a perspectiva de Faye, essa coordenação é, em grande medida, uma sofisticação secundária da própria gramática — não sua causa primeira.</p>
<p style="text-align: justify;">O PDB alcança tamanha eficácia de coordenação porque seus membros — dispersos, moleculares, muitas vezes desconectados entre si — já compartilham um código comum. É esse código que torna a ação conjunta imediata e orgânica, prescindindo de ordens explícitas ou de uma burocracia centralizada. A gramática funciona como condição de possibilidade da própria organização técnica.</p>
<p style="text-align: justify;">Daí decorre uma implicação crucial: o movimento é mais resiliente do que o modelo organizacional sugere. Tratá-lo apenas como organização leva à suposição de que, ao cortar o financiamento ou decapitar a liderança, o ecossistema colapsa. No entanto, a gramática existe de forma distribuída, em milhões de fragmentos que circulam de maneira autônoma.</p>
<p style="text-align: justify;">É por isso que a derrota eleitoral de Bolsonaro em 2022 não desmantelou o movimento — e nem mesmo a ameaça ou a consumação da prisão de suas figuras de proa tem esse poder. A hierarquia foi perturbada, novas lideranças regionais emergiram, as cadeias de lealdade sofreram disputas internas, mas o texto profundo continuou intacto. A punição jurídica ou a inelegibilidade operam no plano dos indivíduos e da superfície institucional; porém, enquanto a gramática circula e continua a fundar a topografia do aceitável, o campo de força permanece vivo, pronto para ser reativado e performado por novos agentes.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159520" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-3340011516.jpg" alt="" width="474" height="329" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-3340011516.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-3340011516-300x208.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" />A gramática e o coach: Marçal como caso analítico</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">Pablo Marçal é o caso que melhor ilustra a autonomia da gramática frente à coordenação partidária. Outsider, desafiou a hierarquia estabelecida do PDB, disputou o espólio digital do bolsonarismo e emparedou o campo tradicional na eleição municipal de São Paulo em 2024 — à revelia e contra a vontade dos caciques do movimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob a lente da coordenação e das cadeias de lealdade, Marçal é uma anomalia inexplicável. Sob a lente de Faye, é a comprovação da tese: ele não precisou de autorização partidária porque dominava a gramática bolsonarista — a narrativa de decadência e redenção, o ataque ao inimigo interno e a promessa de conexão direta com o líder. Sua inovação foi traduzir essa gramática para o registro do empreendedorismo de si e do <em>coach</em> de autoajuda. Quem domina o código discursivo constrói legitimidade própria no ecossistema, imune ao veto da burocracia organizacional.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>O impasse das gramáticas da esquerda e a conversão totalitária</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O exame da realidade concreta demonstra que o impasse da esquerda contemporânea não decorre de uma mera “falta de estratégia”, mas de uma conversão gramatical já consumada. O campo progressista fraturou-se em dois polos discursivos que, embora não tenham como objetivo deliberado o fortalecimento do fascismo, terminam por alimentá-lo: um deles por incapacidade de formular o contradiscurso materialista, e o outro por converter-se, ele mesmo, em uma nova modalidade de controle burocrático e totalitário.</p>
<p style="text-align: justify;">O primeiro polo, o do universalismo abstrato, esvaziou-se de materialidade social. É uma linguagem institucional herdada do iluminismo jurídico, que articula categorias neutras como “direitos”, “justiça” e “democracia”, mas padece de anemia estética e afetiva. Ao converter a exploração em relatórios gerenciais e a política em gestão tecnocrática, torna-se ininteligível para a classe trabalhadora precarizada, cujo tempo e rendimento são diariamente corroídos. Frente à crueza da sobrevivência, soa como simulacro cínico.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo polo, o da fragmentação identitária, opera a inversão mais trágica. Ao abandonar a crítica da economia política em nome de micropolíticas de nicho, adota uma estrutura homóloga à do próprio fascismo. Sob uma retórica emancipatória, a linguagem identitária contemporânea passa a funcionar como um fascismo pós-fascista.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa mutação formal encontra genealogia histórica precisa nas teses de Zeev Sternhell em <em>O Nascimento da Ideologia Fascista</em>. Sternhell demonstra que o fascismo histórico não emerge de uma herança pura da direita conservadora, mas de uma revisão antimaterialista do marxismo e de uma dissidência interna ao sindicalismo revolucionário do início do século XX. Intelectuais como Georges Sorel, ao repudiarem o economicismo e o racionalismo do marxismo, operaram um entrecruzamento radical: substituíram as leis objetivas do desenvolvimento econômico pelo culto ao mito, à identidade orgânica e à violência regeneradora. Sob essa ótica, Mussolini não traiu o socialismo; ele consumou a premissa antimaterialista que permitiu fundar uma nova topografia de controle.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda identitária contemporânea mimetiza essa rota, fazendo as vezes de um novo tipo de nacionalismo. Se o nacionalismo clássico erguia o mito de uma comunidade de sangue e solo para neutralizar as fraturas de classe e exigir lealdade absoluta a uma essência abstrata, o identitarismo contemporâneo opera o mesmíssimo cercamento sob a forma de uma comunidade de trauma e biologia.</p>
<p style="text-align: justify;">A nação cede lugar ao gueto identitário, mas a mecânica política é idêntica: o pertencimento cultural ou biológico sobrepõe-se à condição material de classe. Dentro das fronteiras desse novo nacionalismo molecular, aciona-se o dispositivo da pureza e do expurgo permanente: o debate é substituído por tribunais inquisitoriais digitais, onde a dissidência conceitual é tratada como traição à pátria-identidade, um crime de contaminação moral que exige o cancelamento e a eliminação reputacional do indivíduo. Não há espaço para a contradição ou para a mediação: a essência do grupo é sagrada; o outro é o infiltrado permanente.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse arranjo, a universidade contemporânea atua como um dos mais potentes aparelhos privados de hegemonia do Estado Amplo: o cancelamento não constitui um acaso ou excesso isolado, mas sim uma tecnologia institucionalizada de poder. No interior da academia, o desvio conceitual é formalmente tipificado como heresia, mobilizando processos administrativos, a censura de linhas de pesquisa, a exclusão de bancas, reprovações sumárias e o bloqueio preventivo de contratações e publicações. A universidade passa a funcionar, portanto, como a alfândega ideológica que valida quem possui a pureza linguística necessária para ascender às novas elites.</p>
<p style="text-align: justify;">É a incompreensão dessa captura que alimenta o senso comum de certa esquerda contemporânea, cuja resposta tem sido a defenestração sumária e o desprezo pelo chamado “pobre de direita”. Ao converter captura linguística em falha moral do trabalhador, essa esquerda desconversa as razões de sua própria falência. Cancela-se o sujeito real para não enfrentar a realidade material — e esse moralismo valida a narrativa bolsonarista do inimigo infiltrado. Quando o discurso progressista rotula o espoliado periférico como “alienado” por buscar refúgio na teologia da prosperidade, carimba seu próprio divórcio das bases materiais. O vazio é preenchido por um policiamento de costumes que empurra o trabalhador para o único espaço que lhe oferece pertencimento místico e explicação totalizante para sua dor: o laboratório digital do pós-fascismo.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159518" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-2906373676.jpg" alt="" width="474" height="316" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-2906373676.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-2906373676-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" />A plasticidade estrutural e a captura das elites</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">É neste ponto que se revela o verdadeiro pulo do gato do fascismo pós-fascista: sua plasticidade estrutural, um fenômeno que remete diretamente às teses de João Bernardo em <em>Labirintos do Fascismo</em>. Bernardo desfaz a ilusão liberal e descortina o mito da virgindade das democracias representativas, demonstrando que estas jamais estiveram imunes ou descomprometidas com o fascismo. Longe de haver uma separação estanque entre o Estado Restrito (o aparato político-jurídico clássico de governos, parlamentos e tribunais) e o Estado Amplo (a rede difusa de corporações, fundações, aparelhos de hegemonia e, contemporaneamente, as plataformas digitais), o fascismo não destrói essas esferas: integra-as numa totalidade funcional.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante disso, desaba a objeção convencional de que a esquerda identitária careceria do aparato de força estatal para constituir uma modalidade pós-fascista. A posse do aparato clássico de coerção não é o critério que distingue a homologia formal, pois ambos os campos mobilizam instâncias de poder complementares. O que unifica a extrema-direita bolsonarista e a esquerda identitária é operarem como projetos agressivos de circulação e remodelação das elites no capitalismo. Ambas visam à ocupação dos postos de comando; o que muda é a distribuição de suas forças no interior do Estado.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto a extrema-direita bolsonarista prioriza a colonização do Estado Restrito acoplada às milícias digitais do Estado Amplo, a gramática identitária de esquerda opera uma hibridização simétrica:</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li class="level1">
<div class="li"><strong>No Estado Amplo:</strong> a remodelagem ocorre pela via positiva da ocupação gerencial: o domínio do código identitário vira critério de recrutamento e ascensão em diretorias, conselhos, fundações e oligopólios de mídia. E pela via negativa, contra os dissidentes do código: demissões por pressão empresarial, boicotes econômicos, exclusão dos circuitos editoriais e acadêmicos.</div>
</li>
<li class="level1">
<div class="li"><strong>No Estado Restrito:</strong> a estratégia é homóloga: opera-se a ocupação de cargos de confiança nos altos escalões — ministérios, secretarias e conselhos reguladores —, transformando o jargão identitário em pré-requisito de governança e critério de fomento estatal, até a positivação jurídica de seus códigos. Capturado, o aparato punitivo do tribunal clássico passa a sancionar o desvio conceitual, fundindo a coerção penal do Estado Restrito com o linchamento moral do Estado Amplo.</div>
</li>
</ul>
<p style="text-align: justify;">A convergência não se esgota na infraestrutura digital das redes, mas se consuma na sua articulação com o próprio território. As plataformas e as <em>Big Techs</em> lucram com a extração de valor dessa guerra cultural permanente enquanto as novas elites burocráticas — públicas e privadas — disputam os postos de comando. Enquanto isso, a exploração do trabalho, a expropriação do tempo e o confisco do rendimento real permanecem intocados à sombra do espetáculo discursivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Para Bernardo, o traço distintivo do fascismo pós-fascista dos identitarismos está menos na ideologia declarada e mais nas modalidades organizativas: os antigos métodos de intimidação corporal cedem lugar às engrenagens virtuais do linchamento digital e do isolamento reputacional (BERNARDO, 2024). O fascismo sobrevive e se sofistica na exata medida em que transfere sua eficácia coercitiva para a esfera das interações em rede — renovando-se por meio de aparências e vocabulários que simulam o oposto de sua matriz histórica.</p>
<p style="text-align: justify;">Bernardo não está isolado nessa constatação, embora a formule com mais radicalidade. A crítica de dentro da própria esquerda à gramática identitária fragmentada tem genealogia própria. O teórico britânico Mark Fisher, num ensaio de 2013, descreveu o que chamou de “Castelo dos Vampiros”: uma cultura de denúncia pública movida por um desejo quase sacerdotal de excomungar, na qual toda a identidade de alguém pode ser reduzida a um deslize de linguagem. Para Fisher, essa cultura torna a solidariedade impossível, substituindo a ação coletiva pela vigilância recíproca do comportamento individual.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos Estados Unidos, Adolph Reed Jr. e Walter Benn Michaels sustentam tese semelhante por outro caminho: a centralidade dada às disparidades identitárias obscurece o que produz a desigualdade material, deslocando o conflito de classe para um terreno gerenciável pelas próprias elites. Não é acidental que o próprio Reed, socialista negro com décadas de militância, tenha tido uma palestra cancelada em 2020 por um núcleo da <em>Democratic Socialists of America</em>, que classificou sua intervenção como reacionária e reducionista de classe. O episódio ilustra com precisão o mecanismo: a crítica interna tratada não como divergência legítima, mas como contaminação a expurgar.</p>
<p style="text-align: justify;">O mecanismo se repete em padrões reconhecíveis: o intelectual de longa trajetória que, ao formular uma divergência tática, é reclassificado retroativamente como inimigo da causa; o professor que, pela imprecisão didática de uma aula, é denunciado a partir de um fragmento de vídeo descontextualizado; a escritora que, ao discordar de uma ortodoxia vocabular, é banida de festivais. Em todos os casos, a estrutura é a mesma que Bernardo descreve para o fascismo clássico: o expurgo não precisa de prova, precisa de suspeita; a pureza do grupo importa mais que a verdade; a punição serve menos para corrigir o indivíduo e mais para reafirmar os limites coercitivos da comunidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O padrão encontrou um caso emblemático em fevereiro de 2025. A psicanalista Maria Rita Kehl — figura histórica da esquerda brasileira e membra da Comissão Nacional da Verdade — foi alvo de linchamento virtual após criticar o “nicho narcísico” do movimento identitário. Os detratores não refutaram seu argumento: resgataram a figura de seu avô, um eugenista do início do século XX, e passaram a editar sua biografia na Wikipédia para sublinhar uma suposta “degenerescência hereditária” — termo retirado do próprio vocabulário eugenista que a esquerda historicamente combateu. Décadas de produção intelectual e militância foram substituídas pela genealogia biológica. É o mecanismo de Bernardo: não importa o que o sujeito fez, importa a contaminação essencialista que ele supostamente carrega.</p>
<p style="text-align: justify;">No ambiente das plataformas digitais — que extraem valor da fratura, do pânico moral e do engajamento pelo ódio —, a fragmentação identitária da esquerda e o hiperidentitarismo nacional-cristão da direita operam em simbiose algorítmica real. É o processo de convergência que Bernardo identifica como gerador do fascismo, atualizado para o ecossistema digital. A esquerda identitária, ao adotar a gramática do expurgo e da pureza, fornece ao pós-fascismo uma de suas modalidades renovadas, enquanto a exploração do trabalho e a expropriação do tempo seguem operando à sombra do espetáculo, em ambos os campos.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159521" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1223" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-scaled.jpg 2560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-300x143.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-1024x489.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-768x367.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-1536x734.jpg 1536w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-2048x978.jpg 2048w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-879x420.jpg 879w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-640x306.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/XUhhQpLT7k9PqrqzFayX-u2WHwpAw6FfnvY3xyZOl-3101924087-681x325.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" />A gramática sem dono</strong></h4>
<p style="text-align: justify;">O Partido Digital Bolsonarista é, na superfície, a máquina de coordenação descrita por Nobre e Teixeira: hierarquia, lealdades e mobilização digital. Sob essa camada, contudo, opera o texto profundo de uma gramática totalitária que, nos termos de João Bernardo, já não pertence a um único espectro político. O fascismo pós-fascista é o nome do resultado quando essa gramática atravessa, por convergência, tanto o bolsonarismo quanto os identitarismos que se imaginam seus opostos.</p>
<p style="text-align: justify;">O diagnóstico do presente revela que o fascismo pós-fascista não é um quartel-general a ser sitiado, nem uma organização a ser desmontada por decretos judiciais ou pela regulação de plataformas. É, antes de tudo, uma gramática consolidada por uma arquitetura digital que favorece a exclusão, a essencialização do sujeito, a paranoia do inimigo interno e o linchamento molecular — uma gramática cuja origem e função histórica recente pertencem ao bolsonarismo, mas cuja circulação já não respeita fronteiras ideológicas.</p>
<p style="text-align: justify;">A esquerda identitária fragmentada revela-se uma modalidade desse fenômeno. Não se trata de uma analogia retórica ou de uma provocação, mas do reconhecimento de uma homologia formal: a reprodução exata dos dispositivos de essencialização, paranoia do inimigo interno e expurgo permanente, transpostos para o Estado Amplo, para a arena virtual e para os escalões do Estado Restrito. Isso não apaga as distinções de escala e método que separam o gueto inquisitorial identitário da violência miliciana bolsonarista; mas a diferença de dinâmica não autoriza a recusa do nome.</p>
<p style="text-align: justify;">A coerência do ecossistema dispensa coordenação centralizada porque a gramática que o atravessa possui uma capacidade de circulação molecular que excede qualquer filiação política declarada, colonizando inclusive a inteligência discursiva de quem se imagina seu opositor. O verdadeiro triunfo do fascismo pós-fascista não está na eliminação física dos adversários, mas na sua conversão formal. Quando ambos os polos passam a falar rigorosamente a mesma língua — a da pureza mística, do linchamento reputacional e da aniquilação do outro —, a gramática totalitária se consuma. Enquanto essa guerra cultural permanente satura as redes e remodela as elites burocráticas, as engrenagens materiais da exploração do trabalho, da expropriação do tempo e do confisco do rendimento real permanecem blindadas, à sombra dos labirintos digitais.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159516" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513.jpg" alt="" width="474" height="355" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513.jpg 474w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/07/OIP-1124428513-238x178.jpg 238w" sizes="auto, (max-width: 474px) 100vw, 474px" /></strong></h4>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são de obras de Damian Ortega.</em></p>
<p><em><strong>* </strong>A publicação deste artigo foi dividida em XX partes, com publicação semanal:<br />
<a href="https://passapalavra.info/2026/08/159568/">Parte 2</a></em></p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Referências</strong></h4>
<ul>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">BERNARDO, João. <em>Labirintos do Fascismo</em>. Porto: Afrontamento, 2015.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">BERNARDO, João. “Quem é o quê?”. <em>Passa Palavra</em>, 19 dez. 2024. Disponível em: <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2024/12/155419/" href="https://passapalavra.info/2024/12/155419/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">https://passapalavra.info/2024/12/155419/</a>.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">FAYE, Jean-Pierre. <em>Langages Totalitaires: critique de la raison, l&#8217;économie narrative</em>. Paris: Hermann, 1972.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">FISHER, Mark. “Exiting the Vampire Castle”. <em>The North Star</em>, 2013.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">NOBRE, Marcos; TEIXEIRA, Ana Claudia (org.). <em>O Partido Digital Bolsonarista</em>. São Paulo: CCI/Cebrap, 2026.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">TONIOL, Rodrigo. “O cancelamento de Maria Rita Kehl e as armadilhas do identitarismo”. <em>Folha de S. Paulo</em>, 12 fev. 2025. Republicado no <em>Blog da Boitempo</em>.</div>
</li>
<li class="level1" style="text-align: justify;">
<div class="li">REED JR., Adolph; MICHAELS, Walter Benn. <em>No Politics but Class Politics</em>. Londres: ERIS, 2023.</div>
</li>
<li class="level1">
<div class="li" style="text-align: justify;">STERNHELL, Zeev; SZNAJDER, Mario; ASHÉRI, Maia. <em>The Birth of Fascist Ideology: from cultural rebellion to political revolution</em>. Princeton: Princeton University Press, 1994.</div>
</li>
</ul>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Dez anos de uma quase-organização: entrevista com o Grupão</title>
		<link>https://passapalavra.info/2026/06/159296/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jun 2026 14:23:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho_e_sindicatos]]></category>
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					<description><![CDATA[Talvez a tarefa dos revolucionários nesse tempo histórico de neblina seja manter acesa um pouco essa mínima capacidade de inventar contra o modo de ser das coisas. Por Pensamiento y Batalla entrevista Grupão]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Pensamiento y Batalla entrevista Grupão</h3>
<p style="text-align: justify;">Após viagens ao Brasil entre 2024 e 2025, companheiros da editora militante chilena Pensamiento y Batalla (PyB) organizaram um livro reunindo entrevistas a coletivos com os quais tiveram contato, compondo um panorama de perspectivas e trajetórias diversas na militância anticapitalista e antiestatal em várias partes do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre os grupos entrevistados, está o nosso: uma rede mais ou menos informal de camaradas que, desde 2016, se reúne duas ou mais vezes por ano para discutir teoria e prática da luta de classes. Sem a pretensão de criar uma cara pública, chamamos essas reuniões entre nós simplesmente de “Grupão”. Foi a forma que encontramos para que camaradas que se aproximaram no intenso período em torno de 2013 continuassem em contato: uma auto-organização de “resíduos” das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;">O Grupão foi um espaço de reflexão sobre nossas derrotas, tanto da incorporação à ordem das organizações produzidas no ciclo dos anos 1970-80, quanto dos limites das revoltas deste século. Ao mesmo tempo, a existência da nossa articulação também permitiu que companheiros mantivessem esforços de investigação, ação e reflexão sobre a conjuntura e as novas lutas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando sintetizamos nossos debates em textos coletivos, a falta de uma identidade pública gerou um problema de apresentação. No livro <em>Incêndio</em>, de 2022, por exemplo, usamos a assinatura de “um grupo de militantes na neblina” (estamos “na neblina”, já que o horizonte revolucionário parece encoberto nesse tempo…). Com isso, tentamos preservar a característica difusa e as divergências que existem dentro do Grupão. Para a entrevista aos chilenos, a solução foi outra: reunimos cinco colegas de diferentes estados (Goiás, Minas Gerais e São Paulo), respondemos às perguntas oralmente e as transcrevemos, apresentando um pouco de nossas polêmicas e questões em aberto.</p>
<p style="text-align: justify;">No fim, essa entrevista acabou sendo um dos primeiros documentos públicos que apresenta mais sistematicamente o Grupão nesses 10 anos. Se o texto já está circulando em espanhol, passou da hora de publicá-lo também em português, então enviamos ao Passa Palavra.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PyB &#8211; Em quais outras cidades ou estados brasileiros, além da grande São Paulo, há núcleos organizados da sua rede? Como se estrutura essa rede nacionalmente?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X &#8211;</strong> Eu acho difícil falar assim. O termo “núcleos organizados” não necessariamente corresponde à nossa realidade. Tem coletivo de militantes em alguns lugares e, em outros, tem indivíduos militantes que se afinam com os diálogos que a gente desenrola.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y &#8211;</strong> Não tem esse nível de formalização. Em algumas cidades a gente tem uma coisa que é mais nucleada, em outras não. A gente se mantém junto garantindo dois encontros presenciais anuais, em locais onde tem mais pessoas organizadas. Fora isso, essas pessoas fazem reuniões, tanto para pensar a ação política, quanto estudos, reflexões de conjuntura etc. E também existem grupos<em> online</em> que estudam, que discutem junto, de diversos estados do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159297" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907.jpg" alt="" width="964" height="1045" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907.jpg 964w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-277x300.jpg 277w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-945x1024.jpg 945w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-768x833.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-387x420.jpg 387w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-640x694.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo_van_doesburg_composition_in_dissonances-2-964x1045-1612427907-681x738.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 964px) 100vw, 964px" />PyB &#8211; Por que optaram por constituir uma rede mais ou menos informal, e não um grupo público de caráter formal?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> Ai, essa é engraçada, hein?<em> [risos] </em>Porque carrega uma carga. Você tem várias formas. A galera já passou por um monte de coisas, de organização e tal. Ao mesmo tempo, existem vários formatos aí sendo construídos, com mais tempo, menos tempo. Na verdade, a gente não consegue encontrar algo que seja diferente do que a gente já viveu ou do que a gente conhece. Tem um excesso de organização no caso brasileiro, eu acho. E de formas específicas: de núcleos, de articulação de militantes, etc. No cardápio foi experimentado muita coisa. E, quando isso acontece, as possibilidades vão se esvaindo. A impressão que eu tenho é essa: a gente se mantém assim por não ter capacidade de responder essa questão e produzir algo que possa ser coerente e compatível com as coisas que a gente pensa e que a gente faz.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y &#8211;</strong> Eu daria um passo atrás também, no sentido de que não me parece que foi uma opção, num primeiro momento. No primeiro momento, nós saímos de organizações, sejam de caráter mais autonomista ou do marxismo tradicional, que vinham de formas estruturadas e mais bem estabelecidas, em alguns casos bem rígidas. E aí eu acho que o encontro desses militantes coloca a necessidade de pensar em alguma coisa diferente do que a gente tinha vivido antes. Então, acho que a gente é um pouco empurrado para isso. Mas, depois de um certo tempo, sim, se coloca a questão: se a gente deveria se conformar em algo mais formalizado ou não. Aí a gente não quer repetir mais o mesmo. A gente quer pensar em um formato de atuação política distinto. Mas, na verdade, nem o informal é muito claro para a gente, porque não tem nem definições do que seria uma rede informal tão bem estabelecida. Talvez esse seja até o nosso problema. A gente tem que formalizar o informal de alguma forma.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> É, seria uma boa formalizar. Porque daí, por exemplo, no 1º de Maio da CUT e da Força, poderia alguém do Grupão falar em nome da nossa estrutura!<em> [risos]</em> É, então é o dilema. Não dá, né?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211;</strong> A gente pode também responder as perguntas com outra pergunta, sem problema nenhum. Por que a necessidade de fazer isso nesse tempo? A gente não vê a necessidade de pressa para isso. O Camarada Z ia dizer que foi uma condição. Não foi uma escolha. E essa condição é coerente com a situação do conjunto das lutas que operaram nos últimos anos no Brasil. E com a dificuldade mesmo de transpô-las. Como a gente não consegue atravessar esse tempo também, a gente não sabe o justo lugar de fazer formalmente uma nova organização. Nem sequer botar isso como uma pergunta. Talvez não seja uma questão para nós nesse momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> Eu acho que a gente se encontrou num momento que ainda o calor de junho de 2013 ainda estava no ar. Muito movimento na rua, ocupações. E a gente estava muito envolvido nas lutas e nas críticas, e vinha de trajetórias diferentes. Por outro lado, a gente não tinha pressupostos teóricos claramente definidos no grupo. Quando você tem uma teoria claramente definida, é muito mais simples, porque daí você coloca um programa escrito e todo mundo adere àquilo. Mas o que juntou a gente foi muito mais o movimento real. Então não é que a gente não queira se formalizar nunca. Eu acho que tínhamos uma intenção, talvez no começo, de virar uma organização mais definida. O problema é que fomos com muita cautela. O fato de termos saído de outras organizações, como os companheiros já falaram, fazia com que a gente não quisesse repetir algumas coisas que acontecem nesses espaços &#8211; por exemplo, você começar a prezar muito mais os símbolos daquela organização (o nome, a bandeira, as cores), e virar mais a imagem do que o conteúdo em si. E o conteúdo que queríamos era o movimento real. Se for fazer uma comparação com religiões, assim, a gente tentou tirar toda a carcaça de simbologia, de ícones e ficar com o momento do milagre, né? “Testemunhas do movimento real”. Queremos nos manter muito ligados e fiéis ao fenômeno do movimento e, nesse sentido, qualquer exagero de definições poderia afastar a gente do momento vivo da luta. Ao não se definir muito e não se fechar, é uma forma também de continuar aberto para formas novas de lutas, e adaptar a nossa forma de organização a elas. Então, eu acho que tinha essa preocupação em não virar uma seita em volta de símbolos e perder o conteúdo.</p>
<p style="text-align: justify;">E acho que tem medo também: será que se a gente definir muito, vai rachar? Então, fomos ficando numa indefinição. E isso também equilibrou posições divergentes dentro. Eu concordo que não foi uma opção consciente por completo. A gente foi fazendo assim e, quando viu, passou 10 anos. Até hoje funcionou. De certa forma, essa “quase-organização” também chama os participantes à responsabilidade. Porque você não pode dizer: “ah, a organização existe, está lá pronta”. Não. É uma condição permanentemente tensa, ela pode se desfazer. Como ela não é totalmente formalizada, ela não é estável, não independe da gente. Então, a gente está sempre também repensando ela, rediscutindo ela.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X &#8211;</strong> Apesar dessa rede ter esse caráter informal, a gente também tem grupos públicos que se mostram onde atuamos. Beleza, essa rede não se mostra de forma pública, enquanto um grupo, formalmente, etc. Mas, digamos assim, há subconjuntos dessa rede que se mostram publicamente, que se colocam nas lutas, que estão atuando em cidades, etc. Ao longo desse processo, vários grupos se criaram, surgiram, se dissolveram, acabaram. Essa rede é ativa e tem muita troca. Eu acho que as pessoas saem de lugares, vão para outras, e influenciam, incentivam, criam novos grupos. Então eu acho que essa questão da rede é meio dual. Talvez seja uma questão de escala. Numa escala maior, a gente é um grupo de caráter informal, não público, mas se a gente pensar no micro, em certos lugares, no tempo e no espaço, a gente adquire um caráter mais formal e forma grupo público.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211; </strong>Eu acho interessante essa coisa da treta em que a gente se envolveu. Nas tretas, eu acho que a gente produz a forma que tem a ver com a própria necessidade da treta. Por exemplo, no passado, O Mal Educado, as ocupações de escola. A gente produziu ali um tipo de organização.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> A gente vem de um conjunto de experiências, e em algum momento, se produz a necessidade de compreendê-las com uma perspectiva crítica. A gente foi tentando buscar outras possibilidades nas ações que a gente já se envolveu. Porém, isso complexificou muito nossa situação. Fomos buscar a resposta e encontramos mais contradições, e é com elas que nós estamos lidando hoje. O nosso problema não é falta de fazer, é que a gente fez bastante, dentro do que a gente pôde e tal. E isso trouxe contradições concretas, que a gente está agora tentando entender, tentando lidar. Inclusive, isso, em alguns casos, tem inviabilizado até a inserção em algumas coisas, porque estamos lidando com esse drama.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159299" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316.jpg" alt="" width="860" height="386" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316.jpg 860w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-300x135.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-768x345.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-640x287.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/Theo_van_Doesburg-Rhythmus_eines_russischen_Tanzes-1-860x386-1720529316-681x306.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 860px) 100vw, 860px" />PyB &#8211; Quais são as diversas origens e trajetórias daqueles que participam do espaço de vocês? Vieram de quais lutas e movimentos anteriores?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> Talvez sejam duas origens. Tem uma geração mais velha, que são os que vieram ainda do ciclo de lutas que formou o PT. No caso, essa geração se formou dos anos 1980 para os 90 nos movimentos sociais territoriais: primeiro o Movimento Sem Terra (MST) e, depois, fundando o Movimento Sem Teto (MTST), inicialmente como um braço urbano do MST. O que liga essa história ao Grupão, era uma uma posição interna de defender a tática radical. De achar que era possível, apesar de uma estratégia oficial reformista, tensionar esses movimentos a partir de uma prática combativa, apostando que a radicalidade da ação direta poderia transformar o conteúdo também desses movimentos. Tinha a ver com o setor de “frente de massas”, que era o responsável por fazer a ocupação, por organizar as resistências aos despejos e outras ações diretas &#8211; expropriações, abrir pedágios, manifestações. A criação do MTST teve a ver com esse tensionamento no MST, de um setor que achava que não bastava o movimento no campo. Se a contradição estava explodindo nas cidades, então tinha que chegar nas periferias urbanas, começar a cercar as rodovias com ocupações de terras. Só que essa experiência, ao mesmo tempo, vinha sendo feita dentro desses movimentos que estavam incorporados na estratégia geral da esquerda, que acabou culminando na eleição do Lula em 2002.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z &#8211;</strong> Isso. A gente acreditava que a ação radical se sobrepunha ao programa reformista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211;</strong> Das organizações formadas no ciclo de lutas dos anos 1970 e 80, o PT logo vai se incorporar ao Estado. O movimento sindical nos anos 1990 já estava entregando direitos para os patrões, a CUT aderiu às câmaras setoriais, as oposições sindicais perdiam espaço. E dos anos 90 para os 2000, os movimentos sociais como o MST eram ainda um ponto de radicalidade, onde o conflito continuou acirrado por mais tempo. Isso tensionava a própria estratégia institucional do PT. E aí, depois da eleição de 2002, tem uma baixa geral das lutas e greves. O MST passou um ano sem fazer ocupação de terra, e esses setores que defendiam uma posição mais radicalizada vão continuar tentando tensionar. Teve as ações contra empresas do agronegócio feitas pelos grupos de mulheres do MST em 2006, que destruiu as mudas da Aracruz e da Monsanto. Mas esses setores vão ficando isolados, e isso culmina na ruptura em 2011 na <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2011/11/48866/" href="https://passapalavra.info/2011/11/48866/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Carta dos 51”</a>, que foi um marco da saída de vários militantes, que fizeram caminhos diferentes. Alguns vieram aqui constituir o Grupão, outras fizeram outros caminhos. A carta falava da integração desses movimentos no regime de gestão democrático-popular.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> É um momento histórico específico ali em 2011, que junta com a outra geração do Grupão, que vem de uma juventude urbana mais autonomista, que vinha dos Ação Global dos Povos e do Centro de Mídia Independente (CMI), que formou aqui no Brasil o Movimento Passe Livre (MPL), que de alguma forma também estava tensionando a gestão pacificadora dos governos de esquerda. Era um movimento que lutava contra a tarifa do transporte coletivo, formado principalmente por secundaristas, universitários, punks… uma juventude urbana precária que não se enquadrou na institucionalidade. O MPL não se institucionalizou, talvez, porque o transporte não cria “base social”. Na moradia, tem ali uma base, e alguém pode fazer uma negociação em nome dela, forma-se uma relação dirigente e base. Nos sindicatos, os diretores sindicais representam a categoria. No transporte, talvez pela forma fluída, dinâmica, não dá tempo de conformar uma base ali e organizar ela a ponto de criar uma relação estável de dirigente, que pode estabelecer uma relação negocial com o Estado. Então a pauta do transporte ficou na mão dessa juventude mais anarquista/autonomista, que fazia ação direta.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2003 teve a primeira explosão em Salvador, que foi a Revolta do Buzú, e que foi uma luta com caráter de revolta. Parou a cidade de Salvador, mas tomou um golpe das entidades estudantis. O mesmo tipo de revolta se repetiu em Florianópolis em 2004 e 2005, as duas Revoltas da Catraca, que baixaram o preço da passagem dois anos seguidos. E isso formou o MPL, que era um movimento que tinha os princípios de autonomia, horizontalidade, ação direta, e que lutava contra a tarifa de ônibus. Esse movimento foi se conformando ao longo dos anos 2000 e ele vai ter o seu auge em 2013, quando ocorre a explosão em Porto Alegre, Goiânia, São Paulo, Rio de Janeiro, tudo ao mesmo tempo, e vira um fenômeno nacional, revolta em todo canto. Teve protesto inclusive em cidades muito pequenas no interior, onde nem tem transporte coletivo. Esse momento entra no ciclo mundial de revoltas. O que aconteceu em 2013 no Brasil se conecta à nível global com a Primavera Árabe, com o que aconteceu na Turquia no mesmo ano, depois o Chile, Hong Kong, enfim…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211; </strong>Enfim, alguns que faziam esse caminho se encontraram ali, no pós-2013, já no refluxo da revolta, com críticas em comum… e em crise também. Se a geração mais velha carregava uma crise das lutas serem incorporadas, a geração mais nova carregava uma crise também da revolta ter quebrado, refluído, e o pouco que sobrou depois. A gente se encontrou naquele momento, já tínhamos feito alguns debates juntos. Um site importante para isso foi o Passa Palavra, no qual publicamos textos, tanto da saída do 51 do MST quanto também dos debates do MPL. Como o próprio MPL entrou em crise, a gente estava debatendo ali em busca de alguma coisa nova.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W &#8211;</strong> No fim de 2015 vem as ocupações de escola, que a gente ajuda a organizar. Tem essa ferramenta na época, que foi O Mal Educado, um jornal secundarista que alguns companheiros organizaram. Muito baseado na experiência do Chile, a gente convoca as primeiras ocupações de escola. Tinham companheiros que eram secundaristas. A gente preparou duas, três, quatro ocupações em São Paulo, e isso explodiu e virou duzentas. De novo essa característica da luta explosiva, da aposta que a ação radical consegue um conteúdo de novo tipo. Não teve um trabalho de base prévio que preparou uma grande organização secundarista, foi uma tática radical de ocupar algumas escolas que contaminou. Essa experiência colou a gente. O Grupão surgiu nesse momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K &#8211; </strong>Do ponto de vista teórico, tem uma coisa importante que é que os companheiros que vinham do movimento social clássico tinham uma formação muito mais marxista, leninista, que mistura maoísmo, Igreja Católica.. mas que era movimentista também, então esses “ismos” não importavam tanto, o debate era muito ligado ao concreto. E a geração mais jovem vinha de um pensamento parecido, mas com uma formação mais no autonomismo/anarquismo. Mas os dois lados vinham criticando as próprias posições, em crise, e a gente se encontrou nesse meio do caminho. Então acho que o Grupão tem um pouco a ver também com essa mistura teórica, pensando nas trajetórias.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159301" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681.jpg" alt="" width="900" height="675" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-300x225.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-768x576.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-560x420.jpg 560w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-80x60.jpg 80w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-100x75.jpg 100w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-180x135.jpg 180w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-238x178.jpg 238w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-640x480.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/4-de-stijls-architectonic-vision-theo-van-doesburg-theo-van-doesburg-1650576681-681x511.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />PyB &#8211; Quais são os acordos e as divergências mais importantes da militância que forma sua rede? Quais elementos teóricos e/ou práticos que os fizeram confluir?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Eu acho que o elemento teórico-prático que fez a gente convergir, que é o nosso primeiro ponto de concordância, foi o momento histórico do entorno de junho de 2013, em que a gente se encontrou na rua, nos conflitos daquele período. A gente se encontrou nesse contexto, fazendo críticas parecidas. A crítica da gestão e da pacificação petista. De que o ciclo de lutas dos anos 1970-80 resultou numa forma de contenção da classe na democracia. Essa crítica era teórica e também prática, já que encontrou tração no movimento de 2013 e na alta de greves daquele período. Isso correspondia à ideia de que a gente tinha que fazer lutas de enfrentamento que quebrassem o consenso. Uma aposta na revolta. Eu acho que nosso encontro foi aí, na posição anti-gestão. Isso convergiu com a conjuntura naquele momento, convergiu nas lutas e a gente quis continuar se reunindo e se encontrando.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, conforme a gente foi começando nossos debates, vimos que tinha, de fundo, nas nossas conversas, concepções teóricas divergentes. Indo para outro nível, saindo da conjuntura, indo para a estrutura, para a teoria mesmo. A caracterização do momento do capitalismo sempre foi uma polêmica, desde o começo no Grupão. Por um lado, uma posição que vê uma dinâmica cíclica do capitalismo, que sempre operou e continuaria operando, de ciclos de expansão e crise, que estão ligados também a ciclos de luta e recuperação das lutas, que a gente pode dizer que é mais inspirada no marxismo autonomista. E uma outra concepção que bebe mais da teoria da crítica do valor, que vê um colapso do capitalismo desde os anos 1970 &#8211; então, a dinâmica cíclica já não estaria mais operando e o capitalismo teria entrado numa crise estrutural, e hoje estaria girando em falso. Enfim, daí vai todo um debate. Mas eu acho que essa discussão teórica da crise, se é colapso ou são crises cíclicas, sempre foi um debate interno nosso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y </strong>&#8211; Eu tenho uma pergunta. Você acha que isso é causa de divergência? Ou é prolífico para o debate, na medida que também a gente se obriga a contrapor os termos… Eu imagino que na pergunta deles, “discordância” é sobre aquilo que cria uma dificuldade de caminhar junto. E, até hoje, essa discordância não foi uma coisa de dificuldade de caminhar junto. Na verdade, analisando a história do Grupão, isso permitiu um campo de debates interessante em que essas duas posições existem.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Inclusive, várias pessoas, como eu, têm uma posição que a gente brinca que é “agnóstica”. Pra mim, qual é a situação atual do capitalismo: crise cíclica ou estrutural? Eu não sei, e tudo bem. A gente encontra convergência na luta concreta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu acho que tem algum desdobramento nessa questão de crise terminal ou crise cíclica: a gente tem uma perspectiva revolucionária ou não tem uma perspectiva? Mas eu não diria que isso necessariamente está ligado puramente a uma concepção econômica. Porque se a gente pegar, por exemplo, a galera comunista de conselhos lá dos anos 20, eles já estavam com uma concepção de crise terminal do capital naquela época e tem a galera que continua com essa perspectiva até hoje. Eles estão, sei lá, quase 100 anos falando da crise terminal e isso faz parte de um longo ciclo. Eu acho que por mais que a gente pense na questão de ciclos longos, eu não sei se puramente a questão econômica leva a isso. Tanto é que você tem hoje, por exemplo, a galera aí da esquerda comunista defendendo ainda essa questão do capitalismo decadente e eles ainda têm uma concepção revolucionária. Ainda acreditam que, apesar disso, há possibilidade de revolução. Não sei se eu confundi muito, mas eu acho que talvez tenha uma questão econômica / política.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y</strong> &#8211; Eu acho que você não está confundindo, não. Eu acho que, na verdade, essas coisas são conectadas. No limite, a importância de discutir se a crise é estrutural não é um preciosismo de uma análise econômica correta ou incorreta, ou identificar as verdades da dinâmica do capital. Isso está relacionado justamente com pensar as consequências para a questão política. Que transformação que está posta? Tenho mais afinidade com a ideia de uma crise estrutural &#8211; que é mais do que a ideia de terminal, porque “terminal” parece que já acabou, que vai ter um dia em que vai morrer, específico, quando vão desligar as máquinas, e não é bem assim. É um processo. Já a análise da crise cíclica está muito vinculada aos ciclos revolucionários que a gente viu ao longo do século XX. Então a questão é: é possível se repor? É possível se repor uma revolução nos velhos moldes? Curiosamente, eu acho que ninguém no Grupão defende isso efetivamente. Uma revolução nos velhos moldes da Revolução Socialista, por exemplo. Eu acho que tem uma crítica até razoável, que tem um acúmulo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; E aí tem uma outra questão também, que mesmo no campo que defende a crise estrutural, também tem diferenças em relação às consequências. Por exemplo, eu não entendo que a consequência é… “Ah, então, beleza, vamos ficar aqui vendo o capitalismo ruir e quando sobrar as ruínas e tudo, a gente tenta organizar uma nova sociedade.” “Porque o sujeito histórico morreu e não tem nada mais a ser feito, tudo é estrutura e tudo é uma determinação completamente insuperável.” Tem algumas pessoas da crítica do valor, não todo mundo, que chegam nessa consequência. E aí, nenhuma prática nunca é possível. Eu acho que é diferente a ideia de “vamos pensar a crítica da prática que a gente estabeleceu no passado e vamos experimentar coisas aqui e agora”. Porque, afinal de contas, estamos vivos e a história não está pré-determinada, ainda que a gente enxergue tendências nela. Estamos vivos e somos sujeitos da vida e as pessoas estão indignadas, estão revoltadas, querem fazer alguma coisa a respeito do mundo e do seu futuro. Será, e aí a pergunta, que é possível pensar alguma outra saída que não seja a extrema-direita, que não seja só a destruição? Enfim, eu acho que tanto no campo da crise cíclica quanto no campo da crise estrutural, existem diferentes leituras das consequências do entendimento do capitalismo nesse momento.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y </strong>&#8211; Por isso é legal você levantar essa questão, que a gente consiga, de alguma forma, se manter junto, apesar das diferentes análises de crise, a priori. Porque eu acho que, quando chega na parte do “fazer alguma coisa”, tem algumas divergências, mas eu acho que tem um certo encontro ali, num sentimento de crítica das esquerdas e crítica do passado &#8211; que não é só uma crítica política da prática, é uma crítica também interpretativa do capitalismo que as organizações tradicionais carregam. Eu acho que a gente tem uma diferença em comum, digamos, em relação a esses conflitos tradicionais, ainda que os caminhos para nossas interpretações sejam diferentes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; A gente tem aqui uma convergência negativa, isso é muito interessante, o nosso espaço, ele consegue ser permeável a inúmeras experiências concretas, objetivas de luta da classe, a gente pôde participar dessas experiências, dessas lutas que aconteceram, foram inúmeras, trazer elas de volta para um lugar em que a gente também se sente livre e confortável em fazer a crítica radical delas, de apontar os limites.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, a gente é permeável a uma série de experiências que as pessoas estão fazendo em inúmeros cantos, com inúmeras qualidades, com inúmeras intenções, a gente contribui com essas lutas, volta para um espaço e a gente se sente livre de poder criticar elas de uma maneira honesta e radical também. Eu acho que poucos espaços organizativos permitem isso. Na maior parte dos espaços organizativos que a gente tem conhecimento existe um certo pudor e um certo medo de implodir tudo, na medida em que a gente pega uma experiência que é cara a nós e passa um pente fino dela, apontando também os limites e aquilo que traz de qualidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Por exemplo, quando a gente vai analisar a experiência das greves de entregadores, o quanto que ao mesmo tempo que elas podem ser disruptivas e também são uma confluência com o atual estágio de guerra de baixa intensidade de todos contra todos, de um capitalismo ultraviolento, essa lógica do auto empreendimento, etc. Ou seja, a gente tenta também manter a crítica como critério da nossa divergência e da nossa convergência. Me parece que aquilo que nos une é também aquilo que permite a nossa diferenciação no limite, que eu acho que é o que tem de mais virtuoso na lógica do Grupão. Justamente poder fazer do exercício da crítica o mais radical que a gente puder, o mais aberto que a gente puder, o lugar que a gente produziu.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu fico meio sem saber o quanto esse espaço aberto ao debate polarizado é de fato algo que pode ser entendido como divergência, o quanto que ele não é justamente aquilo que converge com o Grupão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y &#8211; </strong>Talvez a gente tenha até dado um acento muito grande aqui na discussão para essa questão da leitura da crise. Na verdade, a gente nunca sentou e fez um debate especificamente sobre isso. Em geral, a gente está sempre discutindo as lutas concretas e aí essas posições estão de fundo. E muitos militantes nem têm uma definição exata sobre isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Do ponto de vista mais prático, outra polêmica foi com companheiros que falavam da necessidade de se organizar no “centro da classe”. Isso marcou muito nossos primeiros debates. Uma discussão com correntes que defendem que a gente deveria se organizar nos setores do operariado fabril, porque esse seria o núcleo duro da classe trabalhadora, a partir do qual tem a maior produção de valor e, por isso, seria o ponto estratégico para a revolução: “pôr a classe ao centro e ir ao centro da classe”. No debate com essa galera, que acho que foi formativo no início do Grupão, a gente foi encontrando uma linha nossa, que começou como brincadeira, mas que era assim: “tem a galera do centro da classe e a galera do centro da treta”. A ênfase do Grupão era nas lutas. Então, se for pensar assim, onde se posicionar? Para nós, parecia às vezes menos importante essa discussão econômica crua que pensa: “esse setor de trabalhadores está num ponto estratégico porque aqui se produz não sei quanto de capital”. E, no caso, a gente dizia: “bom, tem setores que têm uma posição que é estratégica do ponto de vista social” &#8211; o setor de transporte, por exemplo. Setores com possibilidade de lutas mais dinâmicas. Os pontos a partir dos quais pode ter explosões que contaminem outros setores e que ganhem escala, que cresçam. Nossa centralidade é uma centralidade das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Dialogando com as perguntas colocadas para nós aqui, uma organização pressupõe o quê? Um programa? E, um programa pressupõe o quê? Uma leitura de mundo, uma visão de mundo, uma teoria da revolução, é o mínimo que se espera de uma organização política, uma leitura da realidade, uma apresentação das contradições dessa realidade e uma perspectiva revolucionária. Mas nós não temos. Eu não acho que nós não temos porque nós não queremos ter. Até porque a gente, apesar de fazer a crítica, não se aprofundou nesses meandros. Tem lá os democráticos populares, nós somos os revolucionários situacionistas, e está tudo certo? O buraco é mais embaixo. A tragédia é um pouco maior do que a gente imagina. Olhar para uma perspectiva estratégica, questionar, não concordar com ela, opôr-se a ela, não significa que no lugar onde você atua na revolta ou nas lutas não possa reproduzir aquilo que é a base da existência do que você está negando. Eu acho que essa é uma grande contradição nossa com a ação prática.</p>
<p style="text-align: justify;">A grande dificuldade é lidar com as coisas que a gente reproduz e que nos aproximam do que criticamos. E a gente faz isso em silêncio, porque a gente também não quer dar brecha para críticas externas. Mas o fato é que a prática como critério da verdade, na lógica maoísta, está longe de ser uma definição que realmente resolva nossos dilemas. E nem a teoria é este critério. Mas é preciso compreender que essas coisas não estão separadas, é preciso juntar, é preciso permanentemente revisá-las. Revisá-las é uma palavra complicada. Compreender, estudar, ler, repetir.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje em dia, por exemplo, o ponto parece fácil. A gente lê O Capital, daí todo mundo entendeu o que é mais valor, todo mundo sabe que o negócio é fazer uma revolução socialista, impor uma derrota ao capitalismo, implantar uma transição, uma mediação entre a ação radical e ação institucional. Esse é o problema geral, está aí. Mesmo não gostando, a gente acaba participando. Eu estou para dizer que nosso problema é um pouco mais profundo. Não é só uma questão de compreensão teórica se a crise é estrutural, se a crise é cíclica.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é porque a gente não gosta dessa coisa de programa. Ou que a gente não tem programa, porque a gente escolheu não ter. Eu acho que é mais complicado o assunto, que ter as coisas, produzir certas coisas, implica o conjunto de condicionamentos da forma pela qual você quer lidar com a ação. Então, a gente resolveu não criar amarras para a gente lidar com a ação. Isso traz outros problemas. O fato da gente não ter uma definição teórica, prática, uma leitura de mundo e atua no mundo sem ter isso. Eu sei que na cabeça de cada um tem alguma coisa. Eu acho que nós lidamos razoavelmente bem com isso. Ninguém vai para a luta sem saber nadar, “estou aqui só porque eu quero entender o que está acontecendo”. Não, quem está lá quer influenciar, quer levar para algum lugar a revolta. Está lá tentando potencializar o nível de aceleramento, de contradição dela, de enfrentamento. Está lá querendo dialogar com outros militantes para trazer junto para trocar ideia. Então, existe uma intencionalidade, sim, porém, isso não é programática. Está muito mais ligada à experiência de vivência de cada coletivo, cada espaço, cada lugar, porque é uma formulação complexa, vamos dizer assim, da leitura da revolução. Eu acho até que algumas pessoas têm vontade de ter um programa, uma teoria da revolução, uma proposta de onde a gente vai estar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Y</strong> &#8211; de alguma forma, essas coisas têm uma conexão com a questão da centralidade negativa do trabalho. Fiquei refletindo aqui sobre a ideia do Camarada K de que o trabalho seria como um centro da forma social, mas um trabalho que tem a ver com essa pessoa sem lugar, forma da forma tradicional de produtor de valor, etc. E, ao mesmo tempo, pessoas que trabalham insanamente, esfolação profunda da existência. Eu fiquei pensando se a gente, de alguma forma, não tem também uma centralidade negativa das lutas, à medida que a gente põe as lutas, mas essas lutas também se esfacelam e se negam e se repõem. Se a gente está conseguindo fazer isso, então, acho que até está interessante.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei, fiquei pensando nessa questão da luta como crítica das formas anteriores de luta. Então, propomos lutas que a esquerda em geral não entende muito, porque não tem clareza de quem é o dirigente, o formato é completamente outro de como a luta se dá. E, ao mesmo tempo, ao ela se dar, não se põe como uma forma, não se põe como uma forma permanente. Não é que a gente está, por exemplo, fizemos a luta do motoboy, agora a gente tem uma cartilha de como atuar, não se sabe. Tem uma experiência, obviamente, e essa experiência ela se perpetua no tempo como uma forma de olhar para trás e falar “a gente fez isso naquele momento, podemos fazer isso de novo aqui, ou não fazer e tal”. Mas não tem um formato estrito, como as organizações têm normalmente. Quais são as nossas táticas de luta? Qual a forma que a gente desenvolve a luta? Isso é interessante e fiquei pensando se a gente teria uma centralidade negativa das lutas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu só queria fazer um comentário para Camarada Y. Eu acho que a centralidade negativa do trabalho é interessante porque acho que mesmo os que têm a leitura da crise estrutural no Grupão, que a princípio vão pensar um colapso do trabalho e da acumulação de valor a partir da mais-valia extraída do processo de trabalho, não tem uma leitura que acha que o trabalho acabou. No sentido de que, às vezes, pode parecer isso, de que não tem mais trabalho. Na verdade, essa perspectiva acaba se encontrando com o autonomismo operaísta, porque, no fundo, tem uma ideia de que o trabalho ainda é central, no sentido de que ele é o ponto de tortura nas nossas vidas, que todo mundo tem que acordar e ir trabalhar. E acho que é até uma leitura de que, com a crise estrutural, as pessoas estão se esfolando até mais, porque as formas ficam até mais pesadas e mais cruéis, e que, então, eu acho que é como quando falamos da centralidade negativa do trabalho. O trabalho é central, mas a gente quer se libertar dele.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu acho que ter uma perspectiva revolucionária não significa que a gente precisa ter um receituário, um programa, uma perspectiva de que a gente precisa cumprir certas etapas ou certos processos para que a revolução venha, mas sim uma ideia de fundo, uma perspectiva geral de rompimento com o sistema capitalista. Então eu não acho que simplesmente a gente nunca ter dialogado sobre ter um programa, sobre ter uma série de medidas a serem tomadas, nos coloca numa condição de que a gente não tem uma perspectiva revolucionária. No entanto, eu acho que isso ainda é uma questão em aberto. Eu já vi camaradas colocando isso: “não sei se eu acredito na perspectiva da revolução”. Eu acho que tem uma série de acúmulos teóricos sobre o pensamento do próprio desenvolvimento do capital e da revolução que, de certa forma, a gente vê na nossa prática, ela se relaciona muito com algumas teorias que já foram desenvolvidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu acredito, sim, nessa questão de que tem momentos de baixa, momentos de alta e eu não acredito que a nossa atividade enquanto militantes nesse momento, que a gente poderia considerar talvez como contra-revolucionário, eu não acho que o nosso papel nesse momento é fazer a revolução, e eu acho que no Grupão a gente também não acha isso. Eu acho que a gente nunca pensou que as nossas práticas ou o nosso envolvimento nas lutas poderia desenvolver a revolução. Mas eu acho que a nossa inserção nos processos de luta vai muito mais nessa questão de investigação, no sentido de situar a gente no tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu acredito que a gente deveria fazer essa separação. Ter uma perspectiva revolucionária não significa que a gente necessita de uma estratégia revolucionária, porque eu não acredito que a gente possa ter uma estratégia revolucionária nesse tempo. Não significa que isso vai ser uma constante, significa que agora a gente não pode ter isso, mas possivelmente em um momento de ápice das lutas pode vir a surgir.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159302" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550.jpg" alt="" width="675" height="900" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550-315x420.jpg 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/1-theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-4040520550-640x853.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 675px) 100vw, 675px" />PyB &#8211; Quais as lutas sociais mais importantes que vocês se envolveram desde que o grupo se formou? Como foi a intervenção prática de vocês?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Então, naquele período de 2016-17 ainda teve muita luta estudantil secundarista, que foi uma coisa um pouco nova no Brasil. Nesse patamar, tinha o exemplo do Chile, que inspirou muito por aqui. A gente traduziu uma cartilha do Chile, que foi útil para preparar as ocupações de escolas. Foi um movimento muito dinâmico, muito vivo e muito autônomo também (os partidos não tinham muito espaço). Foi o período do impeachment, em que, do ponto de vista institucional, a direita estava se articulando para derrubar a Dilma. As ocupações aconteceram nesse período escaparam da dinâmica do jogo institucional.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Depois teve a luta do telemarketing, que era uma ideia do Disk Revolta. A gente começou a notar que estava explodindo de pequenas insatisfações, que tem a ver com a discussão sobre o trabalho em formas ultra precárias, os <em>bullshit jobs</em>, os trabalhos de merda, e que se expressavam em formas que os sindicatos e os partidos não tinham condições de dar vazão a essas insatisfações, a essas inquietações. Parecia que ali havia uma explosividade que talvez estivesse represada.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Mas eu acho que tem também um aspecto de 2013. A gente via os dados sobre as greves daquele período, que em 2013 teve o maior auge de greve da história do Brasil desde os anos 80. Então a gente falava, “bom, teve um ciclo lá nos anos 70, 80 e está tendo um novo ciclo agora”. Essas lutas estão acontecendo muitas vezes de forma subterrânea, tá cheio de conflitos nos locais de trabalho e a gente tem que investigar. O Disk Revolta teve a ver com isso: em um ano a gente descobriu um monte de pequenos conflitos que às vezes não são greves abertas. Um grupo de trabalhadores fizeram uma sabotagem desligando o cabo do fone para poder ter um tempo maior de mute e aumentar os espaços de não trabalho. A gente começou a buscar essas pequenas lutas dentro do trabalho para politizar elas. É um contexto de reforma trabalhista e isso também fazia os sindicatos se mobilizarem, chamarem greve geral e vira uma oportunidade para a gente também experimentar lutas nas categorias que a gente está ou em categorias que a gente conhece ou que a gente acha interessante ir lá e fazer algum contato.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Essas pequenas lutas para além da explosividade foram importantes para a gente perceber o quanto um monte de coisa estava acontecendo, mas também para oxigenar nós mesmos. Foi muito importante para o próprio Grupão termos investigado um monte de pequenas lutinhas que até hoje a gente considera como importante. Deu uma centralidade para a nossa militância.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Na questão do local de trabalho, um ponto que para nós foi caro &#8211; sobretudo no diálogo contra as forças de esquerda &#8211; é que quase toda a esquerda no Brasil se organiza para tomar sindicato. Então o militante entra na empresa e começa a fazer um trabalho com o objetivo de ganhar a direção do sindicato. Temos companheiros que passaram anos trabalhando de forma clandestina na fábrica para mapear contatos no sentido de fazer uma chapa e disputar a direção do sindicato. Ao mesmo tempo, nesse período, vai acontecendo um monte de lutas e você não pode participar porque, se você se expõe, você é demitido e não consegue entrar na chapa e disputar a direção. É uma dinâmica totalmente voltada para a disputa eleitoral. Uma organização estruturada em volta do aparato sindical que, no Brasil, é ligado ao Estado. Por isso a gente queria tentar outras formas de organização nos locais de trabalho, fora das eleições e do aparato sindical.</p>
<p style="text-align: justify;">Na categoria de professores da rede privada aqui em São Paulo, por exemplo, tivemos a experiência de puxar uma greve por fora do sindicato, organizando assembleias autoconvocadas e comissões nas escolas, às vezes mais abertas, às vezes clandesitnas. Tinha a questão de não ser uma categoria estável, porque eles estão no setor privado e podem ser demitidos. Ao longo de 2017 e 2018, teve uma experiência muito rica nesse setor. Recuperando uma tradição que tinha no Brasil durante a ditadura, de se organizar por fora do aparato. Acompanhamos processos de luta assim em diferentes categorias. Até essa última, que foi o Breque dos Apps com os entregadores de aplicativos durante a pandemia. Já estavam acontecendo pequenas greves de entregadores de aplicativos, fizemos contatos e ajudamos essa rede a conformar uma comunicação nacional que permitiu a convocatória desta data, que foi o breque dos aplicativos na pandemia. Também construímos grupos de algumas cidades com esses entregadores.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Essa questão da crítica ao sindicalismo, talvez ela tenha levado a gente para essas perspectivas mais de trabalho precário, etc., justamente porque o sindicato não estava presente. Acho que tivemos uma facilidade de entrada em vários desses lugares justamente porque nada estava constituído. A possibilidade de criação e experimentação era muito maior.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159303" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676.jpg" alt="" width="675" height="900" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676.jpg 675w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676-225x300.jpg 225w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676-315x420.jpg 315w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/theo-van-doesburg-de-stijl-magazine-founder-mohamed-batni-51583676-640x853.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 675px) 100vw, 675px" />PyB &#8211; Qual papel acreditam que as minorias revolucionárias &#8211; como a rede de vocês &#8211; deve cumprir, tanto nos processos de luta mais cotidianos, quanto em levantes espontâneos?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; A minha resposta é rápida: é não atrapalhar. Isso é o mínimo, né? O mínimo é não atrapalhar. Porque, às vezes, a gente acha que está ajudando e atrapalha.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; É… Mas, claro, dá para falar muito mais que isso. E também dá para questionar: será que a gente é uma minoria revolucionária? Não sei nem se a gente se entende como uma minoria revolucionária. Eu acho que começa por aí. Acho que esse debate ainda está em aberto. Eu não gostaria de falar minoria revolucionária. Gosto mais do “pró-revolucionário”. Mas, em relação ao nosso papel, acho que ainda está em aberto. A pergunta de como as minorias revolucionárias devem atuar, qual papel elas devem desempenhar, pode se confundir com o papel de guiar para a revolução. Quando coloca minorias revolucionárias nesse sentido, parece isso. E eu não acho que esse seja o nosso papel. Também não acho que a gente tenha se colocado nessa perspectiva nunca. De certa forma, a gente tenta não só não atrapalhar, mas também incentivar os processos espontâneos de luta que os trabalhadores estão colocando, estão se envolvendo, com todos os limites que isso implica. Acho que o papel aqui talvez seja muito mais de crítica e tentativa de potencializar do que necessariamente de dirigir ou tentar despertar a revolução.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong>&#8211; As lutas já estão acontecendo. A todo momento tem conflitos acontecendo e nosso papel tem muito mais a ver com registrar esses conflitos, publicizar eles, fazer a informação circular. Vou dar um exemplo. A gente acompanhou aqui em São Paulo um supermercado que faliu, o Seta Atacadista. Na verdade, não foi uma falência. O patrão simplesmente estava dando um calote. Ele foi fechar o mercado e estava tentando tirar a mercadoria de noite para os trabalhadores chegarem no dia seguinte e serem demitidos todos, não receber nada. Só que, de noite, os trabalhadores ficaram sabendo, porque alguém comentou no bairro que tinha caminhões lá indo esvaziar o supermercado. E eles foram e cercaram o mercado e ocuparam o mercado para não deixar a mercadoria sair e não deixar o patrão dar o calote. Então, de repente, descobre que tem um supermercado ocupado na periferia sul de São Paulo. Aí a gente foi lá, publicou uma notícia daquilo. Aí a gente falou: bom, o Seta é uma rede de supermercados. O patrão deve estar dando esse golpe na empresa inteira, ele vai falir e deixar todo mundo no vazio. Vamos encontrar outros e avisar que isso está acontecendo, tentar fazer informação circular. A gente vai em outros, descobre outras pequenas lutas e tenta potencializar o processo nesse sentido. Acho que é diferente de uma noção de dirigir ou de levar a consciência. É como fazer as lutas circularem, integrar elas e, nisso, potencializar elas. É fazer as coisas irem além de seu local, além de sua categoria</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PyB &#8211; Quais elementos da forma clássica de militância da esquerda, ou do anarquismo, que consideram obsoletos? O “trabalho de base”? O “acúmulo de forças”?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Tá, as duas. Com certeza.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; É, o trabalho de base, eu acho que nós temos coisas pra conversar. Trabalho de base. Mas essa de acúmulo de forças, eu acho que entre nós, eu não sei se alguém tem alguma expectativa com isso. Acho que a gente nem fala essa palavra, na verdade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu diria, além disso, a questão da “consciência”. Essa parte entra no acúmulo de forças: levar a consciência pra galera e acumulando gente até a gente fazer a revolução. A gente não acredita nisso. A questão da “estratégia revolucionária” entra aí, acho que a gente não entende que esse seja o momento para estratégia revolucionária. Estou falando um pouco por mim, mas eu acho que o fato da gente nunca ter se debruçado sobre isso, de certa forma, diz um pouco sobre isso também. A gente nunca acreditou que necessitava fazer um programa ou ter uma estratégia revolucionária porque a gente acha que isso está além de nós. Não é a gente que vai cumprir esse papel.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; A coisa do trabalho de base, eu até fiquei pensando… Fiquei curioso porque eu não sabia se o termo “trabalho de base” existia da mesma forma em espanhol. Porque eu acho que em algumas línguas você não tem o equivalente direto. Eu acho que tem muito a ver com a formação da nossa esquerda atual a partir das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). A ideia de que você tem um trabalho de base pressupõe uma comunidade de base. O ciclo de lutas dos anos 70-80 foi muito baseado nisso. Se for pensar, o próprio MST surge disso. A ocupação forma uma comunidade ali. E, claro, tem todo um peso da igreja na formação do MST, mas ele surge disso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z </strong>&#8211; A ocupação forma uma comunidade e aquela comunidade é a base do movimento. Isso impõe a necessidade de um tipo de trabalho permanente.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; O processo do acúmulo de forças tinha um pensamento um pouco gramsciano da esquerda desde os anos 70, que é de guerra de trincheiras. Guerra de posições. Vai aumentando as bases até você ter uma hegemonia. Essa é a ideia do acúmulo de forças. E a esquerda atuaria de um lado com uma luta institucional pelos partidos e do outro pelos movimentos, e com o “<em>movimento de pinça</em>” chegaria ao poder. Foi o que aconteceu no Brasil, aconteceu em outros lugares da América Latina e acho que a nossa reflexão também é pensar: “bom, esse acúmulo de forças a gente já fez”. Talvez não seja preciso do ponto de vista econômico, mas a gente dizia: “esse &#8216;acúmulo de forças&#8217; virou acúmulo de forças produtivas”. Não é que acumulou força para o nosso lado, acumulou para o capital no fim das contas. Os movimentos, e a gente viu isso acontecer, viraram tecnologia de gestão do capitalismo. Então o MST agora vai construir uma fábrica de tratores com capital chinês. São os maiores produtores de arroz orgânico da América Latina. As cooperativas têm ação na bolsa de valores. Sem falar do ponto de vista social, o quanto é funcional ao capital ter certos setores do proletariado empobrecido organizados pelas burocracias. Melhor do que deixar eles soltos para o caos social. Então os movimentos cumpriram um papel civilizatório. E aí até aquela base da comunidade de base perde seu conteúdo e vira um cadastro. O que é o MTST hoje? Tem ocupações onde quase ninguém mora: eles erguem pequenas barracas de lona preta, não deixam construir com madeirite ou bloco; fazem um cadastro e esse cadastro vira uma lista, a partir do qual o movimento repassa o bolsa aluguel do estado e faz um ranking para as pessoas ganharem a moradia com base na participação. Os movimentos viraram tecnologia de gestão. O “acúmulo de forças” virou isso, virou o acúmulo de forças produtivas. A reflexão que fica disso é: como que a gente se organiza? Será que é possível produzir um acúmulo que seja nosso? Talvez só um acúmulo de experiência, porque tudo que a gente vai construindo de estrutura para se reproduzir vai entrando na lógica da reprodução capitalista. Essa é uma crise nossa. É uma reflexão nossa também quando a gente pensa nas lutas que são mais sem estrutura, e justamente por isso elas acabam sendo mais descontínuas no tempo. É porque a reprodução no tempo também implica, de alguma forma, você entrar na lógica desse sistema.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Por outro lado, também essa ideia de acúmulo de forças, de acúmulo organizativo, entra naquilo que o Camarada Z falou. A gente não vive uma escassez organizativa da classe, vive uma superprodução de organizações da classe, e isso também entra em contradição com a lógica da própria luta. Não é mais uma questão de que não se acumulam processos organizativos, eles se acumulam em excesso! E acabam eles mesmos travando o processo da luta. É uma contradição de algo que deu certo, não só que deu errado. Não é que “faltou trabalho de base”: teve trabalho de base demais, e tem uma lógica de sustentação desse trabalho de base que começa também a competir entre si dentro da sua própria base. Ao ponto, e eu acho que é o máximo da esquizofrenia da esquerda, que é uma pessoa condensar quatro organizações. Eles se apresentam assim “eu estou aqui como fulano que é de tal, tal e tal organização…”. Uma mesma pessoa está em quatro organizações. Então é obsoleto o “acúmulo de forças”, o “trabalho de base”, ou é aquilo que é hoje hegemônico? Porque pra nós pode ser obsoleto, mas do ponto de vista da luta real, não parece que é obsoleto isso. Continua existindo, mas nessa perspectiva de gestão, de controle, de travar qualquer processo que desorganize a base na qual esses movimentos podem se manter existindo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Para voltar um pouco na discussão do “revolucionário”. A gente vê experiências que a gente teve muito acúmulo organizativo no Brasil e esse acúmulo jogou contra a revolução, porque ele vira um acúmulo de contenção. Os grandes movimentos sociais produziram contenção da classe. Se for pensar, os companheiros estavam nos anos 90 do MST pensando em formas de luta insurrecionais, pensando que a partir daquele movimento você ia ter a preparação do exército popular para fazer uma revolução no Brasil. No momento que tivesse uma explosão, eles estariam prontos para tomar o poder. Mas quando vem 2013, o que virou? O MST naquele momento, que já estava integrado ao mercado e ao Estado, foi uma ferramenta de contenção. No fundo, o acúmulo organizativo serviu muito mais para segurar a classe trabalhadora do que para permitir uma potencialização das lutas. Quando a gente fala que o papel do militante às vezes é não atrapalhar, é porque a gente sabe que, se a gente se organizar demais, pode até ter o efeito contrário. E várias vezes a gente entra em processos com a intenção de fortalecer e depois, quando vai fazer o balanço, vê que talvez tenha atrapalhado!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Tem uma palavrinha mágica que a galera colocou no jogo que não é nova, é antiga, e que eu acho que justificou um pouco esse tipo de movimento, vamos dizer assim, que é a “resistência”. Resistir passou a ser garantir a manutenção daquilo que a gente conquistou. Então ela e o acúmulo de força passava por um tipo de momento em que a luta se converteu no que o movimento chamava de resistência. Por exemplo, a intersindical dizia “nenhum direito a menos”, movimento sindical combativo. Mas isso foi mais ou menos um diálogo de derrotados bem sucedidos. Isso é o mais louco da dialética do processo. Ser bem sucedido não significa ter chegado a uma plenitude, vamos dizer assim, na sua tática, no resultado de suas lutas, mas é conseguir justificar no tempo e nas condições que ela existe. Se temos vontade de olhar para esse passado, agora a gente precisa olhar com as ferramentas que a gente adquiriu no processo das nossas experiências, não mais como a gente olhou. Eu não vejo disposição da galera olhar pra trás, pras experiências, e reformular a sua leitura. Eu vejo uma galera querendo reafirmar aquela crítica para sustentar algo que, inclusive, a gente já tá fracassado no que a gente buscou.</p>
<p style="text-align: justify;">Só faz sentido voltar lá pra ver se o que a gente produziu como política faz sentido. Olhar para trás, é olhar para os limites da nossa crítica, não da experiência em si, da forma generalizada, mas do específico, daquilo que a gente reafirmou no passado. Quando o passado vem atormentando a gente é porque tem alguma coisa lá que tá mal resolvida. Aquilo lá que a gente produziu explicou naquele momento, ajudou a gente a dar um passo, mas agora estamos tendo dificuldade, e aí há uma necessidade de olhar para aquilo e falar “olha isso aqui! Tem alguma coisa que nos incomoda”. E eu acho que passa por isso que nós estamos conversando aqui, essas leituras de fundo, de força, de resistência.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso que eu falei do trabalho de base. Não que eu ache que a gente defenda o trabalho de base, é que eu acho que essa palavra apesar de parecer simples ela carrega o grau de complexidade dessa totalidade que vai ser vai ser a herança do seu passado, vai estar aí a possibilidade daquilo que o X falou, que nós não temos essa perspectiva de levar a consciência, de levar a formação. Mas nessa palavrinha condensa tudo isso. A palavrinha trabalho de base ela é pesada. Na verdade, as pessoas simplificam ela como se fosse “vamos ali convencer o cara a fazer uma greve”, “vamos ali fazer um programa de formação”, “vamos ali fazer uma luta x, e ajudar na resistência do moinho”, essa palavrinha ela carrega um conjunto de contradições que, pra mim, está a base do limite que a gente está vivendo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu acho que tem uma questão também, que talvez seja mais um elemento de crítica nossa, é que de certa forma essa análise anterior, antiga, da perspectiva do trabalho de base era de “vamos montar organizações de massa”. Eu acho que a gente não tem essa perspectiva de organização de massa. Eu acho que essa é uma questão. A gente não acredita na possibilidade de organização de massa de perspectiva radical nesse momento histórico porque criar uma organização de massa significa, no final, nos tornarmos gestores. Por mais que a gente acredite nas lutas de massa, a gente não acredita na solidificação disso. É interessante a gente ver às vezes para alguns agrupamentos anarquistas, autonomistas, que estão falando “a gente criou a nossa organização de massas aqui e tal” e aí quando a gente vai ver a organização de massas e a gente pergunta “quantas pessoas tem?” no final a gente vai ver que é o mesmo número de gente que tem no Grupão. A gente não tem essa perspectiva de que vamos acumular gente e a revolução vai vir. A gente não acredita na possibilidade de organização de massa. Talvez no momento de ascensão das lutas essas formas se tornem possíveis. Mas agora não é esse momento, então não adianta a gente criar esses instrumentos que, no final, como o W falou, quando a luta vier na verdade vai servir para controle, para contenção.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu fiquei pensando na acusação, que a gente recebeu muito, de que o autonomismo que a gente representaria teria uma “centralidade da tática”. E, de fato, a gente reconhece isso. Quando a gente estava falando que a gente acreditava que pela tática radical era possível tensionar a realidade e produzir conteúdos que abriam caminho para uma ruptura anticapitalista, e que às vezes a tática é mais importante que o discurso da organização, que a ação concreta é mais importante, então de fato eu acho que tem um pensamento taticista nosso, “lutista”. Eu acho que isso é uma coisa em comum na nossa formação como Grupão. Só que eu acho que isso daí é uma condição do tempo. Tem organizações hoje que falam em “estratégia”, mas o que a gente está falando é que talvez não seja um momento de estratégia, que não tem mais lugar. Não é tempo histórico de estratégia. A gente acha que, no fundo, quem está falando que tem estratégia, tá meio iludido… teoricamente, estratégia é uma coisa que você está pensando em um plano para longo prazo. As estratégias hoje não são isso. Mesmo a suposta “estratégia democrática popular” que o PT teve, que formou aquela geração dos anos 70 para cá… se ela foi uma estratégia nos anos 70, desde os anos 2000 ela já não é uma estratégia mais. Ela foi bem sucedida, eles chegaram no governo. Ela virou o que? Ela virou uma ferramenta de gestão. Esse pensamento estratégico de acúmulo, de um ponto de vista proletário, de um ponto de vista que quer romper com esse mundo, ele não existe. Porque o acúmulo nunca é para a gente, o acúmulo sempre acaba sendo acúmulo de força produtiva. Vira um acúmulo dentro da lógica do capital. Então do nosso lado a gente não consegue acumular coisas duradouras assim, e isso talvez seja uma inviabilidade da estratégia, já que quando a gente acumula, vira contenção nossa. Então talvez o pensamento estratégico esteja ligado a algo quase contrarrevolucionário. O Grupão nunca disse isso com essas palavras, mas talvez seja um pouco isso que a gente intui e que nesse sentido o lugar mais potente é mesmo o da tática. O comunismo seja uma tática. Que nem a gente viu que ocupava uma escola e isso foi se reproduzindo como um meme. De uma, duas, três escolas ocupadas que a gente planejou de forma conspirativa, de repente explodiu duzentas escolas ocupadas em São Paulo, mil no Brasil no ano seguinte. Talvez um processo que vá romper com este mundo vai se dar assim também, uma propagação no nível tático, e acho que a gente sempre tenta extrair conteúdo político das táticas pensando assim.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Acho que são dois vícios diferentes a tática e a estratégia. Acho que ambos contêm os seus limites, não é que a estratégia por si é sempre contenção. Hoje ela funciona como contenção por essas inúmeras razões. Não é que ela esteja sempre obsoleta. No nosso tempo ela é obsoleta de fato, mas pode ser que ela se transforme um pouco no sentido do que o X estava falando. Nisso a gente poderia ter aproveitado muito mais os momentos de se posicionar politicamente nas outras lutas que a gente compôs, estimulando pensamentos que dessem vazão a outros questionamentos que são de ordem estratégica, além da luta concreta. Um pensamento de conteúdo, conteúdo do comunismo, ele não necessariamente é estratégia no sentido que a gente está falando. Mas ele pode servir de formulações autônomas de outros polos nesse viés, entende? E nesse sentido ele se compõe como um estímulo para a estratégia. Eu acho que a gente pecou em certa medida de não ter estipulado na formulação tática esses outros pensamentos que são para além daquela luta. A tática se resume naquela forma daquela luta, naquele tempo, naquele espaço. O que tem um caráter positivo e é bom porque ele mantém firme o conflito como central, porém é uma dialética entre esse momento, esse imediato, e o posterior. A gente também não sabe muito bem como jogar…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Sim, é verdade. A questão que fica é: será que isso não seria uma estratégia nossa? Talvez o fato da gente não ter estratégia, da gente se manter baixo, da gente ter o foco nas lutas, de se basear muito mais nas táticas de inserção, de potência, será que isso também não é uma estratégia nossa?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Eu acho que é um pouco a provocação do X, e também eu acho que é um pouco a ausência de uma compreensão. Você encontra num lugar de conforto mínimo que te mantém existindo, porém esse lugar já está esquentando. Na verdade, no nosso caso, essa porra já está saindo fumaça preta porque o cabeçote está rachado. Nós mesmos estamos incomodados com a nossa estratégia. Se é que a reflexão do X faz sentido, e eu acho que faz, porque eu acho que é esse o nosso tempo, é o tempo da crise daquilo que a gente constituiu como formas de se manter organizado, em movimento, articulando ações e reflexões. A gente vive como a música do Belchior “ano passado eu morri mas esse ano eu não morro”. Mas o fato é que a gente morreu e a gente está tentando não morrer de novo. Como a gente sabe que não tem perspectiva de um horizonte, de uma revolução, isso ao mesmo tempo é trágico, porém nos dá uma condição de falar “opa, também não precisa ficar loucão assim, com essa ansiedade toda”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159298" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379.jpg" alt="" width="960" height="949" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379.jpg 960w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-300x297.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-768x759.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-425x420.jpg 425w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-640x633.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/30772dc6bdc90b0a089d2f5896af1544be1e51de-4258360379-681x673.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px" />PyB &#8211; Quando afirmam que a “investigação” deve ser o centro da preocupação política, a que se referem concretamente? Tomam como referência a experiência da “investigação militante” desenvolvida pelo operaísmo italiano dos anos 60-70? </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada Z</strong> &#8211; Deixa eu falar uma coisa engraçada para você. Outro dia o pessoal fez homenagem para o Toni Negri aqui em casa, aí eu falei assim “alguém precisa avisar os 51 do MST que a gente era negriano e não sabia”. Alguém precisava ter avisado a gente: “Olha o que vocês estão fazendo, tem um cara que pensava essas coisas, exatamente isso”. Eu olhei para lá e falei “pô a gente era negriano e não sabia”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; Eu gostei disso, Z. Porque tem muita coisa que a gente está levando um pouco sem reflexão, mas tem um monte de gente que refletiu sobre isso, chegou ao mesmo ponto da gente e refletiu sobre isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; A gente encontrou algo em comum com os operaístas na questão da enquete operária. Para nós, pensar o local de trabalho que a gente está, mapear ele, organizar ele, buscar os pontos de conflito, isso é enquete. Então às vezes, inclusive, a própria investigação pode ser a própria luta. Por exemplo, quando eu estive aqui, o pessoal que trabalhava no metrô, percebeu que os terceirizados da bilheteria estavam fazendo uma greve selvagem e a gente organizou uma solidariedade a eles. Nesse processo a gente descobriu como funcionava o trabalho na bilheteria. Isso foi uma enquete operária no próprio processo de luta. A gente já lia antes o Castoriadis, o João Bernardo &#8211; a gente não falou dele, mas acho que é uma outra influência grande que veio de uma experiência em Portugal, do jornal Combate. Mas uma diferença com essa tradição dos anos 60-70 é que ali tinha uma expectativa muito positiva para o trabalho. Uma perspectiva de autogestão que cada pequena ação operária mostrava que o trabalhador podia controlar a fábrica se ele quisesse. E o auge disso foi nos anos 70, as lutas autogestionárias. Na revolução portuguesa de 74, teve um movimento que tomou uma porcentagem importante das fábricas do país. As empresas estavam sob o controle dos trabalhadores. Eu acho que esse era um horizonte das lutas no fordismo, e acho que a gente tinha uma intuição aqui &#8211; daí vocês me corrijam se vocês acham que eu não estou certo &#8211; de que essa tendência autogestionária não é a mesma coisa hoje. A gente viu isso na organização do call center, que no fundo a vontade era também explodir aquele lugar e sair de lá. Você não é o operário que está fazendo um avião que vai voar e fazer a sociedade ir para o futuro. Hoje o conteúdo das lutas no trabalho parece mais anti-trabalho do que autogestionário, e acho que a gente encontrou nisso uma afinidade também com o pensamento anti-gestão do Grupão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Tem também um outro caminho, não sei se vocês tiveram o mesmo preconceito que a gente que é um pouco mais velho, teve, que era o seguinte: em certa medida, a gente foi vendo a degeneração das formas organizativas anteriores. Entendia elas como uma camada mais de reificação sobre os dilemas e as composições das lutas dos trabalhadores. Tinha até uma música do Tom Zé, que era muito boa: “não tem nenhum operário na platéia, não tem nenhum operário no palco, mas Tom Zé sabe muito bem aquilo que é bom para a classe operária”. Eram camadas de reificação que iam se afirmando na tentativa de buscar também um conflito. Foi meio intuitivo, a gente precisava investigar para além daquilo que é dito pela representação dos trabalhadores. Qual é o nível de conflituosidade que existe no chão, no quente daquelas contradições que não podem ser transmitidas pelas formas tradicionais? Não significa que os trabalhadores não reifiquem, só que a reificação imediata daquele processo é distinta da reificação que vai ser feita por uma organização que já quer se manter, já tem todo um laço, um entrelaçamento de posicionamentos, uma fauna organizativa que ele está preso e que ele é obrigado a idealizar ainda mais aquela parte da realidade. Então a idealização feita a quente pelo trabalho permitia a gente entender muito melhor quais eram as contradições que estavam postas e como potencializar elas no sentido anti-trabalho, não no sentido propriamente de tomada do lugar do trabalho. A gente entendia que as formas sindicais e partidárias não davam conta de dar vazão a isso, a gente precisava furar esse bloqueio. A gente não tinha uma formulação teórica sobre isso, ela veio comprimida por uma necessidade da própria luta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; A pergunta fala especificamente do operaísmo italiano, que fez uma investigação entre o começo e auge das lutas se a gente pegar de 60 a 70. Se a gente vê a Tendência Johnson-Forest ou até a galera do Socialismo ou Barbárie, ali era algo mais de “estamos desiludidos com a nossa forma de organização atual e precisamos nos reencontrar”. Também era uma perspectiva de se reconectar, de entender a nova conjuntura, e eu acho que esse é o papel da enquete que de certa forma a gente pegou. É muito diferente de uma situação quente, como o jornal Combate, dentro de um processo revolucionário e de tentar potencializar isso. Nossa perspectiva de enquete foi muito mais se religar, entender o que está acontecendo e se inserir. Nossa crítica à esquerda era justamente essa, a esquerda chega lá e quer falar para a galera. A gente não quer falar <em>para</em> a galera, a gente quer falar <em>com</em> a galera, a gente quer entender o que a galera fala, e nesse sentido essa perspectiva da investigação tem muito mais a ver com uma autoformação nossa, do que necessariamente com a perspectiva da gente apontar para alguma solução. Uma crítica que um camarada fez foi: “vocês estão aí nessa coisa da enquete operária, e a diferença de vocês e dos leninistas é que os leninistas tem o partido e vocês estão com a enquete para poder fazer a revolução”, mas eu não acredito nisso. Eu não acredito na nossa possibilidade de fazer a revolução através da enquete, mas da gente entender o contexto atual e como a gente se insere nos processos que estão acontecendo, como a gente se liga a classe, qual o movimento da classe atualmente, muito mais do que o que a gente quer levar a classe a fazer. Eu acho que a gente também faz um pouco de confusão entre a própria ideia de enquete operária e copesquisa, mas eu acho que a ideia da investigação militante é mais interessante nesse sentido, que a investigação que a gente faz de certa forma coloca as duas coisas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; E isso permitiu a gente chegar mais a fundo em compreensões sobre o caráter ambíguo das explosões que aconteceram recentemente. O modo tradicional de caracterizar uma determinada luta pode ser muito perverso. Você recorta e joga essa luta parcialmente e isso vira um consenso num circuito grande da esquerda e acaba jogando tudo fora, na lata do lixo. Todas as possibilidades de quebra daquela realidade se transformam em uma coisa chapada, homogênea. Então acho que essa investigação também permitia a gente sair dessas formas que homogeneizavam a realidade, botavam a realidade com uma coisa preta no branco, mas é muito mais cinza, cheio de nuances. Os caras não esperavam ver da boca de caminhoneiros as demandas, por exemplo, dos pequenos caminhoneiros daqui da entrada de São Paulo. Não é a busca da verdade, mas é um pouco nesse sentido que você falou, reconexão com os processos reais de luta, compreender os limites e como eles também reificam a realidade, e como que a gente também conseguiria contribuir numa tendência que a gente acredita ser de ruptura, ou de contribuição com outras lutas de trabalhadores que estavam acontecendo. A investigação foi caindo no nosso colo. A gente não fez um caminho consciente…</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu acho que tem uma coisa que liga também com a discussão de estratégia que a gente teve antes com a discussão de consciência, eu acho que o pensamento da investigação ele inverte o plano da consciência. Então, ao invés de você levar uma resposta pronta pra classe trabalhadora, é o movimento inverso. Você vai pra porta de uma empresa não pra dar um panfleto que vai contar uma verdade pro cara, mas pra descobrir, pra aprender alguma coisa. O que tem de mais importante nesse processo é você descobrir uma denúncia daquela fábrica, descobrir alguma coisa ali… O militante, no fundo, tá aprendendo, e não indo dizer alguma coisa e, claro, a partir desse aprendizado a gente faz elaborações que são importantes para nós e que também podem ser úteis pra luta. Eu acho que é um pouco por aí, e acho que liga com estratégia também porque aí tem uma discussão do conteúdo. Qual a relação entre a enquete e o conteúdo do comunismo? Pensar que o conteúdo do comunismo talvez não tenha sido estático ao longo da história e que cada composição de classe ao longo da história projetou uma certa perspectiva no horizonte. Quando os caras estavam discutindo lá no século XIX na Comuna de Paris como eles queriam que fosse o mundo depois da revolução, eles estavam fazendo isso com base no chão que eles pisavam, que era um certo capitalismo; e que foi outro em 1920 quando a galera formou os conselhos; foi outro nos anos 60, quando o tema era autogestão; e talvez seja outro no nosso tempo. Então eu acho que o papel da enquete é descobrir quais lutas estão acontecendo de fato para encontrar o conteúdo do comunismo do nosso tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Podemos pegar o exemplo dos entregadores. Para boa parte da esquerda tinha uma dificuldade de se relacionar com esse setor porque já vinha com uma resposta pronta que era baseada em formulações que a classe trabalhadora fez em outro ciclo, em outro período que tinha a ver com os marcos fordistas da CLT, que gerava muito rechaço nos entregadores. E por quê? A visão de antes vai dizer então eles são conservadores. Não. Na luta a gente entendeu: é não querer ter chefe, não querer ter hora para entrar e sair. Mas ao mesmo tempo os companheiros estavam fazendo greve e se organizando para bloquear McDonald&#8217;s. Vinha gente trabalhar e os caras estavam no piquete e falavam “não, a gente está brecando aqui hoje, não é dia de trabalhar”. E o cara que veio trabalhar ficava no breque. Uma ação de classe muito mais radical do que uma categoria como bancários faz hoje em dia, que coloca uma faixa na frente do banco da agência e finge que está fazendo uma greve. Eles queriam autonomia e estabilidade. Ou seja, não é que eles queriam simplesmente negar a CLT, não era negar a possibilidade de um salário bom, de uma vida boa, de ter um direito à saúde, um direito em caso de um acidente que acontecesse, era ao contrário. Era ter acesso a tudo isso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X</strong> &#8211; E a crítica ao sindicalismo também é uma coisa de: “a gente não quer ninguém negociando pela gente” e no entanto cai essa coisa de “o trabalhador que rejeita o sindicato quer fazer negociação direta com o patrão”. Eu acho que de fato eles querem isso, mas não é uma negociação individual com o patrão, eles querem organização coletiva com pressão, a partir dos pontos que eles determinam ali. Eu lembro que eu conversava com uma companheira que falava “na verdade parece muito mais com aquele ciclo dos anarquistas no começo do século XX, aquela galera que não queria que as suas organizações fossem institucionalizadas pelo Estado e ao mesmo tempo queria fazer as lutas diretas, se auto-organizar”. O que a gente vê talvez seja mesmo uma questão de gestão da miséria, barbárie. Alguns grupinhos e iniciativas foram organizadas nesse sentido de “todo mundo coloca uma graninha e daí a gente ajuda quem se acidentar”, e tal. A gente pode ver isso dentro de uma dinâmica de que está tirando a responsabilidade da empresa. Mas ao mesmo tempo a gente também pode ver isso dentro de uma ótica de avanço de perspectiva de auto-organização, que é interessante. Só que a gente fica nessa contradição porque a gente não quer também potencializar a gestão da miséria. Mas ao mesmo tempo o desenvolvimento de novas relações e novas organizações, formas de se relacionar que surgem daquilo, são muito interessantes. Então como é que a gente junta isso? A esquerda só fala coisas como “precisa ter CLT”, “precisa de sindicato”, “precisa disso”, mas não olha para essas expressões mais orgânicas da classe, em buscar os conflitos e as formas de organização invisíveis, subterrâneas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-159304" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503.jpg" alt="" width="1046" height="1493" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503.jpg 1046w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-210x300.jpg 210w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-717x1024.jpg 717w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-768x1096.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-294x420.jpg 294w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-640x913.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/06/composition-xx-1920-1063606503-681x972.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1046px) 100vw, 1046px" />PyB &#8211; Como surgiu a ideia de editar o livro “Incêndio”? Qual foi seu principal objetivo ao circular esses textos no meio autônomo/radical?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Tem dois textos nesse livro, né? O primeiro texto chama <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2019/01/125118/" href="https://passapalavra.info/2019/01/125118/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Olha como a coisa virou”</a>, que acho que foi o primeiro texto coletivo que a gente escreveu no Grupão. E a gente escreveu em 2018, que foi o ano que estava se elegendo o Bolsonaro, foi um ano muito tenso. Só que no Grupão tinha uma intuição, mesmo antes do Bolsonaro ser eleito, de que ele era de alguma forma um “candidato do tempo”. Porque tínhamos uma leitura de 2013 como a revolta que explodiu a guerra social, e que rompeu com a pacificação, com o regime de gestão petista e trouxe à tona o conflito. E o Bolsonaro, de alguma forma, era o candidato que trazia à tona o conflito também. Não era o mesmo conflito de classe que a gente queria em 2013, mas ele escancarava a guerra social em vários sentidos. Então parecia para gente que o espírito de revolta de 2013 ainda estaria vivo e eleitoralmente o Bolsonaro teria condições de sequestrar um pouco dessa energia de revolta. Ele vencer a eleição reforçou esse ponto.</p>
<p style="text-align: justify;">A gente tinha uma hipótese para explicar a eleição que era que o bolsonarismo sequestrava parte daquela energia de revolta social de 2013 de forma muito louca porque ao mesmo tempo também era a expressão da repressão em 2013, das forças policiais, do exército que estava no Haiti reprimindo nas favelas e que veio pra cá reprimir, fazer garantia de lei e ordem. Então o Bolsonaro condensava esses dois lados da coisa: a repressão e também o sequestro da energia de revolta, tirando essa revolta de termos de classe e levando pra uma coisa mais ambígua &#8211; justamente por isso fascista, porque como o João Bernardo define, fascismo é uma revolta dentro da ordem. Então o texto continha uma hipótese para o período: “se o Bolsonaro expressa uma energia de revolta social que era nossa em 2013 e que agora foi sequestrada por uma extrema direita, quer dizer que existe algum conteúdo que nos interessa no meio dessa coisa toda” . E isso nos fez, durante o período seguinte, ter uma posição que fez a gente se afastar do conjunto da esquerda que adotou uma posição “se unir contra o fascismo”. A gente tinha muita ressalva com esse discurso antifascista no sentido de que ele poderia simplesmente significar uma defesa daquela democracia, do consenso e do apaziguamento que estávamos combatendo anos antes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K </strong>&#8211; De certa forma, a gente tentou traçar durante o Bolsonaro uma postura que não era exatamente antifascista, ou ela o era em outros termos, que não era de defender a civilização e a ordem capitalista contra a irracionalidade fascista, mas sim de buscar no proletariado, inclusive nos trabalhadores que apoiavam o Bolsonaro, uma energia de revolta que agora a insurgência de direita estava sequestrando. Eu acho que o texto tinha um pouco essa aposta: tentar escapar da polarização Bolsonaro-PT e entender as lutas nos seus próprios termos. Levar elas para o plano trabalhadores versus capital, colocar uma oposição em termos de classe. A gente teve essa experiência em várias categorias, como os entregadores. O segundo texto do <em>Incêndio</em>, que é o <a class="urlextern" title="https://neblina.xyz/masterclass" href="https://neblina.xyz/masterclass" rel="ugc nofollow">“</a><a class="urlextern" title="https://neblina.xyz/masterclass" href="https://neblina.xyz/masterclass" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">Masterclass de fim do mundo</a><a class="urlextern" title="https://neblina.xyz/masterclass" href="https://neblina.xyz/masterclass" rel="ugc nofollow">”</a>, é uma compilação, um balanço do conjunto dessa experiência que a gente teve durante o bolsonarismo, que foi agravada obviamente pela pandemia.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Vale a pena falar que no período da pandemia o Grupão teve algumas diferenças internas. Chegou praticamente a rachar, apesar de que não completamente. O texto acabou sendo escrito por um lado, digamos, dessa divisão. Quais eram os lados dessa polarização interna? O primeiro dizia: “tem um vírus mortal rolando aí e a nossa tarefa é criar redes de solidariedade para se proteger contra a pandemia.” A auto-organização da quarentena e das medidas sanitárias vinha em primeiro lugar. O outro setor &#8211; e eu estava mais desse lado &#8211; argumentava que para muitos trabalhadores a quarentena não seria uma opção. Você vai se proteger na medida em que você consegue, mas se as pessoas ainda tem que sair para trabalhar, ainda precisam lutar contra o seu patrão, e quem está em casa também. Por isso, nossa primeira tarefa deveria ser apoiar o conflito. O texto do Incêndio coloca essa questão nas entrelinhas em muitos momentos: a ênfase na solidariedade ou no conflito? Depois da pandemia e com o texto publicado, hoje para nós está claro que essas coisas não se excluem completamente. Para você ter conflito você tem que ter uma rede de solidariedade mínima entre os trabalhadores que estão em conflito, e que certas redes de solidariedade, em certas situações, também podem ser conflituosas para o capital. Enfim, o grupo que escreveu o incêndio, e daí assinou como “militantes na neblina” &#8211; foi uma forma também de não colocar o nome “Grupão” &#8211; era o setor que estava criticando as redes de solidariedade como um embrião de gestão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Só para explicar um pouco, por exemplo, no caso específico dos entregadores, uma fração que foi alçada à categoria de imprescindíveis para a reprodução, chamados de trabalhos “essenciais”. Como também não tinham muita organização formal, era uma linha de frente para o capital. Daí a galera discutiu se poderia se organizar para entregar EPIs para os trabalhadores ou então fazer com que a própria luta se voltasse contra o iFood, contra a Rappi, e obrigar que essas empresas fizessem a proteção dos trabalhadores, aumentando o pagamento salarial. Óbvio que a gente estava pensando “é importante fazer a segurança, ter EPI de qualidade”, mas dentro disso saber que não adianta a gente, enquanto grupo externo, ficar fazendo “vamos lá levar máscara para os caras”, “vamos lá fazer vaquinha para ajudar o cara”, era quebrar com essa lógica de uma forma específica e botar isso como conteúdo objetivo da luta.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X </strong>&#8211; Eu acho que o W apresentou dois extremos ali do debate sobre solidariedade e conflito, que é anterior à pandemia e ele se desenvolve na pandemia. De certa forma, acaba se radicalizando. Mas eu não acho que a ruptura se deu nesses termos exatamente. Até porque eu fiquei mais do lado da galera que estava vendo outras formas de luta e resistência dentro de processos de solidariedade, que também eram conflituosos. Acompanhamos e apoiamos a greve dos entregadores da Loggi no Rio de Janeiro, que foi anterior ao Breque dos Apps. O mesmo com rodoviários fazendo greve selvagem. Lá em Paraty, a gente estava de olho no desenvolvimento das barreiras sanitárias organizadas por moradores de bairros afastados, que tinham treta com o poder público. Divulgando a galera que estava nos locais de trabalho, com raiva de seus patrões que estavam se utilizando das políticas sanitárias a bel prazer, sem nenhum tipo de fiscalização por parte do poder público, enquanto o mesmo poder público censurava trabalhadores precarizados do centro que estavam lá vendendo artesanato, fazendo arte, música, enfim. Aqui em Goiânia, um dos pontos que foi interessante é que a gente conseguiu uma inserção com os entregadores, que foi a galera que já estava recebendo kit de entrega de máscara e álcool gel, mas era uma máscara de pano escrota. A gente se juntou, fez uma vaquinha e foi lá distribuir pra galera. E foi super massa ter essa troca. Isso abriu nossa inserção para a greve contra o agendamento de corridas nos apps, por exemplo, que a gente construiu junto na pandemia. As coisas ficaram um pouco misturadas em certo momento. Eu acho que essas questões não ficaram tão pretas ou brancas assim.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W </strong>&#8211; Isso é uma coisa engraçada dessa experiência: foi uma divisão funcional de tarefas também. No momento em que o auxílio emergencial produziu revoltas de rua, a gente se envolveu. Quando virou uma coisa de redes de solidariedade a gente falou “isso aí é pelego”, aí vocês se envolveram. Então, de alguma forma, a gente pôde acompanhar o movimento inteiro. Quando a gente voltou a se encontrar, deu para conversar e os dois produziram sínteses.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X </strong>&#8211; Voltando à questão do <em>Incêndio</em>, eu já estava no Grupão no processo da escrita dos dois textos. Não participei do <em>“Olha como a coisa virou”</em>, mas é o que eu tenho mais acordo. Em relação ao <em>“Masterclass do fim do mundo”</em>, a minha discordância além de questões chaves, terminológicas ou de definições de certos processos (como por exemplo as barreiras sanitárias e tal, que também foi dual, tinha coisa muito pelega, mas tinha coisa muito interessante de combatividade), é o tom final do texto de “chegamos ao fim da linha” &#8211; que deu um tom também no próprio Grupão. O Masterclass caiu numa coisa completamente niilista, que reforçou uma questão, que eu acho que a gente está tentando sair agora, de: “é o fim, talvez a gente nem deve mais pensar em revolução, talvez seja uma questão de pensar apenas resistência”. Na minha visão, a gente tinha muito claro, muito estabelecido entre a gente, por mais que não falasse muito, que a nossa perspectiva era revolucionária. A partir do <em>Masterclass</em> eu comecei a pensar que talvez esse não fosse o caso, que talvez realmente haviam camaradas que pensassem que não tem mais pra onde ir, que é o fim mesmo, e agora é sobre puxar o freio e segurar essa porra. Eu acho que isso levou o Grupão por um lado meio negativo. Dessa coisa meio da gente simplesmente achar que é o fim da linha.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Em certa medida, são textos que se propõem a fazer sínteses do tempo histórico. Não sei se a gente poderia falar em conjuntura, como uma coisa bem dividida: “o que acontece no âmbito da política”, “da cultura”, “da economia”, uma coisa meio escolarizada fordista, isso já foi pro saco. A gente não se importa com isso. A gente se importa em tentar captar aquilo que você chamou do “espírito da revolta” no processo. O sequestro desse espírito da revolta, e um certo apogeu dessas forças de extrema direita. É uma tendência a uma dessocialização que agrava uma forma violenta das relações cotidianas. Mas acho que o ponto é que ambos são, e daí entro numa reflexão que a gente precisa fazer entre nós, que ambos são expressões de transições de conjunturas. A gente pode pegar um texto anterior, da crise do MPL, que é o <a class="urlextern" title="https://passapalavra.info/2014/05/95701/" href="https://passapalavra.info/2014/05/95701/" target="_blank" rel="nofollow noopener ugc">“Revolta popular: o limite da tática”</a> que expressa um tempo histórico. Expressa a luta conscientemente contra o consenso e quebramos a janela do consenso, fizemos o consenso se desdobrar e se esvair em um processo aberto. Capta como que esse processo aberto poderia escorregar para uma revolta de vernizes de extrema direita, que foi o <em>“Olha como a coisa virou”</em>, e a gente até termina meio “otimista”, perguntando para onde caminha a revolta. Pode ser que ela volte para outro campo, mas a tônica era que é possível passar o calhamaço da extrema direita durante um tempo. E o <em>“Masterclass do fim do mundo” </em>combina o combo de tragédias. Era a tragédia de uma população relativamente encantada com discursos que, para a gente, se assimilavam ao que foi o fascismo histórico, chama-se lá como foi. Tinha a expressão de violências e estratégias bárbaras de deixar ou dirigir o genocídio mediado por um vírus, tinha experiências políticas, no caso do Amazonas, de deixar as pessoas sem oxigênio. Enfim, aquela marcha fúnebre que passava tudo. Aquilo deu a tônica de um apogeu em um momento histórico. Só que isso também passou. Então ambos os textos, apesar de serem textos de propósito de síntese, não tem a pretensão de ser algo manualesco, algo que dê um caminho. São sínteses de tempo histórico. De dizer um pouco, do ponto de vista sintético, qual é a experiência que a gente tem visto na luta de classes no Brasil nesses dois tempos. Nesse sentido é bom, mas no outro sentido é datado. O problema de você generalizar coisas a partir das lutas concretas de um momento é que fica um pouco impressionista.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada W</strong> &#8211; Eu entendo a preocupação do Camarada X e eu concordo com ela. Politicamente o texto tem uma conclusão muito pessimista. Aquele livro termina muito pessimista. Só que de fato a gente viu a maior onda de revoltas da história da humanidade globalmente, a maior onda de greves da história do Brasil. Na China também houve um ciclo de greves enorme, e isso não deu em revolução, tampouco em saldo organizativo. No fundo, essa constatação tem a ver com o problema do acúmulo organizativo. A gente estava escrevendo esse texto na ressaca das greves de motoboys e das lutas da pandemia, que tinham sido derrotadas. O Revolucionários dos Apps, grupo de entregadores de app em Goiânia foi cooptado. Em São Paulo o grupo do Treta no Trampo implodiu com brigas internas. Foi péssimo aquele momento. A gente escreveu esse texto em um tom de derrota. E vendo também as revoltas pelo mundo não encontrando o horizonte… por isso que é “neblina”, porque não vê horizonte revolucionário. A gente até brincou: “quando tiver um horizonte revolucionário a gente muda o nome da assinatura”. Só que o problema é que o balanço que você faz nessa situação é muito pessimista, e isso tem uma implicação política. Por um lado é levar a sério o que se está analisando, falar de não ter horizonte, e de fato a gente tem que entender que pode ser sinistra a consequência de dizer que não tem acúmulo de forças hoje. Então por que eu vou militar? É o problema político do texto.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; Em geral os livros políticos tem propostas de ação, o nosso não tem, o nosso é só uma lamentação. No final é o chamado a quem percebe essa lamentação, é uma proposta de encontrar um chamado às outras organizações que percebem nesse momento histórico a gravidade do tempo. Eu acho que é um ponto. Ele não teve um papel organizador como os livros podem ter. Foi uma síntese nossa, e aí a gente ficou lidando com essa síntese, com esse balanço muito pessimista. Eu acho que tem um pouco a ver com a situação do Grupão hoje, que a gente está num momento difícil do nosso espaço, que tem muita gente que está muito desiludida.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada X &#8211;</strong> Eu acredito que a gente deve resgatar o horizonte revolucionário, não como uma coisa a ser construída por nós, mas uma coisa que considerando todo o processo histórico é uma possibilidade, não é a negação dessa possibilidade. A gente não pode dizer que vai acontecer, mas a gente não pode dizer também que não vai acontecer. Então é melhor que a gente segure a possibilidade e avance para isso, até porque têm outras lutas que trazem conteúdos importantes para a perspectiva revolucionária hoje. Por exemplo, me trouxeram a referência do Irã em 2021 quando teve uma greve gigante de trabalhadores de óleo e petroquímica, 100 mil trabalhadores organizados e criação de conselhos. Eles estavam fazendo defesa de conselhos. Eles estavam defendendo uma perspectiva que a gente pensou que havia acabado, mas aconteceu. Mostra uma continuidade. Eu não vou falar que mostra uma “invariância”, mas mostra que há uma atualidade ainda em formas clássicas que podem se atualizar, como os grupos de WhatsApp, a perspectiva das equipes dos entregadores, enfim. Eu acho que são elementos que a gente precisa pensar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Camarada K</strong> &#8211; A crítica sempre é posicionada, por mais que ela seja radicalmente negativa, ela é sempre posicionada. A gente parte do pressuposto, ainda que não tenha as condições objetivas de realizar, de que existe a necessidade e a possibilidade, talvez não a probabilidade, da humanidade viver uma humanidade sem classes. A gente parte desse pressuposto. Ele é a onde a gente joga a âncora para fazer a crítica. A gente não faz a crítica no vazio. Ela é posicional. Nesse sentido, acho que isso ajuda a gente a entender que mesmo que uma revolução, uma ruptura, não esteja na ordem do dia ou aquilo que organiza o nosso cotidiano, ela serve mesmo no exercício da imaginação. Ela serve para a gente criar a negativa desse mundo. Óbvio, uma negativa imanente, a gente parte do pressuposto de que existem as contradições. As condições de vida tendem às lógicas mais irracionais, mais destrutivas, mais bárbaras. A gente só consegue perceber isso quando a gente alça no oposto, ou seja, talvez não seja provável, mas é possível uma humanidade sem classes, uma humanidade livre das determinações da sua auto-escravidão. Eu acho que isso é o que faz com que a gente possa pensar. Então, de certa maneira, é também inegável que a gente tenha o pressuposto revolucionário para fazer a crítica do capital. Sem o pressuposto revolucionário a gente não consegue fazer a crítica efetiva do capital. Talvez a tarefa dos revolucionários nesse tempo histórico sinistro de neblina seja manter acesa um pouco essa mínima capacidade de inventar contra o modo de ser das coisas.</p>
<p><em>As obras que ilustram o artigo são de Theo v</em><em>an Doesburg </em></p>
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		<title>A entrevista de Paulo Galo no Três Irmãos: notas críticas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 May 2026 14:04:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Mídia/comunicação_social]]></category>
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					<description><![CDATA[A entrevista de Paulo Galo não pode ser reduzida a um episódio isolado, nem tampouco a um conjunto de opiniões mais ou menos acertadas, mas deve ser situada como expressão de uma configuração histórica na qual experiência de luta, mediação comunicacional e formas políticas herdadas se entrelaçam de maneira tensa e, muitas vezes, contraditória. Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">Já tem um tempo que venho maturando a necessidade de escrever um texto sobre Paulo Galo. Com esforço considerável, assisti à sua entrevista no podcast “Três Irmãos”, conduzido por Rodrigão e Robertinho (duas antas do ponto de vista político e comunicacional). Pensar sua atuação pública e as polêmicas em que vem se envolvendo exige um debate de grande densidade, capaz de atravessar as tradições políticas da esquerda e suas contradições históricas, os processos de luta engendrados por setores autônomos da classe, a midiatização dessas experiências e a captura progressiva de personagens forjados no calor do conflito por estruturas comunicacionais interessadas em administrar suas aparições, reorganizar seus sentidos e colaborar ativamente para a institucionalização da política, isto é, para a conversão de experiências reais de enfrentamento em mercadoria discursiva, circulação controlada e esvaziamento estratégico. Sendo Paulo Galo uma figura de peso na cena política recente, torna-se necessário submeter seu pensamento e sua prática a um exame, atento tanto aos seus méritos quanto aos seus limites, sem concessões afetivas, sem blindagens militantes e sem a indulgência típica de um tempo em que a crítica é frequentemente sacrificada em nome da adesão, da torcida ou da conveniência circunstancial.</p>
<p style="text-align: justify;">Quero iniciar este texto situando quem é Paulo Galo e de que modo se constitui o seu processo de politização, compreendendo sua trajetória como parte de uma configuração histórica específica em que o trabalho urbano, reconfigurado pela expansão das plataformas digitais e intensificação da precarização, produz formas de consciência que não emergem de tradições organizativas estáveis, mas de experiências fragmentadas que, ao se acumularem, passam a exigir elaboração política. Paulo Roberto da Silva Lima, conhecido como Paulo Galo, se forma no interior das periferias de São Paulo, espaço em que a inserção no mundo do trabalho se dá sob condições marcadas pela instabilidade, informalidade persistente e necessidade constante de adaptação a atividades que garantam a reprodução imediata da vida, sem oferecer qualquer horizonte de segurança. Esse percurso é uma regra para amplos setores da classe trabalhadora brasileira nas últimas décadas, especialmente após a reestruturação produtiva que dissolveu formas relativamente estáveis de emprego e expandiu um universo de ocupações desprovidas de proteção institucional.</p>
<p style="text-align: justify;">A entrada de Galo no trabalho por aplicativos representa a inserção em uma forma de exploração que reorganiza a relação entre capital e trabalho, substituindo a figura clássica do patrão por sistemas de gestão baseados em algoritmos, avaliações e mecanismos de controle indireto que operam com alto grau de opacidade. A experiência cotidiana do entregador, marcada por jornadas extensas, remuneração variável, riscos constantes e possibilidade permanente de bloqueio unilateral, produz um tipo de percepção social que tende a romper com a ideia de autonomia propagada pelas plataformas, revelando a dependência que sustenta esse modelo. Nesse contexto, se desenvolve o processo de politização de Galo, sem uma formação teórica sistemática previamente consolidada, elaborando progressivamente uma experiência compartilhada, na qual problemas inicialmente percebidos como individuais passam a ser reconhecidos como expressão de uma condição comum, o que força um processo amplo de politização e conflitos evidentes. A convivência com outros trabalhadores, a troca de relatos sobre bloqueios, quedas de rendimento e estratégias de sobrevivência, assim como a percepção de que essas experiências se repetem de forma recorrente, criam as bases para uma compreensão mais ampla da exploração, abrindo espaço para a construção de práticas coletivas.</p>
<p style="text-align: justify;">A emergência dos Entregadores Antifascistas, no contexto da pandemia de 2020, foi um momento de condensação desse processo. A intensificação da demanda por entregas, associada à exposição ampliada desses trabalhadores no espaço público, produz uma visibilidade inédita para uma categoria até então relativamente invisibilizada, ao mesmo tempo em que evidencia de maneira aguda as condições sob as quais esse trabalho é realizado. A organização de paralisações, manifestações e ações coordenadas surge como resposta a um acúmulo de tensões que encontram naquele momento uma possibilidade de expressão coletiva. Galo se projeta nesse cenário como uma figura capaz de articular linguagem e experiência, transformando vivências dispersas em discurso politizado, sem recorrer a mediações excessivamente abstratas. Sua fala se caracteriza por uma combinação de referências práticas, memória recente de luta e uma disposição para confrontar diretamente estruturas de poder, o que lhe confere ressonância junto a setores que não se reconhecem nos formatos tradicionais de organização política. Essa capacidade de comunicação, entretanto, não pode ser dissociada das condições que a tornam possível, uma vez que sua circulação se dá majoritariamente por meio de plataformas que operam segundo critérios de visibilidade e engajamento, introduzindo desde o início uma tensão entre expressão política e captura midiática.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo desse percurso, a trajetória de Galo passa a atravessar diferentes campos de disputa, articulando a questão do trabalho precarizado com debates mais amplos sobre violência estatal, racismo estrutural e memória histórica, especialmente após o episódio envolvendo a estátua de Borba Gato. Essa ampliação do campo de intervenção torna visíveis relações que já atravessavam a experiência social que o constitui, uma vez que a precarização do trabalho, a repressão policial e a produção de narrativas históricas oficiais integram um mesmo conjunto de determinações que estruturam a vida nas periferias urbanas. A compreensão de quem é Paulo Galo exige, portanto, uma abordagem que considere simultaneamente as condições materiais que estruturam sua trajetória, os processos de politização que emergem dessas condições e as formas de mediação que reconfiguram sua atuação no espaço público, produzindo uma figura que concentra, em si, tanto a potência de uma experiência coletiva em movimento quanto os limites impostos por um ambiente político e comunicacional que tende a absorver, reorganizar e, em última instância, neutralizar aquilo que nele aparece como força de ruptura.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159192" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962.jpg" alt="" width="1200" height="533" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962.jpg 1200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-300x133.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-1024x455.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-768x341.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-946x420.jpg 946w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-640x284.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Bacon-Three-Studies-for-a-Crucifixion-1962-681x302.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px" />Se a trajetória de Paulo Galo só pode ser compreendida a partir das condições materiais que a engendram, a análise de sua entrevista no podcast “Três Irmãos” exige compreender a questão em outro plano, não mais centrado apenas na formação de sua experiência política, mas na forma através da qual essa experiência passa a circular, ser interpretada e, sobretudo, reorganizada no interior de um dispositivo comunicacional que não opera de maneira neutra, obviamente. A entrevista, na verdade, é uma estrutura que condiciona previamente o modo como essas ideias podem aparecer, estabelecendo limites, ritmos e registros que incidem diretamente sobre o conteúdo do que é dito. O ambiente construído ao longo da conversa, marcado por um tom de informalidade constante, pela presença recorrente de interrupções, comentários laterais e momentos de descontração forçada, cria uma sensação de proximidade que, à primeira vista, pode sugerir abertura e espontaneidade, mas que, sob análise mais detida, revela um mecanismo de regulação da fala que impede o aprofundamento das questões colocadas. A crítica, quando emerge, não encontra condições de desenvolvimento contínuo, sendo frequentemente absorvida por uma dinâmica que privilegia a leveza, a fluidez e a manutenção do ritmo, elementos fundamentais para a retenção da audiência, mas profundamente limitadores do ponto de vista da elaboração política.</p>
<p style="text-align: justify;">A atuação dos âncoras não pode ser reduzida a uma suposta falta de preparo ou a uma limitação individual de compreensão, ainda que tais aspectos se manifestem de forma evidente em diversas intervenções. O papel dos entrevistadores consiste em garantir a estabilidade do ambiente, evitando rupturas, conduzindo o diálogo para zonas de conforto discursivo e mantendo a conversa dentro de parâmetros que assegurem sua continuidade como produto consumível. A recorrência de formulações genéricas, ancoradas no senso comum mais imediato, não é apenas expressão de superficialidade, mas elemento constitutivo de uma forma de mediação que substitui a complexidade por familiaridade, tornando o conteúdo rapidamente assimilável e, por isso mesmo, desprovido de maior densidade. É nesse ambiente que a fala de Galo opera, carregando consigo uma tensão constante entre a experiência concreta que a sustenta e as condições de sua circulação. Ao mencionar sua participação em greves, manifestações e ações diretas, sua fala insere na entrevista uma dimensão que escapa à lógica predominante do debate, remetendo a práticas organizadas em torno da intervenção direta sobre as condições de trabalho, e não da representação. Essa dimensão, no entanto, não se desenvolve plenamente, sendo continuamente atravessada por uma dinâmica que a reconduz ao nível da opinião, da comparação com outros atores e da disputa por reconhecimento no interior de um campo já estruturado pela visibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A crítica que Galo dirige às estruturas partidárias e a determinadas figuras públicas surge com uma força que deriva de sua posição externa a esses circuitos, mas também com limites evidentes, na medida em que permanece, em grande parte, no plano da denúncia, sem alcançar uma formulação mais sistemática das formas de organização que poderiam efetivamente superar os problemas apontados. Essa limitação não pode ser atribuída exclusivamente ao indivíduo, devendo ser compreendida em relação às condições em que sua fala se produz, uma vez que o espaço em que ela se insere não favorece a construção de mediações mais complexas, operando antes como um filtro que privilegia a imediaticidade e a resposta rápida.</p>
<p style="text-align: justify;">A própria dinâmica do podcast contribui para esse efeito, ao organizar a entrevista como uma sequência de estímulos que se sucedem em ritmo acelerado, impedindo que qualquer questão seja levada às últimas consequências. O pensamento aparece fragmentado, constantemente interrompido por risos, comentários ou mudanças de assunto, configurando uma forma de discurso que se mantém em movimento permanente, mas que raramente se aprofunda, forjando um campo em que a política se apresenta como fluxo, como circulação contínua de falas que se sucedem sem necessariamente se desenvolverem, produzindo uma sensação de debate que, no entanto, não se traduz em avanço efetivo da compreensão.</p>
<p style="text-align: justify;">A passagem para o debate que se desdobra fora da entrevista, especialmente nas intervenções de figuras como Chavoso da USP e Humberto Matos, permite observar com ainda mais nitidez as tensões que atravessam o campo político no qual Galo passa a operar, uma vez que aquilo que, no interior do podcast, aparece de forma fragmentada e muitas vezes diluída, ganha contornos mais definidos quando confrontado com posições que procuram dar sentido e direção ao episódio.</p>
<p style="text-align: justify;">Chavoso afirmou em vídeo que as críticas dirigidas a determinados atores deveriam ter sido feitas em âmbito privado, refletindo uma concepção de política que pressupõe a existência de um campo relativamente coeso, no qual a exposição pública de divergências seria prejudicial à luta. Essa posição se ancora em uma ideia de unidade que, ao invés de resultar de um processo de elaboração comum, antecede o próprio debate, funcionando como critério que regula aquilo que pode ou não ser dito em determinadas condições. O efeito dessa orientação é a contenção da crítica justamente nos pontos em que ela incide sobre formas de atuação já consolidadas no interior do próprio campo que se pretende transformador, criando uma espécie de zona protegida em que determinadas posições circulam sem serem efetivamente tensionadas. Chavoso também sugere que a visibilidade proporcionada por um podcast deveria ser utilizada prioritariamente para atacar ideologias dominantes, o que direciona a discussão para outro registro, igualmente revelador. Parte-se de uma compreensão segundo a qual o espaço midiático pode ser instrumentalizado de maneira relativamente direta, como se bastasse ocupar esse espaço com determinado conteúdo para produzir efeitos proporcionais à sua radicalidade. Isso diz muito sobre o “bom uso” de fachadas como as CPI´s… Essa leitura ignora que o próprio formato em questão opera segundo uma lógica que reorganiza as falas, submetendo-as a critérios de circulação, retenção e engajamento que não são definidos pelos participantes, mas pela estrutura que os abriga. A crítica, ao ingressar nesse circuito, não se mantém intacta, sendo traduzida, condensada e redistribuída de acordo com essas exigências, o que altera profundamente sua eficácia.</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia de que haveria uma ordem adequada de enfrentamento (primeiro os inimigos externos, depois as contradições internas), reforça uma visão estratégica que, embora compreensível em determinados contextos históricos, encontra dificuldades quando aplicada a um cenário em que as formas de mediação política já se encontram profundamente integradas às dinâmicas de reprodução do capital. A distinção entre campos opostos perde nitidez quando setores que se apresentam como críticos operam, na prática, dentro de estruturas que reproduzem as mesmas lógicas de separação, especialização e gestão da política. Nessa situação, a crítica dirigida ao interior desse campo deixa de ser um desvio ou uma fragilidade e passa a constituir uma dimensão necessária da própria luta.</p>
<p style="text-align: justify;">A intervenção de Humberto Matos explicita uma forma de compreensão da política que se apresenta como estratégica, responsável e orientada por um horizonte definido, mas que, examinada com mais atenção, mostra a permanência de uma estrutura que concentra a elaboração em instâncias separadas da prática social imediata. Ao enfatizar a necessidade de unidade, de maturidade no debate e de preservação de determinadas trincheiras, constrói-se um campo em que o conflito tende a ser regulado antes de se desenvolver, sendo traduzido em diferenças de tom, de abordagem ou de oportunidade, ao invés de ser tratado como expressão de divergências muito mais profundas. A referência constante à estratégia como elemento central da ação política introduz uma concepção na qual a definição dos rumos da luta aparece como tarefa de sujeitos ou instâncias dotadas de maior capacidade de elaboração, reforçando a divisão entre aqueles que pensam e aqueles que executam. Essa divisão, historicamente associada a determinadas leituras do bolchevismo, encontra, no contexto contemporâneo, novas formas de manifestação, especialmente quando articulada à centralidade da comunicação. A política passa a se organizar como campo de produção e circulação de discurso, no qual a capacidade de formular, ajustar e difundir posições assume um papel central, frequentemente em detrimento da construção de práticas coletivas mais enraizadas.</p>
<p style="text-align: justify;">A distinção estabelecida entre manter princípios e modular o discurso de acordo com as condições de circulação evidencia a adaptação dessa forma de política às exigências do meio em que ela se realiza. A possibilidade de ajustar a forma sem alterar o conteúdo permite uma flexibilidade que facilita a inserção em diferentes espaços, mas também contribui para a separação entre discurso e prática, uma vez que a radicalidade pode ser preservada no plano da intenção enquanto sua expressão é continuamente calibrada. Esse movimento se articula com a lógica das plataformas digitais, onde a visibilidade depende de uma constante negociação com formatos, públicos e algoritmos, reforçando a tendência à especialização de determinados sujeitos na gestão dessa comunicação. Essa especialização produz uma camada de mediadores que operam em relativa autonomia em relação às bases sociais que dizem representar, consolidando uma divisão do trabalho político em que diferentes funções são distribuídas entre sujeitos distintos. Alguns se ocupam da intervenção direta, outros da elaboração teórica, outros da comunicação, outros da atuação institucional. Embora essa divisão possa ser apresentada como necessária à complexidade da luta contemporânea, ela tende a reproduzir, no interior do próprio campo político, a separação entre direção e base.</p>
<p style="text-align: justify;">A contraposição a essa forma de organização encontra expressão nas tradições que colocam a autoatividade da classe no centro do processo de transformação. A experiência dos conselhos operários, em diferentes momentos históricos, aponta para a possibilidade de formas de organização em que a deliberação sobre as condições de vida e de trabalho não é delegada a instâncias separadas, mas realizada diretamente pelos próprios trabalhadores. Nesse modelo, a distinção rígida entre elaboração e execução perde sentido, uma vez que a prática coletiva incorpora, simultaneamente, momentos de reflexão e decisão. O contraste entre essas duas perspectivas não se resolve no plano da retórica, nem pode ser reduzido a uma divergência de opiniões sobre táticas ou estratégias específicas. Ele se manifesta na própria forma que a política assume em cada caso, seja como direção concentrada, mediação e representação, seja como processo aberto de auto-organização e deliberação coletiva. A análise das falas que emergem a partir da entrevista de Paulo Galo permite identificar, com relativa clareza, a coexistência e o choque dessas formas no interior de um mesmo campo, evidenciando que as disputas contemporâneas não se limitam à escolha de alvos ou à definição de prioridades, mas dizem respeito à própria estrutura da ação política e às possibilidades efetivas de transformação social.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-159191" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled.jpg" alt="" width="1460" height="655" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled.jpg 1460w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-300x135.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-1024x459.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-768x345.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-936x420.jpg 936w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-640x287.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/05/Untitled-681x306.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1460px) 100vw, 1460px" />A entrevista permite ainda avançar para um nível mais profundo de análise, no qual as próprias categorias mobilizadas por Galo passam a exigir um exame, não apenas pelo que afirmam, mas pelo modo como se articulam com as condições históricas em que são formuladas. A afirmação de que “não tem como vencer a máquina, tem como quebrar a máquina”, longe de ser apenas uma frase de efeito, condensa uma percepção real acerca da assimetria estrutural entre os trabalhadores e os sistemas que organizam sua exploração, especialmente no contexto das plataformas digitais, onde o controle se realiza por meio de mecanismos opacos, descentralizados e de difícil apreensão imediata. A intuição de que a disputa não pode se limitar à tentativa de operar dentro dessas regras aponta para um reconhecimento, ainda que não sistematizado, dos limites das estratégias que se restringem à adaptação. Essa percepção, no entanto, convive com uma ausência de mediações que permitiriam transformar essa intuição em um horizonte político mais consistente. A ideia de “quebrar a máquina” aparece como gesto, como imagem de ruptura, mas não se desdobra em uma análise das condições concretas sob as quais essa ruptura poderia ocorrer, nem das formas de organização capazes de sustentá-la. O problema não reside na radicalidade da formulação, mas na distância entre essa radicalidade e a construção de um processo histórico efetivo. A crítica atinge o alvo, mas permanece no nível da negação imediata, sem produzir uma elaboração que a conecte a práticas duradouras. Esse limite se articula com outro aspecto recorrente na entrevista, que é a tendência à generalização difusa, na qual questões complexas são condensadas em formulações amplas que produzem reconhecimento imediato, mas não avançam na determinação concreta dos problemas. O debate frequentemente desliza para um plano em que categorias como “esquerda”, “povo”, “política” ou “revolta” aparecem de maneira pouco diferenciada, criando uma espécie de campo homogêneo que obscurece as mediações internas, as divisões e as contradições que estruturam essas próprias categorias. A crítica ganha amplitude, mas perde precisão, e essa perda de precisão limita sua capacidade de intervenção.</p>
<p style="text-align: justify;">A defesa da revolta popular como única via capaz de transformar a realidade expressa, por sua vez, uma leitura que reconhece o papel da ação coletiva, mas que tende a operar numa perspectiva imediata, no qual a explosão do conflito aparece como solução em si mesma. A história das lutas sociais, no entanto, mostra que a irrupção de movimentos de massa, por mais intensos que sejam, não se traduz automaticamente em transformação estrutural, sobretudo quando não encontram formas de organização capazes de sustentar, aprofundar e orientar esse movimento. A revolta, enquanto momento, pode romper a normalidade, mas a ausência de estruturas que permitam sua continuidade frequentemente abre espaço para recomposições que reconduzem o processo aos seus limites anteriores.</p>
<p style="text-align: justify;">A tradição marxista, especialmente em suas vertentes mais críticas ao estatismo e ao centralismo partidário, oferece elementos fundamentais para compreender o impasse. A ênfase na autoatividade da classe, presente em autores como Marx e retomada por correntes posteriores, não se limita à afirmação de que a transformação deve ser protagonizada pelos próprios trabalhadores, mas implica uma crítica às formas que tendem a separar essa atividade de instâncias de direção externas. A emancipação não pode ser concebida como resultado de uma ação conduzida por sujeitos especializados, nem como efeito automático de explosões espontâneas, exigindo a construção de formas organizativas nas quais a própria classe seja capaz de deliberar sobre seus caminhos. O que se observa, na fala de Galo, é a presença simultânea de uma crítica à delegação da política, expressa na desconfiança em relação aos partidos e à representação, e a ausência de uma formulação mais precisa das formas que poderiam substituir esse modelo. A recusa da mediação institucional não se traduz automaticamente na afirmação de uma mediação alternativa, deixando aberto um espaço em que a crítica corre o risco de se esgotar na denúncia. Esse vazio histórico é resultado de um período em que as formas tradicionais de organização perderam capacidade de mobilização, sem que novas formas tenham se consolidado de maneira estável.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, a circulação dessa crítica no interior de um ambiente mediado por plataformas digitais introduz uma nova camada de complexidade. A própria capacidade de comunicação de Galo, que constitui um de seus principais atributos políticos, se realiza dentro de estruturas que tendem a transformar essa comunicação em mercadoria, submetendo-a a critérios de visibilidade, engajamento e circulação que escapam ao controle direto dos sujeitos. A disputa pela consciência, nesse cenário, passa a se dar em um terreno no qual a forma de apresentação tem tanto peso quanto o conteúdo, criando uma situação em que a política se aproxima cada vez mais da lógica da produção de discurso.</p>
<p style="text-align: justify;">A questão que se coloca, portanto, não se limita a avaliar se determinadas falas estão corretas ou equivocadas, mas a compreender como elas se inscrevem em uma configuração histórica na qual experiência, comunicação e organização se encontram profundamente tensionadas. A entrevista de Paulo Galo, tomada em sua totalidade, oferece um material privilegiado para observar esse entrelaçamento, evidenciando tanto a potência de uma experiência que emerge de condições reais de exploração quanto os limites impostos por formas de mediação que tendem a reorganizar essa experiência segundo uma lógica que não coincide com as exigências de uma transformação efetiva. Se o percurso desenvolvido até aqui permite apreender algo com maior nitidez, é o fato de que a entrevista de Paulo Galo não pode ser reduzida a um episódio isolado, nem tampouco a um conjunto de opiniões mais ou menos acertadas, mas deve ser situada como expressão de uma configuração histórica na qual experiência de luta, mediação comunicacional e formas políticas herdadas se entrelaçam de maneira tensa e, muitas vezes, contraditória. A força de sua fala reside justamente no vínculo com uma experiência concreta de exploração que não se deixa dissolver completamente, que insiste em reaparecer sob a forma de denúncia, de inconformismo e de recusa, apontando para limites reais das estruturas existentes; ao mesmo tempo, essa força encontra obstáculos quando atravessa um campo em que a política se realiza cada vez mais como linguagem, como circulação e como gestão de posições. A coexistência de uma crítica à representação com a ausência de formas consolidadas de auto-organização, a presença de uma radicalidade discursiva que não se traduz automaticamente em prática coletiva, a centralidade crescente da comunicação em detrimento da construção de estruturas materiais de luta, tudo isso aponta para um momento em que as mediações tradicionais se encontram desgastadas, mas continuam operando, enquanto alternativas efetivas ainda se apresentam de maneira fragmentária e instável.</p>
<p style="text-align: justify;">A tentação de resolver o impasse por meio de atalhos, seja pela aposta exclusiva na revolta imediata, seja pela confiança na direção estratégica de instâncias especializadas, seja pela crença na capacidade de disputar o espaço midiático como se ele fosse neutro, tende a reproduzir, sob novas formas, os limites já identificados. O desafio que se coloca não é escolher entre esses caminhos como se fossem alternativas isoladas, mas enfrentar a tarefa mais complexa de pensar e construir formas de organização que consigam articular experiência, elaboração e prática sem reintroduzir as separações que caracterizam a própria sociabilidade capitalista. A entrevista de Paulo Galo adquire um valor que ultrapassa o seu conteúdo imediato, funcionando como ponto de condensação de tensões que atravessam o presente: a distância entre palavra e ação, a captura de experiências de luta por circuitos de visibilidade, a persistência de formas políticas que já não respondem às condições atuais e a dificuldade de produzir novas formas que consigam se afirmar com consistência. Pensar essas tensões com rigor, sem concessões fáceis e sem simplificações, talvez seja uma das tarefas mais urgentes para qualquer projeto que pretenda ir além da reprodução das formas existentes e enfrentar, em termos efetivos, as condições que sustentam a dominação contemporânea.</p>
<p style="text-align: center;"><em>As obras que ilustram este artigo são de Francis Bacon (1909 &#8211; 1992)</em></p>
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		<title>Contradições entre os oprimidos e o obscurantismo progressista</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Mar 2026 12:20:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_direita]]></category>
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					<description><![CDATA[Até que ponto setores que se reivindicam de esquerda não participam ativamente da produção desse novo obscurantismo? Por Arthur Moura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;">Por Arthur Moura</h3>
<p style="text-align: justify;">O obscurantismo não é produto exclusivo da direita, tampouco resulta de uma via de mão única. Ele se manifesta sempre que a realidade social é mistificada, quando relações históricas concretas são reinterpretadas por meio de visões de mundo irracionais, anticientíficas ou pseudocientíficas. O obscurantismo se define pela sua função social: bloquear a compreensão da totalidade, interditar a crítica estrutural e converter a política em dogma moral.</p>
<p style="text-align: justify;">A história do fascismo demonstra com clareza como esse mecanismo opera nos setores reacionários. No entanto, a questão que se impõe hoje é outra, mais incômoda: até que ponto setores que se reivindicam de esquerda não participam ativamente da produção desse novo obscurantismo? Até que ponto determinadas formas de identitarismo, mesmo quando animadas por intenções declaradamente antirracistas, não acabam reproduzindo lógicas ultra-sectárias e reacionárias? Asad Haider aponta que a transformação da identidade em fundamento absoluto da política produz contradições internas devastadoras. Ao deslocar a luta do plano das relações sociais para o terreno da identidade fixa, cria-se um campo propício à irracionalização do conflito, onde divergências políticas passam a ser interpretadas como traições ontológicas. A crítica deixa de ser momento necessário do avanço coletivo e passa a ser tratada como violência simbólica.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158868" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507.jpg" alt="" width="855" height="545" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507.jpg 855w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507-300x191.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507-768x490.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507-659x420.jpg 659w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507-640x408.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/Vantablack-coated-mask-via-sciencemuseum-603355507-681x434.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 855px) 100vw, 855px" />É nesse ponto que a reflexão de João Bernardo se torna incontornável — e profundamente incômoda. Ao analisar as raízes históricas do racismo moderno, ele observa que a atribuição de uma cultura a uma biologia (e vice-versa), característica central do fascismo, não é estranha a certos momentos do próprio movimento negro. Trata-se de uma advertência dura, mas necessária: quando a identidade é naturalizada, ela se torna terreno fértil para a biologização da política. A referência a Marcus Garvey é exemplar. Quando Garvey afirmou que “nós fomos os primeiros fascistas” e que Mussolini teria se inspirado nele, não se tratava apenas de bravata pessoal. Seu projeto recusava explicitamente a fusão de culturas e a miscigenação biológica, estabelecendo uma concepção de identidade racial fechada, essencializada e excludente. Esse tipo de formulação, ainda que se apresente como anticolonial, reproduz os mesmos pressupostos estruturais do racismo que afirma combater.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, qualquer crítica aos limites históricos e políticos do movimento negro — ou de seus desdobramentos identitários contemporâneos — é rapidamente rotulada como racismo. A crítica política é interditada em nome de uma moral identitária. Como observa João Bernardo, vivemos um momento em que às nações somaram-se as identidades, todas elas marcadas pelo ressentimento, pela vaidade e por uma lógica obsessiva que interpreta a realidade a partir de um único prisma. No movimento negro contemporâneo, essa lógica se expressa na redução de toda a complexidade social ao “mito da cor”. Esse processo se desenvolve em um contexto histórico de aprofundamento da crise capitalista, de precarização generalizada da vida e de perda de horizonte coletivo. A miséria material avança de forma brutal, enquanto a classe dominante reforça sua autoconfiança e sua capacidade de impor seus interesses mesmo em meio a crises devastadoras. O resultado é uma sociedade marcada pelo adoecimento físico e psíquico, pela fragmentação social e pela busca desesperada por pertencimento e sentido.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158867" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608.jpg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608-300x200.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608-768x512.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608-630x420.jpg 630w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608-640x427.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/©-Anish-Kapoor-_-Photo-©-David-Levene_37-1024x683-1705271608-681x454.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />Nesse cenário, o deslocamento da política para o plano identitário funciona como substituto da organização coletiva. Em vez de enfrentar as estruturas que produzem a miséria, canaliza-se a indignação para disputas simbólicas, para o reconhecimento institucional e para a ocupação de espaços burocráticos. Não por acaso, as lutas identitárias contemporâneas mantêm relação orgânica com partidos políticos e com o Estado burguês, operando muito mais como formas de mediação do conflito do que como forças de ruptura. A história do racismo moderno confirma essa dinâmica. As revoltas de negros escravizados (como a Revolta dos Malês) foram respondidas não apenas com repressão direta, mas com estratégias sofisticadas de controle, deportação e reorganização da força de trabalho. A ideia de “repatriar” negros libertos para a África, apresentada como solução filantrópica, funcionou historicamente como mecanismo de expulsão dos elementos mais combativos e de estabilização da ordem escravista.</p>
<p style="text-align: justify;">A experiência da Libéria é emblemática. Fundada sob inspiração liberal estadunidense, ela rapidamente se converteu em um regime no qual ex-escravizados transformaram-se em classe dominante, reproduzindo relações de exploração brutal sobre a população autóctone. A identidade racial compartilhada não impediu a reprodução da dominação de classe. Pelo contrário: serviu como legitimação ideológica de um novo regime de opressão. Esses exemplos históricos desmontam qualquer ilusão de que a identidade, por si só, possa fundamentar um projeto emancipatório. Sem crítica da totalidade, sem análise das relações de classe e sem organização coletiva, a política identitária tende a oscilar entre o espiritualismo moral e a integração burocrática. Teses, protestos e exigências acabam resvalando — como advertia Emil Ludwig — do plano simbólico para o material sem mediações conscientes, abrindo espaço tanto para o autoritarismo quanto para a instrumentalização reacionária.O desafio que se coloca aos lutadores sociais hoje não é escolher entre identidade e classe, mas superar a falsa oposição entre ambas. Isso exige romper com o obscurantismo progressista, recuperar a crítica histórica e recolocar a organização popular no centro da política. Sem isso, a luta se fragmenta, o irracionalismo avança e o capital segue intacto, administrando tanto a miséria material quanto a miséria política.<img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158865" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893.jpg" alt="" width="818" height="538" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893.jpg 818w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893-300x197.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893-768x505.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893-639x420.jpg 639w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893-640x421.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/03/anish-kapoor-galleria-continua-san-gimignano-designboom-02-2346864893-681x448.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 818px) 100vw, 818px" /></p>
<p><em>As imagens que ilustram esse artigo são obras de Anish Kapoor.</em></p>
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		<title>Breves notas sobre como salvar o marxismo da realidade (2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Feb 2026 12:13:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Que tipo de rigor teórico é compatível com a contingência dos processos sociais reais? Por Gabriel Telles]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Gabriel Teles</strong></h3>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Leia <a href="https://passapalavra.info/2026/02/158658/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a> a primeira parte</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Na primeira parte desta reflexão, procurei reconstruir criticamente o funcionamento de certos coletivos políticos que, em nome da preservação do marxismo, acabam por isolá-lo da história concreta. Analisei ali como a busca por pureza teórica, a “rigidificação” conceitual e a transformação da crítica em mecanismo disciplinar produzem uma forma específica de fechamento político.</p>
<p style="text-align: justify;">A intenção inicial era encerrar a análise nesse ponto: no diagnóstico de um marxismo que sobrevive menos por sua capacidade de intervir na realidade social do que por sua eficácia em manter fronteiras simbólicas internas. Esse diagnóstico já permitiria compreender por que tais coletivos tendem a confundir radicalidade com isolamento, rigor com repetição e fidelidade teórica com recusa do presente histórico.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, ao retomar esse percurso de forma mais distanciada, tornou-se evidente que a crítica, se permanecer apenas negativa, corre o risco de se limitar a descrever um impasse sem reabrir o horizonte político que ele bloqueia. Denunciar o fechamento defensivo desses coletivos é necessário, mas insuficiente, se não colocarmos simultaneamente a questão de uma outra relação possível entre marxismo e história <strong>[1]</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158699" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/0829a8a9-e2e8-48cf-8933-0a20a5095c07_570.jpeg" alt="" width="409" height="570" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/0829a8a9-e2e8-48cf-8933-0a20a5095c07_570.jpeg 409w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/0829a8a9-e2e8-48cf-8933-0a20a5095c07_570-215x300.jpeg 215w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/0829a8a9-e2e8-48cf-8933-0a20a5095c07_570-301x420.jpeg 301w" sizes="auto, (max-width: 409px) 100vw, 409px" />É a partir desse ponto que esta segunda parte se inicia. Não para oferecer um modelo alternativo acabado, nem para propor uma nova ortodoxia em substituição às antigas, e sim para desenvolver um contraponto: como pensar um coletivo capaz de se deixar afetar pela história sem, com isso, dissolver-se? Que tipo de rigor teórico é compatível com a contingência dos processos sociais reais? E que formas de organização política podem sustentar uma crítica radical sem transformar a teoria em abrigo contra o mundo?</p>
<p style="text-align: justify;">Se antes a ênfase recaía sobre os mecanismos de autopreservação simbólica e fechamento teórico, agora trata-se de recolocar em cena a possibilidade de um coletivo assentado em um marxismo crítico-revolucionário que aceite o risco histórico como condição de existência, e não como ameaça a ser neutralizada.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse tipo de marxismo começa por renunciar à fantasia de exterioridade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele não se coloca acima dos processos históricos, julgando-os a partir de um ponto supostamente privilegiado, mas reconhece que está implicado neles, atravessado pelas mesmas contradições que busca compreender. Isso implica aceitar que não há posição pura, nem garantia prévia de acerto. A teoria deixa de ser tribunal e passa a ser mediação: um esforço sempre incompleto de inteligibilidade, que só ganha densidade ao se confrontar com práticas reais, ainda que imperfeitas, ambíguas ou politicamente incômodas; sejam elas do passado ou do presente.</p>
<p style="text-align: justify;">Um marxismo assim também precisa redefinir sua relação com o erro. O erro deixa de ser falha moral ou sinal de desvio ideológico e passa a ser parte constitutiva do processo político. Errar não significa trair a teoria, mas “testar” seus limites enquanto expressão da realidade. Sem essa disposição, a prática se reduz à aplicação mecânica de esquemas já conhecidos, e a teoria perde sua capacidade de aprender com a história. A possibilidade de errar, nesse sentido, não enfraquece o marxismo; ao contrário, devolve-lhe vitalidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro ponto central diz respeito à divergência. Um marxismo que se deixa afetar pela história não pode tratar o dissenso como ameaça à coesão, mas como indicador de que algo real está em jogo. Divergências teóricas e estratégicas não são ruídos a serem eliminados, mas sintomas de conflitos objetivos que atravessam a luta de classes. Neutralizá-las em nome da clareza interna é, frequentemente, uma forma de negar esses conflitos em vez de enfrentá-los. Não se trata, portanto, de “dar o braço” ao “inimigo” nem de legitimar projetos políticos antagônicos, mas de aprender a elaborar politicamente a convivência entre coletivos e perspectivas divergentes que, apesar das diferenças, compartilham convergências estruturais no interior da luta de classes.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158694" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/tumblr_inline_o3d3fmO7UT1qcz59l_640.jpg" alt="" width="564" height="871" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/tumblr_inline_o3d3fmO7UT1qcz59l_640.jpg 564w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/tumblr_inline_o3d3fmO7UT1qcz59l_640-194x300.jpg 194w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/tumblr_inline_o3d3fmO7UT1qcz59l_640-272x420.jpg 272w" sizes="auto, (max-width: 564px) 100vw, 564px" />Esse deslocamento exige também uma relação menos fetichizada com os clássicos e com as linhagens teóricas. Marx, Engels e toda a tradição posterior deixam de funcionar como fonte de legitimação identitária e passam a ser lidos como interlocutores situados, que pensaram a partir de problemas concretos de seu tempo. Honrar essa tradição não é repeti-la corretamente, mas continuar o gesto que a constituiu: pensar a partir das contradições vivas do presente, mesmo quando isso implica tensionar categorias consagradas.</p>
<p style="text-align: justify;">No plano organizativo, esse marxismo precisa aceitar graus mais altos de indeterminação. Coletivos politicamente vivos tendem a ser menos coesos no plano simbólico e mais expostos a conflitos internos, justamente porque estão em contato com processos sociais heterogêneos. A coesão não pode ser garantida pela exclusão sistemática nem pela vigilância discursiva permanente, mas por algum tipo de aposta comum que se renova na prática e não apenas na linguagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso implica, inevitavelmente, redefinir o lugar da universidade. Em vez de negá-la retoricamente enquanto dela depende materialmente, trata-se de assumir suas contradições como parte do problema. A produção teórica pode se beneficiar do espaço universitário, mas não pode se confundir com ele nem se encerrar em seus critérios de validação. A teoria só se mantém viva quando circula para além dos espaços que a reconhecem automaticamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Há, ainda, uma dimensão subjetiva incontornável. Um marxismo que se deixa afetar pela história precisa tolerar frustrações, perdas e deslocamentos. Precisa abrir mão do conforto de estar sempre certo, do prazer de antecipar derrotas alheias e da segurança de habitar um ponto avançado da história. Isso não significa abdicar da crítica radical, mas aceitar que a crítica, para ser efetiva, precisa atravessar o próprio sujeito que critica.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, talvez o ponto decisivo seja este: a revolução, entendida como processo histórico real, não pode ser protegida da experiência. Uma teoria que nunca se expõe ao risco de ser desmentida preserva sua pureza, mas perde sua razão de existir. Um marxismo capaz de se deixar afetar pela história é aquele que aceita que o mundo não cabe inteiramente em suas categorias — e que é justamente desse excesso, dessa resistência do real, que pode surgir algo novo.</p>
<p style="text-align: justify;">Colocar esse contraponto não resolve o problema, mas recoloca a questão em outro patamar. Em vez de perguntar quem está certo, talvez seja mais produtivo perguntar que tipo de relação com a história estamos dispostos a sustentar. Porque, no limite, não é o marxismo que julga o mundo, mas o mundo que continuamente julga — e transforma — o marxismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Para fechar esse movimento, vale retomar explicitamente uma referência que ajuda a dar densidade histórica a esse contraponto: Karl Korsch. Não como autoridade a ser citada em busca de legitimação, mas como alguém que formulou, de maneira precoce e incisiva, o problema que atravessa todo o texto: a transformação do marxismo em doutrina separada da prática histórica que lhe deu origem.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158698" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/joaquin-torres-garcia-dos-figuras-con-estructura.jpg" alt="" width="506" height="470" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/joaquin-torres-garcia-dos-figuras-con-estructura.jpg 506w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/joaquin-torres-garcia-dos-figuras-con-estructura-300x279.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/joaquin-torres-garcia-dos-figuras-con-estructura-452x420.jpg 452w" sizes="auto, (max-width: 506px) 100vw, 506px" />Em Korsch, o marxismo só se mantém vivo enquanto teoria crítica da sociedade capitalista em ligação com a prática revolucionária. Quando essa ligação se rompe, a teoria não se torna neutra ou inofensiva; ela se converte em ideologia, ainda que preserve uma linguagem radical. O dogmatismo, para Korsch, não é simplesmente um erro intelectual, mas o sintoma de um deslocamento histórico: a teoria passa a sobreviver em condições nas quais a prática revolucionária foi bloqueada ou derrotada, e precisa então justificar sua própria permanência.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa leitura é particularmente importante porque evita duas saídas fáceis. De um lado, a idealização romântica da prática imediata, como se qualquer movimento real fosse automaticamente emancipatório. De outro, a sacralização da teoria como reserva de verdade à espera de um futuro indeterminado. O marxismo crítico-revolucionário que Korsch defende existe precisamente na tensão entre essas duas dimensões, sem resolver o conflito por decreto conceitual.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao insistir que o marxismo deve ser compreendido historicamente — inclusive em suas próprias categorias — Korsch antecipa a crítica à ideia de uma linhagem pura, contínua e sem fissuras. Para ele, não há marxismo fora das lutas concretas, nem teoria revolucionária que possa se colocar acima da história para julgá-la. Quando isso ocorre, o marxismo deixa de ser crítica da realidade existente e passa a funcionar como sistema fechado de interpretação, indiferente ao curso efetivo dos acontecimentos.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158695" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-9.jpg" alt="" width="600" height="401" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-9.jpg 600w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-9-300x201.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-9-537x360.jpg 537w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px" />Essa perspectiva ajuda a compreender por que o tipo de coletivo descrito ao longo do texto não é apenas politicamente ineficaz, mas teoricamente regressivo. Ao separar a teoria da experiência histórica real — especialmente quando esta é contraditória, ambígua ou decepcionante — ele repete exatamente o movimento que Korsch identifica como degeneração ideológica do marxismo. A fidelidade aos conceitos substitui a fidelidade ao movimento real da sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">O ponto decisivo em Korsch, e que dialoga diretamente com o argumento desenvolvido aqui, é que não existe marxismo revolucionário sem risco histórico. A teoria precisa se expor à possibilidade de se tornar inadequada, parcial ou insuficiente diante de novas configurações da luta de classes. Essa exposição não garante sucesso político, mas é a única forma de evitar que o marxismo se transforme em linguagem ritualizada, funcional apenas à coesão interna de pequenos círculos.</p>
<p style="text-align: justify;">Recuperar Korsch hoje não significa repetir suas posições nem ignorar os limites de seu contexto histórico. Significa retomar uma exigência metodológica e política fundamental: a recusa em separar crítica radical e historicidade concreta. Um marxismo não dogmático, nesse sentido, não é aquele que abdica de princípios, mas aquele que se recusa a transformá-los em abrigo contra a história.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez seja esse o fio que permite costurar toda a crítica anterior com uma saída possível. Não um novo modelo organizativo, nem uma síntese teórica definitiva, mas uma disposição: manter aberta a relação entre teoria e prática, aceitar a instabilidade como condição da crítica e reconhecer que a vitalidade do marxismo se afirma em sua capacidade de se transformar junto com o mundo que pretende transformar.</p>
<h4 style="text-align: justify;"><strong>Nota</strong></h4>
<p style="text-align: justify;"><strong>[1]</strong>: Ao longo do texto, “história” não é mobilizada como um conceito autônomo ou uma categoria teórica acabada. Na falta de um adjetivo melhor, ela funciona simplesmente como adjetivação de um fenômeno: a inscrição concreta, situada e contraditória dos processos sociais no tempo. Falar em história, aqui, é marcar que práticas, teorias e formas de organização existem sob condições determinadas, atravessadas por conflitos, deslocamentos e contingências que não podem ser antecipadas nem resolvidas por esquemas prévios. O termo não designa uma instância normativa ou um sentido imanente do processo social, mas a recusa de qualquer forma de abstração que pretenda se colocar a salvo do movimento real no qual essas práticas e teorias se produzem e se transformam.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são de obras de Joaquín Torres Garcia.</em></p>
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		<title>Breves notas sobre como salvar o marxismo da realidade (1)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Passa Palavra]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Feb 2026 13:24:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ideias & Debates]]></category>
		<category><![CDATA[Extrema_esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[Marxismo]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
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					<description><![CDATA[Enquanto o mundo social insiste em se mover de forma imperfeita, contraditória e indisciplinada, a seita permanece intacta, satisfeita e correta.  Por Gabriel Teles]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="text-align: justify;"><strong>Por Gabriel Teles</strong></h3>
<blockquote><p><strong>Nota:</strong> <em>Neste texto, não se trata de acusar coletivos específicos, muito menos de fazer ajustes de contas nominais. As situações descritas ao longo do texto são composições analíticas, construídas a partir de traços que se repetem com frequência suficiente para dispensar nomes próprios. Se alguém ou algum coletivo sentir que a descrição se encaixa com precisão excessiva, convém lembrar que a crítica não foi escrita sob encomenda. A carapuça circula, e não pede autorização antes de servir.</em></p>
<p><em>Quando a ironia aparece, ela não tem função ornamental. Serve para tensionar um pouco o tom de seriedade excessiva com que certos discursos se protegem de qualquer contestação. Afinal, nada indica vitalidade teórica com tanta clareza quanto a incapacidade de rir de si mesmo — especialmente quando essa incapacidade vem acompanhada de citações impecáveis.</em></p>
<p><em>Por fim, vale um esclarecimento final, talvez desnecessário: este ensaio não oferece soluções prontas, caminhos corretos ou garantias de sucesso. Ele se limita a apontar alguns problemas recorrentes e a sugerir que, antes de salvar o marxismo da realidade, talvez fosse o caso de verificar se não estamos apenas tentando salvar a nós mesmos do desconforto que ela provoca.</em></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Há coletivos políticos que desenvolveram uma forma muito peculiar de sobrevivência intelectual em tempos de refluxo histórico. Apresentam-se como guardiões de uma tradição revolucionária rigorosamente depurada, ao mesmo tempo em que organizam sua prática cotidiana em torno de um circuito fechado de textos, debates e intervenções que raramente ultrapassam os limites do próprio grupo. A chamada “luta cultural”, nesse contexto, adquire uma feição quase doméstica. Ela acontece em revistas lidas pelos mesmos autores que as escrevem, em eventos frequentados por quem já concorda previamente com as conclusões e em discussões internas cuja principal função é reafirmar pertencimentos.</p>
<p style="text-align: justify;">A coesão do grupo depende menos da relação com o mundo social do que da manutenção de uma fronteira simbólica rígida. O exterior aparece como ameaça difusa, povoada por marxistas imperfeitos, acadêmicos excessivamente contaminados, sujeitos teóricos ambíguos e politicamente limitados. A crítica, longe de operar como instrumento de esclarecimento, converte-se em mecanismo disciplinar. Nomear o desvio alheio torna-se uma forma de organizar o próprio campo interno, garantindo que cada um saiba exatamente onde pisa e o que pode ou não pensar.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-158661 size-full aligncenter" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1.jpg" alt="" width="1024" height="1024" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1.jpg 1024w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-300x300.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-70x70.jpg 70w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-768x768.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-420x420.jpg 420w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-640x640.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/1-681x681.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" />Essa fronteira simbólica, uma vez erguida, passa a funcionar como o verdadeiro eixo organizador do coletivo. O pertencimento deixa de ser resultado de uma prática política compartilhada e passa a depender da adesão irrestrita a um léxico específico, a um repertório conceitual rigidamente codificado e a um conjunto de operações discursivas reconhecíveis. A militância, nesse registro, já não se mede pela capacidade de intervir em processos sociais concretos (mesmo que em âmbito intelectual), mas pela habilidade de repetir corretamente as fórmulas consagradas. O erro mais grave deixa de ser político e passa a ser semântico.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse ambiente, a divergência perde qualquer estatuto produtivo. Discordar não é entendido como parte do trabalho teórico ou da elaboração coletiva, mas como sinal de insuficiência intelectual ou, em casos mais “graves”, de falha moral. A crítica interna, quando existe, é cuidadosamente controlada para não abalar o edifício conceitual já estabilizado. Tudo o que ameaça introduzir complexidade excessiva, mediação histórica ou ambivalência prática é rapidamente neutralizado. A clareza, entendida como ausência de tensão, converte-se em valor supremo.</p>
<p style="text-align: justify;">Com isso, o coletivo passa a operar segundo uma lógica de auto-observação permanente. Cada intervenção pública, cada texto, cada comentário é avaliado menos por seu impacto externo do que por sua conformidade interna. Fala-se olhando para os lados, atento às reações do próprio grupo, em um exercício constante de ajuste fino que garante reconhecimento e evita sanções simbólicas. O mundo social, com suas contradições e imprevisibilidades, torna-se um pano de fundo distante. O verdadeiro campo de batalha está dentro, na vigilância recíproca, na reafirmação cotidiana das fronteiras e na manutenção de uma coesão que se sustenta mais pela exclusão do que pela construção de algo comum.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa necessidade de pureza encontra sua expressão mais elaborada na invenção de uma linhagem marxista supostamente contínua, coerente e sem fissuras, que partiria de Marx e desembocaria, com surpreendente naturalidade, nas formulações contemporâneas do próprio coletivo. Trata-se de uma narrativa reconfortante, pois elimina o incômodo da disputa teórica, da contradição interna e dos impasses históricos que atravessaram o marxismo revolucionário desde sua origem. As grandes controvérsias, as rupturas políticas, os conflitos estratégicos e as divergências profundas que marcaram esse campo ao longo de décadas aparecem diluídas ou simplesmente apagadas, como se o marxismo tivesse caminhado serenamente em linha reta rumo à sua forma definitiva, agora finalmente alcançada.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa operação exige um esforço considerável de esquecimento seletivo. Afinal, reconhecer que o marxismo sempre foi um terreno de conflito teórico e político implicaria admitir que não existe uma posição exterior à disputa, um ponto arquimediano a partir do qual se possa julgar os outros com a tranquilidade de quem já chegou ao fim da história. Ao suprimir essas tensões, o coletivo preserva a imagem de uma tradição homogênea, da qual se apresenta como herdeiro legítimo e intérprete autorizado.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158660 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Joaquin_Torres_Garcia_-_Figuras_sobre_uma_estrutura_1930.jpg" alt="" width="736" height="915" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Joaquin_Torres_Garcia_-_Figuras_sobre_uma_estrutura_1930.jpg 736w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Joaquin_Torres_Garcia_-_Figuras_sobre_uma_estrutura_1930-241x300.jpg 241w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Joaquin_Torres_Garcia_-_Figuras_sobre_uma_estrutura_1930-338x420.jpg 338w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Joaquin_Torres_Garcia_-_Figuras_sobre_uma_estrutura_1930-640x796.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/Joaquin_Torres_Garcia_-_Figuras_sobre_uma_estrutura_1930-681x847.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 736px) 100vw, 736px" />O problema é que essa pureza teórica cobra seu preço. Os conceitos e categorias produzidas tendem a assumir um caráter marcadamente essencialista. Parte-se da convicção de que é possível atingir a essência dos fenômenos sociais de forma direta, rápida e definitiva. A essência, contudo, deixa de ser ponto de chegada de um movimento analítico que passa pelo concreto e retorna a ele enriquecido. Ela se transforma em ponto de partida, em chave explicativa total, aplicada sobre a realidade com notável indiferença às suas mediações, ambiguidades e contradições concretas.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado é uma teoria que se julga profunda, mas que frequentemente se choca com a falta de concretude. Os conceitos são puros, elegantes, internamente coerentes. O mundo social, por sua vez, insiste em ser confuso, contraditório, atravessado por práticas imperfeitas e processos históricos que não pedem licença a essa teoria para acontecer. Diante desse descompasso, a escolha costuma ser previsível.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse ponto entram em cena os epígonos dos grandes teóricos do coletivo. Com devoção quase religiosa, dedicam-se a aplicar os esquemas conceituais herdados sobre situações concretas, como quem encaixa peças previamente moldadas. O procedimento lembra menos uma análise dialética do que um exercício classificatório de inspiração positivista. A realidade é observada apenas na medida em que confirma os conceitos. Quando resiste, é descartada. A teoria permanece intacta, protegida de qualquer contaminação pelo real.</p>
<p style="text-align: justify;">Politicamente, quando esses mesmos sujeitos ensaiam alguma iniciativa de ação, seja no local de trabalho, seja na relação com outros trabalhadores, o movimento costuma morrer no nascedouro. A pureza conceitual funciona como freio de emergência. Nada pode ser feito porque nada jamais estará à altura do modelo ideal. Qualquer iniciativa concreta é imediatamente rebaixada a obreirismo, praticismo ou ingenuidade política. A experiência viva das lutas é tratada como contaminação. O erro, como crime teórico.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto isso, outros coletivos, parte do próprio bloco revolucionário, arriscam-se no terreno instável da prática, tentam, falham, recuam, recomeçam. É nesse momento que os guardiões da pureza entram em cena. Não para construir, mas para julgar. Observam à distância, braços cruzados, prontos para converter cada derrota, inevitável em qualquer processo real, em prova definitiva de que tinham razão desde o início. A crítica, assim, torna-se confortável, asséptica e moralmente superior. Nunca se compromete, nunca se expõe e, sobretudo, nunca precisa responder pelas consequências de sua própria impotência política.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-158664 size-full" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/show-photo_3_f31d1c6a-eda2-462d-8473-a6fa306f0c93.jpg" alt="" width="400" height="600" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/show-photo_3_f31d1c6a-eda2-462d-8473-a6fa306f0c93.jpg 400w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/show-photo_3_f31d1c6a-eda2-462d-8473-a6fa306f0c93-200x300.jpg 200w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/show-photo_3_f31d1c6a-eda2-462d-8473-a6fa306f0c93-280x420.jpg 280w" sizes="auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px" />Essa forma de pensar e agir se articula de maneira curiosamente harmoniosa com a relação do coletivo com a universidade. Embora o discurso assuma um tom ruidosamente antiacadêmico, o vínculo institucional é estrutural e incontornável. Não se trata de uma tática consciente de disputa dos espaços de trabalho e estudo, nem de uma estratégia de intervenção crítica “a partir de dentro”. O que está em jogo é dependência. É na universidade que se concentra o tempo social protegido para a elaboração de teorias totalizantes, o reconhecimento simbólico que sustenta hierarquias internas e os dispositivos formais de legitimação que asseguram a circulação do discurso. A crítica à universidade, nesse contexto, opera como retórica de distinção, não como prática de enfrentamento. Ela consolida uma identidade sem jamais ameaçar as bases materiais de sua própria reprodução.</p>
<p style="text-align: justify;">Em alguns casos, essa contradição torna-se ainda mais explícita. Há quem vocifere contra a universidade enquanto constrói toda a sua trajetória no interior dela. Bolsas, projetos financiados, orientações de mestrado e doutorado oferecidas por membros do próprio coletivo já estabilizados institucionalmente compõem o percurso. Forma-se, assim, um circuito fechado, um verdadeiro trampolim acadêmico, no qual o anti-academicismo não expressa conflito, mas funcionalidade. Não se trata de ocupar o espaço para tensioná-lo, nem de extrair recursos para devolvê-los à luta social. Trata-se de converter a negação discursiva da universidade em capital simbólico e trajetória profissional. A crítica, nesse ponto, perde qualquer sentido de risco ou ruptura e se transforma em rotina, em meio de vida, em gestão calculada da própria inserção acadêmica.</p>
<p style="text-align: justify;">A vida interna do coletivo completa esse quadro com um mecanismo disciplinar particularmente eficiente. Quem decide sair não simplesmente se afasta. É expurgado. A saída é reinterpretada como prova retrospectiva de falha moral, teórica ou política. Passa-se a falar mal do dissidente com método e insistência, não por ressentimento individual (se bem que também pode o ser), mas como estratégia coletiva de coesão. O ex-membro converte-se em exemplo negativo, em advertência silenciosa dirigida aos que permanecem. A mensagem é clara. Fora do grupo há confusão. Dentro dele, clareza e rigor.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso produz uma cena final que beira o cômico, na medida em que revela, sem disfarces, a posição histórica desse coletivo. Em um cenário real de intensificação da luta de classes, com trabalhadores organizando-se de forma contraditória, inventiva e historicamente situada, esse coletivo provavelmente se encontraria em posição de espera. Observando, avaliando, classificando. Talvez reconhecesse a existência do conflito, mas dificilmente o consideraria à altura do tipo ideal revolucionário cuidadosamente elaborado em seus textos. A história avançaria sem seguir o roteiro esperado, e isso seria, aos seus olhos, um erro grave.</p>
<p style="text-align: justify;">No fim, o que se apresenta como radicalidade extrema revela-se uma forma refinada de autopreservação simbólica. O marxismo vira adereço, a política se estetiza, a revolução se adia indefinidamente. E o coletivo, protegido em sua fortaleza discursiva, segue convencido de que está à frente do tempo… mesmo quando já ficou, há muito, falando sozinho.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse isolamento progressivo costuma ser interpretado internamente como prova de coerência histórica. O fato de quase ninguém escutar, dialogar ou responder é convertido em sinal de que a crítica é dura demais, verdadeira demais, radical demais para um mundo supostamente incapaz de compreendê-la. O fracasso em comunicar deixa de ser um problema político e passa a ser apresentado como virtude ética. Quanto menor o público, maior a convicção de que se está certo. A marginalidade, longe de gerar inquietação, reforça a sensação de eleição.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o tempo, essa postura produz uma relação curiosa com a própria história. O coletivo passa a se imaginar sempre adiantado, sempre à frente de processos que ainda não se realizaram e que, quando finalmente se realizam, já não correspondem ao modelo ideal cuidadosamente elaborado. O presente aparece apenas como atraso. O passado, como erro. O futuro, como promessa eternamente adiada. A política real, situada no tempo histórico concreto, torna-se um inconveniente permanente, pois insiste em se mover sem obedecer às expectativas teóricas previamente fixadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse deslocamento tem efeitos subjetivos claros. A militância se transforma em vigilância, o engajamento em observação crítica à distância, a intervenção em comentário permanente. O esforço de transformação cede lugar ao conforto da análise correta. A satisfação não vem de alterar relações sociais, mas de reconhecer, antes dos outros, por que elas não poderiam ter sido alteradas daquela maneira. A derrota alheia confirma a inteligência própria. O erro do mundo reafirma a superioridade da sua teoria.</p>
<p style="text-align: justify;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-158663" src="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/DESTAQUE-14.jpg" alt="" width="900" height="700" srcset="https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/DESTAQUE-14.jpg 900w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/DESTAQUE-14-300x233.jpg 300w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/DESTAQUE-14-768x597.jpg 768w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/DESTAQUE-14-540x420.jpg 540w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/DESTAQUE-14-640x498.jpg 640w, https://passapalavra.info/wp-content/uploads/2026/02/DESTAQUE-14-681x530.jpg 681w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px" />Ao final, resta um coletivo que se conserva com zelo, mesmo quando tudo ao redor se move. A radicalidade, esvaziada de risco, converte-se em postura. A crítica, privada de mediação, transforma-se em ornamento. A revolução permanece intacta justamente porque nunca é testada. Convencido de habitar um ponto avançado da história, o grupo passa a falar sobretudo consigo mesmo, enquanto o tempo social avança por outros caminhos, carregando contradições, improvisações e conflitos que jamais caberão em suas categorias puras, ainda que sigam acontecendo, com ou sem sua autorização teórica.</p>
<p style="text-align: justify;">Nada disso, contudo, tem a ver com coerência política, firmeza de convicções ou recusa do ecletismo oportunista. Ser consequente é outra coisa. O que se descreve aqui não é rigor, mas fechamento. Não é radicalidade, mas imunização. Não é crítica intransigente, mas autopreservação doutrinária. O nome disso é mais simples e menos nobre: sectarismo. Um sectarismo estéril, que confunde isolamento com profundidade e pretensa pureza teórica com superioridade histórica. Uma seita, no sentido estrito do termo, organizada menos para intervir no mundo do que para confirmar continuamente a si mesma. Seus rituais são previsíveis, suas fronteiras bem policiadas, suas verdades imunes à experiência. Tudo o que vem de fora é erro. Tudo o que “dá errado” do lado de fora é prova.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, enquanto o mundo social insiste em se mover de forma imperfeita, contraditória e indisciplinada, a seita permanece intacta, satisfeita e correta. Não transforma nada, não se arrisca a nada, mas conserva com zelo aquilo que mais importa: a certeza de estar certa. Afinal, poucas coisas são tão reconfortantes quanto uma revolução que nunca acontece, uma prática que nunca começa e uma teoria que, justamente por isso, jamais pode falhar.</p>
<blockquote><p>Leia, <a href="https://passapalavra.info/2026/02/158693/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>,  a segunda parte do artigo.</p></blockquote>
<p><em>As imagens que ilustram o artigo são de obras de Joaquín Torres Garcia.</em></p>
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